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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Avril Lavigne - Under My Skin (2004)

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Completam-se hoje onze anos desde a edição de Under My Skin, o segundo álbum de estúdio de Avril Lavigne, lançado dois anos depois do grande sucesso que foi Let Go. Não sendo um dos álbuns mais aclamados pela crítica, é um dos mais populares entre a comunidade de fãs, sobretudo os mais antigos. Não é o meu caso, apesar de ter sido o primeiro álbum que eu ouvi da Avril. Vou arriscar-me, aliás, a irritar muitos fãs, pois tenho uma série de defeitos a apontar a este CD. Fica, desde já, o aviso.

 

Under My Skin é o disco mais sombrio de toda a carreira de Avril até ao momento, em contraste com o seu antecessor e ainda mais com o seu sucessor. Depois de não ter tido tanta liberdade criativa como desejava com Let Go - já foi difícil deixarem-na de todo compor - em Under My Skin, ela teve muito mais controlo, escolhendo ela mesma os co-compositores e os produtores com quem queria trabalhar. Ela chegou a dar a entender que, por sua vontade, Let Go seria muito parecido com aquilo que Under My Skin se tornou. Este é um álbum muito guiado por guitarras eléctricas pesadas e piano - um instrumento ausente em Let Go. Avril explora o seu lado mais sombrio - que pelos vistos consiste muito em break up songs. Numa altura em que os Evanescence eram uma das autoridades do rock, a cantora chegou a ser comparada a Amy Lee - até mesmo pela imagem algo gótica que adotou, bem como pela estética do álbum.

 

 

 

Tal como na crítica a The Best Damn Thing, vou começar pelas minhas faixas preferidas. Com Under My Skin, estas têm mudado com o tempo, mas aquela que se tem mantido sempre no top é Freak Out. Não há mais nenhuma canção como esta em toda discografia da Avril. É um hino de rebeldia, de viver a vida ao máximo, caracterizando bem a imagem roqueira de Avril nos seus dois primeiros álbuns. É verdade que existem outras faixas da cantora com a mesma mensagem, sobretudo nos álbuns mais recentes, mas são temas bem mais pop, sem a personalidade de Freak Out. Composta durante a digressão de Let Go, Freak Out, tem algumas das melhores guitarras e bateria de toda a carreira da Avril (o seu antigo baterista, Matt Brann, aparece inclusivamente nos créditos da composição), dando vontade de abanar o capacete. O único defeito de Freak Out é, nalguns momentos, assemelhar-se demasiado a Don't Tell Me.

 

Fall to Pieces é outra que se tem destacado neste álbum, sobretudo nos primeiros anos. Na altura em que ouvi Under My Skin pela primeira vez, a ideia que eu tinha da Avril era a imagem da menina durona, desiludida com o amor, que eu via nos videoclipes recentes. Fall to Pieces foi a primeira canção de amor, preto no branco, que eu conheci da Avril e, numa altura em que eu andava apaixonada (ou assim julgava), isso significou muito. A letra é confusa (um problema recorrente neste álbum, como procurarei demonstrar), penso que reflete o momento em que a narradora decide deixar cair as barreiras e entregar-se ao amor. É difícil ter a certeza. No entanto, a emoção está toda lá, o que faz com que, mesmo depois destes anos todos e de uma série de canções de amor melhor conseguidas, continue a apreciar Fall to Pieces.  Esta faixa esteve quase para ser lançada como single, com direito a videoclipe, no entanto, mudaram de ideias à última hora e Fall to Pieces limitou-se a ser apenas single radiofónico em alguns países, incluindo os Estados Unidos. É pena, acho que teria sido uma boa adição à galeria de singles e eu, na altura, adorá-lo-ia.

