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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Digimon Adventure Tri - Ketsui (Determinação) #2

1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo do primeiro e segundo filmes de Digimon Adventure Tri e, possivelmente, dos enredos de Adventure e 02. Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas - na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Apesar de as legendas do filme usarem os nomes japoneses das Crianças Escolhidas, eu vou usar as versões americanizadas dos nomes, visto que estou mais habituada.

 

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Nesta segunda parte (primeira parte aqui), vamos deixar as personagens um pouco de lado e passar à intriga do filme em si. São-nos dadas mais algumas pistas sobre o que se está a passar ao certo no Mundo Digimon e sobre as distorções. Daigo e Maki suspeitam que os Digimons Infetados tenham como alvo um dos companheiros dos Escolhidos – não são precisos muitos dedos de testa para se somar dois e dois e chegar logo a Meicoomon. Uma pessoa estranha que Daigo e Maki não cheguem a essa conclusão… ou será que chegam?

 

Entretanto, Leomon reúne-se com os Escolhidos no Mundo Real para fazer o ponto da situação. As informações dele ajudam Izzy a perceber que o que quer que esteja a infetar os Digimons está, igualmente, a provocar as distorções (impagável a reação dos Digimons dos miúdos, que debatem se devem usar repelente ou protetor solar para evitar infeções. Por outro lado, se forem como as bactérias multirresistentes, estão feitos…). A pergunta que se segue diz respeito à origem da infeção, ao primeiro Digimon Infetado – a resposta é-nos dada de maneira trágica.

 

Pelo meio, Izzy recebe um e-mail misterioso em digi-código. Depois de traduzido, este diz algo como “Aqueles que desejam o verdadeiro poder, devem conhecer a Escuridão e ir além”. Por alturas do fim do filme, fica claro que esta profecia, ou lá o que é, diz respeito às novas evoluções para nível Extremo/Hiper Campeão (sou a única aqui a ter um déjà-vu?), mas quando vi a profecia pela primeira vez, a minha mente saltou para Ken. Se há pessoa que conheça a escuridão e tenha ido mais além é ele. Mas antes de falarmos melhor sobre Ken – sim, vamos voltar a falar sobre Ken (*suspiro*) – digo que o significado desta profecia parece-me claro. Para os Escolhidos desbloquearem as Digievoluções para nível Extremo, terão de olhar para dentro de si mesmos, reconhecer os seus defeitos, o seu lado negro, e procurar ultrapassá-lo de uma forma ou de outra. Nada de inédito em Digimon, pelo contrário, este tem sido o seu ponto forte desde o início de Adventure. Segundo o que li na Internet, os produtores de Tri têm dado a entender que vão continuar a associar o estado psicológico das personagens às Digievoluções.

 

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Um dos (muitos) enigmas deixados pelo filme diz respeito ao autor deste e-mail – que também foi enviado a Maki. A resposta óbvia seria Gennai, não seria a primeira vez que ele dava uma mãozinha aos Escolhidos, mas porque não assinaria o e-mail? Estou, até, a estranhar a ausência de Gennai da história de Tri mas, tendo em conta que ele pouco mais é que um deus ex-machina, não acho que isso seja mau. Por outro lado, continuo com sérias dúvidas de que ele esteja mesmo a colaborar voluntariamente com a organização para a qual Maki e Daigo trabalham.

 

Queria falar agora de Maki. Em Saikai ela pouco mais era que uma motorista mas, em Ketsui, conhecemo-la melhor e o seu comportamento levanta algumas suspeitas. Já referi acima da cumplicidade entre ela e Meiko. Mais tarde, é a primeira a vislumbrar e a reconhecer Ken em modo Imperador Digimon (sim…) durante o festival cultural. Pouco depois, pergunta por Meicoomon e descobre que, à semelhança dos outros Digimons, está com Izzy no seu escritório. Assim que pode, atrai Izzy para o festival… enviando-lhe uma foto de Mimi num traje reduzido de menina de claque.

 

Lembram-se de eu ter elogiado Saikai por ter sido discreto na parte romântica da história? Pois, Ketsui não faz o mesmo. Para além das cenas das termas de que falei, somos brincados por duas vezes com um Izzy com cara… chamemos-lhe “de apaixonado”. Uma cara que todos nós sempre quisemos ver num herói de infância... só que não. Da segunda vez em que Izzy faz essa cara, a câmara faz questão de focar o busto e as ancas de Mimi antes. Menos, digi-guionistas, menos!

 

Regressando a Maki, há que assinalar o calculismo e frieza dela ao usar as hormonas de um miúdo de dezasseis anos contra ele. Ela oferece-se para tomar conta dos Digimons no escritório por ele mas, por sinal, estes já não lá estavam. Tinham conseguido convencer Leomon (que fazia as vezes de baby-sitter) a levá-los ao festival – destaque para o Meicoomon fazendo olhinhos de Gato das Botas do Shrek (algo que, em retrospetiva, é perturbador). No festival (depois de o filme perder tempo mostrando os Digimons entrando num concurso de máscaras) Maki consegui, finalmente, deitar as mãos a Meicoomon. Deixa-a sozinha no pátio da escola enquanto vai buscar um petisco às tendas. Poucos minutos depois, forma-se uma nova distorção de onde surge o Imperador Digimon, que agarra Meicoomon. Ninguém acredita que isto tenha sido acidental, sobretudo depois do que acontecerá bem no cair do pano. Muitos interrogam-se o que teria acontecido se Maki tivesse encontrado os Digimons no escritório, se teria conseguido convencer Leomon, Agumon e os outros a levar Meicoomon consigo.

 

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Uma das coisas que mais me incomodou em Saikai foi o facto de, depois de o filme começar com imagens de Davis, Yolei, Cody e Ken tombando perante Alphamon, nenhuma das outras personagens parece aperceber-se e/ou importar-se com o destino dos miúdos de 02. Agora apareceu-lhes Ken à frente de novo, em modo Imperador Digimon (depois de tudo por que ele passou para se redimir disso), acompanhado por Imperialdramon, aparentemente infetado (recordo que Imperialdramon resulta da fusão de Wormon com Veemon, o Digimon de Davis, mas deste último nem cheiro). Como é que os Escolhidos reagem, especialmente Kari e T.K.? Como se fosse um inimigo insignificante qualquer a regressar, como Etemon, não um Escolhido, um velho amigo desaparecido, que tinham ajudado a redimir, ao lado de quem tinham salvado o Mundo. Enquanto os via dizendo coisas como “Ele outra vez?”, “Que faz ele aqui?”, “Porque é que ele apareceu?”, a minha reação era esta. Eu quase gritava para o ecrã: “Alguém pergunte pelo Davis e os outros! Alguém perceba que eles estão desaparecidos!”.

 

Nesta altura do campeonato, já não existe explicação possível para o desconhecimento e/ou desprezo pelo destino dos miúdos de 02 (incluindo alterações de memória estilo Once Upon a Time) que não tenha buracos. É óbvio que os guionistas queriam focar-se nos protagonistas de Adventure, que lidar com oito (e agora nove) Escolhidos já é difícil, quando mais doze, mas… não existiam maneiras mais fáceis de excluí-los da história? Eu consigo arranjar algumas: os D3 deles avariados, os Digimons deles retidos no Mundo Digital, os quatro terem ido viver para outras cidades por um motivo ou outro. Pela via que tomaram, são capazes de estar a cavar um buraco da qual será difícil saírem. A boa notícia no meio disto tudo é que, depois daquele final, não vão poder adiar a questão por muito mais tempo – e, ainda assim, continuo com um feeling de que os digi-guionistas se vão enterrar ainda mais com esta história.

 

Mas passemos à luta em si com Imperialdramon, que se desenrola numa estranha dimensão criada pelas distorções para onde o Imperador Digimon levou Meicoomon. Este era o momento mais aguardado de todo o filme, sobretudo pelas estreias de Vikemon e Rosemon, os níveis Extremo/Hiper Campeão de Gomamon e Palmon, respetivamente). Estas estreias cumprem os requisitos que eu tinha definido? Mais ou menos. Ao contrário de muitos fãs, não achei que tenham vindo do nada, quanto mais não seja porque já tinha havido um bom desenvolvimento de Mimi e Joe – um progresso em relação a pelo menos metade das Digievoluções em 02. A epifania de Joe resulta um pouco melhor, pois ele tinha acabado de decidir lutar ao lado do seu Digimon (será daqui que vem o título Ketsui, que significa Decisão ou Determinação?). O grito de “Ike! GOMAMOOON!” forçou um bocadinho o drama, mas resultou. Teoricamente, Mimi, por esta altura, já poderia ter desbloqueado Rosemon – talvez precisasse do empurrãozinho final de Joe. Se tudo isto parece fácil comparado com Tai e Matt, que tiveram de levar com flechas? Parece. Mas sempre foi melhor que ter apenas Gennai e Azulongmon puxando uns cordelinhos.

