Segunda parte da minha análise a From Zero. Podem ler a primeira parte aqui.
Avancemos, então, para as músicas não-single e não-Casualty. Em continuidade com esta última, começo pelas mais agitadas. Só faltam duas na verdade: Cut the Bridge e IGYEIH.
A primeira tem uma energia alucinante, com aquela bateria, com o refrão com partes cantadas em coro. Gosto de vocais em coro nas músicas dos Linkin Park – acontece muito em A Thousand Suns, por exemplo. Agora que temos uma mulher, o coro tem outro carácter, outro impacto, também muito fixe.
Eu recomendo a versão instrumental, que tem muitos detalhes – como o piano e elementos eletrónicos – que ficaram um pouco enterrados na versão completa. A minha parte preferida é o final da terceira estância, quando Mike e Emily cantam “just to watch it buuuurn. just to watch it buuuurn…” em tom grandioso. Na preparação deste texto, encontrei um comentário de YouTube a dizer que Cut the Bridge é uma combinação de What I’ve Done e Bleed it Out. Sou capaz de concordar.
Em termos de letra, queria só referir a terceira parte. Gosto das metáforas que Mike usa para explicar que o narrador está a chegar ao limite: “I'm the gas from a burner left open, I'm a tightrope held up by a clothes pin”.
Também queria falar sobre os versos “wanna go to the light and not the shadow, but the branch isn’t (as) shiny as the arrow”. Consta que foi uma ideia de Dave, inspirado pelo selo dos Estados Unidos. A águia tem um ramo de oliveira numa pata e um punhado de flechas na outra. É suposto significar que, como nação, os Estados Unidos têm “um forte desejo de paz mas estarão sempre preparados para a guerra”. No contexto de Cut the Bridge, então, aqueles versos significam que o narrador se sente tentado pela violência, embora saiba que não é o caminho correto.
Mas tenho de dizê-lo: pesquisar sobre a essência dos Estados Unidos a propósito deste álbum, ser confrontada com um símbolo com a apetência dos americanos para a guerra, tendo em conta o que o país tem feito neste último ano, deixou-me com um grande amargo de boca. Não é por acaso que digo que os Linkin Park são, neste momento, das pouquíssimas coisas boas a vir dos Estados Unidos.
Regressando a Cut the Bridge, dizem que a música soa muito boa ao vivo. Não vou verificar, não vão eles tocá-la no Rock in Rio.
IGYEIH é a primeira música dos Linkin Park com uma sigla como título. Não são os primeiros músicos a fazê-lo, não serão os últimos, mas confesso que não sou fã. Diria que loml de Taylor Swift é o único exemplo de que gosto. Preferia que usassem um nome de trabalho, como Faint ou QWERTY. No caso de IGYEIH, consta que o nome de trabalho era Villain. Na minha opinião, funcionava bem como título, encaixava na letra. Deviam tê-lo mantido.
Enfim, são escolhas.
Em From Zero, IGYEIH é uma das com mais participação de Emily – Mike tem só dois versos antes do refrão. Tirando isso, confesso, não tenho muito mais a dizer sobre a música – apenas que só reparei que, na parte final, dois dos versos são “From now on got amnesia” em vez de “From now on I don’t need ya” na preparação deste texto. IGYEIH é capaz de ser a música de que menos gosto em From Zero. Não porque a ache má, apenas acho as outras mais interessantes e cativantes.
Passemos, então, às baladas. No cômputo geral, diria que gosto um bocadinho mais destas que das mais agitadas. Não necessariamente por serem baladas. Mais por terem, na minha opinião, as melhores letras de todo o álbum. Mais porque cada uma das três – perdão, das quatro, pois isto também se aplica a Over Each Other – é fantástica à sua maneira.
Comecemos por Overflow: uma das melhores em From Zero, uma das mais experimentais. Dave e Colin referem-na como uma das preferidas deles e consta que é uma das que Emily mais gosta de cantar ao vivo.
Alguns fãs dizem que Overflow faz lembrar A Thousand Suns. Em termos de letra, concordo, e falaremos sobre isso já a seguir. Por outro lado, a sonoridade recorda-me Post Traumatic – as tais influências que referi antes. O tom atmosférico faz-me lembrar Lift Off. A conclusão com a guitarra elétrica faz-me lembrar a conclusão de Watching As I Fall. Mike diz-me particularmente orgulhoso deste final de Overflow: ele terá tocado a guitarra, Colin terá tratado dos efeitos.
De facto, merecem orgulhar-se.
No primeiro refrão, temos a oportunidade – até agora única, pelo menos no seu trabalho com os Linkin Park, tirando a versão cinemática de Heavy is the Crown – de ouvir Emily num registo diferente. Será correto chamar-lhe a sua “voz de cabeça”? É certamente uma voz mais suave do que a que estamos habituados a ouvir. Espero que não seja a última vez.
Um pormenor de que gosto em Overflow são as notas iniciais – fazem lembrar um alarme de perigo, o que condiz com a letra. Overflow terá sido inspirada pelo chamado “doomscrolling”, por pessimismo, pelo acumular de tensões, tanto internas, psicológicas como tensões externas, da própria Humanidade. Que vão aumentando, acumulando, até um dia a bolha rebentar.
Agora que penso nisso, o tema de Overflow faz lembrar o conceito que inspirou o título Minutes to Midnight: o Relógio do Juízo Final, que conta o tempo que falta para, perdoem-me o dramatismo, o fim do mundo via guerra nuclear. Talvez explore melhor esta ideia quando escrever sobre esse álbum. Em todo o caso, essa sensação de que temos uma bolha prestes a rebentar (ou já terá rebentado?) é daqueles temas um tudo nada demasiado real por estes dias.
O único defeito de Overflow é, na minha opinião, ser demasiado curta, soar algo incompleta. Não digo que precisasse de mais letra, mas precisava de um refrão intermédio entre a suavidade do primeiro e a… digamos, rudeza do último e uma sequência instrumental na terceira parte.
Mas pronto. Não é uma falha assim tão grave.
Overflow tem sido um ponto alto nos concertos. A banda gosta de improvisar, brincar, tocar partes de outras músicas no início – por exemplo, Enjoy the Silence, dos Depeche Mode. Não sei exatamente como o fazem – não tenho visto muitos vídeos dos concertos para evitar spoilers.
Uma coisa que sei é que ao vivo, Mike altera o verso “I can hear the future callin’” para “I can hear the future, Colin”. Nota-se muito que ele é pai de adolescentes? Não é só ele: cheguei a ver um vídeo em que ele e Dave olham para Colin ao mesmo tempo aquando deste verso – pena não conseguir encontrá-lo agora.
À hora desta publicação, de acordo com o Linkinpedia, os Linkin Park ainda não disseram uma única palavra sobre Stained. Temos o episódio da LPTV, mais nada – é a única música em todo o From Zero, edição Deluxe incluída, em que isto acontece. É estranho.
Lembro-me que, na listening party, o refrão de Stained cativou-me logo. Mais tarde, passei por uma fase em que não gostava tanto. Stained é provavelmente o tema mais pop em todo o From Zero. Cheguei a pensar que o refrão recorria ao chamado Millennial Whoop. O episódio da LPTV dedicado a Stained fez-me ver que o refrão é bem mais complexo do que isso – as nuances, os backvocals, as diferentes tentativas de Emily e Mike.
Eu mesma fico com vontade de andar por aí a cantarolar, quer o refrão, quer aqueles vocais ecoados no início.
Não é só isso. Outro momento de que gosto muito é a segunda parte, em que Emily vai repetindo os versos de Mike. Um dos casos em que é o contraste entre as duas vozes, as duas interpretações, que fazem com que funcione,
A letra é das mais interessantes em todo o álbum. Sobre alguém que tem sangue nas mãos, um passado de pecados, crimes, que tenta desesperadamente esconder, tenta manter uma imagem imaculada. O/A narrador/a terá sido uma das vítimas (“Pretend you’re spotless but I don’t wash away”). A metáfora da nódoa que não sai não é particularmente original, mas foi bem executada. As manchas vão-se acumulando, crescendo, até que chegará o momento em que não será possível esconder mais – e a pessoa sofrerá as consequências dos seus atos.
É uma música muito fixe.
Por sua vez, Good Things Go é uma favorita entre os fãs, eu incluída.
A sua história de origem é engraçada. “Good things go” é uma expressão que já andava na mesa de trabalho de Mike desde, pelo menos, finais de 2020. Quase literalmente. Na altura, plena pandemia, como se devem recordar, Mike andava a fazer diretos no Twitch (um arrependimento que guardo é não ter pelo menos tentado acompanhá-los). Consta que, durante esses diretos, por vezes Mike tornava o desktop do seu computador visível. Os fãs, naturalmente, começaram a tomar nota dos nomes de ficheiros e pastas que conseguiam vislumbrar. Um deles era, precisamente, “good things go”. Num grupo de WhatsApp de fãs portugueses dos Linkin Park, consegui que me passassem este print screen, de um desses diretos. Aparece de facto uma pasta intitulada “Good Things Go Project”.
A partir de certa altura, no entanto, Mike terá reparado na bisbilhotice dos fãs. Assim, as pastas dele passaram a ter nomes como, numa tradução livre, “SIM EU SEI”, “VOCÊS CONSEGUEM VER AS MINHAS PASTAS”, “PÁREM DE CUSCAR!”.
Eu ri-me tanto quando li esta história pela primeira vez no Linkinpedia. Eu adoro este homem.
Já na era From Zero, Mike admitiu que “good things go” é uma expressão de que gosta. Terá tentado incluí-la em diferentes demos ao longo dos anos – o que explica os títulos de ficheiros e pastas durante a pandemia. Por outro lado, não se pode concluir que a ancestral da Good Things Go de From Zero venha dessa altura. Aqueles ficheiros poderão ser, precisamente, ideias que não chegaram a ser usadas até agora. Aliás, de acordo com o respetivo episódio da LPTV, a Good Things Go de From Zero será uma amálgama de ideias antigas, só tendo começado a ganhar forma em inícios de 2024.
Em Good Things Go temos de novo estâncias a duas vozes: Mike primeiro, Emily ecoando. Outra coisa de que gosto em From Zero é que há menos separação entre Mike a cantar e Mike a fazer rap – passa rapidamente de um estilo ao outro e há momentos em que parece fazer um híbrido de ambos. Como aqui e em Stained, por exemplo. É diferente, é interessante.
No episódio da LPTV, ouvimos Mike cantando o refrão. À semelhança do que acontecera com outras músicas, era apenas para servir de orientação para Emily, mas ele até se sai bem. Infelizmente para ele (ou felizmente? depende da perspetiva), Em é melhor como cantora. Tem as cordas vocais de Midas, pega em tudo o que Mike lhe dá e transforma-o em ouro. Good Things Go, então, tem uns quantos agudos impossíveis.
O rap na terceira parte é um dos meus momentos preferidos. Outro momento fazendo lembrar Post Traumatic – o que não surpreende tendo em conta que terá estado guardado na gaveta de Mike desde 2019. Traz uma dose saudável de drama, reforçado pelo acompanhamento em crescendo.
O/A narrador/a de Good Things Go parece ser uma pessoa profundamente deprimida, que se odeia a si mesmo/a. Tem uma pessoa na sua vida – uma vez mais, poderá ser um amante, um familiar, um amigo – que se preocupa, que quer ajudar. O/A narrador/a não quer ou não consegue aceitar ajuda, embora saiba que precisa. Tenta manter a outra pessoa à distância, talvez por instintos auto-destrutivos, talvez para tentar protegê-la. Mas a verdade é que acaba por magoá-la.
Um dos meus versos preferidos, não só nesta música mas em todo o From Zero, está nesse rap: “Fuck all your empathy, I want your fury”. Pode ser interpretado de várias maneiras. Talvez o/a narrador/a queira ser castigado/a. Talvez queira a raiva da outra pessoa para ter um pretexto para retribuir com hostilidade. Ou talvez queira que a outra pessoa seja sincera para com ele/a – às vezes, ao procurarem ser compreensivas, mostrar empatia, uma pessoa pode acabar por esconder os seus sentimentos. Porque quer agradar aos demais, não os quer magoar, porque saberá que tais sentimentos poderão não ser justos, poderão refletir os seus piores instintos. O/A narrador/a, no entanto, quererá ver esse lado.
Felizmente, Good Things Go termina numa nota de esperança: o/a narrador/a mostra-se disposto/a a assumir a responsabilidade pelos erros que tem cometido e agradece o apoio da outra pessoa.
É uma bela música, uma boa forma de encerrar a edição-padrão de From Zero. O que, de resto, vai em linha com o resto da discografia dos Linkin Park: todos os álbuns acabam com boas músicas.
Chegámos, assim, ao final da edição-padrão. É um álbum curtinho – só onze faixas (na prática, dez), trinta e um minutos de duração. É pouco, mas infelizmente é moda. As gravadoras usam a desculpa dos tique-toques desta vida, da redução do tempo de concentração. E tem sido caricato ouvir as desculpas que os músicos dão:
– Eu queria que fosse conciso e bom, para vocês quererem ouvi-lo várias vezes de seguida – disse Mike sobre a edição-padrão de From Zero.
– É um grande privilégio tomar trinta e cinco minutos do tempo de alguém. Não vou pedir-vos mais tempo, este é precioso – disse Lorde sobre o seu último álbum, Virgin.
– Podem ouvir duas vezes – disse Taylor Swift nos comentários de um Tik Tok de alguém queixando-se da curta duração das faixas de The Life of a Showgirl.
Meus senhores, ide enganar outra!
Em defesa de Taylor, o seu álbum mais recente é o sucessor de um autêntico testamento musical. Tem desculpa para, agora, lançar um trabalho mais conciso. Mesmo o Virgin, de Lorde, não soa demasiado curto, na minha opinião.
Ainda assim, regra geral, sempre preferi álbuns mais compridos do que curtos. Não digo que todos os álbuns tenham de ter a duração do The Tortured Poets Department: The Anthology ou, mais recentemente, do Ego Death at a Bachelorette Party. Mas sou antiquada: para mim um álbum deve ter entre doze e catorze faixas e, no mínimo, quarenta minutos de duração.
Dito isto, olhando para as músicas de From Zero em si, tirando os casos específicos da introdução e de Overflow, nenhuma das faixas soa curta demais. Por outro lado, agora que temos a versão Deluxe, esta soa mais completa, soa à versão definitiva do álbum. E, sejamos sinceros, não devia ser assim.
Ao mesmo tempo, tendo em conta que duas das músicas só ficaram concluídas após o lançamento da edição-padrão, também não sei o que podiam os Linkin Park ter feito de diferente.
Também me chateia (ainda) não haverem, à hora desta publicação, versões instrumentais, nem à capela, nem episódios da LPTV para estas três músicas.
Tecnicamente, a versão Deluxe foi editada em maio. Na prática, eles lançaram uma música de cada vez nas semanas anteriores: Up From the Bottom em finais de março, Unshatter em finais de abril e Let You Fade a 17 de maio, quando saiu o álbum todo. Nesse sentido sou menos antiquada: foi um lançamento interessante. Cada uma das músicas teve o seu momento.
Nas semanas anteriores ao lançamento de Up From the Bottom, a banda foi dizendo que esta era a melhor música que os Linkin Park alguma vez tinham criado. Não sei se eles estavam a falar a sério – com estes bacanos, não dá para ter certezas de nada. Dito isto, agora que já conheço a música… não digo que seja de facto a melhor dos Linkin Park, mas, vá lá, poderia figurar sem vergonha no alinhamento de Papercuts. É a minha preferida das três faixas extra da edição Deluxe e mesmo uma das minhas preferidas em From Zero, ponto.
Up From the Bottom terá sido composta há cerca de um ano, talvez um bocadinho mais. Foi já depois do regresso oficial, entre datas da mini digressão do ano passado. A banda ter-se-á inspirado precisamente na energia desses concertos.
Nota-se. É um dos meus aspetos preferidos da música: a sua energia incrível.
Não que tenha muito muito a dizer sobre ela. A letra, não sendo nada de extraordinário, é boa. Em termos de vocais, Emily desempenha o papel principal com competência. E gosto de ouvir Mike nos vocais de apoio na segunda estância.
A melhor parte é a terceira. Gosto do ritmo do rap de Mike. Este termina com “already off running”, temos uma pausa de cerca de meio segundo, antes de uma sequência absolutamente alucinante. Consta que mistura guitarra, teclado, discos giratórios, vocais de Emily. Mike explicou-o num tweet demasiado técnico para os meus humildes conhecimentos, de tal forma que nem consigo traduzi-lo.
Só sei que será, porventura, o melhor momento instrumental em todo o From Zero.
Up From the Bottom teve direito a videoclipe. Não sendo mau, não é nada da extraordinário. Casa bem com a música e adoro os visuais deles todos, sobretudo de Emily (tenho de comprar calçar tipo “cargo”). A minha cena preferida é aquela em que Mike passa a guitarra a Emily antes da fantástica terceira parte. É um momento discreto, talvez insignificante, mas a mim tocou-me. Já sou fã de música há muitos anos mas, tanto quanto me lembro, nunca vi membros de uma banda trocando instrumentos entre si num videoclipe.
É bonito.
Unshatter terá sido uma das primeiras músicas que os Linkin Park terão criado com Emily. Há uma história engraçada por detrás disso: quando Emily estava no gabinete a gravar a terceira parte da música, Colin terá entrado no estúdio. Ao ouvir o que estava a ser gravado, terá dito algo como:
– Olha! Parece a cantora dos Dead Sara!
Imagino que Mike tenha dito algo como:
– Tem piada dizeres isso…
Colin terá reagido com entusiasmo ao descobrir que era mesmo com Emily que estavam a colaborar. Tudo isto terá, então, decorrido antes de o alinhamento da nova versão dos Linkin Park estar definido.
Colin não foi o único a ouvir a terceira parte de Unshatter e a pensar “Dead Sara”. Vários fãs tiveram a mesma reação quando a música saiu. Curiosamente… eu não o vejo. E até tenho dado muita rotação a Dead Sara neste ano civil. Para mim, aquela terceira parte é clássico screamo de Linkin Park. Podia ter sido criado para Chester interpretar.
Temos de novo Mike no rap, Em no refrão. Temos de novo uma bateria forte, semelhante a Cut the Bridge. Um pouco semelhante demais, penso eu – talvez tenha sido por isso que tenha sido deixada de fora da edição-padrão.
