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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Paramore - After Laughter (2017) #2

Segunda parte da análise a After Laughter. Primeira parte aqui.

 

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Existem algumas canções em After Laughter que fogem à norma do falsamente alegre. Uma delas é Forgiveness – que terá sido a primeira a ser composta para este álbum. Esta faixa é conduzida por notas suaves de guitarra, acompanhada por baixo e uma bateria discreta.

 

Consta que a letra de Forgiveness foi inspirada numa crise na relação de Hayley com o seu, em breve, ex-marido. O que não surpreende. A letra descreve um cenário em que alguém pede perdão, mas a narradora está ainda demasiado magoada para concedê-lo.

 

Uma pessoa poderia interpretar esta letra como um retrocesso. Em vários momentos ao longo do Self-Titled, Hayley parecia razoavelmente aberta ao perdão. Não tanto porque a(s) outra(s) pessoa(s) o merecessem, mais por uma questão de paz de espírito. É possível que seja assim para algumas situações, mas não para todas. Sobretudo se a ofensa em questão ainda está fresca na memória e/ou se a outra pessoa ainda não fez nada para merecer ser perdoada.

 

Por outro lado, podem existir casos em que “perdoar e esquecer” até seja benéfico para a pessoa ofendida. Dito isto, existem coisas que ninguém tem a obrigação de perdoar.

 

  

Desde Brand New Eyes, todos os trabalhos dos Paramore (incluindo o Singles Club) têm incluído uma balada acústica. After Laughter manteve essa tradição. Se dois desses números acústicos – Misguided Ghosts e Hate to See Your Heart Break – se juntassem e tivessem um filho, esse seria provavelmente 26. Para além da guitarra acústica, esta faixa possui ainda uma secção de violino lindíssima.

 

Em entrevista, Hayley revelou que escreveu a letra de 26 como uma carta para a versão mais jovem de si mesma. Eu diria, também, que esta letra representa um conflito entre o seu lado mais cínico e o seu lado mais sonhador. Os dois sempre se manifestaram na música dos Paramore (Careful e Brick By Boring Brick para o cinismo; Miracle e Daydreaming para o idealismo). Em 26, Hayley quer agarrar-se ao lado sonhador, idealista – embora sinta que a realidade a puxa para o cinismo.

 

Nem todas as canções em After Laughter são assim tão depressivas, felizmente. Uma delas é, por sinal, uma das minhas preferidas: Pool. Esta é a única canção de amor neste álbum. Em entrevista, Hayley referiu que não se sente muito à vontade no que toda a canções de amor, que provavelmente nunca criará uma música romântica propriamente dita, idílica, sem um senão, sem uma reserva. E agora, com a separação, duvido que tão depressa voltemos a ter canções de amor no reportório dos Paramore.

 

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Em linha com isso, Pool parece fazer referências à ansiedade de Hayley. A letra compara um relacionamento amoroso a um mar agitado ou a uma piscina sem fundo: mergulhar nele é algo arriscado, incerto, perigoso, mas irresistível. No fundo (no pun intended), a narradora está a aprender que, no amor, nem sempre poderá ter controlo total. Existirá sempre um grau de incerteza relativamente ao futuro.

 

Não que isso tenha resultado muito bem para a Hayley…

 

Pool tem, aliás, sido a minha canção de verão deste ano. Tanto graças à sua sonoridade new wave, à anos 90, que me dá uma certa nostalgia, bem como às várias referências aquáticas – algo de que sempre gostei, tal como referi num texto recente deste blogue.

 

A única canção verdadeiramente alegre em After Laughter é Grudges. Consta que Zac e Taylor colaboraram na composição do instrumental (que não difere muito do resto do álbum), o que motivou Hayley a escrever sobre o regresso do baterista à banda. A letra celebra, assim, o renascimento da amizade, deixando de lado o passado, os motivos da antiga zanga e a longa ausência. Os vocais de Zac na terceira parte da música foram bem sacados.

 

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Vou falar, agora, das músicas de que gosto menos em After Laughter. Caught in the Middle, para começar, deixa-me algo dividida. Não sou grande fã da parte musical – não sendo má, não é nada por aí além. O refrão, por sua vez, soa-me estranho, um bocadinho forçado.

 

Por outro lado, a letra de Caught in the Middle é aquela com a qual mais me identifico em todo o After Laughter. Há coisa de uns dois, três anos, estive numa situação semelhante à descrita nesta letra: incapaz de pensar no passado, nos sonhos que tinha, nas promessas que fizera a mim mesma, e que não tinham dado em nada; cheia de medo de pensar no futuro a médio/longo prazo. Ainda hoje, em dias maus, chego a regressar temporariamente a esse modo.

 

Felizmente, não era algo que interferisse assim tanto com a minha vida, que me impedisse de funcionar normalmente. O caso da Hayley terá sido bem mais grave – ao ponto de,como ela descreveu em entrevista, ter desistido temporariamente da banda, ter passado dias e dias a ver séries, sem sair da cama, ter tido mesmo um diagnóstico de depressão e ansiedade. Costuma-se dizer, de resto, que a depressão ocorre quando somos atormentados pelo passado e a ansiedade ocorre quando somos atormentados pelo futuro – mas isto, claro, é simplificar demasiado a questão.

 

Não posso deixar de falar daqueles que serão, de longe, os melhores versos neste álbum: “I don't need no help, I can sabotage me by myself”, cantados no melhor tom sarcástico de Hayley. Tenho vindo a perceber, nos últimos tempos, que também tenho uma tendência para me boicotar a mim mesma. Ando a tratar disso…

 

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Mas este álbum é a consulta no psicólogo da Hayley, não minha.

 

Tenho tido um relacionamento complicado com Idle Worship. Nesta música, encontramos uma Hayley cínica, amarga, mesmo enraivecida. Sob um instrumental mais sombrio que no resto do álbum, Hayley tece críticas à veneração que muitos fãs nutrem por ela.

 

Confesso que fiquei, um pouco, com as orelhas a arder. Já passei há muito a fase de ter ídolos absolutos. Dito isto, muitos de vocês já terão reparado que passo a vida a falar de Hayley como uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música, a minha guia espiritual. Sobretudo graças ao marcante álbum Self-Titled.

 

Mas não posso dizer que Hayley esteja errada – que não seja um fardo ter tanta gente idolatrando-nos. Não me custa, aliás, imaginar uma Hayley deprimida sentindo-se a anos-luz da carismática vocalista dos Paramore, que dominava os palcos com a sua voz, a sua energia e o seu cabelo cor de chama.

 

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Este pode, até, ser outro dos motivos pelos quais ela desistiu dos Paramore por algum tempo – por não se sentir capaz de voltar a ser a Hayley que todos conhecemos e adoramos.

 

Por outro lado, Idle Worship serve para nos recordar que, só porque Hayley é uma cantora excelente e bem sucedida, isso não significa que não tenha problemas, falhas, como toda a gente. O seu iminente divórcio é um bom exemplo disso. Não é de todo razoável exigir que ela seja sempre um exemplo a seguir, que faça tudo bem, que não cometa erros.

 

Até porque Hayley sabe perfeitamente que, nos piores momentos da banda, toda a gente se volta contra ela. Já aconteceu antes. Várias vezes.

