Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Digimon Tamers #10 – As segundas linhas, o Gary Stu e a mascote

c6bfcb0d4c03f04564a7cec74070a495.jpg

 

Nesta parte da análise vamos, então, analisar personagens do lado dos bons que, na minha opinião, não justificam uma publicação individual dedicada a eles. Começando por Hirokazu e Kenta, duas adições tardias à equipa dos Treinadores.

 

Mesmo só se juntando oficialmente ao grupo na segunda metade da narrativa, Hirokazu e Kenta estão lá desde o início. São, ao que parece, os dois melhores amigos de Takato e partilham com ele a paixão por Digimon enquanto franquia. Dos três, aliás, Hirokazu parece ser o melhor no jogo de cartas – pelo menos, vêmo-lo sempre ganhando, quando joga contra Kenta. 

 

Os dois funcionam com um muito bem-vindo alívio cómico, numa temporada tão sombria como esta. No entanto, na minha opinião, não é essa a melhor utilidade deles. Conforme referi antes, os protagonistas, sobretudo Takato, possuem um grupo de apoio de crianças da sua idade. Hirokazu e Kenta acabam por funcionar como representantes desse grupo. Estão lá para apoiar. Não são a primeira linha de ataque, mas em momentos-chave fazem a diferença. 

 

Falemos de cada um individualmente. Hirokazu usa uma t-shirt estampada com um símbolo que faz lembrar o Cartão da Lealdade/Confiabilidade do universo de Adventure – e de facto acho que este seria adequado para Hirokazu. 

 

70175813_2676344059051023_1470437991439663104_n.jp

 

Para começar, o jovem obteve o seu Digimon ficando para trás, a cuidar dos seus ferimentos. Como referi acima, é leal aos seus amigos, está lá para ajudar no que pode. É certo que ele e Kenta cometeram um par de asneiras que deixaram Ruki à beira de um ataque de nervos. No entanto, em momentos de aperto, foi fundamental. Nomeadamente, quando ele mesmo desenhou uma Carta Azul, para ser usada por Takato, Ruki e Jian, e quando um ataque de Guardromon na altura certa, distrai Beelzebumon, salvando a vida a Dukemon. 

 

O jovem demonstra mesmo um altruísmo raro para a idade quando se oferece para ficar a tomar conta de Shaochung, enquanto o trio de protagonistas, juntamente com Lopmon, tenta penetrar no castelo do Zhuqiaomon. Isto sem deixar de admitir que até queria ir com eles.

 

Quantas crianças de dez anos são capazes disso? De pôr de parte os seus desejos em nome do bem comum?

 

Por outro lado, por muito boas que fossem as intenções de Hirokazu, na prática pouca diferença fez. O jovem instruíra o Guardromon para “ficar de olho” em Shaochung. A menina, no entanto, acaba por ser transportada pelo ar até ao castelo do Zhuqiaomon (mais sobre isso adiante). Quando Hirokazu ralha com o seu Digimon por não ter feito nada, Guardromon defende-se dizendo que fez exatamente o que o Treinador lhe pedira: não tirara os olhos de Shaochung.

 

‘Tadinho...

 

EE2DprSUcAAsWGh.jpg

 

Hirokazu no fundo desempenha um papel semelhante ao de Joe em Adventure. Não pertence à primeira linha de combate, atua mais na retaguarda, como apoio, como cuidador – uma contribuição mais discreta para a causa, mas não menos importante. É interessante reparar que Joe demorou quase toda a temporada original de Adventure a conformar-se com esse papel, mas Hirokazu assume-o praticamente desde que descobriu que os Digimon eram verdadeiros.

 

Na minha opinião, merecia mais crédito. 

 

Kenta cumpre um papel semelhante, se bem que contribua um bocadinho menos. É o último a arranjar um Digimon – Shaochung, que vem para o Mundo Digital depois dele, recebe o seu primeiro; Juri recebe, perde o seu e é substituída pela Juri-Type antes de MarinAngemon se juntar oficialmente à equipa. A sagração, aliás, dá-se mesmo à última hora, literalmente durante a viagem de regresso ao Mundo Real. 

 

O MarinAngemon tinha aparecido aquando da Digievolução Brilhante catalisada pelo Culumon e brincara um bocadinho com Kenta. Mais tarde, já na Arca de regresso, o pequenote surge literalmente no bolso do miúdo, juntamente com o seu recém-criado D-arco.

 

EE2DprRUUAEUH3m.jpg

 

À primeira vista, ninguém suspeitaria que aquela coisinha adorável é de nível Extremo. Mal passaria por Infantil, quanto mais Extremo! Em teoria, um Digimon que se consegue manter no nível Extremo em repouso daria a Kenta uma enorme vantagem em relação aos colegas – o safadinho nem sequer precisava de se fundir com o seu Digimon! Na prática, o MarinAngemon não gosta de lutar, prefere recorrer a ataques não-violentos – e Kenta não parece ver problemas nisso.

 

Pergunto-me se o objetivo de atribuir este Digimon a um dos miúdos era dar outra perspetiva a um dos principais conflitos em Tamers: o MarinAngemon como exemplo de um Digimon sem instintos violentos. É possível que fosse essa a ideia inicial mas que não tenha havido tempo para executá-la. É pena. 

 

Em todo o caso, MarinAngemon tem direito ao seu momento de glória com a intervenção que salva Takato das garras da Juri Type. Mais uma vez, uma ajuda muito bem-vinda, que poderá ter evitado que Takato se juntasse a Juri como refém do D-Reaper. Nos últimos episódios também foi capaz de criar uma bolha de proteção no interior do D-Reaper, permitindo que Juri fosse finalmente resgatada.

 

Em suma, não sendo as minhas personagens preferidas, longe disso, gosto bastante de Hirokazu e Kenta. Mais do que a maior das pessoas, calculo.

 

Falemos então sobre Ryo, uma personagem que, segundo consta, chegou a Tamers ainda antes de Konaka. Antes de aparecer neste universo, Ryo era o protagonista dos videojogos WonderSwann, que só foram lançados no Japão. Estes decorrem no universo de Adventure (pelo menos os primeiros, penso eu). No entanto, visto estarem a ter um tremendo sucesso em terras nipónicas, os produtores decidiram que Ryo teria de aparecer em Tamers – mesmo que tal criasse uma série de inconsistências, sobretudo para quem não estivesse familiarizado com os jogos.

 

transferir (3).jpg

 

Podem ler aqui um resumo da história dos jogos. Como poderão ler, estes cruzam os universos de Adventure e de Tamers e não se encaixa muito bem na narrativa da série de anime: nomeadamente o facto de Ryo, aparentemente, ter nascido no universo de Adventure mas ter um pai no universo de Tamers. Para evitar ficar com o cérebro em nós, prefiro esquecer que os jogos existem e considerar apenas o que decorre nesta série. 

 

Assim, Ryo era o antigo campeão do jogo de cartas, o único a derrotar Ruki (embora ninguém tenha tido a delicadeza de nos informar antes, ou de pelo menos deixar pistas). Um ano antes dos eventos de Tamers, tornara-se Treinador do Cyberdramon e emigrara para o Mundo Digital.

 

Conforme referi antes, Ryo e Cyberdramon oferecem um exemplo de Treinador-e-Digimon em que o primeiro está mais próximo da definição de domador que qualquer outra personagem. Tirando isso… eu sinceramente dispensava-o.

 

A história trata-o como um Gary Stu (a versão masculina de uma Mary Sue), o que não surpreende tendo em conta os motivos pelos quais ele aparece em Tamers. A história pinta-o como o Lendário Digitreinador, o melhor Treinador de todos os tempos. No entanto, tirando o seu companheiro Digimon particularmente violento e a sua maior experiência com o Mundo Digital, Ryo é um daqueles casos em que é o melhor porque tem acesso a cartas raras, que nenhum dos outros tem. Além de que consegue desbloquear o nível Extremo, com fusão com o seu Digimon e tudo, mas não o vemos e não sabemos quando ocorreu ao certo, nem como nem porquê. 

 

EDv-1bWXoAExGIp.jpg

 

Depois temos a parte de ser um potencial interesse amoroso para Ruki… o que me irrita um bocadinho. Não porque ache que não são compatíveis, porque até acho – tirando os quatro anos de diferença nas idades (eles que esperem até Ruki ter dezoito anos antes de as coisas se tornarem demasiado sérias). Mais porque não havia necessidade. Tamers já tem Juri com um papel proeminente como interesse amoroso de Takato. A outra protagonista feminina também precisava de um potencial apaixonado? 

 

Por fim, o final de Tamers introduz uma complicação que fica por resolver: o Cyberdramon fica sem Ryo. É possível que, nesta altura, esteja menos violento, mas quanto tempo aguentará antes de reverter para os hábitos antigos? O que acontecerá quando Cyberdramon começar de novo à procura de adversários, sem Ryo para o refrear, num Mundo Digimon em cacos após a destruição causada pelo D-Reaper? 

 

Ryo acaba por ser, infelizmente, o elo mais fraco do elenco de Tamers. Podia ter sido um bocadinho melhor escrito ou então excluído por completo. Enfim, nada que estrague demasiado Tamers. 

