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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Digimon Frontier #6 – Takuya e Kouji mais quatro

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Quero resistir à tentação de dizer que Takuya e Kouji são meras cópias de Taichi e Yamato de Adventure. É uma leitura demasiado comum, demasiado simplista, que se torna preguiçosa. 

 

Não que esteja errada. Sim, existem semelhanças entre os dois pares de personagens e é óbvio que estas foram intencionais. Veja-se a maneira como as linhas digievolutivas incluem referências às linhas do Agumon e do Gabumon. 

 

No entanto, existem pontos de divergência claros entre as personagens mais velhas e as personagens mais novas. Para começar, Takuya e Kouji são menos desenvolvidos que Taichi e Yamato em Adventure. Além disso, as suas situações familiares podem ser parecidas à primeira vista (o líder é um irmão mais velho com uma típica família nuclear, o “lancer” vive com o pai divorciado e tem um irmão que vive com a mãe), mas olhando mais de perto não são assim tão semelhantes. E é sobretudo daí que, na minha opinião, nascem as diferenças.

 

Começando por Takuya, que tem um irmão mais novo, Shinya. Aliás, os eventos de Fronteira começam – podemos dizer mesmo que decorrem – no dia de anos de Shinya. Longe do estranho vínculo que Taichi e Hikari cultivavam em Adventure, Takuya tem uma relação mais normal com Shinya: não se dão particularmente bem, mas aparentemente não há nada de tóxico entre eles. Como irmão mais velho, Takuya ressente-se por os pais serem mais indulgentes para com o irmão mais novo (sei o que isso é…), mas não deixa de reconhecer que ele também não é perfeito como irmão.

 

No entanto, quando vem para o Mundo Digital, um dos companheiros de Takuya é Tomoki, um miúdo da idade de Shinya. Quando Tomoki tem um descontrolo emocional quase suicida ao chegar à Aldeia do Fogo, o primeiro instinto de Takuya é protegê-lo – o que o leva ao seu Espírito Humano.

 

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Aliás, uma das coisas de que mais gosto em Fronteira é o vínculo entre Takuya e Tomoki. A maneira como estes se adotaram um ao outro como irmãos. Na versão original, Tomoki trata o amigo mais velho por Takuya-oniichan. Não sei se é habitual em japonês, mas imagino que seja precisamente para ilustrar a maneira como Tomoki vê Takuya. Ao mesmo tempo, é possível que Takuya esteja a tentar compensar com o amigo mais novo pelas suas falhas com o seu irmão biológico.

 

Tendo tudo isto em conta, eu diria que, no início da história, Takuya tem mais em comum com Yamato do que com Taichi. Um episódio em que isso se vê bem é o sétimo, imediatamente depois da primeira derrota perante o Grottemon. Takuya, Kouji e Tomoki são separados do resto do grupo e falam sobre o que aconteceu no episódio anterior. 

 

Eu acho piada a este episódio pois faz de Takuya e Kouji pais adotivos de Tomoki, em conflito sobre a melhor maneira de educar o filho. Kouji é o pai mais severo. Como veremos adiante, nesta parte da história, ele é o mais motivado do elenco para cumprir a missão. Está preocupado com a derrota recente e não tem paciência para os choradinhos de Tomoki, acha que o miúdo não tem estaleca para ser uma Criança Escolhida e que Takuya o mima demasiado. Por sua vez, Takuya considera que Kouji é demasiado duro para com Tomoki, que é um par de anos mais novo que eles e nem sequer veio para o Mundo Digital de livre vontade.

 

É um daqueles casos em que nenhum dos lados está cem por cento ou errado. Sim, Tomoki precisa de se adaptar às dificuldades da sua missão no Mundo Digital. No entanto, já tínhamos visto em Adventure o que acontece quando insistimos em seguir em frente às cegas, sem pararmos para cuidarmos de nós mesmos e lidarmos com o que está a acontecer.

