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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Digimon Adventure Tri - Soshitsu (Perda) #2

Segunda parte da análise a Soshitsu, o quarto filme de Digimon Adventure Tri. Primeira parte aqui.

 

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É a partir da primeira aparição de Machinedramon que Soshitsu começa a dar tiros nos pés. Até à parte do Tri-ângulo amoroso, a história decorria de forma consistente. Um bocadinho lenta, sim, mas todos os filmes de Tri, até agora, tiveram um começo lento. Soshitsu, ao menos, estava a ter bons momentos entre personagens. No entanto, Machinedramon interrompeu um momento crucial para o desenvolvimento de Sora e, a partir daí, as coisas ficaram estranhas.

 

Machinedramon aparece quase literalmente do nada, perseguindo Meicoomon. Não, não é o mesmo Machinedramon que fazia parte dos Dark Masters/Mestres das Trevas. Por esta altura, toda a gente está a assumir que Yggdrasil e/ou o Dark Gennai têm a capacidade de conjurar cópias de Digimon de nível Hiper Campeão, ainda que uns quantos furos abaixo em relação aos originais – primeiro o Imperialdramon de Ketsui e, neste filme, o Machinedramon e, mais tarde, o MetalSeadramon. É uma explicação tão boa como qualquer outra. No entanto, chateia-me um bocado que ainda não tenha sido confirmada oficialmente.

 

Tai, Matt e Sora voltam rapidamente para junto dos amigos. Como Machinedramon continuasse a atacar, os Escolhidos voltam-se, naturalmente, para os seus Digimon, dispositivos em riste e…

 

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...nada acontece.

 

Eu sabia, desde logo, que a digievolução não ia funcionar à primeira, depois do Reinício. Os Escolhidos descobrem-no na pior altura possível. É, adequadamente, um momento “Oh crap!

 

Infelizmente (ou felizmente), no momento em que Machinedramon devia, pela lógica, matá-los a todos, abrem-se distorções no local, que transportam os Escolhidos para outros sítios – ou seja, um dos maiores Deus Ex-Machinas de que há memória.

 

Este é apenas o primeiro de vários Deus Ex-Machinas e outras incongruências neste filme, mas quero falar já sobre isso. Um dos motivos pelos quais Kokuhaku foi tão bom foi porque quase todos os eventos do enredo ocorreram por causa de decisões tomadas pelas personagens. O Reinício e tudo o que ele implicou aconteceram porque, em primeiro lugar, nem Maki, nem Daigo nem Meiko disseram aos outros Escolhidos a verdade acerca de  Meicoomon; em segundo lugar, T.K. não disse a ninguém, tirando Meiko, que Patamon estava infetado; em terceiro, os Digimon não disseram aos seus companheiros humanos que ia haver Reinício – só Agumon e Tentomon e, mesmo assim, não foi a sua primeira escolha.

 

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É precisamente por isso que Kokuhaku é, em simultâneo, tão belo e tão trágico: porque o Reinício podia ter sido evitado e não o foi por causa da humanidade e imperfeições das personagens. Até as atitudes de Maki são compreensíveis, agora que conhecemos as motivações dela!

 

É por isso que ninguém gosta de Deus Ex-Machinas: porque as personagens não fazem absolutamente nada para merecerem o que lhes acontece. Já ajudava, neste caso, se por exemplo Meicoomon tivesse criado as distorções de propósito, numa tentativa de salvar os Escolhidos e os seus Digimon.

 

Não que ela alguma vez tenha dado sinais de se ralar com outra criatura que não ela mesma ou Meiko. Mas, se tivesse acontecido, abriria imensas possibilidades.

 

Isto nem seria tão mau se, ao menos, Soshitsu tivesse aproveitado as oportunidades criadas pelo Deus Ex-Machina. O grupo divide-se, com alguns dos humanos a serem emparelhados com companheiros Digimon alheios. Quando, aliás, vi pela primeira vez, nos trailers, por exemplo, Joe com Palmon e Patamon e Mimi com Tentomon, pensei que isso tivesse sido escolha dos próprios Digimon. Afinal de contas, eles não têm memórias dos seis anos anteriores e, provavelmente, nem sequer sabem que estão programados para protegerem um dos humanos em específico. Seria fascinante se, em certos momentos, sentissem maior afinidade para com os humanos “errados”.

 

O que remete, de novo, para a questão dos Ex-Machinas.

 

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Alguns dos Escolhidos vão, ainda, parar a locais significativos da sua primeira estadia no Mundo Digimon. Como Mimi no palácio dos Gekomon, Joe no restaurante do Vegiemon e do Digitamamon e T.K. na Aldeia do Início. Posso estar enganada, mas o local a onde Tai foi parar, juntamente com a irmã, Gabumon e Salamon (momento fofinho quando Tai e Salamon acordam Kari, que estava desmaiada), lembra-me o cenário da parte do segundo arco de Adventure – aqueles episódios em que ele cometeu várias asneiras graves, tais como forçar a digievolução de Greymon e permitir que Sora seja raptada.

 

Esta mixórdia de temáticas abria imensas possibilidades: os Digimon amnésicos descobrindo mais acerca dos seus companheiros humanos; os Escolhidos recordando episódios marcantes do seu passado (episódios de que, se calhar, não se orgulham) e falando deles com os seus Digimon (seus companheiros oficiais ou não).

 

Mas quase todas essas oportunidades são desperdiçadas. Mimi limita-se a elogiar Izzy perante Tentomon, mesmo no estilo de adolescente apaixonada. T.K. explica o Reinício a Elecmon e reforça do desejo de reencontrar Patamon (ou seja, nada que acrescente alguma coisa). Izzy mostra algumas fotografias pré-Reinício a Agumon e Gomamon. Pelo meio, há um momento inútil, mesmo estúpido, em que Agumon e Gomamon ficam a olhar especados para um comboio que vem na direção deles, antes de Matt e Izzy os afastarem no último segundo. Por fim, o grupo que abarca Joe, Patamon e Palmon nem sequer tem direito a falas.

  

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É também nesta altura que se volta a manifestar a aparente falta de orçamento de Tri, com o regresso dos planos estáticos que já tinham aparecido em Ketsui. Nem sequer é a primeira vez que aparecem no fime, mas esta é a mais flagrante, chegando a aparecer uma apresentação de diapositivos. Não percebo, sinceramente. Kokuhaku não teve nada disso (ou, se teve, foi tão discreto que nem sequer reparei). Filme sim filme não reduz-se o orçamento?

 

Felizmente, temos uns quantos momentos que se aproveitam. Por exemplo, quando Agumon pergunta a Matt se este odeia Tai. Eu podia escrever páginas e páginas só para responder a essa pergunta, mas Matt diz apenas:

 

– Espero demasiado dele.

 

Não é preciso acrescentar mais nada.

 

Por sua vez, Tai desabafa com Kari sobre as consequências do Reinício, sobretudo o facto de a digievolução não funcionar A irmã tem um raro momento de profundidade ao dizer que talvez os Digimon estejam melhor assim, sem recordações dos anos anteriores. Eles, os Escolhidos, têm de aceitá-los e amá-los tal como são agora.

 

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Este discurso não é particularmente original – é comum dizerem-se coisas parecidas sobre doentes de Alzheimer, por exemplo – mas é significativo que tenha partido de Kari. A sua companheira encontra-se, agora, na forma da adorável Salamon. No entanto, antes do Reinício, era a mais madura dos Digimon dos Escolhidos – tanto pelo seu passado como por ser do nível Adulto. Sem essas memórias, Salamon é tão inocente como os outros Digimon – algo que não passou despercebido a Kari. Salamon está, sem dúvida nenhuma, melhor assim, sem saber que Myotismon a escravizou e lhe matou o melhor amigo

 

Por agora, pelo menos.

