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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

20 de 50 perguntas

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Eis-me aqui respondendo ao desafio das 50 perguntas, após ter sido nomeada pela Bruxa Mimi. Para tags como esta, estou sempre aberta – se não se importarem com eventuais demoras. Tecnicamente, ainda só fui nomeada para as primeiras vinte perguntas, logo, será a essas que vou responder.

 

Começando com…

 

1)O que mais odeias em ti?

 

Odiar odiar, não sei se existe algo em mim que odeie. Neste momento, gostava de ser menos insegura. Já fui muito pior, mas quero tentar ter mais confiança em mim mesma.

 

Também ajudava ser menos cabeça no ar.

 

2) Nome pelo qual te chamam.

 

Sofia, na maior parte das ocasiões. Às vezes trocam o meu nome com o nome da minha irmã. A minha família – sobretudo os meus irmãos – chama-me Fifi quando me querem irritar (já não resulta). A minha irmã às vezes trata-me por Fia – sobretudo quando me quer pedir coisas.

 

3) Se pudesses visitar qualquer lugar no mundo, onde é que irias e porquê?

 

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Iria a Moçambique com os meus pais. Eles são retornados, nasceram lá, foram expulsos para Portugal Continental quando tinham treze ou catorze anos e nunca mais voltaram. Gostava de ir lá com eles, um dia.

 

4) O que te faz chorar?

 

De uma maneira geral, situações tristes com que empatizo demasiado. Eu sei que esta é uma resposta demasiado vaga, mas a verdade é que não consigo encontrar um padrão – tirando, talvez, histórias de maus tratos a crianças e animais.

 

5) Escolherias voltar atrás no tempo ou ganhar mais tempo no presente?

 

Escolheria ganhar mais tempo – assumindo que significa, por exemplo, que os dias tivessem mais de vinte e quatro horas. Não porque me desagradasse voltar atrás no tempo – pelo contrário, agradar-me-ia demasiado.

 

Se pudesse, viveria para sempre no passado em alturas mais felizes. Como, por exemplo, o verão de 2016: quando Portugal tinha acabado de ser Campeão Europeu; Pokémon Go tinha acabado de sair e toda a gente andava a jogar ou, pelo menos, a falar disso; íamos ter o primeiro encontro do Odaiba Memorial Day; Trump ainda não tinha sido eleito e o Chester ainda estava vivo.

 

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É óbvio que isto não é maneira de viver – conforme os Escolhidos aprenderam na peça de teatro de Digimon Adventure Tri. Por isso é que escolheria ter mais tempo no presente: para ter mais tempo para vivê-lo.

 

Ou pelo menos, de uma maneira mais prosaica, para ter mais tempo para dar conta do recado com este blogue.

 

6) Não vou morrer sem…

 

…ver a Seleção Portuguesa ganhando um título. Pode não parecer nada agora, que já aconteceu, mas houve uma altura que eu temi nunca ver um jogador com a Camisola das Quinas levantando uma Taça (embora, em retrospetiva, pelo menos no que toca a Europeus, acho que era uma questão de tempo). Hoje já posso dizer que vi – e foi uma noite fantástica.

 

7) Alguma vez inventaste uma desculpa para não saíres de casa quando tinhas uma coisa combinada?

 

Tanto quanto me lembro não. Sou introvertida por natureza. Das poucas ocasiões que faço planos com outras pessoas, regra geral, são pessoas com quem quero mesmo estar. Assim sendo, a menos que tenha uma boa razão, não desmarco.

 

8) Último lugar onde estiveste.

 

No meu café preferido, com a minha cadela, Jane.

 

9) Comida favorita

 

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Esparguete. Deem-me muito esparguete. É o meu alimento preferido desde pequena, o alimento que poderia comer todos os dias sem enjoar. Gosto de esparguete com praticamente todos os acompanhamentos possíveis – o meu prato preferido é esparguete com amêijoas – mas chega-me esparguete simples, cozinho só com sal e um fio de azeite.

 

Estão a ver as pessoas na televisão e nos filmes, que comem um balde de gelado quando estão em baixo? Eu prefiro comer uma panela inteira de esparguete (isso ainda não aconteceu, mas talvez um dia…)

 

10) Comida que não comes

 

Existem vários alimentos que não aprecio muito (leguminosas, brócolos, coisas demasiado doces ou gordurosas, a maior parte do peixe frito), mas se tiver de comer, como. A única coisa que não como de forma alguma é couves de Bruxelas. Não, não e não.

 

11) Vivo perdendo…

 

Vou responder o mesmo que a Mimi: tempo. Infelizmente, tenho o defeito da procrastinação. Mesmo tendo menos tempo que antes para coisas como estes blogues, ainda desperdiço demasiado tempo em coisas como o Facebook, o Twitter, o Quora, o YouTube e as reposições da Anatomia de Grey.

 

12) Uma frase

 

 

It’s not about deserve, it’s about what you believe”

Wonder Woman

 

Acho que nunca escrevi sobre isso aqui no blogue, mas o filme da Wonder Woman, no ano passado, ainda que imperfeito, marcou-me imenso. Esta citação, primeiro de Steve Trevor e repetida por Diana, é cada vez mais relevante nos dias de hoje – em que, conforme referi há bem pouco tempo, o mundo e a Humanidade parecem cada vez piores.

 

Conforme já escrevi várias vezes neste blogue, uma pessoa fica tentada a ceder ao cinismo e à apatia. Tentamos contrariá-lo, tentamos manter a esperança e algum idealismo, por nós mesmos. Não porque os demais o mereçam, não porque esperamos ser recompensados ou mesmo que alguma coisa mude, mas porque queremos ser assim. Porque é nisso que acreditamos.

 

Eu tento, pelo menos.

 

13) Último concerto a que foste.

 

Ao da Shakira, em julho passado. Conforme já tinha explicado antes, a Shakira pode não ser uma das minhas cantoras preferidas, mas sempre a respeitei e tenho acompanhado a carreira dela de forma casual.

 

Não achei grande piada aos singles do álbum El Dorado – não sou grande fã de reggaeton e, ainda assim, acho que a Shakira é a melhor nesse estilo. Veja-se La Tortura e Hips Don’t Lie. Por outro lado, no início deste ano, depois de me oferecerem os bilhetes, andei a explorar a discografia dela e encontrei algumas pérolas. Várias músicas do álbum Sale el Sol (a faixa-título, Antes de las Seis, Mariposas), o dueto Mi Verdad com Maná e Ciega Sordomuda. Esta última, aliás, foi uma das que mais toquei no Spotify este ano (mais sobre isso noutra ocasião).

 

Fiquei um bocadinho chateada por ela não a ter tocado.

 

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Diverti-me imenso no concerto. Mesmo não conhecendo e/ou não adorando todas as músicas da setlist, fartei-me de dançar. Se tivesse hipótese de ir a três concertos da Shakira por semana ficava logo em forma.

 

Não sei qual será o meu próximo concerto, ainda. Os Within Temptation vêm cá no próximo ano, mas vêm à Concentração Internacional de Motos de Faro. Tenho de arranjar uma mota para ir?

 

14) Música do momento

 

Neste momento? Uma que ainda não saiu. Tell Me It’s Over, o segundo single do sexto álbum da Avril Lavigne, Head Above Water (sim, o nome do primeiro single é o mesmo que o do álbum). Mais sobre isso na próxima entrada de Músicas Não Tão Ao Calhas.

 

15) Última mensagem no WhatsApp

 

O meu irmão escrevendo “Estou à duas horas a passar a ferro” e eu corrigindo-lhe “Escreve-se ‘Estou HÁ duas horas’”

 

Grammar Nazi sofre…

 

16) O que mais te stressa

 

Esta é semelhante à pergunta do que me faz chorar: não sei, depende. Tirando, talvez, jogos importantes da Seleção Nacional, não tenho nenhuma resposta tirando coisas universais: ter tempo a menos e tarefas a mais; ter demasiadas coisas acontecendo ao mesmo tempo; não ter controlo; estar atrasada; perder coisas importantes; dias difíceis no trabalho…

 

Que vou responder mais?

 

17) Tira uma selfie e mostra

 

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Tirei esta há uns meses.

 

18) Uma música com a palavra Amor

 

Vou escolher o tema What Is Love, de Haddaway – a minha música preferida para dançar, neste momento. Lanço o desafio, aliás: ponham-na a tocar e tentem ficar quietos. Eu não consigo – começo logo a abanar o capacete, como o Jim Carrey.

 

Segundo o próprio Haddaway, estão sempre a perguntar-lhe, lá está, o que é o amor. Ele responde que cada pessoa tem a sua definição. Eu concordo, com uma exceção: comportamentos abusivos não são amor. Tirando esse caso, não existe um significado único, universal. Cada um tem a sua resposta.

 

19) O que é feio mas tu achas bonito?

 

Estou como a Mimi: bonito ou feio é uma opinião. Se acho uma coisa bonita, não vou dizer que é feia.

 

20) Mostra a última foto do teu Instagram.

 

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A Jane é rainha e senhora do meu Instagram.

 

 

Eu acho que já quase toda a gente na blogosfera já respondeu a este desafio. Assim, não nomeio ninguém em específico. Quem quiser, responda e deixe o link com as respostas nos comentários. Quando fizer a segunda parte do desafio, incluo esses links na publicação.

 

Fico à espera que a Mimi responda às outras perguntas. Até à próxima!

Mike Shinoda – Post Traumatic (2018)

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Mike Shinoda lançou, no passado dia 15 de junho, Post Traumatic, o seu primeiro álbum em nome próprio – apesar de já habitar no mundo da música há cerca de vinte anos, sobretudo como cérebro dos Linkin Park, mas também com o seu side-project, Fort Minor.

 

O projeto Post Traumatic, aliás, começou com um EP de três músicas, lançado no início do ano – já falámos sobre ele antes, bem como sobre um par de músicas que Mike lançou uns meses depois.

 

Na verdade, à data do lançamento oficial, quase metade do álbum estava cá fora. Penso que já referi aqui que não gosto muito dessa moda: quando vamos ouvir o álbum pela primeira vez as músicas que já conhecemos antes ensombram as que não conhecemos. Demora imenso tempo até estarem todas em pé de igualdade.

 

Foi, em parte, por isso que depois de About You me esforcei por não ouvir nada até ao lançamento oficial do álbum. Mike, no entanto, explicou que a ideia era ir partilhando as músicas connosco em tempo real, dentro do possível, documentando o seu estado de espírito na altura.

 

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Post Traumatic é isso, aliás: um diário musical de Mike, nos primeiros nove meses, mais coisa menos coisa, após a morte de Chester Bennigton. A tracklist está ordenada de modo mais ou menos cronológico. E de facto nota-se uma evolução ao longo do álbum, começando com um tom sombrio (raiva, desesperança, frustração e, sobretudo, luto) e terminando num tom… não diria luminoso, mas bem menos pesado, com alguma esperança, até.

