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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Avril Lavigne – Head Above Water (2019)

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(Eu tinha dito que ia fazer este meme...)

 

Avril Lavigne lançou, no passado dia 15 de fevereiro, o seu sexto álbum de estúdio, intitulado Head Above Water. Conforme comentámos antes, este é o primeiro disco que a cantautora lança em mais de cinco anos – uma boa parte deles passados debatendo-se com a Doença de Lyme.

 

Como poderão ler aqui, da última vez que Avril tinha lançado um álbum, o meu parecer foi misto. Ao longo destes cinco anos, admito, tive flutuações na minha opinião. Funciona bem como álbum pop, feel-good, para entreter, para cantar no carro – quer os temas mais animados, quer as baladas. Não representou uma grande evolução no som de Avril, mas incluiu uma ou outra experiência bem sucedida. E Hello Kitty…

 

Não é um mau álbum, mas eu na altura queria algo com mais substância.

 

Sendo o sucessor ao álbum homónimo o primeiro que Avril lança após sobreviver a uma doença grave, seria de esperar que estivesse mais satisfeita com Head Above Water, descrito por ela como o seu mais pessoal até ao momento. E estou.

 

Bem, mais ou menos.

 

 

Antes de começarmos, e já que falamos do quinto álbum, uma curiosidade: depois de ter ouvido Avril Lavigne, o álbum, pela primeira vez enquanto passava um fim de semana em Vila Viçosa, voltei a estrear um álbum novo dela em viagem. Desta feita foi em Bilbau. Tal como aconteceu com o quinto álbum e com a Capital do Mármore, Head Above Water há de ter sempre um saborzinho ao País Basco, ao Museu Guggenheim.

 

Seria giro se conseguisse manter essa tradição: marcar viagens para os dias em que a Avril lança álbuns.

 

Mas falemos de Head Above Water em si. O álbum abre com a faixa do mesmo nome, que também serviu de primeiro avanço. Conforme vimos antes, terá sido a primeira música que Avril compôs para este álbum, inspirada por um momento em que a cantora pensava que estava a morrer. Head Above Water acaba por representar bem o álbum a que dá o nome. Várias músicas apresentam estruturas parecidas, sobretudo na primeira metade do álbum.

 

Uma das minhas preferidas é It Was in Me. Se a ouvirem, acho que percebem porquê: é muito parecida com I’m With You. Na parte musical, sobretudo, mas não só.

 

 

A instrumentação assemelha-se a uma versão moderna da grande balada de Let Go, com o piano a conduzir e um carácter um tudo nada etéreo. A estrutura melódica é semelhante à de I’m With You: estâncias em tom grave, refrão e terceira parte em tons agudos. A música vai ao extremo de, à semelhança da música de 2002, ter uma parte em que o instrumental diminui, Avril canta parte do refrão em tom baixinho para, depois, clamar “It was in me! It was in me!” com uma melodia idêntica à de I'm With You.

 

Até mesmo na temática It Was in Me é parecida com a grande balada de Let Go. Calhou bem ter escrito há pouco tempo sobre I’m With You e outras canções à volta do tema de estar à procura de algo: de companhia, de respostas, de um sentido para a vida. De sítios perfeitos.

 

It Was in Me também pega nesse tema. A narradora procura respostas por todo o lado: em festas, em bens materiais, noutras pessoas.

 

No fim, a resposta estava dentro de si: nas pequenas coisas, na sua espiritualidade, na sua relação com Deus, em si mesma. Dezassete anos depois de I’m With You (metade da vida dela, vejo agora), Avril já não tem medo de estar sozinha. Consegue “sentir-se eufórica enquanto sóbria (infelizmente não existe nenhuma tradução literal para “high”. Apenas “pedrada” e não é cem por cento exata), jovem enquanto velha” sem ajudas exteriores. 

 

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Mesmo antes de Avril o confirmar em entrevista no outro dia, já suspeitava que ela estava a tentar recriar a magia de I’m With You. A música até foi co-composta por Lauren Christy, que costumava fazer parte do The Matrix! E hão de reparar na curiosa abundância de “yeah-yeah”s neste álbum.

