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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Paramore - After Laughter (2017) #2

Segunda parte da análise a After Laughter. Primeira parte aqui.

 

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Existem algumas canções em After Laughter que fogem à norma do falsamente alegre. Uma delas é Forgiveness – que terá sido a primeira a ser composta para este álbum. Esta faixa é conduzida por notas suaves de guitarra, acompanhada por baixo e uma bateria discreta.

 

Consta que a letra de Forgiveness foi inspirada numa crise na relação de Hayley com o seu, em breve, ex-marido. O que não surpreende. A letra descreve um cenário em que alguém pede perdão, mas a narradora está ainda demasiado magoada para concedê-lo.

 

Uma pessoa poderia interpretar esta letra como um retrocesso. Em vários momentos ao longo do Self-Titled, Hayley parecia razoavelmente aberta ao perdão. Não tanto porque a(s) outra(s) pessoa(s) o merecessem, mais por uma questão de paz de espírito. É possível que seja assim para algumas situações, mas não para todas. Sobretudo se a ofensa em questão ainda está fresca na memória e/ou se a outra pessoa ainda não fez nada para merecer ser perdoada.

 

Por outro lado, podem existir casos em que “perdoar e esquecer” até seja benéfico para a pessoa ofendida. Dito isto, existem coisas que ninguém tem a obrigação de perdoar.

 

  

Desde Brand New Eyes, todos os trabalhos dos Paramore (incluindo o Singles Club) têm incluído uma balada acústica. After Laughter manteve essa tradição. Se dois desses números acústicos – Misguided Ghosts e Hate to See Your Heart Break – se juntassem e tivessem um filho, esse seria provavelmente 26. Para além da guitarra acústica, esta faixa possui ainda uma secção de violino lindíssima.

 

Em entrevista, Hayley revelou que escreveu a letra de 26 como uma carta para a versão mais jovem de si mesma. Eu diria, também, que esta letra representa um conflito entre o seu lado mais cínico e o seu lado mais sonhador. Os dois sempre se manifestaram na música dos Paramore (Careful e Brick By Boring Brick para o cinismo; Miracle e Daydreaming para o idealismo). Em 26, Hayley quer agarrar-se ao lado sonhador, idealista – embora sinta que a realidade a puxa para o cinismo.

 

Nem todas as canções em After Laughter são assim tão depressivas, felizmente. Uma delas é, por sinal, uma das minhas preferidas: Pool. Esta é a única canção de amor neste álbum. Em entrevista, Hayley referiu que não se sente muito à vontade no que toda a canções de amor, que provavelmente nunca criará uma música romântica propriamente dita, idílica, sem um senão, sem uma reserva. E agora, com a separação, duvido que tão depressa voltemos a ter canções de amor no reportório dos Paramore.

 

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Em linha com isso, Pool parece fazer referências à ansiedade de Hayley. A letra compara um relacionamento amoroso a um mar agitado ou a uma piscina sem fundo: mergulhar nele é algo arriscado, incerto, perigoso, mas irresistível. No fundo (no pun intended), a narradora está a aprender que, no amor, nem sempre poderá ter controlo total. Existirá sempre um grau de incerteza relativamente ao futuro.

 

Não que isso tenha resultado muito bem para a Hayley…

 

Pool tem, aliás, sido a minha canção de verão deste ano. Tanto graças à sua sonoridade new wave, à anos 90, que me dá uma certa nostalgia, bem como às várias referências aquáticas – algo de que sempre gostei, tal como referi num texto recente deste blogue.

 

A única canção verdadeiramente alegre em After Laughter é Grudges. Consta que Zac e Taylor colaboraram na composição do instrumental (que não difere muito do resto do álbum), o que motivou Hayley a escrever sobre o regresso do baterista à banda. A letra celebra, assim, o renascimento da amizade, deixando de lado o passado, os motivos da antiga zanga e a longa ausência. Os vocais de Zac na terceira parte da música foram bem sacados.

 

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Vou falar, agora, das músicas de que gosto menos em After Laughter. Caught in the Middle, para começar, deixa-me algo dividida. Não sou grande fã da parte musical – não sendo má, não é nada por aí além. O refrão, por sua vez, soa-me estranho, um bocadinho forçado.

 

Por outro lado, a letra de Caught in the Middle é aquela com a qual mais me identifico em todo o After Laughter. Há coisa de uns dois, três anos, estive numa situação semelhante à descrita nesta letra: incapaz de pensar no passado, nos sonhos que tinha, nas promessas que fizera a mim mesma, e que não tinham dado em nada; cheia de medo de pensar no futuro a médio/longo prazo. Ainda hoje, em dias maus, chego a regressar temporariamente a esse modo.

 

Felizmente, não era algo que interferisse assim tanto com a minha vida, que me impedisse de funcionar normalmente. O caso da Hayley terá sido bem mais grave – ao ponto de,como ela descreveu em entrevista, ter desistido temporariamente da banda, ter passado dias e dias a ver séries, sem sair da cama, ter tido mesmo um diagnóstico de depressão e ansiedade. Costuma-se dizer, de resto, que a depressão ocorre quando somos atormentados pelo passado e a ansiedade ocorre quando somos atormentados pelo futuro – mas isto, claro, é simplificar demasiado a questão.

 

Não posso deixar de falar daqueles que serão, de longe, os melhores versos neste álbum: “I don't need no help, I can sabotage me by myself”, cantados no melhor tom sarcástico de Hayley. Tenho vindo a perceber, nos últimos tempos, que também tenho uma tendência para me boicotar a mim mesma. Ando a tratar disso…

 

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Mas este álbum é a consulta no psicólogo da Hayley, não minha.

