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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

"Nowhere else on Earth I'd Rather Be" ou Bryan Adams ao vivo pela terceira vez

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Yep, aquela sou eu. Fonte: Blitz

 

Bryan Adams atuou no Pavilhão Atlântico (nunca me convencerão a chamar-lhe MEO Arena) na passada segunda-feira, dia 25 de janeiro. Eu e a minha irmã estivemos lá, quase na primeira fila (tinha uma pessoa à frente). Não podia deixar de falar do concerto aqui no blogue. 

 

NOTA: Eu não sei como é com vocês, mas eu não gosto de spoilers em relação a concertos. Prefiro não saber de possíveis setlists, de truques de palco, de ocorrências engraçadas em concertos anteriores, entre outras coisas, dentro do possível, claro. Gosto de ser surpreendida, de descobrir coisas pela primeira vez por mim mesma e não por testemunhos alheios ou vídeos do YouTube – como, por exemplo, quando descobri acerca do Pressure-flip dos Paramore quando estes vieram ao Alive em 2011. Uma vez que já se passaram uns dias desde os dois concertos em Portugal, em princípio este texto não estragará a surpresa a ninguém. No entanto, pode ser que alguém esteja a pensar a ir a uma das datas da digressão no estrangeiro. Para essas pessoas fica o alerta de spoilers.

 

Depois de, em 2011, termos ficado nas bancadas e detestado (se eu quisesse assistir a um concerto sentada, teria ficado em casa, no sofá, a ver o DVD Live in Lisbon. E as pessoas ao nosso lado pareciam estar a dormitar…) e também por uma questão económica (os preços subiram imenso em apenas quatro anos, é uma coisa parva), este ano quisemos ir para a plateia. Para arranjarmos lugares decentes, chegámos lá com duas horas de antecedência (mas também pensávamos que o concerto começava meia hora antes). Tivemos de esperar uma hora ao frio antes de abrirem as portas, mas conseguíamos ouvir do lado de fora os testes de som, dando alguns spoilers da setlist.

 

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Eu, outra vez. Fonte: Blitz

 

 

Quando finalmente nos deixaram entrar no Pavilhão, eu e a minha irmã conseguimos ficar perto do palco, mais para a direita – cheguei a ter um dejá-vu pois foi quase a mesma posição em que fiquei no Rock in Rio de 2014. Ainda ficámos mis uma hora e vinte minutos à espera, entretendo-nos com a capa no ecrã gigante, que de vez em quando mexia os olhos, fazia duck faces, deitava a língua de fora, e, a certa altura, pousou-lhe uma mosca no nariz e rejeitou uma chamada no seu iPhone... 

 

Finalmente, o concerto começou com Do What You Gotta Do - por sinal, a canção de que gosto menos em Get Up, mas não deixei de cantá-la. Para além do álbum Get Up, a setlist foi também influenciada pelos 30 anos de Reckless – para além dos singles do costume, Bryan e os companheiros de banda tocaram também She's Only Happy When She's Dancin', Somebody e Kids Wanna Rock. Só ficou a faltar One Night Love Affair. Ele também tocou outros temas menos rodados, como I'll Always Be Right There, o cover de C'mon Everybody (numa versão mais rock que a de Tracks of My Years), e Lonely Nights – esta última em resposta a um pedido nas redes sociais (porque não me lembrei eu também de pedir músicas desta forma?).

 

Por acaso, houve uma altura, há cerca de... nove, dez anos (?!) em que andava a ouvir imenso esta música, imaginando-a tocada ao vivo. Foi fixe vê-la passar da imaginação à realidade sem muitas alterações - as expressões do Keith Scott nos backvocals, por exemplo, eram iguaizinhas ao que imaginei. É o que dá ter visto o DVD Live in Lisbon inúmeras vezes, na altura.

 

Gostei do facto de esta setlist ter equilibrado os Summer of 69's desta vida com temas menos rodados, como os que referi acima. Já tinha sido assim em 2011, cujo tema fora os 20 anos de Waking Up the Neighbours, rendendo temas como House Arrest, Do I Have to Say the Words, Depend on Me, Thought I'd Died and Gone to Heaven (que eu adoro). Foi um dos motivos pelos quais não me importei muito por ter falhado o concerto do Rock in Rio em 2012, no qual ele tocou quase só os singles habituais que toca em todos os concertos. São os temas de que toda a gente gosta, é certo, mas que não satisfazem completamente o fã mais dedicado, que tem favoritos entre os temas menos popularizados. O próprio Bryan admitiu, durante o concerto, que não é fácil agradar a toda a gente, que treze álbuns correspondem a muitas músicas. Eu falo por mim mas não fiquei com motivos de queixa em relação à setlist.

 

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Após a terceira ou quarta música, Bryan apresentou-se dizendo que, em Portugal, o seu nome é "O-Bryan". "O-Bryan?", perguntávamos nós. Sim, porque, em terras lusas, as pessoas cumprimentam-no com um "Ó Bryan, como está?". Ele tem sentido de humor, dá para ver, por exemplo, nesta entrevista (a propósito, será que lhe arranjaram carcaças, desta vez?). Mais tarde no concerto, ele diria algo como "This is kind of a new song for us, you may have heard it on the album, if you know it sing along..." antes de começar a tocar... (Everything I Do) I Do it For You. Como se diz em bom português, jajão.

 

Antes dessa, no entanto, já tínhamos tido outros pontos altos, como Heaven - em que o Pavilhão se encheu de luzes brancas, nós, na audiência, cantámos a primeira estrofe sozinhos, muitos agarrados aos mais-que-tudo.

 

Por outro lado, uma das minhas maiores expectativas era It's Only Love, sempre uma oportunidade para exibir as habilidades da arma secreta, como Bryan lhe chamou, Keith Scott, um dos melhores guitarristas do Mundo. Não fiquei desiludida.

 

Tivemos, contudo, um pequeno desapontamento. Para a canção Baby When You're Gone, o Bryan costumava chamar uma menina ao palco. Estando eu e a minha irmã muito perto do palco, estávamos as duas, como diz a minha irmã, cheias d'a fé. Eu ia mesmo pedir para tocar guitarra em vez de cantar - tinha andado a praticar e tudo! Bryan, no entanto, quis fazer uma coisa diferente: pediu uma "mulher selvagem" para dançar ao som de If Ya Wanna Be Bad Ya Gotta Be Good. Não é tão giro como subir ao palco, na minha opinião, mas sempre rendeu momentos engraçados, como poderão ver no vídeo abaixo. 

 

 

 

A feliz contemplada foi uma Joana, de top branco (ele só não me escolheu a mim porque eu estava vestida até ao pescoço, aposto... mas também não sou grande dançarina e demasiado tímida para aquele género de dança). Mas a Joana não se saiu nada mal e o próprio Bryan, como podem ver, não teve pejo em encorajá-la. Também poderão ver que ele tentou emparelhá-la com algum homem livre no concerto, antes de ela mostrar que era casada.

 

- Yeah, but he's not here - disse ele. Tinha ficado a jogar futebol - Of course. He's Portuguese? Of course he plays football!

 

Um aparte só para dizer que eu só aceitarei como marido (ou esposa) alguém que venha comigo a concertos, do Bryan Adams ou de outros artistas de que eu goste. Não acho nada de mais, até porque eu, ao contrário de muitas mulheres, não gosto assim tanto de compras nem de filmes lamechas e, além disso, sou fã de futebol.

 

 

 

Depois desta, ele tocou Here I Am, também a pedido - incluindo de um cartaz que se via na audiência. Fico em dívida para essa pessoa, pois é a minha canção preferida dele e ia ficar triste se não tivesse sido tocada. 

 

Tendo ficado muito perto do palco, mesmo em frente de um dos microfones, como se vê no primeiro vídeo, eu e a minha irmã pudemos ver tanto Bryan como Keith mesmo à nossa frente em várias ocasiões. Desta vez não cometi o erro do Rock in Rio de 2014 e procurei não desperdiçar essas ocasiões: sempre que olhavam na minha direção, soprava-lhes beijos, fazia-lhes corações com o dedos, apontava para eles quando as canções o justificavam. O ponto mais alto foi em 18 'Til I Die, quando o Bryan apontou para a minha irmã, a única naquela zona tirando eu que sabia a letra (estão na primeira fila e nem sequer sabem a letra de 18 'Til I Die. Tristeza...) e ela apontou de volta. Desde essa altura ela quem vindo a dizer que o Bryan cantou pelo menos aqueles três versos - We´re gonna have a ball, yeah/ We're gonna have a blast/Gonna make it last! - especialmente para ela. Até porque ela tem dezoito anos, precisamente.

