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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Músicas Não Tão Ao Calhas - Hard Times

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Em janeiro de 2013, estreava aqui no blogue a rubrica Músicas Não Tão Ao Calhas. Nela, escrevo sobre músicas inéditas que os meus artistas preferidos vão lançando – na maior parte das vezes singles antes de álbuns, mas não só. A minha primeira entrada de Músicas Não Tão Ao Calhas foi sobre Now, o primeiro single do quarto álbum dos Paramore – aquele que ficou conhecido por The Self-Titled. Hoje, mais de quatro anos depois, volto a escrever sobre o primeiro single de um álbum dos Paramore – é um ciclo que se fecha.

 

Infelizmente, este ciclo nem sempre foi fácil para a banda. O início até nem foi mau. O Self-Titled é um álbum excelente, mudou por completo a maneira como encaro a vida. Graças a Deus, teve o devido reconhecimento em termos comerciais: foi platina e teve dois singles de sucesso: Still into You e Ain’t it Fun. A segunda ganhou um merecidíssimo Grammy. O ciclo desse álbum durou até meados de 2015, terminando com a digressão Writing the Future.

 

No entanto, em finais de 2015, a banda anunciou a partida do baixista Jeremy Davis. Desde essa altura, os Paramore têm passado por… bem, tempos difíceis.

 

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Ainda não tive oportunidade para escrever sobre a desistência de Jeremy. Custou-me, para ser sincera, ainda me custa. Nos primeiros tempos, ainda pensei/esperei que tivesse sido uma “rescisão” amigável, que ele tivesse partido porque tem uma filha e não pode andar em digressão.

 

Essa ilusão não durou muito. Meses depois surgiram notícias de que Jeremy e a banda estavam envolvidos numa disputa judicial, alegadamente devido a honorários da música e dos concertos. Como o processo ainda está em decurso, ainda não foi divulgada oficialmente a razão da partida de Jeremy. A ideia com que fico – e posso estar errada – é que, no centro disto tudo, está aquele três vezes maldito contrato celebrado, algures em 2005, entre a Atlantic Records e Hayley Williams, excluindo os restantes membros da banda. O mesmo contrato que já tinha sido um dos motivos para a partida dos irmãos Farro, em finais de 2010.

 

Toda esta história dá-me vontade de bater com a cabeça numa parede. Aquando do Self-Titled, a ideia que os Paramore davam era de que a banda tinha resolvido os seus problemas, aprendido com os erros cometidos. O trio estava mais forte, mais unido do que nunca, capaz de sobreviver a tudo. Eu acreditei nisso. Talvez os próprios membros da banda acreditassem nisso.

 

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Mas a verdade é que não devia ter ficado surpreendida. A banda nunca teve estabilidade – desde a ausência de Jeremy das gravações de All We Know Is Falling, passando pela saída dos irmãos Farro, e agora isto. A verdade é que Hayley tem sido a única constante em Paramore (ainda que Taylor só não se tenha juntado oficialmente à banda até depois do lançamento de Riot! porque os seus pais não deixaram). Por um lado, toda a gente sabe que Hayley podia, desde o início, optado por uma carreira a solo. Se não o fez até agora é porque, obviamente, não o quer. Por outro lado, para os membros estarem sempre a entrar e a sair, alguma coisa não está bem.

 

Não quero pensar que Hayley seja o problema. Ela parece ser uma miúda simpática, com valores parecidos com os meus – aliás, é atualmente uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música. Mas como não a conheço pessoalmente, não dá para ter a certeza.

 

Nestas alturas, a música Pressure, do primeiro álbum, faz mais sentido do que nunca.

 

 

Em defesa deles, os membros da banda parecem tão frustrados com esta história toda como eu. Ainda mais, já que esta é a vida deles. Hayley tem referido várias vezes que pensou em desistir. Disse que os Paramore parecem mais uma novela do que uma banda, que estava farta de perder amigos e de se questionar sobre o que estava a fazer de errado. Considerou várias alternativas: dedicar-se à sua linha de tintas para o cabelo, ter uma família (ela casou-se no ano passado), compôr para outras pessoas, começar um projeto diferente com Taylor.

 

Terá sido este último a salvar os Paramore, segundo Hayley. Taylor disse-lhe que a apoiaria independentemente da decisão que ela tomasse relativamente à banda. Isso aliviou a pressão sobre Hayley – que, no meio desta história toda, chegou a debater-se com depressão e ansiedade. Assim, os dois foram compondo música a pouco e pouco.

 

Entretanto, Taylor chamou Zac, o mais novo dos irmãos Farro, para tocar bateria no álbum novo. Inicialmente, veio apenas como músico contratado. Ao fim de algum tempo, Taylor convidou Zac para regressar oficialmente à banda. Ele disse que sim.

 

Toda a gente ficou feliz, como seria de esperar. Em primeiro lugar, Zac é um ótimo baterista e sentiu-se a falta dele em certos momentos do Self-Titled. A música dos Paramore fica a ganhar. Além disso, eu mesma referi, há pouco mais de dois anos, que tinha esperanças de que, um dia, os irmãos Farro regressassem. Cinquenta por cento desse desejo já se realizou.

 

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Mas fica um amargo de boca por Jeremy já lá não estar.

 

Os membros da banda chegaram mesmo a dizer que já não sabem muito bem por que os Paramore continuam a ser uma banda. Nesta altura, deve ser só por nós, os fãs – porque eles sabem que a música deles é uma das coisas que nos ajuda a sobreviver. Eu, apesar de tudo, fico grata por isso. E, agora, teremos um álbum novinho em folha daqui a menos de duas semanas.

 

Suponho que haja uma qualquer metáfora para a vida no meio desta história toda. Talvez seja assim que as coisas funcionem: uma batalha sem fim, com perdas e ganhos, cometendo os mesmos erros, sempre a desfazermo-nos e a reconstruirmo-nos outra vez, sempre a aprendermos. Uma pessoa vai continuando, às vezes só por causa daqueles que ama, às vezes só porque… qual é a alternativa?

 

 

Gonna make you wonder why you even try

 

Com isto tudo, vamos quase em mil palavras e ainda nem sequer falámos de Hard Times. Mas eu tinha de escrever sobre as aventuras e desventuras dos Paramore nestes últimos anos porque, na minha opinião, a letra da música fala sobre elas. As estâncias falam claramente sobre depressão, com referências a um buraco onde nos enfiar até os nossos problemas terem desaparecido e a uma nuvem negra que nos segue para todo o lado. No refrão, questiona-se mesmo como é que se consegue aguentar tudo isto e continuar.

 

Na verdade, a letra de Hard Times não me impressiona por aí além. Não me interpretem mal, não a acho má. É, aliás, melhor que muito do que se ouve por aí. No entanto, cai muito nos clichés habituais de Paramore. Por exemplo, o primeiro verso (“All that I want is to wake up fine”) remete para Last Hope – “Every night I try my best to dream tomorrow makes it better”. “Tell me that I’m alright” recorda-me Tell Me It’s Okay. Os versos “And I’m gonna get to rock bottom!” e “We’ll kick it when I hit the ground” fazem lembrar Turn It Off: “I’m better off when I hit the bottom”. Eu podia continuar. Não há nada na letra de Hard Times que não tenhamos ouvido antes, o que é uma pena.

 

Isso, de resto, é a única falha que tenho a apontar a Hard Times – e nem sequer a acho grave no primeiro single de um álbum novo. A letra pode não trazer nada de novo, mas o mesmo não se passa com o acompanhamento musical. Depois de músicas como Grow Up, Still into You e Ain’t it Fun, Hard Times parece lógica como o passo seguinte. À semelhança de Ain’t it Fun, Hard Times começa com notas de xilofone, que são rapidamente substituídas por notas de guitarra – são estas as responsáveis pelo ritmo dançante da música. Ouvem-se também algo que se assemelha a tambores africanos, algo que se mantém durante toda a faixa. A bateria de Zac dá personalidade à música (sobretudo numa altura em que este instrumento está em vias de extinção). No refrão, noto elementos de Daft Punk - sensação que se reforça no fim da música, com os vocais distorcidos.

 

Não sei se o mesmo aconteceu com vocês, mas eu demorei algum tempo a decifrar esses vocais. Se não estou em erro, dizem “Makes you wonder why you even try” e “Still don’t know how I even survive”. Em suma, em termos musicais, à semelhança das melhores músicas do Self-Titled, Hard Times conjuga vários elementos de forma primorosa, podendo-se ouvir a contribuição de cada membro da banda. Eu gosto. Não estou propriamente caída de quatro, mas também não estava por Now quando esta foi lançada e, com o tempo, a música foi ganhando novos significados. Estou certa de que o mesmo acontecerá com Hard Times. Sobretudo quando puder ouvi-la no contexto do álbum. Para já, espero que não demore muito a chegar às rádios portuguesas.

 

 

O quinto álbum dos Paramore chama-se, então, After Laughter, e sai dia 12 de maio. Sim, daqui a menos de duas semanas. Confesso que fiquei estonteada com esse anúncio, ainda estou. Um dia, tínhamos a vaga ideia de que os Paramore estariam a trabalhar num álbum, algumas pistas como músicas registadas no site da ASCAP. No dia seguinte, temos nome, capa, tracklist, data de lançamento, primeiro single com videoclipe e pessoas que já ouviram o álbum (inveja!). Tendo em conta que os álbuns da Avril Lavigne têm sempre um parto longo e complicado (e o sexto álbum não está a ser exceção), esta é uma alternativa atordoante, mas muito mais agradável.

