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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Hayley Williams – Flowers For Vases / descansos (2021) #2

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Na altura do lançamento de Flowers For Vases, Wait On não era uma música completamente desconhecida. Hayley já a tinha tocado em junho do ano passado, num vídeo do Instagram (se a memória não me falha). Como poderão ver (e ouvir), é uma versão incompleta, ainda em composição. 

 

Musicalmente é muito simples, baseada apenas em arpejos de guitarra acústica – faz lembrar um pouco In the Mourning, na verdade – e um ou outro efeito mais etéreo. A letra parece falar de várias coisas. A narradora começa por lamentar estar sempre à espera do seu amado, como se a vida dela girasse à volta dele. 

 

O refrão, no entanto, usa a metáfora do céu, que mesmo estando por vezes coberto de nuvens e, de vez em quando, precise de deixar a chuva cair, não desaba. Mantém-se firme sobre as nossas cabeças.

 

Isto é uma variante ao conceito de Petals For Armor, sobre o qual já escrevi várias vezes aqui no blogue – nem sempre a propósito de Hayley. A jovem está ainda a aprender a ser forte, a sentir as coisas e a não deixar que estas a destruam. A resistir à tentação de se tornar impermeável. Hayley chegou a citar Dolly Parton, dizendo que não quer endurecer o coração, mas que procura fortalecer os músculos à volta desse órgão.

 

Ninguém disse que era fácil ser-se forte.

 

 

No contexto de Wait On, suponho que as emoções com que a narradora está a lidar sejam as saudades do amado, que está longe dela. Na última estância, Hayley usa a metáfora de um pássaro que guardou as suas penas para que o amado pudesse usá-las no cabelo – e saber que ela estará sempre com ele.

 

Segue-se KYRH, sigla para Keep You Right Here. Flowers For Vases tem duas siglas como títulos – sem necessidade, na minha opinião. Qual é a piada? 

 

Esta faixa é praticamente um interlúdio – num álbum de faixas já de si muito curtas. Um interlúdio num álbum de interlúdios. Musicalmente, é uma balada guiada pelo piano, com notas de guitarra e um tom etéreo. Agradável, mas não muito original. 

 

A letra é curta, fala apenas de manter alguém à distância certa. Esse acaba por ser um tema recorrente em Flowers For Vases: procurar um equilíbrio entre dar espaço a um ente querido e as saudades que sentimos deles. 

 

Nessa linha, falemos sobre HYD. Devo dizer que, pelo menos em termos musicais, esta é uma das que menos gosto em Flowers For Vases. É demasiado lenta para o meu gosto, falta-lhe intensidade, vida. Uma vez mais, temos guitarra acústica, piano, elementos atmosféricos mas, nesta fase do álbum, já começa a cansar.

 

A letra ao menos é interessante, talvez das mais interessantes em Flowers For Vases. Para mim, HYD é a maior prova de que Taylor é o misterioso amante de Hayley. As pistas estão todas lá, sobretudo na segunda estância.

 

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Começando por “many storms have come and, if not for you, I’d have been struck down, disappeared at sea”. Hayley e Taylor já passaram por muito juntos, tanto no que toca às crises da banda como nas suas vidas pessoais. Por estes dias, já é do conhecimento geral que 2015 foi um dos piores anos da vida de Hayley – Jeremy deixou os Paramore, o ex tê-la-á traído poucos meses antes da data inicial do casamento deles. No entanto, Hayley chegou a afirmar que passaria por tudo outra vez só mesmo porque, no meio disto tudo, Taylor deu provas da sua amizade. 

 

Depois, temos “I know it’s hard for you to take a compliment”. Taylor não gosta de elogios. Existem ocasiões, em entrevistas ou em palco – como por exemplo no vídeo que acabei de referir – em que Hayley se prepara para dizer bem de Taylor, vira-se para ele e diz algo do género:

 

– Vais detestar esta parte…

 

Por fim, “my life began the day you came in it”. Hayley tem dito que considera que só nasceu verdadeiramente quando ela e a mãe vieram viver para Nashville, quando ela conheceu os futuros membros os Paramore (havemos de regressar a essa ideia). Um desses futuros membros? Taylor. Ele só se juntou oficialmente à banda durante o ciclo de Riot!, vários anos depois dos restantes, mas ele e Hayley compuseram juntos desde início – músicas como Conspiracy e a B-side Oh Star. 

 

Dá para perceber um bocadinho porque é que Hayley se apaixonou por ele, mesmo que muitos anos depois. 

 

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Segundo a letra de HYD, no entanto, eles terão estado separados. Talvez ainda estejam. Assumindo que é sobre Taylor, este parece estar a sofrer de depressão (“And it that dark little place you have made, you’d swear all these pretty clouds are grey”) e sentiu a necessidade de deixá-la.

 

A narradora não reage muito bem, fica magoada, quase ressentida – porque, como acabámos de ver, quando Hayley passou pelo mesmo, ela não o afastou, ele esteve lá, terá mesmo sido fulcral para a sua sobrevivência (havemos de regressar a esta ideia já a seguir). Além disso, há que recordar que Hayley tem problemas de abandono, derivados do divórcio dos pais, conforme admitiu numa das entrevistas a Zane Lowe.

 

Como acontece com Over Those Hills, se bem que em circunstâncias muito diferentes, a narradora pergunta-se como estará o amado. Se ele ainda a ama, se ele está a conseguir ultrapassar a sua depressão. Ela acredita que sim.

 

Existe uma parte confusa perto do fim, em que se fala de uma criança. Não sei se ela está a falar do seu cão, se está a falar da sua criança interior, como em Simmer, se eles tiveram um filho sem dizer nada a ninguém (ligeiramente menos provável). Infelizmente, no que toca a Flowers For Vases, não tenho respostas para todas as perguntas – até porque Hayley falou muito pouco sobre estas músicas. 

 

Fica à interpretação de cada um.

 

Queria falar agora sobre Find Me Here. Esta é uma versão diferente da lançada no EP Self-Serenades, mais longa, mais completa. Continua curta, mesmo assim – apenas vinte segundos mais longa que a primeira versão, ainda parece um interlúdio. Musicalmente, pegou nas partes boas da primeira versão e melhorou-as ainda mais – nomeadamente os vocais à Simon & Garfunkel. 

 

 

Em termos de letra, para Flowers For Vases, Hayley acrescentou uma estância que não chega a sê-lo – são apenas dois versos – e uma variante ao refrão. Acaba por manter a mesma mensagem da versão de Self-Serenades, com uma pequena extensão: tal como ela sempre amará a outra pessoa, mesmo que este não possa estar com ela, o amado também sempre a amará. Mesmo separados, nenhum deles estará sozinho.

 

Esta mensagem tem ainda maior impacto no contexto de Flowers For Vases – parece ser uma resposta direta a Wait On e HYD. Dá para ver a jornada feita por Hayley desde lidar mal com a separação até aceitá-la. Suponho que uma das lições que Hayley aprendeu durante 2020 foi que cada um lida com os seus problemas de saúde mental de maneira diferente. Para alguns, como ela, a presença dos entes queridos é importante. Outros, como possivelmente Taylor, precisam de fazê-los sozinhos. Há que procurar um equilíbrio, mesmo que seja difícil. 

 

Nesse aspeto, talvez não tenha sido assim tão boa ideia ter lançado Find Me Here no Self-Serenades. Mais valia ter esperado por Flowers For Vases. Enfim. 

 

Com tudo isto em consideração, e apesar de continuar a achar que a faixa é curta demais, Find Me Here está entre as minhas preferidas neste álbum. 

 

Voltando um bocadinho atrás na tracklist, Inordinary é uma das preferidas de Hayley. Parece ter sido inspirada por aspetos do passado dela de que falou em entrevistas sobre Petals For Armor. Hayley admitiu que a primeira parte da canção é sobre uma coisa e a segunda parte é sobre outra, o contexto muda. 

 

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Assim, na primeira parte da música, Hayley recorda os primórdios dos Paramore. Os tempos em que ela conheceu os futuros membros da banda, Taylor incluído, em que tentou fazer deles a família que desejava ter tido em criança. E, claro, em que aprendeu a tocar guitarra, a compôr música, em que tinha sonhos e ambições que não cabiam numa vida comum em Nashville. 

 

Na segunda parte, por outro lado, Hayley recua ligeiramente no tempo, recordando o momento em que ela e a mãe fugiram do Mississipi e do companheiro abusivo da última. A narradora diz sentir saudades desses tempos, do sabor da liberdade, da relativa paz e normalidade da sua vida. Ao contrário da primeira parte, que valoriza o incomum, a segunda parte valoriza o comum. 

 

Posso estar enganada, mas a ideia que tenho é que só há relativamente pouco tempo é que Hayley aprendeu a dar valor a esta decisão da sua mãe. Havemos de regressar a este assunto quando finalmente escrever sobre All We Know Is Falling. Em todo o caso, é por causa dos dois eventos descritos em Inordinary – a fuga para Nashville, conhecer Taylor, Josh e os outros – que Hayley diz que a sua vida começou no sétimo ano. 

 

Musicamlmente, nada a assinalar. É mais uma faixa guiada pela guitarra acústica, acompanhada por piano e efeitos atmosféricos. 

 

Estou sempre a dizer a mesma coisa, não estou? A culpa é deste álbum.

 

Em Inordinary em particular, em dispensava o piano e o resto do acompanhamento, mantinha a faixa só com guitarra e voz. Os outros elementos não acrescentam nada. 

 

 

Ao menos a canção de que vamos falar a seguir tem uma sonoridade um pouco diferente. No Use I Just Do é outra faixa demasiado curta, outra que parece um interlúdio – o que é uma pena, pois eu até estava a gostar. Guiada pelo piano, acompanhada por elementos estranhos – a melhor maneira que encontro para descrever é dizendo que soa-me a uma guitarra distorcida à distância. 

 

Em todo o caso, resulta.

 

Em termos de letra, é simples, é curta, mas transmite bem a mensagem. É uma canção de amor. A narradora ama o seu interesse romântico por quem ele é. Não apenas porque se sente sozinha e precisa de companhia. Por muito que a narradora tente, ele é o único que ela ama. Está fora do seu controlo. 

 

Pena mesmo ser tão curta.

 

Descansos é uma faixa quase instrumental, a penúltima em Flowers For Vases. Inicialmente a música tinha letra, chamava-se Baby in the Bathtub (um título curioso), mas consta que a letra deixou de ser revelante. Assim, Hayley cortou-a e manteve o instrumental e alguns – poucos – vocais sem palavras. A faixa inclui ainda o áudio de vídeos caseiros do primeiro Dia das Bruxas de Hayley. 

 

O instrumental em si é bonito, com notas de guitarra e piano e um tom melancólico, agridoce. Como se, de facto, Hayley estivesse a ver as cassetes da sua infância, sentindo saudades de tempos mais inocentes.

 

 

Falta-nos falar sobre Just a Lover – que muitos especulam ser uma resposta ao excerto do avô de Hayley, incluído por Taylor em Crystal Clear: “friends or lovers, which will it be?” (como é que eu duvidei durante tanto tempo…?). 

 

Instrumentalmente é das mais interessantes em Flowers For Vases. Começando com piano, baixo e bateria, evoluindo mais tarde para uma guitarra elétrica explosiva. 

 

Uma vez mais, é… demasiado… curta! A música pedia mais uma estância antes de trazerem a guitarra elétrica. Além disso, não havia necessidade de manter os vocais introdutórios num volume tão baixo. Para quê? 

 

A letra é algo confusa. Começando pela introdução. Hayley faz uma referência à Wendy de Peter Pan. Numa das entrevistas a propósito de Petals For Armor, Hayley revelou que uma das coisas que viera a descobrir com o(s) seu(s) psicólogo(s) é que tentou fazer dos Paramore a sua família, tentou de fazer de Wendy, de mãezinha do grupo que tomava conta de toda a gente. Não era a atitude mais saudável.

 

Em Just a Lover, Hayley diz mesmo que o amor a transformou em muitas outras pessoas, mas agora é “apenas uma amante”. A minha interpretação é que, agora, Hayley é capaz de amar só porque sim, de maneira pura – não para compensar por uma carência, não apenas porque se sente sozinha e indesejada.

 

Isto pode dizer respeito tanto à sua possível relação com Taylor como à sua relação com os Paramore enquanto banda. 

 

 

A estância seguinte fala, outra vez, dos primórdios dos Paramore. A depois dessa é que se torna confusa. A ideia com que fico é que Hayley se deixou levar pelas metáforas e a mensagem da música perde-se. 

