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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Digimon Adventure Tri - Saikai (Reunião)

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O franchise Digimon comemorou o décimo-quinto aniversário da emissão da sua primeira temporada, conhecida entre os fãs por Adventure. No Odaiba Memorial Day desse ano, foi anunciada uma segunda sequela (contando com 02), protagonizada pelas oito Crianças Escolhidas originais, decorrida seis anos após os eventos da primeira temporada – ou seja, três anos após os eventos de 02, logo, as Crianças Escolhidas já não são… bem, crianças. Estava previsto a sequela estrear-se na primavera de 2015, o que não acabou por acontecer. Em vez disso, foi anunciado que, em vez de uma temporada televisiva, Tri seria antes uma série de seis filmes. O primeiro intitula-se Saikai (Reunião) e saiu em novembro último, no dia 21. Depois de ter revisto Adventure e 02 este ano em preparação para Tri, e depois de ter escrito uma data de testamentos sobre essas temporadas, não podia ver o primeiro filme de Tri sem lhe dedicar o seu próprio testamento.

 

Antes de mais nada, três alertas...

 

1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo do primeiro filme de Digimon Adventure Tri e, possivelmente, dos enredos de Adventure e 02. Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas - na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Apesar de as legendas do filme usarem os nomes japoneses das Crianças Escolhidas, eu vou usar as versões americanizadas dos nomes, visto que estou mais habituada.

 

Segue-se uma sinopse do filme, adaptada da Wikipédia.

 

Três anos após os acontecimentos de Digimon 02, Tai Kamiya está no décimo-primeiro ano do Secundário, desanimado com o facto de nenhum dos seus amigos poder comparecer ao seu jogo de futebol. No dia da partida de Tai, um Kuwagamon aparece no Mundo Real, interferindo em aparelhos eletrónicos em toda a cidade. Tai alcança o Kuwagamon, que toma a forma física e ataca-o. Este ataque, no entanto, é diferente de outros ataques por Digimons no Mundo Real pois, pela primeira vez, os danos causados pelo Kuwagamon a civis e infraestruturas perturbam Tai. O jovem consegue atrair o Kuwagamon para um descampado mas o Digimon acaba por encurralá-lo. Nesse momento, o seu Dispositivo Digital brilha e o seu antigo parceiro, Agumon, aparece para defendê-lo. Agumon digievolui para Greymon e luta com o Kuwagamon. À medida que mais dois Kuwagamons aparecem, Tai é ajudado pelas outras Crianças Escolhidas (que tinham sido levadas ao local por uma misteriosa organização, que sabe mais sobre o Mundo Digimon que o cidadão comum) e seus parceiros Digimons (com exceção de Joe). Estes conseguem derrotar dois dos Kuwagamon. No entanto, uma mão misteriosa aparece e captura o terceiro.

 

Após a batalha, os jovens analisam a situação. Acreditam que os Kuwagamon apareceram no Mundo Real devido a distorções no espaço. Tai e Matt visitam o professor Nishijima, que revela ser parte de uma organização que monitoriza as atividades dos Digimons, sobretudo aqueles que são chamados de Digimons Infectados, como os Kuwagamons. Izzy desenvolve uma maneira de fornecer um acesso mais rápido aos seus parceiros Digimons enquanto procura por distúrbios digitais. Tai angustia-se com a possibilidade de pessoas inocentes se ferirem ou mesmo morrerem aquando das lutas contra os Digimons Infectados, o que provoca desconforto entre as Crianças Escolhidas e atrito na sua amizade com Matt.

 

 

No dia seguinte, um Digimon misterioso conhecido como Alphamon aparece, aparentemente a procura de um Digimon que estava sob os cuidados de Meiko Mochizuki, uma jovem que fora recentemente transferida para a escola de Tai. Com Alphamon derrotando os Digimons dos jovens, Matt obriga Tai a dominar o seu medo. Desse modo, os dois conseguem lutar contra o Alphamon através de Omegamon. No entanto, Alphamon consegue escapar antes de Omegamon desferir o golpe. No final, Meiko revela que também é uma Criança Escolhida e que Meicoomon é sua parceira Digimon, sendo este o Digimon que Alphamon estava a procura.

