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Álbum de Testamentos

"Como é possível alguém ter tanta palavra?" – Ivo dos Hybrid Theory PT

Música 2023 #3: Too big to hang out, slowly lurching toward your favorite city

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Hoje vamos então falar da dona disto tudo, da omnipresente. Taylor Swift é um poço sem fundo de ótima música. Dez álbuns de estúdio, um décimo-primeiro a caminho, em menos de vinte anos de carreira, incluindo reedições e respectivos baús e, no caso de Midnights, múltiplas edições especiais. Chega a ser irritante. 

 

Mas não há volta a dar. Taylor tornou a ser uma das artistas que mais ouvi em 2023. 

 

Este ano, Taylor lançou duas regravações de álbuns antigos: Speak Now no verão, 1989 no outono. Gostei muito do primeiro. Speak Now era um daqueles que ainda não tinha explorado muito e estava à espera da reedição para ficar a conhecer melhor. 

 

Não fiquei desiludida. Já tinha ouvido alguns fãs elogiando as letras em Speak Now, as histórias que contam – algo que regressaria em força em folklore e evermore. Também gosto muito da sonoridade: o country pop do início da carreira dela misturado com rock, alguns momentos de pop punk e metal sinfónico.

 

Um aspeto de que gosto imenso em relação a Speak Now – tanto no alinhamento padrão como no baú – é da duração destas músicas. Faixas de quatro ou cinco minutos, algumas de seis ou sete. Solos de guitarra, instrumentos com tempo de antena. Numa altura em que é raro ouvirmos música com mais de dois ou três minutos de duração, sabe bem, é refrescante.

 

Já conhecia e gostava de algumas músicas em Speak Now: Mine e Back to December. Enchanted, então, é uma das minhas preferidas de Taylor há uns anos. Com a regravação fiquei a conhecer e a gostar de mais umas quantas. 

 

Haunted, para começar, a tal que brinca com metal sinfónico. Parece uma música dos Within Temptation. É gira, mas uma parte do meu cérebro está sempre à espera de ouvir a voz de Sharon den Adel. Também gosto de Dear John e Last Kiss. Better than Revenge é a Misery Business de Taylor – um bocadinho de mesquinhez sabe bem de vez em quando. Never Grow Up leva-me lágrimas aos olhos – Taylor tem demasiadas músicas com essa capacidade, não acho nada bem.

 

 

Mas as minhas preferidas neste álbum são duas (bem… três, se contarmos com Enchanted). A primeira é Sparks Fly – aparentemente um clássico na discografia de Taylor. Segundo as minhas pesquisas, Taylor tê-la-á composto aos dezasseis anos, ainda antes de ter lançado o seu álbum de estreia. Tocou-a nalguns concertos, apareceram vídeos dessas apresentações na Internet, os fãs adoraram e convenceram Taylor a gravá-la para Speak Now. A versão de estúdio é diferente, menos country, mais pop rock, com alterações na letra. Na minha opinião é melhor, mas não nego que a versão pré Speak Now tem um charme muito próprio.

 

Adoro a sonoridade de Sparks Fly, sobretudo aquele refrão. Em termos de letra – sobre paixão adolescente – não é super original, mesmo um bocadinho básica, mas que posso dizer? Apela ao meu coração romântico de menina de quinze anos – um pouco como Enchanted, na verdade.

 

E, de qualquer forma, a letra tem um ou outro indício de que a narradora tem mais autoconsciência do que seria de esperar. “Give me something that’ll haunt me when I’m not around” – ela quer sentir-se assim, ela quer que o seu interesse romântico lhe dê motivos para o prender na sua cabeça. Também gosto do verso “Get me with those green eyes”. Olhos bonitos usados como armadilha, mesmo como arma.

 

A minha outra preferida é Long Live, a faixa que encerra a edição-padrão de Speak Now. Esta é outra com uma sonoridade pop rock grandiosa que eu adoro. A letra é uma carta de amor de Taylor para os seus colaboradores, a sua banda e – como ela tem sublinhado nos últimos tempos – os seus fãs. É uma canção de vitória, uma celebração dos seus triunfos após ter entrado no mundo da música como desfavorecida.

 

Ou pelo menos é assim que ela se pinta.

 

Isto pode ter acontecido por a regravação ter saído poucos dias antes do 10 de julho, mas, de uma forma muito minha, desde o início associei Long Live à vitória da Seleção Portuguesa no Euro 2016. Afinal de contas, também essa foi uma história de underdogs que triunfaram. 

 

 

When they gave us our trophies and we held them up for our town” recorda-me, claro, as nossas celebrações no feriado a seguir à final. “You held your head like a hero on a history book page” é basicamente a postura de Cristiano Ronaldo por defeito. “I had the time of my life fighting dragons with you” faz-me pensar em como tantos destes jogos grandes, contra tubarões futebolísticos, o nervosismo, a euforia, a frustração, os Nitromint debaixo da língua, têm sido dos períodos mais excitantes da minha vida. 

 

Por fim, os versos “and the cynics were outraged, screaming ‘this is absurd’” dão-me vontade de rir. Descrevem de forma quase literal a reação dos franceses à nossa vitória.

 

Por outro lado, embora esses versos também se encaixassem no tema da final do Euro 2016, prefiro dedicar aquela parte mais calminha (a que começa com “Will you take a moment?”) à minha família HT.

 

…talvez eu esteja na minha era Speak Now – depois de ter passado por uma era Midnights na primeira metade de 2023.

 

Passemos às faixas inéditas de Speak Now. É possível que a minha opinião mude no futuro mas, até ao momento, este é o meu baú preferido das regravações. A única de que não gosto tanto é Electric Touch (acho que teria ficado melhor sem a participação do Patrick Stump).

 

Começando por Castles Crumbling, aquela por que mais ansiava por causa da participação de Hayley Williams. Estava com algum medo de uma situação semelhante a Snow On the Beach, em que a voz de Lana Del Rey mal era perceptível – de tal modo que, mais tarde, foi lançada uma segunda versão da música. No que toca a Taylor, por vezes “feat” é uma palavra demasiado forte.

 

 

Felizmente, nesse aspeto, não nos podemos queixar de Castles Crumbling. Hayley ouve-se bem quando canta – a interpretação do verso “and they trusted me” é muito ela. Eu queria ainda mais Hayley, mas podia ter sido pior.

 

Alguns de nós estranharam que tenha sido esta música a ter a participação de Hayley. Uma balada ao piano, calminha, vagamente atmosférica, não é o género musical em que o ouvinte comum pensa quando se fala na Hayley dos Paramore. Hayley revelou há umas semanas que a primeira música que Taylor lhe enviou se encaixava melhor no estilo pelo qual os Paramore são conhecidos (provavelmente Electric Touch), mas Hayley não gostou. Taylor, então, enviou-lhe Castles Crumbling. Hayley gostou mais dessa.

 

A letra terá sido um dos elementos a conquistar Hayley. Como li algures, Castles Crumbling é a antítese de Long Live. É uma canção de derrota em vez de vitória. A narradora perdendo o amor do público, o poder que detinha e ao qual se afeiçoar demasiado – ao ponto de ter deixado corrompê-la. 

 

É interessante analisar a letra de Castles Crumbling à luz das personalidades díspares de Hayley e Taylor. Penso em Idle Worship e No Friend, dos Paramore, cujos narradores se ressentem dos pedestais em que foram colocados, que avisam – com toda a razão – que aquilo que os fãs veneram é uma ideia, uma ilusão, não corresponde à realidade.

 

Acho que Taylor está mais afeiçoada à fama que Hayley. Ela mesma se descreveu há pouco tempo como “a pathological people pleaser”, e os últimos anos deixaram bem claro que ela gosta da fama, gosta da sua posição como DDT do mundo da música (e não só) – daí eu torcer o nariz a algumas das mensagens de Anti-Hero. Havemos de regressar a essa ideia mais à frente. 

 

Aqui entre nós, não estou habituada a isso da parte dos artistas e bandas que sigo. Estou habituada a ouvi-los falar mais de amor à arte, menos de amor à atenção e aos prémios. Mas também acredito que pelo menos alguns deles liguem mais a isso do que estão dispostos a admitir.

 

Não que vá fazer juízos de valor sobre esta atitude de Taylor (bem… não muitos). Tem as suas vantagens e as suas desvantagens, como tudo. Em Castles Crumbling mostra mágoa pela perda do pedestal. Penso que será um retrato fiel daquilo que Taylor sentiu quando Kanye West a humilhou durante os VMAs – e talvez quando o público se virou contra Taylor em 2016.

 

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Ao mesmo tempo, a narradora de Castles Crumbling admite culpas naquilo que aconteceu, admite ter abusado da sua posição. O que remete para Dear Reader – uma música que tem vindo a subir na minha consideração nas últimas semanas – onde Taylor tenta dar conselhos, mas sabe que não tem autoridade para tal. Gosto em particular dos últimos versos “You should find another guiding light, guiding light, but I shine so bright”. É como se Taylor estivesse em debate consigo mesma – ou com a voz do coro, como numa tragédia grega. Ela gosta de ser admirada, gosta de ser um exemplo a seguir, mas sabe que não o merece verdadeiramente.

 

Castles Crumbling será talvez a melhor música do baú de Speak Now, a mais profunda. Naturalmente, já que os Paramore irão com ela para a Eras Tour na Europa, espero que Taylor e Hayley a cantem todas as noites.

 

I Can See You, a única música do baú com direito a videoclipe, é engraçada, mais sexy  do que o habitual para Taylor na altura – com tropos que ela só voltaria a usar em Reputation. Compreende-se porque terá sido deixada de fora da Speak Now original – a equipa de Taylor, talvez ela mesma, tentando manter uma imagem ainda relativamente inocente.

 

When Emma Falls in Love é fofinha. Timeless também é linda: a letra faz lembrar Mine e também as letras em folklore e evermore.

 

Finalmente, Foolish One é daquelas músicas que nos faz perguntar “Quem nunca?”. Sobre enganos de alma ledos e cegos, sobre alimentar ilusões sobre os nossos interesses românticos, mesmo sabendo que a outra parte não sente o mesmo.

 

Definitivamente nunca me aconteceu. Nunca fiz filmes na minha cabeça baseando-me em quase nada, sabendo que a pessoa em questão já estava comprometida. No cenário pintado em Foolish One, em defesa da narradora, o interesse romântico (assumindo que é um rapaz) também estava comprometido, mas mantinha um caso com a narradora. A narradora só se culpa a si mesma, mas a verdade é que isto não abona nada a favor do carácter do rapaz. No fundo, uma versão mais jovem e inocente de illicit affairs.