Na minha opinião, foi a decisão correta. Cut the Bridge é melhor. Unshatter não é má. Tem um refrão cativante. Tirando isso e o seu significado histórico, no entanto, não me diz muito. Gosto menos que do restante From Zero.
Só falta falar, então, sobre Let You Fade. Uma das mais… interessantes em todo o álbum.
Esta terá começado a ser composta ainda durante os trabalhos de From Zero edição-padrão, mas a banda só conseguiu concluí-la e gravá-la em finais do ano passado. Assim que foi lançada, toda a gente fez a mesma interpretação.
Vou um bocadinho mais longe – ou melhor, vou numa direção ligeiramente diferente. Para mim, a letra de Let You Fade (não o som) recorda-me Post Traumatic, de Mike. Faz a ponte entre esse álbum e From Zero – no sentido em que é menos sobre a perda de Chester em si e mais sobre as consequências dessa perda. Sobre a perda da banda.
A primeira parte fala sobre noites mal dormidas (um tema recorrente em Post Traumatic), lamenta esforços feitos por um projeto que colapsou de um dia para o outro (“breaking our backs for a pile of sand, just to have it all falling out of our hands”). A segunda parte parece ser sobre a reconstrução da banda, o receio de que tudo volte a falhar (“Tryin’ to get with the rhythm, I’m all over the place”), a noção de que nada poderá ser como dantes (“we don’t want to admit that we are never going back”).
O refrão, por sua vez, é todo ele uma promessa: recordar alguém, honrar a sua memória, mesmo com todas as voltas que a vida possa dar.
Let You Fade terá começado como uma música calminha, só piano e voz, antes de a banda perceber que a música precisava de mais intensidade. O resultado final é, digamos, barulhento. Nem sequer sei se pode ser considerado balada.
Eu gosto assim. Existem muitas músicas sobre luto mais calmas e eu gosto de várias: Hear You Me, dos Jimmy Eat World, por exemplo, Bigger than the Whole Sky, de Taylor Swift, a própria One More Light. Dito isto, há alturas que preciso de música sobre perda com algum barulho, com notas agudas, para a catarse. Who Knew, da P!nk, sobretudo a parte final; Brighter, dos Paramore. Mesmo regressando a One More Light, a minha parte preferida é o solo de guitarra muito suave e o grito de “I do” – na versão de estúdio soa apenas no fundo, ao vivo soa alto e bom som. Têm sido muitas as ocasiões em que grito essa parte em coro com o Ivo, nos concertos de Hybrid Theory – é de facto uma grande catarse.
Por outro lado, o refrão cantado num tom mais grave e calmo por Mike – provavelmente mais parecido com com a tal versão só com piano e voz – funcionaria bem como uma conclusão para One More Light ao vivo. Se alguém estiver interessado… fica a sugestão.
Ora, Mike disse que a letra de Let You Fade não é sobre a perda de Chester. Não quero acusá-lo de estar a mentir – até porque é possível q|ue não tenha havido uma única situação a inspirar a letra – maaaaaasssss… vá lá.
Dito isto, não os censuro. Eu compreendo – tal como compreendo que não queiram voltar a tocar One More Light, pelo menos para já. Isto não é fácil para ninguém. Já escrevi muito sobre a perda de Chester, sobre como a sua vida e morte estarão para sempre ligados aos Linkin Park, para o melhor e para o pior. Mike compôs uma música sobre isso – About You, do álbum Post Traumatic – em 2017/2018. Acredito que esse seja um dos motivos pelos quais demoraram tanto tempo a reconstruir a banda. Não é fácil para ninguém e, ao fim de mais de oito anos, de milhares ou mesmo de dezenas de milhar de palavras escritas, de todas as fases do luto, as convencionais e as inventadas para este caso em específico, continuo sem saber a maneira correta de lidar. Se é que existe uma maneira correta.
Penso que todos concordamos que, de uma maneira ou de outra, não existe Linkin Park sem Chester e nunca existirá. Tal como reza Let You Fade, Chester nunca será esquecido – os milhões de fãs que deixou para trás nunca o permitirão. Ao mesmo tempo, já lá vão oito anos (não oito dias, não oito meses, oito anos). As saudades não desaparecem, mas nenhuma pessoa mentalmente sã vive em luto para sempre. Eu então já chorei muito, demasiado, pelo Chester. Foi necessário nas diferentes alturas, mas agora prefiro recordá-lo com alegria, celebrar as coisas boas da minha vida que ganhei graças a ele, direta ou indiretamente.
Na mesma linha, compreendo que, nesta fase, os Linkin Park queiram contrabalançar o luto com alegria, que queiram fazer da banda um espaço seguro, um escape. Estão no seu direito. E tem resultado, entre palhaçadas, soutiens, gomas, fatiotas do Lidl, disfarces do Maradona, “gender reveals”. Não é por acaso que digo que o universo dos Linkin Park é uma das poucas coisas boas a acontecer no mundo neste momento.
Dito isto, é bom termos um momento com Let You Fade, onde os fãs possam projetar as suas emoções em volta de Chester. Na minha opinião, era a peça que faltava a From Zero. Agora o álbum está completo.
Como disse antes, From Zero é um típico álbum de Linkin Park. Quem for fã da banda e não tiver picuinhices em relação a Emily, vai gostar. Já tive oportunidade de ouvir as músicas de From Zero em aleatório à mistura com o resto da discografia dos Linkin Park e estas encaixam perfeitamente. Não tenho uma tabela classificativa com os álbuns da banda, pois estes estão em constante reavaliação. Mas neste momento diria que From Zero está confortavelmente na meio da tabela – a meio e a tender para cima.
Também vimos que From Zero não inova muito, o que é compreensível. Dito isto, é possível que o seu sucessor seja mais experimental – sobretudo tendo em conta que, desta feita, não estarão a reconstruir a banda ao mesmo tempo que criam o álbum. Pode ser que Emily e Colin tenham ainda mais influência no próximo trabalho. Eu gostava.
Para quando podemos esperá-lo? É uma boa pergunta. A digressão atual prolongar-se-á até meio do próximo ano – literalmente, a última data é 30 de junho – e passará por cá. São muitas datas e aqueles bacanos já não são assim tão novos: os mais jovens estão perto dos quarenta, os mais velhos estão perto dos cinquenta. Duvido que não precisem de pelo menos uns meses para descansarem depois desta.
Mike é Mike, é viciado. Mesmo que a digressão páre, aposto que ele se vai enfiar logo no estúdio. A questão é se será para criar música para os Linkin Park ou para projetos laterais. Mike tem dito que os Linkin Park são o seu verdadeiro amor, não será uma grande surpresa se quiser manter o comboio em andamento, para compensar pelo tempo perdido. Há de depender mais da vontade dos colegas.
Depois temos Emily com os Dead Sara. Acho que ela não quer desistir da sua banda original – algo que aplaudo. Até porque eu mesma, entretanto, me tornei fã da banda, ainda de forma muito superficial. Talvez queiram criar um álbum novo entretanto e/ou mesmo fazer uma digressão. Eu ficaria contente, mesmo que a possível digressão não passe por Portugal.
A minha única preocupação é que Emily – ou qualquer um dos outros, na verdade – se estique demasiado com todos estes projetos. Porque suspeito (atenção, isto sou só eu a especular, vale o que vale) que o burnout tenha sido uma das coisas a tramar Chester no fim. Até 2017, os Linkin Park andavam a lançar álbuns a cada dois, três anos. Não me importava se, nesta segunda vida, os ciclos vierem com mais anos de intervalo. Não deixa de ser uma melhoria em relação aos sete anos de pausa – desde que os seis (sete, se contarmos com Alex Feder, o guitarrista de apoio) estejam saudáveis e felizes.
Mesmo na pior das hipóteses, mesmo que tudo acabe, usando uma expressão muito usada por uma certa banda de tributo, os últimos catorze meses e tal já ninguém nos tira. Dito isto, espero que From Zero seja o primeiro de muitos álbuns desta versão da banda, que esta segunda vida dure até Mike, Emily e os outros terem noventa anos.
E era tudo o que tinha a dizer sobre From Zero. Não posso terminar sem deixar um agradecimento ao site Linkinpedia, que como o costume me facilitou imenso a pesquisa para esta análise. O próximo álbum sobre o qual escreverei será Virgin, de Lorde. Uma parte de mim quer desesperadamente saltar para Ego Death at a Bachelorette Party, de Hayley Williams: um álbum ainda mais sumarento do que o costume no que toca ao universo dos Paramore. Mas tenho de dar uma oportunidade a Virgin – é o mínimo, sobretudo tendo em conta que vou finalmente ver Lorde ao vivo, no próximo ano.
Além disso, já não é a primeira vez que digo que o universo dos Linkin Park e o dos Paramore têm tido mais tempo de antena aqui no estaminé do que quaisquer outros. Tenho de continuar a diversificar.
Como sempre, muito obrigada pela vossa visita. Até à próxima.
Hoje vamos finalmente falar sobre From Zero, o álbum de regresso dos Linkin Park após uma pausa de sete anos, devida à morte do vocalista Chester Bennington, em 2017. Faz hoje um ano do lançamento da edição-padrão do álbum, mas neste texto falaremos também sobre Up From the Bottom, Unshatter e Let You Fade. Ou seja, tecnicamente, esta é uma análise à edição Deluxe de From Zero, editada oficialmente a 17 de maio deste ano. Virá dividida em duas partes, a segunda parte será publicada logo à tarde.
Conforme já expliquei anteriormente, já gosto mais do título From Zero. Se quisermos ser cem por cento factuais, claro que os Linkin Park não começaram do zero: tinham sete álbuns e cerca de vinte e cinco anos de história a sustentá-los. Penso que, neste contexto, tirando a alusão à primeira versão dos Linkin Park, Xero, “Zero” representa os sete anos de pausa. A banda e os fãs têm usado a expressão “From Zero to [país ou cidade onde há concerto dos Linkin Park]”. Nós, por exemplo, temos dito “From Zero to Portugal”, a propósito do concerto deles no Rock in Rio do próximo ano. Há uma t-shirt e tudo!
Porque a sensação é mesmo essa: recuperámos a nossa banda do nada. Antes deste regresso, não me atrevia a sonhar com, por exemplo, um regresso deles cá.
Por outro lado, se me permitem que volte a falar outra vez sobre os Hybrid Theory, o tributo português aos Linkin Park, a expressão From Zero também se aplicaria a eles. Um dos nomes que terão usado, quando o plano ainda era criarem música original, era Zeroh. E nem sequer era uma referência a Xero, não tinha nada a ver com os Linkin Park. Segundo o Ivo, o vocalista, aludia ao facto de terem zero ideias para o nome da banda.
Não vou comentar.
Regressando a From Zero, o álbum, este é mais ou menos o que seria de esperar. Um típico álbum dos Linkin Park. Pode-se argumentar que a banda jogou pelo seguro em vez de explorar territórios novos – como fora a norma desde Minutes to Midnight, inclusive, para a frente. Como já escrevi antes, acho compreensível. No que toca a este álbum, estarem ativos depois de tanto tempo em latência, depois de reconstruírem a banda, já é território novo.
Além de que duas pessoas novas na banda, em particular uma nova voz, já constituem novidade suficiente. Suficiente até para a comunidade de fãs entrar em guerra civil – algo que também já era a norma.
Alguns fãs têm tratado as faixas de From Zero como se cada uma delas representasse um álbum anterior ou mesmo uma música anterior. Não concordo. Tirando dois casos específicos e muito óbvios de músicas que soam auto-plagiadas – e, fiquem descansados, falaremos sobre isso – mesmo sem grande experimentalismo, a larga maioria de From Zero tem carácter próprio que chegue. Aliás, sempre notei algumas influências de Post Traumatic, o álbum a solo de Mike Shinoda, compositor, produtor, multi-instrumentista e essencialmente cérebro dos Linkin Park. O próprio Mike confirmou-o em entrevista, no verão passado.
As faixas de From Zero têm muitos “samples” – um de Fuse, um tema do tempo dos Xero, juntamente com o som de uma cassete sendo virada, no final de Overflow; um sample de Step Up no início de IGYEIH – muita conversa de estúdio entre faixas. Faz lembrar o The Hunting Party por um lado, mas já reparei que, por exemplo, Heroes dos Dead Sara (a primeira banda de Emily Armstrong, a sucessora de Chester como vocalista dos Linkin Park) também incluiu conversa de estúdio no fim. Talvez seja uma maneira de comunicar que é suposto ouvir-se o álbum do princípio ao fim, pela ordem correta. Eu, no entanto, já ouvi o álbum em aleatório e as transições funcionam à mesma.
As exceções são o “get your screaming pants on” entre Over Each Other e Casualty e, claro, o final de Good Things Go e o início de Intro: From Zero. Eles fizeram algo que os Coldplay costumavam fazer (será que ainda fazem?) com os álbuns deles: transições entre as últimas faixas e as primeiras, criando um loop. Segundo Mike, a ideia era que o álbum formasse um círculo, um zero.
O que nos leva, então, a Intro: From Zero. Não é a primeira vez que os Linkin Park abrem álbuns com faixas que não são canções a sério, mas eu diria que esta é a menos necessária, a que menos acrescenta. Consiste no coro por detrás do refrão de The Emptiness Machine (com vozes de Emily e Mike) e uma voz essencialmente tentando descortinar o significado de “from zero” – eventualmente percebendo a referência a Xero.
Durante algum tempo pensou-se que seria a voz de Emily. Mike disse que não, terá sido um miúdo, provavelmente pré-adolescente. Já pensei que seria o filho mais velho de Mike – penso que o nome dele é Odis – mas suponho que ele já será demasiado velho para soar assim.
Tem a sua graça mas, como disse acima, na minha opinião, não acrescenta o suficiente ao álbum para justificar a sua existência. Mais valia terem feito o loop com o início de The Emptiness Machine. Ou então, se precisavam mesmo de uma introdução, que esta fosse um instrumental que fizesse a ponte entre essa e Good Things Go.
O que nos leva a The Emptiness Machine. Tecnicamente, já escrevi sobre ela no ano passado, pouco depois de a música ter saído, mas as minhas opiniões… não digo que tenham mudado radicalmente, mas foram evoluindo com o tempo.
The Emptiness Machine foi uma das primeiras faixas de From Zero a serem criadas. Mike tê-la-á composto algures em 2022. Na altura, ele andava a compôr músicas a solo – terá composto In My Head depois desta – mas sempre soube que The Emptiness Machine era música de Linkin Park, logo, guardou-a. Consta que a primeira versão de The Emptiness Machine tinha apenas a voz de Mike e que o feedback de quem a ouviu era apenas médio-bom. Entretanto, Emily juntou-se à festa, rearranjaram a música de modo a que ela entrasse após o primeiro refrão. Aí, a avaliação da música passou de “boa” a “estratosférica”.
E tinham razão.
Eu adoro The Emptiness Machine. Agora vejo que fui um pouco crítica demais no texto do ano passado. Talvez tenha internalizado um pouco das reações negativas à música e ao regresso da banda em geral. Talvez fosse o instinto, muito prevalente na comunidade de fãs desta banda, de inicialmente não reagir bem a um novo ciclo de álbum.
Não sei. Nem eu nem muitos outros fãs dos Linkin Park mostrámos a nossa melhor faceta em setembro de 2024. O que vale é que muitos de nós conseguimos evoluir além disso. Há quem (ainda) não o tenha feito.
Regressando a The Emptiness Machine, a minha parte preferida é mesmo a entrada de Emily. Vou dizê-lo já: um dos melhores aspetos de From Zero é o contraste entre as vozes de Mike e Em. Se fosse Chester a cantar, estas músicas não resultariam, o carácter não seria o mesmo – a voz dele cumpria um papel diferente. É por isso que depressa deixei de tentar imaginá-lo cantando as músicas novas.
O momento, então, em que Emily começa a cantar em The Emptiness Machine é marcante, só por si mesmo. Conhecendo o contexto histórico, torna-se ainda mais especial. Olhando para o resto do álbum, não existe mais nenhuma música com esta estrutura. Faz sentido que tenha sido escolhida como primeiro avanço – nenhuma outra funcionaria tão bem para assinalar o regresso.
Em relação à letra, não tenho nada a acrescentar. Aliás, aproveito para avisar que, em várias músicas de From Zero, não falarei sobre as letras. Temos muitos clichés de Linkin Park aqui – temas combativos, revolta contra pessoas e/ou situações tóxicas – e, embora não desgoste da maior parte dos casos, não tenho muito a dizer.
Claro que temos notáveis exceções à regra. Não passarão em branco.
Regressando a The Emptiness Machine, gosto imenso dela. Tanto pela música em si como pelo papel que desempenhou. As vozes de Mike e Emily soam fabulosas – recomendo a versão à capela. Uma das melhores dos Linkin Park – não digo ao nível de Numb ou de In the End mas, vá lá, Burn it Down ou What I’ve Done.
Vou também falar de novo sobre Heavy is the Crown. Consta que esta nasceu de uma ideia com vários anos. Mike terá desenvolvido um tema para a banda sonora de Arcane – uma série animada que decorre no universo dos jogos League of Legends (é possível que esta última parte seja do conhecimento geral, mas eu só descobri há cerca de um ano). Mike esteve na estreia da primeira temporada em finais de 2021 – onde decorreu o momento delicioso mostrado neste vídeo – terá conhecido o compositor da banda sonora de Arcane, Alex Seaver. Pouco depois, convidou-o a sua casa onde lhe terá mostrado a demo de uma ideia para a banda sonora da segunda temporada – ideia essa que daria origem a esta versão.
Cheguei a pensar que o plano seria Mike gravá-la a solo – ou arranjar alguém para interpretá-la. Só que entretanto encontrei este artigo que dá a entender (é algo ambíguo) que, já em finais de 2021, princípios de 2022, Mike tinha planos para recuperar os Linkin Park, ainda que ainda não tivesse recrutado Emily.
De qualquer forma, a segunda temporada de Arcane estreou no ano passado, três anos depois. Deu tempo a Mike e os outros para reconstruírem a banda – e Emily acabou por cantar na versão usada na banda sonora.
Entretanto, os Linkin Park decidiram criar uma versão mais roqueira para From Zero. Essa versão reteve o carácter épico e cinemático – que se mantém o meu aspeto preferido da música. É o que lhe dá personalidade, o que a distingue de Faint, com que partilha muitos aspetos, conforme referimos antes. Pelo meio, a banda e Seaver lembraram-se de fazer dela o hino oficial da edição de 2024 Campeonato Mundial de League of Legends. Os Linkin Park tocaram-na ao vivo na final do campeonato, em Londres, a 2 de novembro do ano passado – na véspera do concerto deles em Paris.