 

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Queria falar primeiro dos aspetos mais técnicos do filme. O desenho das personagens causou alguma polémica por ser tão diferente da série original. Eu até gosto deste desenho menos… cartoonizado e mais realista. Adequa-se à história, à idade dos heróis e, também, da audiência (quem está a ver Tri não são miúdos que nunca viram Digimon antes, é gente como eu, crianças na altura de Adventure e agora na casa dos vinte ou, quanto muito, adolescentes). De resto, todas as Crianças Escolhidas são facilmente reconhecíveis, tirando Matt – e tem mais a ver com o penteado que lhe deram, na minha opinião.

 

Por outro lado, é certo que eu não vejo anime sem ser Pokémon e Digimon, mas eu fiquei impressionada com a qualidade da animação em Saikai. Não que não seja de esperar, depois de passar os últimos meses vendo ver episódios emitidos em 1999, 2000, de baixo orçamento. Achei, em particular, os Digimons e respetivos combates muito mais orgânicos.

 

As três músicas mais icónicas de Adventure – Butterfly, I Wish e Brave Heart – foram todas regravadas para Tri. Eu nunca fui grande fã das duas primeiras (tirando a versão em piano de Butterfly), mas gostei muito destas novas versões. Brave Heart era, naturalmente, aquela por que mais ansiava e não desiludiu: manteve a magia da versão original, recebendo apenas uma roupagem mais moderna. Gosto em particular da terceira parte da canção: o breakdown com os icónicos sons de um dispositivo digital sendo ativado, antes de um solo de guitarra diferente.

 

  

Ainda gostei mais da versão orquestral de Brave Heart, que tocou aquando da luta entre Omnimon/Omegamon e Alphamon – para além de aumentar o carácter épico da música, a letra de Brave Heart adequa-se ao que se estava a passar com Tai no momento em que soa. Outros temas da banda sonora da série original também regressaram, tocando ocasionalmente ao longo de Saikai, igualmente com uma nova roupagem diferente mas mantendo o encanto de sempre.

 

As novas sequências de digievolução também não desiludiram mas – isto é apenas um capricho meu – chateia-me um bocadinho que esta não termine antes do início dos vocais de Brave Heart, como costumava acontecer nas séries originais.

 

Como aconteceu muito na temporada original, Saikai valeu bem mais pelas personagens do que pelo enredo em si. Como poderão ler na sinopse acima, não acontece muito neste filme: este serve apenas para colocar as peças no tabuleiro, para, literalmente, reunir as Crianças Escolhidas e os seus companheiros Digimon, para definir o conflito principal de Tri. Mesmo os principais aspetos da intriga de Saikai – os ataques de Alphamon, as hesitações de Tai, o distanciamento de Joe – são apenas parcialmente resolvidos ou não de todo. Sabemos que este é apenas o primeiro filme de uma série de seis mas, individualmente, considerando apenas o enredo, Saikai não satisfaz.

 

Uma das perguntas dos fãs antes de Saikai dizia respeito ao papel das Crianças Escolhidas de 02. Logo no início do filme vemos flashes de Davis, Yolei, Cody e Ken tombando perante Alphamon. Essas imagens fornecem uma desculpa para a ausência do elenco de 02 em Saikai, mas esta única resposta cria uma infinidade de perguntas. O que aconteceu aos miúdos? Terão, sequer, sobrevivido?

 

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Um rápido aparte só para dizer que, ainda que não seja grande fã dos miúdos de 02, nem eles mereciam esse desfecho. Sobretudo Ken, cujos pais já perderam um filho antes.

 

Fechando o aparte, consta que foi feito casting para as vozes do elenco de 02, logo, em princípio os miúdos estarão vivos. Mesmo assim, as perguntas mantém-se: porque estavam eles a combater Alphamon, para começar? Porque não estavam nem Kari nem T.K. com eles? Yolei e Cody precisavam deles, respetivamente, para que os seus companheiros Digimon atingissem o nível Super Campeão – será, aliás, por isso que eles foram derrotados? E porque nenhum dos “veteranos” sabe que Davis e os outros tres estavam a combater Alphamon – recordo que, em 02, Izzy continuava a desempenhar um papel importante nas aventuras dos miúdos, ainda que a partir dos bastidores. Se os miúdos de 02 viam, de facto, Alphamon como uma ameaça, já teriam pedido ajuda a Izzy. No entanto, ficou claro em Tri que o Cérebro das Crianças Escolhidas nunca vira Alphamon mais gordo.