 

 

À parte tudo isto, a batalha em si não desilude. O som do dispositivo digital ativando-se e as primeiras notas de Brave Heart emocionam e arrepiam como fazem desse o primeiro episódio de Adventure. As sequências de digievolução para os níveis Perfeito/Super Campeão e Extremo/Hiper Campeão por que ansiávamos não desapontam. Gostei em particular das Digievoluções para nível Perfeito, sobretudo de estas sempre me terem parecido apressadas em 02. Destaco os dispositivos mudando de cor e os símbolos das virtudes. Agora anseio por ver as does restantes Digimons.

 

Da primeira vez que vi o combate com o Imperialdramon estive sempre a beira do assento, sustendo a respiração. Há quem reclame por, agora, os Digimons nem sempre gritarem os nomes dos seus ataques, mas eu nunca achei grande piada a isso. Parece-me muito mais realista que Digimons em pleno combate poupem o fôlego para outras coisas. Como, aliás, já tinha assinalado na análise a Saikai, as lutas entre Digimons estão muito mais orgânicas.

 

Aparentemente, Leomon, Vikemon e Rosemon matam Imperialdramon (que, recordo, resulta da combinação de dois Digimons ligados a Escolhidos) e… nenhum dos Escolhidos se rala com isso. Por incrível que pareça, o mais estranho é o que acontece a seguir: o Imperador Digimon solta Meicoomon, assim sem mais nem menos, antes de desaparecer. Ele literalmente desvanece-se no ar. Não sabemos ao certo se aquele ela mesmo Ken ou uma cópia ou holograma ou projeção ou algo assim – ou seja, sabemos essencialmente o mesmo que sabíamos aquando dos primeiros trailers em que aparecia o Imperador Digimon. Também não sabemos se aquele era mesmo o Imperialdramon. Se for, que raio lhe aconteceu para ser infetado? Se não for, que raio era aquilo, então? Também uma projeção ou cópia? Outro Imperialdramon qualquer? Tudo isto vai dar à questão original: onde raio param Davis e os outros?

 

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O mais chocante acontece mesmo no fim, depois de os quatro Digimons regressarem ao Mundo Real. Um pouco do nada, o dispositivo digital de Meiko enegrece, Meicoomon muda de forma (não se percebe se evolui para o nível Perfeito ou se é apenas uma nova forma) e mata Leomon. Já é uma piada recorrente em Digimon, Leomon morre sempre, mas acho que ninguém estava à espera que acontecesse desta forma… Eu confesso que, quando Meicoomon deu o golpe fatal, fiquei com a mesma cara e a mesma reação dos Escolhidos: “Que acabou de acontecer aqui?”. Com o choque, nem sequer reparei no infame sorriso de Maki, que tem deixado os fãs em polvorosa. Enquanto os Escolhidos estão ainda a tentar perceber o que aconteceu, Maki vira as costas à cena, confirma que as distorções e os Digimons Infetados começaram com Meicoomon, e começa já a pensar na próxima jogada (ela é mesmo fria!). O filme termina com este cliffhanger, com Meiko aos gritos por Meicoomon. Da primeira vez que vi Ketsui, eu rebobinei para a frente nesta altura, a ver se existiam cenas pós-créditos como em Saikai, qualquer coisa que desvendasse o mistério, mas não.

 

Pelas internetes fora, já há quem especule que Maki está a ser controlada pela Escuridão e tal. Não concordo. Acho que já passámos essa fase, a preto e branco. Penso que Maki, pura e simplesmente, tem os miúdos e a população humana em geral como prioridade, os Digimons são-lhe indiferentes, mesmo sacrificáveis. Daí as armas que desenvolve, daí ter facilitado a captura de Meicoomon e ter sorrido quando este atacou Leomon – foi a confirmação daquilo que ela provavelmente vinha a suspeitar por algum tempo. É também por isso que eu não acredito que o Gennai esteja a ajudá-los. Pelo menos não voluntariamente, ou está a fazê-lo sem conhecer as verdadeiras intenções da organização.

 

Tivemos uma resposta sobre a origem das distorções e dos Digimons Infetados, mas é uma daquelas respostas que não esclarecem nada, que criam uma infinidade de novas perguntas. Queremos saber como Meicoomon foi infetada, se ela já nasceu assim ou se foi depois (há quem especule que o Digiovo que vemos no início de Saikai era o de Meicoomon). O que nos leva de novo à pergunta: como é que Meiko se tornou uma Escolhida? Com isto tudo, talvez Alphamon não seja o verdadeiro vilão da história, talvez, em Saikai, ele estivesse a tentar eliminar a fonte dos problemas todos. Mas isso não explica o interesse de Ken (se é que era mesmo ele) em Meicoomon – ele queria também eliminar a fonte de infeção ou queria espalhá-la ainda mais?

 

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É por estas perguntas todas que ficam por responder – e muitas delas são herdadas de Saikai – que não consigo gostar tanto Ketsui como gostei do seu antecessor. Além do mais, como fui dando a entender, as cenas de ação, de lutas entre Digimons, foram breves e só Palmon e Gomamon lutaram. Em Saikai pudemos ver todos os Digimons em pelo menos o nível Campeão, tirando Ikakumon e, apesar de ter apenas terem lidado com Kuwangamons (que é o equivalente no Mundo Digimon a lidar com uma praga de ratazanas), foi excitante – toda a equipa a lutar de novo, passados todos estes anos. Eu não me queixaria muito disso se isso significasse mais tempo para a caracterização das personagens. Não que esta não ocorra mas, lá está, há muita cena desnecessária neste filme – a visita às termas, o festival cultural, os Digimons dos Escolhidos portando-se como crianças travessas – que poderia ter sido trocada por mais tempo de antena para os combates ou para o desenvolvimento dos Escolhidos (Tai, Matt, Sora e T.K. fazem muito pouco neste filme). Por outro lado, eu não costumo criticar o CGI e outros aspetos mais técnicos (por falta de experiência, por normalmente valorizar mais o conteúdo), mas até a mim me incomodaram os ocasionais planos estáticos. Dá a ideia de que aquelas partes foram feitas um bocadinho em cima do joelho, o que dá a ideia de falta de consideração pelos fãs que aguardaram meses (ou se calhar anos) por esta série de filmes.

 

Admito que uma boa parte das opiniões que referi no parágrafo anterior possa mudar quando todos os filmes tiverem saído e pudermos vê-los em sequência. Por agora é desanimador termos esperado três meses por Ketsui e o filme perder tempo com fillers, fanservice desnecessário, comédia fácil e deixar quase todas as perguntas por responder. Por outro lado, à semelhança de Saikai e de, bem, Digimon em geral, é na caracterização das personagens que Digimon brilha, sendo aqui que Ketsui se redime.

 

Agora temos de esperar até 24 de setembro pelo próximo filme. Posso tirar um parágrafo para me queixar disso? Eu contava com um lançamento de Kokuhaku (Confissão) para julho ou agosto (desde que fosse depois do Euro 2016, por mim tudo bem). Idealmente seria à roda do Odaiba Memorial Day. Mas 24 de setembro? Seis meses depois deste? Eu até estou habituada a esperar por estas coisas – com a Seleção Nacional, que só faz jogos de longe a longe; com o drama que foram os lançamentos dos últimos dois álbuns da Avril Lavigne – mas seis meses? É muito tempo! Ninguém merece…

 

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Bem, já que tão cedo não voltarei a escrever sobre Digimon, quero especular um bocadinho sobre Kokuhaku. Consta que se focará em Izzy e T.K., algo que muitos têm estranhado. Toda a gente esperava que T.K dividisse o protagonismo de um dos filmes com Kari mas, na minha opinião, o parzinho já é um cliché quase tão grande como a morte de Leomon. O emparelhamento entre T.K. (que pouco tem feito em Tri) e Izzy será uma novidade, poderá ser interessante. Por outro lado, isto pode significar que Sora e Kari protagonização o quarto filme. Esta é uma parelha quiçá ainda mais interessante. Foram as minhas personagens preferidas quando era mais nova (Sora em Adventure, Kari em 02), mas têm sofrido de uma gritante falta de caracterização. Quero ver o que Tri fará com elas (rezando às quatro Bestas Sagradas do Mundo Digital para que os digi-guionistas não as releguem para meros interesses amorosos…).