 

Os papéis de Takuya e Kouji invertem-se mais tarde, quando Duskmon se junta à festa. E a quem os miúdos não conseguem fazer um arranhão que seja, ficando obrigados a bater em retirada. Kouji em particular percebe que este adversário não é como os anteriores, não está ao alcance deles. Por muito determinado que esteja em levar a missão para a frente, Kouji não é estúpido, não tenciona arriscar a vida ao desbarato. 

 

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Por seu lado, Takuya formula um plano para enfrentarem o Duskmon. Basicamente, ele digievoluirá para Agnimon, agarrará o Duskmon pelas costas e os outros atacá-lo-ão em conjunto.

 

Como se o Duskmon aceitasse placidamente ser agarrado pelo Agnimon.

 

Kouji discorda e di-lo abertamente, mas também não tem nenhuma ideia melhor que ir fugindo ao Duskmon. Na minha opinião, este é outro caso em que ninguém está cem por cento errado. Kouji faz bem em alertar os amigos para o poder do adversário. No entanto, até quando conseguiriam escapar a Duskmon? Um segundo confronto era inevitável, mesmo que a iniciativa não partisse dos miúdos. Mais valia terem um plano para quando isso acontecesse. 

 

Kouji chega a ter uma conversa em privado com Takuya. Acusa-o de não levar nada daquilo a sério, de não ter consciência da mortalidade, tanto dele como dos amigos. Conclui dizendo a Takuya para executar o plano por sua conta e risco, se morrer pela sua própria estupidez, o problema é dele. Mas que deixe Kouji e os outros de fora das consequências.

 

O Duskmon ataca-os pouco depois. Os miúdos executam o plano de Takuya que, como o previsto, dá para o torto. Agnimon fica à mercê do Duskmon, que se prepara para um ataque possivelmente fatal. Apesar do que dissera antes, Kouji (sob a forma de Garummon) não aguenta e atira-se para a frente do ataque.

 

Como disse antes, este é o meu momento preferido em Fronteira. Um plot twist bem feito que desenvolve o carácter de três personagens principais. Takuya, que vê Kouji quase morrendo por causa dos seus erros; Kouji, que revela assim não ser tão desprendido como dá a entender; Duskmon, que tem uma reação estranha ao descobrir a identidade do Digimon que atacou e enche o campo de batalha com uma estranha névoa. Takuya decide embarcar num Dark Trailmon de regresso ao Mundo dos Humanos. 

 

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(fonte)

 

As semelhanças deste evento ao que aconteceu a Taichi em Adventure, no final do arco do Etemon, são evidentes. Para além do óbvio, ocorrem numa parte da história em que tanto Taichi como Takuya são confrontados com a sua própria imprudência. Ao mesmo tempo, ambos os eventos são a antítese um do outro. Taichi regressa ao Mundo dos Humanos num ato de coragem. Takuya regressa num ato de cobardia.

 

Mais: Takuya nem sequer regressa como ele mesmo. Regressa como Flamon, a forma Infantil do Agnimon. Algo que impede Takuya de retomar a sua vida normal, algo que o recordará daquilo que fez sempre que se olhar ao espelho. A marca da vergonha. É brilhante, na verdade. 

 

Não podendo ficar ele mesmo no Mundo dos Humanos, Takuya decide tentar impedir o seu eu do passado de regressar ao Mundo Digital – por motivos que não são explicados, Takuya viaja ligeiramente para trás no tempo. O jovem passa, também, todo o episódio sendo assombrado pelo espectro do Duskmon. Como era de esperar, no último momento, Takuya muda de ideias e decide regressar para proteger os amigos. 

 

É facilmente um dos melhores episódios da temporada. É uma pena que a repercussão no resto da história seja mínima. Takuya reencontra os amigos com relativa facilidade no episódio seguinte e ninguém torna a comentar o facto de Kouji lhe ter salvo a vida, depois de ter prometido que não o faria. O impacto emocional teria sido maior se a visita de Takuya ao Mundo dos Humanos (fruto da sua própria cobardia, recordo) tivesse feito com que o grupo se dividisse, como aconteceu em Adventure (hum…). 