 

Tenho tido um relacionamento complicado com Idle Worship. Nesta música, encontramos uma Hayley cínica, amarga, mesmo enraivecida. Sob um instrumental mais sombrio que no resto do álbum, Hayley tece críticas à veneração que muitos fãs nutrem por ela.

 

Confesso que fiquei, um pouco, com as orelhas a arder. Já passei há muito a fase de ter ídolos absolutos. Dito isto, muitos de vocês já terão reparado que passo a vida a falar de Hayley como uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música, a minha guia espiritual. Sobretudo graças ao marcante álbum Self-Titled.

 

Mas não posso dizer que Hayley esteja errada – que não seja um fardo ter tanta gente idolatrando-nos. Não me custa, aliás, imaginar uma Hayley deprimida sentindo-se a anos-luz da carismática vocalista dos Paramore, que dominava os palcos com a sua voz, a sua energia e o seu cabelo cor de chama.

 

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Este pode, até, ser outro dos motivos pelos quais ela desistiu dos Paramore por algum tempo – por não se sentir capaz de voltar a ser a Hayley que todos conhecemos e adoramos.

 

Por outro lado, Idle Worship serve para nos recordar que, só porque Hayley é uma cantora excelente e bem sucedida, isso não significa que não tenha problemas, falhas, como toda a gente. O seu iminente divórcio é um bom exemplo disso. Não é de todo razoável exigir que ela seja sempre um exemplo a seguir, que faça tudo bem, que não cometa erros.

 

Até porque Hayley sabe perfeitamente que, nos piores momentos da banda, toda a gente se volta contra ela. Já aconteceu antes. Várias vezes.

 

Devo dizer, no entanto, que Hayley não é uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música por achar que ela é (ou deveria ser) sempre perfeita, carismática, glamourosa – essa criatura, se existisse, não teria nada a ver comigo. Ela é uma das minhas preferidas porque é humana, com falhas e dificuldades tal como todos nós – e porque transfere a sua humanidade para a sua música.

 

  

No Friend é uma música que demorei algum tempo a compreender. Quando a ouvi pela primeira vez, cheguei a pensar que era um glitch ou algo do género – com o seu riff de guitarra repetitivo e os vocais masculinos que mal se conseguem ouvir. Consta, então, que foi co-composta e interpretada por Aaron Weiss, dos MeWithoutYou (que Hayley refere como a sua banda preferida). Os Os registos originais no site da ASCAP indicam que esta foi composta como um outro para Idle Worship – e de facto notam-se algumas semelhanças no instrumental. A letra torna, além disso, a pegar no tema da veneração tóxica.

 

Muitos fãs têm estranhado a música, eu incluída. No entanto, está a acontecer comigo o mesmo o que aconteceu com Future, no Self-Titled: de início, também não gostava, mas acabei por compreender o seu propósito.

 

A minha teoria é que os membros oficiais dos Paramore, Hayley sobretudo, a certa altura, precisaram de exorcizar demónios no que diz respeito à história turbulenta da banda. Precisaram de alguém de fora que dissesse coisas que eles, provavelmente, sentem, mas que não têm coragem de dizer eles mesmos. E a letra escrita por Aaron Weiss acaba por fazer referências a vários temas da discografia dos Paramore. No Friend não é, de todo, uma das minhas canções preferidas em After Laughter, mas compreendo a sua inclusão no álbum.

 

Até porque, ao deitar toda a raiva cá para fora, abre-se caminho a Tell Me How: o momento mais vulnerável em After Laughter.

 

  

Tell Me How é conduzida por notas de piano, ao qual se juntam notas de guitarra e uma bateria discreta, tudo muito suave. Na mesma linha, os vocais de Hayley são graves, quase sussurrados, magoados.

 

Fora de contexto, poder-se-ia pensar que a letra se refere a uma separação amorosa. No entanto, para uma pessoa minimamente informada sobre a situação da banda ao longo dos últimos anos, fica claro que a letra sobre Jeremy. Hayley chora (mais uma) amizade que perdeu, as infinitas mudanças na banda, o eterno ciclo de destruição e reconstrução dos Paramore. Uma das frases que se destaca em Tell Me How é a que reza “Of all the weapons you fight with, your silence is the most violent”.

 

Suponho que esta seja a parte da Hayley que desistiu da banda durante algum tempo.

 

A ideia com que fico é que, em Tell Me How, Hayley se encontra numa encruzilhada. Não só sem saber se deve continuar nos Paramore ou não, mas também sem saber se deve continuar a debater-se com o passado, a tentar descobrir onde é que errou, ou se deve seguir com a sua vida.

 

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Gosto de pensar que Hayley escolheu a segunda opção, que é a isso que se referem os versos finais. Tell Me How (e o próprio álbum After Laughter) termina com Hayley dizendo “I can still believe” – uma nota de esperança encerrando um álbum bastante deprimente, na sua maioria.

 

After Laughter não é tão bom (ou melhor, não é tão arrebatador) como o Self-Titled, mas também não estava à espera que fosse. É, no entanto, tão intricado e introspetivo como são os álbuns anteriores. E as referências a problemas de saúde mental – ainda muito pouco falados e cheios de preconceitos – tornam-no ainda mais relevante.

 

Aquilo que mais impacto me tem causado, no que toca a After Laughter, é a mudança na mensagem relativamente ao Self-Titled. Tal como escrevi na altura, este último é um álbum de sobreviventes, de vencedores, um álbum otimista, confiante no futuro. Admito mesmo que esse espírito me contagiou, a certa altura na minha vida. Fez-me sentir igualmente confiante, otimista, convencida de que já sabia como a vida funcionava, qual era o meu lugar no mundo.