 

No entanto, os melhores momentos foram os que envolveram Sora – também era o mínimo, já que este era o filme dela! Depois o ataque do Machinedramon, Sora é transportada para um deserto (provavelmente o mesmo que o grupo atravessou no segundo arco de Adventure), juntamente com Byomon que, nesta altura, não tem desculpa nenhuma, está a ser mesquinha (eu e o António, o Danny e o Shika, do Odaiba Memorial Day Portugal, usámos palavras mais coloridas e menos simpáticas para descrever Byomon), acabando por fazer a pobre rapariga chorar.

 

Não se faz, Byomon! Não se faz!

 

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Entretanto, as duas encontram o corpo inconsciente de Meiko, que terá aparecido no Mundo Digimon por obra de graça do Espírito Santo – ou, vá lá, da Homeostase. Em todo o caso, ainda bem que isso acontece, já que Meiko proporciona alguns dos melhores momentos do filme – nomeadamente, ao ser a primeira conseguir ajudar Sora, por pouco que seja.

 

Por esta altura, Byomon já percebera que estava a ir longe demais e tenta ser um pouco mais cordial. A certa altura, chega a ser mais calorosa para com Meiko do que para Sora, o que, naturalmente, magoa esta última. Mas não é, de todo, incompreensível, já que Meiko a pressiona menos. Quando Sora desabafa com Meiko sobre a difícil reaproximação a Byomon, Meiko recorda à amiga as suas próprias palavras, sobre o lanço inquebrável entre Escolhidos e os seus Digimon.

 

Eu, no passado, queixei-me do tratamento que Digimon (no que toca ao universo de Adventure, pelo menos) tem dado às suas personagens femininas. No entanto, as relações entre as meninas Escolhidas têm sido alguns dos pontos altos de Tri, com cada filme (tirando Saikai) tendo uma cena em que uma das raparigas dá apoio a outra – tal como demonstrei no vídeo acima/abaixo, que publiquei na página de Facebook deste blogue, a propósito do Dia da Mulher.

 

 

 

De assinalar que Meiko é quem está no centro destas interações. A jovem está longe de ser a personagem mais popular de Tri. Meiko também não me entusiasmava muito, de início, mas tenho vindo a gostar cada vez mais dela. Por um lado, por a achar parecida comigo, mas também pela maneira como Meiko tem vindo a ser desenvolvida, em paralelo com outros Escolhidos: Mimi em Ketsui, T.K. em Kokuhaku e Sora neste filme.

 

O momento alto de Meiko, aliás, foi o seu reencontro com Meicoomon. Esta última tinha passado a primeira metade do filme chorando por a sua humana não ter vindo procurá-la. Quando finalmente a encontra, tem uma birra destrutiva, acusando Meiko de não ter vindo por Meicoomon ser “má”. Meiko admite que sim, Meicoomon é “má”, tem-lhe tornado a vida difícil, mas isso não impota. Tal como temos visto outra e outra vez  em Tri, tal como Sora e T.K. lhe tinham ensinado, um Escolhido não volta as costas ao seu Digimon. Meiko não o fará agora.

 

Esta deverá ser a primeira vez em anos (se não for a primeira vez, ponto) que Meiko é completamente sincera para com Meicoomon – e talvez mesmo consigo mesma. É uma evolução significativa relativamente à Meiko que passou quase todo Kokuhaku em depressão, com pena de si própria.

 

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Depois disso, o falso Imperador Digimon aparece perante Sora e Meiko, juntamente com Machinedramon, tentando deitar as mãos a Meicoomon. Como Sora tentasse impedi-lo, ele volta-se para ela. É nesta altura que ele revela finalmente a sua verdadeira (será?) identidade: Gennai.

 

Não, não vou falar sobre a infame cena que arruinou a infância a toda uma geração que cresceu com Adventure e 02. Passemos à frente.

 

A isto seguem-se uma série de incoerências. A primeira é o facto de Sora ter conseguido tirar o Dark Gennai de cima de si, sem dificuldade aparente - apesar de não ter conseguido fazer nada quando Gennai lhe tirou o dispositivo digital.

 

De seguida, repete-se o Deus Ex-Machina quando as distorções trazem todos os outros Escolhidos para o local, ao mesmo tempo. Tai e Matt, então, como disse antes, aparecem no momento exato para proteger Sora de um ataque do Machinedramon.

 

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É nesta altura, enquanto o Machinedramon tenta atingir os miúdos, que o Dark Gennai começa o monólogo, explicando as suas motivações. Conforme Hackmon já tinha explicado, Gennai está a trabalhar para Yggdrasil.

 

 Quando li este nome nas legendas do filme pela primeira vez, eu sabia que já o tinha lido algures, a propósito de Digimon. Foi uma das primeiras coisas que perguntei ao António, depois de ver o filme: quem era Yggdrasil. Consta, então, que ele é o principal computador que aloja o Mundo Digital e/ou uma espécie de divindade do Mundo Digimon. Já tinha usado como vilão na temporada Savers, onde se terá voltado contra os humanos por os considerar uma ameaça para os Digimon. Parece que, em Tri, as suas motivações são semelhantes.

 

Pelo menos é isso que se deduz do monólogo de Gennai, que dá como exemplo os Digimon dos Escolhidos – selecionados e programados para protegerem humanos, mesmo que lhes custe a vida. Gennai acusa mesmo os Escolhidos de escravizarem os seus Digimon

 

Eu não consigo evitar pensar nos fãs de Digimon detratores de Pokémon, que questionam (não sem razão) a moralidade da premissa de capturar criaturas e obrigá-las a lutar. No entanto, já que Soshitsu foi por essa via, devo perguntar: será muito melhor termos criaturas nascidas e obrigadas a proteger humanos, mesmo que não seja essa a sua vontade? Tri desperdiça, aliás, outra oportunidade ao não ter pelo menos um dos Digimon amnésicos questionando o seu propósito de vida.

 

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No entanto, os Escolhidos são os últimos que merecem ser culpados por isso. Conforme assinalei antes, nenhum dos miúdos escolheu ir parar ao Mundo Digimon – foram literalmente atirados para lá. Pode-se argumentar que a afeição que desenvolveram pelo Mundo Digital é, pelo menos em parte, Síndrome de Estocolmo. Como disse antes, os companheiros Digimon são tudo o que os miúdos receberam como ajuda ou compensação. Sim, os Digimon é que são obrigados a arriscar a pele, mas não foram os Escolhidos que definiram as regras.

 

Aliás, fica cada vez mais claro que esta é uma luta (se não for guerra aberta) entre Yggdrasil e a Homeostase e os miúdos, os respetivos Digimon, Maki e talvez mesmo o Dark Gennai não passam de peças num tabuleiro de xadrez.

 

 Voltaremos a falar sobre isso e muito mais na última parte desta análise. Continuem desse lado!

Digimon Adventure Tri - Soshitsu (Perda) #1

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Hoje vamos falar, finalmente, sobre Soshitsu – peço imensa desculpa por este épico atraso. Soshitsu (que, em português, significa Perda), é o quarto de seis OVAs que constituem Digimon Adventure Tri – uma série que serve de sequela às duas primeiras temporadas do anime de Digimon, também conhecidas por Adventure e 02. Desta feita, a análise virá dividida em três partes: as próximas duas virão amanhã e depois, em princípio.

 

Numa altura em que vamos em dois terços da série, podemos já assinalar um dos maiores problema de Tri: a inconsistência. Temos alternado entre filmes bons e filmes menos bons. Saikai, o primeiro, é um filme bom, mas o segundo, Ketsui, está uns quantos furos abaixo. Kokuhaku suplantou os seus antecessores e elevou as expectativas para o filme seguinte.