 

Não que seja uma progressão linear. Mesmo depois de um ponto de viragem algures entre Promises I Can’t Keep e Crossing A Line, há ocasiões em que Mike parece regredir, em que a uma música mais leve se segue uma mais sombria. O contraste mais ostensivo, na minha opinião, é Hold It Together (uma das mais pesadas de todo o álbum) a seguir a Crossing a Line. Outro exemplo é Ghosts vir antes de Make It Up as I Go – que, por sinal, começa com a frase “I keep on running backwards”. O próprio Mike já comentou, em diversas ocasiões, que o todo este processo não lhe tem sido linear, que as fases do luto – negação, raiva, negociação, depressão, aceitação – não ocorrem necessariamente por esta ordem. Cada pessoa tem a sua progressão.

 

Eu argumentaria que o tema principal de Post Traumatic é precisamente controlo. Não apenas sobre as emoções da perda, mais até sobre as consequências dessa perda.

 

Conforme tínhamos comentado antes, Mike não perdeu apenas uma das pessoas mais importantes da sua vida, ele essencialmente perdeu o seu emprego, o seu modo de vida, parte da sua identidade. Perdeu os Linkin Park. O futuro da banda tem sido amplamente discutido ao longo do último ano, ano e meio (se pode ou deve continuar sem Chester, se devem arranjar um novo vocalista, etc), mas lá está: não se sabe. Ninguém sabe. Depois de quase duas décadas de Linkin Park, da noite para o dia a vida profissional de Mike, tal como a conhecia, esfumou-se, deixando-o sem saber o que fazer.

 

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A frase “only my life’s work hanging in the fucking balance”, de Over Again, parece ser a ideia principal de Post Traumatic, o denominador comum à maioria das faixas. O álbum documenta a busca de Mike por controlo sobre o seu destino, a procura de, como o próprio têm referido, “um novo normal”.

 

Já escrevi antes sobre as primeiras quatro faixas do álbum. As minhas opiniões não mudaram radicalmente desde essa altura. No entanto, gosto um bocadinho mais de Watching As I Fall e Nothing Makes Sense. A primeira faz mais sentido no contexto do álbum – falaremos melhor sobre isso mais à frente – e ganhei apreço às guitarras elétricas, bem à Linkin Park, depois dos últimos refrões.

 

Também Nothing Makes Sense Anymore faz mais sentido (no pun intended) no contexto do álbum. Os efeitos na voz do Mike não me incomodam tanto e compreendo um bocadinho melhor a letra, as metáforas. A pintura que levou com tinta entornada quando estava quase pronta. Mike num penhasco sobre o mar, julgando-se protegido do tumulto das ondas, até o chão abater-se sobre os seus pés, atirando-o para a tempestade. Mike debatendo-se no escuro, à procura de uma luz. Gosto particularmente dos versos “I’m a calll without an answer, I’m a shadow in the dark, trying to pull it back together, as I watch it fall apart”.

 

Passou-se isso com a maior parte das músicas em Post Traumatic: precisei de tempo, de ouvir várias vezes, para aprender a apreciá-las. Isso, ou estou numa altura em que só consigo ouvir música com ouvidos de ouvir sob a forma de CDs no meu carro.

 

 

Quando About You foi lançada, por exemplo, não achei nada de especial – mais uma vez, não era fã dos efeitos na voz de Mike. No entanto, uma vez mais com o tempo deixei-me de ralar com isso, sobretudo no contexto do álbum.

 

O tema principal da canção é o facto de toda a gente assumir que toda e qualquer música criada pós Jullho de 2017 será sobre Chester. Não que não seja compreensível: foi um acontecimento de grande impacto na vida pessoal dele e toda a gente soube. Um pouco à semelhança do que acontece, por exemplo, com as músicas da Taylor Swift, em que toda a gente tenta descobrir sobre qual nos ex-namorados ela canta.

 

No entanto, uma coisa são ex-namorados, outra coisa muito diferente é um homem que morreu demasiado cedo e de uma forma horrível. Tendo em conta que Mike sente dificuldade em manter o luto sob controlo (e havemos de voltar a falar sobre esse aspeto), não lhe será fácil ouvir toda a gente perguntando-lhe coisas como:

 

– E neste verso, em que falas de beijar o céu? És tu a tentares ir ter com o Chester ao Além?

 

Talvez isto tenha sido um fator pesando contra a decisão de lançar música a solo – saber que não poderia fugir a estas perguntas, que mesmo que compusesse sobre outros temas, as pessoas iriam sempre ligá-lo a Chester. Aliás, em About You, Mike parece não querer dar esse passo. Em parte pelos motivos que acabámos de discutir, em parte porque já passara metade da sua vida fazendo música. Talvez já não tivesse nada sobre que cantar.

 

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É um medo que todas as pessoas criativas têm de vez em quando: que um dia a fonte seque e já não tenham nada para criar. Mike chega mesmo a pôr a hipótese de aproveitar a desculpa e zarpar.

 

Ainda bem que não o fez.

 

Em About You, temos a participação de blackbear. Segundo Mike, os versos que ele interpreta foram inspirados na experiência que ele teve com os Linkin Park (ele colaborou com Mike na composição de Sorry For Now, no álbum One More Light). Os versos são abstratos de propósito, a ideia é cada ouvinte fazer a sua interpretação.

 

A meu ver, estes versos refletem sobre o processo de cantar sobre, lá está, alguém que morreu. O narrador (o próprio blackbear?) parece achar que é apenas uma cura rápida, nada que funcione a longo prazo (“Find something that works fits the symmetry, for only a quick broken remedy”). Ao mesmo tempo, também fala da falta de controlo sobre o processo de luto, tal como referimos antes.

 

 

A faixa que se segue, Brooding, é um tema instrumental. O termo “brooding” não tem tradução literal em português – significa algo como amuar, sem a conotação condescendente.

 

É um bocadinho complicado tentar interpretar o significado de uma peça instrumental, mas vou tentar... Brooding começa, de facto, de forma melancólica, ganhando ritmo depois do primeiro minuto – talvez simbolizando emoções em conflito, talvez representando uma tomada de decisão. Não sei. Signifique o que significar, faz uma boa transição entre About You e Promises I Can’t Keep.

 

Em termos musicais, esta última tem um estilo parecido ao do álbum Living Things. É o que acontece com muitas músicas neste álbum: adotam um estilo híbrido entre rock e eletrónico, semelhante ao dos álbuns A Thousand Suns e Living Things. Promises I can’t Keep tem ainda alguns elementos que me recordam Leave Out All the Rest. Em todo o caso, é um estilo de que gosto.

 

Em termos de letra, Promises I Can’t Keep pega de novo no tema da perda de controlo, parecendo até uma sequela direta a A Place to Start. Mike lamenta o fim da sua vida antiga com os Linkin Park, segura, previsível. Receia o futuro. Culpa-se a si mesmo por ter sido apanhado de surpresa, por não ter conseguido evitar o que aconteceu.

 

 

Ao mesmo tempo, no refrão, Mike parece ganhar noção que a segurança da sua vida antiga, o controlo que tinha sobre ela, eram ilusórios. Que não havia muito que ele pudesse ter feito. Assim, Mike procura habituar-se a isso. Procura aceitar que poderá não conseguir pôr os seus planos em prática e, lá está, cumprir as suas promessas.

 

Penso que é aqui que se dá o switch, que quando Mike se conforma com a instabilidade, quando aceita que a sua vida nunca mais será a mesma, que fica em condições de dar o próximo passo.

 

O que nos leva a Crossing A Line.

 

Tal como já tínhamos visto antes, esta faixa também pega no tema da falta de controlo, da incerteza, mas sob um ponto de vista mais esperançoso. Mike continua a sentir-se impotente perante o desconhecido, mas ao menos sabe o que quer fazer e acredita em si mesmo.

 

Crossing A Line continua a ser uma das minhas preferidas. Após uma primeira parte bastante sombria, o seu tom luminoso é agradável.

 

 

Avançando um pouco na tracklist, aliás, encontramos Make it Up As I Go, que me soa a uma versão sombria de Crossing A Line. Em ambas as canções, Mike mostra-se decidido a seguir em frente, a construir uma nova vida, a encontrar “um novo normal”. A diferença está na motivação. Em Crossing A Line, Mike é motivado por esperança. Em Make it Up As I Go, Mike é motivado por resignação, impaciência, mesmo teimosia, diria eu.

 

Mike queixa-se, mais uma vez, que o caminho para a recuperação não é linear, que de vez em quando dá passos para trás. Admite mesmo que ainda não está bem, que ainda tem dúvidas, que de vez em quando perde a esperança.

 

No entanto, Mike não quer de todo ficar parado e ceder ao desespero. Sabe que ninguém pode ajudá-lo, que tem de ser ele mesmo a desenrascar-se. Quer seguir em frente, mesmo que não saiba para onde vai, mesmo que tenha de se venturar no desconhecido. Mesmo que tenha, como reza o título da canção, de ir improvisando, de ir inventando pelo caminho.

 

É uma letra que acho muito interessante e algo estranha, mesmo. No que toca a músicas sobre seguir em frente, estou habituada a temas luminosos e letras esperançosas – Last Hope, dos Paramore, Keep Holding On, da Avril Lavigne, Million Reasons, da Lady Gaga, Crossing a Line neste mesmo álbum. Não estava habituada a uma música ao mesmo tempo sombria e motivadora. Mas acredito que existam pessoas que se identifiquem mais com este estilo do que com músicas como as que referi acima.

 

 

K.Flay é quem canta o refrão de Make it Up As I Go. Julgo que esta é a primeira vez que ouvimos a voz de Mike ao lado de uma voz feminina. Não sou grande fã da voz de K., soa-me demasiado artificial. Em Make it Up as I Go até encaixa bem, mas não sei se ia gostar de ouvir uma música cantada a solo por ela.

 

Voltando um bocadinho atrás na tracklist, a Crossing a Line, uma das músicas mais esperançosas de todo o álbum, segue-se uma das mais deprimentes. Holding It Together mostra as piores partes do processo de luto: os esforços que Mike ia fazendo para não ir abaixo, as noites mal dormidas, a sua esposa, Anna Shinoda, sofrendo com ele.

 

A música fala especificamente de um episódio verídico, em que alguém terá falado a Mike acerca de Chester, durante uma festa de anos de uma criança- Mike não gostou e terá respondido com uma piada que não caiu bem.

 

Estou certa que o tal sujeito, ou sujeita, não terá falado com más intenções. Eu própria, se calhar, também meteria o pé na poça. Mas, lá está, Mike estava com dificuldades em manter as emoções do luto sob controlo. Talvez pensasse que a festa de anos do miúdo ajudá-lo-ia a espairecer. Até vir esta pessoa estragar tudo.