 

Em todo o caso, vejo a última estância como um lamento pelo futuro incerto da banda em termos de pandemia – “I’ll be singing into empty glasses, no more music for the masses”. Há quem diga, no entanto, que os copos vazios são aos tempos em que Hayley tentava afogar a sua depressão com doses copiosas de álcool, durante a era de After Laughter. 

 

Não sei. Just a Lover termina com a narradora dizendo que sabe o que isto era, ou o que fora. Pena não ter partilhado a informação connosco. 

 

E é isto Flowers For Vases. O único álbum até agora do universo musical de Hayley Williams que não adoro. Como fui dando a entender ao longo desta análise, é demasiado homogéneo em termos de sonoridade. 

 

Comparemos com Petals For Armor: quase todas as músicas têm essencialmente os mesmos instrumentos, mas os estilos musicais são muito mais variados e diferentes do que se ouve por aí – sobretudo pelo facto de quase todas serem guiadas pelo baixo, cortesia da colaboração com Joey Howard. 

 

Por sua vez, as músicas de Flowers For Vases soam muito parecidas a quaisquer outras canções acústicas/folk/baladas de piano. Além disso, como também fui assinalando, a maior parte delas é demasiado curta. Acho que li em qualquer lado que várias das músicas deste álbum estiveram incompletas durante muito tempo. Hayley só as terá completado quando decidiu lançá-las. 

 

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Não consigo encontrar a fonte dessa informação, no entanto, estejam à vontade para não acreditarem. Mas não me surpreenderia se fosse verdade. Por esse aspeto e pela falta de variedade em termos de instrumental, Flowers For Vases soa-me a um longo interlúdio ou a um EP. 

 

Talvez devesse ter sido um EP – até porque temos casos de o mesmo tema ser abordado em mais do que uma canção, com poucas alterações. Como vimos antes, as três primeiras músicas falam sobre, ao mesmo tempo, querer e não querer seguir em frente após uma relação falhada. Outras três tentando processar o facto de o amado precisar de espaço. Alguns dos temas já tinham sido (melhor) abordados em Petals For Armor, até. Eu teria cortado músicas como First Thing to Go ou HYD ou KYRH. 

 

Dito isto tudo… há que recordar que este é um álbum quase cem por cento a solo por Hayley. Ela compô-lo sozinha e tocou todos os instrumentos. Pessoalmente, nunca tinha ouvido falar de nenhum caso assim, mas uma rápida pesquisa no Google mostrou-me que não é assim tão invulgar.

 

Ainda assim, a maior parte dos músicos não consegue criar um álbum sozinho. Precisa de co-compositores, produtores, instrumentistas, etc. Hoje em dia, aliás, muitas músicas do mainstream contam cinco ou seis compositores. Uptown Funk conta para aí uma dúzia deles. Segundo consta, no entanto, foi o equivalente a um trabalho de grupo em que só uma ou duas pessoas trabalham, os outros apenas assinam no fim. Neste caso não foi pela nota, foi pelos lucros da música.

 

Mesmo que um músico não tenha propósitos tão monetários, não deixa de ser difícil fazer um álbum praticamente sem ajuda. Hayley, ainda por cima, é famosa pelas letras e melodias, não pelos instrumentos. Pelo contrário, Petals For Armor foi o primeiro álbum em que ela teve créditos na instrumentação. Ela mesma admitiu que, desde a sua adolescência, 2020 foi o ano em que mais tocou guitarra. Foi a primeira vez em uma década que instalou um kit de bateria na sua casa.

 

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Tendo isto tudo em conta, podemos censurar Hayley por Flowers For Vases não ser uma obra-prima? Eu já acho um grande feito, tendo em conta as circunstâncias, que o álbum tenha uns quantos bons momentos instrumentais!

 

Além disso, concordo com as opiniões de fãs na Internet que dizem que, mais do que qualquer outro, Flowers For Vases é um álbum que Hayley criou só para si mesma, sem grande consideração pela audiência. Terá sido por isso que a promoção foi mínima. 

 

Calhou não fazer muito o meu género, tirando uma música ou outra. Não me imagino a regressar muito a este álbum. Ao contrário do que tem sido a minha prática com artistas de que gosto nos últimos anos, não me vou dar ao trabalho de comprar o CD.

 

E não há mal nenhum nisso. Como a própria Hayley escreveu na mensagem de lançamento, melhor sorte para a próxima.

 

E Hayley parece já mais ou menos pronta para uma próxima. Pintou o cabelo de laranja e, quase cinco anos depois, parece que é para durar – também acho que é a altura certa. Houveram momentos nos anos anteriores, a propósito de iniciativas para a Good Dye Young e assim, em que ela parecia ameaçar regressar ao laranja, mas a ideia não me agradava. Ainda não estávamos lá. Mas agora estamos.

 

Hayley diz também que o seu próximo projeto musical será com os Paramore. Não sei se vão entrar em estúdio já já – tenho as minhas dúvidas, até porque ainda não há fim à vista para a pandemia. Há quem aposte num álbum novo ainda este ano, mas eu acho melhor termos paciência. Não me importo de esperar.

 

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Já conto mais de dez anos como fã dos Paramore. Às vezes ponho-me a ouvir músicas do Singles Club e surpreendo-me com tudo o que mudou desde esses tempos, o quão Hayley e Taylor evoluíram como músicos. Tem sido uma montanha-russa – e note-se que só me juntei à família depois de Zac e Josh terem saído da maneira como saíram. Ainda hoje, passados estes anos todos – mesmo estando os Paramore numa fase tão boa que Hayley pode lançar música a solo sem que se questione o seu compromisso com a banda – continuamos a tentar perceber porque é que a jornada tem sido tão turbulenta.

 

Há umas semanas alguém comentou no Twitter que os Paramore deviam fazer daqueles documentários musicais que estão muito na moda hoje em dia. Hayley admitiu que houveram tentativas. Eu no entanto acho que era preciso, no mínimo, uma série de seis episódios.

 

Hei de escrever sobre isso quando analisar os álbuns All We Know Is Falling e Brand New Eyes. Já não é a primeira vez que falo destes textos, estou sempre a adiar. Ainda assim, quero ver se escrevo sobre o primeiro álbum antes de sair o próximo. 

 

Os próximos tempos aqui no blogue serão algo incertos. Vou começar um emprego novo, mais exigente, que me vai roubar tempo de escrita. Ainda não sei como vou gerir mas, no mínimo, publicações aqui vão ser (ainda) mais espaçadas. Avril Lavigne e Bryan Adams têm dado a entender que irão lançar música a qualquer momento. Talvez consiga escrever sobre esse material novo na rúbrica Músicas Não Tão Ao Calhas, mas não consigo prometer nada. Pode ser que tenha mesmo de deixar o blogue indefinidamente em pausa – espero que não seja necessário. 

 

Obrigada desde já pela vossa compreensão. Saúde, ânimo e até uma próxima. 

Hayley Williams – Flowers For Vases / descansos (2021) #1

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Hayley Williams, mais conhecida como vocalista dos Paramore, estreou-se a solo no ano passado, com o álbum Petals For Armor. Um álbum de que gostei muito, tal como escrevi antes: ao mesmo tempo eclético e consistente, tanto em termos de instrumentação como em termos de temas. Um álbum cheio de simbolismos, que começa sombrio, tornando-se progressivamente mais luminosos.

 

O plano era Hayley ir em digressão depois do lançamento de Petals For Armor – talvez mesmo antes. No entanto, como aconteceu a toda a gente, a pandemia cancelou esses planos. Hayley ainda passou um tempo razoável dando entrevistas online mas, depois de o álbum ter saído, deu por si fechada em casa, sem saber o que fazer. 

 

Acabou por passar muitos desses dias com a sua guitarra. Ia tocando covers acústicos, que depois partilhava nas redes sociais, versões acústicas das músicas de Petals For Armor – como as de Self-Serenades – e também música original, que agora lançou no passado dia 5 de fevereiro, num álbum chamado Flowers For Vases. Hoje vamos falar sobre ele. A análise virá em duas partes – publico a segunda amanhã.

 

De acordo com a nota de lançamento. Flowers For Vases é uma espécie de prequela a Petals For Armor, ou um desvio entre a primeira e a segunda parte desse álbum. Não acho que seja para levar demasiado à letra. Essencialmente, Flowers For Vases lida com assuntos do passado de Hayley que, mesmo depois de Petals For Armor, continuavam mal resolvidos.

 

Penso que já escrevi aqui sobre isso aqui no blogue, mas durante a quarentena, quando deixamos de ter coisas acontecendo na nossa vida, é como se o tempo parasse. Ficamos numa espécie de limbo, em que não temos futuro, quase não temos presente, só nos resta o passado.

 

Pelo menos foi assim que me senti durante o primeiro confinamento – e até estava a trabalhar fora de casa! Nem quero imaginar como terá sido para quem ficou verdadeiramente em isolamento. 

 

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Suponho que Hayley que tenha sentido mais ou menos assim – e que o confinamento tenha feito com que ressurgissem muitas pontas por atar no seu passado. Ao mesmo tempo, Flowers For Vases aborda assuntos que vieram à baila nas múltiplas entrevistas de Hayley para promover o antecessor Petals For Armor – como, por exemplo, o segundo (?) divórcio da sua mãe, a história de origem dos Paramore e o rescaldo do divórcio de Chad Gilbert, em 2017. 

 

De início este álbum era para se chamar descansos, um termo na língua espanhola tirado de Mulheres que Correm com os Lobos. Este é um livro que Hayley referiu várias vezes como uma das inspirações, tanto para Petals For Armor como para Flowers For Vases, e que a tem ajudado muito nos últimos anos. 

 

Eu mesma acabei de lê-lo há poucas semanas. Foi uma leitura demorada, comecei antes do verão, mas em minha defesa a autora admite no próprio texto que não é suposto lê-lo de uma assentada. Ainda preciso de relê-lo pelo menos uma vez antes de formar uma opinião definitiva, mas já tenho uma passagem preferida

 

E com isto desviei-me um bocadinho, falávamos de descansos. Esse é o nome dado àquelas cruzes que vemos à beira da estrada assinalando mortes – geralmente vítimas de acidentes rodoviários. Simbolicamente, descansos representam pequenas tragédias, pequenas mortes que ocorrem ao longo da vida (Lobos apenas refere a vida das mulheres, mas eu acho que se aplica a toda a gente). Sonhos desfeitos e/ou de que se abdicou, caminhos não percorridos, capítulos de vida terminados. 

 

É necessário recordar esses sonhos, esses caminhos, esses capítulos, fazer o luto por eles. Mas ao mesmo tempo é necessário deixá-los para trás, reconhecer que é passo e seguir em frente. 

 

O título final acaba por seguir a mesma lógica. Nos últimos anos – desde a célebre visão das flores nascendo do seu corpo – Hayley habituou-se a ter flores em casa, como símbolos de feminilidade e resiliência, conforme descrito em Roses/Violet/Lotus/Iris. Mesmo flores já murchas. No entanto, certo dia Hayley fartou-se de ver a casa cheia de flores mortas. Assim, quando teve de fazer uma lista de compras, um dos itens era “flores para vasos”.

 

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Meses mais tarde, reencontrou a lista e percebeu que era um bom título para o seu segundo álbum a solo. Deitar flores mortas fora e trazer uma nova vida para a sua casa, para os seus vasos. Faz sentido em associação com o conceito de descansos – embora, na minha opinião, o álbum acabe por se focar mais nas flores mortas. 

 

Incluindo algumas que, como veremos adiante, já estão murchas há muito. Já deviam ter sido deitadas fora há muito tempo, mesmo queimadas!

 

Além disso, gosto que mantenha o tema floral, já vindo do seu antecessor. Petals For Armor, Flowers For Vases. O próximo será Leaves For Tea

 

Um aspeto a ter em conta é que Hayley não se limitou a compôr todas as faixas do álbum a solo. Ela também toca todos os instrumentos. Todos. Teve Daniel James como produtor, Carlos de la Garza nas misturas e pouco mais, mas Flowers For Vases é um projeto praticamente só de Hayley – em contraste com Petals For Armor, em que Hayley era o centro, mas em que esta colaborou com várias pessoas, incluindo colegas dos Paramore. 

 

Nesse aspeto, Flowers For Vases é um exemplo perfeito de um álbum em confinamento, gravado em casa – sujeito a perturbações como o barulho de um avião, como hilariantemente demonstrado em HYD.

