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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Paramore - After Laughter (2017) #2

Segunda parte da análise a After Laughter. Primeira parte aqui.

 

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Existem algumas canções em After Laughter que fogem à norma do falsamente alegre. Uma delas é Forgiveness – que terá sido a primeira a ser composta para este álbum. Esta faixa é conduzida por notas suaves de guitarra, acompanhada por baixo e uma bateria discreta.

 

Consta que a letra de Forgiveness foi inspirada numa crise na relação de Hayley com o seu, em breve, ex-marido. O que não surpreende. A letra descreve um cenário em que alguém pede perdão, mas a narradora está ainda demasiado magoada para concedê-lo.

 

Uma pessoa poderia interpretar esta letra como um retrocesso. Em vários momentos ao longo do Self-Titled, Hayley parecia razoavelmente aberta ao perdão. Não tanto porque a(s) outra(s) pessoa(s) o merecessem, mais por uma questão de paz de espírito. É possível que seja assim para algumas situações, mas não para todas. Sobretudo se a ofensa em questão ainda está fresca na memória e/ou se a outra pessoa ainda não fez nada para merecer ser perdoada.

 

Por outro lado, podem existir casos em que “perdoar e esquecer” até seja benéfico para a pessoa ofendida. Dito isto, existem coisas que ninguém tem a obrigação de perdoar.

 

  

Desde Brand New Eyes, todos os trabalhos dos Paramore (incluindo o Singles Club) têm incluído uma balada acústica. After Laughter manteve essa tradição. Se dois desses números acústicos – Misguided Ghosts e Hate to See Your Heart Break – se juntassem e tivessem um filho, esse seria provavelmente 26. Para além da guitarra acústica, esta faixa possui ainda uma secção de violino lindíssima.

 

Em entrevista, Hayley revelou que escreveu a letra de 26 como uma carta para a versão mais jovem de si mesma. Eu diria, também, que esta letra representa um conflito entre o seu lado mais cínico e o seu lado mais sonhador. Os dois sempre se manifestaram na música dos Paramore (Careful e Brick By Boring Brick para o cinismo; Miracle e Daydreaming para o idealismo). Em 26, Hayley quer agarrar-se ao lado sonhador, idealista – embora sinta que a realidade a puxa para o cinismo.

 

Nem todas as canções em After Laughter são assim tão depressivas, felizmente. Uma delas é, por sinal, uma das minhas preferidas: Pool. Esta é a única canção de amor neste álbum. Em entrevista, Hayley referiu que não se sente muito à vontade no que toda a canções de amor, que provavelmente nunca criará uma música romântica propriamente dita, idílica, sem um senão, sem uma reserva. E agora, com a separação, duvido que tão depressa voltemos a ter canções de amor no reportório dos Paramore.

 

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Em linha com isso, Pool parece fazer referências à ansiedade de Hayley. A letra compara um relacionamento amoroso a um mar agitado ou a uma piscina sem fundo: mergulhar nele é algo arriscado, incerto, perigoso, mas irresistível. No fundo (no pun intended), a narradora está a aprender que, no amor, nem sempre poderá ter controlo total. Existirá sempre um grau de incerteza relativamente ao futuro.

 

Não que isso tenha resultado muito bem para a Hayley…

 

Pool tem, aliás, sido a minha canção de verão deste ano. Tanto graças à sua sonoridade new wave, à anos 90, que me dá uma certa nostalgia, bem como às várias referências aquáticas – algo de que sempre gostei, tal como referi num texto recente deste blogue.

 

A única canção verdadeiramente alegre em After Laughter é Grudges. Consta que Zac e Taylor colaboraram na composição do instrumental (que não difere muito do resto do álbum), o que motivou Hayley a escrever sobre o regresso do baterista à banda. A letra celebra, assim, o renascimento da amizade, deixando de lado o passado, os motivos da antiga zanga e a longa ausência. Os vocais de Zac na terceira parte da música foram bem sacados.

 

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Vou falar, agora, das músicas de que gosto menos em After Laughter. Caught in the Middle, para começar, deixa-me algo dividida. Não sou grande fã da parte musical – não sendo má, não é nada por aí além. O refrão, por sua vez, soa-me estranho, um bocadinho forçado.

 

Por outro lado, a letra de Caught in the Middle é aquela com a qual mais me identifico em todo o After Laughter. Há coisa de uns dois, três anos, estive numa situação semelhante à descrita nesta letra: incapaz de pensar no passado, nos sonhos que tinha, nas promessas que fizera a mim mesma, e que não tinham dado em nada; cheia de medo de pensar no futuro a médio/longo prazo. Ainda hoje, em dias maus, chego a regressar temporariamente a esse modo.

 

Felizmente, não era algo que interferisse assim tanto com a minha vida, que me impedisse de funcionar normalmente. O caso da Hayley terá sido bem mais grave – ao ponto de,como ela descreveu em entrevista, ter desistido temporariamente da banda, ter passado dias e dias a ver séries, sem sair da cama, ter tido mesmo um diagnóstico de depressão e ansiedade. Costuma-se dizer, de resto, que a depressão ocorre quando somos atormentados pelo passado e a ansiedade ocorre quando somos atormentados pelo futuro – mas isto, claro, é simplificar demasiado a questão.

 

Não posso deixar de falar daqueles que serão, de longe, os melhores versos neste álbum: “I don't need no help, I can sabotage me by myself”, cantados no melhor tom sarcástico de Hayley. Tenho vindo a perceber, nos últimos tempos, que também tenho uma tendência para me boicotar a mim mesma. Ando a tratar disso…

 

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Mas este álbum é a consulta no psicólogo da Hayley, não minha.

 

Tenho tido um relacionamento complicado com Idle Worship. Nesta música, encontramos uma Hayley cínica, amarga, mesmo enraivecida. Sob um instrumental mais sombrio que no resto do álbum, Hayley tece críticas à veneração que muitos fãs nutrem por ela.

 

Confesso que fiquei, um pouco, com as orelhas a arder. Já passei há muito a fase de ter ídolos absolutos. Dito isto, muitos de vocês já terão reparado que passo a vida a falar de Hayley como uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música, a minha guia espiritual. Sobretudo graças ao marcante álbum Self-Titled.

 

Mas não posso dizer que Hayley esteja errada – que não seja um fardo ter tanta gente idolatrando-nos. Não me custa, aliás, imaginar uma Hayley deprimida sentindo-se a anos-luz da carismática vocalista dos Paramore, que dominava os palcos com a sua voz, a sua energia e o seu cabelo cor de chama.

 

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Este pode, até, ser outro dos motivos pelos quais ela desistiu dos Paramore por algum tempo – por não se sentir capaz de voltar a ser a Hayley que todos conhecemos e adoramos.

 

Por outro lado, Idle Worship serve para nos recordar que, só porque Hayley é uma cantora excelente e bem sucedida, isso não significa que não tenha problemas, falhas, como toda a gente. O seu iminente divórcio é um bom exemplo disso. Não é de todo razoável exigir que ela seja sempre um exemplo a seguir, que faça tudo bem, que não cometa erros.

 

Até porque Hayley sabe perfeitamente que, nos piores momentos da banda, toda a gente se volta contra ela. Já aconteceu antes. Várias vezes.

 

Devo dizer, no entanto, que Hayley não é uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música por achar que ela é (ou deveria ser) sempre perfeita, carismática, glamourosa – essa criatura, se existisse, não teria nada a ver comigo. Ela é uma das minhas preferidas porque é humana, com falhas e dificuldades tal como todos nós – e porque transfere a sua humanidade para a sua música.

 

  

No Friend é uma música que demorei algum tempo a compreender. Quando a ouvi pela primeira vez, cheguei a pensar que era um glitch ou algo do género – com o seu riff de guitarra repetitivo e os vocais masculinos que mal se conseguem ouvir. Consta, então, que foi co-composta e interpretada por Aaron Weiss, dos MeWithoutYou (que Hayley refere como a sua banda preferida). Os Os registos originais no site da ASCAP indicam que esta foi composta como um outro para Idle Worship – e de facto notam-se algumas semelhanças no instrumental. A letra torna, além disso, a pegar no tema da veneração tóxica.