 

 

De qualquer forma, no final de Foolish One, a narradora é gentil consigo mesma. Promete a si mesma que, um dia, haverá quem corresponda aos seus afetos. De qualquer forma, Foolish One é uma boa música para se ouvir depois de Sparks Fly, para descer um pouco à Terra.

 

Como poderão concluir, gostei muito de Speak Now (Taylor’s Version). Pena a sua era ter sido tão curta. Cerca de um mês depois, mais coisa menos coisa, Taylor estava já a anunciar a regravação de 1989 e rapidamente se deixou de falar de Speak Now. Foi chato.

 

Embora, para sermos justos, ao menos o baú de Speak Now teve direito a um videoclipe. O de 1989 não teve essa sorte.

 

Ao contrário do que aconteceu com as regravações anteriores, já tinha acompanhado o lançamento da 1989 original e guardo alguma nostalgia em relação a essa hora. Ouvir Shake it Off em todo o lado e arranjar a minha própria coreografia para ela, usar versos de Blank Space para descrever os meus primeiros tempos com a Jane.  

 

Também já conhecia o álbum bastante bem. Ainda pensei que pudesse redescobrir algumas músicas da edição-padrão, mas não foi o caso. Tirando You Are in Love e Wonderland, mais recentemente, aquelas de que gostava não se alteraram. As minhas favoritas são Clean, Wish You Would e os singles, tirando Bad Blood.

 

Avancemos já para as faixas do baú. Em termos de temática são muito consistentes – parece que são todas sobre o romance falhado de Taylor com Harry Styles. Aliás, as cinco parecem contar uma narrativa, começando na lua-de-mel da relação, passando pelas diferentes fases da rotura. Pode-se argumentar que a história tem um final aberto – a narradora perguntando se a relação terminou mesmo. Não é dada uma resposta.

 

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Infelizmente, não gosto tanto do baú de 1989 como gosto do baú de Speak Now. Parte disso, será mesmo porque as músicas são pura e simplesmente menos apelativas para mim. Por outro lado, na altura em que saiu a regravação, vi imensos vídeos de Swifties no YouTube sobre estas músicas… e acho que foi um erro.

 

Este é para mim o problema da música de Taylor e dos Swifties. Com as devidas exceções (e mesmo assim há quem duvide que sejam mesmo exceções), Taylor infamemente escreve sobre pessoas reais, escreve a sua própria história, deixa pistas, referências. Um típico Swiftie adora escrutinar as letras, os videoclipes e… bem, tudo o que Taylor faz ou deixa de fazer, para tentar descobrir mensagens secretas, descobrir de que interesse romântico Taylor está a falar, o que isto revela sobre a relação deles. 

 

Não digo que não compreenda o apelo, atenção! Também compreendo o gozo de Taylor em escrever a sua própria história, em criar a sua própria mitologia. Eu faço o mesmo, até certo ponto, com os meus blogues – numa escala muito menor, claro. Mas por vezes é demais. Lá está, sou o tipo de ouvinte que gosta de fazer as suas próprias interpretações das músicas que ouve. Não gosto de me limitar a um cânone oficial. 

 

É por isso que gosto mais do baú de Speak Now. Tem menos bagagem em termos de “lore”.

 

Mas pronto, isto sou só eu, o problema sou eu – (mais uma) obrigatória referência a Anti-Hero. Sou eu que tenho de reajustar a minha relação com a música de Taylor e com as análises de Swifties mais ferrenhos. É preciso moderação.

 

Falemos sobre as músicas em si. Uma das minhas preferidas neste baú é Say Don’t Go. Sobretudo pela parte musical. As melodias são super cativantes e bem apoiadas pela instrumentação. Aquele refrão é irresistível, incluindo os backvocals. Não posso deixar de reparar nas semelhanças, tanto em termos de letra como de musicalidade, com You’re Losing Me. 

 

 

Now That We Don’t Talk também é interessante. Ainda assim, acho que todos concordamos que Is it Over Now é a melhor deste baú. Para começar, é a mais sumarenta no que toca ao romance com Harry Styles. Tem, também, óbvias semelhanças com Out of the Woods. 

 

Um dos meus aspetos preferidos, no entanto, é a sua falta de linearidade, a sua estrutura fora do convencional, o quão caótica soa. Porventura um bom reflexo das emoções de Taylor quando a compôs. 

 

Sei que há algo que vem antes, mas já falamos sobre isso. Para já queria falar do concerto de Taylor na Luz, pelo qual anseio. Tenho feito um esforço para evitar spoilers – nem sequer quis ver o filme da Eras Tour – mas é praticamente impossível. Como disse acima, Taylor Swift é omnipresente, estou sempre a apanhar publicações sobre a Eras Tour. Ainda por cima, em todos os concertos há pelo menos um fã a filmá-lo todo e a transmiti-lo em direto no Tik Tok ou no Instagram (ou no YouTube?). Logo, toda a gente sabe o que acontece em cada noite da Eras Tour.

 

Sinto-me ambivalente em relação a isso. Eu nunca seria a pessoa que filma um concerto inteiro. Não sou repórter de imagem, como disseram uma vez no grupo de fãs dos Hybrid Theory, não é para isso que pago bilhete. E, regra geral, só gosto de ver vídeos de concertos se forem de uma digressão a que já fui. Sou aquela pessoa que não gosta de ter spoilers, caso tenha uma hipótese, por remota que seja, de ir a um concerto desses. Embora seja difícil evitá-los – por exemplo, os HT devem estrear um novo alinhamento no concerto que vão dar na Covilhã, no início de março, e acho que vou ter de fazer blackout às redes sociais para não levar com spoilers

 

E, de qualquer forma, por muito bom que o vídeo seja, não se compara à experiência de estar mesmo lá.

 

Por outro lado, não vou mentir, a ideia de haverem milhares – se não forem milhões – de fãs um pouco por todo o planeta a verem o mesmo concerto ao mesmo tempo é linda. É o que possivelmente irá acontecer a 24 e 25 de maio: imensa gente pelo mundo inteiro de olhos em Portugal, em Lisboa, no Estádio da Luz. Como se fosse a final da Liga dos Campeões ou do Europeu. 

 

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E a verdade é que – chocante! – nem toda a gente é como eu. Regressando aos fãs de HT, lá no grupo há muitas pessoas pedindo vídeos dos concertos para compensar por não poderem ir. Partilhamos a experiência dentro do possível. Eu nunca pediria isso a outra pessoa, não para mim mesma. Mas se me pedem a mim, filmo três ou quatro canções por noite com todo o gosto – que, de resto, faria sempre.

 

Assumindo que os demais não se importam que eu cante por cima dos vocalistas ou que, pelo menos no caso dos HT, grite parvoíces aos membros das bandas. 

 

No que toca à Eras Tour, no entanto, devo ficar demasiado longe para conseguir filmar alguma coisa que se veja. Hei de filmar só mesmo pelo ambiente, pelas bancadas cantando em coro.

 

Estou ao mesmo tempo excitada e nervosa com a perspetiva de ver Lisboa virada do avesso para receber a Eras Tour. Eu que, ainda por cima, trabalho perto do Estádio da Luz e não vivo muito longe dele (“slowly lurching toward your favorite city”). Suponho que não seja pior que a vinda do Papa, no ano passado, que esteja mais ou menos ao nível de, lá está, a final da Champions. E, mal por mal, creio que os Swifties são ligeiramente menos desordeiros que típicas claques de futebol. 

 

Vamos ver como corre. 'bora lá provocar atividade sísmica no Estádio da Luz! E vou fazer figas para que me cruze com Taylor ou com os Paramore na rua, por esses dias. Não é impossível...

 

No meu primeiro rascunho deste texto, nesta parte dizia que esperava que, a médio/longo prazo, depois da Eras Tour e das regravações que faltam, Taylor fizesse uma pausa. Como referi acima, Taylor tem dez álbuns de estúdio publicados, com uma série de músicas extra.

 

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Paremos para pensar nisso. Os Linkin Park só lançaram seis álbuns entre 2000 e 2017. Bryan Adams só chegou ao décimo álbum ao fim de quase vinte e cinco anos de carreira. 

 

E o pior é que toda a discografia de Taylor é boa. Algumas músicas são melhores do que outras, claro, mas no geral acima da média. Como disse acima, um poço sem fundo. E eu ainda não conheço a música dela tão bem quanto desejava. Preciso de passar (ainda) mais tempo com ela. Dava-me jeito ter um ano ou dois sem música nova de Taylor para me pôr a par de tudo como deve ser – até porque, parecendo que não, gosto de ouvir outros artistas e bandas, de vez em quando.

 

Mas não. Vem aí um álbum novo em abril, The Tortured Poets Department. Acho que fui a única cuja primeira reação foi revirar os olhos.

 

Não me interpretem mal. Não digo que não esteja nem um bocadinho entusiasmada com TTPD. Bem pelo contrário. Acredito que será tão bom como qualquer um dos outros álbuns de Taylor, talvez ainda melhor. Aquilo que já se conhece do álbum promete. Estou certa de que, daqui a um ano ou menos, estarei a escrever sobre várias músicas de TTPD no balanço musical de 2024.

 

Mas não começa a ser demais? Ela há de lançar um álbum de inéditas este ano, depois deverão vir as últimas duas regravações em 2025, depois dessa um décimo-segundo álbum inspirado pelo moço atual… Para além da questão de ser demasiada boa música para o tempo de que disponho… Taylor está em todo o lado! No mundo da música, na final da Super Bowl, no ciclo eleitoral norte-americano (conselho de amiga: quando se quiserem sentir melhor em relação aos nossos políticos, pesquisem notícias sobre política nos Estados Unidos), em breve no Estádio da Luz. Sei que nem tudo é por vontade da própria Taylor, mas mesmo assim. Tenho medo de que as pessoas se fartem, de que eu me farte, de que a própria Taylor entre em burnout. Na minha opinião, precisávamos de menos. 

 

Taylor claramente não concorda. Não digo que o gosto pela fama seja o seu principal catalisador. Acredito nela quando diz que cria tanta música pelo gozo. Mas ela também gosta da atenção, gosta de ser dona disto tudo, não adianta negá-lo. E eu tenho medo que as suas asas derretam, que tudo isto rebente na cara dela.