 

É óbvio, agora, que a realidade havia de nos atingir, mais cedo ou mais tarde. No caso da banda, isso veio na forma da desistência de Jeremy e talvez mesmo na separação de Hayley.

 

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Esse, de resto, é o tema de After Laughter: o momento em que a batata quente nos explode nas mãos sem que estivéssemos à espera. O momento após uma gargalhada em que regressamos ao mundo real.

 

O facto de a banda, ao que parece, ter deixado para trás os elementos emo/pop punk tem causado controvérsia entre os fãs e não só. Era de esperar. Pessoalmente, admito que terei algumas saudades das guitarras pesadas em Paramore. À parte isso, a mudança de estilo não me incomoda, porque as músicas são boas. Estão muito bem feitas, com vários elementos que não se notam à primeira audição, com boas letras. O rótulo que os demais queiram colocar neste estilo musical é irrelevante.

 

O regresso dos Paramore às luzes da ribalta, de resto, tem-me feito redescobrir – mais uma vez – a discografia deles. Em particular o primeiro, All We Know Is Falling. Estou a descobrir que a tensão, os conflitos, a instabilidade fazem parte do DNA dos Paramore. O seu primeiro álbum foi maioritariamente inspirado pela desistência de um membro, Jeremy (a primeira, apenas temporária). Músicas desse álbum, como a homónima All We Know, Pressure, Here We Go Again, Conspiracy continuam a aplicar-se bem à banda, sobretudo nos momentos mais turbulentos.

 

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Os Paramore bem podem dizer que, agora, estão mais fortes do que nunca e tal, mas eu já ouvi essa antes – e só os acompanho a sério desde finais de 2010! Fãs mais antigos já devem ter ouvido esta mais vezes. Estou cada vez mais convencida de que a banda nunca terá estabilidade. Poderá chegar o dia em que termine de vez – ou, pelo menos, em que entre num hiato prolongado.

 

Depois de ter escrito sobre Riot! há dois anos, planeava escrever sobre Brand New Eyes pouco tempo depois. Confesso que tencionava tecer duras críticas aos membros da banda, por terem dito que a criação daquele álbum tinha resolvido os conflitos dentro do grupo. O que claramente não era verdade – conforme provado pela saída de Josh e Zac.

 

No entanto, depois de Jeremy ter saído da banda, fiquei sem coragem para escrever sobre isso – porque teria de admitir que o Self-Titled, um dos álbuns da minha vida, era igualmente “mentiroso”.

 

Só agora, mais de um ano e meio após a partida de Jeremy, em que começo a aceitar a eterna instabilidade da banda, é que me sinto em condições de escrever sobre Brand New Eyes. Não será a curto prazo – talvez daqui a uns meses.

 

Já agora, um aparte sobre os meus planos imediatos para o blogue. Tenho ainda dois álbuns lançados recentemente sobre os quais quero escrever. Um deles é One More Light, dos Linkin Park (Alerta Spoiler: gostei mais do que estava à espera mas, mesmo assim, não por aí além). O outro é Melodrama, de Lorde (Alerta Spoiler: A miúda não desiludiu, de todo). Espero não me demorar muito tempo com estes textos.

 

Quanto aos Paramore, ainda que esteja algo cética relativamente ao futuro da banda, espero, no entanto, que os próximos tempos sejam mais felizes para a Hayley, o Zac e o Taylor.

 

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Paramore - After Laughter (2017) #1

 

No passado dia 12 de maio, os Paramore lançaram o seu quinto álbum de estúdio, intitulado After Laughter. Eu comecei a trabalhar na análise a esse disco no dia em que saiu, acreditem. Só que, entretanto, a Seleção Portuguesa entrou em ação e assim se manteve durante mais de um mês. Ou seja, quase todo o tempo de escrita que tive foi consumido pelo meu outro blogue.

 

Daí que esta análise só esteja a ser publicada agora.

 

A vantagem deste atraso é ter apanhado umas quantas entrevistas sobre o álbum, em particular a da revista Fader – que revela imenso sobre After Laughter e mesmo sobre a história de Hayley e dos Paramore como banda. Apanhei essas entrevistas… e a separação de Hayley e do seu marido.

 

Lá se vai uma das minhas canções de amor preferidas.

 

Como tenho muito a dizer sobre After Laughter, resolvi dividir esta análise em duas partes. O resto será publicado amanhã. Falemos, então, sobre o quinto álbum de estúdio dos Paramore.

 

 

Aquilo que salta à vista (ou melhor, à audição) ao ouvir After Laughter é a sonoridade – os elementos de pop punk são praticamente inexistentes. Temos guitarras elétricas, sim, mas usadas de maneira diferente – em vez de acordes pesados, temos notas mais soltas, misturadas com xilofones, teclados e sintetizadores. O resultado é um som tropical, com elementos de new wave e de pop dos anos 80. Uma pessoa pode ser levada a pensar que After Laughter é um disco leve, de verão.

 

Desde que não se ligue às letras.

 

Uma das características deste álbum é a sua consistência: o facto de as músicas serem parecidas umas com as outras, embora não ao ponto de se confundirem. O reverso da medalha é que, a partir de certa altura, as coisas tornam-se demasiado formulaicas. Falo, sobretudo, das terceiras estâncias – se forem a ver, numa boa parte das músicas, as terceiras estâncias consistem, apenas, em um ou dois versos repetidos inúmeras vezes (nalguns casos com variações mínimas). Ao fim de algum tempo, cansa.

 

Outro aspeto menos bom em After Laughter é o facto de os vocais de Hayley não impressionarem por aí além – pelo menos em comparação com álbuns anteriores. Existem, aliás, muitas ocasiões em que os vocais se reduzem a quase sussurros.