 

A melhor hipótese que me ocorre é de Davis e os outros terem detetado um qualquer distúrbio no mundo Digimon. Possivelmente, pensaram que era uma coisa menor e nem sequer avisaram Kari e T.K.… por algum motivo. Contudo, quando foram ver, era Alphamon, algo para o qual não estavam minimamente preparados (mais ou menos como quando enfrentaram BlackWarGreymon pela primeira vez). Mas continua a ser muito estranho ninguém falar disso – até porque pelo menos a tal organização secreta sabe que eles estão desaparecidos. E não seria a atitude natural dos pais dos miúdos de 02, depois de eles desaparecerem, ligarem a todos os números na lista de contactos dos filhos? Como é possível que nem Tai nem nenhum dos outros saibam do desaparecimento de Davis e dos outros? Não acredito que não o saibam. Conforme dizia um fã na Internet, quando alguém desaparece, as pessoas reparam.

 

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O aparente desprezo que estão a votar ao destino dos miúdos de 02 não abona nada em favor, não apenas de Kari e T.K., também dos outros veteranos. Não nos esqueçamos que, no início de 02, Davis e os outros não tinham obrigação moral de ajudar o Mundo Digimon. Só o fizeram porque os veteranos não podiam fazê-lo eles mesmos. Foram eles mesmos, Tai e os outros, a iniciar os caloiros nas lides das Crianças Escolhidas. Agora aconteceu algo terrível aos miúdos de 02, precisamente enquanto cumpriam o trabalho que lhes foi passado como um testemunho, e os veteranos nem deles falam?

 

Esta é, na minha opinião, a maior falha do enredo de Saikai. Pode ser que esclareçam a situação nos próximos filmes… por favor!

 

Também achei que o conceito de Digimons Infetados era uma variante das Rodas Pretas de Adventure e dos Anéis e Espirais de 02. Não prima pela originalidade.

 

Este filme trata Tai como protagonista, continuando uma tendência de Adventure que chateava um bocadinho. O enredo gira quase todo à sua volta e todas as outras personagens, incluindo as outras Crianças Escolhidas, são tratadas como secundários. No início de Saikai, Tai está naquela fase pela qual todos já passámos pelo menos uma vez, em que não sabemos o que fazer com as nossas vidas, em que o passado, de repente, parece bem melhor do que realmente foi, em que todos em redor parecem ultrapassado tudo, seguido em frente com as suas vidas, enquanto nós sentimo-nos iguais ao que sempre fomos. Tai está naquela idade em que a sociedade espera que saiba exatamente o seu futuro, quando ele sente que tudo o que sabe fazer é jogar futebol e liderar as Crianças Escolhidas. No entanto, quando o seu desejo se realiza e Tai tem de retomar aquilo que considera ser a sua verdadeira vocação… esta não é bem da maneira como ele se recorda. De repente, Tai repara na destruição colateral que um simples Kuwagamon consegue fazer, as infraestruturas arruinadas, as vidas ameaçadas.

 

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Depressa as Crianças Escolhidas – tirando Joe – juntam-se à luta, transportadas até ao local por funcionários da tal organização misteriosa – ao que parece, parte do governo. Se por um lado acho lógico que os governantes não queiram deixar a proteção da população contra a ameaça dos Digimon apenas nas mãos de adolescentes, por outro, tenho algumas suspeitas em relação às intenções deles. Eles dizem que foi Gennai que os pôs ao corrente dos detalhes sobre o Mundo Digital – será verdade? E, mais uma vez, sabendo eles que quatro das Crianças Escolhidas japonesas estão desaparecidas, porque não fazem nada, ao que parece?

 

Enfim, os Kuwagamon são derrotados, mas, nos dias que se seguem, as Crianças percebem que a opinião pública se revoltou contra os Digimon, não distinguindo aqueles que atacavam a população e aqueles que procuravam defendê-la. Quando os oito se reúnem pela primeira (e única) vez em Saikai, para fazer o ponto da situação, Tai diz compreender a posição tomada pelos “civis”, dá mesmo a entender que os companheiros Digimon são, pelo menos em parte, responsáveis por essa destruição. Os amigos reagem com desconforto… tirando Matt. Este, pura e simplesmente, irrita-se e separa-se temporariamente do grupo.