Nesse dia, como podem ver no vídeo acima, Olivee May, a repórter que não reconhecera Mike em 2021, pôde reencontrá-lo (a cara dele mata-me) e redimir-se. Assim se fecharam dois ciclos no mesmo dia.
Dito isto, apesar de ainda gostar de Heavy is the Crown, devo confessar, esta foi ficando para trás nos meus interesses à medida que fomos conhecendo mais músicas de From Zero. Mais: em setembro do ano passado, juraria a pés juntos que gostava mais de Heavy is the Crown do que de The Emptiness Machine. Agora já não é verdade.
O single que se seguiu, por sua vez, é uma das minhas músicas preferidas neste álbum. Over Each Other, lançada em finais de outubro do ano passado, poucas semanas antes do álbum. Tem uma personalidade diferente das suas antecessoras: uma balada, ainda que sem deixar de ser rock. Lembra temas como Valentine’s Day ou Final Masquerade. Uma das minhas partes preferidas em termos de instrumental é a sequência que se segue ao segundo refrão: mesmo a puxar aos headbangs.
Até agora, da era de Emily, esta é a música com menos Mike nos vocais – só um backvocal aqui e além. É o mais próximo que temos de uma música de Linkin Park cantada a solo por Emily. Não acho muito justo. Nos álbuns anteriores, Chester tinha sempre direito a pelo menos a duas ou três músicas a solo nos vocais em cada álbum (em Minutes to Midnight e em One More Light chegou a ter sete). Porque é que Emily só tem uma até agora? Pode passar a ideia de que a banda (ainda) não confia nela para carregar uma música sem a “ajuda” de Mike.
Por outro lado, o co-vocalista tem vindo a ganhar traquejo com a sua voz nos últimos anos – como cantor mesmo, não apenas como rapper. Já vinha a fazê-lo ainda Chester era vivo. Pode-se argumentar que ele viria sempre a ganhar cada vez mais protagonismo nos vocais.
E de qualquer forma, como já dei a entender, tenho gostado de ouvir Emily e Mike cantando juntos.
Regressando a Over Each Other, Jon Green é um dos compositores, depois de já ter contribuído para One More Light, o álbum. Não diria que Over Each Other se encaixaria nesse disco, pelo menos não em termos de sonoridade. Por outro lado, para mim, a letra soa a uma continuação de Friendly Fire (lançada no mesmo ano, mas numa era completamente diferente): conflitos desnecessários entre entes queridos. No caso de Over Each Other, tais conflitos baseiam-se em problemas de comunicação. Penso que é suposto considerarmos que a letra fala sobre uma relação romântica mas, na minha opinião, é daquelas que se podem aplicar também a amizades ou relações familiares.
No respetivo episódio da LPTV, ouvimos parte de uma versão de Over Each Other cantada por Mike, grava algures em finais de 2022 – e até nem soa má. O vídeo salta para mais de um ano depois, já com Emily, mostrando Mike orientando-a enquanto esta criava a sua interpretação. E Em, tal como em The Emptiness Machine, elevou a música a todo um outro nível, sobretudo em termos de emoções.
A minha parte preferida é o último refrão: o verso “so say what’s underneath, I want to see your side” – o desespero e súplica tangíveis.
O videoclipe foi realizado pelo DJ da banda, Joe Hahn, e filmado em Seul, na Coreia do Sul. Ele e Emily ficaram para trás depois do concerto dos Linkin Park por lá, no ano passado. Joe ter-se-á inspirado em novelas coreanas (essa é a tradução correta para k-drama?) e nota-se um bocadinho.
Resumidamente, temos Emily e a sua namorada, têm uma discussão, a discussão prolonga-se até ao volante e têm um acidente. Melodramático e cliché – dos maiores clichés que existem – mas, a meu ver, funciona. Era o que a música pedia. E, de qualquer forma, sempre saca uma boa reviravolta, quando descobrimos que a Emily a cantar no local do acidente é um fantasma.
Over Each Other foi estreada ao vivo em Paris, precisamente no concerto a que fui. Emily toca guitarra nela – se a memória não me falha, foi a primeira vez enquanto vocalista dos Linkin Park. Foi agradável, mas na altura tinha alguma esperança de que estrearam uma inédita no meu concerto – tal como tinha acontecido no Rock in Rio de 2014, com Wastelands. Quem teve essa sorte foi Dallas, alguns dias mais tarde.
Nesta altura, vários de nós já sabiam que Casualty seria uma música pesada. Mike e Emily tinham-no referido neste podcast e, no final de Over Each Other, ouve-se Mike dizendo “OK, get your screaming pants on”. Já se conhecia o alinhamento do álbum, sabíamos que Casualty vinha depois de Over Each Other, noves fora…
Uma confissão: não gosto deste posicionamento. Sei que não é uma prática assim tão estranha transitar de uma música mais calma e sentida para uma música mais agitada e vice-versa. Nem sequer é a única vez que acontece em From Zero. Normalmente não me importo. Neste caso em específico, no entanto – talvez por Over Each Other mexer comigo como poucas mexem – é um contraste demasiado grande, na minha opinião.
Casualty terá nascido de uma ideia do guitarrista Brad Delson. Este juntou-se à festa com algum atraso. Quando já se sentia integrado no novo formato dos Linkin Park, sugeriu comporem algum bem pesado, algo que levasse Emily ao extremo (...agora que escrevo isto, pergunto-me se isto era a maneira de Brad de testar a miúda nova, de lhe fazer a praxe). Em correspondeu ao desafio, foi com tudo ao compôr o refrão, impressionando Mike.
Este por sua vez também se superou. Cantou em quase screamo, algo que, tanto quanto sei, nunca tinha feito. Muito fixe. E, uma vez mais, gosto do contraste entre a voz dele e a de Emily.
A letra, não sendo nada de extraordinário, tem os seus momentos. Só há poucos dias, quando ouvi a versão à capela da música, é que reparei no "Let's get out alive!" de Emily, no início da música. Estranhamente inspirador. Além disso, gosto de imaginar que o refrão é cantado por uma personificação do segredo do regresso dos Linkin Park – na Primavera do ano passado, quando andavam a escapar as primeiras pistas. “‘Cause something’s coming, it’s only a matter of time. Let me oooout! Set me free! I know all the secrets you keep!”.
E, inveja à parte, a estreia de Casualty ao vivo foi icónica. Mike invocando as “screaming pants” de Emily, a cara desta última, Em dizendo-se “muito tímida” antes de desatar aos gritos e aos headbangs. O que, por sinal, espelha bem a minha personalidade, as minhas duas facetas.
A última música que conhecemos antes do lançamento oficial de From Zero foi Two Faced – ainda que, no meu caso, não tenha sido bem assim. Se me permitirem o aparte, queria falar sobre a listening party oficial de From Zero – cujas recordações, para mim, estão associadas ao álbum em geral e a Two Faced. Na verdade, queria já ter falado sobre este evento neste texto, mas tive de cortar essa parte por motivos de extensão.
A listening party teve lugar dois dias antes do lançamento oficial do álbum, na sede da Warner Music Portugal. Inicialmente era um evento só para membros do LP Underground, mas acabaram por alargar a qualquer um que pedisse. Fui, naturalmente, com alguns amigos da família HT.
Foi uma noite muito gira. Na altura, nunca tinha ido a nenhuma listening party até à altura ou a outro evento do género. Foi a primeira vez que ouvi From Zero do princípio ao fim – tocaram-no duas vezes. Durante a primeira audição, ficámos só ali de pé, frente a uma grande tela onde fora projetada uma fotografia da banda – em que Mike e Emily pareciam estar a olhar diretamente para mim. Quando o álbum tocou segunda vez, dispersámo-nos pelo resto da sala, à volta das mesas onde estavam servidos canapés.
Já posso dizer que os Linkin Park me ofereceram jantar.
No fundo, foi mais uma noite para celebrar a banda e o seu regresso. Mais um exemplo de coisas que, poucos meses antes, julgava remotas.
Estou zangada em relação a uma coisa, no entanto. A Warner Portugal fez um reel do evento, mas retiraram-no das redes sociais. Eles entrevistaram-me durante o evento e passaram parte das minhas palavras na narração. Devia ter sacado o vídeo quando tive hipótese.
Regressando a Two Faced, durante a listening party, antes desta faixa, uma das pessoas com quem fui segredou-me que esta era muito Hybrid Theory (ele já tinha arranjado maneira de ouvir From Zero… não me perguntem como). Depois de ouvir pela primeira vez, a minha reação foi, de facto:
– Isto é quase um remix de One Step Closer!
Não fui a única. Nos dias que se seguiram apareceram logo montagens misturando as duas músicas. Uma das minhas preferidas é esta – parece que Chester e Emily estão aos gritos um com o outro.
– I can’t hear myself think…
– Shut up when I’m talking to you!
– Stop yelling at meeee!
– Shut up!
– I can’t hear myself think!
– Shut up!
Houve quem também apontasse semelhanças com Figure.09. Esta, já de si, é muito parecida com One Step Closer. As duas possuem um ancestral comum: a demo Plaster. Na preparação deste texto, apercebi-me que, na verdade, Two Faced parece-se ainda mais com Figure.09 que com One Step Closer. Ambas têm rap de Mike, os refrões têm melodias semelhantes, os gritos na terceira parte terminam ambos com “meeee”: “Get away from meeee! ”, “Stop yelling at meeee!“.
Uma vez mais, há misturas no YouTube, como a abaixo, em que incorporaram os vocais de Two Faced no instrumental de Figure.09. Encaixam quase na perfeição.
Ora, Mike recusa comparações entre Two Faced e músicas anteriores.
– Só quem não conhece bem a discografia dos Linkin Park – terá dito.
Assumindo que não nos está a tomar por parvos, há que recordar que este é o homem que garante a pés juntos que Meteora é um disco completamente diferente de Hybrid Theory. Eu adoro o Mike, mas nem tudo o que este senhor diz se escreve.
Também não acho que a intenção dele e do resto da banda com Two Faced fosse criar uma nova versão de One Step Closer. Mike afirmou ter-se inspirado nas suas influências durante os tempos de Xero, pré-Chester. Já vimos antes que, desta feita, os Linkin Park tiveram menos pudor em reutilizar elementos de trabalhos anteriores. Finalmente, como vemos no respetivo episódio da LPTV, a parte do “Stop yelling at me!” foi ideia de Emily, uma expressão que ela usa. Calhou ser algo que pertence ao mesmo território de “shut up when I’m talking to you!”.
Ainda assim, lamentavelmente, não consigo desassociar Two Faced de One Step Closer e de Figure.09. Não que não goste da música, atenção. Mal por mal, são elementos clássicos de Linkin Park e eu gosto de Linkin Park. Mas, infelizmente, Two Faced não consegue ter carácter próprio.
Queria assinalar um aspeto curioso. Como sabem, o refrão começa com “two faced, caught in the middle”. Esta última expressão é relativamente comum na língua inglesa – é inclusivamente o título de uma música dos Paramore. E aparentemente, segundo este Tik Tok, a expressão é cantada sempre com esta melodia – com muito poucas variações. Eles só dão quatro exemplos – incluindo Two Faced e Caught in the Middle dos Paramore. Poderão existir várias outras músicas usando a mesma expressão que não a cantem da mesma forma.
Mesmo assim, quatro músicas de bandas diferentes usando essencialmente a mesma melodia? É uma coincidência muito grande.
Ainda dentro do tema, logo nos primeiros dias após o lançamento da música, fãs começaram a brincar dizendo que o início do refrão soava a “toothpaste, bought in the Lidl” ou outras variantes. Não digo que não ache piada ao meme, mas sempre me pareceu um tudo nada forçado. Mais do que, por exemplo, “try the ketchup, motherfucker”.
Dito isto, os Linkin Park entraram na piada. A partir de certa altura – quando começou a digressão europeia deste ano, ou talvez antes – os fãs começaram a especular se Emily andava a cantar a letra erradamente de propósito. Tivemos a confirmação quando, no concerto de Dusseldorf, a mulher foi-me vestir uma daquelas fatiotas do Lidl para cantar Two Faced, como podem ver no vídeo acima.
Daquelas coisas que não estavam no meu cartão de bingo para os Linkin Park há um ano ou dois. “Já não bebes mais”, diria eu se mo contassem. Ao mesmo tempo, isto foi umas duas outras semanas depois de Emily ter rapado o cabelo a um fã a meio de um concerto. Soube a uma terça-feira normal no universo de Linkin Park.
Consta que, no concerto seguinte, ainda na Alemanha, andaram a distribuir fatos do Lidl entre os fãs na fila. Se fosse comigo, no entanto, bem diria aos Linkin Park para tirarem o cavalinho da chuva. Seria capaz de morrer por eles, mas não de vestir uma fatiota daquelas. Há limites.
Falta só falar sobre o videoclipe para Two Faced – o motivo pelo qual a música estará para sempre ligada à listening party. Saiu nessa mesma noite, poucas horas depois. Eu e os meus amigos vimo-lo pela primeira vez no telemóvel de um de nós, à porta de um bar na 24 de julho. Lembro-me de nos rirmos da cena final.
Aparentemente, um videoclipe para Two Faced não fazia parte dos planos, terá sido insistência da gravadora. Ninguém tinha nenhuma ideia. Mike em particular não andaria com grande vontade – e de facto, se pensarmos nisso, o vídeo foi filmado poucos dias antes do concerto de regresso. Eles deviam andar numa pilha de nervos nessa altura, não precisavam mais desta.
Joe lembrou-se de aproveitar o palco do concerto de regresso, vestir toda a gente de fato e gravata e pura e simplesmente tocarem a música. E a banda acabou por se divertir à grande. Com o playback, não precisava de se preocupar em cantar e/ou tocar como deve ser, tiveram permissão para se descontrolar, para abanarem o capacete, para andarem ao moche. Como eu e os meus amigos nos concertos. E isso refletiu-se no resultado final, no vídeo. Dá gosto ver.
Voltando à questão dos nervos pré-regresso, se eu estivesse no lugar dos Linkin Park, uma tarde de headbangs seria exatamente aquilo de que precisaria para lidar.
O episódio da LPTV que mostra os bastidores das filmagens é também delicioso. Emily chegando de skate, claro. Mike portando-se como se tivesse a idade dos próprios filhos nas brincadeiras entre takes. Emily acidentalmente empurrando o baixista Dave Farrell contra a bateria (esqueceu-se que tem de ter cuidado com os velhotes); com o joelho magoado; deitada de costas no chão, com Mike abanando-lhe a mão como se fosse um leque.
Não digam a ninguém, mas já tive vontade de fazer o mesmo depois de alguns concertos dos HT. Sobretudo depois do de Gondomar.
Acho que não é a primeira vez que refiro cá no blogue que nem sempre ligo aos videoclipes dos Linkin Park. Over Each Other e Two Faced são duas exceções. Estão entre os meus preferidos.
E para já ficamos por aqui. Não saiam desse lado, que a segunda parte vem já a seguir. Obrigada pela vossa visita.
Digimon Adventure 02: O Início estreou nos cinemas japoneses em outubro de 2023. Pouco mais de seis meses depois, no dia 16 de maio de 2024, chegou aos cinemas portugueses na sua versão original legendada. Fez parte de um ciclo de anime da Nos, que incluiu outros filmes do género: por exemplo, Spy x Family Código: Branco – um anime de que gosto muito, como penso já ter referido algures aqui no blogue.
O Início é protagonizado (bem… mais ou menos) pelo elenco de heróis de Digimon 02. Decorre pouco menos de dois anos após os eventos de Digimon Adventure Kizuna: A última evolução. Na minha opinião, Kizuna é uma das melhores coisas que Digimon alguma vez fez (só mesmo em termos de impacto emocional). Os temas que aborda – crescimento, perda, escolhas, lidar com o passado, encarar o futuro – são universais, daquelas lições que temos de aprender vezes e vezes sem conta. Vi o filme em três alturas diferentes da minha vida: em finais de 2020, quando me cansei de esperar pela estreia; em 2022, quando estreou a dobragem portuguesa nos cinemas; no encontro português do Odaiba Memorial Day (ajudou-me a lidar com algo sobre o qual escrevi aqui).
Dito isto, os eventos no final de Kizuna – nomeadamente o desaparecimento dos companheiros Digimon – contrariam as promessas deixadas pelo epílogo de 02. A ideia que tem passado é de que este epílogo mantém-se válido. Até porque tanto Kizuna como O Início fazem questão de corraborá-lo noutros aspetos, nomeadamente no que toca à carreira dos Escolhidos.
Não sei quantos de nós estavam à espera de ver O Início “corrigindo” o final de Kizuna – ou seja, arranjando maneira de devolver os companheiros Digimon ao elenco de Adventure. Mas se, como eu, se sentaram na sala de cinema com essa expectativa, apanharam um balde de água fria.
Admito que essa desilusão afetou a minha opinião inicial sobre o filme. Ao vê-los pela segunda vez para este texto, mais de um ano mais tarde, já com as expetativas ajustadas, gostei mais. Mesmo assim, mesmo não sendo um mau filme, O Início é… estranho.
Passo a explicar.
Os primeiros minutos do filme – que, por sinal, foram divulgados no verão de 2022, quase dois anos antes da estreia em Portugal – parecem fazer a ponte entre Kizuna e O Início, mas acabam por ter pouco a ver com o resto do filme. Não sei se isso foi deliberado. Começamos, uma vez mais, ao som de Bolero, enquanto somos confrontados com um estranho fenómeno com impacto a nível global. Desta feita, temos a certeza de que envolve Digimon: trata-se de um DigiOvo gigante que aparece em cima da Torre de Tóquio e a mensagem “Que todos tenham amigos, que todos tenham um Digimon” aparece em tudo o que é ecrã por todo o planeta.
Segue-se a abertura ao som de Target, com cenas do dia-a-dia dos Escolhidos de 02, bem como uma ou outra pista sobre uma personagem nova – uma vez mais, semelhante a Kizuna. O tom é semelhante ao filme anterior, sim, mas eis duas diferenças. A primeira: o grupo de 02 consegue integrar os companheiros Digimon nas suas vidas – melhor que os seus homólogos de Adventure, nomeadamente Taichi, Yamato e Sora. A segunda: o grupo de 02 consegue passar tempo uns com os outros. Vemo-los reunidos no restaurante onde Daisuke trabalha, no início do filme.