 

Em termos musicais, Flowers For Vases é um álbum maioritariamente acústico. A guitarra é o instrumento principal, mas o piano é um participante frequente. Quando se descobriu, no início de 2020, que Hayley ia lançar música a solo, acho que muita gente estava à espera que Petals For Armor tivesse este estilo musical. Flowers For Vases é um álbum minimalista, mas não necessariamente no bom sentido, conforme explicarei mais tarde.

 

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Suponho que deva avisar já: esta não irá ser uma crítica muito favorável. Tenho alguns defeitos a apontar a Flowers For Vases. 

 

Começando pelas três músicas que abrem o álbum. Três músicas relativamente diferentes entre si, mas as letras são sobre o mesmo: a narradora (vamos assumir que é Hayley) está a pensar num antigo amante (vamos assumir que é o ex-marido). Sabe que a relação terminou, que só lhe estava a fazer mal, mas não se sente capaz de eliminar o ex em definitivo da sua vida.

 

Tenho de perguntar: sou a única aqui que está farta de ouvir acerca do ex-marido de Hayley? 

 

Eu percebo que ela ainda cante sobre ele. Parecendo que não, sempre foram quase dez anos com o gajo, quase um terço da vida de Hayley. Não é algo que se esqueça de um dia para o outro. A própria Hayley disse, quando lançou Petals For Armor, que nenhum dos assuntos abordados no álbum ficaram completamente arrumados. Mesmo que as faixas sigam uma ordem cronológica, a progressão não é linear e ainda passa por cada uma das situações descritas nas músicas. Na mesma linha, Flowers For Vases lida com questões mal resolvidas do passado, conforme vimos antes.

 

Dito isto tudo… não sou psicóloga, muito menos sou psicóloga de Hayley… mas será assim tão saudável estar constantemente a pensar naquele gajo? Sinto-me como aquela amiga que já não nos pode ouvir falar do nosso ex, que quando bebemos uns copos nos impede de lhe ligarmos. Ó mulher, esquece o gajo! Ele não te merece, ele ia dando cabo de ti! Ainda por cima, já está casado com outra, a quem há de fazer o mesmo!

 

Mas enfim, Hayley é humana. Suponho que cantar sobre estes sentimentos menos saudáveis faça parte do processo de cura.

 

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Falemos sobre as músicas em si. Começando por My Limb, que foi o primeiro single

 

Primeiro single é como quem diz… Este álbum não teve singles propriamente ditos. Nas semanas anteriores ao lançamento de Flowers For Vases, em que nas redes sociais iam surgindo pistas apontando para um projeto novo, alguns fãs andavam a receber estranhas encomendas de Hayley, contendo braços e pernas soltos de bonecas. Até que, uma semana antes do lançamento do álbum, uma das encomendas incluía um CD com My Limb – mesmo para ser lançado na Internet.

 

Assim, My Limb foi o primeiro single – no sentido em que foi a primeira música que ouvimos de Flowers For Vases – e ao mesmo não o foi – pois não foi oficial. Foi engraçado. Fez-me lembrar o que os Linkin Park fizeram com Wastelands, quando andaram a distribuir CDs com o novo single de The Hunting Party entre o público do Rock in Rio. 

 

Nesta fase, diria que My Limb será a minha canção preferida em Flowers For Vases. Tem um tom sombrio, semelhante ao de Simmer. Algo gótico e dramático. Gosto do piano, das notas de guitarra elétrica no fundo, do ritmo da bateria. O refrão consiste apenas na repetição de “my limb”, mas gosto tanto dos vocais de Hayley que a repetição não me incomoda. 

 

A letra compara uma relação antiga a um braço ou perna doente que precisa de amputação. No entanto, apesar de reconhecer que é necessário, a narradora está ainda tão agarrada ao membro que vai perder, ao ex, que não quer sobreviver à sua perda. 

 

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A língua inglesa tem esta expressão “cut off my nose to spite my face” para se referir a reações exageradas que, em vez de atingirem a pessoa pretendida, acabam por ser auto-destrutivas – Hayley admitiu ter essa tendência e mesmo eu às vezes tenho essa tentação. My Limb parece ser sobre isso.

 

A faixa que se segue no álbum também usa um termo médico como metáfora. A letra fala essencialmente de uma relação que está ligada à máquina, em que o coração já não bate – que está em assístole. Uma vez mais, a narradora sabe, racionalmente, que precisa de desligar a máquina, mas emocionalmente ainda não está preparada para isso (“I can’t get my head to say anything my heart could ever understand”). Refere, de passagem, que precisa de dar prioridade a si mesma em vez de ao outro, mas a verdade é que o outro não “deslarga”, por muito que ela tente. 

 

Vou dizer o que se segue sobre muitas músicas em Flowers For Vases, mas a instrumentação em Asystole não é grande coisa. Esta faixa, ainda assim, não é das piores neste álbum. Gosto da terceira estância, em que o acompanhamento se intensifica enquanto Hayley clama ao amado que reanime a relação. Temos também a conclusão da faixa, com uma sequência de piano estranhamente etérea, que parece um pouco vinda do nada, mas que resulta. 

 

Nestra trilogia inicial, falta falar sobre o tema que, de facto, abre Flowers For Vases, First Thing to Go. A narradora descreve os primeiros passos no processo de deixar um ex para trás. Como reza a letra, ela já mal se lembra da voz dele, ela termina as suas próprias frases.

 

Por outro lado, Hayley admite que não é exatamente dele que sente saudades, antes da imagem que tinha dele. “My altar is full of our love’s delusions”. Ao mesmo tempo, o verso “Why do memories glow the way real moments don’t” faz-me lembrar Supercut, de Lorde – não existem recordações objetivas. Ainda assim, apesar de reconhecer as próprias ilusões, a narradora tem medo de perdê-las. 

 

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A sonoridade é um exemplo de minimalismo no mau sentido. Durante grande parte da canção, temos apenas acordes soltos de guitarra acústica. Só no fim é que surge o piano e a percussão. 

 

Trigger aborda um tema recorrente na discografia de Hayley, tanto a solo como nos Paramore: inseguranças no amor. Começa admitindo que, no que toca ao romance, só tem cantado sobre coisas tristes – não só no que toca às suas próprias relações, mas também aos divórcios dos pais. Assume que, ao menos, serve de inspiração para a sua música. 

 

Na quadra seguinte, confessa que só queria ser amada, o que a levava a aceitar qualquer tipo de amor, mesmo que fosse tóxico. Só mesmo para não ficar sozinha. No refrão, Hayley usa a metáfora da arma e do gatilho para dizer que, nas relações, sente-se sempre numa posição vulnerável. A outra parte tem poder para magoá-la, com ou sem intenção. 

 

Na segunda parte, a narradora refere que o conceito de uma relação saudável é estranho para ela – algo que já tinha explorado em Petals For Armor, sobretudo na terceira parte. Hayley diz ter medo de não se sentir confortável ou de, pelo contrário, tomá-lo como garantido – e admite que já o fez antes.

 

Estará a falar da situação descrita em Why We Ever?

 

Em termos de sonoridade, Trigger começa com uma progressão tipicamente folk, com os arpejos de guitarra acústica e o piano. Pouco original, admito, mas agradável ao ouvido, na minha opinião. O refrão, no entanto, soa incompleto – apenas dois versos repetidos, quando o crescendo nas estâncias pedia algo com mais impacto. E como nem sequer temos uma terceira estância… 

 

 

Em contraste, Over Those Hills é uma das mais interessantes musicalmente em Flowers For Vases. Engraçada, com o riff de guitarra que lhe serve de imagem de marca. Também ajuda o facto de ser uma das mais completas em termos de instrumental – a maneira como a bateria é usada, apenas em certas ocasiões, é inteligente. E inclui um solo de guitarra – algo que nunca pensei ouvir Hayley tocar. 

 

Over Those Hills merecia ser tocada ao vivo, só mesmo para vermos Hayley em palco tocando este solo.

 

Em termos de letra, é sobre o ex-marido outra vez. Iupi… A narradora está a pensar nele, perguntando-se o que andará ele a fazer, se pensará nela, se sentirá saudades.

 

Tendo em conta que o gajo se casou pela terceira vez no ano passado – com uma mulher ainda mais nova que Hayley – tenho as minhas dúvidas.

 

A letra joga com o facto de Hayley tomar anti-depressivos. No Genius especulam que, na terceira estância, o efeito dos comprimidos está a passar e a narradora sente as partes más da relação outra vez. Ao mesmo tempo, admite que a dor faz parte do gozo, o que alude a Pool.

 

Gosto do facto de a primeira estância ter sido cantada num tom grave para, depois, ser cantada uma oitava acima. No entanto, teria ficado melhor se a letra variasse um bocadinho da segunda vez, nem que fosse apenas um verso.

 

 

Good Grief é uma das músicas mais sombrias e deprimentes em Flowers For Vases. Começando pela letra, não consigo perceber quem é o “you”. Se é o ex-marido, se é… outra pessoa.

 

Falemos então sobre o elefante na sala: Hayley está mesmo a namorar com o Taylor, não está? Taylor York, o guitarrista e co-compositor dos Paramore. Já se falava da possibilidade no ano passado, quando saiu Petals For Armor. Como escrevi na altura, não adoro a ideia. Como as pistas ainda eram poucas, pude fechar um pouco os olhos.

 

No entanto, em Flowers For Vases, os sinais estão todos lá. Good Grief nem sequer é o caso mais gritante.

 

Já antes falei das minhas reservas a que Hayley namore outra vez com um colega de banda (tenho a certeza que ela há de ter a minha opinião em consideração). Pensar que Sudden Desire pode ser sobre Taylor deixa-me pouco à vontade… Além disso, faz-me um bocadinho de confusão: eles conhecem-se há quase vinte anos e agora é que se apaixonaram? 

 

É certo que Hayley esteve quase sempre com outras pessoas: com o Josh em adolescente, com o ex-marido durante quase toda a vida adulta. Talvez Taylor já tivesse um fraquinho por ela há algum tempo, apenas teve de esperar pela altura certa. 

 

Por outro lado, lá está, eles são amigos desde miúdos, compreendem-se, apoiam-se, sentem carinho um pelo outro há anos… Talvez funcione. Pessoalmente, não conheço muitos casos de amigos de infância que viram amantes, mas, segundo consta, relações que assentam em amizade costumam correr bem. 

 

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Suponho que ainda não tenham assumido por dois motivos: primeiro, por causa do histórico dos Paramore enquanto banda. Ainda hoje, cinco anos depois de Jeremy sair, Hayley tem de dizer, dia sim dia não, que a banda não se separou. Talvez tenham medo das reações dos fãs e mesmo do mundo da música em geral. 

 

Em segundo, talvez a relação ainda não esteja muito estável. Várias músicas em Flowers For Vases parecem apontar nesse sentido, como veremos adiante. Pode ser que nem sequer estejam a namorar neste momento. Talvez estejam à espera de estarem mais firmes antes de assumirem. Ou então, querem adiar ao máximo a revelação. 

 

Dos três dos Paramore, Taylor é o mais reservado. Estou certa de que, por ele, só se revelará quando não der para esconder mais. Se houver casório ou se tiverem um filho (seriam uns miúdos adoráveis). 

 

Mas regressamos a Good Grief. Dizia eu que não conseguia perceber a quem a canção é dirigida. A letra parece falar do ano do casamento de Hayley e dos trabalhos de After Laughter, bem como do divórcio e do seu rescaldo.

 

Começa por falar de Hayley ter deixado de comer – de ser toda “esqueleto e melodia”. Fala também sobre arrumar as coisas do outro e sentir-se, ao mesmo tempo, triste e feliz com esse passo. Ora, se esses versos dão a entender que o “you” é o ex-marido, os versos em que Hayley pede ao remetente para lhe tocar alguma coisa que ela não cantará parecem apontar para Taylor. Um Taylor triste por vê-la sofrer. 

 

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Também é possível que seja outra vez a metáfora de Stop This Song (Lovesick Melody), como já tinha acontecido em Dead Horse. Não sei. Talvez Hayley nem se tenha preocupado em manter a coerência no que toca a esta letra. 

 

Musicalmente, os vocais em Good Grief têm aquele efeito duplicado que tínhamos ouvido em Find Me Here. Li entretanto que faz lembrar Simon & Garfunkel e sinto-me parva por não ter feito a ligação antes – até a guitarra acústica faz lembrar a icónica dupla! Temos também um tom atmosférico na produção mas, pelo menos no caso de Good Grief, não acrescenta muito. Eu dispensava.

 

E ficamos aqui por hoje. Amanhã continuamos. Obrigada pela vossa visita. 

Hoje celebramos vinte e cinco anos de Pokémon...