 

 

Há pessoas que dão tempo a Mike para recuperar, que o aconselham a não ter pressas. Um bom conselho, só que Mike sente o tempo a passar, deixando-o para trás. Como diria Ellis Grey, o carrossel não pára de girar. Não dá para carregar no botão de pausa, não dá para andar para trás, não dá para sair dele.

 

Não que Mike não o tenha tentado, como vemos em Lift Off.

 

Esta é uma faixa interessante. Tem uma sonoridade inesperadamente etérea, fazendo pensar em voos noturnos e céus estrelados. A interpretação do refrão – por Chino Moreno, dos Deftones – também contribui para esse efeito. As estâncias, cantadas em rap, casam estranhamente bem com o acompanhamento atmosférico.

 

A parte musical condiz com a letra da canção. Mike terá composto Lift Off baseando-se na necessidade que sentiu, em diferentes alturas desde que Chester morreu, de fugir da tudo. De, lá está, tentar carregar no botão de pausa e sair do carrossel.

 

 

A expressão “Lift Off”, “descolagem” será, então, uma metáfora para este escapismo: levantando voo em direção ao espaço, longe de tudo, fugindo para um plano superior, etéreo. Para sítios perfeitos, como se calhar diria Lorde.

 

As estâncias também usam imagens espaciais. Na primeira estância, Mike usa um bocadinho de “braggadocio” – uma espécie de arrogância vazia que quase tudo o que é rapper demonstra na sua música. Não faz muito o meu estilo, confesso, mas depois do ano que Mike teve, não me importo. Se isso o ajuda…

 

A segunda estância é interpretada por Machine Gun Kelly (só me apercebi há relativamente pouco tempo que era o tal que não se encaixava em Papercut, durante o concerto por Chester). A parte dele lembra-me um pouco Airplanes, de B.o.b e Hayley Williams no sentido em que fala de sonhos falhados.

 

Agora que penso nisso, Airplanes e Lift Off são bastante parecidas: tanto pela parte de Machine Gun Kelly, pelas temáticas aeronáuticas e espaciais e pela sonoridade algo atmosférica e sonhadora.

 

 

Ghosts é a música mais pop de todo o álbum. Segundo Mike, nesta faixa ele permitiu-se a si mesmo divertir-se. “Já tive dias difíceis que chegue”, disse mesmo. “Se acordo e me sinto bem, não devia sentir-me culpado por me divertir.”

 

Eu também acho que não. O próprio Mike afirmou, durante o concerto no Hollywood Bowl, que Chester quereria que ele, o resto da banda, os fãs, se divertissem, que não estivessem sempre em baixo. Não quando existem horas e horas de vídeos de Chester fazendo palhaçadas, no YouTube.

 

E eu confesso que, com isto tudo, a última coisa que queria era que Mike perdesse essa faceta da sua personalidade. A faceta que se ria (e Mike é daquelas pessoas que se ri com a cara toda) quando o Chester fazia uma das suas; que ficou atónita quando, durante o concerto no Hollywood Bowl, o público cantou durante o vídeo dos Unicorns and Lollipops; que ainda hoje é conhecido por #trollnoda; que faz coisas destas.

 

Em Ghosts dá, então, para ver essa faceta – sobretudo no videoclipe. Foi o próprio Mike a produzi-lo. O protagonista é uma meia-fantoche, chamada Boris, acompanhado pela sua namorada (?), Miss Oatmeal.

 

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A música em si é bem menos pesada que a maioria de Post-Traumatic, mas  não é assim tão leve como parece. Ghosts fala sobre o lado sobrenatural da vida: sonhos, dejá-vus, coisas que vislumbramos pelo canto do olho e que desaparecem quando olhamos diretamente. Depois de uma perda como a de Chester, terão vindo muitas pessoas ter com Mike, falando-lhe destes aspetos mais surrealistas da vida.

 

 No que toca a estas coisas, Mike diz ter uma mente aberta, mas que nunca teve nenhum contacto direto com o sobrenatural – tirando uma experiência com uma médium, que lhe disse onde poderia encontrar um certo objeto.

 

Eu confesso que, no que toca a estas coisas, me inclino mais para o cético. Não digo preto no branco que não existe, mas sou uma mulher de ciência: tendo a acreditar no que é palpável, no que se pode provar sem contestação. No que toca a estes fenómenos, na minha opinião, muitos deles poderão ser manifestações do subconsciente.

 

Mas, lá está, compreendo o apelo, sobretudo se estivermos a falar de entes queridos. Além de que, como diria Albus Dumbledore, só porque ocorre nas nossas cabeças, não significa que não seja real. Como li algures no Twitter, estes fenómenos serão tão reais quanto uma pessoa necessite que sejam – desde que, claro, como também diria Dumbledore, não nos percamos em fantasias e nos alheemos por completo do presente.

 

 

O que nos leva, de novo, à letra de Ghosts. Nesta, os fenómenos sobrenaturais são retratados como uma fonte de consolo, um mundo para onde Mike foge durante a noite. Não existem referências diretas a Chester em parte nenhuma desta canção, nem Mike falou dele a propósito de Ghosts, tanto quanto sei. Mas é possível que Mike interprete estas manifestações como sinais enviados pelo amigo. É possível que ele encontre algum consolo nisso, na “presença” do amigo.

 

Não me interpretem mal, isto são apenas especulações minhas. Não acredito que Mike alguma vez confirme esta minha teoria – o que é compreensível.

 

No que toca a estas coisas do sobrenatural, gosto muito mais deste lado agridoce do que da faceta assustadora. O mundo real assusta muito mais, sobretudo os seres humanos, não precisamos de inventar coisas sobrenaturais para nos assustarem. É por isso que não acho piada quase nenhuma ao Dia das Bruxas.

 

Mas estou a desviar-me.

 

I.O.U. é a faixa de que menos gosto em Post Traumatic. Não porque seja má, antes porque não faz muito o meu estilo: um tema puramente hip-hop, com muito “braggadocio”, que Mike terá composto a pensar em Fort Minor. Tenho vindo a descobrir que não gosto assim tanto desse estilo musical.

 

 

Não que não aprecie nada em I.O.U. – por exemplo, gosto imenso dos versos “Used to be the quiet kid in the sandbox, now it’s ‘hands up’ everytime that your man rocks”

 

Our man, o nosso homem. O nosso Mike. Ah ah!

 

Segundo o próprio, os amigo de Mike terão ficado descansados quando o ouviram a disparatar (a expressão que ele usou foi “talking shit”) numa música de rap. Era sinal de que ele estava a recuperar, a voltar a ser o Mike que conheciam e adoravam. Por isso é que não me queixo. Mais uma vez, se isso o fizer feliz…

 

Mas continuo a preferir rap/hip-hop temperado com outros estilos musicais, como em Post Traumatic e em quase toda a discografia dos Linkin Park.

 

 

Um exemplo disso é Running From My Shadow – uma música com a participação de grandson, com um estilo que é um denominador comum à maioria de Post Traumatic.

 

A letra fala sobre, bem, fugir da própria sombra: negração, procrastinação, empurrar problemas com a barriga, ciclos viciosos. Segundo Mike, Running From My Shadow não fala sobre uma situação específica, antes sobre uma infinidade de momentos diferentes, um padrão na sua vida.

 

Confesso que também tenho esse defeito, até certo ponto: complicando questões que poderia ter resolvido de maneira simples se as tivesse encarado como uma mulher adulta, boicotando-me a mim mesma, como reza Caught in the Middle. Já fui pior.

 

Destaco o verso de grandson, que resume bem a mensagem da canção: “Running from my shadow, now my shadow is my only friend!”. Se continuamos sempre a adiar, a adiar, um dia a batata quente explode-nos nas mãos. E não há ninguém que possamos culpar ou a quem recorrer senão a nós mesmos.

 

 

World’s on Fire tem uma sonoridade interessante. Começa minimalista e assim se mantém até ao primeiro refrão. Ganha, depois, alguns elementos eletrónicos que fazem lembrar Robot Boy.

 

Quando falámos sobre o vídeo de Nothing Makes Sense Anymore, comentámos que este parece comparar o que aconteceu à vida de Mike com os incêndios na Califórnia, no final de 2017. A letra de World’s on Fire também pega nessa metáfora – desta vez para dizer, em suma, “when the world’s on fire, all I need is you”. “

 

You” é quase de certeza a esposa de Mike, Anna Shinoda, talvez também os seus filhos. Numa altura em que, como temos assinalado várias vezes neste texto, uma parte do mundo de Mike ardeu, Anna terá sido o seu porto de abrigo, o seu consolo, quem o impediu de ir completamente abaixo. Mesmo que Mike perca tudo, só precisa dela para sobreviver.

 

E tem razão. Por muito que se fale, que se escreva, o que mais importa são as pessoas. O resto é irrelevante.

 

Por outro lado, tenho vindo a reparar que o refrão de World’s On Fire parece ter sido composto a pensar na voz de Chester – não tanto a melodia principal, mais os backvocals mais agudos. Fazem lembrar algumas canções dos Linkin Park, como por exemplo Waiting for the End ou Rebellion, em que as vozes dos dois harmonizavam, com Chester cantando as melodias mais agudas, regra geral. Não me custa imaginá-lo fazendo o mesmo nesta canção.

 

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Não sei se Mike se apercebe disto, se o seu subconsciente ainda está habituado a compôr para a voz de Chester, se esse hábito vai desaparecer com o tempo. Faz parte do processo, suponho eu.

 

Chegamos, finalmente, a Can’t Hear You Now, uma das minhas preferidas. Sendo este um álbum muito autobiográfico, com uma tracklist ordenada de forma mais ou menos cronológica, não surpreende que esta, a última faixa, seja uma das músicas mais animadoras e esperançosas. Não deixa, no entanto, de manter um certo grau de sarcasmo e melancolia.

 

Em Can’t Hear You Now, vemos um Mike mais confiante em si próprio – não com “braggadaccio”, como noutras músicas, algo mais genuíno. Admite que ainda tem dias maus, de vez em quando, que por vezes sente o controlo a fugir-lhe. No entanto, está numa fase bem melhor, no geral. Na maior parte do tempo consegue ignorar os seus demónios, as suas inseguranças, bloquear a sua influência.

 

Em Watching As I fall, Mike dizia que queria fugir precisamente a essas vozes – “Maybe I’m just falling to get somewhere they won’t”. Em Can’t Hear you Now, vemos que ele conseguiu.

 

 

Um dos motivos pelos quais gosto tanto de Can’t Hear You Now é por saber que, pelo menos no momento descrito pela canção, Mike está numa fase mais infeliz. Sinto pena quando o CD reinicia automaticamente no meu carro, regressando a A Place to Start.