 

Soshitsu, infelizmente, não foi capaz de corresponder a essas expectativas.

 

Não me interpretem mal, eu gosto de Soshitsu. Fez várias coisas bem – sobretudo o facto de fazer o que nenhum dos filmes anteriores tinha feito: dar-nos respostas (embora não sejam aquelas que alguns de nós desejavam). Percebe-se, também, que os digi-guionistas tinham uma série de potenciais boas ideias. O pior é que não souberam pô-las em prática: ou as exploraram mal ou não as exploraram de todo.

 

É esse o grande problema de Soshitsu: a execução.

 

Antes de prosseguirmos, os alertas habituais...

 

1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo do primeiro, segundo e terceiro filmes de Digimon Adventure Tri e, possivelmente, dos enredos de Adventure e 02. Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas – na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Apesar de as legendas do filme usarem os nomes japoneses das Crianças Escolhidas, eu vou usar as versões americanizadas dos nomes, visto que estou mais habituada.

 

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É frustrante, pois Soshitsu tinha tudo para ser um filme bem melhor – dá para ver claramente, ao longo do filme, onde se podia melhorar. Até porque Soshitsu começa de forma bombástica, com um flashback em estilo filme retro, mudo, capaz de deixar os fãs a especular durante anos.

 

Confesso que não estava à espera que Maki e Daigo fossem as Crianças Escolhidas Originais (referidas de forma muito rápida na reta final de Adventure, as primeiras a derrotar os Dark Masters/Mestres das Trevas). Olhando agora, em retrospetiva, no entanto, não sei como é que não considerei a hipótese (julgo ter dado com ela algures na Internet). Mas também nunca dei muita importância a essas misteriosas Crianças Escolhidas Originais.

 

No entanto, agora que sabemos a verdade, faz todo o sentido. Descobrimos, assim, que, quinze ou vinte anos antes dos eventos de Tri, Maki e Daigo fizeram parte das primeiras cinco Crianças Escolhidas a salvar o Mundo Digimon nos Mestres das Trevas. Pelos óculos caídos junto a Daigo, este terá sido o líder.

 

Este flashback confirma algo que, segundo consta, vinha referido na versão em livro da história de Adventure: o facto de as quatro Bestas Sagradas terem sido, originalmente, os parceiros dessas Crianças Escolhidas Originais. A única exceção foi o parceiro de Maki: Bakumon/Tapirmon, na forma Infantil, Megadramon na forma Perfeita/Super Campeã, que, segundo o que percebi, foi exigido como sacrifício por parte da Homeostase.

 

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Descobrimos mais à frente no filme que Maki terá passado a segunda metade da sua vida – talvez mais – procurando uma maneira de recuperar o seu parceiro Digimon. Noutro flashback, de quando Maki e Daigo eram adolescentes, Maki aparece já estudando a hipótese de um Reinício.

 

Nesse flashback, vemos, aliás, Daigo preocupado com o rumo que Maki está a tomar: incapaz de deixar o passado no passado, obcecada por trazer Bakumon de volta à vida. Ele sabe perfeitamente que aquilo não vai acabar bem. Daigo tenta ajudar Maki a sair daquele buraco, oferece-se mesmo para tentar preencher o vazio deixado pela morte de Bakumon.

 

Em vão. Daigo poderá, aliás, ter feito mais mal do que bem – é provável que Maki, depois daquele episódio, tenha tomado precauções extra para que o amigo não descobrisse o que ela andava a fazer.

 

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Em todo o caso, isto prova que as minhas suspeitas, que começaram em Ketsui, estavam certas: Maki deixara Meicoomon vulnerável ao falso Imperador Digimon de propósito; podia ter evitado o Reinício e escolhera deliberadamente não fazê-lo. O Reinício fazia parte dos planos dos vilões.

 

Estão a ver? Aqui a Sofia tinha razão!

 

Ter um humano a colaborar com os vilões não é nada de novo em Digimon, nem mesmo no universo de Adventure. Pelo contrário, os paralelismos com Oikawa são evidentes. Ambos perderam um amigo próximo, que associam à sua infância. No caso de Oikawa, foi Hiroki, o pai de Cody, o seu melhor amigo de infância, na companhia de quem descobriu o Mundo Digimon. No caso de Maki, foi o seu companheiro Digimon. Nenhum deles é capaz de fazer o luto como deve ser, o que os coloca numa posição vulnerável à influência dos vilões.

 

Mas existem diferenças. Oikawa foi controlado por Myotismon, não fez nada por vontade própria. Tendo em conta que o público-alvo de 02 era o infantil, não admira que os digi-guionistas tenham escolhido este desenvolvimento mais simplista, mais a preto e branco. Por sua vez, Tri é dirigido a uma audiência mais velha, os digi-guionistas podem tornar Maki mais ambígua moralmente.

 

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Pode-se questionar como é que uma antiga Criança Escolhida trai o Mundo Digimon desta maneira mas, na minha opinião, motivos não lhe faltam. Se assumirmos que as coisas se passaram de maneira semelhante a Adventure, Maki, Daigo e as outras Crianças Escolhidas Originais terão sido atirados, quase literalmente, para o Mundo Digimon, sem que ninguém lhes tivesse perguntado se era isso que queriam. Terão, depois, sido obrigados a sobreviver só com a ajuda dos respetivos companheiros Digimon. Pelo meio, terão descoberto que o Mundo Digital estava em perigo e só eles podiam salvá-lo, blá blá blá, Whiskas Saquetas.

 

Como penso já ter referido aqui, no blogue, pedir a crianças de dez ou onze anos (ou talvez mais novas) que arrisquem a vida por um mundo inteiro já de si é uma violência. A Homeostase tem, ainda, o desplante de exigir Bakumon (a única coisa boa que Maki recebera como Criança Escolhida) como sacrifício.

 

Não sei como é com vocês, mas eu também ficaria a odiar a Homeostase e talvez mesmo o próprio Mundo Digimon e tudo o que ele representa. E diria a Daigo e a outros que tais onde poderiam enfiar a conversa recorrente em Tri, sobre “seguir em frente” e “crescer”.

 

Por falar em Daigo, é durante o presente em Soshitsu que este descobre a verdade acerca de Maki. Depois de os miúdos terem partido para o Mundo Digimon, Maki desaparece sem deixar rasto. Daigo investiga no gabinete dela e acaba por descobrir os seus planos para o Reinício, e-mails trocados com Gennai, uma lista com a localização dos Digimon da Ilha do Ficheiro, com o nome de Bakumon destacado.

 

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De seguida, Hackmon aparece no gabinete. Depois de ter passado a primeira metade de Tri sendo misterioso, observando os principais acontecimentos à distância, finalmente revela quem é e o que quer da vida. Hackmon apresenta-se a si mesmo como um mensageiro da Homeostase – cargo que antes, era ocupado por Gennai, antes de ele, tal como o próprio Hackmon confirma, se juntar ao lado negro da Força.

 

Hackmon confirma, também, tudo o que Daigo acabara de descobrir e ainda mais: Maki fizera um acordo com Yggdrasil usando Gennai como intermediário. A antiga Criança Escolhida trabalharia para ele e ele ajudar-lhe-ia a provocar um Reinício. Acho que ninguém o confirma preto no branco no filme, mas vários dão a entender que Meicoomon terá sido criada de propósito para ser o veículo da Infeção – não percebo, no entanto, se a ideia partiu de Yggdrasil ou de Maki.

 

Agora que penso nisso, Maki a ter a ideia de usar um Digimon como veículo da Infeção e, depois, oferecê-lo como companheiro a uma criança – essencialmente impôr a Meiko um destino semelhante ao seu, se não for pior – seria de uma frieza arrepiante. Mas como nada disto ainda foi confirmado oficialmente, não vou por aí.