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...no entanto, ao contrário do que aconteceu há cinco anos e no ano passado, não tenho nenhum texto especial.  

 

Desde o inesquecível vigésimo aniversário do lançamento de Pokémon Green and Pokémon Red para o Game Boy, no Japão, nunca mais deixámos passar o 27 de fevereiro sem pelo menos darmos os parabéns a Pokémon enquanto franquia. E, como este ano o aniversário é um múltiplo de cinco, a celebração vai ser longa, tendo começado ontem, com o Pokémon Presents – onde se descobriu que vamos ter, não um, mas dois jogos com Sinnoh como cenário. 

 

Nessa linha, mesmo não tendo nada de extraordinário planeado, não quis deixar a data passar em branco. Este será um texto curtinho, simples, só mesmo para falar sobre os jogos novos, sobre o aniversário em geral, e fazer uma renovação de votos. 

 

Uma pessoa que soubesse mais ou menos como Pokémon funciona sabia que ontem anunciariam remakes de Sinnoh. A surpresa seria se não houvessem remakes, se anunciassem outro jogo qualquer.

 

No entanto, acho que muitos de nós tivemos a mesma reação que Ron, também conhecido por TrueGreen7. Pois… eu estou no grupo que não gosta muito do estilo chibi – embora haja também muita gente que goste, atenção! Depois de ORAS ter usado os gráficos da sexta geração para recriar Hoenn de forma espetacular, um remake que não parece radicalmente diferente dos jogos originais desilude um bocadinho.

 

Pelo menos nesta altura do campeonato. Posso eventualmente mudar de ideias ou, pelo menos, não me ralar com os gráficos quando estiver a jogar. Há que recordar também que, como diz o trailer, estas imagens não são definitivas ainda. 

 

 

Além disso, prefiro que tenham adotado este estilo mais chibi e infantil com estes remakes que com ORAS – em que a geologia e a natureza desempenham um papel tematicamente mais importante. 

 

Outro aspeto a assinalar é o facto de os remakes não terem sido feitos pela Game Freak – embora Junichi Masuda seja o diretor. É algo inédito na franquia mas é uma decisão que faz sentido. Nesta fase, Pokémon tem de equilibrar muitos pratos, e uma parte da comunidade de fãs tem-se queixado que os jogos mais recentes têm vindo a perder qualidade por causa disso. Acho que a franquia faz bem em aliviar a pressão sobre a Game Freak e dar oportunidades a outras empresas (será o termo correto?) para criar jogos. 

 

Dito isto, estou com um bocadinho de medo que isto signifique que Pokémon tenha considerado estes remakes menos importantes que outros jogos. Algo que fizeram só mesmo porque os fãs os queriam e os esperavam, logo, delegaram noutra parte e focaram-se nos jogos que realmente lhes interessavam. Não sei se gosto do sabor que isso me deixa na boca. 

 

Mas também não sei se isto é verdade. Isto são só especulações minhas.

 

Diamond e Pearl (e Platinum) são jogos que só experienciei em adulta. Não têm o valor nostálgico que as gerações anteriores possuem. Gostei deles tanto como qualquer fã de Pokémon, mas reconheço que estes deixaram muito a desejar – se calhar mais do que quaisquer outros jogos. Hoje penso que, se calhar, fui demasiado simpática quando escrevi sobre eles – depois desse texto, Tama fez uma análise muito melhor que a minha a Diamond e Pearl – mas também, na altura, só os tinha jogado duas vezes (uma vez Pearl e uma vez Platinum).

 

 

E mesmo assim foi suficiente para notar coisas como a falta de Pokémon do tipo Fogo e o três vezes maldito Defog.

 

Estes remakes têm, assim, muitas coisas para corrigir. Porém, com base naquilo que o trailer mostra (e é muito pouco, por isso vale o que vale), tenho medo de que estes remakes sejam um copy/paste/paint format de Diamond e Pearl, estilo FireRed e LeafGreen, e que mantenham a maior parte das falhas dos jogos originais.

 

Só o tempo dirá. Vou tentar não tecer juízos de valor antes de ter o(s) jogo(s) nas mãos (em princípio irei escolher a versão Brilliant Diamond). Ao mesmo tempo, não me parece má ideia manter as expectativas baixas.

 

A apresentação decorreu ontem às três da tarde, hora portuguesa, quando estava no trabalho. Tive de interromper a meio do anúncio dos remakes. Na altura não me importei: já tinham anunciado BDSP, o resto podia esperar. Mesmo quando, pouco depois, vi o título Pokémon Legends: Arceus pensava que esse era o nome do evento de post-game, como o Delta Episode.

 

Só quando vi as pessoas a falarem em prequelas, em mundo aberto, em MMO (isso foi falso) é que fiquei tipo: “Espera aí....” e fui ver o que se passava. 

 

 

Pokémon Legends, então. Uma prequela aos jogos de Sinnoh que decorre em tempos medievais. Um jogo em mundo aberto. Este conceito parece saído de um daqueles vídeos de Pokétubers estilo “10 ideias loucas para jogos de Pokémon”, ao lado de exemplos como “prequela aos jogos de Kanto protagonizada por Oak e Agatha”.

 

Há anos que digo que os jogos de Pokémon têm uma fórmula demasiado rígida e precisam de pensar mais fora da caixa. A franquia tem inúmeras possibilidades e os jogos nem sempre as exploram. E Legends é exatamente o que o povo queria. Os fãs andavam a pedir um jogo em mundo aberto desde o lançamento Breath of the Wild – Sword e Shield incluíram algumas áreas com essas características mas os resultados foram mistos. Há quem diga que Legends é uma espécie de Let’s Go ao contrário – um jogo para os fãs mais hardcore.

 

Se o conceito de Pokémon Legends Arceus resultar, as possibilidades são infinitas para jogos futuros. Podemos vir a ter as tais prequelas de Kanto, protagonizadas por Oak e Agatha, ou então prequelas de Johto, na era em que Ho-oh ressuscitou Suicune, Raikou e Entei. Também podemos vir a ter o oposto: jogos decorrendo num futuro distante.

 

Vai ser uma fase curiosa, a que começou ontem: o conservador e o ambicioso com poucos meses de intervalo, muito tempo passado em Sinnoh. Os fãs em geral estão a receber bem as novidades – melhor do que tem sido a norma nos últimos anos, pelo menos. Vamos ter de esperar uns anos mais antes de partirmos para a nona geração, o que não é uma coisa má. A Game Freak terá mais tempo para aperfeiçoar os jogos. 

 

Para terminar, uma palavra rápida para Pokémon Snap. Só para dizer que não joguei a versão original, mas vou querer jogar esta nova, que sai em maio. Parece ser giro.

 

 

Com isto tudo, estou bastante entusiasmada com as celebrações do vigésimo-aniversário de Pokémon enquanto franquia. Guardo muitas boas recordações de 2016 e do vigésimo aniversário. Começando pelas semanas de especulação antes da apresentação de dia 26 (que também calhou numa sexta-feira), bem como a apresentação em si. No primeiro semestre desse ano, tive mais tempo para jogar Pokémon do que voltaria a ter até agora: se a memória não me falha, joguei White 2 pela primeira vez no início do ano; completei a Pokédex em ORAS, juntamente com a minha irmã (foi a primeira e, até agora, única vez); durante o Euro 2016, joguei Pokémon X, conforme descrevi aqui.

 

No verão, Pokémon Go explodiu, trazendo a franquia para o mainstream de uma forma que não se via desde o início dos anos 2000. Tirando quando estava a jogar Pokémon Go ou a celebrar a vitória no Europeu, passei esse verão a escrever os primeiros textos para a rubrica Pokémon através das gerações – recordando os jogos que me fizeram apaixonar pela franquia. 

 

No outono tivemos Pokémon Generations e, finalmente, o lançamento de Pokémon Sun e Moon – se bem que eu quase só o tenha jogado no verão de 2017.

 

É difícil que 2021 seja tão bom como 2016 – foi uma tempestade perfeita de coisas boas. Mas já me contentava se desse para recriar pelo menos uma parte. Com Pokémon Snap na primavera, dois jogos para antecipar e os fãs aparentemente algo apaziguados com este último anúncio, quem sabe…? Em tempos tão difíceis como os atuais, seria um bom consolo.

 

Pode haver quem queira saber porque deixei de escrever para a rubrica Pokémon através das gerações. Eu orgulho-me muito dos textos que escrevi em 2018 (há três anos, Arceus meu!) sobre a quinta e a sexta geração. O último, no entanto, foi tão desgastante que me tirou a vontade de retomar a rubrica durante meses. 

 

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O meu plano era continuá-la no ano passado, com um texto sobre Pokémon Go. No entanto, começou a pandemia, deixámos de poder sair à rua como dantes, de jogar presencialmente com outras pessoas. Isso tirou-me a vontade de escrever sobre o jogo. 

 

E essa vontade ainda não regressou. Ainda estamos em pandemia e, agora, estamos confinados outra vez. Ainda assim, não quero adiar muito mais – quero pelo menos começar a trabalhar num texto sobre Pokémon Go este ano. 

 

Concluo, então, dizendo que já lá vão mais de vinte anos desde que conheci este mundo, mas Pokémon continua a ser uma das grandes paixões da minha vida. A minha relação com a franquia tem mudado, é certo: por exemplo, o anime tem valor nostálgico, mas hoje em dia é menos relevante, mesmo os filmes. Jogo Pokémon Go todos os dias e os jogos principais sazonalmente. Ainda sigo vários Pokétubers.

 

Em todo o caso – ligeiro spoiler para futuros textos – eu gosto de todas as gerações de Pokémon, mesmo que umas mais do que outras. Compreendo pelo menos algumas das críticas dos fãs aos últimos jogos, mas como sou uma jogadora muito casual, as falhas não me incomodam muito. Não me tiram a vontade de comprar os jogos novos – se tiver possibilidades para isso, claro.

 

E mesmo que, por um motivo ou por outro, chegue uma altura em que não consiga manter-me a par com os jogos, Pokémon Go incluído, o vínculo manter-se-á. O casamento está para durar. Muito grata por esta franquia fazer parte da minha vida e por tudo o que me tem dado em mais de duas décadas. 

 

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Espero que tenham tido um aniversário feliz. A mais vinte e cinco anos de Pokémon!

Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna #3

Terceira e última parte da análise a Kizuna. Podem ser as partes anteriores aqui e aqui.

 

1) Spoilers: esta análise vai discutir extensamente os eventos do filme Digimon Last Evolution Kizuna e poderá também revelar detalhes dos enredos das três temporadas do universo de Adventure (Aventure, 02 e Tri). Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios de Digimon têm traduções controversas – na língua portuguesa têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Conforme tinha dito que faria quando terminei as análises a Tri, para esta análise vou usar os nomes japoneses.

 

Esta agora vai doer. 

 

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Como disse antes, fiquei à espera de uma solução milagrosa para a contagem decrescente até ao último minuto. Recusava-me, uma parte de mim ainda se recusa, a aceitar aquele destino. E, em minha defesa, temos o epílogo de 02 na equação, mas falamos sobre isso mais tarde.

 

Para já, Taichi e Yamato levam separadamente os respectivos Digimon a ver a vista, à hora do pôr-do-sol, quando a contagem decrescente está quase no zero. Yamato comprou, inclusivamente, uma harmónica para a ocasião – gosto de pensar que Taichi e Agumon o ouviram tocar, mesmo à distância.

 

Finalmente, Agumon e Gabumon perguntam aos parceiros o que vão fazer no dia seguinte. Taichi e Yamato olham para o horizonte, pensando na questão. Vemos duas borboletas voando em direção às nuvens. Quando os dois rapazes – os dois homens – estão preparados para responder e olham para o lado, Agumon e Gabumon já não estão lá. Os dispositivos digitais apodrecem. As mãos que os seguiram tremem e lágrimas caem nos dispositivos. 

 

Éramos três a chorar. 

 

Ainda há tempo para umas últimas imagens de Taichi e Yamato, vários meses mais tarde – como as cerejeiras estão em flor, é capaz de ser a primavera seguinte. Parecem satisfeitos. É um alívio, este final já é suficientemente triste. Já viram como seria se a última imagem que tivesse de heróis que conheço e adoro há duas décadas fosse deles soluçando (de forma bem audível) sobre os seus dispositivos?

 

Os créditos finais incluem imagens de cada um dos doze protagonistas do universo de Adventure nas respectivas vidas e carreiras. De notar que os da geração de 02 (incluindo Takeru e Hikari) aparecem nas fotografias com os seus Digimon, mas os mais velhos não. A última imagem é a da tese de Taichi, sobre a relação entre a Humanidade e os Digimon.