 

Espero estar enganada. Espero que Taylor saiba o que está a fazer. Genuinamente não lhe desejo mal. Mesmo com as suas falhas, que não devem ser ignoradas (a mania de se fazer de vítima, a poluição do seu jato privado, mesmo o facto de ser bilionária, etc), ela está longe de ser uma pessoa horrível e, se é para haver alguém omnipresente desta forma, que seja alguém com o talento de Taylor Swift. Já tivemos de levar com pior.

 

E por agora é tudo. Na próxima parte, a última deste balanço, vou falar de músicas soltas que marcaram o meu ano. Espero não me demorar muito com ela, mas é possível que só consiga publicá-la em março. Enfim.

 

Obrigada pela vossa visita, como sempre.

Música 2023 #2: Ainda (mais ou menos) emo

A minha ideia inicial para o balanço de 2023 era que este tivesse duas partes apenas. Uma para os concertos, outra para música em si. No entanto, esse texto estava a ficar muito grande e achei por bem dividi-lo em três – até porque faz sentido do ponto de vista temático, mesmo que os textos fiquem relativamente curtos. Há de ficar parecido com o balanço de 2021

 

Suspeito que, mais uma vez, só devo terminar lá para finais de fevereiro, se não for mais tarde. Já não é a primeira vez que uso a expressão aqui no blogue mas, citando uma das bandas visadas neste texto, olhem… c’est comme ça.

 

Como escrevi na parte anterior, os meus hábitos musicais em 2023 não foram muito diferentes dos do ano anterior. Com as devidas exceções – Linkin Park e Meteora20, por exemplo – diria que 2023, em termos musicais, foi uma continuação de 2022. Em parte no que toca a música (mais ou menos) emo

 

Um dos maiores exemplos disso foi a prevalência de Jimmy Eat World, uma banda que entrou no meu radar através de, precisamente, Everything is Emo, o podcast que Hayley gravou em 2022. Em particular o álbum Bleed American, que continuou com muita rotação em 2023. 

 

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Não me vou alongar demasiado sobre ele, já o fiz no ano passado. Mas Bleed American é mesmo muito bom. Os meus favoritos não mudaram radicalmente desde o ano passado, mas Cautioners subiu imenso na minha consideração. A sua melancolia cativou-me em particular nos meus momentos mais tristes no ano passado.

 

Curiosamente, de todo o álbum, Cautioners é a que menos tem reproduções no Spotify. Não percebo porquê. Sim, a letra não é nada por aí além, mas a música é tão bonita! Tem uma sonoridade tão única!

 

Peço-vos o favor de a ouvirem, a ver se concordam. Deem amor a Cautioners. 

 

Não me limitei a Bleed American, no entanto. Dei uma hipótese a Clarity, o álbum anterior deles… mas infelizmente, não sendo um álbum mau, não gostei tanto como do seu sucessor. Ainda assim, a minha preferida nesse álbum é Lucky Denver Mint, seguida de For Me This is Heaven e Table For Glass. 

 

Fora disto, vou ouvindo um tema ou outro, solto, sobretudo no Spotify. Uma que ando a ouvir muito ultimamente, por exemplo, é Let it Happen. Que posso dizer? Jimmy Eat World é o tipo de som que sempre gostei. Quero explorar Futures a seguir. Talvez não já já, que tenho muita música para ouvir como trabalho de casa (mais sobre isso mais tarde). 

 

Outra banda que ouvi com alguma frequência este ano foi The Cure, em particular um álbum Wish. Continuo a gostar imenso de Trust, quis explorar o resto desse álbum. Ainda hei de lhe dar mais rotação, mas também é um álbum muito fixe. Diria que, tirando Trust, as minhas preferidas são From the Edge of the Deep Green Sea e A Letter to Elise. Outras músicas “soltas” que tenho ouvido são Just Like Heaven e Pictures of You. Hei de continuar a adicionar músicas deles ao meu radar, conforme me for apetecendo.

 

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Outro exemplo de continuidade em relação a 2022 diz respeito aos Paramore e a This is Why. Álbum esse que, por sinal, acaba de ganhar um Grammy – foram a primeira banda liderada por uma mulher a ganhar o prémio. Naturalmente, estou muito feliz por eles. Aqui entre nós, acho que After Laughter ou o Self-Titled mereciam mais, mas a banda já merecia esta distinção há muito tempo. 

 

A minha opinião em relação a This is Why não mudou desde a minha análise, nem mesmo depois do álbum de remixes. Continuo a achar que é um bom álbum, mas é demasiado curto, os temas que explora não chegam a nenhuma conclusão. Pelo menos não da mesma forma que os três álbuns anteriores. Não tenho ouvido This is Why muitas vezes. Se as músicas me aparecem no aleatório, não as passo à frente e até as aprecio, mas tem sido raro pô-las a tocar por vontade própria.

 

Com duas exceções. O Spotify Wrapped e seus equivalentes confirmaram aquilo que eu já sabia: Liar e Crave são as minhas duas preferidas em This is Why. Tanto as versões originais como os remixes.

 

Aliás, Crave é para mim, a par de Lost, a música mais importante de 2023. Para começar, entra em territórios parecidos com algumas das minhas músicas preferidas de todos os tempos – Here I Am e Perfect Places sobretudo – no sentido em que a letra fala de nos agarrarmos aos melhores momentos da nossa vida. Ao mesmo tempo, como escrevi antes, 2023 foi de altos e baixos. Crave reflete-o bem no sentido em que tenho romantizado tanto as partes boas como algumas – só algumas – partes más deste ano. 

 

E, claro, é música de pós-concertos. Faz sentido que tenha sido marcante num ano em que fui a tantos.

 

Quanto aos Paramore em si, eles estão numa situação estranha neste momento. Ganharam um par de Grammys, sim, e lançaram um cover giríssimo de uma música dos Talking Heads, Burning Down the House. Ao mesmo tempo, no final do ano passado, esvaziaram as redes sociais, desativaram o site oficial e, pior de tudo, começaram a cancelar compromissos. Primeiro, foi a participação no festival iHeartRadio, em meados de janeiro. Depois, foram concertos em vários festivais de música na América do Sul, marcados para março deste ano.

 

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De início, os fãs, iguais a eles mesmos, temeram logo o fim dos Paramore. Nunca acreditei verdadeiramente nessa hipótese – depois dos últimos anos, não me parece provável que a banda termine. Pelo menos não por vontade própria. 

 

Ainda assim, andei preocupada por uns tempos. Perguntei-me se algum deles estaria doente ou se a vocalista, Hayley Williams, estaria grávida. O mais certo é ter a ver com o fim do contrato de Hayley com a Atlantic Records – o tal de oito álbuns que ela, e só ela, assinou, tinha catorze ou quinze anos. 

 

Eu não percebo nada do assunto, tenho imensas perguntas. A editora pode impedi-los de tocar em concertos? Isso é legal? Já houve quem dissesse que os Paramore teriam de dar uma de Taylor Swift e regravar toda a sua discografia – espero que não seja verdade, não tenho a mínima pachorra. Nem sequer sei se é possível, tendo em conta os membros que saíram.

 

É sempre assim com esta banda, não é? Sempre tudo tão difícil.

 

Em todo o caso, os Grammys e Burning Down the House deram-me um bocadinho de esperança para o futuro próximo. Ficamos a aguardar outros desenvolvimentos. Até porque tenho andado com medo que cancelem a participação na Eras Tour de Taylor Swift, que vai passar por cá.

 

Sei que muitos fãs da banda não andam muito contentes com esta digressão. Eu compreendo, conforme já expliquei antes. Há também quem ande preocupado com a duração da Eras Tour, pois Hayley costuma ficar doente nestas digressões longas. Aconteceu no verão passado, por exemplo.

 

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Tenho esperanças de que isso não aconteça desta vez. Eles vão só abrir concertos. A atuação deles não deve durar mais do que uma hora, e estou a arredondar para cima. Além disso, as datas parecem-me relativamente espaçadas. Há de dar tempo para recuperar. 

 

Não quero mesmo que os Paramore cancelem a Eras Tour. Como já escrevi antes, vou ao segundo concerto na Luz. Não vai deixar de ser bom se sou houver Taylor Swift, mas se não houver Paramore, depois destes meses todos sonhando com isso, será um balde de água fria.

 

E por hoje ficamos aqui. Na próxima parte vamos, então, falar da atração principal da Eras Tour. Vou fazer por não demorar muito, mas já sabem como é.

 

Obrigada pela visita. Até à próxima.

Música 2023 #1: Feels, concertos e a banda de tributo responsável pela maior parte deles

Primeira publicação de 2024! Um ano muito feliz, caros leitores. 

 

Nos últimos tempos, tem estado na moda nas internetes descrever diferentes fases das nossas vidas como eras – inspirando-nos, pelo menos em parte, em Taylor Swift. É uma coisa recente nas redes sociais, mas a verdade é que é algo que faço há já muitos anos, de certa forma. Penso em diferentes períodos da minha vida, recordo-me de filmes e séries que via na altura, da música que ouvia, em que ciclos de álbuns estavam os meus artistas e bandas preferidos. 

 

Daí este meu hábito de fazer um balanço musical no fim de cada ano aqui no blogue. É uma maneira de escrever a minha própria história, de criar um cânone pessoal, romantizar a minha própria vida. É pura auto-indulgência, provavelmente só eu é que quero saber, mas também noventa por cento deste blogue é auto-indulgência. 

 

2023 foi um ano longo e intenso, de altos e baixos. Tenho-lhe chamado o ano dos feels, um ano em que pensei demasiado, senti demasiado. Muitas emoções contraditórias ao mesmo tempo – não é a primeira vez que falo disso. Muitas delas boas, sim, e vou falar da maior parte neste texto, mas também emoções más, ansiedade. Tive alguns motivos para isso (situações pessoais, no trabalho, etc.), mas em muitos casos não há motivo, é só a minha cabeça, sou eu a fazê-lo a mim mesma. Muitas letras dos Linkin Park fazendo sentido. 

 

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Hei de regressar a essa questão na segunda parte deste balanço. De qualquer forma, grande parte das emoções boas deste ano estiveram ligadas aos concertos – 2023 foi o ano deles. Em termos musicais, o ano valeu mais por eles e menos pela música que ouvi – que, aliás, acabou por ser uma continuação de 2022, com algumas exceções. Havemos de falar sobre isso, mas antes queria dedicar a primeira parte deste balanço aos concertos a que fui. Cinco no total, cada um deles marcante à sua maneira. 