 

Devo dizer, no entanto, que Hayley não é uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música por achar que ela é (ou deveria ser) sempre perfeita, carismática, glamourosa – essa criatura, se existisse, não teria nada a ver comigo. Ela é uma das minhas preferidas porque é humana, com falhas e dificuldades tal como todos nós – e porque transfere a sua humanidade para a sua música.

 

  

No Friend é uma música que demorei algum tempo a compreender. Quando a ouvi pela primeira vez, cheguei a pensar que era um glitch ou algo do género – com o seu riff de guitarra repetitivo e os vocais masculinos que mal se conseguem ouvir. Consta, então, que foi co-composta e interpretada por Aaron Weiss, dos MeWithoutYou (que Hayley refere como a sua banda preferida). Os Os registos originais no site da ASCAP indicam que esta foi composta como um outro para Idle Worship – e de facto notam-se algumas semelhanças no instrumental. A letra torna, além disso, a pegar no tema da veneração tóxica.

 

Muitos fãs têm estranhado a música, eu incluída. No entanto, está a acontecer comigo o mesmo o que aconteceu com Future, no Self-Titled: de início, também não gostava, mas acabei por compreender o seu propósito.

 

A minha teoria é que os membros oficiais dos Paramore, Hayley sobretudo, a certa altura, precisaram de exorcizar demónios no que diz respeito à história turbulenta da banda. Precisaram de alguém de fora que dissesse coisas que eles, provavelmente, sentem, mas que não têm coragem de dizer eles mesmos. E a letra escrita por Aaron Weiss acaba por fazer referências a vários temas da discografia dos Paramore. No Friend não é, de todo, uma das minhas canções preferidas em After Laughter, mas compreendo a sua inclusão no álbum.

 

Até porque, ao deitar toda a raiva cá para fora, abre-se caminho a Tell Me How: o momento mais vulnerável em After Laughter.

 

  

Tell Me How é conduzida por notas de piano, ao qual se juntam notas de guitarra e uma bateria discreta, tudo muito suave. Na mesma linha, os vocais de Hayley são graves, quase sussurrados, magoados.

 

Fora de contexto, poder-se-ia pensar que a letra se refere a uma separação amorosa. No entanto, para uma pessoa minimamente informada sobre a situação da banda ao longo dos últimos anos, fica claro que a letra sobre Jeremy. Hayley chora (mais uma) amizade que perdeu, as infinitas mudanças na banda, o eterno ciclo de destruição e reconstrução dos Paramore. Uma das frases que se destaca em Tell Me How é a que reza “Of all the weapons you fight with, your silence is the most violent”.

 

Suponho que esta seja a parte da Hayley que desistiu da banda durante algum tempo.

 

A ideia com que fico é que, em Tell Me How, Hayley se encontra numa encruzilhada. Não só sem saber se deve continuar nos Paramore ou não, mas também sem saber se deve continuar a debater-se com o passado, a tentar descobrir onde é que errou, ou se deve seguir com a sua vida.

 

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Gosto de pensar que Hayley escolheu a segunda opção, que é a isso que se referem os versos finais. Tell Me How (e o próprio álbum After Laughter) termina com Hayley dizendo “I can still believe” – uma nota de esperança encerrando um álbum bastante deprimente, na sua maioria.

 

After Laughter não é tão bom (ou melhor, não é tão arrebatador) como o Self-Titled, mas também não estava à espera que fosse. É, no entanto, tão intricado e introspetivo como são os álbuns anteriores. E as referências a problemas de saúde mental – ainda muito pouco falados e cheios de preconceitos – tornam-no ainda mais relevante.

 

Aquilo que mais impacto me tem causado, no que toca a After Laughter, é a mudança na mensagem relativamente ao Self-Titled. Tal como escrevi na altura, este último é um álbum de sobreviventes, de vencedores, um álbum otimista, confiante no futuro. Admito mesmo que esse espírito me contagiou, a certa altura na minha vida. Fez-me sentir igualmente confiante, otimista, convencida de que já sabia como a vida funcionava, qual era o meu lugar no mundo.

 

É óbvio, agora, que a realidade havia de nos atingir, mais cedo ou mais tarde. No caso da banda, isso veio na forma da desistência de Jeremy e talvez mesmo na separação de Hayley.

 

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Esse, de resto, é o tema de After Laughter: o momento em que a batata quente nos explode nas mãos sem que estivéssemos à espera. O momento após uma gargalhada em que regressamos ao mundo real.

 

O facto de a banda, ao que parece, ter deixado para trás os elementos emo/pop punk tem causado controvérsia entre os fãs e não só. Era de esperar. Pessoalmente, admito que terei algumas saudades das guitarras pesadas em Paramore. À parte isso, a mudança de estilo não me incomoda, porque as músicas são boas. Estão muito bem feitas, com vários elementos que não se notam à primeira audição, com boas letras. O rótulo que os demais queiram colocar neste estilo musical é irrelevante.

 

O regresso dos Paramore às luzes da ribalta, de resto, tem-me feito redescobrir – mais uma vez – a discografia deles. Em particular o primeiro, All We Know Is Falling. Estou a descobrir que a tensão, os conflitos, a instabilidade fazem parte do DNA dos Paramore. O seu primeiro álbum foi maioritariamente inspirado pela desistência de um membro, Jeremy (a primeira, apenas temporária). Músicas desse álbum, como a homónima All We Know, Pressure, Here We Go Again, Conspiracy continuam a aplicar-se bem à banda, sobretudo nos momentos mais turbulentos.

 

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Os Paramore bem podem dizer que, agora, estão mais fortes do que nunca e tal, mas eu já ouvi essa antes – e só os acompanho a sério desde finais de 2010! Fãs mais antigos já devem ter ouvido esta mais vezes. Estou cada vez mais convencida de que a banda nunca terá estabilidade. Poderá chegar o dia em que termine de vez – ou, pelo menos, em que entre num hiato prolongado.

 

Depois de ter escrito sobre Riot! há dois anos, planeava escrever sobre Brand New Eyes pouco tempo depois. Confesso que tencionava tecer duras críticas aos membros da banda, por terem dito que a criação daquele álbum tinha resolvido os conflitos dentro do grupo. O que claramente não era verdade – conforme provado pela saída de Josh e Zac.

 

No entanto, depois de Jeremy ter saído da banda, fiquei sem coragem para escrever sobre isso – porque teria de admitir que o Self-Titled, um dos álbuns da minha vida, era igualmente “mentiroso”.

 

Só agora, mais de um ano e meio após a partida de Jeremy, em que começo a aceitar a eterna instabilidade da banda, é que me sinto em condições de escrever sobre Brand New Eyes. Não será a curto prazo – talvez daqui a uns meses.

 

Já agora, um aparte sobre os meus planos imediatos para o blogue. Tenho ainda dois álbuns lançados recentemente sobre os quais quero escrever. Um deles é One More Light, dos Linkin Park (Alerta Spoiler: gostei mais do que estava à espera mas, mesmo assim, não por aí além). O outro é Melodrama, de Lorde (Alerta Spoiler: A miúda não desiludiu, de todo). Espero não me demorar muito tempo com estes textos.

 

Quanto aos Paramore, ainda que esteja algo cética relativamente ao futuro da banda, espero, no entanto, que os próximos tempos sejam mais felizes para a Hayley, o Zac e o Taylor.