 

Não que sirva de grande consolo para mim. Pelo menos não de início.

 

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Bom trabalho, digiguionistas. Kizuna é oficialmente o trabalho ficcional que mais me arrasou emocionalmente. Ainda mais que Kokuhaku e Kyousei na altura em que saíram. Este final fez-me chorar e, como já disse várias vezes aqui no blogue, eu não choro facilmente com estas coisas. 

 

Uma asneira que cometi foi ter visto este filme quando não estava ninguém em casa, nem sequer a minha cadela. Eu escolhi essa altura de propósito, para poder ver o filme em paz, sem interrupções. Mas quando Kizuna terminou desta forma, não tinha ninguém que me consolasse. Foi sobretudo nessa altura que me arrependi de não ter esperado para ver nos cinemas, quiçá com outros fãs de Digimon. Não teria de chorar sozinha. 

 

Isso ou, pura e simplesmente, tinha saudades do pessoal que costuma vir ao Odaiba Memorial Day. Ainda tenho. Maldita pandemia…

 

Hoje, mais a frio, não sei se ia querer chorar em público. Talvez não fosse assim tão mau se não fosse a única em lágrimas (e acho que não seria). Ainda assim, eu aconselharia as pessoas a não assistirem a Kizuna sozinhas e a terem lencinhos por perto. E uma bebida.

 

Estive semanas sem coragem para ver o filme segunda vez, para escrever este texto. Se não fosse Adventure 2020, teria cortado com tudo a ver com Digimon – era demasiado doloroso. Deixei de querer ouvir música de Digimon, deixei de querer pensar, tanto em Adventure como em Tamers ou mesmo Frontier. 

 

Talvez esta tenha sido uma reação exagerada a algo que não é real, pelo menos no sentido mais rigoroso da palavra. Adaptando uma frase de Chandler, estava a chorar porque deixaram de desenhar o Agumon e o Gabumon. Mas, pelas Bestas Sagradas, como me tenho fartado de dizer aqui, são duas décadas com este elenco! Mesmo tendo passado dez anos afastada de Digimon enquanto franquia, esse laço não se quebrou. São o meu elenco ficcional preferido!

 

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Não digo que ver (e ouvir) Taichi e Yamato chorando sobre os restos mortais dos seus dispositivos tenha sido a pior coisa que me aconteceu na vida. Claro que não. Nem sequer foi a pior coisa que me aconteceu no ano. Mas no ano da desgraça de 2020 não precisava mais desta!

 

Só recentemente é que me sinto a voltar ao normal. De uma maneira retorcida, o facto de neste momento estar a decorrer o reboot de Digimon Adventure, que me “obriga” a ver um episódio novo todos os domingos de manhã e a escrever uma breve crítica para a página do Facebook pode ter-me ajudado a ultrapassar esta má fase mais depressa. 

 

Escrever esta análise também ajudou. Costuma ajudar.

 

Temos  então de falar da velhíssima questão do epílogo de 02, em que os Digimon estão todos vivos e de boa saúde, em que, aliás, “toda a gente tem um Digimon”. O que contraria o final de Kizuna, e mesmo a regra definida pelo filme, que dita que nenhum adulto funcional pode ser um Escolhido. 

 

Nesta altura do campeonato, fica claro que a Toei há muito se arrependeu do epílogo. Em 2001 incluíram-no porque queriam colocar um ponto final na história deste universo. Queriam criar outros universos, com regras diferentes. Não imaginavam, se calhar, que o universo de Adventure viesse a ganhar tanta popularidade, que quereriam continuar a ordenhar dessa teta quinze, vinte anos depois. Mas agora as sequelas tinham de se encaixar no epílogo que criaram. 

 

Ou pelo menos deviam.

 

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Do que tenho lido por aí, quase toda a gente considera que o epílogo de 02 continua a ser válido. Um dos produtores do filme confirmou-o, mais ou menos, em entrevista. Eu mesma tenho-o interiorizado, sendo essa uma das razões para hoje me sentir menos triste com o final de Kizuna. Eles hão de recuperar os seus Digimon algures nos dezassete anos seguintes.

 

O que, no entanto, traz consigo as suas questões. Nomeadamente, como é que isso vai acontecer. Talvez Koshiro arranje uma maneira de travar o processo, mesmo revertê-lo – talvez ainda antes sequer de as contagens decrescentes de Joe, Mimi e os outros chegarem a zero, evitando que Gomamon, Palmon e os outros desapareçam. Ou então, talvez só os consigam recuperar anos mais tarde. 

 

Gosto de uma teoria na Internet que defende que, seguindo a lógica de que os Digimon representam a infância, os Escolhidos recuperarão os seus companheiros quando forem pais. Todos nós temos de crescer e tal, mas quando temos filhos e brincamos com eles, a nossa criança interior desperta de novo. Aí, os Digimon regressariam.

 

Pelo menos explicava porque é que cada um dos doze Escolhidos resolveu reproduzir-se. Já estou a imaginar a Sora:

 

– O que estás a dizer, Miyako? O Wormon e o Hawkmon voltaram quando a vossa filha nasceu? Também quero! Hei Yamato, faz-me um filho!

 

Ainda assim, mesmo que seja uma questão de tempo até Taichi e os outros Escolhidos recuperarem os seus Digimon… não deixa de ser cruel, estarem constantemente a tirar-lhes os Digimon, para depois os devolverem, para depois lhos tirarem outra vez. Kokuhaku já fora suficientemente duro. Havia necessidade de estar a sujeitar, tanto o elenco como a nós, na audiência, à mesma perda vezes e vezes sem conta?

 

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Iremos alguma vez saber as respostas a estas perguntas? Com outro filme, um CD drama, qualquer coisa? Infelizmente duvido que tão cedo a Toei vá por aí – se alguma vez for. Agora está a explorar o efeito Adventure de maneira diferente, com o reboot. Se quiserem fazer alguma coisa com este universo, com este elenco, fá-lo-ão na Adventure nova. 

 

É possível que nunca venhamos a ter a certeza. 

 

Achava eu que o elenco de Tamers era o menos afortunado, com aquela despedida traumática. Agora já não sei quem teve a pior sorte. Ao menos Takato, Ruki e os outros sabem que os seus Digimon estão vivos (ainda que nada seja garantido naquela versão distópica do Mundo Digital) e que a probabilidade de se reencontrarem não é zero. 

 

Já me garantiram, sem dar spoilers, que existem universos no anime em que as personagens têm companheiros Digimon e continuam com eles no fim. A minha sanidade mental agradece. 

 

Mas basta de lamúrias – pelo menos por agora. Kizuna pode ter um final doloroso, o que não é sinónimo de um final mau. Toda a narrativa do filme foi construída de forma sólida conduzindo a este desfecho. O tom sério e melancólico, o facto de mostrarem as dificuldades de ser um Escolhido enquanto adulto, a ideia subjacente em cada diálogo de que “as coisas não podem ficar para sempre na mesma”. 

 

Se Kizuna tivesse arranjado uma solução milagrosa à última hora, uma maneira caída do céu de Agumon e Gabumon sobreviverem, eu teria poupado muitas lágrimas, mas respeitaria muito menos o filme. Seria uma cobardia. 

 

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Porque Kizuna em si, no geral, está muito bem feito. É certo que é mais fácil ser-se consistente com um filme de noventa minutos, com apenas dois protagonistas – uma temporada com cinquenta ou sessenta episódios de vinte minutos com um elenco alargado ou uma série de seis filmes são muito mais complicados. Mas não deixa de ser um feito. 

 

Especificando um pouco mais, gosto da animação, do estilo do desenho – mais do que do de Tri. O filme pode só ter dois protagonistas, mas gostei que os outros dez Escolhidos tivessem todos aparecido, mesmo outros fora do grupo. Acho que foram bem utilizados.

 

Bem, com uma única exceção. Sora. É a única falha que tenho a apontar a Kizuna, mas é uma falha grande. Preparem-se, vem aí “rant”, como dizem os anglo-saxónicos. 

 

Já falámos sobre a curta-metragem focada nela, que justifica a sua ausência da larga maioria do filme: ela quer descobrir quem é fora da vida de Escolhida. Dentro do universo é uma razão perfeitamente legítima para ter ficado no banco, em Kizuna, e é um desenvolvimento interessante para a personagem.

 

A razão em termos de meta, por sua vez, é muito diferente. Sintam só isto: Sora aparece em Kizuna durante um total inferior a cinco minutos porque os digi-guionistas acharam que os fãs quereriam saber o que se passava entre ela e Taichi e Yamato.

 

 

Isto era literalmente a última coisa que queria que fizessem com Sora – recordo, a minha personagem preferida do universo de Adventure. Reduzirem-na ao papel de interesse romântico, assumirem que a audiência só quer saber dela como pretendente de Taichi ou Yamato. É insultuoso em tantos mas tantos níveis!

 

Eu, por um lado, compreendo em parte a posição deles. 02 emparelhou-a com Yamato, o epílogo oficializou-os ainda que não preto no branco, é claro que as pessoas iam fazer perguntas. 

 

No entanto, na minha opinião, existiam alternativas bem melhores. Deixarem a situação ambígua, como em Tri. Na minha opinião, não funcionou mal – tirando em Soshitsu, em que o esforço dos digiguionistas para não favorecerem nenhum dos rapazes ganhou contornos ridículos. Ou então, opinião impopular: confirmem de passagem que sim, Sora e Yamato namoram e Taichi está feliz por eles! Ninguém morreria por isso!

 

A entrevista com esta infame declaração surgiu na internet algures em maio do ano passado, vários meses antes de conseguir deitar as mãos a Kizuna. Na altura discuti com outros fãs no Twitter e houve quem ficasse do lado dos digiguionistas. Se não se achavam capazes de explorar essa faceta da história, diziam eles, talvez fosse melhor excluir Sora do filme.

 

Admito que, na altura, até me deixei convencer um bocadinho. Mas depois de ver Kizuna, depois de conhecer o reduzido papel de Sora nos eventos do filme, voltei atrás. Peço desculpa, mas isto foi cruel. 

 

Em Kizuna, Sora está a passar exatamente pelo mesmo que Taichi e Yamato: com uma contagem decrescente no seu dispositivo digital, prestes a perder a Piyomon. Parece que o dispositivo com uma única barra que aparece muito brevemente durante os créditos iniciais é dela. 

 

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No entanto, com Taichi e Yamato vemos o processo todo, praticamente todas as fases do luto, as lágrimas em primeiro plano, os soluços bem audíveis. Com Sora temos apenas uns vislumbres curtíssimos, uma breve cena dela com Piyomon nos braços, outras cenas igualmente breves dela já sozinha, com os restos mortais do seu dispositivo. Não sabemos sequer se alguém lhe explicou o que ia acontecer, porque ia acontecer. 

 

O mais triste de tudo? Sora sendo Sora arranja forças dentro de si mesma para deixar a sua dor de lado e torcer à distância pelos amigos, que estão a lutar na Terra do Nunca. Eles não merecem Sora, ninguém merece.

 

Lembram-se de quando Sora se queixou, em Soshitsu, de que ela se preocupa com toda a gente mas, quando é Sora quem precisa, ninguém se preocupa com ela? Não que fosse cem por cento verdade, mas agora Kizuna faz-lhe exatamente isso. A sua dor não é relevante. Tudo isto porque os digiguionistas acharam que a audiência ia dizer algo tipo:

 

– Sim Sora, perderes a Piyomon é muito triste, mas como vai a tua vida amorosa?

 

Torno a repetir, é uma crueldade. Sora merecia muito melhor. E infelizmente não é a primeira vez que Sora é negligenciada em comparação com outras personagens, no universo de Adventure.

 

Dito isto… não sei o que faria diferente. Mal por mal, gosto muito da curta-metragem de Sora, tal como escrevi acima. Mantendo a curta, Sora teria de continuar afastada da maior parte dos eventos de Kizuna, não poderia estar entre as vítimas de Eosmon. Pô-la como terceira protagonista, ao lado de Taichi e Yamato, também não bateria certo. 

 

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Para mim o ideal teria sido manter Sora fora do epicentro de Kizuna, mas deixá-la conversar com Taichi e/ou Yamato durante o segundo acto, mesmo que fosse apenas por telefone. Talvez ela oferecesse uma perspetiva diferente ao conflito emocional. Ela que, como vimos, quis deixar de ser Escolhida, deseja crescer. Talvez ela aceitasse melhor a perda da sua companheira, quando comparada com os amigos: porque na prática já não tem espaço na sua vida para os Digimon e, lá está, as coisas não podem ficar para sempre na mesma. 

