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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Digimon Tamers #10 – As segundas linhas, o Gary Stu e a mascote

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Nesta parte da análise vamos, então, analisar personagens do lado dos bons que, na minha opinião, não justificam uma publicação individual dedicada a eles. Começando por Hirokazu e Kenta, duas adições tardias à equipa dos Treinadores.

 

Mesmo só se juntando oficialmente ao grupo na segunda metade da narrativa, Hirokazu e Kenta estão lá desde o início. São, ao que parece, os dois melhores amigos de Takato e partilham com ele a paixão por Digimon enquanto franquia. Dos três, aliás, Hirokazu parece ser o melhor no jogo de cartas – pelo menos, vêmo-lo sempre ganhando, quando joga contra Kenta. 

 

Os dois funcionam com um muito bem-vindo alívio cómico, numa temporada tão sombria como esta. No entanto, na minha opinião, não é essa a melhor utilidade deles. Conforme referi antes, os protagonistas, sobretudo Takato, possuem um grupo de apoio de crianças da sua idade. Hirokazu e Kenta acabam por funcionar como representantes desse grupo. Estão lá para apoiar. Não são a primeira linha de ataque, mas em momentos-chave fazem a diferença. 

 

Falemos de cada um individualmente. Hirokazu usa uma t-shirt estampada com um símbolo que faz lembrar o Cartão da Lealdade/Confiabilidade do universo de Adventure – e de facto acho que este seria adequado para Hirokazu. 

 

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Para começar, o jovem obteve o seu Digimon ficando para trás, a cuidar dos seus ferimentos. Como referi acima, é leal aos seus amigos, está lá para ajudar no que pode. É certo que ele e Kenta cometeram um par de asneiras que deixaram Ruki à beira de um ataque de nervos. No entanto, em momentos de aperto, foi fundamental. Nomeadamente, quando ele mesmo desenhou uma Carta Azul, para ser usada por Takato, Ruki e Jian, e quando um ataque de Guardromon na altura certa, distrai Beelzebumon, salvando a vida a Dukemon. 

 

O jovem demonstra mesmo um altruísmo raro para a idade quando se oferece para ficar a tomar conta de Shaochung, enquanto o trio de protagonistas, juntamente com Lopmon, tenta penetrar no castelo do Zhuqiaomon. Isto sem deixar de admitir que até queria ir com eles.

 

Quantas crianças de dez anos são capazes disso? De pôr de parte os seus desejos em nome do bem comum?

 

Por outro lado, por muito boas que fossem as intenções de Hirokazu, na prática pouca diferença fez. O jovem instruíra o Guardromon para “ficar de olho” em Shaochung. A menina, no entanto, acaba por ser transportada pelo ar até ao castelo do Zhuqiaomon (mais sobre isso adiante). Quando Hirokazu ralha com o seu Digimon por não ter feito nada, Guardromon defende-se dizendo que fez exatamente o que o Treinador lhe pedira: não tirara os olhos de Shaochung.

 

‘Tadinho...

 

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Hirokazu no fundo desempenha um papel semelhante ao de Joe em Adventure. Não pertence à primeira linha de combate, atua mais na retaguarda, como apoio, como cuidador – uma contribuição mais discreta para a causa, mas não menos importante. É interessante reparar que Joe demorou quase toda a temporada original de Adventure a conformar-se com esse papel, mas Hirokazu assume-o praticamente desde que descobriu que os Digimon eram verdadeiros.

 

Na minha opinião, merecia mais crédito. 

 

Kenta cumpre um papel semelhante, se bem que contribua um bocadinho menos. É o último a arranjar um Digimon – Shaochung, que vem para o Mundo Digital depois dele, recebe o seu primeiro; Juri recebe, perde o seu e é substituída pela Juri-Type antes de MarinAngemon se juntar oficialmente à equipa. A sagração, aliás, dá-se mesmo à última hora, literalmente durante a viagem de regresso ao Mundo Real. 

 

O MarinAngemon tinha aparecido aquando da Digievolução Brilhante catalisada pelo Culumon e brincara um bocadinho com Kenta. Mais tarde, já na Arca de regresso, o pequenote surge literalmente no bolso do miúdo, juntamente com o seu recém-criado D-arco.

 

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À primeira vista, ninguém suspeitaria que aquela coisinha adorável é de nível Extremo. Mal passaria por Infantil, quanto mais Extremo! Em teoria, um Digimon que se consegue manter no nível Extremo em repouso daria a Kenta uma enorme vantagem em relação aos colegas – o safadinho nem sequer precisava de se fundir com o seu Digimon! Na prática, o MarinAngemon não gosta de lutar, prefere recorrer a ataques não-violentos – e Kenta não parece ver problemas nisso.

 

Pergunto-me se o objetivo de atribuir este Digimon a um dos miúdos era dar outra perspetiva a um dos principais conflitos em Tamers: o MarinAngemon como exemplo de um Digimon sem instintos violentos. É possível que fosse essa a ideia inicial mas que não tenha havido tempo para executá-la. É pena. 

 

Em todo o caso, MarinAngemon tem direito ao seu momento de glória com a intervenção que salva Takato das garras da Juri Type. Mais uma vez, uma ajuda muito bem-vinda, que poderá ter evitado que Takato se juntasse a Juri como refém do D-Reaper. Nos últimos episódios também foi capaz de criar uma bolha de proteção no interior do D-Reaper, permitindo que Juri fosse finalmente resgatada.

 

Em suma, não sendo as minhas personagens preferidas, longe disso, gosto bastante de Hirokazu e Kenta. Mais do que a maior das pessoas, calculo.

 

Falemos então sobre Ryo, uma personagem que, segundo consta, chegou a Tamers ainda antes de Konaka. Antes de aparecer neste universo, Ryo era o protagonista dos videojogos WonderSwann, que só foram lançados no Japão. Estes decorrem no universo de Adventure (pelo menos os primeiros, penso eu). No entanto, visto estarem a ter um tremendo sucesso em terras nipónicas, os produtores decidiram que Ryo teria de aparecer em Tamers – mesmo que tal criasse uma série de inconsistências, sobretudo para quem não estivesse familiarizado com os jogos.

 

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Podem ler aqui um resumo da história dos jogos. Como poderão ler, estes cruzam os universos de Adventure e de Tamers e não se encaixa muito bem na narrativa da série de anime: nomeadamente o facto de Ryo, aparentemente, ter nascido no universo de Adventure mas ter um pai no universo de Tamers. Para evitar ficar com o cérebro em nós, prefiro esquecer que os jogos existem e considerar apenas o que decorre nesta série. 

 

Assim, Ryo era o antigo campeão do jogo de cartas, o único a derrotar Ruki (embora ninguém tenha tido a delicadeza de nos informar antes, ou de pelo menos deixar pistas). Um ano antes dos eventos de Tamers, tornara-se Treinador do Cyberdramon e emigrara para o Mundo Digital.

 

Conforme referi antes, Ryo e Cyberdramon oferecem um exemplo de Treinador-e-Digimon em que o primeiro está mais próximo da definição de domador que qualquer outra personagem. Tirando isso… eu sinceramente dispensava-o.

 

A história trata-o como um Gary Stu (a versão masculina de uma Mary Sue), o que não surpreende tendo em conta os motivos pelos quais ele aparece em Tamers. A história pinta-o como o Lendário Digitreinador, o melhor Treinador de todos os tempos. No entanto, tirando o seu companheiro Digimon particularmente violento e a sua maior experiência com o Mundo Digital, Ryo é um daqueles casos em que é o melhor porque tem acesso a cartas raras, que nenhum dos outros tem. Além de que consegue desbloquear o nível Extremo, com fusão com o seu Digimon e tudo, mas não o vemos e não sabemos quando ocorreu ao certo, nem como nem porquê. 

 

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Depois temos a parte de ser um potencial interesse amoroso para Ruki… o que me irrita um bocadinho. Não porque ache que não são compatíveis, porque até acho – tirando os quatro anos de diferença nas idades (eles que esperem até Ruki ter dezoito anos antes de as coisas se tornarem demasiado sérias). Mais porque não havia necessidade. Tamers já tem Juri com um papel proeminente como interesse amoroso de Takato. A outra protagonista feminina também precisava de um potencial apaixonado? 

 

Por fim, o final de Tamers introduz uma complicação que fica por resolver: o Cyberdramon fica sem Ryo. É possível que, nesta altura, esteja menos violento, mas quanto tempo aguentará antes de reverter para os hábitos antigos? O que acontecerá quando Cyberdramon começar de novo à procura de adversários, sem Ryo para o refrear, num Mundo Digimon em cacos após a destruição causada pelo D-Reaper? 

 

Ryo acaba por ser, infelizmente, o elo mais fraco do elenco de Tamers. Podia ter sido um bocadinho melhor escrito ou então excluído por completo. Enfim, nada que estrague demasiado Tamers. 

 

Falta, então, falar sobre Shaochung, a irmãzinha de Jian (bem, tecnicamente ainda sobram Ai e Makoto, mas eles ficam para o próximo texto). Quando escrevemos sobre o jovem, referimos que, durante muito tempo, a menina trata Terriermon como um peluche, sem suspeitar que é um Digimon verdadeiro. 

 

Se me permitem o aparte, uma dúvida: os Digimon em Tamers têm sinais vitais visíveis? Estou a pensar se Shaochung não deveria ter reparado que o seu peluche tinha batimento cardíaco, que ele respirava. Talvez os Digimon não apresentem esses sinais – ou talvez Shaochung seja demasiado nova para reconhecê-los. 

 

 

Enfim, passemos à frente. 

 

Nem sempre é divertido para Terriermon ser o brinquedo de Shaochung – suponho que não o seja para qualquer brinquedo de criança daquela idade (vide Toy Story 3) – mas este acaba por se afeiçoar à irmãzinha do seu Treinador. Acho mesmo que Terriermon gosta tanto de Shaochung como do irmão dela – da mesma forma, mesmo depois de a menina arranjar um companheiro Digimon para si, Terriermon não fica para trás no seu coração.  

 

Quando o elenco se prepara para a viagem ao Mundo Digital, ele e Jian contam a verdade a Shaochung – que é suficientemente nova para aceitar que o seu boneco preferido sempre esteve vivo. 

 

Como referimos antes, aliás, são as saudades de Terriermon que fazem com que os Digignomos tragam Shaochung para o Mundo Digital. Devo dizer que achei as cenas de Shaochung sozinha, no Mundo Digimon, muito stressantes: uma menina de sete anos, sozinha, desprotegida, num mundo recheado de criaturas com instintos violentos, algumas delas com instruções claras para matar humanos. 

 

Foi uma sorte Shaochung ter encontrado Antylamon, um membro dos Deva, e este ter engraçado com ela o suficiente para trair o seu grupo e protegê-la do Makuramon. É assim que adota Shaochung como sua Treinadora. Como castigo por se ter aliado aos humanos, Antylamon regride ao seu nível Infantil, Lopmon, que é essencialmente o Terriermon versão Shiny (coincidência? Ninguém acredita).

 

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Como vimos antes, o irmão de início opõe-se a que Shaochung se torne Treinadora e adote Lopmon (e de facto, o Digimon demora algum tempo a perder os instintos de Deva). O que só torna as coisas ainda mais difíceis para a menina que, ao contrário de Takeru e Hikari em Adventure, reage às coisas da maneira normal para a idade dela. 

 

Chorando que nem uma desalmada.

 

E sinceramente? A primeira experiência de Shaochung no Mundo Digital, logo depois de receber Lopmon, é o combate com Beelzebumon. Até eu choraria que nem uma desalmada naquelas circunstâncias!

 

Depois de derrotado Beelzebumon, a jogada seguinte é invadir o castelo de Zhuqiamon, onde os Treinadores pensam que o Culumon está aprisionado. Como Lopmon conhece o castelo, já que servira como guarda do mesmo enquanto Deva, o Digimon é presença obrigatória no grupo de invasão. Quando Jian ordena à irmã que fique para trás, ela chora – outra vez.

 

Ora, é certo que há muito de birra de criança nos protestos de Shaochung, na sua determinação em ir com o irmão e com Lopmon, mas acho que ninguém quereria ficar para trás enquanto o seu companheiro Digimon vai para uma situação perigosa. Sobretudo tão pouco tempo depois da perda de Leomon. 

 

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Da mesma forma, Jian exagera na rispidez, mas lá está, não está errado em considerar que a situação é demasiado perigosa para a irmã.

 

A discussão acaba por não fazer grande diferença, pois Shaochung é transportada para o castelo assim que percebe que Lopmon corre perigo. O facto de a menina ser capaz de usar o seu D-arco para ver através dos olhos do seu Digimon é altamente conveniente. A presença de Shaochung no terreno de batalha acaba por servir de motivação extra para Jian e, sobretudo, Terriermon desbloquearem o MegaloGrowmon.

 

Shaochung e Lopmon fazem um par engraçado. Por um lado, temos uma típica menina de seis anos, alegre, relativamente despreocupada. Do outro, temos um Digimon com a maturidade bem superior à de uma criança, falando com o tom formal de quem passou muito tempo – talvez a vida toda – a servir figuras divinas. Na minha opinião, o par funciona e é interessante.

 

A inocência de Shaochung permite-lhe sobreviver à guerra com o D-Reaper sem grandes traumas. Isso e o facto de não estar no terreno tantas vezes como os outros Treinadores, devido à sua idade. Uma vez mais, a menina vale-se da visão de Antylamon via D-arco para contribuir para a luta – é assim que descobre, por exemplo, que Beelzebumon e Culumon se tinham infiltrado no interior o D-Reaper.

