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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Top 10 música portuguesa #2

Segunda parte do meu top 10 de música portuguesa. Podem ler a primeira parte aqui.

 

Chegámos ao pódio da tabela. O bronze foi para...

 

3) João Pedro Pais – Louco Por Ti

 

Acho que nunca ouvi um álbum dele do princípio ao fim, só os singles, mas João Pedro Pais sempre foi um dos meus cantores portugues preferidos. As minhas primeiras recordações dele são de vê-lo cantando na televisão, no final dos anos 90. Depois disso, João foi sempre uma presença assídua nas rádios, nas bandas sonoras de telenovelas, nas compilações que ia comprando.

 

 

Um aspeto curioso em relação a João é a sua ligação a Bryan Adams (que, como vocês saberão, é o meu cantor preferido). Bryan convidou-o para abrir os seus concertos na Península Ibérica na digressão de 2003. Um gesto simpático… mas João teve de pagar as viagens do seu próprio bolso (que forreta, senhor Bryan!). Em todo o caso, João acabou por fazer amizades na banda dele. Mais tarde, voltou a abrir para Bryan em 2005 (e chegou a dar um saltinho à entrevista à RFM, incluída no DVD Live in Lisbon) e, ainda melhor, o próprio Keith Scott tocou nalguns álbuns de João. Ambos ficaram bons amigos

 

Pode-se argumentar que João e Bryan têm algumas semelhanças – ambos são cantores masculinos que tocam pop rock e cantam sobre amor. Eu definitivamente tenho preferência por este estilo.

 

A minha música preferida de João Pedro Pais é Louco por Ti, do seu álbum de estreia, Segredos. Em termos puramente musicais, gosto do crescendo no início – começa com um acompanhamento e uma melodia relativamente graves, apenas sintetizadores, bateria e o baixo. A certa altura soa um acorde de guitarra elétrica, a melodia sobe de tom e culmina no excelente refrão. 

 

Outro pormenor de que gosto é do facto de, ao contrário do costume, o solo de guitarra soar depois do terceiro refrão e não antes.

 

Esta canção foi reeditada no álbum 20 anos, que João lançou em 2017 para celebrar duas décadas de carreira. Neste álbum, ele regravou os seus êxitos e eu definitivamente prefiro esta versão de Louco Por Ti.

 

 

Também gosto muito da letra. Um dos motivos pelos quais me afeiçoei à música foi por se aplicar bem à uma história que escrevi quando era adolescente. Da maneira como a interpreto, Louco por Ti fala sobre o início de uma relação (vamos assumir que é um casal heterossexual). Ambas as partes estão interessadas, mas ela é mais atrevida, mais "prá frentex" (ainda se usa essa expressão?), enquanto ele – o narrador – é mais retraído, em parte por causa de pressões de terceiros. No fundo é um conflito entre o desejo e a timidez. 

 

Não digo que Louco Por Ti esteja objectivamente entre as melhores canções portuguesas, mas é uma das minhas preferidas. Agora espero voltar a ter uma oportunidade de ver João Pedro Pais ao vivo, tocando esta e muitas outras. 

 

2) António Variações – Canção do Engate

 

Nem toda a gente concordará com algumas das minhas escolhas nesta lista de melhores canções portuguesas, mas acho que esta será bastante consensual. Não preciso de apresentar António Variações, toda a gente sabe quem foi. Uma das grandes injustiças deste mundo é ele ter tido uma carreira tão curta. O VIH é uma grande besta.

 

Há quem acredite no “live fast, die young” no que toca a músicos. Há quem romantize artistas como estes, que desaparecem enquanto estão em alta, sem nunca produzirem trabalhos de menor qualidade que os seus antecessores, sem nunca perderem a juventude, a beleza, a energia. E, nos tempos que correm, sem nunca serem “cancelados”.

 

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Eu não alinho nisso. Já tive as minhas perdas e cheguei à conclusão que quero vidas longas para os “meus” músicos. Mesmo que os trabalhos vão perdendo qualidade, mesmo que deixem de fazer música. Ao menos estarão cá para cantarem os velhos êxitos nos concertos ou, na pior das hipóteses, continuarem a ouvir os elogios e as homenagens.

 

Tenho pena, assim, de não ter vivido ao mesmo tempo que António Variações. Uma coisa que me surpreendeu no filme Variações – corroborada mais tarde, quando pesquisei sobre o assunto – foi o lado mais tradicional de António. A sua paixão pela música tradicional portuguesa, por Amália Rodrigues (com quem fez amizade), e em simultâneo um artista à frente do seu tempo, com um visual arrojado e influências modernas.

 

Se me permitem o parêntesis, há uns tempos encontrei uma entrevista de Júlio Isidro à dona Deolinda de Jesus, mãe de António Variações, e ao irmão dele, uns anos após a sua morte. Aparentemente foi retirada do YouTube pois agora já não a encontro. O que é uma pena. Gostava que ouvissem a ternura com que D. Deolinda falava sobre o filho. Daquilo que me recordo da entrevista (e posso estar a recordar mal), a música preferida dela era “É P’ra Amanhã” e ia repetindo que o António “era muito amigo da sua mãe”.

 

Não tenho experiência própria do Portugal dos anos 70 e 80, mas imagino que não tenha sido fácil para D. Deolinda apoiar o filho. Era a obrigação dela como mãe, claro, mas vivia numa aldeia do interior, num Portugal ainda a recuperar da ditadura, e tinha um filho homossexual e exuberante. Imagino o que ela terá ouvido. 

 

Mas encerremos este aparte. A minha música preferida de António Variações é a Canção do Engate, uma das mais conhecidas dele. 

 

O título foi uma das últimas coisas que descobri acerca da música. Não me recordo exatamente como descobri, mas lembro-me de ter ficado surpreendida. “Canção do Engate”? A sério? Um título tão prosaico, quase brejeiro, para uma música tão bonita?

 

 

A verdade é que esse paradoxo define bem a canção. É uma maneira bonita de tentar seduzir alguém para um caso de uma noite de só, de… bem, engatar alguém. A música procura romantizar algo que não é propriamente romântico, pelo menos não da maneira tradicional. A letra fala de duas pessoas que pretendem usar-se uma à outra para combater a solidão. Uma dela ainda tem esperanças numa ligação romântica, outra – o narrador – tem uma perspetiva mais cínica, quer sexo e mais nada.

 

Agora que penso nisso, faz-me lembrar Give You What You Like, de Avril Lavigne – é como se fosse a perspetiva da outra pessoa. I’ve got a brand new cure for lonely (“brand new” é como quem diz… Deve ser das curas mais antigas da humanidade). A narradora sente-se sozinha, aceita envolver-se com a outra pessoa desde que esta finja que a ama, nem que seja só por uma noite. 

 

Por outro lado, não podemos ignorar que a letra terá quase de certeza sido inspirada pelas experiências de Variações como um homem homossexual nos anos 70 e 80, conforme referido neste artigo. Não me vou alongar muito pois não faço parte da comunidade, não tenho direito a isso.

 

Toda a música, aliás, tem um tom algo melancólico, fruto tanto da letra como do acompanhamento musical e da interpretação de Variações. Não é óbvio à primeira audição, mas quando reparamos nele não dá para ignorar. Uma vez mais, esta melancolia, esta solidão, é uma coisa muito portuguesa. 

 

Como seria de esperar uma música extraordinária como esta, existem várias versões por outros artistas. Não gosto muito da versão do filme Variações – Sérgio Prata não canta a melodia como deve ser – mas gosto do instrumental e Sérgio tem uma voz fantástica.

 

 

Há coisa de uma década, Tiago Bettencourt gravou a sua própria versão – acústica, acompanhada por uma orquestra. Andei obcecada por esta em 2014, altura em que a apanhava muitas vezes na rádio. É uma versão lindíssima: a orquestra dá um tom grandioso à canção.

 

Essa obsessão arrefeceu, mas ainda gosto muito desse cover. Por estes dias, tenho andado fixada na versão dos Delfins. Já falámos deles na publicação anterior, a propósito de 1 Lugar ao Sol. Por sinal, essa música tem algumas semelhanças com a versão deles de Canção do Engate. É também um tema pop rock cuja produção confere um carácter atmosférico à música. Atentem à secção instrumental depois da segunda estância. 

 

Outra diferença em relação ao original é o ritmo mais rápido. Isso por um lado é bom: praticamente a única falha da versão do Variações é esta por vezes arrastar-se. Por outro lado… a música original era mais lenta por um motivo. Pode-se argumentar que a versão dos Delfins é um tudo nada demasiado alegre. Mas é uma falha menor, na minha opinião.

 

António Variações teve uma carreira mais curta do que merecia, mas ainda conseguimos sentir o impacto do seu trabalho nos dias de hoje. Ainda agora Marisa Liz interpretou um inédito de Variações, intitulado Guerra Nuclear. Gosto imenso da música – terá sido composta há coisa de quarenta anos mas é assustadoramente relevante nos dias de hoje. 

 

Quer-me parecer que a música de António Variações continuará no imaginário colectivo durante muitos anos ainda. Gosto de pensar que estou a contribuir para isso com este texto. Fica aqui. 

 

1) GNR – Sangue Oculto

 

 

Chegámos ao topo da lista. Sangue Oculto é uma canção que descobri quando tinha nove ou dez anos. Se a memória não me falha, foi quando me ofereceram o meu primeiro Discman (quem não saiba o que é, que vá ao Google), juntamente com a compilação Anos 90 Bem Medidos. Esta era a faixa que abria o segundo CD – por causa disso, ainda hoje, de vez em quando, gosto de ouvir Mundo de Aventuras depois de Sangue Oculto. Fiquei muito rapidamente obcecada pelo tema dos GNR e de Javier Andreu. Lembro-me de imaginar os três protagonistas de Sonic Underground (na altura passava no Batatoon) tocando esta música.