 

 

 

Tal como já tinha acontecido antes, o concerto terminou com aquilo a que chamo um momento Bare Bones: Bryan sozinho com uma guitarra e uma harmónica. Antes, Bryan falou um pouco da sua infância em Birre, Cascais, dos seus primeiros passos no mundo da música: desde a música clássica do seu pai ao fado - altura em que percebeu o poder da música para tocar pessoas, independentemente das palavras - aos Beatles. De seguida, tocou Straight From the Heart. Gosto imenso de ouvir a música assim, só com guitarra e harmónica, realçando a relativa inocência da letra. 

 

Antes da última canção, All For Love, Bryan pediu-nos que acendêssemos todos os telemóveis e o Pavilhão Atlântico encheu-se de luz. Não gosto assim tanto da versão acústica da música, sobretudo por não incluir a terceira parte, mas não deixou de ser um belo encerramento de concerto.

 

E assim se passou mais uma das melhores noites da minha vida. Saí do Pavilhão Atlântico à beira da desidratação, com as pernas a querer colapsar. Fiquei dorida durante dois ou três dias e estou convencida que a constipação que apanhei está relacionada com o abuso das cordas vocais. Costumo dizer que, quando temos sintomas de bangover como estes, é porque tivemos uma das melhores experiências da nossa vida, é porque aproveitámos como deve ser. 

 

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O meu pai perguntou-me, quando regressámos a casa, se eu não estava farta do Bryan, após três concertos. Aparentemente, ainda não. Se o Bryan ainda não se fartou ao fim de mais de trinta e cinco anos e, por esta altura, de milhares de concertos, eu não me vou fartar ao fim de apenas treze anos (metade da minha vida, vejo agora) e três concertos. Como explica muito bem este artigo, existem bons motivos para uma pessoa ver várias vezes os mesmos artistas ao vivo. Vocês sabem que eu tenho uma relação muito próxima com a música - serve-me de companhia, de inspiração, de catarse, de ligação com outras pessoas. Um concerto dos meus cantores ou bandas preferidos é uma celebração disso. Uma celebração com mais gente igualmente tocada pela música e com os criadores dela. Uma maneira de mostrar a minha gratidão a esses criadores. 

 

Dizem que o dinheiro traz mais felicidade se for gasto em experiências, mais do que em objetos. Concertos de artistas de quem gosto são, para mim, um dos melhores exemplos disso. Daí que, sim, enquanto Bryan Adams estiver por aí às voltas dando concertos (e cheira-me que dá-los-á durante mais tempo do que se calcula), dentro das minhas possibilidades, eu estarei sempre lá. E, como reza a minha canção preferida, não haverá mais sítio na Terra onde preferisse estar. 

Era Uma Vez/Once Upon a Time - Quinta temporada, primeira parte

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Alerta Spoiler: Este texto contém revelações sobre o enredo, pelo que, até para a própria compreensão do mesmo, não é aconselhável que este seja lido, a menos que tenham visto Era Uma Vez /Once Upon a Time até, pelo menos, o meio da quinta temporada.

 

A premissa da primeira metade da quinta temporada de Once Upon a Time era promissora: Emma Swan, a protagonista, o produto do verdadeiro amor, a Salvadora, a encarnação da luz, da esperança, de tudo o que é heróico... transformar-se ia no Dark One, o representante da Escuridão e de tudo o que é vilanesco. Não acredito que existisse um único fã que não estivesse nem um bocadinho entusiasmado. Eu, em particular, conforme escrevera antes, sentia-me ansiosa pelo desenvolvimento de Emma, que nem sempre fora o mais adequado nas primeiras temporadas, na minha opinião. Todo o marketing desta meia temporada centrou-se nisso.

 

No entanto, esta premissa apresentava um problema: contrariamente ao que alguns materiais promocionais davam a entender, incluindo este vídeo feito de propósito para a Comic Con do ano passado, transformarem Emma numa supervilã iria contra tudo o que havia sido estabelecido antes, tanto sobre o Dark One em si como sobre a personagem. Já na quarta temporada tinham tentado vender Emma como vilã, mas a única ação vilanesca que ela fez foi matar uma sociopata que ameaçava assassinar-lhe o filho. De igual modo, Emma torna-se na Dark Swan enquanto salvava a vida a Rumple (não que ele o merecesse, conforme veremos adiante) e para impedir que a essência do Dark One tomasse Regina. A única maneira de Emma se tornar naquilo que mostraram no vídeo da Comic Con seria se a essência do Dark One lhe mudasse a personalidade por completo - e, pelo que tínhamos visto de Rumple, já se sabia que não funcionava assim.

 

Na minha opinião, os guionistas tomaram a decisão correta ao respeitarem a evolução da personagem. Fizeram, até, questão de mostrar que Emma tinha uma capacidade de resistência invulgar aos efeitos da Escuridão - ainda que soubéssemos, desde a cena final do primeiro episódio, que a certa altura ela tornar-se-ia a sério na Dark Swan. Em toda a jornada de Emma como Dark One, a sua pior ação foi manipular a apaixonada do filho para que esta o rejeitasse - algo que, mesmo assim, chocou muita gente. No final, acabamos por descobrir que as intenções de Emma foram sempre boas, que, mais uma vez, o único motivo pelo qual cedera à Escuridão fora para salvar uma vida. Como disse antes, este arco foi mais ou menos coerente - mas fica aquele vazio por não termos visto Emma como vilã a sério.

 

 

 

Dizia eu que, logo no final do primeiro episódio da temporada, descobrimos que, seis semanas depois do elenco principal ter partido para Camelot, Emma está em modo cem por cento Dark One. Ela e o resto do elenco regressam a Storybrooke via mais uma Maldição e ninguém, tirando Emma, se recorda do que aconteceu em Camelot. Como poderão ver no vídeo acima, a cena em que descobrimos isto está excelente, mostrando a Dark Swan com todo o seu aterrorizante esplendor (a sério, eu estive perto de gritar pela minha mãezinha quando ela toca no rosto de Snow). 

 

No entanto, ninguém achou muita piada a mais um caso de Maldição com perda de memória em Once Upon a Time. Por está altura, a ideia que fica é que está é a única maneira que os guionistas possuem de criar tensão. Está na altura de arranjarem truques novos.

 

Depois deste episódio, a narrativa vai alternando entre o que se passa em Storybrooke e flashbacks do que aconteceu em Camelot. Durante muito tempo não sabemos ao certo o que aconteceu a Emma para ela ter dado o passo final em direção à Escuridão e as suas atitudes em Storybrooke, pelo menos a mim, confundiram. Ela nunca age em conformidade com as ameaças que fez no fim do primeiro episódio. Tão depressa ela tenta aproximar-se de Henry e Hook  como trata Regina com frieza. Devo inclusivamente dizer que Snow e Charming me desiludiram por, ao contrário dos outros entes queridos de Emma, não terem tentado falar com a filha, apelando ao seu lado heróico. Não sabemos se Emma está a tentar livrar-se da Luz ou da Escuridão e isso, a partir de certa altura, começa a cansar.

 

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Não que não tenha acontecido nada de interessante pelo meio, ainda que, demasiadas vezes, as linhas narrativas paralelas desta meia temporada tivessem atrapalhado a história em vez de enriquecê-la. Como tinha escrito antes, tinha grandes expectativas para a abordagem que Once Upon a Time faria à mitologia do rei Artur e de Camelot. Não desgostei das premissas que estabeleceram. Achei que aspetos como Arthur como o Escolhido de Merlin e o romance entre Guinevere e Lancelot foram demasiado cliché. Por outro lado, achei interessante o facto de a grandiosidade de Camelot ser uma farsa, bem como o facto de Arthur não olhar a meios para manter essa falsa grandiosidade - passando por assassinar um fiel súbdito e escravizar emocionalmente a esposa. Esta história sempre rendeu o melhor momento de Snow e Charming em demasiado tempo, quando os dois conspiraram contra Arthur em "The Broken Kingdom". No entanto, depois disso, pouca evolução houve nesta linha narrativa após esse episódio, ficando tudo por resolver. Para ser sincera, acho que ninguém se ralou particularmente com isso. A partir de certa altura, Arthur passou de um vilão intrigante a apenas irritante e, de qualquer forma, estávamos todos muito mais interessados na história principal da temporada.