 

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Falaremos de Gennai e Yggdrasil mais adiante. Para já, queria só comentar que, nesta fase, esperava mais participação de Daigo nos acontecimentos. Passou os três primeiros filmes a reboque de Maki – nem sempre concordando com as ações dela e dizendo-o explicitamente, mas nunca indo contra a vontade ela. Agora, em Soshitsu, pouco mais foi que o avatar da audiência na revelação das motivações de Maki e da história principal de Tri.

 

Espero que, nos próximos filmes, Daigo tenha um papel mais ativo. É provável, aliás, que seja ele a chamar Maki à razão, quando for necessário.

 

Regressemos a Maki. Esta acaba por reencontrar Bakumon perto do fim do filme… mas ele não a reconhece, para surpresa desta.

 

É uma das muitas inconsistências em Soshitsu. Maki passara metade da sua vida planeando o Reinício, não sabia que um dos efeitos secundários para os Digimon era amnésia? Não faz sentido.

 

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À parte esse aspeto, quando Bakumon não reconhece Maki e se retrai, esta tem um mini surto psicótico, tornando-se algo violenta. É certo que Maki passou por muito. Esperou metade da vida por aquele momento. Passara o dia e meio anterior sozinha, no Mundo Digital, à procura de Bakumon. É possível que estivesse desidratada e privada de sono. É pouco provável, assim, que estivesse capaz de pensar e agir racionalmente. Muitos de nós enlonqueceríamos um bocadinho naquelas circunstâncias.

 

Mesmo assim, atacar um Digimon inocente, de nível Infantil? Não se faz.

 

Infelizmente, a cena acaba ali – é capaz de ter durado menos que algumas das sequências de digievolução. Que acontecerá a seguir? Eu diria “só as Bestas Sagradas sabem” mas, nestas circunstâncias, parece-me de mau gosto…

 

Por esta altura, é óbvio que Maki não passa de um peão nas mãos de forças  muito maiores do que ela, que governam o Mundo Digimon. Nesse aspeto, não difere muito dos Escolhidos atuais… Mas estou a adiantar-me.

 

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Tirando o prólogo analéptico, o filme retoma a narrativa poucos minutos após, o filme retoma a narrativa poucos minutos após o final de Kokuhaku – ou seja, poucos minutos após os Escolhidos reencontrarem os seus Digimon amnésicos. Temos direito a uns quantos momentos fofinhos: T.K. certificando-se de que​ Tokomon está curado da Infeção; Tsunomon intimidado por Matt; Tanemon com medo de que Mimi a comesse; Nyaromon reconhecendo Kari pelo seu cheiro, igual ao do apito, que ela identifica como algo reconfortante.

 

Gostei desse pormenor. Na “vida real”, o olfacto desempenha um papel importante na memória e nas emoções. Faz sentido, assim, que o olfacto tenha sido fulcral para uma das reaproximações entre Digimon e respetivo Escolhido.

 

Outro momento de que gostei foi de ver Motimon fascinado por Izzy, pelo seu computador e pelas coisas que sabe. Faz lembrar o discurso de despedida de Tentomon, em Kokuhaku.

 

Na verdade, quase toda a gente parece dar-se relativamente bem com os seus companheiros Digimon. Demasiado bem, segundo alguns fãs, que esperavam mais dificuldades aquando do reencontro. Eu, por um lado, concordo. Aliás, mais à frente falarei sobre possíveis ângulos que podiam ter sido explorados.

 

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Por outro lado, já no início de Adventure, Digimon e Crianças Escolhidas não demoraram muito a tornar-se amigos do peito. Mesmo os iniciais atritos entre Joe e Gomamon resolvem-se no episódio da estreia de Ikkakumon. Porque não haveria de acontecer o mesmo agora?

 

Apenas Sora e Yokomon não se entendem à primeira. Para além de começar literalmente com o pé errado, Sora tenta retomar as coisas exatamente no ponto em que tinham terminado, aquando do Reinício – ao invés de, tal como os amigos estavam a fazer, em graus diferentes, ir-se aproximando devagar, dando tempo a Yokomon para se habituar a ela.

 

Sem surpresas, as atitudes de Sora afastam Yokomon.

 

Isto é consistente com o que vimos no final de Kokuhaku – Sora deprimida no rescaldo do Reinício, precipitando-se para Yokomon ao reencontrá-la. E esta atitude mais compreensível se torna quando… ninguém parece reparar no que se passa com Sora. Estão todos habituados a ter Sora como mamã do grupo – que, ainda por cima, trouxe uma refeição completa para toda a gente – mas ninguém lhe retribui o favor. Byomon era, literalmente, a única que dava apoio a Sora, mas agora rejeita-a.

 

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Eu gostava que este conflito relativamente ao papel de Sora nos Escolhidos tivesse sido melhor desenvolvido ao longo do filme. Infelizmente, só se explora a relação entre esta e Tai e Matt – o Tri-ângulo amoroso, como chegou a dizer o António do Obaiba Memorial Day. E esta linha narrativa nem sequer tem uma conclusão satisfatória, conforme veremos mais à frente.

 

Havemos de voltar a Sora. Para já, falemos de outro arco narrativo relevante de Tri. Pouco após o primeiro encontro entre os Escolhidos e os seus companheiros Digimon, Meicoomon aparece perante o elenco lavada em lágrimas, perguntando por Meiko. Antes que os Escolhidos pudessem reagir, Meicoomon foge de novo para as distorções. Tai vai atrás dela – de notar que ele hesita por um segundo – mas não consegue apanhá-la.

 

Para os Escolhidos, esta é a primeira prova de que o Reinício não funcionou como o previsto – Sora, sem surpresa, é a que reage pior à descoberta. Os miúdos pensam em ir à procura de Meicoomon, mas Tai, ao imício, não parece ter muita vontade. Não é admirar que o jovem sinta algum rancor para com Meiko e Meicoomon. Afinal de contas, elas foram parcialmente responsáveis pelo Reinício – e, conforme veremos mais à frente, Tai não está assim tão satisfeito com a situação. O facto de Meicoomon não ter perdido as suas memórias não ajuda. Suspeito, aliás, que este possível ressentimento venha a ser relevante no futuro… mas estou a adiantar-me. Por agora, o grupo decide ser leal para com Meiko e procurar o seu Digimon.

 

No entanto, os Escolhidos não chegam a levar a cabo esse plano. Já veremos porquê. Para já, durante a primeira noite que o elenco passa no Mundo Digital, temos uma cena dedicada ao Tri-ângulo amoroso.

 

 

 

É um aspeto caricato deste filme: Sora não tem um único momento a sós com Matt ou a sós com Tai. Os dois aparecem sempre juntos perante ela, como gémeos siameses. Até em momentos em que Sora dá uma de donzela indefesa, Soshitsu foi ao extremo de pôr os dois atirando-se para a frente de um ataque para protegê-la. A ideia que fica é de que os digi-guionistas estavam cheinhos de medo de favorecer um dos vértices do Tri-ângulo amoroso relativamente ao outro – e imagino que isso tenha levado muitos shippers à loucura.

 

Com tudo isso, tenho visto mais sinais favoráveis a um casal Tai-e-Matt – e não me parece que seja essa a intenção dos digi-guionistas.

 

Quando Sora se afasta do grupo, Tai e Matt vão atrás dela. Tentam consolá-la mas, de uma forma hilariante, não têm jeitinho nenhum para isso. Tai é um pouco pior, conforme provado pelo vídeo acima – é por estas e por outras que ela, no fim, não se casa contigo, Yagami!

