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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Era Uma Vez/Once Upon a Time - Sexta temporada #2

Segunda parte da minha análise a Once Upon a Time. Podem ler a primeira parte aqui. Hoje, queria começar por falar dos enredos mais secundários nesta temporada.

 

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Um deles disse respeito à morte do pai de David, quando este era pequeno. Descobre-se que, em vez de ter sido uma morte acidental, o pai, Robert, morreu tentando recuperar James, o irmão gémeo de David, que fora levado por Rumplestilskin para ser adotado pelo rei George.

 

De início, pensa-se que Robert fora assasinado pelos guardas do rei. Mas, no fim, descobrimos que quem desferiu o golpe fatal foi... Hook.

 

Esta história é interessante, mas teria sido perfeita se tivesse sido integrada no arco do Submundo, da temporada anterior. Podiam manter os mesmos flashbacks. No presente, David reencontrava o pai e o irmão no Submundo. Haveria uma dose saudável de drama e conflito, motivados por traumas de abandono e, no fim do episódio, Robert e James seguiriam para a luz.

 

Sempre era uma maneira de dar mais profundidade a James, que sempre foi muito unidimensional – além de que a sua história no Submundo foi uma seca, conforme referi na altura.

 

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Podiam, também, manter Hook como o verdadeiro assassino de Robert. Juntando isso às coisas que este fizera enquanto Dark One, podíamos ter uns quantos episódios com o pirata sentindo-se culpado, indigno de ser salvo.

 

Da forma como fizeram, o envolvimento de Hook e consequente espiral de culpa, que demorou vários episódios a ser resolvida, não fez sentido nenhum. Depois de Zeus ter considerado Hook digno de ser ressuscitado, que mais redenção é necessária?

 

É óbvio que esta história só foi incluída para que houvesse algum drama entre Emma e Hook antes de estes se casarem.

 

Regressando à Maldição do Sono, a sua quebra tardou mas foi bem feita, na minha opinião. No episódio em que ocorre, descobrimos que, dez anos após o início da primeira Maldição, Snow e David recuperaram as memórias durante algumas horas. Tiveram a oportunidade de ir ter com Emma (uma criança, na altura), mas escolheram não fazê-lo. Se o tivessem feito, a Maldição podia nunca ter sido quebrada e os habitantes de Storybrooke nunca seriam libertados (bem, tecnicamente seriam sempre libertados quando Emma morresse, mas não sei se Snow e David sabiam desse pormenor).

 

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Gostei que, ao fim de quase seis anos de série, tivessem abordado uma questão, até ao momento, mal resolvida. Snow podia dizer tanto quanto quisesse que abandonara Emma “para lhe dar a sua melhor hipótese” (a tradução não soa tão bem como o original “give you your best chance”), mas a verdade é que ela sacrificou a felicidade da filha para salvar outras pessoas. Não que fosse líquido que Emma estivesse melhor amaldiçoada, mas ao menos estaria junto da mãe.

 

Fez, assim, sentido que, no presente, Snow tenha escolhido trocar a cura para a Maldição do Sono pela possibilidade de Emma resgatar Hook – que estava preso na Terra do Nunca. E que, no fim, a Maldição do Sono tenha sido quebrada com a ajuda dos outros habitantes de Storybrooke.

 

Com Hook de regresso e os Charmings livres da Maldição, a série pôde finalmente avançar para o casório de Emma e Hook – que decorreu no muito antecipado episódio musical. Muitos fãs aguardavam-no ansiosamente, alguns deles há anos, e, na minha opinião, a série não desiludiu. As músicas originais (com uma única exceção) são perfeitas para as personagens que as cantam e… são giríssimas. Têm sido regulares nas minhas playlists desde a exibição do episódio – e, tirando quando era pequena, nunca fui do género de ouvir músicas da Disney no meu Mp3 (a única exceção é Let it Go).

 

Once Upon a Time deixa, assim, de ser uma das minha poucas paixonetas (daquelas sobre as quais escrevo) que não tem uma componente musical. Não vou, por isso, deixar de falar sobre estas canções.

 

  

Eu não fazia ideia que o elenco de Once Upon a Time tinha vozes como estas. Penso que alguns deles, como Josh Dallas e Jennifer Morrison, já tinham participado em musicais e Colin O’Donoghue tem uma banda. Os actores também deram a entender que tiveram treinadores vocais, que os ajudaram a encontrar o tom adequado para cada um.

 

Se este foi o resultado… será que me podem ensinar também?

 

O motivo para toda a gente ter começado a cantar foi um desejo que Snow pediu, quando estava grávida de Emma e à espera da Maldição: algo que garantisse que a filha teria o seu final feliz. Vemos os primeiros resultados em Powerful Magic, o dueto entre Snow e David.

 

Esta é a música mais Disney de todas. Tanto Ginnifer Goodwin como Josh Dallas dão espetáculo. Têm vozes lindas, sobretudo Josh (a sua entrada é hilariante, a propósito), e parecem, mais do que nunca, saídos de um filme da Disney – chega a ser caricato. Powerful Magic em si personifica lindamente o casal: alegre, esperançosa e saudavelmente lamechas.

 

  

As músicas de Regina, The Queen Sings e, sobretudo, Love Doesn’t Stand a Chance, por sua vez, são cantadas em tom grave. A segunda, aliás, é conduzida por acordes de guitarra e notas de piano, e Lana Parrilla canta e dança, personificando a Evil Queen em toda a sua glória.

 

Da mesma maneira, o tema de Hook, Revenge is Gonna Be Mine, mistura rock com elementos que recordam a banda sonora dos Piratas das Caraíbas. Colin O’Donoghue, aliás, domina a atuação sem esforço, com o carisma que todos lhe reconhecem.

 

O tema de Zelena, por sua vez, deixou-me dividida. Rebecca Mader tem uma voz fabulosa – o meu queixo caiu quando ela começou a cantar. E a música é linda, não o nego. O meu problema é que a melodia é demasiado… luminosa para uma música de vilã – lembrar que, na altura dos flashbacks, Zelena ainda não fazia parte dos heróis.

 

Suponho que esse seja um problema semelhante ao que os criadores de Frozen tiveram, no início da conceção do filme. A ideia inicial era fazer de Elsa uma vilã mas, quando compuseram Let it Go, a música revelou-se demasiado positiva e inspiradora para ser vilanesca.

 

  

Os criadores de Frozen puderam reescrever o filme para que se adequasse à canção. Os guionistas de Once Upon a Time não iam fazer o mesmo, por motivos óbvios. Mas também não eram necessárias muitas alterações à música para que esta se adequasse melhor a Zelena.

 

Snow e David pensam que a música seria uma boa arma contra Regina e, assim, vão confrontá-la. Este confronto musical entre os Charmings e a Evil Queen fazia sentido em teoria mas, na prática, ficou esquisito. Não sei se era essa a intenção dos guionistas, se era suposto ser ridículo. Mas não seria a primeira vez que Once Upon a Time levava uma boa ideia longe de mais, acabando por estragá-la um pouco.

 

O confronto acaba por não dar em nada, para desilusão de Snow e David. A Fada Azul, no entanto, diz-lhes que o objetivo da música não era esse – antes, esta viveria dentro de Emma e, um dia, dar-lhe ia forças para a Batalha Final.

 

  

Esse dia é o da boda dela e de Hook – o mesmo dia em que a Fada Negra lançará uma Maldição sobre Storybrooke. É durante o confronto com essa vilã que a música surge de dentro de Emma. Esta canção foi composto a partir do tema principal da série – um tema que esteve sempre lá desde o início de Once Upon a Time, o que era consistente com a ideia de que esteve sempre no coração da protagonista. A voz de Jennifer Morrison não é tão consistente como a dos outros membros do elenco, mas também acho que esta canção é mais difícil de cantar que as restantes.

 

Não deixa de ser uma bela música, que começa melancólica, mas que rapidamente ganha um carácter épico – muito graças à secção de metais.

 

Por fim, temos A Happy Beginning – a canção de casamento de Emma e Hook (e estou a pensar seriamente incluí-la no meu). Acaba por ser a típica canção final num musical: alegre, vitoriosa, com o elenco todo a dançar e a cantar. Uma canção de final feliz.

 

 

Isto é, antes de o sino tocar e a Maldição ser ativada.

 

Esta é a terceira vez na série que o episódio duplo de final de temporada se centra numa qualquer variante à realidade/cronologia habitual. Desta feita, temos a Batalha Final, que consiste numa Maldição em moldes semelhantes à da primeira temporada. Ou melhor, vemos o que poderia ter acontecido se essa primeira Maldição não tivesse sido quebrada. As únicas diferenças são que Fiona é a Presidente e mãe adotiva de Henry, em vez de Regina, e que a família direta de Emma, tirando Henry, é banida para a Floresta Encantada. Emma encontra-se internada num hospício por ter acreditado nas histórias de Henry.

 

Henry é o único em Storybrooke que manteve as suas recordações… por algum motivo. O miúdo é imune a estas coisas, ao que parece – provavelmente por causa daquela história do “coração do maior crente”. A missão de Henry é, mais uma vez, fazer a mãe acreditar em magia e nas histórias do seu livro.

 

Até porque, à medida que Emma vai deixando de acreditar, os diferentes mundos dos contos de fadas, onde os Charmings e os outros estão presos, vão sendo destruídos.

 

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Não que as personagens tenham ficado de braços cruzados, enquanto o mundo se desfazia literalmente em pó à volta deles. Pelo contrário, Hook e David trepam um pé de feijão (não sei se é o mesmo onde Emma e Hook se conheceram mas, pelo menos, é muito parecido) à procura de um feijão mágico que os leve de volta a Storybrooke.