 

Falta, então, falar sobre Shaochung, a irmãzinha de Jian (bem, tecnicamente ainda sobram Ai e Makoto, mas eles ficam para o próximo texto). Quando escrevemos sobre o jovem, referimos que, durante muito tempo, a menina trata Terriermon como um peluche, sem suspeitar que é um Digimon verdadeiro. 

 

Se me permitem o aparte, uma dúvida: os Digimon em Tamers têm sinais vitais visíveis? Estou a pensar se Shaochung não deveria ter reparado que o seu peluche tinha batimento cardíaco, que ele respirava. Talvez os Digimon não apresentem esses sinais – ou talvez Shaochung seja demasiado nova para reconhecê-los. 

 

 

Enfim, passemos à frente. 

 

Nem sempre é divertido para Terriermon ser o brinquedo de Shaochung – suponho que não o seja para qualquer brinquedo de criança daquela idade (vide Toy Story 3) – mas este acaba por se afeiçoar à irmãzinha do seu Treinador. Acho mesmo que Terriermon gosta tanto de Shaochung como do irmão dela – da mesma forma, mesmo depois de a menina arranjar um companheiro Digimon para si, Terriermon não fica para trás no seu coração.  

 

Quando o elenco se prepara para a viagem ao Mundo Digital, ele e Jian contam a verdade a Shaochung – que é suficientemente nova para aceitar que o seu boneco preferido sempre esteve vivo. 

 

Como referimos antes, aliás, são as saudades de Terriermon que fazem com que os Digignomos tragam Shaochung para o Mundo Digital. Devo dizer que achei as cenas de Shaochung sozinha, no Mundo Digimon, muito stressantes: uma menina de sete anos, sozinha, desprotegida, num mundo recheado de criaturas com instintos violentos, algumas delas com instruções claras para matar humanos. 

 

Foi uma sorte Shaochung ter encontrado Antylamon, um membro dos Deva, e este ter engraçado com ela o suficiente para trair o seu grupo e protegê-la do Makuramon. É assim que adota Shaochung como sua Treinadora. Como castigo por se ter aliado aos humanos, Antylamon regride ao seu nível Infantil, Lopmon, que é essencialmente o Terriermon versão Shiny (coincidência? Ninguém acredita).

 

70596955_2624382004268010_6573627830859464704_n.jp

 

Como vimos antes, o irmão de início opõe-se a que Shaochung se torne Treinadora e adote Lopmon (e de facto, o Digimon demora algum tempo a perder os instintos de Deva). O que só torna as coisas ainda mais difíceis para a menina que, ao contrário de Takeru e Hikari em Adventure, reage às coisas da maneira normal para a idade dela. 

 

Chorando que nem uma desalmada.

 

E sinceramente? A primeira experiência de Shaochung no Mundo Digital, logo depois de receber Lopmon, é o combate com Beelzebumon. Até eu choraria que nem uma desalmada naquelas circunstâncias!

 

Depois de derrotado Beelzebumon, a jogada seguinte é invadir o castelo de Zhuqiamon, onde os Treinadores pensam que o Culumon está aprisionado. Como Lopmon conhece o castelo, já que servira como guarda do mesmo enquanto Deva, o Digimon é presença obrigatória no grupo de invasão. Quando Jian ordena à irmã que fique para trás, ela chora – outra vez.

 

Ora, é certo que há muito de birra de criança nos protestos de Shaochung, na sua determinação em ir com o irmão e com Lopmon, mas acho que ninguém quereria ficar para trás enquanto o seu companheiro Digimon vai para uma situação perigosa. Sobretudo tão pouco tempo depois da perda de Leomon. 

 

DcRQLPEXUAEV7yl.jpg

 

Da mesma forma, Jian exagera na rispidez, mas lá está, não está errado em considerar que a situação é demasiado perigosa para a irmã.

 

A discussão acaba por não fazer grande diferença, pois Shaochung é transportada para o castelo assim que percebe que Lopmon corre perigo. O facto de a menina ser capaz de usar o seu D-arco para ver através dos olhos do seu Digimon é altamente conveniente. A presença de Shaochung no terreno de batalha acaba por servir de motivação extra para Jian e, sobretudo, Terriermon desbloquearem o MegaloGrowmon.

 

Shaochung e Lopmon fazem um par engraçado. Por um lado, temos uma típica menina de seis anos, alegre, relativamente despreocupada. Do outro, temos um Digimon com a maturidade bem superior à de uma criança, falando com o tom formal de quem passou muito tempo – talvez a vida toda – a servir figuras divinas. Na minha opinião, o par funciona e é interessante.

 

A inocência de Shaochung permite-lhe sobreviver à guerra com o D-Reaper sem grandes traumas. Isso e o facto de não estar no terreno tantas vezes como os outros Treinadores, devido à sua idade. Uma vez mais, a menina vale-se da visão de Antylamon via D-arco para contribuir para a luta – é assim que descobre, por exemplo, que Beelzebumon e Culumon se tinham infiltrado no interior o D-Reaper.

 

Mesmo sem a sua Treinadora por perto, Antylamon ajuda os outros Digimon nos combates contra o D-Reaper. Ryo a certa altura oferece uma carta a Shaochung, em recompensa pela sua ajuda, e quando a menina a usa, a sua sequência de Carta Escolhida é pura e simplesmente adorável! 

 

2.png

 

É uma pena ela e Antylamon terem ficado de fora da batalha final contra o D-Reaper. De qualquer forma, Shaochung merece crédito pois a sua atitude alegre e inocente dá alguma leveza a uma temporada tão sombria como esta.

 

Ainda assim, o maior contribuinte nesse capítulo não é ela, é Culumon. O Digimon que serve de mascote a Tamers e que me roubou o coração desde o primeiro minuto. Durante muitos anos, o Togepi foi a criatura mais fofa que alguma vez vi em animação. Mas a verdade é que não tem olhos grandes, orelhas que se encolhem e esticam  não termina a suas frases com “culu” (ou “calu”, na dobragem portuguesa). 

 

Durante o episódio em que Takato anda à procura de um Treinador para ele, eu só dizia: 

 

– Escolhe-me a mim! Escolhe-me a mim! Eu tomo bem conta do Culumon! Jogo futebol com ele e tudo!

 

Mas a verdade é que o Culumon nunca adota ninguém como Treinador. Acaba por ser o companheiro Digimon de toda a gente e de ninguém em particular. 

 

 

Isto porque Culumon não é um Digimon como os outros – há quem não o considere um Digimon sequer. Nunca o vemos a lutar, mas está sempre lá quando ocorrem digievoluções (bem, quase sempre). Takato é o primeiro a somar dois e dois – mas quando o faz, já o Makuramon lhe tinha deitado as mãos e levado-o para o Mundo Digital.

 

Culumon é o catalisador da digievolução no universo de Tamers. É a luz da digievolução feita carne pelo Qinglongmon, uma das Bestas Sagradas. Este permite que Culumon fuja para o Mundo Real, para que escape às garras do D-Reaper, evitando que este o use para acelerar o seu crescimento… e no entanto Zhuqiaomon, outra das Bestas Sagradas, envia agentes ao Mundo Real para raptar Culumon. A ideia é que o pequenote use os seus poderes para ajudar vários Digimon a digievoluírem, para poderem enfrentar o D-Reaper.

 

Confusos? Eu também. Havemos de regressar a esse assunto noutro texto desta análise.

 

Tal como Shaochung, mesmo perante todos os eventos de Tamers, mesmo depois de raptado, Culumon nunca perde os seus modos inocentes e amigáveis. E o pequenote é irresistível para qualquer um – é um dos que ajuda Ruki a abrir o seu coração, torna-se BFF de Guilmon, Terriermon, aguenta o bullying de Impmon e até o diabrete acaba por se tornar amigo dele. Sobretudo quando emparceiram no resgate a Juri.

 

Aliás, o maior contributo de Culumon para a luta contra o D-Reaper foi ter ficado ao lado de Juri e, como vimos no texto anterior, ter-lhe salvo a vida.

 

1517834957445.jpg

 

Eu na verdade fico surpreendida por tão pouca gente falar do Culumon quando se fala sobre Tamers. O pequenote é subvalorizado, na minha opinião.

 

No próximo texto, por outro lado, vamos falar sobre uma personagem que definitivamente não é subvalorizada. Pelo contrário, é capaz de ser a melhor personagem de Tamers (se não for de todo Digimon enquanto franquia). Fiquem por aí...

Digimon Tamers #9 – A Hikari é uma menina ao lado disto...

juri.png

 

Conforme referi antes, em Tamers existem várias crianças com companheiros Digimon na história, vários Treinadores. Apenas três são considerados protagonistas – Takato, Jianliang e Ruki – são os protagonistas. No entanto, a partir da segunda metade de Tamers, em particular nas duas últimas partes do Enredo, pode-se considerar que Juri ganha o estatuto de protagonista  – pela maneira como a jovem se encontra, quase literalmente, no centro de tudo o que acontece. 

 

Segundo o site de Konaka, o papel que Juri desempenha na segunda parte de Tamers só foi decidido precisamente quando estavam a escrever o vigésimo-quarto episódio  – aquele em que o elenco se prepara para ir ao Mundo Digital. A história familiar da jovem, no entanto, ficou decidida desde o início.