 

Segundo Hayley, o título After Laughter (a melhor tradução que me ocorre é “Pós-riso”) refere-se àquele momento após uma gargalhada em que regressamos à realidade. Dá para ver, assim, que este álbum vai ser animado… só que não. Quem já ouviu o álbum dá a entender que o resto será semelhante a Hard Times. Ou seja, os Paramore vão fazer o que fazem desde o início da sua carreira: queixar-se da vida. A diferença é que, enquanto antes, Paramore depressivo equivalia a guitarras pesadas e estética emo, agora equivale a música rítmica, falsamente alegre (o nome de uma das faixas novas é Fake Happy, por sinal), e tons pastel.

 

Gostava de chamar a atenção para o símbolo no centro da capa: as barras de néon que criam uma ilusão de ótica, de modo que não sabemos se são duas ou três. É obviamente uma variante do símbolo que a banda adotou em 2011, uma provável alusão à recente troca de membros. Eu, de qualquer forma, gosto imenso deste símbolo. Já encomendei, até, um dos conjuntos de merchandising da banda que inclui uma t-shirt preta com este símbolo, para além do álbum em CD (uma encomenda que, admito, foi para aí quarenta por cento impulso).

 

Havemos de falar mais sobre os Paramore quando analisar o resto de After Laughter. Ainda não decidi se analiso faixa por faixa, por ordem crescente de preferência, ou se analiso em texto corrido. Mas vou tentar publicá-la não muito depois do lançamento do álbum. Entretanto, vou ganhar vergonha na cara e ver se acabo e publico de vez a análise ao quarto filme de Digimon Adventure Tri.

Músicas Não Tão Ao Calhas - Liability e Battle Symphony

Uma semana após lançar Green Light, a cantora neo-zelandeza Ella Yellion-O’Connor, de nome artístico Lorde, disponibilizou mais uma canção do seu próximo álbum, Melodrama. Esta chama-se Liability. A minha ideia era analisá-la logo a seguir ao lançamento. No entanto, precisei de alguns dias para decifrar esta canção. Como, entretanto, os Linkin Park lançaram hoje Battle Symphony – o novo single do seu próximo álbum, One More Light – resolvi analisar ambas as canções no mesmo texto.

 

Primeiro as senhoras...

 

  

I’m a little much for everyone”

 

Acho que nunca tínhamos ouvido Lorde soando tão triste. Fiquei de coração partido depois de ouvir esta faixa pela primeira vez. Liability é só piano e voz. Como acontece com as melhores canções de Lorde, a voz faz o trabalho todo – transmitindo na perfeição toda a dor, vulnerabilidade e autocomiseração da narradora.

 

Tal como acontece com Green Light, a letra de Liability tem várias camadas e múltiplas interpretações possíveis. Das primeiras vezes que ouvi Liability, pensei que esta se referia ao fim de uma relação amorosa – alguém que se tinha envolvido com a narradora, tratando-a como um mero divertimento temporário, abandonando-a quando se fartou dela ou ela pediu mais.

 

Não que esta interpretação não seja legítima, mas Lorde revelou que não compôs Liability pensando em relações amorosas. Em várias entrevistas, Ella disse que se inspirou naquelas situações, em que tentamos fazer amizades, mas receamos que os outros nos achem um fardo. Também se terá inspirado nas consequências negativas da sua fama – por ela ser uma celebridade, as pessoas próximas de si, por contágio, são obrigadas a lidar com a perda de privacidade, o escrutínio por parte do público.

 

É de admirar que Ella sinta que só atrapalha a vida das pessoas à sua volta?

 

Perante tudo isto, é natural que Lorde acabe por se virar para si mesma, por se tornar a sua própria melhor amiga.

 

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Confesso que me identifico com a letra de Liability. Já referi várias vezes aqui no blogue que sou introvertida e não faço amigos facilmente. Também já tive situações em que me senti indesejada. Ou que senti que não sou assim tão cativante para que as pessoas se interessem por mim a longo prazo, que sou demasiado estranha para a maior parte das pessoas.

 

É claro que isto é apenas a minha perceção, pode nem sequer corresponder à verdade.

 

De qualquer forma, também prefiro, muitas vezes, fazer companhia a mim mesma, tal como Lorde refere. Eu, porém, se tivesse oportunidade de dar um conselho a Ella, sugerir-lhe-ia uma alternativa ao isolamento: um cão. Conforme tenho vindo a aprender com a minha cadela, Jane, os cães estão sempre felizes por nos verem, não tecem juízos de valor, não se fartam de nós. São uma ótima companhia.

 

Por norma, é muito fácil esquecermo-nos que Ella é ainda muito nova. Em Liability, no entanto, nota-se essa juventude. Creio que uma pessoa mais velha não escreveria de uma forma tão crua e emotiva, com um pouco de autocomiseração à mistura. A própria Lorde admite que compôs esta canção numa altura em que sentia pena de si própria.

 

  

A ideia com que fico é que esta deverá ser a regra para este álbum: emoções cruas, exageradas, que poderão não corresponder cem por cento à realidade, tipicamente adolescentes. Talvez seja essa a explicação para o título Melodrama. Lembra-me, um pouco, Under My Skin, de Avril Lavigne. Este álbum também teve momentos melodramáticos que, conforme se veio a descobrir, foram apenas uma fase.

 

Em todo o caso, estou a gostar muito do que conhecemos, até agora, de Melodrama: duas músicas muito complexas, com diversas camadas e significados que se vão multiplicando com o tempo. Que inspiram testamentos aqui no meu blogue. Mal posso esperar por ouvir o resto.

 

Mas antes ouviremos One More Light, dos Linkin Park, que incluirá Battle Symphony.

 

 

All the world in front of me”

 

Conforme escrevi anteriormente, o primeiro single de One More Light, Heavy, desiludiu-me. Battle Symphony tem várias semelhanças com Heavy – a sonoridade suave, eletropop, radiofónica, os vocais melodiosos de Chester – mas, na minha opinião, está uns quantos furos acima do primeiro single de One More Light.

 

Para começar, o instrumental, sem ser nada de extraordinário ou mesmo original, é mais rico que o de Heavy. A minha parte preferida é o início do primeiro refrão, quando a bateria imita uma marcha militar – o que condiz com a letra. Gostava de tê-la ouvido mais vezes ao longo de Battle Symphony.

 

Mesmo assim, continuam a faltar guitarras elétricas.

 

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Devo dizer, também, que, apesar de pop, a melodia é cativante. Depois de ouvir várias vezes a música, dei por mim a cantarolar o refrão. A minha parte preferida, contudo, é a terceira estância.

 

A letra, infelizmente, deita um pouco a canção abaixo. Não que seja má. No entanto, tal como acontece em Heavy, é demasiado vaga, perde-se em clichés. Battle Symphony é a típica “fight song”, não traz nada de novo a um tema já muito batido.

 

Continuo insatisfeita com o estilo mais pop, mais comercial, contra o carácter da banda, que, ao que parece, os Linkin Park adotaram para este álbum. Dito isto, não me queixarei... muito... se o resto de One More Light for semelhante a Battle Symphony, desde que com letras melhorzinhas. De qualquer forma, prognósticos só depois de o álbum sair.

 

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Não devemos ficar por aqui em termos de música dos meus artistas preferidos – longe disso. A foto acima parece mostrar que os Paramore estão a filmar um videoclipe. O que quererá dizer que teremos um single muito em breve (máximo dos máximos daqui a um mês, juntamente com o videoclipe... acho eu).

 

Somando a isso o possível sexto álbum de Avril Lavigne, que mudou de gravadora e tudo (apesar de, por norma, estas coisas demorarem muito mais com a Avril), esperam-nos muitas mais entradas de Músicas Não Tão Ao Calhas nos próximos tempos. Por um lado, é excitante voltar a escrever regularmente sobre música. Por outro, tenho medo de não conseguir dar conta do recado. Durante os últimos dois anos tivemos muitos poucos lançamentos novos por parte deste pessoal. Agora, está tudo a lançar música ao mesmo tempo. Vão ser muitos textos para escrever... quando existem outros sem ser sobre música na minha lista de prioridades.

 

Vou tentar despachar esses textos nas próximas semanas, nesse caso – incluindo um sobre um assunto que não abordo há imenso tempo. Continuem por aí, então.

Músicas Não Tão Ao Calhas - Green Light

A cantora neo-zelandeza Ella Yelich-O’Connor, de nome artístico Lorde, lançou no passado dia 2 de março o single Green Light – o primeiro do seu segundo álbum de estúdio, Melodrama, que sairá dia 15 de junho.

 

“Did it frighten you? How we kissed when we danced on the light-up floor?”

 

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Green Light representa um desvio significativo relativamente ao estilo de Pure Heroine – mas não um desvio assim tão grande como uma parte dos fãs parece acreditar. A música de Lorde sempre incorporou elementos discretos de dance music – temas como Ribs, A World Alone e Bravado têm um certo carácter dançante. Esse carácter é ainda mais pronunciado em temas como Yellow Flicker Beat (da banda sonora dos filmes dos Jogos da Fome) e Magnets (a colaboração com Disclosure). Tendo tudo isto em conta, não, não me chocou particularmente que Lorde tivesse querido abraçar a dance music no seu segundo álbum – em Green Light, pelo menos.