 

Por sua vez, o título Confissão é intrigante. A hipótese mais óbvia é que sejam declarações amorosas – sendo este filme protagonizado por Izzy e T.K., tais declarações serão destinadas a Mimi e a Kari. Acho, no entanto, que existem outras possibilidades mais interessantes. Em Ketsui tivemos muitos segredos, muitas verdades por encarar: as dúvidas existenciais de Tai, como Meiko se tornou uma Escolhida, as verdadeiras intenções de Maki, o que aconteceu aos miúdos de 02 (é possível que alguém saiba mais do que aparenta). Tais segredos tiveram consequências trágicas em Ketsui, talvez estes venham à luz em Kokuhaku. Ou talvez não venham e as coisas se tornem ainda mais difíceis para os nossos adorados Escolhidos. Talvez não seja por acaso que Izzy vá ser um dos protagonistas de Kokuhaku – se há Escolhido que não suporte perguntas por responder, é ele.

 

Um aspeto que tem intrigado em relação ao poster de Confissão é o facto de o Digimon de Izzy surgir na sua forma Extrema, HerculesKabuterimon, mas o de T.K. aparecer apenas como Patamon. Se a isto acrescentarmos o teaser em que Patamon se despede de T.K. e este grita por ele, uma pessoa começa a recordar o que aconteceu em Adventure e a temer que o jovem volte a perder o seu Digimon. Não sei se é a melhor opção ir por aí – um segundo sacrifício de Patamon terá o mesmo impacto que o primeiro? Não me importarei, contudo, se voltarem a explorar este trauma de T.K., bem como a sua intolerância para com a Escuridão – pegaram nisso em 02, mas não o concluíram como deve ser, na minha opinião.

 

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Apesar de tudo – apesar das críticas que aponto a Ketsui, apesar de ainda termos de esperar seis meses por Kokuhaku – esta é uma ótima altura para se ser fã de Digimon (tal como é uma ótima altura para se ser fã de Pokémon). Mais de quinze anos depois, não apenas reencontramos os nossos heróis de infância, descobrimos mais sobre eles, conhecemo-los ainda melhor. Abrimos uma porta que julgámos ter ficado encerrada no final de 02. E ainda vamos no início, ainda há muito por descobrir acerca das eternas Crianças Escolhidas (Por favor! Por favor! Desenvolvam Sora e Kari como deve ser!).

 

Naturalmente, o próximo Odaiba Memorial Day será especial. Pelo menos é o que estão a tentar fazer no nosso país, aproveitando o “reacender da chama” (como referem na página de Facebook) que o lançamento de Tri proporcionou. Não sei muitos pormenores, mas a ideia seria fazer um encontro de fãs portugueses no dia 1 de Agosto, esse dia tão especial para a comunidade Digimon. Ainda não sei se posso ir, mas vou tentar.

 

Continuo um bocadinho de coração partido por Kokuhaku não sair por essa altura – nada me deixaria mais feliz do que ver o filme pela primeira vez com outros fãs no Odaiba Memorial Day (mesmo que significasse não vê-lo no próprio dia do lançamento e ter de evitar spoilers por uns dias). Há no entanto algo que bem poderia estrear nesse encontro: a dobragem portuguesa de Saikai, que está a ser realizada pelo AniMedia.

 

 

 

Por surpreendente que seja, inclusive para mim mesma, tendo em conta o que escrevi anteriormente sobre as dobragens portuguesas de Adventure e 02, eu fiquei entusiasmadíssima quando soube deste projeto. Foi uma daquelas coisas que eu não sabia que desejava até descobrir acerca delas – bem, cheguei a sonhar algumas vezes com uma dobragem portuguesa, logo, o meu subconsciente andou a enviar-me sinais. Já que vai ser uma realidade, espero que esta fique bem feita. E que aproveitem a minha sugestão de estreá-la no Odaiba Memorial Day em Portugal. Até lá...

Digimon Adventure Tri - Ketsui (Determinação) #1

1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo do primeiro e segundo filmes de Digimon Adventure Tri e, possivelmente, dos enredos de Adventure e 02. Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas - na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Apesar de as legendas do filme usarem os nomes japoneses das Crianças Escolhidas, eu vou usar as versões americanizadas dos nomes, visto que estou mais habituada.

 

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Quando estava para ver o primeiro filme de Digimon Adventure Tri, Saikai, não sabia o que esperar. Sabia que decorreria três anos após os acontecimentos de 02, com o elenco de Adventure, mais nada. Não tinha grandes expetativas, pelo menos não em concreto. Tal como escrevi antes, Saikai não foi apenas uma trip de nostalgia, foi um exemplo do que Digimon tem de melhor. No entanto, em termos de enredo, serviu apenas para colocar as peças no tabuleiro, para definir o conflito – deixou imensas perguntas por responder.

 

Com Ketsui (que significa Determinação ou Decisão), o segundo filme que estreou no passado dia 11 de maio, a história foi outra. Desta feita, já as premissas tinham sido mais do que estabelecidas, já tinha uma ideia mais concreta do que nos esperava. Para além disso, desta vez fiz questão de ir-me mantendo a par de todas as pistas, teasers, trailers e afins que fossem saindo. As expetativas foram aumentando. Sabendo desde já que o filme se centraria em Joe e Mimi, queria saber o que fariam com eles, como seriam as estreias de Rosemon e Vikemon. Queria saber que raio aconteceu aos miúdos de 02. Queria ver a evolução das dúvidas existenciais de Tai, do seu desentendimento com Matt e, já agora, queria descobrir mais do que se estava a passar com os outros miúdos. Queria algumas respostas às perguntas deixadas no fim de Saikai. Será que Ketsui correspondeu às expetativas?

 

Bem…

 

A análise a este filme tem mais ou menos o dobro da extensão da análise a Saikai, pelo que virá dividida em duas. Esta é a primeira parte, publico a segunda assim que puder. Comecemos pelo resumo do filme, mais uma vez adaptado da Wikipédia:

 

Enquanto Joe fica em casa a estudar para os exames de acesso à faculdade, os Escolhidos e seus Digimons vão de passeio a uma estação termal, onde eles se deparam com Daigo Nishijima e Maki Himekawa. Na estação termal, as raparigas passam por uma inconveniência quando Biyomon e Meicoomon são separadas delas e acabam por invadir o balneário dos homens. Após o passeio, Maki e Daigo testam armas especializadas contra um Ogremon infetado que havia aparecido. Ogremon acaba por ser levado de volta para o mundo digital por Leomon. Mais tarde, enquanto Mimi preparava um café temático de meninas de claque para o festival cultural da escola, Ogremon regressa, desta feita na zona onde Mimi e Meiko se encontram. Mimi tenta lutar contra o Ogremon infetado, na esperança de melhorar a reputação dos Digimons. No entanto, os ataques de Togemon provocam a queda de um helicóptero de notícias nas proximidades, resultando no efeito oposto. Enquanto Leomon se aproxima dos Escolhidos, explicando o que aconteceu com Ogremon quando ele ficou infetado, Mimi é repreendida pelos amigos pelas suas ações aparentemente egoístas. Enquanto Mimi lamenta o quão egoísta ela tem sido, ela ouve Joe dizendo que ele tem evitado os combates com os Digimons para tentar encaixar-se na idade adulta, lamentando sua própria covardia.