 

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Paramore - After Laughter (2017) #1

 

No passado dia 12 de maio, os Paramore lançaram o seu quinto álbum de estúdio, intitulado After Laughter. Eu comecei a trabalhar na análise a esse disco no dia em que saiu, acreditem. Só que, entretanto, a Seleção Portuguesa entrou em ação e assim se manteve durante mais de um mês. Ou seja, quase todo o tempo de escrita que tive foi consumido pelo meu outro blogue.

 

Daí que esta análise só esteja a ser publicada agora.

 

A vantagem deste atraso é ter apanhado umas quantas entrevistas sobre o álbum, em particular a da revista Fader – que revela imenso sobre After Laughter e mesmo sobre a história de Hayley e dos Paramore como banda. Apanhei essas entrevistas… e a separação de Hayley e do seu marido.

 

Lá se vai uma das minhas canções de amor preferidas.

 

Como tenho muito a dizer sobre After Laughter, resolvi dividir esta análise em duas partes. O resto será publicado amanhã. Falemos, então, sobre o quinto álbum de estúdio dos Paramore.

 

 

Aquilo que salta à vista (ou melhor, à audição) ao ouvir After Laughter é a sonoridade – os elementos de pop punk são praticamente inexistentes. Temos guitarras elétricas, sim, mas usadas de maneira diferente – em vez de acordes pesados, temos notas mais soltas, misturadas com xilofones, teclados e sintetizadores. O resultado é um som tropical, com elementos de new wave e de pop dos anos 80. Uma pessoa pode ser levada a pensar que After Laughter é um disco leve, de verão.

 

Desde que não se ligue às letras.

 

Uma das características deste álbum é a sua consistência: o facto de as músicas serem parecidas umas com as outras, embora não ao ponto de se confundirem. O reverso da medalha é que, a partir de certa altura, as coisas tornam-se demasiado formulaicas. Falo, sobretudo, das terceiras estâncias – se forem a ver, numa boa parte das músicas, as terceiras estâncias consistem, apenas, em um ou dois versos repetidos inúmeras vezes (nalguns casos com variações mínimas). Ao fim de algum tempo, cansa.

 

Outro aspeto menos bom em After Laughter é o facto de os vocais de Hayley não impressionarem por aí além – pelo menos em comparação com álbuns anteriores. Existem, aliás, muitas ocasiões em que os vocais se reduzem a quase sussurros.

 

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Também é verdade que vocais muito agudos e/ou prolongados, estilo Now, Decode ou Misery Business, não se encaixariam muito bem neste tipo de música. Além disso, há que recordar que Hayley estava a debater-se com depressão aquando das gravações de After Laughter – é bem possível que ela não tivesse vontade de elevar a voz. Por outro lado, visto que muitas destas músicas foram precisamente inspiradas pela depressão de Hayley, os vocais baixos adequam-se, sobretudo nos momentos de maior vulnerabilidade.

 

O que nos leva às letras das canções. Todos os álbuns dos Paramore, à exceção de Riot!, têm-se inspirado numa qualquer crise atravessada pela banda – porque, conforme comentámos extensivamente antes, a banda está sempre a atravessar uma crise ou tentando recuperar-se após uma crise. After Laughter não é exceção – até porque é o primeiro álbum que a banda edita após a saída do baixista Jeremy Davies. A inspiração, no entanto, não é assim tão direta na maior parte das músicas – só no sentido em que a crise nos Paramore poderá ter despoletado a depressão e ansiedade de Hayley.

 

O álbum After Laughter tem, aliás, sido elogiado precisamente por se focar em diferentes aspetos da vida de alguém que lida com um qualquer problema de saúde mental (eu ainda tenho algumas dificuldades em dizer, pura e simplesmente, doença mental por causa de todo o estigma associado), seja uma depressão, uma crise de ansiedade. Ou então, que esteja apenas a passar por… bem, tempos difíceis.

 

Por exemplo, Told You So fala sobre profetas da desgraça, que em vez de ajudarem, ainda mais enterram a pessoa. Rose-Colored Boy, ao invés, fala sobre pessoas que não sabem de todo o que acontece numa depressão, que acham que tudo se resolve com sorrisos e “pensamento positivo”. Forgiveness fala, precisamente, sobre as dificuldades em “perdoar e esquecer”. Caught in the Middle fala sobre desorientação. 26 fala sobre cinismo e sonhos desfeitos. Tell Me How revela vulnerabilidades.

 

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Isto pode ser um bocadinho esticado, mas, na minha opinião, em After Laughter existe uma canção para cada fase do luto. Hard Times representa a negação ou, pelo menos, o choque. No Friend e, talvez, Iddle Worship representam a raiva. 26 simboliza a negociação. Por sua vez, Tell Me How representa a parte da depressão e existem ainda algumas pistas, perto do fim da faixa, que apontam para uma eventual aceitação. Hayley referiu, em entrevista, que ainda não tinha ultrapassado por completo certas coisas de que fala em After Laughter – nesse aspeto, não é de surpreender que não haja uma única música para aceitação.

 

Falemos, agora, sobre as músicas em si. Hard Times (sobre a qual já falámos antes) é a primeira na tracklist e foi o primeiro single. Quando escrevi sobre ela, critiquei a letra por trazer pouco de novo no que toca aos Paramore. No entanto, agora que conhecemos o resto do álbum, faz sentido que esta seja/tenha sido a primeira canção que ouvimos em After Laughter: uma vez que apresenta o tema e estrutura da maior parte das faixas do álbum e faz uma ligação com os trabalhos anteriores.

 

Confesso, por outro lado, que nesta fase ando um bocadinho farta de Hard Times – a maior parte das outras canções em After Laughter são melhores, tanto em termos de letra como da musicalidade.

 

Uma das minhas preferidas neste álbum é Rose-Colored Boy. Calculo que seja uma das mais pop neste álbum e onde mais se notam as influências dos anos 80 – eu, pelo menos, vejo algumas semelhanças com a clássica Girls Just Want to Have Fun. As primeiras notas dão logo a ideia de uma festa numa praia tropical – sensação reforçada pelos vocais, estilo meninas de claque “Low key! No pressure! Just hang with me and my weather!”.

 

 

É claro que a última coisa em que a letra nos faz pensar é em festas. Rose-Colored Boy fala sobre aquelas pessoas irritantes, que insistem em ver o lado positivo em tudo. Ou que acham que as pessoas só caem em depressões porque têm pena de si próprias e que, se fizessem um esforço, curavam-se (acreditem, há muitos a pensar assim). Alguns fãs especulam sobre a identidade do tal Rose-Colored Boy: há quem diga que é o Taylor (pouco provável, na minha opinião), há quem diga que é Chad Gilbert, o, em breve, ex-marido de Hayley. Eu, no entanto, acredito que Hayley se terá cruzado com inúmeros Rose-Colored Boys e Girls aquando da sua depressão.

 

Pessoalmente, nunca fui uma pessoa pessimista ou cínica, nem faço questão de o ser. Prefiro sentir-me alegre em vez de me sentir triste e encarar a vida com esperança e otimismo. Mas a verdade é que o otimismo e o “pensamento positivo” só ajudam até certo ponto – quando estes implicam a repressão de sentimentos negativos, como a raiva ou a tristeza, são mesmo prejudiciais. E, conforme aprendemos com o filme Inside Out/Divertida-mente (vi-o pela primeira vez há bem pouco tempo e ando obececada com ele), a tristeza é saudável. A pressão para reprimir a infelicidade, para estar sempre feliz, otimista, sorrindo com os dentes todos, é precisamente aquilo que leva uma pessoa à depressão.