 

Muitos fãs acusam Tai de estar a agir contra a sua personalidade em Saikai (mais sobre isso adiante), mas eu também estou a estranhar um pouco as atitudes de Matt. Em 02, ele parecia ter ultrapassado a sua amargura e revolta pelo divórcio dos pais, surgindo mais descontraído e divertido (não fez mal à ideia que tínhamos dele ser perseguido pela irmã de Davis). No entanto, em Tri, ele parece ter regressado aos seus modos mal-humorados e irascíveis. Talvez seja a adolescência, a pressão dos dezassete anos… E, de qualquer forma, se há pessoa que o irrita facilmente é Tai. Temos até uma inversão de papéis: em Adventure, era Tai quem se atirava de imediato à luta e Matt quem optava pela opção mais segura. Em Tri passa-se o oposto. Achei até que Matt foi demasiado duro para com o amigo. No entanto, verdade seja dita, em nenhum momento Matt se recusou a lutar quando era necessário. Mesmo outras Crianças Escolhidas, como Mimi em Adventure, que procuraram caminhos alternativos à violência, nunca se recusaram, pura e simplesmente, a lutar. Mas já falaremos melhor sobre as hesitações de Tai.

 

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Eu gostava de ter ouvido opiniões mais concretas das outras Crianças Escolhidas sobre o dilema de Tai, mas também compreendo que estas não tivessem querido tomar lados na discussão entre Tai e Matt. Afinal de contas, da última vez que aqueles dois se tinham desentendido a sério, o grupo dividira-se. Gostei, aliás, de vê-los fazendo tudo para que os dois líderes do grupo deixassem de andar às turras… sem se deixarem de divertir à custa dos dois.

 

Para dizer a verdade, todos os momentos de convívio entre as Crianças Escolhidas deram gosto de ver, as cumplicidades, as trocas de picardias. Surpreendentemente, Mimi foi uma das minhas personagens preferidas em Saikai: acabada de regressar dos Estados Unidos para o Japão, trazendo consigo alegria, vida e gomas a um grupo de Crianças Escolhidas perigosamente à beira do desânimo. De todos, Mimi é quem parece mais confortável na sua pele: ao namoriscar com um Izzy atravessando uma fase de timidez perante mulheres; ao cumprimentar com um abraço um Joe atravessando uma fase difícil; ao provocar uma Sora que passara os últimos dias fazendo das tripas coração para manter a paz entre Tai e Matt. É notável que Mimi tenha passado de uma das mais irritantes para uma das mais divertidas.

 

Sora continua a mamã do grupo, sobretudo, precisamente, no que toca a Tai e Matt. Antes de os Digimon se meterem ao barulho, a jovem stressava para escolher entre o jogo de futebol de Tai e o concerto de Matt, não querendo magoar nenhum dos rapazes. Depois de Tai e Matt se começarem às turras, fez tudo – inclusive fechá-los numa cabina da roda gigante – para que se entendessem de novo. Houve até um momento em que interrompeu uma discussão entre eles e só faltou Tai ou Matt dizerem: “Desculpa, mãe…”. Por um lado tem graça, é Sora sendo Sora. Por outro, é um bocadinho frustrante que tudo o que a jovem faz em Saikai seja em função dos rapazes.

 

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Acontece o mesmo com Kari, que passa a maior parte do filme preocupada com o seu onii-chan. Também aparece numa ocasião metendo-se com T.K. – que, nestes últimos três anos, se transformou num mini-galã, ao que parece – e este pergunta-lhe se ela tem ciúmes. Nenhum deles tem muito tempo de antena, aliás – provavelmente por já terem sido protagonistas em 02.

 

Caso não se tenham apercebido ainda, o filme faz muito isto. Não há praticamente nenhum ship que não receba uma piscadela de olhos, até mesmo Tai e Matt (sim…). Diz que é isso que o povo quer, ainda que eu não acredite que a audiência tem sempre razão (sim, Arrow, estou a falar de ti outra vez). Em todo o caso, não me vou queixar pois Saikai lidou bem com as insinuações de romance pois limitou-as a isso, a insinuações e a comic relief. Fê-lo muito melhor que 02.