 

No dia seguinte, Gomamon decide fugir da casa de Joe, Izzy recebe uma mensagem estranha em código digital. No dia do festival cultural, Meiko mostra o seu apoio a Mimi vestindo o fato de menina de claque que as duas tinham desenhado para o café. Entretanto, os Digimon infiltram-se no festival para tentar ganhar um concurso de máscaras para comerem de graça no festival. Gomamon reencontra-se com Joe e diz-lhe que fugiu porque sentiu que Joe não queria mais lutar a seu lado. Joe enfurece-se e deixa Gomamon sozinho. Nessa altura, Meicoomon é capturado por Ken Ichijouji, que parece ter revertido para o seu alter-ego Imperador Digimon. Palmon e Gomamon, juntamente com um Leomon parcialmente infetado, perseguem-no até um portal das distorções digitais. No interior da distorção, Ken aparece lado a lado com um Imperialdramon infetado, sendo que Imperialdramon é (o nível Extremo/Hiper Campeão da fusão dos Digimons Wormmon e Veemon, parceiros Digimon dos antigos Escolhidos Ken Ichijouji e Davis Motomiya). Kari convence Joe regressar para junto de Gomamon e lutar ao lado dele. Superando suas próprias preocupações em nome do seu parceiro, Joe consegue fazer Gomamon digievoluir pela primeira vez até seu nível Extremo/Hiper Campeão, Vikemon. Mimi também consegue fazer Palmon digievoluir até sua forma no nível Extremo/Hiper Campeão, Rosemon. Até esse momento, apenas Agumon e Gabumon tinham conseguido atingir esse nível, no caso destes WarGreymon e MetalGarurumon. Os Digimons conseguem derrotar Imperialdramon e regressar com segurança ao Mundo Real. No entanto, Meicoomon torna-se de repente hostil, matando Leomon e escapando para o mundo digital.”

 

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Um dos maiores problemas de Ketsui diz respeito aos fillers. Uma das coisas que elogiei na primeira temporada de Adventure foi o facto de não ter quase nada só para encher chouriços, quase tudo o que acontecer contribui para avançar a história ou, pelo menos, para desenvolver as personagens e as relações entre elas. Uma pessoa ainda pode tolerar um ou outro filler numa série de televisão normal, com episódios todas as semanas, mas esta uma série de apenas seis filmes, que só saem de tantos em tantos meses. É no mínimo frustrante termos passado semanas especulando sobre este filme, sobre os mistérios apresentados em Saikai, para depois Ketsui perder tempo com uma visita a uma estância termal e um festival cultural em que pelo menos metade das cenas são irrelevantes, os combates entre Digimons serem despachados em minutos e quase todas as perguntas ficarem por responder.

 

O dia passado na estância termal sempre serviu para fazer alguns desenvolvimentos discretos, se não tanto em termos de enredo, pelo menos em termos de personagens. Não sou grande fã de Meiko, mas, sendo eu uma pessoa um bocadinho tímida e introvertida, identifico-me um pouco com ela. Gostei da maneira calorosa como os Escolhidos (resolvi deixar de dizer Crianças Escolhidas pois o termo, obviamente, já não faz sentido) receberam o novo membro do grupo, sobretudo Mimi (mais sobre isso adiante). Por outro lado, isso fez com que Meiko roubasse o protagonismo à maior parte dos Escolhidos que conhecemos e adoramos quando a novata não é assim tão interessante como personagem – a partir de certa altura, os seus modos envergonhados começam a cansar.

 

O episódio das termas serviu também para mostrar um pouco da relação entre Meicoomon e Meiko (uma nota: só eu acho irritante o facto de uma Escolhida e o seu Digimon terem praticamente o mesmo nome? Que falta de imaginação…). Os companheiros dos Escolhidos sempre foram, regra geral, um pouco acriançados mas Meicoomon chamou-me a atenção por ser extremamente dependente de Meiko, quase como uma criança pequena depende da sua mãe. Tendo em conta o que acontece no final do filme, este comportamento gera algumas suspeitas. Eu, pelo menos, gostava de saber exatamente como é que Meiko se tornou uma Escolhida e conheceu Meicoomon – sobretudo tendo em conta que, ao que parece, ela e Maki já se conheciam havia algum tempo (desde o início de Saikai?).

 

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Também deu para descobrir um bocadinho mais sobre a misteriosa organização governamental e, sobretudo, sobre os agentes que conhecemos: Daigo e Maki. Percebe-se que Daigo gosta dos miúdos, preocupa-se genuinamente com eles. Maki é mais desprendida (de uma maneira que chega a causar impressão, conforme veremos adiante), mais focada no trabalho que tem de fazer. Percebe-se que a intenção da organização é manter os Escolhidos de fora dos combates, dentro do possível. Se por um lado se compreende que eles não queiram depender de adolescentes para proteger a população, por outro é óbvio que há coisas que eles querem esconder dos Escolhidos – sobretudo aquelas armas especiais para Digimon, calculo eu. Aparentemente, os miúdos não vão muito na conversa deles. Algo que é de esperar, sobretudo Izzy, que sempre gostou de ter a informação toda e que, por esta altura, começa a assumir, discretamente, o papel de líder do grupo. Eu mesma, se estivesse habituada a salvar o mundo desde uma idade em que alguns ainda não sabem apertar atacadores, também ficaria incomodada se, de repente, viessem adultos fazer o trabalho por nós. 

 

Por fim, segundo T.K., a viagem às termas serviria também, mais uma vez, para ver se Tai e Matt fariam as pazes. Eu não sei qual é a melhor maneira de persuadir dois rapazes de dezassete anos a ter uma conversa franca, mas não me parece que metê-los seminus numa sauna e/ou fonte de água quente seja a opção mais eficaz. Na verdade, nesta altura do campeonato, eu recomendaria um terapeuta de casais. Mas já falaremos do “casalinho” adiante.

 

Tirando isso, as cenas nas termas foram mais fanservice e humor fácil que outra coisa qualquer. Algumas semanas antes de sair Ketsui, eu tinha-me queixado pelas internetes fora por, em materiais promocionais, as raparigas aparecerem em biquíni e os rapazes completamente vestidos. Ao menos agora repôs-se a igualdade… E, confesso, diverti-me demasiado com a cena em que as meninas invadem o balneário masculino. Mimi cantando I Wish para distrair os homens? Impagável! Claro que tinha de vir T.K. em socorro de Kari, qual Cavaleiro Andante em pelota. Por outro lado, Meiko pode ser muito envergonhadinha e tal, mas teve lata suficiente para dar uma espreitadela a Tai.

 

 

Enfim, isto pode ter sido só fanservice e tal, podia (acho mesmo que devia) ter sido cortado do filme sem grandes consequências, mas ao menos conseguiu fazer-me rir como uma parvinha. O mesmo não posso dizer do festival cultural, que tem os seus momentos, mas perde demasiado tempo com cenas irrelevantes.

 

Lá iremos. Depois de Tai ter sido o protagonista de Saikai, em Ketsui o protagonismo é dividido entre Mimi, Joe e, em parte, Meiko. Mimi foi uma das minhas personagens preferidas em Saikai e o mesmo torna a acontecer neste filme. Conforme escrevi antes, em contraste com os seus modos caprichosos e irritantes em Adventure, em Tri, Mimi traz vida e alegria a um grupo que, por esta altura, tem tendência a cair no desânimo – com um Tai invulgarmente apático, um Matt sempre de mau humor, uma Sora constantemente tentando manter a paz, um Joe sempre ausente e Izzy e Kari, personagens mais discretas. Mimi é extrovertida, despreocupada, incapaz de duplicidade ou hipocrisia, de esconder o que pensa e sente – algo que se vira contra ela, neste filme. Mimi enfrenta Ogremon quando este aparece segunda vez no Mundo Real, ajudada apenas por uma inexperiente Meiko, contrariando instruções explícitas de Izzy, numa tentativa de mudar a opinião pública sobre os Digimon. No entanto, sai-lhe o tiro pela culatra quando Togemon atira um helicóptero da Comunicação Social para o lago.

 

Leomon acaba por levar Ogremon de regresso ao Mundo Digital – o confronto de Ogremon com Togemon e Meicoomon não dura muito, depois de o mesmo ter acontecido com a primeira aparição de Ogremon no Mundo Real. No rescaldo do combate, Mimi leva nas orelhas por ela não ter esperado pelos amigos, chegando a ser apelidada de egocêntrica por parte de Izzy.

 

Todos concordam que existe verdade nas palavas de Izzy, incluindo a própria Mimi. A jovem leva as críticas do amigo muito a peito, até porque acaba por ouvir críticas semelhantes a propósito da sua ideia para o café temático do festival cultural. Para ser justa, eu adoro-te Mimi, mas eu também não quereria ser transformada numa empregada do Hooters, que é a inspiração de Daters, a cadeira de restaurantes americana ficcional que Mimi refere (para aqueles que não sabem, Hooters é uma cadeira de restaurantes americana em que as empregadas usam trajes reduzidos e a sua função é esbanjarem sex appeal. Pelas descrições, parece-me nojento. Ao menos em Daters são meninas de claque, o que sempre é um bocadinho melhor. Só um bocadinho…).