 

Take Me Away é uma música que eu, no início, não gostava particularmente, mas que aprendi a apreciar depois de começar a ouvir música mais pesada, como Linkin Park. Não sei se Ben Moody colaborou nesta música, mas a mim recorda-me muito Bring Me to Life, dos Evanescence. Outra comparação é o tema de Tru Calling, Somebody Help Me. Take Me Away começa com um arpejo de guitarra interessantes, que se torna a imagem de marca da música. A meio das estrofe, esse arpejo transforma-se em acordes fortes, que dominam o refrão. Também gosto da orquestra, mais evidente na terceira estância, que empresta um caráter gótico à música. Por fim, adoro, absolutamente adoro, o final da canção, com bateria e as guitarras enlouquecidas - é um dos melhores de toda a discografia da Avril. A letra não é brilhante, mas é um tudo nada mais sólida que a média do álbum, descrevendo um momento de confusão, desespero, em que se procura ajuda. Reflete bem várias situações em que, muitas vezes, as minhas personagens se veem, daí que seja uma das minhas canções de escrita favoritas. Tal como com Freak Out, gostaria que a Avril regressasse um dia a este estilo. 

 

 

Who Knows contrasta com o tom sombrio da maioria do álbum. Assemelhando-se, em termos de sonoridade, a uma Complicated mais roqueira, com uma letra que, mesmo assim, deixa algo a desejar. Who Knows transmite uma mensagem de otimismo, de atitude positiva perante a vida, ao mesmo tempo que descreve o início de um relacionamento em que parece ainda existir alguma hesitação da outra parte. Quando penso em Who Knows, penso na extraordinária atuação na cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2006, que mostro acima.

 

How Does it Feel assemelha-se em muitos aspetos a uma continuação de I'm With You: é uma balada rock, tocada em tom grave, com uma instrumentação semelhante à grande balada de Let Go, com a adição de uma orquestra. A minha parte preferida é a que se segue ao segundo refrão, em que os violinos sobem de tom e, por altura da terceira estância, soam batidas épicas de bateria. A letra é simples, mais uma vez, mas desta feita isso funciona bem pois tem uma estrutura. Também aqui se notam as semelhanças com I'm With You, pois a letra fala de solidão, isolamento, procura de consolo, desenhando até uma imagem semelhante ao videoclipe do single de Let Go. É o género de letra com que toda a gente que tenha passado por um momento de desânimo se identifica. How Does it Feel é uma canção triste, mas não incorre nos exageros de outras canções deste álbum. Na verdade, agora que a analiso, reconheço que tenho andado a subestimá-la nos últimos anos.

 

Slipped Away vai na mesma linha que How Does it Feel: triste, sem ser demasiado dramática. Ou talvez ajude sabermos exatamente sobre quem é esta canção - o avô de Avril, falecido enquanto ela estivera em digressão. A letra faz lembrar Goodbye na sua crueza e simplicidade (excessiva simplicidade, diga-se. Ela não se lembrou de algo melhor que "Oh, it's so sad"?) mas, mais uma vez, Avril consegue transmitir exatamente o que sente na sua voz. O arranjo musical assemelha-se ao de outras baladas deste álbum: piano, guitarras elétricas (se me recordo corretamente dos créditos, Avril tocou guitarra nesta música, sendo esta a primeira vez que grava instrumentos para os seus álbuns), orquestra.

 

 

 

Os dois primeiros singles de Under My Skin contribuíram para o meu desejo de adquirir o CD (ou melhor, de pedi-lo para o Natal). Conforme já havia dito aqui, Don't Tell Me foi um dos primeiros videoclipes da Avril que conheci. A canção terá sido composta ainda antes do lançamento de Let Go. Arrisco-me a especular se terá sido gravada na mesma altura, pois nesta o timbre da voz dela está mais parecido com o do primeiro álbum. Não sendo uma das minhas preferidas da Avril, Don't Tell Me sempre me causou respeito pela sua mensagem de poder feminino, de amor-próprio, estimulando as jovens a não se rebaixarem perante os companheiros, em termos sexuais e não só. Uma mensagem cada vez mais relevante, sobretudo agora que a igualdade de género é um assunto, felizmente, cada vez mais debatido.

 

My Happy Ending foi outra das primeiras que conheci da Avril. Não só via o seu videoclipe na televisão com frequência ao longo de 2004, como ouvia-a uma série de vezes na rádio (saudades...). É mais uma break up song, com uma letra que também deixa a desejar (não começam a notar uma tendência aqui?), mas com uma interpretação vocal extremamente emotiva e cativante. Durante os primeiros anos como fã de Avril, My Happy Ending foi uma das minhas músicas preferidas. Ainda que não tenha envelhecido muito bem, com tanta break up song que a Avril lança em todos os álbuns, My Happy Ending mantém-se como um grande clássico da carreira da cantora.