 

Bem, mais ou menos. De acordo com o site, a ideia inicial era de que os pais de Juri trabalhassem em prostituição. A jovem seria obrigada a ficar em casa a tomar conta da irmã mais nova. (Um momento de silêncio pelas infâncias que posso ter acabado de destruir.)

 

Não que a versão final da sua história de origem seja muito melhor, verdade seja dita. Juri perdeu a mãe quando ainda era muito nova. Não é muito claro que idade tinha ela ao certo, mas era suficiente para se recordar, ou pelo menos para ter pesadelos sobre isso, mais tarde. 

 

O pai tentou criá-la o melhor que pôde, sozinho, sem grande sucesso. Infelizmente, era de esperar. Numa sociedade tão patriarcal como a japonesa, pouquíssimos homens estariam (estão?) preparados para tomar conta de crianças. Já ouvi falar de um caso parecido, nos anos 50 e 60: um senhor que enviuvou de repente, quando a filha tinha apenas um ano. A criança acabou por ser confiada a uma tia.

 

1.png

 

O pai de Juri não chegou a esse ponto, mas é possível que tenha casado em segundas núpcias com uma mulher mais nova precisamente para servir de segunda mãe para a filha. Pelo meio, terá decidido que um estilo de educação autoritário era o mais adequado. Com tudo isto, Juri acabou por se afastar emocionalmente do pai. A jovem também revela, a certa altura, que nunca aceitou a madrasta, mesmo reconhecendo que ela era boa pessoa. 

 

Ou seja, Juri não possui nenhuma relação próxima com nenhuma figura parental. Mais: tirando possivelmente o seu irmãozinho, Juri não possui uma relação próxima com ninguém da sua família. É ainda obrigada a trabalhar no restaurante do pai (mais sobre isso adiante). 

 

Juri possui, assim, uma vida familiar difícil, tal como Ruki. Pior ainda. No entanto, reage da maneira completamente oposta. Juri é uma criança alegre, simpática, extrovertida, sempre com um cão de fantoche – sobretudo para divertir o irmãozinho, mas que raramente deixa a sua mão. Enquanto Ruki usava os seus problemas familiares como armadura, Juri enterra-os bem fundo. Ninguém adivinharia – e durante muito tempo ninguém adivinhou – que aquele exterior feliz e bem disposto mascarava uma profunda solidão e baixa auto-estima.

 

É outra maneira de ser impermeável, se formos a ver. Qual das duas atitudes será a melhor, a de Ruki ou a de Juri? Não sei dizer. Sentir-me-ia tentada a dizer que a atitude de Ruki é a melhor, pois não culminou com a jovem possuída pelo D-Reaper, mas seria simplificar demasiado a questão. Até porque, lá está, a Ruki saiu-lhe menos na rifa e Renamon não foi assassinada. 

 

Mas recuemos um pouco. Conforme referido antes, no início Juri é alegre e simpática. Dá-se bem com Takato, embora goze com ele pela sua paixão por Digimon. Conforme referido antes, o jovem tem um fraquinho por ela. Não é claro que Juri o saiba, preto no branco, mas há uma ocasião em que a menina tira partido disso: quando lhe faz aquilo a que gosto de chamar “olhinhos de Jane” para convencê-lo a apresentar-lhe Guilmon.

 

2.png

 

Esta vai ser fresca quando crescer... 

 

Talvez seja de assinalar que, até ao momento, Takato assumira que Juri teria medo de Digimon (Culumon inclusive, o que é um disparate, quem tem medo de uma coisinha daquelas…?). Enganara-s redondamente, pois Juri adora Guilmon, desde o primeiro minuto em que o vê. Embora ao Takato, um miúdo fixe, com gostos indubitavelmente masculinos, não ache muita piada ao facto de o companheiro Digimon que ele mesmo desenhou estar a ser descrito como “kawaii”...

 

Depois de algumas ocasiões em que brinca com Guilmon – juntamente com Takato, Hirokazu, Kenta e outros colegas da turma deles – Juri decide, quase do dia para a noite, comprar um baralho inteiro de cartas de Digimon e aprender a jogar. Isto apesar de, no início de Tamers, ter troçado das mesmas pessoas a quem, agora, pedia que lhe ensinassem acerca daquele mundo.

 

No mesmo episódio, Juri começa a procurar obsessivamente um companheiro Digimon. Tenta a sua sorte com Culumon, primeiro, mas o seu verdadeiro alvo é um Leomon acabado de se realizar.

 

Será isto uma cena do Leomon, ter criaturinhas fofas… bem… seduzindo-o para uma inevitável morte? Em Tamers foi Juri, em Tri foi Meicoomon… Bem, todas as aparições de Leomon acabam com ele morto, de qualquer forma, segundo consta.

 

PhotoGrid_1567636861512.jpg

 

À primeira vista, tem piada ver um Digimon grande, imponente como o Leomon perseguido por uma menina. A alcunha que Juri lhe dá na dobragem portuguesa, “meu príncipe Leomon” torna tudo ainda mais hilariante. À segunda vista… bem, continua a ter piada, mas também é um bocadinho triste. 

 

No entanto, é triste de todas as vezes quando, no fim do episódio, Leomon não se torna seu parceiro. Juri fica destroçada, além de qualquer consolo, mais do que seria de esperar.

 

Se isto não é um indício trágico, não sei o que mais será.

 

Felizmente (ou infelizmente, dependendo da perspetiva), um par de episódios mais tarde, Juri adota finalmente Leomon como companheiro Digimon oficial – no mesmo episódio em que Makuramon deita as mãos a Culumon, levando-o para o Mundo Digimon. 

 

Quando o elenco de Treinadores decide ir ao Mundo Digital, no episódio seguinte, temos o primeiro vislumbre da vida familiar de Juri. Vemos o pai trabalhando no restaurante com a esposa – uma mulher que, por sua vez, não é a que aparece na fotografia emoldurada no quarto de Juri, com esta em bebé. 

 

3.jpg

 

A jovem não avisa ninguém na sua família que vai para o Mundo Digital – outro indício trágico. Nem todos no grupo dizem toda a verdade aos pais, mas sempre deixam uma carta ou um e-mail ou uma história qualquer – nenhuma opção é a ideal ou mesmo correta, mas sempre é melhor que não dizer absolutamente nada.

 

Queria agora falar sobre um episódio da terceira parte do Enredo que, confesso, adoro odiar: sobre uma colónia de Geckomon que é escravizada por um Orochimon alcoólico, obrigamos a fazer-lhe saqué (uma espécie de vinho de arroz, sendo a bebida nacional do Japão). Numa das ocasiões em que o grupo de Treinadores se separa, todos menos Takato, Jian e Terriermon vão parar ao mini-universo onde vive essa colónia. 

 

A certa altura, o Orochimon deita as mãos (figurativamente) a Juri. Leomon tenta salvá-la, como seria de esperar, mas não é bem sucedido. Enquanto o Orochimon a leva, Juri grita a seguinte pérola:

 

– Leomon, eu vou ficar bem! Não te esqueças que o meu pai tem um restaurante! Estou habituada a lidar com bêbados!

 

Juri. Com dez anos. Sabe lidar com bêbados. É para rir ou para chamar a CPJ?

 

juri.png

 

Um rápido àparte: depois de ver este episódio pela primeira vez, tive de descobrir como é que a dobragem americana, infame pelo seu puritanismo (como substituirem o vinho do Wizarmon por molho picante ou, pior, Vandemon “banindo” o Gottsumon e o Pumpmon para a sua “cave”, em vez de assassiná-los) descalçaria esta bota. Pois bem, substituíram o saqué por batido de leite. Eu fiquei uns bons dez minutos a rir-me com esta…

 

Em retrospetiva, não sei se inclua isto na lista de indícios trágicos sobre a família de Juri. Sinto-me tentada a incluir. Não estou a ver nenhum digiguionista a colocar esta fala na boca de uma menina de dez anos como se nada fosse.

 

Em todo o caso, por retorcido que seja, a experiência de Juri com alcoólicos sempre lhe dá coragem e capacidade para lidar com o Orochimon (a história deste episódio, aliás, parece ter sido inspirada pela Lenda do Orochi). Se acreditarmos que o CD drama Digimon Tamers 2018 faz parte do cânone (mais sobre isso um dia destes), em adulta Juri torna-se professora. E de facto, depois de ter lidado com bêbados em criança, lidar com alunos e respetivos pais será um piquenique. 

 

Regressemos ao Orochimon. A ideia de Juri era embebedá-lo, mas, longe de entorpecê-lo, o saqué dá mais força ao Digimon. Felizmente, na altura em que a jovem se apercebera do seu erro, já Leomon e os outros tinham conseguido chegar junto dela. Juri saca de uma carta da LadyDevimon, de todos os Digimon, ajudando Leomon a salvar o dia.

 

É de facto uma pena que a sua história com o Leomon tenha sido tão curta. Juri parecia ter potencial enquanto Treinadora e acabámos por ver muito pouco disso. 