 

O que nos leva a Fake Happy (que, ao que parece, será o próximo single de After Laughter).

 

  

Esta música possui uma introduçãozinha acústica, com vocais graves, resumindo a mensagem da canção. Depois, soam os teclados. Os vocais de Hayley soam saltitantes, irresistíveis – sobretudo no pré-refrão. O refrão em si é tão cativante como os das melhores músicas dos Paramore.

 

Fake Happy fala, assim, sobre a dificuldade em manter as aparências quando nos sentimos infelizes – e, ao mesmo tempo, sobre a futilidade dessas aparências quando, na verdade, todos fingem ser mais felizes do que realmente são. Uma mensagem relevante nos dias que correm, em que as pessoas procuram vender a sua vida como perfeita nas redes sociais. Consta, até, que os americanos são particularmente obcecados pela ideia de felicidade e pensamento positivo.

 

Eu acho curioso porque Portugal tem uma cultura oposta. Conforme referido neste artigo da BBC, no nosso país, há uma cultura de tristeza – com o fado e os poemas de Camões, que achava que a sua vida era a “mais desgraçada que jamais se viu”. Os portugueses gostam de ser infelizes. Não é costume as pessoas fingirem ser felizes por cá, pelo menos não no contacto pessoa a pessoa (as redes sociais são uma história diferente).

 

Aliás, só ao longo do último ano, com a vitória da Seleção no Euro 2016, a vitória de Salvador Sobral no Festival da Canção, a popularidade de Portugal lá por fora, entre outras coisas, é que nos temos atrevido a ser um pouco mais felizes.

 

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Nunca fui fã desta cultura de tristeza. No entanto, reconheço que pode ser saudável, sobretudo num contexto de uma depressão ou de outra doença psiquiátrica semelhante.

 

Agora que penso nisso, se os Paramore fossem portugueses, não teriam criado um álbum falsamente alegre, como After Laughter. Teriam cantado fado (a versão portuguesa da cultura emo).

 

Mas estou a desviar-me.

 

Só para concluir, referir que, na minha opinião, Fake Happy funcionaria bem como título alternativo a este álbum: com as suas músicas com instrumentais e melodias alegres, mas com letras deprimentes. Tenho visto muitas pessoas deixando-se enganar.

 

  

Told You So – a segunda canção de After Laughter que conhecemos – acaba por funcionar como a antítese de Rose-Colored Boy. Desta feita, lidamos com os Velhos do Restelo, aquelas pessoas que parecem sentir um gozo especial quando as suas previsões pessimistas se concretizam, ou ao verem uma pessoa que invejam passando por um mau bocado. Esta sim é uma realidade bem portuguesa. Em Told You So, Hayley procura agarrar-se a uns resíduos de esperança e otimismo – algo que se torna quase impossível, com pessoas como as que acabo de descrever.

 

Gosto imenso da sonoridade de Told You So. Os riffs de guitarra e o xilofone do Taylor são excelentes, sobretudo no refrão, casando bem com os vocais, mais uma vez, ritmados e saltitantes de Hayley. Devo dizer, no entanto, que, à semelhança do que aconteceu com Hard Times, a letra de Told You So está uns furos abaixo do nível habitual dos Paramore. É demasiado curta e simplista, sobretudo a repetitiva terceira estância.

 

Por outro lado, não é fácil cantar “Throw me into the fire, throw me in, pull me out again" muitas vezes de seguida, como Hayley faz. Eu, pelo menos, troco-me toda.

 

Visto que Hard Times e Told You So saíram antes do resto do álbum, cheguei a temer que todas as letras em After Laughter fossem assim – mais fraquinhas que o habitual. Não foi o que aconteceu, felizmente, tal como já vimos e ainda vamos ver a seguir.

 

  

Queria falar, ainda, sobre o videoclipe de Told You So – que foi realizado pelo baterista da banda, Zac. Nele, começamos por ver Hayley vestida de preto, numa casa escura – uma metáfora para a depressão, quase de certeza. Os rapazes – Zac e Taylor – acabam por vir buscá-la, num carro antigo. As sombras não desaparecem completamente, mas pelo menos agora Hayley não está sozinha.

 

A banda revelou em entrevista, pouco após o lançamento do vídeo, que, aquando das gravações de After Laughter, os três costumavam viajar juntos no carro de Zac. Nessas alturas, a ansiedade de Hayley dava tréguas. Zac percebia mesmo que ela se sentia mais calma, mais aliviada, durante essas viagens. O carro dele era um porto seguro.

 

Acho amoroso que Zac tenha querido homenagear isso no videoclipe. Os Paramore podem ser uma banda de estabilidade precária, mas são coisas como estas que me ajudam a ter esperança no futuro deles.

 

É com esta nota positiva que nos despedimos por hoje. Regressamos amanhã com a segunda parte da análise a After Laughter.

 

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Músicas Não Tão Ao Calhas - Hard Times

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Em janeiro de 2013, estreava aqui no blogue a rubrica Músicas Não Tão Ao Calhas. Nela, escrevo sobre músicas inéditas que os meus artistas preferidos vão lançando – na maior parte das vezes singles antes de álbuns, mas não só. A minha primeira entrada de Músicas Não Tão Ao Calhas foi sobre Now, o primeiro single do quarto álbum dos Paramore – aquele que ficou conhecido por The Self-Titled. Hoje, mais de quatro anos depois, volto a escrever sobre o primeiro single de um álbum dos Paramore – é um ciclo que se fecha.

 

Infelizmente, este ciclo nem sempre foi fácil para a banda. O início até nem foi mau. O Self-Titled é um álbum excelente, mudou por completo a maneira como encaro a vida. Graças a Deus, teve o devido reconhecimento em termos comerciais: foi platina e teve dois singles de sucesso: Still into You e Ain’t it Fun. A segunda ganhou um merecidíssimo Grammy. O ciclo desse álbum durou até meados de 2015, terminando com a digressão Writing the Future.

 

No entanto, em finais de 2015, a banda anunciou a partida do baixista Jeremy Davis. Desde essa altura, os Paramore têm passado por… bem, tempos difíceis.

 

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Ainda não tive oportunidade para escrever sobre a desistência de Jeremy. Custou-me, para ser sincera, ainda me custa. Nos primeiros tempos, ainda pensei/esperei que tivesse sido uma “rescisão” amigável, que ele tivesse partido porque tem uma filha e não pode andar em digressão.

 

Essa ilusão não durou muito. Meses depois surgiram notícias de que Jeremy e a banda estavam envolvidos numa disputa judicial, alegadamente devido a honorários da música e dos concertos. Como o processo ainda está em decurso, ainda não foi divulgada oficialmente a razão da partida de Jeremy. A ideia com que fico – e posso estar errada – é que, no centro disto tudo, está aquele três vezes maldito contrato celebrado, algures em 2005, entre a Atlantic Records e Hayley Williams, excluindo os restantes membros da banda. O mesmo contrato que já tinha sido um dos motivos para a partida dos irmãos Farro, em finais de 2010.