 

Não se deixem enganar pela sonoridade à primeira vista radiofónica. Green Light está longe de ser um tema EDM de consumo rápido, daqueles que povoam a rádio dos dias de hoje. Pelo contrário, esta é uma daquelas músicas que precisam de ser ouvidas várias vezes para serem devidamente apreciadas.

 

Green Light é uma canção muito complexa, com muitos elementos. O piano é o instrumento predominante (consta que Ella e o seu produtor, Jack Antonoff, se inspiraram num concerto a que assistiram na véspera da composição de Green Light). A música começa calma e misteriosa, acelerando ligeiramente após alguns versos. A certa altura, no pré-refrão, o tom muda e o riff do piano, no fundo, vai criando um crescendo até ao explosivo refrão.

 

Lorde sempre se destacou pela sua voz grave e luxuriante, sem se tornar sonolenta (um feito de que Lana del Rey não é capaz). Em Green Light, Ella exibe todo o potencial da sua voz: ora acelerando ora abrandando a melodia, alternando sem dificuldade entre agudos e graves. O refrão torna-se um pouco repetitivo, mas os backvocals gritando “I’m wating for it That green light! I want it!” são irresistíveis.

 

  

Lorde afirmou, em entrevista, que Green Light foi inspirada pelo seu primeiro grande desgosto amoroso (recordemo-nos que ela ainda é novinha, só tem 20 anos). A letra, de facto, parece referir-se a uma fase ainda precoce de uma separação, em que a narradora está a tentar desesperadamente seguir em frente, sem grande sucesso. Temos referências a casos de uma noite única, “visões” do antigo amado em sítios inesperados, raiva. Lorde chegou mesmo a referir que a imagem que tem da narradora é a de uma rapariga embriagada, que se esforça por se divertir e não se ralar mas que, no fundo, chora pelo ex-namorado – de facto, por vezes, as pessoas que parecem mais alegres, mais exuberantes, são aquelas que mais sofrem em silêncio. Esta música, com uma sonoridade alegre mas letra amarga, exemplifica bem esta contradição. A narradora de Green Light está à espera do “sinal verde”, do momento em que poderá libertar-se de tudo, seguir em frente.

 

Como podem ver, Green Light possui diversas camadas, emoções contraditórias, sem perder a consistência. É possível, até, que vá ganhando novos significados com o tempo. Depois da desilusão que foi Heavy, é um alívio receber uma canção como Green Light, sinceramente.

 

À semelhança do recente single dos Linkin Park, Green Light é uma mudança significativa relativamente ao estilo anterior. Como seria de esperar, nem todos os fãs estão a reagir bem a isso. Mesmo eu não sei se me agrada completamente que Lorde entre em território mais dance pop. A diferença é que Green Light tem qualidade, está bem trabalhada, tem muito para oferecer. Quando é assim, sabe bem escrever sobre música!

 

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O álbum Melodrama estará disponível para pré-venda no próximo dia 10. Consta que, nessa altura, publicarão mais uma faixa do álbum. Depois de Green Light, estou ansiosa por mais música de Lorde. Tentarei analisá-la aqui no blogue, mas não estou em condições de prometer nada.

 

Porquê? Porque, com tudo o que tem acontecido e com a minha falta de organização, estou neste momento a trabalhar em três textos diferentes (quatro, se contarmos com este). Um deles é, obviamente, a análise ao último filme de Digimon Adventure Tri, mas esse ainda está em fase de planeamento. Vou tentar ir publicando estes textos ao longo das próximas semanas. A análise a Soshitsu deverá vir dividida em duas partes, à semelhança do que aconteceu com os dois filmes anteriores de Tri. Outro dos textos em que estou a trabalhar neste momento terá três partes, em princípio. Somando a isso a análise a uma possível música de Lorde e o blogue estará bastante ativo nos próximos tempos.

 

Por isso, continuem desse lado.

Digimon Adventure Tri - Kokuhaku (Confissão) #2

Segunda parte da análise a Kokuhaku (primeira parte aqui).

 

1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo do primeiro, segundo e terceiro filmes de Digimon Adventure Tri e, possivelmente, dos enredos de Adventure e 02. Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas - na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Apesar de as legendas do filme usarem os nomes japoneses das Crianças Escolhidas, eu vou usar as versões americanizadas dos nomes, visto que estou mais habituada.

 

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O último dos cinco episódios em que Kokuhaku foi dividido assemelha-se, nalguns aspetos a um epílogo. Há quem diga que esta parte podia ter sido emitida separadamente, mais ou menos a meio entre a exibição do terceiro e do quarto filmes, em jeito de episódio especial. Faria sentido, se mudassem um ou outro pozinho. Mas, se já agora ficámos todos arrasados com Kokuhaku, imaginem como ficaríamos se tivesse acabado no quarto episódio. Não, Kokuhaku não podia terminar assim. Não sobreviveríamos aos cinco meses até ao próximo filme.

 

Este episódio ocorre uma semana após o Reinício. Vemos os Escolhidos em depressão, como seria de esperar, tentando processar o que aconteceu. Pelas palavras de Maki, percebemos que o que se espera é que os Digimon sejam rapidamente esquecidos pela população e que os Escolhidos continuem as suas vidas, como se nada tivesse acontecido, como se nunca tivessem conhecido os Digimon. Que, em suma, cresçam.

 

Essa será também uma indireta para nós, a audiência? Nós que estamos aqui, vendo a continuação de algo que marcou a nossa infância?

 

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Izzy é o primeiro a revoltar-se contra essa ideia. Quando T.K. desabafa com ele por não ter conseguido evitar aquele desfecho, o amigo chega mesmo a dizer “Não interessa o que não conseguiste fazer, interessa o que vais fazer agora.” Os amigos, de início, recusam mas, no fim, concordam. Eles podiam ter optado por fazer o mesmo que os seus Digimon tinham sido obrigados a fazer: viver como se nada tivesse acontecido, como se Adventure e 02 tivessem sido apenas sonhos. Mas não o fizeram. Eles escolheram honrar tudo aquilo por que passaram ao longo dos anos com os seus Digimon e voltar ao Mundo Digital mais uma vez.

 

Isto é significativo. Pode-se argumentar que, desde o primeiro de agosto de 1999, os miúdos apenas têm reagido ao que lhes acontece. Nunca escolheram eles mesmo irem ao Mundo Digimon pela primeira vez; foi uma outra entidade (a Homeostase?) que, quase literalmente, pegou nos miúdos e os atirou para o Mundo Digital. Noutras ocasiões (incluindo os miúdos de 02), eles puderam escolher se regressavam ou não, mas era sempre sabendo que o Mundo Digimon precisava deles. Até àquele momento, Tri tinha seguido essa regra: coisas acontecem, os Escolhidos intervém (ou recusam-se a fazê-lo, como Tai e, sobretudo, Joe).


Esta será a primeira vez que os Escolhidos regressam sem serem solicitados (a menos que considerem uma solicitação o som de um apito que Tai ouve, no momento em que decide regressar. Mais sobre isso adiante.). Tanto quanto sabem, o Mundo Digimon não precisa deles, não tem nada para eles – os seus Digimon, provavelmente, nem sequer se lembram deles. A partir de agora, eles não são heróis porque a Homeostase ou outra entidade semelhante os Escolheram. Eles são heróis porque eles Escolheram sê-lo.

 

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O que nos remete para os primeiros teasers relacionados com Tri. Neste vídeo, aparece Tai perante Agumon dizendo: “Finalmente reencontrei-te. Este mundo escolheu uma realidade e um futuro que não deveria ter escolhido. E é por essa razão que eu aqui estou.” Conforme apontaram aqui, depois de Kokuhaku, estas palavras fazem muito mais sentido. Além de que o primeiro poster de Tri parece ter como cenário mais ou menos o mesmo local onde os Escolhidos reencontram os seus Digimon, no fim do terceiro filme. Talvez tenha sido essa a intenção dos digi-guionistas desde o início: mostrar que, mesmo com as suas crises existenciais, mesmo que tenham uma hipótese se se afastarem de tudo aquilo e seguirem em frente, as eternas Crianças Escolhidas nunca virarão costas ao Mundo Digimon.

 

Não terá sido por acaso que, no momento da decisão, toca Butterfly pela primeira vez em todo o filme (tirando, obviamente, os genéricos dos episódios). Butterfly é a canção que tocava nos genéricos da primeira temporada de Digimon, é a música que associamos ao início da aventura. Até a própria letra se adequa à situação: os Escolhidos vão tentar colocar de lado os seus próprios traumas e inseguranças, pegar em asas pouco firmes e voar aos encontro dos seres que amam.

 

Mas estou a adiantar-me, pois existem ainda assuntos por resolver antes de eles regressarem. Falo de Meiko. Tendo ela uma experiência diferente como Escolhida, é natural que as suas atitudes difiram das dos amigos. Meiko revela a T.K. que sabia que Meicomoon estava Infetada desde o momento em que a encontrou. Isto explica os traços de relacionamento mãe-galinha e criança insegura que notei em Ketsui. Ao perceber que existia alguma coisa de errado com Meicoomon, era natural que Meiko se tenha tornado demasiado protetora da sua companheira Digimon. Da mesma forma, também era natural que Meicoomon desenvolvesse a tendência para vaguear, embora não soubesse tomar conta de si mesma.