 

Gostei da versão Once Upon a Time de Merlin, mas, para alguém que foi pintado como o maior Feiticeiro de todos os tempos e dimensões, aquele que profetizara tanto a Maldição, a Salvadora e a sua suposta némesis, aquele que escolhia os Autores, cujo Chapéu poderia albergar inúmeras criaturas mágicas e libertar os Dark One da adaga... e acabámos por não ver muito do seu poder. Zelena e Arthur, por exemplo, colocaram-no sobre o controlo de Excalibur com espantosa facilidade. Merlin só poderia ser derrotado por um Dark One e, conforme veremos adiante, Dark Ones não faltaram nesta meia temporada, logo, o grande Feiticeiro acabou por não ter muito tempo para exibir os seus poderes. O que é uma pena.

 

Também tinha grandes expectativas relativamente a Nimue desde que soube que ela apareceria em Once. Para aqueles que não conhecem, na mitologia de Camelot, Nimue foi uma donzela enviada pela Dama do Lago para seduzir Merlin e encerrá-lo no tronco de um carvalho. N'As Brumas de Avalon, Nimue chega a apaixonar-se por Merlin enquanto o seduz e, depois de o entregar à Dama do Lago, ela suicida-se. Logo, quando se descobriu, no início da temporada, que Merlin estava preso dentro de uma árvore, pensou-se logo em Nimue. Mais tarde na temporada, descobrimos que, em Once Upon a Time, foi o Dark One original quem aprisionou Merlin na árvore. Somando dois e dois, não foi grande surpresa descobrir que esse primeiro Dark One era Nimue, que também fora a amada de Merlin. Visto que, de certa forma, todos os Dark One vivem no Dark One corrente, é o coração de Merlin que ativa a Maldição.

 

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Vocês poderão assumir que foi Emma quem lançou a Maldição. Eu digo para continuarem a ler...

 

Para além da mitologia de Camelot, nesta meia temporada tivemos também o elenco do filme Brave. Nunca vi o filme - pelo que li em críticas não é brilhante - mas tenho uma ideia vaga da história. Amy Manson fez um ótimo trabalho dando vida a Merida e o seu arco rendeu bons momentos. No entanto, apesar das boas intenções, a história de Merida acabou por interferir com a trama principal - o exemplo mais flagrante foi o episódio The Bear King, exibido em segundo lugar, na mesma noite em que foi revelado o twist da meia temporada. Depois disso, ninguém queria saber das desventuras de Merida, nem mesmo com os regressos de Ruby e Mulan.

 

Uma nota rápida, igualmente, para Zelena. Já na última temporada me tinha queixado que, ainda que desse gosto ver Rebeca Mader divertindo-se com este papel, os guionistas não lhe deram uma história decente. Isso tem continuado nesta temporada. Nesta altura é óbvio para toda a gente que os guionistas adoram o bruxa verde, mas não sabem o que fazer com ela. Pouco mais foi que um plot device para quando a história precisava de complicações. Quando, depois de a filha dela e de Robin nascer (Emma acelerou-lhe a gravidez... eu explico mais adiante), parecia haver alguma evolução na história de Zelena - quando Regina e Robin procuram um compromisso para Zelena pudesse estar na vida da filha - no episódio segunte, Regina entrou em modo YOLO (compreensível perante as circunstâncias) e despacha a irmã para Oz. Suspeito que seja só uma maneira de se livrarem de Zelena por alguns episódios - sim, os guionistas já confirmaram que Zelena regressará, mais cedo ou mais tarde.

 

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O romance entre Emma e Hook continua a ser um dos pontos fortes em Once Upon a Time, recebendo ainda mais protagonismo que anteriormente. Em Camelot, vemos uma Emma cada vez mais aberta para Hook. O amor do atraente pirata é o que mais ajuda Emma a manter a essência do Dark One sobre controlo. Há que notar que o pior ato de Emma em Camelot - quando obrigou a apaixonada de Henry a rejeitá-lo - ocorreu quando Hook está convenientemente desaparecido da ação. Depois de tanto tempo fechando-se ao romance, soube bem ver Emma feliz, ainda que por breves momentos. É claro que não seria Emma sem as suas ocasionais inseguranças. Quase como se os guionistas tivessem lido as minhas críticas na última análise a OUaT, gostei da cena em que Emma admite que faz batota com os "Amo-te".

 

De uma maneira paradoxal, aquilo que permitiu a Emma controlar a essência do Dark One durante tanto tempo acabou por ser crucial para que ela desse o passo decisivo em direção à Escuridão. Hook é ferido mortalmente e a única maneira que Emma arranja de salvá-lo é... transformá-lo num segundo Dark One. Todas as temporadas, Once faz pelo menos uma surpresa deste género (a paternidade de Henry na segunda, a paternidade de Rumple e a Maldição lançada por Snow na terceira, o regresso de Zelena na quarta) e, tal como nas anteriores (com uma ou outra exeção), ninguém as previu.

 

O problema é que Hook possui um longo historial como vilão, logo, apresentou fraca capacidade de resistência à essência do Dark One. Dizer que ele ficou muito desagradável é um eufemismo. A primeira coisa que faz enquanto Dark One é usar o coração de Merlin para lançar a Maldição de que falámos anteriormente. Tudo o que Emma consegue fazer é remover as memórias de toda a gente, Hook incluído. Quando regressam a Storybrooke, Emma veste a pele de supervilã para manter toda a gente à distância enquanto procura uma maneira de eliminar a essência do Dark One de si e de Hook.

 

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Que uma pessoa possa ser um Dark One sem ter noção disso é questionável, sobretudo depois de eles terem revelado que estes não dormem. Hook não estranhou esse facto? No entanto, não se pode censurar Emma tendo em conta o que Hook fez depois de descobrir a verdade. O plano de Emma não era mau: aproveitar-se do coração em branco de Rumple, transformá-lo num herói, fazê-lo retirar Excalibur da pedra, usar a espada para transferir toda a Escuridão para um recipiente humano - Zelena - e matá-lo, eliminando  Dark One para sempre. A moralidade de matar Zelena seria questionável mas, na prática, ninguém se queixaria por não ter de lidar com a Verdocas - sobretudo depois de ter tido a bebé. Emma acelerou-lhe a gravidez precisamente para não ter de matar a criança. Mas Hook sendo Hook não podia deixar Emma em paz, sobretudo depois de ela, aparentemente, lhe ter salvo a vida. Acabou por descobrir mais do que queria.

 

A partir daí foi a Lei de Murphy. Custou-me em particular a maneira como Hook tratou Emma, atirando-lhe à cara todas as inseguranças que ele lhe ajudara a ultrapassar - a sério, quando Hook jogou a cartada da orfã, eu ter-lhe-ia dado um estalo. Eventualmente, o Captain Dark One abre as portas do Submundo, trazendo todos os Dark One que alguma vez existiram para Storybrooke. Estes, por sua vez, marcam todo (ou quase todo) o elenco principal para que este tome o lugar deles no Submundo. 

 

Como seria mais ou menos de esperar, à última hora Hook muda de ideias e dá a vida para travar os Dark One e destruir a sua essência. Não é totalmente bem sucedido, pois Rumple arranja uma maneira de transferir a Escuridão para si, tornando-se de novo no Dark One. Agora, na segunda metade da temporada, Emma e o resto do elenco principal vai até ao Submundo nuna tentativa de ressuscitar Hook.

 

 

Foi a primeira vez que um final de meia temporada em Once Upon a Time me desiludiu em vários aspetos. Em primeiro lugar, pelo menos um mês antes já se dizia que Hook iria morrer e Emma iria buscá-lo ao Submundo. A grande virtude de OUaT tem sido a sua imprevisibilidade: ninguém estava à espera que a Bruxa Má do Oeste aparecesse em Storybrooke a meio da terceira temporada, que a Elsa de Frozen, por sua vez, aparecesse depois (pelo menos não tão cedo), que Emma se tornasse no Dark One no final da quarta. OK, já se sabia que as Queens of Darkness viriam aí para a segunda metade da quarta temporada ainda o arco de Frozen não estava encerrado, mas isso é um spoiler mais aceitável que a morte de uma personagem importante. Não digo que a culpa seja diretamente dos guionistas, são sinais dos tempos e tal, mas a equipa da série devia ter mais cuidado com as informações e fotografias das filmagens que deixam chegar à Internet.