 

Não acho que tenha sido uma má ideia. Para além de ser uma boa sequela a I’m With You, na minha opinião, é uma das melhores músicas de Head Above Water. E é, sem sombra de dúvida, a letra mais madura que Avril alguma vez escreveu até ao momento.

 

Por sua vez, Warrior foi um dos primeiros títulos de que Avril falou – há cerca de dois anos, conforme podem ver aqui.

 

É uma música linda, embora seja demasiado parecida com Head Above Water para o meu gosto: conduzida pelo piano, com os violinos a acompanhar e a interpretação emotiva de Avril.

 

Na verdade, não consigo decidir se gosto mais da versão oficial ou da versão demo, que apareceu na internet no mesmo dia em que o álbum saiu. A demo tem um tom mais intimista, tem mais personalidade própria, não parece tanto uma Head Above Water parte 2 – já ajudava terem dispensado a percussão. Por outro lado, gosto mais da terceira parte da versão do álbum – mas eu teria conservado o crescendo de violinos da demo. E, claro, a versão oficial está melhor produzida, possui melhor qualidade de som.

 

 

A letra não é má, está acima da média no que toca à discografia da Avril, mas ela vai para todas as metáforas óbvias, tornando a canção demasiado genérica. Já de si é vulgaríssimo chamar “guerreiros” a pessoas com doenças graves, sobretudo cancro, e Warrior não se eleva acima desses clichés. Fica a ideia que qualquer um podia ter escrito esta letra.

 

Vou dizer, no entanto, que gosto do verso “I’ve got a whole damn army”: um exército do qual fazem parte a família de Avril, os seus amigos e, claro, nós, os fãs. Conforme escrevi aqui no blogue há pouco tempo, julgo eu, o mais importante são as pessoas, sobretudo em alturas difíceis como estas.

 

E são estas as músicas inspiradas pela Doença de Lyme (bem, It Was in Me mais ou menos). Sim, apenas três músicas.

 

Bem, mudando um pozinho ou outro, Birdie podia aplicar-se ao Lyme. A letra fala da sensação de prisão, de nos sentirmos um animal numa jaula, um pássaro numa gaiola (lá está). Podia ser sobre a doença que a confinou a uma cama durante longos períodos de tempo ao longo de dois, três anos, mas a letra alude mais a uma relação amorosa. Talvez o seu casamento falhado com Chad Kroeger, talvez a relação tóxica de que fala noutras músicas.

 

 

Em termos de instrumentação, Birdie não difere muito das músicas que falámos antes. Por outro lado, em termos de estrutura da melodia, foge um pouco à fórmula da larga maioria do álbum, sobretudo no que diz respeito ao refrão. Tem ainda uma aura de melancolia que joga bem com a letra.

 

Em suma, não sendo das minhas preferidas neste álbum, é certamente uma das mais interessantes e únicas.

 

Outra música que aborda relações disfuncionais é I Fell In Love With the Devil. Produzida pela própria Avril, esta faixa possui um tom inesperadamente gótico e dramático, cortesia do piano e dos violinos. Parece uma música retirada do Under My Skin, sem guitarras elétricas, com um carácter mais maduro e moderno.

 

A condizer com a parte musical, a letra é dramática, mesmo melodrámatica. Não que fosse de esperar outra coisa de um título como I Fell in Love With the Devil. Descreve uma relação tóxica, da qual a narradora parece incapaz de sair sozinha. A letra usa imagens de Céu e Inferno, anjos e demónios – melodramático, lá está, mas funciona dentro da sonoridade.

 

 

Não sendo uma das minhas preferidas, é outra canção interessante. Nos primeiros dias após a edição do álbum, era a mais reproduzida no YouTube. Não surpreende: três quartos da comunidade de fãs venera Under My Skin e I Fell in Love With the Devil parece ter sido criada de propósito para eles.

 

Tell Me It’s Over também aborda uma relação disfuncional, como vimos antes. Ouvindo-a no contexto do álbum é um destaque claro: boa letra, boa sonoridade (tirando a batida irritante), bom desempenho vocal. Foi uma boa jogada lançá-la como single em dezembro – houve quem a descrevesse como uma música de Natal triste. Existem outros temas com influências soul em Head Above Water, como veremos adiante, mas Tell Me It’s Over é de longe o melhor.