 

Outro momento delicioso é quando Matt pensa em pedir conselhos a… T.K. A imagem de T.K. ensinando o seu onii-chan, Tai e talvez Izzy a falar com raparigas é irresistível…

 

 

É também nisto que está a força de Tri. Aquando de Adventure, quem imaginaria que o bebé do grupo se tornaria a referência em termos sentimentais dos Escolhidos?

 

Piadas à parte, é um bocadinho triste que nem Tai nem Matt nem nenhum dos outros Escolhidos – amigos de infância de Sora, recordemo-nos – não tenham, ao que parece, reparado que Yokomon/Byomon estava um pouco afastada de Sora e do grupo em geral. Ainda se pode perdoar que dois rapazes de dezassete anos tenham dificuldade em consolar uma rapariga da idade deles – sobretudo se nutrirem sentimentos românticos por ela. Mas é preciso ser-se muito egocêntrico para não se reparar no que se está a passar à frente dos olhos. O mais certo, contudo, é estarem tão habituados a ter Sora tomando conta de toda a gente que não lhes ocorreu que talvez ela precisasse de alguém que se preocupasse com ela.

 

Sora está perfeitamente ciente disso e, tal como eu tinha previsto, despeja o saco. Atira à cara dos rapazes todas as vezes em que eles andaram às turras um com o outro e ela teve de apaziguá-los. Infelizmente, antes que Sora pudesse dar o golpe de misericórdia, mandando-os dar banho aos… bem, aos respetivos parceiros Digimon, suponho eu (não que Agumon precisasse), Mugendramon/Machinedramon interrompe a cena.

 

Falaremos sobre o que acontece a seguir da próxima vez. Obrigada pela vossa visita. Continuem ligados!

Músicas Não Tão Ao Calhas - Hard Times

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Em janeiro de 2013, estreava aqui no blogue a rubrica Músicas Não Tão Ao Calhas. Nela, escrevo sobre músicas inéditas que os meus artistas preferidos vão lançando – na maior parte das vezes singles antes de álbuns, mas não só. A minha primeira entrada de Músicas Não Tão Ao Calhas foi sobre Now, o primeiro single do quarto álbum dos Paramore – aquele que ficou conhecido por The Self-Titled. Hoje, mais de quatro anos depois, volto a escrever sobre o primeiro single de um álbum dos Paramore – é um ciclo que se fecha.

 

Infelizmente, este ciclo nem sempre foi fácil para a banda. O início até nem foi mau. O Self-Titled é um álbum excelente, mudou por completo a maneira como encaro a vida. Graças a Deus, teve o devido reconhecimento em termos comerciais: foi platina e teve dois singles de sucesso: Still into You e Ain’t it Fun. A segunda ganhou um merecidíssimo Grammy. O ciclo desse álbum durou até meados de 2015, terminando com a digressão Writing the Future.

 

No entanto, em finais de 2015, a banda anunciou a partida do baixista Jeremy Davis. Desde essa altura, os Paramore têm passado por… bem, tempos difíceis.

 

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Ainda não tive oportunidade para escrever sobre a desistência de Jeremy. Custou-me, para ser sincera, ainda me custa. Nos primeiros tempos, ainda pensei/esperei que tivesse sido uma “rescisão” amigável, que ele tivesse partido porque tem uma filha e não pode andar em digressão.

 

Essa ilusão não durou muito. Meses depois surgiram notícias de que Jeremy e a banda estavam envolvidos numa disputa judicial, alegadamente devido a honorários da música e dos concertos. Como o processo ainda está em decurso, ainda não foi divulgada oficialmente a razão da partida de Jeremy. A ideia com que fico – e posso estar errada – é que, no centro disto tudo, está aquele três vezes maldito contrato celebrado, algures em 2005, entre a Atlantic Records e Hayley Williams, excluindo os restantes membros da banda. O mesmo contrato que já tinha sido um dos motivos para a partida dos irmãos Farro, em finais de 2010.

 

Toda esta história dá-me vontade de bater com a cabeça numa parede. Aquando do Self-Titled, a ideia que os Paramore davam era de que a banda tinha resolvido os seus problemas, aprendido com os erros cometidos. O trio estava mais forte, mais unido do que nunca, capaz de sobreviver a tudo. Eu acreditei nisso. Talvez os próprios membros da banda acreditassem nisso.

 

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Mas a verdade é que não devia ter ficado surpreendida. A banda nunca teve estabilidade – desde a ausência de Jeremy das gravações de All We Know Is Falling, passando pela saída dos irmãos Farro, e agora isto. A verdade é que Hayley tem sido a única constante em Paramore (ainda que Taylor só não se tenha juntado oficialmente à banda até depois do lançamento de Riot! porque os seus pais não deixaram). Por um lado, toda a gente sabe que Hayley podia, desde o início, optado por uma carreira a solo. Se não o fez até agora é porque, obviamente, não o quer. Por outro lado, para os membros estarem sempre a entrar e a sair, alguma coisa não está bem.

 

Não quero pensar que Hayley seja o problema. Ela parece ser uma miúda simpática, com valores parecidos com os meus – aliás, é atualmente uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música. Mas como não a conheço pessoalmente, não dá para ter a certeza.

 

Nestas alturas, a música Pressure, do primeiro álbum, faz mais sentido do que nunca.

 

 

Em defesa deles, os membros da banda parecem tão frustrados com esta história toda como eu. Ainda mais, já que esta é a vida deles. Hayley tem referido várias vezes que pensou em desistir. Disse que os Paramore parecem mais uma novela do que uma banda, que estava farta de perder amigos e de se questionar sobre o que estava a fazer de errado. Considerou várias alternativas: dedicar-se à sua linha de tintas para o cabelo, ter uma família (ela casou-se no ano passado), compôr para outras pessoas, começar um projeto diferente com Taylor.

 

Terá sido este último a salvar os Paramore, segundo Hayley. Taylor disse-lhe que a apoiaria independentemente da decisão que ela tomasse relativamente à banda. Isso aliviou a pressão sobre Hayley – que, no meio desta história toda, chegou a debater-se com depressão e ansiedade. Assim, os dois foram compondo música a pouco e pouco.

 

Entretanto, Taylor chamou Zac, o mais novo dos irmãos Farro, para tocar bateria no álbum novo. Inicialmente, veio apenas como músico contratado. Ao fim de algum tempo, Taylor convidou Zac para regressar oficialmente à banda. Ele disse que sim.

 

Toda a gente ficou feliz, como seria de esperar. Em primeiro lugar, Zac é um ótimo baterista e sentiu-se a falta dele em certos momentos do Self-Titled. A música dos Paramore fica a ganhar. Além disso, eu mesma referi, há pouco mais de dois anos, que tinha esperanças de que, um dia, os irmãos Farro regressassem. Cinquenta por cento desse desejo já se realizou.

 

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Mas fica um amargo de boca por Jeremy já lá não estar.

 

Os membros da banda chegaram mesmo a dizer que já não sabem muito bem por que os Paramore continuam a ser uma banda. Nesta altura, deve ser só por nós, os fãs – porque eles sabem que a música deles é uma das coisas que nos ajuda a sobreviver. Eu, apesar de tudo, fico grata por isso. E, agora, teremos um álbum novinho em folha daqui a menos de duas semanas.

 

Suponho que haja uma qualquer metáfora para a vida no meio desta história toda. Talvez seja assim que as coisas funcionem: uma batalha sem fim, com perdas e ganhos, cometendo os mesmos erros, sempre a desfazermo-nos e a reconstruirmo-nos outra vez, sempre a aprendermos. Uma pessoa vai continuando, às vezes só por causa daqueles que ama, às vezes só porque… qual é a alternativa?

