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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Digimon Adventure Tri - Kokuhaku (Confissão) #1

1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo do primeiro, segundo e terceiro filmes de Digimon Adventure Tri e, possivelmente, dos enredos de Adventure e 02. Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas - na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Apesar de as legendas do filme usarem os nomes japoneses das Crianças Escolhidas, eu vou usar as versões americanizadas dos nomes, visto que estou mais habituada.

 

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Uma das maiores críticas que teci aos dois primeiros filmes de Digimon Adventure Tri prende-se com o facto de pouco ter acontecido de relevante para o enredo, que avançasse a história. No primeiro filme, isso não foi tão grave, visto que o principal objetivo do mesmo era, como escrevi na altura, colocar as personagens todas no lugar certo, lançar as premissas para esta série de filmes. No segundo filme, o engonhanço agravou-se: praticamente só nos últimos vinte minutos é que a história avançou e, pelo meio, perdeu-se demasiado tempo com coisas fúteis. Já sabíamos que o terceiro filme, Kokuhaku (Confissão), seria diferente – quanto mais não fosse porque, depois da maneira como o segundo filme, Ketsui, terminou, não dava para continuar a encher chouriços.

 

Temíamos há muito tempo que Patamon fosse sacrificado neste terceiro filme. Ainda antes do lançamento de Ketsui, tinha sido divulgado um teaser mostrando Patamon despedindo-se e o seu parceiro, T.K., reagindo com desespero. O facto de Patamon aparecer no poster de Kokuhaku na sua forma Infantil agravaram os nossos receios – para se agravarem ainda mais quando as primeiras sinopses de Kokuhaku diziam que Patamon desenvolveria sintomas da Infeção que enlouquecera Meicoomon. Todos sabíamos que o filme mexeria com as nossas emoções e tentámos preparam-nos para isso – vários fãs viram o filme com uma caixa de lenços de papel ao lado.

 

No entanto, duvido que alguém estivesse preparado para isto, para o nível a que Kokuhaku chegou. Falo por mim: não me lembro de alguma vez ter ficado tão arrasada com um trabalho de ficção.

 

O que aconteceu em Kokuhaku de assim tão dramático? Segue a versão condensada, a.k.a, a habitual sinopse baseada na Wikipédia:

 

Kokuhaku começa um dia ou dois após o final de Ketsui. Meiko lida com o trauma da morte de Leomon às mãos de Meicoomon e da fuga desta última. Izzy, por sua vez, vai ficando cada vez mais frustrado enquanto tenta descobrir como se infetou Meicoomon. Entretanto, as distorções, que se creem provocadas por Meicoomon, começam a afetar as ligações aéreas. Perante as perguntas de Matt, Maki Himekawa e Daigo Nishijima revelam pormenores das investigações da organização governamental, mas ocultam-lhe que Meicoomon é a origem das infeções e que Davis, Yolei, Cody e Ken se encontram desaparecidos. Mais tarde, T.K. descobre que Patamon mostra sintomas de infeção. No entanto, esconde-o dos amigos e decide retirar Patamon da segurança do escritório de Izzy, trazendo-o para casa. Tal faz com que os outros Escolhidos sigam o exemplo. Patamon acaba por perceber o que lhe está a acontecer e pede a T.K. que o mate caso se torne violento.

 

Certa noite, durante um apagão, uma mensagem surge em todos os dispositivos eletrónicos: “Os Digimon serão libertados de novo”, o que causa agitações na população. No dia seguinte, enquanto Patamon conta aos outros Digimon que está infetado, Kari é possuída pela Homeostase. Através da boca da jovem, a entidade revela que os Digimon Infetados poderão destruir o Mundo Digital, bem como os outros mundos paralelos a este, e acabar com a rede eletrónica do Mundo Real. A solução passa por “um grande sacrifício”. Maki escuta a mensagem e informa os Digimon que, da próxima vez que Meicoomon aparecer, a Homeostase, como último recurso para salvar os diferentes mundos, poderá provocar um Reinício, que destruiria o Mundo Digital, reconstruindo-o no estado pré-infeção. Gatomon conclui que este Reinício fará com que ela e todos os outros companheiros Digimon morram e renasçam sem recordações das suas vidas até ao momento – ou seja, esquecer-se-iam dos seus parceiros humanos. Com este conhecimento, os oito Digimon decidem guardar segredo sobre o Reinício e preparar-se para o pior, passando tempo de qualidade com os seus companheiros humanos, em jeito de despedida. Agumon, no entanto, acaba por contar a Tai acerca do Reinício.