 

Já falei sobre Nobody's Home aqui. Continuo a achar que foi uma oportunidade desperdiçada por causa - mais uma vez - da letra. Esta é também o calcanhar de Aquiles do outro single de Under my Skin, He Wasn't. Esta é uma faixa que se destaca do resto do álbum pelo seu tom acelerado, relativamente descontraído, ainda que não tão alegre como, por exemplo, Sk8er Boi. He Wasn't foi daquelas que, de início, não me cativou muito, mas passei a gostar, sobretudo depois da edição de The Best Damn Thing. He Wasn't tem uma série de momentos rock 'n' roll de abanar o capacete, como os "hey! hey! hey!", sendo a terceira estância a minha parte preferida. Com o tempo, tornar-se-ia um dos pontos altos dos concertos da Avrl, por ser uma faixa que envolve o público no espetáculo com facilidade. Agora que penso nisso, He Wasn't representa precisamente aquilo que Avril pretendia fazer com o álbum The Best Damn Thing: uma canção sem grande significado, mas que põe toda a gente a saltar durante um concerto.

 

 

 

 

Muitos críticos argumentaram, aquando da edição de Under My Skin, que He Wasn't representava verdadeiramente a Avril, não tanto o resto do álbum. O tempo deu-lhes razão pois a própria Avril revelou que se cansou relativamente depressa do estilo sombrio de Under My Skin - segundo entrevistas, um ano depois de lançar o seu segundo disco (ou talvez ainda antes), já não se revia em músicas como Together e Forgotten. Mais um ano passaria e ela começaria a gravar The Best Damn Thing.

 

O que me leva às músicas que faltam analisar: Together e Forgotten. Ambas são break up songs, conduzidas por piano, acompanhadas por guitarra elétrica nos refrões, cantadas num tom dramático. Em defesa da Avril, conforme tenho vindo a dizer, ela consegue transmitir muito bem as emoções que quer na maneira que canta: dor, amargura, raiva. As letras vagas é que minam a credibilidade das canções. Together fala, amargamente, de um relacionamento que não está a resultar. Forgotten também fala de uma separação, alternando entre dor e raiva quase psicótica (quando oiço a parte "I won't be forgotten. Never again!", imagino-a dando um tiro ao desgraçado que a magoou). Na altura em que The Best Damn Thing foi editado, eu dizia que músicas como Girlfriend tinham pouco a ver comigo. No entanto, se fosse sincera comigo mesma, teria de admitir que também Together e Forgotten pouco me diziam.

 

O problema de Under My Skin é semelhante ao de The Best Damn Thing: ir ao extremo. Conforme referi na respetiva crítica, TBDT exagera na futilidade. Under My Skin exagera no dramatismo. Ao contrário da futilidade, o dramatismo nem sequer é coerente com a personalidade da Avril. Se isso já é suficiente para se questionar a credibilidade deste estilo musical, as letras vagas e, muitas vezes, mal amanhadas não ajudam. Considero, aliás, que em termos de letras este é o pior álbum da Avril. Compreendo que este dramatismo possa ter sido catártico para os fãs, sobretudo durante os anos difíceis da adolescência e que esta era - em que a Avril era quase cem por cento rock, em contraste gritante com o cor-de-rosa The Best Damn Thing - seja particularmente acarinhada. A situação recorda-me, até, a primeira geração do Pokémon: a nostalgia tolda os factos. Não que isso seja uma coisa má, porque não o é - se virem outras entradas do meu blogue, eu não sou cem por cento factual nas minhas análises - mas pelo menos para mim não é suficiente para esquecer as falhas e os aspetos que não resistiram muito bem ao teste do tempo. 

 

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Dito isto, eu não me importava de ter um novo álbum neste género, mais rock do que pop, desde que as letras sejam melhores. Posso ter tecido várias críticas ao álbum Avril Lavigne, mas este tem como grande força ter representado um salto qualitativo em termos de letra muito necessário, deixando boas indicações para trabalhos futuros. 