 

Por sua vez, quando se descobriu que Rumple era de novo o Dark One, fiquei com vontade de dar um berro. Em primeiro lugar, veio contra aquele que fora o arco de Rumple esta temporada: em que este foi obrigado a transformar-se num herói, chegando a ter uma oportunidade de matar o velho inimigo Hook e opta por poupar-lhe a vida. Já não é a primeira vez que isto acontece, já no ano passado Rumple falava em ser uma pessoa melhor em nome da memória do filho, blá blá blá, para à primeira oportunidade optar pela atitude vilanesca. Andamos em círculos constantes com Rumple desde o início, já não é um plot twist, é cansativo e irritante. O que mais indigna nisto tudo é que toda a história desta meia temporada - Emma como Dark One e tudo o que daí derivou - só aconteceu quando o elenco tentava salvar a vida a Rumple - algo que ele nem sequer merecia, pois acabara de colaborar com o Autor nos eventos do episódio Operation Mongoose. Bela maneira de agradecer, Mr. Gold, deixando Hook morrer em vão!

 

 

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No meio disto tudo, Belle continuará a ser a parva nesta história toda. Já não sinto pena nenhuma da rapariga. Nesta altura, ela já devia saber com o que está a lidar. Teve inúmeras oportunidades de ser afastar de tudo isto, incluindo uma que o próprio Rumple lhe ofereceu. Sei que a atriz que faz de Belle, Emilie de Ravin, está grávida e é possível que incluam a gravidez na história. No entanto, para ser sincera, já não tenho paciência nem para Belle nem para Rumple.

 

Agora que já deitei cá para fora aquilo que me fazia comichão neste final, falemos das coisas boas. Ainda que tenha sido capaz de prevê-lo, este final foi executado de forma soberba por parte dos atores. Eu tinha escrito antes que o arco de Dark Swan tinha potencial para mostrar-nos lados diferentes da habitualmente controlada Emma Swan e não me enganei. Jennifer Morrison teve, desde o primeiro episódio, inúmeras oportunidades para exibir o seu talento. No entanto, eu não esperava que Colin O'Donoghue fosse capaz de competir com ela, ao explorar o seu Dark Hook: ora mostrando quase embriagado com a essência do Dark Oneimitando os maneirismos de Rumple (podia vê-lo fazendo isto durante horas...), controlando a sua fúria perante Emma. Os desempenhos de ambos os atores culminaram, no entanto, com a cena do sacrifício de Hook que, embora esperada, doeu. E muito. Bem como o momento em que o corpo de Hook é levado e Emma chora nos braços dos pais. 

 

 

 

A decisão de Emma de ir resgatar Hook da própria morte é controversa. Por um lado, ressuscitar os mortos não é saudável. Emma já causou muitos problemas tentando impedir Hook de morrer. Será boa ideia fazer o mesmo de novo? Também já me ocorreu a hipótese de Hook, pura e simplesmente, não querer regressar à vida. 

 

Por outro lado, isto é um passo que faz sentido na evolução emocional de Emma. Ela deixou-se apaixonar por Hook porque este foi o único que nunca a magoou - tirando quando estava em modo Dark One e, mesmo assim, redimiu-se a tempo - e que fez tudo por ela. Abdicou do seu navio por ela, cruzou mundos por ela, viajou no tempo por ela, foi dos que mais lutou por ela em Camelot. Estava na altura que Emma fazer o mesmo por ele. De notar ainda que ela, enquanto embarca para o Submundo, diz o lema dos pais: "I will always find you"

 

Agora vem aí o Submundo. Pelo que os guionistas revelaram, não será propriamente o Inferno e sim uma espécie de Purgatório: uma dimensão/realidade onde permanecem os mortos que ainda tenham assuntos pendentes. Sabemos já que o Submundo tomará a forma de uma Storybrooke distorcida, algo que considero, em simultâneo, fascinante e sinistro. Dá também uma desculpa a série trazer de volta para o seu centésimo episódio - o primeiro da próxima meia temporada - personagens como Cora, Peter Pan, Henry Sénior, entre outras. Consta, até, que o salvamento de Hook será apenas o começo, que o Submundo trará consigo uma infinidade de histórias. Pelo que os guionistas têm referido, o elenco principal será literalmente assombrado pelo seu passado. Faz-me lembrar o que disseram sobre a Terra do Nunca, onde, não existindo futuro, o passado é tudo o que os seus habitantes possuem. Não é, de resto, por acaso que há quem compare a Terra do Nunca e a juventude eterna de Peter Pan e os Meninos Perdidos à própria morte. 

 

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Não nego que estou curiosa. Não se sabe muito mais ainda sobre a próxima meia temporada, é provável que saia mais informação até lá. No entanto, depois de a primeira metade desta temporada ter sido prejudicada por overhype e sobretudo spoilers, prefiro assim. 

 

Antes das alegações finais, quero apenas referir umas quantas pontas por atar. O aviso críptico de Merlin, referindo Nimue como a única pessoa que poderia ajudar o elenco principal a derrotar a Escuridão não faz sentido nenhum - a própria Nimue foi crucial para a Maldição e liderou os Dark One ressuscitados. Também não se percebe porque Lancelot não foi levado pela Maldição quando Merida o foi e, já agora... a mãe dele não ficara de ajudar? Algum dia conheceremos a misteriosa Dama do Lago? 

 

Tenho vindo a compreender que, ainda que goste dos mistérios e perguntas por responder que Once vai introduzindo, o mais certo é uma boa parte desses nunca serem devidamente esclarecidos. A força da série reside na evolução das personagens, nas relações entre elas, nas prestações dos atores - Once Upon a Time tem um elenco muito subvalorizado. Há personagens de quem gosto mais do que outras - Charming continua uma seca, Rumple irrita-me, apenas vejo Belle como uma vítima de Síndrome de Estocolmo. Por sua vez, relações como as de Henry com cada uma das suas mães, a amizade entre Emma e Regina, o amor entre Emma e os país (ainda hoje me comovo de cada vez que Emma trata Snow e Charming por "Mom" e "Dad") continuam entre os grandes atractivos da história, mais do que os romances por vezes. É a história deles que me vai mantendo interessada em Once, numa altura em que outras séries que  acompanho me aborrecem como nunca.

 

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As dúvidas que tinha no final da quarta temporada mantém-se - depois de terem tornado a heroína na maior vilã, para o nível continuar a subir, os guionistas tiveram de mandar a história para o Inferno, quase literalmente. O que me faz perguntar, novamente, até quando Once Upon a Time durará. Um dos patrões da ABC disse há pouco tempo que a série tem "um futuro longo e brilhante", que as histórias de Once Upon a Time os entusiasmam, mesmo não sendo brilhante em termos de audiências. Isto, em princípio, pode significar uma renovação para uma sexta temporada mas, para além disso, eu não faço apostas. Em todo o caso, quando a altura chegar, vai custar despedir-me de Storybrooke e, sobretudo, dos seus habitantes.

Coldplay - A Head Full Of Dreams (2015)

Algo que me acontece com frequência é queixar-me da demora que os artistas de quem gosto levam a lançar álbuns. O que aconteceu com os álbuns Goodbye Lullaby e o homónimo de Avril Lavigne foi ridículo. Estava à espera que Get Up, de Bryan Adams, tivesse saído uns meses antes. Estou há pelo menos um ano à espera do álbum novo dos Sum 41. Os Simple Plan, por sua vez, finalmente anunciaram o nome e data de lançamento do quinto disco de estúdio, depois de lançarem uma data de singles: Taking One For the Team, previsto para 19 de fevereiro.

 

No entanto, a verdade é que também não gosto muito quando os artistas lançam álbuns com pouco tempo de intervalo. Regra geral, levo mais ou menos um ano a digerir um disco na sua totalidade. Às vezes preciso de mais tempo. Escrevi sobre Ghost Stories, por exemplo, há pouco menos de um ano e ainda não me desliguei completamente - Ink continua a ser uma das minhas músicas preferidas neste momento e ainda não me cansei de temas como Magic e Midnight. Ainda não precisava de outro álbum dos Coldplay.

 

Por outro lado, conforme me tenho queixado amiúde aqui no blogue, 2015 foi um ano fraquinho em termos de música nova dos artistas de que gosto - razão pela qual nem me dei ao trabalho de escrever uma entrada de Música de 2015, ao contrário de anos anteriores. Ao menos sempre tenho algo mais sobre que escrever aqui no blogue.