 

Mesmo sem a sua Treinadora por perto, Antylamon ajuda os outros Digimon nos combates contra o D-Reaper. Ryo a certa altura oferece uma carta a Shaochung, em recompensa pela sua ajuda, e quando a menina a usa, a sua sequência de Carta Escolhida é pura e simplesmente adorável! 

 

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É uma pena ela e Antylamon terem ficado de fora da batalha final contra o D-Reaper. De qualquer forma, Shaochung merece crédito pois a sua atitude alegre e inocente dá alguma leveza a uma temporada tão sombria como esta.

 

Ainda assim, o maior contribuinte nesse capítulo não é ela, é Culumon. O Digimon que serve de mascote a Tamers e que me roubou o coração desde o primeiro minuto. Durante muitos anos, o Togepi foi a criatura mais fofa que alguma vez vi em animação. Mas a verdade é que não tem olhos grandes, orelhas que se encolhem e esticam  não termina a suas frases com “culu” (ou “calu”, na dobragem portuguesa). 

 

Durante o episódio em que Takato anda à procura de um Treinador para ele, eu só dizia: 

 

– Escolhe-me a mim! Escolhe-me a mim! Eu tomo bem conta do Culumon! Jogo futebol com ele e tudo!

 

Mas a verdade é que o Culumon nunca adota ninguém como Treinador. Acaba por ser o companheiro Digimon de toda a gente e de ninguém em particular. 

 

 

Isto porque Culumon não é um Digimon como os outros – há quem não o considere um Digimon sequer. Nunca o vemos a lutar, mas está sempre lá quando ocorrem digievoluções (bem, quase sempre). Takato é o primeiro a somar dois e dois – mas quando o faz, já o Makuramon lhe tinha deitado as mãos e levado-o para o Mundo Digital.

 

Culumon é o catalisador da digievolução no universo de Tamers. É a luz da digievolução feita carne pelo Qinglongmon, uma das Bestas Sagradas. Este permite que Culumon fuja para o Mundo Real, para que escape às garras do D-Reaper, evitando que este o use para acelerar o seu crescimento… e no entanto Zhuqiaomon, outra das Bestas Sagradas, envia agentes ao Mundo Real para raptar Culumon. A ideia é que o pequenote use os seus poderes para ajudar vários Digimon a digievoluírem, para poderem enfrentar o D-Reaper.

 

Confusos? Eu também. Havemos de regressar a esse assunto noutro texto desta análise.

 

Tal como Shaochung, mesmo perante todos os eventos de Tamers, mesmo depois de raptado, Culumon nunca perde os seus modos inocentes e amigáveis. E o pequenote é irresistível para qualquer um – é um dos que ajuda Ruki a abrir o seu coração, torna-se BFF de Guilmon, Terriermon, aguenta o bullying de Impmon e até o diabrete acaba por se tornar amigo dele. Sobretudo quando emparceiram no resgate a Juri.

 

Aliás, o maior contributo de Culumon para a luta contra o D-Reaper foi ter ficado ao lado de Juri e, como vimos no texto anterior, ter-lhe salvo a vida.

 

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Eu na verdade fico surpreendida por tão pouca gente falar do Culumon quando se fala sobre Tamers. O pequenote é subvalorizado, na minha opinião.

 

No próximo texto, por outro lado, vamos falar sobre uma personagem que definitivamente não é subvalorizada. Pelo contrário, é capaz de ser a melhor personagem de Tamers (se não for de todo Digimon enquanto franquia). Fiquem por aí...

Digimon Tamers #9 – A Hikari é uma menina ao lado disto...

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Conforme referi antes, em Tamers existem várias crianças com companheiros Digimon na história, vários Treinadores. Apenas três são considerados protagonistas – Takato, Jianliang e Ruki – são os protagonistas. No entanto, a partir da segunda metade de Tamers, em particular nas duas últimas partes do Enredo, pode-se considerar que Juri ganha o estatuto de protagonista  – pela maneira como a jovem se encontra, quase literalmente, no centro de tudo o que acontece. 

 

Segundo o site de Konaka, o papel que Juri desempenha na segunda parte de Tamers só foi decidido precisamente quando estavam a escrever o vigésimo-quarto episódio  – aquele em que o elenco se prepara para ir ao Mundo Digital. A história familiar da jovem, no entanto, ficou decidida desde o início.

 

Bem, mais ou menos. De acordo com o site, a ideia inicial era de que os pais de Juri trabalhassem em prostituição. A jovem seria obrigada a ficar em casa a tomar conta da irmã mais nova. (Um momento de silêncio pelas infâncias que posso ter acabado de destruir.)

 

Não que a versão final da sua história de origem seja muito melhor, verdade seja dita. Juri perdeu a mãe quando ainda era muito nova. Não é muito claro que idade tinha ela ao certo, mas era suficiente para se recordar, ou pelo menos para ter pesadelos sobre isso, mais tarde. 

 

O pai tentou criá-la o melhor que pôde, sozinho, sem grande sucesso. Infelizmente, era de esperar. Numa sociedade tão patriarcal como a japonesa, pouquíssimos homens estariam (estão?) preparados para tomar conta de crianças. Já ouvi falar de um caso parecido, nos anos 50 e 60: um senhor que enviuvou de repente, quando a filha tinha apenas um ano. A criança acabou por ser confiada a uma tia.

 

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O pai de Juri não chegou a esse ponto, mas é possível que tenha casado em segundas núpcias com uma mulher mais nova precisamente para servir de segunda mãe para a filha. Pelo meio, terá decidido que um estilo de educação autoritário era o mais adequado. Com tudo isto, Juri acabou por se afastar emocionalmente do pai. A jovem também revela, a certa altura, que nunca aceitou a madrasta, mesmo reconhecendo que ela era boa pessoa. 

 

Ou seja, Juri não possui nenhuma relação próxima com nenhuma figura parental. Mais: tirando possivelmente o seu irmãozinho, Juri não possui uma relação próxima com ninguém da sua família. É ainda obrigada a trabalhar no restaurante do pai (mais sobre isso adiante). 

 

Juri possui, assim, uma vida familiar difícil, tal como Ruki. Pior ainda. No entanto, reage da maneira completamente oposta. Juri é uma criança alegre, simpática, extrovertida, sempre com um cão de fantoche – sobretudo para divertir o irmãozinho, mas que raramente deixa a sua mão. Enquanto Ruki usava os seus problemas familiares como armadura, Juri enterra-os bem fundo. Ninguém adivinharia – e durante muito tempo ninguém adivinhou – que aquele exterior feliz e bem disposto mascarava uma profunda solidão e baixa auto-estima.

 

É outra maneira de ser impermeável, se formos a ver. Qual das duas atitudes será a melhor, a de Ruki ou a de Juri? Não sei dizer. Sentir-me-ia tentada a dizer que a atitude de Ruki é a melhor, pois não culminou com a jovem possuída pelo D-Reaper, mas seria simplificar demasiado a questão. Até porque, lá está, a Ruki saiu-lhe menos na rifa e Renamon não foi assassinada. 

 

Mas recuemos um pouco. Conforme referido antes, no início Juri é alegre e simpática. Dá-se bem com Takato, embora goze com ele pela sua paixão por Digimon. Conforme referido antes, o jovem tem um fraquinho por ela. Não é claro que Juri o saiba, preto no branco, mas há uma ocasião em que a menina tira partido disso: quando lhe faz aquilo a que gosto de chamar “olhinhos de Jane” para convencê-lo a apresentar-lhe Guilmon.

 

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Esta vai ser fresca quando crescer... 

 

Talvez seja de assinalar que, até ao momento, Takato assumira que Juri teria medo de Digimon (Culumon inclusive, o que é um disparate, quem tem medo de uma coisinha daquelas…?). Enganara-s redondamente, pois Juri adora Guilmon, desde o primeiro minuto em que o vê. Embora ao Takato, um miúdo fixe, com gostos indubitavelmente masculinos, não ache muita piada ao facto de o companheiro Digimon que ele mesmo desenhou estar a ser descrito como “kawaii”...

 

Depois de algumas ocasiões em que brinca com Guilmon – juntamente com Takato, Hirokazu, Kenta e outros colegas da turma deles – Juri decide, quase do dia para a noite, comprar um baralho inteiro de cartas de Digimon e aprender a jogar. Isto apesar de, no início de Tamers, ter troçado das mesmas pessoas a quem, agora, pedia que lhe ensinassem acerca daquele mundo.

 

No mesmo episódio, Juri começa a procurar obsessivamente um companheiro Digimon. Tenta a sua sorte com Culumon, primeiro, mas o seu verdadeiro alvo é um Leomon acabado de se realizar.

 

Será isto uma cena do Leomon, ter criaturinhas fofas… bem… seduzindo-o para uma inevitável morte? Em Tamers foi Juri, em Tri foi Meicoomon… Bem, todas as aparições de Leomon acabam com ele morto, de qualquer forma, segundo consta.

 

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À primeira vista, tem piada ver um Digimon grande, imponente como o Leomon perseguido por uma menina. A alcunha que Juri lhe dá na dobragem portuguesa, “meu príncipe Leomon” torna tudo ainda mais hilariante. À segunda vista… bem, continua a ter piada, mas também é um bocadinho triste. 

 

No entanto, é triste de todas as vezes quando, no fim do episódio, Leomon não se torna seu parceiro. Juri fica destroçada, além de qualquer consolo, mais do que seria de esperar.

 

Se isto não é um indício trágico, não sei o que mais será.

 

Felizmente (ou infelizmente, dependendo da perspetiva), um par de episódios mais tarde, Juri adota finalmente Leomon como companheiro Digimon oficial – no mesmo episódio em que Makuramon deita as mãos a Culumon, levando-o para o Mundo Digimon. 

 

Quando o elenco de Treinadores decide ir ao Mundo Digital, no episódio seguinte, temos o primeiro vislumbre da vida familiar de Juri. Vemos o pai trabalhando no restaurante com a esposa – uma mulher que, por sua vez, não é a que aparece na fotografia emoldurada no quarto de Juri, com esta em bebé. 

 

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A jovem não avisa ninguém na sua família que vai para o Mundo Digital – outro indício trágico. Nem todos no grupo dizem toda a verdade aos pais, mas sempre deixam uma carta ou um e-mail ou uma história qualquer – nenhuma opção é a ideal ou mesmo correta, mas sempre é melhor que não dizer absolutamente nada.

 

Queria agora falar sobre um episódio da terceira parte do Enredo que, confesso, adoro odiar: sobre uma colónia de Geckomon que é escravizada por um Orochimon alcoólico, obrigamos a fazer-lhe saqué (uma espécie de vinho de arroz, sendo a bebida nacional do Japão). Numa das ocasiões em que o grupo de Treinadores se separa, todos menos Takato, Jian e Terriermon vão parar ao mini-universo onde vive essa colónia. 

 

A certa altura, o Orochimon deita as mãos (figurativamente) a Juri. Leomon tenta salvá-la, como seria de esperar, mas não é bem sucedido. Enquanto o Orochimon a leva, Juri grita a seguinte pérola:

 

– Leomon, eu vou ficar bem! Não te esqueças que o meu pai tem um restaurante! Estou habituada a lidar com bêbados!

 

Juri. Com dez anos. Sabe lidar com bêbados. É para rir ou para chamar a CPJ?

 

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Um rápido àparte: depois de ver este episódio pela primeira vez, tive de descobrir como é que a dobragem americana, infame pelo seu puritanismo (como substituirem o vinho do Wizarmon por molho picante ou, pior, Vandemon “banindo” o Gottsumon e o Pumpmon para a sua “cave”, em vez de assassiná-los) descalçaria esta bota. Pois bem, substituíram o saqué por batido de leite. Eu fiquei uns bons dez minutos a rir-me com esta…

 

Em retrospetiva, não sei se inclua isto na lista de indícios trágicos sobre a família de Juri. Sinto-me tentada a incluir. Não estou a ver nenhum digiguionista a colocar esta fala na boca de uma menina de dez anos como se nada fosse.

 

Em todo o caso, por retorcido que seja, a experiência de Juri com alcoólicos sempre lhe dá coragem e capacidade para lidar com o Orochimon (a história deste episódio, aliás, parece ter sido inspirada pela Lenda do Orochi). Se acreditarmos que o CD drama Digimon Tamers 2018 faz parte do cânone (mais sobre isso um dia destes), em adulta Juri torna-se professora. E de facto, depois de ter lidado com bêbados em criança, lidar com alunos e respetivos pais será um piquenique. 

 

Regressemos ao Orochimon. A ideia de Juri era embebedá-lo, mas, longe de entorpecê-lo, o saqué dá mais força ao Digimon. Felizmente, na altura em que a jovem se apercebera do seu erro, já Leomon e os outros tinham conseguido chegar junto dela. Juri saca de uma carta da LadyDevimon, de todos os Digimon, ajudando Leomon a salvar o dia.

 

É de facto uma pena que a sua história com o Leomon tenha sido tão curta. Juri parecia ter potencial enquanto Treinadora e acabámos por ver muito pouco disso. 

 

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Temos então de falar sobre o ponto de viragem da história dela, infelizmente. O grupo acabara de se reunir de novo e Beelzebumon viera para cumprir a sua parte do acordo com o Chatsuramon. No início do combate, Leomon agarra Beelzebumon, impedindo-o de desferir um golpe, potencialmente fatal, em Kyubimon. Leomon consegue ler a situação e tenta avisar Beelzebumon que este está a ser manipulado. 