 

Izzy acaba por descobrir que as distorções resultam da substituição do habitual código binário por um código diferente. Depois de Tentomon o informar acerca do Reinício, o jovem pensa num plano. Entretanto, Meicoomon regressa e os Digimon lutam com ela, numa tentativa de a afastar do Mundo Real. Contra a vontade de T.K., Patamon digievolui para Angemon e junta-se à luta. No entanto, a Infeção volta a manifestar-se, não só em Angemon, mas também nos outros Digimon. Nesse momento começa a contagem decrescente para o reinício, mas Izzy põe em prática o seu plano alternativo: um campo de dados em forma de cubo para curar as infeções e preservar as memórias dos Digimon. Numa altura em que Tentomon é o único não afetado pela Infeção, ele digievolui para HerculesKabuterimon e faz uma tentativa para salvar os amigos Digimon, Meicoomon incluída. Em vão.

 

Uma semana mais tarde, numa altura em que os Escolhidos decidem regressar ao Mundo Digital para se encontrarem de novo com os seus Digimon, Meiko confessa a T.K. que soube, desde o momento em que a encontrou para primeira vez, que Meicoomon estava infetada. Consumida pela culpa, ela acha que não tem o direito de ir ter com Meicoomon. Os oito outros Escolhidos, por sua vez, regressam ao Mundo Digital, invocando os poderes dos seus Cartões. Aí, encontram Alphamon combatendo outro Digimon de nível Extremo, Jesmon. Também encontram os seus companheiros Digimon, que não os reconhecem, decidindo começar do zero com eles. Por sua vez, longe da vista dos Escolhidos, Maki aparece no Mundo Digital, confrontando o Imperador Digimon – que, na verdade, é Gennai sob disfarce. Também sem que as outras presonagens o vejam, aparece Meicoomon, que, aparentemente, ainda se recorda da sua companheira humana, Meiko.

 

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Em Ketsui, tínhamos tido uma invasão das meninas ao balneário masculino numas termas, Meiko e Mimi vestindo-se de meninas de claque num festival cultural e os Digimon participando num concurso de disfarces, tudo com uma dose saudável de parvoíce à mistura. Em Kokuhaku temos uma das personagens com depressão e stress pós-traumático, ameaças de um Apocalipse digital e os oito Digimon com os dias contados. Em suma, a tensão aumentou exponencialmente de um filme para o outro (o que, na cronologia de Tri, corresponde a quatro ou cinco dias, e estou a arredondar por cima). Claro que, ao terceiro de seis filmes, era preciso que acontecesse algo mais. A minha crítica não se dirige a Kokuhaku, dirige-se mais a Ketsui. A comparação do terceiro filme com o segundo piora a perceção deste último, que já tinha deixado muito a desejar. Fica claro que Ketsui devia ter cortado nos fillers, preocupando-se antes em avançar a história, de modo a que os eventos de Kokuhaku parecessem menos súbitos e mais orgânicos.

 

Até porque muitos dos conflitos que dominaram os dois primeiros filmes acabaram por ficar sem conclusão satisfatória. Em Kokuhaku, não há uma única referência aos problemas académicos de Joe. As dúvidas existenciais de Tai são colocadas em banho-maria com duas linhas de diálogo de Matt – tendo em conta o que acontece no resto de Kokuhaku, a questão não deverá voltar a ser levantada tão cedo. A verdade é que, em Kokuhaku, as coisas escalam a um ponto em que os problemas académicos de Joe e os desentendimentos de Mimi com as colegas por causa do festival cultural parecem triviais, na comparação.

 

Uma coisa que me agradou em Kokuhaku foi o facto de, finalmente, terem abordado o desaparecimento dos miúdos de 02. Depois de Saikai e Ketsui, um mero reconhecimento da existência deles sabe a vitória. Não que tenhamos descoberto muito. Vemos, no início do filme, T.K. e Kari batendo à porta de Ken, tentando telefonar aos outros, sem conseguir falar com qualquer um deles (incluindo os pais de Ken, o que é ainda mais estranho).