Adoro o elenco de Adventure, já o deixei bem claro neste blogue, mas tenho de admitir: eles parecem menos unidos que o elenco de 02. Pelo menos não parecem esforçar-se tanto para passarem tempo juntos.
Claro que a questão terá as suas nuances. Pelo menos aquando dos eventos d’O Início, Taichi e Koushiro ocupam cargos importantes no governo. É natural terem menos disponibilidade que estudantes universitários com empregos em part-time (que, mesmo assim, já são vidas bastante ocupadas). Mas, aqui entre nós, parte-me um bocado o coração saber que Taichi nem sequer tem tempo para falar com a irmã ao telefone.
Quando o grupo está, então, reunido no restaurante de Daisuke, falando sobre o misterioso DigiOvo, a televisão mostra um homem trepando a Torre de Tóquio. O grupo corre para o local e, quando o homem – Lui, um jovem de quase vinte anos, com um olho claramente não humano tapado por uma pala, um dispositivo digital ao estilo de Adventure rachado – escorrega e cai, o Stingmon apanha-o. Quando este o leva para junto dos Escolhidos, Lui não lhes agradece por lhe terem salvo a vida. Mostra-se bastante emo e antipático antes de revelar, por fim, que foi a primeira Criança Escolhida e que matou o seu companheiro Digimon. Antes de tecer duras críticas às parcerias entre humanos e Digimon em geral.
Os miúdos de 02, abençoados sejam, não vão à bola com as tretas de Lui, obrigam-no a falar. Ele pensa que o DigiOvo poderá ser o seu antigo companheiro, Ukkomon – Daisuke e Ken oferecem-se para levar Lui até ele. A partir daqui, o filme centra-se largamente no passado trágico de Lui – revelado através de uma viagem no tempo, quando ele, Daisuke e Ken chegam ao Digiovo, e através de flashbacks.
Digimon sempre se caracterizou por personagens humanas vindas de ambientes familiares complicados, mas Lui bate todos os recordes. Agora que a audiência do universo de Adventure é quase universalmente adulta, os guionistas podem dar-se ao luxo de serem mais sombrios.
No dia do seu quarto aniversário, 29 de fevereiro de 1996, Lui vive com um pai em coma, precisando de oxigénio para sobreviver. O que me faz alguma confusão. É seguro manter uma pessoa com este grau de incapacidade em casa? Não devia estar num hospital ou numa clínica? Até porque claramente é demasiado para a esposa, a cuidadora principal, se não for a única, e que ainda tem o filho de quatro anos a seu cargo. O aspeto negligenciado da casa onde a família vive prova que lhe falta tempo, dinheiro, quase tudo.
Disto isto, não tenho compaixão praticamente nenhuma pela mãe de Lui, pela maneira como trata o filho. Quando este se descuida e urina no sofá, como castigo ela coloca-o fora de casa, na neve, de roupa interior – deixando várias nódoas negras à mostra, mesmo para não deixar margem para dúvidas – enquanto lida com os estragos.
A tal viagem no tempo em que Daisuke, Ken e o Lui mais velho embarcaram foi precisamente para este dia. Perante esta cena, Daisuke quer entrar na casa e dizer umas verdades à mãe de Lui, mas os outros chamam-no à razão. Toda a gente sabe que Daisuke é impulsivo, mas eu aqui não o teria impedido de intervir. Talvez até me juntasse a ele e que se lixasse a cronologia. Porque, se há coisa que não tolero, é maus tratos a seres indefesos: crianças, idosos, animais. Estamos a falar de um miúdo de quatro anos!
Nisto, aparece um DigiOvo que choca, dando à luz Ukkomon – um Digimon com a capacidade de realizar desejos. Uma das primeiras coisas que Lui deseja é, naturalmente, alguém que o trate bem. Deseja amigos, diz mesmo que, quando crescer, fará amigos um pouco por todo o mundo. Ukkomon compromete-se a proteger Lui, a ser seu amigo, a arranjar-lhe mais amigos, fazer-lhe as vontades todas. O seu primeiro presente é um dispositivo digital.
A vida de Lui vai de um extremo ao outro quase da noite para o dia. A mãe começa a tratá-lo melhor, o pai recupera milagrosamente do coma. Quando Lui vai para a escola, Ukkomon protege-o dos bullies e ajuda-o a fazer amigos.
No presente, Lui diz que ele foi a primeira Criança Escolhida e que é graças ao desejo dele que existem Crianças Escolhidas sequer, com Digimon criados de propósito para as protegerem. Isto obviamente vai contra o cânone do universo de Adventure… mas acho que existe margem para interpretação.
Apesar de ter desejado amigos, Lui nunca terá chegado a conhecer outra Criança Escolhida. Faz sentido que não tenha a informação toda. Faz sentido que não sabia que existira um primeiro grupo de Crianças Escolhidas, que incluiu Maki Himekawa e Daigo Nishijima. É possível que a Homeostase tenha desistido da ideia de Crianças Escolhidas depois de o primeiro grupo ter falhado na sua missão. Poderá ter mudado de ideias depois do incidente de Hikarigaoka e aproveitou-se do desejo de Lui. Aliás, como o jovem não chegou a conhecer outras Crianças Escolhidas até aos eventos deste filme, cheira-me que o desejo poderá ter sido apenas uma desculpa para a Homeostase executar o seu plano.
No filme, Lui diz que Ukkomon estava ligado a um grande ser, que Hikari associa logo à Homeostase. Acho que é mesmo para não termos dúvidas.
Os miúdos de 02 ficam ofendidos com a ideia de que os laços que formaram com os seus Digimon foram criados por terceiros, nomeadamente um miúdo de quatro anos e o seu Digimon. Por um lado, compreende-se, por outro… é uma surpresa assim tão grande? É assim tão diferente daquilo daquilo que tinha sido estabelecido antes: que a Homeostase e/ou o Mundo Digital estavam por detrás dos vínculos entre humano e Digimon? Está no próprio termo, Crianças Escolhidas – não foram elas a escolher. Oikawa queria desesperadamente ser Escolhido, sendo essa a sua história de origem vilanesca.
Na mesma linha, já tinha sido deixado bem claro no universo de Adventure que os companheiros Digimon são criados para serem compatíveis com os humanos com quem são emparelhados (Meicoomon é a única exceção de que me recordo neste momento). São programadas para terem o instinto de protegerem os parceiros. Eles sabiam disso: Taichi tentou manipular esse instinto para obrigar Greymon a digievoluir. Mais: esse mesmo instinto tanto salvou como condenou Hikari. Primeiro, impediu Tailmon de a matar. Mais tarde, confirmou perante Vamdemon que Hikari era a oitava Criança – quando DemiDevimon magoou a menina e Tailmon reagiu.
É daqueles aspetos que, enquanto crianças, não nos faz confusão mas que, depois de crescermos e de pensarmos um bocadinho, questionamos a ética. Antes deste filme, Adventure nunca tinha abordado os vínculos entre humanos e Digimon sob esta perspectiva, tirando vagas alusões em Tri. Nem mesmo com Ken e Wormon, tanto quanto me recordo – um exemplo óbvio de como estes vínculos podem levar a abusos.
É possível que, dentro do universo, esta seja a primeira vez que os miúdos de 02 estejam a ser confrontados com a componente artificial da relação com os seus Digimon. Naturalmente, o primeiro instinto deles é colocarem-se na defensiva – e não acho que estejam errados. Sim, os Digimon foram personalizados para os respectivos companheiros humanos e sim, foram programados para os protegerem. Mas isso é apenas um fator na união – não deixa de haver conflito, não deixa de ser necessário esforço para a manter, como qualquer outra relação. De novo, Hikari e Tailmon durante o arco do Vamdemon, na Adventure original, são um bom exemplo disso. Bem como Tri, em geral.
Conforme veremos já a seguir, Ukkomon é uma versão extrema do típico companheiro Digimon: extrema devoção ao seu parceiro humano, nenhuma noção do certo ou do errado, nenhuma consideração por si mesmo. Ukkomon faz as vontades todas a Lui, sem pedir nada em troca. Lui, como qualquer criança, não estranha nada disso, não questiona. Não lhe ocorre que Ukkomon poderá ter sentimentos próprios, vontade própria.
Só em 2003 – Lui terá cerca de onze anos – é que o jovem vê o reverso da medalha. Lui acompanha os eventos do filme Diaboromon Contra Ataca pela televisão – ou, quanto muito, vê uma reportagem sobre os mesmos. Ukkomon comenta que os Digimon estão a lutar no lugar dos companheiros humanos, dariam a vida por eles, tudo graças ao desejo de Lui.
O jovem fica horrorizado.
Nesse momento, os pais de Lui perdem os sentidos. Aparentemente não respiram, mas Lui logo os reanima, os tentáculos como cordas de marionetas. É aí que percebemos que os pais de Lui estão mortos, provavelmente há vários anos, provavelmente desde o quarto aniversário do jovem. Ukkomon tem-nos usado como fantoches para manter o seu companheiro humano feliz.
Naturalmente, Lui passa-se. Tenta estrangular Ukkomon – o Digimon nem sequer oferece resistência. Se matá-lo fizer Lui sentir-se melhor, tudo bem. O jovem, então, muda de ideias. Tenta destruir o seu dispositivo digital com um taco, um estilhaço salta e – se bem me recordo, no cinema, nesta cena tapei os olhos – atinge-o no olho. Ukkomon prontamente arranca o seu próprio olho e… bem, “encaixa-o” no rosto de Lui.
A cena explica que O Início tenha sido classificado como um filme para maiores de 12 anos. Mesmo quando Lui grita com Ukkomon, fazendo com que este desapareça, não é algo limpo, com partículas digitais: a carne dele literalmente desfaz-se à frente de Lui, fluidos corporais pingando no chão e salpicando para o rosto do jovem. Já tínhamos tido elementos de terror em Digimon graças a Ghost Game, mas isto é outro nível.
No fim da cena, Lui fica sem Ukkomon, só com os cadáveres dos pais como companhia. Depois disto, Lui passou o resto da infância e adolescência vivendo com familiares (onde andavam esses familiares nos primeiros anos de vida de Lui, quando a mãe dele tinha tantas dificuldades?). No presente, Lui vive sozinho e, ao que parece, não tem ninguém.
Hikari sente compaixão por Ukkomon, percebe que as intenções do Digimon eram puras. Percebo a lógica, mas… que diabo, morreram duas pessoas! (E tenho perguntas em relação aos amigos que Ukkomon lhe arranjou.) É certo que não tenho grande pena da mãe de Lui e que, mal por mal, Ukkomon salvou-o de uma vida de maus tratos e negligência. Não significa que tenha sido correto.
E, de qualquer forma, ponho mais culpas na Homeostase, por ter juntado uma criança humana e um Digimon que não estavam preparados para lidarem um com o outro.
Em todo o caso, não admira que Lui tenha uma visão tão cínica dos vínculos entre humanos e Digimon. Se só conhecesse a relação entre ele e Ukkomon, também eu pensaria assim. Os miúdos de 02 e a própria audiência têm um conhecimento bem mais amplo, sabem que, vá lá, nove em cada dez parcerias são bem mais saudáveis.
Entretanto, soa a meia-noite do dia 29 de fevereiro de 2012, o vigésimo aniversário de Lui. O gigantesco DigiOvo choca, nasce BigUkkomon, surgem inúmeros DigiOvos com o objetivo de realizar o desejo do pequeno Lui: dar um companheiro Digimon a todos os seres humanos.
Curiosamente, os miúdos de 02 reagem mal à possibilidade. À primeira vista parece hipócrita: eles têm mais direito a companheiros Digimon que o resto da Humanidade? Por outro lado, consta que o número de Escolhidos tem duplicado todos os anos. Aquando dos eventos deste filme, vai em sessenta mil. É um crescimento rápido, mas dá para gerir. Dará tempo aos recém-Escolhidos e às pessoas em redor de se adaptarem aos companheiros Digimon. E não esquecer que, partindo do princípio que as regras de Kizuna continuam válidas, as parcerias têm prazo de validade.
Em contrapartida, tomando em conta as intenções de Ukkomon, estamos a falar de milhares de milhões de Digimon nascendo ao mesmo tempo no Mundo dos Humanos. Claro que não ia correr bem.
Durante o debate do elenco sobre o que fazer, Takeru lembra que, se fora de facto Ukkomon a criar as parcerias entre humanos e Digimon, derrotarem-no poderia comprometê-las. Ninguém se surpreende que tenha sido Takeru a referir a possibilidade – ele que nunca recuperou por completo da perda do Angemon em Adventure. Não me admiraria se o jovem tivesse passado o último par de anos em angústia, depois de ter visto o irmão perdendo Gabumon, temendo que um dia chegasse a sua vez. E Takeru nem sequer está a pensar apenas em si mesmo neste momento – invoca também os outros sessenta mil Escolhidos. Não é justo meia dúzia de pessoas decidirem por dezenas de milhares.
Hikari argumenta que não podem colocar os seus próprios desejos acima do bem-estar do resto do mundo. As pessoas têm traçado paralelismos entre este debate e o que os respectivos onii-chans tiveram em Kizuna – quando decidiram arriscar o curto tempo de vida dos seus Digimon para salvarem os amigos da Terra do Nunca. Também aqui a família Yagami defende colocarem o coletivo acima do individual – ainda que Hikari o faça com mais idealismo e menos desespero. A jovem acredita que o seu vínculo com Tailmon é suficientemente forte, mais forte que uma suposta programação por forças externas. Será capaz de sobreviver a um confronto com o BigUkkomon.
Também ajuda o facto de existir uma terceira opção de que Taichi e Yamato não dispunham. Ken deduz que talvez Ukkomon não queria lutar – a viagem no tempo poderá ter sido uma tentativa de comunicar com Lui. Assim, acabam por tentar a via diplomática, deixar o último falar com Ukkomon – com a vantagem adicional de preservarem as parcerias entre humanos e Digimon. Claro que, se necessário, partirão para a luta.
Depois desta, O Início tem a oportunidade de exibir o seu orçamento – animação lindíssima nas cenas de combate entre os Digimon e os tentáculos do BigUkkomon e nas sequências de digievolução. À semelhança do que Kizuna fez com as últimas, não se puseram a inventar, limitaram-se a recriar as sequências da 02 original com uma animação moderna.
No entanto, é aqui que eu mais lamento a inexistência de uma dobragem em português de Portugal. Mais do que com qualquer outra temporada de Digimon, inclusive a Adventure original, estou afeiçoada à versão portuguesa das digievoluções. Não consigo ouvir Beat It! sem ouvir “X-Veemon… Stingmon… Digievolução ADN para… Paildramon!”. As legendas em português nem sequer usaram os termos corretos.
Além disso, não sei se alguma vez cheguei a referi-lo aqui no blogue mas, mesmo com as suas imperfeições, regra geral, prefiro as vozes portuguesas para Digimon como o Paildramon. Nas versões nipónicas, as vozes são, na minha opinião, demasiado jovens, demasiado adolescentes. Em português, deram-lhe vozes de homens adultos – a meu ver, mais poderosas e adequadas.
Se tivesse o software certo, faria uma montagem com o áudio da dobragem portuguesa de 02 e as sequências modernizadas d’O Início.
Os Escolhidos conseguem levar Lui até ao BigUkkomon. Este torna a comunicar via regresso ao passado – ao mesmo dia. Desta feita, o Lui adulto aborda a sua própria mãe (sem se identificar). Essencialmente, pede-lhe que seja mais atenta e compreensiva para com o filho, pois este ama-a. Nesta versão dos acontecimentos – que eu assumo que seja idealizada por Lui e/ou Ukkomon – este curto diálogo é suficiente para a mãe começar a tratá-lo melhor.
Na realidade – mesmo dentro do universo – a situação não se resolveria assim tão facilmente. Não reduziria os fardos que a mãe de Lui tem de carregar sozinha, não lhe daria magicamente uma maneira mais saudável de lidar com o cansaço e a frustração.
Mas compreende-se. Lui pode ser adulto mas ainda é muito novo. Pode ainda não entender a complexidade da situação – é natural que tenha ainda esta fantasia. Deem-lhe uns anos.
A cena avança uma hora ou duas, com o Lui de quatro anos já em casa com a mãe – desta feita numa cena bem mais harmoniosa. Ukkomon aparece perante o Lui adulto, disposto a conversar abertamente. Ukkomon admite que pensava que coisas que faziam Lui feliz em criança eram sinónimo de coisas corretas. Por sua vez, Lui admite que a relação entre ambos sempre foi unilateral, que no fundo não sabe nada sobre o seu companheiro Digimon. Ukkomon sempre dando, Lui sempre recebendo.
Não que se possa censurar o jovem por tal: ele tinha quatro anos, era uma criança pequena, maltratada, carente de quase tudo. Mesmo em circunstâncias menos extremas, quantos anos é que demora uma criança a aprender que os pais e outras pessoas da sua vida são seres com desejos e necessidades próprias? Sobretudo se esses seres lhes dão tudo sem nunca pedir nada em troca, sem nunca dizer “não”.
Ambos acabam por decidir começar do zero e fazerem um esforço por comunicarem melhor desta vez. Lui faz questão de dizer que, apesar de fazer anos, não quer presentes, não deseja nada. Para que isso seja possível, no entanto, Lui precisa de regressar a 2012 e derrotar o Big Ukkomon – claro que precisa, o filme tem de ter um clímax. Ao menos a animação é bonita, como referi acima.
O BigUkkomon é, assim, derrotado e desintegra-se, tal como os inúmeros DigiOvos. Por seu lado, Lui recebe um DigiOvo de onde, podemos assumir, nascerá Ukkomon. Ao mesmo tempo, os dispositivos digitais de todos os Escolhidos por todo o Mundo desfazem-se em partículas luminosas – mas os Digimon não desaparecem.
Aliás, não sabemos as consequências do fenómeno: se os Digimon serão capazes de digievoluir, se deixam de estar programados para proteger os seus companheiros humanos, mesmo contra vontade. Se isto permitirá ao elenco de Adventure recuperar os seus Digimon ou se, depois desta, eles estão perdidos para sempre.
Sejamos sinceros: se eles continuarem a fazer filmes para este universo, é possível que se esqueçam convenientemente deste desenvolvimento. Dito isto, no que toca a este filme e só a este filme, creio que o objetivo era provar que os vínculos entre humanos e Digimon não dependiam, nem nunca dependeram, dos dispositivos digitais, de forças externas. Não a longo prazo, pelo menos.