 

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Também é verdade que vocais muito agudos e/ou prolongados, estilo Now, Decode ou Misery Business, não se encaixariam muito bem neste tipo de música. Além disso, há que recordar que Hayley estava a debater-se com depressão aquando das gravações de After Laughter – é bem possível que ela não tivesse vontade de elevar a voz. Por outro lado, visto que muitas destas músicas foram precisamente inspiradas pela depressão de Hayley, os vocais baixos adequam-se, sobretudo nos momentos de maior vulnerabilidade.

 

O que nos leva às letras das canções. Todos os álbuns dos Paramore, à exceção de Riot!, têm-se inspirado numa qualquer crise atravessada pela banda – porque, conforme comentámos extensivamente antes, a banda está sempre a atravessar uma crise ou tentando recuperar-se após uma crise. After Laughter não é exceção – até porque é o primeiro álbum que a banda edita após a saída do baixista Jeremy Davies. A inspiração, no entanto, não é assim tão direta na maior parte das músicas – só no sentido em que a crise nos Paramore poderá ter despoletado a depressão e ansiedade de Hayley.

 

O álbum After Laughter tem, aliás, sido elogiado precisamente por se focar em diferentes aspetos da vida de alguém que lida com um qualquer problema de saúde mental (eu ainda tenho algumas dificuldades em dizer, pura e simplesmente, doença mental por causa de todo o estigma associado), seja uma depressão, uma crise de ansiedade. Ou então, que esteja apenas a passar por… bem, tempos difíceis.

 

Por exemplo, Told You So fala sobre profetas da desgraça, que em vez de ajudarem, ainda mais enterram a pessoa. Rose-Colored Boy, ao invés, fala sobre pessoas que não sabem de todo o que acontece numa depressão, que acham que tudo se resolve com sorrisos e “pensamento positivo”. Forgiveness fala, precisamente, sobre as dificuldades em “perdoar e esquecer”. Caught in the Middle fala sobre desorientação. 26 fala sobre cinismo e sonhos desfeitos. Tell Me How revela vulnerabilidades.

 

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Isto pode ser um bocadinho esticado, mas, na minha opinião, em After Laughter existe uma canção para cada fase do luto. Hard Times representa a negação ou, pelo menos, o choque. No Friend e, talvez, Iddle Worship representam a raiva. 26 simboliza a negociação. Por sua vez, Tell Me How representa a parte da depressão e existem ainda algumas pistas, perto do fim da faixa, que apontam para uma eventual aceitação. Hayley referiu, em entrevista, que ainda não tinha ultrapassado por completo certas coisas de que fala em After Laughter – nesse aspeto, não é de surpreender que não haja uma única música para aceitação.

 

Falemos, agora, sobre as músicas em si. Hard Times (sobre a qual já falámos antes) é a primeira na tracklist e foi o primeiro single. Quando escrevi sobre ela, critiquei a letra por trazer pouco de novo no que toca aos Paramore. No entanto, agora que conhecemos o resto do álbum, faz sentido que esta seja/tenha sido a primeira canção que ouvimos em After Laughter: uma vez que apresenta o tema e estrutura da maior parte das faixas do álbum e faz uma ligação com os trabalhos anteriores.

 

Confesso, por outro lado, que nesta fase ando um bocadinho farta de Hard Times – a maior parte das outras canções em After Laughter são melhores, tanto em termos de letra como da musicalidade.

 

Uma das minhas preferidas neste álbum é Rose-Colored Boy. Calculo que seja uma das mais pop neste álbum e onde mais se notam as influências dos anos 80 – eu, pelo menos, vejo algumas semelhanças com a clássica Girls Just Want to Have Fun. As primeiras notas dão logo a ideia de uma festa numa praia tropical – sensação reforçada pelos vocais, estilo meninas de claque “Low key! No pressure! Just hang with me and my weather!”.

 

 

É claro que a última coisa em que a letra nos faz pensar é em festas. Rose-Colored Boy fala sobre aquelas pessoas irritantes, que insistem em ver o lado positivo em tudo. Ou que acham que as pessoas só caem em depressões porque têm pena de si próprias e que, se fizessem um esforço, curavam-se (acreditem, há muitos a pensar assim). Alguns fãs especulam sobre a identidade do tal Rose-Colored Boy: há quem diga que é o Taylor (pouco provável, na minha opinião), há quem diga que é Chad Gilbert, o, em breve, ex-marido de Hayley. Eu, no entanto, acredito que Hayley se terá cruzado com inúmeros Rose-Colored Boys e Girls aquando da sua depressão.

 

Pessoalmente, nunca fui uma pessoa pessimista ou cínica, nem faço questão de o ser. Prefiro sentir-me alegre em vez de me sentir triste e encarar a vida com esperança e otimismo. Mas a verdade é que o otimismo e o “pensamento positivo” só ajudam até certo ponto – quando estes implicam a repressão de sentimentos negativos, como a raiva ou a tristeza, são mesmo prejudiciais. E, conforme aprendemos com o filme Inside Out/Divertida-mente (vi-o pela primeira vez há bem pouco tempo e ando obececada com ele), a tristeza é saudável. A pressão para reprimir a infelicidade, para estar sempre feliz, otimista, sorrindo com os dentes todos, é precisamente aquilo que leva uma pessoa à depressão.

 

O que nos leva a Fake Happy (que, ao que parece, será o próximo single de After Laughter).

 

  

Esta música possui uma introduçãozinha acústica, com vocais graves, resumindo a mensagem da canção. Depois, soam os teclados. Os vocais de Hayley soam saltitantes, irresistíveis – sobretudo no pré-refrão. O refrão em si é tão cativante como os das melhores músicas dos Paramore.