 

Não vamos seguir uma ordem cronológica, no entanto. Vamos começar pelo segundo: o de Avril Lavigne, pelo qual esperei mais de metade da minha vida.

 

Não queria que tivesse sido em Zurique, na Suíça, queria que tivesse sido por cá. Mas como aquela mulher nunca mais regressou a Portugal, eu e muitos outros fãs portugueses cansámo-nos de esperar. Em finais de 2019, comprámos bilhetes para concertos em diferentes cidades europeias. No meu caso, os bilhetes foram prenda de Natal do meu irmão nesse ano – bilhetes para mim, para ele e para a sua namorada. 

 

Ainda assim, como se já não tivessem bastado todos aqueles anos à espera, rebentou a pandemia e a digressão europeia foi adiada nada menos que três vezes – e, na minha opinião, a última vez foi desnecessária. Foi toda uma odisseia só para ver aquela mulher ao vivo.

 

E, aqui entre nós, a verdade é que, na altura do concerto, já nem estava muito muito para aí virada. Tinha outras coisas na mente… e no coração. Estava já a tratar da análise a Meteora20, o concerto dos Hybrid Theory no Altice Arena fora menos de uma semana antes e andava cheia de feels à pala disso (mais sobre isso a seguir… como já devem ter percebido pelo título). 

 

Ao mesmo tempo, quem acompanhe o meu blogue já saberá que, apesar de ainda a considerar a minha cantora preferida, a minha mãe musical, o meu entusiasmo em relação a Avril arrefeceu nos últimos anos, depois dos seus últimos dois álbuns. Sentia-me quase com síndrome de impostora, pensando que o meu eu de dez, quinze anos antes, é que merecia estar ali. 

 

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No entanto, quando Avril finalmente subiu ao palco no The Hall, quando a vi pela primeira vez na minha vida com os meus próprios olhos, em vez de através de um ecrã, juro, vieram-me as lágrimas aos olhos. Toda a gente à minha volta a cantar Bite Me e eu ali especada, rezando para que o meu irmão não reparasse. Este meme ilustra-o na perfeição. 

 

Quanto ao concerto em si, já vi melhores, mas não foi nada mau. Há anos que sei que Avril não é excelente em palco e, sobretudo após uma Doença de Lyme e já a caminho dos quarenta, não se podia exigir muito. Daí, por exemplo, o concerto ter tido tantas pausas (pena ela não ter pelo menos trocado de vestimenta). 

 

Uma coisa de que gostei foi de Avril ter convidado os músicos de abertura para regressarem ao palco e cantarem All The Small Things com ela (podia ter sido uma música dela mas pronto). Não é algo que se veja muitos artistas a fazerem. 

 

De qualquer forma, quando são músicas que adoro tanto quanto estas e o músico é simpático, faz um mínimo de esforço, para mim é suficiente. Até o meu irmão disse que se divertiu – lembrava-se da maior parte das músicas depois de eu as ter imposto lá em casa durante praticamente toda a minha adolescência e mais além. 

 

Tivemos direito a Wish You Were Here, alegadamente a pedido dos fãs, o que foi simpático. Mas claro que eu estava lá sobretudo pelos clássicos. Filmei Complicated e parte de I'm With You (e What the Hell). Ainda não estou cem por cento habituada à minha voz, mas ralo-me cada vez menos. No que toca a este concerto então, foram pelo menos dezoito anos à espera da oportunidade para cantá-las assim. Em I'm With You, então, não poupei as cordas vocais. 

 

No dia seguinte, acordei com uma enorme constipação. Foram dois concertos emotivos, bem vividos, em menos de uma semana, em dois países com climas distintos – na segunda-feira anterior fora a banhos na Costa da Caparica, três dias depois estava em Berna, com temperaturas de inverno português. Está visto que não tenho queda para estrela de rock, que faz digressões por vários países. 

 

 

Mas valeu a pena. Os anos de espera, os adiamentos pela pandemia, o frio, a constipação. Tudo. 

 

Ainda não desisti de vê-la por cá, na companhia dos restantes sobreviventes do Fórum Avril Portugal. Houve uma possibilidade há umas semanas, quando foi anunciada a presença dela em vários festivais de música na vizinhança. No entanto, não foi anunciado nada para cá até agora – cheguei a pensar que que ela viria ao NOS Alive – é pouco provável que seja.

 

Um dia.

 

No que toca a música em si, não posso dizer que tenha ouvido muita de Avril este ano, com algumas exceções. I’m a Mess continuou a subir na minha consideração. É de caras a minha preferida da era Love Sux, mesmo não primando pela originalidade, nem sequer dentro da própria discografia de Avril. 

 

Na Primavera, lançou Eyes Wide Shut, uma colaboração com Illenium e Travis Barker. Gosto muito, é uma música fixe, talvez uma das melhores letras de Avril dos últimos anos. Esta, infelizmente, confirma as minhas suspeitas em relação à atitude de Avril no que toca a romance.

 

Por outro lado, Fake As Hell, a colaboração com os All Time Low, é péssima. Acho que nem sequer cheguei a ouvir segunda vez.

 

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Quando não esteve em digressão – ou a tirar fotos com Hayley Williams, aquecendo o coração a muitos millennials como eu – Avril terá passado a maior parte do ano em estúdio. Os álbuns dela têm sempre um parto difícil, é raro termos certezas em relação a lançamentos. Desta feita, no entanto, como já temos concertos marcados, podemos assumir com alguma certeza que teremos, no mínimo, um single até ao início do verão. 

 

Depois de Head Above Water e Love Sux, não tenho expectativas para o próximo álbum. Se seguir o padrão, será um disco menos animado, mais introspetivo – mas não estou muito para aí virada. Neste momento, preferia algo intermédio, variado, semelhante ao quinto álbum.

 

Vamos agora saltar mais de seis meses, até ao concerto de João Pedro Pais. Conforme escrevi no ano passado, ele é um dos meus músicos nacionais preferidos e, sedenta de concertos como tenho andado, quando soube deste, agarrei a oportunidade. Convidei a minha tia – os bilhetes serviram de prenda de anos para ela.

 

O concerto assinalava os vinte e cinco anos de carreira de João Pedro – esse e outro, um mês antes, no Porto. O Coliseu dos Recreios esgotou para a festa. Eram lugares sentados – nada contra por princípio, mas houveram várias ocasiões em que quis dançar, pôr os braços no ar. Em Louco Por Ti, então, até queria dar headbangs (este som são certos fãs dos Hybrid Theory a rir). 

 

O concerto em si teve emoções fortes, várias surpresas – pelo menos para mim. O início foi morno, na minha opinião, até ao momento em que entrou uma figura encapuzada em palco. Fiquei a olhar sem perceber, até aquela espécie de monge templário começar a cantar Ao Passar Um Navio com a voz do Miguel Ângelo.

 

Só dias mais tarde é que percebi o significado, todo o lore que eu não conhecia. Era uma uma referência à fatiota que o João Pedro usara na final do Chuva de Estrelas (ele parece ter dezasseis anos aqui...) – fatiota essa que, por sua vez, era uma referência a Ser Maior, dos Delfins. Diz que no concerto do Porto, um mês antes, o Miguel Ângelo já tinha feito esta gracinha, apanhando o próprio João Pedro de surpresa. Estes dois concertos foram as primeiras vezes desde a tal final do Chuva de Estrelas em que os dois partilharam o palco.

 

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Antes disto, esquecia-me demasiadas vezes do quão boa é a voz do Miguel Ângelo. Fez muito bem em aparecer lá no Coliseu para nos recordar – mais sobre isso já a seguir.

 

Quem também veio dizer olá foi o André Sardet. Para um dueto em Foi Feitiço e para oferecer flores ao João Pedro – algo de que o último não estava à espera, conforme repetiu várias vezes.

 

Houveram vários outros momentos emotivos: Salvador, o filho de João Pedro, subindo ao palco para tocar Paciência com o pai; a música dedicada à mãe de João Pedro; o abraço a Manuela Eanes. Descobri também que a música És do Mundo é dedicada ao Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés. Houve um momento, perto do fim, em que o João Pedro se pôs a percorrer os corredores no meio da audiência. Passou junto a mim, mas infelizmente não me deu um high-five.

 

Fica para a próxima.

 

O concerto ainda durou quase três horas. É certo que não me pareceu muito muito exigente em termos físicos, mas mesmo assim… respeito! Justificou bem o preço dos bilhetes. Tanto eu como a minha tia gostámos muito, eu pessoalmente repetia. Será difícil tornar a apanhar um concerto como este, de quase três horas. 

 

Por outro lado, espero que o próximo seja de pé. 

 

 

Fizeram um par de reportagems sobre estes concertos – podem vê-las aqui e aqui – e a RTP transmitiu há pouco tempo o concerto do Porto. Ainda não consegui acabar de vê-lo, por acaso, mas parece ter sido semelhante ao de Lisboa.

 

Ainda assim, aqui entre nós, acho que o nosso foi melhor.

 

Naturalmente, este concerto fez-me gostar ainda mais da música do João Pedro. Continuo a adorar Louco Por Ti, continuo a adorar Uma Questão de Fé. Ultimamente tenho ouvido muito Fazes-me Falta, uma música a que pouco tinha ligado antes mas que é linda. Aquela terceira parte! 

 

Um dia destes ganho vergonha na cara e começo a ouvir os álbuns mesmo, em vez de só ligar aos singles.

 

Com isto tudo, passei o bichinho à minha tia. Poucos dias depois daquela noite, comprámos bilhetes para o concerto de quarenta anos dos Delfins, no Altice Arena – foram a minha prenda de Natal. A participação do Miguel Ângelo no concerto do João Pedro foi um bom investimento, rendeu-lhe um par de bilhetes.

 

Além disso, terá um gosto especial pois, se bem me recordo, foi em casa dela que ouvi o CD Saber A Mar pela primeira vez – eu devia ter sete ou oito anos – e convenci-a e ao meu tio (quando ainda eram casados) a oferecer-nos um exemplar. 

 

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Tenho estado a rever a matéria para esse concerto nas últimas semanas, sobretudo precisamente o álbum Saber A Mar. Já não ouvia algumas destas músicas há vinte anos, talvez mais. São melhores do que me recordava – a Sofia de oito anos já tinha bom gosto. 