O Início termina com o elenco envolvido numa batalha de bolas de neve. Sinceramente, é um bom final, é um final descontraído, bem-vindo no final de um filme que teve momentos pesados. Há uma cena pós-créditos que mostra os instantes finais antes de Ukkomon renascer.
E é isto O Início. Quando vi o filme pela primeira vez, estava demasiado irritada por este não ter “corrigido” o final de Kizuna para lhe dar mérito. Agora que já se passou mais de um ano e tive oportunidade de revê-lo, no seu todo ou em partes, de analisá-lo, não detesto O Início. Até gosto.
Uma das minhas críticas iniciais era de que o filme não se encaixa muito bem em Adventure. Hoje concordo apenas em parte. Sim, por vezes parece que estamos a ver um episódio de Ghost Game – e nem sequer me refiro apenas aos elementos de terror. O episódio 50, por exemplo, também se foca numa relação pouco saudável entre um humano e um Digimon – fica bem claro que cada uma das duas espécies pensam de maneira diferente.
Por outro lado, O Início explora um dos aspetos centrais do universo de Adventure: a natureza das parcerias entre os Escolhidos e os seus Digimon. Como referi acima, sempre houve um certo grau de imposição, nunca foi algo em que os participantes embarcaram de vontade cem por cento livre. Faz sentido que os guionistas tenham querido explorar um dos lados mais sombrios desse tipo de vínculos – e, ao mesmo tempo, provar que não é só a Homeostase que mantém os Digimon ao lado dos Escolhidos. E Lui é uma personagem bem construída.
Dito isto, temos de falar sobre o que correu menos bem. Para começar, a história é demasiado simplista para um filme de Digimon. Eles esticaram o que podiam esticar, embelezaram o que podiam embelezar – viagens no tempo, cenas de combate vistosas. Mas, se olharmos para o esqueleto da coisa, o enredo é apenas: DigiOvo aparece, Lui aparece, longa backstory de Lui, nasce BugUkkomon, Lui vai falar com ele, fazem as pazes, derrotam-no, fim. Mudando um pozinho ou outro, podia, lá está, ser um episódio de Ghost Game. Daí achar o filme esquisito.
No entanto, a maior crítica a O Início é outra: os miúdos de 02, supostos protagonistas do filme, não fazem quase nada, mal contribuem para o enredo.
Não é a primeira vez que as sequelas de Adventure e 02 trazem personagens de fora. Meiko teve muito tempo de antena em Tri, o que irritou muitos fãs, mas ao menos o velho elenco foi sendo desenvolvido em paralelo com ela, ainda que em graus diferentes. Não deixa de ser a história dos oito de Adventure. Em Kizuna, Menoa foi a antagonista – a história não é dela, é de Taichi e de Yamato.
N’O Início, em contrapartida, os miúdos de 02 são secundários naquele que devia ser o filme deles. A história é de Lui. Durante uma boa parte do filme, os miúdos de 02 são quase avatares da audiência: estão lá para ouvir sobre o passado de Lui, deixam opiniões, dão conselhos. No último terço do filme, fazem de guarda-costas/motoristas para que Lui chegue a Ukkomon. No lugar deles podia estar o elenco de Adventure ou de Tamers (ainda que fosse mais difícil juntá-los no mesmo lugar) e o enredo seria praticamente o mesmo.
Ainda assim, mesmo que o elenco de 02 não influencie o enredo, definitivamente influenciam… à falta de melhor palavra, o sabor do filme. Mesmo que não tenha havido desenvolvimento, pudemos ver os miúdos de 02 sendo eles mesmos. Daisuke e Miyako implicando um com o outro, a calma e sensatez de Ken contrastando com a exuberância de Daisuke. Takeru e Hikari sendo unha com carne, como sempre. Iori é que aparece pouco – mas também ele sempre foi um dos mais discretos.
E, à boa maneira das várias sequelas de Adventure e 02, há alimento para shipping: Miyako e Ken, um casal confirmado no epílogo de 02, mostrando alguma proximidade. Ao mesmo tempo, a certa altura, Miyako mete-se com Daisuke e Ken, acusando-os de estarem a “namoriscar”.
Consta que os próprios guionistas argumentaram que o grupo de 02 é demasiado harmonioso, demasiado bem com a vida, livre de conflito. Não será possível escrever histórias interessantes protagonizadas só por eles. Admito que possa ser verdade até certo ponto… mas cheira-me a desculpa esfarrapada.
Eles não percebem que o povo está aqui para ver o elenco com quem cresceu? O de Adventure será mais popular mas, depois de Tri os ter negligenciado, todos concordam que 02 merece mais amor. Ainda há pouco tempo, graças às funcionalidades de memórias das redes sociais, recordei-me de encontros anteriores do Odaiba Memorial Day. Nós quase literalmente fizemos uma festa no de 2019 só porque tinham anunciado nesse dia que os miúdos de 02 iam entrar em Kizuna!
Não sou contra arranjarem personagens humanas novas. Mas o mínimo que os guionistas deviam fazer com os velhos Escolhidos é deixá-los ser parte ativa das suas próprias histórias.
Por fim, ainda que isso não seja cem por cento culpa d'O Início, as pontas de Kizuna continuam por atar. Continuamos sem saber como é que os Escolhidos mais velhos recuperarão os Digimon. Ou como é que todos os seres humanos ganharão um companheiro Digimon. Pergunto-me se os guionistas, ou a Toei, ou quem quer que esteja a tomar estas decisões, se preocupa sequer em manter o cânone intacto.
O que me leva a Digimon Adventure Beyond. Eu sei que isto não tem diretamente a ver com O Início, mas também é o universo de Adventure, merece uma palavrinha. Estreado em março deste ano, é essencialmente um AMV ao som de uma versão muito gira de Brave Heart. Mostra os Escolhidos em adultos, com os seus companheiros Digimon.
Na altura em que o vídeo saiu, muito boa gente nas internetes virou-se do avesso para tentar perceber se e como Beyond se encaixa no cânone oficial. Segundo o que pesquisei na preparação deste texto, parece que a teoria aceite é de que estas são cenas soltas de diferentes alturas da cronologia entre Tri e, vá lá, algum tempo depois d'O Início.
Para ser sincera, não me preocupo muito. Vale pelas vibes.
E, de qualquer forma, o vídeo está muito giro. Animação excelente e, claro, é sempre um prazer ver este elenco. As minhas partes preferidas são as com uma Sora de novo maria-rapaz. Aliás, nunca o estilo dela foi tão parecido com o meu: veja-se o boné, as calças de ganga, a camisola atada à cintura.
Por outro lado, chega a ser cruel. O vídeo podia ser o trailer de um novo filme, mesmo de uma nova temporada. Tanto potencial nas cenas que mostraram…
Uma parte de mim deseja que eles parem de ordenhar sempre da mesma vaca – que deixem Adventure tal como está e que explorem outras coisas. Outra parte de mim, no entanto, nunca se fartará e quer muito – mesmo muito – ver os Escolhidos mais velhos recuperando os seus Digimon. E no fim de contas já não falta muito tempo para 2027, o ano em que decorre o epílogo de 02. É possível que o assinalem de alguma forma.
A curto prazo, vão estrear uma temporada nova, inédita: Digimon Beatbreak. Não sei se vou acompanhá-la. O reboot de Adventure e Ghost Game tiveram os seus momentos, a segunda tinha um conceito interessante, conforme expliquei noutra ocasião. No entanto, ambas se tornaram um frete ao fim de algum tempo – de tal forma que não deverei escrever sobre elas aqui no blogue. Receio que o mesmo aconteça a Beatbreak.
Dito isto, eles deram mais detalhes sobre a temporada no início do mês, a propósito do Odaiba Memorial Day. Houve um pormenor que me chamou a atenção: as idades do elenco principal. Temos um rapaz e uma rapariga de dezasseis anos, um rapaz de dez e… um jovem de vinte e dois anos. Tanto quanto sei, tal amplitude de idades não é habitual. Isso dá-me alguma curiosidade.
Acho que vou esperar que saiam os primeiros episódios e ver o que as pessoas dizem sobre eles. Depois decido com base nisso.
Entretanto, talvez veja Savers pela primeira vez no próximo ano, com o intuito de, mais tarde, escrever sobre essa temporada. Iria coincidir com o seu vigésimo aniversário.
Talvez. Não vou prometer nada, que anda tudo muito imprevisível.
Em todo o caso, soube bem escrever este texto. É sempre um gosto escrever sobre Digimon, sobretudo durante o verão. Ainda por cima, fez agora uma década desde o meu primeiro texto sobre a franquia. Não tenciono ficar por aqui.
Falando de um futuro mais imediato, os próximos textos do blogue serão sobre música. Conforme já referi no texto anterior, o primeiro será sobre From Zero, dos Linkin Park; o seguinte será sobre Virgin, de Lorde. Depois disso, escreverei sobre música a solo de Hayley Williams. No início deste mês, a vocalista dos Paramore lançou dezassete singles soltos, de surpresa. Entretanto, já confirmou que vai lançá-los sob o formato de um álbum intitulado Ego Death at a Bachelorette Party (ou pura e simplesmente Ego, como nós, os fãs, temos vindo a chamar).
Esse será, então, a terceira análise. E, à boa maneira do universo Paramore, vai ser… interessante.
Como sempre, obrigada pela vossa visita. Até à próxima!
Chegámos à última parte do meu balanço de concertos. Hoje vamos falar sobre a banda que, de forma direta e indireta, virou a minha vida do avesso, sobretudo nos últimos dois anos e pouco – e, ao que tudo indica, irá continuar. Não existe nada de normal nesta banda nem na minha relação com ela. O concerto a que fui no ano passado foi apenas um exemplo: dois meses antes não o achava, sequer, possível.
Um regresso dos Linkin Park não estava no bingo de ninguém para 2024. Muito menos com um álbum novo. Muito menos com uma mulher como vocalista. Tecnicamente já escrevi sobre isso aqui, mas os meses que se passaram desde essa altura, o equivalente a uma gestação, trouxeram outra prespetiva.
Quando me recordo do período antes de 5 de setembro de 2024, esse parece-me outra vida. É certo que tinham havido sinais nos meses anteriores. Ainda há pouco tempo foram-me aparecendo, nas funcionalidades de memória das redes sociais, publicações sobre os primeiros rumores de uma cantora nos Linkin Park. Tenho-me fartado de rir com as minhas reações. A questão é que, por uma questão de sanidade mental, não acreditava em nada, a menos que viesse diretamente da banda. E, a partir de certa altura, isso deu em negação.
E mesmo com as pistas que iam saindo, falando por mim, deste lado da grade, o regresso dos Linkin Park foi quase do dia para a noite. E eles vieram com tudo. Num dia, eram uma banda parada, sem vocalista, que podia nunca mais voltar ao ativo. No dia seguinte, tínhamos uma banda completa, com música novinha em folha, um álbum pronto a ser lançado, concertos marcados, como se nunca tivessem estado em pausa. Do zero ao oitenta – agora compreendo o título From Zero. Foi como vermos uma série depois de saltarmos várias temporadas – no elenco estão velhos conhecidos e outras personagens, para nós desconhecidas, mas já bem integradas na história.
É de admirar que tantos de nós tenham precisado de um momento para entrar no ritmo?
E agora, passado todo este tempo, é-me muito claro que esta foi a melhor maneira possível de voltarem. Emily Armstrong é a pessoa certa no lugar certo. Tem as cordas vocais, para começar, mas eu diria que essa é a parte mais fácil – só garante o papel de vocalista convidado. Tem a idade e o nível de experiência certos para se encaixar bem na banda. Mais importante de tudo, diria eu, Emily tem a personalidade certa. Ela é um deles, feita da mesma matéria-prima: engraçada, totó, sem se levar demasiado a sério. Porta-se como a irmã mais nova traquinas, sobretudo do fundador, multi-intrumentista e produtor Mike Shinoda e do baixista Dave Farrell. Se não me engano, Emily já admitiu roubar roupa ao Mike – por estes dias, eles vestem-se de forma tão parecida que às vezes, em vídeos de concertos de baixa qualidade, é difícil distingui-los. E há vários momentos em vídeo dela a brincar com os colegas, em palco e fora dele.
E depois, conforme a vou conhecendo melhor, mais rendida lhe fico. Mulheres como Emily – roqueiras, louras, de dedo do meio levantado – são outra das minhas fraquezas. Quando ela me apareceu a andar de skate nos bastidores do vídeo de Two Faced, quase ouvi o universo a rir-se de mim. Emily não é só feita da mesma matéria-prima dos Linkin Park: ela é feita da mesma matéria-prima que Avril Lavigne e Hayley Williams. Elas que me criaram! Eu nunca tive hipóteses, minha gente, sou apenas humana.
De qualquer forma, a ideia com que fico é que qualquer pessoa com a mente minimamente aberta acabará por aceitar Emily, mais cedo ou mais tarde. Tal como disse uma amiga minha, “primeiro estranha-se, depois entranha-se, depois adora-se”. O problema de setembro passado foi o barulho desproporcional online. Mas, à medida que o tempo foi passando, que Emily foi ganhando à-vontade, que das músicas novas foram sendo lançadas e obtendo bons resultados nas tabelas, que os bilhetes foram sendo vendidos, ficou claro que a maior parte dos fãs está contente com o regresso da banda.
Para mim, a discussão Emily versus Chester está arrumada há muito. Não me interessa quem é o “melhor”. Chester morreu. Os Linkin Park não quiseram – e bem – uma pessoa como o Ivo dos HT, capaz de recriar a voz dele. Preferiram Emily e, conforme acabo de explicar, escolheram bem. Eu gosto dos dois. Aliás, por estes dias, desejava que ambos estivessem na banda – o que, obviamente, não é possível. Chester irá sempre fazer falta, mas os Linkin Park não se podem centrar para sempre na perda dele. Têm o direito de ser felizes e claramente estão felizes com Emily. Ponto final.
Uma palavra para Colin, que costuma ser esquecido nas conversas sobre a nova vida dos Linkin Park. Eu gosto dele. Já não me lembro muito bem dos tempos de 2017 para trás, mas a ideia que tenho é de que o seu antecessor, Rob Bourdon, era dos mais discretos da banda. Nesse aspeto, Colin é mais extrovertido e, tal como Emily, já tem uma certa dinâmica com a comunidade de fãs. Pelo que vou vendo, já ganhou a fala de Tom Holland da banda, pela tendência para revelar mais do que deve. E já anda a aprender com os fãs…
Estou ansiosa por conhecê-lo ainda melhor. A ele e a Emily. São nossos.
Hei de escrever sobre o álbum From Zero. Este texto, no entanto, focar-se-á sobretudo no concerto que os Linkin Park deram em Paris, em novembro do ano passado – a que assisti. À hora desta publicação, a banda já conta inúmeros concertos sob este formato, mas este foi um dos primeiros da nova era. Verdadeiramente um reencontro com os fãs, uma re-apresentação.
Houve tempo para passear um pouco por Paris, antes e depois do concerto, quer a solo quer com os amigos da família HT com quem fui. Já tinha lá estado dois anos antes, mas soube bem à mesma. Paris é uma cidade bonita (ainda que com partes menos bonitas). Embora saiba que é um cliché, adoro a Torre Eiffel, sobretudo de noite. Era capaz de ficar horas a olhar para ela.
De vez em quando, cruzávamo-nos com gente usando merch dos Linkin Park – oficial ou não – e naturalmente recriávamos o meme do Homem-Aranha. Andava com o meu boné dos Hybrid Theory, fazendo publicidade aos moces – acenei à distância a uns fãs brasileiros que terão reconhecido o nome. No dia a seguir, nas filas da viagem de regresso, estive à conversa com outros fãs portugueses que também tinham ido ao concerto. Trocámos impressões sobre o regresso da banda e também, claro, sobre os Hybrid Theory e o seu segundo Pavilhão Atlântico, daí a uns meses (mais sobre isso adiante).
Em suma, falando por mim, sentiu-se aquele espírito Linkin Park, aquela alegria de termos a nossa banda de volta.
O La Défense Arena é parecido com o Pavilhão Atlântico por dentro, mas maior e menos bonito. Foi a maior audiência da nova era até àquele momento. Infelizmente, foi o primeiro a não ter palco circular. Comprámos bilhetes para as bancadas de trás e acabámos por ficar um pouco longe do palco. Mas também, com lugares marcados, ficámos mais à vontade em termos de filas. Até porque, segundo consta, houveram problemas nas entradas para a plateia.
Os Linkin Park abriram com o mesmo tema com que já haviam aberto o direto de inauguração da nova era – menos de dois meses antes! Consta que o nome oficial da faixa é Inception Intro A. Só quando estava a pesquisar para estes textos é que percebi: este é o equivalente dos Linkin Park à introdução da Eras Tour. Todo um repertório enfiado numa música de dois minutos e meio. Inception, no entanto, não invoca nomes de álbuns, invoca elementos musicais de vários êxitos dos Linkin Park: os sintetizadores de The Catalyst, alguns versos de Castle of Glass, o piano de Waiting For the End, as notas de abertura de In the End e de Numb, a percussão de Somewhere I Belong. E isto é apenas aquilo que consigo identificar. Um remix de metade do alinhamento de Papercuts.
Gosto ainda mais de Inception do que da introdução da Eras. Musicalmente é melhor, mais complexa. Mas sobretudo, estando eu muito mais afeiçoada à música dos Linkin Park, Inception mexe ainda mais com as minhas emoções. Até porque, da primeira vez que a ouvi, tais emoções estavam em completo desalinho.
Ao contrário do que aconteceu no direto, no entanto, a Inception seguiu-se Somewhere I Belong. Uma das preferidas de Colin, segundo Mike, quando ele e os outros veteranos da banda não a colocavam entre as melhores dos Linkin Park. É outro aspeto engraçado do alinhamento novo – dois fãs promovidos a membros oficiais. Trazendo perspectivas novas. Houve até um momento engraçado numa entrevista do ano passado: os anfitriões estavam a comentar que sempre adoraram Linkin Park, Emily disse “Eu também”, Mike riu-se e recordou-lhe, no mesmo tom, que ela agora faz parte da banda.
Eu não vejo mal nenhum. É saudável ser-se fã do próprio trabalho ou do trabalho que representa, a que se dá vida. Do legado que lhe foi colocado nos ombros.
