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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Digimon Tamers #8 – Quando for grande, quero ser como ela...

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...apesar de já ser mais velha que a mãe dela, durante os eventos de Tamers.

 

Consta que Ruki, a única rapariga que faz parte do trio de protagonistas, é a personagem mais popular em Tamers. Eu neste caso concordo com a opinião do público. Se tivesse visto Tamers em miúda, teria desenvolvido uma enorme “girl crush” por Ruki. Tentaria imitar o penteado dela – e falharia, porque o meu cabelo só atingiu o comprimento suficiente para um rabo-de-cavalo aos catorze anos. Andaria a chatear os meus pais para me arranjarem uma t-shirt com um coração azul partido – segundo eles, nunca fui de pedir muitos presentes em pequena, mas as coisas que pedia eram difíceis de arranjar.

 

Hoje felizmente temos a Tee Public e já ganho o meu próprio dinheiro. Por isso…

 

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(Fiquei um bocadinho desapontada por terem demorado várias horas a reparar, no encontro do Odaiba Memorial Day.)

 

Como adulta, continuo a sentir admiração por ela, mas diria que Ruki está mais ou menos empatada com Takato como personagem preferida de Tamers. De uma forma simplista, Takato é quem eu sou. Ruki é quem eu gostava de ser. 

 

Segundo o site de Konaka, brinquedos centrados em personagens femininas vendem menos que os centrados em personagens masculinas (ou pelo menos vendiam menos na altura do planeamento de Tamers. Para contrariar um pouco esse fenómeno, os produtores decidiram que a rapariga protagonista teria de ser a mais poderosa e capaz. 

 

Por um lado, acho que foi uma boa decisão, mesmo que por motivos comerciais: os próprios produtores admitindo que boas personagens femininas vendem. E Tamers quebrou convenções, sobretudo para a época, ao ter dois protagonistas masculinos mais para o emotivo e sensível e uma protagonista feminina mais estóica e durona.

 

É pena, no entanto, que se considere que, para se tornar uma personagem feminina “melhor”, mais apelativa comercialmente, se tenha de torná-la… bem, menos feminina. Sou a primeira a admitir que é uma faca de dois gumes. Eu também era maria-rapaz em miúda, ainda o sou um bocadinho, sendo este um dos motivos pelos quais gosto de Ruki (e de Sora, de quem Ruki parece ser uma versão melhorada, nalguns aspetos). Estou certa que existirão muitas outras meninas com gostos menos femininos na audiência de Digimon. Mas quantas de nós nos tornámos marias-rapaz porque internalizámos que ser-se feminina, gostar de vestidos, de cor-de-rosa, de princesas da Disney não é fixe?

 

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Enfim, passemos à frente.

 

Quando conhecemos Ruki, esta tem várias características de uma adolescente rebelde: reservada, aparentemente fria e distante, segura de si mesma – eu daria tudo para ter um décimo da sua confiança. Não é má rapariga. Não é mal-educada – Konaka referiu no seu site que não queria que Ruki usasse linguagem grosseira. E de facto vêmo-la tratando a avó e a maior parte dos adultos (com notáveis exceções) com respeito (Editado: entretanto, recordaram-me que, na sociedade japonesa, as gerações mais jovens em geral nutrem imenso respeito pelos mais velhos, mais do que no mundo ocidental. Por isso, talvez não seja assim tão significativo.) Mesmo com Takato ou Jian, ela é fria, mas não chega a ser malcriada. 

 

Ruki é apenas solitária, focada nas suas coisas, não tem paciência para pessoas de que não gosta ou que não tem em grande conta. Como Takato e Jian de início, Hirokazu e Kenta mais tarde, mas sobretudo a sua mãe.

 

Recuando um pouco no tempo, quando Ruki nasceu, a sua mãe, Rumiko, tinha apenas dezoito anos. Ela terá chegado a casar com o pai da filha mas, como seria mais ou menos de esperar de um casamento tão precoce, este não resulta. Por altura dos eventos de Tamers, o pai está desaparecido do mapa. Não é muito claro se Ruki ainda mantém contacto com ele – supostamente sim, segundo um monólogo da jovem, mas isso contraria o segundo filme de Tamers (que, por outro lado, acho que toda a gente concorda que não faz parte do cânone oficial).

 

Konaka fez questão de referir no seu site que a personalidade de Ruki não é influenciada pela ausência do pai… mas será verdade? Tal como é referido neste vídeo, o trauma de abandono explicaria pelo menos em parte a relutância de Ruki em abrir o seu coração a Renamon, bem como aos outros treinadores. Mais sobre isso adiante.

 

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Mesmo tendo sido mãe muito cedo (o facto de a avó de Ruki ter estado por perto e de haver dinheiro na família terá ajudado), Rumiko conseguiu lançar uma carreira bem sucedida como super-modelo. Possui mesmo o estatuto de mini-celebridade. Ao contrário de Ruki, é extrovertida, convencionalmente feminina e tenta transformar a filha numa miniatura de si mesma – pressionando-a para ter interesses mais femininos e arrastando-a para sessões fotográficas. 

 

Devo dizer, as cenas em que Rumiko tenta convencer Ruki a usar vestidos bonitos lembram-me a minha própria infância. Qualquer uma que tenha sido maria-rapaz nalguma altura da sua vida terá recordações semelhantes.

 

Só que Rumiko pressiona um bocadinho além do que é saudável e Ruki, naturalmente, ressente-se. Torna-se maria-rapaz – a certa altura dá-se a entender que terá sido por influência do pai. Dedica-se ao jogo de cartas de Digimon, uma franquia dirigida sobretudo a rapazes. 

 

É possível que tenha escolhido deliberadamente um passatempo, um mundo onde a mãe não pudesse assoberbá-la. E eu, admito, revejo-me ainda mais nesta atitude no que no estilo menos feminino. 

 

Rumiko domina o jogo de cartas com facilidade, perdendo apenas para Ryo, ganhando o cognome de Rainha dos Digimon. A vitória, no entanto, não a satisfaz, não preenche o vazio.

 

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É nessa altura que aparecem Digimon em sua casa, pedindo-lhe para ser sua Treinadora. Este é um caso excecional em Tamers, em que são dos Digimon que vão atrás de uma humana, em vez do oposto. Ainda assim, Ruki declara que só quer um Digimon verdadeiramente forte. Renamon avança – um nível Infantil, apesar de existirem níveis Adultos e Perfeitos entre as opções.

 

Na verdade, antes de ver Tamers, pensava que Renamon era um nível Adulto – por causa do tamanho e pelo comportamento, mais parecido com o da Tailmon que do Agumon ou do Guilmon. Tirando esse aspeto, a família digievolutiva da Renamon é a minha preferida em Tamers. 

 

São sempre os Digimon das meninas, curiosamente.

 

No início, Ruki e Renamon possuem uma relação estritamente profissional. Renamon procurava a ajuda de um humano para se tornar mais forte, quiçá digievoluir. Ruki vê Renamon e os restantes Digimon como uma extensão do jogo de cartas: apenas dados digitais, personagens de um videojogo.

 

Nesta fase, há quem compare Ruki a Ken, quando este era Imperador Digimon – no sentido em que ambos encaram os Digimon como um jogo. Não sei se é uma comparação legítima. Ken não possuía controlo total sobre as suas atitudes para começar; torturava e obrigada Digimon a combater sem o consentimento deles.

 

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Por sua vez, Renamon luta de livre vontade. Pode-se argumentar que o mesmo acontece com os adversários que derrota e absorve pois, lá está, dos Digimon vivem sobre a lei do mais forte. Combater e absorver adversários faz parte da sua cultura.

 

Não deixa de ser uma área moralmente cinzenta. Afinal, essa cultura foi inscrita no ADN dos Digimon por humanos e, agora, uma humana aproveita-se dessa cultura para entretenimento e prestígio pessoal. Ruki não está a fazer o mesmo que Ken. Mas não significa que seja o correto.

 

Um caso em que Ruki claramente não faz o correto é quando conhece o Takato e o Guilmon. Aqui não há desculpa, Guilmon tinha pouco menos de um dia de vida, era um bebé. Nem ele nem Takato queriam combater. Ruki só tinha de deixá-los em paz. 

 

Felizmente, esta atitude depressa se volta contra ela. Bem, não sei se posso usar a palavra “felizmente” associada a uma cena onde uma menina de dez anos é encostada à parede por uma criatura apontando-lhe uma arma. Em todo o caso, é a primeira ocasião em que vemos a autoconfiança de Ruki abalada e as suas convicções questionadas. 

 

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A convivência com Takato, Jian e respetivos companheiros Digimon provoca mudanças em Renamon antes de em Ruki. Ao ver as relações afetivas que Guilmon e Terriermon cultivam com os seus treinadores, ela começa a desejar algo semelhante para si – ainda que apenas no subconsciente. Renamon começa a sentir que está a desiludir Ruki pessoalmente por não conseguir a digievolução.

 

Esta, na verdade, é desbloqueada, não após a absorção de adversários suficientes e sim durante um combate em, pela primeira vez, ambas se preocupam com a segurança uma da outra. Em que tentam proteger-se uma à outra.

 

Ainda assim, Ruki não percebe logo a mensagem. A jovem ainda não está preparada para aceitar que gosta de Renamon. As coisas só mudam quando Ruki começa a ser perseguida por algo… gélido. Ao perceber que a sua Treinadora está assustada, Renamon oferece-se para protegê-la… ao que Ruki responde com duas pedras na mão- Tenta colocar o Digimon no seu lugar e ergue uma barreira entre elas. 

 

Renamon ausenta-se. Por norma, sabe que Ruki gosta do seu espaço, sobretudo quando algo a perturba. No entanto, dá para ver que ficou magoada.