 

Muitos fãs têm estranhado a música, eu incluída. No entanto, está a acontecer comigo o mesmo o que aconteceu com Future, no Self-Titled: de início, também não gostava, mas acabei por compreender o seu propósito.

 

A minha teoria é que os membros oficiais dos Paramore, Hayley sobretudo, a certa altura, precisaram de exorcizar demónios no que diz respeito à história turbulenta da banda. Precisaram de alguém de fora que dissesse coisas que eles, provavelmente, sentem, mas que não têm coragem de dizer eles mesmos. E a letra escrita por Aaron Weiss acaba por fazer referências a vários temas da discografia dos Paramore. No Friend não é, de todo, uma das minhas canções preferidas em After Laughter, mas compreendo a sua inclusão no álbum.

 

Até porque, ao deitar toda a raiva cá para fora, abre-se caminho a Tell Me How: o momento mais vulnerável em After Laughter.

 

  

Tell Me How é conduzida por notas de piano, ao qual se juntam notas de guitarra e uma bateria discreta, tudo muito suave. Na mesma linha, os vocais de Hayley são graves, quase sussurrados, magoados.

 

Fora de contexto, poder-se-ia pensar que a letra se refere a uma separação amorosa. No entanto, para uma pessoa minimamente informada sobre a situação da banda ao longo dos últimos anos, fica claro que a letra sobre Jeremy. Hayley chora (mais uma) amizade que perdeu, as infinitas mudanças na banda, o eterno ciclo de destruição e reconstrução dos Paramore. Uma das frases que se destaca em Tell Me How é a que reza “Of all the weapons you fight with, your silence is the most violent”.

 

Suponho que esta seja a parte da Hayley que desistiu da banda durante algum tempo.

 

A ideia com que fico é que, em Tell Me How, Hayley se encontra numa encruzilhada. Não só sem saber se deve continuar nos Paramore ou não, mas também sem saber se deve continuar a debater-se com o passado, a tentar descobrir onde é que errou, ou se deve seguir com a sua vida.

 

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Gosto de pensar que Hayley escolheu a segunda opção, que é a isso que se referem os versos finais. Tell Me How (e o próprio álbum After Laughter) termina com Hayley dizendo “I can still believe” – uma nota de esperança encerrando um álbum bastante deprimente, na sua maioria.

 

After Laughter não é tão bom (ou melhor, não é tão arrebatador) como o Self-Titled, mas também não estava à espera que fosse. É, no entanto, tão intricado e introspetivo como são os álbuns anteriores. E as referências a problemas de saúde mental – ainda muito pouco falados e cheios de preconceitos – tornam-no ainda mais relevante.

 

Aquilo que mais impacto me tem causado, no que toca a After Laughter, é a mudança na mensagem relativamente ao Self-Titled. Tal como escrevi na altura, este último é um álbum de sobreviventes, de vencedores, um álbum otimista, confiante no futuro. Admito mesmo que esse espírito me contagiou, a certa altura na minha vida. Fez-me sentir igualmente confiante, otimista, convencida de que já sabia como a vida funcionava, qual era o meu lugar no mundo.

 

É óbvio, agora, que a realidade havia de nos atingir, mais cedo ou mais tarde. No caso da banda, isso veio na forma da desistência de Jeremy e talvez mesmo na separação de Hayley.

 

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Esse, de resto, é o tema de After Laughter: o momento em que a batata quente nos explode nas mãos sem que estivéssemos à espera. O momento após uma gargalhada em que regressamos ao mundo real.

 

O facto de a banda, ao que parece, ter deixado para trás os elementos emo/pop punk tem causado controvérsia entre os fãs e não só. Era de esperar. Pessoalmente, admito que terei algumas saudades das guitarras pesadas em Paramore. À parte isso, a mudança de estilo não me incomoda, porque as músicas são boas. Estão muito bem feitas, com vários elementos que não se notam à primeira audição, com boas letras. O rótulo que os demais queiram colocar neste estilo musical é irrelevante.

 

O regresso dos Paramore às luzes da ribalta, de resto, tem-me feito redescobrir – mais uma vez – a discografia deles. Em particular o primeiro, All We Know Is Falling. Estou a descobrir que a tensão, os conflitos, a instabilidade fazem parte do DNA dos Paramore. O seu primeiro álbum foi maioritariamente inspirado pela desistência de um membro, Jeremy (a primeira, apenas temporária). Músicas desse álbum, como a homónima All We Know, Pressure, Here We Go Again, Conspiracy continuam a aplicar-se bem à banda, sobretudo nos momentos mais turbulentos.

 

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Os Paramore bem podem dizer que, agora, estão mais fortes do que nunca e tal, mas eu já ouvi essa antes – e só os acompanho a sério desde finais de 2010! Fãs mais antigos já devem ter ouvido esta mais vezes. Estou cada vez mais convencida de que a banda nunca terá estabilidade. Poderá chegar o dia em que termine de vez – ou, pelo menos, em que entre num hiato prolongado.

 

Depois de ter escrito sobre Riot! há dois anos, planeava escrever sobre Brand New Eyes pouco tempo depois. Confesso que tencionava tecer duras críticas aos membros da banda, por terem dito que a criação daquele álbum tinha resolvido os conflitos dentro do grupo. O que claramente não era verdade – conforme provado pela saída de Josh e Zac.

 

No entanto, depois de Jeremy ter saído da banda, fiquei sem coragem para escrever sobre isso – porque teria de admitir que o Self-Titled, um dos álbuns da minha vida, era igualmente “mentiroso”.

 

Só agora, mais de um ano e meio após a partida de Jeremy, em que começo a aceitar a eterna instabilidade da banda, é que me sinto em condições de escrever sobre Brand New Eyes. Não será a curto prazo – talvez daqui a uns meses.

 

Já agora, um aparte sobre os meus planos imediatos para o blogue. Tenho ainda dois álbuns lançados recentemente sobre os quais quero escrever. Um deles é One More Light, dos Linkin Park (Alerta Spoiler: gostei mais do que estava à espera mas, mesmo assim, não por aí além). O outro é Melodrama, de Lorde (Alerta Spoiler: A miúda não desiludiu, de todo). Espero não me demorar muito tempo com estes textos.

 

Quanto aos Paramore, ainda que esteja algo cética relativamente ao futuro da banda, espero, no entanto, que os próximos tempos sejam mais felizes para a Hayley, o Zac e o Taylor.

 

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Paramore - After Laughter (2017) #1

 

No passado dia 12 de maio, os Paramore lançaram o seu quinto álbum de estúdio, intitulado After Laughter. Eu comecei a trabalhar na análise a esse disco no dia em que saiu, acreditem. Só que, entretanto, a Seleção Portuguesa entrou em ação e assim se manteve durante mais de um mês. Ou seja, quase todo o tempo de escrita que tive foi consumido pelo meu outro blogue.

 

Daí que esta análise só esteja a ser publicada agora.

 

A vantagem deste atraso é ter apanhado umas quantas entrevistas sobre o álbum, em particular a da revista Fader – que revela imenso sobre After Laughter e mesmo sobre a história de Hayley e dos Paramore como banda. Apanhei essas entrevistas… e a separação de Hayley e do seu marido.

 

Lá se vai uma das minhas canções de amor preferidas.

 

Como tenho muito a dizer sobre After Laughter, resolvi dividir esta análise em duas partes. O resto será publicado amanhã. Falemos, então, sobre o quinto álbum de estúdio dos Paramore.

 

 

Aquilo que salta à vista (ou melhor, à audição) ao ouvir After Laughter é a sonoridade – os elementos de pop punk são praticamente inexistentes. Temos guitarras elétricas, sim, mas usadas de maneira diferente – em vez de acordes pesados, temos notas mais soltas, misturadas com xilofones, teclados e sintetizadores. O resultado é um som tropical, com elementos de new wave e de pop dos anos 80. Uma pessoa pode ser levada a pensar que After Laughter é um disco leve, de verão.