Nesta altura, Emily já estava mais à vontade em palco, já se notava a diferença em relação a dois meses antes. Um aspeto curioso em que difere de Chester é que ela parece gostar de tocar guitarra em palco. No concerto de Paris, tocou em Over Each Other – lançada como single poucas semanas antes e estreada ao vivo nessa noite. Tinha esperanças de que eles tocassem uma inédita – provavelmente queriam ir acrescentando apenas uma música de cada vez.
Orgulho-me de dizer que o público recebeu bem Emily – o melhor episódio de sempre de Emily em Paris, como li algures. Gritei o nome dela em coro com milhares – tal como tinha feito dez anos antes com Chester. Sobretudo no momento delicioso que podem ver aqui.
Tenho de confessar uma coisa, no entanto: existem músicas antigas dos Linkin Park de que continuo a não gostar quando adaptadas à voz dela. What I’ve Done é um dos exemplos – sobretudo em contraste com a versão que os Hybrid Theory tocavam no ano passado. Um solo prolongado do Miguel, com o Ivo e o Dani aos headbangs nas costas dele.
Lost in the Echo é outra de que não gostei sob este formato. Mas para ser sincera, mesmo em concertos dos HT, ando algo farta da música.
Mas isto são exceções. E mesmo que não fossem… eu conseguiria viver com isso. Só teria de ouvi-las nas raríssimas ocasiões em que fosse a concertos dos Linkin Park.
No que toca à maior parte das interpretações de Emily, estou entre o “tolero” e o “gosto ativamente”. Tenho várias entre as minhas preferidas: New Divide, Burn it Down, Waiting For the End. No concerto de Paris em particular, as músicas mais calmas foram pontos altos, na minha opinião. Castle of Glass, por exemplo, que sempre esteve entre as minhas preferidas. Friendly Fire – a música tinha saído no início de 2024, mas parecia que já a conhecia há anos, que era uma de muitas das antigas que agora ouvíamos com o filtro de Emily. My December, uma das surpresas da nova era, lindíssima sob esta nova versão. Tenho-me perguntado se foi também um pedido dos meninos novos.
Leave Out All the Rest foi das melhores. Foi das mais que mais me tocaram. Ouvi-a abraçada ao meu eu que dezassete anos, que ruminava sobre a letra vezes e vezes sem conta, sem nunca a compreender até anos depois. Eles mudaram a estrutura – um solo de guitarra no início, um pós-refrão no fim, Mike cantando o refrão na introdução e o resto praticamente a meias com Emily.
Pensava que esta versão tinha sido criada para esta nova era. Nas pesquisas para este texto descobri que já havia sido tocada durante a digressão de One More Light – com Chester cantando quase tudo. Foi incluída no One More Light Live, na verdade, mas não me lembrava de a ter ouvido antes.
Em todo o caso, adoro esta versão. Tanto a cantada em 2017 como a atual.
Outra que teve alterações interessantes foi Points of Authority. À semelhança de Leave Out All the Rest, foi Mike a cantar as estâncias, o que faz sentido. Houve um momento giro quando Emily se enganou nos últimos refrões – duas vezes! Ela depois foi ter com Mike como quem pede desculpa e ele deu-lhe um abraço. Adorável.
Uma confissão: não vi o momento em direto, só mais tarde, na net. Estava demasiado ocupada abanando o capacete. Tive o problema oposto de quem passa os concertos de telemóvel em punho: estava tão perdida na música que nem prestei atenção ao que se passava em palco.
Mike foi quem mais gostei de ver. Estava tão feliz – como, aliás, nunca deixara de estar nos dois meses anteriores. Como li por aí, nunca mais parou de sorrir desde o direto de 5 de setembro.
Neste concerto, então, não dava para ignorar. Durante Burn it Down, por exemplo. Ao longo dos anos, fui vendo vários vídeos da banda tocando-a ao vivo, Mike fazendo o rap com uma expressão relativamente séria. Em Paris foi a primeira vez que o vi fazendo o rap a sorrir.
E In the End? In the End…
Durante muitos anos disse que a minha música preferida dos Linkin Park era New Divide. Mas a verdade é que tenho vindo a acumular inúmeras recordações maravilhosas relacionadas com In the End. A primeira há muito, no Rock in Rio 2008, mas a maior parte delas nos últimos dois anos. Muitas delas em concertos dos Hybrid Theory, claro: agarrando a mão do Ivo, do Pedro. Aliás, hoje em dia, incluo sempre o “Gritem!” do Pedro a meio da terceira parte – pertence à letra oficial, já. E, como referi antes, quando gente da família HT se reúne, muitas vezes acabamos a cantar In the End. Destaque para o momento em que “obrigámos” a Jéssica Cipriano a cantá-la aqui.
Não digo que esteja entre as melhores da banda. Pelo contrário, é a versão mais palatável do estilo rock-e-rap pelo qual são conhecidos. Um dos êxitos mais óbvios, aquela que toda a gente conhece. Mas a questão é mesmo essa: é aquela que toda a gente conhece, que toda a gente adora. É a música que une todos os fãs.
De qualquer forma, nunca tinha visto ninguém, nem eu mesma, cantando-a com tanta alegria como o Mike naquela noite. Penso que pelo menos parte disso terá sido influência de Emily, igualmente entusiasmada. Mesmo assim, nunca tinha visto o Mike assim: ao pulos, um sorriso de orelha a orelha, parecia um miúdo pequeno.
Como já escrevi antes, a felicidade do Mike e do resto da banda, depois de tudo por que passaram, é tudo. Tem sido a melhor parte desta era. No ano e meio anteriores foram as várias as noites em que voltava de um dia de Hybrid Theory com o coração cheio, pensava em Mike e nos outros e perguntava-me: “Será que eles têm noção da alegria que a música deles continua a dar a esta gente toda? Eles mereciam fazer parte dela também.”
Agora claramente voltaram a fazer parte dela. E eu não podia estar mais feliz. Foi para isto que todos nós nascemos.
Com tantos concertos a que tenho ido, regra geral, a recuperação não custa muito. Fico com a garganta e o pescoço um pouco doridos durante um dia ou dois, nada de especial. Desta vez, no entanto, o concerto foi num domingo e passei a tarde da terça-feira seguinte cheia de dores de costas. Não sei se foi só do concerto – não terá ajudado ter andado a passear a pé por Paris com uma mala demasiado cheia às costas. Mas também isso foi culpa dos Linkin Park – foi por causa deles que estava em Paris.
Tive de dizer a mim mesma: “Foi a primeira vez em dez anos e meio que os viste ao vivo. Há três meses não achavas isto possível. Isto é um preço mais do que razoável. Como se diz, a dor é temporária, as memórias duram para sempre.”
E agoraficam aqui.
Foi lindo, mas ficou a faltar algo muito importante: não foi cá. Não foi em Portugal. E quando anunciaram a digressão de 2025, cerca de dez dias depois, Portugal não estava incluído. Tenho amigos que se preparam para ir vê-los a Paris – alguns que vieram comigo no ano passado, alguns que não.
Ainda pensei nisso, mas recusei. Em parte por motivos práticos: não queria gastar tanto dinheiro outra vez e é mais complicado marcar férias durante o verão. Em parte por motivos sentimentais. Queria voltar a vê-los em Portugal. Apaixonei-me por eles no Rock in Rio de 2008. Uma bandeira portuguesa pendurada no teclado, Chester deixando elogios a Lisboa. E agora, ainda por cima, tenho aqui toda uma família graças aos Linkin Park – é mais fácil para eles virem a um concerto no nosso próprio país.
…mais sobre isso já a seguir.
Queria agora falar sobre os Hybrid Park – o outro tributo português. Vi-os duas vezes no inverno passado, uma vez no RCA, outra no Pátio do Sol – quando andávamos em abstinência sem concertos dos HT. Eles terão nascido em finais de 2017 – mais ou menos na mesma altura que os Hybrid Theory.
Faz sentido: foi quando perdemos Chester e os Linkin Park entraram em pausa. A resposta de dois conjuntos de músicos portugueses foi dar uma de Katniss Everdeen: “we volunteer as tribute”.
Os Hybrid Park não têm tido tanto sucesso como os Hybrid Theory, mas há que recordar que, no que toca a tributos, os moces são a exceção, não a regra. Consta também que este é apenas um entre vários projetos destes músicos. O baixista, Sérgio Duarte, é aliás manager do RCA. Um sujeito simpático. Da última vez que vi a banda, ofereceu-me uma palheta – por sinal, num momento em que estava com as emoções um pouco à flor da pele (música dos Linkin Park, gente…).
Entre ele, o Pedro dos Decoded e o Cenoura, ando com afinidade para baixistas.
Nas músicas pré-From Zero, os Hybrid Park fazem um bom trabalho. Continuo a preferir os HT, mas não são nada maus. No entanto, para mim, estes valem pela Kaddy – a cantora que recrutaram para fazer de Emily. Eu adoro a voz dela, para começar, faz um excelente trabalho.
Além disso, spoilers para a minha análise ao álbum, mas eu gosto do From Zero pelo menos tanto quanto gosto dos restantes álbuns dos Linkin Park. E gosto de ouvir estas músicas em concerto. Os Hybrid Theory não as vão tocar, pelo menos não tão cedo. Ao menos tenho os Hybrid Park para preencher essa lacuna.
Não garanto que me torne uma fã tão assídua como tenho sido em relação aos HT. Mas hei de voltar a vê-los. Penso que os próximos concertos serão no fim de semana do aniversário da morte de Chester. Não vou pois já tenho planos para esse fim de semana – e nem sequer é com os HT, o que, depois dos últimos dois anos, é estranho. Mas se tiverem oportunidade, caros leitores, ide vê-los. A Sofia recomenda.
O último concerto que recordaremos é, então, o segundo dos Hybrid Theory, no Pavilhão Atlântico. Faz sentido serem eles a abrir e a fechar (bem… mais ou menos) esta retrospetiva. Correndo o risco de me repetir, foi graças a gente que conheci através dos mês moces que fui à maior parte dos concertos sobre os quais escrevi – inclusive o dos Linkin Park originais. Foi graças a Hybrid Theory – a banda e, sobretudo, a família – que desbloqueiei esta versão de mim.
O 22 de março foi, então, uma noite de homenagem ao Chester, dois dias depois daquele que seria o seu quadragésimo-nono aniversário. Houveram algumas dúvidas, mas o Pavilhão Atlântico voltou a encher, talvez tenha mesmo esgotado.
A abertura ficou a cargo dos Grey Daze, a primeira banda do Chester. Nos anos que se seguiram à morte dele, os membros sobreviventes foram lançando versões remasterizadas das músicas que Chester gravou com a banda – era ele adolescente. No último ano e tal, no entanto, recrutaram um novo vocalista – Cris Hodges que, por sinal, também canta num tributo aos Linkin Park, os In the End – e entretanto começaram a criar e a lançar músicas novas, sem Chester.
Mais ou menos como os próprios Linkin Park fizeram.
Nos meses anteriores ao concerto, andei a estudar a discografia dos Grey Daze. Gosto mais de Linkin Park e mesmo de Dead By Sunrise, mas música deles não é nada má – sobretudo tendo em conta que foi criada por adolescentes. E, de uma maneira muito típica comigo, fiquei a gostar mais depois de ouvir ao vivo.
Só tive pena de não terem tocado a minha preferida, Shouting Out.
Passemos agora aos próprios Hybrid Theory. Em termos de produção pura e dura, foi o melhor concerto deles que vi até agora. Aproveitaram bem as oportunidades que o Pavilhão Atlântico lhes deu. E, apesar de, para já, não tocarem nada de From Zero, não deixaram de se inspirar na nova era dos Linkin Park: com os lasers e uma adaptação de Inception Intro A na abertura do concerto, os ecrãs gigantes em espelho.
O alinhamento foi OK. Tenho alguns reparos. Eles repetiram algumas músicas que já tinham estado em rotação no ano passado e de que, aqui entre nós, já estava um pouco farta: No More Sorrow, Final Masquerade, Lost in the Echo, como referi antes. Abriram com What I've Done, mas tiraram o solo prolongado de que falei acima. Por fim, não gostei muito de One Step Closer como encerramento – prefiro Bleed it Out ou mesmo Faint.
Claro que isto é uma questão de opinião, não é possível agradar a todos. E ninguém me mandou ir a tantos concertos como fui no ano passado. Acho que este concerto também foi filmado e é possível que eles quisessem que músicas como Final Masquerade ou No More Sorrow tivessem registo em vídeo.
E até houveram muitas coisas que me agradaram. Continuo a não adorar Heavy, mas gostei que o Cris dos Grey Daze tenha voltado ao público para fazer dueto com o Ivo. Voltaram a tocar Waiting for the End, mais de um ano depois da última vez – tinha de ser. Tocaram QWERTY, uma favorita dos fãs mas que só teve lançamento oficial no ano passado. O Ivo arrasou: conseguiu recriar a maneira imaculada como Chester alternava entre screamo e melodia. Gostei particularmente da inclusão de In My Remains, uma velha favorita. Por fim, outra surpresa foi Kings to the Kingdom. Chester nunca a cantou ao vivo e mesmo os próprios Linkin Park só tocaram umas duas ou três vezes – depois de Mike fazer uma piadinha com as queixas de falta de The Hunting Party em Papercuts.
No fim, eu e a seita deixámo-nos ficar no Pavilhão. Foi a primeira vez que vi o palco desmontado e o que há por detrás. Fotos e abraços aos membros dos HT já são habituais – e eu valorizo cada um deles. Não tão habitual foi o Dani ter-me acertado com uma goma desde o palco. Em sua defesa, ele estava a tentar acertar no Ivo (que é um alvo pequeno)... mas talvez me vingue. Também pudemos abraçar membros dos Grey Daze: o Chris e o Sean Dowdell, agradecer-lhes por manterem o legado de Chester vivo e prometer-lhes que, caso voltem a Portugal, estaremos lá.
Porque, no fim do dia, de uma maneira ou de outra, tudo isto tem acontecido graças a Chester. Ele vive em cada uma destas músicas, em cada uma destas bandas, em cada um de nós.
Foi um dia excelente. Só sinto que, depois de meses à espera, passou demasiado depressa. E não consegui voltar a ver os Hybrid Theory depois desta. Por esta altura no ano passado, andava a vê-los uma vez por mês – e andava um bocadinho mais feliz. As saudades são muitas. Felizmente não falta muito para a próxima, em Loures.
Nestes últimos tempos tenho sentido que o tema principal do universo Linkin Park é segundas oportunidades. Comigo já tinha acontecido há dois anos, com os Hybrid Theory: os moces deram-me uma oportunidade… Ou melhor, várias oportunidades para ouvir música de Linkin Park ao vivo, de conhecer pessoas através dela. Permitiram-me desenterrar algo que esteve adormecido durante anos. Doeu imenso, mas hoje penso que foi melhor ter arrancado o penso nessa altura do que fazê-lo quando os Linkin Park regressaram.
Terá sido também uma segunda oportunidade para os próprios membros do tributo – para terem uma carreira no mundo da música. E para os fãs: muitos deles na casa dos trinta, quarenta, cinquenta. Os concertos dos HT, as pessoas que conhecemos graças a eles, têm-nos dado novas oportunidades para sermos jovens outra vez – sairmos à noite, conhecermos pessoas, viajarmos, mesmo que seja só dentro do País.
No fundo, o tema destes três textos.
Do mesmo modo, o regresso dos Linkin Park foi uma oportunidade para quatro senhores com quase cinquenta anos começarem de novo – do Zero. Foi uma segunda oportunidade para Emily e Colin abraçarem um projeto desta envergadura – eles que estão perto dos quarenta e estavam longe de serem novatos no mundo da música.
E, claro, tem sido uma segunda oportunidade para os fãs. Para vê-los ao vivo ou, pura e simplesmente, vê-los lançando música nova, videoclipes, entrevistas, sendo uma banda – depois de passarmos anos sem saber se isso voltaria a ser possível. Nenhum fã da minha geração, que estava cá durante o tempo de Chester, é jovem – e nem sequer falo em termos físicos. Nós passámos por muito, aprendemos da pior maneira possível que os nossos heróis não vivem para sempre, que as nossas bandas são frágeis. E foi-nos concedido o enorme privilégio de recuperarmos a nossa banda, mesmo que nem tudo seja igual.
Segundas oportunidades como estas não surgem assim tantas vezes na vida.
É por isso que o Mike nunca mais parou de sorrir, com a cara toda, desde o dia 5 de setembro. É por isso que ele e os colegas se dizem mais felizes do que nunca na banda – aprenderam a dar ainda mais valor. Eu mesma dou mais valor agora, vendo-os sendo uma banda outra vez. Entusiasmando-me com eventos como a inclusão de músicas deles em bandas sonoras, atuações em eventos desportivos – destaque para a final da Liga dos Campeões – até mesmo o lançamento de… gomas (outra que não estava no meu cartão de bingo).
É mais do que nostalgia. Nostalgia só olha para o passado. Aqui temos… Não, recuperámos o presente e o futuro. A possibilidade de criar novas recordações, de continuar a história.
E daqui a um ano vamos ter a maior segunda oportunidade de todas.
Não resisto a entrar em território meta e a escrever sobre o dia em que recebemos a notícia. Era dia 30 de maio, o décimo-primeiro aniversário da participação dos Linkin Park no Rock in Rio de 2014 – a tal noite em que agarrei na mão do Chester. Eu estava de férias – tinha, aliás, um voo de manhã cedo. Antes de embarcar, fiz uma publicação sobre esse concerto na página do Facebook. “Lisboa nunca se cansará de receber Linkin Park”. Durante anos citei a frase com mágoa, agora o subtexto era outro: estávamos à espera.
Depois disso estive offline durante várias horas. Passei o voo escrevendo o primeiro rascunho deste mesmo texto, a parte sobre o concerto de Paris. Isto enquanto ouvia Inception Intro A várias vezes – antes de The Emptiness Machine, antes de Somewhere I Belong – e fiquei com a música na cabeça. Ou seja, estava já no estado de espírito certo.
Finalmente, aterrámos. Ainda dentro do avião, desliguei o modo de voo e dei logo com um reel publicado nas redes sociais do Rock in Rio com a imagem abaixo. O meu coração falhou um batimento.
O reel acabaria por ser apagado umas duas ou três horas depois. Em defesa do estagiário das redes sociais do RiR, para o cidadão comum, a imagem não é assim tão óbvia. É “apenas” a silhueta do guitarrista Brad Delson (que ironicamente, nesta fase, nem sequer sobe ao palco). O problema foi que era uma imagem parecidíssima com outra, que fazia parte da tal publicação que eu partilhara horas antes, sobre o RiR de 2014 – é logo a primeira fotografia! E a bandeira portuguesa pendurada no teclado é demasiado icónica.