 

Calculo, assim, que a música dos Delfins terá papel de destaque no balanço musical de 2024. Estou ansiosa pelo concerto – e aviso desde já que não respondo por mim quando eles tocarem 1 Lugar Ao Sol

 

Agora e durante o resto desta parte vamos falar dos três concertos que restam. Foram todos da mesma banda, mas cada um teve um impacto diferente. 

 

Já mal me lembro de quem eu era na manhã do dia 15 de abril. Releio o meu balanço musical de 2022 e mal reconheço a pessoa que o escreveu.  Antes de os Hybrid Theory, a banda portuguesa de tributo aos Linkin Park, terem entrado na minha vida – através do concerto que eles deram no Altice Arena. Eles publicaram a transmissão desse concerto no YouTube no mês passado e ainda bem que o fizeram. Já me tinha esquecido de grande parte dele. Foi tão, mas tão bom!

 

E a verdade é que a noite de 15 de abril deu início a todo um arco de personagem, toda uma jornada que durou o resto do ano, que ainda continua. Já escrevi sobre esse concerto, como poderão ler aqui. A versão ultracondensada é que adorei, mas essa noite, juntamente com Meteora20, reabriu feridas relacionadas com a perda de Chester Bennington e andei triste por uns tempos por causa disso. 

 

Além disso, precisei de algum tempo – não muito – para perceber ao certo o que sentia em relação aos Hybrid Theory. Em parte porque foi a primeira banda de tributo, ponto, que conheci, não sabia como era ser fã de uma. Em parte por todas as emoções relacionadas com a morte de Chester e o hiato dos Linkin Park.

 

 

Correndo o risco de soar defensiva… os Hybrid Theory fazem um excelente trabalho recriando o espetáculo de uma banda em pausa. São muito parecidos com os membros “originais” desta banda. O vocalista, Ivo Massana, em particular, tem a voz idêntica à do vocalista “original”, falecido demasiado novo e de quem sentimos tanta falta. Acho que não fui a primeira nem fui a última pessoa sem saber o que sentir. 

 

E de qualquer forma as ambiguidades não duraram muito. Descobrir mais sobre eles, ler os artigos, ouvir as entrevistas, ajudou a desatar os nós. Sentir o respeito deles pelo legado dos Linkin Park, ouvir o Ivo dizer que não gosta de ver vídeos comparando-o com Chester. E ajudou escrever sobre o concerto no Altice Arena e sobre eles.

 

A infame terceira parte da análise a Meteora, que referi há pouco… Sabem o medo que eu tinha de publicá-la? Para começar, foi escrita com o coração na ponta da caneta como nunca tinha escrito antes. Depois, tinha medo que os membros dos Hybrid Theory dessem com essa terceira parte e não adorassem o facto de falar sobre eles e depois passar o resto do texto a chorar por Chester. Tinha medo que sentissem que estava a culpá-los pela minha tristeza. 

 

Pois bem, não precisava de me ter preocupado pois a reação a este texto foi fantástica. Incluindo da parte dos próprios Hybrid Theory. O DJ Dani Pimenta partilhou-o no Facebook dele e o Ivo fez uma story no Instagram, como poderão ver abaixo (aquela era uma foto que eu publicara na página deste blogue uma semana ou duas antes). Quando vi esta última, então, estava sozinha mas acho que corei. E pode ou não ter havido uma lágrima ou outra. 

 

Depois desta fiquei tipo “Bolas, agora tenho de retribuir”. E o concerto seguinte mais perto de mim seria no festival Lendas do Rock, na Quinta da Marialva em Corroios, no dia 20 de julho (de todas as datas possíveis…). 

 

Demorei semanas a decidir-me. Mesmo depois de comprar bilhete, só quase no próprio dia é que tive cem por cento de certeza de que ia. Para começar, era num sítio que eu não conhecia (em junho, fiz questão de tirar uma tarde de sábado para visitar a Quinta da Marialva, mesmo para saber o que esperar). O concerto era num dia de semana, os HT atuariam tardíssimo – podia pedir para entrar mais tarde no trabalho, no dia seguinte, mas tinha algum medo de conduzir à uma ou duas da manhã. Por fim… estava com medo de abrir a ferida outra vez. 

 

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Por outro lado… eu tinha de voltar a vê-los, tinha de lhes agradecer pessoalmente se conseguisse – nesta altura, já sabia que os membros dos Hybrid Theory costumavam receber os fãs depois dos concertos. 

 

Além disso, era no fucking dia 20 de julho, o sexto aniversário da morte de Chester – que, ainda por cima, calhou a uma quinta-feira, o mesmo dia da semana que em 2017. Seria sempre um dia difícil para mim, sobretudo depois da recaída de meses antes. 

 

Era como no final da primeira temporada de Ted Lasso. Das duas uma: ou ficava triste em casa, ou ficava triste num festival de música, entre outros fãs de Chester e Linkin Park, também eles com saudades. 

 

E talvez nem estivesse triste. Corria o risco de me divertir, de curtir a música que Chester nos deixou, homenageando-o da melhor forma possível. De criar recordações felizes para este dia, para as funcionalidades de memórias dos Facebooks desta vida. 

 

Bem, tecnicamente, o concerto começava depois da meia-noite, já dia 21. Também servia, eram os anos do Ivo – outra coisa para reduzir a tristeza da efeméride. 

 

Escolhi não ficar sozinha.

 

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Assim, fui às Lendas do Rock no dia 20 e correu tudo bem. Mais do que bem. Era um festival de bandas de tributo e os Hybrid Theory eram cabeças de cartaz naquela noite. Fiquei na fila da frente, onde conheci pessoalmente outros membros do grupo de fãs dos HT. Não muitos, infelizmente – mais ou menos de esperar, era noite de semana.

 

As primeiras bandas deram para entreter e até para me divertir. Os de que mais gostei foram dos Black Metallica – pena não terem tocado Whiskey in a Jar. Ainda os HT não tinham subido ao palco e eu já estava de pescoço dorido. 

 

Mas os Hybrid Theory são outro nível, não se compara. Como disse acima, houveram partes do concerto do Altice Arena de que eu já me tinha esquecido e soube bem recordá-las assim. Ao mesmo tempo, apesar do que passara nos meses anteriores, apesar de ser dia 20 de julho, não houve tristeza nenhuma (só durante One More Light e mesmo assim). Pelo contrário, não me lembrava da última vez que me sentira tão feliz. 

 

Ainda assim, ainda não estava habituada à voz do Ivo, às semelhanças nalguns gestos e expressões. Ainda não estou, na verdade.

 

E não sei se me quero habituar.

 

Destaque para o momento em que cantámos rapidamente os Parabéns ao Ivo no início de One More Light. Mas para mim o ponto alto do concerto foi durante In the End. Calhou estar a filmar e… bem, vou deixar as imagens falarem por si.

 

 

Como se não bastasse, apareço numa fotografia profissional do momento. Um luxo!

 

Mas os momentos marcantes não ficaram por aqui. Depois do concerto, continuava a querer falar pelo menos com o Ivo… mas estava cheia de vergonha. Teve de ser a Sandra Sousa, do grupo de fãs, a chamar-mo (super grata!), quando estavam a arrumar as coisas em palco. Eram os anos dele, aquele era o primeiro de três concertos em três dias em quase literalmente três cantos do país (Corroios, Faro e Funchal). Foram só cinco minutos, eu nem quis tirar foto mas não levava a mal se o Ivo dissesse que não. 

 

Mas não disse e eu fico muito grata. 

 

Lá lhe agradeci pela partilha do texto do blogue – provavelmente gaguejei, já não me recordo. Eu tinha ensaiado aquela conversa na minha cabeça algumas vezes nas semanas anteriores. Nunca imaginei a resposta dele. 

 

–  Como é possível alguém ter tanta palavra?

 

Eu ri-me.

 

– História da minha vida – disse-lhe eu, e é verdade. É algo que podia ter sido dito por alguém da minha família, por amigos meus, gente que me conheça há anos. De onde acham que vem o nome do blogue? Naturalmente, passou a ser o novo slogan cá do estaminé.

 

Depois desta, despedimo-nos, desejei-lhe um dia feliz e o meu coração nunca mais arrefeceu.

 

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(fonte)

 

Eis uma coisa (entre muitas, na verdade) que não estava no meu bingo para 2023: a noite do aniversário da morte do Chester foi das mais felizes do ano. Gostava que passasse a ser um ritual anual. Claro que nem sempre irá dar, mas este ano o dia 20 calha a um sábado. Se derem um concerto nesse dia (estou a contar com isso porque 20 de julho) e for em Portugal Continental, talvez seja possível.

 

Penso que foi depois das Lendas do Rock, mais ou menos, que comecei a ficar mais ativa no grupo de fãs. Estávamos no verão, os HT andavam em digressão por todo o país, haviam inúmeras fotos e vídeos para partilhar. Começámos a conversar no Messenger, primeiro sobre a banda, claro, depois sobre outras coisas: fotos do que comíamos, como no início do Instagram, disparates variados. Quando dei por mim, estava a falar online todos os dias com uma mão cheia deles, a ir a convívios com eles, a fazer amizades! Algo que continua até agora. 

 

Ao mesmo tempo, depois de Corroios, só queria mais e mais Hybrid Theory. A oportunidade seguinte seria a Semana Académica de Lisboa… até a cancelarem. Foi uma situação horrível, um balde de água fria coroando um mês de setembro que não me correu bem. Nem quero falar muito sobre isso, leiam mais pormenores aqui (ainda estamos à espera do reembolso). 

 

Entretanto, ainda antes deste cancelamento, foi anunciado um concerto no Pavilhão Multiusos de Gondomar para o dia 2 de dezembro. Comprei bilhete quase de imediato, para o Golden Circle. Sim, foi em Gondomar, a mais de trezentos quilómetros de casa, mas este seria o mais parecido que teríamos a uma repetição do Altice. Além disso, o cancelamento do SAL só aumentou ainda mais os desejos de vitamina HT. 

 

Agora que penso nisso, esta não foi a primeira vez que fiz uma visita-relâmpago à zona do Porto para ter uma das noites mais felizes da minha vida. Curiosamente, nessa ocasião também acabei num almoço nos arredores de Coimbra, no dia seguinte. 

 

Os mais de dois meses de espera foram longos e difíceis, mas ao menos serviram para ir cimentando as amizades novas com o pessoal do grupo de fãs. De tal forma que a festa não foi só a noite de sábado, foi o fim de semana inteiro. Já conhecia pessoalmente alguns dos fãs de outros convívios, outros foi a primeira vez, mas gostei de estar com todos. Pude finalmente conhecer o JLee, o fundador do grupo de fãs e um amor de pessoa. Já pude voltar a ver alguns deles depois de Gondomar, mas não deixo de ter saudades desse fim de semana.