 

Infelizmente, acabei por perder o segundo CD e estive vários anos sem ouvir Sangue Oculto, tirando uma vez ou outra. Por sinal, uma das vezes foi numa das minhas primeiras visitas ao Alvaláxia, no primeiro ano de vida do Estádio Alvalade XXI. Alguns meses mais tarde, no dia em que ia ver o Portugal x Espanha do Euro 2004 – o meu primeiro jogo de futebol – lembrei-me da ocasião e andei a cantarolar a canção para mim mesma. Na altura não me ocorreu o quão adequado era cantar um dueto luso-espanhol no dia de um duelo ibérico. Pouco mais de um ano mais tarde, no dia do meu segundo jogo da Seleção – se não me engano, um jogo com o Luxemburgo, no Estádio do Algarve – apanhei a música na rádio.

 

Todas estas coincidências fizeram com que começasse a associar a música à Seleção. Anos mais tarde, adicionei-a à respetiva playlist. Adequa-se particularmente a jogos entre Portugal e Espanha, como disse acima. Durante o Mundial 2018, a RTP3 fez uma pequena montagem com imagens do nosso empate com nuestros hermanos e eu adorei. 

 

Não me posso esquecer de fazer uma story ou algo similar quando jogarmos com eles, na próxima semana.

 

Recuando um pouco, em finais de 2007, descobri que era possível comprar ficheiros de mp3 no site da RFM. Eu já usava leitores de mp3 há algum tempo, mas apenas com músicas “ripadas” de CDs (a única exceção era a discografia dos Linkin Park, conforme escrevi aqui). Tinha boas intenções, queria continuar a adquirir música legalmente (a maior parte das vezes, pelo menos), logo, usei esse site e a primeira música que comprei foi precisamente Sangue Oculto. 

 

 

Acabei por apanhar um balde de água fria pois o meu leitor de mp3 não conseguia ler o ficheiro que eu comprara (acho que estava bloqueado ou assim). Conseguia ouvi-lo no computador, mas não em mais lado nenhum. 

 

Algumas semanas depois saquei a música por meios… menos legais. Aliás, toda esta experiência dissuadiu-me de comprar música online durante vários anos. Ainda assim, no meu cânone pessoal, Sangue Oculto destaca-se por ter sido a primeira música que saquei da Internet eu mesma.

 

Mas está na altura de falarmos sobre a música em si. Começando pela letra. Sangue Oculto foi tema de um dos primeiros episódios do Responder à Letra de Gilmário Vemba. Aliás, foi esse episódio, ficado na minha canção portuguesa preferida, que me inspirou a escrever este texto. 

 

Não vou defender os GNR nesta. Concordo com o Gilmário, a letra não faz sentido nenhum. Nunca fez, embora eu nunca tenha pensado a fundo nela até ouvir o Gilmário. Isto na verdade é um problema recorrente com os GNR (que, apesar de tudo, são das bandas portuguesas que mais gosto). Como disseram num episódio mais recente de Responder à Letra, muitas vezes não se percebe se é suposto as canções terem algum sentido ou se são apenas frases ao calhas. E se o Gilmário se puser, um dia, a ouvir Ana Lee, até se passa. 

 

Mal posso esperar. 

 

 

Regressando a Sangue Oculto, esta letra nem sequer é daquelas suficientemente vagas para projetarmos os significados que queremos: está mais além disso. Ninguém pode refutar as nossas interpretações porque a letra não é suficientemente coerente para alguém discordar. 

 

Por exemplo, no meu caso, eu associo-a à Seleção, ainda que sobretudo por motivos alheios à letra em si. Por outro lado, encontro algumas semelhanças com a letra de Heat of The Night, de Bryan Adams – também ela confusa, com referências vagas a fogo e/ou calor e luta nas ruas. Por outro lado, consta que Sangue Oculto fez parte da banda sonora de Lua Vermelha, uma série vampiresca da SIC que tentava explorar a febre Twilight… o que acho hilariante. 

 

A propósito, parece que a SIC se prepara para estrear uma novela chamada Sangue Oculto. Terá mesmo sido inspirada por esta canção, já que soa durante o genérico. Ironicamente, as premissas parecem ser exatamente aquelas que o Pôr-do-Sol caricatura (ainda só vi os primeiros episódios). Ninguém na SIC percebeu a mensagem…

 

Por fim, a propósito do Responder à Letra sobre Sangue Oculto, o António do Odaiba Memorial Day PT disse-me que a música lhe fazia pensar em Digimon Fronteira. Entre as referências fogosas e a barreira/barragem de fogo que pelos vistos é uma fronteira, faz algum sentido.

 

Na verdade, aquilo que mais gosto na música é o instrumental. Do princípio ao fim. Quase todos os instrumentos brilham em Sangue Oculto. O baixo tem um padrão interessante; adoro as notas de piano pontuando o refrão; a bateria vai fazendo o que quer. Quando saquei Sangue Oculto, passado todo aquele tempo, o meu eu de dezassete anos adorou o facto de esta música ter, não só um solo de guitarra mas também um solo de piano. Nem sequer sabia que era possível. 

 

 

Há uns anos, os GNR fizeram um concerto em conjunto com a banda sinfónica da GNR (a Guarda Nacional Republicana, não o Grupo Novo Rock). Gosto imenso do que fizeram com Sangue Oculto – os metais soam fantásticos.

 

Por fim, gosto da interpretação de Javier Andreu, mas ainda mais da de Rui Reininho – ele tem uma das vozes mais bonitas de Portugal. Aliás, adoro o facto de isto ser um dueto bilíngue. De as duas partes do refrão serem traduções uma das outras, ainda que imperfeitas (barreira? barragem?), de Reininho e Andreu irem cantando à vez e, depois, ao mesmo tempo. É super giro, é algo que nunca ouvi em mais nenhuma música. 

 

Objetivamente, talvez Sangue Oculto não mereça estar no topo desta tabela. Temas como Canção do Engate, Mariana, Chamar a Música, Porto Côvo ou mesmo Louco Por Ti serão melhores canções. Mas, lá está, Sangue Oculto é uma das minhas preferidas de todos os tempos. Adoro-a há mais de vinte anos. Mesmo merecendo menos do que outras, eu tinha de colocá-la em primeiro lugar. De outra forma, não estaria a ser honesta comigo mesma. 

 

Agora tenho mesmo de ir a um concerto dos GNR, mesmo que Javier Andreu não esteja lá para cantar Sangue Oculto. Mas espero que esteja!

 

E pronto, são estas dez das minhas músicas preferidas em português de Portugal. Foi divertido redescobrir estas canções tão especiais para mim.

 

Quanto aqui ao estaminé, este não deverá ficar parado durante muito tempo. Os Paramore estão finalmente a sair da toca e vão lançar um single – This is Why – no dia 28 de setembro. Naturalmente, esse single será assunto do próximo texto cá do blogue. Não vou começar a escrevê-lo logo logo – This is Why sai no dia a seguir ao jogo com a Espanha, ou seja, ainda estarei ocupada com o meu outro estaminé. Mas não será mau tirar uns dias para refletir sobre a música – e possivelmente ler e/ou ouvir eventuais declarações da banda sobre This is Why e o álbum que se avizinha.

 

Uma vez mais, obrigada pela vossa visita. Continuem por aí.

Top 10 música portuguesa #1

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Uma falha aqui do estaminé é não falarmos o suficiente sobre música portuguesa. Para além de não dar o devido apoio à produção nacional, uma grande fatia da música que oiço é de artistas ou bandas do nosso retângulo à beira-mar plantado. Já estava na altura de isso se refletir aqui no blogue.

 

Antes dos meus doze anos, a maior parte da música que ouvia era portuguesa. Não sei se o meu caso é único e/ou se isso ainda acontece hoje mas, a partir de certa altura, a mensagem que me chegava era que o que era “fixe” era ouvir música em inglês. Estava também numa altura em que já sabia inglês suficiente para compreender as letras, pelo menos em parte.

 

Ainda assim, a música portuguesa esteve sempre presente, mesmo que apenas através da rádio. Quando comecei a usar o Spotify aqui há uns anos – que facilita imenso o acesso a música – passei a  ouvir artistas e bandas portuguesas muito mais ativamente. Aliás, por norma faço um esforço por ter todos os dias um Daily Mix todo em português de Portugal (o que às vezes é difícil, o algoritmo é teimoso...). A minha lógica é que, como estes músicos têm uma audiência bem menor que os músicos anglo-saxónicos, precisam mais das minhas reproduções.

 

Assim, hoje vou deixar-vos o meu top 10 de música portuguesa. Bem, mais ou menos. Não é um top 10 rigoroso por dois motivos. Para tornar o texto mais interessante, não vou repetir artistas ou bandas e não vou incluir músicas que já abordei aqui no blogue. Porto Côvo, por exemplo, ocuparia um dos lugares cimeiros, mas, como já teve direito ao seu próprio texto, incluí-la neste seria redundante. Desse modo, pensem nisto não como um top 10 e sim em dez músicas portuguesas que estão entre as minhas preferidas.

 

E talvez um dia escreva uma segunda parte, com outras dez músicas. 

 

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Olhando para esta lista, uma coisa que se destaca é que… estas músicas são antigas. A mais recente tem vinte anos. 

 

Isto tem duas explicações. Em primeiro lugar, como verão já de seguida, quase todas estas canções têm uma história pessoal associada e/ou descobri quando era miúda. Em segundo lugar, muitas destas músicas têm sobrevivido ao teste do tempo, ainda hoje passam nas rádios. Ainda por cima, a rádio que mais oiço neste momento é a m80. 

 

Não significa que não haja música portuguesa após o início dos anos 2000 de que eu goste. Eu aliás ando a gostar de ouvir a Bárbara Tinoco e também as músicas Talvez de Carolina de Deus e Mais ou Menos de Rita Rocha. Se sempre escrever uma sequela a este texto, hei de incluir músicas mais recentes.

 

Como o costume, tinha muito sobre que escrever. Assim, este top 10 virá em duas partes. Deixo o pódio para amanhã ou depois.