 

Esta pequena aventura sempre rendeu alguns bons momentos de interação entre sogro e genro (David e Hook sempre tiveram boa química), alguns momentos parvos (David caiu do pé de feijão e recuperou dos eventuais ferimentos com o Beijo do Verdadeiro Amor… #fucklogic) mas, no fim, acabou por não resolver nada.

 

Entretanto, em Storybrooke, todas as tentativas de Henry para fazer a mãe acreditar falham. Fiona convence mesmo Emma a queimar o livro de histórias e a regressar a Boston.

 

Quando chega, no entanto, Emma descobre na sua mala um caderno onde Henry escreveu a história dela: a história de uma mulher solitária, um patinho feio, que encontrou a sua família, o seu lugar, que se transformou num cisne, numa heroína. Assim, Emma decide regressar. Não porque se recorde da história contada por Henry, mas porque quer ser a pessoa que o filho acredita que seja.

 

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Adorei esse pormenor – foi uma das minhas partes preferidas deste final de temporada. À primeira vista, parecia que esta Maldição fizera Emma regredir à sua personalidade na primeira temporada. Mas não era verdade. Se bem se recordam, nos últimos episódios desse ano, quando Emma teve as primeiras indicações de que as histórias de Henry poderiam ser verdade, que ela nascera para ser a Salvadora, ela entrou em pânico e tentou fugir de Storybrooke. Desta feita, ao descobrir que Henry a via como a Salvadora, Emma não fugiu – pelo contrário, abraçou esse papel.

 

Só mostra que, lá porque Emma perdera as memórias das últimas cinco temporadas da série, não perdera a sua transformação em heroína.

 

Mas não foi ela a quebrar esta Maldição. Foi Rumple. Este passara a meia temporada igual a si próprio, com um pé na Luz e outro na Escuridão, sem que saibamos ao certo a qual dos lados ele é leal. Nos últimos episódios da temporada, antes da Maldição, Fiona tinha, aparentemente, conseguido seduzir o filho para o seu lado.

 

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Contudo, cometeu um erro de amadora: separar Belle de Rumple. Qualquer um podia ter-lhe dito que Rumple nunca abriria mão da esposa sem protesto – para o melhor e para o pior, como víramos na primeira metade da temporada. Acabou por ser essa a ruína de Fiona – depois de o filho ter visto o estado em que Belle se encontrava, sob o efeito da Maldição, Rumple vira-se contra ela. Fiona morre às mãos do próprio filho, tal como já acontecera com o marido.

 

Fiona continuava, no entanto, na posse do coração de Gideon. Ao descobrir que Emma regressara de Boston, ordenara ao neto que matasse a Salvadora. A morte dela não anulava a ordem – apesar de isso ir contra o que a série estabelecera antes (mais uma vez, #fucklogic). Assim, poucos segundos após a Maldição ser quebrada e Emma recuperar as memórias, começa o muito antecipado confronto entre a Salvadora e Gideon.

 

O Dark One vai à procura do coração do filho para travá-lo. Rumple sendo Rumple tem um último momento de hesitação, contemplando a hipótese de deixar a Salvadora morrer – consta que isso eliminaria várias das limitações da magia… mais alguma vez, por algum motivo. Supostamente, Rumple ficaria capaz de obrigar Belle e Gideon a amá-lo, sem ter de abdicar do seu lado negro.

 

Depois de tantas ocasiões em que Rumple fez a escolha errada, algum dia este teria de fazer a escolha certa. Por outro lado, toda esta confusão só começara porque ele tentara usar magia para ter o filho e a esposa junto de si – e Gideon fora quem mais sofrera com isso. Porque haveria Rumple de ir por essa via outra vez?

 

  

Assim, ignorando os conselhos da mãe e da própria essência do Dark One, Rumple ordena a Gideon, através do coração do filho, que não mate Emma.

 

Ao mesmo tempo, Emma e Gideon duelam-se nas ruas de Storybrooke. Emma, a certa altura, percebe que está a lidar com uma espada de dois gumes. Se ela morrer, a Luz perde, obviamente. Mas se ela matar Gideon, comete um acto maligno, ou seja, a Escuridão vence.

 

Desse modo, a meio do duelo, Emma atira a espada para o lado.

 

Pelos visto, o facto de tanto o maior representante da Luz – a Salvadora – como o maior representante da Escuridão – o Dark One – terem tomado as decisões corretas foi o suficiente para o dia ser salvo. Emma morre mas regressa à vida depois de Henry lhe dar o Beijo do Verdadeiro Amor. Por sua vez, Gideon transforma-se num bebé, de novo, como se nunca tivesse sido levado pela Fada Negra – acho que todos concordamos que este era o único final feliz possível para ele.

 

 

Temos, aliás, tempo para ver os finais felizes (ou melhor, “começos felizes”) de toda a gente. Snow continua a ser professora, David torna-se dono-de-casa, Emma e Hook continuam a ser os xerifes de Storybrook – até aqui, tudo bem.

 

Regina continua a ser Presidente e a dividir a custódia de Henry com Emma. Fico satisfeita por os guionistas não terem sentido a necessidade de emparelharem nem Regina, nem Zelena, com um homem (a propósito, que ficou Zelena a fazer, para além de criar a filha?). É certo que Regina ainda regressa na próxima temporada. Mesmo assim, é bom vermos duas mulheres solteiras e felizes em televisão.

 

Por outro lado, Rumple e Belle voltam a ser um casal. Tenho algumas reservas em relação a isto. Não sei se Rumple merecida ser perdoado de tudo tão depressa. Sim, ele tomou a decisão certa no fim, salvando toda a gente – mas isto foi depois de séculos e séculos de decisões erradas, algumas das quais amplamente comentadas na primeira parte deste texto.

 

Não que eu não quisesse que Rumple e Belle tivessem feito as pazes, pelo contrário. Gosto de pensar, apenas, que Belle não caiu logo nos braços de Rumple, que a reconciliação foi gradual.

 

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A cena final, com o elenco todo na mesma mesa, foi outro dos meus momentos preferidos. Há anos, na segunda temporada, quando o facto de Rumple ser avô de Henry era apenas a ponta do icebergue, David comentou (numa tradução livre):

 

- Ainda bem que não há Dia de Ação de Graças na nossa terra, que esse jantar seria horrível.

 

Pois bem, mostrarem precisamente esse jantar não sendo horrível foi a maneira perfeita de encerrarem esta parte da história.

 

Eu dispensava a comparação com a Última Ceia, no entanto. A série nunca soube ser subtil.

 

 

O episódio, no entanto, não termina aqui. Antes disso, saltamos no tempo (Quinze anos? Vinte?) e vemos Henry em adulto. Este é visitado por uma menina chamada Lucy, que diz ser sua filha e que vem buscá-lo para que ajude a sua família – recorda-vos alguma coisa?

 

Este ano de Once Upon a Time deixou muito, mas mesmo muito a desejar. No entanto, tal como já aconteceu antes, o final bem conseguido ajuda a redimir, tanto a temporada como a própria série. Pelo menos em parte.

 

E talvez este reinício/salto no tempo ajude a disfarçar o desgaste. Não quero falar muito sobre a sétima temporada, até porque este texto já vai longo – mais longo do que tinha previsto. Recordo apenas que Rumple, Regina e Hook regressam, com novas identidades nesta nova Maldição. É uma premissa interessante – mas quero ver como irão justificar as ausências de Emma, dos Charmings e de todos os outros que saíram.

 

Estou disposta, assim, a dar o benefício da dúvida a OUaT – embora vá ter saudades de Emma e das suas interações com Henry, Regina e Hook. Não sei, no entanto, se voltarei a escrever sobre esta série. Na altura decidirei.

 

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Antes de terminarmos, quero falar sobre os meus planos para este blogue. Falta pouco mais de uma semana para a estreia do quinto filme de Digimon Adventure Tri, Kyousei. Como tal, uma das próximas publicações será a análise a esse filme. Desta vez, vou tentar não me demorar tanto, que o meu atraso com Soshitsu foi uma vergonha.

 

Não vai ser fácil porque o filme estreia mesmo antes da próxima jornada da Seleção – ou seja, durante as primeiras duas semanas depois de Kyousei terei de dar prioridade ao meu outro blogue.

 

Depois de tratar de Tri, quero continuar a minha rubrica Pokémon através das gerações”. Já cheguei ao fim de Pokémon Sun (quase dez meses após o seu lançamento…) e quero, um dia destes, escrever sobre esse jogo.

 

No entanto, ainda me faltam três textos até chegar a Sun&Moon: um sobre a quinta geração, um sobre a sexta e um sobre Pokémon Go. Pelo meio, dia 17 de novembro saem mais dois jogos da sétima geração: Ultra Sun e Ultra Moon. Como duvido que consiga despachar estre três textos que me faltam (ah ah, terei sorte se conseguir despachar um), em princípio falarei sobre todos os jogos da sétima geração no mesmo texto.

 

Ainda tenho outro texto nos meus planos: uma coisa curtinha. Já comecei a escrevê-lo e tudo. Talvez consiga terminá-lo e publicá-lo nestes dias que faltam até Kyousei mas, se não conseguir, não há crise. Tentarei terminá-lo nos intervalos dos outros textos.

 

Não levem estes planos muito a sério, no entanto. Posso não conseguir cumpri-los à risca. Vou tentar, mas não posso prometer nada. Em todo o caso, obrigada pela vossa paciência.

 

 

Era Uma Vez/Once Upon a Time - Sexta temporada #1

Tenho uma confissão a fazer: não tinha muita vontade de escrever este texto. Filo-o quase por obrigação: porque escrevo sobre Once Upon a Time pelo menos uma ou duas vezes por ano desde os primeiros meses deste blogue. Se não tivesse nada a dizer, ainda punha a hipótese de não escrever. Mas não era o caso, logo, aqui estou. 