Nós soubemos logo.
Ainda assim, foi preciso esperar várias horas para a confirmação final: os Linkin Park serão cabeças de cartaz no Rock in Rio de 2026 no dia 21 de junho.
Já consegui bilhete e não podia estar mais feliz. Sinto que isto é o culminar desta história toda, sobretudo nestes últimos anos: voltar ao início, ao local onde me apaixonei, onde tive duas das melhores noites da minha vida, ter uma terceira. Como disse acima, a derradeira segunda oportunidade. O sonho seria estar na grade, com os próprios Hybrid Theory ao meu lado, bem como todos os amigos que fiz graças a ambas as bandas. Na prática, alguns deles já decidiram que não vão. Mas outros já têm bilhete, como eu. Entretanto, tenho andado também a conversar com outros fãs portugueses de Linkin Park na Internet, também será bom tê-los ao meu lado.
E estou contente por todos os fãs portugueses, como grupo. Vamos vê-los de novo. Mike e os outros membros vão matar saudades de nós e nós deles. Se calhar Emily tentará falar português. E ficaremos com um vídeo gravado profissionalmente de todo o concerto.
Só mesmo os Linkin Park para me fazerem voltar ao Rock in Rio, depois da má experiência do ano passado. Vai ser um sacrifício, até porque, como vou tentar ficar na grade, vou ter de passar lá o dia todo, provavelmente à fome. Só espero que não esteja demasiado calor.
Terei trinta e seis anos quando voltar a ver os Linkin Park. O dobro da idade que tinha quando os vi pela primeira vez, no Rock in Rio de 2008. O primeiro capítulo de uma história que, como referi antes, tem tido tantos desenvolvimentos inesperados e que, agora está numa etapa bem feliz. Adaptando algo que vi algures na Internet, o mundo é um lugar melhor com Linkin Park no ativo, bem como as suas bandas de tributo.
Aliás, por estes dias tenho sentido que os Linkin Park são a única coisa a acontecer a nível global – tirando a vitória portuguesa na Liga das Nações. É certamente a única coisa boa a vir dos Estados Unidos neste momento. Chega a ser caricato: pego no telemóvel, de um lado aparecem-me notícias sobre a escalada dos conflitos no Médio Oriente, o crescimento da extrema-direita, da xenofobia, da violência. De outro aparece-me um vídeo da Emily rapando a cabeça a um fã a meio de um concerto.
Ao menos serve de consolo.
O fim da história está longe. Continuará a ser escrita aqui mesmo, no blogue.
Chegámos, finalmente, ao fim desta retrospetiva. Algo de que me apercebi algures no ano passado foi que já tive o privilégio de ver praticamente todos os meus artistas e bandas preferidos ao vivo pelo menos uma vez. Não creio que haja muita gente que se possa gabar disso. Avril Lavigne, Bryan Adams, Linkin Park, Paramore, Taylor Swift, Within Temptation… Só me falta a Lorde – pode ser que haja oportunidade daqui a um ano ou dois.
O plano é continuar a ir a concertos, dentro das minhas possibilidades. Tenho passado por um período de seca nestas últimas semanas, mas isso irá mudar em breve. Talvez faça um novo apanhado de concertos daqui a um ano ou dois – quando achar que se justifica. Entretanto, o próximo texto daqui do estaminé será sobre Digimon: o Início – já comecei a planeá-lo. A seguir, escreverei sobre From Zero. Depois disso, talvez escreva sobre Virgin, o novo álbum de Lorde, prestes a sair.
Obrigada por terem recordado todos estes dias maravilhosos comigo. Continuem desse lado.
Faz agora um ano desde que a Eras Tour passou por Portugal. Eu fui à segunda noite e foi um dos concertos mais marcantes da minha vida. Não só por ter trazido dois nomes de peso a Portugal, mas também pelo ambiente, pelo enquadramento. Como tal, esta publicação vai ser quase toda ela dedicada à Eras.
Conforme outros já descreveram, a Eras Tour foi o mais parecido que tivemos na vida real com a Barbieland. Aqueles dias foram uma celebração… eu nem diria da mulher, diria da menina. Do cor-de-rosa, das roupas, das lantejoulas, das pulseiras da amizade.
Algo que nunca foi muito muito a minha cena. Não que nunca tenha tido um lado feminino, mas sempre fui muito maria-rapaz. Sempre preferi calças a vestidos e sempre tive vários interesses tipicamente masculinos. Como muitas mulheres da minha geração, tive uma fase (mais longa do que me orgulho) em que pensava que isso fazia de mim melhor que as demais. Mas, mesmo depois de ter deixado essa mentalidade para trás, sei que nunca serei uma pessoa cem por cento estereotipicamente feminina.
Ainda assim, até entrei no espírito da Eras Tour. Eu e a minha irmã começámos a fazer pulseiras de amizade. Para mim foi difícil começar – não sabia onde arranjar as missangas. Comprei dois conjuntos, primeiro na Toys’R’Us, depois na Claire – nenhum deles com letras suficientes. Só mais tarde percebi que o melhor sítio para comprar é mesmo na Temu.
Enfim, não foi grave. Ao menos as pulseiras ficaram giras, ficaram diferentes das demais.
E de qualquer forma tomei-lhe o gosto. Ainda hoje faço dessas pulseiras de vez em quando. Na semana anterior ao concerto, a minha mãe viu-me a mim e à minha irmã a fazê-las e quis uma para si. Calhou o meu irmão revelar o nome da minha sobrinha nessa altura (ela nasceria pouco menos de dois meses depois). Nessa mesma noite, fiz um par de pulseiras com o nome dela: Laura. Mais tarde, sobretudo depois de ela nascer, fiz uma data de pulseiras para vários membros da minha família. Ainda hoje é a única pulseira destas que uso todos os dias.
Pelo meio, cometi a “asneira” de me oferecer para fazer para pessoas do grupo de fãs dos Hybrid Theory e tive várias amigas a pedir-me. E a verdade é que, quando os Linkin Park regressaram ao ativo, alguns fãs começaram a trocar pulseiras. Chegaram mesmo a oferecê-las à Emily.
Uma coisa a que não aderi, no entanto, foi ao cosplay. Pelo menos ao ponto a que vários dos outros fãs chegaram. Isso estava, ainda está, aquém das minhas capacidades. Em parte para ser do contra, em parte porque os Paramore também mereciam amor, vesti-me à Hayley Williams, a icónica vocalista. Isto apenas vagamente, com peças que já tinha no armário – incluindo uma t-shirt e um pin (na altura por estrear) da merch de After Laughter.
Não deixei, no entanto, de encher os pulsos de pulseiras nem de desenhar um “13” nas costas da mão. Nunca fui tão bem vestida para um concerto.
E adorei ver todas as pessoas vestidas ainda melhor do que eu. As meninas e mulheres recriando diferentes eras e visuais de Taylor. Os homens vestindo t-shirts semelhantes às de Taylor no vídeo de 22, dizendo “It’s me. Hi. I’m the Dad, it’s me.” ou “It’s Me. Hi. I’m the boyfriend, it’s me.” Nunca vi tantas lantejoulas juntas. A própria Hayley Williams o comentou durante a atuação dos Paramore: ainda à luz do dia, o sol refletindo-se nas roupas. O Estádio da Luz nunca brilhou tanto. Na altura citei Bejeweled. Hoje tenho pena de não me ter lembrado de Starlight: “The whole place was dressed to the nines and we were dancing, dancing, like we’re made of Starlight”.
Adiantando-me um pouco, digo-o desde já: a minha parte preferida da Eras Tour foi o público no Estádio da Luz. Mais do que da própria Taylor Swift, mais ou menos ao mesmo nível que os Paramore. A minha irmã, as amigas dela, com quem fui, a minha vizinha do lado, as pessoas com quem troquei pulseiras (ou pura e simplesmente ofereci), os mais de sessenta mil que cantaram em altos berros a noite toda. As Swifties têm má fama e uma parte dela é merecida, mas naqueles dias vimos apenas a melhor faceta.
Na verdade, nós no grupo HT não somos assim tão diferentes de Swifties – há menos lantejoulas e cor-de-rosa e mais preto e metal. Mas aquela gente não está preparada para essa conversa.
Falemos, então, da abertura da Eras, a cargo dos Paramore. A minha banda preferida, tirando os Linkin Park. Não vou ao ponto de dizer que estava lá mais por eles do que pela Taylor, mas é diferente. O vínculo que tenho com os Paramore é mais forte. Conheço-os há mais tempo, vi-os passando por muito – conforme escrevi aqui – e, de igual modo, a música deles acompanhou-me por muito.
Por sua vez, gosto imenso da Taylor, mas nunca me afeiçoei muito a ela e duvido que alguma vez o faça. Em parte porque ela já era uma cantora de grande sucesso quando comecei a ouvi-la com regularidade. Sempre senti que Taylor não “precisava” de mim. Ela tem muitos por aí cumprindo o papel de fã melhor do que eu.
Regressando aos Paramore, durante a atuação deles fui para as escadas, para poder dançar à vontade, sem incomodar as pessoas à minha volta. Tinha tentado ao máximo evitar spoilers dos concertos anteriores, mas sabia mais ou menos o que esperar: os êxitos, o excelente cover de Burning Down the House.
Um dos pontos altos foi Still Into You. Eu entrei a pés juntos no espírito, cantando em altos berros, sentindo a letra, relacionando-a com a minha própria história com os Paramore. Cantando “Let’em wonder how we got this far” abrindo os braços para todo o Estádio da Luz.
Estava na minha, mas não deixei de reparar pelo canto do olho que a minha irmã, as amigas dela e o resto do público em geral estavam a aderir a Still Into You. Ainda agora, na preparação deste texto, encontrei este vídeo e dá para ouvir o público cantando.
No fim de Still Into You, a banda recebeu uma longa ovação de todo o Estádio da Luz. A Hayley pareceu ficar à beira das lágrimas – com o baterista Zac Farro atrás delas, tirando fotografias ou filmando. Eu estava ali sem acreditar que aquilo estava mesmo a acontecer, cheia de vontade de abraçar a Hayley.
Eu achava que seria das poucas pessoas naquele estádio a ralar-se com os Paramore. Escrevi todo um testamento aqui no blogue tentando aumentar o interesse pela banda. No entanto, não precisava de me ter preocupado. O Estádio da Luz não podia tê-los recebido da melhor forma – só mesmo se os Paramore estivessem a atuar para o seu próprio público.
Compreendem agora porque digo que o público foi a melhor parte da Eras?
A Hayley esteve à altura do momento, soltando um “Obrigada!” em bom português. Tanto quanto sei, isto não aconteceu em noites anteriores da Eras Tour e não voltou a acontecer depois. Desde então, recordo-me deste momento sempre que oiço Still Into You – e também noutras alturas.
Pois bem, nós fizemos a Hayley chorar (ou quase). Poucos minutos depois foi a vez deles me fazerem chorar (ou quase).
Depois de That’s What You Get, a Hayley começou a fazer um pequeno discurso explicando o conceito das músicas-surpresa. Como não estavam a tocar para o seu próprio público, o alinhamento dos Paramore focava-se maioritariamente nos êxitos. Eu tinha feito as pazes com isso, não contava com músicas como Pool ou All I Wanted ou a minha preferida Last Hope.
A banda, no entanto, percebeu que haviam fãs de Paramore acompanhando os concertos em direto através da Internet. Assim, resolveram incluir uma piscadela de olhos a essas pessoas. Até àquela data tinham tocado músicas como Pool, Forgiveness, Rose Colored Boy. Eu até estava com… bem, com esperanças para aquele concerto, mas não me atrevi a assumir nada.
Quando Hayley concluiu o seu discurso com “This song’s for you”, eu sustive a respiração. Segundos depois começou a cantar “I don’t even know myself at all…” e eu passei-me. Guinchei como uma miúda vinte anos mais nova, as mãos tremeram-me, vieram-me as lágrimas aos olhos. E naturalmente cantei a plenos pulmões, esticando os braços para os arcos do Estádio da Luz em “Gotta let it HAPPEN!”.
Não estava de todo à espera que os Paramore a tocassem – só uma das minhas canções preferidas de todos os tempos. Tinha escrito em duas ocasiões diferentes aqui no blogue a propósito da Eras: “Gostava que tocassem Last Hope, mas é pouco provável”. Mesmo depois de saber que os Paramore tinham músicas-surpresa, quais as probabilidades de a tocarem no concerto a que eu fui?
E peço desculpa por estar outra vez a bater nesta tecla, mas o facto de isto tudo ter acontecido no Estádio da Luz – um sítio que conheço bem de outro dos meus mundos – contribui para a mística disto tudo. Adoro ver fotos dos Paramore – e de Taylor Swift – emolduradas pela Catedral.
Last Hope e Still Into You (e respetiva ovação) foram, assim, os grandes destaques da atuação dos Paramore – e ficaram entre os momentos mais felizes do meu 2024. Foi um bom concerto em geral, com boa adesão por parte do público. Acho que tivemos mais sorte em termos de alinhamento em relação à noite anterior – Last Hope e That’s What You Get em vez de Told You So e Caught in the Middle. Nada contra estas duas últimas – e até fiquei com alguma pena por não ter visto as dancinhas de Hayley em Caught in the Middle – mas, lá está, Last Hope é Last Hope e gosto mais de That’s What You Get. Até porque esta tem ganho novos significados para mim no último ano, ano e meio.
Por outro lado, o público do dia 24 pôde ver Hayley levantando a camisola e abanando as mamas. Já não sei quem teve mais sorte.
Uma coisa é certa: os Paramore gostaram de nós, gostaram de estar cá em Portugal. Acho que fomos um dos preferidos deles na Eras, se não tivermos sido o número um. Para além do que aconteceu no segundo concerto, foram à praia, comeram marisco (n’O Ramiro! E não pagaram!) e deram um passeio de barco pelo Tejo – algo que eu mesma fiz um par de vezes, ambas em despedidas de solteira. Sabemos isto tudo pois eles publicaram-no nas redes sociais – pelo que se pode ver aqui, mais nenhum país teve tanto conteúdo publicado como o nosso.
Ver fotos e vídeos da banda no nosso país, da Hayley e do Brian no barco, com a Ponte 25 de Abril no fundo… A mensagem que a Hayley nos deixou, como poderão ver acima/abaixo… E quando ela fez anos, vários meses mais tarde, os Paramore publicaram uma foto inédita da Hayley que eu tenho quase a certeza de que foi tirada em Portugal.
Oh sim, fomos os melhores alunos. Não me convencem do contrário.
Na pior das hipóteses, terão ficado com vontade de voltar cá para um concerto em nome próprio. Não sei até que ponto isso depende da vontade deles. Infelizmente, não deverá acontecer tão cedo – eles estão em pausa outra vez e podem voltar a demorar anos a lançar um álbum. Mas fica a esperança de que, um dia destes, voltarão a tocar Last Hope e Still Into You para nós.
Antes de continuarmos a falar sobre a Eras, ainda dentro do universo dos Paramore, quero fazer um aparte para falar dos Decoded. No último ano, ano e meio, fiquei mais aberta a bandas de tributo e bandas de covers (saibam a diferença), por motivos óbvios. Claro que os Hybrid Theory são um caso à parte, em vários aspetos – não espero que outros tributos tenham a mesma dimensão ou o mesmo impacto.
Mas gosto de música ao vivo. Na pior das hipóteses é uma banda tocando-me músicas de que gosto – permitindo-me criar novas memórias com elas e outros benefícios que referi antes.
No que toca aos Decoded, tributo aos Paramore, já os vi duas vezes. Bem, três vezes, se contarem com um ensaio aberto. A primeira vez foi no Pátio do Sol (onde os próprios Hybrid Theory tocaram um par de vezes), no dia 27 de julho do ano passado. Soube do concerto e da própria existência da banda meros dias antes – um amigo meu que já os tinha visto deixou o seu carimbo de aprovação. Como estava livre nessa noite, resolvi ir, mesmo a solo.
Foi um dia engraçado: durante o dia foi o encontro do Odaiba Memorial Day. À noite, tive concerto. Apareço na foto com a minha t-shirt da Ruki.
E gostei, mesmo tendo sido uma atuação curta.
Com isto, passaram-se vários meses e os Decoded comemoraram o primeiro aniversário em março deste ano. Como forma de o assinalarem, eles fizeram um ensaio aberto. Quando falaram disso no Instagram, comentei logo mostrando interesse – mas estava à espera que viessem mais fãs para além de mim. Se soubesse que seria a única (eles escolheram outra rapariga para além de mim que acabou por não vir), talvez pensasse duas vezes.
Mas isto era só a minha timidez a falar, claro. A banda recebeu-me muito bem na sua sala de ensaios – onde também estavam amigos deles, outra banda, os The Reptilians, tributo aos Strokes. Nunca tinha assistido a um ensaio de banda, foi uma experiência gira. Quase um concerto privado – embora também tenham transmitido uma parte em direto no Instagram.
Na altura, a banda indicou-me as duas datas seguintes em Lisboa e eu prometi ir a pelo menos uma – de preferência acompanhada. Vim ao The Family Values Punk Edition no RCA Club, dia 9 deste mês. Essencialmente uma festa do pop punk/punk rock. Para além dos Paramore, tivemos tributo a Blink 182, Green Day e Offspring.
Um registo algo diferente da Eras, digamos. Aliás, foi mesmo uma noite para beber um pouco mais e andar ao moche como nunca antes (não durante os Decoded, mais durante Blink +351 e Green Play). Em termos de pura diversão, foi das melhores que tive.
Consegui, então, arrastar uma amiga da família HT (apesar de esta só conhecer a música dos Paramore muito superficialmente). Encontrámos os Decoded mal entrámos no RCA, junto ao bar. Fizeram-me logo uma festa, com elogios à minha t-shirt (a mesma que usei na Eras).
Eu é que não tenho remédio, continuo tímida e desajeitada no primeiro contacto. Ainda hoje acontece com os Hybrid Theory, mesmo já os conhecendo há dois anos e treze concertos. O que vale é que acabo sempre por sair da minha concha – geralmente quando os concertos começam.
Gostei mais deste segundo concerto – por estar acompanhada, pelo maior à-vontade com a banda e também porque, da minha experiência, o RCA tem melhor ambiente que o Pátio do Sol (não desfazendo). Havia um grupinho que volta e meia cantava pelo Ricardo (Ricardo Lopes, o guitarrista que "faz" de Josh). E, durante The Only Exception, aquela malta que, mais tarde, andaria ao moche, pôs-se toda a cantar de braço dado.