 

Desde que não se ligue às letras.

 

Uma das características deste álbum é a sua consistência: o facto de as músicas serem parecidas umas com as outras, embora não ao ponto de se confundirem. O reverso da medalha é que, a partir de certa altura, as coisas tornam-se demasiado formulaicas. Falo, sobretudo, das terceiras estâncias – se forem a ver, numa boa parte das músicas, as terceiras estâncias consistem, apenas, em um ou dois versos repetidos inúmeras vezes (nalguns casos com variações mínimas). Ao fim de algum tempo, cansa.

 

Outro aspeto menos bom em After Laughter é o facto de os vocais de Hayley não impressionarem por aí além – pelo menos em comparação com álbuns anteriores. Existem, aliás, muitas ocasiões em que os vocais se reduzem a quase sussurros.

 

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Também é verdade que vocais muito agudos e/ou prolongados, estilo Now, Decode ou Misery Business, não se encaixariam muito bem neste tipo de música. Além disso, há que recordar que Hayley estava a debater-se com depressão aquando das gravações de After Laughter – é bem possível que ela não tivesse vontade de elevar a voz. Por outro lado, visto que muitas destas músicas foram precisamente inspiradas pela depressão de Hayley, os vocais baixos adequam-se, sobretudo nos momentos de maior vulnerabilidade.

 

O que nos leva às letras das canções. Todos os álbuns dos Paramore, à exceção de Riot!, têm-se inspirado numa qualquer crise atravessada pela banda – porque, conforme comentámos extensivamente antes, a banda está sempre a atravessar uma crise ou tentando recuperar-se após uma crise. After Laughter não é exceção – até porque é o primeiro álbum que a banda edita após a saída do baixista Jeremy Davies. A inspiração, no entanto, não é assim tão direta na maior parte das músicas – só no sentido em que a crise nos Paramore poderá ter despoletado a depressão e ansiedade de Hayley.

 

O álbum After Laughter tem, aliás, sido elogiado precisamente por se focar em diferentes aspetos da vida de alguém que lida com um qualquer problema de saúde mental (eu ainda tenho algumas dificuldades em dizer, pura e simplesmente, doença mental por causa de todo o estigma associado), seja uma depressão, uma crise de ansiedade. Ou então, que esteja apenas a passar por… bem, tempos difíceis.

 

Por exemplo, Told You So fala sobre profetas da desgraça, que em vez de ajudarem, ainda mais enterram a pessoa. Rose-Colored Boy, ao invés, fala sobre pessoas que não sabem de todo o que acontece numa depressão, que acham que tudo se resolve com sorrisos e “pensamento positivo”. Forgiveness fala, precisamente, sobre as dificuldades em “perdoar e esquecer”. Caught in the Middle fala sobre desorientação. 26 fala sobre cinismo e sonhos desfeitos. Tell Me How revela vulnerabilidades.

 

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Isto pode ser um bocadinho esticado, mas, na minha opinião, em After Laughter existe uma canção para cada fase do luto. Hard Times representa a negação ou, pelo menos, o choque. No Friend e, talvez, Iddle Worship representam a raiva. 26 simboliza a negociação. Por sua vez, Tell Me How representa a parte da depressão e existem ainda algumas pistas, perto do fim da faixa, que apontam para uma eventual aceitação. Hayley referiu, em entrevista, que ainda não tinha ultrapassado por completo certas coisas de que fala em After Laughter – nesse aspeto, não é de surpreender que não haja uma única música para aceitação.

 

Falemos, agora, sobre as músicas em si. Hard Times (sobre a qual já falámos antes) é a primeira na tracklist e foi o primeiro single. Quando escrevi sobre ela, critiquei a letra por trazer pouco de novo no que toca aos Paramore. No entanto, agora que conhecemos o resto do álbum, faz sentido que esta seja/tenha sido a primeira canção que ouvimos em After Laughter: uma vez que apresenta o tema e estrutura da maior parte das faixas do álbum e faz uma ligação com os trabalhos anteriores.

 

Confesso, por outro lado, que nesta fase ando um bocadinho farta de Hard Times – a maior parte das outras canções em After Laughter são melhores, tanto em termos de letra como da musicalidade.

 

Uma das minhas preferidas neste álbum é Rose-Colored Boy. Calculo que seja uma das mais pop neste álbum e onde mais se notam as influências dos anos 80 – eu, pelo menos, vejo algumas semelhanças com a clássica Girls Just Want to Have Fun. As primeiras notas dão logo a ideia de uma festa numa praia tropical – sensação reforçada pelos vocais, estilo meninas de claque “Low key! No pressure! Just hang with me and my weather!”.

 

 

É claro que a última coisa em que a letra nos faz pensar é em festas. Rose-Colored Boy fala sobre aquelas pessoas irritantes, que insistem em ver o lado positivo em tudo. Ou que acham que as pessoas só caem em depressões porque têm pena de si próprias e que, se fizessem um esforço, curavam-se (acreditem, há muitos a pensar assim). Alguns fãs especulam sobre a identidade do tal Rose-Colored Boy: há quem diga que é o Taylor (pouco provável, na minha opinião), há quem diga que é Chad Gilbert, o, em breve, ex-marido de Hayley. Eu, no entanto, acredito que Hayley se terá cruzado com inúmeros Rose-Colored Boys e Girls aquando da sua depressão.

 

Pessoalmente, nunca fui uma pessoa pessimista ou cínica, nem faço questão de o ser. Prefiro sentir-me alegre em vez de me sentir triste e encarar a vida com esperança e otimismo. Mas a verdade é que o otimismo e o “pensamento positivo” só ajudam até certo ponto – quando estes implicam a repressão de sentimentos negativos, como a raiva ou a tristeza, são mesmo prejudiciais. E, conforme aprendemos com o filme Inside Out/Divertida-mente (vi-o pela primeira vez há bem pouco tempo e ando obececada com ele), a tristeza é saudável. A pressão para reprimir a infelicidade, para estar sempre feliz, otimista, sorrindo com os dentes todos, é precisamente aquilo que leva uma pessoa à depressão.

 

O que nos leva a Fake Happy (que, ao que parece, será o próximo single de After Laughter).

 

  

Esta música possui uma introduçãozinha acústica, com vocais graves, resumindo a mensagem da canção. Depois, soam os teclados. Os vocais de Hayley soam saltitantes, irresistíveis – sobretudo no pré-refrão. O refrão em si é tão cativante como os das melhores músicas dos Paramore.

 

Fake Happy fala, assim, sobre a dificuldade em manter as aparências quando nos sentimos infelizes – e, ao mesmo tempo, sobre a futilidade dessas aparências quando, na verdade, todos fingem ser mais felizes do que realmente são. Uma mensagem relevante nos dias que correm, em que as pessoas procuram vender a sua vida como perfeita nas redes sociais. Consta, até, que os americanos são particularmente obcecados pela ideia de felicidade e pensamento positivo.

 

Eu acho curioso porque Portugal tem uma cultura oposta. Conforme referido neste artigo da BBC, no nosso país, há uma cultura de tristeza – com o fado e os poemas de Camões, que achava que a sua vida era a “mais desgraçada que jamais se viu”. Os portugueses gostam de ser infelizes. Não é costume as pessoas fingirem ser felizes por cá, pelo menos não no contacto pessoa a pessoa (as redes sociais são uma história diferente).

 

Aliás, só ao longo do último ano, com a vitória da Seleção no Euro 2016, a vitória de Salvador Sobral no Festival da Canção, a popularidade de Portugal lá por fora, entre outras coisas, é que nos temos atrevido a ser um pouco mais felizes.

 

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Nunca fui fã desta cultura de tristeza. No entanto, reconheço que pode ser saudável, sobretudo num contexto de uma depressão ou de outra doença psiquiátrica semelhante.