 

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Tudo poderia ter sido evitado caso Meiko tivesse sido sincera para com os outros Escolhidos desde o momento em que Meicoomon matou Leomon. E, no entanto, da mesma maneira como se compreendeu a omissão da infeção de Patamon por parte de T.K. e a omissão do Reinício por parte dos Digimon, também se compreende esta omissão por parte de Meiko. Não me orgulho disso mas eu, provavelmente, teria feito o mesmo se estivesse no lugar dela.

 

Ando, aliás, a identificar-me cada vez mais com ela. Meiko é a miúda nova, acabada de se mudar para a cidade, sem grande aptidão para socializar. Tal como referi anteriormente, os outros Escolhidos foram impecáveis com ela, desde o primeiro momento. Como alguém que não faz amigos facilmente, posso testemunhar o quão tocantes são gestos como Mimi defendendo-a das perguntas de Izzy, Sora oferecendo-lhe literalmente um ombro onde chorar, T.K escolhendo-a para confidenciar acerca de Patamon. Com que cara ia Meiko dizer que a sua inclusão no grupo, todos os gestos de carinho a ela dirigidos e a Meicoomon, tinham sido precisamente aquilo que, passe a expressão, os lixou a todos?

 

Desse modo, é compreensível que Meiko não se sinta no direito de ir ao Mundo Digital e voltar a ver Meicoomon. Não só por se sentir responsável por tudo o que aconteceu até ao momento em Tri, mas também porque sente que, ao menos agora, livrou-se do fardo de ter de manter Meicoomon sobre controlo. O que ao mesmo tempo a alivia… e lhe aumenta ainda mais o sentimento de culpa.

 

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Se houve coisa que aprendemos com o arco narrativo de Joe em Ketsui é que, independentemente dos nossos problemas pessoais, das nossas neuroses, não viramos costas aos nossos Digimon. É essencialmente isso que T.K. diz a Meiko antes de partir, bem como o facto de ela continuar a ser bem-vinda no grupo (a meio da conversa com Meiko, T.K. ouve o mesmo som de um apito que Tai ouvira antes). E, de facto, Meiko acaba por mudar de ideias mas, quando procura ir ter com os amigos, estes já partiram.

 

É possível que Meiko, a certa altura, vá ter com os outros Escolhidos ao Mundo Digital. Por outro lado, talvez ela opere como Escolhida a partir do Mundo Real, sozinha ou em colaboração com Daigo, Maki e/ou o seu pai.

 

Gostava de comentar o facto de os oito terem partido para o Mundo Digital envergando os respetivos uniformes escolares. Não sou de todo fã da ideia. Uma das coisas que mais gostava em Adventure eram os looks diferentes de cada um dos miúdos, a forma como estes refletiam as personalidades e os Cartões de cada um (talvez um dia escreva sobre isso). Há uns meses, aliás, um post no Tumblr fez-me pensar na roupa que usaria no Mundo Digital, se pudesse escolher (é outro possível tema para um texto: o que levaria comigo se visitasse o Mundo Digimon). Camisas brancas (que se sujam facilmente), gravatas ou lacinhos, saias plissadas ou calças de fazenda seriam as minhas últimas escolhas (exceptuando vestidos de gala e saltos agulha). Custa-me a acreditar que os miúdos tenham escolhido essas roupas, sobretudo quando eles estavam já de férias. O motivo mais provável é, pura e simplesmente, o fetiche que a animação japonesa tem por uniformes escolares.

 

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Pouco depois de regressarmos ao Mundo Digital, dá para ver que algo não bate certo. Tanto Izzy como Kari percebem-no. Nós, a audiência, vemos ligeiras corrupções na paisagem. Cedo, reencontramos Alphamon, desta feita lutando contra Jesmon (que, segundo consta, é a forma digievoluída de Hackmon, o Digimon que tem aparecido amiudadas vezes ao longo de Tri, seguindo os acontecimentos à distância. Será o mesmo?). Conforme os próprios Escolhidos assinalam, com o Reinício aquilo não deveria ser possível. Das duas uma: ou eles os dois morreram, renasceram e algo os fez passar do nível Bebé para Extremo em pouco mais de uma semana; ou o Reinício não os afetou, por um motivo ou por outro. Pessoalmente, aposto mais na segunda hipótese, tendo em conta algo de que falaremos adiante.

 

O som de um apito desvia-lhes as atenções. Acabam por encontrar o Tokomon brincando com o apito que Kari deixara a Gatomon, no fim de Adventure. Pergunto-me se é o mesmo som que T.K. ouviu durante a conversa com Meiko. Consta que o apito de Kari já desempenhou um papel importante anteriormente, na parte de Digimon, o filme, que serve de prequela a Adventure. É possível que, como sugerem aqui, que este som tenha cruzado os mundos e chegado aos ouvidos de, pelo menos, T.K.

 

De qualquer forma, enquanto Tokomon brinca com o apito, os outros Digimon juntam-se a ele, todos na forma de Bebé, todos sem reconhecerem nenhum dos Escolhidos.

 

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Mesmo tendo em conta tudo o que escrevi antes, sobre os nossos heróis estarem a escolher o seu próprio destino, em vez de ser o oposto, a amnésia dos Digimon não deixa de doer. E muito. Atrevo-me a dizer que a cena da morte deles, aquando do Reinício, doeu menos que a cena do reencontro. O contraste entre a inocência dos Digimon Bebés e a dor dos Escolhidos – Sora, por exemplo, mal se conseguia controlar. É Izzy quem encontra as palavras certas. Baseando-se nas últimas palavras de Tentomon, o jovem pede aos Digimon Bebés que lhes sirvam de guias.

 

Deixando as emoções um pouco de lado, tenho uma infinidade de perguntas sobre a situação atual, sobre as consequências da amnésia dos Digimon. No início de Adventure, os Digimon reconhecem os respetivos companheiros pelo nome próprio. É certo que, supostamente, os Digimon já teriam conhecido os seus companheiros humanos uns anos antes dos eventos de Adventure. No entanto, Gatomon foi separada dos outros ainda antes de nascer e, mesmo assim, sempre soube que lhe faltava qualquer coisa, que estava à espera de alguém. Nada disso acontece desta vez, aparentemente. Não existiu nenhum indício de ligação especial dos Digimon para com os seus companheiros humanos. Não sei se a digievolução será, sequer, possível nestas circunstâncias.

 

Sabemos, no entanto, que no próximo filme estrear-se-á o Hououmon/Phoenixmon (acerca do qual falei há relativamente pouco tempo, noutras circunstâncias), logo, de alguma forma, a digievolução será possível, pelo menos para Yokomon. E a verdade é que só vimos os Escolhidos com os seus Digimon amnésicos durante um minuto ou dois. Pode ser que o instinto protetor que os caracteriza se manifeste, mais cedo ou mais tarde. Uma trama possível para próximo filme poderia envolver os Escolhidos colocando-se deliberadamente em perigo, numa tentativa de despoletarem esse instinto – estilo o que Tai fez no segundo arco de Adventure, quando quis forçar Greymon a desbloquear o nível Perfeito/Super Campeão. Por outro lado, todos se recordam que o truquezinho de Tai falhou epicamente – Sora chegou a referi-lo na primeira metade de Kokuhaku.  Duvido que os Escolhidos tentem repetir a gracinha, a menos que estejam desesperados.

 

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Também é possível que os Digimon recuperem as memórias, sobretudo se se vier a descobrir que o Reinício não funcionou como se esperava. Do ponto de vista narrativo, fazerem isso logo no próximo filme corre o risco de parecer demasiado fácil, um deus ex-machina. Não que me pareça muito mais plausível que um Yokomon amnésico se afeiçoe a Sora o suficiente para atingir vários estágios de digievolução até chegar a Phoenixmon em apenas um filme (e daí não sei… em Adventure, Byomon começou a adorar Sora como um cachorrinho logo nos primeiros episódios).

 

Voltaremos a este assunto mais à frente. Antes, temos de falar sobre as últimas revelações de Kokuhaku. Nos instantes finais, descobrimos que Meicoomon se lembra de Meiko (pelo menos sabe o nome dela); que o Imperador Digimon é, na verdade, Gennai sob disfarce (whoa!); que Maki consegue vir ao Mundo Digimon (como? Só as quatro bestas sagradas saberão – se não tiverem sido afetadas pelo Reinício) e, aparentemente está a trabalhar com Gennai.

 

Eu, sinceramente, não sei muito bem o que pensar acerca de Maki. Em diversas alturas, ela podia ter evitado certos eventos que tiveram como consequência o Reinício – nomeadamente quando optou por não dizer a verdade sobre Meicoomon aos Escolhidos – mas não o fez. Ao contrário do que se poderá dizer acerca de outras personagens em Tri, acho que Maki sabia perfeitamente o que estava a fazer, quais seriam as consequências das suas ações. Se ainda é prematuro chamar-lhe vilã, eu diria que podemos definitivamente considerá-la uma antagonista: alguém que tem agido contra os interesses dos heróis. Muitos fãs dizem que Maki será, provavelmente, a típica vilã incompreendida. É possível, mesmo provável. O meu problema é que não consigo perceber qual é o objetivo dela, porque é que ela tem tomado as decisões que tomou até agora. Do meu ponto de vista, as motivações de Maki são a maior incógnita de Tri até ao momento. Assim, não consigo simpatizar com ela. Não quando as suas ações causaram tão sofrimento a personagens que conheço e adoro desde os meus onze/doze anos.