 

De qualquer forma, gostei de ver as raparigas lanchando fora juntas. Julgo que foi a primeira vez que vi Kari convivendo com Sora e Mimi a sós, como amigas normais.

 

Izzy continua o génio de sempre, o Cérebro das Crianças Escolhidas. Agora tem o seu escritório pessoal (bem impressionante para um miúdo de dezasseis anos, diga-se). Depressa providencia um espaço virtual para os companheiros e uns óculos novos para Tai, capazes de detetar distorções no espaço, como as responsáveis pelo aparecimento dos Kuwagamon. No entanto, conforme dei a entender acima, não se sente muito à vontade com o sexo oposto.

 

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Quem, no entanto, está a passar verdadeiramente por um mau bocado é Joe. De forma surpreendente, o mais velho do grupo está com más notas e usa isso como desculpa motivo para passar ao lado da maior parte da ação… para não dizer toda a ação. Apenas se junta ao grupo quando este se reúne no dia seguinte ao ataque dos Kuwagamon. Quando Joe confessa aos amigos que nem tempo tem tido para a namorada, estes reagem da mesma maneira que a audiência:

 

- Espera… tu tens uma namorada?

 

T.K. pergunta mesmo se a misteriosa namorada é humana, o malvado… Não se pode censurar Joe por ficar com ainda menos vontade de se juntar ao grupo. Mas é um momento engraçado, um dos mais engraçados de Saikai.

 

Regressando a um tom mais sério, duvido que o trabalho académico seja o único motivo pelo qual Joe se manteve afastado da ação. Suspeito que haja mais qualquer coisa. Talvez ele concorde com as hesitações de Tai. Talvez ele se considere uma peça pouco importante naquele xadrez. Ele próprio reconheceu, perto do fim de Adventure, que Gomamon é bastante irrelevante como lutador… Talvez Joe se ressinta disso, passados aqueles anos todos. Talvez ele esteja com uma crise de confiança, derivada da sua situação escolar. Talvez ele não queira, sequer, continuar a ser uma Criança Escolhida.

 

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Estou mais inclinada para as últimas hipóteses, sobretudo porque, segundo consta, no próximo filme estrear-se-ão as digievoluções para o nível Hiper Campeão dos companheiros de Mimi e Joe. Já não era sem tempo. Sempre foi uma injustiça Matt e Tai serem os únicos com direito a esse nível. Mesmo assim, continuarão privilegiados graças a Omnimon/Omegamon – a menos que as outras Crianças Escolhidas consigam desbloquear também a… Digievolução ADN? Em todo o caso, espero que os desbloqueios sejam feitos como deve ser, ou seja, com desenvolvimento de personagem a acompanhar.

 

Regressando a Tai, como muitos fãs, no início eu estranhei as suas hesitações, tão díspares daquilo a que estávamos habituados da parte ele. No entanto, ao ver Saikai pela segunda vez para escrever esta análise, tudo pareceu fazer mais sentido. Na minha opinião, estes desenvolvimentos vêm em linha com o arco de Tai em Adventure. Em miúdo, ele possuía um longo historial de decisões irrefletidas, teimando em atirar-se para a frente sem pensar nas consequências, sem pensar nos danos que as suas atitudes e a luta em si provocariam nos amigos. No fim de Adventure, ele começa a aprender a pensar antes de agir, a ter em consideração a segurança os demais. É natural que, aos dezassete anos, quando ele, nas suas próprias palavras, vê mais e compreende menos (bem vindo à idade adulta, Yagami!), as consequências das suas ações lhe pesem mais.

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É, aliás, uma das coisas que apreciei em Tri: o facto de a narrativa ganhar maturidade, adaptando-se à idade da audiência. Em miúdos não nos importávamos particularmente com os danos humanos e materiais, provocados por todos aqueles combates fixes entre Digimon. Quando somos mais velhos é que pensamos coisas como “Eish, reconstruir aquela ponte vai custar milhões!” ou “É impossível o Paildramon não ter esmagado ninguém ao chocar contra aquele prédio”. Tri usa isso em seu favor. O mesmo se passa com a organização secreta, conforme referi antes.