 

Pelos vistos, tinha muito a dizer, pois este texto ficou bem mais comprido do que estava à espera. Tão comprido que tive de dividi-lo em duas partes – publicarei a segunda amanhã.

 

Alerta Spoiler: este texto contém revelações sobre o enredo, pelo que só é aconselhável lê-lo caso tenha visto todos os episódios da sexta temporada de Era Uma Vez/Once Upon a Time, até para a própria compreensão desta entrada.

 

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A verdade é que uma boa parte deste desinteresse deve-se a uma sexta temporada muito irregular. Claros sinais de desgaste, reutilização de ideias já antes exploradas até à exaustão, a ausência de uma linha narrativa coerente, enredos enfiados a martelo, entre outras falhas. Como tal, passei este ano quase todo meio esperando, meio desejando que a série fosse cancelada – sobretudo quando se descobriu que Jennifer Morrison, Ginnifer Goodwin, Josh Dallas, Rebecca Mader e Emilie de Ravin (que fazem, respetivamente, de Emma, Snow, David, Zelena e Belle) não renovaram o contrato. De início, fiquei chateada com a notícia de uma sétima temporada – agora que sabemos que a série dará um salto no tempo e sofrerá uma espécie de Reinício (tenho um certo trauma com esta palavra…), não estou tanto.

 

Mas já lá vamos.

 

O primeiro episódio deixou-me logo com poucas esperanças para o resto da temporada – por causa da história envolvendo a protagonista, Emma. Depois de, na época anterior, se ter tornado no Dark One, ter visto o amante morrer e ter ido resgatá-lo ao mundo dos mortos, Emma descobria agora que estava prestes a morrer, às mãos de uma figura encapuçada. Porque, ao que parecia, era esse o destino de todos os Salvadores.

 

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Durante cinco temporadas – em particular, durante a segunda metade da quarta – OUaT martelou-nos com o dogma “Vilões não têm finais felizes”. Agora diziam que os Salvadores – o supra-sumo dos heróis – também não os têm? Em que é que ficamos?

 

Chamo a isto Síndrome Meredith Grey: aquilo que acontece quando uma série já dura há muito tempo e os guionistas não sabem o que fazer com o protagonista. Assim, vão atirando desgraças para cima dele(a), até já não fazer sentido ou não ser de todo realista.

 

Apesar de não ter gostado muito da premissa inicial, a execução até foi boa, tirando um pormenor ou outro, conforme veremos adiante.

 

Os episódios que se seguiram ao primeiro foram bem melhores. Tal como tinha referido no ano passado, o conceito das Histórias Por Contar era interessante – os episódios que exploraram esse conceito corresponderam a essas expetativas. O problema é que… essa linha narrativa só durou seis episódios – e estou a incluir a história de Aladdin e Jasmine.

 

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Este arco terminou tão depressa porque as duas personagens centrais – Dr. Jekyll e Mr. Hyde – morreram logo no sexto episódio. Por sinal, a história deles foi a minha preferida das Histórias Por Contar. Por um lado, por apresentar o twist de Jekyll ser o verdadeiro vilão; por outro, por desconstruir o irritante princípio de que as mulheres preferem os homens maus.

 

Mas isso daria azo a um texto à parte.

 

Depois da morte de Hyde, pensou-se que Jafar tomaria o seu lugar como vilão. Isto porque a história de Aladdin e Jasmine fora uma das mais promovidas antes do início da temporada. No entanto – de uma forma muito típica em OUaT, diga-se de passagem  – a execução não correspondeu ao hype. Aladdin e Jasmine só foram centrais em dois episódios. Numa mão-cheia de outros, foram apenas secundários. Jafar, esse, tirando uns quantos flashbacks, só apareceu durante uns dez minutos. Os paralelismos entre Emma e Aladdin até tiveram o seu interesse. Tirando isso, esta parte da história não me aqueceu nem arrefeceu.

 

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A Evil Queen foi a primeira vilã da primeira meia temporada, mas não fui grande fã. Para além de ter sido uma repetição da Regina das primeiras temporadas, sobretudo nos flashbacks, a partir de certa altura tornou-se demasiado poderosa, demasiado invulnerável. Teve de vir outro vilão – falaremos sobre ele mais à frente – para a travar, ainda que durante apenas alguns episódios.

 

Uma coisa de que ninguém – ninguém, nem mesmo as próprias personagens – gostou foi do envolvimento entre a Evil Queen e Rumple. Não nego que sempre existiu alguma tensão sexual, sobretudo nos flashbacks – mas também, o sex appeal sempre foi uma parte significativa do modo Evil Queen de Regina. Ela agia assim com praticamente todos os homens com quem se cruzava, David e Hook incluídos. A sua interação com Rumple não era assim tão diferente das demais. Passar das insinuações à prática foi uma péssima ideia.

 

Já que falamos em Rumple, este atingiu o seu ponto mais baixo nesta meia temporada. Se já na época anterior tinha notado contornos de relação abusiva no seu casamento com Belle, estes, agora, foram inconfundíveis. Prendeu Belle no Jolly Roger e, mais tarde, colocou-lhe a versão mágica de um localizador, dizendo que a ama e ao filho por nascer para se justificar; ameaça-lhe acelerar-lhe a gravidez e tirar-lhe o filho à força.

 

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É, na verdade, o que acaba por acontecer, embora seja obra da Evil Queen e não de Rumple (não que Belle o saiba). A recente mãe acaba por decidir entregar o filho (a quem dá o nome Gideon) à Fada Azul, para que o proteja do próprio pai.

 

Houve alguma controvérsia entre os fãs sobre se Belle tinha o direito de negar Gideon a Rumple. Alguns argumentam que Rumple nunca faria mal ao filho e talvez até tenham razão. Eu, no entanto, se estivesse no lugar de Belle, também não quereria um homem como Rumple – que não aceita rejeição, que recorre a atalhos para obrigar pessoas a amá-lo em vez que estabelecer relações genuínas, que tem um histórico bem conhecido de abandono de crianças – perto do meu filho. Fazendo comparações com o “mundo real”, a lei é ambígua, mas eu pessoalmente acho que um agressor nunca poderá ser um bom pai – quanto mais não seja pelos exemplos que dá aos filhos.

 

Um aparte só para comentar que nunca esperei ter de pesquisar sobre violência doméstica enquanto escrevia sobre uma série baseada em contos de fadas… Mas também é verdade que os contos de fadas tem origens bastante sombrias.

 

Ainda que a decisão de Belle seja compreensível, entregar Gideon à Fada Azul acabou por ser pior a emenda que o soneto… mas já aí vamos.

 

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Regressando à Evil Queen, a sua maior façanha de longe enquanto vilã foi a maldição que lançou a Snow e David: uma variante da Maldição do Sono em que, quando um está acordado, o outro está inconsciente.

 

É certo que existem uma série de incoerências nisto. Supostamente, ambos seriam já imunes a este tipo de maldições. Na segunda temporada, a Maldição do Sono implicava sonharem com um quarto em chamas – nesta, contudo, as vítimas mergulham num sono normal.

 

Nesta altura do campeonato é mesmo escusado esperar consistência em Once Upon a Time.

 

De início até foi interessante – e devo dizer que já era altura de a série explorar as consequências de Snow e David partilharem um coração. No entanto, foi um arco narrativo que se prolongou demasiado tempo – e não se percebe, por exemplo, por que motivo Emma não tentou dar-lhes o Beijo do Verdadeiro Amor.

 

Conforme veremos mais à frente, no entanto, gostei da maneira como encerraram essa história.

 

  

Um dos episódios mais interessantes foi o final da primeira meia temporada. Neste, a Evil Queen envia Emma para uma realidade alternativa – aqui, a primeira Maldição nunca ocorreu e Emma cresceu com os pais. Regina consegue, mais tarde, entrar nesta realidade. No momento em que esta encontra Emma em modo cem por cento princesa Disney – apanhando flores e cantando Someday My Prince Will Come/O Meu Amor Virá – eu tive de carregar no “pausa” para me rir.

 

A piada não durou muito. Passou a ser triste, mesmo patético, quando Regina tentou apelar ao lado heróico de Emma – inexistente, nesta realidade. A mim, custa-me a acreditar que Snow e David não tivessem educado Emma, pelo menos um bocadinho, para ser lutadora – sobretudo tendo em conta o passado guerreiro de Snow.

 

Emma, na verdade, só “desperta” quando a versão alternativa de Henry tenta matar Regina e esta não faz nada para se defender.

 

Gostei do regresso, ainda que breve, de August – bem como do pequeno flashback que conta as origens do apelido Swan. Outra pérola desta realidade alternativa foi Hook – trinta anos mais velho, barrigudo, hilariantemente alcóolico. A própria Jennifer Morrison parecia estar a esforçar-se por não se rir.

 

  

Por sua vez, Regina “reencontra” Robin nesta realidade alternativa. Reencontra entre aspas pois este, como todos os habitantes deste mundo, é uma versão diferente do seu antigo amante – um Robin que nada tem de heróico, que rouba para proveito próprio. Regina, como seria de esperar, trá-lo para Storybrooke.

 

Não acredito que houvesse uma única pessoa na audiência que acreditasse que aquilo ia resultar. E, de facto, Robin não se consegue integrar em Storybrooke, na sombra deixada pela versão mais heróica de si. A sua partida torna-se inevitável.

 

Para onde vai ele? Para explicar, temos de saltar alguns episódios. No final da primeira meia temporada, a Evil Queen tinha sido transformada numa serpente e aprisionada por uma figura encapuçada, acabada de chegar a Storybrooke – a mesma figura destinada a matar Emma. Alguns episódios mais tarde regressa à sua forma habitual e confronta Regina com o intuito de matá-la.