 

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Mais tarde, Matt vai ter com Daigo e Maki, a perguntar pelos Escolhidos mais novos. Estes dizem-lhe que os têm debaixo de olho, protegidos. No entanto, depois de Matt sair, o diálogo entre Maki e Daigo confirma que sim, os miúdos de 02 estão desaparecidos, a organização governamental sabe disso e… não parece estar a fazer nada para resolver a situação. Eu sabia já que, nesta altura, não haveria maneira de justificar o destino dos Escolhidos mais novos sem incoerências. Continuo a achar que os veteranos já deviam ter dado pelo desaparecimento dos caloiros, por todos os motivos que listei em análises anteriores. Além de que a organização governamental deve estar a fazer um trabalho de mestre para ocultar o desaparecimento de quatro menores (e, aparentemente, as respetivas famílias) da Comunicação Social. Matt, de resto, aceita as explicações de Maki com demasiada facilidade (é certo que, pelo menos nesta fase, os Escolhidos não têm motivos para desconfiarem de Maki ou Daigo) e, muito mais tarde no filme, quando Maki aparece com o D-3 e o D-terminal de Ken, ninguém levanta sequer uma sobrancelha – mais uma vez, compreensível tendo em conta tudo com que os Escolhidos tiveram de lidar até àquele momento. Tanto quanto eles saibam, Maki pediu-lhos emprestados a Ken.

 

Não é apenas o desaparecimento dos miúdos de 02 que Maki esconde dos Escolhidos: também o facto de Meicoomon ser responsável por… bem, praticamente tudo o que aconteceu até agora em Tri. A desculpa que Maki dá é, essencialmente, “o Izzy vai descobrir mais cedo ou mais tarde”, embora também invoque a possibilidade de os outros Escolhidos se virarem contra Meiko, caso descubram a verdade. Quando Daigo se revolta contra o secretismo da colega, ela diz-lhe mesmo: “Certas coisas estão melhor mantidas em segredo”.

 

Não sei o que é que Maki entende por “melhor”, mas, neste filme, todos estes segredos acabam por voltar-se contra os Escolhidos, e de que maneira. Maki não é a única com coisas a esconder, como veremos adiante. No entanto, os motivos dela são os que levantam mais suspeitas depois dos momentos finais de Ketsui – para se transformarem em quase certezas nos instantes finais de Kokuhaku, quando fica claro de que lado ela está.

 

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Maki fica ainda pior na fotografia quando vemos o efeito que os eventos do final de Ketsui estão a ter nos Escolhidos. Meiko, coitada, tinha pouquíssima experiência nas lides dos Escolhidos e, de um momento para o outro, acontece-lhe um dos piores cenários possíveis. Como disse acima, não anda a reagir bem. No início de Kokuhaku, descobrimos, ainda, que o pai de Meiko trabalha com a organização (se não fizer oficialmente parte da mesma) a que Daigo e Maki pertencem. É evidente que ele deverá desempenhar um papel importante em Tri, a certa altura, mas neste filme ele limita-se a aparecer no início e não volta a aparecer até ser brevemente mencionado até perto do fim. Eu sei que, no Japão, pais e filhos costumam ter uma relação mais formal que no Ocidente, mas a maneira distante como ele trata Meiko causou-me impressão – quando ele sabe perfeitamente que a filha não está bem, até Daigo lhe faz ver isso. Mimi e, sobretudo, Sora acabam por dar mais apoio a Meiko do que os próprios pais, o que é um bocadinho triste.

 

No extremo oposto, Izzy procura febrilmente uma explicação para a infeção de Meicoomon e a pressão começa a levar a melhor sobre ele. Quem lhe dá apoio, surpreendentemente, é Joe. Aparentemente, o desbloqueio de novas digievoluções é tão inebriante para os próprios Escolhidos como é para mim… ou então, tal como escrevi antes, talvez o facto de ter sido bem-sucedido em algo tenha sido suficiente para fazê-lo sair do estado semi-depressivo em que passou os dois primeiros filmes de Tri.

 

Ou então, teve pura e simplesmente uma hora bem passada com a sua misteriosa namorada.

 

O que é certo é que Joe retoma um pouco o seu papel de papá do grupo, com o seu apoio bem-humorado a Izzy (a cara deste último, quando Joe lhe diz “assim não arranjas namorada” é impagável), cuja característica paixão pelo saber começa a tornar-se um fardo.