 

Fake Happy fala, assim, sobre a dificuldade em manter as aparências quando nos sentimos infelizes – e, ao mesmo tempo, sobre a futilidade dessas aparências quando, na verdade, todos fingem ser mais felizes do que realmente são. Uma mensagem relevante nos dias que correm, em que as pessoas procuram vender a sua vida como perfeita nas redes sociais. Consta, até, que os americanos são particularmente obcecados pela ideia de felicidade e pensamento positivo.

 

Eu acho curioso porque Portugal tem uma cultura oposta. Conforme referido neste artigo da BBC, no nosso país, há uma cultura de tristeza – com o fado e os poemas de Camões, que achava que a sua vida era a “mais desgraçada que jamais se viu”. Os portugueses gostam de ser infelizes. Não é costume as pessoas fingirem ser felizes por cá, pelo menos não no contacto pessoa a pessoa (as redes sociais são uma história diferente).

 

Aliás, só ao longo do último ano, com a vitória da Seleção no Euro 2016, a vitória de Salvador Sobral no Festival da Canção, a popularidade de Portugal lá por fora, entre outras coisas, é que nos temos atrevido a ser um pouco mais felizes.

 

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Nunca fui fã desta cultura de tristeza. No entanto, reconheço que pode ser saudável, sobretudo num contexto de uma depressão ou de outra doença psiquiátrica semelhante.

 

Agora que penso nisso, se os Paramore fossem portugueses, não teriam criado um álbum falsamente alegre, como After Laughter. Teriam cantado fado (a versão portuguesa da cultura emo).

 

Mas estou a desviar-me.

 

Só para concluir, referir que, na minha opinião, Fake Happy funcionaria bem como título alternativo a este álbum: com as suas músicas com instrumentais e melodias alegres, mas com letras deprimentes. Tenho visto muitas pessoas deixando-se enganar.

 

  

Told You So – a segunda canção de After Laughter que conhecemos – acaba por funcionar como a antítese de Rose-Colored Boy. Desta feita, lidamos com os Velhos do Restelo, aquelas pessoas que parecem sentir um gozo especial quando as suas previsões pessimistas se concretizam, ou ao verem uma pessoa que invejam passando por um mau bocado. Esta sim é uma realidade bem portuguesa. Em Told You So, Hayley procura agarrar-se a uns resíduos de esperança e otimismo – algo que se torna quase impossível, com pessoas como as que acabo de descrever.

 

Gosto imenso da sonoridade de Told You So. Os riffs de guitarra e o xilofone do Taylor são excelentes, sobretudo no refrão, casando bem com os vocais, mais uma vez, ritmados e saltitantes de Hayley. Devo dizer, no entanto, que, à semelhança do que aconteceu com Hard Times, a letra de Told You So está uns furos abaixo do nível habitual dos Paramore. É demasiado curta e simplista, sobretudo a repetitiva terceira estância.

 

Por outro lado, não é fácil cantar “Throw me into the fire, throw me in, pull me out again" muitas vezes de seguida, como Hayley faz. Eu, pelo menos, troco-me toda.

 

Visto que Hard Times e Told You So saíram antes do resto do álbum, cheguei a temer que todas as letras em After Laughter fossem assim – mais fraquinhas que o habitual. Não foi o que aconteceu, felizmente, tal como já vimos e ainda vamos ver a seguir.

 

  

Queria falar, ainda, sobre o videoclipe de Told You So – que foi realizado pelo baterista da banda, Zac. Nele, começamos por ver Hayley vestida de preto, numa casa escura – uma metáfora para a depressão, quase de certeza. Os rapazes – Zac e Taylor – acabam por vir buscá-la, num carro antigo. As sombras não desaparecem completamente, mas pelo menos agora Hayley não está sozinha.

 

A banda revelou em entrevista, pouco após o lançamento do vídeo, que, aquando das gravações de After Laughter, os três costumavam viajar juntos no carro de Zac. Nessas alturas, a ansiedade de Hayley dava tréguas. Zac percebia mesmo que ela se sentia mais calma, mais aliviada, durante essas viagens. O carro dele era um porto seguro.

 

Acho amoroso que Zac tenha querido homenagear isso no videoclipe. Os Paramore podem ser uma banda de estabilidade precária, mas são coisas como estas que me ajudam a ter esperança no futuro deles.

 

É com esta nota positiva que nos despedimos por hoje. Regressamos amanhã com a segunda parte da análise a After Laughter.

 

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Coldplay - A Head Full Of Dreams (2015)

Algo que me acontece com frequência é queixar-me da demora que os artistas de quem gosto levam a lançar álbuns. O que aconteceu com os álbuns Goodbye Lullaby e o homónimo de Avril Lavigne foi ridículo. Estava à espera que Get Up, de Bryan Adams, tivesse saído uns meses antes. Estou há pelo menos um ano à espera do álbum novo dos Sum 41. Os Simple Plan, por sua vez, finalmente anunciaram o nome e data de lançamento do quinto disco de estúdio, depois de lançarem uma data de singles: Taking One For the Team, previsto para 19 de fevereiro.

 

No entanto, a verdade é que também não gosto muito quando os artistas lançam álbuns com pouco tempo de intervalo. Regra geral, levo mais ou menos um ano a digerir um disco na sua totalidade. Às vezes preciso de mais tempo. Escrevi sobre Ghost Stories, por exemplo, há pouco menos de um ano e ainda não me desliguei completamente - Ink continua a ser uma das minhas músicas preferidas neste momento e ainda não me cansei de temas como Magic e Midnight. Ainda não precisava de outro álbum dos Coldplay.