 

A resposta de Beelzebumon a este aviso é, quase literalmente, arrancar o coração a Leomon.

 

É importante chamar a atenção para as últimas palavras de Leomon em vida – “Parece que é este o meu destino” – pois estas serão uma faceta importante do trauma de Juri. Por outro lado, o aparecimento de Megidramon também terá agravado a situação para a menina. Ver o Guilmon, o primeiro Digimon que Juri conhecera e a quem se afeiçoara transformado naquela monstruosidade. Ver Takato, o seu amigo, potencial interesse amoroso, um rapaz até agora simpático e gentil, exprimindo tamanha raiva e instintos assassinos. 

 

Como vimos antes, o combate contra Beelzebumon estende-se por três episódios. Neste intervalo de tempo, o Megidramon “desdigievolui” e digievolui para Dukemon. No momento em que este último se prepara para acabar com Beelzebumon, Juri impede-o. Sabe que isso não trará Leomon de volta, não deseja mais lutas ou morte. Não por sua causa. E apesar de ela não o dizer preto no branco, eu apostaria que a menina não quer que Takato e Guilmon se tornem assassinos por sua causa.

 

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O anime de Digimon sempre deixou bem claro que perder um companheiro digital é traumático, independentemente das circunstâncias. Mesmo em universos onde estes regressam à vida. No caso de Ken, em 02, por exemplo, em que o próprio teve culpas na perda de Wormon, a morte deste desencadeia todo um processo de redenção pelo sofrimento que causou. O renascimento de Wormon representa a sua segunda oportunidade. 

 

Por sua vez, pode-se argumentar que o destino não foi assim tão duro com Takeru, pois este recebeu o Digiovo do Patamon menos de um minuto após o sacrifício de Angemon. Este, mesmo assim, guardou o trauma durante anos – em 02, em Tri. Estou convencida de que a experiência da perda influenciou as suas decisões em Kokuhaku, que contribuíram, pelo menos em parte, para o Reinício de todos os companheiros Digimon do elenco. 

 

No que toca a estes últimos, vemos as consequências desta perda a curto prazo nos restantes filmes de Tri. Na minha opinião, tal trauma pode tê-los impedido de eutanasiarem Meicoomon mais cedo, evitando inúmeros danos colaterais, sobretudo a morte de Daigo. Pergunto-me se o trauma do Reinício será referido em Last Evolution Kizuna, o próximo filme de Adventure. 

 

Por fim, Maki foi a única Escolhida no universo de Adventure (exceto Meiko) que não recuperou o seu Digimon depois de o perder. Mais: foi a própria Homeostase quem o reclamou sem cerimónia ou piedade. Anos mais tarde, nem a entidade divina nem os seus representantes valorizam ou sequer reconhecem o contributo e o sacrifício de Maki, Daigo e restante grupo das Primeiras Crianças Escolhidas. Pode-se argumentar que Maki teve pior sorte que Juri, pois teve ainda menos controlo sobre o seu destino. 

 

A resposta da Escolhida ao seu trauma foi unir-se voluntariamente ao inimigo, manipulando Escolhidos mais novos e um (ex?) parceiro romântico no processo. E vimos como é que isso acabou.

 

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Tendo tudo isto nem conta, a direção que a história de Juri toma não surpreende. Durante uns quantos episódios, vêmo-la fechada sobre si mesma, fitando a estática no ecrã do seu D-arco, balbuciando frases soltas sobre o destino. A certa altura, quando Takato tenta consolá-la, Juri diz não ser boa pessoa – porque, segundo ela, recuperou demasiado depressa da morte da mãe e, quando o pai casou de novo, nunca aceitou a madrasta, como vimos antes. 

 

Novo indício trágico.

 

Por outro lado, depois de Ruki regressar da ravina onde resgatara Culumon e desbloqueara Sakuyamon, Juri corre a abraçá-la, aliviada por a amiga ter sobrevivido. Um claro exemplo de um gato escaldado com medo de água fria.

 

A certa altura o fantoche da menina começa a falar sozinho – qualquer coisa sobre não gostar de tristeza. Depois desta, Juri afasta-se para, segundo os amigos, ir ao WC. Quando regressa, vem… diferente.

 

Qualquer membro da audiência com mais de dez anos, talvez menos, ou que pelo menos se recorde das Sementes da Escuridão de 02, desconfia logo que aquela não é bem a Juri. Eu não cheguei logo a “substituída por um dos agentes do D-Reaper”, pensei primeiro que ela estaria possuída por qualquer coisa. 

 

Os miúdos atribuem o seu estado catatónico a uma nova fase da sua depressão. Mas, confesso, custa-me a acreditar que ninguém tenha reparado nos olhos dela.

 

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Em todo o caso, “Juri” regressa ao Mundo Real juntamente com os outros Treinadores. O regresso dos miúdos é um evento bastante mediático, com os vários familiares acorrendo ao local (uma variação interessante em relação ao universo de Adventure), mas Juri não tem ninguém à espera dela. Quando conseguem entrar em contacto com o seu pai, este responde que, se a filha foi capaz de ir ao Mundo Digital sem avisar ninguém, será igualmente capaz de vir sozinha até à casa dos familiares onde se tinham abrigado. E é se quiser.

 

Novo indício trágico, um particularmente duro. É certo que Tadashi não sabia tudo por que a filha passara no Mundo Digital. Mesmo assim, que pai se recusa a vir buscar a filha após esta ter estado desaparecida, por muito zangado que esteja?

 

Eu confesso que, da primeira vez que vi Tamers, não simpatizei nada com o pai de Juri. Sobretudo no momento em que, quando reencontra a “filha”, a puxa com brusquidão para o táxi. Mesmo agora sabendo toda a verdade, continuo a achar que Tadashi vai longe demais. Uma coisa é ser-se severo. Outra coisa é ser-se cruel. Por muito zangado que Tadashi esteja, não sem razão, ele é o adulto. Aquilo não é aceitável.

 

Mas estou a adiantar-me. Recuemos um pouco. Quando se descobre, então, que Juri não tem ninguém que a leve a casa, Takato oferece-se para acompanhá-la de comboio. 

 

Confesso que me faz alguma confusão duas crianças de dez anos andando sozinhas de comboio, de noite. Suponho que, se foram capazes de sobreviver ao Mundo Digital com apenas um par de traumas psicológicos, hão de conseguir sobreviver aos transportes públicos. Ao menos têm uma criatura que cospe bolas de fogo a protegê-los.

 

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O mutismo de “Juri” continua durante a viagem de comboio. Takato aproveita a ocasião para abrir o seu coração perante a “amiga”: faz um misto de declaração de amor e de culpa por aquilo que aconteceu ao Leomon, por não ser capaz de consolá-la, por agora ela estar naquele estado catatónico. Tudo isto regado com lágrimas porque Takato.

 

Não sei se é suposto sentirmos pena do miúdo neste momento, mas eu não consigo evitar irritar-me um bocadinho. Esqueçamos que aquela não é a verdadeira Juri. A menina perdera o Leomon no Mundo Digital. Ao regressar ao Mundo Real, o pai nem se dignara a vir buscá-la – tinha de estar a regressar com Takato, de comboio, à noite. A última coisa de que Juri precisava neste momento era de fazer o amigo sentir-se melhor consigo mesmo. A paixoneta e sentimentos de culpa não são para aqui chamados.

 

Faz lembrar aquele episódio de How I Met Your Mother, em que Robin descobre que não pode ter filhos. Quando imagina a reação da melhor amiga, Lily, à notícia, imagina-a virando os holofotes para si, choramingando que é uma péssima, obrigando a própria Robin a consolá-la. A previsão revela-se certeira pois, quando Robin lhe conta uma história para encobrir o verdadeiro motivo da sua tristeza, Lily tem a mesma reação. 

 

Por outro lado, é óbvio que Takato não tem más intenções. Pelo contrário, está a tentar ajudar. Além disso, ele tem dez anos, é demasiado para compreender estas subtilezas. Há adultos que não as compreendem. 

 

De qualquer forma, nem Takato nem ninguém merece receber a resposta que “Juri” lhe dá: ler em voz alta a composição nutricional do snack que Takato lhe comprou. Até a mim me doeu…

 

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Juri reúne-se, então, com a família. Culumon fica com ela. Logo no episódio seguinte, vêmo-lo brincando com o irmãozinho de Juri. A certa altura, o menino cai, começando a choramingar. A mãe dele (madrasta de Juri) consola-o da forma habitual, dizendo algo como:

 

– Já passou. Já passou.

 

Nisto aparece “Juri”. Esta empurra o menino contra o chão, ambas as mãos nos ombros dele, repetindo monocordicamente as palavras da madrasta: “Já passou. Já passou.”

 

Acho que teria sido um pouco menos assustador se ela tivesse pura e simplesmente tentado esganá-lo.

 

Mais tarde, a madrasta dá pela falta da enteada. Quando pergunta ao filho, este responde que a irmã desaparecera “pela parede” – só mesmo uma criança muito nova para ver algo assim e não estranhar.

 

Se até este momento existia alguém na audiência que ainda pensasse que aquela era a verdadeira Juri, depois desta não há margem para dúvidas. Sobretudo quando Takato a vislumbra em Shinjuku, no intervalo das lutas do D-Reaper – a uma distância considerável da casa onde devia estar abrigada com a família.

 

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É nesta altura que se descobre que Juri está desaparecida. Takato torna a vê-la em Shinjuku – desta feita, com palavras niilistas nos lábios. De notar que o jovem é o único a vê-la. Nem Jian nem Ruki parecem dar por ela. Mais tarde, aliás, quando os três protagonistas estão a lutar contra o D-Reaper, já conjugados com os seus Digimon, nas suas formas Extremas, o D-Reaper escolhe agarrar Dukemon e trazê-lo para o seu núcleo.

 

Aqui Takato e Guilmon separam-se – as formas Extremas não se aguentam no núclo do D-Reaper – e tornam a encontrar “Juri”. Esta finalmente revela a sua verdadeira identidade: nada menos de um dos agentes do D-Reaper, conhecida por J-Reaper ou Juri-Type, que substituíra a verdadeira Juri após esta ser raptada pelo D-Reaper ainda no Mundo Digital. 

 

A J-Reaper viera infliltrada entre os Treinadores para o Mundo Real para analisar a humanidade. Estudara a mente de Juri, bem como as pessoas com quem contactara – só refere a depressão da menina, mas eu pergunto-me se a declaração lacrimosa de Takato, os modos bruscos de Tadashi, as lamúrias do irmão mais novo também foram objetos de análise. Chegara à conclusão de que os seres humanos são demasiado irracionais e instáveis para existirem, devendo, por isso, ser eliminados. 

 

A verdadeira Juri estava presa no núcleo do D-Reaper, mantida num transe de pesadelos. A J-Reaper tentara, inclusivamente, fazer o mesmo a Takato, esfregando-lhe no nariz recordações roubadas a Juri – é a intervenção de MarineAngemon e Kenta que o salva.

 

Um dos pesadelos de Juri centra-se na morte da mãe e na justificação que tanto o pai como os médicos lhe tinham dado: 

 

– É o destino.

 

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É provável que tanto Tadashi como os médicos tivessem usado esta expressão no sentido de “Não havia nada que ninguém pudesse fazer”. Juri, no entanto, internalizou a mensagem como o Universo conspirando ativamente para que a menina perca aqueles que ama. Primeiro a mãe, em tenra idade, depois o Leomon. Talvez tivesse determinado que o pai se afastaria emocionalmente dela. Daí o D-Reaper repetir monocordicamente a palavra “destino” na voz de Juri.

 

São cenas horríveis, os pesadelos de Juri. Realmente, todo este terror, todas estas monstruosidades catalisadas pelos traumas de uma menina de dez anos fazem os estranhos poderes de Hikari, no universo de Adventure, a sua estranha relação com as Trevas, parecerem uma ninharia. Até a Ordinemon, que Hikari soltara no mundo quando pensara que tinha perdido o seu adorado onii-chan parece um mero Digimon vilão-da-semana comparado com o D-Reaper e os seus agentes, a Juri-Type em particular. 

 

Quase fico aliviada por não ter visto Tamers em miúda. Acho que teria pesadelos durante semanas – e já tinha doze ou treze anos quando Tamers foi exibido pela primeira vez em Portugal! 

 

Felizmente, por esta altura, Culumon e Beelzebumon conseguem infiltrar-se no D-Reaper. Culumon consegue entrar na esfera onde Juri se encontra, mas Beelzebumon é agarrado pelos tentáculos do D-Reaper e é mantido preso e inconsciente durante alguns episódios.

 

Quando se descobre que Juri está aprsionada no núcleo do D-Reaper, os seus pais são naturalmente convidados a juntar-se aos adultos de apoio aos Treinadores: os membros do Hypnos, o Grupo Selvagem, os pais dos miúdos. 

 

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Vemos a madrasta de Juri a chorar no ombro de Rumiko (com a filha desta última a ver, conforme comentámos no texto anterior), pedindo perdão à falecida mãe da enteada. Tadashi, por sua vez, de início mantém a sua postura fria (da primeira vez que vi Tamers, nesta altura estava a chamar-lhe nomes). No entanto, depressa vemos as coisas sob a perspetiva dele – aquilo que comentámos antes, sobre as suas dificuldades em ser pai solteiro.