 

Praticamente todos os álbuns de Avril, sobretudo os mais calmos e pessoais, como este, possuem pelo menos um outlier. Neste caso, este é Dumb Blonde. Na minha opinião, sendo Head Above Water um álbum mais homogéneo que o costume, nota-se mais a diferença. Também não ajuda o facto de Dumb Blonde estar a meio da tracklist – aquando de Goodbye Lullaby, por exemplo, tiveram o bom senso de colocar What the Hell logo no início.

 

Dumb Blonde era mais ou menos o que eu calculava que fosse, mal saíram as primeiras pistas sobre a múscia. Com uma batida “roubada” a Hollaback Girl, mais prevalente no início, acaba por ganhar mais personalidade após a primeira estância. A minha parte preferida é o pós-refrão, gosto imenso dos vocais.

 

 

Sendo tão contagiante como qualquer outro single pop da discografia da Avril, a letra por outro lado é melhor que o habitual para este estilo. Terá sido inspirada por um idiota qualquer que acusou Avril de ser, lá está, uma loira burra. Avril vingou-se assim. O “braggadocio” em Dumb Blonde lembra um pouco certas músicas do The Best Damn Thing e vai ainda mais longe: é a primeira vez que Avril se gaba do dinheiro que ganha, dos discos de Ouro e Platina (gaba-te enquanto podes, querida…).

 

Dumb Blonde está longe de ser um hino feminista revolucionário, mas sempre tem alguma mensagem, algum significado, o que a coloca num nível acima das Girlfriends e Hello Kittys desta vida.

 

Dumb Blonde possui várias versões. Quando foi lançada como single, uns dias antes do lançamento do álbum, por exemplo, veio com um rap de Nicky Minaj.

 

Nós os fãs só soubemos da colaboração uns dias antes. Ninguém estava à espera. Parece-me óbvio que esta foi uma decisão de última hora, talvez para que a música descole (não parece estar a resultar…). Muitos de nós andavam nervosos, como seria de esperar, por um lado. Por outro, tanto Nicky como Avril trocaram elogios nas redes sociais, o que foi agradável – quando a Comunicação Social gosta tanto de virar cantoras umas contra as outras.

 

 

A participação de Nicky não é má mas, na minha opinião, era desnecessária. Gosto mais da versão a solo. Não a versão que aparece no CD, a versão explícita que, tanto quanto sei, não foi lançada oficialmente. Fico um bocadinho chateada por essa não aparecer pelo menos no CD. Não sou nenhuma criancinha, estou habituada aos “fucks” e “shits” desta vida na música.

 

Tudo isto para dizer que, para o típico single “radiofónico” semelhante a Girlfriend, Dumb Blonde não é má. É certamente melhor que Hello Kitty – o que não era difícil, sejamos sinceros.

 

O resto do álbum consiste em canções de amor (bem, mais ou menos no caso de Bigger Wow). Cinco de seguida, na verdade. A primeira, Souvenir, é a minha preferida – uma das minhas preferidas em todo o álbum, aliás, cativando-me logo nas primeiras audições.

 

Isto acontece-me em todos os álbuns de Avril, mesmo que até nem goste dos álbuns a cem por cento, mesmo que tenha vários defeitos a apontar (e Head Above Water é um desses casos, como veremos adiante). Existe sempre pelo menos uma faixa que me agarra pelo coração, contra toda a racionalidade. Muitas vezes é uma das faixas que mais passam despercebidas, de que Avril menos fala, que menos atenção recebe dos fãs.

 

 

Nada disto acontece com outros artistas ou bandas. É um dos motivos pelos quais ela continua a ser a minha preferida, mesmo passados estes anos todos, mesmo que tenha algumas reservas relativamente aos seus álbuns mais recentes.

 

Continuo a achar que Souvenir tem argumentos a seu favor. Na minha opinião, esta é a 17 de Head Above Water: uma música com um tom primaveril/estival, muito alimentada a nostalgia. Souvenir é, aliás, um romance de verão em forma de música – não apenas pela letra. A guitarra acústica e os discretos elementos eletrónicos dão vida aos cenários idílicos que a canção descreve.