 

EDpoiO3WsAAb103.png

 

Temos então de falar sobre o ponto de viragem da história dela, infelizmente. O grupo acabara de se reunir de novo e Beelzebumon viera para cumprir a sua parte do acordo com o Chatsuramon. No início do combate, Leomon agarra Beelzebumon, impedindo-o de desferir um golpe, potencialmente fatal, em Kyubimon. Leomon consegue ler a situação e tenta avisar Beelzebumon que este está a ser manipulado. 

 

A resposta de Beelzebumon a este aviso é, quase literalmente, arrancar o coração a Leomon.

 

É importante chamar a atenção para as últimas palavras de Leomon em vida – “Parece que é este o meu destino” – pois estas serão uma faceta importante do trauma de Juri. Por outro lado, o aparecimento de Megidramon também terá agravado a situação para a menina. Ver o Guilmon, o primeiro Digimon que Juri conhecera e a quem se afeiçoara transformado naquela monstruosidade. Ver Takato, o seu amigo, potencial interesse amoroso, um rapaz até agora simpático e gentil, exprimindo tamanha raiva e instintos assassinos. 

 

Como vimos antes, o combate contra Beelzebumon estende-se por três episódios. Neste intervalo de tempo, o Megidramon “desdigievolui” e digievolui para Dukemon. No momento em que este último se prepara para acabar com Beelzebumon, Juri impede-o. Sabe que isso não trará Leomon de volta, não deseja mais lutas ou morte. Não por sua causa. E apesar de ela não o dizer preto no branco, eu apostaria que a menina não quer que Takato e Guilmon se tornem assassinos por sua causa.

 

juri.png

 

O anime de Digimon sempre deixou bem claro que perder um companheiro digital é traumático, independentemente das circunstâncias. Mesmo em universos onde estes regressam à vida. No caso de Ken, em 02, por exemplo, em que o próprio teve culpas na perda de Wormon, a morte deste desencadeia todo um processo de redenção pelo sofrimento que causou. O renascimento de Wormon representa a sua segunda oportunidade. 

 

Por sua vez, pode-se argumentar que o destino não foi assim tão duro com Takeru, pois este recebeu o Digiovo do Patamon menos de um minuto após o sacrifício de Angemon. Este, mesmo assim, guardou o trauma durante anos – em 02, em Tri. Estou convencida de que a experiência da perda influenciou as suas decisões em Kokuhaku, que contribuíram, pelo menos em parte, para o Reinício de todos os companheiros Digimon do elenco. 

 

No que toca a estes últimos, vemos as consequências desta perda a curto prazo nos restantes filmes de Tri. Na minha opinião, tal trauma pode tê-los impedido de eutanasiarem Meicoomon mais cedo, evitando inúmeros danos colaterais, sobretudo a morte de Daigo. Pergunto-me se o trauma do Reinício será referido em Last Evolution Kizuna, o próximo filme de Adventure. 

 

Por fim, Maki foi a única Escolhida no universo de Adventure (exceto Meiko) que não recuperou o seu Digimon depois de o perder. Mais: foi a própria Homeostase quem o reclamou sem cerimónia ou piedade. Anos mais tarde, nem a entidade divina nem os seus representantes valorizam ou sequer reconhecem o contributo e o sacrifício de Maki, Daigo e restante grupo das Primeiras Crianças Escolhidas. Pode-se argumentar que Maki teve pior sorte que Juri, pois teve ainda menos controlo sobre o seu destino. 

 

A resposta da Escolhida ao seu trauma foi unir-se voluntariamente ao inimigo, manipulando Escolhidos mais novos e um (ex?) parceiro romântico no processo. E vimos como é que isso acabou.

 

1.png

 

Tendo tudo isto nem conta, a direção que a história de Juri toma não surpreende. Durante uns quantos episódios, vêmo-la fechada sobre si mesma, fitando a estática no ecrã do seu D-arco, balbuciando frases soltas sobre o destino. A certa altura, quando Takato tenta consolá-la, Juri diz não ser boa pessoa – porque, segundo ela, recuperou demasiado depressa da morte da mãe e, quando o pai casou de novo, nunca aceitou a madrasta, como vimos antes. 

 

Novo indício trágico.

 

Por outro lado, depois de Ruki regressar da ravina onde resgatara Culumon e desbloqueara Sakuyamon, Juri corre a abraçá-la, aliviada por a amiga ter sobrevivido. Um claro exemplo de um gato escaldado com medo de água fria.

 

A certa altura o fantoche da menina começa a falar sozinho – qualquer coisa sobre não gostar de tristeza. Depois desta, Juri afasta-se para, segundo os amigos, ir ao WC. Quando regressa, vem… diferente.

 

Qualquer membro da audiência com mais de dez anos, talvez menos, ou que pelo menos se recorde das Sementes da Escuridão de 02, desconfia logo que aquela não é bem a Juri. Eu não cheguei logo a “substituída por um dos agentes do D-Reaper”, pensei primeiro que ela estaria possuída por qualquer coisa. 

 

Os miúdos atribuem o seu estado catatónico a uma nova fase da sua depressão. Mas, confesso, custa-me a acreditar que ninguém tenha reparado nos olhos dela.

 

2.png

 

Em todo o caso, “Juri” regressa ao Mundo Real juntamente com os outros Treinadores. O regresso dos miúdos é um evento bastante mediático, com os vários familiares acorrendo ao local (uma variação interessante em relação ao universo de Adventure), mas Juri não tem ninguém à espera dela. Quando conseguem entrar em contacto com o seu pai, este responde que, se a filha foi capaz de ir ao Mundo Digital sem avisar ninguém, será igualmente capaz de vir sozinha até à casa dos familiares onde se tinham abrigado. E é se quiser.

 

Novo indício trágico, um particularmente duro. É certo que Tadashi não sabia tudo por que a filha passara no Mundo Digital. Mesmo assim, que pai se recusa a vir buscar a filha após esta ter estado desaparecida, por muito zangado que esteja?

 

Eu confesso que, da primeira vez que vi Tamers, não simpatizei nada com o pai de Juri. Sobretudo no momento em que, quando reencontra a “filha”, a puxa com brusquidão para o táxi. Mesmo agora sabendo toda a verdade, continuo a achar que Tadashi vai longe demais. Uma coisa é ser-se severo. Outra coisa é ser-se cruel. Por muito zangado que Tadashi esteja, não sem razão, ele é o adulto. Aquilo não é aceitável.

 

Mas estou a adiantar-me. Recuemos um pouco. Quando se descobre, então, que Juri não tem ninguém que a leve a casa, Takato oferece-se para acompanhá-la de comboio. 

 

Confesso que me faz alguma confusão duas crianças de dez anos andando sozinhas de comboio, de noite. Suponho que, se foram capazes de sobreviver ao Mundo Digital com apenas um par de traumas psicológicos, hão de conseguir sobreviver aos transportes públicos. Ao menos têm uma criatura que cospe bolas de fogo a protegê-los.

 

EDpoiO3WsAAb103.png

 

O mutismo de “Juri” continua durante a viagem de comboio. Takato aproveita a ocasião para abrir o seu coração perante a “amiga”: faz um misto de declaração de amor e de culpa por aquilo que aconteceu ao Leomon, por não ser capaz de consolá-la, por agora ela estar naquele estado catatónico. Tudo isto regado com lágrimas porque Takato.

 

Não sei se é suposto sentirmos pena do miúdo neste momento, mas eu não consigo evitar irritar-me um bocadinho. Esqueçamos que aquela não é a verdadeira Juri. A menina perdera o Leomon no Mundo Digital. Ao regressar ao Mundo Real, o pai nem se dignara a vir buscá-la – tinha de estar a regressar com Takato, de comboio, à noite. A última coisa de que Juri precisava neste momento era de fazer o amigo sentir-se melhor consigo mesmo. A paixoneta e sentimentos de culpa não são para aqui chamados.

 

Faz lembrar aquele episódio de How I Met Your Mother, em que Robin descobre que não pode ter filhos. Quando imagina a reação da melhor amiga, Lily, à notícia, imagina-a virando os holofotes para si, choramingando que é uma péssima, obrigando a própria Robin a consolá-la. A previsão revela-se certeira pois, quando Robin lhe conta uma história para encobrir o verdadeiro motivo da sua tristeza, Lily tem a mesma reação. 

 

Por outro lado, é óbvio que Takato não tem más intenções. Pelo contrário, está a tentar ajudar. Além disso, ele tem dez anos, é demasiado para compreender estas subtilezas. Há adultos que não as compreendem. 

 

De qualquer forma, nem Takato nem ninguém merece receber a resposta que “Juri” lhe dá: ler em voz alta a composição nutricional do snack que Takato lhe comprou. Até a mim me doeu…

 

3.jpg

 

Juri reúne-se, então, com a família. Culumon fica com ela. Logo no episódio seguinte, vêmo-lo brincando com o irmãozinho de Juri. A certa altura, o menino cai, começando a choramingar. A mãe dele (madrasta de Juri) consola-o da forma habitual, dizendo algo como:

 

– Já passou. Já passou.

 

Nisto aparece “Juri”. Esta empurra o menino contra o chão, ambas as mãos nos ombros dele, repetindo monocordicamente as palavras da madrasta: “Já passou. Já passou.”