 

 

Gonna make you wonder why you even try

 

Com isto tudo, vamos quase em mil palavras e ainda nem sequer falámos de Hard Times. Mas eu tinha de escrever sobre as aventuras e desventuras dos Paramore nestes últimos anos porque, na minha opinião, a letra da música fala sobre elas. As estâncias falam claramente sobre depressão, com referências a um buraco onde nos enfiar até os nossos problemas terem desaparecido e a uma nuvem negra que nos segue para todo o lado. No refrão, questiona-se mesmo como é que se consegue aguentar tudo isto e continuar.

 

Na verdade, a letra de Hard Times não me impressiona por aí além. Não me interpretem mal, não a acho má. É, aliás, melhor que muito do que se ouve por aí. No entanto, cai muito nos clichés habituais de Paramore. Por exemplo, o primeiro verso (“All that I want is to wake up fine”) remete para Last Hope – “Every night I try my best to dream tomorrow makes it better”. “Tell me that I’m alright” recorda-me Tell Me It’s Okay. Os versos “And I’m gonna get to rock bottom!” e “We’ll kick it when I hit the ground” fazem lembrar Turn It Off: “I’m better off when I hit the bottom”. Eu podia continuar. Não há nada na letra de Hard Times que não tenhamos ouvido antes, o que é uma pena.

 

Isso, de resto, é a única falha que tenho a apontar a Hard Times – e nem sequer a acho grave no primeiro single de um álbum novo. A letra pode não trazer nada de novo, mas o mesmo não se passa com o acompanhamento musical. Depois de músicas como Grow Up, Still into You e Ain’t it Fun, Hard Times parece lógica como o passo seguinte. À semelhança de Ain’t it Fun, Hard Times começa com notas de xilofone, que são rapidamente substituídas por notas de guitarra – são estas as responsáveis pelo ritmo dançante da música. Ouvem-se também algo que se assemelha a tambores africanos, algo que se mantém durante toda a faixa. A bateria de Zac dá personalidade à música (sobretudo numa altura em que este instrumento está em vias de extinção). No refrão, noto elementos de Daft Punk - sensação que se reforça no fim da música, com os vocais distorcidos.

 

Não sei se o mesmo aconteceu com vocês, mas eu demorei algum tempo a decifrar esses vocais. Se não estou em erro, dizem “Makes you wonder why you even try” e “Still don’t know how I even survive”. Em suma, em termos musicais, à semelhança das melhores músicas do Self-Titled, Hard Times conjuga vários elementos de forma primorosa, podendo-se ouvir a contribuição de cada membro da banda. Eu gosto. Não estou propriamente caída de quatro, mas também não estava por Now quando esta foi lançada e, com o tempo, a música foi ganhando novos significados. Estou certa de que o mesmo acontecerá com Hard Times. Sobretudo quando puder ouvi-la no contexto do álbum. Para já, espero que não demore muito a chegar às rádios portuguesas.

 

 

O quinto álbum dos Paramore chama-se, então, After Laughter, e sai dia 12 de maio. Sim, daqui a menos de duas semanas. Confesso que fiquei estonteada com esse anúncio, ainda estou. Um dia, tínhamos a vaga ideia de que os Paramore estariam a trabalhar num álbum, algumas pistas como músicas registadas no site da ASCAP. No dia seguinte, temos nome, capa, tracklist, data de lançamento, primeiro single com videoclipe e pessoas que já ouviram o álbum (inveja!). Tendo em conta que os álbuns da Avril Lavigne têm sempre um parto longo e complicado (e o sexto álbum não está a ser exceção), esta é uma alternativa atordoante, mas muito mais agradável.

 

Segundo Hayley, o título After Laughter (a melhor tradução que me ocorre é “Pós-riso”) refere-se àquele momento após uma gargalhada em que regressamos à realidade. Dá para ver, assim, que este álbum vai ser animado… só que não. Quem já ouviu o álbum dá a entender que o resto será semelhante a Hard Times. Ou seja, os Paramore vão fazer o que fazem desde o início da sua carreira: queixar-se da vida. A diferença é que, enquanto antes, Paramore depressivo equivalia a guitarras pesadas e estética emo, agora equivale a música rítmica, falsamente alegre (o nome de uma das faixas novas é Fake Happy, por sinal), e tons pastel.

 

Gostava de chamar a atenção para o símbolo no centro da capa: as barras de néon que criam uma ilusão de ótica, de modo que não sabemos se são duas ou três. É obviamente uma variante do símbolo que a banda adotou em 2011, uma provável alusão à recente troca de membros. Eu, de qualquer forma, gosto imenso deste símbolo. Já encomendei, até, um dos conjuntos de merchandising da banda que inclui uma t-shirt preta com este símbolo, para além do álbum em CD (uma encomenda que, admito, foi para aí quarenta por cento impulso).

 

Havemos de falar mais sobre os Paramore quando analisar o resto de After Laughter. Ainda não decidi se analiso faixa por faixa, por ordem crescente de preferência, ou se analiso em texto corrido. Mas vou tentar publicá-la não muito depois do lançamento do álbum. Entretanto, vou ganhar vergonha na cara e ver se acabo e publico de vez a análise ao quarto filme de Digimon Adventure Tri.

Não sejam idiotas. Vacinem as vossas crianças!

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Por estes dias, existem duas coisas que me irritam mais do que qualquer outra no Mundo. Uma delas é Donald Trump e tudo o que ele representa. Outra é a moda de não vacinar as crianças. Esta última é um dos assuntos da moda, tendo em conta o recente surto de sarampo que provocou a morte de uma adolescente não-vacinada. Sendo algo relacionado com a minha área - Ciências Farmacêuticas - achei por bem escrever sobre o assunto.

 

Começo por admitir um viés: eu tendo a ser pró-Medicina Tradicional e pró-Indústria Farmacêutica. Para além de ser de Ciências Farmacêuticas e ter tirado um curso em Ensaios Clínicos, tenho pais médicos. É uma questão de educação, em suma. Fui sempre uma mulher de Ciência. Não desvalorizo as medicinas alternativas, mas confio menos nelas que na Medicina Tradicional.

 

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Não quero com isto dizer que a Medicina e a Indústria Farmacêutica sejam isentas de corrupção - nada o é neste mundo. No entanto, o público em geral não parece ter noção de quanta fiscalização e controlo existe na Indústria Farmacêutica. Na minha primeira aula de Farmacologia, o meu professor - julgo que foi o professor Hélder Mota-Filipe, que chegou a ser presidente do Infarmed - afirmou mesmo que o setor farmacêutico é um dos mais regulados, a par do setor da aviação civil. Nenhum medicamento ou dispositivo médico é lançado no mercado sem ser sujeito a uma infinidade de controlos e avaliações (aquando do fabrico, dos ensaios clínicos, etc). Ou seja, dificilmente lançam produtos sem eficácia e/ou com níveis de toxicidade inaceitáveis. Mesmo depois de o medicamento ter entrado no mercado, continua a haver monitorização constante de possíveis efeitos secundários.

 

E este sistema, bem como a Medicina em geral, por muitos defeitos que tenha, permitiram aumentar imenso a nossa esperança média de vida, qualidade de vida em geral e reduzir a nossa mortalidade infantil. Cá em Portugal, aliás, temos mais sorte que uma boa parte do Mundo, com o nosso Sistema Nacional de Saúde tendencialmente gratuito. Este pode já ter visto melhores dias, mas ainda permite, entre outros benefícios, cem por cento de comparticipação nos medicamentos para o HIV. Tendo em conta que foram estes medicamentos que permitiram transformar a SIDA numa doença crónica, que não mata, sim, isto é um enorme benefício.

 

Como tal, irrita-me solenemente quando as pessoas não dão o devido valor à Medicina. Ainda mais quando desdenham abertamente dela. A moda de não vacinar as criancinhas é o expoente máximo dessa filosofia.