 

Por outro lado, conforme me tenho queixado amiúde aqui no blogue, 2015 foi um ano fraquinho em termos de música nova dos artistas de que gosto - razão pela qual nem me dei ao trabalho de escrever uma entrada de Música de 2015, ao contrário de anos anteriores. Ao menos sempre tenho algo mais sobre que escrever aqui no blogue.

 

 

Depois do introspetivo Ghost Stories, A Head Full Of Dreams adota um tom completamente diferente: alegre, otimista, refletindo, suponho eu, o novo capítulo na vida de Chris Martin, o vocalista. Mesmo as canções mais calmas e intimistas focam-se no lado mais positivo do tema que abordam. Existem imensas músicas em A Head Full Of Dreams que falam de otimismo, felicidade, esperança e tal, embora o façam através de letras pouco notáveis: ou demasiado vagas, ou resvalando para clichés ou armando-se em intelectuais. No entanto, em quase todas as músicas neste disco, a sonoridade - tanto em termos de melodia como de instrumentação - apesar de por vezes demasiado produzida, compensa facilmente as fraquezas das letras.

 

Devo dizer que o início do álbum é a parte de que menos gosto. As faixas A Head Full Of Dreams e Birds são, a meu ver, aborrecidas. Não me dizem nada. Apenas me dão vontade de passar à frente, sobretudo a segunda. Hymn For the Weekend tem subido na minha consideração, mas não ao ponto de se encontrar entre as minhas preferidas. Tem uma sonoridade interessante, não o nego: o piano, as palmas, um som que se assemelha a talheres batendo em copos - algo que condiz com a letra, na qual o narrador diz-se embriagado pela vida e pelo amor em geral. A voz de Beyoncé enriquece a música.

 

Com o primeiro single, Adventure of a Lifetime, passa-se um pouco o mesmo que em Hymn for the Weekend: de início, a música não me entusiasmava particularmente. Com várias audições fui gostando mais, mas continua a não estar entre as minhas preferidas. A letra fala de um romance numa fase inicial, mas que se pode vir a tornar em algo fantástico. Muitos apontam as semelhanças com Get Lucky. É definitivamente é muito mais dançante que aquilo que esperaríamos dos Coldplay, mesmo depois de A Sky Full Of Stars.

 

 

 

Não considero X Marks the Spot como verdadeiramente parte de A Head Full Of Dreams, por vários motivos. Para começar, é uma hidden track.

 

Um rápido aparte só para dizer que, na minha opinião, as hidden tracks estão obsoletas, numa altura maioritariamente digital. Eu ainda vou comprando CDs (cada vez menos...), mas extraio sempre as músicas para o meu computador e, depois, para o meu telemóvel. Aqui, gosto de rearranjá-las em playlists temáticas, para a minha escrita, ou pura e simplesmente coloco em shuffle. Nestas circunstâncias, não dá jeito nenhum ter duas músicas na mesma faixa - muito menos quando gosto imenso da primeira e não muito da segunda.

 

Fechando o aparte, conforme dizia eu, para além de ser uma hidden track, X Marks the Spot tem uma sonoridade do resto do álbum: mais eletrónica, mais à R&B. A ideia com que fico é que isto foi apenas uma pequena experiência da banda, devendo ser tomada apenas como uma curiosidade, um gracinha, quase uma b-side. Não parte integrante de A Head Full Of Dreams.

 

Por sua vez, os interlúdios Colour Spectrum e Kaleidoscope nada acrescentam ao álbum, do meu ponto de vista, embora compreenda a sua inclusão.

 

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Army Of One é uma canção de amor com uma letra vulgar, explorando os clichés "as maravilhas do Mundo não são nada comparadas contigo" e "vou lutar pelo teu amor". No entanto, tem uma melodia extremamente cativante e um órgão que dá à música uma nota de euforia, tornando-a irresistível.

 

Amazing Day é uma balada muito suave, baseada em piano, notas de guitarra e em violinos, que se integraria bem na minha entrada sobre Innocence e músicas similares. A letra pinta a imagem de um momento de romance, de intimidade, debaixo das estrelas.

 

Por sua vez, Up&Up pega no tema dominante do álbum - otimismo e esperança. Começa com uma sequência de piano e batidas leves. No refrão juntam-se várias vozes a cantar (supostamente todos os convidados a colaborar neste álbum) - é difícil não apreciar. Também gostei do solo de guitarra, cortesia do guitarrista dos Oasis, Noel Gallagher.

 

Everglow e Fun são, do meu ponto de vista, as melhores músicas em A Head Full Of Dreams. Curiosamente, ambas vêm em linha com os temas de Ghost Stories, funcionando mais ou menos como sequelas - por outras palavras, tudo indica que se referem à relação de Chris Martin com Gwyneth Paltrow. Fun é uma daquelas canções cuja letra se esforça demasiado por soar intelectual, com várias metáforas e uma referência ao mito de Ícaro que não parecem fazer muito sentido no contexto da música. No entanto, sempre pinta a imagem de um pôr-de-sol numa praia tropical, que eu imagino sempre que a oiço. Fun está muito bem conseguida tanto em termos de melodia como de arranjo musical. A voz de Tove Lo soa muito bonita ao lado da de Chris Martin. Pena é terem-na reduzido a pouco mais que um backvocal. Ela merecia ter cantado pelo menos a segunda estância. Em Fun, o narrador terminou um relacionamento, mas procura focar-se nos aspetos positivos desse relacionamento, dando mesmo a entender que, se calhar, nem todas as pontas ficaram atadas entre ele e a antiga amada.