 

Agora que penso nisso, se os Paramore fossem portugueses, não teriam criado um álbum falsamente alegre, como After Laughter. Teriam cantado fado (a versão portuguesa da cultura emo).

 

Mas estou a desviar-me.

 

Só para concluir, referir que, na minha opinião, Fake Happy funcionaria bem como título alternativo a este álbum: com as suas músicas com instrumentais e melodias alegres, mas com letras deprimentes. Tenho visto muitas pessoas deixando-se enganar.

 

  

Told You So – a segunda canção de After Laughter que conhecemos – acaba por funcionar como a antítese de Rose-Colored Boy. Desta feita, lidamos com os Velhos do Restelo, aquelas pessoas que parecem sentir um gozo especial quando as suas previsões pessimistas se concretizam, ou ao verem uma pessoa que invejam passando por um mau bocado. Esta sim é uma realidade bem portuguesa. Em Told You So, Hayley procura agarrar-se a uns resíduos de esperança e otimismo – algo que se torna quase impossível, com pessoas como as que acabo de descrever.

 

Gosto imenso da sonoridade de Told You So. Os riffs de guitarra e o xilofone do Taylor são excelentes, sobretudo no refrão, casando bem com os vocais, mais uma vez, ritmados e saltitantes de Hayley. Devo dizer, no entanto, que, à semelhança do que aconteceu com Hard Times, a letra de Told You So está uns furos abaixo do nível habitual dos Paramore. É demasiado curta e simplista, sobretudo a repetitiva terceira estância.

 

Por outro lado, não é fácil cantar “Throw me into the fire, throw me in, pull me out again" muitas vezes de seguida, como Hayley faz. Eu, pelo menos, troco-me toda.

 

Visto que Hard Times e Told You So saíram antes do resto do álbum, cheguei a temer que todas as letras em After Laughter fossem assim – mais fraquinhas que o habitual. Não foi o que aconteceu, felizmente, tal como já vimos e ainda vamos ver a seguir.

 

  

Queria falar, ainda, sobre o videoclipe de Told You So – que foi realizado pelo baterista da banda, Zac. Nele, começamos por ver Hayley vestida de preto, numa casa escura – uma metáfora para a depressão, quase de certeza. Os rapazes – Zac e Taylor – acabam por vir buscá-la, num carro antigo. As sombras não desaparecem completamente, mas pelo menos agora Hayley não está sozinha.

 

A banda revelou em entrevista, pouco após o lançamento do vídeo, que, aquando das gravações de After Laughter, os três costumavam viajar juntos no carro de Zac. Nessas alturas, a ansiedade de Hayley dava tréguas. Zac percebia mesmo que ela se sentia mais calma, mais aliviada, durante essas viagens. O carro dele era um porto seguro.

 

Acho amoroso que Zac tenha querido homenagear isso no videoclipe. Os Paramore podem ser uma banda de estabilidade precária, mas são coisas como estas que me ajudam a ter esperança no futuro deles.

 

É com esta nota positiva que nos despedimos por hoje. Regressamos amanhã com a segunda parte da análise a After Laughter.

 

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Músicas Ao Calhas - Porto Côvo

Uma eternidade depois da última vez, hoje a rubrica Músicas Ao Calhas regressa ao blogue. Queria publicar este texto hoje, não porque a música em questão tenha alguma coisa a ver com o Dia Internacional da Criança, mas sim porque conheci-a neste dia há dezassete anos.

 

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Eu tinha dez anos, na altura (já me achava demasiado crescida para o Dia da Criança, por acaso) e andava no quinto ano. Nesse dia, uma das aulas que tive era de Português e, como era o Dia da Criança, a “stôra” quis fazer algo diferente. Trouxe um leitor de cassetes (ou de CDs? Não me lembro ao certo…), pôs a tocar Porto Côvo, de Rui Veloso, e distribuiu-nos fichas com a letra, para interpretarmos. Foi aí que lhe tomei o gosto.

 

No Natal seguinte, um dos presentes (já não me lembro se do meu pai para a minha mãe ou vice-versa) foi a compilação que celebrava os vinte anos de carreira de Rui Veloso (isto há dezassete anos!). Quando descobri que Porto Côvo fazia parte da tracklist, fiquei toda contente.

 

A canção é, de facto, lindíssima – duvido que alguém discorde. Porto Côvo é uma música calminha, guiada por notas de guitarra. Melancólica, nostálgica, sem se tornar demasiado triste, a condizer com a letra.

 

Esta é igualmente bonita. Outra coisa não seria de esperar de uma letra escrita por Carlos Tê. Porto Côvo pinta a imagem de um fim de tarde que desagua em noite cerrada, na costa alentejana. Existem também referências a um acampamento e o sargo, no braseiro, deve ser o jantar. Penso que um dos exercícios dessa aula era, de resto, assinalar os complementos circunstanciais de lugar (será que ainda se chamam assim?) – pelo menos, lembro-me de sublinhar expressões como “em baixo”, “ao largo”, “à volta”.

 

 

O mar foi sempre uma grande fonte de inspiração para a arte e cultura portuguesas, por motivos óbvios. Eu mesma, desde miúda, senti grande afinidade para o mar, praia e quase tudo o que se relacione com água. Como tal, o cenário descrito por Porto Côvo é, na minha opinião, idílico.

 

O refrão refere a Ilha do Pessegueiro – pergunto-me se é lá que o narrador está a roer a laranja e a descrever a paisagem. Curiosamente, o nome da ilha nada tem a ver com pêssegos – segundo o que pesquisei, esta funcionava como centro piscatório no tempo dos Romanos. O nome terá evoluído de “piscatório” ou “pesqueiro” para “pessegueiro” – a língua portuguesa é engraçada…

 

Assim, o pessegueiro é, obviamente, ficcional (será que alguém alguma vez terá tentado plantar um pessegueiro lá, só pela graça?) – bem como o “vizir de Odemira” que o terá plantado. Não sei, aliás, se era absolutamente necessário esse vizir se ter suicidado por um desgosto amoroso.

 

Suponho que o fatalismo seja tão icónico na cultura portuguesa como o mar.

 

  

Eu, na verdade, já devia ter visitado Porto Côvo e a Ilha do Pessegueiro há muito tempo. Julgo que é uma das poucas zonas do país que ainda não visitei (se o fiz, era demasiado nova para me lembrar). Hei de lá ir, um dia.

 

Por tudo isto, Porto Côvo é, na minha opinião, uma das canções mais bonitas da música portuguesa. Admito, no entanto, que tenho um viés, pela maneira como conheci a música. Não me lembro do nome da minha professora de Português do quinto ano. Não sei o que é feito dela. Mas, sempre que oiço Porto Côvo, lembro-me dessa aula, no Dia da Criança de 2000. Na possibilidade remota de ela ler estas palavras, “stôra”, obrigada!

 

Digimon Adventure Tri - Soshitsu (Perda) #3

Terceira e última parte da análise a Soshitsu. Podem ler as partes anteriores aqui e aqui.

 

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Aquando do combate com Machinedramon, que atua às ordens do Dark Gennai, as incoerências continuam. Um dos exemplos é o ataque da Salamon (de nível Infantil) que foi capaz de afetar o Machinedramon. O navio para onde os Escolhidos fogem também parece vindo do nada (será o mesmo daquele episódio filler do segundo arco de Adventure?).

 

No navio, os Escolhidos dispõem de apenas alguns minutos para respirarem e processarem o monólogo do Dark Gennai. Quando este último regressa, com o Machinedramon, Sora recebe instruções para ficar para trás, com Meiko. O resto do grupo divide-se, numa tentativa de despistar o Dark Gennai: Tai, Matt e Kari para um lado, os restantes para outro.

 

Matt, Tai e Kari são atacados por um MetalSeadramon, sendo arrastados para o mar (ou lago? Não dá para perceber…). Nova incoerência (alguém está a contar? Vamos em quantas?) quando Gabumon atinge MetalSeadramon com eficácia. No momento seguinte, contudo Tai e Matt apenas conseguem desviar os respetivos companheiros Digimon antes de o MetalSeadramon tentar afogá-los.