 

A verdade é que, nesta altura da minha vida, preciso de álbuns um tom diferente de Under My Skin, álbuns com maior equilíbrio entre luz e escuridão, em vez de melodramáticos. Álbuns como Goodbye Lullaby, Paramore, Out of Ashes, que falam de crescimento, esperança, sobrevivência. O primeiro é o meu segundo preferido da Avril precisamente por, apesar de ser triste nalguns momentos, essa tristeza é colocada em perspetiva, procura-se aprender com ela, saber que ela não nos vai vencer, sair-se mais forte. E essa, mais do que o dramatismo excessivo de Under My Skin, é uma mensagem importante, sobretudo para a comunidade adolescente.

Hábitos de Leitura

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Há cerca de um ano e meio respondi a uma TAG sobre livros. Hoje volto a fazer o mesmo, desta feita à TAG Hábitos de Leitura que vi no blogue Coisa de Menina. Sabe sempre bem escrever sobre livros. Tal como com os Livros Opostos, vou adaptar as perguntas ao português de Portugal. E a primeira é:

 

1) Tens um lugar específico para ler?

 

Eu ler, leio em qualquer lado (hei de falar melhor sobre isso mais à frente), mas o meu sítio preferido para ler é a minha cama. Como quase toda a gente, gosto de ler qualquer coisa antes de dormir.

 

2) Marcador de página ou papel aleatório?

 

Muitos dos livros que leio têm abas nas capas, o que resolve a questão do marcador. Quando não têm, gosto de ter marcadores bonitinhos mas, na prática, é raro tê-los à mão. Acabo por usar folhas soltas dos meus cadernos, com apontamentos e/ou rascunhos da minha escrita. 

 

3) Consegues simplesmente parar de ler ou páras sempre no fim do capítulo ou num certo número de páginas?

 

Depende do livro. Os capítulos podem ser traiçoeiros. Na teoria, servem para dividir a história em episódios. Na prática, um escritor que queira criar um livro viciante, evitará fazer do final de um capítulo um bom momento para pousar o livro, antes pelo contrário. Na triologia Paradox, a autora segue esta filosofia demasiado à letra - a partir de certa altura, quando uma pessoa se aproxima do final de um capítulo, fica logo à espera do acontecimento bombástico que deixa tudo num cliffhanger.

 

4) Comes ou bebes durante a leitura?

 

Às vezes. O mais frequente é beber um café ao mesmo tempo. De vez em quando, como um pequeno snack (um iogurte, uma peça de fruta, uma sandes, uma taça de cereais...). Ler durante uma refeição principal é que é muito raro.

 

5) Ouves música ou vês televisão enquanto lês?

 

Música, de vez em quando. Quando li A Herança pela primeira vez, montei uma playlist a condizer. E sou capaz de jurar que estava a ouvir When You're Gone, de Avril Lavigne, quando li o capítulo "A História do Príncipe" em Harry Potter e os Talismãs da Morte pela primeira vez - mas é possível que tenha sido só na minha cabeça. Estas, no entanto, foram situações pontuais. Geralmente, não há relação entre a música que estou a ouvir e o livro que estou a ler.

 

Televisão, regra geral, só quando estou a fazer companhia a alguém (geralmente os meus pais) e o programa não me interessa particularmente - nos últimos tempos, costumam ser episódios de séries que os meus pais estão a ver pela primeira vez, mas que eu já vi. Quando é um programa que me interessa, não leio.

 

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6) Só lês em casa ou lês em qualquer lugar?

 

Em qualquer lugar. Em minha casa, em casa alheia, no café, nos transportes públicos (exceto o autocarro, porque enjoo), na praia, etc. Agora é mais fácil porque tenho smartphone e um Kobo, mas mesmo antes não era raro andar de um lado para o outro com um livro na mala ou na mochila.

 

7) Lês em voz alta ou em silêncio?

 

Eu detesto ler em voz alta. A minha oralidade é péssima (porque acham que escrevo tanto?). Só se for para ler uma história a uma criança. Tirando isso, não obrigado.