 

Acho que teria sido um pouco menos assustador se ela tivesse pura e simplesmente tentado esganá-lo.

 

Mais tarde, a madrasta dá pela falta da enteada. Quando pergunta ao filho, este responde que a irmã desaparecera “pela parede” – só mesmo uma criança muito nova para ver algo assim e não estranhar.

 

Se até este momento existia alguém na audiência que ainda pensasse que aquela era a verdadeira Juri, depois desta não há margem para dúvidas. Sobretudo quando Takato a vislumbra em Shinjuku, no intervalo das lutas do D-Reaper – a uma distância considerável da casa onde devia estar abrigada com a família.

 

1.png

 

É nesta altura que se descobre que Juri está desaparecida. Takato torna a vê-la em Shinjuku – desta feita, com palavras niilistas nos lábios. De notar que o jovem é o único a vê-la. Nem Jian nem Ruki parecem dar por ela. Mais tarde, aliás, quando os três protagonistas estão a lutar contra o D-Reaper, já conjugados com os seus Digimon, nas suas formas Extremas, o D-Reaper escolhe agarrar Dukemon e trazê-lo para o seu núcleo.

 

Aqui Takato e Guilmon separam-se – as formas Extremas não se aguentam no núclo do D-Reaper – e tornam a encontrar “Juri”. Esta finalmente revela a sua verdadeira identidade: nada menos de um dos agentes do D-Reaper, conhecida por J-Reaper ou Juri-Type, que substituíra a verdadeira Juri após esta ser raptada pelo D-Reaper ainda no Mundo Digital. 

 

A J-Reaper viera infliltrada entre os Treinadores para o Mundo Real para analisar a humanidade. Estudara a mente de Juri, bem como as pessoas com quem contactara – só refere a depressão da menina, mas eu pergunto-me se a declaração lacrimosa de Takato, os modos bruscos de Tadashi, as lamúrias do irmão mais novo também foram objetos de análise. Chegara à conclusão de que os seres humanos são demasiado irracionais e instáveis para existirem, devendo, por isso, ser eliminados. 

 

A verdadeira Juri estava presa no núcleo do D-Reaper, mantida num transe de pesadelos. A J-Reaper tentara, inclusivamente, fazer o mesmo a Takato, esfregando-lhe no nariz recordações roubadas a Juri – é a intervenção de MarineAngemon e Kenta que o salva.

 

Um dos pesadelos de Juri centra-se na morte da mãe e na justificação que tanto o pai como os médicos lhe tinham dado: 

 

– É o destino.

 

EDpoiO3WsAAb103.png

 

É provável que tanto Tadashi como os médicos tivessem usado esta expressão no sentido de “Não havia nada que ninguém pudesse fazer”. Juri, no entanto, internalizou a mensagem como o Universo conspirando ativamente para que a menina perca aqueles que ama. Primeiro a mãe, em tenra idade, depois o Leomon. Talvez tivesse determinado que o pai se afastaria emocionalmente dela. Daí o D-Reaper repetir monocordicamente a palavra “destino” na voz de Juri.

 

São cenas horríveis, os pesadelos de Juri. Realmente, todo este terror, todas estas monstruosidades catalisadas pelos traumas de uma menina de dez anos fazem os estranhos poderes de Hikari, no universo de Adventure, a sua estranha relação com as Trevas, parecerem uma ninharia. Até a Ordinemon, que Hikari soltara no mundo quando pensara que tinha perdido o seu adorado onii-chan parece um mero Digimon vilão-da-semana comparado com o D-Reaper e os seus agentes, a Juri-Type em particular. 

 

Quase fico aliviada por não ter visto Tamers em miúda. Acho que teria pesadelos durante semanas – e já tinha doze ou treze anos quando Tamers foi exibido pela primeira vez em Portugal! 

 

Felizmente, por esta altura, Culumon e Beelzebumon conseguem infiltrar-se no D-Reaper. Culumon consegue entrar na esfera onde Juri se encontra, mas Beelzebumon é agarrado pelos tentáculos do D-Reaper e é mantido preso e inconsciente durante alguns episódios.

 

Quando se descobre que Juri está aprsionada no núcleo do D-Reaper, os seus pais são naturalmente convidados a juntar-se aos adultos de apoio aos Treinadores: os membros do Hypnos, o Grupo Selvagem, os pais dos miúdos. 

 

juri.png

 

Vemos a madrasta de Juri a chorar no ombro de Rumiko (com a filha desta última a ver, conforme comentámos no texto anterior), pedindo perdão à falecida mãe da enteada. Tadashi, por sua vez, de início mantém a sua postura fria (da primeira vez que vi Tamers, nesta altura estava a chamar-lhe nomes). No entanto, depressa vemos as coisas sob a perspetiva dele – aquilo que comentámos antes, sobre as suas dificuldades em ser pai solteiro.

 

É neste momento que lhe saem as garras de papá sobreprotetor. Pega no camião do pai de Takato (o futuro compadre?) e vai até junto do D-Reaper. De início tenta negociar: desfaz-se em lágrimas, pede para tomar o lugar da filha. Quando isso não resulta, pega de novo no camião e tenta atropelar o D-Reaper. 

 

Nada disto resulta mas, pelo meio, o D-Reaper analisa-o. A criatura fica baralhada quando analisa as memórias de Juri sobre o pai – porque, neste universo, os Digimon não têm progenitores e talvez porque a relação de Tadashi com a filha não encaixa com a visão niilista que recolhera até agora. Além que de Juri reage à presença do pai – embora não chegue para sair do seu transe.

 

Depois desta, há uma cena breve, o episódio seguinte, em que vemos Tadashi debatendo-se contra uma janela do Hypnos, numa das ocasiões em que o D-Reaper fala com a voz de Juri. Tirando isso, Tadashi não torna a aparecer em Tamers – o que é uma pena.

 

É nesse mesmo episódio, de resto, que Juri finalmente sei do seu transe. O responsável é Beelzebumon, de todas as criaturas possíveis, humanas ou digitais. Depois de algum tempo inconsciente, prisioneiro do D-Reaper, conseguira soltar-se e emparceirar com Dukemon no resgate de Juri. É quando Beelzebumon está a tentar abrir a esfera onde a menina está presa ao murro que esta finalmente desperta. Este, por sua vez, só consegue abrir a esfera quando recorre ao Punho Real, um ataque do Leomon.

 

1.png

 

Este é um dos poucos casos em que, conforme observámos antes, um Digimon usa poderes de um adversário que absorveu. Embora também seja legítimo uma pessoa interrogar-se se aquilo não será uma manifestação do próprio Leomon, ajudando a salvar a sua Treinadora.

 

Através do buraco que abriu, Beelzebumon enfiar-se parcialmente dentro da esfera e estende uma mão a Juri. Esta, no entanto, ao ver Beelzebumon usar o Punho Real do Leomon, bloqueara. O buraco na esfera fecha-se de novo antes que a menina conseguisse descongelar.

 

Naquele momento, uma boa parte da audiência fica com vontade de dar um par de estalos à miúda, por ter deixado fechar aquela quase literal janela de oportunidade. Ainda há semanas, no encontro do Odaiba Memorial Day, estivemos a falar sobre este momento. Mesmo eu, da primeira vez que vi este episódio, fiquei confusa com o final deste – como se estivesse a colocar a última peça de um longo puzzle e esta, por algum motivo, não encaixasse. Porquê, Juri, porquê?

 

No entanto, se formos a ver, Juri estivera afogada em pesadelos durante dias. Acabara de acordar deles e a primeira coisa que via fora o Digimon que começara tudo aquilo, que lhe arruinara a vida e que, ainda por cima, usava o ataque de marca do Leomon – mesmo a servir de lembrete. Eh pá, eu se calhar também bloquearia! É um daqueles casos – como Takato com o Megidramon – em que o cérebro parece falhar durante segundos, em que uma pessoa se arrepende quase de imediato, mas as consequências são graves.

 

Também é possível que Juri não tenha ido com Beelzebumon porque não estava preparada para ser salva – não achava que o merecia. Os seus sentimentos de culpa e baixa auto-estima agravam-se quando pensa que Beelzebumon vai morrer – o que, felizmente, não acontece. Juri tenta, então, escapar sozinha, mas o D-Reaper torna a imobilizá-la – desta feita fisicamente. A menina fica assim durante uma semana, pois nesta altura o D-Reaper cresce ainda mais, obrigando os Treinadores a bater em retirada.

 

juri.png

 

No fim dessa semana, quando Culumon diz a Juri que ele só deseja vê-la feliz, a jovem diz que não o merece. Somos, então, brindados com uma tentativa de suicídio num desenho animado que passou no Canal Panda. Uma menina tentando asfixiar-se com um cão de fantoche. Eu… eu nem tenho palavras. 

 

A verdade é que Juri pensa que, se morrer, o D-Reaper será travado (algo questionável nesta fase do campeonato) e os amigos deixarão de correr perigo. Eu suspeito que seja essa a lógica por detrás de muitas mortes por suicídio: acharem que os seus entes queridos estarão melhor sem eles. 