 

Não sei se o mesmo aconteceu com vocês, mas eu não consegui evitar afligir-me ao ver Kari sozinha, à superfície, gritando pelo seu onii-chan.

 

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Debaixo de água, Tai e Matt têm uma estranha epifania em que, de alguma forma, comunicam com Agumon e Gabumon. Os dois rapazes, em suma, renovam os votos de amizade e lealdade eterna para com os seus Digimon – tal como Meiko havia feito antes. Conforme o António assinalou, a cena faz lembrar o momento da Mega Evolução do Charizard, em Pokémon Origins. Em todo o caso, é o suficiente para ativar os dispositivos digitais. Assim, Tai e Matt regressam à superfície nas costas de WarGreymon e MetalGarurumon, respetivamente, ao som de Butter-fly.

 

Depois disso, temos digievoluções como o ketchup. A primeira é a de Salamon para Gatomon, quando Kari nem se tenta desviar de mais um ataque do MetalSeadramon. Temos direito à sequência completa de digievolução (não imaginam a estranheza que me provoca ouvir Butter-fly durante este momento… mas também estavam a guardar Brave Heart para outra ocasião) e, pelas Bestas Sagradas, o desenho de Gatomon nesta sequência é horrível!

 

Por outro lado, desapareceram os "2" que, antes, víamos nas sequências de digievolução em Tri. Talvez seja porque, agora, os Digimon não estão infetados – mas isso quer dizer que eles foram infetados logo em Saikai? E só desenvolveram sintomas em Kokuhaku?

 

Por sua vez, Joe, Mimi, Izzy e T.K. haviam fugido para uma zona de icebergues, mas Gennai e Machinedramon conseguem chegar a eles. É agora que temos um dos pontos altos do filme: Joe atirando-se ao Dark Gennai (eu adoro este rapaz!). Gennai, infelizmente, afasta-o com facilidade, mas logo Gomamon riposta com os seus icónicos peixinhos.

 

 

Entretanto, Sora – que tivera já um momento Byomon, em que a última reconhece, pela primeira vez, que Sora é boa pessoa – junta-se ao grupo, deixando Meiko para trás. Isto revelar-se-á um erro fatal, como veremos já a seguir.

 

Uma das coisas por que mais ansiava em Soshitsu era, naturalmente, a digievolução de Byomon para o nível Extremo/Hiper Campeão. No geral, fiquei satisfeita, mas essa estreia veio acompanhada de uns quantos momentos WTF?!? A certa altura, Machinedramon agarra Byomon e Sora, sendo Sora, atira-se à garra dele. Segue-se a maior incoerência de todo o filme: Machinedramon esmaga Sora contra o icebergue duas vezes e a jovem sobrevive sem uma costela partida ou um órgão rompido que seja.

 

A Sora é a irmã perdida do Super Homem e ninguém nos avisou.

 

De qualquer forma, é aí que Byomon percebe, finalmente, que, para a miúda fazer uma parvoíce daquelas, é porque a ama a sério, tal como vinha dizendo desde início. Sora e Byomon unem-se verdadeiramente pela primeira vez desde o Reinício.

 

Toda a gente sabe o que acontece a seguir.

 

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As primeiras notas de Brave Heart e o momento da digievolução não desiludem. Hououmon/Phoenixmon é lindíssima – de longe o Digimon mais bonito que conheço.  O conflito de Sora neste filme não me deixou completamente satisfeita pelos motivos que expliquei antes. Mas, confesso, não consigo resistir a uma digievolução acompanhada de Brave Heart.

 

Muitos têm-se queixado de Seraphimon e HerculesKabuterimon roubarem o momento a Phoenixmon. Eu compreendo a crítica, mas não me importo muito. Pelo contrário, uma das coisas de que me queixei em Ketsui foi da falta de participação dos Digimons nos combates, tirando Rosemon e Vikemon. Logo, gosto que, em Soshitsu, se tenham todos juntado à luta.

 

Importo-me mais que tivéssemos de levar com as sequências de digievolução todas. Regressou a velha mania de Digimon de queimar tempo com digievoluções. A de HerculesKabuterimon, pelo menos, era desnecessária.

 

A aparição de Seraphimon tem, também, causado alguma controvérsia. Falando apenas de Soshitsu, T.K. não teve grande destaque – não mereceu a digievolução da maneira que Sora a mereceu neste filme e Izzy mereceu no filme anterior. Por um lado, suponho que T.K. já a tinha merecido em Kokuhaku.

 

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Por outro lado, esta, tecnicamente, não terá sido a estreia de Seraphimon. A sua primeira aparição terá ocorrido na terceira parte de Digimon, o Filme – embora muitos fãs não considerem que essa história faça parte do cânone oficial do universo de Adventure. Nesse aspeto, Tri fez bem em manter a ambiguidade, sem invalidar nenhuma das hipóteses.

 

Entretanto, o Dark Gennai aproveita a distração dos outros Escolhidos nos combates para se enfiar no navio e assediar Meiko. E, apesar de Gomamon, Patamon (ambos de nível Infantil) e Sora terem sido capazes de fazer frente a Gennai sem grande dificuldade, Meicoomon – nível Adulto, veículo da Infeção, claramente poderosa, vendo a jovem que está programada para proteger sendo asfixiada – não consegue fazer um arranhão que seja a Gennai. Fuck logic!

 

As cenas de Meiko e Gennai estão, ainda por cima, enfiadas entre digievoluções e combates, de tal forma que uma pessoa quase se esquece do que está a acontecer no navio. A verdade é que o última parte do filme está muito mal organizada em termos de montagem das diferentes cenas: com as sequências de digievolução que nunca mais acabam, apenas um minuto ou dois para mostrar Maki e Bakumon e as cenas de Gennai assediando Meiko no navio.

 

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O pior é mesmo o final. Depois de derrotarem o Machinedramon e o MetalSeadramon, os Escolhidos têm mais do que tempo para respirarem. Sora chega a ter um momento com Tai e Matt que até seria giro e tal se eu não estivesse, nessa altura, a gritar para o ecrã:

 

– PESSOAL! O DARK GENNAI ESTÁ PRESTES A MATAR A MEIKO! COMBINEM A VOSSA MENÁGE À TROIS DEPOIS, AGORA CORRAM PARA A P***A DO NAVIO!

 

 A certa altura, lá vemos Meiko desmaiada (se o poster do filme seguinte não tivesse saído logo a seguir, muitos pensariam que ela estaria morta), Meicoomon em modo Infeção, o Dark Gennai soltando um evil laugh daqueles bem fatelas… e o ecrã desvanescendo-se para preto, seguido dos créditos finais.

 

Yep, é assim que o filme termina, com um dos cliffangers mais forçados de que há memória. É de admirar que muitos de nós tenham ficado com vontade de atirar com o computador (ou telemóvel, ou tablet ou qualquer gadget através do qual tenham visto o filme) pela janela depois disto?

 

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Na minha opinião, a última impressão que Soshitsu deixa é pior que o filme em si. Mas os digi-guionistas (ou digi-produtores ou digi-realizadores ou digi-quem-quer-que-seja-responsável-por-isso) já deviam saber da importância de um final como deve ser. Não é bom quando os espectadores saem da sala de cinema de mau humor. E nem era assim tão difícil! Bastavam uns ajustes aqui e ali para tudo parecer mais orgânico.

 

Apesar de tudo isto, apesar de este filme ser mal executado ao ponto da frustração, contudo a achar que é melhor que Ketsui. Mal por mal, pela primeira vez desde que Tri começou, sabemos ao certo o que se está a passar e em direção vão as coisas. Quase tudo o que aconteceu foi importante para o enredo. Por fim, praticamente todos os Escolhidos tiveram pelo menos um momento de destaque.

 

Eu não podia acabar de falar sobre Soshitsu sem referir o eterno mistério que continua por resolver: os miúdos de 02. Nesta fase, as minhas expectativas atingiram mínimos históricos. Que revelem a resposta quando lhes apetecer, já nem me ralo!