 

No entanto, por muito justificáveis que sejam todas estas crises existenciais de Tai, vê-lo especado enquanto Alphamon ataca todos os companheiros Digimon e falha por pouco Matt e Meiko desafia a credibilidade. Para além de ser contra a sua personalidade, é… uma cobardia, pois ele parece menos preocupado com a destruição em si do que com ser responsabilizado por ela. Felizmente, numa cena cujo drama é espremido até ao tutano mas que resulta – sobretudo ao recordar um certo momento icónico de Adventure – Matt consegue obrigar Tai a recompor-se, a reaprender o verdadeiro significado de coragem (agir mesmo sabendo que as circunstâncias estão contra nós, que poderemos falhar) e… começa a tocar a versão orquestral de Brave Heart. Nada corre mal quando toca Brave Heart.

 

 

Agumon e Gabumon digievoluem para Omnimon/Omegamon, não sem antes passarem por todos os estádios da digievolução… por algum motivo. Pena não terem mostrado as sequências de passagem para os níveis Super e Hiper Campeão. Além disso, pelas regras definidas em 02, não sei se a digievolução para Omnimon seria possível. Terão Gennai e/ou Azulongmon tenham mexido cordelinhos outra vez? Se sim, por que motivo os Digimon das outras Crianças não passaram ao nível Super Campeão? Enfim, enredo, a quanto obrigas…

 

A luta entre Omnimon/Omegamon e Alphamon é fixe, não apenas pelo combate em si, mas também pelas cenas de Tai apoiando-se em Matt (estes dois têm uma relação engraçada, realmente: num minuto amigos do peito, noutro a isto de andarem ao murro…). No entanto, Alphamon acaba por fugir através de outra distorção espacial, o combate fica por terminar, continuamos sem saber ao certo qual é o objetivo dele, fica a destruição. Tal como já referi acima, ainda que este, em princípio, não vá virar a cara à luta de novo, continua com os mesmos dilemas e Matt continua descontente com o amigo.

 

Uma nota rápida para Meiko, a nova Criança Escolhida cujo companheiro Digimon, Meicoomon é, ao que parece, quem Alphamon perseguia. Tudo o que sabemos sobre ela é que veio transferida de outra cidade e é muito tímida. Mais nada. Eu não acho que era preciso arranjarem mais uma Criança Escolhida, mas suponho que Meiko e Meicoomon vão ter um papel importante no enredo futuro de Tri.

 

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Em conclusão, o título Saikai, Reunião, do meu ponto de vista, não diz respeito apenas ao reencontro das Crianças Escolhidas umas com as outras e com os respetivos companheiros Digimon. Diz também respeito ao reencontro do elenco de Adventure connosco, depois de nos termos despedido deles há quinze anos. O filme explora muito o fator nostalgia/fanservice, não apenas com os brindes para os ships, também com pormenores como os óculos de Tai e a harmónica de Matt. Não se limita, no entanto, a ser pouco mais que um remake de Adventure ou 02, pelo contrário. Tal como disse acima, o enredo acompanha o amadurecimento da audiência e do elenco – dá para ver, em diferentes graus, que as Crianças Escolhidas não são o mesmo que eram no fim de Adventure (e mesmo 02), ainda que o essencial da sua personalidade não tenha mudado. E, como tenho assinalado aqui no blogue sempre que falo de Digimon, é difícil falhar quando a narrativa investe nas suas personagens.

 

O problema de Saikai – e, provavelmente, de todo Tri – é que este filme foi feito para fãs de longa data de Digimon. Para podermos apreciá-lo, temos de ter visto pelo menos Adventure e, idealmente, também 02. Mesmo assim, na minha opinião, a menos que tenhamos visto e adorado pelo menos Adventure na nossa infância, não será a mesma coisa.

 

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Para mim, Saikai foi o culminar de vários meses de Digimon. 2015 foi o ano em que redescobri um dos produtos ficcionais que mais me tem influenciado, mesmo que não tenha contactado com praticamente nada relacionado com Digimon em dez anos. Eu, que não sou nada enviesada, acho que Saikai foi o melhor filme que vi em 2015. E agora, que já estamos em 2016, uma das coisas por que mais anseio este ano é pela continuação de Tri, começando pelo segundo filme, intitulado Ketsui, que significa Determinação. Até lá…

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