 

Bem, Juri está enganada e não é a única. Morrer por suicídio nunca, NUNCA, é solução, bem pelo contrário! Se alguém com ideias de se magoar a si mesmo estiver a ler este texto, por favor, não o faça, peça ajuda! Vou deixar links para linhas de apoio em Portugal e no Brasil (se alguém conhecer mais linhas, deixe nos comentários). Não estão sozinhos, o mundo precisa de vocês, por favor, peçam ajuda! 

 

Regressando a Tamers, no caso de Juri, é Culumon quem entra em pânico e dissuade a jovem de ceder à sua depressão. Em lágrimas, o pequenote recorda-lhe que há imensas pessoas que gostam dela e querem-a viva e feliz. O próprio Culumon, Takato, Guilmon, Ruki, os seus pais, o seu irmãozinho, até mesmo Beelzebumon.

 

Isto na verdade não são palavras muito diferentes daquelas que outras personagens tinham dirigido a Juri ao longo de Tamers, Takato sobretudo. Mas até ao momento a mensagem tinha chocado com o muro da baixa auto-estima da jovem. Fora preciso alguém tirar-lhe quase literalmente a arma da mão, alguém sujeitar-se às torturas do D-Reaper só para estar ao lado dela, para Juri acreditar nessas palavras. Para acreditar que merece ser salva. Para acreditar que a própria Humanidade e o Mundo em geral merecem ser salvos, que o destino de ninguém está gravado em pedra, que cada um escolhe quem quer ser. 

 

EDpoiO3WsAAb103.png

 

Sim, ela pede ajuda a Takato à distância, como numa típica história de donzela indefesa. Quando sai finalmente do D-Reaper, vai literalmente nos braços do seu interesse amoroso. Mas se isto fosse uma típica história de donzela indefesa, Juri teria sido resgatada antes, por Beelzebumon. Juri precisava de acreditar que merece viver, que merece ser salva, antes de aceitar a ajuda dos demais. 

 

Há ainda tempo antes do final de Tamers para Juri conhecer Ai e Mako, os Treinadores de Impmon, e finalmente perdoar este último. Mesmo no rescaldo imediato da morte do Leomon, a menina mostrara misericórdia – era uma questão de tempo até ao perdão. Juri sabe como é ter traumas e deixá-los manifestarem-se de maneiras destrutivas – ainda que tal tenha resultado da manipulação do D-Reaper. 

 

Por fim, a menina aprendera que tanto as pessoas como os Digimon têm a capacidade para mudar. Impmon já o fizera, logo, merecia ser perdoado. 

 

Depois disto tudo, apesar de perder Culumon (que se tornara quase um segundo companheiro Digimon) por causa das consequências da Operação Joaninha, à primeira vista Juri tem um final feliz. No breve epílogo de Tamers, vêmo-la com Takato e os outros colegas de turma, aparentemente satisfeita… mas, lá está, ela também parecera satisfeita antes de as coisas terem dado para o torto.

 

Eu acho que Juri ainda precisará de algum tempo. A sua bagagem toda – a morte da mãe, a relação difícil com o pai e a madrasta, a perda do Leomon, a tortura do D-Reaper – não se resolve de um dia para o outro, com um mero resgate do seu Príncipe Encantado. Juri não partirá do zero: agora sabem que tem pessoas que gostam dela, que lutaram por ela. Tadashi certamente fará um esforço por ser melhor para a filha. Irá demorar – espero que lhe arranjem acompanhamento psicológico – mas quero acreditar que ela ficará bem, mais cedo ou mais tarde, que se tornará mais forte.

 

2.png

 

E com isto terminámos a análise aos protagonistas. Como não terei muito a dizer sobre os restantes Treinadores, no próximo texto falarei de todos os que faltam, bem como de Culumon. Fiquem por aí!

Digimon Tamers #8 – Quando for grande, quero ser como ela...

ruki.png

 

...apesar de já ser mais velha que a mãe dela, durante os eventos de Tamers.

 

Consta que Ruki, a única rapariga que faz parte do trio de protagonistas, é a personagem mais popular em Tamers. Eu neste caso concordo com a opinião do público. Se tivesse visto Tamers em miúda, teria desenvolvido uma enorme “girl crush” por Ruki. Tentaria imitar o penteado dela – e falharia, porque o meu cabelo só atingiu o comprimento suficiente para um rabo-de-cavalo aos catorze anos. Andaria a chatear os meus pais para me arranjarem uma t-shirt com um coração azul partido – segundo eles, nunca fui de pedir muitos presentes em pequena, mas as coisas que pedia eram difíceis de arranjar.

 

Hoje felizmente temos a Tee Public e já ganho o meu próprio dinheiro. Por isso…

 

EA1Ik7cX4AAQ-0M.jpg

 

(Fiquei um bocadinho desapontada por terem demorado várias horas a reparar, no encontro do Odaiba Memorial Day.)

 

Como adulta, continuo a sentir admiração por ela, mas diria que Ruki está mais ou menos empatada com Takato como personagem preferida de Tamers. De uma forma simplista, Takato é quem eu sou. Ruki é quem eu gostava de ser. 

 

Segundo o site de Konaka, brinquedos centrados em personagens femininas vendem menos que os centrados em personagens masculinas (ou pelo menos vendiam menos na altura do planeamento de Tamers. Para contrariar um pouco esse fenómeno, os produtores decidiram que a rapariga protagonista teria de ser a mais poderosa e capaz. 

 

Por um lado, acho que foi uma boa decisão, mesmo que por motivos comerciais: os próprios produtores admitindo que boas personagens femininas vendem. E Tamers quebrou convenções, sobretudo para a época, ao ter dois protagonistas masculinos mais para o emotivo e sensível e uma protagonista feminina mais estóica e durona.

 

É pena, no entanto, que se considere que, para se tornar uma personagem feminina “melhor”, mais apelativa comercialmente, se tenha de torná-la… bem, menos feminina. Sou a primeira a admitir que é uma faca de dois gumes. Eu também era maria-rapaz em miúda, ainda o sou um bocadinho, sendo este um dos motivos pelos quais gosto de Ruki (e de Sora, de quem Ruki parece ser uma versão melhorada, nalguns aspetos). Estou certa que existirão muitas outras meninas com gostos menos femininos na audiência de Digimon. Mas quantas de nós nos tornámos marias-rapaz porque internalizámos que ser-se feminina, gostar de vestidos, de cor-de-rosa, de princesas da Disney não é fixe?

 

ruki.png

 

Enfim, passemos à frente.

 

Quando conhecemos Ruki, esta tem várias características de uma adolescente rebelde: reservada, aparentemente fria e distante, segura de si mesma – eu daria tudo para ter um décimo da sua confiança. Não é má rapariga. Não é mal-educada – Konaka referiu no seu site que não queria que Ruki usasse linguagem grosseira. E de facto vêmo-la tratando a avó e a maior parte dos adultos (com notáveis exceções) com respeito (Editado: entretanto, recordaram-me que, na sociedade japonesa, as gerações mais jovens em geral nutrem imenso respeito pelos mais velhos, mais do que no mundo ocidental. Por isso, talvez não seja assim tão significativo.) Mesmo com Takato ou Jian, ela é fria, mas não chega a ser malcriada. 

 

Ruki é apenas solitária, focada nas suas coisas, não tem paciência para pessoas de que não gosta ou que não tem em grande conta. Como Takato e Jian de início, Hirokazu e Kenta mais tarde, mas sobretudo a sua mãe.

 

Recuando um pouco no tempo, quando Ruki nasceu, a sua mãe, Rumiko, tinha apenas dezoito anos. Ela terá chegado a casar com o pai da filha mas, como seria mais ou menos de esperar de um casamento tão precoce, este não resulta. Por altura dos eventos de Tamers, o pai está desaparecido do mapa. Não é muito claro se Ruki ainda mantém contacto com ele – supostamente sim, segundo um monólogo da jovem, mas isso contraria o segundo filme de Tamers (que, por outro lado, acho que toda a gente concorda que não faz parte do cânone oficial).

 

Konaka fez questão de referir no seu site que a personalidade de Ruki não é influenciada pela ausência do pai… mas será verdade? Tal como é referido neste vídeo, o trauma de abandono explicaria pelo menos em parte a relutância de Ruki em abrir o seu coração a Renamon, bem como aos outros treinadores. Mais sobre isso adiante.

 

Sem Título.png

 

Mesmo tendo sido mãe muito cedo (o facto de a avó de Ruki ter estado por perto e de haver dinheiro na família terá ajudado), Rumiko conseguiu lançar uma carreira bem sucedida como super-modelo. Possui mesmo o estatuto de mini-celebridade. Ao contrário de Ruki, é extrovertida, convencionalmente feminina e tenta transformar a filha numa miniatura de si mesma – pressionando-a para ter interesses mais femininos e arrastando-a para sessões fotográficas. 

 

Devo dizer, as cenas em que Rumiko tenta convencer Ruki a usar vestidos bonitos lembram-me a minha própria infância. Qualquer uma que tenha sido maria-rapaz nalguma altura da sua vida terá recordações semelhantes.