 

Agora, o próximo filme chamar-se-á Kyosei, o que significa União ou Simbiose. Este é capaz de ser um dos títulos mais fascinantes até agora em Tri. Para aqueles que não conhecem o termo, Simbiose é uma relação de benefício mútuo. No contexto de Digimon e de Tri existem várias interpretações possíveis. A mais óbvia é referir-se à relação entre Escolhido e companheiro Digimon. No entanto, a meu ver, sabendo o que se sabe, o mais provável é referir-se à relação entre o Mundo Digital e o mundo dos humanos. Ou entre a Luz e a Escuridão.

 

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O que me leva ao poster de Kyosei. Nele aparecem Meiko e Kari. Já se sabia que o quinto filme seria protagonizado pela Escolhida mais nova. Acho que ninguém tinha a certeza de que Meiko apareceria num poster em Tri mas, já que apareceu, não surpreende.

 

Na minha opinião, faz sentido emparelharem Meiko com Kari no protagonismo. Dos oito Escolhidos originais, Kari é de longe a mais parecida do Meiko em termos de carácter. Se bem se recordam, aquando de Ketsui, a amizade entre Meiko e Mimi recordou-me a amizade enre Kari e Yolei em 02 (típicos pares introvertida-extrovertida).

 

E contudo (penso que já o disse aqui) só conhecemos Meiko desde Saikai e esta já tem mais personalidade que Kari, que conhecemos desde Adventure.

 

Para além das raparigas, aquilo que chama a atenção nos posters são os Digimon. Vemos uma nova digievolução de Meicoomon cujo nome ainda não se conhece tanto quanto sei. Mais importante é Ophanimon.

  

Durante anos e anos e, sobretudo, nas semanas que antecederam Soshitsu, a comunidade de fãs debatera sem parar sobre qual das possíveis digievoluções de nível Extremo para Gatomon era a oficial para Kari: se Holydramon, se Ophanimon. A Angewomon de Kari aparece na tal terceira parte de Digimon, o Filme, que não se sabe se pertence ao cânone. Por outro lado, consta que no jogo Digimon Adventure para a PSP, a Gatomon de Kari digievolui para Ophanimon.

 

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Pessoalmente, não tenho uma preferência definida por nenhuma das formas. Por um lado, Ophanimon faz mais sentido como o nível que se segue à Angewomon. Além disso, faz melhor par com Seraphimon – não, não “shipo” (odeio essa palavra…) T.K e Kari, longe disso, mas gosto da química que a Gatomon/Angewomon e o Angemon partilham desde os tempos de Adventure. Por outro lado, Holydramon tem traços claramente feninos, logo, também faz sentido como digievolução de Gatomon. Além disso, é uma das poucas digievoluções das raparigas Escolhidas que não é gritantemente sexualizada.

 

Ora, este poster não confirma nem desmente nenhuma das possíveis digievoluções porque a Ophanimon aparece em modo Fall Down. Segundo a Wiki do Shika, é essencialmente um anjo caído/desertor. Ou seja, esta será a primeira vez desde SkullGreymon que teremos uma digievolução negra no universo de Adventure. O que é fascinante.

 

Estando esta análise tão atrasada, à data da publicação, já temos uma sinopse para Kyosei. Mais vale falar sobre ela.

 

Só para arrumarmos o assunto Ophanimon, a sinopse dá a entender que alguma coisa de mau vai acontecer a Kari “que tem a alma mais iluminada e delicada que ninguém” – o que é demasiado vago para se tirar conclusões. Penso que é quase certo que Kari poderá voltar a servir de porta-voz à Escuridão e… não me agrada. Estou farta do velhíssimo cliché da Kari possuída por coisas sobrenaturais.

 

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Não sei se alguma vez o referi aqui no blogue, mas uma das coisas que gostava de ver em Tri era Kari, por uma vez, salvando o couro a Tai ou T.K. em vez de ser a eterna donzela indefesa. Mas já ficava contente se Kari se salvasse a si mesma do que quer que a atormentará e/ou tenha uma evolução significativa como personagem.

 

Podiam, por exemplo, abordar a relação dela com o irmão – que, por sinal, esteve em destaque há umas semanas atrás, quando um dos antigos realizadores de Adventure apontou para momentos do episódio 21 (aquele em que Tai, após a derrota de Etemon, regressa brevemente ao Mundo Real e reencontra a irmã) que poderiam apontar para atração incestuosa (*arrepios de horror*). Pontas soltas como a culpa de Tai por ter enviado a irmã para o hospital e a dependência excessiva de Kari no irmão – conforme referido no episódio do Mar Negro, em 02.

 

Passando ao resto da sinopse, parece que as coisas vão rapidamente reverter ao estado pré-Reinício. Os miúdos regressarão ao Mundo Real, onde estão a ocorrer distorções e estragos por todo o lado. Parece que, desta vez, a população virar-se-á a sério contra os Escolhidos.

 

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Eu não estou lá muito satisfeita por irmos voltar ao Mundo Real, depois de termos passado o quê? Um dia e meio, dois dias no Mundo Digimon? Por outro lado, se o objetivo de Yggdrasil for mesmo extreminar a raça humana, não faz sentido o elenco permanecer no Mundo Digital. É provável, também, que as dúvidas existenciais de Tai regressem, após terem sido deixadas em stand-by no início de Kokuhaku.

 

A sinopse revela ainda que, segundo Hackmon, a Homeostase quer matar Meicoomon. Este desenvolvimento não surpreende, sobretudo depois de Soshitsu ter praticamente confirmado que Meicoomon foi criada para ser o veículo da Infeção. O mais certo é os Escolhidos serem apanhados no fogo cruzado. Sobretudo Meiko que, naturalmente, não permitirá que matem o seu Digimon sem dar luta.

 

Estou certa de que pelo menos alguns dos Escolhidos ficarão do lado dela. Sora, T.K. e Mimi fá-lo-ão logo de início. No entanto, não me surpreenderia se Tai começasse a culpar Meicoomon e, por associação, Meiko por tudo de mau que aconteceu em Tri até agora. Talvez Izzy concorde com ele, pura e simplesmente pelo sentido prático da coisa, se não houver mesmo outra solução. Quanto a Matt, ele estará do lado completamente oposto a Tai – nesta fase é uma lei da natureza.

 

Em todo o caso, uma coisa é certa: as coisas irão de mal a pior. O que era de esperar no penúltimo capítulo, antes da resolução final no sexto filme.

 

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É um bocadinho estranho ainda não haver data de estreia de Kyosei. Mas, como me atrasei tanto com este monstro de análise, não me queixarei se o próximo filme ainda demorar um bocadinho. Estou com esperanças de que o filme coincida com o Odaiba Memorial Day.

 

E por falar disso…

 

Já faz parte da praxe falar do Odaiba Memorial Day Portugal – sobretudo tendo em conta que já participei num par de emissões/podcasts juntamente com o António, o Danny (do canal de YouTube A minha vida em bits) e o Shika (que gere a Digimon Wiki em português de Portugal).

 

Ao lado deles sou uma amadora, que só conhece (e, mesmo assim, não muito bem) o universo de Adventure. Além disso, estou longe de ser uma entertainer, farto-me de gaguejar e não tenho um microfone decente – o YouTube não é de todo uma carreira viável para mim.

 

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Dito isto, diverti-me imenso nos podcasts em que participei. Geralmente, as emissões começam de forma mais ou menos refinada mas, ao fim de algum tempo, começamos a disparatar. O podcast mais recente em que participei acabou connosco a cantar a versão portuguesa de Butter-fly - de início, cantámos a versão da Animedia, comigo a trocar-me toda na letra (que o Danny escreveu, ainda para mais!) e, por algum motivo, acabámos por cantar o refrão da versão da velhinha dobragem portuguesa. Esta parte da emissão já não ficou gravada no YouTube… graças a Deus, sinceramente.