 

8) Lês tudo de seguida ou saltas páginas?

 

Quando leio um livro pela primeira vez, geralmente leio tudo, do início ao fim. Se estiver a reler um livro, posso eventualmente saltar algumas partes. Também não é raro eu pegar num livro que já conheço e ler só as minhas partes preferidas. Eu sou um pouco viciada em leitra, gosto de ter quase sempre qualquer coisa para ler, mesmo que sejam obras que já li quinhentas vezes.

 

9) Manténs o livro como novo ou partes a lombada?

 

Infelizmente, não dou o melhor exemplo no que toca a conservação de livros. Partir a lombada é algo frequente pois, muitas vezes, tento manter os livros abertos em cima da mesa. Com o tempo fui aprendendo a ter mais cuidado, mas, por exemplo, os nossos primeiros livros do Harry Potter estão muito maltratados. Também devo dizer que a qualidade de muitos exemplares deixa muito a desejar.

 

10) Escreves nos livros?

 

Tive uma fase, quando era miúda, em que escrevia um ou outro comentário nos livros e mesmo um ou outro desenho, mas foi só uma meia dúzia de vezes. À parte isso, os únicos livros em que escrevi foi os que estudei em Português, com os apontamentos das aulas (saudades de ouvir o meu professor do Secundário a ler...). Apontamentos esses que, depois, foram aproveitados pelos meus irmãos quando chegou a vez de eles os estudarem.

 

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Quem quiser pegar, também, na TAG, que esteja à vontade. Deem só os respetivos créditos e deixem o link nos comentários, para eu espreitar as respostas. Estou sempre disponível para este género de TAGs - é uma desculpa para escrever sobre coisas diferentes do habitual aqui no blogue.

 

Continuem desse lado.

Avril Lavigne - The Best Damn Thing (2007)

Uma das ideias que tenho para ir mantendo o blogue em funcionamento diz respeito a críticas retrospetivas de álbuns marcantes dos meus artistas preferidos. Seria também uma forma de revisitar músicas a que, ultimamente, não tenho dado muita atenção. Eu peço desculpa pela falta de variedade, mas os primeiros álbuns de que quero falar nesta categoria são os três de Avril Lavigne de que ainda não falei. A minha intenção era publicar as respetivas análises retrospetivas no aniversário dos lançamentos, mas o lançamento de Fly trocou-me as voltas relativamente a The Best Damn Thing (o single foi lançado no oitavo aniversário do terceiro álbum de Avril).

 

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The Best Damn Thing é o terceiro álbum de estúdio de Avril Lavigne e um dos mais controversos entre os fãs. Até aqui, Avril era marketeada como uma anti-pop star. Depois deste álbum, sobretudo com Girlfriend, esse rótulo foi ao ar. As consequências desta mudança foram diversas: se Girlfriend é o single dela com mais sucesso até ao momento (não, não é Complicated nem Sk8er Boi. Eu sei, custa a acreditar...) e este é um dos álbuns mais premiados dela, atraindo imensos fãs novos, também fez com que muitos fãs antigos batessem em retirada e, a longo prazo, arruinou o relacionamento da cantora com as editoras discográficas. E fez-me olhar com cinismo para outras anti-pop stars, como Adele e Lorde. 

 

Pela parte que me toca, a edição deste álbum teve grande impacto em mim. Depois de ter descoberto Let Go e Under my Skin com algum atraso, The Best Damn Thing era o primeiro CD cujo lançamento eu acompanhava como deve ser - o que, na altura, foi importante para mim. E ainda é. Numa altura em que ainda não sabia sacar músicas, nem fazia do que era o iTunes, descobri que o site onde podíamos ver os sketches do Gato Fedorento (a.k.a. YouTube), também tinha áudio de Keep Holding On e Girlfriend, e ouvia-as sempre que podia. Tentava replicar a capa do álbum, em que ela aparece enrolando uma madeixa de cabelo no dedo. Desenhava o símbolo do álbum (um coração com dois ossos cruzados atrás) nas margens dos meus cadernos da escola com o número de dias que faltavam para o CD ser posto à venda. Quando finalmente o álbum foi editado, fiz questão de ir comprar o CD no próprio dia em que saiu - naquela altura, os CDs ainda chegavam a tempo às lojas, sem os atrasos que há hoje. Ainda me lembro de muitos aspetos desse dia 16 de abril de 2007 (embora o lançamento oficial tenha sido no dia seguinte), desde o que pensei exatamente quando ouvi certas músicas pela primeira vez, até à hora aproximada a que comprei o CD e a roupa que vestia (o meu cérebro, senhoras e senhores!) Ao longo dos meses seguintes, e mesmo depois, andei obcecada com o álbum e com a própria Avril. Tendo coincidido com a altura em que ia aprendendo a escrever ficção, várias das músicas deste álbum inspiraram-me na escrita. Hoje sei que a maneira como eu encarava o álbum na altura era muito alimentada pelo hype. Como terá o álbum se saído no teste do tempo?