 

 

Finalmente, Everglow é uma balada conduzida pelo piano, com uma produção mais simples que quase todo o resto do álbum. A sonoridade é reconfortante, aquece o coração, o que combina com a letra. A ideia principal desta é que as pessoas que amamos nunca nos deixam verdadeiramente, deixam qualquer coisa em nós, algo a que a música chama uma... luz eterna (é a melhor tradução que encontro para o título da faixa, que de resto é um neologismo). Algo que permanece, mesmo num mundo em que tudo é efémero. Algo que, por vezes, é suficiente para conseguirmos sobreviver. É sem dúvida a mensagem mais bonita de todo o álbum. Mais bonita... e menos batida. 

 

Resumindo e concluindo, o ponto forte de A Head Full of Dreams é a sonoridade das músicas e a mensagem geral de esperança e otimismo. O seu ponto fraco é essa mensagem resvalar frequentemente para lugares-comuns, parecendo por vezes vaga e impessoal. Nesse aspeto, um álbum melhor conseguido é o Self-Titled dos Paramore - mas também este álbum está muito melhor conseguido em todos os aspetos que a larga maioria dos álbuns (por favor, não me perguntem pela saída do Jeremy ou eu começo a chorar...). No fim, acho que gosto mais de Ghost Stories, sobretudo por causa dos temas mais pessoais e pelo conceito geral. 

 

Tal como escrevi no ano passado, não me considero grande fã dos Coldplay. Não estou investida neles tanto como noutros artistas sobre quem escrevo neste blogue. Por outro lado, pelo que li em artigos e criticas publicados aquando do lançamento de A Head Full Of Dreams, é considerado "cool" odiar os Coldplay (eu podia jurar que essa honra pertencia aos Nickelback...). Ainda que compreenda e concorde, parcialmente, com algumas das críticas (não se desviam do mainstream e do radiofónico, preocupam-se demasiado em agradar ao público, não arriscam, não são grande coisa em termos de letras), na minha opinião, uma boa parte deste ódio é mesquinhez.

 

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Não que eu não tenha os meus odiozinhos de estimação, movidos a mesquinhez. Ainda sou do tempo em que era Britney Spears versus Avril Lavigne - ainda hoje não tenho grande consideração por Britney, quer como cantora quer como pessoa, embora até ache piada a algumas músicas dela. Embirro com os Maroon 5 desde This Love, embora seja difícil manter essa embirração depois de momentos como este. Aquando dos EMA de 2010, fartei-me de dizer mal de Lady Gaga, de tal forma que, poucos dias depois, a minha irmã sonhou que eu ia a tribunal por ter dado um tiro na cantora... De qualquer forma, procuro não perder tempo com coisas de que não gosto - a vida é demasiado curta para isso. Acredito cada vez menos em guilty pleasures - se gosto de alguma coisa é porque os seus criadores fizeram algo como deve ser.

 

É certo que a música dos Coldplay não se destaca pelo arrojo, mas isso não significa que não haja espaço para a banda. Há alturas em que queremos ouvir coisas novas, ver os limites da música esticados. Há alturas em que queremos apenas algo familiar feito como deve ser. Parece ser isso que os Coldplay gostam de fazer. Quanto a mim, desde que eu goste da música que eles, ou quaisquer outros artistas, criarem, independentemente da opinião popular, eu alinho. 

Bryan Adams - Get Up (2015) #2

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Segunda parte da análise a Get Up. Podem ler a primeira parte aqui.

 

That's Rock And Roll

 

 

"Do you wanna start a revolution?

Or do you want to just have some fun?"

 

That's Rock And Roll é uma música agradável, descontraída, cuja letra presta homenagem, como diz ao título ao bom velho rock and roll, com destaque para os anos 60 e 70 - encaixando-se no tema do álbum. Imagino um cenário de uma banda num copo d'água de um casamento e, quando o jantar termina, a banda começa a tocar That's Rock And Roll como forma de chamar as pessoas para a pista de dança.

 

Gosto em particular dos "whoa, whoa, whoa" que se seguem aos refrões e, claro, do solo de guitarra. Não sei se é Keith Scott a fazer o solo, mas sinto-me satisfeita por, ao contrário do que cheguei a recear, os solos de guitarra não terem sido completamente postos de lado neste álbum.

 

We Did It All

 

 

"Life goes by and I remember why we stayed so strong"

 

Todos os álbuns de Bryan Adams têm pelo menos uma balada romântica. Em Get Up, tal corresponde a We Did It All. Esta é conduzida pela guitarra acústica, com notas de guitarra elétrica como segunda voz no refrão. Tal como outras músicas em Get Up, tem um toque retro, à anos 50 ou 60. Tem uma sonoridade suave, romântica, perfeita para dançar um slow ao fim da noite, nos braços de um amado. A letra faz-me lembrar Heaven - e, já agora, Still Into You e Boom - ao falar de um amor que resistiu ao teste do tempo. Enfim, é um registo a que Bryan já está habituado e em que raramente desilude. 

 

Go Down Rockin'

 

 

"If you got a problem better tell me into my face"

 

Por sua vez, Go Down Rockin' faz-me lembrar as músicas mais roqueiras de Bryan, sobretudo dos álbuns que ele lançou nos anos 90. Guiado por uma forte guitarra elétrica, este tema vai na linha de Kids Wanna Rock no sentido em que Bryan (mais do que em qualquer outra, nesta faixa nota-se que é Bryan a falar) teima em agarrar-se ao rock, contra todas as tendências, nem que isso o conduza ao fracasso. Em certas alturas, ele cai um pouco nos clichés, assemelhando-se a um adolescente rebelde ou, pelo menos, a um jovem na casa dos vinte. O que é um bocadinho estranho estando ele perto dos cinquenta e seis... Enfim, ele tem sempre a desculpa dos 18 'Til I Die.