 

Ruki não demora a descobrir a identidade do seu stalker. IceDevimon, uma criatura francamente sinistra – parece que, tal como o Takeru, não sou grande fã de Devimon nem que Digimon semelhantes. Este deseja substituir Renamon como companheiro Digimon de Ruki. Persegue e rapta a jovem, trá-la para a sua cave e mostra-lhe os cadáveres congelados de todos os Digimon que derrotou – como quem mostra as duas credenciais, a sua sala de troféus.

 

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IceDevimon acaba por funcionar como personificação da faceta que Ruki, até ao momento, procurara mostrar ao mundo: fria, ambiciosa, implacável. IceDevimon pensa que Ruki valoriza tais características, que a persuadirão a jovem a tornar-se sua Treinadora… mas Ruki está essencialmente a olhar-se ao espelho e não gosta do que vê. 

 

Ninguém gostaria. Ruki repetira inúmeras vezes desde o início de Tamers que os Digimon são apenas dados. Quando uma pessoa repete a mesma ideia com esta frequência, pode significar que está a tentar convencer-se a si mesma tanto quanto dos demais. Os Digimon podem ser apenas criaturas digitais – o que não significa que sejam incapazes de sofrer ou que seja agradável vê-los congelados numa perpétua expressão de terror.

 

Ruki não quer ser mais essa pessoa, mas também não quer pedir ajuda a Renamon. Receia que, depois da maneira como a tratou, ela não venha. Renamon, no entanto, conseguira sentir que Ruki estava em perigo e aparece para ajudar.

 

De início tudo corre bem, como já acontecera muitas vezes em Digimon. Pela primeira vez, Ruki afirma que Renamon é sua amiga, com todas as letras. Em resposta, Renamon digievolui… mas Kyubimon é incapaz de derrotar IceDevimon. Quem o faz é Guilmon, orientado por Takato que, pela primeira vez, usa cartas e é bem sucedido. 

 

No rescaldo daquela situação, Ruki grita que detesta Digimon, vai para casa sem Kyubimon e deita fora as suas cartas e o seu D-arco.

 

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Uma reação intempestiva, é certo, mas compreensível. Vejamos a situação. Ruki tinha acabado de sobreviver a um Digimon francamente sinistro. Acabara de descobrir que o seu passatempo, aquilo que dava sentido à sua vida, era essencialmente uma carnificina. Tinha tentado fazer diferente, admitir ao mundo que gostava de Renamon, o que não era fácil para uma pessoa orgulhosa e reservada como ela – o que não chegara para derrotar IceDevimon. Quem o fizera, fora um puto que, no episódio anterior, estivera a chorar como um bebé agarrado ao Growmon. 

 

Em suma, Ruki devia estar a sentir-se confusa e humilhada e reagiu da maneira que qualquer criança da idade dela reagiria: amuando, batendo com a porta, dizendo que não quer brincar mais.

 

Tanto ela como Renamon passam algum tempo afastadas, refletindo. Renamon chega a conversar sobre o sentido de ter um companheiro humano, primeiro com Jian, mais tarde com Impmon, que tem um histórico… digamos, interessante com Treinadores. Este último acaba por funcionar como o reverso da medalha para Renamon, como veremos um dia destes.

 

Entretanto, Renamon vai derrotando outros Digimon sozinha, concluindo que talvez não precise de Ruki para se tornar mais forte. No entanto, nesta altura, tornar-se mais forte só porque sim já não a satisfaz – tal como o jogo de cartas deixou de satisfazer Ruki, a partir de certa altura.

 

Por seu lado, apesar de Ruki ter, aparentemente, desistido dos Digimon, não consegue manter-se afastada quando estes aparecem. Vêmo-la de fora do campo de dados, enquanto Renamon derrota um bando de Flybeemon, afastando-se de seguida sem falar com a sua companheira. Pensa, agora, que Renamon só queria saber dela para se tornar mais forte. 

 

É também nesta altura que a avó de Ruki, na sua sabedoria, avisa que o isolamento constante não é saudável, que ninguém sobrevive a este mundo sozinho.

 

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Havemos de regressar a esta ideia mais adiante. Para já, dizer que, quando outro Digimon, uma Harpymon, aparece, mais uma vez Ruki não consegue manter-se afastada. Desta feita, deixa-se ver por Renamon. À primeira vista, esta derrota a Harpymon, mas em vez de lhe absorver os dados, fica ali parada, apercebendo-se de que nada daquilo lhe contribui para a sua felicidade. Lá porque Renamon consegue derrotar adversários sozinha, não significa que o queira. 

 

Ora, Harpymon aproveita as reflexões existenciais de Renamon para atacá-la quando tem as defesas em baixo. Renamon, apanhada de surpresa, não se consegue defender. Ruki, em pânico, leva a mão aos bolsos mas lembra-se que atirara tanto o seu D-arco como as cartas para o caixote. Sem alternativa, agarra num pau caído e corre a espetá-lo nas costas da Harpymon. 

 

Naturalmente, o Digimon selvagem volta-se para Ruki – que fica com uma cara de devia-ter-pensado-melhor-nisto. Felizmente, Renamon digievolui à moda antiga, para proteger a sua companheira (uma sorte o Culumon estar por perto), e derrota a Harypymon.

 

Ou seja, tal como na ocasião em que desbloquearam a Kyubimon, por muito reservadas e orgulhosas que sejam, Ruki e Renamon não conseguem afastar-se uma da outra, preocuparem-se uma com a outra, protegerem-se uma à outra. E desta vez admitem-no preto no branco.

 

Depois de conseguir abrir-se a Renamon, Ruki começa a fazer o mesmo com os outros Treinadores – sobretudo quando começam a aparecer os Deva e ela, Takato e Jian se encarregam de proteger a população civil. Eu destacaria a ocasião em que se oferece para ensinar o jogo de cartas a Juri, quando esta adquire o seu próprio baralho. 

 

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Por outro lado, regressando à relação de Ruki com a sua mãe, quando o elenco vai ao Mundo Digital resgatar Culumon, a jovem sente-se mal pelo sofrimento que vai provocar a Rumiko. Assim, dá um primeiro passo no sentido de uma reconciliação ao aceitar usar um dos vestidos que a mãe tentara impôr-lhe – em jeito de despedida. 

 

Havemos de regressar a Rumiko. Para já, no Mundo Digital, os instintos protetores de Ruki tornam a manifestar-se, desta feita para com Hirokazu e Kenta. Os dois tinham-se juntado ao grupo de resgate à procura de companheiro. Não o encontram de imediato, ou seja, passam bastante tempo indefesos – e Ruki assume a tarefa de protegê-los.

 

Não que o faça pacificamente. Pelo contrário, não se coibe de dizer-lhes exatamente o que pensa deles (e até tem alguma razão), chegando mesmo a dar-lhes um literal pontapé no rabo. Quando Ryo se junta à festa – o lendário Digitreinador, o único a derrotar Ruki no campeonato de cartas antes de literalmente desaparecer da face da Terra, que a narrativa trata quase como um Gary Stu e tenta insinuar que Ruki tem um fraquinho por ele – a jovem atinge o seu limite, optando por virar as costas ao grupo e venturar-se sozinha.


Enfim. Como fizem os anglo-saxónicos, baby steps.

 

No meio disto tudo, tem alguma piada ver Renamon “ralhando” com Ruki, aconselhando-a a ter paciência com os demais. Como, por exemplo, quando a jovem reclama com Juri por esta a tratar por “chan”. (Há um par de ocasiões em que, na versão original, Ruki reage mal a ser tratada por um chan, compreensivelmente. A dobragem portuguesa traduz ambas literalmente, o que é uma falha infeliz, conforme expliquei aqui.) Só reforça a ideia de que Treinador e digimon puxam um pelo outro, crescem em conjunto.

 

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Por outro lado, Ruki pode ter pouca paciência para com os rapazes do grupo que não Takato ou Jian, mas é meiga com Shaochung, mesmo com a choradeira toda. Mais compreensiva que o irmão, como vimos no texto anterior.

 

Com a luta com o Beelzebumon e consequente morte de Leomon, os instintos protetores de Ruki saem reforçados. A seguir a Takato, ela é a mais preocupada com a visível depressão de Juri, a sua conversa sobre o destino. Renamon diz mesmo que o coração da amiga está fechado pelo sofrimento – mas que terá de ser ela própria a escolher abri-lo de novo, a aceitar a morte do Leomon e a seguir em frente.

 

As palavras de Renamon são surpreendentemente proféticas, como veremos no próximo texto. Para já, pergunto-me se Ruki se revia em Juri naquele momento. Ela também passara muito tempo com o coração fechado e teve de escolher abri-lo de novo, como vimos antes. 

 

Havemos, aliás, de voltar a falar de semelhanças entre as duas meninas. Entretanto, quando descobrem que Culumon está preso numa ravina cheia de D-Reaper, Ruki oferece-se para descer sozinha com Renamon, precisamente para que nenhum dos amigos tenha de arriscar a vida – embora Ryo vá atrás dela. 

 

Ruki consegue chegar a Culumon, mas teemos um par de momentos assustadores. Algumas bolhas do D-Reaper rasam Ruki e Culumon e acabam por apanhar a mochila da primeira.  Por fim, chegam a uma posição em que os quatro – Ruki, Renamon, Culumon, Ryo – estão encurralados pelo D-Reaper. Takato, Jian e os outros estão mais acima, mais resguardados, mas não escaparão durante muito tempo.

 

É na combinação destas fintas próximas à morte com o desejo de proteger os amigos, mesmo de desafiar o destino e escrever a sua própria história que Ruki e Renamon dão um literal salto de fé, para o abismo do D-Reaper. Assim nasce o nível Extremo de Renamon.