 

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É um tema que se começa a notar em Tri: o facto de os Escolhidos estarem a lidar com o lado negro das virtudes que lhes foram atribuídas, o reverso… bem, dos Cartões. Tai, em Saikai, sentiu a sua coragem falhar (e ainda não parece totalmente recuperado disso). Mimi percebeu que o seu julgamento nem sempre é o mais adequado. Joe, que sempre cumpriu o seu dever e honrou os seus compromissos, deixa de conseguir fazê-lo. E agora, que a mente curiosa de Izzy é a maior arma dos Escolhidos contra a ameaça das distorções e das infeções, descobrir coisas deixa de ser um prazer, é um caso de vida ou de morte. A ignorância, os enigmas, os segredos por desvendar, não são apenas desafios – são ameaças.

 

Esta última parte, de resto, tem sido um dos temas recorrentes em Tri, ganhando maior destaque em Kokuhaku. Meiko é um bom exemplo disso e T.K. acaba por seguir pelo mesmo caminho. Como já sabíamos que aconteceria, Patamon começa a desenvolver sintomas de infeção. Chega a atacar T.K. no escritório de Izzy (onde os Digimon estavam retidos, de modo a evitar mais infeções), enquanto este último passa pelas brasas. Joe, que também estava no escritório, a tomar conta de Izzy, não dá pelo ataque. Quando T.K. lhe pergunta, casualmente, o que aconteceria se mais algum dos Digimon se infetasse, o Escolhido mais velho responde que, provavelmente, teriam de eutanasiá-lo. Tendo isso em conta, T.K. convence um relutante Joe a deixá-lo levar Patamon para casa. Aqui, temos uma cena de partir o coração (uma de muitas neste filme) em que Patamon percebe o que lhe está a acontecer e pede a T.K. que o mate, case a Infeção fique mais grave.

 

É particularmente cruel que o primeiro a mostrar sinais de Infeção tenha sido, logo, o mais fofo do grupo, aquele que já antes se tinha sacrificado, aquele que, por norma, surge à última hora para salvar toda a gente. Desta feita, a esperança é, quase literalmente, a primeira a morrer.

 

 

A decisão de T.K. de trazer Patamon consigo abre um precedente para os restantes Digimon – agora todos querem passar as noites com os seus companheiros humanos. O que poderiam os Escolhidos fazer? T.K. continua a esconder o que se passa com Patamon, só dizendo a verdade a Meiko – por sinal, outra que também tem coisas a esconder.

 

Como bom irmão mais velho que é, Matt percebe logo que se passa algo com T.K. O irmão mais novo continua a fechar-se em copas. Esta cena, ao menos, sempre proporciona alguns dos poucos momentos leves do filme. T.K. pergunta ao irmão com quem é que ele se desentendeu desta vez e, mais tarde, perante as perguntas de Matt, T.K. diz-lhe que está deprimido por as bandas do irmão estarem sempre em crise.

 

O Matt tem mesmo de deixar de se levar tão a sério ou habilita-se a ter sempre toda a gente a gozar com ele.

 

Pelo meio, Kokuhaku faz questão de mostrar Sora funcionando como uma espécie de mental coach dos Escolhidos – passando uma boa parte do filme ao telemóvel, falando com toda a gente, certificando-se de que estão bem. É, aliás, a primeira vez que, tanto quanto sei, que Digimon compara Sora a uma mãe, preto no branco. Não que fosse necessária tanta ostensividade: estamos a falar de uma rapariga que, mesmo quando estava em baixo, com vontade de estar sozinha, não conseguia evitar ajudar os amigos nas costas deles. Mais caracterização para além disto é redundante. É, de resto, uma técnica a que os digi-guionistas costumam recorrer: exacerbar um traço específico das personagens quando este é importante para o enredo. O Cartão do Amor de Sora não é particularmente relevante em Kokuhaku mas deverá sê-lo em breve, visto que o próximo filme será focado nela.

 

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Não retiro nada do que escrevi antes sobre Sora, na minha longa análise a Adventure. Continuo a achar que o papel dela é o esperado das personagens femininas (para não dizer imposto às personagens femininas) e, até agora, nunca foi explicado devidamente porque sente ela necessidade de agir assim. Dito isto tudo, Sora continua a ser a minha preferida entre os Escolhidos. Em parte precisamente porque é maternal e altruísta, mas também porque não deixa de ser tão corajosa e lutadora como Tai ou Matt, os machos-alfa do grupo. Em miúda, Sora era, de todos os Escolhidos, quem eu mais desejava ter como amiga – e ela, de facto, tem sido uma excelente amiga para Meiko, precisamente quando ela mais precisa.