 

Aliás, depois deste evento, o desenvolvimento de Takuya é quase inexistente. As únicas exceções serão quando ajuda Kouji a salvar Kouichi (mais sobre isso mais tarde) e o último episódio, quando ele finalmente vai abaixo depois de tantas derrotas – e mesmo assim não dura muito. Infelizmente não é caso único em Fronteira – e nem sequer é dos piores casos.

 

Falemos sobre Kouji, que sempre é um bocadinho mais interessante como personagem. Como referimos antes, o jovem é o mais motivado do grupo para salvar o Mundo Digital. Isto porque a missão é pessoal para ele: o apelo de Ophanimon inclui a possibilidade de o Mundo Digital lhe dar respostas sobre si e a sua família.

 

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Kouji vem de uma situação familiar muito particular. Descobrimos durante o arco do Sephirotmon que ele é órfão de mãe (isto é… mais ou menos). O pai voltou a casar e praticamente obriga o filho a tratar a madrasta por “mãe”. Kouji estava a preparar-se para dar esse passo quando recebeu a mensagem de Ophanimon. 

 

Se formos a ver, isto é basicamente a mesma história de Juri. No entanto, a maneira como as personagens lidam com isso é diametralmente oposta – Kouji parece-se mais com Ruki nesse aspeto. Além de que Juri está mais longe de aceitar a madrasta. 

 

Aliás, acho interessante que, apesar de estar a meio do ato de comprar flores para a madrasta, Kouji larga tudo para ir para o Mundo Digital. Prova que, apesar de tudo, o jovem ainda tinha dúvidas – e a mensagem de Ophanimon reforçou-as. Isso serve-lhe de motivação durante os primeiros episódios de Fronteira, mas por alturas do arco do Sephirotmon, Kouji está mais determinado do que nunca a regressar a casa e a adotar a madrasta como mãe. Isso não muda, nem mesmo com os eventos dos episódios seguintes – mais sobre isso noutra ocasião.

 

No fundo, Kouji é parecido com Yamato, sim, mas com um Yamato sem Takeru. O Yamato do Reboot, aliás, é mais parecido com Kouji do que o Yamato original. Nenhum deles tem um irmãozinho com eles no Mundo Digital e estão mais motivados que os outros para cumprir a missão. No caso do Yamato do Reboot, este tem Takeru sozinho no Mundo dos Humanos e quer protegê-lo à distância do efeito dos distúrbios no Mundo Digital. 

 

Para além deste aspeto, tanto Kouji como o Yamato do Reboot são introvertidos (também se aplica ao Yamato original), preferem agir sozinhos no início da respetiva história, não têm grande consideração pelo resto do elenco de heróis mas acabam por se juntar ao grupo quase sem darem por isso. No caso de Kouji, mesmo quando entra na equipa, são várias as vezes em que se afasta e procura resolver os seus problemas a solo. 

 

No entanto, é de notar que, no momento mais difícil de Kouji – quando descobre a verdade sobre a sua família e sobre Kouichi – ele apoia-se nos amigos. Sobretudo Takuya. Ele explica-lhe, da melhor maneira que consegue, o que é ser irmão e, mais importante, dá-lhe o equivalente psicológico a um murro à 02 – para que Kouji se recomponha e salve o irmão da influência de Cherubimon. 

 

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Depois disto, Kouji torna-se um pouco mais caloroso, ainda que seja quase só com Kouichi e, vá lá, um pouco com Takuya – mais em situações de combate. 

 

Uma vez mais, não existe um desenvolvimento por aí além de Kouji. A partir de certa altura a história é “Takuya e Kouji mais quatro” em termos de combates, Fronteira é infame por isso, mas nem sequer temos um desenvolvimento decente dos dois. Mas esse é um problema global, como vimos no texto anterior. 