 

Toda esta história dá-me vontade de bater com a cabeça numa parede. Aquando do Self-Titled, a ideia que os Paramore davam era de que a banda tinha resolvido os seus problemas, aprendido com os erros cometidos. O trio estava mais forte, mais unido do que nunca, capaz de sobreviver a tudo. Eu acreditei nisso. Talvez os próprios membros da banda acreditassem nisso.

 

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Mas a verdade é que não devia ter ficado surpreendida. A banda nunca teve estabilidade – desde a ausência de Jeremy das gravações de All We Know Is Falling, passando pela saída dos irmãos Farro, e agora isto. A verdade é que Hayley tem sido a única constante em Paramore (ainda que Taylor só não se tenha juntado oficialmente à banda até depois do lançamento de Riot! porque os seus pais não deixaram). Por um lado, toda a gente sabe que Hayley podia, desde o início, optado por uma carreira a solo. Se não o fez até agora é porque, obviamente, não o quer. Por outro lado, para os membros estarem sempre a entrar e a sair, alguma coisa não está bem.

 

Não quero pensar que Hayley seja o problema. Ela parece ser uma miúda simpática, com valores parecidos com os meus – aliás, é atualmente uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música. Mas como não a conheço pessoalmente, não dá para ter a certeza.

 

Nestas alturas, a música Pressure, do primeiro álbum, faz mais sentido do que nunca.

 

 

Em defesa deles, os membros da banda parecem tão frustrados com esta história toda como eu. Ainda mais, já que esta é a vida deles. Hayley tem referido várias vezes que pensou em desistir. Disse que os Paramore parecem mais uma novela do que uma banda, que estava farta de perder amigos e de se questionar sobre o que estava a fazer de errado. Considerou várias alternativas: dedicar-se à sua linha de tintas para o cabelo, ter uma família (ela casou-se no ano passado), compôr para outras pessoas, começar um projeto diferente com Taylor.

 

Terá sido este último a salvar os Paramore, segundo Hayley. Taylor disse-lhe que a apoiaria independentemente da decisão que ela tomasse relativamente à banda. Isso aliviou a pressão sobre Hayley – que, no meio desta história toda, chegou a debater-se com depressão e ansiedade. Assim, os dois foram compondo música a pouco e pouco.

 

Entretanto, Taylor chamou Zac, o mais novo dos irmãos Farro, para tocar bateria no álbum novo. Inicialmente, veio apenas como músico contratado. Ao fim de algum tempo, Taylor convidou Zac para regressar oficialmente à banda. Ele disse que sim.

 

Toda a gente ficou feliz, como seria de esperar. Em primeiro lugar, Zac é um ótimo baterista e sentiu-se a falta dele em certos momentos do Self-Titled. A música dos Paramore fica a ganhar. Além disso, eu mesma referi, há pouco mais de dois anos, que tinha esperanças de que, um dia, os irmãos Farro regressassem. Cinquenta por cento desse desejo já se realizou.

 

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Mas fica um amargo de boca por Jeremy já lá não estar.

 

Os membros da banda chegaram mesmo a dizer que já não sabem muito bem por que os Paramore continuam a ser uma banda. Nesta altura, deve ser só por nós, os fãs – porque eles sabem que a música deles é uma das coisas que nos ajuda a sobreviver. Eu, apesar de tudo, fico grata por isso. E, agora, teremos um álbum novinho em folha daqui a menos de duas semanas.

 

Suponho que haja uma qualquer metáfora para a vida no meio desta história toda. Talvez seja assim que as coisas funcionem: uma batalha sem fim, com perdas e ganhos, cometendo os mesmos erros, sempre a desfazermo-nos e a reconstruirmo-nos outra vez, sempre a aprendermos. Uma pessoa vai continuando, às vezes só por causa daqueles que ama, às vezes só porque… qual é a alternativa?

 

 

Gonna make you wonder why you even try

 

Com isto tudo, vamos quase em mil palavras e ainda nem sequer falámos de Hard Times. Mas eu tinha de escrever sobre as aventuras e desventuras dos Paramore nestes últimos anos porque, na minha opinião, a letra da música fala sobre elas. As estâncias falam claramente sobre depressão, com referências a um buraco onde nos enfiar até os nossos problemas terem desaparecido e a uma nuvem negra que nos segue para todo o lado. No refrão, questiona-se mesmo como é que se consegue aguentar tudo isto e continuar.

 

Na verdade, a letra de Hard Times não me impressiona por aí além. Não me interpretem mal, não a acho má. É, aliás, melhor que muito do que se ouve por aí. No entanto, cai muito nos clichés habituais de Paramore. Por exemplo, o primeiro verso (“All that I want is to wake up fine”) remete para Last Hope – “Every night I try my best to dream tomorrow makes it better”. “Tell me that I’m alright” recorda-me Tell Me It’s Okay. Os versos “And I’m gonna get to rock bottom!” e “We’ll kick it when I hit the ground” fazem lembrar Turn It Off: “I’m better off when I hit the bottom”. Eu podia continuar. Não há nada na letra de Hard Times que não tenhamos ouvido antes, o que é uma pena.

 

Isso, de resto, é a única falha que tenho a apontar a Hard Times – e nem sequer a acho grave no primeiro single de um álbum novo. A letra pode não trazer nada de novo, mas o mesmo não se passa com o acompanhamento musical. Depois de músicas como Grow Up, Still into You e Ain’t it Fun, Hard Times parece lógica como o passo seguinte. À semelhança de Ain’t it Fun, Hard Times começa com notas de xilofone, que são rapidamente substituídas por notas de guitarra – são estas as responsáveis pelo ritmo dançante da música. Ouvem-se também algo que se assemelha a tambores africanos, algo que se mantém durante toda a faixa. A bateria de Zac dá personalidade à música (sobretudo numa altura em que este instrumento está em vias de extinção). No refrão, noto elementos de Daft Punk - sensação que se reforça no fim da música, com os vocais distorcidos.

 

Não sei se o mesmo aconteceu com vocês, mas eu demorei algum tempo a decifrar esses vocais. Se não estou em erro, dizem “Makes you wonder why you even try” e “Still don’t know how I even survive”. Em suma, em termos musicais, à semelhança das melhores músicas do Self-Titled, Hard Times conjuga vários elementos de forma primorosa, podendo-se ouvir a contribuição de cada membro da banda. Eu gosto. Não estou propriamente caída de quatro, mas também não estava por Now quando esta foi lançada e, com o tempo, a música foi ganhando novos significados. Estou certa de que o mesmo acontecerá com Hard Times. Sobretudo quando puder ouvi-la no contexto do álbum. Para já, espero que não demore muito a chegar às rádios portuguesas.

 

 

O quinto álbum dos Paramore chama-se, então, After Laughter, e sai dia 12 de maio. Sim, daqui a menos de duas semanas. Confesso que fiquei estonteada com esse anúncio, ainda estou. Um dia, tínhamos a vaga ideia de que os Paramore estariam a trabalhar num álbum, algumas pistas como músicas registadas no site da ASCAP. No dia seguinte, temos nome, capa, tracklist, data de lançamento, primeiro single com videoclipe e pessoas que já ouviram o álbum (inveja!). Tendo em conta que os álbuns da Avril Lavigne têm sempre um parto longo e complicado (e o sexto álbum não está a ser exceção), esta é uma alternativa atordoante, mas muito mais agradável.