 

 

Tenho um conhecimento limitado de Digimon, mas estou certa de que haverá quem concorde comigo quando disser que a sequência de digievolução para Sakuyamon é a mais bela em toda a franquia (embora não seja a minha preferida, está em segundo lugar). O fundo azul com a lua, a água, as cerejeiras em flor, o coro feminino no início de One Vision… Só de escrever fico com pele de galinha!

 

Tamers faz questão de realçar que o interior de Sakuyamon é quentinho, que ela mesma irradia calor para os demais. Aposto que é um contraste intencional com o gelo de IceDevimon, a sua cave cheia de cadáveres, que se comparava a si mesmo com Ruki, na primeira parte da narrativa. Sakuyamon é uma guerreira, mas é também uma força benevolente, maternal, protetora – um pouco como a Wonder Woman – que entoa um cântico com traços de canção de embalar, enquanto usa os seus poderes contra o D-Reaper.

 

No episódio seguinte, Ruki e Renamon citam a benevolência e compaixão de Sakuyamon como inspiração para irem à procura do Impmon e levá-lo para o Mundo Real. Mesmo depois de este ter assassinado o Leomon, mesmo depois de ter estado a isto de assassinar o Dukemon (com Takato lá dentro).

 

Uma vez mais, talvez Ruki e Renamon se tenham revisto em Impmon. Como referido antes, elas quiseram absorver o Guilmon no início de Tamers. Tinham, também, uma longa lista de adversários derrotados – adversários esses que podiam ter um Treinador ou andar à procura de um. Além disso, conforme veremos quando falarmos sobre Impmon, se as coisas entre ela e Ruki não tivessem resultado, Renamon podia ter seguido um trajeto muito parecido. 

 

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Esta decisão quase custou a boleia para o Mundo Real – não só a Ruki e Renamon, mas também a Takato, que ficou para trás à espera delas – mas valeu a pena. Ambas deram a Impmon uma segunda oportunidade e este, como veremos mais tarde, não a desperdiça.

 

Quando regressam a casa, Ruki e Renamon não conseguem lá ficar por muito tempo, por causa da ameaça do D-Reaper. Rumiko aproveita para terminar o que a filha começara antes de ir para o Mundo Digital. Pela primeira vez trata Ruki, não como um molde de plasticina para ela esculpir à sua imagem e semelhança, e sim como uma pessoa independente. Respeita-a por esta seguir o seu coração, as suas convicções, contra as opiniões dos demais – tal como Rumiko fizera aos dezoito anos, ao casar e ter um bebé nessa idade, certamente contra os conselhos dos mais velhos.

 

Se essa decisão de Rumiko foi a mais acertada é questionável – o casamento não durou e a filha está a crescer sem o pai por perto. Mas sempre lhe deu Ruki, que provavelmente nem seria a mesma pessoa se tivesse sido nada e criada noutras circunstâncias. 

 

Eu adoro a simbologia da t-shirt que Rumiko oferece à filha: idêntica à que Ruki usara até ao momento, mas com um coração inteiro em vez de partido. Ao contrário dos vestidos de antes, é uma peça de roupa que respeita a personalidade da filha. Mais: a própria Rumiko também arranja uma t-shirt com um coração, mas em rosa e vermelho, mais de acordo com o seu estilo pessoal. As t-shirts, com o mesmo desenho mas em cores diferentes, mostram que mãe e filha são pessoas distintas, mas na mesma equipa.

 

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Além de que a mudança de um coração partido para um inteiro é um bom reflexo da evolução de Ruki. Mas eu confesso que a adolescente rebelde em mim gosta um bocadinho mais do coração partido.

 

Outro momento marcante envolvendo Ruki e a sua família ocorre alguns episódios depois, quando se descobre toda a verdade sobre a situação familiar de Juri. Ruki apercebe-se que a sua família, por comparação, não é assim tão má. Os pais estão divorciados, mas estão ambos vivos. Rumiko tem muitos defeitos, mas toda a gente percebe que está a dar o seu melhor. Além de que a sua avó sempre estivera presente, funcionando como segunda mãe. 

 

A Juri saíra-lhe muito pior na rifa – mas nunca o usara como desculpa para se isolar, ser arrogante, matar outros Digimon como passatempo. Pelo contrário, Juri era simpática, tratava bem toda a gente, escondendo de todos a sua infelicidade. 

 

Não que o comportamento de Juri fosse saudável, como veremos no próximo texto. Tanto ela como Ruki tentaram lidar o melhor que puderam com coisas sob as quais não tinham controlo. E têm apenas dez anos! Nenhuma delas pode ser censurada.

 

De qualquer forma, esta reflexão é uma boa prova do crescimento de Ruki, enquanto personagem. 

 

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Na verdade, a história de Ruki em Tamers recorda-me as histórias de outras personagens femininas marcantes. Há uns anos li este excelente artigo, num blogue que já mencionei antes, desmontando alguns mitos sobre personagens femininas fortes – que muitos acusam de amolecerem a partir do momento em que desejam a ajuda e/ou companhia de outras pessoas, se apaixonam, ou, pura e simplesmente, exprimem emoções que não raiva ou orgulho.

 

Katie, a autora do texto, cita como exemplos Kate Beckett, de Castle, e Emma Swan, de Once Upon a Time, mas eu também incluiria Temperance Brennan, também conhecida por Bones. E agora Ruki.

 

Todas estas mulheres tiveram infâncias difíceis, em graus diferentes e, como resposta, ergueram muros em torno de si, fecharam-se ao amor e à amizade. Não posso falar muito sobre Beckett, pois não acompanhei Castle assim tão perto, mas posso falar sobre Emma após escrever várias vezes sobre Once. 

 

Emma crescera como órfã, fora magoada por praticamente toda a gente com quem teve alguma proximidade: o casal lhe a acolheu em bebé mas mandou-a de volta; uma das poucas amigas que teve em miúda; uma mãe de acolhimento que esteve muito perto de adotá-la; o primeiro homem que a amou mas que a deixou grávida e na cadeia em vez dele. Usava casacos de cabedal como armadura, como símbolo dos muros que erguera. Precisou de muito tempo, praticamente toda a série, para abrir o seu coração por completo – primeiro ao filho, depois aos pais, depois ao homem com quem casaria.

 

 

Da mesma maneira, desde que, ainda adolescente, fora abandonada pelos pais e, mais tarde, pelo irmão, Bones usara a sua extrema racionalidade como escudo, não se permitindo sentir qualquer emoção. Em parte por causa do seu trabalho – ninguém consegue trabalhar com ossos e cadáveres se não tiver pelo menos algum controlo sobre as suas emoções. Mas sobretudo para se proteger contra o sofrimento.

 

Mas, regressando a Once, como diria Mary Margaret, estas atitudes podem bloquear o sofrimento, mas também bloqueiam o amor, a amizade, a felicidade em geral.

 

É de Bones, aliás, que vem uma citação perfeita para estes casos. Vou tentar traduzir o melhor que consigo (com supressões).

 

Brennan: Eu sou… bastante forte.

Booth: Tu sempre foste forte.

Brennan: Sabes qual é a diferença entre força e impermeabilidade, não sabes?

Booth: Não.

Brennan: Uma substância impermeável a danos não precisa de ser forte. Quando nos conhecemos, eu era uma substância impermeável. Agora sou uma substância forte. Pode chegar uma altura em que eu esteja suficientemente forte para arriscar perder o resto da minha impermeabilidade. Talvez nessa altura possamos juntar-nos.

 

Durante muito tempo, Ruki sentiu-se relutante em tirar os seus óculos escuros, em confiar noutras pessoas, fazer amizades. Usava o jogo de cartas de Digimon e, mais tarde, os combates com Renamon como armadura – e possivelmente porque não tinha mais nada a que se agarrar. A jovem era uma substância impermeável, que não se deixava afetar por emoções, por nada.

 

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Os eventos de Tamers, por sua vez, tornaram-na uma substância forte: que sofre danos mas que não é destruída por eles. O seu conhecimento e talento como Digitreinadora deixou de ser um mero escape para se tornar numa arma para proteger aqueles que ama. 

 

No fundo, tal como Takato, ao longo de Tamers, Ruki aprendeu a canalizar a sua paixão por Digimon para propósitos heróicos. É por isso que não concordo quando certos fãs dizem que Ruki perdeu a piada ao tornar-se menos durona – eu diria que nunca deixou de sê-lo, apenas tornou-se durona de uma maneira diferente, melhor. Passou de uma durona que usa a carta certa para derrotar e absorver um Digimon para uma durona que salta de uma ravina para tentar proteger os amigos do D-Reaper. 

 

Por outro lado, cheguei a concordar, durante o meeting do Odaiba Memorial Day, que Sakuyamon foi algo nerfada (continuo a odiar esta palavra…), desempenhando um papel demasiado defensivo em comparação com o início de Tamers… mas, depois de rever alguns episódios, ou partes deles, enquanto trabalho nesta análise, não acho que tenha sido assim tão defensivo quanto isso. 


Admito, no entanto, que, pelas semelhanças nas histórias das duas, pela amizade entre elas, gostava de ter visto Ruki pelo menos tão empenhada como Takato no resgate de Juri. Mas claro, Takato é o gogglehead, é o interesse romântico, tinha de receber mais tempo de antena.

 

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Gostava de assinalar também que, no cúmulo do heroísmo de Takato, o Dukemon ganhou uma nova armadura, mas no cúmulo de Ruki Sakuyamon teve de perder a dela. Para aumentar a arma de Justimon, ainda por cima. Enfim…

 

E o que acontece no fim, depois de Ruki ter aberto o seu coração por completo, a Renamon, à família, aos amigos? Renamon tem de regressar ao Mundo Digital. 