 

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Antes de mais nada, uma breve explicação sobre como funcionam as vacinas - acho que, no meio da polémica toda, ainda ninguém o explicou como deve ser. Quando o nosso organismo é infetado por um determinado agente patogénico (um vírus, uma bactéria, etc) pela primeira vez, a resposta do sistema imunitário - resposta primária - é relativamente lenta e pouco intensa. Aquando desse primeiro contacto e “combate” com o agente patogénico, são criadas células de memória. Estas guardam a informação específica sobre esse agente patogénico durante vários anos, às vezes mesmo durante a vida toda. Assim, quando ocorre uma segunda infeção pelo mesmo agente patogénico, uma vez que o sistema imunitário já o “conhece” e sabe tudo sobre ele, graças às tais células de memória, a resposta - resposta secundária - é muito mais rápida e intensa. Podemos nem sequer desenvolver sintomas da doença em questão.

 

Ora, o que as vacinas fazem é explorar as potencialidades dessas células de memória. As vacinas contém, ou o agente patogénico que queremos combater numa versão atenuada, ou partículas desse agente. O objetivo é que estas provoquem uma resposta primária por parte do sistema imunitário. Como usamos uma versão bem mais suave do agente patogénico em questão, ou partes dele, não ficamos doentes (embora certas vacinas, como a do tétano, possam provocar alguma reação). No entanto, se tudo funcionar como deve ser, a resposta do sistema imunitário será o suficiente para criar células de memória.

 

Depois disso, quando ocorrer uma infeção a sério por parte desse agente, o sistema imunitário pensará que é uma segunda infeção e partirá de imediato para a resposta secundária. Assim, desenvolvemos menos sintomas da doença em questão - ou não a desenvolvemos de todo.

 

Tem-se também falado, por estes dias, da imunidade de grupo. Passo também a explicar esse conceito.

 

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Existem pessoas que não podem ser vacinadas, por motivos de saúde: pessoas imunossuprimidas, que sofrem de cancro ou que desenvolvem reações alérgicas a um qualquer componente da vacina. Consta que a bebé de treze meses que terá começado o surto e a jovem de dezassete anos que morreu não foram vacinadas por motivos de saúde.  

 

Nesses casos, é importante que as pessoas em redor desses indivíduos estejam vacinadas. Porquê? Porque, como o sistema imunitário delas combate rapidamente o agente patogénico em questão, é menos provável que contagiem uma pessoa não-vacinada.

 

Como podem ver, a decisão de vacinarem ou não os vossos filhos afeta-nos a todos. As vacinas são uma das principais razões pelas quais temos a longevidade e a qualidade de vida que temos hoje, tal como referi acima. Ajudam a prevenir doenças devastadoras como, lá está, o sarampo (cujas complicações incluem cegueira, pneumonia e encefalite - as duas últimas são, frequentemente, fatais), a tuberculose, a tosse convulsa, a difteria, a febre-amarela, a poliomielite (que pode provocar paralisia), a papeira e a rubéola (que, se contraída durante a gravidez, pode provocar malformações, abortos espontâneos e nados-mortos). Os programas de vacinação em países subdesenvolvidos têm tido resultados fantásticos - na Guiné-Bissau, por exemplo, ajudaram a reduzir a mortalidade infantil de cinquenta para sete por cento. Aliás, a UNICEF acaba de revelar que a vacinação reduziu em oitenta e cinco por cento a morte de crianças com menos de cinco anos.

 

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Eu não gosto de tecer juízos de valor sobre as capacidades parentais de ninguém quando nem sequer sou mãe. Mas que pai ou mãe nega este tipo de proteção aos seus filhos? Quem é que permite que os seus filhos corram o risco de contrair doenças como estas?

 

Claro que existem riscos na vacinação, como existem em qualquer medicamento ou dispositivo médico. Um princípio que aprendemos outra e outra vez no curso de Ciências Farmacêuticas reza que tudo é um veneno, depende apenas da dose. Mesmo assim, tirando reações alérgicas graves (como, segundo consta, seria o caso da jovem que morreu) ou caso estejam imunossuprimidos, não vejo que malefícios suplantam o risco de contrair poliomielite ou tosse convulsa. Mesmo que as vacinas causassem autismo, como se chegou a alegar - e já foi mais que provado que esse estudo foi a mãe de todas as fraudes - arrisco-me a dizer que prefiro ter um filho autista do que um filho morto.

 

Ainda não conheci pessoalmente nenhum anti-vacinas confesso e militante, mas, se vier a conhecer, não devo conseguir evitar dizer-lhes umas quantas verdades. Com o devido respeito, estas pessoas julgam-se melhor informadas que médicos, enfermeiros, farmacêuticos, cientistas? Pessoas que estudam durante anos, investigam durante anos? Cujas descobertas têm se ser revistas por outros investigadores antes de serem publicadas? Um estudo aldrabado e uns quantos blogues manhosos valem mais que séculos de Medicina?

 

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A verdade é que estamos a entrar em tempos perigosos, dos chamados “factos alternativos”, em que confundimos verdade com opinião. Não foi por acaso que, no fim de semana passado, se realizou uma marcha pela Ciência em diversos pontos do Mundo, Portugal incluído. A ignorância e a arrogância unidas são catastróficas. Eu tenho medo de viver num mundo assim.

 

Mas regressemos às vacinas. Se a decisão de não vacinar afetasse exclusivamente o decisor, ninguém se ralava. Infelizmente, a decisão afeta crianças - não apenas os filhos dos decisores, os filhos de muitos outros também. Seriam capazes de viver com a vossa consciência se o vosso filho morresse só porque vocês não querem vaciná-lo? Querem mesmo correr esse risco?

 

Não sejam idiotas. Oiçam os médicos, enfermeiros e farmacêuticos. Vacinem as vossas crianças!

 

Alguns dos artigos que consultei, só para verem que não estou a inventar nada.

 

 

15 Conselhos sobre Escrita (para blogues e não só!) #3

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Estes são os últimos cinco dos meus quinze conselhos sobre escrita, que começaram aqui. Seguimos, então, para o décimo-primeiro...

 

11) A Internet está cheia de dicas para escritores...

 

Muitos dos conselhos que tenho deixado aqui foram obtidos da Internet. E nem sequer é preciso procurar muito. Se forem ao Google e pesquisarem “Conselhos de Escrita” ou “Writing Advice”, encontram logo uma série de citações de autores prestigiados sobre escrita (com um bocadinho de sorte, estas publicações hão de aparecer algures entre os resultados). Encontrarão, com relativa facilidade, conselhos generalistas, como aqueles que tenho listado aqui, e outros mais específicos e complexos. Qualquer dúvida que tenham, poderá ser esclarecida.

 

Também encontrarão os tais bancos de ideias e exercícios de escrita, que referi aquando do meu primeiro conselho.

 

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Uma das minhas fontes preferidas de conselhos de escrita é o blogue de Rachel Aaron. Já referi os livros dela algumas vezes, nas minhas respostas a tags sobre livros, mas não foi através deles que a descobri. Foi através de um texto viral que ela escreveu há uns anos, sobre como foi capaz de atingir a marca das dez mil palavras por dia. Desde mais ou menos essa altura, tenho seguido o blogue dela e aprendido imenso sobre escrita, desde planear livros, desenvolver personagens, escrever diálogos, editar livros, entre muitas outras coisas.

 

O reverso da medalha é que tenho vindo a descobrir que fiz quase tudo mal com o meu primeiro livro.

 

Em todo o caso, recomendo fortemente o blogue dela a todos aqueles que escrevam, sobretudo ficção, ou que aspiram a isso.