 

Segundo declarações da Avril na altura, o principal objetivo do seu terceiro álbum era produzir músicas animadas, enérgicas, ideais para concertos ao vivo - até àquele momento, as únicas que se encaixavam nesse critério eram Sk8er Boi e He Wasn't (isto se não contarmos com as b-sides I Don't Give e I Always Get What I Want, que tinham feito parte da setlist de alguns concertos). Deixando um pouco de lado o cunho autobiográfico que marcara fortemente os dois primeiros álbuns, o principal foco de Avril com The Best Damn Thing era divertir-se - não é um álbum para ser levado à letra ou demasiado a sério, uma lição que foi necessário aprender perante canções tão fúteis e vazias de sentido como Girlfriend, I Can Do Better e I Don't Have to Try (embora Hello Kitty faça estas últimas parecerem tratados filosóficos).

 

 

Mesmo dentro deste estilo descontraído, festivo e superficial, The Best Damn Thing tem uma série de boas canções. A minha preferida é Runaway. Tem claros ecos de Let Go, uma letra com que toda a gente se identifica, uma melodia cativante na tradição do bom pop rock, bateria de Travis Barker, dos Blink 182, e uma das melhores guitarras de todo o álbum - não descansei enquanto não aprendi a tocá-la.

 

Outra de que gosto muito é Contagious - era para ser gravada pelo guitarrista Evan Taubenfeld, que ajudou a compô-la, mas chegaram à conclusão que a Avril cantava-a melhor. É uma faixa curtinha, com uma letra simples, de amor (acabando por ser uma predecessora de Smile e You Ain't Seen Nothing Yet), mas incrivelmente alegre e... bem, contagiante.

 

A faixa que a antecede, One of Those Girls, acaba por ser parecida: animada sem cair nos excessos de futilidade de outras músicas. A letra foge ao habitual na música da Avril ao contar a história de uma caçadora de fortunas. Não a distinguiria particularmente de outras canções deste álbum não fosse um pormenor: o bridge. Tal como acontece com frequência neste álbum, este apresenta traços de rap - no entanto, é o melhor conseguido de todo o disco. Foi um golpe de génio colocarem backvocals sem palavras ao mesmo tempo que, no fim de cada verso, emprestam melodia à última palavra. É uma faixa algo subvalorizada, One Of Those Girls, ficando na sombra de outras músicas mais ostensivas neste álbum.

 

 

Hot é o meu single favorito de The Best Damn Thing. Nesta canção, Avril mostra-se um pouco mais madura do que na maioria das músicas do resto do álbum, explorando (pela primeira vez na sua carreira) o seu lado mais sensual, mais glam rock. Foi a primeira música mais ostensivamente sexy de que gostei a sério. Na altura em que saiu, encontrei algumas semelhanças com Say it Right, da sua conterrânea Nelly Furtado. 

 

A faixa-título The Best Damn Thing, não sendo uma das minhas preferidas, tem o seu quê de irresistível. Considerada por muitos uma Girlfriend 2.0 (embora, tanto quanto me recordo de entrevistas, tenha sido composta muito antes, em finais de 2004), é um hino para meninas mimadas, mas a verdade é que reflete os valores antiquados que a Avril já afirmou várias vezes ter: exigir que o companheiro a trate como uma princesa. Tem, na minha opinião, um dos refrões e pré-refrões mais bem conseguidos de todo o álbum. Ouvindo agora, é inevitável comparar com a mais recente Shake it Off, de Taylor Swift - e, de resto, não é a primeira vez que essa cantora imita a Avril. 