 

Só que Rumiko pressiona um bocadinho além do que é saudável e Ruki, naturalmente, ressente-se. Torna-se maria-rapaz – a certa altura dá-se a entender que terá sido por influência do pai. Dedica-se ao jogo de cartas de Digimon, uma franquia dirigida sobretudo a rapazes. 

 

É possível que tenha escolhido deliberadamente um passatempo, um mundo onde a mãe não pudesse assoberbá-la. E eu, admito, revejo-me ainda mais nesta atitude no que no estilo menos feminino. 

 

Rumiko domina o jogo de cartas com facilidade, perdendo apenas para Ryo, ganhando o cognome de Rainha dos Digimon. A vitória, no entanto, não a satisfaz, não preenche o vazio.

 

rumm.png

 

É nessa altura que aparecem Digimon em sua casa, pedindo-lhe para ser sua Treinadora. Este é um caso excecional em Tamers, em que são dos Digimon que vão atrás de uma humana, em vez do oposto. Ainda assim, Ruki declara que só quer um Digimon verdadeiramente forte. Renamon avança – um nível Infantil, apesar de existirem níveis Adultos e Perfeitos entre as opções.

 

Na verdade, antes de ver Tamers, pensava que Renamon era um nível Adulto – por causa do tamanho e pelo comportamento, mais parecido com o da Tailmon que do Agumon ou do Guilmon. Tirando esse aspeto, a família digievolutiva da Renamon é a minha preferida em Tamers. 

 

São sempre os Digimon das meninas, curiosamente.

 

No início, Ruki e Renamon possuem uma relação estritamente profissional. Renamon procurava a ajuda de um humano para se tornar mais forte, quiçá digievoluir. Ruki vê Renamon e os restantes Digimon como uma extensão do jogo de cartas: apenas dados digitais, personagens de um videojogo.

 

Nesta fase, há quem compare Ruki a Ken, quando este era Imperador Digimon – no sentido em que ambos encaram os Digimon como um jogo. Não sei se é uma comparação legítima. Ken não possuía controlo total sobre as suas atitudes para começar; torturava e obrigada Digimon a combater sem o consentimento deles.

 

rumm.png

 

Por sua vez, Renamon luta de livre vontade. Pode-se argumentar que o mesmo acontece com os adversários que derrota e absorve pois, lá está, dos Digimon vivem sobre a lei do mais forte. Combater e absorver adversários faz parte da sua cultura.

 

Não deixa de ser uma área moralmente cinzenta. Afinal, essa cultura foi inscrita no ADN dos Digimon por humanos e, agora, uma humana aproveita-se dessa cultura para entretenimento e prestígio pessoal. Ruki não está a fazer o mesmo que Ken. Mas não significa que seja o correto.

 

Um caso em que Ruki claramente não faz o correto é quando conhece o Takato e o Guilmon. Aqui não há desculpa, Guilmon tinha pouco menos de um dia de vida, era um bebé. Nem ele nem Takato queriam combater. Ruki só tinha de deixá-los em paz. 

 

Felizmente, esta atitude depressa se volta contra ela. Bem, não sei se posso usar a palavra “felizmente” associada a uma cena onde uma menina de dez anos é encostada à parede por uma criatura apontando-lhe uma arma. Em todo o caso, é a primeira ocasião em que vemos a autoconfiança de Ruki abalada e as suas convicções questionadas. 

 

ruki.png

 

A convivência com Takato, Jian e respetivos companheiros Digimon provoca mudanças em Renamon antes de em Ruki. Ao ver as relações afetivas que Guilmon e Terriermon cultivam com os seus treinadores, ela começa a desejar algo semelhante para si – ainda que apenas no subconsciente. Renamon começa a sentir que está a desiludir Ruki pessoalmente por não conseguir a digievolução.

 

Esta, na verdade, é desbloqueada, não após a absorção de adversários suficientes e sim durante um combate em, pela primeira vez, ambas se preocupam com a segurança uma da outra. Em que tentam proteger-se uma à outra.

 

Ainda assim, Ruki não percebe logo a mensagem. A jovem ainda não está preparada para aceitar que gosta de Renamon. As coisas só mudam quando Ruki começa a ser perseguida por algo… gélido. Ao perceber que a sua Treinadora está assustada, Renamon oferece-se para protegê-la… ao que Ruki responde com duas pedras na mão- Tenta colocar o Digimon no seu lugar e ergue uma barreira entre elas. 

 

Renamon ausenta-se. Por norma, sabe que Ruki gosta do seu espaço, sobretudo quando algo a perturba. No entanto, dá para ver que ficou magoada.

 

Ruki não demora a descobrir a identidade do seu stalker. IceDevimon, uma criatura francamente sinistra – parece que, tal como o Takeru, não sou grande fã de Devimon nem que Digimon semelhantes. Este deseja substituir Renamon como companheiro Digimon de Ruki. Persegue e rapta a jovem, trá-la para a sua cave e mostra-lhe os cadáveres congelados de todos os Digimon que derrotou – como quem mostra as duas credenciais, a sua sala de troféus.

 

ruki.png

 

IceDevimon acaba por funcionar como personificação da faceta que Ruki, até ao momento, procurara mostrar ao mundo: fria, ambiciosa, implacável. IceDevimon pensa que Ruki valoriza tais características, que a persuadirão a jovem a tornar-se sua Treinadora… mas Ruki está essencialmente a olhar-se ao espelho e não gosta do que vê. 

 

Ninguém gostaria. Ruki repetira inúmeras vezes desde o início de Tamers que os Digimon são apenas dados. Quando uma pessoa repete a mesma ideia com esta frequência, pode significar que está a tentar convencer-se a si mesma tanto quanto dos demais. Os Digimon podem ser apenas criaturas digitais – o que não significa que sejam incapazes de sofrer ou que seja agradável vê-los congelados numa perpétua expressão de terror.

 

Ruki não quer ser mais essa pessoa, mas também não quer pedir ajuda a Renamon. Receia que, depois da maneira como a tratou, ela não venha. Renamon, no entanto, conseguira sentir que Ruki estava em perigo e aparece para ajudar.

 

De início tudo corre bem, como já acontecera muitas vezes em Digimon. Pela primeira vez, Ruki afirma que Renamon é sua amiga, com todas as letras. Em resposta, Renamon digievolui… mas Kyubimon é incapaz de derrotar IceDevimon. Quem o faz é Guilmon, orientado por Takato que, pela primeira vez, usa cartas e é bem sucedido. 

 

No rescaldo daquela situação, Ruki grita que detesta Digimon, vai para casa sem Kyubimon e deita fora as suas cartas e o seu D-arco.

 

ruki.png

 

Uma reação intempestiva, é certo, mas compreensível. Vejamos a situação. Ruki tinha acabado de sobreviver a um Digimon francamente sinistro. Acabara de descobrir que o seu passatempo, aquilo que dava sentido à sua vida, era essencialmente uma carnificina. Tinha tentado fazer diferente, admitir ao mundo que gostava de Renamon, o que não era fácil para uma pessoa orgulhosa e reservada como ela – o que não chegara para derrotar IceDevimon. Quem o fizera, fora um puto que, no episódio anterior, estivera a chorar como um bebé agarrado ao Growmon. 

 

Em suma, Ruki devia estar a sentir-se confusa e humilhada e reagiu da maneira que qualquer criança da idade dela reagiria: amuando, batendo com a porta, dizendo que não quer brincar mais.

 

Tanto ela como Renamon passam algum tempo afastadas, refletindo. Renamon chega a conversar sobre o sentido de ter um companheiro humano, primeiro com Jian, mais tarde com Impmon, que tem um histórico… digamos, interessante com Treinadores. Este último acaba por funcionar como o reverso da medalha para Renamon, como veremos um dia destes.

 

Entretanto, Renamon vai derrotando outros Digimon sozinha, concluindo que talvez não precise de Ruki para se tornar mais forte. No entanto, nesta altura, tornar-se mais forte só porque sim já não a satisfaz – tal como o jogo de cartas deixou de satisfazer Ruki, a partir de certa altura.

 

Por seu lado, apesar de Ruki ter, aparentemente, desistido dos Digimon, não consegue manter-se afastada quando estes aparecem. Vêmo-la de fora do campo de dados, enquanto Renamon derrota um bando de Flybeemon, afastando-se de seguida sem falar com a sua companheira. Pensa, agora, que Renamon só queria saber dela para se tornar mais forte. 

 

É também nesta altura que a avó de Ruki, na sua sabedoria, avisa que o isolamento constante não é saudável, que ninguém sobrevive a este mundo sozinho.

 

ruki.png

 

Havemos de regressar a esta ideia mais adiante. Para já, dizer que, quando outro Digimon, uma Harpymon, aparece, mais uma vez Ruki não consegue manter-se afastada. Desta feita, deixa-se ver por Renamon. À primeira vista, esta derrota a Harpymon, mas em vez de lhe absorver os dados, fica ali parada, apercebendo-se de que nada daquilo lhe contribui para a sua felicidade. Lá porque Renamon consegue derrotar adversários sozinha, não significa que o queira. 