 

E ficamos por aqui hoje. Continuaremos a analisar as personagens individualmente no próximo texto. Eu já me demorei mais do que queria com este e o próximo poderá demorar outra vez – a Seleção irá regressar ao ativo e terei de dar prioridade ao meu outro blogue. Em todo o caso, obrigada pela vossa visita. Até à próxima!

Digimon Frontier #5 – Dando o corpo ao manifesto

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Mais do que nas temporadas anteriores, o grupo de Fronteira é o que melhor se encaixa no tropo da “Five Man Band” – grupo de cinco. Takuya é o líder, Kouji é o “lancer” – o típico segundo na liderança, muitas vezes a antítese do líder. Izumi é a rapariga, geralmente o coração do grupo. Kouichi é o sexto ranger

 

Só Tomoki e Junpei é que não se encaixam muito bem na fórmula. Superficialmente, poder-se-á dizer que Junpei é o tanque/músculo, mas apenas porque tem a aparência de um miúdo grande. Na prática, não desempenha um papel particularmente defensivo ou mais físico que os demais. Por outro lado, existem algumas variantes a este tropo que incluem “a criança” – Tomoki encaixa-se perfeitamente neste papel.

 

A principal categoria que fica por preencher é “o cérebro”/o inteligente. Aliás, este é o primeiro elenco de heróis em Digimon que não possui um “cérebro”: uma personagem com mais inclinação tecnológica e/ou que se destaque pelos seus conhecimentos ou pela sua capacidade de resolver problemas. O mais parecido que temos com isso é o Bokomon. 

 

O que me leva às mascotes de Fronteira. Tenho de dizer, depois do Culumon, que para além de adorável é um herói subvalorizado de Tamers, Bokomon e Neemon foram uma desilusão. O segundo só está lá para tentar ser engraçado (sublinhe-se “tentar”) e para ser maltratado pelo primeiro. Bokomon sempre tem um pouco mais que fazer, não que seja uma grande melhoria: está lá sobretudo para debitar informação. Também passa uma data de episódios grávido com o DigiOvo do Seraphimon. Uma vez mais, suponho que era para ser engraçado – não é. Mesmo que tivesse, acho que ainda faltará uns anos à audiência-alvo para compreender as piadas. 

 

Ao menos é fofinho vê-lo como papá-mamã do Patamon, depois deste nascer. 

 

Por outro lado, admito que, depois do episódio 13 de Ghost Game, custou um bocadinho ver Bokomon quando retomei a maratona de Fronteira. 

 

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Mas regressemos aos miúdos humanos. Tenho de dizer que, como elenco, este é o mais fraquinho até ao momento. Não que não goste dos miúdos, mas estes são menos interessantes e, sobretudo, menos desenvolvidos que noutros universos. 

 

Começando com os seus passados – um de vários aspetos em que Fronteira rompe com outras temporadas. Com uma única exceção – ou melhor, duas – os miúdos tiveram todos vidas estáveis e normais, sem grande drama. Tendo em conta que a ficção em geral adora infâncias infelizes e pais imperfeitos – e as outras temporadas de Digimon são infames por isso – isto é uma desvantagem.

 

É claro que, na vida real, nada disto tem piada. Eu, aliás, gosto de pensar que fãs de Digimon se tornam melhores pais – o anime está cheio de personagens afetadas negativamente pelas suas famílias.

 

Não sei se isso acontece na prática, no entanto. Não há por aí ninguém disposto a fazer um estudo observacional?

 

Dito isto, admito que, a partir de certa altura, Digimon tenha exagerado. Não convém esquecer que a audiência-alvo são crianças. Uma coisa é termos mais divorciados e rebeldias (pré)adolescentes. Outra coisa é termos mães ou irmãos mortos. Faz sentido que, numa temporada que se queria mais leve do que Tamers, os digiguionistas tenham decidido diminuir os dramas familiares (com uma notável exceção).