 

É neste momento que lhe saem as garras de papá sobreprotetor. Pega no camião do pai de Takato (o futuro compadre?) e vai até junto do D-Reaper. De início tenta negociar: desfaz-se em lágrimas, pede para tomar o lugar da filha. Quando isso não resulta, pega de novo no camião e tenta atropelar o D-Reaper. 

 

Nada disto resulta mas, pelo meio, o D-Reaper analisa-o. A criatura fica baralhada quando analisa as memórias de Juri sobre o pai – porque, neste universo, os Digimon não têm progenitores e talvez porque a relação de Tadashi com a filha não encaixa com a visão niilista que recolhera até agora. Além que de Juri reage à presença do pai – embora não chegue para sair do seu transe.

 

Depois desta, há uma cena breve, o episódio seguinte, em que vemos Tadashi debatendo-se contra uma janela do Hypnos, numa das ocasiões em que o D-Reaper fala com a voz de Juri. Tirando isso, Tadashi não torna a aparecer em Tamers – o que é uma pena.

 

É nesse mesmo episódio, de resto, que Juri finalmente sei do seu transe. O responsável é Beelzebumon, de todas as criaturas possíveis, humanas ou digitais. Depois de algum tempo inconsciente, prisioneiro do D-Reaper, conseguira soltar-se e emparceirar com Dukemon no resgate de Juri. É quando Beelzebumon está a tentar abrir a esfera onde a menina está presa ao murro que esta finalmente desperta. Este, por sua vez, só consegue abrir a esfera quando recorre ao Punho Real, um ataque do Leomon.

 

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Este é um dos poucos casos em que, conforme observámos antes, um Digimon usa poderes de um adversário que absorveu. Embora também seja legítimo uma pessoa interrogar-se se aquilo não será uma manifestação do próprio Leomon, ajudando a salvar a sua Treinadora.

 

Através do buraco que abriu, Beelzebumon enfiar-se parcialmente dentro da esfera e estende uma mão a Juri. Esta, no entanto, ao ver Beelzebumon usar o Punho Real do Leomon, bloqueara. O buraco na esfera fecha-se de novo antes que a menina conseguisse descongelar.

 

Naquele momento, uma boa parte da audiência fica com vontade de dar um par de estalos à miúda, por ter deixado fechar aquela quase literal janela de oportunidade. Ainda há semanas, no encontro do Odaiba Memorial Day, estivemos a falar sobre este momento. Mesmo eu, da primeira vez que vi este episódio, fiquei confusa com o final deste – como se estivesse a colocar a última peça de um longo puzzle e esta, por algum motivo, não encaixasse. Porquê, Juri, porquê?

 

No entanto, se formos a ver, Juri estivera afogada em pesadelos durante dias. Acabara de acordar deles e a primeira coisa que via fora o Digimon que começara tudo aquilo, que lhe arruinara a vida e que, ainda por cima, usava o ataque de marca do Leomon – mesmo a servir de lembrete. Eh pá, eu se calhar também bloquearia! É um daqueles casos – como Takato com o Megidramon – em que o cérebro parece falhar durante segundos, em que uma pessoa se arrepende quase de imediato, mas as consequências são graves.

 

Também é possível que Juri não tenha ido com Beelzebumon porque não estava preparada para ser salva – não achava que o merecia. Os seus sentimentos de culpa e baixa auto-estima agravam-se quando pensa que Beelzebumon vai morrer – o que, felizmente, não acontece. Juri tenta, então, escapar sozinha, mas o D-Reaper torna a imobilizá-la – desta feita fisicamente. A menina fica assim durante uma semana, pois nesta altura o D-Reaper cresce ainda mais, obrigando os Treinadores a bater em retirada.

 

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No fim dessa semana, quando Culumon diz a Juri que ele só deseja vê-la feliz, a jovem diz que não o merece. Somos, então, brindados com uma tentativa de suicídio num desenho animado que passou no Canal Panda. Uma menina tentando asfixiar-se com um cão de fantoche. Eu… eu nem tenho palavras. 

 

A verdade é que Juri pensa que, se morrer, o D-Reaper será travado (algo questionável nesta fase do campeonato) e os amigos deixarão de correr perigo. Eu suspeito que seja essa a lógica por detrás de muitas mortes por suicídio: acharem que os seus entes queridos estarão melhor sem eles. 

 

Bem, Juri está enganada e não é a única. Morrer por suicídio nunca, NUNCA, é solução, bem pelo contrário! Se alguém com ideias de se magoar a si mesmo estiver a ler este texto, por favor, não o faça, peça ajuda! Vou deixar links para linhas de apoio em Portugal e no Brasil (se alguém conhecer mais linhas, deixe nos comentários). Não estão sozinhos, o mundo precisa de vocês, por favor, peçam ajuda! 

 

Regressando a Tamers, no caso de Juri, é Culumon quem entra em pânico e dissuade a jovem de ceder à sua depressão. Em lágrimas, o pequenote recorda-lhe que há imensas pessoas que gostam dela e querem-a viva e feliz. O próprio Culumon, Takato, Guilmon, Ruki, os seus pais, o seu irmãozinho, até mesmo Beelzebumon.

 

Isto na verdade não são palavras muito diferentes daquelas que outras personagens tinham dirigido a Juri ao longo de Tamers, Takato sobretudo. Mas até ao momento a mensagem tinha chocado com o muro da baixa auto-estima da jovem. Fora preciso alguém tirar-lhe quase literalmente a arma da mão, alguém sujeitar-se às torturas do D-Reaper só para estar ao lado dela, para Juri acreditar nessas palavras. Para acreditar que merece ser salva. Para acreditar que a própria Humanidade e o Mundo em geral merecem ser salvos, que o destino de ninguém está gravado em pedra, que cada um escolhe quem quer ser. 

 

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Sim, ela pede ajuda a Takato à distância, como numa típica história de donzela indefesa. Quando sai finalmente do D-Reaper, vai literalmente nos braços do seu interesse amoroso. Mas se isto fosse uma típica história de donzela indefesa, Juri teria sido resgatada antes, por Beelzebumon. Juri precisava de acreditar que merece viver, que merece ser salva, antes de aceitar a ajuda dos demais. 

 

Há ainda tempo antes do final de Tamers para Juri conhecer Ai e Mako, os Treinadores de Impmon, e finalmente perdoar este último. Mesmo no rescaldo imediato da morte do Leomon, a menina mostrara misericórdia – era uma questão de tempo até ao perdão. Juri sabe como é ter traumas e deixá-los manifestarem-se de maneiras destrutivas – ainda que tal tenha resultado da manipulação do D-Reaper. 

 

Por fim, a menina aprendera que tanto as pessoas como os Digimon têm a capacidade para mudar. Impmon já o fizera, logo, merecia ser perdoado. 

 

Depois disto tudo, apesar de perder Culumon (que se tornara quase um segundo companheiro Digimon) por causa das consequências da Operação Joaninha, à primeira vista Juri tem um final feliz. No breve epílogo de Tamers, vêmo-la com Takato e os outros colegas de turma, aparentemente satisfeita… mas, lá está, ela também parecera satisfeita antes de as coisas terem dado para o torto.

 

Eu acho que Juri ainda precisará de algum tempo. A sua bagagem toda – a morte da mãe, a relação difícil com o pai e a madrasta, a perda do Leomon, a tortura do D-Reaper – não se resolve de um dia para o outro, com um mero resgate do seu Príncipe Encantado. Juri não partirá do zero: agora sabem que tem pessoas que gostam dela, que lutaram por ela. Tadashi certamente fará um esforço por ser melhor para a filha. Irá demorar – espero que lhe arranjem acompanhamento psicológico – mas quero acreditar que ela ficará bem, mais cedo ou mais tarde, que se tornará mais forte.

 

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E com isto terminámos a análise aos protagonistas. Como não terei muito a dizer sobre os restantes Treinadores, no próximo texto falarei de todos os que faltam, bem como de Culumon. Fiquem por aí!

Digimon Tamers #8 – Quando for grande, quero ser como ela...

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...apesar de já ser mais velha que a mãe dela, durante os eventos de Tamers.

 

Consta que Ruki, a única rapariga que faz parte do trio de protagonistas, é a personagem mais popular em Tamers. Eu neste caso concordo com a opinião do público. Se tivesse visto Tamers em miúda, teria desenvolvido uma enorme “girl crush” por Ruki. Tentaria imitar o penteado dela – e falharia, porque o meu cabelo só atingiu o comprimento suficiente para um rabo-de-cavalo aos catorze anos. Andaria a chatear os meus pais para me arranjarem uma t-shirt com um coração azul partido – segundo eles, nunca fui de pedir muitos presentes em pequena, mas as coisas que pedia eram difíceis de arranjar.

 

Hoje felizmente temos a Tee Public e já ganho o meu próprio dinheiro. Por isso…

 

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(Fiquei um bocadinho desapontada por terem demorado várias horas a reparar, no encontro do Odaiba Memorial Day.)

 

Como adulta, continuo a sentir admiração por ela, mas diria que Ruki está mais ou menos empatada com Takato como personagem preferida de Tamers. De uma forma simplista, Takato é quem eu sou. Ruki é quem eu gostava de ser. 

 

Segundo o site de Konaka, brinquedos centrados em personagens femininas vendem menos que os centrados em personagens masculinas (ou pelo menos vendiam menos na altura do planeamento de Tamers. Para contrariar um pouco esse fenómeno, os produtores decidiram que a rapariga protagonista teria de ser a mais poderosa e capaz. 

 

Por um lado, acho que foi uma boa decisão, mesmo que por motivos comerciais: os próprios produtores admitindo que boas personagens femininas vendem. E Tamers quebrou convenções, sobretudo para a época, ao ter dois protagonistas masculinos mais para o emotivo e sensível e uma protagonista feminina mais estóica e durona.

 

É pena, no entanto, que se considere que, para se tornar uma personagem feminina “melhor”, mais apelativa comercialmente, se tenha de torná-la… bem, menos feminina. Sou a primeira a admitir que é uma faca de dois gumes. Eu também era maria-rapaz em miúda, ainda o sou um bocadinho, sendo este um dos motivos pelos quais gosto de Ruki (e de Sora, de quem Ruki parece ser uma versão melhorada, nalguns aspetos). Estou certa que existirão muitas outras meninas com gostos menos femininos na audiência de Digimon. Mas quantas de nós nos tornámos marias-rapaz porque internalizámos que ser-se feminina, gostar de vestidos, de cor-de-rosa, de princesas da Disney não é fixe?

 

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Enfim, passemos à frente.

 

Quando conhecemos Ruki, esta tem várias características de uma adolescente rebelde: reservada, aparentemente fria e distante, segura de si mesma – eu daria tudo para ter um décimo da sua confiança. Não é má rapariga. Não é mal-educada – Konaka referiu no seu site que não queria que Ruki usasse linguagem grosseira. E de facto vêmo-la tratando a avó e a maior parte dos adultos (com notáveis exceções) com respeito (Editado: entretanto, recordaram-me que, na sociedade japonesa, as gerações mais jovens em geral nutrem imenso respeito pelos mais velhos, mais do que no mundo ocidental. Por isso, talvez não seja assim tão significativo.) Mesmo com Takato ou Jian, ela é fria, mas não chega a ser malcriada. 

 

Ruki é apenas solitária, focada nas suas coisas, não tem paciência para pessoas de que não gosta ou que não tem em grande conta. Como Takato e Jian de início, Hirokazu e Kenta mais tarde, mas sobretudo a sua mãe.

 

Recuando um pouco no tempo, quando Ruki nasceu, a sua mãe, Rumiko, tinha apenas dezoito anos. Ela terá chegado a casar com o pai da filha mas, como seria mais ou menos de esperar de um casamento tão precoce, este não resulta. Por altura dos eventos de Tamers, o pai está desaparecido do mapa. Não é muito claro se Ruki ainda mantém contacto com ele – supostamente sim, segundo um monólogo da jovem, mas isso contraria o segundo filme de Tamers (que, por outro lado, acho que toda a gente concorda que não faz parte do cânone oficial).

 

Konaka fez questão de referir no seu site que a personalidade de Ruki não é influenciada pela ausência do pai… mas será verdade? Tal como é referido neste vídeo, o trauma de abandono explicaria pelo menos em parte a relutância de Ruki em abrir o seu coração a Renamon, bem como aos outros treinadores. Mais sobre isso adiante.

 

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Mesmo tendo sido mãe muito cedo (o facto de a avó de Ruki ter estado por perto e de haver dinheiro na família terá ajudado), Rumiko conseguiu lançar uma carreira bem sucedida como super-modelo. Possui mesmo o estatuto de mini-celebridade. Ao contrário de Ruki, é extrovertida, convencionalmente feminina e tenta transformar a filha numa miniatura de si mesma – pressionando-a para ter interesses mais femininos e arrastando-a para sessões fotográficas. 

 

Devo dizer, as cenas em que Rumiko tenta convencer Ruki a usar vestidos bonitos lembram-me a minha própria infância. Qualquer uma que tenha sido maria-rapaz nalguma altura da sua vida terá recordações semelhantes.

 

Só que Rumiko pressiona um bocadinho além do que é saudável e Ruki, naturalmente, ressente-se. Torna-se maria-rapaz – a certa altura dá-se a entender que terá sido por influência do pai. Dedica-se ao jogo de cartas de Digimon, uma franquia dirigida sobretudo a rapazes. 