 

Segundo Hayley, o título After Laughter (a melhor tradução que me ocorre é “Pós-riso”) refere-se àquele momento após uma gargalhada em que regressamos à realidade. Dá para ver, assim, que este álbum vai ser animado… só que não. Quem já ouviu o álbum dá a entender que o resto será semelhante a Hard Times. Ou seja, os Paramore vão fazer o que fazem desde o início da sua carreira: queixar-se da vida. A diferença é que, enquanto antes, Paramore depressivo equivalia a guitarras pesadas e estética emo, agora equivale a música rítmica, falsamente alegre (o nome de uma das faixas novas é Fake Happy, por sinal), e tons pastel.

 

Gostava de chamar a atenção para o símbolo no centro da capa: as barras de néon que criam uma ilusão de ótica, de modo que não sabemos se são duas ou três. É obviamente uma variante do símbolo que a banda adotou em 2011, uma provável alusão à recente troca de membros. Eu, de qualquer forma, gosto imenso deste símbolo. Já encomendei, até, um dos conjuntos de merchandising da banda que inclui uma t-shirt preta com este símbolo, para além do álbum em CD (uma encomenda que, admito, foi para aí quarenta por cento impulso).

 

Havemos de falar mais sobre os Paramore quando analisar o resto de After Laughter. Ainda não decidi se analiso faixa por faixa, por ordem crescente de preferência, ou se analiso em texto corrido. Mas vou tentar publicá-la não muito depois do lançamento do álbum. Entretanto, vou ganhar vergonha na cara e ver se acabo e publico de vez a análise ao quarto filme de Digimon Adventure Tri.

Músicas Não Tão Ao Calhas - Liability e Battle Symphony

Uma semana após lançar Green Light, a cantora neo-zelandeza Ella Yellion-O’Connor, de nome artístico Lorde, disponibilizou mais uma canção do seu próximo álbum, Melodrama. Esta chama-se Liability. A minha ideia era analisá-la logo a seguir ao lançamento. No entanto, precisei de alguns dias para decifrar esta canção. Como, entretanto, os Linkin Park lançaram hoje Battle Symphony – o novo single do seu próximo álbum, One More Light – resolvi analisar ambas as canções no mesmo texto.

 

Primeiro as senhoras...

 

  

I’m a little much for everyone”

 

Acho que nunca tínhamos ouvido Lorde soando tão triste. Fiquei de coração partido depois de ouvir esta faixa pela primeira vez. Liability é só piano e voz. Como acontece com as melhores canções de Lorde, a voz faz o trabalho todo – transmitindo na perfeição toda a dor, vulnerabilidade e autocomiseração da narradora.

 

Tal como acontece com Green Light, a letra de Liability tem várias camadas e múltiplas interpretações possíveis. Das primeiras vezes que ouvi Liability, pensei que esta se referia ao fim de uma relação amorosa – alguém que se tinha envolvido com a narradora, tratando-a como um mero divertimento temporário, abandonando-a quando se fartou dela ou ela pediu mais.

 

Não que esta interpretação não seja legítima, mas Lorde revelou que não compôs Liability pensando em relações amorosas. Em várias entrevistas, Ella disse que se inspirou naquelas situações, em que tentamos fazer amizades, mas receamos que os outros nos achem um fardo. Também se terá inspirado nas consequências negativas da sua fama – por ela ser uma celebridade, as pessoas próximas de si, por contágio, são obrigadas a lidar com a perda de privacidade, o escrutínio por parte do público.

 

É de admirar que Ella sinta que só atrapalha a vida das pessoas à sua volta?

 

Perante tudo isto, é natural que Lorde acabe por se virar para si mesma, por se tornar a sua própria melhor amiga.

 

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Confesso que me identifico com a letra de Liability. Já referi várias vezes aqui no blogue que sou introvertida e não faço amigos facilmente. Também já tive situações em que me senti indesejada. Ou que senti que não sou assim tão cativante para que as pessoas se interessem por mim a longo prazo, que sou demasiado estranha para a maior parte das pessoas.

 

É claro que isto é apenas a minha perceção, pode nem sequer corresponder à verdade.

 

De qualquer forma, também prefiro, muitas vezes, fazer companhia a mim mesma, tal como Lorde refere. Eu, porém, se tivesse oportunidade de dar um conselho a Ella, sugerir-lhe-ia uma alternativa ao isolamento: um cão. Conforme tenho vindo a aprender com a minha cadela, Jane, os cães estão sempre felizes por nos verem, não tecem juízos de valor, não se fartam de nós. São uma ótima companhia.

 

Por norma, é muito fácil esquecermo-nos que Ella é ainda muito nova. Em Liability, no entanto, nota-se essa juventude. Creio que uma pessoa mais velha não escreveria de uma forma tão crua e emotiva, com um pouco de autocomiseração à mistura. A própria Lorde admite que compôs esta canção numa altura em que sentia pena de si própria.

 

  

A ideia com que fico é que esta deverá ser a regra para este álbum: emoções cruas, exageradas, que poderão não corresponder cem por cento à realidade, tipicamente adolescentes. Talvez seja essa a explicação para o título Melodrama. Lembra-me, um pouco, Under My Skin, de Avril Lavigne. Este álbum também teve momentos melodramáticos que, conforme se veio a descobrir, foram apenas uma fase.

 

Em todo o caso, estou a gostar muito do que conhecemos, até agora, de Melodrama: duas músicas muito complexas, com diversas camadas e significados que se vão multiplicando com o tempo. Que inspiram testamentos aqui no meu blogue. Mal posso esperar por ouvir o resto.

 

Mas antes ouviremos One More Light, dos Linkin Park, que incluirá Battle Symphony.

 

 

All the world in front of me”

 

Conforme escrevi anteriormente, o primeiro single de One More Light, Heavy, desiludiu-me. Battle Symphony tem várias semelhanças com Heavy – a sonoridade suave, eletropop, radiofónica, os vocais melodiosos de Chester – mas, na minha opinião, está uns quantos furos acima do primeiro single de One More Light.

 

Para começar, o instrumental, sem ser nada de extraordinário ou mesmo original, é mais rico que o de Heavy. A minha parte preferida é o início do primeiro refrão, quando a bateria imita uma marcha militar – o que condiz com a letra. Gostava de tê-la ouvido mais vezes ao longo de Battle Symphony.

 

Mesmo assim, continuam a faltar guitarras elétricas.

 

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Devo dizer, também, que, apesar de pop, a melodia é cativante. Depois de ouvir várias vezes a música, dei por mim a cantarolar o refrão. A minha parte preferida, contudo, é a terceira estância.

 

A letra, infelizmente, deita um pouco a canção abaixo. Não que seja má. No entanto, tal como acontece em Heavy, é demasiado vaga, perde-se em clichés. Battle Symphony é a típica “fight song”, não traz nada de novo a um tema já muito batido.

 

Continuo insatisfeita com o estilo mais pop, mais comercial, contra o carácter da banda, que, ao que parece, os Linkin Park adotaram para este álbum. Dito isto, não me queixarei... muito... se o resto de One More Light for semelhante a Battle Symphony, desde que com letras melhorzinhas. De qualquer forma, prognósticos só depois de o álbum sair.