 

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Desde que a conhecemos, Mimi diz o que pensa e sente e a verdade é que a narrativa não a tem censurado por isso – pelo contrário, é-lhe atribuído o Cartão da Sinceridade. O mesmo acaba por acontecer em Ketsui, de certa forma, pois os Escolhidos que, neste filme, tentam esconder o que estão a pensar e a sentir não o fazem muito bem. Joe diz a Mimi, com razão a meu ver, que mais vale ser-se egocêntrica mas honesta, agir de acordo com as convicções, do que cobarde – mais sobre isso adiante. Mais tarde, Meiko executa a ideia de Mimi para o café temático. Sora faz as fatiotas, piscando o olho ao epílogo de 02 (Lindos meninos, digi-guionistas, lindos meninos!). Acabam por chegar a um meio-termo com as colegas: apenas Mimi e Meiko vestir-se-ão como meninas de claque. Isto é o suficiente para fazer com que Mimi recupere o ânimo.

 

Eu gosto da amizade que se formou entre Mimi e Meiko. Noutra qualquer história de adolescentes, uma personagem feminina semelhante a Mimi seria aquela miúda popular do liceu, que rebaixaria pessoas mais tímidas e discretas, como Meiko. Mimi faz o exato oposto, passa o filme quase todo tentando espevitar a nova amiga, fazer com que ela perca a timidez. É essa a qualidade redentora de Mimi. Para além de ser incapaz de duplicidade, ela tem o coração no sítio certo, não precisa de pisar ninguém para se sentir bem consigo mesma. A amizade entre Mimi e Meiko fez-me lembrar, aliás, a amizade entre Kari e Yolei, em 02. Tri chegou a fazer quase copy-paste do diálogo do episódio da digievolução ADN, em que Kari diz que admira Yolei por esta ser capaz de exteriorizar os seus sentimentos, ao contrário dela. Faz sentido pois, como escrevi antes, Yolei é praticamente uma cópia de Mimi e Kari tem também um lado reservado (ainda que este não se note tanto agora, que está mais velha e entre amigos que conhece há anos). Esta amizade caracteriza mais Mimi do que Meiko, contudo. Esta continua o mesmo enigma que era no início de Saikai.

 

Os problemas de Joe em Ketsui são mais complicados. O jovem continua a manter-se afastado da ação por causa dos estudos mas, tal como adivinhei, a questão é mais complicada que uma simples incompatibilidade de horários. Joe está numa altura crucial da sua vida, para o seu futuro, e sente que o seu dever como Escolhido é algo que o prende ao passado. E a verdade é que ele nunca escolhera ser… bem, uma Criança Escolhida, tal responsabilidade fora-lhe imposta – estou até admirada por ser esta a primeira vez, tanto quanto me lembro, em que um deles se revolta contra a condição de Escolhido. Por isso, vai usando o trabalho académico para se esquivar aos outros Escolhidos, mas a verdade é que ele também não está a ser particularmente bem sucedido nos seus estudos. Tudo isto faz com que Joe acumule autocomiseração, se sinta um cobarde, alienando Gomamon no processo.

 

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Acho que nunca vimos Joe tão em baixo. Como li no Twitter, ele parecia preso numa canção dos Simple Plan em início de carreira. Eu tive vontade de abraçá-lo, sobretudo nos momentos em que desfez em lágrimas. Não é fácil ver uma personagem que conhecemos e adoramos há tantos anos a sofrer.

 

Antes de voltar a falar sobre Joe, queria falar sobre outra personagem enfrentando um dilema semelhante: Tai. Apesar do que aconteceu na batalha final de Saikai, o jovem continua essencialmente com as mesmas dúvidas sobre o que estão a fazer. O problema é que, desta feita, ele não fala disso. Ele podia ter aproveitado o incidente do helicóptero para dizer algo como: “Estão a ver? É disto que tenho tido medo! Aquelas pessoas podiam ter morrido! Podemos falar sobre isto, por favor?”. Em vez disso, fica calado e deixa Mimi arcar com a culpa – mesmo depois de, em Saikai, ele e os outros terem causado danos semelhantes. Mimi foi imprudente, sim, mas ao menos tentou mudar uma situação com a qual não estava satisfeita, o que é mais do que podemos dizer de Tai. Como diria Joe, mais vale ser-se egocêntrico do que cobarde e, por muito que me custe dizer isso, Tai está a agir como um cobarde. Chega a ser doloroso vê-lo tão apagado, perdendo a liderança do grupo para Izzy. Eu compreendo que ele tenha medo de que Matt se chateie a sério e se afaste do grupo (algo que chegou a fazer temporariamente em Saikai) caso perceba que Tai continua com dúvidas, mas, pela maneira como as coisas estão, acho que Matt se vai chatear mais cedo ou mais tarde, quanto mais não seja pelo silêncio de Tai. E, para ser sincera, eu até estava do lado de Tai no primeiro filme, mas já começo a torcer para que Matt lhe dê um murro, como costumava fazer antes. A sério. Yagami, rapaz, eu adoro-te, mas, em nome de todos os monstrinhos digitais, recompõe-te!

 

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A paciência pode ainda não se ter esgotado a Matt em relação a Tai, mas esgotou-se a Gomamon em relação a Joe. O Digimon andava a fazer o que podia para apoiar o seu Escolhido (incluindo noodles com um ovo estrelado por cima, inveja…), mas a certa altura percebe a mensagem e sai da casa de Joe, sem lhe dizer nada. Pode ter sido um bocadinho infantil, sobretudo a parte de Gomamon pedir a Izzy que não diga onde ele está, mas era a única maneira de obrigar Joe a enfrentar a verdade.

 

Curiosamente, é Kari quem chama Joe à razão. A jovem faz-lhe ver que que, mesmo que Joe não saiba o que está a fazer com a sua vida, mesmo que Joe precise de uma explicação para a sua condição de Escolhido, Gomamon fora Escolhido com ele. Eles estavam naquilo juntos e Joe não lhe podia voltar as costas, independentemente de quem os escolheu para aquela missão que não parece ter fim. O jovem percebe isto numa altura em que Gomamon lutava contra Imperialdramon (mais sobre isso adiante).

 

Poder-se-á traçar um paralelismo entre o arco de Joe em Ketsui e o arco de Tai em Saikai. Ambos enfrentam sérios dilemas sobre o seu dever como Escolhidos ao longo dos respetivos filmes. Eventualmente, cada um dos rapazes se vê entre a espada e a parede e é obrigado a lutar, não necessariamente porque tenham ultrapassado aquilo que os incomodava, antes por alguém de quem gostam. No caso de Tai, esse alguém é Matt. No caso de Joe, esse alguém é Gomamon.

 

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A questão que se coloca é se as dúvidas de Joe estão de facto ultrapassadas ou apenas temporariamente silenciadas. Ficou claro neste filme que Tai não ultrapassou as suas. Estas, aliás, terão feito com que Omegamon/Omnimon se desfizesse. Não que isso tenha tido consequências práticas (só depois de ver Ketsui é que fui rever essa cena e reparei que, realmente, Omegamon começa a desfazer-se um ou dois segundos antes de Alphamon fugir pela distorção), mas foi o suficiente para Matt ficar ainda mais irritado.

 

 

Por sua vez, Joe pareceu seguro de si durante a luta com Imperialdramon. Talvez fazer alguma coisa, tomar uma decisão (será daqui que vem o título Ketsui?) e ser bem sucedido lhe seja suficiente para sair do buraco onde caíra, para se deixar de se sentir como um cobarde. É provável que o jovem ainda não saiba ao certo como conjugar os seus deveres académicos com os seus deveres como Escolhido, mas eu quero acreditar que Joe não tornará a virar a cara à luta, nem que seja só por Gomamon.

 

Por fim, dizer apenas que houve quem estranhasse ser Kari a aconselhar Joe, mas eu acho que faz sentido. Para além de dar a Kari algo para fazer, acabámos de ver que o dilema de Joe não é muito diferente do dilema de Tai. Acredito que, no futuro, a jovem voltará a intervir, desta feita para ajudar o seu onii-chan.

 

Mas continuo a achar que a maneira mais eficaz de fazer Tai acordar para a vida é um murro bem dado por Matt.

 

E com este pensamento concluímos a primeira parte da análise a Ketsui. Segunda parte em breve.