 

 

Depois do introspetivo Ghost Stories, A Head Full Of Dreams adota um tom completamente diferente: alegre, otimista, refletindo, suponho eu, o novo capítulo na vida de Chris Martin, o vocalista. Mesmo as canções mais calmas e intimistas focam-se no lado mais positivo do tema que abordam. Existem imensas músicas em A Head Full Of Dreams que falam de otimismo, felicidade, esperança e tal, embora o façam através de letras pouco notáveis: ou demasiado vagas, ou resvalando para clichés ou armando-se em intelectuais. No entanto, em quase todas as músicas neste disco, a sonoridade - tanto em termos de melodia como de instrumentação - apesar de por vezes demasiado produzida, compensa facilmente as fraquezas das letras.

 

Devo dizer que o início do álbum é a parte de que menos gosto. As faixas A Head Full Of Dreams e Birds são, a meu ver, aborrecidas. Não me dizem nada. Apenas me dão vontade de passar à frente, sobretudo a segunda. Hymn For the Weekend tem subido na minha consideração, mas não ao ponto de se encontrar entre as minhas preferidas. Tem uma sonoridade interessante, não o nego: o piano, as palmas, um som que se assemelha a talheres batendo em copos - algo que condiz com a letra, na qual o narrador diz-se embriagado pela vida e pelo amor em geral. A voz de Beyoncé enriquece a música.

 

Com o primeiro single, Adventure of a Lifetime, passa-se um pouco o mesmo que em Hymn for the Weekend: de início, a música não me entusiasmava particularmente. Com várias audições fui gostando mais, mas continua a não estar entre as minhas preferidas. A letra fala de um romance numa fase inicial, mas que se pode vir a tornar em algo fantástico. Muitos apontam as semelhanças com Get Lucky. É definitivamente é muito mais dançante que aquilo que esperaríamos dos Coldplay, mesmo depois de A Sky Full Of Stars.

 

 

 

Não considero X Marks the Spot como verdadeiramente parte de A Head Full Of Dreams, por vários motivos. Para começar, é uma hidden track.

 

Um rápido aparte só para dizer que, na minha opinião, as hidden tracks estão obsoletas, numa altura maioritariamente digital. Eu ainda vou comprando CDs (cada vez menos...), mas extraio sempre as músicas para o meu computador e, depois, para o meu telemóvel. Aqui, gosto de rearranjá-las em playlists temáticas, para a minha escrita, ou pura e simplesmente coloco em shuffle. Nestas circunstâncias, não dá jeito nenhum ter duas músicas na mesma faixa - muito menos quando gosto imenso da primeira e não muito da segunda.

 

Fechando o aparte, conforme dizia eu, para além de ser uma hidden track, X Marks the Spot tem uma sonoridade do resto do álbum: mais eletrónica, mais à R&B. A ideia com que fico é que isto foi apenas uma pequena experiência da banda, devendo ser tomada apenas como uma curiosidade, um gracinha, quase uma b-side. Não parte integrante de A Head Full Of Dreams.

 

Por sua vez, os interlúdios Colour Spectrum e Kaleidoscope nada acrescentam ao álbum, do meu ponto de vista, embora compreenda a sua inclusão.

 

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Army Of One é uma canção de amor com uma letra vulgar, explorando os clichés "as maravilhas do Mundo não são nada comparadas contigo" e "vou lutar pelo teu amor". No entanto, tem uma melodia extremamente cativante e um órgão que dá à música uma nota de euforia, tornando-a irresistível.

 

Amazing Day é uma balada muito suave, baseada em piano, notas de guitarra e em violinos, que se integraria bem na minha entrada sobre Innocence e músicas similares. A letra pinta a imagem de um momento de romance, de intimidade, debaixo das estrelas.

 

Por sua vez, Up&Up pega no tema dominante do álbum - otimismo e esperança. Começa com uma sequência de piano e batidas leves. No refrão juntam-se várias vozes a cantar (supostamente todos os convidados a colaborar neste álbum) - é difícil não apreciar. Também gostei do solo de guitarra, cortesia do guitarrista dos Oasis, Noel Gallagher.

 

Everglow e Fun são, do meu ponto de vista, as melhores músicas em A Head Full Of Dreams. Curiosamente, ambas vêm em linha com os temas de Ghost Stories, funcionando mais ou menos como sequelas - por outras palavras, tudo indica que se referem à relação de Chris Martin com Gwyneth Paltrow. Fun é uma daquelas canções cuja letra se esforça demasiado por soar intelectual, com várias metáforas e uma referência ao mito de Ícaro que não parecem fazer muito sentido no contexto da música. No entanto, sempre pinta a imagem de um pôr-de-sol numa praia tropical, que eu imagino sempre que a oiço. Fun está muito bem conseguida tanto em termos de melodia como de arranjo musical. A voz de Tove Lo soa muito bonita ao lado da de Chris Martin. Pena é terem-na reduzido a pouco mais que um backvocal. Ela merecia ter cantado pelo menos a segunda estância. Em Fun, o narrador terminou um relacionamento, mas procura focar-se nos aspetos positivos desse relacionamento, dando mesmo a entender que, se calhar, nem todas as pontas ficaram atadas entre ele e a antiga amada.

 

 

Finalmente, Everglow é uma balada conduzida pelo piano, com uma produção mais simples que quase todo o resto do álbum. A sonoridade é reconfortante, aquece o coração, o que combina com a letra. A ideia principal desta é que as pessoas que amamos nunca nos deixam verdadeiramente, deixam qualquer coisa em nós, algo a que a música chama uma... luz eterna (é a melhor tradução que encontro para o título da faixa, que de resto é um neologismo). Algo que permanece, mesmo num mundo em que tudo é efémero. Algo que, por vezes, é suficiente para conseguirmos sobreviver. É sem dúvida a mensagem mais bonita de todo o álbum. Mais bonita... e menos batida. 

 

Resumindo e concluindo, o ponto forte de A Head Full of Dreams é a sonoridade das músicas e a mensagem geral de esperança e otimismo. O seu ponto fraco é essa mensagem resvalar frequentemente para lugares-comuns, parecendo por vezes vaga e impessoal. Nesse aspeto, um álbum melhor conseguido é o Self-Titled dos Paramore - mas também este álbum está muito melhor conseguido em todos os aspetos que a larga maioria dos álbuns (por favor, não me perguntem pela saída do Jeremy ou eu começo a chorar...). No fim, acho que gosto mais de Ghost Stories, sobretudo por causa dos temas mais pessoais e pelo conceito geral. 

 

Tal como escrevi no ano passado, não me considero grande fã dos Coldplay. Não estou investida neles tanto como noutros artistas sobre quem escrevo neste blogue. Por outro lado, pelo que li em artigos e criticas publicados aquando do lançamento de A Head Full Of Dreams, é considerado "cool" odiar os Coldplay (eu podia jurar que essa honra pertencia aos Nickelback...). Ainda que compreenda e concorde, parcialmente, com algumas das críticas (não se desviam do mainstream e do radiofónico, preocupam-se demasiado em agradar ao público, não arriscam, não são grande coisa em termos de letras), na minha opinião, uma boa parte deste ódio é mesquinhez.

 

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Não que eu não tenha os meus odiozinhos de estimação, movidos a mesquinhez. Ainda sou do tempo em que era Britney Spears versus Avril Lavigne - ainda hoje não tenho grande consideração por Britney, quer como cantora quer como pessoa, embora até ache piada a algumas músicas dela. Embirro com os Maroon 5 desde This Love, embora seja difícil manter essa embirração depois de momentos como este. Aquando dos EMA de 2010, fartei-me de dizer mal de Lady Gaga, de tal forma que, poucos dias depois, a minha irmã sonhou que eu ia a tribunal por ter dado um tiro na cantora... De qualquer forma, procuro não perder tempo com coisas de que não gosto - a vida é demasiado curta para isso. Acredito cada vez menos em guilty pleasures - se gosto de alguma coisa é porque os seus criadores fizeram algo como deve ser.

 

É certo que a música dos Coldplay não se destaca pelo arrojo, mas isso não significa que não haja espaço para a banda. Há alturas em que queremos ouvir coisas novas, ver os limites da música esticados. Há alturas em que queremos apenas algo familiar feito como deve ser. Parece ser isso que os Coldplay gostam de fazer. Quanto a mim, desde que eu goste da música que eles, ou quaisquer outros artistas, criarem, independentemente da opinião popular, eu alinho. 