 

É durante esse confronto que, conforme todos sabíamos que iria acontecer mais cedo ou mais tarde, Regina percebe que deve aceitar o seu lado mau – ou seja, aceitar-se a si mesma, amar-se a si mesma. Não foi muito diferente da história de Emma, durante o arco de Frozen, sem parecer repetição.

 

 

E a verdade é que, mais do que nas maldições, nos duelos grandiosos, nas figuras da Disney feitas carne, é nestes momentos de crescimento das personagens, de humanidade, que Once Upon a Time brilha verdadeiramente, ofuscando os seus defeitos.

 

Ao contrário do que muitos esperavam, Regina não reabsorve a Evil Queen. Em vez disso, Regina mistura os corações de ambas, de modo a ficarem com a mesma proporção de luz e sombra. A Evil Queen (chateia-me um bocadinho que não tenham arranjado outro nome para ela) vai, depois, viver com Robin na realidade alternativa que ela mesma criara.

 

Já na altura me perguntei se fora boa ideia enviarem a Evil Queen  para um reino em que ela era procurada por regicídio e rapto da princesa. Não foi surpresa, por isso, quando se descobriu que ambos fugiram para a Floresta Encantada original, onde acabaram por ficar noivos.

 

Sempre consola um bocadinho que uma versão de Regina e uma versão de Robin tenham tido um final feliz juntos.

  

Recuemos alguns episódios. Depois de Emma regressar a Storybrooke, encontra a figura encapuçada que estava destinada a matá-la. Nada mais nada menos que… Gideon, o filho de Belle e Rumplestilskin.

 

 

Eu passo a explicar.

 

Tínhamos visto que Belle deixara o filho recém-nascido à guarda da Fada Azul. Infelizmente, esta não foi capaz de proteger a criança durante mais do que um dia, se tanto: esta acabararia por ser raptada pela Fada Negra (que, segundo o que descobríramos no episódio anterior, era a mãe de Rumple e o abandonara pouco depois de ele nascer).

 

Dá vontade de citar o meu meme preferido: “You had one job!”. Se já antes não gostava da Fada Azul, depois desta gosto ainda menos.

 

Havemos de falar melhor sobre a Fada Negra, também conhecida por Fiona. Para já, só é necessário saber que esta aprisionou o neto no seu reino, onde o tempo passa mais depressa. Em suma, Gideon envelheceu vinte e oito anos do dia para a noite, essencialmente.

 

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Por esta altura já contávamos cinco anos e meio de #OUaTlogic. Pais e filhos com as mesmas idades biológicas; Leopold noivo e mãe e filha; Rumple envolvendo-se com mãe e filhas; Emma envolvendo-se com enteado e padrasto; Regina adotando o neto da sua enteada; uma cidade quase sempre isolada do resto do mundo mas que se sustém sem problemas.

 

Mas uma criança crescer até à idade adulta antes de o corpo da mãe recuperar totalmente do parto (assumo eu…)? Já é demais.

 

Gideon diz que quer matar Emma para lhe roubar os poderes de Salvadora, de modo a derrotar a sua avó. O que obviamente não faz sentido nenhum – ao que parecia, ele estava a confundir a Salvadora com o Dark One.

 

Não foi, portanto, grande surpresa quando se descobriu que Gideon estava a ser controlado pela Fada Negra. Foi-nos revelado, também, que esta era a grande opositora de Emma, que a “Batalha Final” de que Rumple falava na profecia do episódio-piloto seria entre a Fada Negra e a Salvadora. Isto por ter sido Fiona a criar a primeira Maldição, a Maldição que Emma nasceu para quebrar.

 

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O que não me convenceu. Se os guionistas queriam vender a Fada Negra como a principal vilã até agora em Once Upon a Time, a Némesis de Emma, deviam ter dado pistas sobre isso antes. Tanto quanto me lembro, só se fala dela em Snow Falls, na primeira temporada, e Snow Drifts/No Place Like Home (que, de qualquer forma, é uma espécie de remake de Snow Falls). Mesmo que fosse esta desde o início (coff coff, dúvido), sem os devidos indícios, esta parte parece enfiada a martelo.

 

Para ser sincera, modéstia à parte, a minha teoria de há um par de anos faria mais sentido –  aquela segundo a qual o grande vilão da série seria a essência do Dark One. Mesmo o próprio Rumplestilskin ou a Evil Queen fariam mais sentido.

 

Uma coisa tenho de reconhecer, contudo: em termos de carisma, Fiona não fica nada atrás de outros vilões icónicos da série, como Rumple, Cora ou Regina em modo Evil Queen.

 

Perto do fim da temporada, é revelado o motivo pelo qual Fiona abdicou do filho, ainda antes de lhe dar um nome. No dia em que Rumple nasceu, a Fada Azul e Tiger Lilly profetizam que ele seria um Salvador, destinado a confrontar uma grande força da Escuridão, nascida na mesma altura, na Batalha Final.

 

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Esta cena de Rumple ter estado destinado a ser um Salvador, de início, pareceu-me vinda do nada. Mas, entretanto, lembrei-me da realidade alternativa do final da quarta temporada, em que Rumple é o Light One. Se, nessa realidade, Rumple nunca tiver sido abandonado por nenhum dos pais, nunca tiver ganho fama de cobarde, faz sentido que se tenha tornado um Salvador – mesmo que não seja esse o título que usa.

 

Infelizmente, nesta realidade, Fiona decide tornar-se uma fada para proteger o filho. Quando, a certa altura, fica disposta a matar Tiger Lilly, a sua magia torna-se negra – um pouco à semelhança do que tinha acontecido com Nimue, conforme vimos na quinta temporada. A própria Fiona torna-se, assim, a tal força da Escuridão destinada a matar Rumple.

 

Um caso clássico que profecia que se cumpre a si mesma. O que, de resto, faz a Fada Azul descer ainda mais na minha consideração: mais valia que tivesse ficado calada!

 

A certa altura, a Fada Azul dá a Fiona a hipótese de abdicar do seu poder, de modo a não ter de enfrentar Rumple na Batalha Final. À semelhança do que o filho faria inúmeras vezes, Fiona recusa. Em vez disso, separa Rumple do seu destino como Salvador. Depois disto, a Fada Azul bane Fiona para outro mundo – o tal onde o tempo corre mais depressa.

 

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A ideia com que fiquei foi que, já que Rumple não chegou a ser o Salvador, Emma substituiu-o, ficando ela com a tarefa de enfrentar a Fada Negra, na Batalha Final.

 

Voltaremos a falar sobre essa parte da história e sobre outras partes na próxima entrada, amanhã. Fiquem por aí!

Lorde - Melodrama (2017)

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A cantora neozelandesa Ella Yelich-O’Connor, mais conhecida por Lorde, lançou o seu segundo de estúdio, Melodrama, no passado dia 16 de junho. Se acompanham o meu blogue, saberão que só no ano passado é que ouvi o seu primeiro álbum, Pure Heroine – no entanto, cativou-me logo. Quando se soube que vinha aí Melodrama, fiquei, naturalmente, interessada – sobretudo depois de ouvirmos Green Light e Liability. Pure Heroine é um álbum excelente a todos os níveis, sem falhas significativas. Será que Melodrama consegue atingir a fasquia deixada pelo seu antecessor?

 

Bem, sim. Lorde tem apenas vinte anos de idade, mas já conseguiu a proeza de ter dois álbuns excelentes no seu currículo. A miúda não é deste planeta!

 

É muito difícil dizer qual dos dois álbuns é o melhor. No entanto, uma das coisas que prefiro em Melodrama é a instrumentação. Pure Heroine caracteriza-se pela produção minimalista. As músicas são conduzidas pela voz, só com batidas e um ou outro instrumento ou sintetizador, tudo muito discreto.

 

Não estou a dizer que isso seja defeito ou que as músicas pedissem mais instrumentos – pelo contrário, faz parte do carácter do álbum. Eu, no entanto, sempre gostei de instrumentos em música. Como tal, fiquei feliz por instrumentos como, por exemplo, o piano (em várias canções), o clarinete (em Sober), os violinos (em Sober II/Melodrama e Writer in the Dark), participarem em Melodrama – e de forma inteligente, como veremos a seguir.

 

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Tínhamos comentado, a propósito de Green Light, que a narradora desta faixa parecia ser uma miúda embriagada, acabada de se separar, que sai à noite para esquecer o ex-namorado; que se esforça desesperadamente por se divertir e mostrar que está a seguir em frente, mas que sofre em silêncio. Na verdade, o mesmo parece acontecer com o resto de Melodrama. O álbum reflete as diferentes fases, as diferentes emoções, pelas quais uma pessoa passa enquanto recorre ao estilo de vida festeiro – sexo, álcool, drogas, as chamadas party-bangers – para ultrapassar uma separação. Lorde referiu mesmo, em entrevista, que todas as canções decorrem na mesma noite.

 

Ora, quem me conheça minimamente saberá que esse estilo de vida pouco ou nada me diz. Contam-se pelos dedos das mãos as vezes que fui a uma discoteca – das vezes que me diverti, foi por causa da companhia e não do ambiente. Se é para chegar trôpega a casa a altas horas da noite, prefiro que seja após um concerto ou festival de música.

 

Além disso, nunca fui grande fã de party bangers.

 

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No entanto, sei perfeitamente que muitos apreciam este estilo de vida – ou, pelo menos, passam por uma fase em que o apreciam. Aos dezanove/vinte anos, como a Lorde, às vezes antes, às vezes mais tarde. Como tal, não me vou armar em moralista nesta análise – até porque o álbum Melodrama acaba por desmistificar este estilo de vida, obriga-nos a olhar além do glamour, dos filtros do Instagram.