 

Voltaremos a falar de Sora adiante. Sobre as ameaças que surgem nos dispositivos eletrónicos, dizendo que “os Digimon serão libertados novamente”, não sei muito bem o que pensar. Não sei se é apenas um “sintoma” das distorções ou um indício de algum evento que ainda não ocorreu. Por outro lado, é de assinalar que as distorções se devam à substituição do habitual código binário (zeros e uns) por um código ternário (zeros, uns e dois). Um fã crítico de Digimon já tinha apontado para a presença do código nas sequências de digievolução, aquando de Saikai. Ao menos agora temos uma explicação para isso. Consta até que, antes do lançamento de Saikai, os criadores de Tri haviam alertado para a presença de triângulos e conjuntos de três nestes filmes. Talvez este código ternário ganhe ainda mais relevância mais adiante, em Tri.

 

De qualquer forma, no dia seguinte, os Digimon escapam do escritório de Izzy (demasiado absorvido pelo seu trabalho para prestar atenção). Patamon revela aos amigos que está infetado e pede-lhes, também, que o matem caso ele se torne violento. Entretanto, a Homeostase (uma entidade digital que rege o Mundo Digimon como um deus) apodera-se de Kari (que, aparentemente, não serve para mais nada). Através da jovem, a entidade aparece perante os Digimon (com Maki escutando à socapa), informando-os que a Infeção está a comprometer a estabilidade do Mundo Digital, existindo o risco de ele e outros mundos paralelos desaparecerem por completo, bem como a rede eletrónica do Mundo Real.

 

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O Mundo Digimon é, na sua essência, um mundo digital, informático. Em informática, o que é que uma pessoa faz quando as coisas não funcionam? Desligamos e voltamos a ligar. É exatamente isso que a Homeostase quer fazer caso Meicoomon apareça de novo no Mundo Real.

 

Apesar de eu aplaudir um desenvolvimento do enredo, depois de tanto tempo a engonhar, devo dizer que este me parece demasiado repentino. Como dei a entender antes, Tri passa de três ou quatro Digimon descontrolados, sem que saibamos ao certo porquê, um par de combates com Digimon de nível Extremo, cuja motivação é um mistério, para um Mundo Digimon supostamente tão corrompido que precisa de ser reiniciado. Por outras palavras, só agora é que a Infeção começou a ter repercussões graves e já vamos tomar medidas de último recurso? Não bate certo. Tenho algumas teorias sobre isso, mas vou guardá-las para mais adiante nesta análise.

 

Uma das consequências do Reinício do Mundo Digital será o Reinício dos próprios Digimon com ele. Ou seja, eles morrerão e voltarão a nascer sem recordações da sua vida anterior, como se nunca tivessem conhecido os seus companheiros humanos. Está longe de ser uma situação fácil, sobretudo tendo em conta que a única solução para talvez escaparem a este destino passa por abaterem Meicoomon, que passaram a considerar uma amiga.

 

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Os oitos Digimon ligam com a situação com uma coragem invejável – embora seja que questionar a sensatez de esconder a verdade aos Escolhidos – entrando em modo “último dia na Terra/Mundo Real” com os respetivos companheiros. Isto proporciona momentos dolorosamente agridoces: Kari passando a tarde no centro comercial, com Gatomon; Gabumon pedindo a Matt que este toque harmónica, como no fim de Adventure (harmónica essa que acaba por introduzir uma música lindíssima, que serve de banda sonora a todos estes momentos); Byomon tentando fazer com que Sora, por uma vez, pense em si mesma e nos seus sonhos; Gomamon ouvindo Joe dizer que tem de apresentá-lo à sua namorada, já que planeia tê-los aos dois por perto para o resto da sua vida (porque é que me fazem isto, digi-guionistas, porquê?!?); Palmon, mais uma vez, nem coragem tem para pensar, sequer, em despedidas; Tentomon procurando consolar Izzy, dar-lhe esperança, fazer com que ele volte a sentir prazer em aprender. Só ele e Agumon é que, aliás, revelam a verdade aos respetivos companheiros humanos.