 

Também gosto porque me identifico com ela. A minha vida não tem sido, nem de longe nem de perto, tão má como o 2017 de Mike, mas também sinto que estou num período melhor em relação ao ano passado. Tenho os meus dias maus, claro (demasiados), tenho as minhas neuroses, mas hoje tenho uma segurança e uma confiança em mim mesma que não tinha há anos – se é que alguma vez a tive.

 

Mas estou a desviar-me. Outra vez.

 

Alguns de vocês devem andar a perguntar por Looking for an Answer. Mike disse numa entrevista que a deixou de fora porque não se encaixava no ritmo do álbum – e eu acho que ele tem razão.

 

Não sei se Mike está a guardar Looking for an Answer para um, ainda hipotético, futuro álbum dos Linkin Park ou outro projeto qualquer. Pode ser até que ele nunca chegue a gravá-la. Talvez Mike não queira regressar ao momento em que compôs a canção (ele admitiu, em entrevista recente, que não lhe é fácil cantar músicas como A Place to Start e partes de Over Again). Talvez ele queira que seja uma faixa exclusiva do concerto por Chester.

 

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Para ser sincera, a ausência de Looking for an Answer não me incomoda. Estou bastante satisfeita com Post Traumatic tal como está.

 

A maior força deste álbum é o facto de ser tão pessoal, tão honesto – fazendo-me ignorar certos aspetos que, noutras circunstâncias, me incomodariam muito mais. Como, por exemplo, alguns efeitos na voz de Mike e o “braggadocio”. Conforme tenho referido várias vezes ao longo dos anos neste blogue, música assim tem muito mais valor.

 

É nesta parte que costumo fazer uma atualização sobre a maneira como tenho lidado com a morte do chester. Não que muitos de vocês se ralem, penso eu, mas escrever sobre isso, no texto de fim de ano e na análise às primeiras músicas de Post Traumatic, ajudou-me, na altura. Por isso, tenham paciência, vão ter de me aturar.

 

Até há cerca de mês e meio, estava mais ou menos da mesma maneira que em abril: melhor que em 2017, com altos e baixos. Momentos em que ainda não acreditava que aconteceu mesmo, vídeos antigos de bastidores que me davam – ainda dão – vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.

 

No entanto, tive uns dias maus em finais de outubro – mais especificamente no aniversário do concerto por Chester. Estava a rever partes do vídeo no YouTube. A certa altura, cheguei à parte do discurso de Chester no último concerto que deu em vida. E fui-me abaixo.

 

 

Naquele dia tinha havido (mais) um tiroteio nos Estados Unidos – com motivações anti-semíticas. No dia seguinte, Jair Bolsonaro ganharia as eleições no Brasil. Nessa altura, eu só pensava que Chester tinha morrido menos de duas semanas depois de fazer aquele discurso – um discurso que ele fez para tentar consertar o mundo, no rescaldo do atentado em Manchester. E desde julho de 2017 só via – ou melhor, só vejo – o mundo deteriorando-se cada vez mais.

 

Onde está a justiça nisto? Quem permite que isto aconteça? Que entidade superior achou por bem tirar-nos Chester, deixando-nos a braços com um mundo cheio de energúmenos?

 

Demorei uns dias a sair desta. Uma das coisas que me salvou deste estado de espírito foram palavras de Mike. Ele tem andado em digressão para promover Post Traumatic. Não passou por Portugal e, infelizmente, tão cedo não deverá fazê-lo.

 

Tenho, mesmo assim, evitado ao máximo spoilers dos concertos, mas sei que estes têm incluído um momento de homenagem a Chester, na forma de In the End – com o público cantando as partes que não o rap. Antes dessa música, Mike costuma falar um bocadinho sobre o amigo que perdeu e tudo o que se tem passado desde aí. Numa das vezes, disse que uma das coisas que queria fazer com esta digressão era deixar os fãs exprimirem as suas emoções em relação a Chester.

 

 

Eu fiquei sem palavras. Mike não tinha de fazer isto. Ele tinha todo o direito de ignorar-nos, de dizer que a nossa dor não era nada comparada com a dele, da família e amigos próximos de Chester – e não é, nunca tive ilusões disso.

 

Em vez disso, Mike virou o microfone para nós, deu-nos espaço para sentirmos o que tínhamos a sentir, exprimirmos o que tínhamos a exprimir. Nós não merecemos Mike, tal como não merecíamos Chester.

 

E no entanto é essa a questão. É isso que Chester faria, é isso que Chester quereria que Mike fizesse. Afinal de contas, Chester teve uma vida muito mais difícil que muitos de nós, sofreu muito mais que muitos de nós. E em vez de se tornar uma pessoa cínica, amarga e misantrópica, tornou-se o completo oposto disso: um homem gentil, divertido, que adorava os seus fãs, que distribuía alegria, que tentou quase até ao fim da sua vida fazer deste mundo um lugar melhor.

 

Ele escolheu ser assim, ele escolheu ser melhor. Escolheu tratar bem um mundo que não o merecia – embora não tenha sido capaz de tratar bem a si mesmo.

 

É isto que significa a hashtag #MakeChesterProud (demorei mais de um ano a percebê-lo), o movimento que Mike começou e que ele e outras pessoas próximas de Chester têm conduzido. Escolhermos ser melhores, apesar da nossa dor, cuidarmos uns dos outros como de nós mesmos, agarrarmos todos os momentos de felicidade que encontrarmos, virarmos as costas ao ódio, à intolerância, à toxicidade. Se não pudermos consertar o mundo inteiro, consertarmos o que está ao nosso alcance.

 

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Eu quero pelo menos tentá-lo.

 

Isto ficou um bocadinho lamechas, admito-o, mas eu precisava de escrever isto. Tenham paciência comigo, ainda estou a aprender a lidar com este mundo, com esta vida. Conforme escrevi no texto anterior, estes últimos anos não foram fáceis para ninguém. Consola-me um bocadinho saber que estamos no mesmo barco, de certa forma, que estamos todos a fazer o que podemos para, lá está, mantermos a cabeça à tona da água.

 

 

Estive várias semanas sem publicar – este texto demorou-me mais do que estava à espera – mas tão cedo não tenciono fazer um hiato tão grande. Estou já a trabalhar nos meus textos habituais de fim de ano, tenho uma entrada de Músicas Ao Calhas planeada e respostas a uma tag.

 

Em todo o caso, como sempre, obrigada pela vossa paciência.

 

Músicas Não Tão Ao Calhas – Head Above Water

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Avril Lavigne lançou, no passado 19 de setembro, Head Above Water, uma música que serve de primeiro avanço ao seu sexto álbum de estúdio (ainda sem nome e sem data de lançamento).

 

Quem siga este blogue há pouco tempo, se calhar, não saberá que Avril é a minha cantora preferida de todos os tempos. Como ela tem estado afastada dos holofotes durante os últimos quatro anos, tirando uma ou outra ocasião, não tenho tido muitas oportunidades para escrever sobre ela.

 

O seu último álbum de estúdio, homónimo, saiu há quase quatro anos. Depois desse, Avril lançou um single isolado, Fly, deu a voz à Branca de Neve do Príncipe Bué Encantado (embora não se perceba o que está a acontecer a esse filme) e emprestou a voz a canções de outros artistas. Desses, escrevi sobre Get Over Me e Listen, mas não sobre Wings Clipped. Não gostei desta última e, como saiu na véspera do quinto filme de Tri, não quis perder tempo com ela.

 

Foi uma longa espera, mais do que com os álbuns anteriores, mas, falando por mim, não me custou tanto como antes – em parte porque andei entretida com outras coisas, outras músicas. Em parte porque, desta feita, havia um motivo excelente (mais sobre isso adiante). Fui gerindo a página do Avril Portugal, que é a última ligação que tenho ao Fórum com o mesmo nome, mas existiram várias ocasiões em que mal pensava nela.

 

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No entanto, tudo isso mudou nas últimas semanas, assim que saíram os primeiros sinais de que Avril ia lançar música nova – e não era mais uma falsa partida, era mesmo a sério, com fotografias promocionais, com filmagens de videoclipe. Tenho-me sentido como se tivesse dezanove anos outra vez – altura em que quase só ouvia, pensava e respirava Avril Lavigne. As saudades que eu tive destas coisas.

 

Avril é como se fosse a minha casa no mundo da música, a minha mãe musical. Foi uma das primeiras artistas cuja música me apaixonou. Foi ela quem me trouxe ao mundo da música, com quem aprendi a ser fã, que ajudou a formar o meu carácter (musical e não só).

 

Estive muito tempo agarrada às saias dela, quando era mais nova, pouco ouvindo de outros artistas (tirando Bryan Adams, que por esta lógica pode ser considerado o meu pai musical). Com o tempo, fui saindo de debaixo da asa dela, descobrindo outra música – música, em muitos casos, falando de modo cem por cento racional, melhor que a da Avril – mas nunca deixo de voltar para ela. Tal como uma mãe, ela sabe sempre aquilo de que gosto e nunca haverá ninguém que tome o lugar dela.

 

Isto sou eu, claro, mas estou longe de ser a única. Uma coisa de que me apercebi nos últimos anos, de resto, é que a pegada que Avril deixou no mundo da música não desapareceu – mesmo que, na última década, ela tenha deixado de ter o sucesso comercial de outros tempos. As pessoas respeitam-na, sobretudo pelos seus primeiros dois álbuns mas não só. Reconhecem, tal como eu, o seu talento enquanto cantora e compositora, que ela é genuína de uma maneira que poucos são, no mundo da música. Avril, além disso, tem sido citada como influência por toda uma geração de artistas indie rock, como Soccer Mommy e Snail Mail.

 

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Isto é, quando não falam sobre a estúpida teoria da conspiração – que, à luz das últimas declarações dela, é de péssimo gosto.

 

Conforme já referi noutras ocasiões, os últimos anos não foram fáceis para Avril – nem para ela, nem para a maioria do meu “nicho” musical, como tenho vindo a reparar. A Avril contraiu a Doença de Lyme em 2014 – mais ou menos na mesma altura em que o seu primeiro marido, Deryck Whibley dos Sum 41, se ia matando à custa do álcool. Os Paramore estiveram à beira da implosão, depois da saída do baixista Jeremy Davies, o que quase deu cabo da vocalista Hayley Williams. Mesmo os Within Temptation terão passado por uma mini-crise, por desgaste, bloqueio criativo e problemas pessoais. Por fim, e sem dúvida o pior de tudo… o Chester morreu.

 

Não tem sido fácil para ninguém. Mesmo comigo tem sido com altos e baixos.

 

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Avril já tinha falado sobre a sua experiência com o Lyme noutras ocasiões mas, tanto quanto me lembro, não tinha ido tão longe como na carta de apresentação de Head Above Water. Avril escreveu que passou uma boa parte dos últimos anos, sobretudo os dois primeiros, presa à cama; que houve uma altura em que estava nos braços da sua mãe, sentindo o corpo a desligar-se e aceitando que ia morrer.