 

Uma das características de Melodrama, aliás, é a auto-consciencialização: a noção de que nada daquilo é real e/ou duradouro. Nem a festa, nem os romances mais ou menos sérios. É tudo melodrama: um exagero, mesmo uma paródia da realidade.

 

Falemos, então, das canções em si. Green Light funciona bem como introdução a Melodrama. Na tracklist seguem-se duas músicas que se centram no ponto alto da festa. Das duas, a minha preferida é Sober.

 

 

Esta, de início, segue o estilo típico de Lorde, com batidas e instrumentação mínima. Ressaltar a repetição de “Night, midnight, lose my mind”, marcando o ritmo. Quando chega o refrão, a partir do meio, os versos são pontuados por notas de clarinete (ou de corneta? Não sei, é um instrumento de sopro de metal) – um dos exemplos da instrumentação inteligente em Melodrama.

 

Faz-me desejar, aliás, que tivéssemos mais clarinetes ou instrumentos do género na música pop.

 

A letra de Sober parece falar sobre um caso de uma noite só – ou, pelo menos, um caso que se limita à parte física, à euforia. A narradora compara-o a um delírio febril, ao efeito de uma droga. Na verdade, é dado a entender que a outra parte parece mais investida na relação que a narradora – que, por sua vez, parece ter perfeita noção de que aquilo não sobreviverá à ressaca: “But what will we do when we’re sober?”.

 

Essa pergunta será, aliás, respondida mais à frente no álbum. Antes, temos Homemade Dynamite. Esta é a música de que menos gosto em Melodrama. Não que seja uma música má – este álbum, ou melhor, Lorde não tem músicas más – ou mesmo que não goste de todo. Apenas não a acho tão interessante como o resto de Melodrama.

 

 

Segundo terá dito a própria Lorde, Homemade Dynamite marca, essencialmente, o momento na festa em que as drogas começam a fazer efeito. Em termos de letra e tema, acaba por não ser muito diferente de Sober, visto que até fala de um possível caso de uma noite só. Musicalmente, não difere muito da típica sonoridade de Lorde, embora com um ritmo mais dançante. Consta que deverá ser single a certa altura. Não é de surpreender – composta com Tove Lo, Homemade Dynamite é a mais parecida em Melodrama com a típica party banger.

 

No entanto, preferia Sober como single. Ou então Supercut.

 

The Louvre é o mais parecido que temos em Melodrama com uma canção de amor. A letra supostamente descreve a relação de Lorde com o, agora, ex-namorado. Ao contrário de uma típica canção de amor, a descrição que esta faz do romance não é propriamente idílica: temos referências a ilusão, obsessão, vício, mesmo estupidificação. A narradora admite mesmo que negligencia os amigos a favor do amante. Ao mesmo tempo, descreve aquela fase em que o casal se considera superior aos simples mortais, dignos de figurar no Louvre (na parte de trás, mas o Louvre é o Louvre). Amam, assim, perdidamente e dizem-no cantando a toda a gente (“Broadcast the boom boom boom boom and make’em all dance to it”).

 

Musicalmente, The Louvre é conduzida por acordes de guitarra graves e discretos, aos quais vão sendo acrescentados elementos deliciosos aqui e ali: como as batidas no refrão e as notas de guitarra elétrica (ou órgão? Não consigo perceber ao certo…) no fim.

 

  

 

No entanto, Melodrama também mostra o lado menos bonito, tanto das festas como dos romances. Sober II (Melodrama) é uma das minhas músicas preferidas neste álbum e também uma das mais interessantes. Funciona bem como sequela a Sober pois as melodias são parecidas e a letra responde à pergunta deixada pela prequela: o que acontece depois das drogas. Naturalmente, em Sober II (Melodrama) temos referências a arrependimento, censura, consequências inesperadas – gosto particularmente dos versos “They’ll talk about us and discover how we kissed and killed each other”. Repete-se muito a frase “We told you this was melodrama” – não foi falta de aviso, eles sabiam no que se estavam a meter.

 

A instrumentação nesta música é perfeita. A abertura com os violinos frios, dolorosos, implacáveis, evocam na perfeição as dores de cabeça e fotofobia típicas de uma manhã de ressaca. Não será por acaso que a música quase homónima da P!nk, Sober, usa violinos de maneira semelhante, sobretudo no final da faixa.

 

Passemos, então, às chamadas break up songs, para além de Green Light. Uma delas é uma faixa com duas partes: Hard Feelings/Loveless. Em termos de sonoridade, não divergem muito do estilo habitual de Lorde. A primeira parte é lenta, suave, conduzida por batidas leves e um sintetizador discreto, que se vão tornando mais intensos. A segunda parte, por sua vez, é bem mais dançante, conduzida por batidas, com notas de piano apimentando os vocais.

 

Em termos de letra, Hard Feelings parece começar no rescaldo imediato da separação, num momento de grande vulnerabilidade, em que a ferida é ainda recente. Lorde referiu mesmo que esta música é a calma após a grande discussão, a grande separação. Em consonância com o tema geral do álbum, temos referências a ressaca, a pós-melodrama.

 

  

Há uma ideia de passagem do tempo à medida que a canção decorre. Na segunda estância, assim, a narradora procura manter-se ocupada, aprender a estar sem o ex-namorado. A dor permanece, mas a narradora está determinada a esquecê-lo, a ultrapassar a separação.

 

É tão eficaz, na verdade, que a segunda parte da canção, L.O.V.E.L.E.S.S. é a completa antítese de Hard Feelings. Aqui temos uma Lorde em modo vingativo, anti-romântico, troçando abertamente do ex-namorado e do amor em geral. Lorde chama mesmo ao seu grupo “A geração sem amor”, que gozam com os respetivos amantes (ela descreve-o de forma mais colorida…). Nesse aspeto, a versão do vídeo acima, que ela filmou com um grupo coral e uma boombox à anos 90, faz todo o sentido.

 

E é muito fixe!

 

  

Writer in the Dark, por sua vez, é uma balada de piano, à semelhança de Liability, acompanhada por violinos no refrão e no final da música. Não posso deixar de assinalar os vocais agudos de Lorde, no refrão: meu. Deus. Como é que ela faz aquilo?

 

Em termos de tema, Writer in the Dark é muito parecida com Hard Feelings: ambas exprimem amargura e ressentimento pela separação e, ao mesmo tempo, manifesta o desejo de seguir em frente com a sua vida. Assumindo que a letra é verídica, descobrimos que o ex-namorado não era homem suficiente para aceitar o sucesso de Lorde. Esta, assim, sentiu-se obrigada a diminuir-se, a tirar pedaços de si mesma, para não ferir o orgulho dele.

 

Não nego que o facto de a música ter “escritora” no título me agrada particularmente. No entanto, neste contexto, acho que significa mais “artista” do que outra coisa qualquer. Alguém que, se calhar, sente as coisas com demasiada intensidade e que imortaliza as suas emoções na sua arte.

 

  

Consta que Supercut é uma favorita entre os fãs. Não é difícil perceber porquê. Musicalmente, é como se Green Light e Ribs se juntassem e tivessem um filho: riffs de piano parecidos com os da primeira, batidas parecidas com as da segunda, o ritmo dançante de ambas.

 

O termo “Supercut” refere-se a uma montagem de vídeos que, geralmente, se focam num elemento único – tipo isto. É isto que passa na mente da narradora: um greatest hits da relação que terminou, sem as partes menos boas, em constante repetição. O verso “In my head I do everything right” soa-me particularmente triste – é muita mágoa e arrependimento numa única frase.

 

Gostava de chamar a atenção para o verso “In your car, the radio up”. É um tema recorrente que Lorde e Avril Lavigne têm em comum: no carro com os interesses românticos. No caso da Avril, o exemplo mais flagrante é Complicated: “I like you the way you are, when we’re driving in your car”. Carros voltam a aparecer, em contexto semelhante, no quinto álbum, com as músicas 17 (“My favorite place was sitting in his car”) e You Ain’t Seen Nothin’ Yet (“Your car, I’m sitting right beside you”).

 

É possível, no entanto, que estas sejam referências propositadas a Complicated.

 

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Por sua vez, Lorde já explorara esse tema em 400 Lux. Em Melodrama, para além de Supercut, Green Light aborda-o de passagem (ao falar do “carro de outro”) e, em Hard Feelings, serve de metáfora à relação que tem os dias contados.

 

Já falámos sobre Liability antes. Ouvindo-a no contexto do resto do álbum, encaixa-se bem no contexto de Melodrama. Existem, mesmo, várias interpretações possíveis que se encaixariam. Para além de poder referir-se à relação que terminou, poderia referir-se a alguém que não gostou da festa e culpa a narradora por o(a) ter arrastado para a mesma. Ou então o contrário: alguém que se aproveitou do espírito festeiro da narradora e a descartou na manhã seguinte, depois de obter o que queria.

 

Liability tem, no entanto, uma reprise, mais à frente em Melodrama. Não sei ao certo qual é a diferença entre uma reprise e uma sequela ou segunda parte. Esta, no entanto, parece funcionar como uma correção à música original. Ao contrário de Liability propriamente dita, que é uma balada de piano, Liability (Reprise) aproxima-se mais do som habitual de Lorde, ao limitar-se a batida e vocais.

 

  

Na letra, a narradora percebe que ela não é um risco, não é o problema, nem no que toca a relação que terminou nem no que toca à desta. Começa, aliás, a aperceber-se nos efeitos nocivos deste estilo de vida. Que a rapariga embriagada na festa, tentando esquecer o namorado, não é a sua verdadeira identidade. Que aquilo é tudo melodrama, como referimos acima: não é real.

 

E assim se abre caminho para o epílogo do álbum: Perfect Places.