 

Brand New Day

 

 

"You could come down I’ll meet your train
She just laughed and said, some people never change"

 

Acho que Brand New Day é a melhor música de Get Up. É a mais alegre, a mais contagiante, a letra é das melhores. É daquelas canções que animam facilmente uma pessoa de mau humor. Adoro cantá-la enquanto conduzo - raramente consigo evitar erguer um punho triunfante quando chego ao verso "It's a brand new day!"

 

Estão analisadas as músicas (sim, são pouquinhas...). Alegações finais na próxima entrada.

 

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Bryan Adams - Get Up (2015) #1

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Depois de cerca de ano e meio - ou mesmo mais, se me recordo bem de uma ou outra entrevista - lançando pistas sobre um possível álbum de inéditos, Bryan Adams edita hoje o disco "Get Up", que sucede a 11, lançado há sete anos e meio. Este é um álbum é constituído por nove temas inéditos e quatro versões acústicas.

 

Tal como é o meu hábito quando artistas de que gosto lançam álbuns de inéditos, vou analisar individualmente cada tema. E, pela primeira vez em muito tempo, vou fazê-lo por ordem de preferência. Volto a recordar que esta ordem não está gravada em pedra. Em muitos casos, as faixas estão quase empatadas. É possível, até, que a ordem se altere radicalmente com o tempo. Como o costume, esta análise será dividida por várias entradas (em princípio duas, no máximo três).

 

Sem mais delongas, comecemos com a música de que gosto menos...

 

Do What Ya Gotta Do

 

 

"People believe what they want to believe"

 

Segundo o que li na Internet, Do What Ya Gotta Do foi composta para o filme Golpada Americana, mas acabou por não ser usada. Não vi o filme, logo, não sei dizer se a letra tem alguma ligação com ele mas, para ser honesta, duvido. A letra é uma coleção de clichés que nem sequer servem para publicações pseudo-inspiradoras no Facebook. Também não gosto da produção - uns ecos desnecessários e uma espécie de zumbidos metálicos. Se isso é uma marca da produção de Jeff Lynne, definitivamente não sou fã.

 

Thunderbolt

 

  

"A shot right out of the blue"

 

Esta também é outra música que, pelo menos de início, não me cativou particularmente. A letra não me diz muito - embora, segundo Bryan, Thunderbolt tenha sido título provisório deste álbum. O único aspeto de que gosto em Thunderbolt é da terceira estância, com uns vocais mais agudos e interessantes e uma nota martelada de piano ou teclado, bem como o solo de guitarra que se segue. À parte isso, Thunderbolt é uma faixa pouco marcante.

 

You Belong to Me

 

 

 

"While you're out there

Remember I'm right here"

 

You Belong to Me foi o primeiro avanço de Get Up. Segundo Bryan, foi a primeira canção deste álbum a ser composta, sendo depois produzida por Jeff Lynne. Bryan chegou a considerar incluí-la no álbum em que estava a trabalhar na altura (qual seria? Tracks of My Years? O concerto Bare Bones na Ópera de Sydney, cujo DVD lançou há dois anos?), mas tendo esta faixa uma sonoridade tão própria, ele decidiu criar mais músicas dentro deste estilo - e assim terá nascido a ideia para Get Up. Já falei sobre You Belong to Me aqui e não tenho muito mais a acrescentar. Este álbum tem temas bem mais interessantes.

 

Yesterday Was Just a Dream

 

 

"No more lies, I'm tired of hurting"

 

Esta faixa tem uma sonoridade familiar na discografia de Bryan - poderia encaixar-se, talvez, nos álbuns On a Day Like Today ou Room Service. Esta faixa tem uma sonoridade misteriosa, pensativa de certa forma. Gosto das notas de guitarra a seguir ao refrão, dentro do velho estilo de Bryan. A letra é interessante, fala de procura de conforto, de vontade de esquecer. A mim, lembra-me um pouco a música Help Me Make It Through the Night, cujo cover foi incluído em Tracks of My Years. Apesar de não ter sido a música que mais me agradou aquando das primeiras audições, foi uma das primeiras cujo refrão comecei a cantarolar sem dar por isso.

 

De certa forma, Yesterday Was Just a Dream condiz com o outono, com o seu tom melancólico, misterioso, mas não demasiado pesado. É uma boa canção.

 

Don't Even Try

 

 

"It's too late for love, what can you say?"

 

A sonoridade de Don't Even Try recorda-me a canção (One of Those) Crazy Girls dos Paramore, o que é expectável visto a inspiração por detrás de ambos os temas terá sido a mesma: os Beatles. Para além de You Belong to Me, este foi outro dos temas compostos para uma série passada dos anos 50 ou 60, que não chegou a passar do papel. O CD inclui uma versão acústica que nos permite apreciar o belo trabalho com a guitarra acústica - reparem na parte em que Bryan toca cada uma das cordas individualmente.

 

A letra de Don't Even Try é dirigida a um sujeito que partiu o coração a uma antiga amada, logo, deve desistir de reconquistá-la. Quando ouvi a música pela primeira vez, por altura do segundo refrão pensei "Que estranho, o Bryan não costuma ser tão pessimista...". A letra só começou a fazer sentido quando chegou ao verso "It's alright tonight, now she's with me".

 

Em suma, o sujeito narrativo dirige-se ao ex da sua atual companheira, dizendo-lhe para se manter afastado dela e atirando-lhe à cara tudo o que o desgraçado fez de mal. Por um lado, é bonito o sujeito narrativo defender a amada, por outro lado é moralmente questionável ele atacar o seu ex dessa maneira. Eu, se fosse a mulher nesta situação, não gostava. Mas fica ao critério de cada um.

 

Na próxima entrada, analisamos as músicas que faltam. Realmente não são muitas...

 

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