 

Mas falemos sobre o espetáculo em si. Como referi antes, fiquei no Golden Circle, tal como a larga maioria do grupo, na fila da frente. Vimos o tributo aos Korn. A música não me diz muito, mas eles não foram maus, deram para aquecer. 

 

 

Mas, claro, tal como em Corroios, eu estava lá para os Hybrid Theory e eles não desiludiram quando, finalmente, subiram ao palco. Houve pirotecnia (também tinha havido no Altice Arena, mas aí fiquei bem mais longe do palco) e, na fila da frente, começámos a ser assados logo com Burn it Down.

 

Se bem que, nos dias frios que temos tido, os lança-chamas até têm feito falta.

 

O alinhamento não foi radicalmente diferente do costume – diz que eles criam um por ano – e mesmo assim teve algumas novidades. Regressaram Don’t Stay e Shadow of the Day – desta vez sem Virgul porque, pela minha sondagem, só mesmo eu e a minha irmã é que gostámos. Tocaram Figure.09, o que me agradou. Na verdade, alguns de nós tivemos spoiler disso umas horas antes. Conseguimos ouvi-los do lado de fora do Multiusos, tocando-a durante o soundcheck.

 

Por outro lado, tive pena que tivessem cortado Crawling e Leave Out All The Rest. Talvez não quisessem abrandar demasiado o ritmo – até porque One More Light arrancaria lágrimas suficientes. Também não tocaram From the Inside nem Somewhere I Belong, mas com essas importo-me menos.

 

Momento engraçado quando o Ivo se trocou todo com Lost, como poderão ver no vídeo acima/abaixo: repetiu a primeira estância em vez de cantar a segunda. 

 

Enfim, não foi grave (acho que uma boa parte do público nem percebeu, sorte ter sido uma música mais “recente”), teve piada. Por algum motivo está o YouTube cheio de compilações de bloopers em concertos – dos Linkin Park e não só. Como se costuma dizer, só acontece a quem faz – e no que toca a Lost ao vivo, praticamente ninguém faz. Não a este nível.

 

 

Mesmo assim, não resisti a ser má, mais tarde. Já explico. 

 

Uma das minhas preferidas neste concerto foi Faint, por dois motivos. Primeiro, pelo Miguel Martins, que veio tocar para junto de nós. Ele apareceu no meu vídeo, este mostra outra parte. 

 

Foi também pelo Dani. De toda a banda, ele será o que menos se comporta como o seu homólogo, Joe Hahn (corrijam-me se estiver enganada), mas eu prefiro assim. O homem dá cá um espetáculo! Podia passar o concerto todo a vê-lo dançar e a abanar o capacete.

 

E falando de abanar o capacete… aparentemente surpreendi quase toda a gente do grupo de fãs quando deixei sair o meu lado mais metaleiro. Até compreendo a confusão. Na maior parte do tempo sou uma betinha: calminha, introvertida, de poucas palavras. Acho que, com os anos, me deixei influenciar por músicos como Hayley Williams, famosa pelos seus headbangs. Ou então, pura e simplesmente, adoro concertos, adoro música, ponto – o que não surpreende quem dê uma vista de olhos a este blogue. Gosto de senti-la, de vivê-la com o meu corpo. E essa paixão só tem aumentado com o tempo – ou então sou eu que me vou sentindo cada vez mais confortável na minha própria pele. Também suspeito que parte disso será vingança pelos cancelamentos durante a pandemia.

 

Aliás, acho que não é a primeira vez que o refiro, esta paixão começou no Rock in Rio de 2008, com os Linkin Park. É também por isso que me afeiçoei tanto aos Hybrid Theory: porque permitem-me prestar homenagem a isso.

 

Em Gondomar, então, dei-lhe tão forte que, depois do concerto, fiquei com a cabeça pesada, a andar à roda. Tanto headbang deve ter sido demais para o meu ouvido interno. 

 

Zero arrependimentos.

 

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Foi nessa altura que os membros da banda nos receberam. Pude dar um beijo ou abraço a cada um deles, outra coisa que me aqueceu o coração de uma maneira parva – sobretudo depois de tudo o que aconteceu desde o concerto no Altice Arena. Isso e as duas fotos que tirei, sobretudo a segunda, com a banda e praticamente todo o grupo de fãs – a família toda. 

 

Pelo meio, ainda me virei para o Ivo, mostrei-lhe a página do Genius e perguntei-lhe:

 

– Queres que te mande o link?

 

Acabámos os dois a rir. Mais tarde senti-me um bocadinho culpada pelo roast, de tal forma que, quando fiz publicações nas redes sociais, fui menos má. 

 

Ainda assim, a Ana Luísa do grupo de fãs brasileiros foi ainda pior do que eu. Vale a pena ler os nossos comentários neste reel – até porque o próprio Ivo se juntou à festa. 

 

O que me leva a outra das minhas partes preferidas do ritual de um concerto HT: as publicações nas redes sociais nos dias seguintes. Até porque os rapazes fartam-se de partilhar as nossas stories do Instagram. É bom, recordamos momentos felizes em conjunto com quem esteve lá, partilhamos parte da experiência com quem não pôde estar, adiamos o início da depressão pós-concerto.

 

Em suma, um fim-de-semana inesquecível. A maneira perfeita de encerrar o ano.

 

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Nesta fase, há muito que desisti de racionalizar a questão dos Hybrid Theory. Não os confundo com os Linkin Park, são uma banda diferente – são literalmente uma banda tributo. Tirando isso, não preciso de justificar mais nada. Compreendo que nem toda a gente goste mas, respeitosamente, quem não gosta come menos. Eu cá adoro-os, eles têm sido simpáticos comigo (mais até), deram-me três concertos fantásticos e encontrei uma família entre os seus fãs. Direta e indiretamente, têm-me feito dar passos para fora da minha zona de conforto, revelado novas facetas minhas, despertado tantas emoções – das boas – em mim. 

 

Aliás, se me permitem, esta está a ser uma história lindíssima, quase poética, chega a ser caricata. Há pouco menos de um ano estava a comprar bilhetes para o Altice Arena às cegas, sem pensar bem no que estava a fazer, sem saber o que esperar. “Há de ser giro, dizem que eles são bons.” Imaginava lá eu tudo o que esta simples decisão desencadeou. 

 

Nem sempre foi fácil, sobretudo aquelas semanas de recaída nas saudades de Chester, em que até In the End me deixava com um nó na garganta. Continuo a achar que foi um exagero da minha parte. Dito isto, passaria por tudo outra vez, não me arrependo de uma lágrima que seja. Tudo isso me levou até aqui. Os Hybrid Theory foram a melhor coisa que me aconteceu em 2023.

 

E, lá está, já não é só pela própria banda – é também pelas pessoas que conheci graças a eles. Chamo-lhe a família HT. Sou mais próxima de alguns deles do que outros, não vivemos assim tão perto uns dos outros, não nos vemos assim tantas vezes – mas temo-nos uns aos outros.

 

Não é muito diferente do que acontece com a minha família biológica, na verdade.

 

Por essa parte temos de agradecer ao JLee. Já o fiz pessoalmente, mas nunca é demais repeti-lo. Graças ao JLee, os Hybrid Theory são mais do que uma banda: são uma família. Falando por mim, já não é só pelos próprios rapazes e pela experiência Linkin Park que vou continuar a ir aos concertos, dentro das minhas possibilidades. Será também para estar com estas pessoas.

 

 

Claro que fica sempre aquela mágoa por os próprios Linkin Park não estarem no ativo, por o Chester não estar cá para ver a sua música ainda unindo pessoas, ainda conquistando fãs, incluindo de palmo e meio. Ninguém queria que tivesse de ser assim, todos temos saudades. Dito isto, a par da maior sensibilidade para questões de saúde mental, isto está a ser a melhor coisa a nascer da tragédia. E eu não conheço melhor forma de homenagear Chester, de, hashtag, deixá-lo orgulhoso.

 

E a história vai continuar daqui a menos de duas semanas, em Amiais de Baixo. E noutros concertos depois desse, ainda por marcar. Não sei o que o futuro reserva para os Hybrid Theory (ou para os Linkin Park), mas, enquanto eles continuarem, eu continuo.

 

Com tudo isto, em termos de música em si, Linkin Park foi uma das bandas que mais ouvi em 2023. Em parte por causa de Meteora20, mas também por causa dos Hybrid Theory. Músicas que não andava a ouvi tanto nos anos anteriores que reentraram na minha cabeça. Músicas que ganharam facetas novas depois de ver e/ou ouvir o que os HT fazem com elas. 

 

Sharp Edges, que eles têm usado para encerrar os concertos, será porventura o exemplo mais óbvio. Por outro lado, antes de 2023, não contava ouvir One More Light ao vivo nem o desejava particularmente. Mas é sempre um ponto alto nos concertos dos Hybrid Theory. Descobri, aliás, que o grito de “I do!” no meio é super catártico. 

 

Por outro lado, passei uma boa parte do ano obcecada pelo cover que os rapazes fizeram de Iridiscent. A música original não está entre as minhas preferidas, mas esta versão ficou linda. 

 

Espero que eles criem mais versões destas no futuro.

 

 

Por fim, nós, na família HT, somos todos fãs de Linkin Park, claro. E, naturalmente, de vez em quando falamos sobre as nossas músicas preferidas.

 

De Linkin Park e não só, na verdade. Hei de falar sobre isso na segunda parte deste balanço, mas tenho-me deixado influenciar pelas sugestões do pessoal do grupo. E vice-versa, na verdade. É uma das maneiras mais bonitas de descobrir música nova. 

 

Lost foi a minha música número um, tanto no Spotify Wrapped como no meu Last.fm – até mesmo no YouTube Music. Faz todo o sentido. Foi a música que deu o pontapé de saída para a era Meteora20 e marcou a minha história com os HT – porque, ao contrário da maioria dos fãs de Linkin Park, já tive o privilégio de ouvi-la tocada ao vivo. Três vezes.

 

Pode-se discutir se é das melhores dos Linkin Park (acho que sim, pelo menos top 20) ou mesmo se é a melhor do baú de Meteora (acho que sim, mas há quem discorde). Para mim vale, não só pelos méritos próprios, mas também pelo que representa, pelas emoções que despertou em tanta gente. É a minha música preferida de 2023. 