 

É possível que tenha escolhido deliberadamente um passatempo, um mundo onde a mãe não pudesse assoberbá-la. E eu, admito, revejo-me ainda mais nesta atitude no que no estilo menos feminino. 

 

Rumiko domina o jogo de cartas com facilidade, perdendo apenas para Ryo, ganhando o cognome de Rainha dos Digimon. A vitória, no entanto, não a satisfaz, não preenche o vazio.

 

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É nessa altura que aparecem Digimon em sua casa, pedindo-lhe para ser sua Treinadora. Este é um caso excecional em Tamers, em que são dos Digimon que vão atrás de uma humana, em vez do oposto. Ainda assim, Ruki declara que só quer um Digimon verdadeiramente forte. Renamon avança – um nível Infantil, apesar de existirem níveis Adultos e Perfeitos entre as opções.

 

Na verdade, antes de ver Tamers, pensava que Renamon era um nível Adulto – por causa do tamanho e pelo comportamento, mais parecido com o da Tailmon que do Agumon ou do Guilmon. Tirando esse aspeto, a família digievolutiva da Renamon é a minha preferida em Tamers. 

 

São sempre os Digimon das meninas, curiosamente.

 

No início, Ruki e Renamon possuem uma relação estritamente profissional. Renamon procurava a ajuda de um humano para se tornar mais forte, quiçá digievoluir. Ruki vê Renamon e os restantes Digimon como uma extensão do jogo de cartas: apenas dados digitais, personagens de um videojogo.

 

Nesta fase, há quem compare Ruki a Ken, quando este era Imperador Digimon – no sentido em que ambos encaram os Digimon como um jogo. Não sei se é uma comparação legítima. Ken não possuía controlo total sobre as suas atitudes para começar; torturava e obrigada Digimon a combater sem o consentimento deles.

 

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Por sua vez, Renamon luta de livre vontade. Pode-se argumentar que o mesmo acontece com os adversários que derrota e absorve pois, lá está, dos Digimon vivem sobre a lei do mais forte. Combater e absorver adversários faz parte da sua cultura.

 

Não deixa de ser uma área moralmente cinzenta. Afinal, essa cultura foi inscrita no ADN dos Digimon por humanos e, agora, uma humana aproveita-se dessa cultura para entretenimento e prestígio pessoal. Ruki não está a fazer o mesmo que Ken. Mas não significa que seja o correto.

 

Um caso em que Ruki claramente não faz o correto é quando conhece o Takato e o Guilmon. Aqui não há desculpa, Guilmon tinha pouco menos de um dia de vida, era um bebé. Nem ele nem Takato queriam combater. Ruki só tinha de deixá-los em paz. 

 

Felizmente, esta atitude depressa se volta contra ela. Bem, não sei se posso usar a palavra “felizmente” associada a uma cena onde uma menina de dez anos é encostada à parede por uma criatura apontando-lhe uma arma. Em todo o caso, é a primeira ocasião em que vemos a autoconfiança de Ruki abalada e as suas convicções questionadas. 

 

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A convivência com Takato, Jian e respetivos companheiros Digimon provoca mudanças em Renamon antes de em Ruki. Ao ver as relações afetivas que Guilmon e Terriermon cultivam com os seus treinadores, ela começa a desejar algo semelhante para si – ainda que apenas no subconsciente. Renamon começa a sentir que está a desiludir Ruki pessoalmente por não conseguir a digievolução.

 

Esta, na verdade, é desbloqueada, não após a absorção de adversários suficientes e sim durante um combate em, pela primeira vez, ambas se preocupam com a segurança uma da outra. Em que tentam proteger-se uma à outra.

 

Ainda assim, Ruki não percebe logo a mensagem. A jovem ainda não está preparada para aceitar que gosta de Renamon. As coisas só mudam quando Ruki começa a ser perseguida por algo… gélido. Ao perceber que a sua Treinadora está assustada, Renamon oferece-se para protegê-la… ao que Ruki responde com duas pedras na mão- Tenta colocar o Digimon no seu lugar e ergue uma barreira entre elas. 

 

Renamon ausenta-se. Por norma, sabe que Ruki gosta do seu espaço, sobretudo quando algo a perturba. No entanto, dá para ver que ficou magoada.

 

Ruki não demora a descobrir a identidade do seu stalker. IceDevimon, uma criatura francamente sinistra – parece que, tal como o Takeru, não sou grande fã de Devimon nem que Digimon semelhantes. Este deseja substituir Renamon como companheiro Digimon de Ruki. Persegue e rapta a jovem, trá-la para a sua cave e mostra-lhe os cadáveres congelados de todos os Digimon que derrotou – como quem mostra as duas credenciais, a sua sala de troféus.

 

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IceDevimon acaba por funcionar como personificação da faceta que Ruki, até ao momento, procurara mostrar ao mundo: fria, ambiciosa, implacável. IceDevimon pensa que Ruki valoriza tais características, que a persuadirão a jovem a tornar-se sua Treinadora… mas Ruki está essencialmente a olhar-se ao espelho e não gosta do que vê. 

 

Ninguém gostaria. Ruki repetira inúmeras vezes desde o início de Tamers que os Digimon são apenas dados. Quando uma pessoa repete a mesma ideia com esta frequência, pode significar que está a tentar convencer-se a si mesma tanto quanto dos demais. Os Digimon podem ser apenas criaturas digitais – o que não significa que sejam incapazes de sofrer ou que seja agradável vê-los congelados numa perpétua expressão de terror.

 

Ruki não quer ser mais essa pessoa, mas também não quer pedir ajuda a Renamon. Receia que, depois da maneira como a tratou, ela não venha. Renamon, no entanto, conseguira sentir que Ruki estava em perigo e aparece para ajudar.

 

De início tudo corre bem, como já acontecera muitas vezes em Digimon. Pela primeira vez, Ruki afirma que Renamon é sua amiga, com todas as letras. Em resposta, Renamon digievolui… mas Kyubimon é incapaz de derrotar IceDevimon. Quem o faz é Guilmon, orientado por Takato que, pela primeira vez, usa cartas e é bem sucedido. 

 

No rescaldo daquela situação, Ruki grita que detesta Digimon, vai para casa sem Kyubimon e deita fora as suas cartas e o seu D-arco.

 

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Uma reação intempestiva, é certo, mas compreensível. Vejamos a situação. Ruki tinha acabado de sobreviver a um Digimon francamente sinistro. Acabara de descobrir que o seu passatempo, aquilo que dava sentido à sua vida, era essencialmente uma carnificina. Tinha tentado fazer diferente, admitir ao mundo que gostava de Renamon, o que não era fácil para uma pessoa orgulhosa e reservada como ela – o que não chegara para derrotar IceDevimon. Quem o fizera, fora um puto que, no episódio anterior, estivera a chorar como um bebé agarrado ao Growmon. 

 

Em suma, Ruki devia estar a sentir-se confusa e humilhada e reagiu da maneira que qualquer criança da idade dela reagiria: amuando, batendo com a porta, dizendo que não quer brincar mais.

 

Tanto ela como Renamon passam algum tempo afastadas, refletindo. Renamon chega a conversar sobre o sentido de ter um companheiro humano, primeiro com Jian, mais tarde com Impmon, que tem um histórico… digamos, interessante com Treinadores. Este último acaba por funcionar como o reverso da medalha para Renamon, como veremos um dia destes.

 

Entretanto, Renamon vai derrotando outros Digimon sozinha, concluindo que talvez não precise de Ruki para se tornar mais forte. No entanto, nesta altura, tornar-se mais forte só porque sim já não a satisfaz – tal como o jogo de cartas deixou de satisfazer Ruki, a partir de certa altura.

 

Por seu lado, apesar de Ruki ter, aparentemente, desistido dos Digimon, não consegue manter-se afastada quando estes aparecem. Vêmo-la de fora do campo de dados, enquanto Renamon derrota um bando de Flybeemon, afastando-se de seguida sem falar com a sua companheira. Pensa, agora, que Renamon só queria saber dela para se tornar mais forte. 

 

É também nesta altura que a avó de Ruki, na sua sabedoria, avisa que o isolamento constante não é saudável, que ninguém sobrevive a este mundo sozinho.

 

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Havemos de regressar a esta ideia mais adiante. Para já, dizer que, quando outro Digimon, uma Harpymon, aparece, mais uma vez Ruki não consegue manter-se afastada. Desta feita, deixa-se ver por Renamon. À primeira vista, esta derrota a Harpymon, mas em vez de lhe absorver os dados, fica ali parada, apercebendo-se de que nada daquilo lhe contribui para a sua felicidade. Lá porque Renamon consegue derrotar adversários sozinha, não significa que o queira. 

 

Ora, Harpymon aproveita as reflexões existenciais de Renamon para atacá-la quando tem as defesas em baixo. Renamon, apanhada de surpresa, não se consegue defender. Ruki, em pânico, leva a mão aos bolsos mas lembra-se que atirara tanto o seu D-arco como as cartas para o caixote. Sem alternativa, agarra num pau caído e corre a espetá-lo nas costas da Harpymon. 

 

Naturalmente, o Digimon selvagem volta-se para Ruki – que fica com uma cara de devia-ter-pensado-melhor-nisto. Felizmente, Renamon digievolui à moda antiga, para proteger a sua companheira (uma sorte o Culumon estar por perto), e derrota a Harypymon.

 

Ou seja, tal como na ocasião em que desbloquearam a Kyubimon, por muito reservadas e orgulhosas que sejam, Ruki e Renamon não conseguem afastar-se uma da outra, preocuparem-se uma com a outra, protegerem-se uma à outra. E desta vez admitem-no preto no branco.

 

Depois de conseguir abrir-se a Renamon, Ruki começa a fazer o mesmo com os outros Treinadores – sobretudo quando começam a aparecer os Deva e ela, Takato e Jian se encarregam de proteger a população civil. Eu destacaria a ocasião em que se oferece para ensinar o jogo de cartas a Juri, quando esta adquire o seu próprio baralho. 

 

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Por outro lado, regressando à relação de Ruki com a sua mãe, quando o elenco vai ao Mundo Digital resgatar Culumon, a jovem sente-se mal pelo sofrimento que vai provocar a Rumiko. Assim, dá um primeiro passo no sentido de uma reconciliação ao aceitar usar um dos vestidos que a mãe tentara impôr-lhe – em jeito de despedida. 

 

Havemos de regressar a Rumiko. Para já, no Mundo Digital, os instintos protetores de Ruki tornam a manifestar-se, desta feita para com Hirokazu e Kenta. Os dois tinham-se juntado ao grupo de resgate à procura de companheiro. Não o encontram de imediato, ou seja, passam bastante tempo indefesos – e Ruki assume a tarefa de protegê-los.

 

Não que o faça pacificamente. Pelo contrário, não se coibe de dizer-lhes exatamente o que pensa deles (e até tem alguma razão), chegando mesmo a dar-lhes um literal pontapé no rabo. Quando Ryo se junta à festa – o lendário Digitreinador, o único a derrotar Ruki no campeonato de cartas antes de literalmente desaparecer da face da Terra, que a narrativa trata quase como um Gary Stu e tenta insinuar que Ruki tem um fraquinho por ele – a jovem atinge o seu limite, optando por virar as costas ao grupo e venturar-se sozinha.


Enfim. Como fizem os anglo-saxónicos, baby steps.

 

No meio disto tudo, tem alguma piada ver Renamon “ralhando” com Ruki, aconselhando-a a ter paciência com os demais. Como, por exemplo, quando a jovem reclama com Juri por esta a tratar por “chan”. (Há um par de ocasiões em que, na versão original, Ruki reage mal a ser tratada por um chan, compreensivelmente. A dobragem portuguesa traduz ambas literalmente, o que é uma falha infeliz, conforme expliquei aqui.) Só reforça a ideia de que Treinador e digimon puxam um pelo outro, crescem em conjunto.

 

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Por outro lado, Ruki pode ter pouca paciência para com os rapazes do grupo que não Takato ou Jian, mas é meiga com Shaochung, mesmo com a choradeira toda. Mais compreensiva que o irmão, como vimos no texto anterior.

 

Com a luta com o Beelzebumon e consequente morte de Leomon, os instintos protetores de Ruki saem reforçados. A seguir a Takato, ela é a mais preocupada com a visível depressão de Juri, a sua conversa sobre o destino. Renamon diz mesmo que o coração da amiga está fechado pelo sofrimento – mas que terá de ser ela própria a escolher abri-lo de novo, a aceitar a morte do Leomon e a seguir em frente.

 

As palavras de Renamon são surpreendentemente proféticas, como veremos no próximo texto. Para já, pergunto-me se Ruki se revia em Juri naquele momento. Ela também passara muito tempo com o coração fechado e teve de escolher abri-lo de novo, como vimos antes. 

 

Havemos, aliás, de voltar a falar de semelhanças entre as duas meninas. Entretanto, quando descobrem que Culumon está preso numa ravina cheia de D-Reaper, Ruki oferece-se para descer sozinha com Renamon, precisamente para que nenhum dos amigos tenha de arriscar a vida – embora Ryo vá atrás dela. 

 

Ruki consegue chegar a Culumon, mas teemos um par de momentos assustadores. Algumas bolhas do D-Reaper rasam Ruki e Culumon e acabam por apanhar a mochila da primeira.  Por fim, chegam a uma posição em que os quatro – Ruki, Renamon, Culumon, Ryo – estão encurralados pelo D-Reaper. Takato, Jian e os outros estão mais acima, mais resguardados, mas não escaparão durante muito tempo.