 

Vão ter de me perdoar a linguagem mas ler isto, do punho da minha mãe musical, pouco mais de um ano depois de perder o Chester, foi fodido.

 

Terá sido nessas circunstâncias que Avril rogou a Deus que não a deixasse morrer, que “mantivesse a sua cabeça à tona da água”. Daí Head Above Water – essa prece feita música e a primeira faixa gravada para este álbum.

 

  

And my voice becomes the driving force”

 

Musicalmente, Head Above Water é uma balada – é a primeira vez que Avril usa uma balada como primeiro single de um álbum novo. É um bocadinho estranho que tenha demorado tanto tempo, quando algumas das suas canções mais populares são neste estilo – como I’m With You e Keep Holding On. Começa com piano, num ritmo um bocadinho mais acelerado que o habitual, ao qual se juntam mais instrumentos – destacando-se uma guitarra elétrica discreta, um violoncelo e aquela percussão típica de baladas.

 

Em termos de vocal, Avril entra com tudo desde o início, a voz clara e forte do princípio ao fim. Na biografia atualizada do seu site oficial, Avril refere que, após ter passado dois anos praticamente sem cantar, não sabia em que estado estaria a sua voz. Quando gravou Head Above Water, no entanto, a sua voz soou “mais forte do que nunca”. Eu tenho de concordar.

 

Destacaria, aliás, o verso que citei acima, tanto pelo seu significado como pela maneira como Avril o canta – eu fiquei de queixo caído da primeira vez que o ouvi. Yep, se há voz capaz de servir de força motriz, é esta.

 

Falemos, então, da letra. Com referi acima, Head Above Water é uma oração, um pedido de socorro a Deus, Avril rogando-Lhe que não a deixe morrer. Não que ela chegue a usar essa palavra, recorrendo antes a eufemismos (“I’m too young to fall asleep”).

 

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Um aspeto que me agrada particularmente é a temática aquática. Conforme referi noutras ocasiões, a água é o meu elemento. Entre outras coisas, sempre adorei nadar, sobretudo no mar, sobretudo debaixo de água e já escrevi aqui no blogue sobre canções que usam metáforas aquáticas. Ao contrário de Underwater e Pool, no entanto, em Head Above Water, a água, o mar, possuem uma conotação negativa – representam a doença dela.

 

Ao mesmo tempo, foi nestes momentos de dificuldade que Avril se aproximou de Deus – como acontece com muitas pessoas em circunstâncias semelhantes. (“I’ll meet you there, at the altar, as I fall down to my knees”, “I need you now, I need you most”)

 

Infelizmente, a letra de Head Above Water acaba por cair nas mesmas armadilhas que uma boa parte da discografia da Avril: a letra é demasiado vaga e acaba por se perder um pouco em clichés. Confesso que fiquei um pouco desiludida, depois de o quinto álbum tem incluído algumas letras boas, como 17 e Give You What You Like, melhorando bastante em relação ao seu antecessor, estava à espera de um bocadinho mais.

 

Não que isso prejudique demasiado a música. A letra é suficientemente sólida para transmitir a mensagem e a emoção – e para comover outros doentes de Lyme (mais sobre isso adiante).

 

  

É isto, essencialmente. Não diria que esteja caída de quatro com Head Above Water, mas é uma boa música, uma música que poderá tocar muitas pessoas, sobretudo alguém que tenha passado por uma situação semelhante – quer seja Lyme ou outra doença grave, quer sejam dificuldades económicas ou assim. Por muito que uma pessoa até possa gostar das Girlfriends e Hello Kittys desta vida e que, por vezes, Avril não queira levar a sua música demasiado a sério, a verdade é que é desta faceta da Avril que gostamos. Da música que vem do coração e que salva vidas, mesmo com letras imperfeitas.

 

E Head Above Water até tem sido bem recebida pelo público. Tem dominado as tabelas de vendas do iTunes, chegando mesmo ao primeiro lugar nos Estados Unidos, algo que não acontecia desde Girlfriend (embora eu tenha algumas dúvidas no que toca à relevância do iTunes numa era dominada pelo streaming). Tem sido ainda melhor recebida por outros doentes de Lyme – como esta senhora. Não sei como isto afetará o sucesso comercial de Avril e do próximo álbum a longo prazo, mas é um bom começo.

 

Ainda não há nenhuma pista em relação ao álbum ou mesmo a outros singles. Há quem diga que o álbum ainda sai este ano, mas eu duvido. A ideia com que fiquei foi que Avril quer ir fazendo isto aos bocadinhos, regressando a pouco e pouco ao mundo da música, não vá a sua saúde ressentir-se. Acredito, aliás, que os adiamentos se devem a recaídas (sinto-me culpada por ter reclamado antes…). Não me admirava se saíssem vários singles antes de o álbum ser lançado por completo.

 

Sunshine Blogger Award

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Mais uma vez lembraram-se de mim para uma tag e eu não podia estar mais feliz. Desta feita, foi a Helena – muito obrigada pela nomeação! Demorei quase um mês, mas aqui estão as minhas respostas. 

 

Eis as regras:

 

1) Agradecer à bloggerque te nomeou

2) Responder às 11 perguntas que foram feitas

3) Nomear 11 bloggers e fazer-lhes 11 perguntas

4) Colocar as regras na tua publicação, incluído também a imagem do prémio.

 

As perguntas colocadas pela Helena são as seguintes:

 

1) De onde vem o nome do teu blogue?

 

Não é uma história por aí além, confesso. Criei este blogue para ser uma plataforma onde pudesse partilhar os meus “testamentos” (ou seja, os meus textos muito compridos). A palavra “álbum” parecia-me um sinónimo razoável de “blogue” (ou de qualquer rede social, na verdade). Daí Álbum de Testamentos.

 

Hoje, seis anos depois, admito que não morro de amores pelo nome. É um bocadinho comprido demais e não muito apelativo. Se fosse hoje, escolhia um nome diferente – algo que incluísse “caderno”. Mas agora já é tarde…

 

2) Quando e porque é que decidiste começar um blogue?

 

Como já escrevi várias vezes aqui, sempre adorei escrever, desde que aprendi a fazê-lo, sobretudo sobre coisas que me apaixonam. Antes de criar este blogue, criei outro (há já dez anos) sobre a Seleção Nacional. Só que, a partir de certa altura, senti vontade de escrever sobre outros assuntos e de partilhar esses textos na Internet. Daí este blogue.

 

3) O que mais gostas e menos gostas de ler noutros blogues?

 

Tenho um fraquinho especial por histórias de bebés e crianças pequenas, mas gosto de ler sobre de tudo um pouco. Quer sejam histórias pessoais, opiniões sobre a atualidade, críticas a livros ou filmes, sei lá…

 

A única coisa a que não acho grande piada – e estou a arriscar-me a incomodar muita gente aqui no Sapo Blogs – são aqueles blogues em que todas as publicações são apenas duas ou três frases. Quando são apenas uma parte delas – como as “Curtas do Dia”, da Mula – ainda vá que não vá. Mas quando são todas, irritam-me um bocadinho. Na minha opinião, um blogue deve ser diferente de uma conta no Facebook ou no Twitter.

 

Mas isto sou só eu – cujas publicações são quase sempre monstros de milhares de palavras. Cada um faz o que quiser com o seu blogue.

 

4) O que te faz seguir ou deixar de seguir outro/a blogger?

 

Geralmente, quando começo a seguir um blogue, é porque gosto do seu conteúdo, porque seguem o meu blogue e/ou porque os conheci pessoalmente. Não gosto de comentários do género “Olá! Segui o teu blogue, segues de volta?” mas, se alguém comenta ou reage a alguma publicação minha, gosto de pelo menos dar uma espreitadela ao seu blogue, a ver se gosto.

 

Por outro lado, acho que nunca deixei de seguir ninguém. O que pode acontecer é ir visitando menos vezes, sobretudo por falta de tempo ou por preguiça.

 

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5) Se pudesses, dedicavas mais tempo ao teu blogue ou estás feliz com o teu trabalho atual?

 

Vamos por partes.

 

Primeiro, sim, gostava de ter mais tempo para os meus blogues. Com o meu emprego atual é difícil – para arranjar tempo e para arranjar energia, ao fim da tarde ou à noite, depois de um dia de trabalho. Uma tarde de fim-de-semana com o meu caderno, uma caneta, o meu computador e uma boa chávena de café é uma bênção, quando os consigo arranjar – e mesmo assim, nem sempre consigo ser produtiva.

 

Estou a tentar desabituar-me de fazer promessas no que toca a este blogue. Nem sempre consigo cumpri-las e estou sempre a mudar de ideias.

 

Por outro lado, não posso dizer que não esteja feliz com o meu blogue. Posso demorar eternidades a escrever e a publicar os meus textos mas, quando o faço, tenho ficado satisfeita com eles. Além disso, este ano, tenho obtido mais feedback do que o habitual, o que é muito animador, sobretudo nos dias mais difíceis.

 

É na boa. Vou tentar gerir melhor o meu tempo, ir tirando uma ou outra folga para escrever, sem stress. O importante é publicar textos que me agradem, mesmo que levem tempo, mesmo que nem sequer recebam muita atenção.

 

6) Peça de roupa sem a qual não podes viver.

 

Os meus ténis, cada vez mais, mesmo no verão. São o único calçado que trata bem os meus pés – até porque, por vezes, passo muitas horas de pé no meu trabalho.

 

Depois desses, os meus casacos de cabedal (eu adoro a Casa das Peles!) mas, como é evidente, quando está muito calor, não consigo vesti-los – e no entanto, neste verão atípico, tenho usado o casaco mais leve algumas vezes.

 

7) Tens alguma rotina “só tua” antes de dormir?

 

Nem por isso… Só mesmo desmaquilhar-me, lavar os dentes, tomar um duche (mais quando tenho de me levantar cedo na manhã seguinte). Gosto também de beber uma caneca de leite frio, pois ajuda-me a adormecer – não sei se é efeito placebo ou se existe mesmo algum composto no leite que contribui para isso.

 

8) Como te definiriam os teus amigos?

 

Nunca lhes perguntei diretamente… Acho que diriam que, ao primeiro contacto, sou simpática mas calada e reservada, mas que, depois de me pôr à vontade e começarem a conhecer-me melhor, sou bastante divertida.

 

9) “Antes só que mal acompanhado”?

 

Sem dúvida. Sempre fui uma pessoa introvertida, que nunca teve problemas em estar sozinha. Não que não saiba apreciar a companhia de outras pessoas, sobretudo pessoas de quem gosto. No entanto, se a escolha for entre estar sozinha e estar com pessoas de quem não gosto, vou para a primeira opção.