 

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Digimon Adventure Tri - Saikai (Reunião)

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O franchise Digimon comemorou o décimo-quinto aniversário da emissão da sua primeira temporada, conhecida entre os fãs por Adventure. No Odaiba Memorial Day desse ano, foi anunciada uma segunda sequela (contando com 02), protagonizada pelas oito Crianças Escolhidas originais, decorrida seis anos após os eventos da primeira temporada – ou seja, três anos após os eventos de 02, logo, as Crianças Escolhidas já não são… bem, crianças. Estava previsto a sequela estrear-se na primavera de 2015, o que não acabou por acontecer. Em vez disso, foi anunciado que, em vez de uma temporada televisiva, Tri seria antes uma série de seis filmes. O primeiro intitula-se Saikai (Reunião) e saiu em novembro último, no dia 21. Depois de ter revisto Adventure e 02 este ano em preparação para Tri, e depois de ter escrito uma data de testamentos sobre essas temporadas, não podia ver o primeiro filme de Tri sem lhe dedicar o seu próprio testamento.

 

Antes de mais nada, três alertas...

 

1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo do primeiro filme de Digimon Adventure Tri e, possivelmente, dos enredos de Adventure e 02. Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas - na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Apesar de as legendas do filme usarem os nomes japoneses das Crianças Escolhidas, eu vou usar as versões americanizadas dos nomes, visto que estou mais habituada.

 

Segue-se uma sinopse do filme, adaptada da Wikipédia.

 

Três anos após os acontecimentos de Digimon 02, Tai Kamiya está no décimo-primeiro ano do Secundário, desanimado com o facto de nenhum dos seus amigos poder comparecer ao seu jogo de futebol. No dia da partida de Tai, um Kuwagamon aparece no Mundo Real, interferindo em aparelhos eletrónicos em toda a cidade. Tai alcança o Kuwagamon, que toma a forma física e ataca-o. Este ataque, no entanto, é diferente de outros ataques por Digimons no Mundo Real pois, pela primeira vez, os danos causados pelo Kuwagamon a civis e infraestruturas perturbam Tai. O jovem consegue atrair o Kuwagamon para um descampado mas o Digimon acaba por encurralá-lo. Nesse momento, o seu Dispositivo Digital brilha e o seu antigo parceiro, Agumon, aparece para defendê-lo. Agumon digievolui para Greymon e luta com o Kuwagamon. À medida que mais dois Kuwagamons aparecem, Tai é ajudado pelas outras Crianças Escolhidas (que tinham sido levadas ao local por uma misteriosa organização, que sabe mais sobre o Mundo Digimon que o cidadão comum) e seus parceiros Digimons (com exceção de Joe). Estes conseguem derrotar dois dos Kuwagamon. No entanto, uma mão misteriosa aparece e captura o terceiro.

 

Após a batalha, os jovens analisam a situação. Acreditam que os Kuwagamon apareceram no Mundo Real devido a distorções no espaço. Tai e Matt visitam o professor Nishijima, que revela ser parte de uma organização que monitoriza as atividades dos Digimons, sobretudo aqueles que são chamados de Digimons Infectados, como os Kuwagamons. Izzy desenvolve uma maneira de fornecer um acesso mais rápido aos seus parceiros Digimons enquanto procura por distúrbios digitais. Tai angustia-se com a possibilidade de pessoas inocentes se ferirem ou mesmo morrerem aquando das lutas contra os Digimons Infectados, o que provoca desconforto entre as Crianças Escolhidas e atrito na sua amizade com Matt.

 

 

No dia seguinte, um Digimon misterioso conhecido como Alphamon aparece, aparentemente a procura de um Digimon que estava sob os cuidados de Meiko Mochizuki, uma jovem que fora recentemente transferida para a escola de Tai. Com Alphamon derrotando os Digimons dos jovens, Matt obriga Tai a dominar o seu medo. Desse modo, os dois conseguem lutar contra o Alphamon através de Omegamon. No entanto, Alphamon consegue escapar antes de Omegamon desferir o golpe. No final, Meiko revela que também é uma Criança Escolhida e que Meicoomon é sua parceira Digimon, sendo este o Digimon que Alphamon estava a procura.

 

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Queria falar primeiro dos aspetos mais técnicos do filme. O desenho das personagens causou alguma polémica por ser tão diferente da série original. Eu até gosto deste desenho menos… cartoonizado e mais realista. Adequa-se à história, à idade dos heróis e, também, da audiência (quem está a ver Tri não são miúdos que nunca viram Digimon antes, é gente como eu, crianças na altura de Adventure e agora na casa dos vinte ou, quanto muito, adolescentes). De resto, todas as Crianças Escolhidas são facilmente reconhecíveis, tirando Matt – e tem mais a ver com o penteado que lhe deram, na minha opinião.

 

Por outro lado, é certo que eu não vejo anime sem ser Pokémon e Digimon, mas eu fiquei impressionada com a qualidade da animação em Saikai. Não que não seja de esperar, depois de passar os últimos meses vendo ver episódios emitidos em 1999, 2000, de baixo orçamento. Achei, em particular, os Digimons e respetivos combates muito mais orgânicos.

 

As três músicas mais icónicas de Adventure – Butterfly, I Wish e Brave Heart – foram todas regravadas para Tri. Eu nunca fui grande fã das duas primeiras (tirando a versão em piano de Butterfly), mas gostei muito destas novas versões. Brave Heart era, naturalmente, aquela por que mais ansiava e não desiludiu: manteve a magia da versão original, recebendo apenas uma roupagem mais moderna. Gosto em particular da terceira parte da canção: o breakdown com os icónicos sons de um dispositivo digital sendo ativado, antes de um solo de guitarra diferente.

 

  

Ainda gostei mais da versão orquestral de Brave Heart, que tocou aquando da luta entre Omnimon/Omegamon e Alphamon – para além de aumentar o carácter épico da música, a letra de Brave Heart adequa-se ao que se estava a passar com Tai no momento em que soa. Outros temas da banda sonora da série original também regressaram, tocando ocasionalmente ao longo de Saikai, igualmente com uma nova roupagem diferente mas mantendo o encanto de sempre.

 

As novas sequências de digievolução também não desiludiram mas – isto é apenas um capricho meu – chateia-me um bocadinho que esta não termine antes do início dos vocais de Brave Heart, como costumava acontecer nas séries originais.

 

Como aconteceu muito na temporada original, Saikai valeu bem mais pelas personagens do que pelo enredo em si. Como poderão ler na sinopse acima, não acontece muito neste filme: este serve apenas para colocar as peças no tabuleiro, para, literalmente, reunir as Crianças Escolhidas e os seus companheiros Digimon, para definir o conflito principal de Tri. Mesmo os principais aspetos da intriga de Saikai – os ataques de Alphamon, as hesitações de Tai, o distanciamento de Joe – são apenas parcialmente resolvidos ou não de todo. Sabemos que este é apenas o primeiro filme de uma série de seis mas, individualmente, considerando apenas o enredo, Saikai não satisfaz.

 

Uma das perguntas dos fãs antes de Saikai dizia respeito ao papel das Crianças Escolhidas de 02. Logo no início do filme vemos flashes de Davis, Yolei, Cody e Ken tombando perante Alphamon. Essas imagens fornecem uma desculpa para a ausência do elenco de 02 em Saikai, mas esta única resposta cria uma infinidade de perguntas. O que aconteceu aos miúdos? Terão, sequer, sobrevivido?

 

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Um rápido aparte só para dizer que, ainda que não seja grande fã dos miúdos de 02, nem eles mereciam esse desfecho. Sobretudo Ken, cujos pais já perderam um filho antes.

 

Fechando o aparte, consta que foi feito casting para as vozes do elenco de 02, logo, em princípio os miúdos estarão vivos. Mesmo assim, as perguntas mantém-se: porque estavam eles a combater Alphamon, para começar? Porque não estavam nem Kari nem T.K. com eles? Yolei e Cody precisavam deles, respetivamente, para que os seus companheiros Digimon atingissem o nível Super Campeão – será, aliás, por isso que eles foram derrotados? E porque nenhum dos “veteranos” sabe que Davis e os outros tres estavam a combater Alphamon – recordo que, em 02, Izzy continuava a desempenhar um papel importante nas aventuras dos miúdos, ainda que a partir dos bastidores. Se os miúdos de 02 viam, de facto, Alphamon como uma ameaça, já teriam pedido ajuda a Izzy. No entanto, ficou claro em Tri que o Cérebro das Crianças Escolhidas nunca vira Alphamon mais gordo.