 

E por hoje fico por aqui. A segunda parte deste balanço também falará de feels e concertos (neste caso, concertos futuros), mas será mais convencional, mais focada em música propriamente dita. Ainda deverá demorar um bocadinho, claro, mas não é grave. Desde que não ultrapasse o recorde do ano passado, em que só consegui terminar o balanço de 2022 em finais de fevereiro.

 

Uma vez mais, obrigada Hybrid Theory, banda e família. Obrigada também a vocês, caros leitores. Continuem por aí. 

Músicas Não Tão Ao Calhas – Sanity

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No passado dia 6 de outubro, os Paramore lançaram Re: This is Why, um álbum de remixes das músicas de This is Why, editado em fevereiro deste ano. Este é essencialmente o Reanimation dos Paramore. Os membros da banda enviaram as faixas a músicos que os influenciaram e/ou com quem se dão bem para eles as reinterpretarem como melhor entendessem. O álbum inclui também uma canção inédita chamada Sanity.

 

Nunca esperei uma destas da parte dos Paramore. Não é algo que eu necessariamente desejasse. No entanto, até foi uma surpresa agradável, algo diferente e interessante.

 

Gosto da maior parte das novas versões, em geral. Por sinal, aquelas de que menos gosto são das canções de que menos gosto no álbum original: Running Out of Time (ainda por cima são duas) e Big Man Little Dignity. Imenso respeito por Zane Lowe, mas o remix dele é exatamente do género de que nunca gostei. O outro, de Panda Bear, não é tão mau. A letra tem os seus momentos. Mesmo assim… ficou secante.

 

Quanto ao de Big Man Little Dignity, basicamente apenas mudaram o acompanhamento. Não ficou bem, na minha opinião. Como disse antes, não gosto muito da versão original, mas o acompanhamento até tem partes bonitas. O remix nem isso tem. 

 

Acho que os outros ficaram melhores. O de The News, com as Linda Lindas, não ficou radicalmente diferente, mas as vozes adicionadas deram um tom reacionário à música, à riot grrrl. O remix de Figure 8 ficou bastante diferente – Bartees Strange transformou-a essencialmente numa música da Lorde, com voz masculina. 

 

You First também ficou fixe. Como vimos antes, a música original é sobre conflito entre o lado bom e o lado mau de uma pessoa. Nesta reinterpretação, a letra toma a perspetiva do lado mau. Por sua vez, Crave e Thick Skull são covers, basicamente. São interessantes, gosto em particular do primeiro, mas as versões originais são melhores.

 

 

A minha preferida, no entanto, é a nova versão de Liar. Esta é a única que, na minha opinião, rivaliza com a versão original.

 

Como comentámos antes, a Liar original é uma balada acústica com elementos atmosféricos. O que Romy e a co-produtora Francine Perry fizeram foi essencialmente transformar Liar numa balada atmosférica com elementos acústicos. Não contrasta com a interpretação vocal de Hayley Williams – pelo contrário, até a favorece. Romy também acrescentou versos da sua autoria, também eles dentro do tema de relutância em relação ao amor. Ficou linda.

 

Continuo a gostar imenso da Liar original. Ainda agora saiu um episódio do podcast Song Exploder em que os Paramore falam dela. Não a trocaria pelo remix. Mas é a melhor de todas as reinterpretações.

 

Pergunto-me os Paramore tocarão algumas destas novas versões ao vivo, em concertos futuros. Talvez as toquem com os respetivos músicos. 

 

Mas o principal tema deste texto é mesmo Sanity. Não sem antes explicar o contexto, a sua backstory. A música foi referida pela primeira vez em 2018, num artigo que Hayley escreveu para a Paper Magazine sobre os seus problemas de saúde mental. Na altura, Hayley encontrara pouco antes uma nota no seu telemóvel com os versos da primeira estância de Sanity – e quase chorara. 

 

Supostamente, estes versos foram escritos algures no fim do ciclo do Self-Titled. Antes de o piano ter caído em cima de Hayley, antes de a batata quente lhe ter rebentado nas mãos. Por outras palavras, antes de Jeremy Davies ter deixado os Paramore de forma litigiosa e antes de o, na altura, noivo de Hayley a ter traído, supostamente – os dois eventos que terão desencadeado o episódio depressivo que inspirou a larga maioria de After Laughter. Segundo Hayley, estes versos foram o primeiro indício trágico do que aí viria, o primeiro sinal do seu subconsciente de que algo não estava bem.

 

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É interessante ler este artigo hoje, depois da era Petals For Armor. Em 2018, Hayley estava ainda no início da sua jornada, mas já falava de ignorar sinais do seu subconsciente, de reprimir partes de si mesma, as partes de si que escrevem as letras. Ela mesma deu o exemplo: escrevendo a letra de Forgiveness sobre não conseguir perdoar, mas indo para a frente com o casamento. 

 

Nunca esperei que os Paramore lançassem a música. Quando escreveu o artigo, Hayley disse que não chegaram a terminar a música e eu nunca mais pensei nela. Assumi que nunca tinham ido além desses versos. Foi, assim, uma surpresa quando o título Sanity apareceu no alinhamento de Re: This is Why. Tal como muitos fãs, associei-a de imediato ao versos do artigo de 2018. E tínhamos razão.

 

Não se sabe ao certo quando é que Sanity foi composta na sua totalidade, mas parece ter sido gravada durante os trabalhos de This is Why. Sim, a música tem imensas semelhanças com o estilo de After Laughter, nomeadamente o ritmo dançante e alegre enquanto se canta sobre temas sérios. Mas a produção é menos polida, mais industrial, indiciando o estilo de This is Why. Sanity, no entanto, não se encaixa das temáticas do sexto álbum dos Paramore, daí ter sido deixada de fora. Já acho estranho, aliás, terem-na incluído em Re: This is Why – mais sobre isso já a seguir. Hayley disse que tinham Sanity pendurada há muito tempo até terem encontrado “um lar” para ela.

 

A letra de Sanity parece falar, assim, de alguém que se encontra à beira do precipício, a sentir o escuro a chamá-la, à beira de perder o controlo. Nunca sofri de depressão, mas acho que sei o que é isto. 

 

No one’s home but the void is loud, echoes around my empty house”. Às vezes fico presa à minha própria cabeça, sobretudo se estou sozinha. Se não tenho cuidado comigo mesma, começo a catastrofizar, a pensar em todas as maneiras, reais ou imaginárias, em como estou a falhar na vida. 

 

 

Synapses are slowing down” parece aludir a um sintoma muito comum na depressão: falta de energia. A mim, às vezes acontece-me quando estou muito ansiosa, por paradoxal que pareça: ficar sem energia, ficar com sono. Passei um dia assim há coisa de mês e meio… não foi divertido. 

 

Felizmente passou, resolveu-se. Se fosse mais grave, teria pedido ajuda. 

 

Por outro lado, a segunda estância – “levity, fill me up, let me flow. I’ll let you take care of me, you can help me let go” – descreve bem o conceito do álbum e da era After Laughter: leviandade, músicas alegres sobre assuntos muito sombrios, auto-depreciação. A forma que Hayley e o resto dos Paramore arranjaram para lidar, na altura. 

 

Foi a forma mais saudável? Discutível. A curto/médio prazo terá ajudado e sempre resultou num excelente álbum. Mas, tal como já foi comentado cá no blogue, a certa altura Hayley teve de parar e enfrentar estes problemas como deve ser.

 

A terceira parte da música – “Finally I have arrived”. Suponho que seja sobre o momento em que finalmente o piano lhe cai em cima, em que finalmente é atingida pela depressão. E é um lugar sem calor, sem vida – “and there is nothing to see”, “and there is nothing to breathe”

 

É uma música muito interessante, mesmo ignorando o contexto. O único problema é que acho que não faz sentido no contexto de This is Why. Na minha opinião, os Paramore deviam tê-la guardado para uma reedição de After Laughter – num aniversário ou assim. 

 

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No entanto, não me vou queixar por os Paramore não terem querido esperar tanto tempo para partilharem esta música connosco. Sempre me deu algo sobre que escrever.

 

Tal como já tínhamos referido depois de falarmos sobre This is Why, a esta hora os Paramore estarão em estúdio – pelo menos até aos seus concertos na Austrália. Alguns fãs especularam sobre uma edição Deluxe de This is Why, com faixas extra gravadas agora. Depois de Re: This is Why, no entanto, acho pouco provável. Mais provável lançarem um EP ou mesmo um novo álbum. Continuamos à espera.

 

Antes de terminarmos, queria só deixar uma nota rápida sobre o recente single dos Sum 41, Landmines. O primeiro de Heaven :x: Hell, finalmente. Corrijam-me se estiver enganada, mas é a primeira vez em imenso tempo que eles lançam uma música neste estilo mais pop punk, não é? A última vez foi em 2007, com Underclass Hero, não foi?

 

Não é a sonoridade mais original, admito. Sobretudo com aqueles “whoa!” depois do refrão. Mas gosto à mesma.

 

Os Sum 41 anunciaram há uns meses que irão dissolver a banda no próximo ano, após o ciclo deste álbum. Na altura fiquei triste, claro, mas – indo por aí outra vez – depois do que aconteceu com Chester Bennington e os Linkin Park, não é isto que me vai tirar o sono. Desde que esteja toda a gente viva e a dar-se bem com os colegas, não me queixo. O importante é ter saúde.

 

Eu já tinha aprendido essa lição, mas Deus Nosso Senhor mesmo assim sentiu necessidade de reforçar essa ideia. 

 

 

Para começar, Dave Brownsound Baks, o guitarrista, teve de lidar com um tumor maligno – que felizmente foi removido antes que pusesse causar estragos. 

 

Mais tarde, em setembro, Deryck Whibley, o vocalista, apanhou Covid e acabou por evoluír para uma pneumonia. Chegou a falar-se em insuficiência cardíaca e eu assustei-me. “Deryck, não te atrevas…” Talvez tenha sido exagero da minha parte, talvez estivesse escaldada e com medo de água fria. Mas, em minha defera, este não foi o primeiro susto que Deryck que nos pregou.

 

Felizmente tudo se resolveu, os Sum 41 já atuaram no festival When We Were Young e tudo. Diz que Heaven :x: Hell sai na próxima primavera. Ficamos à espera.