 

Ruki é de longe a personagem mais dolorosa de se ver durante o traumático final de Tamers. Porque é a única vez que a vemos chorar (ao contrário do que acontece com os outros protagonistas, sobretudo Takato), porque sabemos quão difícil foi para ela deixar-se afeiçoar a Renamon e porque, pelo menos na dobragem portuguesa, a atriz que lhe dá voz faz um trabalho excelente. 

 

Quero acreditar que Ruki se tornou suficientemente forte para sobreviver a esse desfecho, que a mãe, a avó e os amigos consolá-la-ão. Mas não deixa de ser cruel.

 

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Em suma, se no início de Tamers Ruki já era digna de admiração – durona, competente enquanto Treinadora, segura de si – no fim ganha qualidades extra – coragem, compaixão, empatia – que ainda a tornam mais fantástica. Mesmo não tendo podido conservar Renamon, Ruki sai de Tamers uma pessoa melhor, mais forte. É por isso que reitero: quando for grande, quero ser como ela.

 

...apesar de já ser mais velha que a mãe dela, durante os eventos de Tamers.

Digimon Tamers #7 – Moumantai!

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Devo avisar desde já que, dos três protagonistas de Tamers, Jianliang (Jian para os amigos) é o qe menos me diz. Não que não goste dele, apenas gosto mais dos outros dois. É dos três aquele que menos evolui, o que não prejudica a história – pelo contrário, desempenha um papel importante nela.

 

Talvez seja só eu, mas vejo algumas semelhanças entre ele e Iori, de 02. As personalidades são semelhantes – calmos, sensatos, maduros, ligados à família. Praticam artes marciais e os seus instrutores acabam por ter um papel algo importante para a história. Os seus pais ( no sentido de progenitores masculinos) têm um passado com os Digimon que os filhos descobrem no decurso da narrativa.

 

Por fim, os dois acabam por ter papéis semelhantes nas temporadas onde aparecem. Iori via o mundo a preto e branco numa história de vilões (exceto um) em tons de cinzento. Jian detesta violência num universo onde, como vimos antes, os Digimon e o Mundo Digital se regem pela lei do mais forte. É um pacifista numa zona de guerra.

 

O lado pacifista de Jian recebe mais destaque na primeira parte do Enredo, mas só muito mais tarde é que descobrimos o porquê. Quando era mais novo, magoara outro miúdo recorrendo ao Kenpo. Não se conhece a gravidade das agressões, mas foi suficiente para que o jovem ganhe aversão à violência.

 

Isso explica as circunstâncias em que se torna Treinador de Terriermon. Algum tempo antes do início da narrativa de Tamers, Terriermon era apenas playable character no videojogo de Digimon, que Jian recebera do pai. A partir de certa altura, o jovem começa a interrogar-se se Terriermon consegue sentir dor durante os combates no jogo.

 

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Não é qualquer criança que faz estas perguntas. Todos nós jogámos videojogos envolvendo pelo menos algum grau de violência, mas nem todos nos pudemos a pensar que as personagens sentem as consequências dessa violência. Sobretudo porque – enfim, tanto quanto sabemos – são apenas isso: personagens, bonecos digitais.

 

Mesmo assumindo que é esse o caso com o Terriermon – e o pai, Jiang-yu, reforça essa ideia – por causa das suas ações em miúdo, Jian não consegue desligar esses sentimentos. E acaba por descobrir que tem razão – é assim que Terriermon se materializa no Mundo Real e Jian se torna o seu Treinador.

 

Apesar de ter sido a aversão de Jian à violência a ganhar-lhe o estatuto de Treinador, isto também constitui fonte de conflito entre ele e Terriermon. Este é um Digimon semelhante aos outros, com instintos agressivos, sempre à procura de um combate. Jian não o deixa lutar, obriga-o a literalmente ser um brinquedo para a irmã, para frustração de Terriermon.

 

De início, a narrativa até parece dar razão a Jian. Logo nos primeiros episódios quando Ruki deseja que Renamon lute e tente absorver os dados de Guilmon, tanto o jovem como Terriermon tentam travar a luta. Quando Terriermon dá por si na mira do ataque de Renamon, digievolui para Gargomon e desata a disparar em todas as direções, rindo como um maníaco. Acaba mesmo por apontar um dos braços-metralhadora  a uma Ruki que, pela primeira vez em Tamers, deixa cair a faceta de durona.

 

Guilmon consegue derrubá-lo e eventualmente Gargomon recupera a razão mas, sim… aquilo podia ter corrido muito mal. Jian tinha bons motivos para manter a trela curta.

 

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E no entanto, logo no episódio seguinte, a trela curta de Terriermon começa a atrapalhar mais do que ajuda. São atacados por um Gorimon, o mesmo que tinham enfrentado no videojogo, por sinal. De início, Jian impede Terriermon de lutar, deixando Takato e Guilmon a lutar sozinhos. O Treinador mais recente, no entanto, ainda não sabe o que está a fazer. Com o Gorimon a fazer o que quer com os dois companheiros Digimon, Jian não tem outra hipótese senão intervir com uma carta. E mesmo assim, não deixa Terriermon absorver os dados e Gorimon, depois de derrotá-lo.

 

Existe outra ocasião em que a incompetência de Takato encosta Jian as cordas, obrigando-o a deixar Terriermon combater. Nesta altura do campeonato, Takato tivera a sua primeira vitória e, de uma maneira muito típica de um miúdo da sua idade, achava-se invencível depois de ter ganho um combate. É então que um Musyamon aparece numa rua movimentada de Shinjuku. Takato mete os pés pelas mãos. Quando uma menina da idade de Shaochung, talvez mais nova, entra no campo de dados, Jian vê-se obrigado a intervir. É apenas a segunda vez que vemos Terriermon a digievoluir para Gargomon, mas desta feita ele não perde o controlo. Pelo contrário, salva o dia.

 

É neste momento que Jian e Terriermon conseguem chegar a um compromisso: lutar quando necessário para proteger os demais. É o primeiro, aliás, a assumir esse papel enquanto Digitreinador. Ao mesmo tempo, à medida que os miúdos se vão habituando uns aos outros, assume o papel de mediador, de ajuizado do grupo, servindo de contraponto não só à combatividade de Ruki como à inocência de Takato.

 

Isto é, até ao momento em que Shaochung se junta à festa no Mundo Digital.

 

Estou a ver que Digimon tem uma cena com onii-chans sobreprotectores – Yamato e Taichi foram apenas os primeiros. Como irmã mais velha, gosto disso.

 

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Infelizmente, a sobreprotecção de Jian não mostra a sua melhor faceta. Shaochung aparece no Mundo Digital no episódio anterior ao da morte do Leomon e torna-se Treinadora de um Deva. Não só Jian é incapaz de consolar a irmã durante o longo combate contra Beelzebumon (Ruki, de todas as pessoas, sai-se melhor nisso), como aproveita todas as oportunidades para pressioná-la para deixar Lopmon – a única coisa boa que acontecera a Shaochung no Mundo Digital. Quando Chatsuramon aparece, Renamon e Dukemon fazem mais para proteger a menina que o seu próprio irmão. Jian nem sequer repara que Terriermon caiu na ravina e só no episódio seguinte é que repara que o seu Digimon ficou com ferimentos.

 

Pode-se argumentar, também, que em circunstâncias normais Jian teria conseguido chamar Takato à razão, impedindo-o de criar o Megidramon.

 

Esta má fase de Jian culmina no episódio que se segue à derrota de Beelzebumon. Nesta altura, o grupo tenta infiltrar-se no território de Zhuqiaomon e Jian está obcecado por enviar a irmã de volta a casa (embora trate Shaochung com uma brusquidão incaracterística quando esta faz birra, recusando-se a ficar para trás, em segurança).

 

O jovem chega a achar que terá de ser ele mesmo, sozinho, a enfrentar Zhuqiaomon e a resgatar Culumon – com Ruki e Takato ao lado dele a pensar: “O Guilmon e a Renamon são o quê? Bonecos de peluche?”. Faz lembrar um pouco a situação que atirou Sora para a caverna escura, na parte final de Adventure, mas melhor elaborada.

 

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Rapidmon estaria sempre em desvantagem perante Zhuqiamon, mas a situação complica-se ainda mais quando os ferimentos da luta com o Chatsuramon começam a manifestar-se. É aí que Jian percebe os erros que tem cometido.

 

Tem de ser o próprio Terriermon a fazer-lhe ver que o jovem não precisa de ser tão duro consigo mesmo, não precisa de tomar responsabilidade por tudo, que existe mais gente no grupo. É nesse momento que desbloqueia o MegaloGargomon. Depois desta, Jian não torna a perder a cabeça desta maneira – o que é de admirar, tendo em conta o que acontece a seguir, em Tamers.

 

Shaochung não é o único membro da família de Jian a contribuir para a história. Conforme referido antes, o seu pai, Jiang-yu, fez parte do Grupo Selvagem, que criou os Digimon.

 

O filho, no entanto, ignora esse facto durante muito tempo. Jiang-yu oferece-lhe o videojogo de Digimon, vê o filho colecionando as cartas. A partir de certa altura, vê dois dos seus filhos brincando com um peluche de Digimon. Mas não lhe ocorre revelar ao filho o seu papel nas origens da franquia. Jiang-yu nem sequer diz a verdade a Jian quando este lhe mostra uma carta azul que lhe veio parar às mãos e o pai deteta o código de Shibumi.

 

Em defesa de Jiang-yu, também o filho não lhe conta que o peluche é, na verdade, um Digimon. Nem que passa muito do seu tempo livre – incluindo de noite – lutando com outros Digimon.

 

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Em ambos os casos, a verdade só vem à tona quando Jian-yu dá com o filho, Takato e os respetivos Digimon sendo importunados por Impmon, no parque. Este último chega a atirar uma bola de fogo a Jiang-yu, só mesmo para este ter a certeza de que não está a alucinar.