 

A melhor hipótese que me ocorre é de Davis e os outros terem detetado um qualquer distúrbio no mundo Digimon. Possivelmente, pensaram que era uma coisa menor e nem sequer avisaram Kari e T.K.… por algum motivo. Contudo, quando foram ver, era Alphamon, algo para o qual não estavam minimamente preparados (mais ou menos como quando enfrentaram BlackWarGreymon pela primeira vez). Mas continua a ser muito estranho ninguém falar disso – até porque pelo menos a tal organização secreta sabe que eles estão desaparecidos. E não seria a atitude natural dos pais dos miúdos de 02, depois de eles desaparecerem, ligarem a todos os números na lista de contactos dos filhos? Como é possível que nem Tai nem nenhum dos outros saibam do desaparecimento de Davis e dos outros? Não acredito que não o saibam. Conforme dizia um fã na Internet, quando alguém desaparece, as pessoas reparam.

 

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O aparente desprezo que estão a votar ao destino dos miúdos de 02 não abona nada em favor, não apenas de Kari e T.K., também dos outros veteranos. Não nos esqueçamos que, no início de 02, Davis e os outros não tinham obrigação moral de ajudar o Mundo Digimon. Só o fizeram porque os veteranos não podiam fazê-lo eles mesmos. Foram eles mesmos, Tai e os outros, a iniciar os caloiros nas lides das Crianças Escolhidas. Agora aconteceu algo terrível aos miúdos de 02, precisamente enquanto cumpriam o trabalho que lhes foi passado como um testemunho, e os veteranos nem deles falam?

 

Esta é, na minha opinião, a maior falha do enredo de Saikai. Pode ser que esclareçam a situação nos próximos filmes… por favor!

 

Também achei que o conceito de Digimons Infetados era uma variante das Rodas Pretas de Adventure e dos Anéis e Espirais de 02. Não prima pela originalidade.

 

Este filme trata Tai como protagonista, continuando uma tendência de Adventure que chateava um bocadinho. O enredo gira quase todo à sua volta e todas as outras personagens, incluindo as outras Crianças Escolhidas, são tratadas como secundários. No início de Saikai, Tai está naquela fase pela qual todos já passámos pelo menos uma vez, em que não sabemos o que fazer com as nossas vidas, em que o passado, de repente, parece bem melhor do que realmente foi, em que todos em redor parecem ultrapassado tudo, seguido em frente com as suas vidas, enquanto nós sentimo-nos iguais ao que sempre fomos. Tai está naquela idade em que a sociedade espera que saiba exatamente o seu futuro, quando ele sente que tudo o que sabe fazer é jogar futebol e liderar as Crianças Escolhidas. No entanto, quando o seu desejo se realiza e Tai tem de retomar aquilo que considera ser a sua verdadeira vocação… esta não é bem da maneira como ele se recorda. De repente, Tai repara na destruição colateral que um simples Kuwagamon consegue fazer, as infraestruturas arruinadas, as vidas ameaçadas.

 

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Depressa as Crianças Escolhidas – tirando Joe – juntam-se à luta, transportadas até ao local por funcionários da tal organização misteriosa – ao que parece, parte do governo. Se por um lado acho lógico que os governantes não queiram deixar a proteção da população contra a ameaça dos Digimon apenas nas mãos de adolescentes, por outro, tenho algumas suspeitas em relação às intenções deles. Eles dizem que foi Gennai que os pôs ao corrente dos detalhes sobre o Mundo Digital – será verdade? E, mais uma vez, sabendo eles que quatro das Crianças Escolhidas japonesas estão desaparecidas, porque não fazem nada, ao que parece?

 

Enfim, os Kuwagamon são derrotados, mas, nos dias que se seguem, as Crianças percebem que a opinião pública se revoltou contra os Digimon, não distinguindo aqueles que atacavam a população e aqueles que procuravam defendê-la. Quando os oito se reúnem pela primeira (e única) vez em Saikai, para fazer o ponto da situação, Tai diz compreender a posição tomada pelos “civis”, dá mesmo a entender que os companheiros Digimon são, pelo menos em parte, responsáveis por essa destruição. Os amigos reagem com desconforto… tirando Matt. Este, pura e simplesmente, irrita-se e separa-se temporariamente do grupo.

 

Muitos fãs acusam Tai de estar a agir contra a sua personalidade em Saikai (mais sobre isso adiante), mas eu também estou a estranhar um pouco as atitudes de Matt. Em 02, ele parecia ter ultrapassado a sua amargura e revolta pelo divórcio dos pais, surgindo mais descontraído e divertido (não fez mal à ideia que tínhamos dele ser perseguido pela irmã de Davis). No entanto, em Tri, ele parece ter regressado aos seus modos mal-humorados e irascíveis. Talvez seja a adolescência, a pressão dos dezassete anos… E, de qualquer forma, se há pessoa que o irrita facilmente é Tai. Temos até uma inversão de papéis: em Adventure, era Tai quem se atirava de imediato à luta e Matt quem optava pela opção mais segura. Em Tri passa-se o oposto. Achei até que Matt foi demasiado duro para com o amigo. No entanto, verdade seja dita, em nenhum momento Matt se recusou a lutar quando era necessário. Mesmo outras Crianças Escolhidas, como Mimi em Adventure, que procuraram caminhos alternativos à violência, nunca se recusaram, pura e simplesmente, a lutar. Mas já falaremos melhor sobre as hesitações de Tai.

 

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Eu gostava de ter ouvido opiniões mais concretas das outras Crianças Escolhidas sobre o dilema de Tai, mas também compreendo que estas não tivessem querido tomar lados na discussão entre Tai e Matt. Afinal de contas, da última vez que aqueles dois se tinham desentendido a sério, o grupo dividira-se. Gostei, aliás, de vê-los fazendo tudo para que os dois líderes do grupo deixassem de andar às turras… sem se deixarem de divertir à custa dos dois.

 

Para dizer a verdade, todos os momentos de convívio entre as Crianças Escolhidas deram gosto de ver, as cumplicidades, as trocas de picardias. Surpreendentemente, Mimi foi uma das minhas personagens preferidas em Saikai: acabada de regressar dos Estados Unidos para o Japão, trazendo consigo alegria, vida e gomas a um grupo de Crianças Escolhidas perigosamente à beira do desânimo. De todos, Mimi é quem parece mais confortável na sua pele: ao namoriscar com um Izzy atravessando uma fase de timidez perante mulheres; ao cumprimentar com um abraço um Joe atravessando uma fase difícil; ao provocar uma Sora que passara os últimos dias fazendo das tripas coração para manter a paz entre Tai e Matt. É notável que Mimi tenha passado de uma das mais irritantes para uma das mais divertidas.

 

Sora continua a mamã do grupo, sobretudo, precisamente, no que toca a Tai e Matt. Antes de os Digimon se meterem ao barulho, a jovem stressava para escolher entre o jogo de futebol de Tai e o concerto de Matt, não querendo magoar nenhum dos rapazes. Depois de Tai e Matt se começarem às turras, fez tudo – inclusive fechá-los numa cabina da roda gigante – para que se entendessem de novo. Houve até um momento em que interrompeu uma discussão entre eles e só faltou Tai ou Matt dizerem: “Desculpa, mãe…”. Por um lado tem graça, é Sora sendo Sora. Por outro, é um bocadinho frustrante que tudo o que a jovem faz em Saikai seja em função dos rapazes.

 

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Acontece o mesmo com Kari, que passa a maior parte do filme preocupada com o seu onii-chan. Também aparece numa ocasião metendo-se com T.K. – que, nestes últimos três anos, se transformou num mini-galã, ao que parece – e este pergunta-lhe se ela tem ciúmes. Nenhum deles tem muito tempo de antena, aliás – provavelmente por já terem sido protagonistas em 02.

 

Caso não se tenham apercebido ainda, o filme faz muito isto. Não há praticamente nenhum ship que não receba uma piscadela de olhos, até mesmo Tai e Matt (sim…). Diz que é isso que o povo quer, ainda que eu não acredite que a audiência tem sempre razão (sim, Arrow, estou a falar de ti outra vez). Em todo o caso, não me vou queixar pois Saikai lidou bem com as insinuações de romance pois limitou-as a isso, a insinuações e a comic relief. Fê-lo muito melhor que 02.