 

Esta é a minha música preferida em Melodrama e talvez mesmo em 2017, até agora. Em termos de sonoridade, de início, não difere muito do estilo habitual de Lorde, com a batida e o sintetizador discreto. Entretanto, ouvem-se algumas notas de piano, o sintetizador ganha intensidade. Por fim, Lorde faz “tch-tch”, como quem engatilha uma arma ou ativa uma bomba, e a música explode com um dos melhores refrões dos últimos anos – um híbrido do refrão de Team com Midnight City, dos M83, com notas de piano e sintetizadores à anos 80.

 

  

A letra de Perfect Places faz um resumo dos temas recorrentes em Melodrama e ainda acrescenta coisas. Vemos a narradora recorrendo às festas como escapismo: não apenas no que toca à separação, esmiuçada no resto do álbum, mas também à atualidade, ao clima, ao desaparecimento de heróis, ao controlo excessivo por parte dos demais. A própria Lorde admitiu que era esse o caso para si e para os amigos, sobretudo durante o verão do ano passado – que procurava uma fuga à realidade, que tinha medo de estar a sós com os seus pensamentos (“Now I can’t stand to be alone”).

 

Este verão tenho percebido um pouco de que Lorde fala em Perfect Places. O verso “I hate the headlines and the weather”, por exemplo, faz-me pensar na tragédia dos incêndios. E o verso “All of our heroes fading”, que Lorde admitiu referir-se às mortes de David Bowie e Prince, no ano passado, faz-me pensar no Chester.

 

Por outro lado, a perda de ídolos, a humanização das pessoas e instituições que venerávamos em miúdos, é uma das etapas do crescimento. Eu, pelo menos, passei por uma fase assim quando tinha aproximadamente a idade da Lorde.

 

Posso não me identificar com o estilo de vida descrito em Melodrama, mas identifico-me definitivamente com o desejo de um escape, a procura de um sentido, de algo que transcenda a realidade. Mas procuro esses sítios perfeitos noutros lugares: na praia onde passo férias desde miúda, num concerto, num jogo da Seleção, num encontro do Pokémon Go ou do Odaiba Memorial Day ou, pura e simplesmente, numa jantarada com familiares e/ou amigos.

 

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Curiosamente, no outro dia, o modo aleatório do Spotify tocou Innocence, de Avril Lavigne, a seguir a Perfect Places. E, de facto, parece que Lorde estava à procura daquilo que Avril encontrou em Innocence.

 

Perfect Places, de resto, faz-me lembrar I Still Haven’t found What I’m Looking For, dos U2, e See the Light, dos Green Day. Não só por funcionar bem como um epílogo para Melodrama, mas também por transmitir aquela sensação agridoce de quem está à espera e/ou à procura de uma resposta. Ao longo de Melodrama, Lorde procurou-a numa pista de dança, no fundo de um copo, numa droga qualquer, nos braços de um estranho. Até perceber, em Perfect Places, que a resposta não está ali.

 

Onde a procurará a seguir? Descobriremos no próximo álbum, suponho eu.

 

Melodrama é prova de que é possível fazer música pop, música de festa/party bangers que não seja vazia de sentido ou de qualidade duvidosa. Não que isso seja de surpreender: Pure Heroine já tinha provado mais ou menos o mesmo. Lorde, pura e simplesmente, joga num campeonato diferente em relação aos simples mortais, não há comparação possível.

 

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Gostava que Melodrama estivesse a ter mais rotação, no entanto. Ainda não ouvi nem Green Light nem Perfect Places nas rádios portuguesas. Também não me parece que, lá por fora, Melodrama esteja a ter o mesmo impacto que Pure Heroine teve, na altura (posso estar enganada). Acho que será uma questão de tempo, contudo.

 

Quanto a mim, gosto imenso de Melodrama. Acho que vou passar muito tempo, ainda, a decifrar estas canções – tal como ainda acontece com Pure Heroine. Talvez até escreva uma análise ao primeiro álbum de Lorde – não para lá, antes a médio/longo prazo.

 

Apesar de reconhecer que Ella é uma excelente cantora e compositora, ainda não tenho um vínculo emocional com ela como os que tenho com outros artistas de quem gosto. Mas também isso é uma questão de tempo – sobretudo se ela vier em digressão a Portugal, em breve.

 

Quanto a nós, vou fazer uma pausa nos textos sobre música aqui no blogue. A única exceção será quando Bryan Adams lançar duas músicas novas no outono, juntamente com um álbum Best Of, tal como anunciou aqui (pensava que já ninguém lançava álbuns Best Of...). Tenciono escrever sobre Once Upon a Time a seguir – mas deverá ser um texto mais curto que o último. Até lá...

Chester Bennington (1976-2017)

Nunca pensei que viria a escrever um texto como este. Pelo menos não tão cedo.

 

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Na passada quinta-feira, Chester Bennington, vocalista dos Linkin Park, foi encontrado morto em sua casa. Tudo indica que se suicidou por enforcamento.

 

Basta dar uma olhadela rápida a este blogue para perceberem que os Linkin Park são uma das minhas bandas preferidas. Tornei-me fã há dez anos e conto vários episódios marcantes relacionados com a banda e com Chester.

 

Um dos maiores foi o Rock in Rio de 2008. Foi o segundo concerto a que fui mas o primeiro que apreciei verdadeiramente. Em que senti pela primeira vez a magia de cantar em plenos pulmões, em coro com milhares de pessoas, canções que, normalmente, cantarolava baixinho enquanto as ouvia no meu MP3. Nessa noite senti-me integrada como nunca sentira antes, unida pela música à banda e àqueles noventa milhares de pessoas. O Chester, perto do fim do concerto, diria que poucas cidades amavam música tanto quanto Lisboa – eu sei que ele provavelmente dizia o mesmo em todos os concertos. Mas, na altura, eufórica como me sentia, acreditei.

 

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Foi uma das melhores noites da minha vida. No ano que se seguiu, mais coisa menos coisa, tive muitos dias tristes, muitas noites de insónias, em que me consolava recordando este concerto.

 

Tive a oportunidade de voltar a vê-los ao vivo em 2014, também no Rock in Rio – e de escrever sobre isso. Como poderão ler, foi a noite em que mais perto estive dele, fisicamente. Cheguei a tocar-lhe na mão.

 

Tenho muitas outras recordações, para além destas: ver o vídeo de Breaking the Habit na MTV, em 2004; ouvir Numb/Encore na rádio da minha escola secundária; ver o primeiro filme dos Transformers e reconhecer What I’ve Done; montar o meu primeiro AMV para New Divide, a minha música preferida deles; passar o dia 16 de abril de 2012 (lembro-me perfeitamente) cantarolando e dançando (e estava de saltos altos!) a recém-lançada Burn It Down; aquele momento no RiR de 2012, em que Chester canta Crawling cara a cara com os fãs e um deles coloca-lhe um cachecol do F.C.Porto nos ombros; vários vídeos de bastidores hilariantes – entre os quais um dele saltando à corda enquanto canta Wretches and Kings; um deles cantando sobre unicórnios e chupa-chupas; esta versão de Numb; dançando A Light that Never Comes.

 

Os motivos pelos quais gosto dos Linkin park são diferentes dos de outros fãs – pelo menos daquilo que tenho lido nas redes sociais. Não posso dizer que tenha sido uma coisa de adolescente – foi aos dezassete/dezoito anos que me deixei cativar a sério pela banda. Aquilo de que sempre gostei foi, sobretudo, dos cenários épicos, cinemáticos, de tempestades, lutas, explosões. Daí usá-las como fonte de inspiração para a minha escrita e para montar vídeos.

 

  

O que não significa que não apreciasse temas mais calminhos e emocionantes, como Castle of Glass e Leave Out All the Rest – esta última, à luz do que aconteceu, é ainda mais dolorosa do que o costume.

 

Por fim, os Linkin Park ajudaram-me a fazer a transição para música mais pesada, como por exemplo os Sum 41 e os Within Temptation – estes últimos chegaram a dizer que os Linkin Park foram umas das inspirações para o álbum The Silent Force. David Hodges, que fazia parte dos Evanescence, disse o mesmo em relação ao álbum Fallen.

 

Também gosto muito do álbum Out of Ashes, dos Dead By Sunrise – o side-project do Chester. Nele está, aliás, incluída uma das minhas canções de amor preferidas. Tal como escrevi há uns anos, este álbum mostra facetas diferentes de Chester, facetas que ele não mostrava nos Linkin Park.

 

Conforme me tenho fartado de dizer neste blogue ao longo dos anos, o Chester era uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música. Toda a gente sabe que ele não teve uma vida fácil – quem não sabia, sabe-o agora. No entanto, não deixara de ser um bom homem, simpático, super divertido… Ainda há bem pouco tempo escrevi sobre isso aqui no blogue – pouco depois de ele ter publicado uma fotografia sua vestido de Pikachu!

 

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Eu ainda estou em negação. Quando penso que Chester Bennington morreu, há qualquer coisa no meu cérebro que rejeita automaticamente esse facto, como um erro 404 num computador. Não faz sentido! Ele era tão novo, tinha pelo menos metade de uma vida à sua frente! Eu habituei-me à “presença” dele, a saber que ele estava algures por aí, fazendo música, dando concertos, em brincadeiras com o Mike e os outros ou junto da mulher e dos filhos. Sabia que, de tanto em tanto tempo, ele lançaria um single novo, um álbum novo – com os Linkin Park ou não.

 

Agora dizem-me que ele já não está a fazer nada disso? Pode lá ser!

 

Uma das coisas que têm sido comentadas a propósito desta história diz respeito às críticas ao álbum One More Light. Muitos fãs, incluindo eu até certo ponto, não gostaram do som mais pop de músicas como Heavy. Até aqui tudo bem – não se pode agradar a todos.