 

Assim, sem mais delongas, começamos por…

 

10) Anjos – As Long As You Love Me

 

No início dos anos 2000, tive uma fase em que gostava muito dos Anjos. Não durou muito, mas ainda hoje gosto de músicas como Ficarei, Quero Voltar e Perdoa. São um par simpático. 

 

 

Penso que foi no Natal de 2000 que me ofereceram o CD Anjos ao vivo, lançado no mesmo ano. Apesar de ser um álbum ao vivo, a primeira faixa foi gravada em estúdio. É o tema Quando Fores Grande, que os Anjos lançaram a propósito de uma campanha conjunta com a Swatch – também me ofereceram o relógio, se não me engano em conjunto com o CD. Era uma campanha para a construção de uma escola em Timor-Leste, que estava a libertar-se da ocupação indonésia.

 

Saudades desses tempos antes do 11 de setembro, em que parecia que o mundo estava a evoluir para melhor. Sublinhe-se o “parecia”.

 

O videoclipe de Quando Fores Grande dá-me vontade de rir, um bocadinho. É tão… final dos anos 90, início dos anos 2000. Aquela coreografia, as dançarinas com o estômago à mostra…

 

Mas não é de Quando Fores Grande que quero falar, é sobre outra música de Anjos Ao Vivo. A versão que a dupla cantou em palco do grande êxito dos Backstreet Boys, As Long As You Love Me. 

 

Eu fiquei obcecada por este cover. Lembro-me de dançar ao som desta música na minha sala, quando tinha onze ou doze anos. Mesmo anos mais tarde, já depois de me ter cansado das outras músicas dos Anjos, fui mantendo esta música no meu leitor de mp3 (“ripada” do CD). Tive uma fase em que a troquei pela versão original, mas acabei por regressar à versão dos Anjos.

 

 

Uma grande parte da qualidade vem da versão original, claro, com a sua letra romântica e melodia açucarada. Ainda assim, acho que a versão dos Anjos tem um instrumental mais… orgânico, menos produzido, com uma emotividade diferente – nem que seja só por ter sido gravada ao vivo.

 

Ou talvez seja apenas a nostalgia a falar.

 

A música está apenas em décimo lugar precisamente porque está cá quase só por motivos sentimentais. Além disso, não é uma música original, é uma versão de uma música estrangeira – quase nem conta como música portuguesa. Mas eu tinha de incluí-la aqui, porque foi mesmo muito marcante. 

 

9) Rádio Macau – Amanhã é Sempre Longe Demais

 

Esta é uma obsessão recente. Não é propriamente uma canção que adore há muito tempo ou que tenha um grande valor sentimental, como a maior parte dos itens desta lista. Nem sequer tenho muito a dizer sobre ela. Mas gosto imenso de Amanhã é Sempre Longe Demais. 

 

 

A letra não é má. Dois amantes que se despedem depois de uma noite passada juntos e já sentem saudades um do outro. A minha parte preferida da canção é o instrumental. Não percebo como conseguiram aquele efeito “metálico” no acompanhamento (teclado? sintetizadores?), mas eu adoro. 

 

Também adoro a interpretação em tom grave de Xana, a vocalista dos Rádio Macau. Outras versões desta música, como a dos Resistência, acrescentam vocais mais agudos ao refrão e, a meu ver, não ficam tão bem. Nem todas as canções precisam de refrões bombásticos. Outro pormenor na versão original que resultou muito bem são os coros masculinos nos últimos refrões. 

 

Como disse acima, de todas as músicas nesta lista, Amanhã É Sempre Longe Demais será a canção de menor valor sentimental para mim. Se tivesse escrito este texto há dois anos (ou se o escrevesse daqui a dois anos), talvez esta música não estivesse incluída. Ainda assim, Amanhã É Sempre Longe Demais é uma música muito bonita por si mesma, merece todos os elogios. Mesmo que a minha obsessão arrefeça daqui a uns tempos, não me vou arrepender de ter escrito sobre ela. 

 

8) Xutos & Pontapés – À Minha Maneira

 

Tive algumas dificuldades em escolher uma música dos Xutos & Pontapés para esta lista. Gosto de várias músicas deles, mas daí a escolher uma favorita… Estive quase para não incluir nenhuma canção deles nesta lista, mas… são os Xutos!

 

Acabei por escolher À Minha Maneira, da minha playlist da Seleção (mais sobre isso adiante). Não diria que é a minha preferida dos Xutos, mas andará lá perto. 

 

 

Para mim, a música vale sobretudo pela letra – ainda que seja uma mensagem simples, que se explica a si mesma. A minha parte preferida é o refrão, sobretudo os versos "E as forças que me empurram, e os murros que me esmurram, só me farão lutar…" – a forma como se destacam do resto da música, tomando um carácter vagamente atmosférico, mesmo místico, para depois mudar para um tom mais eufórico em "À minha maneira (à minha maneira), à minha maneira!“. 

 

Em 2009, Cristiano Ronaldo usou esta música na sua apresentação no Real Madrid. Há coisa de dez anos, li uma entrevista ao Tim (no jornal Record?) em que este dizia que aprovava a escolha. Mais: Tim achava que a canção condizia bem com a personalidade e a história de vida de Ronaldo. 

 

Como alguém que acompanha a carreira do madeirense desde os seus tempos no Sporting, eu concordo. A determinação em ser o melhor, a sua teimosia, uma certa mesquinhez ao usar as críticas como motivação – há quem lhe atribua a frase “Your love makes me strong, your hate makes me unstoppable”.

 

Isso resultou bem durante a larga maioria dos vinte anos de Ronaldo como profissional. Infelizmente, neste verão vimos o reverso da medalha. Ele queria sair do Manchester United mas, numa altura em que ele está em fim de carreira e ninguém quer montar uma equipa em torno dele (outras pessoas na Internet podem explicar melhor a questão), a sua teimosia e orgulho jogaram contra ele e Ronaldo ficou muito mal na fotografia. 

 

Em todo o caso, é por causa disto que À Minha Maneira tem feito parte da minha playlist da Seleção Portuguesa. Mesmo que a maneira de Ronaldo esteja a voltar-se contra ele mesmo, a mim recorda-me – e perdoem-me por estar a falar disto outra vez a final do Euro 2016. Penso que já o referi algures nas internetes, mas na minha opinião uma das coisas que fez com que ganhássemos foi o facto de toda a equipa ter adotado a maneira de Ronaldo. Depois de um campeonato inteiro lidando com críticas (algumas justas, outras não), quase todo o mundo futebolístico contra nós, culminando com a lesão de Ronaldo, a resposta dos portugueses foi unirem-se contra tudo e contra todos. O resto é História. 

 

 

Esta não é a única canção neste texto que pertence à minha playlist da Seleção. Quando adiciono músicas a essa lista, às vezes estas ganham um lugar especial no meu coração. E como é da Seleção Portuguesa que estamos a falar, tendo a favorecer músicas cantadas em português.

 

Mais exemplos disso já a seguir. 

 

7) Pedro Abrunhosa – Eu Não Sei Quem te Perdeu

 

Neste momento, Eu Não Sei Quem te Perdeu é a minha canção preferida de Pedro Abrunhosa. Possui um tom intimista, só com piano e uma voz enrouquecida. Na minha opinião, a voz de Abrunhosa adequa-se a este género de baladas suaves, como Tudo o Que Eu te Dou e Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar. Não acho que resulte tão bem quando ele eleva a voz – embora até goste de algumas dessas músicas, como Vamos Fazer o Que Ainda Não Foi Feito. 

 

A letra não é má, mas não é nada por aí além. Ao menos não entra nos mesmos territórios bizarros de músicas como Momento ou Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar. Em todo o caso, condiz com a “vibe”, explora o lado romântico do tom intimista do instrumental. 

 

Aliás, gosto mais dessa “vibe”, do “mood” de Eu Não Sei Quem te Perdeu do que da letra em si. Tudo por causa do último filme de Digimon Adventure Tri.

 

Eu sei, eu sei. Passo a explicar. 

 

 

Isto ocorreu há pouco mais de quatro anos, durante o verão de 2018. Lembro-me perfeitamente: estava de férias no Algarve e estava a escrever a análise a Bokura No Mirai. Numa das tardes estava na varanda do meu apartamento de férias, passando o rascunho a computador e ouvindo música no Spotify. Quando estava na parte referente à cena em que o Yamato chora nos braços do Gabumon, calhou tocar Eu Não Sei Quem te Perdeu. 

 

Logo aí achei que a música se adequava àquele momento. Lá está, não pela letra. Aquela não é uma cena romântica, mas é uma cena de vulnerabilidade, de ternura, algo que Eu Não Sei Quem te Perdeu ilustra muito bem com o seu instrumental e o seu tom intimista.

 

Não me interpretem mal, esta é uma canção lindíssima por si só. Merece todos os elogios. No entanto, para mim tem este significado extra de estar associada a um dos melhores momentos de Tri. Sempre que oiço Eu Não Sei Quem te Perdeu, lembro-me do Yamato e do Gabumon… e tento não pensar no que acontece em Kizuna

 

Já que falo nesse filme, lembrete rápido que Digimon Adventure A Última Evolução Kizuna encontra-se neste momento em exibição nos cinemas, dobrado em português de Portugal. Não percam!

 

6) Diva – Mariana 

 

Esta é uma canção que eu estou genuinamente surpreendida por não ser mais popular hoje em dia. No que toca aos Diva, a canção Amor Errante tem mais rotação. É uma música bonita, não me interpretem mal, mas… Mariana é muito melhor! Sou a única a achá-lo? 

 

 

 

Mariana é uma música caída do céu. O instrumental contribui muito para esse efeito, com a percussão, os sintetizadores, a linda harmónica, o baixo e as notas de guitarra elétrica. E, claro, a linda interpretação da vocalista Natália Casanova, absolutamente angelical, uns agudos impressionantes. Eu bem tento atingir essas notas e não consigo… 

 

Por outro lado, os últimos "la la la la" são uma das partes que mais gosto da canção. 