 

Eu, aliás, quero viver para sempre naquele refrão agridoce. Numa das primeiras noites após o lançamento do álbum, estive um bom bocado deitada, ouvindo Souvenir em repetição, de lágrimas nos olhos. A música faz-me desejar passar férias num lugar paradisíaco, longe da minha vida habitual – de preferência sem Internet. O romance de verão seria opcional.

 

Mais uma vez, é raro encontrar uma canção que tenha esse efeito em mim: capaz de me levar às lágrimas, de me arrancar do aqui e agora.

 

A letra de Souvenir fala, assim, de um romance de verão que está a terminar. A narradora brinca com a ideia de manter o contacto depois das férias, de repetir a história no verão seguinte, talvez mesmo tornar a relação permanente.

 

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É um sentimento bonito, mas a verdade é que nem sempre estes romances sobrevivem à rentrée, ao regresso à rotina, ao mundo real.

 

Curiosamente, uma das músicas que vazaram no dia em que o álbum saiu, In Touch, cuja letra aborda o mesmo tema por outras palavras. Provavelmente foi uma primeira versão de Souvenir. Ainda bem que foi excluída da tracklist que, na minha opinião, Souvenir é muito melhor.

 

Esta é, então, mais de uma canção de amor, é uma canção romântica, idílica. Um pouco como Run Away With Me, se formos a ver.

 

Se Souvenir é uma canção de amor idílica, Goddess é uma canção de amor mais apoiada na realidade. É uma balada acústica fofinha, mais ritmada que Falling Fast (a percussão resulta de bater com os dedos nas cordas na guitarra). Lembra-me um bocadinho 23, da Shakira. Também faz pensar em noites ao ar livre, à volta de uma fogueira, com alguém a tocar guitarra.

 

Há muita gente a implicar com a rima de “pajamas” com “bananas”, não sem alguma razão. A mim não me incomoda muito porque o inglês não é a minha língua nativa e, em português, pijama até rima com banana. Eu até gosto, pois dá um carácter adorkable à música, na minha opinião.

 

 

Além disso, sejamos sinceros, esta é a mulher que começou uma canção com “He was a boi, she was a girl” e outra com “Singing Radiohead at the top of our lungs” – até eu sei que a música dos Radiohead não é do género que se cante a plenos pulmões. Contestação a esse verso parece-me bem mais compreensível que uma mera rima forçada.

 

Tirando isso, gosto bastante da letra de Goddess (apesar de, por vezes, cair em clichés). Ao contrário de todas as outras canções de amor neste álbum, esta até parece relacionar-se com a Doença de Lyme, pelo menos em parte.

 

Recordemo-nos que Avril passou uma boa parte de dois anos presa a uma cama. Em certos momentos, segundo declarações da mesma, nem conseguia lavar os dentes – quanto mais pentear-se, depilar-se, maquilhar-se. A última deve ter sido particularmente difícil para Avril, que já confessou ser viciada em maquilhagem, sentir-se nua sem o seu característico smokey eye.

 

Não admira, assim, que Avril refira que o seu amado a ache atraente de pijama, que ache o seu corpo perfeito, numa canção de amor. Qualquer mulher tem essas inseguranças: “Será que ele ou ela me vai achar bonita sem maquilhagem? Ou se ganhar uns quilos? Ou quando estiver doente ou velha?”.

 

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É certo que é mais fácil a Avril parecer sexy de pijama – ela tem acesso a muitos mais produtos e tratamentos cosméticos que nós, simples mortais. Mas também a sociedade faz de tudo para que as mulheres nunca se sintam suficientemente bonitas. Diz-se, aliás, que as modelos são das pessoas mais inseguras que existem.

 

Isto tudo para dizer que, se alguém vos acha atraente mesmo quando não estão no vosso melhor, esse alguém é pelo menos um forte candidato a pessoa certa para vocês.

 

As outras canções do álbum, infelizmente, não me impressionam assim tanto. Estou com dificuldades em decidir se gosto ou não de Crush (que também foi um dos primeiros títulos a ser revelado). Por um lado tem influências soul/jazz interessantes, à semelhança de Tell Me It’s Over, mas a música é demasiado lenta para o meu gosto. Além de que a letra não lhe faz favores nenhuns.