 

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De uma coisa podemos ter a certeza: Maki está do lado de Gennai, que parece ter passado para o lado negro da Força (pergunto-me se a bolinha preta que Piedmon lhe enfiou nas costas, nos flashbacks mostrados no último arco de Adventure, terá alguma coisa a ver com isso). Isto faz-me suspeitar que a Homeostase esteja, também, corrompida – daí ter recorrido ao Reinício e ele não ter corrido como o previsto. Se isso se confirmar, se a própria entidade que mantém o equilíbrio do Mundo Digimon está comprometida, os Escolhidos tem um imbróglio daqueles entre mãos.

 

No meio disto tudo, também não sabemos que papel tem o Alphamon nesta história toda. Antes, pensava que o tal Huckmon estava a trabalhar com ele e que os dois, sabendo que Meicoomon está na origem disto tudo, andavam atrás dela (no Digimon Wikia diz que o Huckmon é muito sensível à estabilidade do Mundo Digital). A luta entre Jesmon e Alphamon, no fim de Kokuhaku, contradiz essa teoria. Assim, faz mais sentido que ele esteja a trabalhar para Gennai, como explicam aqui.

 

E, claro, os 02 continuam desaparecidos em combate. A minha suspeita é que Maki tem-nos aprisionados algures – daí possuir o D-3 e o D-Terminal de Ken. Às tantas esse seria o destino mais desejável. Num cenário alternativo, eles estariam no Mundo Digimon aquando do Reinício… o que não me parece nada agradável. Outra questão que se coloca diz respeito ao efeito que o Reinício terá tido nos outros Escolhidos espalhados pelo mundo, que conhecemos em 02.

 

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Todas estas perguntas que continuam por responder deixaram vários fãs insatisfeitos com Kokuhaku. Ainda que compreenda esse ponto de vista e me tenha fartado de me queixar do mesmo na análise a Ketsui, desta feita não acho que isso seja tão grave. Ao contrário dos filmes anteriores, em Kokuhaku aconteceram coisas, a história avançou – finalmente. Além disso, perguntas por responder são a definição de tensão numa história, aquilo que nos faz virar páginas num livro, ficar vidrado no ecrã durante um filme ou o episódio de uma série. Se todas as perguntas estivessem respondidas nesta altura do campeonato, em que Tri vai a meio, qual era o interesse de vermos os três próximos filmes?

 

Acho, aliás, que Kokuhaku é o melhor filme de Tri até agora. Como referi no parágrafo anterior, tivemos avanços significativos na narrativa. Mas, mais do que outra coisa, Kokuhaku apostou naquilo que sempre foi o ponto forte de Digimon: as suas personagens. T.K. e Izzy destacaram-se, sim, mas, ao contrário do que aconteceu em Ketsui, todos os Escolhidos tiveram o seu momento (tirando Kari, que continua a ser pouco mais que uma espécie de mensageira divina). Com as voltas que o enredo deu, era inevitável – isto não é uma menorização, pelo contrário. Estão a ver as coisas boas que acontecem quando não perdemos tempo com visitas a termas e festivais culturais, digi-guionistas?

 

Kokuhaku, aliás, apostou muito no drama, ao ponto de deixar-me emocionalmente arrasada durante pelo menos três dias – não me lembro de alguma vez ter ficado assim por causa de um trabalho ficcional. Não cheguei a chorar porque não consigo, vai além disso. Ainda hoje me custa rever certas cenas. O facto de eu conhecer estes Escolhidos e os seus Digimon desde miúda predispôs-me para estas reações, sim. No entanto, só prova que que os digi-guionistas fizeram as coisas bem desde o início: criaram um elenco de jovens protagonistas bem construídos, com qualidades e defeitos, com quem sempre nos identificámos. Estes tornaram-se reais para nós, velhos amigos de infância. O único outro elenco em que algo semelhante aconteceu comigo foi o de Harry Potter – o que é significativo, tendo em conta que, desde miúda, me farto de consumir ficção. Os digi-guionistas merecem louvores por isso.

 

Por outro lado, o maior defeito de Tri tem sido, até agora, o ritmo da história – como referi no início da análise, o tom mudou demasiado de repente entre Ketsui e Kokuhaku. Se já não tinha gostado assim muito do segundo filme quando este saiu, a comparação com o terceiro fá-lo parecer ainda pior. Quero acreditar que os próprios guionistas deram por isso, daí terem prolongado o intervalo de lançamento entre Ketsui e Kokuhaku.

 

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O próximo filme de Tri sai no dia 25 de fevereiro do próximo ano. Eu estava com esperanças de que saísse um mês antes, mais coisa menos coisa, mas desta vez não me importo com o longo intervalo. A espera por Kokuhaku acabou por não me custar assim muito – o Euro 2016 e Pokémon Go ajudaram. Além disso, conforme comentou comigo o António da página Odaiba Memorial Day em Portugal (mais sobre isso já a seguir), quanto menores os intervalos entre os lançamentos dos filmes, mais depressa Tri acabará. Como não quero que acabe demasiado depressa, tão cedo não me torno a queixar – sobretudo se isso permitir aos produtores elevarem a qualidade dos filmes, como aconteceu do segundo para o terceiro. Por outro lado, se o intervalo se mantiver, talvez o quinto filme saia perto do Odaiba Memorial Day do próximo ano.

 

O quarto filme chamar-se-á Soshitsu, que significa Perda – ou seja, não ficaremos por aqui em termos de drama, ao que parece. No poster aparece Sora com Phoenixmon, bem como Tai e Matt, o que tem levado muita gente a pensar que vamos ter um triângulo amoroso. Eu, muito sinceramente, espero que não pois, como já disse várias vezes cá no blogue, não quero que Sora seja reduzida a interesse amoroso. Além de que existem possíveis linhas narrativas envolvendo a jovem bem mais interessantes.

 

Conforme referi antes, Kokuhaku mostra Sora abraçando por completo o seu estatuto de mamã do grupo, tomando conta de toda a gente. O Reinício, no entanto, tirou-lhe a única criatura que tomava conta dela e, como se pode calcular do seu comportamento quando reencontrou Yokomon, Sora não está bem. Conforme explica este post no Tumblr, no pós-Reinício, antes da ida para o Mundo Digimon, vemos Sora na cama, fitando o seu telemóvel com um olhar vazio – o telemóvel através do qual falava com os amigos todos, certificando-se de que estavam bem. Não sendo ela capaz de tomar conta de si mesma ou, se calhar, de aceitar a ajuda de outros, como poderá ela tomar conta de toda a gente? Não me admiraria se o seu arco em Soshitsu se baseasse nessa ideia: Sora incapaz de cumprir o papel que impôs a si mesma de mamã do grupo e odiando-se por isso.

 

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De qualquer forma, estou muito feliz por, aparentemente, a minha personagem preferida ir receber tempo de antena de que precisava há muito. Digi-guionistas, por favor, não estraguem isto.

 

Por outro lado, o facto de, agora, estarmos no Mundo Digimon promete. Gosto muito de ver Digimon no Mundo Real, os jovens conjugando as suas vidas normais com os seus deveres como Escolhidos.  No entanto, é quando estes estão confinados ao Mundo Digimon, à companhia uns dos outros, sem poderem fugir às adversidades, que as suas personalidades se revelam, que surgem os conflitos, quer individualmente, quer uns com os outros. Estou curiosa relativamente à dinâmica do grupo agora, que passaram seis anos desde a última vez que estiveram juntos no Mundo Digimon durante mais do que algumas horas. Por exemplo, tenho quase a certeza que Tai deixará de ser o líder – Matt e Izzy têm mostrado muito mais espírito de iniciativa. Não me admirava, aliás, se fosse esse o motivo pelo qual Tai e Matt aparecem no poster de Soshitsu: os dois rapazes entrando em conflito a propósito da liderança do grupo. De qualquer forma, a segunda metade de Tri promete.

 

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Eu sei que isto já vai mais comprido do que devia mas, antes de terminar, queria escrever sobre as celebrações do Odaiba Memorial Day deste ano, que incluíram um encontro de fãs portugueses no Parque das Nações. Eu estive lá, tal como desejava, mas não pude aproveitar como queria. Passei o dia quase todo preocupada com assuntos pessoais, perdi-me à procura do ponto de encontro (o stress não ajudou) e tive de sair mais cedo.

 

Tirando isso, gostei imenso da experiência. Houve, entre outras coisas, cantoria – incluindo este momento hilariante – mostra de dispositivos digitais e outros artefactos (como poderão ver, cheguei a usar o Cartão da Coragem para a foto de família – tenho de arranjar um, do Amor, para mim), batalhas entre digivices e o quiz. Cheguei a participar neste último mas, como só conhecia o universo de Adventure, o meu desempenho não foi brilhante – mas diverti-me à mesma!