 

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Outra fonte que já sigo há anos é a conta de Twitter Advice to Writers. Esta conta está constantemente a partilhar citações/conselhos de escritores publicados – foi assim que encontrei as citações de J.K.Rowling, Nora Roberts e Geoff Dyer que referi antes. Partilha, também, entrevistas a escritores, perguntando-lhes sempre como começaram a escrever, as suas influências e, lá está, conselhos para combater o bloqueio de escritor.

 

Deem uma espreitadela, mas tenham em conta o conselho seguinte.

 

 

12)As dicas para escritores são diretrizes, não regras.

 

 

 ...incluindo as minhas. Cada escritor é diferente, cada texto ou livro é diferente. Como tal, certos conselhos de escrita são isso mesmo: conselhos, diretrizes. Não são regras ou ordens. Vocês estão à vontade para não os seguirem.

 

Um exemplo é a minha preferência por escrever à mão primeiro em vez de diretamente no computador. Sei de vários escritores que não conseguem trabalhar assim. Do mesmo modo, existem escritores, como Stephen King, que não planeiam livros, sentam-se pura e simplesmente a escrever, e outros, como J.K.Rowling, que os planeiam minuciosamente (podem ver o plano de Rowling para Harry Potter e a Ordem da Fénix abaixo). Sei também que muitos escritores não seriam capazes de escrever em cafés ou em bancos do jardim enquanto passeiam a cadela, como eu.

 

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Encarem qualquer conselho de escrita, meu incluído, com espírito crítico. Neste texto, estou só a referir métodos que funcionam comigo – não é obrigatório que funcione para toda a gente. Na minha opinião, vale sempre a pena saber como é que outros escritores trabalham e, de vez em quando, experimentar um truque novo. Não têm nada a perder. Se não resultar, não faz mal – tal como disse Thomas Edison, descobriram uma maneira que não funciona.

 

13) Talento (se é que existe) é sobrevalorizado.

 

Este vem em linha com o meu quarto conselho. Pelo menos no que toca à escrita, não acredito em talento – talento no sentido de uma capacidade inata. Nem eu nem ninguém nasce com jeito para a escrita. Quando andava na escola, em vários anos escolares, Português era (tirando Educação Física) a disciplina em que tirava piores notas – e, com uma única exceção, não tive maus professores, bem pelo contrário. Se nasci com alguma coisa, foi com boa imaginação, tendência para sonhar acordada, gosto por histórias e ficção em geral e paixão pelo acto de escrever.

 

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Foi essa paixão que me fez começar a escrever quando tinha sete ou oito anos. Era – ainda é – algo que fazia por prazer, algo que fazia quando devia estar a prestar atenção às aulas ou a fazer os trabalhos de casa. E, sem dar conta, fui colocando o conselho número quatro em prática. Só se aprende a escrever escrevendo – não há volta a dar.

 

Não acreditem, por isso, que só uma mão-cheia de indivíduos, abençoados por Deus Nosso Senhor, génios de nascença, é que podem ser escritores. Podem existir uns quantos com maior facilidade em aprender, maior gosto pela escrita, mas qualquer um pode ser escritor. Desde que esteja disposto a trabalhar nisso, a escrever e a aprender – o que nem sempre é fácil.

 

14) Só serão fracassos se desistirem de escrever.

 

Conforme acabei de referir, ninguém nasce sabendo escrever obras-primas/best-selleres. Ser escritor dá trabalho. E podem... não, vão existir alturas em que ser escritor dá demasiado trabalho, é demasiado difícil. Alturas em que não escrevemos durante dias, semanas, meses ou anos, por um motivo ou por outro. Manuscritos rejeitados por editoras ou blogues que não recebem visitas. É muito fácil deixarmo-nos abater por coisas como estas, sentirmo-nos uns falhados.

 

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No entanto, tal como Rachel Aaron, mais uma vez, me ensinou, na escrita, só falhamos quando desistimos por completo de escrever. Conforme tenho repetido inúmeras vezes ao longo deste texto, uma pessoa aprende a escrever escrevendo. Enquanto continuarmos a escrever, continuaremos a crescer como escritores – não que a escrita se torne mais fácil. Desde que regressem sempre, mesmo após uma longa ausência, não falharão.

 

15) Quando quiserem desistir, lembrem-se porque começaram.

 

Confesso que, de uma maneira geral, a parte de nunca parar de escrever é fácil para mim. Conforme já referi amiudadas vezes aqui no blogue, escrever é-me quase uma necessidade fisiológica. Tenho alturas em que a escrita é a única que me dá um propósito. Dito isto, também é verdade que, às vezes, quando ando em baixo, escrevo menos material publicável.

 

No entanto, já tive um momento em que me apeteceu desistir. Certa noite há uns anos, li uma notícia sobre uma escritora de vinte e um anos de idade, que seria “a próxima J.K.Rowling”. Hoje desconfiaria de rótulos como esse – até porque a previsão claramente não se confirmou – mas, na altura, acreditei. Comecei a comparar-me com a tal autora e afundei-me em autocomiseração.

 

Felizmente não fiquei nesse buraco por muito tempo. Comecei a pensar nas minhas primeiras histórias em miúda – aquelas que escrevia à socapa nas aulas, cujos rascunhos escondia no meio dos livros ou do dossier – nos meus diários, nas tardes gastas passando essas histórias para o computador enquanto ouvia música, a tal fan fiction que me fez apaixonar pela escrita de ficção em geral (não sei se cheguei mesmo a relê-la nessa noite). E a neura passou-me.

 

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Isto é um daqueles conselhos que, de vez em quando, aparece no Facebook mas, como podem ver, funciona: quando vos apetecer desistir, lembrem-se porque começaram. Lembrem-se do que vos motiva a escrever. Talvez tenham coisas a dizer, histórias para contar. Talvez a escrita seja, como a arte em geral, a vossa maneira de decifrarem o mundo e a vida, de desabafarem, de se ligarem a outras pessoas.

 

Se o vosso desejo, por outro lado, é ganhar fama e fortuna à custa da escrita… bem, com livros, esqueçam, existem maneiras mais fáceis de enriquecer. Com blogues, talvez seja possível, mas não sou a melhor pessoa para vos dizer como. A blogosfera está cheia de conselhos sobre isso.

 

Seja ela qual for, a vossa motivação tem de estar sempre presente nas vossas cabeças. Será ela que vos ajudará a suportar as partes mais difíceis da escrita, fazendo com que nunca desistam dela. Não definitivamente, pelo menos. Continuem a escrever e pode ser que, um dia, consigam aquilo que desejam.

 

 

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E são estes os meus conselhos. Ironicamente, muitos dos problemas para os quais dei soluções manifestaram-se enquanto escrevi este texto. No meu primeiro rascunho, saltei muitos parágrafos e tive de escrevê-los mais tarde. Houve uns quantos outros que tive de cortar do rascunho inicial, outros que tive de reescrever. Pelo meio, pratiquei muita, mas mesmo muita rotação de culturas.

 

Só prova que tudo o que referi neste texto é verdade: escrever dá trabalho.

 

Apesar de já escrever há quase vinte anos, estou longe de ser uma escritora exemplar. Ainda estou a tentar corrigir muitos dos meus vícios: frases demasiado compridas, parágrafos demasiado compridos, linguagem demasiado complexa, por vezes, abuso de advérbios e de outras palavras de estimação. Também isto faz parte do processo: como em tudo na vida, estamos sempre a aprender.

 

Espero que estes meus conselhos vos ajudem na vossa escrita, seja ela qual for. Se vocês tiverem alguma dica a acrescentar, partilhem-na nos comentários. Continuem desse lado, se quiserem ver o resultado destes conselhos aplicados à prática.

  

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