 

Pouco depois de Jianliang descobrir a verdade sobre o Grupo Selvagem, Yamaki recruta Jiang-yu e outros membros do grupo como colaboradores do Hypnos. Jiang-yu parece assumir, de início, que o objetivo é retomar o projeto dos Digimon – só alguns episódios mais tarde é que se descobre que Yamaki pretende usar os conhecimentos deles para ativar o Shaggai uma segunda vez, para expulsar todos os Digimon do Mundo Real.

 

Jiang-yu protesta, pois o programa expulsará também os Digimon do filho e dos amigos dele – ainda que Yamaki lhe aponte, não sem razão, que Jiang-yu começara tudo aquilo vinte anos antes e o envolvimento de Jiangliang e das outras crianças com os Digimon colocava as suas vidas em perigo.

 

A atitude de Jiang-yu no que diz respeito ao Shaggai mudará mais à frente na história. Para já, como referido antes, uma vez mais, a ativação do Shaggai causa mais problemas do que aqueles que resolve. Ainda assim, Jiang-yu acha por bem fazer o seu mea culpa perante o filho e os amigos. Só torna a colaborar com Yamaki vários episódios mais tarde – depois de este bater no fundo e reerguer-se.

 

Durante o resto dos eventos de Tamers, aliás, Jiang-yu e o resto do Grupo Selvagem trabalham em conjunto com o Hypnos, dando apoio aos Treinadores – tanto quando estes se encontram no Mundo Digital como durante a luta contra o D-Reaper, em Shinjuku.

 

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É durante a luta contra o D-Reaper, aliás, que ocorre um momento-chave na caracterização tanto de Jian como do seu pai. Depois de vários planos falhados, Hypnos e o Grupo Selvagem levam a cabo a Operação Joaninha. Se percebi corretamente (se estiver errada, avisem-me!), Jiang-yu instala uma versão do Shaggai em Terriermon. Este será ativado quando o MegaloGargomon se enfiar no vórtex, criado pelo D-Reaper, que une o Mundo Real ao Digital. Depois de ativado, o MegaloGargomon começará a girar a grande velocidade no sentido oposto ao do vórtex (um minuto de silêncio pelo estômago de Jian), revertendo o D-Reaper ao seu estado inicial, mais básico que uma calculadora, inofensivo.

 

O que Jiang-yu não revela ao filho é que a Operação Joaninha implicará o regresso dos companheiros Digimon ao Mundo Digital. A verdade só vem à tona poucos minutos após a neutralização do D-Reaper, numa altura em que os Digimon já começaram a… bem, desdigievoluir.

 

Esta é uma cena de fazer chorar as pedras da calçada, como veremos mais tarde, mas acho que qualquer um faria o mesmo no lugar de Jiang-yu. A ameaça do D-Reaper ganhara escala mundial, toda a Humanidade estava em risco de ser aniquilada. Por comparação, a expulsão dos companheiros Digimon é um preço razoável a pagar. E se, aquando da situação com o Vikaralamon, Jiang-yu não estava disposto a arriscar a perda dos Digimon das crianças, agora já não se pode dar a esse luxo.

 

Mesmo do ponto de vista da narrativa, nesta fase do campeonato uma solução fácil não seria credível. Aliás, em Tamers não há soluções fáceis, ponto.

 

Ainda assim, quando diz a verdade ao filho, Jiang-yu considera-se indigno de perdão. Um dos momentos mais bonitos em toda a série é a imagem de Jianliang lavado em lágrimas, mas sorrindo ao pai e abanando a cabeça – mostrando a Jiang-yu que o perdoa.

 

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Fico contente por ser essa a última imagem que vemos de Jian.

 

Qual é, então, a lição que Jianliang aprende ao longo de Tamers? Eu diria que é de flexibilidade. Aprende a ser mais flexível consigo mesmo, com as suas crenças, com os demais. Muda ainda menos que Takato em relação ao início da história, mas também não precisa

 

Agora que penso nisso, a lição que Jian aprende é o lema de Terriermon: Moumantai! Tem calma, não há problema, não faz mal. Não sendo a minha personagem preferida, nem aquela em que mais me revejo, essa é uma lição valiosa para qualquer um de nós.

Digimon Tamers #6 – Um líder igual a nós

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Para mim, os elencos em Digimon sempre foram ponto de destaque. Como referi antes, as oito Crianças Escolhidas de Adventure são provavelmente o meu elenco ficcional preferido de todos os tempos. Em 02, não gosto assim tanto das Crianças Escolhidas mas, como referi antes, os vilões são interessantes.

 

Um problema comum, no entanto, é o facto de o desenvolvimento das personagens não ser igual para todos. Regra geral, os dois protagonistas masculinos recebem mais tempo de antena que qualquer um – e conseguem desbloquear um nível superior de digievolução.

 

É compreensível – não é fácil ligar com elencos de seis ou oito miúdos mais companheiros Digimon, mais vilões, mais personagens secundárias, como outros Digimon e familiares dos miúdos.

 

Não digo que Tamers não cometa esse pecado, mas lida melhor com ele. Em vez de tentar vender um grupo de seis ou oito como protagonistas, Tamers assume preto no branco que apenas três miúdos o são – embora Juri acabe por ganhar o estatuto de protagonista, na segunda metade da temporada.

 

Foi uma decisão acertada, a meu ver: os três protagonistas recebem o desenvolvimento devido. Os outros vão aparecendo na história de maneira mais ou menos consistente mas, como fica claro desde o início que estão na categoria abaixo, os guionistas podem dar-se ao luxo de não perder muito tempo com eles.

 

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Outra diferença em relação ao universo de Adventure é o facto de o elenco de Treinadores não formar de imediato uma equipa – nem mesmo o trio principal. Isso deve-se em parte a Ruki, cuja atitude inicial choca com as de Jian e Takato. Além disso, suponho que o facto de só haver visita ao Mundo Digital a meio da história também contribua para esse efeito – não existe o instinto de agrupar com outros humanos, contra um mundo desconhecido.

 

Mesmo assim, não é invulgar vermos cada um dos três protagonistas atuando a solo, apenas com os seus companheiros Digimon. Todos eles possuem um certo grau de introversão, algo em que me revejo.

 

Por outro lado – talvez mesmo em sentido completamente oposto – vemos também os protagonistas, sobretudo Takato, apoiados por outros miúdos, vários dos quais nem sequer são Treinadores. Falo em particular dos colegas de turma de Takato: que brincam com o Guilmon, levam-no à socapa para o acampamento da escola, que fazem chegar uma Carta Azul às mãos de Jian.

 

Isto também é algo que não se viu em Adventure. Os Escolhidos guardavam sigilo rigoroso sobre os Digimon e as suas aventuras. Não que os seus equivalentes, em Tamers, não o façam, mas são mais flexíveis – em parte, penso eu, porque a população infantil sabe o que são Digimon. Em todo o caso, é agradável ver esta rede de apoio, de cumplicidade, em torno dos Treinadores, guardando segredo dos adultos, ajudando os protagonistas da maneira que podem.

 

Os outros Treinadores, tirando Shaochung e Ryo, vêm deste grupo, aliás. E mesmo que estes, à exceção de Juri, não sejam tão desenvolvidos como os três protagonistas, mesmo que, a partir de certa altura, pareça que os digiguionistas estava a adicionar novos Treinadores só pelo gozo, nenhum deles me parece supérfluo – nem mesmo Ryo. Conforme veremos mais à frente nesta análise, de uma maneira ou de outra, todos contribuem para a história.

 

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A verdade é que Tamers tem um elenco surpreendentemente rico e caracterizado. Há personagens mais desenvolvidas do que outras, sim, mas praticamente tudo o que se mexe tem pelo menos alguma personalidade (penso que seja uma manifestação de um dos conceitos da temporada, inteligência artificial). A professora de Takato: as funcionárias do Hypnos; a arca que traz os miúdos do Mundo Digimon para o Mundo Real; Alice, a miúda que funciona como Deus Ex-Machina para permitir formas Extremas no Mundo Real, que poderá ou não ser um fantasma.

 

Não vou falar de todas estas personagens, apenas daquelas que considero mais relevantes e/ou sobre as quais tenha algo a dizer. Existirão personagens sobre as quais não me alongarei muito ou de que não falarei de todo, precisamente porque não acho que tenha alguma coisa a dizer que outros não tenha dito melhor.

 

Comecemos, então, por falar de Takato, o gogglehead da temporada, que pouco tem em comum com os goggleheads anteriores. Enquanto Taichi e Daisuke se encaixam mais no estereótipo do herói-alfa – extrovertidos, impulsivos, confiantes, partindo para ação sem pensar muito nas consequências, levando os companheiros por arrasto – Takato é mais para o gentil e sensível. Por outras palavras, se Taichi e Daisuke são claros Gryffindor, Takato é um Hufflepuff (com traços de Gryffindor).

 

Consta que Takato foi criado para representar o típico fã de Digimon: é um miúdo de dez anos como qualquer outro, sem qualquer talento especial ou qualidade que os distinga dos demais para além do seu amor pela franquia. Que se envolve na história porque a sua fanart, o Digimon que ele mesmo inventa, ganha vida.

 

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Takato é frequentemente visto rodeado de amigos, mas não é particularmente carismático. Possui, aliás, alguns traços de introvertido (algo que os três protagonistas têm em comum). Não tem a personalidade dominadora típica, não só dos antigos goggleheads, mas também da maior parte dos protagonistas de histórias infantis.