 

A letra é simples mas bonita, falando sobre saudade – um tema muito português. Aliás, servia para fado. Não há por aí ninguém que queira fazer esse cover? 

 

Não preciso de dizer mais nada. Oiçam Mariana e deixem-na falar por si. 

 

5) Sara Tavares – Chamar a Música

 

De todas as canções nesta lista, Chamar a Música será a primeira que conheci. As minhas primeiras recordações dela serão de quando tinha quatro ou cinco anos – acho que na altura estava em todo o lado. Ao pesquisar para este texto, descobri que foi a candidata portuguesa para a edição de 1994 do Festival da Canção – a cronologia bate certo com as minhas recordações.

 

Eu, aliás, só agora é que descobri que a música original é da Sara Tavares. Nos últimos anos andava a ouvir a versão que está disponível no Spotify, cantada por Teresa Radamanto. Eu pensava que era a versão original – não é muito diferente da de Sara Tavares, condizia com as minhas recordações, nunca tinha pensado muito nisso. Daquilo que consegui pesquisar (que não é muito), esta é uma versão gravada em 2009, a propósito do programa da RTP “A Melhor Canção de Sempre”. O objetivo era escolher a melhor candidata portuguesa ao Festival da Canção até à data.

 

 

A versão de Teresa Radamanto é bonita, mas eu gosto mais da versão da Sara Tavares. Estou zangada por não estar disponível no Spotify. Ainda assim, a interpretação de Sara não é o único ponto forte da canção. A letra, da autoria de Rosa Lobato Faria, é provavelmente a melhor de todas as canções desta lista – é um poema, mais do que qualquer outra. Também gosto do acompanhamento musical – é típico das power ballads dos anos 90, não é?

 

Na altura, a música atingiu um respeitável oitavo lugar no Festival da Canção. Está nesta lista por sentimentalismo, mas Chamar a Música é genuinamente uma canção linda. Outra que merecia mais atenção nos dias de hoje. 



4) Delfins – 1 Lugar ao Sol

 

Os Delfins são uma banda que sempre apreciei, de forma intermitente. Quando tinha oito anos, mais coisa menos coisa, andei obcecada com o álbum Saber Amar, lançado um par de anos antes. Os meus tios tinham o CD e eu, com a falta de noção típica de uma menina de oito anos, convenci-os a oferecerem um exemplar ao meu pai no seu aniversário.

 

Ao fim de algum tempo fartei-me, mas o álbum foi marcante. Aqui entre nós, o azul é hoje a minha cor preferida pelo menos em parte por causa da canção A Cor Azul. Mesmo hoje, passados estes anos todos, ando a ouvir algumas das músicas e ainda gosto delas. Temas como Não Vou Ficar, Num Sonho Teu e o tema-título Saber Amar. 

 

Esta última é uma canção super alegre mas que, inesperadamente, encerra algumas verdades. “Contra as armas do ciúme, tão mortais, a submissão às vezes é um abrigo”, “Todas as formas de se controlar alguém só trazem um amor vazio”. O Miguel Ângelo não quer fazer um workshop?

 

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Ora, a música de que vamos falar não pertence ao álbum Saber Amar. 1 Lugar Ao Sol é daquelas músicas que sempre estiveram lá, que ia ouvindo de vez em quando na rádio sem lhe dar muita atenção. No verão de 2019, no entanto, a música cativou-me e tenho andado obcecada com ela nessa altura. 

 

A letra não é nada de especial – basicamente sobre lutar por sonhos. É daquelas letras que são suficientemente sólidas para dar alguma mensagem à música e, ao mesmo tempo, suficientemente vagas para o ouvinte fazer as suas próprias interpretações.

 

Naturalmente, acrescentei-a à minha playlist da Seleção Nacional. 

 

1 Lugar ao Sol, na verdade, tem sido a minha música preferida nessa playlist nos últimos anos. Ainda há relativamente pouco tempo usei-a numa story. Antes disso, durante os play-offs do Mundial 2022, ia cantando a terceira parte de 1 Lugar Ao Sol para mim mesma, como se fosse uma oração.

 

Hão de reparar que, na story, usei a versão ao vivo da música. O que me leva a algo que me tem feito alguma confusão: as inúmeras versões que existem de 1 Lugar Ao Sol.

 

Aparentemente, a primeira foi lançada no álbum U Outro Lado Existe, de 1988. Só fiquei a conhecê-la há pouco tempo, está no Spotify. Não é má, mas nota-se muito que é um produto dos anos 80, não necessariamente no bom sentido.

 

 

Talvez por isso, os Delfins regravaram a música no mesmo ano, juntamente com outros dois temas –  Sombra de uma Flor e 1 Só Céu – num EP que também se chamou 1 Lugar Ao Sol. Esta versão da música foi lançada como single e, segundo a Wikipédia, passou várias semanas nos lugares cimeiros das tabelas musicais. Ainda hoje tem bastante rotação nas rádios – na m80, pelo menos. Mais tarde, foi incluída no álbum Best Of: O Caminho da Felicidade, editado em 1995.

 

Existe uma outra versão de estúdio de 1 Lugar Ao Sol. Esta foi gravada para o segundo volume d’O Caminho da Felicidade, editado em 2013. Pouco menos de uma década depois, foi usada no genérico de Dancin’ Days, uma novela de 2013, fruto de uma parceria entre a SIC e a Globo.

 

Eu diria que esta é a versão mais “pesada” de 1 Lugar Ao Sol, no sentido em se guia mais pelas guitarras, quando comparada com outras versões. Não deixa de ser um tema pop rock, claro.

 

Existem ainda outras versões de 1 Lugar Ao Sol e iremos falar sobre elas. A versão em que me quero focar, a que figura neste top, é a do EP de 1988 e que foi lançada como single. Na minha opinião, tem o arranjo mais intemporal e mais adequado à letra sonhadora. É um tema pop rock à mesma mas mais despojado, com mais sintetizadores, vocais um pouco mais suaves, um carácter mais atmosférico. 

 

 

Em todas as versões de 1 Lugar Ao Sol, a terceira parte da música é a minha preferida. Nesta, no entanto, está num nível absolutamente estratosférico. Tudo por causa do solo de baixo de Rui Fadigas. Esta sequência é pura perfeição musical. 

 

Para grande frustração minha, esta versão de 1 Lugar Ao Sol foi retirada do Spotify algures entre 2020 e 2011. (É por estas e por outras que me recuso a aderir ao Premium, tirando durante promoções e outros eventos especiais). Tenho-a substituído pela versão dos Resistência e pela versão ao vivo. A primeira é uma versão acústica – foi a minha mais tocada no Spotify no ano passado

 

A segunda pertence ao álbum “25 Anos, 25 Êxitos… 1 Abraço” (adoro o título). Gosto da maneira como começa, só com notas de guitarra, para depois explodir com mais guitarras, o baixo, o piano, a bateria. 

 

Ainda assim, continuo a preferir a versão do EP. Fico à espera que um dia regresse ao Spotify. Tenho uma relação relativamente curta com 1 Lugar Ao Sol quando comparada com outras canções nesta lista, mas para mim é uma das melhores da música portuguesa.

 

 

E por hoje ficamos por aqui. Deixo as três líderes de tabela para a segunda parte. Como sempre, obrigada pela vossa visita.

Digimon Frontier #9 – Crise de Identidade

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Não preciso de falar sobre o papel da música em Digimon. Qualquer análise da franquia que eu faça aqui no blogue tem de incluir no mínimo uma referência a música – ou, no caso destas análises longas, uma secção. 

 

Esta é a primeira temporada em Digimon em que não gosto do tema principal de digievolução. O que é uma pena, pois With the Will é o primeiro cantado por Wada Kouji. Não quero dizer que seja má – sei que alguns gostam e, afinal de contas, dá nome a um conhecido site de fãs. Apenas não clicou comigo. 

 

The Last Element, que soa nas digievoluções Extremas e com o Susanoomon, é uma história diferente, no entanto. Muito mais agradável ao meu ouvido, sobretudo o início: as notas eletrónicas no fundo, a guitarra elétrica, o ritmo que abranda e acelera de novo. O início é sempre a parte mais importante no que toca a temas de digievolução, por motivos óbvios, e nesse aspeto The Last Element cumpre muito bem. Mas o resto também está bem conseguido, sobretudo o refrão.

 

Regra geral, não costumo ligar muito às chamadas “character songs”, mas queria falar de duas. A primeira é Salamander, o tema de Takuya, uma das que mais gosto em Fronteira. Funcionaria bem como um tema de abertura. Gosto muito do momento em que soa, no episódio da corrida dos Trailmon. 

 

Por outro lado, a música merecia soar num momento mais significativo da história de Takuya – por exemplo, quando decide regressar ao Mundo Digital – em vez de ser relegada para um mero filler

 

Eu gostava do tema de Kouichi, With Broken Wings, quando o ouvia em episódios como o 33. Um tema blues rock, adequado à personagem e àquela parte da história. No entanto, quando fui ouvir a versão completa da música, apanhei uma desilusão: esta a meio adota um estilo completamente diferente, estraga tudo. 

 

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Falta falarmos sobre a abertura e os encerramentos – deixei-os para o fim deliberadamente. Fire é muito fixe. Todas as aberturas até aqui têm sido boas, mas ainda assim Fire é uma das melhores. É melhor que The Biggest Dreamer, de Tamers. Estará mais ou menos ao nível de Target e Butter-fly, embora seja difícil fazer comparações com esta última. Por um lado é icónica, por outro é demasiado batida, é difícil sermos isentos sobre ela. 

 

Existe uma versão de Fire apenas com piano e voz. Fiquei a conhecê-la com a dobragem portuguesa do último episódio de Fronteira. Não sei se isso aconteceu com a emissão original dos episódios na SIC e/ou Canal Panda ou se foi uma gracinha do PTDigi, mas eles substituíram a abertura normal por esta versão, o que foi bem sacado.