 

Além disso, como diz Adam Pulver, outro crítico de Digimon, não existirão muitos miúdos identificando-se com uma personagem procurando seguir as pisadas de um irmão que morreu, mas existirão uns quantos identificando-se com personagens com dificuldades em fazer amigos. 

 

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Esse, aliás, é o denominador comum a quase todos os Escolhidos. Temos uma miúda filha de emigrantes com dificuldade em integrar-se. Temos um miúdo um bocadinho mimado demais e vítima de bullying. Um rapaz que prefere agir sozinho. Temos… o Junpei. Kouichi é mais difícil de avaliar, mas ele parece ser tímido. Só Takuya é que não revela tendências anti-sociais – pelo contrário, como vimos acima, encaixa-se no estereótipo do líder extrovertido e impaciente.

 

Ainda assim, esse podia ter sido um dos temas desta temporada: um grupo de misfits, de anti-sociais, que têm de aprender a lidar uns com os outros para poderem sobreviver. Infelizmente não exploram muito esse aspeto, tirando no arco do Sephirotmon

 

Chegou a altura de falarmos sobre o óbvio: é a primeira (e única vez) que o elenco humano não tem companheiros Digimon. São as próprias Crianças Escolhidas a digievoluir e a lutar.

 

Ora, apesar de isto poder ser considerado um sacrilégio, não é necessariamente uma coisa má por si só. Pode-se argumentar que os miúdos de Fronteira fazem mais que os heróis de outras temporadas – meros treinadores de bancada. Sobretudo os do universo de Adventure, cuja única intervenção nos combates é desbloquear as digievoluções – os Digimon é que fazem o trabalho sujo. 

 

Universos como Tamers e Ghost Game tentam contrariar esta limitação pondo os miúdos a orientar os ataques dos seus Digimon, de uma forma ou de outra. E depois temos o Reboot de Adventure, em que os miúdos estão quase sempre montados nos seus Digimon durante os combates. O que é fixe… até ao momento em que os miúdos, inevitavelmente, levam com ataques em cima mas raramente sofrem danos. Assim não vale!

 

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Por seu lado, Takuya e os outros não têm ninguém que os proteja. O que não lhes serve de impedimento. Por muitas falhas que possamos apontar ao grupo de Fronteira, há que dar-lhes crédito: eles dão o corpo ao manifesto. Logo desde o primeiro episódio, por um mundo que, dez minutos antes, não sabiam que existia. E como vimos antes, eles perdem muitos combates – fisicamente. Usando palavras mais brejeiras: eles levam porrada. Repetidamente. E mesmo assim levantam-se de novo, continuam a lutar.

 

Além disso, não sei se alguém alimentava alguma fantasia de se tornar e lutar como um Digimon mas, se existia, pode vê-lo em Fronteira. 

 

Dito isto, tenho algumas críticas a fazer ao conceito. Nomeadamente à natureza das digievoluções.

 

Até aqui, noutros universos, as digievoluções estavam associadas sobretudo a fatores internos, psicológicos e/ou afetivos. Em Adventure, era crescimento pessoal, ligado às virtudes dos Cartões. Em 02, eram as ligações entre as Crianças Escolhidas. Em Tamers, eram as ligações entre humano e Digimon.

 

Em Fronteira, no entanto, os fatores são externos. Os miúdos herdam os espíritos dos Dez Guerreiros Lendários, que representam um elemento ou, possivelmente, uma zona do Mundo Digital. Os miúdos só precisam de encontrar os respetivos espíritos, Humanos e Animais. Mais tarde, os espíritos Híbridos são obtidos via DigiOvo do Seraphimon Ex Machina; o KaiserGreymon e o MagnaGarurumon são obtidos via sacrifício da Ophanimon; o Susanoomon é obtido via sacrifício de Kouichi. 