 

10) Qual é o livro da tua vida?

 

O Harry Potter. De caras.

 

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11) Que histórias gostarias de ver em livro ou filme?

 

Não respondo a essa. Se houver alguma história que eu queira ver em livro ou filme, escrevo-a eu mesma!

 

 

E é isto. Agora, gostaria de nomear a Magda, o Fernando, o Triptofano, a Simple Girl, a Cátia, o P.A., a Happy, a Psicogata, o David, a Mula e a Chic'Ana para responder às seguintes perguntas:

 

1) Quando e porquê decidiste começar um blogue?

2) De onde vem o nome do teu blogue?

3) O que te faz seguir ou deixar de seguir outro/a blogger?

4) Se pudesses, dedicavas mais tempo ao teu blogue ou estás feliz com o teu trabalho actual?

5) Qual é a peça de roupa sem a qual não podes viver?

6) Quais são as três músicas da tua vida e porquê?

7) Que três países gostarias de visitar?

8) Se olhasses para a tua vida há 2 anos atrás, dirias que estavas melhor ou pior do que hoje?

9) Qual foi o último filme que viste no cinema? Que achaste dele?

10) Como imaginas a tua vida daqui a 5 anos?

11) Qual foi a melhor coisa que o(s) teu(s) blogue(s) te deu(deram)?

 

Pokémon através das gerações – Ainda mais geologia, ainda mais trompetes #2

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Segunda parte da análise a ORAS. Primeira parte aqui.

 

O Delta Episode, que decorre depois da Elite 4 (não sei se é correto chamar-lhe post-game, já que os jogos mais recentes têm todos incluído uma secção pós-Elite 4. Não sei se se pode considerar que completámos o jogo sem concluírmos estas partes) é, na minha opinião, ainda mais excitante que a história principal. Tudo começa quando se descobre que existe um meteorito em rota de colisão com Hoenn e, quando regressamos a casa depois da Liga, recebemos a visita de uma jovem misteriosa.

 

Essa jovem, de nome Zinnia, é de longe a melhor personagem nestes jogos, encontrando-se entre as melhores personagens femininas de toda a franquia. Ela, na verdade, tem algumas semelhanças com a protagonista feminina da minha antiga fan fiction – a tal que inspirou a Bia dos meus livros. Foi pura coincidência, pois criei a tal protagonista muito antes de ORAS terem saído.

 

E, admito, Zinnia é melhor personagem.

 

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Zinnia faz parte dos Draconids, uma tribo que venera Rayquaza desde o início dos tempos. Ou pelo menos desde a altura em que Groudon e Kyogre andavam sempre à bulha, nas suas formas primitivas, e Hoenn era constantemente assolada por chuvas de meteoritos. Nessa altura, um dos membros da tribo, o Lorekeeper (que se traduz para algo como “Guardião das Tradições”) usou uma Key Stone para que Rayquaza pudesse Mega Evoluir e cumprir a função que todos lhe conhecemos: dizer ao Groudon e ao Kyogre para estarem quietos e defender o planeta de ameaças exteriores.

 

Consta que esta terá sido a primeira Mega Evolução de sempre.

 

Depois de resolvido o problema de Groudon e Kyogre, o Rayquaza retirou-se para os céus e os Draconid construíram o Sky Pillar. Nessa altura, no entanto, profetizaram que, daí a mil anos, um meteorito entraria em rota de colisão com a Terra (ou qualquer que seja o nome do planeta onde decorrem os jogos Pokémon) e precisariam de novo da ajuda do Rayquaza. Os Draconid comprometeram-se, então, a ir passando a informação de Lorekeeper para Lorekeeper até que chegasse a hora de agir.

 

 

Daí Zinnia, a atual Lorekeeper: uma mulher jovem, acompanhada por um Whismurr a quem chama Aster, com uma personalidade curiosa. Bem-disposta, brincalhona, mas de uma maneira estranha – como se não jogasse com o baralho todo (ou, quanto muito, joga de forma diferente) ou como se estivesse a esconder alguma coisa.

 

As suas primeiras ações no jogo também não inspiram confiança. Depois de a conhecermos, à porta de nossa casa, vai roubar as Key Stones aos nosso rival, a Wally, a Courtney ou Matt e a Maxie ou Archie, consoante a versão. Mais tarde, descobrimos que Zinnia se infiltrara no Team Magma ou Aqua, consoante a versão – tendo sido ela a fornecer-lhes a informação necessária para fazerem Groudon ou Kyogre regredirem às Formas Primitivas. Isto para obrigar Rayquaza a acordar para a vida, travar o Lendário descontrolado e, de caminho, dar-nos uma mãozinha com o meteorito.

 

(Um aparte rápido: já que falamos de Rayquaza travando bulhas entre Groudon e Kyogre, não resisto a partilhar o vídeo abaixo)

  

 

 

Era um plano controverso. Ao contrário de Maxie ou Archie, Zinnia sabe exatamente o que está a fazer, o literal monstro que vai soltar no mundo, os danos que poderia provocar. Quanto tempo demoraria Rayquaza a intervir? Uma hora? Um dia? Uma semana? E se tivéssemos nós mesmos de procurar Rayquaza e pedir-lhe ajuda, como em Emerald? Quantas vidas se perderiam entretanto?

 

Por outro lado, se o meteorito fosse semelhante àquele que provocou a extinção dos dinossauros, morreriam muitos mais Pokémon e humanos se colidisse com o planeta. Percebe-se a lógica.

 

Infelizmente para ela, nós, os protagonistas do jogo, boicotamos o plano de Zinnia ao travarmos o Primal Groudon ou Primal Kyogre. Depois desta, o seu plano B consiste em obter o maior número de Key Stones possível, de modo a conseguir invocar o Rayquaza e fazê-lo Mega Evoluir. Daí os roubos.

 

Desagradável, mas melhor que deixar um titã à solta, na esperança que outro titã venha mandá-lo de volta para o quarto. Sempre é um progresso.

 

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Não que o plano de Steven, do seu pai e do Professor Cozmo seja muito melhor. Essencialmente, vão usar a chamada Energia Infinita – a mesma que serviu de combustível à Arma Suprema – para abrir um portal no espaço e enfiar o meteorito noutra dimensão.

 

Zinnia acaba por lhes boicotar os planos, destruindo-lhes o Link Cable – a engenhoca que abriria o tal portal. Ela justifica-se dizendo que, na tal outra dimensão, poderá existir uma outra Hoenn, muito parecida com a de ORAS, mas onde, se calhar, a Arma Suprema nunca existiu e onde não há Mega Evolução. Ou seja, uma Hoenn sem recursos para lidar com o meteorito. Três mil anos depois da Arma Suprema, a Energia Infinita voltaria a provocar um genocídio.

 

Estas declarações, na verdade, deixaram a comunidade de fãs em polvorosa: porque a Hoenn alternativa que Zinnia descreve se parece muito com a Hoenn dos jogos originais, da terceira geração. Seria isto a confirmação de que Ruby, Sapphire e Emerald decorriam num universo e numa cronologia alternativas às de ORAS?

 

E se isso era verdade… significaria que, quando os jogos são lançados aos pares, cada um deles decorre canonicamente num universo paralelo ao outro – conforme Archie e Maxie dariam a entender, mais tarde, em Omega Ruby e Alpha Sapphire, respetivamente?

 

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Nas semanas que se seguiram ao lançamento dos jogos, apareceram inúmeras teorias na Internet à volta destes conceitos. Não é de surpreender. A ser verdade, mudaria para sempre a maneira como olhamos para os jogos – que muitos pensavam decorrer todos na mesma cronologia.

 

Quase todos concordavam – com o apoio do tweet acima – que os jogos da primeira geração e respetivos remakes decorriam ao mesmo tempo que Ruby, Sapphire e Emerald. Três anos mais tarde, decorriam os jogos da segunda geração e respetivos remakes e os jogos da quarta geração. Assumíamos que os jogos Black&White decorriam alguns anos após os jogos de Hoenn – e sabemos, obviamente, que Black2&White2 se passam dois anos depois. XY, por sua vez, parecia decorrer ao mesmo tempo que Black2&White2.

 

Não se percebe muito bem onde é que ORAS se encaixa nesta cronologia – o tweet em questão foi publicado antes dos jogos. Em teoria, deviam ocorrer ao mesmo tempo que os jogos originais. No entanto, se estes se passam num universo diferente dos respetivos remakes, não dá para ter a certeza de nada.

 

Pessoalmente, acho mais provável que ORAS e XY decorram mais ou menos ao mesmo tempo – visto que, em ambos, a Mega Evolução é apresentada como algo ainda mal conhecido.

 

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Uma das minhas teorias preferidas defende a existência de três universos: um para a primeira e segunda geração, um para a terceira, quarta e quinta geração, um para a sexta. Mais pormenores na imagem acima.

 

Como veremos mais tarde, no entanto, a sétima geração baralha ainda mais o esquema. Falaremos sobre isso na altura.

 

Regressando a Zinnia, esta acabou por ser incluída na especulação. Esta e a misteriosa Aster, cujo nome foi dado à sua Whismurr. O momento em que Zinnia olha para o céu e diz: “I swear I’ll protect you… Aster” intrigou muitos fãs. Houve quem achasse que Aster era uma filha perdida de Zinnia (porque, a certa altura, Zinnia refere-se a Whismurr como sua filha), que talvez tivesse ido parar à tal Hoenn dos jogos originais. Daí Zinnia estar tão empenhada em impedir que enviem um meteorito para essa dimensão.

 

No entanto, quando fui pesquisar para este texto agora, vários anos após ORAS, é que descobri que Aster, aparentemente, era a Lorekeeper antes de Zinnia. É possível que tenha sido a sua mentora e que, depois da sua morte, Zinnia tenha-a homenageado dando o nome dela ao seu Pokémon. Quanto à frase que referi acima, que tanta especulação provocou, terá sido um erro de tradução. Na versão japonesa, a fala será algo como: “I swear I’ll protect the world… Aster”.

 

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Faz mais sentido, realmente.

 

Infelizmente, as coisas não decorrem bem como Zinnia planeara. A jovem consegue convocar Rayquaza, no topo do Sky Pillar, mas não consegue fazê-lo Mega Evoluir. Perante isto, Zinnia tem uma mini-crise. Não é de admirar: a jovem acredita ter nascido para aquele momento, passara a vida inteira a prepará-lo, mas falhava no momento crucial. Mete dó.

 

Mas também, não é culpa dela que Rayquaza não tenha poder suficiente naquele momento.

 

O que vale é que, nesse instante, o meteorito que havíamos encontrado no Mt. Chimney começa a brilhar. Rayquaza engole-o e recupera parte do seu poder – convenientemente. Torna-se claro que nós, protagonistas, somos os verdadeiros destinados a guiar o dragão cor de esmeralda para além dos céus.