 

Adorei conhecer outros fãs de Digimon, sobretudo o António (que organizou aquilo tudo) e o Danny d’A minha vida em bits. Gosto sempre de conhecer pessoas com as mesmas maluqueiras do que eu – apesar de a minha timidez ser quase incapacitante em circunstâncias como estas. Cheguei a imaginar o que aconteceria se, de repente, abrisse ali mesmo um portal para o Mundo Digimon e nos tornássemos todos Escolhidos, como funcionaríamos como grupo. O mais certo era eu colar-me ao António e ao Danny, aqueles que eu conhecia “melhor” (das emissões de rádio do primeiro, do canal de YouTube do segundo) e que, provavelmente, saberiam mais sobre Digimon do grupo (embora pudesse estar enganada). Foi uma boa experiência. Ainda é cedo para se falar do Odaiba Memorial Day do próximo ano mas, se o encontro se repetir e eu puder ir, vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para estar lá a hora e ficar até ao fim, sem distrações.

 

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Tudo isto será, provavelmente, uma coincidência, mas ultimamente tem sido difícil “crescer”. Várias franquias que marcaram a minha infância e adolescência escolheram mais ou menos a mesma altura para fazerem uma espécie de renascimento. Pokémon voltou a estar na moda após Pokémon Go (embora a febre já tenha arrefecido). Saiu um novo “livro” do Harry Potter e temos Digimon Adventure Tri há quase um ano. (Além disso, começou a ser emitida em outubro uma nova série de Digimon: Digimon Universe Appmon. Ainda não vi porque, até agora, só vi Adventure e as suas sequelas. Se resolver explorar para além desse universo, começarei por Tamers). Tem sido, aliás, esse o principal tema de Tri: o “coming of age”, o conflito entre o passado e o futuro, entre infância e idade adulta.

 

Na minha opinião, o facto de continuarmos a regressar, outra e outra vez, a estes mundos que marcaram a nossa infância, não significa que sejamos todos criancinhas no corpo de adultos (pelo menos é o que gosto de pensar). Em vez disso, é mérito dessas franquias por terem sido capazes de nos manterem interessados ao longo de todos estes anos, por terem crescido connosco, evoluído connosco. Tenho a certeza que, no fim de Tri, os protagonistas descobrirão que, mesmo que cresçam, comecem a trabalhar, a constituir família, nunca deixarão de ser Crianças Escolhidas. Da mesma maneira, nós nunca deixaremos de ser Crianças Escolhidas, mestres Pokémon, alunos de Hogwarts. Ainda que isso só aconteça em livros, videojogos, em sites de transmissão de anime, em filmes ou na nossa imaginação. Mas, lá está, isso não significa que não seja real.

 

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Se quiserem mais conteúdo relacionado com Tri, sigam a página de Facebook aqui do estaminé, onde tenho respondido à tag 30 Days of Tri.

Digimon Adventure Tri - Kokuhaku (Confissão) #1

1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo do primeiro, segundo e terceiro filmes de Digimon Adventure Tri e, possivelmente, dos enredos de Adventure e 02. Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas - na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Apesar de as legendas do filme usarem os nomes japoneses das Crianças Escolhidas, eu vou usar as versões americanizadas dos nomes, visto que estou mais habituada.

 

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Uma das maiores críticas que teci aos dois primeiros filmes de Digimon Adventure Tri prende-se com o facto de pouco ter acontecido de relevante para o enredo, que avançasse a história. No primeiro filme, isso não foi tão grave, visto que o principal objetivo do mesmo era, como escrevi na altura, colocar as personagens todas no lugar certo, lançar as premissas para esta série de filmes. No segundo filme, o engonhanço agravou-se: praticamente só nos últimos vinte minutos é que a história avançou e, pelo meio, perdeu-se demasiado tempo com coisas fúteis. Já sabíamos que o terceiro filme, Kokuhaku (Confissão), seria diferente – quanto mais não fosse porque, depois da maneira como o segundo filme, Ketsui, terminou, não dava para continuar a encher chouriços.

 

Temíamos há muito tempo que Patamon fosse sacrificado neste terceiro filme. Ainda antes do lançamento de Ketsui, tinha sido divulgado um teaser mostrando Patamon despedindo-se e o seu parceiro, T.K., reagindo com desespero. O facto de Patamon aparecer no poster de Kokuhaku na sua forma Infantil agravaram os nossos receios – para se agravarem ainda mais quando as primeiras sinopses de Kokuhaku diziam que Patamon desenvolveria sintomas da Infeção que enlouquecera Meicoomon. Todos sabíamos que o filme mexeria com as nossas emoções e tentámos preparam-nos para isso – vários fãs viram o filme com uma caixa de lenços de papel ao lado.

 

No entanto, duvido que alguém estivesse preparado para isto, para o nível a que Kokuhaku chegou. Falo por mim: não me lembro de alguma vez ter ficado tão arrasada com um trabalho de ficção.

 

O que aconteceu em Kokuhaku de assim tão dramático? Segue a versão condensada, a.k.a, a habitual sinopse baseada na Wikipédia:

 

Kokuhaku começa um dia ou dois após o final de Ketsui. Meiko lida com o trauma da morte de Leomon às mãos de Meicoomon e da fuga desta última. Izzy, por sua vez, vai ficando cada vez mais frustrado enquanto tenta descobrir como se infetou Meicoomon. Entretanto, as distorções, que se creem provocadas por Meicoomon, começam a afetar as ligações aéreas. Perante as perguntas de Matt, Maki Himekawa e Daigo Nishijima revelam pormenores das investigações da organização governamental, mas ocultam-lhe que Meicoomon é a origem das infeções e que Davis, Yolei, Cody e Ken se encontram desaparecidos. Mais tarde, T.K. descobre que Patamon mostra sintomas de infeção. No entanto, esconde-o dos amigos e decide retirar Patamon da segurança do escritório de Izzy, trazendo-o para casa. Tal faz com que os outros Escolhidos sigam o exemplo. Patamon acaba por perceber o que lhe está a acontecer e pede a T.K. que o mate caso se torne violento.

 

Certa noite, durante um apagão, uma mensagem surge em todos os dispositivos eletrónicos: “Os Digimon serão libertados de novo”, o que causa agitações na população. No dia seguinte, enquanto Patamon conta aos outros Digimon que está infetado, Kari é possuída pela Homeostase. Através da boca da jovem, a entidade revela que os Digimon Infetados poderão destruir o Mundo Digital, bem como os outros mundos paralelos a este, e acabar com a rede eletrónica do Mundo Real. A solução passa por “um grande sacrifício”. Maki escuta a mensagem e informa os Digimon que, da próxima vez que Meicoomon aparecer, a Homeostase, como último recurso para salvar os diferentes mundos, poderá provocar um Reinício, que destruiria o Mundo Digital, reconstruindo-o no estado pré-infeção. Gatomon conclui que este Reinício fará com que ela e todos os outros companheiros Digimon morram e renasçam sem recordações das suas vidas até ao momento – ou seja, esquecer-se-iam dos seus parceiros humanos. Com este conhecimento, os oito Digimon decidem guardar segredo sobre o Reinício e preparar-se para o pior, passando tempo de qualidade com os seus companheiros humanos, em jeito de despedida. Agumon, no entanto, acaba por contar a Tai acerca do Reinício.

 

Izzy acaba por descobrir que as distorções resultam da substituição do habitual código binário por um código diferente. Depois de Tentomon o informar acerca do Reinício, o jovem pensa num plano. Entretanto, Meicoomon regressa e os Digimon lutam com ela, numa tentativa de a afastar do Mundo Real. Contra a vontade de T.K., Patamon digievolui para Angemon e junta-se à luta. No entanto, a Infeção volta a manifestar-se, não só em Angemon, mas também nos outros Digimon. Nesse momento começa a contagem decrescente para o reinício, mas Izzy põe em prática o seu plano alternativo: um campo de dados em forma de cubo para curar as infeções e preservar as memórias dos Digimon. Numa altura em que Tentomon é o único não afetado pela Infeção, ele digievolui para HerculesKabuterimon e faz uma tentativa para salvar os amigos Digimon, Meicoomon incluída. Em vão.

 

Uma semana mais tarde, numa altura em que os Escolhidos decidem regressar ao Mundo Digital para se encontrarem de novo com os seus Digimon, Meiko confessa a T.K. que soube, desde o momento em que a encontrou para primeira vez, que Meicoomon estava infetada. Consumida pela culpa, ela acha que não tem o direito de ir ter com Meicoomon. Os oito outros Escolhidos, por sua vez, regressam ao Mundo Digital, invocando os poderes dos seus Cartões. Aí, encontram Alphamon combatendo outro Digimon de nível Extremo, Jesmon. Também encontram os seus companheiros Digimon, que não os reconhecem, decidindo começar do zero com eles. Por sua vez, longe da vista dos Escolhidos, Maki aparece no Mundo Digital, confrontando o Imperador Digimon – que, na verdade, é Gennai sob disfarce. Também sem que as outras presonagens o vejam, aparece Meicoomon, que, aparentemente, ainda se recorda da sua companheira humana, Meiko.

 

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Em Ketsui, tínhamos tido uma invasão das meninas ao balneário masculino numas termas, Meiko e Mimi vestindo-se de meninas de claque num festival cultural e os Digimon participando num concurso de disfarces, tudo com uma dose saudável de parvoíce à mistura. Em Kokuhaku temos uma das personagens com depressão e stress pós-traumático, ameaças de um Apocalipse digital e os oito Digimon com os dias contados. Em suma, a tensão aumentou exponencialmente de um filme para o outro (o que, na cronologia de Tri, corresponde a quatro ou cinco dias, e estou a arredondar por cima). Claro que, ao terceiro de seis filmes, era preciso que acontecesse algo mais. A minha crítica não se dirige a Kokuhaku, dirige-se mais a Ketsui. A comparação do terceiro filme com o segundo piora a perceção deste último, que já tinha deixado muito a desejar. Fica claro que Ketsui devia ter cortado nos fillers, preocupando-se antes em avançar a história, de modo a que os eventos de Kokuhaku parecessem menos súbitos e mais orgânicos.