 

Falar das baladas de The Best Damn Thing é quase como falar de outro álbum, completamente diferente. São estas que melhor mostram o amadurecimento de Avril como compositora. Muitos críticos na altura afirmavam que era neste estilo musical que Avril realmente brilhava e é difícil discordar. Eu mesma afirmei recentemente que, neste género de música, Avril raramente erra.

 

 

A de que gosto menos é When You're Gone e é só porque é menos melodiosa que as outras baladas, incluindo a b-side I Will Be. É o único defeito pois, na altura e que saiu, a canção tocou-me profundamente, sobretudo depois de sair o videoclipe. Não fui a única e a faixa foi, inclusivamente, usada em várias bandas sonoras, incluindo nos Morangos com Açúcar (belos tempos...). Mesmo assim, acabei por ficar a gostar mais de I Will Be. Esta tem muitas semelhanças com When You're Gone, tanto em termos de letra como em termos musicais, mas, no cômputo geral, I Will Be está melhor conseguida. Não quero alongar-me muito, pois I Will Be merece uma entrada de Músicas Ao Calhas que hei de escrever, um dia destes.

 

Já falei aqui no blogue sobre as outras duas baladas de The Best Damn Thing (sobre Innocence aqui). Keep Holding On é, provavelmente, a faixa deste álbum que melhor se saiu no teste do tempo. Conforme já expliquei aqui, a música faz parte da banda sonora do filme Eragon, tendo sido lançada em finais de 2006. Mesmo sem videoclipe e sem grande promoção, saiu-se bem na rádio da altura. Aquando da edição de The Best Damn Thing, Avril subestimou criminosamente Keep Holding On ao excluí-la da setlist da maioria dos concertos - nesta altura, ela favorecia ostensivamente as músicas mais compatíveis com o conceito de TBDT, pelo que as baladas eram deixadas um pouco de lado. Keep Holding On, no entanto, foi capaz de se safar sozinha nos anos que se seguiram, sobretudo após se tornar uma das músicas de marca da série Glee. A própria Avril aprendeu a dar valor à música, sobretudo quando esta se tornou um dos hinos da sua Fundação - isto é, antes de Fly.

 

 

 

Quanto a mim, Keep Holding On continua a ser uma das minhas preferidas da Avril, ocupando um lugar especial no meu coração desde que a ouvi pela primeira vez. Isto porque a mensagem da música - sobre amizade e capacidade de resistência - adaptava-se perfeitamente à história que eu andava a escrever na altura. Temas que ainda hoje permanecem na ficção que escrevo.

 

Se Keep Holding On me deixou totalmente satisfeita na altura em que foi lançada, com Girlfriend a história foi diferente. Não tinha nada a ver comigo (e ainda não tem), mas era uma música tão, mas tão contagiante. É uma posição que se manteve até hoje. Há quem diga que, da mesma maneira como Let Go estimulou outras cantoras a aventurarem-se pelo rock, Girlfriend deu permissão a outras cantoras para se aventurarem no pop politicamente incorreto, ajudando, assim, a criar as Katy Perry, Nicky Minaj, Ke$ha e Meghan Trainor desta vida - embora eu ache que podíamos, perfeitamente, passar sem tais criaturas.

 

Para além de Girlfriend, duas faixas gritantes (em vários sentidos) neste álbum são I Can Do Better e I Don't Have to Try, mais exemplos da futilidade extrema que, na minha opinião, estraga o disco. I Can Do Better equivale praticamente a uma noite de bebedeira pós-separação - a música até fala de Limoncello! A própria Avril admitiu tê-la gravado bêbada, algo que se nota.

 

Um aparte só para confessar que I Can Do Better me deixou com vontade de provar Limoncello, algo que consegui fazer há uns anos. É bom.