 

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Não devemos ficar por aqui em termos de música dos meus artistas preferidos – longe disso. A foto acima parece mostrar que os Paramore estão a filmar um videoclipe. O que quererá dizer que teremos um single muito em breve (máximo dos máximos daqui a um mês, juntamente com o videoclipe... acho eu).

 

Somando a isso o possível sexto álbum de Avril Lavigne, que mudou de gravadora e tudo (apesar de, por norma, estas coisas demorarem muito mais com a Avril), esperam-nos muitas mais entradas de Músicas Não Tão Ao Calhas nos próximos tempos. Por um lado, é excitante voltar a escrever regularmente sobre música. Por outro, tenho medo de não conseguir dar conta do recado. Durante os últimos dois anos tivemos muitos poucos lançamentos novos por parte deste pessoal. Agora, está tudo a lançar música ao mesmo tempo. Vão ser muitos textos para escrever... quando existem outros sem ser sobre música na minha lista de prioridades.

 

Vou tentar despachar esses textos nas próximas semanas, nesse caso – incluindo um sobre um assunto que não abordo há imenso tempo. Continuem por aí, então.

Sum 41 - 13 Voices (2016)

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A banda de punk rock canadiana, Sum 41, atuou recentemente em Lisboa, no Coliseu dos Recreios e eu estive lá. A banda, liderada por Deryck Whibley, veio apresentar o seu mais recente álbum de estúdio, 13 Voices, editado em outubro do ano passado. Está na altura de, finalmente, falarmos sobre isso.

 

Não tenho um único álbum preferido bem definido dos Sum 41. A verdade é que não oiço a discografia completa deles há muito tempo, só aquelas músicas de que gosto mesmo e que fui incluindo nas minhas playlists. Os álbuns de All Killer No Filler a Underclass Hero contribuem com mais ou menos o mesmo número de músicas para essas playlists. Dito isto, considero que as melhores, de uma maneira geral pertencem ao álbum Chuck – títulos como No Reason, Open Your Eyes, We’re All to Blame, There’s No Solution e Pieces.

 

De qualquer forma, talvez um dia destes escreva Críticas Retrospetivas a alguns desses álbuns. Não nos próximos meses, mas um dia.

 

Screaming Bloody Murder é, infelizmente, o álbum de que menos gosto neles. Essa é uma opinião comum a muitos fãs, eu sei, mas garanto-vos que tentei, várias vezes. As únicas de que gosto são Reason to Believe (gostei quando o Deryck tocou a conclusão dessa música ao piano, durante o concerto), Crash, Exit Song e, um pouco, Blood in My Eyes (que chegou a estar nomeada para os Grammy).

 

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13 Voices até se assemelha um pouco a Screaming Bloody Murder mas, na minha opinião, está uns quantos furos acima. Acho que ninguém ficou surpreendido quando se veio a saber que este álbum foi fortemente influenciado pela quase-morte por alcoolismo de Deryck e consequente recuperação. Deryck afirmou mesmo que a tracklist segue quase uma ordem cronológica. Assim, A Murder of Crows foi a primeira música a ser composta por Deryck após sair do hospital.

 

À semelhança de Reason to Believe em Screaming Bloody Murder, A Murder of Crows é uma abertura épica para 13 Voices. Para além das guitarras e da bateria, noto também alguns elementos sinfónicos – tanto quanto sei, uma novidade na discografia dos Sum 41 e voltarão a aparecer no álbum. Deryck afirmou, neste vídeo, que compôs A Murder of Crows pensando em pessoas na sua vida, que considerava amigas, que tinham estado lá para as festas e para a bebida, mas que, no pior período da vida de Deryck, voltaram-lhe costas.

 

Não que isso seja uma grande surpresa. Pelo contrário, é um denominador comum a muitos casos semelhantes. Pessoas tóxicas, abutres. Não é por acaso que esta canção se chama A Murder of Crows, “um assassino de corvos”. Já Grow Up dos Paramore faz referências a pessoas desse género. Não é de surpreender que uma das primeiras coisas que Deryck tenha feito depois de sair do hospital tenha sido cortar essas pessoas da sua vida.

 

  

Outro tema fortemente influenciado por aquilo que aconteceu a Deryck foi War, o primeiro single oficial de 13 Voices (apesar de Fake My Own Death ter sido revelada algumas semanas antes). War tem sido descrita como a Pieces deste álbum e, de facto, as semelhanças são evidentes. Porém, enquanto Pieces é guiada pela guitarra elétrica e possui um tom depressivo, War é guiada pelo piano e tem um tom mais determinado e esperançoso.

 

War vale sobretudo pela sua letra, no entanto. Costumo falar muito em música que salva vidas – segundo Deryck, War foi quase literalmente o caso. Recordar que, devido aos danos que o álcool provocou nos seus nervos, Deryck teve de começar quase do zero. Teve de aprender de novo a andar, a tocar guitarra, mesmo a viver. Não é um percurso fácil para ninguém e, naturalmente, existem dias maus. Num desses dias, Deryck esteve muito perto de desistir e pegar numa garrafa. Em vez disso, pegou em papel e lápis (ou então caneta, sei lá…) e escreveu aquilo que se tornaria a letra de War.

 

Depois de escrevê-la, Deryck encarou aquelas palavras como um contrato consigo mesmo, uma promessa de que continuaria a lutar pela sua recuperação. Antes de tocar War, no Coliseu de Lisboa,  Deryck disse mesmo que uma das coisas que o motivou nesta luta foi o desejo de gravar um disco e regressar aos palcos para ver os fãs. Chegou mesmo a agradecer-nos por isso, à “família Sum 41” – é muito amor!

 

  

Breaking the Chain (uma das minhas preferidas neste álbum) também parece refletir uma fase da sua recuperação. Tem uma sonoridade interessante pois inclui uma orquestra e tudo (algo inédito na discografia de Sum 41, tanto quanto sei), sem dispensar as guitarras elétricas. Na letra, o narrador reflete sobre o seu passado. Assume pela primeira vez, preto no branco, os erros que cometeu e decide mudar, redimir-se. A palavra “chain” pode significar  “corrente” ou “sequência de eventos”, “padrão”. No contexto desta música, ambos os significados fazem sentido. A expressão que serve de título à faixa pode, assim, referir-se à quebra das correntes que o prendem à sua vida anterior, ou então à quebra da cadeia de eventos, do ciclo vicioso, que inevitavelmente resultaria na sua morte.

 

The Fall and the Rise é uma música que tem vindo a… bem, a subir na minha consideração. Esta adota um estilo recorrente na discografia dos Sum 41, com versos cantados quase em rap – como acontece, por exemplo, em Still Waiting e I’m Not the One. O riff de guitarra e aquilo que me parece ser um órgão dramático fazem um crescendo interessante até ao refrão. Gosto, também, da terceira parte da música, em que esta abranda ligeiramente e os vocais se tornam mais melodiosos. Na minha mente, a música pinta a imagem de uma corrida num sítio agreste (uma floresta escura, por exemplo, ou um deserto), o que, de resto, condiz com a letra da música. Tudo isto dá a The Fall and the Rise um carácter desafiador, determinado. Calculo que Deryck tenha escrito estes versos numa altura em que se sentia mais esperançoso, confiante em si mesmo, decidido a recuperar-se e a voltar ao “sítio aonde pertence” – os palcos, assumo eu.