 

Estavam à espera de quê? Somos os protagonistas!

 

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Assim, combatemos contra o Rayquaza. Tal como perante Reshiram ou Zekrom, em Black&White, o jogo não prossegue enquanto não capturarmos o dragão cor de esmeralda. Acho que, desta vez, não há mesmo maneira de contornar a coisa.

 

E faz sentido, mais do que em Black&White. Nesses jogos queríamos “apenas” recriar o combate dos irmãos fundadores de Unova. Aqui, Rayquaza é a nossa boleia para salvar o planeta. Se não o capturamos, toda a gente morre.

 

Mesmo assim, depois de capturarmos Rayquaza, Zinnia faz questão de enfrentar-nos em combate, antes de nomear-nos, oficialmente, os próximos Lorekeepers. Aqui entre nós, com o meteorito cada vez mais próximo do planeta, eu dispensava estas formalidades. Mas pronto.

 

Até porque, por um tema de combate como o de Zinnia, vale a pena perder uns minutinhos antes de salvar o mundo.

 

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A parte que se segue é a minha favorita. Lembro-me que, quando ORAS saiu, muitos fãs fizeram questão de não divulgar spoilers sobre o que aconteceria – apenas avisavam para guardar a Master Ball (porque, naquela fase, pensava-se que só teríamos aquela oportunidade). Eu fiz o mesmo com a minha irmã, quando nós mesmas jogámos Alpha Sapphire.

 

E valeu a pena.

 

Depois do combate, vestimos o fato do Team Magma/Aqua, montamos Rayquaza, que Mega Evolui, e seguimos, finalmente, para o espaço. Depois de o dragão destruir o meteorito, entre os detritos surge uma curiosa placa triangular, que move de uma maneira característica, conhecida por pessoas que tenham visitado a Birth Island, nos jogos da terceira geração. Quem não tenha lá estado, também não fica na ignorância durante demasiado tempo.

 

 

 

É o Deoxys.

 

Este é só um dos meus momentos preferidos de toda a franquia, por vários motivos. Os gráficos em 3D e, sobretudo, a música ajudam imenso, para começar. Além disso, faz lembrar um rumor antigo da terceira geração, que dizia que um dia iríamos ao espaço apanhar o Deoxys, no foguetão do Centro Espacial de Mossdeep.

 

Isso acabou por se confirmar, não sei quantas gerações depois. Bem, não exatamente, mas também é muito mais fixe ir até ao espaço nas costas do Mega Rayquaza. Ir num foguetão é demasiado mainstream.

 

Este episódio faz também lembrar o sétimo filme do anime, em que o Rayquaza também combatia contra o Deoxys – ou melhor, um par deles. Faz sentido, aliás, que o dragão nos ajude a resolver o problema do meteorito. Para além daquilo que comentámos acima, acerca das Draconid e dos Lorekeepers, Rayquaza é um representante da atmosfera. E uma das funções da atmosfera é, precisamente, proteger a Terra de meteoritos.

 

Por fim, o facto de termos a oportunidade de capturarmos um Pokémon que, antes, só estava disponível por evento (os malfadados Pokémon Míticos, sobre os quais falámos aqui) dá uns pontinhos extra a este momento.

 

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O Delta Episode termina, assim, com a neutralização do Deoxys – quer por captura ou por derrota. Temos direito a algumas cenas interessantes, como aquela em que Maxie ou Archie reconhecem as suas falhas e agradecem a lealdade de Courtney ou Matt. Bem como a cena em que a avó de Zinnia lhe diz que está livre do fardo de ser Lorekeeper e pode fazer o que quiser com a sua vida.

 

Agora que penso nisso, pergunto-me se a outra ocasião, no passado distante, em que um meteorito entrou em rota de colisão com o planeta, também era um Deoxys. O mais certo é o Rayquaza ter ido sozinho até ao espaço, após o Lorekeeper da altura ter ajudá-lo a Mega Evoluir – a tecnologia da altura não devia ser suficiente para levar um humano até ao espaço. O dragão terá derrotado o Deoxys em questão sem que ninguém, nem mesmo o Lorekeeper e os outros Draconids, desse por isso.

 

Regressando ao presente, Zinnia, liberta do seu dever, decide viajar pelo mundo. Talvez um dia volte a aparecer em jogos futuros de Pokémon.

 

Acho curioso o facto de tanto XY como ORAS terem enredo pós-Elite 4 centrado numa personagem feminina, que tem como mascote um Pokémon de primeiro estágio, fofinho (bem, dependendo do gosto pessoal), com uma alcunha. Não que isso seja uma coisa má, bem pelo contrário – boas histórias e personagens interessantes e bem construídas, sobretudo femininas, nunca são de mais. Em jogos de Pokémon e não só.

 

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A Game Freak acertou em cheio com o Delta Episode – ainda mais do que com a história de Looker e Emma, em XY, uma vez que a história principal dos jogos vai plantando sementes para esse episódio.

 

Depois disto tudo, no post-game temos acesso a uma série de Lendários para apanhar – muitos deles através do Soar e dos anéis do Hoopa.

 

Já que falamos do géniozinho matreiro, devo dizer que a introdução oficial do Hoopa nos jogos me desiludiu um bocadinho. Estamos a falar de um Pokémon de carácter questionável, com a capacidade de abrir portais e convocar Lendários a seu bel-prazer. Estão a dizer-me que ele consegue existir pacificamente no Mundo Pokémon, sem criar confusão? Sem pelo menos interferir com os anéis espalhados por Hoenn?

 

Pode-se argumentar que o Hoopa não pode causar grandes danos dentro da Pokébola de um treinador, mas continuo a achar que é uma oportunidade desperdiçada. É um exemplo dos problemas que tenho com Pokémon Míticos em geral.

 

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Tirando esse aspeto, gosto muito da maneira como os Lendários foram incluídos no jogo. Eu e a minha irmã divertimo-nos imenso tentando descobrir e cumprir os requisitos necessários para desbloquear cada um. Sempre dá umas horas extra de jogo depois do Delta Episode.

 

Outra coisa também incluída no post-game é o Battle Resort… que infelizmente não inclui a Battle Frontier, para desilusão de três quartos da comunidade de fãs, no mínimo. A desculpa que Junichi Masuda deu foi essencialmente a mesma que deram para o facilitismo (acerca do qual falaremos adiante): porque achavam que poucas pessoas se iam interessar em algo tão desafiante.

 

A resposta que tenho para isto é “bullshit!” (não existe uma boa tradução para esta palavra). Talvez isso não aconteça no Japão, mas no Ocidente a Battle Frontier foi sempre uma das partes preferidas de Emerald, entre os fãs. Era uma das coisas que mais desejavam que fosse recriada em ORAS. Estão a dizer-me que os produtores não sabiam isso? Ou de facto não sabiam ou, pura e simplesmente, não quiseram dar-se ao trabalho.

 

Só nos resta esperar que tragam a Battle Frontier de volta num jogo futuro – talvez em eventuais remakes da quarta geração. Não que tenha muitas esperanças…

 

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Tirando esta última parte, talvez já tenham percebido que gosto imenso destes jogos. É verdade. É certo que partiram de jogos antigos que, já de si, eram muito bons – quando é assim, é mais fácil. Mas não se limitaram a fazer copy/paste/paint format, como com FireRed e LeafGreen. Não. Trouxeram Ruby e Sapphire para o nível estabelecido pelos jogos da quinta e sexta geração, não só a nível mecânico e gráfico, também temático.

 

Na verdade, apenas dois motivos impedem estes jogos de figurarem entre os meus preferidos. Um deles é a ausência da Battle Frontier. O outro, e mais importante, é… *suspiro* …o facilitismo descarado.

 

Já falei sobre o Exp. Share, que regressa em ORAS, no texto sobre X&Y. A introdução do tipo Fada, além disso, facilita bastante certos momentos do jogo, como, por exemplo, o segundo ginásio.

 

Mesmo sem contar com estes dois aspetos, no entanto, parece que os criadores fizeram tudo o que podiam para reduzir ao mínimo qualquer possibilidade de frustração.

 

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Um exemplo ocorre logo após vencermos Norman, em Petalburg. Nos jogos originais, nessa altura, tínhamos de percorrer uma série de caminhos aquáticos, por onde antes tínhamos passado de barco, de volta a Mauville. Eu gostava dessa parte – pode ser um bocadinho entediante, mas dava-me jeito ter uma data de treinadores com quem poderia ganhar dinheiro e experiência. E ainda tínhamos um navio naufragado para explorar.

 

Em ORAS, no entanto, oferecem a hipótese de saltarmos essa parte do caminho. Podemos dizer que não, claro, mas (*voz de velha rabugenta*) no meu tempo não haviam estes colinhos todos. Íamos pelo próprio pé e era se queríamos completar o jogo.

 

(*voz normal*) Se estes fossem remakes dos jogos de Sinnoh, onde, conforme assinalaram muito bem aqui, o percurso é uma confusão, passamos a vida a voltar para trás, por caminhos já percorridos inúmeras vezes, ainda se aceitava (e acho que vão fazer algo do género nos inveitáveis remakes porque, sinceramente, o mapa de Sinnoh é uma coisa parva). Mas para este, não havia necessidade, na minha opinião.

 

Se o mesmo se pode dizer em relação ao próximo aspeto é discutível. Quando Steven nos ensina acerca das Mega Evoluções, o jogo oferece-nos Latias ou Latios, dependendo da versão. Assim, sem mais nem menos, sem precisarmos sequer de combatê-lo – quando, nos jogos originais, os Latis eram bastante difíceis de apanhar, já que eram daqueles que vagueavam pela região.

 

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Se isto não é fazer-nos a papinha toda, não sei o que será. Eu sei que os Latis são necessários para a parte do Soar, que eu elogiei antes. Mas podiam, ao menos, terem feito o mesmo que fariam com o Rayquaza, no Delta Episode.

 

O próprio Rayquaza é mais fácil de obter nestes jogos. Para além de ter uma probabilidade mais elevada de captura, como vimos antes, o Sky Pillar já não tem o chão a abater, como nos jogos originais (e que tantas dores de cabeça me deram, na altura…). Mas, lá está, o Rayquaza é importante para a história, logo, esta aceita-se.

 

O facilitismo é mesmo o maior problema desta geração. No entanto, incomoda-me mais em ORAS do que em X&Y. Para além de ORAS serem melhores jogos, de uma maneira geral  (o defeito nota-se mais), têm Ruby, Sapphire e Emerald (que não eram assim tão fáceis) como termo de comparação. Jogos como estes, com uma boa história, uma região linda, mecânicas como o “Soar” e o DexNav (uma das coisas que me ajudaram a completar a Pokédex pela primeira vez em quinze anos) merecia mais do que dar colinho aos jogadores durante toda a jornada.