 

Neste contexto, personagens como Takato correm o risco de serem interpretados como tímidos e sossegados para não dizer bananas. Os próprios produtores de Tamers reagiram assim, quando Konaka lhes apresentou a ideia. Estou certa, também, que pelo menos uma parte da audiência, sobretudo enquanto crianças, pode não ter achado grande piada a Takato – até porque ele chora um bocadinho demais do que demasiados consideram aceitável para um rapaz.

 

Mas a verdade é que é realista, mais realista que Taichi e Daisuke. O primeiro, então, só se tornou mais contido e ponderado em Tri. Por muito que custe nos custe a engolir, sobretudo enquanto miúdos, muitos de nós somos parecidos com Takato. Eu pelo menos sei que sou – mais sobre isso já a seguir.

 

Conforme referi acima, a história de Takato, e de Tamers em geral, começa quando nasce Guilmon, um Digimon desenhado pelo próprio jovem – sem pensar na parte prática de ter um Digimon, diga-se. Nos primeiros episódios de Tamers, Guilmon age como o recém-nascido que é. Ou melhor, como um cão que fala. Possui um pensamento inocente e infantil, só quer estar e brincar com o seu Treinador, e não compreende porque é que tal nem sempre é possível. Chega mesmo a virar a cabeça como a minha Jane. 

 

Por outro lado, apesar da sua natureza gentil e inocente, apesar de estar a ser criado por um humano, sem nenhum contacto com o Mundo Digital, tem os mesmos instintos agressivos dos Digimon deste universo. Na presença de outros membros da sua espécie, tem uma reação equivalente a pêlo eriçado e, quando entra em modo de agressão, é muito difícil de ser travado.

 

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Ora, Takato, ainda uma criança, não muito mais maduro que o próprio Guilmon, fica encarregue deste monstrinho que ele mesmo criou. Durante a primeira parte da narrativa, vêmo-lo tentando aprender a lidar com a sua nova responsabilidade com vários percalços pelo meio.

 

É nestes momentos que mais me revejo em Takato. Algo que tenho vindo a descobrir sobre mim mesma é que eu tenho algumas dificuldades em adaptar-me a experiências novas: quando aprendi a conduzir, quando comecei a trabalhar, quando arranjei uma cadela. Cometo erros enquanto estou a aprender. Não consigo deixar de ver uma parte de mim nas cenas em que Takato tenta colar os pedaços da sua vida enquanto Treinador com tiras de fita-cola, com muitas lágrimas à mistura.

 

Takato receia, ainda, vir a ficar sem Guilmon tão facilmente como o encontrou… e infelizmente os seus receios acabarão por se concretizar, como veremos adiante. Por sinal, são esses mesmos receios que catalisam a primeira ocasião em que Takato, Jian e Ruki trabalham como equipa – para resgatar Guilmon, que ficou preso uma estranha dimensão que não chega a ser explicada devidamente.

 

Depois de aprender os princípios básicos da vida de Treinador, Takato encontra-se num meio termo entre o pacifismo de Jian e a ambição de Ruki. Consegue por um lado desfrutar das lutas com Digimon – chega a passar por uma fase muito típica de excesso de confiança. No entanto, sente por vezes receio da natureza selvagem de Guilmon. Por vezes sente relutância em deixá-lo digievoluir, com receio daquilo em que Guilmon se pode transformar.

 

A jornada de Takato enquanto Treinador passa, precisamente, pela aceitação de Guilmon tal como ele é, como um igual, como um companheiro de batalha. É o que acontece, por exemplo, na estreia de MegaloGrowlmon.

 

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Nesta parte da história surge Mihiramon, o primeiro Deva, o primeiro adversário de nível Perfeito, com um objetivo específico (que no entanto só conhecemos muito depois). Renamon e Terriermon tentam a sua sorte primeiro, mas não conseguem fazer-lhe um arranhão e quase morrem no processo. Takato envia Guilmon para a batalha com visível relutância – não só receia que o seu Digimon não esteja à altura do desafio, como também que este perca a sua... bem, humanidade... ao digievoluir para um nível superior.

 

Ora, tal como os outros dois, Growmon leva uma sova e fica a isto de se desfazer em partículas digitais. Nisto, Takato entra numa espécie de transe telepático com o seu Digimon. É aqui que percebe que, para sobreviverem àquela luta, para que o jovem seja digno do título de Treinador, tem de dominar os seus medos. Tem de crescer – não, não, de digievoluir em conjunto com Guilmon.

 

Esta parte funciona bem ao indiciar a maneira como o nível Extremo de Guilmon será desbloqueado... mas estou a adiantar-me um pouco.

 

Existe um momento nessa jornada em que Takato dá um grande passo atrás – já na parte que decorre no Mundo Digital. O jovem descobre as origens de Guilmon e dos Digimon em geral da boca do estranho fantasma de Shibumi. O facto de Guilmon ter sido criado pelos Digignomos, a partir de bolsas de dados aleatórios, deita-o um pouco abaixo. Como se acreditasse que tal origem torna Guilmon menos real, não verdadeiramente um ser vivo. Dá para ver o impacto que isso tem na relação entre os dois quando estes se reencontram.

 

É possível que isso tenha influenciado o que acontece a seguir, pelo menos em parte.

 

Chegou a altura de falarmos da morte do Leomon. Em versão condensada, Impmon, um Digimon que os Treinadores consideravam um aliado, senão um amigo, faz um pacto com o diabo, quase literalmente, para desbloquear a sua digievolução para Beelzebumon em troca da morte dos miúdos. No combate em que tenta cumprir a sua parte do acordo, assassina Leomon.

 

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Antes de prosseguirmos, tenho de fazer um aparte. Estou surpreendida por ainda não o ter visto referido em lado nenhum, mas o filme Kyousei de Tri parece ter plagiado esta parte. Tanto em Tamers como em Kyousei há uma cena de morte às mãos de um suposto aliado (embora em Kyousei só Daigo tenha morrido e mesmo assim não de imediato). Em reação, um dos miúdos perde o controlo das suas emoções, fazendo com que o seu Digimon sofra uma digievolução negra. A mera existência da criatura resultante é suficiente para ameaçar a estabilidade do Mundo Digital.

 

Será coincidência?

 

No caso de Tamers, quem morre é Leomon – não o Digimon de Takato, mas o Digimon do seu interesse amoroso, um Digimon bom e honrado, a quem os miúdos se tinham afeiçoado. E às mãos de um Digimon que consideravam um aliado, senão um amigo, com quem tinham chegado a brincar!

 

Acho que qualquer um teria perdido a cabeça nestas circunstâncias. Takato ainda vai mais longe, ao perder por completo qualquer vestígio de compaixão ou racionalidade e ao ordenar a Guilmon que digievolua para uma forma suficientemente forte para enfrentar Beelzebumon. São apenas alguns minutos de loucura, mas chegam para criar o Megidramon e para o D-arco de Takato se estilhaçar.

 

Não admira. Conforme vimos antes, uma das funções de um Treinador é manter os instintos violentos do seu Digimon sob controlo. Takato acaba de fazer o completo oposto.

 

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A sorte do miúdo é que, apesar do potencial destrutivo de Megidramon, Beelzebumon, para seu crédito, consegue fazer-lhe frente. Takato, aliás, demora muito pouco tempo a fazer o seu mea culpa. Até porque Juri, a pessoa por quem ele supostamente fizera isto, teme-o e ressente-se dele por ter obrigado Guilmon – um Digimon de quem ela também gostava – a transformar-se naquela monstruosidade.

 

A chave para a evolução de Takato – e consequente digievolução de Guilmon – passa, mais uma vez, pelo reconhecimento de que Guilmon é o seu parceiro, o seu igual. Não um monte de dados, não um mero veículo para a sua raiva, para os seus desejos de vingança. Takato vai ainda mais longe, ao desejar lutar ele mesmo ao lado de Guilmon, como se fossem um só.

 

E é o que acontece. Literalmente.

 

Está na altura de falarmos sobre as formas Extremas dos Digimon protagonistas, em Tamers. Pois… era absolutamente necessário que as crianças estivessem nuas?

 

É certo que estas surgem, como se costuma dizer, com a anatomia de uma Barbie e não num contexto erótico. Por um lado, se é para haver nudez (e já fui mais comichosa nestas coisas), seja em que contexto for, que seja com adultos com capacidade de consentir. Por outro lado, também não acho que estas imagens sejam inadequadas para crianças – as transformações das Navegantes da Lua eram um bocadinho piores nesse aspeto. É um daqueles casos em que, se calhar, um miúdo não vê nenhum mal, mas um adulto não consegue evitar pensar nas implicações.

 

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Além disso, sejamos sinceros, se Tamers traumatizou criancinhas, não foi de certeza com a nudez dos protagonistas.

 

Enfim, fechemos este parêntesis.

 

A forma Extrema de Guilmon, Dukemon, é um cavaleiro, um literal “Knight in Shinning Armor”. Faz sentido – é essencialmente para isso que Takato evolui: um típico herói, que luta não pode glória pessoa ou soberba e sim por causas nobres. Por aquilo em que acredita estar certo, por aqueles que ama.

 

Takato, aliás, passa o último terço de Tamers tentando resgatar uma donzela em apuros. E pelo meio arranja um corcel: Grani.

 

Durante algum tempo, senti-me relutante em classificar Takato como líder dos Treinadores – porque, lá está, não possui uma personalidade dominadora, como Taichi e Daisuke, e, regra geral, não existem muitas divergências de opinião no grupo. A sua liderança é diferente.

 

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Para começar, tirando Shaochung, a irmã de Jianliang, e Ryo, Takato é o elo comum entre todos os Treinadores. Jian dá uma ajuda a Takato quando descobre que este também tem um Digimon; como referimos acima, o jovem pede ajuda a Ruki para resgatar Guilmon. Por sua vez, Hirokazu e Kenta já eram amigos de Takato, antes, quiseram tornar-se Treinadores certamente por influência dele.