 

É bonita. À semelhança do que já tinha acontecido com Butter-fly, a música ganha uma emotividade diferente sob esta forma.

 

Não adoro a versão portuguesa de Fire, mas não ficou má. Como já aconteceu antes, é uma mulher – a cantora Ana Vieira – a cantar uma melodia composta para um homem. Ainda assim, Ana fez um bom trabalho com ela.

 

Só tenho pena que não tenham escrito a letra de modo a condizer com o “lip syncing” dos miúdos, durante a sequência de abertura (um pormenor de que sempre gostei).

 

Diz que o segundo encerramento de Fronteira, An Endless Tale, é a última contribuição de AiM em encerramentos até Tri, o que é um bocadinho triste. Este tema é um dueto entre ela e Wada Kouji. Faz-me lembrar Aikotoba, do quinto filme de Tri, embora An Endless Tale seja uma power ballad mais clássica e, tenho de admiti-lo, menos original. Nesse aspeto, prefiro o carácter mais intimista de Aikotoba. Também acho que Fronteira usou An Endless Tale um bocadinho em excesso. No entanto, adequou-se perfeitamente à cena final e ao epílogo, que discutimos no texto anterior.

 

 

Deixei o primeiro encerramento de Fronteira – Innocent ~ Mujaki na mama de ~ – de propósito. É a minha música preferida desta temporada. Não sei explicar exatamente porquê mas vou tentar. Uma parte é pura e simplesmente a melodia e o acompanhamento musical, muito agradáveis ao ouvido. Mas acho que será também o carácter agridoce, a conjugação entre a sonoridade alegre e luminosa e a letra melancólica, ainda que esperançosa.

 

Só tenho uma pequena falha a apontar. A letra fala sobre estar longe de quem se gosta, o que não encaixa na história de Fronteira. Não há companheiros Digimon sendo deixados para trás. Mesmo os miúdos nunca chegam a separar-se ao ponto de terem saudades uns dos outros.

 

Não consigo escolher entre a versão original de Innocent, cantada por Wada Kouji, e a versão dobrada em português, cantada uma vez mais por Ana Vieira – dei o título Volta P’ra Ti ao ficheiro áudio no meu telemóvel. À primeira não gostei muito, mas entranhou-se rapidamente – de tal maneira que passei o resto do verão passado absolutamente obcecada por esta música. Ana tem uma bela voz e adoro a interpretação dela. Também gosto do facto de a letra ser uma tradução bastante fiel da Innocent original.

 

Por fim, o risinho de Ana na conclusão parte tudo. 

 

O que me leva à dobragem portuguesa em geral. Não é má, ainda que não seja tão boa como a dobragem de Tamers. E mesmo assim sempre tem os seus pontos fortes, como a voz da Lucemon que referi antes. Por estes dias não sou demasiado dura com as dobragens portuguesas – regra geral, não têm um orçamento tão generoso como outros países. 

 

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Queria falar agora sobre os nomes dos Digimon, que, como o costume, diferem entre a dobragem nipónica original e as influenciadas pela dobragem americana, como a nossa. Temos coisas boas e coisas más aqui. Por um lado, a dobragem original já incluía referências óbvias a Adventure ao incluir variações de Greymon e Garurumon nas linhas digievolutivas do Agnimon e do Wolfmon. A dobragem vai ainda mais longe, não só ao chamar BurningGreymon ao Vritramon, por exemplo, mas também ao incluir referências semelhantes nas outras linhas, Como, por exemplo, chamar MetalKabuterimon ao Bolgmon ou KaiserLeomon ao JagerLoweemon (o que, nesta fase, já é mau gosto).

 

Por outro lado, alguns nomes americanos são melhores que os originais. Os produtores deviam estar com pouca imaginação quando criaram nomes tão insonsos como Wolfmon, Fairymon e Shutumon. Lobomon sempre é um bocadinho mais interessante – e simpático para nós, que falamos português – e Kazemon e Zephyrmon são muito fixes, talvez dos melhores nomes em Fronteira.

 

Aliás, acho que, se não fosse a sexualização desnecessária, a linha da Fairymon seria a minha preferida.

 

E com isto já abordei todos os aspetos de Fronteira que queria. Na minha opinião, o principal problema desta temporada, que explica muitas das suas falhas, resume-se a isto: Fronteira não sabe o que é, o que quer ser. Não se decide entre ser uma história de profundidade semelhante às temporadas anteriores ou se quer ser uma história menos sombria, mais “kid friendly”

 

Daí os paradoxos todos. Um elenco de heróis em que quatro têm passados simples (e, segundo consta, os produtores quiseram mesmo seguir tropos habituais de anime) e dois têm dos passados mais retorcidos de todo o anime de Digimon – que, mesmo assim, não foi abordado de forma completamente satisfatória. Um Mundo Digital com uma história rica, com racismo fantástico, política, Power Players teoricamente do lado dos bons com atitudes questionáveis… e tudo isso se traduz em meros conflitos bem versus mal, sem quaisquer nuances (tirando o caso do Duskmon/Kouichi).

 

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Além disso, os vinte primeiros episódios da temporada, mais coisa menos coisa, foram muito leves, mesmo parvos nalguns momentos ("parvo" não é obrigatoriamente uma coisa má), mas depois os quinze episódios seguintes ganham quase literalmente um filtro escuro – que nem sequer é devidamente aproveitado para desenvolver as personagens. E depois temos os Cavaleiros Reais. Ou seja, só um terço da temporada, mais coisa menos coisa, pode ser considerada “leve”. 

 

Por fim, o fator Takuya-e-Kouji-mais-quatro pode não ter diretamente a ver com esse paradoxo, mas certamente não ajudou – anulando os benefícios da jogada arrojada de cortarem com os companheiros Digimon, como vimos antes.

 

É possível que, no início do planeamento de Fronteira, a ideia era esta ser uma temporada semelhante a 02 ou Tamers em termos de complexidade e seriedade. No entanto, depois da famosamente sombria reta final de Tamers, os produtores de Fronteira poderão ter recebido instruções para tornar a história menos pesada – com razão porque, por muito que goste de Tamers hoje, não sei se teria gostado tanto se a tivesse visto em miúda. Os digiguionistas terão feito o melhor que conseguiram.

 

Mas isto sou só eu a especular. Há quem diga nas internetes que o desenvolvimento de Fronteira teve algumas complicações nos bastidores, mas não encontrei nenhuma prova em concreto. 

 

Nesse aspeto, o Reboot de Adventure foi melhor conseguido como uma versão mais leve de Digimon. Adventure 2020 tem algumas semelhanças com Fronteira – um Mundo Digital com um passado de conflitos, Seraphimon, Cherubimon e Ophanimon como Power Players, companheiros Digimon como reencarnações de antigos guerreiros – mas o enredo e as personagens são ainda mais superficiais. Em claro contraste com o elenco original de Adventure, como referi há pouco tempo numa caixa de comentários, as personagens descrevem-se com uma frase: Taichi nunca desiste, Sora é uma típica menina heroína de ação, Koshiro é o cérebro, Mimi é a neta do Rui Nabeiro, etc. 

 

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Em suma, muita parra e pouca uva, muito espetáculo e profundidade quase zero. Como especulam aqui, este Reboot terá tido uma população-alvo mais jovem que a habitual para Digimon.

 

Adventure 2020 pode ser mais consistente nas suas intenções, mas eu ainda assim prefiro Fronteira. Mal por mal, Fronteira tinha muito mais ambições. Tentou. Respeito-a por isso, mesmo não tendo conseguido cumprir.

 

Não que me ressinta do Reboot por não ter feito o mesmo. Este pura e simplesmente não era para mim, que já estou na casa dos trinta e que, mesmo em miúda, preferia as camadas mais profundas do anime de Digimon. Sempre deu para entreter, sobretudo por ter coincidido com o primeiro ano e meio da pandemia. E foi suficientemente bem sucedida para dar luz verde à arrojada Ghost Game.

 

Regressemos a Fronteira e àquilo que falei na introdução desta análise. Sim, esta temporada deu um tombo significativo em termos de qualidade, comparada com as suas antecessoras – sobretudo em relação à excelente Tamers. Esta e Adventure continuam a ser as minhas temporadas preferidas e, sobretudo, os meus elencos preferidos. Não desgosto dos miúdos de Fronteira (tirando Junpei) mas, ao contrário dos miúdos de Adventure, Tamers e mesmo 02, não guardo nenhum deles no coração. 

 

Por outro lado, se isso é uma coisa boa ou má é questionável. Nos últimos anos o facto de adorar os elencos de Tamers e sobretudo Adventure só me tem trazido mágoa. Mais sobre isso já a seguir. 

 

Se Fronteira merece o constante “roast” do pessoal do Digimon PT? Não. Como foi sendo assinalado, Fronteira tem várias qualidades redentoras, não a classificaria como “má”. Se é para bater nalguma temporada, o Reboot merece mais. 

 

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E penso que já disse tudo o que queria sobre Fronteira. Eu devia referir o seguinte mais vezes, mas as opiniões que expressei nesta análise – bem como quaisquer outras que exprima aqui neste blogue – não estão gravadas em pedra. Estas irão evoluir com o tempo. E, claro, vocês estão à vontade para questionar e discordar. É para isso que servem os comentários, estou disponível para continuar a conversa.

 

Queria deixar aqui algumas notas sobre a atualidade de Digimon em termos de anime. Já ficaram as minhas impressões sobre o Reboot uns parágrafos acima. Antes dizia que faria uma análise longa ao Reboot, estilo esta, mas mudei de ideias. Essa temporada não dá sumo suficiente. Talvez mude de ideias de novo no futuro, mas duvido. 

 

Ghost Game é o anime de Digimon em decurso no neste momento. O conceito é excelente: essencialmente Digimon versão terror. Terror adequado a menores de 12 anos, mas mesmo assim precisei de me adaptar, que esse género de histórias nunca foi a minha praia. 

