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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Digimon 02 #9 - Recuperando o controlo

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Ken é o vilão durante quase metade de 02 antes de ser integrado no grupo dos heróis Antes de ser desmascarado como Imperador Digimon, as Crianças Escolhidas conheciam-no como um famoso menino-prodígio, com capacidades académicas e atléticas sobrenaturais. Ninguém suspeitava que, nos seus tempos livres, aquele pequeno génio divertia-se construindo Torres Negras no Mundo Digital e torturando Digimons indefesos.

 

Descobrimos, mais tarde, que Ken pensava que tudo aquilo não passava de um jogo de computador. Porém, ao rever agora os primeiros episódios de 02, não acreditei que isso explicasse tudo. Ken dá sinais de ser um autêntico sociopata. Eu, pelo menos (e qualquer pessoa minimamente decente, espero), nunca trataria criatura nenhuma daquela forma, mesmo que pensasse que não eram reais, que não passavam de personagens num jogo de computador - sobretudo se estas fossem capazes de comunicar comigo, gritar de dor, pedir clemência. E o que achava Ken que as outras Crianças Escolhidas eram? Meros adversários para ele derrotar? Jogadores que levavam tudo aquilo demasiado a sério? Que, se Ken os "matasse" (e ele tentou), para eles seria apenas "Game Over"? A única explicação que me ocorre é a Semente da Escuridão ter catalisado muitas destas acções - e mesmo assim não deixa de ser um tanto ou quanto rebuscado.

 

A verdade é que Ken tem um passado trágico e foi, pelo menos em parte, para fugir a ele que se tornou Imperador Digimon. O jovem tinha um irmão mais velho, Osamu. Como em quase todos os relacionamentos entre irmãos, o relacionamento tinha momentos de amor e momentos de ódio. Por um lado, Osamu ensinara-lhe a soprar bolas de sabão. Por outro lado, irritava-se quando Ken mexia nas coisas dele e, visto ser um aluno brilhante, recebia todas as atenções dos pais. Numa altura em que, julgo eu, Ken já tinha visitado o Mundo Digital e sido infetado com a Semente da Escuridão, Ken chega a desejar que Osamu desaparecesse.

 

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E, de uma forma melodramática e extremamente cliché, Osamu morre pouco depois, atropelado.

 

Como seria de esperar, Ken entra numa espiral depressiva depois da morte do irmão, atormentado pelo luto e pela culpa. Os adultos da sua vida não reparam nisso, tirando Oikawa. Longe de ajudá-lo, Oikawa aproveita-se da dor e solidão de Ken para executar o seu plano. Através de um sinistro e enigmático e-mail anónimo, Oikawa manipula Ken, enviando-o até ao Mar Negro, onde o seu Dispositivo Digital é contaminado pela Escuridão. Desta forma, Ken inicia o seu percurso como Imperador Digimon, onde procura recuperar o controlo que perdera sobre a sua vida quando Osamu morrera. Sem fazer ideia que, longe de recuperar o controlo, ao se tornar Imperador Digimon Ken abdica ainda mais da sua vontade própria.

 

Conforme julgo já ter dito aqui no blogue, nestas coisas não sou de lágrima fácil. No entanto, cheguei a lacrimejar quando revi o episódio em que Ken, depois de perceber que o Mundo Digital era mais do que um jogo de computador e que os Digimons são seres vivos, depois de perder Wormmon, Ken revisita tudo isto. A sua redenção começa quando, no fim do episódio, Wormmon renasce e Ken faz as pazes com os pais, com a memória do irmão e consigo mesmo.

 

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Queria, aliás, falar rapidamente sobre os pais de Ken. É difícil não sentir compaixão para com eles. Eles cometeram erros com ambos os filhos, mas são erros humanos, que qualquer pai ou mãe poderia cometer. Deixaram-se levar pelo brilhantismo, primeiro de Osamu, depois de Ken, sem pensar na felicidade deles, mesmo na sua sanidade mental, no caso de Ken. O filho mais velho morre. Por entre a sua própria dor, não reparam no sofrimento do filho mais novo e/ou não conseguiram ajudá-lo, deixando suscetível às maquinações de terceiros. Quando Ken se transforma num prodígio, os seus pais pensam que recuperaram o filho que tinham perdido. Mais tarde, o filho desaparece-lhes durante algum tempo (a ideia que fica é que pensam que ele se suicidara). Foram bonitos os vários momentos em que os pais de Ken admitiram os seus erros. Também gostei de, em episódios posteriores, ir vendo o alívio e alegria da mãe de Ken quando este pede autorização para passar a noite em casa de Davis, ou quando Ken convida os amigos a sua casa - tudo provas de que o filho se estava a transformar numa criança saudável e feliz de novo.