 

Não posso falar pelos outros três participantes, mas eu garanto que, nessa noite, não estava sob o efeito do álcool nem de outra substância – só mesmo um descafeinado da Nespresso. Eu posso parecer simpática e certinha à primeira vista mas, se me derem tempo, a minha maluquice vem toda ao de cima.

 

De qualquer forma, só por momentos como estes vale a pena ter escrito tanto testamento sobre Digimon nos últimos dois anos.

 

Com tudo isto deu-me ainda mais vontade de ir ao encontro no primeiro de agosto. Infelizmente, este ano não vou, quase de certeza, poder ir este ano. Acreditem, isto deixa-me com vontade de chorar.

 

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Enfim, já foi bom ter participado nos podcasts ou apenas ouvi-los. Conforme julgo já ter referido aqui no blogue, sabe bem conviver com pessoas com as mesmas maluqueiras do que nós, mesmo que apenas via internet. Especialmente para mim que, como já sabem, sou uma mulher com muitas maluqueiras.

 

Voltaremos a falar sobre Digimon quando sair Kyosei – espero não tornar a atrarar-me tanto com essa análise, mas não posso prometer nada. De qualquer forma, na página de Facebook deste blogue, vou publicando e comentando qualquer notícia ou pista que saia sobre Kyosei.

 

Continuem ligados. Análise a After Laughter dos Paramore em breve.

 

Digimon Adventure Tri - Soshitsu (Perda) #2

Segunda parte da análise a Soshitsu, o quarto filme de Digimon Adventure Tri. Primeira parte aqui.

 

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É a partir da primeira aparição de Machinedramon que Soshitsu começa a dar tiros nos pés. Até à parte do Tri-ângulo amoroso, a história decorria de forma consistente. Um bocadinho lenta, sim, mas todos os filmes de Tri, até agora, tiveram um começo lento. Soshitsu, ao menos, estava a ter bons momentos entre personagens. No entanto, Machinedramon interrompeu um momento crucial para o desenvolvimento de Sora e, a partir daí, as coisas ficaram estranhas.

 

Machinedramon aparece quase literalmente do nada, perseguindo Meicoomon. Não, não é o mesmo Machinedramon que fazia parte dos Dark Masters/Mestres das Trevas. Por esta altura, toda a gente está a assumir que Yggdrasil e/ou o Dark Gennai têm a capacidade de conjurar cópias de Digimon de nível Hiper Campeão, ainda que uns quantos furos abaixo em relação aos originais – primeiro o Imperialdramon de Ketsui e, neste filme, o Machinedramon e, mais tarde, o MetalSeadramon. É uma explicação tão boa como qualquer outra. No entanto, chateia-me um bocado que ainda não tenha sido confirmada oficialmente.

 

Tai, Matt e Sora voltam rapidamente para junto dos amigos. Como Machinedramon continuasse a atacar, os Escolhidos voltam-se, naturalmente, para os seus Digimon, dispositivos em riste e…

 

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...nada acontece.

 

Eu sabia, desde logo, que a digievolução não ia funcionar à primeira, depois do Reinício. Os Escolhidos descobrem-no na pior altura possível. É, adequadamente, um momento “Oh crap!

 

Infelizmente (ou felizmente), no momento em que Machinedramon devia, pela lógica, matá-los a todos, abrem-se distorções no local, que transportam os Escolhidos para outros sítios – ou seja, um dos maiores Deus Ex-Machinas de que há memória.

 

Este é apenas o primeiro de vários Deus Ex-Machinas e outras incongruências neste filme, mas quero falar já sobre isso. Um dos motivos pelos quais Kokuhaku foi tão bom foi porque quase todos os eventos do enredo ocorreram por causa de decisões tomadas pelas personagens. O Reinício e tudo o que ele implicou aconteceram porque, em primeiro lugar, nem Maki, nem Daigo nem Meiko disseram aos outros Escolhidos a verdade acerca de  Meicoomon; em segundo lugar, T.K. não disse a ninguém, tirando Meiko, que Patamon estava infetado; em terceiro, os Digimon não disseram aos seus companheiros humanos que ia haver Reinício – só Agumon e Tentomon e, mesmo assim, não foi a sua primeira escolha.

 

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É precisamente por isso que Kokuhaku é, em simultâneo, tão belo e tão trágico: porque o Reinício podia ter sido evitado e não o foi por causa da humanidade e imperfeições das personagens. Até as atitudes de Maki são compreensíveis, agora que conhecemos as motivações dela!

 

É por isso que ninguém gosta de Deus Ex-Machinas: porque as personagens não fazem absolutamente nada para merecerem o que lhes acontece. Já ajudava, neste caso, se por exemplo Meicoomon tivesse criado as distorções de propósito, numa tentativa de salvar os Escolhidos e os seus Digimon.

 

Não que ela alguma vez tenha dado sinais de se ralar com outra criatura que não ela mesma ou Meiko. Mas, se tivesse acontecido, abriria imensas possibilidades.

 

Isto nem seria tão mau se, ao menos, Soshitsu tivesse aproveitado as oportunidades criadas pelo Deus Ex-Machina. O grupo divide-se, com alguns dos humanos a serem emparelhados com companheiros Digimon alheios. Quando, aliás, vi pela primeira vez, nos trailers, por exemplo, Joe com Palmon e Patamon e Mimi com Tentomon, pensei que isso tivesse sido escolha dos próprios Digimon. Afinal de contas, eles não têm memórias dos seis anos anteriores e, provavelmente, nem sequer sabem que estão programados para protegerem um dos humanos em específico. Seria fascinante se, em certos momentos, sentissem maior afinidade para com os humanos “errados”.

 

O que remete, de novo, para a questão dos Ex-Machinas.

 

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Alguns dos Escolhidos vão, ainda, parar a locais significativos da sua primeira estadia no Mundo Digimon. Como Mimi no palácio dos Gekomon, Joe no restaurante do Vegiemon e do Digitamamon e T.K. na Aldeia do Início. Posso estar enganada, mas o local a onde Tai foi parar, juntamente com a irmã, Gabumon e Salamon (momento fofinho quando Tai e Salamon acordam Kari, que estava desmaiada), lembra-me o cenário da parte do segundo arco de Adventure – aqueles episódios em que ele cometeu várias asneiras graves, tais como forçar a digievolução de Greymon e permitir que Sora seja raptada.

 

Esta mixórdia de temáticas abria imensas possibilidades: os Digimon amnésicos descobrindo mais acerca dos seus companheiros humanos; os Escolhidos recordando episódios marcantes do seu passado (episódios de que, se calhar, não se orgulham) e falando deles com os seus Digimon (seus companheiros oficiais ou não).

 

Mas quase todas essas oportunidades são desperdiçadas. Mimi limita-se a elogiar Izzy perante Tentomon, mesmo no estilo de adolescente apaixonada. T.K. explica o Reinício a Elecmon e reforça do desejo de reencontrar Patamon (ou seja, nada que acrescente alguma coisa). Izzy mostra algumas fotografias pré-Reinício a Agumon e Gomamon. Pelo meio, há um momento inútil, mesmo estúpido, em que Agumon e Gomamon ficam a olhar especados para um comboio que vem na direção deles, antes de Matt e Izzy os afastarem no último segundo. Por fim, o grupo que abarca Joe, Patamon e Palmon nem sequer tem direito a falas.

  

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É também nesta altura que se volta a manifestar a aparente falta de orçamento de Tri, com o regresso dos planos estáticos que já tinham aparecido em Ketsui. Nem sequer é a primeira vez que aparecem no fime, mas esta é a mais flagrante, chegando a aparecer uma apresentação de diapositivos. Não percebo, sinceramente. Kokuhaku não teve nada disso (ou, se teve, foi tão discreto que nem sequer reparei). Filme sim filme não reduz-se o orçamento?

 

Felizmente, temos uns quantos momentos que se aproveitam. Por exemplo, quando Agumon pergunta a Matt se este odeia Tai. Eu podia escrever páginas e páginas só para responder a essa pergunta, mas Matt diz apenas:

 

– Espero demasiado dele.