 

Mas seria difícil encaixar essa conversa se tivessem de cumprir o limite dos noventa minutos. Não sei o que cortaria para incluir esta cena. 

 

Além disso, quero acreditar que, lá porque a narrativa de Kizuna ignorou o sofrimento de Sora, isso não quer dizer que o resto do elenco faça o mesmo fora dos ecrãs. Estou certa de que pelo menos Mimi não deixará Sora a chorar sozinha. 

 

Tenho, aliás, um headcannon para as primeiras horas depois de Agumon e Gabumon desaparecerem. Taichi vai passar a noite a casa dos pais, para ser consolado por eles e por Hikari. Por sua vez, Yamato vai ter com Sora e, ao consolarem-se um ao outro, uma coisa há de levar à outra e começam a namorar outra vez. 

 

Mudando de assunto, queria falar sobre as curtas-metragens que foram lançadas após uma campanha de crowdfunding e que detalham histórias sobre os Escolhidos e/ou os seus Digimon que não couberam em Kizuna. Já falámos sobre as duas primeiras. Tirando a que se centrou em Sora, estas curtas só apareceram na Internet há poucas semanas.

 

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A vantagem de ter demorado eternidades a escrever esta análise é ter apanhado este “lançamento” tardio. Agora posso incluir notas sobre essas curtas neste texto.

 

Estas pequenas histórias têm tons bastante diferentes entre si. Algumas são mais sérias e emotivas, algumas são mais parvas, no melhor sentido da palavra. Algumas são uma mistura de ambos. 

 

Uma dessas é a que se foca em Joe. Gomamon está preocupado porque o seu parceiro em miúdo não gostava de ver sangue. No entanto, agora está em Medicina, ou seja, há de ver sangue todos os dias ou quase.

 

O que não é necessariamente verdade. Existem especialidades em que não se vê muito sangue. Psiquiatria, por exemplo, oftalmologia (a menos que se fizessem cirurgias e mesmo assim), anatomia patológica (mortos não sangram), investigação…

 

Em todo o caso, em vez de fazer o que qualquer pessoa ou Digimon com dois dedos de testa fariam – falar com Joe – Gomamon arrasta Agumon para fazerem um teste. Mete ketchup. Tudo muito caricato e tal… até ao momento em que Gomamon leva com um camião em cima. 

 

Falta de juízo dá nisto. E aparentemente os Digimon sangram. As coisas que se aprende…

 

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No fim, Agumon continua na rua, coberto de ketchup, esquecido por todos. Eu pagava para ver a cara de Taichi quando encontrasse o seu Digimon naquela figura.

 

Noutra curta, que decorre no Mundo Digital, Palmon e Piyomon invejam Silphymon. Como Silphymon se consegue formar sem a intervenção de Hikari e Miyako só as Bestas Sagradas saberão. Palmon e Piyomon tentam fazer a sua própria digievolução ADN. Traduzindo à letra uma expressão anglo-saxónica, segue-se hilaridade. 

 

Aposto que, quando V-mon as viu naquela fatiota, no fim da curta, sentiu pela primeira vez que não era o companheiro Digimon mais totó do universo de Adventure.

 

Por falar em totó, a última curta diz respeito à épica história de Pumpmon e Gotsumon. Sim, os dois Digimon que supostamente o Vandemon tinha assassinado. Pelos vistos fora tudo a fingir. 

 

Das duas uma: ou os dois ressuscitaram com o Reinício, em Tri, e agora estão a armar-se ou Gabumon e V-mon estavam bêbados e imaginaram a história toda. 

 

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Mudando outra vez de assunto, queria falar sobre Digimon Adventure Tri Super Evolution Stage (qualquer coisa como Palco da Super Digievolução). Esta foi uma peça de teatro que decorreu em Tóquio entre 5 e 13 de agosto de 2017, entre as estreias de Soshitsu e Kyousei. Em finais de 2017, a filmagem da peça apareceu na Internet. Na altura, não achei que se justificasse escrever sobre ela aqui no blogue, mas deixei algumas impressões na página do Facebook.

 

Esta peça decorre algures durante os eventos de Tri, mas não se consegue perceber ao certo quando. Não que importe muito, pois, apesar de decorrer na mesma altura, é uma história independente da série. Não mete Meiko, nem Meicoomon, nem Maki, nem Daigo. Apenas os oito Escolhidos de Adventure e… Etemon. É, aliás – alerta spoiler – uma daquelas histórias em que, no fim, se descobre que foi tudo um sonho.

 

Em todo o caso, na peça – no sonho – os oito dão por si presos numa realidade alternativa onde é para sempre dia 1 de agosto de 1999. Isto porque, lá está, os miúdos consideram que os eventos de Adventure foram o pico da vida deles e estão cheios de medo de crescer.

 

Parece-vos familiar?

 

Curiosamente, a história pinta Joe como o exemplo a seguir. Neste sonho ele não está com dificuldades na escola (é de partir o coração quando regressa à realidade) e está determinado em ir para Medicina. Sabe o que quer ser quando for grande e quer lutar por isso. Não apesar das suas aventuras no Mundo Digital mas graças a elas. 

 

Gostei muito desta peça, recomendo-a. Como já terão concluído, entra em territórios semelhantes a Kizuna. Gosto mais da mensagem final da peça. Para começar, os Escolhidos não têm de se separar dos seus Digimon no fim, mas também pela lição de usar o melhor da infância como base para a vida adulta. 

 

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Já que se fala de crescimento, e como esse é um dos temas de Kizuna, uma coisa que me tem feito confusão diz respeito às mensagens contraditórias. Já vinha de Tri. Tanto esses filmes como Kizuna tentam desmontar o conceito de nostalgia, de saudades de tempos que já foram – neste caso, as primeiras temporadas, Adventure e 02, as infâncias do elenco. Em Tri, conhecemos três personagens cujas experiências enquanto Crianças Escolhidas foram menos idílicas que as dos nossos protagonistas. Em Kizuna, vemos as dificuldades de se ser Escolhido enquanto adulto e recordamos uma regra universal: nada dura para sempre. 

 

No entanto, ainda que Tri e Kizuna mostrem as limitações da nostalgia, esta continua a ser a principal razão de eles existirem. Eles não deixam de se aproveitar da nostalgia, o que tem o seu quê de hipócrita. Kizuna diz-nos para seguirmos em frente, mas a Toei não está a fazê-lo. Bem pelo contrário, poucas semanas após lançar Kizuna, estreou um reboot – ou, como gosto de chamar-lhe, “tábua rasa” – de Adventure. Reboot esse que vai a meio e, apesar de uma melhoria nos episódios mais recentes, parece não compreender aquilo que tornou Adventure tão especial, há duas décadas.

 

Em que é que ficamos, Toei? É para crescer ou não? É para deixar Adventure para trás, ou não?

 

E depois de tantas palavras sobre Kizuna, sobre a inevitável passagem do tempo, sobre a necessidade de seguir em frente e crescer, tenho uma opinião impopular: crescer não é assim tão mau. Crescer tem sido bom para mim. 

 

Não digo que seja necessariamente mais feliz ou que a minha vida seja mais fácil. Ainda assim, como alguém que cresceu um tudo nada demasiado protegida, uma das coisas de que mais gosto na idade adulta é de ter mais controlo sobre a minha vida e, no geral, ser melhor pessoa, mais confiante, responsável e desenrascada. Estou em constante crescimento, em constante (digi)evolução, e gosto mais de mim mesma enquanto adulta do que enquanto criança ou adolescente.

 

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E se tivesse de salvar o Mundo Digital, estaria mais habilitada para fazê-lo agora e não aos onze anos.

 

Eu compreendo que uma franquia dirigida a crianças teria, idealmente, um elenco da mesma idade que o seu público-alvo. Mesmo dentro do universo de Adventure, compreendo que Taichi e os amigos sintam que os seus melhores tempos tenham sido aos dez, onze anos – quando fizeram coisas que, se calhar, muitos adultos não seriam capazes, mas sem a autoconsciência de um adulto ou mesmo de um adolescente. Compreendo que tenham medo de crescer e cortar com essa vida.

 

No entanto, na minha opinião, os Escolhidos deviam orgulhar-se dos jovens adultos em que se transformaram – como eu me orgulho deles. Logo nos primeiros trailers, há pouco mais de um ano, ao ver o elenco na idade adulta, precisei de um momento. Como quem torna a ver um amigo de infância após muitos anos e se surpreende com as mudanças. Ou como quem reencontra um familiar que não via desde que este era criança, que descobre que este já está na faculdade ou que já está a trabalhar, e se orgulha do quão crescidos estão. 

 

Ainda agora sinto esse orgulho. Vendo Joe quase médico, Yamato e os seus “street-smarts”, como comentámos antes, Miyako estudando no estrangeiro, Koshiro com a sua empresa, Taichi mais perto de se tornar um embaixador do Mundo Digital – e admiro-o por ter ido por aí, mesmo depois de ter perdido Agumon. Eu não sei se seria capaz.

 

Todos eles são melhores versões de si mesmos. Em parte graças a aspetos mundanos do dia-a-dia, mas todos sabemos que foi sobretudo graças aos amigos e às suas experiências com os Digimon. O final da história deles pode não ser o mais feliz, pelo menos não por agora, mas aposto que nenhum dos Escolhidos, nenhum deles, lamenta ou se arrepende de ter embarcado nesta jornada.

 

E o mesmo se aplica a nós, na audiência. 

 

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Como referi acima, o final do filme é triste ao ponto de, da primeira vez que o vi, ter ficado com vontade de renegar tudo que fosse Digimon. Mas mesmo nessa altura, arrependida de ter começado a ver Adventure quando tinha dez ou onze anos? Nunca! Pelas recordações, pelo elenco inigualável, pelas fantasias de ser Criança Escolhida e visitar o Mundo Digital, pelos amigos que fizemos pelo caminho, pelos diretos no YouTube, as discussões no Twitter, os milhares de palavras no blogue, os encontros no Odaiba Memorial Day, pelos passeios na praia ao som de Hirari acústica. 

 

E vamos continuar, incluindo aqui no blogue – com Frontier. O plano é fazer o mesmo que fiz com Tamers. Ver pela primeira vez a versão original da temporada, sem stresses; ver de novo algum tempo depois, dobrada em português, desta feita já tomando notas para a análise. 

 

Pois bem, vi Frontier pela primeira vez no ano passado, quando Adventure 2020 estava em pausa. Como passei várias semanas à volta de Kizuna, agora preciso de uma pausa na escrita sobre Digimon. Assim, só devo ver Frontier pela segunda vez daqui a uns meses. Talvez o faça durante o verão, com o espírito do Odaiba Memorial Day.

 

Posso desde já adiantar, no entanto, que duvido que a análise seja tão longa como a de Tamers e mesmo que as de Adventure e 02. Frontier não convida a isso.

 

Falando a um prazo mais curto sobre os meus planos para este blogue – e deixando Digimon de lado por um momento – o meu próximo texto deverá ser sobre Flowers For Vases, o sucessor a Petals For Armor, que Hayley Williams lançou de surpresa na semana passada. Não vou começar a escrever já já sobre o álbum – preciso de passar mais algum tempo com as músicas. Mas em princípio não devo demorar tanto como demorei com o seu antecessor.

 

Adicionalmente, parece que Avril Lavigne tem um álbum novo prestes a sair do forno. Deverá editá-lo no verão, com o(s) primeiro(s) single(s) saindo daqui a dois ou três meses. No que toca a Avril, eu não conto os pintos até nascerem. Os álbuns dela têm sempre um parto difícil, não me surpreendia se houvesse algum adiamento. Também tenho esperanças de que Lorde decida a qualquer momento sair da sua toca e lançar o seu terceiro álbum.

 

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Como sempre, obrigada por lerem o meu testamento. Escrever sobre Digimon tem sempre aquele saborzinho especial. No caso deste texto em particular, escrevê-lo ajudou-me a lidar com todas as emoções em torno deste filme. Espero ter a oportunidade de ver Kizuna nos cinemas em breve, juntamente com outros fãs. Talvez até com dobragem portuguesa

 

Torno a repetir: zero arrependimentos no que toca a ter entrado em Digimon. Estamos todos melhores por cá estarmos. Despeço-me com a mensagem final de Kizuna: de uma maneira ou de outra, estaremos sempre juntos.  

Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna #2

Segunda parte da minha análise a Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna. Podem ler a primeira parte aqui

 

1) Spoilers: esta análise vai discutir extensamente os eventos do filme Digimon Last Evolution Kizuna e poderá também revelar detalhes dos enredos das três temporadas do universo de Adventure (Aventure, 02 e Tri). Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios de Digimon têm traduções controversas – na língua portuguesa têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Conforme tinha dito que faria quando terminei as análises a Tri, para esta análise vou usar os nomes japoneses.

 

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Taichi e Yamato reagem à notícia de que os seus Digimon têm os dias contados (literalmente) da maneira que se esperava, sobretudo quando a contagem decrescente surge nos telemóveis.

 

As ações dos dois protagonistas de Kizuna depois, no entanto, são diferentes. Taichi pega em Agumon, leva-o a almoçar fora e, mais tarde, ao seu apartamento. Passa a maior parte do segundo acto do filme sentindo pena de si mesmo. Por sua vez, Yamato encontra Imura à saída do escritório de Koshiro, portando-se de forma suspeita. O jovem acaba por passar a maior parte do segundo acto do filme investigando o caso de Eosmon e espiando Imura.

 

Isto representa uma mudança em relação a Adventure. Pode-se argumentar que já se notava um pouco em 02. Define uma grande parte de Tri. E em Kizuna regressa em força. Taichi e Yamato sempre reagiram de maneiras diferentes a coisas más que acontecem. Mas, enquanto em Adventure, Taichi queria ir para a frente a todo o custo e Yamato queria tempo para processar as coisas, depois de Adventure é Taichi quem fica em contemplação, mesmo em autocomiseração, enquanto Yamato engole as suas emoções, cerra os dentes e mete-se ao trabalho – pondo inclusivamente os miúdos de 02 a mexer-se. É mesmo dado a entender, a certa altura, que Yamato faz uma direta. 

 

Existem momentos em Kizuna, aliás, em que é difícil simpatizar com Taichi – tal como já tinha acontecido nos dois primeiros filmes de Tri. Passa tanto tempo a lamber as suas próprias feridas que chega a parecer que está menos preocupado com os Escolhidos em coma, quando comparado com Yamato ou Koshiro.

 

Nada que não seja compreensível. Taichi é apenas humano. Alguns de nós, se calhar, reagiriam da mesma maneira.

 

E, para sermos justos, não se pode dizer que a maneira de Yamato lidar com o que está a acontecer seja a mais saudável. É possível que, depois dos eventos de Kizuna, o jovem se arrependa de ter passado os últimos dias de vida de Gabumon perseguindo uma pista que, mais tarde, se revelaria falsa. 

 

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Por outro lado, noutra curta-metragem de que falaremos melhor adiante, Gabumon mostra-se grato por andar a passar mais tempo do que o costume com Yamato. Espero que tenha tido a oportunidade de dizê-lo ao seu parceiro antes do fim.

 

Dizia eu que Taichi decide passar algum tempo com Agumon. Leva-o ao seu apartamento pela primeira vez. Momento impagável quando Agumon encontra os DVDs (serão DVDs?) pornográficos do seu parceiro – se me contassem essa há quinze ou dezasseis anos…

 

A certa altura, recebem a visita de Gennai (o verdadeiro!), que confirma tudo o que Menoa disse. Deixa também preto no branco, se dúvidas ainda existiam, que os Digimon desaparecem quando a contagem nos dispositivos chega a zero. Quando Taichi lhe pergunta porque ninguém os avisou antes, Gennai responde que foi pelo mesmo motivo pelo qual ninguém quer saber quando vai morrer.

 

Admito que não havia boas soluções aqui. É possível que pelo menos algumas das crianças se recusassem a cumprir o seu papel como Escolhidas, caso soubessem que o tempo de que dispõem com os seus Digimon é limitado – e sobretudo que as digievoluções aceleram o processo. É possível que alguns dos Escolhidos tentem, deliberadamente, não crescer, não (digi)evoluir – recusarem-se a estudar, a trabalhar, a saírem de casa dos pais. 

 

Por outro lado, os eventos de Kizuna podiam ter sido evitados – ou ter decorrido de forma diferente – caso Menoa tivesse sido avisada desta regra. 

 

Ainda assim, não culpo Gennai por não ter querido dizer nada aos Escolhidos. No que toca à Homeostase, no entanto, se antes já a questionava, depois desta… 

 

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Sempre foi moralmente discutível pegar em crianças, atirá-las para um mundo desconhecido, dar-lhes Digimon e exigir-lhes que salvem esse mundo. Pensava eu que aquilo que ela (?) fizera com Maki (e as outra primeiras Crianças Escolhidas, se bem que em menor grau) e Meiko fora suficientemente mau. Mas aparentemente ela faz o mesmo com todos os que Escolhe, em graus diferentes. Cria Digimon compatíveis com os humanos que Escolhe, programa-os para protegerem esses humanos. E, quando os Escolhidos já não lhes são úteis, a Homeostase pura e simplesmente descarta os Digimon, indiferente aos danos que provoca aos parceiros humanos. 

 

Em Watching As I Fall, Mike Shinoda reza “Nothing is forever, don’t be mad at the design”. O que é essencialmente uma das mensagens de Kizuna e uma grande verdade em todos os universos e aspetos da vida. No entanto, no universo de Adventure os desígnios têm um nome e podemos perfeitamente revoltarmo-nos. 

 

Não procurem mais. A Homeostase é o maior vilão do universo de Adventure. O verdadeiro vilão. 

 

Regressando a Yamato, tal como já tínhamos assinalado, ele mete os miúdos de 02 a trabalhar. Os três rapazes – Daisuke, Ken e Iori – estavam em Nova Iorque fazendo pesquisa de mercado para o futuro carrinho de ramen de Daisuke (ou pelo menos é essa a desculpa) antes de Yamato lhes ligar. Miyako rapidamente se junta a eles. Os quatro têm tirado proveito da capacidade dos D3 de darem passagem para o Mundo Digital e, daí, para diferentes pontos do Mundo Real.

 

Como alguém que não gosta de andar de avião e ainda menos das burocracias relacionadas, não imaginam a minha inveja.

 

 

Yamato pede aos Escolhidos mais novos que investiguem Menoa e Imura. Ken sabe quem Menoa Bellucci é – o jovem sabe uma coisinha ou outra sobre ser uma criança-prodígio. Os quatro assaltam o laboratório de Menoa. Enquanto o revistam, o Amardimon fica fascinado com uma imagem afixada na parede – mais tarde identificam-na como Aurora, a deusa no amanhecer segundo a mitologia romana. Homóloga de Eos, portanto.

 

Tomem nota. 

 

Entretanto, Yamato segue Imura, observa enquanto este recebe uma arma de um tipo com mau aspeto – o que não condiz com o perfil de um assistente de laboratório. 

 

Gosto desta versão de Yamato. Um Yamato adulto, street-smart (não existe uma boa tradução para essa expressão em português, eu bem procurei), astuto, capaz de se desenrascar no Mundo Real, não apenas no Digital. É certo que esta primeira (?) tentativa não é muito bem sucedida mas, com alguma prática… Eu via esse spin-off: Yamato o detetive, com o Gabumon como assistente. 

 

No dia seguinte (será o dia seguinte? A cronologia de Kizuna é um bocadinho confusa nesse aspeto), Joe dá o alerta: Mimi dera entrada no hospital onde ele trabalha depois de ter sido encontrada sem sentidos num armazém. É a primeira do grupo de Adventure a entrar em coma. 

 

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A cena é um bocadinho dolorosa para mim, confesso. Custa ver uma personagem que cresceu comigo numa cama de hospital e as outras à volta, sem saberem o que fazer. 

 

Yamato traz Taichi e Koshiro para a casa de banho masculina para fazerem o ponto da situação – é o único sítio onde as paredes não têm ouvidos. Yamato oferece-lhes, inclusivamente, telemóveis descartáveis para poderem conversar entre si com segurança – tal como diz Taichi, como se estivessem num filme de espiões.

 

Yamato revela o que descobriu: Menoa fora uma Criança Escolhida e a sua companheira Digimon era Morphomon. Koshiro estranha o facto de ainda não a terem conhecido. Por sua vez, Imura tornara-se assistente de Menoa na altura em que esta publicou os resultados da sua investigação.

 

É durante esta reunião na casa de banho que decorrem os eventos da curta-metragem intitulada “Um Buraco no Coração”. Nela, Agumon e Gabumon conversam sobre a sua iminente separação dos seus companheiros. 

 

No fundo, esta curta explora o conflito emocional de Kizuna na perspetiva dos Digimon. Agumon sente-se mais distante de Taichi, que está mais velho, vive sozinho, bebe cerveja e vê pornografia (para sermos justos, ele provavelmente já o faz desde a adolescência). Ao mesmo tempo, como assinalámos antes, Gabumon sente-se feliz por andar a passar os últimos dias na companhia de Yamato, mesmo que seja espiando Imura. 

 

Os dois chegam à conclusão de que estão gratos por tudo por que passaram, não apenas com os respectivos companheiros, mas também com os outros Escolhidos e os seus Digimon. Aquilo que viveram, as recordações que formaram, isso nunca desaparecerá. E prometem apoiar Taichi e Yamato independentemente do que eles decidirem. 

 

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Havemos de regressar a essa ideia.

 

No hospital, Taichi manifestara a vontade de resolver este caso. No entanto, a primeira coisa que o vemos fazer depois desta cena é pegar no seu antigo dispositivo, nos óculos de aviador e vestir uma camisola da mesma cor da t-shirt que usou em Adventure.

 

Não é preciso dizer mais nada, pois não?

 

Taichi vai falar com Menoa – algo que não sei se Yamato ou Koshiro aprovariam. Menoa fala-lhe de Morphomon, diz-lhe abertamente que não queria que outros Escolhidos passassem pela mesma perda (uma vez mais, tomem nota), que é nisso que se foca a sua investigação. Espera, também que Taichi e os seus companheiros de aventura ajudem a chegar à solução.

 

Da primeira vez que vi Kizuna, ainda tinha a esperança de que os Escolhidos arranjasse uma maneira de travar este processo. Esperança essa que durou até ao último minuto. Em visualizações posteriores, é nesta parte que me sinto como o Joey de Friends e quero enfiar o filme no congelador. Não quero que ele continue, não quero que aconteça aquilo que sei que vai acontecer. 

 

Entretanto, Yamato invade o escritório de Imura e encontra um daqueles típicos painéis que vemos na televisão e no cinema, com recortes de jornais e fotografias tiradas à distância. Neste caso, o painel foca-se tanto em Menoa como nos Escolhidos de Adventure. É também nesse momento que os miúdos de 02 lhe telefonam e confirmam que Kyotaro Imura não existe, é um nome falso. 

 

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Eu ainda assim vou continuar a tratá-lo por Imura neste texto, por uma questão de simplicidade.

 

Adicionalmente, o seu computador tinha dados sobre Eosmon que foram, posteriormente, apagados. Yamato brinca com a ideia de Menoa estar a ser manipulada por ele. 

 

Por outro lado, Armadimon não se cala com a imagem de Aurora no laboratório e Yamato ouve a conversa. O termo “aurora” é curioso, sobretudo neste contexto. Como vimos antes, é o nome da deusa do amanhecer na mitologia romana e, na língua portuguesa, é sinónimo de amanhecer (aparentemente também o é na língua inglesa). Mas também é o nome dado ao fenómeno metereológico conhecido como aurora boreal – como o que vimos no início do filme e que, como veremos adiante, desencadeou os eventos de Kizuna.

 

Pergunto-me se foi intencional. É provável que tenha sido. Mais à frente regressaremos a este conceito. Em todo o caso, a imagem de Aurora é uma pista que aponta para a verdade por detrás de Eosmon.

 

Entretanto, Koshiro recebe um email com um vídeo que mostra Hikari e Takeru inconscientes e amarrados, cada um num sítio diferente. Naturalmente, alerta os respectivos onii-chans – ameaçar os irmãozinhos mais novos é a maneira mais simples de atingir Taichi e Yamato (e indiretamente a audiência) mesmo no coração. Ao mesmo tempo, Joe não atende as chamadas – ou seja, Eosmon já o apanhou.

 

Nem Taichi nem Yamato chegam a tempo de impedir que os irmãozinhos entrem em coma. Provavelmente já estavam assim quando Koshiro recebeu o vídeo. O rapto serve apenas para manter os dois protagonistas ocupados enquanto Koshiro recebe uma visita de Menoa. 

 

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Antes de irmos aí, foquemo-nos em Yamato, que encontra Imura no armazém onde está Takeru. Imura soubera sempre que o homem mais novo estivera a espiá-lo – ou a tentar. 