 

De qualquer forma, gostei de ver as raparigas lanchando fora juntas. Julgo que foi a primeira vez que vi Kari convivendo com Sora e Mimi a sós, como amigas normais.

 

Izzy continua o génio de sempre, o Cérebro das Crianças Escolhidas. Agora tem o seu escritório pessoal (bem impressionante para um miúdo de dezasseis anos, diga-se). Depressa providencia um espaço virtual para os companheiros e uns óculos novos para Tai, capazes de detetar distorções no espaço, como as responsáveis pelo aparecimento dos Kuwagamon. No entanto, conforme dei a entender acima, não se sente muito à vontade com o sexo oposto.

 

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Quem, no entanto, está a passar verdadeiramente por um mau bocado é Joe. De forma surpreendente, o mais velho do grupo está com más notas e usa isso como desculpa motivo para passar ao lado da maior parte da ação… para não dizer toda a ação. Apenas se junta ao grupo quando este se reúne no dia seguinte ao ataque dos Kuwagamon. Quando Joe confessa aos amigos que nem tempo tem tido para a namorada, estes reagem da mesma maneira que a audiência:

 

- Espera… tu tens uma namorada?

 

T.K. pergunta mesmo se a misteriosa namorada é humana, o malvado… Não se pode censurar Joe por ficar com ainda menos vontade de se juntar ao grupo. Mas é um momento engraçado, um dos mais engraçados de Saikai.

 

Regressando a um tom mais sério, duvido que o trabalho académico seja o único motivo pelo qual Joe se manteve afastado da ação. Suspeito que haja mais qualquer coisa. Talvez ele concorde com as hesitações de Tai. Talvez ele se considere uma peça pouco importante naquele xadrez. Ele próprio reconheceu, perto do fim de Adventure, que Gomamon é bastante irrelevante como lutador… Talvez Joe se ressinta disso, passados aqueles anos todos. Talvez ele esteja com uma crise de confiança, derivada da sua situação escolar. Talvez ele não queira, sequer, continuar a ser uma Criança Escolhida.

 

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Estou mais inclinada para as últimas hipóteses, sobretudo porque, segundo consta, no próximo filme estrear-se-ão as digievoluções para o nível Hiper Campeão dos companheiros de Mimi e Joe. Já não era sem tempo. Sempre foi uma injustiça Matt e Tai serem os únicos com direito a esse nível. Mesmo assim, continuarão privilegiados graças a Omnimon/Omegamon – a menos que as outras Crianças Escolhidas consigam desbloquear também a… Digievolução ADN? Em todo o caso, espero que os desbloqueios sejam feitos como deve ser, ou seja, com desenvolvimento de personagem a acompanhar.

 

Regressando a Tai, como muitos fãs, no início eu estranhei as suas hesitações, tão díspares daquilo a que estávamos habituados da parte ele. No entanto, ao ver Saikai pela segunda vez para escrever esta análise, tudo pareceu fazer mais sentido. Na minha opinião, estes desenvolvimentos vêm em linha com o arco de Tai em Adventure. Em miúdo, ele possuía um longo historial de decisões irrefletidas, teimando em atirar-se para a frente sem pensar nas consequências, sem pensar nos danos que as suas atitudes e a luta em si provocariam nos amigos. No fim de Adventure, ele começa a aprender a pensar antes de agir, a ter em consideração a segurança os demais. É natural que, aos dezassete anos, quando ele, nas suas próprias palavras, vê mais e compreende menos (bem vindo à idade adulta, Yagami!), as consequências das suas ações lhe pesem mais.

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É, aliás, uma das coisas que apreciei em Tri: o facto de a narrativa ganhar maturidade, adaptando-se à idade da audiência. Em miúdos não nos importávamos particularmente com os danos humanos e materiais, provocados por todos aqueles combates fixes entre Digimon. Quando somos mais velhos é que pensamos coisas como “Eish, reconstruir aquela ponte vai custar milhões!” ou “É impossível o Paildramon não ter esmagado ninguém ao chocar contra aquele prédio”. Tri usa isso em seu favor. O mesmo se passa com a organização secreta, conforme referi antes.

 

No entanto, por muito justificáveis que sejam todas estas crises existenciais de Tai, vê-lo especado enquanto Alphamon ataca todos os companheiros Digimon e falha por pouco Matt e Meiko desafia a credibilidade. Para além de ser contra a sua personalidade, é… uma cobardia, pois ele parece menos preocupado com a destruição em si do que com ser responsabilizado por ela. Felizmente, numa cena cujo drama é espremido até ao tutano mas que resulta – sobretudo ao recordar um certo momento icónico de Adventure – Matt consegue obrigar Tai a recompor-se, a reaprender o verdadeiro significado de coragem (agir mesmo sabendo que as circunstâncias estão contra nós, que poderemos falhar) e… começa a tocar a versão orquestral de Brave Heart. Nada corre mal quando toca Brave Heart.

 

 

Agumon e Gabumon digievoluem para Omnimon/Omegamon, não sem antes passarem por todos os estádios da digievolução… por algum motivo. Pena não terem mostrado as sequências de passagem para os níveis Super e Hiper Campeão. Além disso, pelas regras definidas em 02, não sei se a digievolução para Omnimon seria possível. Terão Gennai e/ou Azulongmon tenham mexido cordelinhos outra vez? Se sim, por que motivo os Digimon das outras Crianças não passaram ao nível Super Campeão? Enfim, enredo, a quanto obrigas…

 

A luta entre Omnimon/Omegamon e Alphamon é fixe, não apenas pelo combate em si, mas também pelas cenas de Tai apoiando-se em Matt (estes dois têm uma relação engraçada, realmente: num minuto amigos do peito, noutro a isto de andarem ao murro…). No entanto, Alphamon acaba por fugir através de outra distorção espacial, o combate fica por terminar, continuamos sem saber ao certo qual é o objetivo dele, fica a destruição. Tal como já referi acima, ainda que este, em princípio, não vá virar a cara à luta de novo, continua com os mesmos dilemas e Matt continua descontente com o amigo.

 

Uma nota rápida para Meiko, a nova Criança Escolhida cujo companheiro Digimon, Meicoomon é, ao que parece, quem Alphamon perseguia. Tudo o que sabemos sobre ela é que veio transferida de outra cidade e é muito tímida. Mais nada. Eu não acho que era preciso arranjarem mais uma Criança Escolhida, mas suponho que Meiko e Meicoomon vão ter um papel importante no enredo futuro de Tri.

 

03.jpg

  

Em conclusão, o título Saikai, Reunião, do meu ponto de vista, não diz respeito apenas ao reencontro das Crianças Escolhidas umas com as outras e com os respetivos companheiros Digimon. Diz também respeito ao reencontro do elenco de Adventure connosco, depois de nos termos despedido deles há quinze anos. O filme explora muito o fator nostalgia/fanservice, não apenas com os brindes para os ships, também com pormenores como os óculos de Tai e a harmónica de Matt. Não se limita, no entanto, a ser pouco mais que um remake de Adventure ou 02, pelo contrário. Tal como disse acima, o enredo acompanha o amadurecimento da audiência e do elenco – dá para ver, em diferentes graus, que as Crianças Escolhidas não são o mesmo que eram no fim de Adventure (e mesmo 02), ainda que o essencial da sua personalidade não tenha mudado. E, como tenho assinalado aqui no blogue sempre que falo de Digimon, é difícil falhar quando a narrativa investe nas suas personagens.

 

O problema de Saikai – e, provavelmente, de todo Tri – é que este filme foi feito para fãs de longa data de Digimon. Para podermos apreciá-lo, temos de ter visto pelo menos Adventure e, idealmente, também 02. Mesmo assim, na minha opinião, a menos que tenhamos visto e adorado pelo menos Adventure na nossa infância, não será a mesma coisa.

 

02.jpg

  

Para mim, Saikai foi o culminar de vários meses de Digimon. 2015 foi o ano em que redescobri um dos produtos ficcionais que mais me tem influenciado, mesmo que não tenha contactado com praticamente nada relacionado com Digimon em dez anos. Eu, que não sou nada enviesada, acho que Saikai foi o melhor filme que vi em 2015. E agora, que já estamos em 2016, uma das coisas por que mais anseio este ano é pela continuação de Tri, começando pelo segundo filme, intitulado Ketsui, que significa Determinação. Até lá…

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