Digimon Adventure Tri - Saikai (Reunião)

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O franchise Digimon comemorou o décimo-quinto aniversário da emissão da sua primeira temporada, conhecida entre os fãs por Adventure. No Odaiba Memorial Day desse ano, foi anunciada uma segunda sequela (contando com 02), protagonizada pelas oito Crianças Escolhidas originais, decorrida seis anos após os eventos da primeira temporada – ou seja, três anos após os eventos de 02, logo, as Crianças Escolhidas já não são… bem, crianças. Estava previsto a sequela estrear-se na primavera de 2015, o que não acabou por acontecer. Em vez disso, foi anunciado que, em vez de uma temporada televisiva, Tri seria antes uma série de seis filmes. O primeiro intitula-se Saikai (Reunião) e saiu em novembro último, no dia 21. Depois de ter revisto Adventure e 02 este ano em preparação para Tri, e depois de ter escrito uma data de testamentos sobre essas temporadas, não podia ver o primeiro filme de Tri sem lhe dedicar o seu próprio testamento.

 

Antes de mais nada, três alertas...

 

1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo do primeiro filme de Digimon Adventure Tri e, possivelmente, dos enredos de Adventure e 02. Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas - na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Apesar de as legendas do filme usarem os nomes japoneses das Crianças Escolhidas, eu vou usar as versões americanizadas dos nomes, visto que estou mais habituada.

 

Segue-se uma sinopse do filme, adaptada da Wikipédia.

 

Três anos após os acontecimentos de Digimon 02, Tai Kamiya está no décimo-primeiro ano do Secundário, desanimado com o facto de nenhum dos seus amigos poder comparecer ao seu jogo de futebol. No dia da partida de Tai, um Kuwagamon aparece no Mundo Real, interferindo em aparelhos eletrónicos em toda a cidade. Tai alcança o Kuwagamon, que toma a forma física e ataca-o. Este ataque, no entanto, é diferente de outros ataques por Digimons no Mundo Real pois, pela primeira vez, os danos causados pelo Kuwagamon a civis e infraestruturas perturbam Tai. O jovem consegue atrair o Kuwagamon para um descampado mas o Digimon acaba por encurralá-lo. Nesse momento, o seu Dispositivo Digital brilha e o seu antigo parceiro, Agumon, aparece para defendê-lo. Agumon digievolui para Greymon e luta com o Kuwagamon. À medida que mais dois Kuwagamons aparecem, Tai é ajudado pelas outras Crianças Escolhidas (que tinham sido levadas ao local por uma misteriosa organização, que sabe mais sobre o Mundo Digimon que o cidadão comum) e seus parceiros Digimons (com exceção de Joe). Estes conseguem derrotar dois dos Kuwagamon. No entanto, uma mão misteriosa aparece e captura o terceiro.

 

Após a batalha, os jovens analisam a situação. Acreditam que os Kuwagamon apareceram no Mundo Real devido a distorções no espaço. Tai e Matt visitam o professor Nishijima, que revela ser parte de uma organização que monitoriza as atividades dos Digimons, sobretudo aqueles que são chamados de Digimons Infectados, como os Kuwagamons. Izzy desenvolve uma maneira de fornecer um acesso mais rápido aos seus parceiros Digimons enquanto procura por distúrbios digitais. Tai angustia-se com a possibilidade de pessoas inocentes se ferirem ou mesmo morrerem aquando das lutas contra os Digimons Infectados, o que provoca desconforto entre as Crianças Escolhidas e atrito na sua amizade com Matt.

 

 

No dia seguinte, um Digimon misterioso conhecido como Alphamon aparece, aparentemente a procura de um Digimon que estava sob os cuidados de Meiko Mochizuki, uma jovem que fora recentemente transferida para a escola de Tai. Com Alphamon derrotando os Digimons dos jovens, Matt obriga Tai a dominar o seu medo. Desse modo, os dois conseguem lutar contra o Alphamon através de Omegamon. No entanto, Alphamon consegue escapar antes de Omegamon desferir o golpe. No final, Meiko revela que também é uma Criança Escolhida e que Meicoomon é sua parceira Digimon, sendo este o Digimon que Alphamon estava a procura.

 

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Queria falar primeiro dos aspetos mais técnicos do filme. O desenho das personagens causou alguma polémica por ser tão diferente da série original. Eu até gosto deste desenho menos… cartoonizado e mais realista. Adequa-se à história, à idade dos heróis e, também, da audiência (quem está a ver Tri não são miúdos que nunca viram Digimon antes, é gente como eu, crianças na altura de Adventure e agora na casa dos vinte ou, quanto muito, adolescentes). De resto, todas as Crianças Escolhidas são facilmente reconhecíveis, tirando Matt – e tem mais a ver com o penteado que lhe deram, na minha opinião.

 

Por outro lado, é certo que eu não vejo anime sem ser Pokémon e Digimon, mas eu fiquei impressionada com a qualidade da animação em Saikai. Não que não seja de esperar, depois de passar os últimos meses vendo ver episódios emitidos em 1999, 2000, de baixo orçamento. Achei, em particular, os Digimons e respetivos combates muito mais orgânicos.

 

As três músicas mais icónicas de Adventure – Butterfly, I Wish e Brave Heart – foram todas regravadas para Tri. Eu nunca fui grande fã das duas primeiras (tirando a versão em piano de Butterfly), mas gostei muito destas novas versões. Brave Heart era, naturalmente, aquela por que mais ansiava e não desiludiu: manteve a magia da versão original, recebendo apenas uma roupagem mais moderna. Gosto em particular da terceira parte da canção: o breakdown com os icónicos sons de um dispositivo digital sendo ativado, antes de um solo de guitarra diferente.

 

  

Ainda gostei mais da versão orquestral de Brave Heart, que tocou aquando da luta entre Omnimon/Omegamon e Alphamon – para além de aumentar o carácter épico da música, a letra de Brave Heart adequa-se ao que se estava a passar com Tai no momento em que soa. Outros temas da banda sonora da série original também regressaram, tocando ocasionalmente ao longo de Saikai, igualmente com uma nova roupagem diferente mas mantendo o encanto de sempre.

 

As novas sequências de digievolução também não desiludiram mas – isto é apenas um capricho meu – chateia-me um bocadinho que esta não termine antes do início dos vocais de Brave Heart, como costumava acontecer nas séries originais.

 

Como aconteceu muito na temporada original, Saikai valeu bem mais pelas personagens do que pelo enredo em si. Como poderão ler na sinopse acima, não acontece muito neste filme: este serve apenas para colocar as peças no tabuleiro, para, literalmente, reunir as Crianças Escolhidas e os seus companheiros Digimon, para definir o conflito principal de Tri. Mesmo os principais aspetos da intriga de Saikai – os ataques de Alphamon, as hesitações de Tai, o distanciamento de Joe – são apenas parcialmente resolvidos ou não de todo. Sabemos que este é apenas o primeiro filme de uma série de seis mas, individualmente, considerando apenas o enredo, Saikai não satisfaz.

 

Uma das perguntas dos fãs antes de Saikai dizia respeito ao papel das Crianças Escolhidas de 02. Logo no início do filme vemos flashes de Davis, Yolei, Cody e Ken tombando perante Alphamon. Essas imagens fornecem uma desculpa para a ausência do elenco de 02 em Saikai, mas esta única resposta cria uma infinidade de perguntas. O que aconteceu aos miúdos? Terão, sequer, sobrevivido?

 

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Um rápido aparte só para dizer que, ainda que não seja grande fã dos miúdos de 02, nem eles mereciam esse desfecho. Sobretudo Ken, cujos pais já perderam um filho antes.

 

Fechando o aparte, consta que foi feito casting para as vozes do elenco de 02, logo, em princípio os miúdos estarão vivos. Mesmo assim, as perguntas mantém-se: porque estavam eles a combater Alphamon, para começar? Porque não estavam nem Kari nem T.K. com eles? Yolei e Cody precisavam deles, respetivamente, para que os seus companheiros Digimon atingissem o nível Super Campeão – será, aliás, por isso que eles foram derrotados? E porque nenhum dos “veteranos” sabe que Davis e os outros tres estavam a combater Alphamon – recordo que, em 02, Izzy continuava a desempenhar um papel importante nas aventuras dos miúdos, ainda que a partir dos bastidores. Se os miúdos de 02 viam, de facto, Alphamon como uma ameaça, já teriam pedido ajuda a Izzy. No entanto, ficou claro em Tri que o Cérebro das Crianças Escolhidas nunca vira Alphamon mais gordo.