 

De início soube muito bem, depois de um Reboot tão desenxabido. No entanto, Ghost Game já foi melhor. A novidade dos elementos de terror já se dissipou há muito, a história está demasiado episódica. O enredo marco nunca foi muito claro e passámos de pistas pontuais a pistas nenhumas. O elenco de heróis começou semi-interessante, mas tem dado pouco para a caixa (embora o último episódio, focado em Ruli, não tenha sido nada mau). Em todos os episódios temos Digimon criando o caos, atacando civis, por vezes matando-os – e ninguém, tirando os nossos heróis, se rala. Yamaki, no universo de Tamers, ativou o Shaggai por muito menos. 

 

Ghost Game ainda vai mais ou menos a meio – vá lá, já estará na segunda metade – ainda vai a tempo de se redimir. Consta, aliás, que o enredo deverá adensar-se em breve. É bom que o faça. Reservo as minhas opiniões finais para mais tarde. 

 

Aliás, é possível que Ghost Game tenha direito a análise longa aqui no blogue. Ainda não decidi se a escrevo mal Ghost Game chegue ao fim ou se avanço para Savers/Data Squad. Não será tão cedo, de qualquer forma. Passei muito tempo a preparar esta análise (a minha segunda maratona de Fronteira, já com papel e caneta, começou há pouco mais de um ano, mesmo com longas pausas pelo meio). Preciso de uma pausa de Digimon aqui no blogue.

 

 

Entretanto, estão a acontecer coisas giras. A maior de todas é a exibição de Digimon Adventure Last Evolution Kizuna nos cinemas portugueses (spoilers ligeiros nos próximos parágrafos). Em português de Portugal. Com as mesmas pessoas que dobraram Adventure e 02 há vinte anos ou mais. 

 

Vamos chorar em português.

 

Eu ainda nem acredito que isto vai mesmo acontecer. Nem sequer me lembro da última vez que houve um evento de Digimon com alcance próximo de mainstream cá em Portugal. Se me contassem esta há meia dúzia de anos…

 

Estou um bocadinho arrependida de não ter esperado para ver Kizuna pela primeira vez agora. Mas também não sei se conseguiria evitar spoilers durante dois anos e meio. 

 

Infelizmente a estreia do filme tem sofrido vários adiamentos. De início ia estrear-se a 9 de junho. Para mim não era ideal: ainda estava a meio desta análise. 11 de agosto era uma boa data para mim – dava-me tempo para concluir esta análise e era perto do Odaiba Memorial Day, o que seria adequado. 

 

Mas agora há dias anunciaram novo adiamento, para 8 de setembro… e essa sim, deixou-me chateada. Agora que as pessoas começavam a reparar nos cartazes e eu começava a sentir-me entusiasmada… Ainda por cima, estou de férias fora de Lisboa nessa altura, não me dará jeito ir ao cinema. Talvez consiga ir no fim de semana seguinte mas, mesmo assim… é chato. Não havia necessidade.

 

 

Ao menos terei mais de um mês para limpar o palato, depois de tanto tempo imersa no universo de Fronteira. E pode ser que setembro dê mais jeito a algumas pessoas. Mas chega de adiamentos, por favor!

 

Esta será a primeira vez que verei Kizuna desde a minha análise, no início de 2021. Vou ser sincera, estou com um bocadinho de medo de reabrir a ferida. Desta vez não estarei sozinha, ao contrário da primeira vez que vi o filme. Se isso é uma coisa boa ou má é questionável: por um lado, chorar perante estranhos não costuma ser divertido. Por outro lado, se houverem lágrimas da minha parte, essas não serão as únicas. Sobretudo tendo em conta testemunhos como estes

 

Em todo o caso, vou levar lencinhos, tanto para mim como para oferecer a quem precise. E talvez uma bebida. E o meu bonequinho da Biyomon para abraçar. 

 

Um consolo para quem vá ver Kizuna pela primeira vez é saber que teremos em breve uma sequela. Já tinham dado pistas no ano passado. O filme chamar-se-á Digimon Adventure 02: The Beginning (O Início), decorrerá dois anos depois dos eventos de Kizuna, terá Daisuke e V-mon como protagonistas e focar-se-á na primeira pessoa a ter um companheiro Digimon.

 

É altamente provável que seja este filme a “corrigir” o final de Kizuna e a fazer a ponte com o epílogo de 02. A premissa parece encaixar-se. Aposto que a primeira pergunta que farão a esse misterioso primeiro Escolhido será “O que aconteceu ao teu companheiro Digimon?”. A história seguirá a partir daí. 

 

Por um lado, fico entusiasmada. Mais um filme no universo de Adventure, com personagens que adoro, mais uma análise aqui no blogue. E possivelmente mais um filme para dobrarem em português de Portugal.

 

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Por outro lado, estou com medo. Levei imenso tempo a recuperar de Kizuna. Acho que ainda não o fiz por completo. Não preciso de outro filme mexendo com as minhas emoções dessa maneira – sobretudo se este também não tiver um final feliz.

 

Uma parte de mim, aliás, está ressentida com tudo isto. Com a Toei insistindo em ordenhar desta vaca, insistindo em brincar com o final feliz de 02 e Tri, enviando mensagens contraditórias. Kizuna dizendo-nos para deixarmos Adventure e as nossas infâncias para trás, mas a Toei não fazendo o mesmo. 

 

Mas pronto, este é o meu lado mais amargo a escrever. Diz que deveremos descobrir mais sobre The Beginning este fim de semana, durante as celebrações do DigiFest. No entanto, a ideia que tem passado é que o filme demorará algum tempo a estrear. 

 

Não me importo. Não tenho pressa. Pensar que por esta altura, há três anos, estávamos a celebrar a presença do elenco de 02 em Kizuna. Eles foram uma bênção nesse filme, como escrevi na altura, mas agora merecem estar no papel principal. 

 

E chegámos ao fim. Isto foi divertido. Mesmo não tendo gostado tanto de Fronteira como de outros trabalhos, é sempre um prazer escrever sobre Digimon. Mas agora estou contente por poder partir para outra, depois destes meses todos.

 

Obrigada por todas as visitas e comentários. Os meus parabéns a Fronteira e aos seus fãs pelo vigésimo aniversário. 

 

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Digimon Frontier #8 – Alienação parental e outras coisas adequadas ao público-alvo

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Conforme temos vindo a assinalar ao longo desta análise, a maior parte dos miúdos de Fronteira não têm passados particularmente dramáticos, em contraste com temporadas anteriores. Kouji é uma exceção, como vimos antes, com uma história mais complicada. Mas mesmo assim, apesar das semelhanças com a história de Juri, resolve-se com relativa facilidade quando Kouji decide aceitar a madrasta.

 

E depois, decorridos três quartos da temporada, surge Kouichi, o irmão gémeo idêntico perdido de Kouji e o herói de Digimon com um dos passados mais sombrios até ao momento. 

 

Não fui a única a achar isto bizarro, pois não?

 

Isto é basicamente uma versão (ainda mais) retorcida do enredo de Pai Para Mim… Mãe para ti/The Parent Trap. Os pais de Kouji e Kouichi separaram-se quando os filhos eram muito pequenos. Cada progenitor ficou com um dos irmãos e estes cresceram ignorando a existência um do outro.

 

Mesmo sem contarmos as particulares deste caso específico, penso que todos concordamos que separar gémeos à força é uma crueldade. Eu até gosto do Pai Para Mim… Mãe Para Ti – a cena em que Hallie reencontra a mãe ainda hoje me traz lágrimas aos olhos – mas, se pensarmos nas premissas do filme durante mais do que uns minutos, tudo se torna menos fofinho. Que tipo de pessoas separam irmãs gémeas e nem sequer as informam da existência uma da outra? Que tipo de pessoas permitem que uma das filhas seja criada a um oceano de distância, sem qualquer contacto?

 

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É daquelas coisas que até são românticas em ficção – um gémeo que não sabíamos que tínhamos, um pai ou mãe desaparecidos que reentram nas nossas vidas – mas que na vida real têm repercussões graves. Como o ato de separar gémeos deliberadamente. Há estudos que comprovam que gémeos começam a interagir logo dentro do útero, logo a partir das catorze semanas de gestação – sobretudo se estivermos a falar de gémeos idênticos, já que partilham o saco amniótico. 

 

Tendo isto em conta, calcula-se que a separação de gémeos à nascença ou de tenra idade seja traumática para as crianças. Pela lógica deverá ser assim… mas nas minhas pesquisas sobre o assunto não encontrei nenhum artigo sobre o impacto psicológico da separação nos próprios gémeos. Tirando este e mesmo assim. A maior parte dos artigos que encontrei foca-se no facto de estes gémeos separados apresentarem muitas semelhanças entre si, apesar de não terem crescido um com o outro – uma demonstração do peso da genética.

 

Encontrei mais informações sobre o impacto da morte de um gémeo à nascença no gémeo que sobrevive. Infelizmente tivemos um exemplo conhecido disso há pouco tempo. Estudos demonstraram que os irmãos sobreviventes apresentam um risco maior de desenvolverem problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade – mesmo quando não sabem que perderam um irmão gémeo. 

 

Pode-se deduzir a partir destes dados que os efeitos de uma separação à nascença ou na primeira infância serão semelhantes. Pode-se argumentar que, pelo menos em parte, é daí que virá a personalidade mais emo de Kouji, as suas tendências anti-sociais e sobretudo a sensação de que algo não bate certo na sua família. E, claro, a afinidade de Kouichi para a escuridão, como veremos já a seguir. 

 

Isto tudo já de si é cruel. Ainda se torna mais cruel quando consideramos o resto: o pai dos gémeos não só aceitou abdicar de um dos filhos (isto se não tiver sido dele que partiu a iniciativa) como ainda mentiu a Kouji durante toda a sua vida. Não só ao não esconder-lhe a existência de um irmão mas também ao dizer-lhe que a mãe biológica tinha morrido. A sua insistência em que Kouji trate a sua segunda mulher por mãe ganha contornos (ainda mais) mesquinhos: é como se ele quisesse apagar a ex-mulher (e indiretamente Kouichi) da existência.