 

No entanto, têm havido atitudes que ultrapassaram os limites – como o que aconteceu há pouco tempo, no Hellfest.

 

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Espero que esses estejam, agora, cheios de remorsos pelo que fizeram.

 

Não estou a dizer que tenha sido por causa deles e de outros que tais que Chester se suicidou. Tanto quanto sei, estas coisas raramente são assim tão lineares. Mas episódios como este não terão ajudado, de certeza.

 

Este género de ataques, de bullying, sobretudo nesta era das internetes, está tão normalizado que uma pessoa fica surpreendida quando descobre que os visados se sentiram magoados com estas atitudes. Em particular, quando os visados são pessoas famosas. Achamos que eles aprendem a ignorar estas coisas.

 

Penso, por exemplo, no Éder – que, antes da final do Europeu, era o alvo preferido das piadas e insultos dos adeptos, sem que ninguém questionasse essas práticas (eu mesma me deixei levar por isso, até certo ponto). Em entrevista ao Alta Definição, Éder revelou que esses insultos o magoaram e que, a certa altura, chegou a contemplar o suicídio.

 

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Tudo isto remonta para a cultura de bullying muito presente na sociedade, sobre a qual já falei aqui no blogue. Tendemos a educar as vítimas para aguentarem caladas, para não “fazerem queixinhas”, ensinamos-lhes que isto faz parte. Quando, na verdade, devíamos educar os agressores para não serem umas bestas, para tratarem as pessoas com respeito.

 

Outra questão para o qual isto tem alertado é para as doenças do foro psiquiátrico. Ainda agora escrevi sobre isso, a propósito do último álbum dos Paramore – que foi muito inspirado pela ansiedade e depressão da vocalista, Hayley Williams. Ela chegou a dizer, em entrevista, que, a certa altura, chegou a ter ideação suicida – foi aí que percebeu que precisava de ajuda.

 

Chester, pelos vistos, não conseguiu fazê-lo. Provavelmente nunca saberemos porquê – porque é que ele achou que a morte era preferível a ouvir dezenas de milhares de fãs cantando em coro com ele. Muitas pessoas teriam feito tudo para ajudá-lo, sobretudo se pudesse ter evitado este desfecho. Não só os amigos e familiares, mesmo os seus milhões de fãs. É difícil de compreender como é que ele não sabia isso. Mas a mente de uma pessoa deprimida não funciona da mesma maneira que a nossa.

 

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Aquelas pessoas que se põe com comentários do género “Que monstro é que deixa seis filhos sem pai?” tiram-me do sério. É só um exemplo dos inúmeros preconceitos que ainda existem em torno das doenças mentais – alguns dos quais já referi no texto anterior. Gostava que houvessem movimentos que desmentissem essas ideias – em Portugal, ainda não vi nada disso.

 

Dito isto, também sofro pela mulher e pelos filhos dele, pelo Mike, pelo Brad e os outros colegas da banda. Como é que se lida como uma coisa destas? Como é que se aceita isto? Como é que se explica o que aconteceu aos filhos dele? (As filhas mais novas não devem ter mais de seis anos.)

 

Não sei o que vai ser dos Linkin Park depois disto. Será que eles vão continuar com os membros restantes, com o Mike promovido a vocalista principal? Será que vão procurar um “substituto”?

 

Sinceramente, não sei se quero que eles continuem. Acho que nunca vão conseguir preencher o vazio, nunca vão encontrar ninguém capaz de fazer o que Chester fazia. No entanto, é a vida deles, é a decisão deles. Qualquer que ela seja, respeitá-la-ei e apoiá-la-ei.

 

  

Isto está a custar-me. Não tenho problemas em admitir que chorei – quando me pus a ver esta apresentação de One More Light. É uma boa pessoa, um ótimo músico, de voz monstruosa e energia inesgotável, que desapareceu. Que foi roubado aos familiares e aos amigos. É uma parte do meu mundo, uma parte deste blogue que morreu – a primeira análise que publiquei aqui foi ao álbum Living Things. Um homem que nunca poderei voltar a ver ao vivo, ou num direto do Facebook, lançando um single ou um álbum, fazendo palhaçadas nos bastidores. Que nunca poderei conhecer pessoalmente.

 

Eu até estava a trabalhar na análise a One More Light antes de isto acontecer. Tenho o texto todo planeado no meu caderno e já tinha começado a escrevê-lo. A médio/longo prazo, queria também escrever sobre os álbuns Hybrid Theory e Meteora, que andava a ouvir muito há uns meses.

 

Depois disto, não tenho coragem. Não tenho conseguido ouvir a música dele normalmente, como fazia ainda quinta-feira de manhã. Quero voltar a fazê-lo – porque uma parte do Chester continuará a viver na música dele – mas preciso de tempo.

 

Em jeito de conclusão, dizer apenas que estou grata pela vida de Chester. Pode ter sido curta, mas foi o suficiente para marcar a minha. O meu mundo, este blogue, não seriam os mesmos se ele não fosse ele.

 

Obrigada por tudo, Chester.

 

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Paramore - After Laughter (2017) #2

Segunda parte da análise a After Laughter. Primeira parte aqui.

 

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Existem algumas canções em After Laughter que fogem à norma do falsamente alegre. Uma delas é Forgiveness – que terá sido a primeira a ser composta para este álbum. Esta faixa é conduzida por notas suaves de guitarra, acompanhada por baixo e uma bateria discreta.

 

Consta que a letra de Forgiveness foi inspirada numa crise na relação de Hayley com o seu, em breve, ex-marido. O que não surpreende. A letra descreve um cenário em que alguém pede perdão, mas a narradora está ainda demasiado magoada para concedê-lo.

 

Uma pessoa poderia interpretar esta letra como um retrocesso. Em vários momentos ao longo do Self-Titled, Hayley parecia razoavelmente aberta ao perdão. Não tanto porque a(s) outra(s) pessoa(s) o merecessem, mais por uma questão de paz de espírito. É possível que seja assim para algumas situações, mas não para todas. Sobretudo se a ofensa em questão ainda está fresca na memória e/ou se a outra pessoa ainda não fez nada para merecer ser perdoada.

 

Por outro lado, podem existir casos em que “perdoar e esquecer” até seja benéfico para a pessoa ofendida. Dito isto, existem coisas que ninguém tem a obrigação de perdoar.

 

  

Desde Brand New Eyes, todos os trabalhos dos Paramore (incluindo o Singles Club) têm incluído uma balada acústica. After Laughter manteve essa tradição. Se dois desses números acústicos – Misguided Ghosts e Hate to See Your Heart Break – se juntassem e tivessem um filho, esse seria provavelmente 26. Para além da guitarra acústica, esta faixa possui ainda uma secção de violino lindíssima.

 

Em entrevista, Hayley revelou que escreveu a letra de 26 como uma carta para a versão mais jovem de si mesma. Eu diria, também, que esta letra representa um conflito entre o seu lado mais cínico e o seu lado mais sonhador. Os dois sempre se manifestaram na música dos Paramore (Careful e Brick By Boring Brick para o cinismo; Miracle e Daydreaming para o idealismo). Em 26, Hayley quer agarrar-se ao lado sonhador, idealista – embora sinta que a realidade a puxa para o cinismo.

 

Nem todas as canções em After Laughter são assim tão depressivas, felizmente. Uma delas é, por sinal, uma das minhas preferidas: Pool. Esta é a única canção de amor neste álbum. Em entrevista, Hayley referiu que não se sente muito à vontade no que toda a canções de amor, que provavelmente nunca criará uma música romântica propriamente dita, idílica, sem um senão, sem uma reserva. E agora, com a separação, duvido que tão depressa voltemos a ter canções de amor no reportório dos Paramore.

 

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Em linha com isso, Pool parece fazer referências à ansiedade de Hayley. A letra compara um relacionamento amoroso a um mar agitado ou a uma piscina sem fundo: mergulhar nele é algo arriscado, incerto, perigoso, mas irresistível. No fundo (no pun intended), a narradora está a aprender que, no amor, nem sempre poderá ter controlo total. Existirá sempre um grau de incerteza relativamente ao futuro.

 

Não que isso tenha resultado muito bem para a Hayley…

 

Pool tem, aliás, sido a minha canção de verão deste ano. Tanto graças à sua sonoridade new wave, à anos 90, que me dá uma certa nostalgia, bem como às várias referências aquáticas – algo de que sempre gostei, tal como referi num texto recente deste blogue.

 

A única canção verdadeiramente alegre em After Laughter é Grudges. Consta que Zac e Taylor colaboraram na composição do instrumental (que não difere muito do resto do álbum), o que motivou Hayley a escrever sobre o regresso do baterista à banda. A letra celebra, assim, o renascimento da amizade, deixando de lado o passado, os motivos da antiga zanga e a longa ausência. Os vocais de Zac na terceira parte da música foram bem sacados.

 

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Vou falar, agora, das músicas de que gosto menos em After Laughter. Caught in the Middle, para começar, deixa-me algo dividida. Não sou grande fã da parte musical – não sendo má, não é nada por aí além. O refrão, por sua vez, soa-me estranho, um bocadinho forçado.

 

Por outro lado, a letra de Caught in the Middle é aquela com a qual mais me identifico em todo o After Laughter. Há coisa de uns dois, três anos, estive numa situação semelhante à descrita nesta letra: incapaz de pensar no passado, nos sonhos que tinha, nas promessas que fizera a mim mesma, e que não tinham dado em nada; cheia de medo de pensar no futuro a médio/longo prazo. Ainda hoje, em dias maus, chego a regressar temporariamente a esse modo.