 

Não é preciso acrescentar mais nada.

 

Por sua vez, Tai desabafa com Kari sobre as consequências do Reinício, sobretudo o facto de a digievolução não funcionar A irmã tem um raro momento de profundidade ao dizer que talvez os Digimon estejam melhor assim, sem recordações dos anos anteriores. Eles, os Escolhidos, têm de aceitá-los e amá-los tal como são agora.

 

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Este discurso não é particularmente original – é comum dizerem-se coisas parecidas sobre doentes de Alzheimer, por exemplo – mas é significativo que tenha partido de Kari. A sua companheira encontra-se, agora, na forma da adorável Salamon. No entanto, antes do Reinício, era a mais madura dos Digimon dos Escolhidos – tanto pelo seu passado como por ser do nível Adulto. Sem essas memórias, Salamon é tão inocente como os outros Digimon – algo que não passou despercebido a Kari. Salamon está, sem dúvida nenhuma, melhor assim, sem saber que Myotismon a escravizou e lhe matou o melhor amigo

 

Por agora, pelo menos.

 

No entanto, os melhores momentos foram os que envolveram Sora – também era o mínimo, já que este era o filme dela! Depois o ataque do Machinedramon, Sora é transportada para um deserto (provavelmente o mesmo que o grupo atravessou no segundo arco de Adventure), juntamente com Byomon que, nesta altura, não tem desculpa nenhuma, está a ser mesquinha (eu e o António, o Danny e o Shika, do Odaiba Memorial Day Portugal, usámos palavras mais coloridas e menos simpáticas para descrever Byomon), acabando por fazer a pobre rapariga chorar.

 

Não se faz, Byomon! Não se faz!

 

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Entretanto, as duas encontram o corpo inconsciente de Meiko, que terá aparecido no Mundo Digimon por obra de graça do Espírito Santo – ou, vá lá, da Homeostase. Em todo o caso, ainda bem que isso acontece, já que Meiko proporciona alguns dos melhores momentos do filme – nomeadamente, ao ser a primeira conseguir ajudar Sora, por pouco que seja.

 

Por esta altura, Byomon já percebera que estava a ir longe demais e tenta ser um pouco mais cordial. A certa altura, chega a ser mais calorosa para com Meiko do que para Sora, o que, naturalmente, magoa esta última. Mas não é, de todo, incompreensível, já que Meiko a pressiona menos. Quando Sora desabafa com Meiko sobre a difícil reaproximação a Byomon, Meiko recorda à amiga as suas próprias palavras, sobre o lanço inquebrável entre Escolhidos e os seus Digimon.

 

Eu, no passado, queixei-me do tratamento que Digimon (no que toca ao universo de Adventure, pelo menos) tem dado às suas personagens femininas. No entanto, as relações entre as meninas Escolhidas têm sido alguns dos pontos altos de Tri, com cada filme (tirando Saikai) tendo uma cena em que uma das raparigas dá apoio a outra – tal como demonstrei no vídeo acima/abaixo, que publiquei na página de Facebook deste blogue, a propósito do Dia da Mulher.

 

 

 

De assinalar que Meiko é quem está no centro destas interações. A jovem está longe de ser a personagem mais popular de Tri. Meiko também não me entusiasmava muito, de início, mas tenho vindo a gostar cada vez mais dela. Por um lado, por a achar parecida comigo, mas também pela maneira como Meiko tem vindo a ser desenvolvida, em paralelo com outros Escolhidos: Mimi em Ketsui, T.K. em Kokuhaku e Sora neste filme.

 

O momento alto de Meiko, aliás, foi o seu reencontro com Meicoomon. Esta última tinha passado a primeira metade do filme chorando por a sua humana não ter vindo procurá-la. Quando finalmente a encontra, tem uma birra destrutiva, acusando Meiko de não ter vindo por Meicoomon ser “má”. Meiko admite que sim, Meicoomon é “má”, tem-lhe tornado a vida difícil, mas isso não impota. Tal como temos visto outra e outra vez  em Tri, tal como Sora e T.K. lhe tinham ensinado, um Escolhido não volta as costas ao seu Digimon. Meiko não o fará agora.

 

Esta deverá ser a primeira vez em anos (se não for a primeira vez, ponto) que Meiko é completamente sincera para com Meicoomon – e talvez mesmo consigo mesma. É uma evolução significativa relativamente à Meiko que passou quase todo Kokuhaku em depressão, com pena de si própria.

 

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Depois disso, o falso Imperador Digimon aparece perante Sora e Meiko, juntamente com Machinedramon, tentando deitar as mãos a Meicoomon. Como Sora tentasse impedi-lo, ele volta-se para ela. É nesta altura que ele revela finalmente a sua verdadeira (será?) identidade: Gennai.

 

Não, não vou falar sobre a infame cena que arruinou a infância a toda uma geração que cresceu com Adventure e 02. Passemos à frente.

 

A isto seguem-se uma série de incoerências. A primeira é o facto de Sora ter conseguido tirar o Dark Gennai de cima de si, sem dificuldade aparente - apesar de não ter conseguido fazer nada quando Gennai lhe tirou o dispositivo digital.

 

De seguida, repete-se o Deus Ex-Machina quando as distorções trazem todos os outros Escolhidos para o local, ao mesmo tempo. Tai e Matt, então, como disse antes, aparecem no momento exato para proteger Sora de um ataque do Machinedramon.

 

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É nesta altura, enquanto o Machinedramon tenta atingir os miúdos, que o Dark Gennai começa o monólogo, explicando as suas motivações. Conforme Hackmon já tinha explicado, Gennai está a trabalhar para Yggdrasil.

 

 Quando li este nome nas legendas do filme pela primeira vez, eu sabia que já o tinha lido algures, a propósito de Digimon. Foi uma das primeiras coisas que perguntei ao António, depois de ver o filme: quem era Yggdrasil. Consta, então, que ele é o principal computador que aloja o Mundo Digital e/ou uma espécie de divindade do Mundo Digimon. Já tinha usado como vilão na temporada Savers, onde se terá voltado contra os humanos por os considerar uma ameaça para os Digimon. Parece que, em Tri, as suas motivações são semelhantes.

 

Pelo menos é isso que se deduz do monólogo de Gennai, que dá como exemplo os Digimon dos Escolhidos – selecionados e programados para protegerem humanos, mesmo que lhes custe a vida. Gennai acusa mesmo os Escolhidos de escravizarem os seus Digimon

 

Eu não consigo evitar pensar nos fãs de Digimon detratores de Pokémon, que questionam (não sem razão) a moralidade da premissa de capturar criaturas e obrigá-las a lutar. No entanto, já que Soshitsu foi por essa via, devo perguntar: será muito melhor termos criaturas nascidas e obrigadas a proteger humanos, mesmo que não seja essa a sua vontade? Tri desperdiça, aliás, outra oportunidade ao não ter pelo menos um dos Digimon amnésicos questionando o seu propósito de vida.

 

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No entanto, os Escolhidos são os últimos que merecem ser culpados por isso. Conforme assinalei antes, nenhum dos miúdos escolheu ir parar ao Mundo Digimon – foram literalmente atirados para lá. Pode-se argumentar que a afeição que desenvolveram pelo Mundo Digital é, pelo menos em parte, Síndrome de Estocolmo. Como disse antes, os companheiros Digimon são tudo o que os miúdos receberam como ajuda ou compensação. Sim, os Digimon é que são obrigados a arriscar a pele, mas não foram os Escolhidos que definiram as regras.

 

Aliás, fica cada vez mais claro que esta é uma luta (se não for guerra aberta) entre Yggdrasil e a Homeostase e os miúdos, os respetivos Digimon, Maki e talvez mesmo o Dark Gennai não passam de peças num tabuleiro de xadrez.

 

 Voltaremos a falar sobre isso e muito mais na última parte desta análise. Continuem desse lado!

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