 

 

I Don't Have to Try vai na mesma onda que I Can Do Better, com uma mensagem de "quem manda aqui sou eu". Esta faixa seria perfeitamente esquecível, sobretudo passados estes anos todos, se não fossem uma série de elementos muito bem conseguidos: o rap introdutório, o solo de guitarra (adoro-o desde o primeiro momento em que ouvi a canção), os backvocals no segundo e terceiro refrões ("don't have to! don't have to! to make you! to make you!"), o grito à punk rock.

 

Por fim, Everything Back But You é uma faixa gravada para o Under My Skin, mas que Avril considerou mais adequada ao The Best Damn Thing. Na verdade, sinto-me parva por só o ter percebido depois de Avril revelar esse pormenor, mais de um ano depois de publicar a faixa. Os sinais estão todos lá: a voz de Avril soa diferente do resto do álbum, mais parecida com o timbre de Under My Skin. Essa diferença é mais evidente na versão censurada da música - os "hey hey" soam completamente diferentes do resto. Everything Back But You tem um som punk rock muito clássico, gosto do solo de guitarra e do baixo, mas confesso que foi das primeiras faixas de The Best Damn Thing de que me cansei - a partir de certa altura, uma pessoa farta-se de infinitas break-up songs (e pensar que a Taylor Swift ainda deve ser pior...).

 

Conforme disse antes, este álbum foi um game changer para a carreira da Avril. A mudança foi mais em termos de imagem e marketing do que propriamente musical, pois The Best Damn Thing não é tão pop como é pintado. Pelo menos não é muito mais pop que o Let Go, muitos poderiam argumentar que acontece precisamente o oposto. E, definitivamente, o quinto álbum é o mais pop da carreira da cantora.

 

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A própria Avril, em si, era a mesma que conhecíamos - aliás, os fãs podem dizer o que quiserem sobre este álbum e esta era, mas a verdade é que The Best Damn Thing reflete melhor a personalidade de Avril que Under My Skin. Eu, na verdade, sempre senti dificuldades em conjugar o tom sombrio do segundo álbum com a menina divertida e amalucada dos vídeos de bastidores. Pode-se argumentar que a Avril devia ter previsto a controvérsia que o este álbum causaria (os Paramore, pelo menos, sabiam no que se estavam a meter quando lançaram o álbum homónimo), mas não creio que isso mudasse alguma coisa. Uma das coisas que mais respeito na Avril é a sua ausência de pretensão, a sua genuinidade. Ela não sente necessidade de provar nada, ela faz aquilo que entende com a sua música, não o que esperam dela. Para o melhor e para o pior.

 

E a verdade é que, por muitos defeitos que este álbum tenha, com The Best Damn Thing, Avril arriscou, re-inventou-se, apresentou uma nova faceta da sua música. Fê-lo, de resto, nos três álbuns que se seguiram à sua estreia, com Let Go. Mas não o fez com o seu álbum homónimo. Daí que este me tenha desiludido. 

 

Confesso que, mesmo passados estes anos todos, ainda não tenho uma opinião definida sobre esta mudança na carreira da Avril. A maior desvantagem foi, sem dúvida, o facto de este álbum ter complicado o relacionamento dela com as gravadoras, levando a um fraco desempenho comercial dos álbuns que se seguiram. À parte esse aspecto, lembro-me de ter decidido, já algum tempo depois da edição de The Best Damn Thing, que gostava da pessoa que Avril se tornara. O cabelo loiro, o cor-de-rosa, as dançarinas, uma ou outra música mais fútil, tudo isso eram aspetos secundários.

 

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E a regra tem sido essa até agora. É certo que, sobretudo no ano passado, senti algum desgaste na carreira da Avril - começando a compreender os fãs que se tinham fartado dela - mas agora, com o lançamento de Fly, estou mais otimista. A minha esperança é que toda esta história com a sua doença a tenham tornado uma pessoa mais forte e madura e que isso se reflita na sua música. Avril pode ter chegado a uma fase em que não sente necessidade de ser tão autobiográfica na sua música, em que só quer divertir-se, mas - conforme aprendeu com Fly - basta verter um bocadinho do coração na sua música para esta salvar vidas. Mais do que faixas como Girlfriend, são músicas como Fly que têm potencial de viver para sempre.

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