 

A melhor hipótese que me ocorre é de Davis e os outros terem detetado um qualquer distúrbio no mundo Digimon. Possivelmente, pensaram que era uma coisa menor e nem sequer avisaram Kari e T.K.… por algum motivo. Contudo, quando foram ver, era Alphamon, algo para o qual não estavam minimamente preparados (mais ou menos como quando enfrentaram BlackWarGreymon pela primeira vez). Mas continua a ser muito estranho ninguém falar disso – até porque pelo menos a tal organização secreta sabe que eles estão desaparecidos. E não seria a atitude natural dos pais dos miúdos de 02, depois de eles desaparecerem, ligarem a todos os números na lista de contactos dos filhos? Como é possível que nem Tai nem nenhum dos outros saibam do desaparecimento de Davis e dos outros? Não acredito que não o saibam. Conforme dizia um fã na Internet, quando alguém desaparece, as pessoas reparam.

 

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O aparente desprezo que estão a votar ao destino dos miúdos de 02 não abona nada em favor, não apenas de Kari e T.K., também dos outros veteranos. Não nos esqueçamos que, no início de 02, Davis e os outros não tinham obrigação moral de ajudar o Mundo Digimon. Só o fizeram porque os veteranos não podiam fazê-lo eles mesmos. Foram eles mesmos, Tai e os outros, a iniciar os caloiros nas lides das Crianças Escolhidas. Agora aconteceu algo terrível aos miúdos de 02, precisamente enquanto cumpriam o trabalho que lhes foi passado como um testemunho, e os veteranos nem deles falam?

 

Esta é, na minha opinião, a maior falha do enredo de Saikai. Pode ser que esclareçam a situação nos próximos filmes… por favor!

 

Também achei que o conceito de Digimons Infetados era uma variante das Rodas Pretas de Adventure e dos Anéis e Espirais de 02. Não prima pela originalidade.

 

Este filme trata Tai como protagonista, continuando uma tendência de Adventure que chateava um bocadinho. O enredo gira quase todo à sua volta e todas as outras personagens, incluindo as outras Crianças Escolhidas, são tratadas como secundários. No início de Saikai, Tai está naquela fase pela qual todos já passámos pelo menos uma vez, em que não sabemos o que fazer com as nossas vidas, em que o passado, de repente, parece bem melhor do que realmente foi, em que todos em redor parecem ultrapassado tudo, seguido em frente com as suas vidas, enquanto nós sentimo-nos iguais ao que sempre fomos. Tai está naquela idade em que a sociedade espera que saiba exatamente o seu futuro, quando ele sente que tudo o que sabe fazer é jogar futebol e liderar as Crianças Escolhidas. No entanto, quando o seu desejo se realiza e Tai tem de retomar aquilo que considera ser a sua verdadeira vocação… esta não é bem da maneira como ele se recorda. De repente, Tai repara na destruição colateral que um simples Kuwagamon consegue fazer, as infraestruturas arruinadas, as vidas ameaçadas.

 

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Depressa as Crianças Escolhidas – tirando Joe – juntam-se à luta, transportadas até ao local por funcionários da tal organização misteriosa – ao que parece, parte do governo. Se por um lado acho lógico que os governantes não queiram deixar a proteção da população contra a ameaça dos Digimon apenas nas mãos de adolescentes, por outro, tenho algumas suspeitas em relação às intenções deles. Eles dizem que foi Gennai que os pôs ao corrente dos detalhes sobre o Mundo Digital – será verdade? E, mais uma vez, sabendo eles que quatro das Crianças Escolhidas japonesas estão desaparecidas, porque não fazem nada, ao que parece?

 

Enfim, os Kuwagamon são derrotados, mas, nos dias que se seguem, as Crianças percebem que a opinião pública se revoltou contra os Digimon, não distinguindo aqueles que atacavam a população e aqueles que procuravam defendê-la. Quando os oito se reúnem pela primeira (e única) vez em Saikai, para fazer o ponto da situação, Tai diz compreender a posição tomada pelos “civis”, dá mesmo a entender que os companheiros Digimon são, pelo menos em parte, responsáveis por essa destruição. Os amigos reagem com desconforto… tirando Matt. Este, pura e simplesmente, irrita-se e separa-se temporariamente do grupo.

 

Muitos fãs acusam Tai de estar a agir contra a sua personalidade em Saikai (mais sobre isso adiante), mas eu também estou a estranhar um pouco as atitudes de Matt. Em 02, ele parecia ter ultrapassado a sua amargura e revolta pelo divórcio dos pais, surgindo mais descontraído e divertido (não fez mal à ideia que tínhamos dele ser perseguido pela irmã de Davis). No entanto, em Tri, ele parece ter regressado aos seus modos mal-humorados e irascíveis. Talvez seja a adolescência, a pressão dos dezassete anos… E, de qualquer forma, se há pessoa que o irrita facilmente é Tai. Temos até uma inversão de papéis: em Adventure, era Tai quem se atirava de imediato à luta e Matt quem optava pela opção mais segura. Em Tri passa-se o oposto. Achei até que Matt foi demasiado duro para com o amigo. No entanto, verdade seja dita, em nenhum momento Matt se recusou a lutar quando era necessário. Mesmo outras Crianças Escolhidas, como Mimi em Adventure, que procuraram caminhos alternativos à violência, nunca se recusaram, pura e simplesmente, a lutar. Mas já falaremos melhor sobre as hesitações de Tai.

 

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Eu gostava de ter ouvido opiniões mais concretas das outras Crianças Escolhidas sobre o dilema de Tai, mas também compreendo que estas não tivessem querido tomar lados na discussão entre Tai e Matt. Afinal de contas, da última vez que aqueles dois se tinham desentendido a sério, o grupo dividira-se. Gostei, aliás, de vê-los fazendo tudo para que os dois líderes do grupo deixassem de andar às turras… sem se deixarem de divertir à custa dos dois.

 

Para dizer a verdade, todos os momentos de convívio entre as Crianças Escolhidas deram gosto de ver, as cumplicidades, as trocas de picardias. Surpreendentemente, Mimi foi uma das minhas personagens preferidas em Saikai: acabada de regressar dos Estados Unidos para o Japão, trazendo consigo alegria, vida e gomas a um grupo de Crianças Escolhidas perigosamente à beira do desânimo. De todos, Mimi é quem parece mais confortável na sua pele: ao namoriscar com um Izzy atravessando uma fase de timidez perante mulheres; ao cumprimentar com um abraço um Joe atravessando uma fase difícil; ao provocar uma Sora que passara os últimos dias fazendo das tripas coração para manter a paz entre Tai e Matt. É notável que Mimi tenha passado de uma das mais irritantes para uma das mais divertidas.

 

Sora continua a mamã do grupo, sobretudo, precisamente, no que toca a Tai e Matt. Antes de os Digimon se meterem ao barulho, a jovem stressava para escolher entre o jogo de futebol de Tai e o concerto de Matt, não querendo magoar nenhum dos rapazes. Depois de Tai e Matt se começarem às turras, fez tudo – inclusive fechá-los numa cabina da roda gigante – para que se entendessem de novo. Houve até um momento em que interrompeu uma discussão entre eles e só faltou Tai ou Matt dizerem: “Desculpa, mãe…”. Por um lado tem graça, é Sora sendo Sora. Por outro, é um bocadinho frustrante que tudo o que a jovem faz em Saikai seja em função dos rapazes.

 

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Acontece o mesmo com Kari, que passa a maior parte do filme preocupada com o seu onii-chan. Também aparece numa ocasião metendo-se com T.K. – que, nestes últimos três anos, se transformou num mini-galã, ao que parece – e este pergunta-lhe se ela tem ciúmes. Nenhum deles tem muito tempo de antena, aliás – provavelmente por já terem sido protagonistas em 02.

 

Caso não se tenham apercebido ainda, o filme faz muito isto. Não há praticamente nenhum ship que não receba uma piscadela de olhos, até mesmo Tai e Matt (sim…). Diz que é isso que o povo quer, ainda que eu não acredite que a audiência tem sempre razão (sim, Arrow, estou a falar de ti outra vez). Em todo o caso, não me vou queixar pois Saikai lidou bem com as insinuações de romance pois limitou-as a isso, a insinuações e a comic relief. Fê-lo muito melhor que 02.