 

É na combinação destas fintas próximas à morte com o desejo de proteger os amigos, mesmo de desafiar o destino e escrever a sua própria história que Ruki e Renamon dão um literal salto de fé, para o abismo do D-Reaper. Assim nasce o nível Extremo de Renamon.

 

 

Tenho um conhecimento limitado de Digimon, mas estou certa de que haverá quem concorde comigo quando disser que a sequência de digievolução para Sakuyamon é a mais bela em toda a franquia (embora não seja a minha preferida, está em segundo lugar). O fundo azul com a lua, a água, as cerejeiras em flor, o coro feminino no início de One Vision… Só de escrever fico com pele de galinha!

 

Tamers faz questão de realçar que o interior de Sakuyamon é quentinho, que ela mesma irradia calor para os demais. Aposto que é um contraste intencional com o gelo de IceDevimon, a sua cave cheia de cadáveres, que se comparava a si mesmo com Ruki, na primeira parte da narrativa. Sakuyamon é uma guerreira, mas é também uma força benevolente, maternal, protetora – um pouco como a Wonder Woman – que entoa um cântico com traços de canção de embalar, enquanto usa os seus poderes contra o D-Reaper.

 

No episódio seguinte, Ruki e Renamon citam a benevolência e compaixão de Sakuyamon como inspiração para irem à procura do Impmon e levá-lo para o Mundo Real. Mesmo depois de este ter assassinado o Leomon, mesmo depois de ter estado a isto de assassinar o Dukemon (com Takato lá dentro).

 

Uma vez mais, talvez Ruki e Renamon se tenham revisto em Impmon. Como referido antes, elas quiseram absorver o Guilmon no início de Tamers. Tinham, também, uma longa lista de adversários derrotados – adversários esses que podiam ter um Treinador ou andar à procura de um. Além disso, conforme veremos quando falarmos sobre Impmon, se as coisas entre ela e Ruki não tivessem resultado, Renamon podia ter seguido um trajeto muito parecido. 

 

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Esta decisão quase custou a boleia para o Mundo Real – não só a Ruki e Renamon, mas também a Takato, que ficou para trás à espera delas – mas valeu a pena. Ambas deram a Impmon uma segunda oportunidade e este, como veremos mais tarde, não a desperdiça.

 

Quando regressam a casa, Ruki e Renamon não conseguem lá ficar por muito tempo, por causa da ameaça do D-Reaper. Rumiko aproveita para terminar o que a filha começara antes de ir para o Mundo Digital. Pela primeira vez trata Ruki, não como um molde de plasticina para ela esculpir à sua imagem e semelhança, e sim como uma pessoa independente. Respeita-a por esta seguir o seu coração, as suas convicções, contra as opiniões dos demais – tal como Rumiko fizera aos dezoito anos, ao casar e ter um bebé nessa idade, certamente contra os conselhos dos mais velhos.

 

Se essa decisão de Rumiko foi a mais acertada é questionável – o casamento não durou e a filha está a crescer sem o pai por perto. Mas sempre lhe deu Ruki, que provavelmente nem seria a mesma pessoa se tivesse sido nada e criada noutras circunstâncias. 

 

Eu adoro a simbologia da t-shirt que Rumiko oferece à filha: idêntica à que Ruki usara até ao momento, mas com um coração inteiro em vez de partido. Ao contrário dos vestidos de antes, é uma peça de roupa que respeita a personalidade da filha. Mais: a própria Rumiko também arranja uma t-shirt com um coração, mas em rosa e vermelho, mais de acordo com o seu estilo pessoal. As t-shirts, com o mesmo desenho mas em cores diferentes, mostram que mãe e filha são pessoas distintas, mas na mesma equipa.

 

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Além de que a mudança de um coração partido para um inteiro é um bom reflexo da evolução de Ruki. Mas eu confesso que a adolescente rebelde em mim gosta um bocadinho mais do coração partido.

 

Outro momento marcante envolvendo Ruki e a sua família ocorre alguns episódios depois, quando se descobre toda a verdade sobre a situação familiar de Juri. Ruki apercebe-se que a sua família, por comparação, não é assim tão má. Os pais estão divorciados, mas estão ambos vivos. Rumiko tem muitos defeitos, mas toda a gente percebe que está a dar o seu melhor. Além de que a sua avó sempre estivera presente, funcionando como segunda mãe. 

 

A Juri saíra-lhe muito pior na rifa – mas nunca o usara como desculpa para se isolar, ser arrogante, matar outros Digimon como passatempo. Pelo contrário, Juri era simpática, tratava bem toda a gente, escondendo de todos a sua infelicidade. 

 

Não que o comportamento de Juri fosse saudável, como veremos no próximo texto. Tanto ela como Ruki tentaram lidar o melhor que puderam com coisas sob as quais não tinham controlo. E têm apenas dez anos! Nenhuma delas pode ser censurada.

 

De qualquer forma, esta reflexão é uma boa prova do crescimento de Ruki, enquanto personagem. 

 

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Na verdade, a história de Ruki em Tamers recorda-me as histórias de outras personagens femininas marcantes. Há uns anos li este excelente artigo, num blogue que já mencionei antes, desmontando alguns mitos sobre personagens femininas fortes – que muitos acusam de amolecerem a partir do momento em que desejam a ajuda e/ou companhia de outras pessoas, se apaixonam, ou, pura e simplesmente, exprimem emoções que não raiva ou orgulho.

 

Katie, a autora do texto, cita como exemplos Kate Beckett, de Castle, e Emma Swan, de Once Upon a Time, mas eu também incluiria Temperance Brennan, também conhecida por Bones. E agora Ruki.

 

Todas estas mulheres tiveram infâncias difíceis, em graus diferentes e, como resposta, ergueram muros em torno de si, fecharam-se ao amor e à amizade. Não posso falar muito sobre Beckett, pois não acompanhei Castle assim tão perto, mas posso falar sobre Emma após escrever várias vezes sobre Once. 

 

Emma crescera como órfã, fora magoada por praticamente toda a gente com quem teve alguma proximidade: o casal lhe a acolheu em bebé mas mandou-a de volta; uma das poucas amigas que teve em miúda; uma mãe de acolhimento que esteve muito perto de adotá-la; o primeiro homem que a amou mas que a deixou grávida e na cadeia em vez dele. Usava casacos de cabedal como armadura, como símbolo dos muros que erguera. Precisou de muito tempo, praticamente toda a série, para abrir o seu coração por completo – primeiro ao filho, depois aos pais, depois ao homem com quem casaria.

 

 

Da mesma maneira, desde que, ainda adolescente, fora abandonada pelos pais e, mais tarde, pelo irmão, Bones usara a sua extrema racionalidade como escudo, não se permitindo sentir qualquer emoção. Em parte por causa do seu trabalho – ninguém consegue trabalhar com ossos e cadáveres se não tiver pelo menos algum controlo sobre as suas emoções. Mas sobretudo para se proteger contra o sofrimento.

 

Mas, regressando a Once, como diria Mary Margaret, estas atitudes podem bloquear o sofrimento, mas também bloqueiam o amor, a amizade, a felicidade em geral.

 

É de Bones, aliás, que vem uma citação perfeita para estes casos. Vou tentar traduzir o melhor que consigo (com supressões).

 

Brennan: Eu sou… bastante forte.

Booth: Tu sempre foste forte.

Brennan: Sabes qual é a diferença entre força e impermeabilidade, não sabes?

Booth: Não.

Brennan: Uma substância impermeável a danos não precisa de ser forte. Quando nos conhecemos, eu era uma substância impermeável. Agora sou uma substância forte. Pode chegar uma altura em que eu esteja suficientemente forte para arriscar perder o resto da minha impermeabilidade. Talvez nessa altura possamos juntar-nos.

 

Durante muito tempo, Ruki sentiu-se relutante em tirar os seus óculos escuros, em confiar noutras pessoas, fazer amizades. Usava o jogo de cartas de Digimon e, mais tarde, os combates com Renamon como armadura – e possivelmente porque não tinha mais nada a que se agarrar. A jovem era uma substância impermeável, que não se deixava afetar por emoções, por nada.

 

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Os eventos de Tamers, por sua vez, tornaram-na uma substância forte: que sofre danos mas que não é destruída por eles. O seu conhecimento e talento como Digitreinadora deixou de ser um mero escape para se tornar numa arma para proteger aqueles que ama. 

 

No fundo, tal como Takato, ao longo de Tamers, Ruki aprendeu a canalizar a sua paixão por Digimon para propósitos heróicos. É por isso que não concordo quando certos fãs dizem que Ruki perdeu a piada ao tornar-se menos durona – eu diria que nunca deixou de sê-lo, apenas tornou-se durona de uma maneira diferente, melhor. Passou de uma durona que usa a carta certa para derrotar e absorver um Digimon para uma durona que salta de uma ravina para tentar proteger os amigos do D-Reaper. 

 

Por outro lado, cheguei a concordar, durante o meeting do Odaiba Memorial Day, que Sakuyamon foi algo nerfada (continuo a odiar esta palavra…), desempenhando um papel demasiado defensivo em comparação com o início de Tamers… mas, depois de rever alguns episódios, ou partes deles, enquanto trabalho nesta análise, não acho que tenha sido assim tão defensivo quanto isso. 


Admito, no entanto, que, pelas semelhanças nas histórias das duas, pela amizade entre elas, gostava de ter visto Ruki pelo menos tão empenhada como Takato no resgate de Juri. Mas claro, Takato é o gogglehead, é o interesse romântico, tinha de receber mais tempo de antena.

 

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Gostava de assinalar também que, no cúmulo do heroísmo de Takato, o Dukemon ganhou uma nova armadura, mas no cúmulo de Ruki Sakuyamon teve de perder a dela. Para aumentar a arma de Justimon, ainda por cima. Enfim…

 

E o que acontece no fim, depois de Ruki ter aberto o seu coração por completo, a Renamon, à família, aos amigos? Renamon tem de regressar ao Mundo Digital. 

 

Ruki é de longe a personagem mais dolorosa de se ver durante o traumático final de Tamers. Porque é a única vez que a vemos chorar (ao contrário do que acontece com os outros protagonistas, sobretudo Takato), porque sabemos quão difícil foi para ela deixar-se afeiçoar a Renamon e porque, pelo menos na dobragem portuguesa, a atriz que lhe dá voz faz um trabalho excelente. 

 

Quero acreditar que Ruki se tornou suficientemente forte para sobreviver a esse desfecho, que a mãe, a avó e os amigos consolá-la-ão. Mas não deixa de ser cruel.

 

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Em suma, se no início de Tamers Ruki já era digna de admiração – durona, competente enquanto Treinadora, segura de si – no fim ganha qualidades extra – coragem, compaixão, empatia – que ainda a tornam mais fantástica. Mesmo não tendo podido conservar Renamon, Ruki sai de Tamers uma pessoa melhor, mais forte. É por isso que reitero: quando for grande, quero ser como ela.

 

...apesar de já ser mais velha que a mãe dela, durante os eventos de Tamers.

Digimon Tamers #7 – Moumantai!

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Devo avisar desde já que, dos três protagonistas de Tamers, Jianliang (Jian para os amigos) é o qe menos me diz. Não que não goste dele, apenas gosto mais dos outros dois. É dos três aquele que menos evolui, o que não prejudica a história – pelo contrário, desempenha um papel importante nela.

 

Talvez seja só eu, mas vejo algumas semelhanças entre ele e Iori, de 02. As personalidades são semelhantes – calmos, sensatos, maduros, ligados à família. Praticam artes marciais e os seus instrutores acabam por ter um papel algo importante para a história. Os seus pais ( no sentido de progenitores masculinos) têm um passado com os Digimon que os filhos descobrem no decurso da narrativa.

 

Por fim, os dois acabam por ter papéis semelhantes nas temporadas onde aparecem. Iori via o mundo a preto e branco numa história de vilões (exceto um) em tons de cinzento. Jian detesta violência num universo onde, como vimos antes, os Digimon e o Mundo Digital se regem pela lei do mais forte. É um pacifista numa zona de guerra.

 

O lado pacifista de Jian recebe mais destaque na primeira parte do Enredo, mas só muito mais tarde é que descobrimos o porquê. Quando era mais novo, magoara outro miúdo recorrendo ao Kenpo. Não se conhece a gravidade das agressões, mas foi suficiente para que o jovem ganhe aversão à violência.

 

Isso explica as circunstâncias em que se torna Treinador de Terriermon. Algum tempo antes do início da narrativa de Tamers, Terriermon era apenas playable character no videojogo de Digimon, que Jian recebera do pai. A partir de certa altura, o jovem começa a interrogar-se se Terriermon consegue sentir dor durante os combates no jogo.

 

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Não é qualquer criança que faz estas perguntas. Todos nós jogámos videojogos envolvendo pelo menos algum grau de violência, mas nem todos nos pudemos a pensar que as personagens sentem as consequências dessa violência. Sobretudo porque – enfim, tanto quanto sabemos – são apenas isso: personagens, bonecos digitais.

 

Mesmo assumindo que é esse o caso com o Terriermon – e o pai, Jiang-yu, reforça essa ideia – por causa das suas ações em miúdo, Jian não consegue desligar esses sentimentos. E acaba por descobrir que tem razão – é assim que Terriermon se materializa no Mundo Real e Jian se torna o seu Treinador.