 

  

Goddamn I’m Dead Again também faz referências ao que aconteceu a Deryck. A letra é essencialmente Deryck ralhando consigo mesmo por quase ter dado cabo de si próprio. A música destaca-se, também, pelo seu excelente solo de guitarra (embora algumas partes se assemelhem, suspeitamente, ao solo de Hotel California), da autoria de Dave “Brownsound” Baksh. Deryck afirmou que Goddamn I’m Dead Again é, de resto, a canção que assinala o regresso de Dave à banda.

 

Se Goddamn I’m Dead Again é a canção de Dave, There Will Be Blood será a música de Frank Zummo, o novo baterista da banda. Segundo Deryck, There Will Be Blodd partiu de uma composição antiga de Frank, que Deryck concluiu. Esta música volta a ter alguns elementos sinfónicos, dramáticos, soa-me muito parecia à sonoridade habitual dos Within Temptation. Até a letra aborda temas semelhantes. Fugindo um pouco ao que aconteceu com Deryck, parece falar de anjos severos, prontos a castigar os pecadores. No entanto, a cena dos “the little ones” torna-se repetitiva e um pouco irritante. Não sou a única a pensar assim, de reste, tenho encontrado opiniões semelhantes na Internet. There Will Be Blood não é uma música má, recebe pontos pelos elementos sinfónicos, mas é a faixa de que menos gosto em 13 Voices.

 

Fake My Own Death foi a primeira música que conhecemos de 13 Voices, mas não me diz por aí além. A letra não é nada de especial, na minha opinião – aborda temas costumeiros na discografia da banda (o videoclipe dá a entender que se refere à cultura de Internet). Dito isto, gosto da terceira parte da música e gosto ainda mais do refrão.

 

  

Nesse aspeto, gosto muito mais de God Save Us All, apesar de “roubar” elementos a The Catalyst dos Linkin Park (ou talvez graças a isso). O próprio título remete para “God save us everyone”. A verdade é que esta nem sequer é a primeira vez que os Sum 41 imitam os Linkin Park (acidentalmente ou não). A terceira parte de I’m Not the One faz lembrar a terceira parte de A Place For My Head. O verso “How can we fake this anymore” de No Reason é muito parecido, tanto na escolha de palavras como na melodia, ao verso “I cannot take this anymore” de One Step Closer. Finalmente - esta pode ser só eu - There’s No Solution soa-me muito parecida com Crawling.

 

Li, também, na Internet que God Save Us All é muito parecida com Throne, dos Bring Me the Horizon. Já ouvi essa música e tenho de concordar que as semelhanças são claras.

 

Eventuais acusações de plágio à parte, God Save Us All tem um ritmo acelerado, bem à punk rock, fazendo lembrar os momentos mais loucos, selvagens, do concerto deles, o que até condiz com a letra. Como é do conhecimento geral, a música rock já foi mais popular e, provavelmente, terão  tentado persuadir os Sum 41 a adotar um som mais pop, mais mainstream. Deryck escreveu a letra de God Save Us All (Death to Pop) a protestar contra isso, por achar a música pop, sobretudo dos dias de hoje, vazia de sentido e de emoção – algo com que concordo.

 

  

Twisted By Design é a música que encerra 13 Voices. Esta volta a apresentar elementos sinfónicos e possui um certo carácter épico e grandioso - o que se adequa a uma canção que funciona como um epílogo para 13 Voices. Deryck descreve-a como a sua canção de vitória – a letra reflete sobre tudo por que o narrador passou, tudo aquilo a que sobreviveu. Por um lado, admite que é melhor pessoa agora. Ao mesmo tempo, sabe que está longe de ser uma pessoa perfeita e aceita que essas partes menos bonitas de si provavelmente nunca irão desaparecer. Twisted By Design marca, também, a transição da fase em que Deryck apenas sobrevive para a fase assustadora em que Deryck faz mais do que isso: vive.

 

13 Voices não é um álbum que me tenha entusiasmado por aí além, mas é bastante sólido, sem nenhuma falha significativa a apontar. A sua grande força é o seu carácter autobiográfico, conforme temos vindo a assinalar ao longo deste texto. Tal como costumo dizer várias vezes neste blogue, uma música que se baseie em experiências reais, sentimentos reais, eleva-se logo acima da mediania. O facto de 13 Voices ser um álbum de esperança, sobrevivência e redenção, à semelhança de um certo outro álbum que me marcou fortemente.

 

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Antes de acabarmos, quero falar, então, sobre o concerto no Coliseu dos Recreios. Cheguei ao Coliseu quase uma hora antes da abertura de portas e já havia uma fila generosa para o concerto. Confesso que não estava à espera - depois de ter conseguido ficar na fila da frente do concerto de Bryan Adams com relativa facilidade (também são públicos bem diferentes...). Já sabendo que ia haver moche, não fiquei na plateia (não sou assim tão hardcore, pessoal…), mas fiquei nas bancadas junto ao palco. Apesar de ser demasiado betinha para andar ao moche, foi refrescante ver o pessoal curtindo à séria, numa altura em que, na maior parte dos concertos, metade do público está o tempo todo de telemóvel no ar.

 

Eu sabia que os Sum 41 eram bons ao vivo e não saí de lá desiludida. Deryck faz-me lembrar Chester Bennington – são ambos muito magrinhos, mas possuem uma energia inesgotável em palco (e ambos se debateram com adições em certas alturas das suas vidas...). Eu procurei retribuir com headbangs, cantando em altos berros.

 

A setlist incluiu todos, ou quase todos, os singles de cada um dos álbuns. Isso funcionou bem comigo pois muitos desses singles incluem as minhas músicas preferidas deles. Alguns dos pontos altos do concerto, para mim, foram Walking Disaster (com as luzes dos telemóveis ligadas, no início), In Too Deep, With Me (com Deryck num palco no meio da plateia e toda a gente cantando em coro), Pieces e o cover de We Will Rock You – adoro esta versão!

 

Tal como é costume quando aproveito bem um concerto, saí de lá mal me conseguindo mexer e fiquei de bangover durante dois ou três dias. Os Sum 41 não estão entre as minhas bandas absolutamente preferidas, pelo menos não neste momento, mas têm um lugar no meu coração, sobretudo depois da noite de 20 de janeiro. Faço parte da família Sum 41.

 

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Mais do que tudo, estou grata por Deryck ter conseguido vencer esta batalha, por ter sido capaz de voltar a Lisboa, com o resto da banda, celebrar comigo e com milhares de outros fãs portugueses. No mundo da música, sobretudo da música rock, ainda existe muito a cultura do “live fast, die young” – o que acho uma treta. Com o devido respeito para lendas como Kurt Cobain, eu prefiro que os meus artistas preferidos vivos, criando música, dando concertos até não poderem mais. Que cresçam ao mesmo tempo que eu e (quando tal se aplica) que vão documentando esse crescimento sob a forma de música

 

Deryck sobreviveu porque concorda com este princípio. Um dos motivos pelos quais ele não voltou a beber foi porque, como já dissemos antes, não queria morrer, queria continuar a fazer música e regressar aos palcos. A música foi mais forte que o álcool. Que isso sirva de inspiração a outros que estejam a passar por situações semelhantes. 13 Voices contou a história dessa luta. Estaremos de volta daqui a uns anos (não tantos como os cinco que separaram este álbum do anterior, espero) com o próximo capítulo musical da história dos Sum 41.

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