 

É como se os miúdos estivessem apenas a vestir um fato com super-poderes (como o Tony Stark/Homem de Ferro(?) ou Devi Morris e a sua Lady Gray) ou, quanto muito, a ser possuídos por uma entidade externa. Quase naada é exigido aos miúdos em termos de introspeção. As únicas exceções são as digievoluções de Kouichi e, se quisermos ser generosos, a última aparição de Susanoomon. Isto torna-se um problema ainda mais grave para mim porque digievoluções catalisadas por desenvolvimento das personagens foi sempre uma das minhas partes preferidas de Digimon. E como os miúdos não precisam de crescer como pessoas para digievoluir, o desenvolvimento deles em Fronteira é reduzido, sobretudo quando comparado com as temporadas anteriores. 

 

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Além disso, praticamente todas as vantagens de miúdos digievoluindo eles mesmos são anuladas na última grande parte da temporada – quando Izumi, Junpei, Tomoki e Kouichi têm de abdicar dos seus espíritos para que Takuya e Kouji desbloqueiem o nível Extremo. Kouichi, ainda por cima, tinha acabado de conseguir as suas digievoluções não corrompidas – quase não teve oportunidade de usá-las. 

 

É um tropo recorrente em Digimon os níveis Extremos estarem reservados para os dois rapazes “protagonistas” do grupo. Nunca gostei muito disso. Ainda assim, as outras personagens continuavam a contribuir para os combates, por pouco que fosse, mesmo com digievoluções de nível inferior. Mas impedi-los completamente de digievoluir? Demasiado mau.

 

Ainda se tolerava se estivéssemos a falar apenas dos combates importantes com o Cherubimon e o Lucemon. Mas a situação arrasta-se por todo o arco dos Cavaleiros Reais. É possível que os miúdos tivessem conseguido derrotá-los mais cedo se Izumi e os outros tivessem podido lutar também. Uma pessoa pergunta-se porque é que os outros quatro sequer permanecem no Mundo Digital.

 

Dito isto tudo, o grupo de Fronteira tem uma qualidade redentora – e eu só me apercebi dela ao trabalhar neste preciso texto. Durante muito tempo desvalorizei estes miúdos, pelas razões listadas acima e também pelas motivações deles ao responderem ao apelo da Ophanimon. Com as devidas exceções, estas vão de “não tinha mais nada que fazer” a “eh, pode ser giro”. Nem sequer tínhamos lugares-comuns como curiosidade, insatisfação com a vida atual, desejo de aventura. Motivações como estas não chegavam, nem de longe nem de perto, para sustentar uma temporada inteira levando porrada. 

 

No entanto, olhando mais de perto… estes podem ser os motivos para eles terem embarcado nos Trailmon, mas não são os motivos para se terem envolvido nas lutas e encontrado os espíritos digitais. Takuya desbloqueia o Agnimon enquanto tenta proteger um Tomoki em descontrolo emocional ​​– um miúdo que acabara de conhecer. Kouji desbloqueia o Wolfmon enquanto tenta proteger Tomoki e Junpei – Kouji, que prefere agir sozinho e, uma vez mais, mal conhecia aqueles dois bacanos. Tomoki desbloqueia o Chackmon para ajudar Agnimon num combate. Por fim, vários episódios mais tarde, Takuya regressa brevemente ao Mundo dos Humanos, mas escolhe voltar para o Mundo Digital precisamente por causa dos amigos.

 

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Eu podia continuar. Estes miúdos podem deixar muito a desejar em termos de passado, desenvolvimento e mesmo personalidade em geral, mas merecem crédito por isto: desde muito cedo começam a proteger-se uns aos outros e, sobretudo, sai-lhes tudo do pêlo. Pelo menos em termos da luta em si.

 

E ficamos por aqui hoje. Na próxima parte, começamos a falar sobre cada miúdo individualmente. Desta vez, não garanto que cada miúdo tenha um texto só para si. Nem todos têm pano para tanta manga – e aqueles que têm não será necessariamente por bons motivos. 

 

Em todo o caso, obrigada pela vossa visita. Continuem por aí. 

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