 

Apesar de ter sido a aversão de Jian à violência a ganhar-lhe o estatuto de Treinador, isto também constitui fonte de conflito entre ele e Terriermon. Este é um Digimon semelhante aos outros, com instintos agressivos, sempre à procura de um combate. Jian não o deixa lutar, obriga-o a literalmente ser um brinquedo para a irmã, para frustração de Terriermon.

 

De início, a narrativa até parece dar razão a Jian. Logo nos primeiros episódios quando Ruki deseja que Renamon lute e tente absorver os dados de Guilmon, tanto o jovem como Terriermon tentam travar a luta. Quando Terriermon dá por si na mira do ataque de Renamon, digievolui para Gargomon e desata a disparar em todas as direções, rindo como um maníaco. Acaba mesmo por apontar um dos braços-metralhadora  a uma Ruki que, pela primeira vez em Tamers, deixa cair a faceta de durona.

 

Guilmon consegue derrubá-lo e eventualmente Gargomon recupera a razão mas, sim… aquilo podia ter corrido muito mal. Jian tinha bons motivos para manter a trela curta.

 

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E no entanto, logo no episódio seguinte, a trela curta de Terriermon começa a atrapalhar mais do que ajuda. São atacados por um Gorimon, o mesmo que tinham enfrentado no videojogo, por sinal. De início, Jian impede Terriermon de lutar, deixando Takato e Guilmon a lutar sozinhos. O Treinador mais recente, no entanto, ainda não sabe o que está a fazer. Com o Gorimon a fazer o que quer com os dois companheiros Digimon, Jian não tem outra hipótese senão intervir com uma carta. E mesmo assim, não deixa Terriermon absorver os dados e Gorimon, depois de derrotá-lo.

 

Existe outra ocasião em que a incompetência de Takato encosta Jian as cordas, obrigando-o a deixar Terriermon combater. Nesta altura do campeonato, Takato tivera a sua primeira vitória e, de uma maneira muito típica de um miúdo da sua idade, achava-se invencível depois de ter ganho um combate. É então que um Musyamon aparece numa rua movimentada de Shinjuku. Takato mete os pés pelas mãos. Quando uma menina da idade de Shaochung, talvez mais nova, entra no campo de dados, Jian vê-se obrigado a intervir. É apenas a segunda vez que vemos Terriermon a digievoluir para Gargomon, mas desta feita ele não perde o controlo. Pelo contrário, salva o dia.

 

É neste momento que Jian e Terriermon conseguem chegar a um compromisso: lutar quando necessário para proteger os demais. É o primeiro, aliás, a assumir esse papel enquanto Digitreinador. Ao mesmo tempo, à medida que os miúdos se vão habituando uns aos outros, assume o papel de mediador, de ajuizado do grupo, servindo de contraponto não só à combatividade de Ruki como à inocência de Takato.

 

Isto é, até ao momento em que Shaochung se junta à festa no Mundo Digital.

 

Estou a ver que Digimon tem uma cena com onii-chans sobreprotectores – Yamato e Taichi foram apenas os primeiros. Como irmã mais velha, gosto disso.

 

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Infelizmente, a sobreprotecção de Jian não mostra a sua melhor faceta. Shaochung aparece no Mundo Digital no episódio anterior ao da morte do Leomon e torna-se Treinadora de um Deva. Não só Jian é incapaz de consolar a irmã durante o longo combate contra Beelzebumon (Ruki, de todas as pessoas, sai-se melhor nisso), como aproveita todas as oportunidades para pressioná-la para deixar Lopmon – a única coisa boa que acontecera a Shaochung no Mundo Digital. Quando Chatsuramon aparece, Renamon e Dukemon fazem mais para proteger a menina que o seu próprio irmão. Jian nem sequer repara que Terriermon caiu na ravina e só no episódio seguinte é que repara que o seu Digimon ficou com ferimentos.

 

Pode-se argumentar, também, que em circunstâncias normais Jian teria conseguido chamar Takato à razão, impedindo-o de criar o Megidramon.

 

Esta má fase de Jian culmina no episódio que se segue à derrota de Beelzebumon. Nesta altura, o grupo tenta infiltrar-se no território de Zhuqiaomon e Jian está obcecado por enviar a irmã de volta a casa (embora trate Shaochung com uma brusquidão incaracterística quando esta faz birra, recusando-se a ficar para trás, em segurança).

 

O jovem chega a achar que terá de ser ele mesmo, sozinho, a enfrentar Zhuqiaomon e a resgatar Culumon – com Ruki e Takato ao lado dele a pensar: “O Guilmon e a Renamon são o quê? Bonecos de peluche?”. Faz lembrar um pouco a situação que atirou Sora para a caverna escura, na parte final de Adventure, mas melhor elaborada.

 

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Rapidmon estaria sempre em desvantagem perante Zhuqiamon, mas a situação complica-se ainda mais quando os ferimentos da luta com o Chatsuramon começam a manifestar-se. É aí que Jian percebe os erros que tem cometido.

 

Tem de ser o próprio Terriermon a fazer-lhe ver que o jovem não precisa de ser tão duro consigo mesmo, não precisa de tomar responsabilidade por tudo, que existe mais gente no grupo. É nesse momento que desbloqueia o MegaloGargomon. Depois desta, Jian não torna a perder a cabeça desta maneira – o que é de admirar, tendo em conta o que acontece a seguir, em Tamers.

 

Shaochung não é o único membro da família de Jian a contribuir para a história. Conforme referido antes, o seu pai, Jiang-yu, fez parte do Grupo Selvagem, que criou os Digimon.

 

O filho, no entanto, ignora esse facto durante muito tempo. Jiang-yu oferece-lhe o videojogo de Digimon, vê o filho colecionando as cartas. A partir de certa altura, vê dois dos seus filhos brincando com um peluche de Digimon. Mas não lhe ocorre revelar ao filho o seu papel nas origens da franquia. Jiang-yu nem sequer diz a verdade a Jian quando este lhe mostra uma carta azul que lhe veio parar às mãos e o pai deteta o código de Shibumi.

 

Em defesa de Jiang-yu, também o filho não lhe conta que o peluche é, na verdade, um Digimon. Nem que passa muito do seu tempo livre – incluindo de noite – lutando com outros Digimon.

 

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Em ambos os casos, a verdade só vem à tona quando Jian-yu dá com o filho, Takato e os respetivos Digimon sendo importunados por Impmon, no parque. Este último chega a atirar uma bola de fogo a Jiang-yu, só mesmo para este ter a certeza de que não está a alucinar.

 

Pouco depois de Jianliang descobrir a verdade sobre o Grupo Selvagem, Yamaki recruta Jiang-yu e outros membros do grupo como colaboradores do Hypnos. Jiang-yu parece assumir, de início, que o objetivo é retomar o projeto dos Digimon – só alguns episódios mais tarde é que se descobre que Yamaki pretende usar os conhecimentos deles para ativar o Shaggai uma segunda vez, para expulsar todos os Digimon do Mundo Real.

 

Jiang-yu protesta, pois o programa expulsará também os Digimon do filho e dos amigos dele – ainda que Yamaki lhe aponte, não sem razão, que Jiang-yu começara tudo aquilo vinte anos antes e o envolvimento de Jiangliang e das outras crianças com os Digimon colocava as suas vidas em perigo.

 

A atitude de Jiang-yu no que diz respeito ao Shaggai mudará mais à frente na história. Para já, como referido antes, uma vez mais, a ativação do Shaggai causa mais problemas do que aqueles que resolve. Ainda assim, Jiang-yu acha por bem fazer o seu mea culpa perante o filho e os amigos. Só torna a colaborar com Yamaki vários episódios mais tarde – depois de este bater no fundo e reerguer-se.

 

Durante o resto dos eventos de Tamers, aliás, Jiang-yu e o resto do Grupo Selvagem trabalham em conjunto com o Hypnos, dando apoio aos Treinadores – tanto quando estes se encontram no Mundo Digital como durante a luta contra o D-Reaper, em Shinjuku.

 

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É durante a luta contra o D-Reaper, aliás, que ocorre um momento-chave na caracterização tanto de Jian como do seu pai. Depois de vários planos falhados, Hypnos e o Grupo Selvagem levam a cabo a Operação Joaninha. Se percebi corretamente (se estiver errada, avisem-me!), Jiang-yu instala uma versão do Shaggai em Terriermon. Este será ativado quando o MegaloGargomon se enfiar no vórtex, criado pelo D-Reaper, que une o Mundo Real ao Digital. Depois de ativado, o MegaloGargomon começará a girar a grande velocidade no sentido oposto ao do vórtex (um minuto de silêncio pelo estômago de Jian), revertendo o D-Reaper ao seu estado inicial, mais básico que uma calculadora, inofensivo.

 

O que Jiang-yu não revela ao filho é que a Operação Joaninha implicará o regresso dos companheiros Digimon ao Mundo Digital. A verdade só vem à tona poucos minutos após a neutralização do D-Reaper, numa altura em que os Digimon já começaram a… bem, desdigievoluir.

 

Esta é uma cena de fazer chorar as pedras da calçada, como veremos mais tarde, mas acho que qualquer um faria o mesmo no lugar de Jiang-yu. A ameaça do D-Reaper ganhara escala mundial, toda a Humanidade estava em risco de ser aniquilada. Por comparação, a expulsão dos companheiros Digimon é um preço razoável a pagar. E se, aquando da situação com o Vikaralamon, Jiang-yu não estava disposto a arriscar a perda dos Digimon das crianças, agora já não se pode dar a esse luxo.

 

Mesmo do ponto de vista da narrativa, nesta fase do campeonato uma solução fácil não seria credível. Aliás, em Tamers não há soluções fáceis, ponto.

 

Ainda assim, quando diz a verdade ao filho, Jiang-yu considera-se indigno de perdão. Um dos momentos mais bonitos em toda a série é a imagem de Jianliang lavado em lágrimas, mas sorrindo ao pai e abanando a cabeça – mostrando a Jiang-yu que o perdoa.

 

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Fico contente por ser essa a última imagem que vemos de Jian.

 

Qual é, então, a lição que Jianliang aprende ao longo de Tamers? Eu diria que é de flexibilidade. Aprende a ser mais flexível consigo mesmo, com as suas crenças, com os demais. Muda ainda menos que Takato em relação ao início da história, mas também não precisa

 

Agora que penso nisso, a lição que Jian aprende é o lema de Terriermon: Moumantai! Tem calma, não há problema, não faz mal. Não sendo a minha personagem preferida, nem aquela em que mais me revejo, essa é uma lição valiosa para qualquer um de nós.

Digimon Tamers #6 – Um líder igual a nós

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Para mim, os elencos em Digimon sempre foram ponto de destaque. Como referi antes, as oito Crianças Escolhidas de Adventure são provavelmente o meu elenco ficcional preferido de todos os tempos. Em 02, não gosto assim tanto das Crianças Escolhidas mas, como referi antes, os vilões são interessantes.

 

Um problema comum, no entanto, é o facto de o desenvolvimento das personagens não ser igual para todos. Regra geral, os dois protagonistas masculinos recebem mais tempo de antena que qualquer um – e conseguem desbloquear um nível superior de digievolução.

 

É compreensível – não é fácil ligar com elencos de seis ou oito miúdos mais companheiros Digimon, mais vilões, mais personagens secundárias, como outros Digimon e familiares dos miúdos.

 

Não digo que Tamers não cometa esse pecado, mas lida melhor com ele. Em vez de tentar vender um grupo de seis ou oito como protagonistas, Tamers assume preto no branco que apenas três miúdos o são – embora Juri acabe por ganhar o estatuto de protagonista, na segunda metade da temporada.

 

Foi uma decisão acertada, a meu ver: os três protagonistas recebem o desenvolvimento devido. Os outros vão aparecendo na história de maneira mais ou menos consistente mas, como fica claro desde o início que estão na categoria abaixo, os guionistas podem dar-se ao luxo de não perder muito tempo com eles.

 

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Outra diferença em relação ao universo de Adventure é o facto de o elenco de Treinadores não formar de imediato uma equipa – nem mesmo o trio principal. Isso deve-se em parte a Ruki, cuja atitude inicial choca com as de Jian e Takato. Além disso, suponho que o facto de só haver visita ao Mundo Digital a meio da história também contribua para esse efeito – não existe o instinto de agrupar com outros humanos, contra um mundo desconhecido.

 

Mesmo assim, não é invulgar vermos cada um dos três protagonistas atuando a solo, apenas com os seus companheiros Digimon. Todos eles possuem um certo grau de introversão, algo em que me revejo.

 

Por outro lado – talvez mesmo em sentido completamente oposto – vemos também os protagonistas, sobretudo Takato, apoiados por outros miúdos, vários dos quais nem sequer são Treinadores. Falo em particular dos colegas de turma de Takato: que brincam com o Guilmon, levam-no à socapa para o acampamento da escola, que fazem chegar uma Carta Azul às mãos de Jian.

 

Isto também é algo que não se viu em Adventure. Os Escolhidos guardavam sigilo rigoroso sobre os Digimon e as suas aventuras. Não que os seus equivalentes, em Tamers, não o façam, mas são mais flexíveis – em parte, penso eu, porque a população infantil sabe o que são Digimon. Em todo o caso, é agradável ver esta rede de apoio, de cumplicidade, em torno dos Treinadores, guardando segredo dos adultos, ajudando os protagonistas da maneira que podem.