Mais uma recordação para associar a uma música que está na minha vida há quinze anos, uma das minhas canções de amor preferidas.
...pois, temos de falar do que se passa no vídeo acima. Não vou mentir, depois de ter estado no ensaio deles, sabia que havia a possibilidade de os Decoded me chamarem ao palco para Misery Business. Não queria ser arrogante, não queria assumir... mas sabia. Passei uma boa parte do concerto sentindo uma mistura de nervos e excitação antecipando o momento. Quando começaram a tocar MizBiz, deixei de sentir as pernas. Finalmente, a Inês (Inês Martinho, a vocalista) chamou-me ao palco. Lembrei-me de passar o telemóvel à minha amiga para que me filmasse e lá consegui trepar para o palco, com os meus braços e pernas a tremer. Não fui a única convidada – como podem ver acima, chamaram também outra rapariga, chamada Diana.
Como qualquer fã de Paramore, tinha passado anos e anos sonhando com um convite para cantar Misery Business em palco. Tudo o que fiz foi passar da fantasia à realidade e consegui vencer os nervos. Acho que me saí bem. Pude ser uma estrela de rock durante dois minutos – e a minha amiga, abençoada seja, fez de minha fã, como se pode ouvir.
Ainda só estamos em maio mas este foi já um dos melhores momentos do meu ano. Como se não bastasse, ainda me tiraram uma foto espetacular, como poderão ver abaixo.
Não admira que os Paramore não consigam matar a música, por muito que tentem. Estes momentos são demasiado bons. Misery Business não pode nunca desaparecer.
E os Decoded dão um bom espetáculo. A Inês tem uma boa voz. O timbre não se parece muito muito com o de Hayley, mas ela reproduz bem os maneirismos, a maneira de cantar. Durante este segundo concerto, ouvi a minha amiga, bem como outras pessoas na audiência do RCA, a elogiar a baterista Marta Ferreira (ou seja, "faz" de Zac). E ela merece: é pequena, mas tem energia suficiente para as baterias dos Paramore – mais intricadas do que muitos pensam. Eu diria no entanto que o meu preferido é o baixista, Pedro Araújo ("faz" de Jeremy. Gosto da postura dele, do seu entusiasmo, das suas interações com os outros colegas da banda.
Depois disto tudo, os Decoded agora são dos meus. Era o mínimo. Hei de continuar a acompanhá-los dentro das minhas possibilidades – e hei de tentar trazer mais amigos ou, no mínimo, converter a amiga que veio aos Paramore. Não hão de faltar oportunidades – até porque estes, ao menos, são de Lisboa.
Voltemos à Eras Tour. Tenho de dizê-lo: em termos de produção e de dimensão, foi o melhor concerto a que assisti até agora. Os bilhetes foram caros, sim, mas pelo menos neste caso o preço até se justifica.
Não digo que seja o meu tipo de concerto. Estou habituada a concertos de rock, focados na música. Os de Taylor Swift (e de outras estrelas pop, na verdade), no entanto, sempre foram diferentes: teatrais, com várias mudanças de visual, coreografias elaboradas, pouco espaço para espontaneidade. Mais musicais que concertos, por vezes.
É uma questão de gosto, claro. E de qualquer forma, a Eras Tour consegue manter o calor, a proximidade, aquele je ne sais quoi que faz de concertos das melhores experiências do mundo. Como já muitos descreveram, Taylor tem o dom de fazer os outros sentirem que são as pessoas mais importantes do mundo, de parecer que ela canta pessoalmente para cada um de nós.
Como escrevi acima, não consegui evitar todos os spoilers, mas evitei o suficiente para ter muitas surpresas. Começando logo pelo relógio e a contagem decrescente – que nós, no público, fizemos aos gritos e em bom portugês, como se fosse Ano Novo. E depois o tema de introdução, com excertos de letras de músicas em que Taylor diz os títulos dos diferentes álbuns. Que termina com a própria Taylor aparecendo em palco, cantando "It's been a long time coming but it's you and me, that's my whole world". Eu não sou grande Swiftie e no entanto o raio da música ainda hoje me deixa com pele de galinha, leva-me lágrimas aos olhos.
Depois disto foram só três horas e meia de concerto, só quarenta e seis músicas no alinhamento. Várias delas tiveram parte cortadas, algo de que não gosto muito por norma, mas aqui aceita-se. Pelo meio, muitas coreografias, muitas mudanças de visual, quase sempre de saltos altos (“in stilettos for miles”), sem parar.
Eu pensava que existiriam pausas de, vá lá, cinco minutos entre diferentes “eras” – nem por sombras. Não dava para sequer trocar impressões com a vizinha do lado. Estou convencida de que Taylor troca de roupa como um Sim – desce no seu elevadorzinho, faz uma pirueta e o maillot transforma-se num vestido. Não há outra explicação possível.
Dar um concerto assim será mais exigente em termos físicos do que um jogo de futebol profissional. Há artigos na internet sobre os treinos que Taylor fazia – três horas seguidas na passadeira a diferentes velocidades enquanto cantava o alinhamento completo. Há quem tenha tentado recriar este esquema de treino – claro que não é recomendável começar logo com as quarenta e seis músicas. O melhor é começar com, vá lá, metade da secção de Lover e ir aumentando progressivamente.
Não sou de ir ao ginásio ou mesmo de fazer corrida. Para fazer exercício, pratico natação. Mas até era capaz de tentar este esquema de treino. Cantando músicas de Taylor Swift, até seria divertido.
Música em geral torna tudo mais divertido, ponto.
Imenso respeito a Taylor, assim. E talvez ainda mais à sua equipa. Muita coisa terá tido de funcionar na perfeição para montar este espetáculo.
Mas volto a reforçar que o público foi das melhores partes. Mais de sessenta mil gargantas cantando em altos berros durante mais de três horas e meia. Acho que fiquei com perdas auditivas. O videozinho que filmei de You Belong With Me foi uma boa amostra.
Ainda assim, acho que o melhor exemplo foram mesmo os dez minutos de All too Well. A plenos pulmões, uma dose saudável de dramatismo. Foi cá uma catarse – dá para senti-lo no modesto vídeo que filmei. O desgraçado que inspirou a música devia ficar com as orelhas em fogo em todas as noites da Eras.
Houveram outros destaques, claro. Um deles também durante Red, mais especificamente durante We Are Never Getting Back Together – quando o dançarino Kam Saunders completou a frase “Like, we are never getting back together…” com “... nem que a vaca tussa”, em português.
Esta é daquelas coisas que não sabia que acontecia na Eras: o Kam dizendo uma frase diferente em cada noite, na língua do país em questão. Sou suspeita, mas acho que a nossa foi das melhores: mais original que um palavrão e, na verdade, uma das expressões mais engraçadas da língua portuguesa.
E pergunto-me quem ensinou a frase ao Kam (e à própria Taylor?). Se foi ideia de algum dos trabalhadores portugueses por detrás dos concertos.
Outros destaques ocorreram durante folkmore. August era das que por que mais ansiava. Uma surpresa bem agradável foi a transição, no fim, para aquilo a que os fãs chamam illicit affairs (angry version).
Por outro lado, devia ter antecipado o efeito de marjorie. Marjorie é daquelas que me leva lágrimas aos olhos sempre. A letra foi inspirada pela falecida avó de Taylor e, como já escrevi antes, a mim recorda-me a minha própria falecida avó. Estávamos na Eras Tour, que pontenciava cada emoção associada àquelas músicas. Mas também, como expliquei antes, foram poucos dias depois de conhecermos o nome da minha sobrinha, a primeira bisneta dela do lado da minha mãe.
No fim da música olhei para a minha vizinha do lado e vi que ela também estava a chorar. Rimo-nos as duas. No fim do concerto, ofereci-lhe uma pulseira, só mesmo por causa deste momento.
Marjorie foi imediatamente seguida por willow – e eu adorei o cenário mágico que montaram no palco. Agora percebo porque é que a secção mais básica e retrógrada da população americana acusou Taylor de bruxaria.
The Tortured Poets Department é capaz de ter sido das minhas partes preferidas de todo o concerto – curiosamente, uma das mais teatrais. Como muito boa gente, tenho os meus problemas com este álbum, mas a Eras sempre me fez gostar mais de algumas músicas. Deu-me imenso gozo, por exemplo, gritar “Who’s afraid of little old me?!?!”.
O melhor, mesmo assim, foi a sequência antes de I Can Do It With A Broken Heart. Um momento muito meta, que parecia retirado de uma comédia muda dos anos 20. Uma artista de palco que bateu no fundo. Vêm um par de colegas ou assistentes (?) reanimá-la, vesti-la, colocá-la de novo de pé, dar-lhe um empurrão para que o espetáculo continue.
A cena pode ser interpretada de duas maneiras. Uma: Taylor obrigada a trabalhar, a subir ao palco, mesmo estando mais morta do que viva. Outra: Taylor mais morta do que viva, mas a sua equipa e/ou os seus entes queridos dão-lhe forças para subir ao palco, fazer aquilo para que nasceu. A ocasião em que Travis, o atual namorado de Taylor, desempenhou o papel de um dos assistentes, como é possível ver em baixo, parece apoiar a segunda interpretação.
A música em si é uma das minhas preferidas em The Tortured Poets Department. Como o pequeno sketch na Eras Tour dá a entender, é a The Show Must Go On de Taylor, o momento After Laughter de Taylor. Aliás, se formos a ver, nos primeiros meses da Eras Tour, Taylor estava numa situação semelhante àquela em que Hayley estava no início da era de After Laughter: “obrigada” a subir ao palco e a dar espetáculo, enquanto a vida pessoal se desfazia em pedaços. Hayley uma vez chegou a comparar-se a uma marioneta caída, com o amigo e colega de banda Taylor York a puxar-lhe as cordas. Mais ou menos o que acontece no sketch antes de I Can Do It With A Broken Heart.
Eu coloquei o verbo “obrigar” entre aspas, porque não me convencem que Taylor ou Hayley foram obrigadas ao que quer que fosse. Não terá sido por falta de dinheiro, ao contrário da maior parte de nós, simples mortais.
Mas a questão é precisamente essa. É por isso que After Laughter é um álbum que teima em manter-se relevante. É por isso que I Can Do It With A Broken Heart é mais universal do que soa à primeira vista. Todos nós como adultos temos de fazê-lo com um coração partido. Trabalhar, cuidar dos filhos, cuidar de nós próprios, seguir com a nossa vida, mesmo que estejamos tristes, doentes, cansados. Mesmo que (sobretudo nos últimos anos, sobretudo nos últimos meses) tenhamos o mundo a desmoronar-se à nossa volta.
Mas estou a desviar-me.
Regressando à Eras, queria falar agora sobre as músicas-surpresa. Num concerto com esta complexidade tecnológica, não dá para variar o alinhamento. As músicas-surpresa, no entanto, são apenas Taylor com uma guitarra acústica numa e um piano noutra – é mais fácil alterá-las todas as noites. Consta que é algo que Taylor já fazia em digressões anteriores.
E eu acho uma excelente ideia. A mulher tem onze álbuns, quatro deles com baús, um deles com várias faixas extra, um deles duplo. Incluir estes temas todos no alinhamento de um concerto é obviamente impossível. Mas, sobretudo com a popularidade de Taylor, cada uma destas músicas é a preferida de alguém. Essas pessoas merecem vê-las tocadas ao vivo pelo menos uma vez.
Dito isto, nesta o trabalho era todo de Taylor. Recordar os acordes de todas estas músicas, reduzi-las ao seu esqueleto (quando várias delas têm um instrumental eletrónico originalmente). A coisa só terá ficado mais complicada quando ela começou a fazer misturas – mashups, como são mais bem conhecidas. O trabalho adicional de pegar em duas músicas diferentes e tentar encaixá-las uma na outra, como um puzzle.
Antes do concerto fiz por não ouvir nenhum mashup. Depois de ver por mim mesma, no entanto, adoro o conceito. Sempre gostei de encontrar paralelismos, temas em comum entre músicas – sejam elas dos mesmos artistas ou de artistas diferentes. Isso já inspirou uns quantos textos aqui no blogue. É um exercício giro ver as músicas que Taylor combinou e tentar descobrir o raciocínio por detrás.
No que toca ao meu concerto, tive alguma sorte. Ainda não conheço a discografia de Taylor assim tão bem. Calhou conhecer as quatro músicas. Ambas músicas de que gosto mais ou menos misturadas com músicas de que até gosto. Não me posso queixar.
A primeira mistura foi de The Tortured Poets Department, a música, com Now That We Don’t Talk. Na altura, TTPD, o álbum, tinha saído pouco mais de um mês antes. Naturalmente, Taylor favoreceu-o nas músicas-surpresa. Na altura até gostava de The Tortured Poets Department, a música. Mais pela sonoridade – gosto da percussão, quase soa a bateria ao vivo.
Não consigo levar a letra a sério, no entanto. “No fucking body” soa a algo dito por uma menina de dez anos dizendo palavrões pela primeira vez. E nem me digam nada sobre o início da segunda parte.
Dito isto, fez sentido combiná-la com Now That We Don’t Talk, que tem um estilo de narrativa semelhante. Misturando as duas, criou-se uma história nova. Começando por The Tortured Poets Department (que ela tocou praticamente inteira), a relação está de pé mas algo tremida – em Now That We Don’t Talk já terminou. A fase de transição entre as duas corresponde ao luto: “Who’s gonna love you like me… now that we don’t talk?”. No fim, chega à aceitação: “Guess this is how it has to be now that we don’t talk”.
Ao piano, Taylor misturou You’re On Your Own, Kid com Long Live. A primeira foi uma das músicas-surpresa mais tocadas na Eras. É claramente uma das preferidas de Taylor – e uma das mais populares entre os fãs. Não é o meu caso, mas já gostei menos.
E, de qualquer forma, a mistura com Long Live foi muito bem sacada. You’re On Your Own, Kid é uma retrospetiva da carreira de Taylor, o bom e sobretudo o mau. Long Live é também sobre a carreira dela, mas foca-se no bom, nas vitórias.
Além de que Long Live é uma das minhas preferidas de Taylor. Long Live foi uma de várias retiradas do alinhamento normal aquando da inclusão de The Tortured Poets Department, com muita pena minha. Esta, no entanto, foi uma boa forma de compensar. E, se lerem aqui os motivos pelos quais gosto desta música, não será surpresa se vos disser que, mais do que qualquer outra música, foi especial cantar Long Live no Estádio da Luz.
Depois deste concerto fiquei livre para ouvir outras misturas, anteriores e posteriores. Não ouvi todas ainda – são demasiadas! Mas, das que ouvi até agora, tenho algumas favoritas. Is it Over Now com I Wish You Would e loml com White Horse, por exemplo – daquelas que fazem todo o sentido, mesmo de maneira óbvia, pelas semelhanças na sonoridade das versões originais. E as letras encaixam na perfeição. No caso de loml com White Horse, por exemplo, a frase “I’m gonna find someone someday who might actually treat me well” soa ainda mais poderosa após o contexto de loml (a minha preferida em TTPD neste momento).
Outra de que gostei foi de Haunted com exile em Edimburgo. Não tanto pelas músicas em si mas pelo público – que foi uma excelente segunda voz. Adoro quando coisas como estas acontecem em concertos (como, por exemplo, algumas vezes, no Live in Lisbon de Bryan Adams).
A minha preferida, no entanto, foi The Great War com You’re Losing Me. A primeira é a minha canção preferida de Taylor, para começar. Fez sentido combiná-la com You’re Losing Me, que usa imagens semelhantes – e acaba por mudar a história da guerra. Desta feita, a relação não se aguentou, mas a narradora sobreviveu.
Entre Paramore e Taylor Swift foram, então, mais de quatro horas de cantoria. A minha garganta já está habituada a concertos, mas desta vez foi muito tempo. E isto ao ar livre, com um ventinho fresco a soprar. Saí da Luz com uma constipação daquelas, passei mais de uma semana a tossir como uma desalmada.
Zero arrependimentos, claro. E agora que faz um ano, tenho saudades. Tenho imensa pena de não poder repetir este dia.
Depois desta, cheguei a ver algumas transmissões de concertos posteriores. Regra geral, deixava a passar enquanto fazia outras coisas. Sempre dava para ir acompanhando um bocadinho. Tive a sorte de ver um momento lindo: o público de Milão fazendo uma serenata a Taylor. Imenso respeito. A reação dela foi adorável.
E, se me permitem o aparte, o vestido que ela estava a usar era lindíssimo.
A Eras Tour terminou no final de 2024. Foi a maior e a mais lucrativa digressão de todos os tempos. Tenho pena que já tenha acabado – mas sinto-me privilegiada por ter podido estar lá.
Tenho-me perguntado o que Taylor irá fazer a seguir em termos de digressões. Se voltará a dar concertos “normais”, em estádios mas focados apenas no álbum mais recente. Ou se criará algo semelhante à Eras em termos de conceito, tentando talvez suplantá-la. Só o tempo o dirá.
Neste momento, ao que parece, Taylor irá manter-se afastada dos holofotes por uns tempos. Ninguém a censura, após dois anos de digressão e de vários anos seguidos lançando álbuns. Eu mesma já pedia uma pausa no ano passado – não fazia questão de ter The Tortured Poets Department. Agora que este já saiu, não vou dizer que lamento que este tenha sido lançado. Tenho algumas críticas a fazer-lhe, mas este texto já vai longo, ficam para outra ocasião (ou talvez não).
Agora finalmente vou ter tempo para (continuar a) explorar a discografia existente de Taylor, ao meu ritmo, sem que ela venha do nada atirar mais trinta músicas para cima de mim. O que tem acontecido nos últimos anos (nem é a primeira vez que o refiro), tirando quando Taylor lança álbuns, é ter fases breves de obsessão por uma música dela que me apareceu no aleatório. Espero conseguir continuar a fazê-lo
Acho que mesmo o projeto Taylor’s Version só deverá ser retomado, na melhor das hipóteses, no outono deste ano. Aposto que a reedição de Reputation sairá no início de 2026 e o álbum de estreia será reeditado no outono desse ano – para coincidir com o vigésimo aniversário da carreira de Taylor.
E para já ficamos por aqui. A segunda parte ainda vai demorar um bocado – ainda nem a rascunhei. Mas já estou contente por ter conseguido publicar duas vezes este mês.