 

De qualquer forma, gostei de ver as raparigas lanchando fora juntas. Julgo que foi a primeira vez que vi Kari convivendo com Sora e Mimi a sós, como amigas normais.

 

Izzy continua o génio de sempre, o Cérebro das Crianças Escolhidas. Agora tem o seu escritório pessoal (bem impressionante para um miúdo de dezasseis anos, diga-se). Depressa providencia um espaço virtual para os companheiros e uns óculos novos para Tai, capazes de detetar distorções no espaço, como as responsáveis pelo aparecimento dos Kuwagamon. No entanto, conforme dei a entender acima, não se sente muito à vontade com o sexo oposto.

 

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Quem, no entanto, está a passar verdadeiramente por um mau bocado é Joe. De forma surpreendente, o mais velho do grupo está com más notas e usa isso como desculpa motivo para passar ao lado da maior parte da ação… para não dizer toda a ação. Apenas se junta ao grupo quando este se reúne no dia seguinte ao ataque dos Kuwagamon. Quando Joe confessa aos amigos que nem tempo tem tido para a namorada, estes reagem da mesma maneira que a audiência:

 

- Espera… tu tens uma namorada?

 

T.K. pergunta mesmo se a misteriosa namorada é humana, o malvado… Não se pode censurar Joe por ficar com ainda menos vontade de se juntar ao grupo. Mas é um momento engraçado, um dos mais engraçados de Saikai.

 

Regressando a um tom mais sério, duvido que o trabalho académico seja o único motivo pelo qual Joe se manteve afastado da ação. Suspeito que haja mais qualquer coisa. Talvez ele concorde com as hesitações de Tai. Talvez ele se considere uma peça pouco importante naquele xadrez. Ele próprio reconheceu, perto do fim de Adventure, que Gomamon é bastante irrelevante como lutador… Talvez Joe se ressinta disso, passados aqueles anos todos. Talvez ele esteja com uma crise de confiança, derivada da sua situação escolar. Talvez ele não queira, sequer, continuar a ser uma Criança Escolhida.

 

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Estou mais inclinada para as últimas hipóteses, sobretudo porque, segundo consta, no próximo filme estrear-se-ão as digievoluções para o nível Hiper Campeão dos companheiros de Mimi e Joe. Já não era sem tempo. Sempre foi uma injustiça Matt e Tai serem os únicos com direito a esse nível. Mesmo assim, continuarão privilegiados graças a Omnimon/Omegamon – a menos que as outras Crianças Escolhidas consigam desbloquear também a… Digievolução ADN? Em todo o caso, espero que os desbloqueios sejam feitos como deve ser, ou seja, com desenvolvimento de personagem a acompanhar.

 

Regressando a Tai, como muitos fãs, no início eu estranhei as suas hesitações, tão díspares daquilo a que estávamos habituados da parte ele. No entanto, ao ver Saikai pela segunda vez para escrever esta análise, tudo pareceu fazer mais sentido. Na minha opinião, estes desenvolvimentos vêm em linha com o arco de Tai em Adventure. Em miúdo, ele possuía um longo historial de decisões irrefletidas, teimando em atirar-se para a frente sem pensar nas consequências, sem pensar nos danos que as suas atitudes e a luta em si provocariam nos amigos. No fim de Adventure, ele começa a aprender a pensar antes de agir, a ter em consideração a segurança os demais. É natural que, aos dezassete anos, quando ele, nas suas próprias palavras, vê mais e compreende menos (bem vindo à idade adulta, Yagami!), as consequências das suas ações lhe pesem mais.

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É, aliás, uma das coisas que apreciei em Tri: o facto de a narrativa ganhar maturidade, adaptando-se à idade da audiência. Em miúdos não nos importávamos particularmente com os danos humanos e materiais, provocados por todos aqueles combates fixes entre Digimon. Quando somos mais velhos é que pensamos coisas como “Eish, reconstruir aquela ponte vai custar milhões!” ou “É impossível o Paildramon não ter esmagado ninguém ao chocar contra aquele prédio”. Tri usa isso em seu favor. O mesmo se passa com a organização secreta, conforme referi antes.

 

No entanto, por muito justificáveis que sejam todas estas crises existenciais de Tai, vê-lo especado enquanto Alphamon ataca todos os companheiros Digimon e falha por pouco Matt e Meiko desafia a credibilidade. Para além de ser contra a sua personalidade, é… uma cobardia, pois ele parece menos preocupado com a destruição em si do que com ser responsabilizado por ela. Felizmente, numa cena cujo drama é espremido até ao tutano mas que resulta – sobretudo ao recordar um certo momento icónico de Adventure – Matt consegue obrigar Tai a recompor-se, a reaprender o verdadeiro significado de coragem (agir mesmo sabendo que as circunstâncias estão contra nós, que poderemos falhar) e… começa a tocar a versão orquestral de Brave Heart. Nada corre mal quando toca Brave Heart.

 

 

Agumon e Gabumon digievoluem para Omnimon/Omegamon, não sem antes passarem por todos os estádios da digievolução… por algum motivo. Pena não terem mostrado as sequências de passagem para os níveis Super e Hiper Campeão. Além disso, pelas regras definidas em 02, não sei se a digievolução para Omnimon seria possível. Terão Gennai e/ou Azulongmon tenham mexido cordelinhos outra vez? Se sim, por que motivo os Digimon das outras Crianças não passaram ao nível Super Campeão? Enfim, enredo, a quanto obrigas…

 

A luta entre Omnimon/Omegamon e Alphamon é fixe, não apenas pelo combate em si, mas também pelas cenas de Tai apoiando-se em Matt (estes dois têm uma relação engraçada, realmente: num minuto amigos do peito, noutro a isto de andarem ao murro…). No entanto, Alphamon acaba por fugir através de outra distorção espacial, o combate fica por terminar, continuamos sem saber ao certo qual é o objetivo dele, fica a destruição. Tal como já referi acima, ainda que este, em princípio, não vá virar a cara à luta de novo, continua com os mesmos dilemas e Matt continua descontente com o amigo.

 

Uma nota rápida para Meiko, a nova Criança Escolhida cujo companheiro Digimon, Meicoomon é, ao que parece, quem Alphamon perseguia. Tudo o que sabemos sobre ela é que veio transferida de outra cidade e é muito tímida. Mais nada. Eu não acho que era preciso arranjarem mais uma Criança Escolhida, mas suponho que Meiko e Meicoomon vão ter um papel importante no enredo futuro de Tri.

 

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Em conclusão, o título Saikai, Reunião, do meu ponto de vista, não diz respeito apenas ao reencontro das Crianças Escolhidas umas com as outras e com os respetivos companheiros Digimon. Diz também respeito ao reencontro do elenco de Adventure connosco, depois de nos termos despedido deles há quinze anos. O filme explora muito o fator nostalgia/fanservice, não apenas com os brindes para os ships, também com pormenores como os óculos de Tai e a harmónica de Matt. Não se limita, no entanto, a ser pouco mais que um remake de Adventure ou 02, pelo contrário. Tal como disse acima, o enredo acompanha o amadurecimento da audiência e do elenco – dá para ver, em diferentes graus, que as Crianças Escolhidas não são o mesmo que eram no fim de Adventure (e mesmo 02), ainda que o essencial da sua personalidade não tenha mudado. E, como tenho assinalado aqui no blogue sempre que falo de Digimon, é difícil falhar quando a narrativa investe nas suas personagens.

 

O problema de Saikai – e, provavelmente, de todo Tri – é que este filme foi feito para fãs de longa data de Digimon. Para podermos apreciá-lo, temos de ter visto pelo menos Adventure e, idealmente, também 02. Mesmo assim, na minha opinião, a menos que tenhamos visto e adorado pelo menos Adventure na nossa infância, não será a mesma coisa.

 

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Para mim, Saikai foi o culminar de vários meses de Digimon. 2015 foi o ano em que redescobri um dos produtos ficcionais que mais me tem influenciado, mesmo que não tenha contactado com praticamente nada relacionado com Digimon em dez anos. Eu, que não sou nada enviesada, acho que Saikai foi o melhor filme que vi em 2015. E agora, que já estamos em 2016, uma das coisas por que mais anseio este ano é pela continuação de Tri, começando pelo segundo filme, intitulado Ketsui, que significa Determinação. Até lá…

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