 

O mesmo se passa com Love Me Insane. O instrumental tem alguns elementos interessantes: o piano tem um carácter algo retro, faz-me lembrar Easy, dos Commodores. Também gosto dos violinos. Tirando isso, no entanto, a música acrescenta muito pouco: a letra reutiliza o tema de Crush e o desempenho vocal não é nada por aí além. Esta podia ter sido uma b-side.

 

Uma coisa em que reparei neste álbum é a mania de Avril de criar refrões circulares. Estes começam com a palavra ou expressão que dá o título à música e terminam com a mesma expressão, ou com uma pequena variação. Por vezes, repete esse título algumas vezes, acompanhando-o com monossílabos do género “yeah-yeah”. Esta última é uma tendência que herdou do álbum homónimo e que, sinceramente, já cansa. Isso e os refrões circulares fazem com que as músicas pareçam demasiado forçadas. Não sou fã.

 

 

Bigger Wow inclui esses dois pecados – embora eu até goste dos “Na na na”, ficam no ouvido. Encaixaria bem no álbum homónimo. Mais uma vez, a sonoridade tem elementos interessantes, nomeadamente os violinos mas, mais uma vez, tirando isso, é uma música mediana.

 

O tema, então, já tem barbas na discografia da Avril: é mais uma canção sobre aproveitar a vida, viver experiências fortes e tal. A ironia é que este é um tema que Avril parece adotar por defeito, à semelhança das canções de amor e desgosto.

 

E a verdade é que um Bigger Wow é exatamente aquilo que me fica a faltar, quando acabo de ouvir este álbum.

 

Antes de partirmos para as alegações finais, uma palavra rápida para as tais faixas que vazaram no dia do lançamento oficial. Eu assumo foram excluídas do álbum. De uma maneira geral, acho que foram bem excluídas. As únicas de que gosto são de Break It So Good e o cover de I Want What I Want, mas não sei se se encaixariam muito bem em Head Above Water. Pode ser que pelo menos Break It So Good saia numa edição Deluxe do álbum ou algo assim.

 

Não me interpretem mal, não acho que Head Above Water seja mau. Pelo contrário, todas as músicas têm um aspeto positivo, por pequeno que seja. Ainda assim, estava à espera de mais.

 

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Como referi antes, muitos artistas de que gosto passaram por experiências difíceis nos últimos anos. A única vantagem foi terem criado ótima música inspirada por isso: After Laughter, My Indigo, Post-Traumatic, mesmo 13 Voices. Lorde, então, criou uma autêntica obra de arte a partir de algo tão trivial como um primeiro desgosto de amor… mas também é injusto comparar Lorde com quem quer que seja.

 

Olhemos para o álbum que Avril lança agora, após viver os piores anos da sua vida: só três músicas abordam diretamente as causas desses maus anos. Pelo menos uma delas – Warrior – podia ter sido composta por qualquer outra pessoa.

 

O resto do álbum consiste nos mesmos temas de amor e desgosto que apareceram em literalmente todos os outros álbuns da Avril, ainda que com outras roupagens – e, vá lá, letras melhorzinhas.

 

Quando a tracklist de Head Above Water foi revelada, pensei que Warrior tinha sido deixada para o fim para funcionar como epílogo. Talvez até fosse essa a intenção. No entanto, não funciona pois sure após cinco canções de amor de seguida. Quando finalmente se ouve Warrior, uma pessoa já quase se esqueceu que Avril esteve doente.

 

Por outras palavras, Avril viveu os piores anos da sua vida e isto é o melhor que ela consegue fazer?

 

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Fico desiludida porque, se nem após o Lyme Avril consegue sair do registo que tem mantido nos últimos dois, três álbuns, a contar com este, é pouco provável que alguma vez o faça. Head Above Water acaba por ter falhas parecidas com as do álbum homónimo: falta a originalidade que caracterizava Avril no início da sua carreira.

 

Em defesa de Avril Lavigne, o álbum, no entanto, este não tentava ser o que não era. Assumia não ser um disco demasiado sério e introspetivo. Por sua vez, Avril tem tentado vender Head Above Water como o álbum mais pessoal e honesto da sua carreira. Se isto é o reflexo da sua personalidade, das suas crenças, da sua vida interior… tenho pena, mas ela não é assim tão interessante.