 

Os outros Treinadores, tirando Shaochung e Ryo, vêm deste grupo, aliás. E mesmo que estes, à exceção de Juri, não sejam tão desenvolvidos como os três protagonistas, mesmo que, a partir de certa altura, pareça que os digiguionistas estava a adicionar novos Treinadores só pelo gozo, nenhum deles me parece supérfluo – nem mesmo Ryo. Conforme veremos mais à frente nesta análise, de uma maneira ou de outra, todos contribuem para a história.

 

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A verdade é que Tamers tem um elenco surpreendentemente rico e caracterizado. Há personagens mais desenvolvidas do que outras, sim, mas praticamente tudo o que se mexe tem pelo menos alguma personalidade (penso que seja uma manifestação de um dos conceitos da temporada, inteligência artificial). A professora de Takato: as funcionárias do Hypnos; a arca que traz os miúdos do Mundo Digimon para o Mundo Real; Alice, a miúda que funciona como Deus Ex-Machina para permitir formas Extremas no Mundo Real, que poderá ou não ser um fantasma.

 

Não vou falar de todas estas personagens, apenas daquelas que considero mais relevantes e/ou sobre as quais tenha algo a dizer. Existirão personagens sobre as quais não me alongarei muito ou de que não falarei de todo, precisamente porque não acho que tenha alguma coisa a dizer que outros não tenha dito melhor.

 

Comecemos, então, por falar de Takato, o gogglehead da temporada, que pouco tem em comum com os goggleheads anteriores. Enquanto Taichi e Daisuke se encaixam mais no estereótipo do herói-alfa – extrovertidos, impulsivos, confiantes, partindo para ação sem pensar muito nas consequências, levando os companheiros por arrasto – Takato é mais para o gentil e sensível. Por outras palavras, se Taichi e Daisuke são claros Gryffindor, Takato é um Hufflepuff (com traços de Gryffindor).

 

Consta que Takato foi criado para representar o típico fã de Digimon: é um miúdo de dez anos como qualquer outro, sem qualquer talento especial ou qualidade que os distinga dos demais para além do seu amor pela franquia. Que se envolve na história porque a sua fanart, o Digimon que ele mesmo inventa, ganha vida.

 

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Takato é frequentemente visto rodeado de amigos, mas não é particularmente carismático. Possui, aliás, alguns traços de introvertido (algo que os três protagonistas têm em comum). Não tem a personalidade dominadora típica, não só dos antigos goggleheads, mas também da maior parte dos protagonistas de histórias infantis.

 

Neste contexto, personagens como Takato correm o risco de serem interpretados como tímidos e sossegados para não dizer bananas. Os próprios produtores de Tamers reagiram assim, quando Konaka lhes apresentou a ideia. Estou certa, também, que pelo menos uma parte da audiência, sobretudo enquanto crianças, pode não ter achado grande piada a Takato – até porque ele chora um bocadinho demais do que demasiados consideram aceitável para um rapaz.

 

Mas a verdade é que é realista, mais realista que Taichi e Daisuke. O primeiro, então, só se tornou mais contido e ponderado em Tri. Por muito que custe nos custe a engolir, sobretudo enquanto miúdos, muitos de nós somos parecidos com Takato. Eu pelo menos sei que sou – mais sobre isso já a seguir.

 

Conforme referi acima, a história de Takato, e de Tamers em geral, começa quando nasce Guilmon, um Digimon desenhado pelo próprio jovem – sem pensar na parte prática de ter um Digimon, diga-se. Nos primeiros episódios de Tamers, Guilmon age como o recém-nascido que é. Ou melhor, como um cão que fala. Possui um pensamento inocente e infantil, só quer estar e brincar com o seu Treinador, e não compreende porque é que tal nem sempre é possível. Chega mesmo a virar a cabeça como a minha Jane. 

 

Por outro lado, apesar da sua natureza gentil e inocente, apesar de estar a ser criado por um humano, sem nenhum contacto com o Mundo Digital, tem os mesmos instintos agressivos dos Digimon deste universo. Na presença de outros membros da sua espécie, tem uma reação equivalente a pêlo eriçado e, quando entra em modo de agressão, é muito difícil de ser travado.

 

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Ora, Takato, ainda uma criança, não muito mais maduro que o próprio Guilmon, fica encarregue deste monstrinho que ele mesmo criou. Durante a primeira parte da narrativa, vêmo-lo tentando aprender a lidar com a sua nova responsabilidade com vários percalços pelo meio.

 

É nestes momentos que mais me revejo em Takato. Algo que tenho vindo a descobrir sobre mim mesma é que eu tenho algumas dificuldades em adaptar-me a experiências novas: quando aprendi a conduzir, quando comecei a trabalhar, quando arranjei uma cadela. Cometo erros enquanto estou a aprender. Não consigo deixar de ver uma parte de mim nas cenas em que Takato tenta colar os pedaços da sua vida enquanto Treinador com tiras de fita-cola, com muitas lágrimas à mistura.

 

Takato receia, ainda, vir a ficar sem Guilmon tão facilmente como o encontrou… e infelizmente os seus receios acabarão por se concretizar, como veremos adiante. Por sinal, são esses mesmos receios que catalisam a primeira ocasião em que Takato, Jian e Ruki trabalham como equipa – para resgatar Guilmon, que ficou preso uma estranha dimensão que não chega a ser explicada devidamente.

 

Depois de aprender os princípios básicos da vida de Treinador, Takato encontra-se num meio termo entre o pacifismo de Jian e a ambição de Ruki. Consegue por um lado desfrutar das lutas com Digimon – chega a passar por uma fase muito típica de excesso de confiança. No entanto, sente por vezes receio da natureza selvagem de Guilmon. Por vezes sente relutância em deixá-lo digievoluir, com receio daquilo em que Guilmon se pode transformar.

 

A jornada de Takato enquanto Treinador passa, precisamente, pela aceitação de Guilmon tal como ele é, como um igual, como um companheiro de batalha. É o que acontece, por exemplo, na estreia de MegaloGrowlmon.

 

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Nesta parte da história surge Mihiramon, o primeiro Deva, o primeiro adversário de nível Perfeito, com um objetivo específico (que no entanto só conhecemos muito depois). Renamon e Terriermon tentam a sua sorte primeiro, mas não conseguem fazer-lhe um arranhão e quase morrem no processo. Takato envia Guilmon para a batalha com visível relutância – não só receia que o seu Digimon não esteja à altura do desafio, como também que este perca a sua... bem, humanidade... ao digievoluir para um nível superior.

 

Ora, tal como os outros dois, Growmon leva uma sova e fica a isto de se desfazer em partículas digitais. Nisto, Takato entra numa espécie de transe telepático com o seu Digimon. É aqui que percebe que, para sobreviverem àquela luta, para que o jovem seja digno do título de Treinador, tem de dominar os seus medos. Tem de crescer – não, não, de digievoluir em conjunto com Guilmon.

 

Esta parte funciona bem ao indiciar a maneira como o nível Extremo de Guilmon será desbloqueado... mas estou a adiantar-me um pouco.

 

Existe um momento nessa jornada em que Takato dá um grande passo atrás – já na parte que decorre no Mundo Digital. O jovem descobre as origens de Guilmon e dos Digimon em geral da boca do estranho fantasma de Shibumi. O facto de Guilmon ter sido criado pelos Digignomos, a partir de bolsas de dados aleatórios, deita-o um pouco abaixo. Como se acreditasse que tal origem torna Guilmon menos real, não verdadeiramente um ser vivo. Dá para ver o impacto que isso tem na relação entre os dois quando estes se reencontram.

 

É possível que isso tenha influenciado o que acontece a seguir, pelo menos em parte.

 

Chegou a altura de falarmos da morte do Leomon. Em versão condensada, Impmon, um Digimon que os Treinadores consideravam um aliado, senão um amigo, faz um pacto com o diabo, quase literalmente, para desbloquear a sua digievolução para Beelzebumon em troca da morte dos miúdos. No combate em que tenta cumprir a sua parte do acordo, assassina Leomon.

 

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Antes de prosseguirmos, tenho de fazer um aparte. Estou surpreendida por ainda não o ter visto referido em lado nenhum, mas o filme Kyousei de Tri parece ter plagiado esta parte. Tanto em Tamers como em Kyousei há uma cena de morte às mãos de um suposto aliado (embora em Kyousei só Daigo tenha morrido e mesmo assim não de imediato). Em reação, um dos miúdos perde o controlo das suas emoções, fazendo com que o seu Digimon sofra uma digievolução negra. A mera existência da criatura resultante é suficiente para ameaçar a estabilidade do Mundo Digital.

 

Será coincidência?

 

No caso de Tamers, quem morre é Leomon – não o Digimon de Takato, mas o Digimon do seu interesse amoroso, um Digimon bom e honrado, a quem os miúdos se tinham afeiçoado. E às mãos de um Digimon que consideravam um aliado, senão um amigo, com quem tinham chegado a brincar!

 

Acho que qualquer um teria perdido a cabeça nestas circunstâncias. Takato ainda vai mais longe, ao perder por completo qualquer vestígio de compaixão ou racionalidade e ao ordenar a Guilmon que digievolua para uma forma suficientemente forte para enfrentar Beelzebumon. São apenas alguns minutos de loucura, mas chegam para criar o Megidramon e para o D-arco de Takato se estilhaçar.

 

Não admira. Conforme vimos antes, uma das funções de um Treinador é manter os instintos violentos do seu Digimon sob controlo. Takato acaba de fazer o completo oposto.

 

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A sorte do miúdo é que, apesar do potencial destrutivo de Megidramon, Beelzebumon, para seu crédito, consegue fazer-lhe frente. Takato, aliás, demora muito pouco tempo a fazer o seu mea culpa. Até porque Juri, a pessoa por quem ele supostamente fizera isto, teme-o e ressente-se dele por ter obrigado Guilmon – um Digimon de quem ela também gostava – a transformar-se naquela monstruosidade.

 

A chave para a evolução de Takato – e consequente digievolução de Guilmon – passa, mais uma vez, pelo reconhecimento de que Guilmon é o seu parceiro, o seu igual. Não um monte de dados, não um mero veículo para a sua raiva, para os seus desejos de vingança. Takato vai ainda mais longe, ao desejar lutar ele mesmo ao lado de Guilmon, como se fossem um só.

 

E é o que acontece. Literalmente.

 

Está na altura de falarmos sobre as formas Extremas dos Digimon protagonistas, em Tamers. Pois… era absolutamente necessário que as crianças estivessem nuas?

 

É certo que estas surgem, como se costuma dizer, com a anatomia de uma Barbie e não num contexto erótico. Por um lado, se é para haver nudez (e já fui mais comichosa nestas coisas), seja em que contexto for, que seja com adultos com capacidade de consentir. Por outro lado, também não acho que estas imagens sejam inadequadas para crianças – as transformações das Navegantes da Lua eram um bocadinho piores nesse aspeto. É um daqueles casos em que, se calhar, um miúdo não vê nenhum mal, mas um adulto não consegue evitar pensar nas implicações.

 

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Além disso, sejamos sinceros, se Tamers traumatizou criancinhas, não foi de certeza com a nudez dos protagonistas.

 

Enfim, fechemos este parêntesis.

 

A forma Extrema de Guilmon, Dukemon, é um cavaleiro, um literal “Knight in Shinning Armor”. Faz sentido – é essencialmente para isso que Takato evolui: um típico herói, que luta não pode glória pessoa ou soberba e sim por causas nobres. Por aquilo em que acredita estar certo, por aqueles que ama.

 

Takato, aliás, passa o último terço de Tamers tentando resgatar uma donzela em apuros. E pelo meio arranja um corcel: Grani.

 

Durante algum tempo, senti-me relutante em classificar Takato como líder dos Treinadores – porque, lá está, não possui uma personalidade dominadora, como Taichi e Daisuke, e, regra geral, não existem muitas divergências de opinião no grupo. A sua liderança é diferente.

 

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Para começar, tirando Shaochung, a irmã de Jianliang, e Ryo, Takato é o elo comum entre todos os Treinadores. Jian dá uma ajuda a Takato quando descobre que este também tem um Digimon; como referimos acima, o jovem pede ajuda a Ruki para resgatar Guilmon. Por sua vez, Hirokazu e Kenta já eram amigos de Takato, antes, quiseram tornar-se Treinadores certamente por influência dele.

 

Para além disso, conforme observado aqui, Takato acaba por ser a força motriz do grupo, tomando as principais decisões, lá está, não porque prefere agir primeiro e pensar depois, e sim porque sabe o que é preciso ser feito – convencendo os amigos a fazê-lo também. Foi dele que, por exemplo, partiu a ideia de ir até ao Mundo Digital atrás dos raptores de Culumon.

 

Por fim, na quinta parte da história, os três protagonistas decidem, cada um por si mesmos, enfrentar o D-Reaper mas, assim que se descobre o papel de Juri naquela confusão, Takato, como seu interesse amoroso, está mais motivado que qualquer um para resgatá-la – levando-o a assumir, naturalmmente, uma posição de liderança.

 

Em suma, na minha opinião, a evolução de Takato enquanto personagem baseia-se em dois aspetos: na sua relação com Guilmon e no despertar do seu lado heróico. Não muda radicalmente no decurso da história, mantém a sua faceta amável e sensível – o que é admirável tendo em conta aquilo por que passa para derrotar o D-Reaper. Apenas se transforma numa versão mais madura e heróica de si mesmo.

 

E tendo em conta que, no início, ele era igual a nós, um mero fã de Digimon, com inseguranças, que comete erros, gosto de pensar que, em circunstâncias parecidas, também seríamos capazes de nos transformarmos em heróis.

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