 

Para além disso, conforme observado aqui, Takato acaba por ser a força motriz do grupo, tomando as principais decisões, lá está, não porque prefere agir primeiro e pensar depois, e sim porque sabe o que é preciso ser feito – convencendo os amigos a fazê-lo também. Foi dele que, por exemplo, partiu a ideia de ir até ao Mundo Digital atrás dos raptores de Culumon.

 

Por fim, na quinta parte da história, os três protagonistas decidem, cada um por si mesmos, enfrentar o D-Reaper mas, assim que se descobre o papel de Juri naquela confusão, Takato, como seu interesse amoroso, está mais motivado que qualquer um para resgatá-la – levando-o a assumir, naturalmmente, uma posição de liderança.

 

Em suma, na minha opinião, a evolução de Takato enquanto personagem baseia-se em dois aspetos: na sua relação com Guilmon e no despertar do seu lado heróico. Não muda radicalmente no decurso da história, mantém a sua faceta amável e sensível – o que é admirável tendo em conta aquilo por que passa para derrotar o D-Reaper. Apenas se transforma numa versão mais madura e heróica de si mesmo.

 

E tendo em conta que, no início, ele era igual a nós, um mero fã de Digimon, com inseguranças, que comete erros, gosto de pensar que, em circunstâncias parecidas, também seríamos capazes de nos transformarmos em heróis.

Digimon Tamers #5 – Dentro e fora da fórmula

Nas minhas análises, esta é a parte em que olhamos para o enredo da temporada. Dividimo-lo em partes e deixamos algumas impressões sobre as mesmas.

 

Antes de partirmos para isso, no entanto, queria ir um pouco ao pormenor antes de olharmos para o quadro geral.

 

Os episódios de Tamers possuem uma estrutura diferente que, confesso, demorei algum tempo a entranhar. Em Adventure e 02 era tudo muito mais simples: com as devidas exceções, os episódios possuíam um determinado problema como premissa inicial e esta, na maior parte dos casos, era resolvida no mesmo episódio. Em praticamente todos os episódios, os protagonistas deparavam-se com um Digimon adversário e pelo menos um dos companheiros dos miúdos digievoluía para derrotá-lo.

 

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Tamers tem alguns episódios assim, mas muitos deles fogem a essa fórmula. No primeiro episódio, por exemplo, só no minuto final é que o chamado gogglehead da temporada – Takato – conhece o seu companheiro, Guilmon. Vários capítulos terminam em cliffhangers, há linhas narrativas que se prolongam por mais do que um episódio. O combate com Beelzebumon, então, dura três episódios.

 

Estranha-se, sim, mas acaba por funcionar bem. Torna a história menos previsível e formulaica.

 

Se olharmos bem para a trama de Tamers em geral, esta acaba por ser o oposto da de Adventure. A primeira temporada de Digimon passa-se quase toda no Mundo Digital, com uma parte no Mundo Real. Tamers decorre quase todo no Mundo Real, com uma parte do Mundo Digital. Em ambos os casos, a mudança de cenário deve-se a um MacGuffin que funciona como encarnação da luz – Hikari no caso de Adventure, Culumon neste caso.

 

Eu digo que é um MacGuffin, mas não se pode dizer que a audiência não se rale com o Culumon. Bem pelo contrário – o pequenote é uma coisinha extremamente adorável, é preciso ter um coração de pedra para não se importar que ele esteja em perigo.

 

Assim, o enredo de Tamers pode, na minha opinião, ser dividido em cinco partes.

 

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A primeira parte, que vai do primeiro episódio ao décimo-quarto, funciona como introdução. Vendo Tamers pela primeira vez, parecerá demasiado lenta – tal como Tri pareceu, na verdade – mas, vendo segunda vez, é mais fácil reparar nas sementes que vão sendo plantadas, na evolução lenta mas segura das personagens e da história. Esta parte serve para sermos apresentados às personagens, ao conceito de Treinadores, para preparar os três protagonistas para o papel que terão de desempenhar mais à frente, na história.

 

Conforme vimos antes, os Treinadores começaram sem propósito específico. Nem sequer se assumem logo como equipa, nem sequer se assumem logo como amigos. Nesta parte, vemos Takato aprendendo o “bê-á-bá” de ser Treinador; Jiangliang aprendendo que, por muito que não goste, às vezes lutar é necessário; Ruki descobrindo as consequências de lutar por motivos egoístas. Vemos os três protagonistas habituando-se uns aos outros e também à digievolução. Mesmo os secundários, futuros Treinadores – Hirokazu, Kenta e Juri – são apresentados aos Digimon no final desta parte.

 

Nesta altura do campeonato, os Digimon que se realizam no Mundo Real são meros “selvagens”, pouco mais que espécies infestantes. Tirando um caso ou outro, servem mais para aprendizagem dos Treinadores do que para outra coisa qualquer.

 

É também nesta parte que nos é apresentada a organização Hypnos, pouco a pouco. Durante vários episódios só vemos breves cenas de Yamaki brincando com o seu isqueiro e de Reika e Megumi anunciando o aparecimento de Digimon no Mundo Real (sou capaz de apostar que eles reutilizam a mesma cena uma meia dúzia de vezes).

 

Este arco termina com o Hypnos assumindo-se como uma força que quer erradicar os Digimon do Mundo Real – ou seja, funcionando como antagonistas dos Treinadores. Para esse fim, ativam o programa Shaggai… que acaba por causar mais problemas do que aqueles que resolve, ao permitir a aparição do primeiro Deva.

 

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Conforme comentaremos mais à frente, isto é mesmo a cena do Hypnos, pelo menos na primeira metade de Tamers: causar mais problemas do que aqueles que resolvem. Este é apenas um dos primeiros exemplos.

 

Por outro lado, a luta com o primeiro Deva, Mihiramon, durante este episódio de transição, sempre desbloqueia o MegaloGrowlmon, a forma perfeita de Guilmon.

 

Não estava habituada a termos formas Perfeitas tão cedo na temporada. Por esta altura, em Adventure, só agora é que Takeru tinha desbloqueado o Angemon, de forma traumática, diga-se. Em 02, estávamos a começar a segunda ronda de armodigievoluções. Nalgumas coisas o início de Tamers é lendo, mas neste aspeto é surpreendentemente rápido.

 

A segunda parte – que vai do episódio 15 ao 23, inclusive – caracteriza-se pela invasão dos Deva. Se na primeira parte, a digievolução para nível Adulto só ocorre em circunstâncias especiais, na segunda parte esta está normalizada (sendo ativada por carta). Desta feita, é a digievolução para nível Perfeito que ocorre em circunstâncias especiais.

 

Pelo meio, Leomon aparece no Mundo Real. Juri persegue-o durante um episódio, mas só no fim da segunda parte é que a parceria é oficializada.

 

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Nesta fase, é revelada a história de origem dos Digimon, o Grupo Selvagem e o papel que Jiang-yu, pai de Jianliang, desempenhou no processo. Esse mesmo grupo começa a colaborar com o Hypnos, embora com intenções meramente académicas da parte dos cientistas – as de Yamaki não são bem assim.

 

No fim da segunda parte, Vikaralmon – o Deva-porco, uma criatura gigantesca – invade Shinjuku, destruindo uma parte da cidade. Numa tentativa de travá-lo, Yamaki tenta ativar o Shaggai. Torna a correr bem: não só Vikaralmon não é travado como a sede do Hypnos colapsa.

 

É também nesta altura que o Deva-macaco, Makuramon, deita as mãos a Culumon e leva-o para o Mundo Digital. A segunda parte termina com os Treinadores decidindo ir atrás deles, para o Mundo Digimon.

 

A terceira parte, do episódio 24 ao 34, decorre toda no Mundo Digital. Os Treinadores exploram este mundo diferente enquanto procuram Culumon. O grupo divide-se, encontra Culumon, reúne-se, perde novamente Culumon, divide-se outra vez. Há uma altura em que Ruki decide venturar-se a sós com Renamon, outra em que Shaochung, a irmãzinha de Jianliang, é trazida ao Mundo Digital pelos Digignomos. Pelo meio, é-nos apresentado Ryo que, no entanto, acaba por se afastar sozinho, antes do fim deste arco. Por fim, Impmon faz um pacto quase literal com o diabo, que lhe permite digievoluir para Beelzebumon.

 

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É inevitável colocar uma quebra no episódio em que o Leomon morre. É um claríssimo ponto de viragem na narrativa. Até este momento, Tamers tivera um tom razoavelmente descontraído. Não exatamente ao nível de um vulgar produto dirigido ao público infantil, mas normal para Digimon.

 

Depois da morte de Leomon, no entanto… bem, a coisa fica preta. E de que maneira!

 

A partir daqui é mais difícil dividir a narrativa, mas eu acho que faz sentido colocar uma divisória no episódio 41. A quarta parte de Tamers decorre ainda no Mundo Digital. Concluí-se o combate com Beelzebumon – onde ocorre uma digievolução negra para nível Extremo, uma digievolução correta para nível Extremo e, no fim, deixam Beelzebumon sair vivo, a pedido de Juri.

 

Depois desta, também Jian e Ruki desbloqueiam as formas Extremas dos seus Digimon, enfrentam as Bestas Sagradas, descobrem que o inimigo não são as Bestas Sagradas e sim o D-Reaper. Encontram o Culumon e este usa os seus poderes para catalisar inúmeras digievoluções para nível Extremo, para poderem enfrentar o D-Reaper. Os miúdos são autorizados a regressar a casa.