 

É certo que, mesmo que lhes falte profundidade e originalidade, as músicas de Head Above Water terão ajudado Avril a lutar contra a sua doença – nem que tenha sido apenas por lhe terem dado um motivo para se levantar da cama, apenas como escapismo. Eu, aliás, sinto-me um bocadinho hipócrita pois também tive períodos nos últimos anos – alguns deles, curiosamente, até poderão ter coincidido com as piores fases da Doença de Lyme da Avril – em que a minha escrita e os meus blogues eram as únicas coisas que davam sentido à minha vida. E eu não escrevia sobre os motivos da minha vida não fazer sentido! (Nem sobre quase nada que diga respeito à minha vida pessoal, na verdade…)

 

A própria Avril tem dado a entender, nalgumas entrevistas, que não gosta de falar muito sobre a sua doença. Mas acaba por entrar em contradição consigo mesma, ao descrever este álbum como “pessoal, íntimo, dramático, cru, poderoso”… quase sem cantar sobre o motivo de ter passado pelos piores anos da sua vida.

 

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Ainda assim, mesmo que, na minha opinião, Avril não explore a luta contra o Lyme como deve ser, Head Above Water tem sido suficiente para tocar outras pessoas afetadas pela doença, o que não é de desprezar. E ainda que ache que músicas como Head Above Water e sobretudo Warrior são demasiado genéricas para o meu gosto, a vantagem é que qualquer pessoa com uma doença grave ou com outra situação difícil pode identificar-se com elas.

 

Existem outras coisas de que gosto em Head Above Water, aliás. Em termos vocais, este é capaz de ser o melhor de Avril até agora, para começar. Além disso, Head Above Water confirma a tendência de melhoria em termos de letras que começou com o quinto disco. E eu até gosto deste estilo mais adulto, ainda que não com grande profundidade.

 

Não sei se esse se vai manter em álbuns posteriores, se ela vai regressar ao pop rock mais juvenil em discos futuros. O tempo dirá, suponho eu.

 

O que é certo é que eu vou gostar de praticamente tudo o que a Avril criar, mesmo que nem sempre a cem por cento, mesmo que tenha vários defeitos a apontar. Foi o que aconteceu com os primeiros seis álbuns dela, não estou a ver as coisas a mudarem. Estou satisfeita por termos Head Above Water, apesar de tudo, e quero que ela continue a fazer música.

 

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O pior é que, no que toca ao meu nicho musical, temo que ela acabe por ganhar um estatuto parecido àqueles funcionários mais velhos numa empresa. Ninguém os despede pois, apesar de hoje não darem muito para a caixa (embora, de vez em quando, façam um ou outro brilharete), eles fizeram muito pela empresa antes e estão gratos por isso. Mas toda a gente sabe que, hoje, são os trabalhadores mais recentes que obtém os melhores resultados

 

E não devia ser assim. Isto aceitava-se se falássemos de alguém como Bryan Adams, por exemplo. Ele está perto dos sessenta (!!!) e, hoje em dia, praticamente só lança álbuns como desculpa para ir em digressão. Mas a carreira da Avril ainda vai a meio. É demasiado cedo para ter este odor (ainda ligeiro, mesmo assim) a estagnação.

 

Pode ser que isso mude em álbuns futuros. Pode ser que ela tente fazer algo diferente daqui a dois ou três anos. Neste momento, quero ver como é que a minha opinião em relação a este álbum evolui nos próximos meses. Depois farei uma atualização nos textos de fim de ano.

 

Quanto a nós, já estou a escrever a minha análise a My Indigo – finalmente! Temos também os novos álbuns dos Within Temptation e de Bryan Adams, mas ainda não sei quando escreverei sobre eles. Nem sei se vou escrever sobre Shine a Light, para ser sincera.

 

Na verdade, estou a planear um mega projeto aqui para o blogue (julgo já ter falado dele antes). Ainda precisa de muita preparação, deve demorar algumas semanas, se não forem meses. Mas estou ansiosa por começar a escrevê-lo!

 

Obrigada, mais uma vez, pela vossa visita.

 

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