 

A ação em Kokuhaku (leia-se: combates entre Digimon) limita-se a um episódio. Ao contrário de outras ocasiões em Tri, isso não prejudica tanto este filme pois não faltou desenvolvimento de personagens e muito drama nos primeiros três episódios. Esta batalha, que dura o episódio todo, é, aliás, o momento em que todos os segredos, todos os erros cometidos até à altura, se voltam contra o elenco de uma maneira trágica. Meicoomon aparece no Mundo Real a partir de uma distorção e todos, tirando Izzy, acorrem ao local. Embora não se possa ter a certeza absoluta, aparentemente a chegada de Meiko ao local faz com que Meicoomon digievolua para Meicrackmon (quando dei com este nome pela primeira vez, tive de confirmar que não era um nome inventado por fãs. Meicrackmon? A sério?). Momentos depois, T.K. tenta impedir Patamon de se juntar ao combate, em vão. Acaba por ser ele, na forma de Angemon, quem despoleta a Infeção nos outros Digimon, que começam a atacar-se uns aos outros e a contagem decrescente para o Reinício começa.

 

Nessa altura, Izzy descobre que Meicoomon está na origem de tudo e rapidamente cria o tal campo de dados, que curará as infeções e preservará as memórias dos Digimon. Numa altura em que a maior parte dos Escolhidos só agora é posto ao corrente sobre o Reinício, Tentomon é enviado para a dimensão distorcida onde ocorrem os combates para tentar levar os amigos Digimon para dentro do campo de dados antes que se dê o Reinício. Inicialmente, tem MetalGreymon a ajudá-lo, mas também ele acaba por ser dominado pela Infeção (chega mesmo a evoluir para WayGreymon sem darmos por isso). A certa altura, Izzy pede a Tentomon que esqueça os outros e se salve a si mesmo. O Digimon, compreensivelmente, recusa pois não quer ver os amigos morrer.

 

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Em jeito de despedida, Tentomon dirige a Izzy umas palavras de consolo, remetendo para o conflito do jovem neste filme: diz que ignorância é apenas o ponto de partida para aprender coisas novas; que adorou encontrar Izzy e ir conhecendo-o ao longo do tempo, se tiver de ser adorará conhecê-lo outra vez. Dito isto, evolui pela primeira vez para HerculesKabuterimon. Desta feita não há a habitual euforia que acompanha as novas digievoluções, esta é apenas uma última tentativa, um canto de cisne.

 

Por um momento, HerculesKabuterimon consegue fazer com que os amigos Digimon recuperem a razão. Sabendo perfeitamente que já não podem fazer mais nada, os oito abraçam-se, encurralando Meicrackmon no meio. Juntos, conseguem regressar à distorção, mas já não chegam a tempo de entrar no campo de dados. O Reinício é ativado, os nove Digimon desfazem-se em partículas digitais… e os nossos corações também.

 

Não sei como foi com vocês, mas este desfecho doeu-me, ainda dói, mais do que eu esperaria. Dói-me pensar que criaturas que conhecemos desde miúdos se esqueceram de tudo por que passaram com os respetivos Escolhidos. Que a Gatomon se esqueceu do Wizardmon e do momento em que percebeu que Kari era a sua companheira humana. Que o Patamon se esqueceu da sua zaragata com o Elecmon, na Aldeia de Origem. Que o Gomamon se esqueceu da primeira piada que ouviu do Joe (“Chamas a isso mãozinha?”). Que a Palmon se esqueceu de quando obrigou Mimi a engolir as suas palavras, depois de evoluir para Lillymon. Que o Tentomon se esqueceu da sua hilariante apresentação aos pais de Izzy. Que a Byomon se esqueceu de se aliar à mãe de Sora para a resgatar. Que o Gabumon se esqueceu de quando usou o seu casaco de peles para curar a hipotermia de Matt. Que o Agumon se esqueceu de quando queimou o mapa desenhado (muito mal) por Tai e levou nas orelhas por isso. Dá vontade de chorar. É uma grande parte da infância dos Escolhidos, da nossa infância, que na mente dos Digimon nunca aconteceu.

 

Quando vi Kokuhaku pela primeira vez, foi um alívio descobrir que existia um quinto episódio. Mas, como esta entrada já vai longa, falaremos desse episódio e de muito mais na segunda parte desta análise, que virá amanhã. Continuem desse lado, que ainda temos muito para chorar... desculpem, falar.

 

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