 

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No universo de Adventure, a reta final das temporadas é sempre mais sombria – no caso de Tri, tanto no sentido figurativo como no literal. Tamers segue pelo mesmo caminho, mas o tom sombrio nem se compara – sobretudo quando se descobre que o D-Reaper está a usar o corpo e a mente de Juri. São precisas várias tentativas para resolver o imbróglio – existem ocasiões em que tanto os Treinadores como o Hypnos e as forças militares não têm outra hipótese senão bater em retirada. Mesmo que isso implique deixar uma menina de dez anos presa naquela monstruosidade.

 

Se Tamers possui um final feliz é questionável. A situação do D-Reaper resolve-se, sim, mas o preço a pagar é elevado. A cena em que esse preço é cobrado é traumática… mas isso é conversa para mais adiante nesta análise.

 

Para já, na próxima publicação, vamos passar àquela que tem sido sempre a minha parte preferida em Tamers: as personagens. Fiquem por aí!

Digimon Tamers #4 – Os que Escolhem

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Até agora nesta análise a Tamers, olhámos para o Mundo Real e o Mundo Digital onde decorre a ação, bem como para as características dos Digimon enquanto espécie, neste universo. Neste texto, vamos falar do papel dos humanos. Queria refletir em particular sobre o porquê. Porque surgiram os Treinadores, qual é o seu objetivo. 

 

Comecemos pela semântica da coisa. Consta que, em termos do “meta” de Digimon enquanto franquia, o termo Tamer é um hiperónimo para qualquer ser humano que possua um companheiro Digimon. Pode ser alguém Escolhido por uma entidade divina qualquer para salvar o mundo. Ou pode ser apenas alguém que emparceirou com um Digimon para explorar o Mundo Digimon e treiná-lo para combate. Pode até nem sequer possuir um dispositivo digital.

 

Ora, a tradução literal de “tamer” é “domador”. No entanto, pelo menos nesta temporada, a dobragem portuguesa usa o termo Digitreinador ou, pura e simplesmente, Treinador. Não sei como é com vocês, mas a mim recorda-me demasiado a franquia concorrente.

 

Talvez não tenham usado o termo “domador” por possuir uma certa conotação negativa. No entanto, pelo menos no universo de Tamers, “domador” faz mais sentido do que “treinador”.

 

Tal como comentado amplamente no texto anterior, os Digimon neste universo possuem uma faceta fortemente selvagem e violenta. No entanto, é referido várias vezes ao longo da série que emparceirar com uma criança humana representa uma maneira alternativa de digievoluir, sem ser necessário absorver outros Digimon.

 

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Uma parte do trabalho dos miúdos é precisamente controlarem os instintos violentos dos seus Digimon. Takato e Jianliang debatem-se com isso em momentos diferentes, mas o caso mais óbvio é Ryo e Cyberdramon. Se Ryo não o mantiver com trela curta, Cyberdramon andará para sempre à procura de adversários fortes com quem combater. Ryo chega a usar uma espécie de chicote laser para imobilizar o seu Digimon.

 

Isso a mim assemelha-se à definição de “domar” na Infopédia. Pelo menos até certo ponto. O objetivo não é exatamente domesticar os Digimon (pelo menos não devia ser), antes canalizar os seus instintos violentos para fins mais produtivos.

 

Por isso sim, nesse aspeto faria mais sentido chamar-lhes domadores, na minha opinião. Até por uma questão de coerência com as versões japonesa e americana. No entanto, para esta análise, vou usar o termo “oficial” português, Digitreinador – ou Treinador, por uma questão de simplicidade.

 

Um ponto a favor de Tamers em relação a Adventure é o facto de não existirem Crianças Escolhidas, pelo menos não diretamente. Foram os miúdos que escolheram ser Treinadores, de uma maneira ou de outra. De igual modo, os Digimon com que emparceiram não foram desenhados como uma extensão da personalidade dos miúdos. Digimon e Treinador escolhem-se um ao outro. Juri vai literalmente atrás do seu futuro companheiro Digimon, Hirokazu e Kenta vão ao próprio Mundo Digital à procura de parceiros.

 

Parte dos conflitos em Tamers, aliás, derivam de incompatibilidades entre Digimon e parceiro humano – sendo que o principal conflito da história foi despoletado, indiretamente, por uma relação entre Digimon e seus Treinadores que correu mal.

 

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A contrapartida é que não se percebe ao certo qual é o propósito de existirem Treinadores. Não lhes é exigido nada, ninguém espera que salvem o Mundo, nem o Real nem o Digital. O Hypnos de início procura boicotá-los ativamente, considera (não sem razão) que crianças não têm nada que lidar com Digimon. Mesmo quando começam a colaborar com os miúdos, fazem-no com alguma relutância – e com os pais deles a respirar-lhes sobre os pescoços.

 

Da mesma forma, os Treinadores apenas visitam o Mundo Digital para resgatar um amigo, o Culumon. Depois de o salvarem, os miúdos querem logo regressar a casa e as Bestas Sagradas não os impedem – isto apesar de, nesta altura, o D-Reaper já se ter declarado como o inimigo. Mesmo considerando histórias menores, como os Tsuchidarumon na Vila Esquecida ou os Gekomon escravizados por Orochimon, ninguém lhes pede, preto no branco, que façam alguma coisa. No primeiro caso, é Takato quem deseja tentar destruir a mota assombrada (contra a vontade de Jianliang, note-se). No segundo, Orochimon rapta Juri e os demais são obrigados, naturalmente, a intervir.

 

Isto não é uma coisa má. Pelo contrário, confere maior agência aos Treinadores. Eles envolvem-se na história não porque o destino o exigiu ou porque alguém lhes pediu ajuda, mas porque desejam proteger a sua cidade, aqueles que amam, aqueles que não se conseguem defender por si mesmos. Porque só eles têm possibilidades para isso.

 

A minha questão é, se os Treinadores não possuem nenhum propósito senão aqueles que definem para sim, porque é que começaram a surgir, aparentemente do nada, crianças “adotando” Digimon?

 

Durante a segunda vez que vi Tamers, desta feita já tomando notas para escrever esta análise, perguntei-me se o objetivo de existirem Treinadores seria para tentar tornar os Digimon em geral menos violentos. Como referimos antes, a natureza violenta dos Digimon afeta quase todas as relações entre Digimon e Treinador. Mas mesmo fora disso, no episódio em que Ruki, Hirokazu e Kenta pernoitam na casa do Gigimon e da Babamon, nota-se a influência da presença dos humanos. Quando estão sozinhos, os dois Digimon vivem num tédio constante e o único entretenimento que lhes ocorre é andarem à bulha. No entanto, na azáfama de servirem de anfitriões aos miúdos, deixam as brigas de parte e acabam por passar um bom bocado.

 

 

O episódio em si é fraquinho, é um filler e um bocadinho parvo, no bom sentido, quanto mais não seja pela icónica Canção da Pesca (naquelas circunstâncias, o António era menino para cantar o Africa). Mas sempre planta uma ideia interessante: se passarem tempo suficiente com humanos, mesmo que estes não sejam os seus Treinadores, será que os Digimon começam a deixar de lado as suas tendências violentas?

 

Eu pelo menos fiquei com a impressão, em vários momentos de Tamers, que o conflito principal da história seria humanos versus Digimon. Ou pelo menos Digimon-com-humanos versus Digimon-sem-humanos. Só que o D-Reaper meteu-se no meio.

 

É possível que, se não fossem as consequências da Operação Joaninha, para derrotar o D-Reaper, a história tivesse ido nessa direção: numa tentativa de “civilizar” os Digimon enquanto espécie. O que poderia proporcionar uns conflitos interessantes.

 

Conforme vimos no texto anterior, os Digimon não consideram que haja nada de errado com o seu estilo de vida. A parte, aliás, de Chatsuramon considerar insultuoso os Treinadores não absorverem os dados dos seus adversários – quando, antes, o facto de os miúdos terem deixado de absorver dados tenha sido pintado como uma evolução positiva – poderia ter sido melhor explorada. Tamers poderia ter examinado a moralidade das acções dos miúdos, ao tentarem impor os seus valores aos Digimon – quando, ainda por cima, foram os próprios humanos a codificar a lei do mais forte nos dados dos Digimon.

 

Havemos de regressar a este tema quando falarmos dos vilões de Tamers. Regressemos à questão do porquê de existirem Treinadores.

 

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A única resposta que me ocorre é pura e simplesmente porque as crianças o desejaram e os Digignomons concederam-no. Canonicamente, estes só terão influenciado a sagração de Takato e Kenta. No entanto, é possível que também tenham tido um dedinho com as dos outros. E de facto não acho que seja necessária outra explicação.

 

Se formos a ver, aliás, são os humanos quem fizeram quase tudo no universo de Tamers. Foram os humanos a criar os Digimon tal como são. Foram crianças humanas a desejar ganhar companheiros Digimon. Mesmo o grande vilão da história, o D-Reaper, foi criado por humanos e talvez não tivesse chegado ao Mundo Real se Beelzebumon não tivesse assassinado Leomon – o que não teria acontecido se as coisas entre Impmon e os seus Treinadores não tivessem corrido mal. Por fim, a Operação Joaninha que neutraliza o D-Reaper e tem… outras consequências, foi também obra de humanos: neste caso, o Hypnos e o Grupo Selvagem.

 

Os humanos são os principais condutores desta história, o que me agrada. Há menos Deus Ex-Machinas, menos ocasiões em que os protagonistas são salvos pelos dispositivos digitais ou semelhante.

 

O tema da próxima publicação será precisamente esse: o enredo, a narrativa. Publico-a daqui a uns dias, como tenho feito até ao momento. 

 

Espero que tenham um excelente vigésimo Odaiba Memorial Day (não podia deixar de manter a tradição e publicar neste dia). O encontro deste ano foi no sábado passado. Estejam atentos à página de Facebook deste blogue, bem como à página do evento, para saberem como foi. 

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