 

Não sei quando é que volto a publicar aqui no blogue. À hora desta publicação, The Beginning, o filme de Digimon 02, sequela a Kizuna, estará prestes a sair nos Estados Unidos. Devo conseguir vê-lo em breve. Será um novo desafio para o meu coração, que tem passado por muito este ano… Por outro lado, vai ser bom mudar um pouco o registo aqui no blogue. Ainda não sei quando conseguirei publicar a eventual análise a esse filme – antes do fim do ano será difícil. Provavelmente, terei de interromper para escrever o balanço de fim de ano – este deverá ser mais curto. 

 

Logo se vê.

 

Como sempre, obrigada pela vossa visita. Deem uma espreitadela à página de Facebook deste blogue. Continuem por aí. 

Músicas Não Tão Ao Calhas – Already Over

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No passado dia 6 de outubro, Mike Shinoda – fundador dos Linkin Park, homem de múltiplos ofícios artísticos e musicais e uma das minhas pessoas favoritas do mundo da música – lançou o single Already Over, uma canção a solo. 

 

Eu chamo-lhe single, mas Mike tem preferido falar de um “capítulo”. Um meio termo entre single e álbum. Algo lançado com tanta pompa e circunstância como um álbum, ou quase, mas sem correr o risco, que às vezes se corre com os álbuns, de que algumas músicas não-singles não recebam a atenção que merecem. 

 

Consigo entender a lógica. No que toca ao seu trabalho a solo, Mike sempre fez esforços nesse sentido. Veja-se Post Traumatic, em que todas as músicas (da edição-padrão) tiveram direito a videoclipe – ainda que Hold it Together só tenha chegado este ano. Julgo que Mike queira que Already Over, e quaisquer outras músicas que lançar depois, tenham cada uma uma mini-era, com uma estética própria, videoclipe (apesar de ainda não ter saído o de Already Over, à hora desta publicação) e sessões como a que fez com músicos australianos – mais sobre isso já a seguir. No fundo, dando-lhes oportunidade para causarem impacto.

 

Já se sabia há algum tempo (eu referi-o no meu texto sobre Meteora20) que Mike andava a criar música para si mesmo, depois de ter passado um par de anos, mais coisa menos coisa, compondo e produzindo para outros músicos. A certa altura, Mike terá sentido de novo o bichinho e quis criar música para si mesmo.

 

Tecnicamente, In My Head, que saiu há uns meses, é um exemplo disso, mas é um dueto com Kailee Morgue. Por sua vez, com Already Over, houve quem colocasse a hipótese de convidar alguém, mas Mike rejeitou-a e fez tudo sozinho. Compôs, produziu, tocou todos os instrumentos… e cantou. 

 

Esta será a parte mais importante de tudo: Mike cantando, cantando a sério, sem abusar do auto-tune ou de outros efeitos semelhantes, como em demasiadas músicas a solo dele. Durante muito tempo, demasiado, Mike não pareceu ter grande confiança na sua voz. Compreende-se, pelo menos em parte: qualquer um trabalhando durante tantos anos com Chester Bennington teria complexos de inferioridade. 

 

 

No entanto, Mike sempre se subvalorizou. Um dos meus aspectos preferidos dos álbuns mais recentes dos Linkin Park são as partes em que Mike e Chester harmonizam nos vocais – saudades. Mas também tivemos Sorry for Now no One More Light e Massive no Meteora20. Entretanto, descobri há pouco tempo No Roads Left, uma B-side de Minutes to Midnight que devia ter sido incluída no alinhamento principal – provavelmente o melhor desempenho vocal de Mike até ao momento.

 

Em todo o caso, no ano passado, Mike ter-se-á apercebido de que poderia aprender a cantar, desenvolver os seus dotes vocálicos e compôr música adequada à sua própria voz – tal como compõe música para as vozes de outros cantores (Chester, John Legend, Demi Lovato, etc). As expressões dele no vídeo acima enquanto explica isto dão-me vontade de rir – este totó levou décadas a descobrir que sabe cantar.

 

Dito isto, se Mike tivesse acreditado em si mesmo como cantor há coisa de vinte e cinco anos, depois de Mark Wakefield ter deixado os Xero, ele, Brad e os outros não teriam sentido a necessidade de procurarem um vocalista. Ou seja, não teriam conhecido Chester (mais sobre a génese dos Linkin Park aqui).

 

Olhemos, então, para Already Over. Confirma-se o que Mike dissera antes sobre regressar às raízes, sobre os fãs dos Linkin Park ficarem contentes. Esta é uma música rock (rock alternativo, segundo dizem), guiada pela guitarra elétrica – aparentemente a mesma de What I’ve Done. Gosto muito da bateria – Mike terá aprendido a tocá-la há pouco tempo. Diz que a editou em estúdio para soa bem… mas pergunto-me se será cem por cento verdade ou se está a ser modesto. 

 

A letra não é nada de extraordinário. Não é má, é apenas algo vaga e superficial. Basicamente sobre alguém que não tem noção do mal que faz. O narrador não sabe se é arrogância, ignorância, ilusão, uma mistura de todas. Mike deu a entender em entrevista que, na hora de escrever letras, por defeito, assume temas semi-sombrios como estes. Sempre foi assim – basta olhar na diagonal para a discografia dos Linkin Park.

 

Não é grave, mas nesse sentido perde em relação a In My Head, Happy Endings ou mesmo fine. Estas têm letras mais interessantes, mais autênticas. Pelo menos no que diz respeito a mim. 

 

 

Infelizmente, temos aqui outro exemplo de um refrão circular (que começa e acaba com o mesmo verso). Como poderão ler em textos recentes, é algo a que ganhei alergia nos últimos anos. Não chega a estragar a música, atenção, mas é a parte de que menos gosto.

 

O melhor de Already Over é mesmo o desempenho vocal de Mike. A versão de estúdio está menos produzida que outros temas (demasiados) a solo dele, mas os efeitos adicionados até são interessantes: um eco fantasmagórico no início da segunda parte, o coro no início do último refrão.

 

Ainda assim, a voz de Mike ficou ainda mais evidente nas sessões de Sydney, com músicos australianos. O vídeo foi publicado no dia 18. Aqui, a voz de Mike não teve produção nenhuma (isto é… penso eu), podemos ouvi-la em estado puro e… ficou fantástica.

 

Fico feliz por Mike ter lançado oficialmente o áudio dessas sessões. Para mim, esta é a versão definitiva de Already Over. Até porque, para além de Mike, os outros músicos fizeram um ótimo trabalho com instrumentos.

 

Uma palavra, já agora, para a apresentação de Bleed it Out que eles fizeram. Adorei. Não estava à espera de gostar tanto de ouvir uma mulher cantando as partes melódicas desta música. Bonnie Fraser, vocalista dos Stand Atlantic (já conhecia a música deles, Lavender Bones. É gira.), fez um ótimo trabalho.

 

Foi uma noite feliz, quando publicaram este vídeo.

 

 

Mike diz que virão mais sessões deste género no futuro, com músicos de diferentes partes do mundo. Se ele quiser fazer uma com músicos portugueses, eu tenho algumas sugestões… Mais sobre isso já a seguir.

 

Em suma, não sendo uma música do outro mundo, gostei de Already Over, sobretudo por causa da interpretação de Mike. Quero mais. Ele diz que virão mais músicas depois desta, mais “capítulos”. Chegou a comentar que Already Over pertence ao mesmo universo de In My Head e, curiosamente, de fine. 

 

Não referiu Happy Endings, o que faz sentido, suponho eu. Tem um tom diferente, mais leve – apesar de falar de coisas relativamente sérias, como a pandemia e a maneira como esta nos tornou menos tolerantes e pacientes (agora que penso nisso, lembra This is Why). Além disso, é uma colaboração a três. 

 

Mike irá, então, continuar em estúdio, gravando música a solo. Ou seja, para já não irá em digressão, o que dá um bocadinho de pena. Queria voltar a vê-lo ao vivo, quase uma década depois da última vez. A digressão de Post Traumatic não passou em Portugal, infelizmente. Se a próxima não passar, talvez vá vê-lo ao estrangeiro, mas obviamente preferia vê-lo por cá. Não só pela parte prática da coisa, mas também porque… quero que ele conheça os Hybrid Theory. Que faça qualquer coisa com eles (uma sessão, como a de Already Over em Sydney!) ou que, no mínimo, lhes dê a sua benção. 

 

Aqui entre nós, acho que Mike tem saudades dos palcos. Ele fez um par de aparições em concertos nos últimos meses (um com o grandson, outro com a G Flip, na Austrália) e, de ambas as vezes, pareceu estar a divertir-se à grande. Ao mesmo tempo, não me surpreende que não queria ir numa longa digressão. Post Traumatic foi difícil, como comentámos antes. Com a pandemia e tudo o resto, tem passado os últimos anos em casa e talvez lhe saiba bem. Talvez não lhe apeteça passar meses longe da mulher, Anna, e dos filhos. Não o censuro. 

 

Enfim, talvez vá daqui a um ano ou dois. Isso significa, também, que um eventual regresso dos Linkin Park, a acontecer, fica adiado durante mais uns anos. Uma pessoa vê Mike aprendendo a cantar, começa a pensar coisas… mas ainda não estou preparada para essa conversa. Neste momento estou muito feliz com os Hybrid Theory e os seus fãs. Ando a contar os dias até ir a Gondomar vê-los (à hora desta publicação, cinco semanas!). 

 

Para já chega. Não quero que os Linkin Park fiquem parados para sempre, lançando apenas reedições de álbuns anteriores, mas demos-lhe (mais) uns anos. 

 

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Não sei se cada um dos próximos capítulos da música a solo de Mike terá direito a um texto como este. Talvez escreva um texto para cada um, talvez escreva sobre dois ou três num só, quando a oportunidade surgir. Nem que seja só nos textos de fim de ano.

 

Quanto a nós, o próximo texto aqui do blogue será sobre Re: This is Why em geral e sobre a inédita Sanity em particular. Isto apesar de o texto anterior já ter sido sobre a This is Why original. Aparentemente, este ano aqui no blogue só dá Linkin Park (OK, não a banda propriamente dita mas parte do seu extenso universo) e Paramore. 

 

Olhem… c’est comme ça.

 

E em minha defesa, já Lost tinha saído no mesmo dia que This is Why e agora os Paramore lançaram um álbum de remixes no mesmo dia que Already Over. A culpa não é minha.

 

Voltamos, assim, a falar em breve. Continuem por aí. Obrigada pela vossa visita. 

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