 

Felizmente, não era algo que interferisse assim tanto com a minha vida, que me impedisse de funcionar normalmente. O caso da Hayley terá sido bem mais grave – ao ponto de,como ela descreveu em entrevista, ter desistido temporariamente da banda, ter passado dias e dias a ver séries, sem sair da cama, ter tido mesmo um diagnóstico de depressão e ansiedade. Costuma-se dizer, de resto, que a depressão ocorre quando somos atormentados pelo passado e a ansiedade ocorre quando somos atormentados pelo futuro – mas isto, claro, é simplificar demasiado a questão.

 

Não posso deixar de falar daqueles que serão, de longe, os melhores versos neste álbum: “I don't need no help, I can sabotage me by myself”, cantados no melhor tom sarcástico de Hayley. Tenho vindo a perceber, nos últimos tempos, que também tenho uma tendência para me boicotar a mim mesma. Ando a tratar disso…

 

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Mas este álbum é a consulta no psicólogo da Hayley, não minha.

 

Tenho tido um relacionamento complicado com Idle Worship. Nesta música, encontramos uma Hayley cínica, amarga, mesmo enraivecida. Sob um instrumental mais sombrio que no resto do álbum, Hayley tece críticas à veneração que muitos fãs nutrem por ela.

 

Confesso que fiquei, um pouco, com as orelhas a arder. Já passei há muito a fase de ter ídolos absolutos. Dito isto, muitos de vocês já terão reparado que passo a vida a falar de Hayley como uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música, a minha guia espiritual. Sobretudo graças ao marcante álbum Self-Titled.

 

Mas não posso dizer que Hayley esteja errada – que não seja um fardo ter tanta gente idolatrando-nos. Não me custa, aliás, imaginar uma Hayley deprimida sentindo-se a anos-luz da carismática vocalista dos Paramore, que dominava os palcos com a sua voz, a sua energia e o seu cabelo cor de chama.

 

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Este pode, até, ser outro dos motivos pelos quais ela desistiu dos Paramore por algum tempo – por não se sentir capaz de voltar a ser a Hayley que todos conhecemos e adoramos.

 

Por outro lado, Idle Worship serve para nos recordar que, só porque Hayley é uma cantora excelente e bem sucedida, isso não significa que não tenha problemas, falhas, como toda a gente. O seu iminente divórcio é um bom exemplo disso. Não é de todo razoável exigir que ela seja sempre um exemplo a seguir, que faça tudo bem, que não cometa erros.

 

Até porque Hayley sabe perfeitamente que, nos piores momentos da banda, toda a gente se volta contra ela. Já aconteceu antes. Várias vezes.

 

Devo dizer, no entanto, que Hayley não é uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música por achar que ela é (ou deveria ser) sempre perfeita, carismática, glamourosa – essa criatura, se existisse, não teria nada a ver comigo. Ela é uma das minhas preferidas porque é humana, com falhas e dificuldades tal como todos nós – e porque transfere a sua humanidade para a sua música.

 

  

No Friend é uma música que demorei algum tempo a compreender. Quando a ouvi pela primeira vez, cheguei a pensar que era um glitch ou algo do género – com o seu riff de guitarra repetitivo e os vocais masculinos que mal se conseguem ouvir. Consta, então, que foi co-composta e interpretada por Aaron Weiss, dos MeWithoutYou (que Hayley refere como a sua banda preferida). Os Os registos originais no site da ASCAP indicam que esta foi composta como um outro para Idle Worship – e de facto notam-se algumas semelhanças no instrumental. A letra torna, além disso, a pegar no tema da veneração tóxica.

 

Muitos fãs têm estranhado a música, eu incluída. No entanto, está a acontecer comigo o mesmo o que aconteceu com Future, no Self-Titled: de início, também não gostava, mas acabei por compreender o seu propósito.

 

A minha teoria é que os membros oficiais dos Paramore, Hayley sobretudo, a certa altura, precisaram de exorcizar demónios no que diz respeito à história turbulenta da banda. Precisaram de alguém de fora que dissesse coisas que eles, provavelmente, sentem, mas que não têm coragem de dizer eles mesmos. E a letra escrita por Aaron Weiss acaba por fazer referências a vários temas da discografia dos Paramore. No Friend não é, de todo, uma das minhas canções preferidas em After Laughter, mas compreendo a sua inclusão no álbum.

 

Até porque, ao deitar toda a raiva cá para fora, abre-se caminho a Tell Me How: o momento mais vulnerável em After Laughter.

 

  

Tell Me How é conduzida por notas de piano, ao qual se juntam notas de guitarra e uma bateria discreta, tudo muito suave. Na mesma linha, os vocais de Hayley são graves, quase sussurrados, magoados.

 

Fora de contexto, poder-se-ia pensar que a letra se refere a uma separação amorosa. No entanto, para uma pessoa minimamente informada sobre a situação da banda ao longo dos últimos anos, fica claro que a letra sobre Jeremy. Hayley chora (mais uma) amizade que perdeu, as infinitas mudanças na banda, o eterno ciclo de destruição e reconstrução dos Paramore. Uma das frases que se destaca em Tell Me How é a que reza “Of all the weapons you fight with, your silence is the most violent”.

 

Suponho que esta seja a parte da Hayley que desistiu da banda durante algum tempo.

 

A ideia com que fico é que, em Tell Me How, Hayley se encontra numa encruzilhada. Não só sem saber se deve continuar nos Paramore ou não, mas também sem saber se deve continuar a debater-se com o passado, a tentar descobrir onde é que errou, ou se deve seguir com a sua vida.

 

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Gosto de pensar que Hayley escolheu a segunda opção, que é a isso que se referem os versos finais. Tell Me How (e o próprio álbum After Laughter) termina com Hayley dizendo “I can still believe” – uma nota de esperança encerrando um álbum bastante deprimente, na sua maioria.

 

After Laughter não é tão bom (ou melhor, não é tão arrebatador) como o Self-Titled, mas também não estava à espera que fosse. É, no entanto, tão intricado e introspetivo como são os álbuns anteriores. E as referências a problemas de saúde mental – ainda muito pouco falados e cheios de preconceitos – tornam-no ainda mais relevante.

 

Aquilo que mais impacto me tem causado, no que toca a After Laughter, é a mudança na mensagem relativamente ao Self-Titled. Tal como escrevi na altura, este último é um álbum de sobreviventes, de vencedores, um álbum otimista, confiante no futuro. Admito mesmo que esse espírito me contagiou, a certa altura na minha vida. Fez-me sentir igualmente confiante, otimista, convencida de que já sabia como a vida funcionava, qual era o meu lugar no mundo.

 

É óbvio, agora, que a realidade havia de nos atingir, mais cedo ou mais tarde. No caso da banda, isso veio na forma da desistência de Jeremy e talvez mesmo na separação de Hayley.

 

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Esse, de resto, é o tema de After Laughter: o momento em que a batata quente nos explode nas mãos sem que estivéssemos à espera. O momento após uma gargalhada em que regressamos ao mundo real.

 

O facto de a banda, ao que parece, ter deixado para trás os elementos emo/pop punk tem causado controvérsia entre os fãs e não só. Era de esperar. Pessoalmente, admito que terei algumas saudades das guitarras pesadas em Paramore. À parte isso, a mudança de estilo não me incomoda, porque as músicas são boas. Estão muito bem feitas, com vários elementos que não se notam à primeira audição, com boas letras. O rótulo que os demais queiram colocar neste estilo musical é irrelevante.

 

O regresso dos Paramore às luzes da ribalta, de resto, tem-me feito redescobrir – mais uma vez – a discografia deles. Em particular o primeiro, All We Know Is Falling. Estou a descobrir que a tensão, os conflitos, a instabilidade fazem parte do DNA dos Paramore. O seu primeiro álbum foi maioritariamente inspirado pela desistência de um membro, Jeremy (a primeira, apenas temporária). Músicas desse álbum, como a homónima All We Know, Pressure, Here We Go Again, Conspiracy continuam a aplicar-se bem à banda, sobretudo nos momentos mais turbulentos.

 

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Os Paramore bem podem dizer que, agora, estão mais fortes do que nunca e tal, mas eu já ouvi essa antes – e só os acompanho a sério desde finais de 2010! Fãs mais antigos já devem ter ouvido esta mais vezes. Estou cada vez mais convencida de que a banda nunca terá estabilidade. Poderá chegar o dia em que termine de vez – ou, pelo menos, em que entre num hiato prolongado.

 

Depois de ter escrito sobre Riot! há dois anos, planeava escrever sobre Brand New Eyes pouco tempo depois. Confesso que tencionava tecer duras críticas aos membros da banda, por terem dito que a criação daquele álbum tinha resolvido os conflitos dentro do grupo. O que claramente não era verdade – conforme provado pela saída de Josh e Zac.

 

No entanto, depois de Jeremy ter saído da banda, fiquei sem coragem para escrever sobre isso – porque teria de admitir que o Self-Titled, um dos álbuns da minha vida, era igualmente “mentiroso”.

 

Só agora, mais de um ano e meio após a partida de Jeremy, em que começo a aceitar a eterna instabilidade da banda, é que me sinto em condições de escrever sobre Brand New Eyes. Não será a curto prazo – talvez daqui a uns meses.

 

Já agora, um aparte sobre os meus planos imediatos para o blogue. Tenho ainda dois álbuns lançados recentemente sobre os quais quero escrever. Um deles é One More Light, dos Linkin Park (Alerta Spoiler: gostei mais do que estava à espera mas, mesmo assim, não por aí além). O outro é Melodrama, de Lorde (Alerta Spoiler: A miúda não desiludiu, de todo). Espero não me demorar muito tempo com estes textos.

 

Quanto aos Paramore, ainda que esteja algo cética relativamente ao futuro da banda, espero, no entanto, que os próximos tempos sejam mais felizes para a Hayley, o Zac e o Taylor.

 

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