 

De acordo com Junichi Masuda, o facilitismo nesta geração foi intencional. Segundo o produtor, hoje em dia os jogos Pokémon têm de competir com smartphones e tablets, que dão acesso a uma infinidade de jogos gratuitos – quando, há vinte anos, o Game Boy era a melhor fonte de entretenimento portátil ao nosso dispôr.

 

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Eu, infelizmente, não sou capaz de argumentar contra isso. Se, por um lado, uma coisa é jogar Pokémon, outra coisa é jogar Candy Crush, um smartphone tem uma infinidade de funções, para além de servir de plataforma de jogos. Eu tenho uma Nintendo 2DS, mas esta tem de ser carregada à parte, ocupa espaço na minha mala. Não vou andar com ela atrás, no dia-a-dia, quando o meu smartphone me dá inúmeras opções para preencher tempos mortos.

 

É um dos motivos pelos quais quero adiar ao máximo a compra de uma Nintendo Switch. Gastaria o dobro do que gastei para comprar o meu telemóvel e só serviria para jogar Pokémon Let’s Go (e ainda não sei se quero comprar esse jogo) e os eventuais jogos da oitava geração – e de longe a longe.

 

Além disso, sinto-me hipócrita – porque, quando na sétima geração aumentaram o nível de dificuldade, eu vi-me à rasca e, a certa altura, cheguei a fazer “batota”. Eu explico melhor, quando escrever sobre esses jogos, mas de facto tenho pouca autoridade para criticar os produtores neste aspeto.

 

Não vou criticar mais, portanto. ORAS não deixam de ser bons jogos por causa do facilitismo – mas acho que Heart Gold e Soul Silver continuam a ser os melhores remakes até ao momento.

 

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Chegou, então, a altura de falarmos sobre a banda sonora. Tal como referido nos títulos destes textos, Hoenn sempre foi famosa pelas trompetes e os remakes levaram isso em conta. Regra geral, as novas versões fazem justiça às originais, levaram-nas a um nível superior.

 

Existem apenas dois temas nos quais prefiro as versões da terceira geração. Um deles é o tema de combate da Elite 4, só mesmo porque tiraram as palmas.

 

O outro é o tema de combate do Primal Groudon e Primal Kyogre. Se bem se recordam, este era a minha música preferida dos jogos originais. Isso não acontece com os remakes. A versão de ORAS também é boa, mas os instrumentos que davam o carácter à versão original – os “sinos”, os tambores, as trompetes – perdem-se na produção grandiosa. A versão de Ruby,Sapphire e Emerald era mais minimalista, mas isso permitia que cada instrumento tivesse impacto.

 

A versão para o Rayquaza é um bocadinho diferente e, na minha opinião, está melhor conseguida, precisamente porque os instrumentos se ouvem melhor. Mesmo assim, continuo a preferir a versão original da música.

 

 

Um tema que melhorou significativamente da terceira geração para a sexta foi o de combate com Archie ou Maxie. O original não era mau, mas era um pouco monótono – guiado por uma corneta que não variava muito. A versão dos remakes começa de maneira semelhante, só com uma corneta, mas depois, aos treze/catorze segundos, explode com um coro de trompetes, tornando tudo muito mais grandioso.

 

O tema de combate de Deoxys não difere por aí além em relação ao original mas, como associo ao meu momento preferido do jogo, torna-se ainda mais épico aos meus ouvidos.

 

Um tema que tem subido na minha apreciação nos últimos tempos – depois de o ter partilhado no grupo da Comunidade Portuguesa de Pokémon durante a onda de calor do início de agosto – é o tema “Drought”, que toca em Omega Ruby depois de Groudon se passar e ele mesmo trazer uma onda de calor a Hoenn. Em termos de “creepy”/sinistro, rivaliza com o tema de Lavender Town. Eu, no entanto, acho-o um bocadinho monótono. Mesmo assim, continua a ser melhor, mais intenso e assustador, que o tema equivalente de Alpha Sapphire, para o dilúvio provocado por Kyogre.

 

Os temas inéditos (isto é, criados de raiz para os remakes) não destoam do resto da banda sonora em termos de qualidade – pelo contrário, vários deles encontram-se entre os melhores de todo o jogo.

 

 

Começando pelos temas do Soar. O tema de dia é adequadamente eufórico, triunfante. Gosto um bocadinho mais do tema noturno, no entanto – que possui a mesma melodia mas é bem mais sereno e pacífico, conduzido pelo piano.

 

Uma coisa em que nunca consegui deixar de reparar, desde o início, é que há uma parte da melodia destas músicas que me soa parecidíssima com uma parte de Young Girls, de Bruno Mars – a melodia dos versos “All these roads steer me wrong, but I still drive them all night long”. Sou a única a notar?

 

Existem outros temas ao piano, semelhantes aos de N nos jogos da quinta geração – o meu preferido é o que toca no fim do Delta Episode. Por outro lado, a música que toca quando montamos no Rayquaza é curtinha, mas muito gira – muito centrada em guitarra elétrica.

 

O que nos leva, aliás, ao tema de combate do Wally, de que já falei acima, também todo ele guitarra elétrica. Acho piada ao facto de o tema que toca quando o encontramos possuir a mesma melodia, mas possuir um carácter completamente diferente, mais parecido com os temas típicos dos rivais amigáveis.

 

É algo que acontece muito em ORAS – temas de encontro e temas de combate com melodias semelhantes. Outro exemplo é o tema de Zinnia. Desta feita, o carácter de ambas as músicas é assim tão díspar – o de encontro é apenas uma versão mais serena e casual do de combate. Em todo o caso, são dois temas lindíssimos, os meus preferidos nestes jogos.

 

 

Adoro o uso que deram aos violinos e acordeões – fazem a música parecer saída de X&Y, dando-lhes um carácter francês. A melodia do tema de combate, por outro lado, passa por uma autêntica montanha-russa de emoções, enquanto o acompanhamento faz lembrar a banda sonora do Super Mario Galaxy. Não me canso de elogiar estas músicas, sobretudo a de combate. São verdadeiramente espetaculares.

 

E com isto terminamos a nossa análise à sexta geração – finalmente. No próximo texto desta rubrica não vamos falar sobre a sétima, no entanto. Primeiro falaremos sobre Pokémon Go – para mantermos uma ordem cronológica.

 

Está mais do que provado que não dá para encarar os planos que vou fazendo para este blogue como promessas, escritas em pedra, pois não tenho conseguido cumprir metade deles. No entanto, já tenho algumas notas para o texto sobre Pokémon Go, logo, devo conseguir publicá-lo a médio/longo prazo (sendo que “médio/longo prazo”, neste blogue, significa, “no próximo ano”).

 

Hei de falar um bocadinho melhor sobre os meus planos para este blogue numa publicação futura mas, por agora, dizer apenas que a Avril Lavigne vai lançar Head Above Water, o primeiro single do seu sexto álbum, daqui a dez dias. Vou ter imenso a escrever sobre isso (uma boa parte já o tenho agora, ainda a música não saiu), por isso, podem contar um um texto de Músicas Não Tão Ao Calhas.

 

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Por outro lado, já que falamos sobre Pokémon, participei em dois podcasts da Comunidade Portuguesa de Pokémon nas últimas semanas (aqui e aqui). Se a minha vozinha irritante não vos incomodar, deem uma espreitadela e estejam atentos que, em princípio, devo participar em mais. Por sinal, um dos próximos temas será, precisamente, Hoenn, o que vem mesmo a calhar depois deste testamento. 

 

Encerramos a sexta geração, como é habitual, com...

 

Pokémon preferidos:

 

  • Os iniciais:

 

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Os starters de Kalos são, até agora, os únicos em que gosto dos três de modo mais ou menos igual (em todas as outras gerações, existe sempre um inicial que se destaca dos outros, pela positiva ou pela negativa).

 

Gosto deles tanto individualmente como enquanto conjunto. Os três estão todos muito bem desenhados e o seu conceito é interessante – inspirado nos trios Guerreiro-Feiticeiro-Ladrão, que costumam aparecer em histórias ou videojogos inspirados em fantasia medieval. Consta que foi intencional, para se encaixar no tema europeu de X&Y.

 

O Chestnaught é o guerreiro. Para além do que escrevi acima, gosto das suas animações. Confesso, no entanto, que me afeiçoei a ele sobretudo depois de ter usado um em X, o Bruno Alves. É o meu bad boy!

 

O Delphox é um mago. Admito que teria preferido se tivesse traços mais femininos, se fosse mais bruxa que mago (embora o seu desenho seja suficientemente ambíguo para dar para os dois lados). Mas continuo a gostar do desenho e das animações – em particular da sua varinha.

 

Por fim, temos o Greninja. Toda a gente gosta do Greninja e não faltam motivos para isso (principalmente o facto de ser bom em termos competitivos). Eu gosto do desenho, é muito fixe, mas confesso que gosto ainda mais da versão shiny – negro, com língua cor de sangue, um dos melhores shinies de sempre. Mais uma vez, as animações ajudam: a maneira elegante como o Greninja se põe de pé, durante os ataques.

 

Ainda só tive oportunidade de usar o Chestnaught, mas tenciono usar os outros dois, mais cedo ou mais tarde. Em todo o caso, parabéns à Game Freak por ter criado Pokémon de que gosto tanto, mesmo sem nunca os ter incluído na minha equipa!

 

  •  Talonflame

 

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Já expliquei uma grande parte dos motivos pelos quais gosto imenso do Talonflame, no meu texto sobre X&Y. além disso, sempre gostei e aves de rapina e de pássaros de fogo, tal como referi em inúmeras ocasiões, nomeadamente quando falei sobre o Ho-oh…

 

Aliás, agora que penso nisso, três dos meus Pokémon de fogo preferidos são parecidos com as digievoluções da Byomon, no universo de Adventure pelo menos. Talonflame é parecido com o Birdramon. O Blaziken é parecido com o Garudamon. O Ho-oh é parecido com a Phoenixmon. Não acho que seja coincidência.

 

De qualquer forma, diverti-me imenso com o Renato S., o Talonflame que usei em X… mas não tanto com o que usei em Sun, confesso. Num jogo mais difícil que X, as suas fracas defesas atrapalham mais.

 

Enfim. Não deixa de ter um visual fixe.

 

Pokémon de que menos gosto

 

  • Diggersby

 

No geral, a Pokédex de Kalos não é má. Talvez por ser reduzida – houve menos oportunidades para desagradar. O único de que não gosto mesmo é daqui do Diggersby. A sua pré-evolução, Bunnelby, é engraçadinha, mas o Diggersby é francamente feio. É um homem (ou melhor, um coelho) barrigudo! Podiam ter feito uma coisa gira com um Pokémon coelho – uma versão Pokémon do Bugs Bunny, por exemplo, ou do Coelho da Páscoa. Agora isto…

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