 

Decide então abrir o jogo. Revela-se como um agente do FBI, encarregado de espiar Menoa e de encontrar provas contra ela. É nesta fase de Kizuna que descobrimos que fora Menoa quem criara Eosmon e quem roubara as consciências a trezentos Escolhidos. 

 

Por outro lado… Imura diz que o FBI andava atento às atividades de Menoa há “vários anos”, mas havia motivo para isso? O foco da sua investigação era a preservação dos vínculos entre Escolhidos e parceiros Digimon. Nada de criminoso nisso por si só. Só muito recentemente é que começara a usar o Eosmon para atacar pessoas. Excesso de zelo da parte do FBI?

 

Enfim. Americanos…

 

Menoa vai, então, ao escritório pedir-lhe a lista com as identidades dos Escolhidos. O jovem confronta-a com o que descobriu ao analisar os fragmentos de Eosmon que sobraram do combate no ciberespaço: dados que apontam para a investigação de Menoa.

 

É aí que cai a máscara. 

 

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Quando Yamato, Imura e, uns minutos mais tarde, Taichi chegam ao escritório de Koshiro, já este estava sem sentidos, já Tentomon tinha desaparecido, bem como Menoa. Koshiro, no entanto, conseguira enviar as coordenadas da localização de Eosmon a Taichi por SMS.

 

Resta a ele e a Yamato irem atrás de Menoa e Eosmon – mesmo sabendo que, se tiverem de digievoluir, reduzirão o tempo de vida de Agumon e Gabumon. 

 

Não que haja grande escolha da parte deles. Os dois estão encostados à parede. Em nenhuma circunstância iriam Taichi e Yamato sacrificar trezentos Escolhidos, incluindo amigos de infância, incluindo os seus irmãos mais novos, apenas para terem mais um bocadinho com os seus Digimon. Apenas para adiarem o inevitável.

 

Tendo em conta o que se descobrirá mais tarde, pode-se argumentar se seria assim tão mau deixar os Escolhidos como estão. Se alguns deles quererão sequer ser salvos. Estive a pesquisar as consequências de estar em coma indefinidamente, mesmo não estando em morte cerebral. Não cheguei a uma conclusão única, mas acho que, mesmo na melhor das hipóteses, seria difícil mantê-los assim. Teriam de ser alimentados por nutrição parentérica, de receber fisioterapia para evitar escaras e atrofia muscular. 

 

E, claro, à parte estas consequências mais práticas, é doloroso para os entes queridos vê-los assim.

 

Por isso Taichi e Yamato vão até à dimensão para onde Eosmon levara as consciências dos Escolhidos. As primeiras coisas que veem são o elétrico que os levara de volta ao Mundo Real, no fim de Adventure. Depois surge Menoa e várias ilhas flutuantes. Em cada uma encontra-se um dos Escolhidos e respetivo companheiro Digimon, com o aspeto que tinham durante os eventos de Adventure. Incluindo Meiko e Meicoomon.

 

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Menoa chama àquela dimensão apropriadamente Terra do Nunca: um sítio onde os Escolhidos podem ser quem eram durante Adventure para sempre. Não precisam de crescer, não precisam de se separar dos seus Digimon.

 

Eosmon é uma espécie de monstro de Frankenstein, criado por Menoa a partir dos restos mortais, isto é, dos dados que sobraram de Morphomon. A aparição da aurora, no início de Kizuna, fora o toque que faltara para Eosmon ganhar vida, com a capacidade de roubar e digitalizar consciências. Menoa resolveu usá-la para garantir que mais nenhum Escolhido perde o seu companheiro Digimon.

 

Acho interessante que Menoa tenha escolhido o conceito de “amanhecer” para dar nome a Eosmon. As suas vítimas estão em coma, estão a dormir, a viver em sonhos. No entanto, o nome vem de “amanhecer”, não de “anoitecer”. 

 

Faz lembrar um filme que saiu no ano em que decorrem os eventos de Kizuna: Inception/A Origem. Como é do conhecimento geral, esse filme foca-se muito no conceito de múltiplos níveis de consciência, de sonhos dentro de sonhos, na dificuldade em distinguir entre sonhos e realidade. Ligeiros spoilers, mas no filme existem pessoas (incluindo o próprio protagonista no seu passado) que preferem viver nos seus sonhos, por um motivo ou por outro. Adormecem, mas dizem que, na verdade, estão a acordar. Para eles o sonho é a realidade e a realidade é um sonho.

 

 

Suponho que Menoa pense da mesma forma. Pensa que está a acordar os Escolhidos para a realidade verdadeira.

 

Outro elemento, que já fora aparecendo aqui e ali ao longo de Kizuna mas que está presente em força na Terra do Nunca, diz respeito às borboletas azuis. Começando pela trança de Menoa, uma clara referência à sua companheira Morphomon.

 

Já que falamos nisso, um aspeto que acho curioso é o facto de Menoa parecer mais velha quando tem o cabelo solto – e parecer mais nova quando tem a trança com a borboleta na ponta. Não sei se sou eu ou se ela foi desenhada deliberadamente para dar essa ideia. 

 

O significado mais óbvio das borboletas é, claro, Butter-fly. Já me tinha queixado, a propósito de Tri, que depois da morte de Wada Kouji Digimon andava – na minha opinião, claro – a sobrevalorizar o tema de abertura de Adventure. Em Kizuna, no entanto, associam-no à antagonista – e, como veremos mais tarde, ao destino final de todos os companheiros Digimon. É uma perspetiva nova, interessante e algo cruel para algo que tem estado lá desde os primórdios deste universo. 

 

Adicionalmente, um dos significados mais conhecidos das borboletas é mudança, transformação, o ciclo vida/morte/renascimento. A borboleta azul em particular é símbolo de honra, de energia, de aceitação – o que, no contexto de Kizuna, é irónico.

 

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O problema de pesquisar simbologias é que não existem respostas erradas. Cada cultura, mesmo cada pessoa atribui as interpretações que quer às coisas. Veja-se o que acabámos de comentar sobre as borboletas e o tema de abertura de Adventure. E no entanto na discografia dos Paramore (e de Petals For Armor, até certo ponto) as borboletas são um tema recorrente, com uma simbologia muito própria.

 

Regressando a Kizuna, Menoa garante que cada um dos Escolhidos está na Terra do Nunca de livre vontade. Terá sido o desejo deles de nunca crescerem, de serem para sempre Crianças Escolhidas que atraiu Eosmon… mas eu não acredito nela.

 

Não que não ache que Joe, Mimi e os outros não desejassem, nem que fosse apenas um bocadinho, regressar ao passado. Mas, por essa lógica, não deviam Taichi e Yamato ter estado entre as primeiras vítimas? Eles que, dos oito de Adventure, são os que estão a lidar pior com a passagem do tempo? 

 

Além disso, sabemos que pelo menos Koshiro não foi de livre vontade para a Terra do Nunca – ele que descobriu a verdade sobre Menoa sozinho e que sabia o que lhe ia acontecer. Mais: se Eosmon fosse atraído pelos desejos dos Escolhidos, Menoa não precisava de roubar a lista a Koshiro.

 

É possível que Menoa esteja a projetar os seus sentimentos nos outros Escolhidos. Talvez ache que é isso que todos eles querem. Menoa é mais um caso de Escolhido e/ou Treinador traumatizado pela perda do seu companheiro Digimon. O que é curioso é que ela, de certa forma, é o oposto de Maki. Maki não hesitou em usar todos aqueles a quem podia deitar as garras – desde crianças a alguém que a amava – para recuperar o seu Digimon, sem se ralar com os danos que causava ou com as pessoas que magoava. Sem se ralar com o facto de estar a fazer aos outros aquilo que fizeram a ela. 

 

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Por sua vez, Menoa está, de uma maneira retorcida, a ser altruísta, a tentar evitar que outros sofram como ela sofreu. As suas intenções são boas. Mas todos sabemos que sítio está cheio de boas intenções. 

 

Já que falámos de Maki e de Tri, gostava de falar da presença de Meiko e Meicoomon na Terra do Nunca. Em termos de meta, sabemos porque é que elas estão lá: para piscar o olho aos (pelos vistos não muitos) fãs de Tri. Mas, dentro o universo, a presença delas levanta questões.

 

Na altura em que escrevi sobre Bokura No Mirai, não me apercebi que havia quem interpretasse o presente de Natal dos outros Escolhidos, e/ou o som característico de um dispositivo digital, como indicação de que Meicoomon regressaria à vida. Não acredito muito nessa teoria – não tanto por falta de provas, mais porque estragaria o impacto emocional do encerramento de Bokura No Mirai. 

 

Além disso, se Meicoomon estivesse viva em 2010 (e, assumo eu, livre do fragmento de Apocalymon), Meiko não teria motivo nenhum para desejar ter onze anos outra vez, com uma companheira Digimon instável. Isto, claro, partindo do questionável princípio de que Meiko foi de livre vontade para a Terra do Nunca.

 

No entanto, se Meicoomon está morta, como é possível que esteja na Terra do Nunca? Talvez não seja mesmo ela, talvez seja apenas uma figura dos sonhos de Meiko, ou das suas recordações. Não é implausível. Nessas circunstâncias, faria todo o sentido Meiko querer regressar à infância, aos tempos em que Meicoomon ainda estava viva. Por alturas de Kizuna, já se passaram anos suficientes para as saudades e a nostalgia pesarem mais que as reais dificuldades de ter Meicoomon como companheira. 

 

Suponho que seja também por nostalgia que Hikari tenha surgido na Terra do Nunca com o visual de Adventure. O que é que ela tem de bom para recordar? Só conheceu Tailmon quando já dois terços da temporada já tinham decorrido, viu imensas coisas más acontecendo. Ao contrário dos outros, teve pouquíssimas oportunidades para momentos tranquilos com Tailmon, para formar laços com ela.

 

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Nesse aspeto, faria mais sentido se ela tivesse adotado o visual de 02 (até porque cheguei à conclusão há pouco tempo de que a Hikari de 02 é a melhor Hikari). Mas, uma vez mais, do ponto de vista do meta, compreendo a decisão.

 

Menoa envia um enxame de Eosmon para o Mundo Real, à caça dos Escolhidos que faltam. Alguns deles são vencidos e trazidos para a Terra do Nunca, mas muitos conseguem fazer frente aos Eosmon. Destaque para os miúdos de 02, que têm aqui a sua oportunidade para brilharem.

 

Entretanto, Taichi e Yamato tentam lutar contra Menoa, mas passam por dificuldades. Para começar, Omegamon não chega para fazer frente a Eosmon – sobretudo quando esta absorve Menoa. A parte que custa mais é ver os próprios amigos impedindo os dois jovens – os dois homens – de lutar. Começando logo por Hikari e Takeru, mesmo para doer. E depois os companheiros Digimon atacam-nos.

 

Os outros Escolhidos e seus Digimon só despertam quando Taichi, em desespero de causa, sopra o apito da irmã, tal como fizera no primeiro filme. Um som que, tal como em Tri, atravessa mundos e é ouvido por Sora, no Mundo Real.

 

Pelo meio, Agumon e Gabumon dizem a Taichi e Yamato que não se importam que eles cresçam, que querem que eles cresçam, mesmo sabendo o que acontecerá aos Digimon. Porque sabem que, de uma maneira ou de outra, estarão sempre juntos. 

 

É com esse espírito que ocorre a última digievolução: novas formas do Agumon e do Gabumon, aparentemente num nível ainda superior ao Estremo. Parece que nem sequer têm nome para além de Agumon Laços de Coragem e Gabumon Laços de Amizade. Não interessa: esta é a despedida, é o canto do cisne, Ao som da lindíssima Sono Saki e.

 

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Tenho qualquer coisa nos olhos. E na garganta…

 

Com a ajuda dos novos Digimon, Taichi e Yamato derrotam Eosmon e resgatam Menoa das suas próprias recordações. Fica a dúvida sobre se, a certa altura, a jovem começou a ser manipulada por Eosmon, se Eosmon se estava a aproveitar da dor dela. Em todo o caso, quando regressam ao Mundo Real, Menoa entrega-se a Imura sem luta. Ao mesmo tempo, as vítimas do Eosmon acordam todas sem sequelas aparentes, junto dos seus Digimon. Um final feliz para elas.

 

Isto é, por agora. Pelo menos no que toca aos mais velhos, ao grupo de Adventure e aos Escolhidos da mesma idade, serão apenas mais algumas semanas, meses ou, no máximo, poucos anos até aparecer a contagem decrescente nos seus dispositivos.

 

Falta ainda a parte mais dolorosa, mas vai ter de ficar para amanhã. Continuem por aí!

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