 

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Que tipo de monstro faz isso?

 

Eu uso o termo “alienação parental”, mas nem sequer sei se esta é a designação correta. Também não sei até que ponto a situação seria realista. Acho que, mesmo dentro do universo, mesmo sem a intervenção de Kouichi e/ou Ophanimon, Kouji descobria a verdade mais cedo ou mais tarde.

 

Depois temos a questão da pensão de alimentos. Em flashbacks vemos que a mãe dos gémeos tem dificuldades económicas, mantém-se num emprego fisicamente exigente para sustentar Kouichi. Isto dá a entender que o pai dos gémeos não lhe dá apoio monetário nenhum – ou, se dá, este é claramente insuficiente. Outra pedra para lhe atirarmos. 

 

Havemos de regressar ao tema da família dos gémeos mais à frente. Eu no título refiro o público-alvo de Fronteira mas a verdade é que duvido que uma criança visse a situação da maneira que eu vejo. Provavelmente pensa apenas algo tipo “Que fixe, o Kouji tem um irmão gémeo perdido!”. Um adulto é que não conseguirá evitar pensar nas implicações todas. 

 

Um pouco antes dos eventos de Fronteira, Kouichi descobre a verdade da boca da sua avó, literalmente no seu leito de morte. A partir desta altura, o jovem começa a fazer stalking a Kouji e ao seu núcleo familiar, tentando juntar coragem para se apresentar ao irmão. Nós na audiência sabemos que, mesmo antes de saber a verdade sobre o irmão e a mãe biológica, a vida familiar de Kouji não era perfeita. No entanto, visto de fora por Kouichi, ele, o pai, a madrasta e o pastor-alemão (que eu aprovo) parecem uma família feliz. Kouichi sente afeição a Kouji, mas ao mesmo tempo sente raiva, a ele e ao pai, por terem uma vida desafogada enquanto ele e a mãe passam por dificuldades.

 

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O dia em que os eventos de Fronteira começam é outra ocasião em que Kouichi faz stalking a Kouji. Da primeira vez que vemos Kouichi no comboio, no episódio 21 (aquele em que Takuya regressa ao Mundo dos Humanos e ao passado), eu imaginei um cenário diferente. Kouji saberia perfeitamente que tinha um irmão mas estava a fugir dele e mentira quando lhe perguntaram se tinha irmãos.

 

Também poderia ter sido interessante.

 

Depois de não ter conseguido entrar no elevador onde Kouji e Takuya tinham entrado, Kouichi vai pelas escadas mas dá uma queda feia. Quando volta a si encontra-se no Mundo Digital, numa estranha dimensão de trevas – chega a perguntar-se se morreu e aquilo é o Além (...mais sobre isso adiante). É aqui que Cherubimon o encontra. Este aproveita-se das emoções mais negativas de Kouichi em relação à sua família para assumir o controlo sobre a sua mente e impôr-lhe o Espírito da Escuridão – ao ponto de o jovem se esquecer de quem é, só começando a lembrar-se mais tarde, quando se cruzou com Kouji. 

 

Pergunto-me se Cherubimon se identificou com os sentimentos de solidão, abandono e rejeição de Kouichi, daí tê-lo escolhido para marioneta. Teria sido interessante se Fronteira tivesse ido por aí. 

 

Este é um caso excecional nos Espíritos Digitais dos Guerreiros Lendários. Em vez de se limitar a representar um elemento (ou possivelmente uma zona do Mundo Digital), este tem características parecidas com os Cartões e/ou virtudes  (virtudes é como quem diz…) do universo de Adventure – no sentido em que exploram uma faceta da personalidade de Kouichi. 

 

Neste caso em particular, Fronteira brinca com o tropo do gémeo bom e o gémeo mau – e devia tê-lo explorado melhor. É engraçado porque, à primeira vista, se me dissessem que um dos gémeos teria o Espírito da Luz e o outro o Espírito da Escuridão, eu atribuiria a Luz a Kouichi, que tem um temperamento mais gentil que o irmão. É um caso curioso de yin e yang, de gémeos semelhantes nalgumas coisas e diferentes noutras. 

 

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Eu gostava de explorar esta ideia mais a fundo, mas a caracterização de Kouichi é escassa, deixa-me com pouco com que trabalhar. 

 

Não é a primeira vez que Digimon explora a ideia de luz e escuridão como dois lados da mesma moeda. E também a ideia de usar a escuridão para fazer o bem – veja-se o Ken de 02, que usou a sua afinidade com o Mar Negro para ajudar os heróis a derrotarem o Demon. Kouichi passa por um desenvolvimento semelhante ao reconhecer o seu lado sombrio e ao usá-lo para desbloquear as digievoluções corretas do Espírito da Escuridão e fazer frente a Cherubimon.

 

Infelizmente, depois de ser libertado da influência de Cherubimon, Kouichi tem pouco que fazer. Isso em parte é um efeito secundário do Takuya-e-Kouji-mais-quatro, mas também Kouichi interage pouco com os outros tirando o irmão, não altera as dinâmicas do grupo.

 

O “problema” é que Kouichi é facilmente perdoado. O que faz sentido, atenção! Ao contrário de Ken e Oikawa em 02, o jovem não tinha controlo quase nenhum sobre as suas ações quando estava sob influência do Cherubimon, nem sequer se lembrava de quem era. Não precisou de ser perdoado individualmente por cada um dos outros Escolhidos, ao contrário de Ken. O que é uma pena no sentido em que se perdeu uma oportunidade para desenvolver os outros – e para desenvolver Kouichi. 

 

Na verdade, Kouichi ainda é um dos não-Takuya-ou-Kouji que mais tem para fazer, por pouco que seja, durante o arco dos Cavaleiros Reais. Conforme já referi antes, o jovem traz ao de cima a faceta mais calorosa de Kouji. Mas, mais importante, Kouichi começa a reparar que, nas inúmeras vezes que os Cavaleiros Reais derrotam os heróis, surgem anéis de DigiCódigo à volta de cada um dos miúdos… exceto Kouichi.

 

Eventualmente, Kouichi suspeita que poderá estar morto no Mundo dos Humanos, tendo vindo ao Mundo Digital apenas em espírito. O jovem procura guardar segredo, sobretudo de Kouji – que ainda por cima começa a falar sobre passarem tempo um com o outro depois de salvarem o Mundo Digital.

 

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É uma situação dolorosa, talvez um pouco sombria demais para o que Fronteira estabelecera até ao momento. Dito isto, é uma das melhores partes do arco dos Cavaleiros Reais. Fronteira fez um bom trabalho com esta linha narrativa.

 

Kouichi a certa altura desabafa com Bokomon e Neemon. O primeiro, alguns episódios mais tarde, dá com a língua nos dentes ao resto do grupo, quando os gémeos estão a ter uma conversa a sós. Kouji suspeita que algo está errado, mas fica completamente às escuras até ao último momento. Só descobre a verdade na pior altura possível: em pleno combate com Lucemon, depois de o Louwemon levar com um ataque, quando tentava escudar os amigos. 

 

Imenso respeito a Kouichi por esta, por ter conseguido usar a situação a seu favor – de novo as semelhanças com Ken. Ao sacrificar-se e ao entregar os seus espíritos ao irmão, permitiu aos amigos desbloquearem Susanoomon. 

 

Kouichi só volta a ser mencionado dois episódios mais tarde, na segunda metade do último episódio. O que é um pouco estranho, mesmo frio. Parece que os miúdos ultrapassaram a perda muito depressa. 

 

Só depois de Lucemon ter sido finalmente derrotado, de os miúdos se terem despedido do Mundo Digital, de Bokomon e dos outros, quando já estão a meio caminho do Mundo dos Humanos, é que o espírito do Louwemon revela que Kouichi ainda está vivo. 

 

Assim, mal chegam ao Mundo dos Humanos, os miúdos correm para o local onde Kouichi tinha caído pelas escadas abaixo. O jovem já lá não estava, já tinha sido levado para o hospital. Aqui os médicos tentavam reanimar Kouichi, sem grande sucesso. Os miúdos irrompem pela sala de tratamento (ou bloco operatório?), Kouji à frente. A lágrima deste, bem como a luz dos dispositivos digitais regredindo à forma de telemóveis, chegam para trazer Kouichi de volta à vida e aos braços do irmão.

 

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É um momento lindíssimo, um dos melhores de Fronteira, acho que ninguém discorda. Dito isto, o Dr. Mike podia encher um vídeo inteiro só com as imprecisões médicas nos dois ou três minutos que a cena dura. 

 

Para começar, como é que Kouichi teve uma paragem cardíaca após uma queda? A minha irmã médica confirmou-me que isso é impossível. Só se ele tivesse partido uma costela e esta lhe tivesse lacerado o coração. Além de que Fronteira comete o erro comum em ficção de usar o desfibrilhador num caso de paragem cardíaca. Só se usa o desfibrilhador quando o coração está em fibrilhação o que também não aconteceria após uma queda. 

 

Além disso, como é que cinco crianças conseguem entrar numa sala de tratamento sem que ninguém as impeça? Como é que conseguem permanecer junto à cama de Kouichi tempo suficiente para o milagre acontecer sem que ninguém intervenha?

 

Eu podia continuar mas pronto, estamos a falar de uma história para crianças. E, como disse acima, foi um momento bonito. 

 

Pergunto-me se Kouji se cruzou com a mãe biológica no hospital, durante o internamento de Kouichi (mesmo depois do milagre, ele deve ter ficado internado durante algum tempo para observação). Pena não termos visto esse reencontro.