 

Até porque muitos dos conflitos que dominaram os dois primeiros filmes acabaram por ficar sem conclusão satisfatória. Em Kokuhaku, não há uma única referência aos problemas académicos de Joe. As dúvidas existenciais de Tai são colocadas em banho-maria com duas linhas de diálogo de Matt – tendo em conta o que acontece no resto de Kokuhaku, a questão não deverá voltar a ser levantada tão cedo. A verdade é que, em Kokuhaku, as coisas escalam a um ponto em que os problemas académicos de Joe e os desentendimentos de Mimi com as colegas por causa do festival cultural parecem triviais, na comparação.

 

Uma coisa que me agradou em Kokuhaku foi o facto de, finalmente, terem abordado o desaparecimento dos miúdos de 02. Depois de Saikai e Ketsui, um mero reconhecimento da existência deles sabe a vitória. Não que tenhamos descoberto muito. Vemos, no início do filme, T.K. e Kari batendo à porta de Ken, tentando telefonar aos outros, sem conseguir falar com qualquer um deles (incluindo os pais de Ken, o que é ainda mais estranho).

 

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Mais tarde, Matt vai ter com Daigo e Maki, a perguntar pelos Escolhidos mais novos. Estes dizem-lhe que os têm debaixo de olho, protegidos. No entanto, depois de Matt sair, o diálogo entre Maki e Daigo confirma que sim, os miúdos de 02 estão desaparecidos, a organização governamental sabe disso e… não parece estar a fazer nada para resolver a situação. Eu sabia já que, nesta altura, não haveria maneira de justificar o destino dos Escolhidos mais novos sem incoerências. Continuo a achar que os veteranos já deviam ter dado pelo desaparecimento dos caloiros, por todos os motivos que listei em análises anteriores. Além de que a organização governamental deve estar a fazer um trabalho de mestre para ocultar o desaparecimento de quatro menores (e, aparentemente, as respetivas famílias) da Comunicação Social. Matt, de resto, aceita as explicações de Maki com demasiada facilidade (é certo que, pelo menos nesta fase, os Escolhidos não têm motivos para desconfiarem de Maki ou Daigo) e, muito mais tarde no filme, quando Maki aparece com o D-3 e o D-terminal de Ken, ninguém levanta sequer uma sobrancelha – mais uma vez, compreensível tendo em conta tudo com que os Escolhidos tiveram de lidar até àquele momento. Tanto quanto eles saibam, Maki pediu-lhos emprestados a Ken.

 

Não é apenas o desaparecimento dos miúdos de 02 que Maki esconde dos Escolhidos: também o facto de Meicoomon ser responsável por… bem, praticamente tudo o que aconteceu até agora em Tri. A desculpa que Maki dá é, essencialmente, “o Izzy vai descobrir mais cedo ou mais tarde”, embora também invoque a possibilidade de os outros Escolhidos se virarem contra Meiko, caso descubram a verdade. Quando Daigo se revolta contra o secretismo da colega, ela diz-lhe mesmo: “Certas coisas estão melhor mantidas em segredo”.

 

Não sei o que é que Maki entende por “melhor”, mas, neste filme, todos estes segredos acabam por voltar-se contra os Escolhidos, e de que maneira. Maki não é a única com coisas a esconder, como veremos adiante. No entanto, os motivos dela são os que levantam mais suspeitas depois dos momentos finais de Ketsui – para se transformarem em quase certezas nos instantes finais de Kokuhaku, quando fica claro de que lado ela está.

 

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Maki fica ainda pior na fotografia quando vemos o efeito que os eventos do final de Ketsui estão a ter nos Escolhidos. Meiko, coitada, tinha pouquíssima experiência nas lides dos Escolhidos e, de um momento para o outro, acontece-lhe um dos piores cenários possíveis. Como disse acima, não anda a reagir bem. No início de Kokuhaku, descobrimos, ainda, que o pai de Meiko trabalha com a organização (se não fizer oficialmente parte da mesma) a que Daigo e Maki pertencem. É evidente que ele deverá desempenhar um papel importante em Tri, a certa altura, mas neste filme ele limita-se a aparecer no início e não volta a aparecer até ser brevemente mencionado até perto do fim. Eu sei que, no Japão, pais e filhos costumam ter uma relação mais formal que no Ocidente, mas a maneira distante como ele trata Meiko causou-me impressão – quando ele sabe perfeitamente que a filha não está bem, até Daigo lhe faz ver isso. Mimi e, sobretudo, Sora acabam por dar mais apoio a Meiko do que os próprios pais, o que é um bocadinho triste.

 

No extremo oposto, Izzy procura febrilmente uma explicação para a infeção de Meicoomon e a pressão começa a levar a melhor sobre ele. Quem lhe dá apoio, surpreendentemente, é Joe. Aparentemente, o desbloqueio de novas digievoluções é tão inebriante para os próprios Escolhidos como é para mim… ou então, tal como escrevi antes, talvez o facto de ter sido bem-sucedido em algo tenha sido suficiente para fazê-lo sair do estado semi-depressivo em que passou os dois primeiros filmes de Tri.

 

Ou então, teve pura e simplesmente uma hora bem passada com a sua misteriosa namorada.

 

O que é certo é que Joe retoma um pouco o seu papel de papá do grupo, com o seu apoio bem-humorado a Izzy (a cara deste último, quando Joe lhe diz “assim não arranjas namorada” é impagável), cuja característica paixão pelo saber começa a tornar-se um fardo.

 

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É um tema que se começa a notar em Tri: o facto de os Escolhidos estarem a lidar com o lado negro das virtudes que lhes foram atribuídas, o reverso… bem, dos Cartões. Tai, em Saikai, sentiu a sua coragem falhar (e ainda não parece totalmente recuperado disso). Mimi percebeu que o seu julgamento nem sempre é o mais adequado. Joe, que sempre cumpriu o seu dever e honrou os seus compromissos, deixa de conseguir fazê-lo. E agora, que a mente curiosa de Izzy é a maior arma dos Escolhidos contra a ameaça das distorções e das infeções, descobrir coisas deixa de ser um prazer, é um caso de vida ou de morte. A ignorância, os enigmas, os segredos por desvendar, não são apenas desafios – são ameaças.

 

Esta última parte, de resto, tem sido um dos temas recorrentes em Tri, ganhando maior destaque em Kokuhaku. Meiko é um bom exemplo disso e T.K. acaba por seguir pelo mesmo caminho. Como já sabíamos que aconteceria, Patamon começa a desenvolver sintomas de infeção. Chega a atacar T.K. no escritório de Izzy (onde os Digimon estavam retidos, de modo a evitar mais infeções), enquanto este último passa pelas brasas. Joe, que também estava no escritório, a tomar conta de Izzy, não dá pelo ataque. Quando T.K. lhe pergunta, casualmente, o que aconteceria se mais algum dos Digimon se infetasse, o Escolhido mais velho responde que, provavelmente, teriam de eutanasiá-lo. Tendo isso em conta, T.K. convence um relutante Joe a deixá-lo levar Patamon para casa. Aqui, temos uma cena de partir o coração (uma de muitas neste filme) em que Patamon percebe o que lhe está a acontecer e pede a T.K. que o mate, case a Infeção fique mais grave.

 

É particularmente cruel que o primeiro a mostrar sinais de Infeção tenha sido, logo, o mais fofo do grupo, aquele que já antes se tinha sacrificado, aquele que, por norma, surge à última hora para salvar toda a gente. Desta feita, a esperança é, quase literalmente, a primeira a morrer.

 

 

A decisão de T.K. de trazer Patamon consigo abre um precedente para os restantes Digimon – agora todos querem passar as noites com os seus companheiros humanos. O que poderiam os Escolhidos fazer? T.K. continua a esconder o que se passa com Patamon, só dizendo a verdade a Meiko – por sinal, outra que também tem coisas a esconder.

 

Como bom irmão mais velho que é, Matt percebe logo que se passa algo com T.K. O irmão mais novo continua a fechar-se em copas. Esta cena, ao menos, sempre proporciona alguns dos poucos momentos leves do filme. T.K. pergunta ao irmão com quem é que ele se desentendeu desta vez e, mais tarde, perante as perguntas de Matt, T.K. diz-lhe que está deprimido por as bandas do irmão estarem sempre em crise.

 

O Matt tem mesmo de deixar de se levar tão a sério ou habilita-se a ter sempre toda a gente a gozar com ele.

 

Pelo meio, Kokuhaku faz questão de mostrar Sora funcionando como uma espécie de mental coach dos Escolhidos – passando uma boa parte do filme ao telemóvel, falando com toda a gente, certificando-se de que estão bem. É, aliás, a primeira vez que, tanto quanto sei, que Digimon compara Sora a uma mãe, preto no branco. Não que fosse necessária tanta ostensividade: estamos a falar de uma rapariga que, mesmo quando estava em baixo, com vontade de estar sozinha, não conseguia evitar ajudar os amigos nas costas deles. Mais caracterização para além disto é redundante. É, de resto, uma técnica a que os digi-guionistas costumam recorrer: exacerbar um traço específico das personagens quando este é importante para o enredo. O Cartão do Amor de Sora não é particularmente relevante em Kokuhaku mas deverá sê-lo em breve, visto que o próximo filme será focado nela.