 

Conforme fui referindo nas entradas anteriores, as Crianças Escolhidas acabam por perdoar Ken, cada uma na sua altura, cada uma à sua maneira. Agora que penso nisso, o único dos heróis que não interagiu em particular com um Ken em tentativa de redenção é T.K., se a memória não me falha. Tal como disse antes, Cody é o último a perdoá-lo. Fá-lo ao aceitar o convite de Ken para a festa de Natal em sua casa - depois de vários episódios lidando com BlackWarGreymon e da conversa com Azulongmon, altura em que, suponho eu, Cody terá começado a perceber que as coisas nem sempre são a preto e branco, ao contrário do que este sempre acreditara.

 

Porém, o desenvolvimento de Ken não acaba aqui. Na quarta parte do segundo arco, Oikawa rapta-o e conta-lhe tudo: que sabe que Ken foi infetado por uma semente da Escuridão, que esta é a responsável pelas suas capacidades atléticas e académicas sobrenaturais, mas que, como contrapartida, predispõe-no para as Trevas. O plano inicial de Oikawa era encher o Mundo Digimon de Torres Negras, que alterassem o equilíbrio entre o Mundo Real e o Digital, permitindo-lhe visitar o Mundo Digimon. Quando isso falhou, Arukenimon e Mummymon encorajaram BlackWarGreymon a destruir as Pedras Sagradas (não me parece que isto fizesse parte do plano de Oikawa, parece-me mais um acaso feliz e... conveniente, mas também, conforme referi aqui, esse mini-arco fez pouco sentido).

 

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Quando isso falhou, enquanto as Crianças Escolhidas andavam ocupadas destruindo Torres Negras por todo o Mundo, Oikawa e os seus minions, Arukenimon e Mummymon abordaram várias crianças inseguras e de baixa auto-estima, convencendo-lhes que podiam dar-lhes os super-poderes que haviam feito de Ken um menino-prodígio. E, de facto, quando Oikawa rapta Ken, a sua Semente da Escuridão (que deixara de funcionar no momento em que Ken inicia a sua redenção) é extraída e implantada nessas Crianças. Quando as Sementes desabrochassem, Oikawa usaria o seu poder para abrir um portal para o Mundo Digimon.

 

Quando era miúda, esta história das Sementes da Escuridão perturbava-me, como perturbaria qualquer criança ou adolescente pressionado pelo desempenho escolar, quer pelos pais, pelos professores ou por eles mesmos. Mesmo hoje, acho assustadoramente realista que uma criança, e mesmo um adulto, esteja disposto a vender a sua alma para se tornar magicamente sobredotado.

 

Na altura em que Ken é finalmente libertado, os amigos tinham passado as últimas horas lutando contra os minions de Daemon. Eventualmente, as seis Crianças Escolhidas enfrentam Daemon diretamente. No entanto, os heróis não conseguem acabar com ele, nem com todos os seus Digimons na sua máxima força. Uma solução proposta é encerrá-lo num sítio qualquer, onde não pudesse fazer nada. Nessa altura, Ken revela que tem o poder de abrir um portal para o Mar Negro. 

 

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Este é o clímax do desenvolvimento de Ken. Ele nunca escolhera nada do que lhe acontecera nos últimos anos da sua vida. Não escolhera perder o irmão. Não escolhera... bem, ser uma Criança Escolhida. Não escolhera ser infetado por uma Semente da Escuridão nem ser manipulado por Oikawa para que se tornasse o Imperador Digimon. E, no entanto, naquele preciso dia, Ken vira outras crianças escolherem aquilo que arruinara a sua vida. Ao oferecer-se para abrir o portal para o Mar Negro, Ken reconhece o seu lado obscuro, um lado que, mesmo sem a Semente da Escuridão, provavelmente fará sempre parte dele. Porém, naquele momento, não era Arukenimon, nem Oikawa, nem mesmo a própria Escuridão a ditar os termos, a controlar a situação. Era Ken. Ele usará a própria Escuridão para derrotar a Escuridão.

 

Não que seja fácil. A agonia que Ken sente enquanto tenta resistir à influência das Trevas e/ou do Mar Negro é clara e... sonora. Mas Ken não está sozinho. Nunca teria conseguido anular a influência da Semente da Escuridão se estivesse sozinho, se não tivesse Wormmon, os seus pais, as outras Crianças Escolhidas. São precisamente elas a emprestar-lhe força e coragem para abrir o portal. É de assinalar que a primeira pessoa que corre a ajudar Ken é Kari, que também já tivera de luar contra a influência do Mar Negro. E que a última pessoa, quem relembra a Ken tudo o que já conseguira até ao momento, quem faz o clique final é Davis: aquele que, desde o primeiro momento, acreditara na melhor faceta de Ken.

 

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Este é o melhor momento de toda a temporada, o equivalente ao momento de Tai e Matt em Adventure que referi aqui. Quando Ken regressa a casa no final desse dia, conta finalmente toda a verdade aos seus pais. 

 

O mais triste é que Oikawa, a pessoa que manipulou Ken, acaba por ter um percurso semelhante à da criança que usou como marioneta. Mas não será ainda sobre ele que falaremos na próxima entrada. Existe uma certa criatura cheia de dúvidas existenciais que merece a nossa atenção...

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