 

O que nos leva ao epílogo de Fronteira. Não ao estilo de 02, ao estilo de Tamers, mostrando o futuro próximo do elenco. Pegando de novo da história da família dos gémeos, descobrimos que, no pós-Fronteira, Kouji reencontrou a mãe biológica e estabeleceu uma relação com ela (bem como com o irmão), mas considera a madrasta a sua verdadeira mãe. Por seu lado, a mãe dos gémeos está mais feliz agora – pelo menos é o que Kouichi acha.

 

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Pois bem, eu tenho algumas dúvidas. Ou, na melhor das hipóteses, não nos estão a contar a história toda. Se antes dos eventos de Fronteira Kouji hesitava em aceitar a madrasta, a sua aventura no Mundo Digital deveria ter exacerbado essas dúvidas. Não que o contrário não seja credível – talvez Kouji ache que a madrasta não é cúmplice nas mentiras do pai. E talvez a afeição que nutre por ela tenha nascido de forma natural, independente das pressões do pai. Mesmo assim, acham mesmo que Kouji aceitou bem o facto de toda a sua vida ter sido uma mentira até aos eventos de Fronteira?

 

É possível que o pai tenha caído em si, tenha pedido desculpa à ex-mulher e aos filhos pelo mal que fez e começado a pagar a pensão de alimentos, melhorando significativamente a qualidade de vida da mãe dos gémeos. Mas isto são especulações minhas, eu tentando ter boa vontade para com os digiguionistas em vez de assumir que é apenas mais escrita. O texto dá pouco em que me basear. A ideia com que fico é que os digiguionistas criaram esta situação familiar mas não pensaram nas implicações. Como tal, esta foi uma conclusão insatisfatória para esta linha narrativa. 

 

No geral, Kouichi até é das personagens mais complexas e interessantes em Fronteira. E ainda assim acho pouco. Queria mais caracterização dele para além do facto de ter sido a marioneta de Cherubimon, a relação com Kouji e a sua experiência de quase-morte. Mas lá está, ninguém neste elenco teve grande desenvolvimento, porque seria Kouichi uma exceção?

 

Uma palavra breve para o epílogo. Não adoro pois é um exemplo de explicar em vez de mostrar (uma adaptação da expressão anglo-saxónica “show, don’t tell”), dizendo-nos diretamente que os miúdos mudaram, evoluíram, em vez de o vermos diretamente. No caso de Tomoki, dos gémeos e de Takuya até certo ponto, aceita-se até certo ponto pois já tínhamos visto sinais do desenvolvimento deles. No entanto, nos casos de Izumi e Junpei não resulta – nunca chegámos a ver exemplos daquilo que referem.

 

Por outro lado, este é o final mais feliz a ocorrer em Digimon até ao momento. Ninguém morreu (embora Kouichi tenha ficado perto), para começar. Além disso, é mais fácil a este elenco deixar o Mundo Digital pois não têm de deixar companheiros Digimon para trás. Só mesmo Bokomon, Neemon e as formas Infantis dos três Anjos, mas quem terá saudades deles, sobretudo Bokomon? Os miúdos de Fronteira nem sequer mantém os dispositivos digitais, mas não estou a vê-los com grande vontade de regressar ao Mundo Digital. Não tanto como os miúdos do universo de Adventure ou de Tamers, pelo menos. 

 

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No geral, as falhas que apontei aqui não chegam para estragar este final emocionante. O caminho até aqui deixou muito a desejar, mas no fim os digiguionistas acertaram no essencial. Dou-lhes crédito por isso. E os miúdos de Fronteira mereceram esta vitória. 

 

Nós, no entanto, ainda não terminámos. Ainda falta uma publicação para falarmos de música, dobragens, entre outras coisas. Continuem por aí.

10 anos de Testamentos

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Interrompemos a análise a Digimon Frontier para assinalar o décimo aniversário aqui do estaminé. Não que vá fazer nada de muito especial, esta é apenas uma reflexão sobre a vida deste blogue.

 

Na altura, criei o Álbum de Testamentos para servir de caixote do lixo no bom sentido: para escrever sobre assuntos diversos que não se encaixavam noutros sítios. Com o tempo tornou-se a minha principal plataforma de escrita. E visto que, ao contrário do meu outro blogue, que tem um conceito mais específico e que só requer que eu o atualize algumas vezes de tantos e tantos meses, aqui no Álbum escrevo com muito mais frequência. Assim, sinto-me um pouco mais orgulhosa por ter conseguido fazer isto ao longo de dez anos.

 

Não é a primeira vez que o digo, mas este blogue tem funcionado como um diário de bordo dos meus interesses e entusiasmos. Como raramente falo aqui sobre a minha vida privada, pode parecer que o blogue não é muito pessoal. Acreditem: é mais pessoal do que vocês pensam. Regra geral, se escrevo sobre algo aqui, o assunto do texto esteve na minha mente durante muito tempo, vivi com ele todos os dias, às vezes durante semanas, às vezes durante meses. É por isso que faço retrospetivas musicais anuais – é uma forma indireta de refletir sobre o ano que passou.

 

Por outro lado, há ocasiões em que essas coisas se tornam marcantes porque estou a escrever sobre elas – textos que estavam à espera de ser escritos há muito tempo, como por exemplo a análise a All We Know is Falling no ano passado. Noutras ocasiões, acontecem coisas marcantes, logo, tenho de escrever sobre elas – por exemplo, quando um dos artistas de que gosto lança música nova ou quando resolvi regressar a Digimon em 2015. Às vezes é um misto de ambas. Às vezes funciona como escapismo. Às vezes ajuda-me a lidar com coisas dolorosas – por exemplo, quando o Chester morreu. 

 

Outra faceta de isto ser um diário de bordo diz respeito ao que muda: interesses vão e vêm, alguns mantêm-se, opiniões evoluem, a qualidade vai melhorando. Hoje em dia evito reler e encaminhar para publicações mais antigas – já não estão a um nível que considero aceitável e/ou já não refletem as minhas opiniões atuais. É aquela: hoje escreveria esses textos de maneira muito diferente – e alguns se calhar não escreveria de tudo – mas se não os tivesse escrito não teria aprendido com eles. Não me teria tornado mais exigente comigo mesma.

 

Assim, mesmo que não os promova tanto como textos mais recentes, essas publicações continuam online. Pode ser que as pessoas ainda gostem.

 

Uma coisa de que tenho pena, no entanto, é de não conseguir atualizar o blogue tantas vezes como nos primeiros anos. Tenho menos tempo livre agora, como é óbvio – quando criei o blogue, ainda estava a estudar, agora tenho um emprego a tempo inteiro. Por outro lado, tenho de ser sincera: arranjar um smartphone fez diferença, sobretudo quando arranjei um plano generoso de dados móveis. Quando tenho tempos mortos, é mais conveniente pegar no telemóvel do que sacar do caderno e da caneta. 

 

Acho que não é a primeira que refiro que hoje não gosto muito do nome do blogue. É um bocadinho palavroso, soa esquisito. Mas, para ser sincera, não sei que nome lhe daria. Talvez alguma coisa relacionada com cadernos – mas se calhar seria pouco original.

 

Esse é mesmo o único verdadeiro arrependimento que tenho em relação a este blogue. De resto, não tenho praticamente mais nenhum. Estou muito contente com o que tenho feito com o blogue até agora. 

 

A ideia é ir continuando a fazê-lo enquanto puder. Não tenho ilusões: sei perfeitamente que, daqui a uns anos, terei quase de certeza menos tempo para o blogue (e para escrever em geral). Quero aproveitar enquanto posso.

 

Dito isto, não é a primeira vez que digo que ando a trabalhar, intermitentemente, noutro projeto de escrita. Ainda não quero dizer do que se trata – provavelmente só o farei quando estiver pronta a partilhá-lo. Assim, é possível que as publicações aqui no blogue continuem a ser mais espaçadas do que o ideal.

 

Já é habitual eu, de vez em quando, falar dos meus planos para o blogue – para depois não cumprir metade deles ou ainda mais. É pura auto-indulgência – e, se não se importam, vou continuar a fazê-lo.

 

Para já quero terminar a análise a Fronteira – quando este texto for para o ar, só me devem faltar uma ou duas partes. Depois, como este foi um projeto longo, talvez faça uma pausa aqui no blogue e as minhas próximas publicações serão mais pequenas e mais simples.

 

Tanto Bryan Adams como Avril Lavigne lançaram música este ano – um álbum de inéditas cada um mas não só. Vou escrever sobre isso, mas de maneira diferente: em vez de analisar os álbuns a fundo, como o habitual, vou escrever textos mais parecidos com aqueles que escrevo no fim de cada ano. 

 

Também vou querer fazer um top 10 de música portuguesa – ainda não decidi se o escrevo antes ou depois dos textos de Bryan e Avril. Por outro lado, os Paramore têm um álbum no forno, algo que vou cobrir aqui no blogue. Já não deve faltar muito para pelo menos o primeiro single:  na sexta-feira passada, eles anunciaram concertos para o outono, num poster  com uma estética curiosa. Nas próximas semanas deveremos saber mais alguma coisa. Só espero que o álbum saia antes do Mundial, para não interferir com o meu outro blogue. 

 

Já que falo no Mundial, este vai decorrer excecionalmente em novembro e dezembro. Isso poderá atrasar os meus textos de fim de ano – que mesmo em circunstâncias normais já são difíceis de encaixar no meu horário por causa das festas. Os textos sobre a música de Bryan e de Avril são em parte para não ter de escrever sobre eles no fim do ano. Eu naturalmente espero estar muito tempo ocupada com o meu outro blogue, até depois do dia 18 de dezembro. Quanto mais tiver de atrasar o Álbum por causa do Mundial, mais feliz ficarei.

 

O próximo grande projeto deste blogue será um texto sobre Pokémon Go – algo que ando a prometer há anos, eu sei. Só devo consegui-lo no próximo ano, mas não quero adiá-lo muito mais.

 

Termino esta pequena celebração agradecendo todas as visitas que o meu blogue recebeu na última década. A mais dez anos de Testamentos!

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