 

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Não retiro nada do que escrevi antes sobre Sora, na minha longa análise a Adventure. Continuo a achar que o papel dela é o esperado das personagens femininas (para não dizer imposto às personagens femininas) e, até agora, nunca foi explicado devidamente porque sente ela necessidade de agir assim. Dito isto tudo, Sora continua a ser a minha preferida entre os Escolhidos. Em parte precisamente porque é maternal e altruísta, mas também porque não deixa de ser tão corajosa e lutadora como Tai ou Matt, os machos-alfa do grupo. Em miúda, Sora era, de todos os Escolhidos, quem eu mais desejava ter como amiga – e ela, de facto, tem sido uma excelente amiga para Meiko, precisamente quando ela mais precisa.

 

Voltaremos a falar de Sora adiante. Sobre as ameaças que surgem nos dispositivos eletrónicos, dizendo que “os Digimon serão libertados novamente”, não sei muito bem o que pensar. Não sei se é apenas um “sintoma” das distorções ou um indício de algum evento que ainda não ocorreu. Por outro lado, é de assinalar que as distorções se devam à substituição do habitual código binário (zeros e uns) por um código ternário (zeros, uns e dois). Um fã crítico de Digimon já tinha apontado para a presença do código nas sequências de digievolução, aquando de Saikai. Ao menos agora temos uma explicação para isso. Consta até que, antes do lançamento de Saikai, os criadores de Tri haviam alertado para a presença de triângulos e conjuntos de três nestes filmes. Talvez este código ternário ganhe ainda mais relevância mais adiante, em Tri.

 

De qualquer forma, no dia seguinte, os Digimon escapam do escritório de Izzy (demasiado absorvido pelo seu trabalho para prestar atenção). Patamon revela aos amigos que está infetado e pede-lhes, também, que o matem caso ele se torne violento. Entretanto, a Homeostase (uma entidade digital que rege o Mundo Digimon como um deus) apodera-se de Kari (que, aparentemente, não serve para mais nada). Através da jovem, a entidade aparece perante os Digimon (com Maki escutando à socapa), informando-os que a Infeção está a comprometer a estabilidade do Mundo Digital, existindo o risco de ele e outros mundos paralelos desaparecerem por completo, bem como a rede eletrónica do Mundo Real.

 

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O Mundo Digimon é, na sua essência, um mundo digital, informático. Em informática, o que é que uma pessoa faz quando as coisas não funcionam? Desligamos e voltamos a ligar. É exatamente isso que a Homeostase quer fazer caso Meicoomon apareça de novo no Mundo Real.

 

Apesar de eu aplaudir um desenvolvimento do enredo, depois de tanto tempo a engonhar, devo dizer que este me parece demasiado repentino. Como dei a entender antes, Tri passa de três ou quatro Digimon descontrolados, sem que saibamos ao certo porquê, um par de combates com Digimon de nível Extremo, cuja motivação é um mistério, para um Mundo Digimon supostamente tão corrompido que precisa de ser reiniciado. Por outras palavras, só agora é que a Infeção começou a ter repercussões graves e já vamos tomar medidas de último recurso? Não bate certo. Tenho algumas teorias sobre isso, mas vou guardá-las para mais adiante nesta análise.

 

Uma das consequências do Reinício do Mundo Digital será o Reinício dos próprios Digimon com ele. Ou seja, eles morrerão e voltarão a nascer sem recordações da sua vida anterior, como se nunca tivessem conhecido os seus companheiros humanos. Está longe de ser uma situação fácil, sobretudo tendo em conta que a única solução para talvez escaparem a este destino passa por abaterem Meicoomon, que passaram a considerar uma amiga.

 

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Os oitos Digimon ligam com a situação com uma coragem invejável – embora seja que questionar a sensatez de esconder a verdade aos Escolhidos – entrando em modo “último dia na Terra/Mundo Real” com os respetivos companheiros. Isto proporciona momentos dolorosamente agridoces: Kari passando a tarde no centro comercial, com Gatomon; Gabumon pedindo a Matt que este toque harmónica, como no fim de Adventure (harmónica essa que acaba por introduzir uma música lindíssima, que serve de banda sonora a todos estes momentos); Byomon tentando fazer com que Sora, por uma vez, pense em si mesma e nos seus sonhos; Gomamon ouvindo Joe dizer que tem de apresentá-lo à sua namorada, já que planeia tê-los aos dois por perto para o resto da sua vida (porque é que me fazem isto, digi-guionistas, porquê?!?); Palmon, mais uma vez, nem coragem tem para pensar, sequer, em despedidas; Tentomon procurando consolar Izzy, dar-lhe esperança, fazer com que ele volte a sentir prazer em aprender. Só ele e Agumon é que, aliás, revelam a verdade aos respetivos companheiros humanos.

 

A ação em Kokuhaku (leia-se: combates entre Digimon) limita-se a um episódio. Ao contrário de outras ocasiões em Tri, isso não prejudica tanto este filme pois não faltou desenvolvimento de personagens e muito drama nos primeiros três episódios. Esta batalha, que dura o episódio todo, é, aliás, o momento em que todos os segredos, todos os erros cometidos até à altura, se voltam contra o elenco de uma maneira trágica. Meicoomon aparece no Mundo Real a partir de uma distorção e todos, tirando Izzy, acorrem ao local. Embora não se possa ter a certeza absoluta, aparentemente a chegada de Meiko ao local faz com que Meicoomon digievolua para Meicrackmon (quando dei com este nome pela primeira vez, tive de confirmar que não era um nome inventado por fãs. Meicrackmon? A sério?). Momentos depois, T.K. tenta impedir Patamon de se juntar ao combate, em vão. Acaba por ser ele, na forma de Angemon, quem despoleta a Infeção nos outros Digimon, que começam a atacar-se uns aos outros e a contagem decrescente para o Reinício começa.

 

Nessa altura, Izzy descobre que Meicoomon está na origem de tudo e rapidamente cria o tal campo de dados, que curará as infeções e preservará as memórias dos Digimon. Numa altura em que a maior parte dos Escolhidos só agora é posto ao corrente sobre o Reinício, Tentomon é enviado para a dimensão distorcida onde ocorrem os combates para tentar levar os amigos Digimon para dentro do campo de dados antes que se dê o Reinício. Inicialmente, tem MetalGreymon a ajudá-lo, mas também ele acaba por ser dominado pela Infeção (chega mesmo a evoluir para WayGreymon sem darmos por isso). A certa altura, Izzy pede a Tentomon que esqueça os outros e se salve a si mesmo. O Digimon, compreensivelmente, recusa pois não quer ver os amigos morrer.

 

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Em jeito de despedida, Tentomon dirige a Izzy umas palavras de consolo, remetendo para o conflito do jovem neste filme: diz que ignorância é apenas o ponto de partida para aprender coisas novas; que adorou encontrar Izzy e ir conhecendo-o ao longo do tempo, se tiver de ser adorará conhecê-lo outra vez. Dito isto, evolui pela primeira vez para HerculesKabuterimon. Desta feita não há a habitual euforia que acompanha as novas digievoluções, esta é apenas uma última tentativa, um canto de cisne.

 

Por um momento, HerculesKabuterimon consegue fazer com que os amigos Digimon recuperem a razão. Sabendo perfeitamente que já não podem fazer mais nada, os oito abraçam-se, encurralando Meicrackmon no meio. Juntos, conseguem regressar à distorção, mas já não chegam a tempo de entrar no campo de dados. O Reinício é ativado, os nove Digimon desfazem-se em partículas digitais… e os nossos corações também.

 

Não sei como foi com vocês, mas este desfecho doeu-me, ainda dói, mais do que eu esperaria. Dói-me pensar que criaturas que conhecemos desde miúdos se esqueceram de tudo por que passaram com os respetivos Escolhidos. Que a Gatomon se esqueceu do Wizardmon e do momento em que percebeu que Kari era a sua companheira humana. Que o Patamon se esqueceu da sua zaragata com o Elecmon, na Aldeia de Origem. Que o Gomamon se esqueceu da primeira piada que ouviu do Joe (“Chamas a isso mãozinha?”). Que a Palmon se esqueceu de quando obrigou Mimi a engolir as suas palavras, depois de evoluir para Lillymon. Que o Tentomon se esqueceu da sua hilariante apresentação aos pais de Izzy. Que a Byomon se esqueceu de se aliar à mãe de Sora para a resgatar. Que o Gabumon se esqueceu de quando usou o seu casaco de peles para curar a hipotermia de Matt. Que o Agumon se esqueceu de quando queimou o mapa desenhado (muito mal) por Tai e levou nas orelhas por isso. Dá vontade de chorar. É uma grande parte da infância dos Escolhidos, da nossa infância, que na mente dos Digimon nunca aconteceu.

 

Quando vi Kokuhaku pela primeira vez, foi um alívio descobrir que existia um quinto episódio. Mas, como esta entrada já vai longa, falaremos desse episódio e de muito mais na segunda parte desta análise, que virá amanhã. Continuem desse lado, que ainda temos muito para chorar... desculpem, falar.

 

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