 

Ora, Harpymon aproveita as reflexões existenciais de Renamon para atacá-la quando tem as defesas em baixo. Renamon, apanhada de surpresa, não se consegue defender. Ruki, em pânico, leva a mão aos bolsos mas lembra-se que atirara tanto o seu D-arco como as cartas para o caixote. Sem alternativa, agarra num pau caído e corre a espetá-lo nas costas da Harpymon. 

 

Naturalmente, o Digimon selvagem volta-se para Ruki – que fica com uma cara de devia-ter-pensado-melhor-nisto. Felizmente, Renamon digievolui à moda antiga, para proteger a sua companheira (uma sorte o Culumon estar por perto), e derrota a Harypymon.

 

Ou seja, tal como na ocasião em que desbloquearam a Kyubimon, por muito reservadas e orgulhosas que sejam, Ruki e Renamon não conseguem afastar-se uma da outra, preocuparem-se uma com a outra, protegerem-se uma à outra. E desta vez admitem-no preto no branco.

 

Depois de conseguir abrir-se a Renamon, Ruki começa a fazer o mesmo com os outros Treinadores – sobretudo quando começam a aparecer os Deva e ela, Takato e Jian se encarregam de proteger a população civil. Eu destacaria a ocasião em que se oferece para ensinar o jogo de cartas a Juri, quando esta adquire o seu próprio baralho. 

 

rumm.png

 

Por outro lado, regressando à relação de Ruki com a sua mãe, quando o elenco vai ao Mundo Digital resgatar Culumon, a jovem sente-se mal pelo sofrimento que vai provocar a Rumiko. Assim, dá um primeiro passo no sentido de uma reconciliação ao aceitar usar um dos vestidos que a mãe tentara impôr-lhe – em jeito de despedida. 

 

Havemos de regressar a Rumiko. Para já, no Mundo Digital, os instintos protetores de Ruki tornam a manifestar-se, desta feita para com Hirokazu e Kenta. Os dois tinham-se juntado ao grupo de resgate à procura de companheiro. Não o encontram de imediato, ou seja, passam bastante tempo indefesos – e Ruki assume a tarefa de protegê-los.

 

Não que o faça pacificamente. Pelo contrário, não se coibe de dizer-lhes exatamente o que pensa deles (e até tem alguma razão), chegando mesmo a dar-lhes um literal pontapé no rabo. Quando Ryo se junta à festa – o lendário Digitreinador, o único a derrotar Ruki no campeonato de cartas antes de literalmente desaparecer da face da Terra, que a narrativa trata quase como um Gary Stu e tenta insinuar que Ruki tem um fraquinho por ele – a jovem atinge o seu limite, optando por virar as costas ao grupo e venturar-se sozinha.


Enfim. Como fizem os anglo-saxónicos, baby steps.

 

No meio disto tudo, tem alguma piada ver Renamon “ralhando” com Ruki, aconselhando-a a ter paciência com os demais. Como, por exemplo, quando a jovem reclama com Juri por esta a tratar por “chan”. (Há um par de ocasiões em que, na versão original, Ruki reage mal a ser tratada por um chan, compreensivelmente. A dobragem portuguesa traduz ambas literalmente, o que é uma falha infeliz, conforme expliquei aqui.) Só reforça a ideia de que Treinador e digimon puxam um pelo outro, crescem em conjunto.

 

rumm.png

 

Por outro lado, Ruki pode ter pouca paciência para com os rapazes do grupo que não Takato ou Jian, mas é meiga com Shaochung, mesmo com a choradeira toda. Mais compreensiva que o irmão, como vimos no texto anterior.

 

Com a luta com o Beelzebumon e consequente morte de Leomon, os instintos protetores de Ruki saem reforçados. A seguir a Takato, ela é a mais preocupada com a visível depressão de Juri, a sua conversa sobre o destino. Renamon diz mesmo que o coração da amiga está fechado pelo sofrimento – mas que terá de ser ela própria a escolher abri-lo de novo, a aceitar a morte do Leomon e a seguir em frente.

 

As palavras de Renamon são surpreendentemente proféticas, como veremos no próximo texto. Para já, pergunto-me se Ruki se revia em Juri naquele momento. Ela também passara muito tempo com o coração fechado e teve de escolher abri-lo de novo, como vimos antes. 

 

Havemos, aliás, de voltar a falar de semelhanças entre as duas meninas. Entretanto, quando descobrem que Culumon está preso numa ravina cheia de D-Reaper, Ruki oferece-se para descer sozinha com Renamon, precisamente para que nenhum dos amigos tenha de arriscar a vida – embora Ryo vá atrás dela. 

 

Ruki consegue chegar a Culumon, mas teemos um par de momentos assustadores. Algumas bolhas do D-Reaper rasam Ruki e Culumon e acabam por apanhar a mochila da primeira.  Por fim, chegam a uma posição em que os quatro – Ruki, Renamon, Culumon, Ryo – estão encurralados pelo D-Reaper. Takato, Jian e os outros estão mais acima, mais resguardados, mas não escaparão durante muito tempo.

 

É na combinação destas fintas próximas à morte com o desejo de proteger os amigos, mesmo de desafiar o destino e escrever a sua própria história que Ruki e Renamon dão um literal salto de fé, para o abismo do D-Reaper. Assim nasce o nível Extremo de Renamon.

 

 

Tenho um conhecimento limitado de Digimon, mas estou certa de que haverá quem concorde comigo quando disser que a sequência de digievolução para Sakuyamon é a mais bela em toda a franquia (embora não seja a minha preferida, está em segundo lugar). O fundo azul com a lua, a água, as cerejeiras em flor, o coro feminino no início de One Vision… Só de escrever fico com pele de galinha!

 

Tamers faz questão de realçar que o interior de Sakuyamon é quentinho, que ela mesma irradia calor para os demais. Aposto que é um contraste intencional com o gelo de IceDevimon, a sua cave cheia de cadáveres, que se comparava a si mesmo com Ruki, na primeira parte da narrativa. Sakuyamon é uma guerreira, mas é também uma força benevolente, maternal, protetora – um pouco como a Wonder Woman – que entoa um cântico com traços de canção de embalar, enquanto usa os seus poderes contra o D-Reaper.

 

No episódio seguinte, Ruki e Renamon citam a benevolência e compaixão de Sakuyamon como inspiração para irem à procura do Impmon e levá-lo para o Mundo Real. Mesmo depois de este ter assassinado o Leomon, mesmo depois de ter estado a isto de assassinar o Dukemon (com Takato lá dentro).

 

Uma vez mais, talvez Ruki e Renamon se tenham revisto em Impmon. Como referido antes, elas quiseram absorver o Guilmon no início de Tamers. Tinham, também, uma longa lista de adversários derrotados – adversários esses que podiam ter um Treinador ou andar à procura de um. Além disso, conforme veremos quando falarmos sobre Impmon, se as coisas entre ela e Ruki não tivessem resultado, Renamon podia ter seguido um trajeto muito parecido. 

 

rumm.png

 

Esta decisão quase custou a boleia para o Mundo Real – não só a Ruki e Renamon, mas também a Takato, que ficou para trás à espera delas – mas valeu a pena. Ambas deram a Impmon uma segunda oportunidade e este, como veremos mais tarde, não a desperdiça.

 

Quando regressam a casa, Ruki e Renamon não conseguem lá ficar por muito tempo, por causa da ameaça do D-Reaper. Rumiko aproveita para terminar o que a filha começara antes de ir para o Mundo Digital. Pela primeira vez trata Ruki, não como um molde de plasticina para ela esculpir à sua imagem e semelhança, e sim como uma pessoa independente. Respeita-a por esta seguir o seu coração, as suas convicções, contra as opiniões dos demais – tal como Rumiko fizera aos dezoito anos, ao casar e ter um bebé nessa idade, certamente contra os conselhos dos mais velhos.

 

Se essa decisão de Rumiko foi a mais acertada é questionável – o casamento não durou e a filha está a crescer sem o pai por perto. Mas sempre lhe deu Ruki, que provavelmente nem seria a mesma pessoa se tivesse sido nada e criada noutras circunstâncias. 

 

Eu adoro a simbologia da t-shirt que Rumiko oferece à filha: idêntica à que Ruki usara até ao momento, mas com um coração inteiro em vez de partido. Ao contrário dos vestidos de antes, é uma peça de roupa que respeita a personalidade da filha. Mais: a própria Rumiko também arranja uma t-shirt com um coração, mas em rosa e vermelho, mais de acordo com o seu estilo pessoal. As t-shirts, com o mesmo desenho mas em cores diferentes, mostram que mãe e filha são pessoas distintas, mas na mesma equipa.

 

rumiko.jpg

 

Além de que a mudança de um coração partido para um inteiro é um bom reflexo da evolução de Ruki. Mas eu confesso que a adolescente rebelde em mim gosta um bocadinho mais do coração partido.

 

Outro momento marcante envolvendo Ruki e a sua família ocorre alguns episódios depois, quando se descobre toda a verdade sobre a situação familiar de Juri. Ruki apercebe-se que a sua família, por comparação, não é assim tão má. Os pais estão divorciados, mas estão ambos vivos. Rumiko tem muitos defeitos, mas toda a gente percebe que está a dar o seu melhor. Além de que a sua avó sempre estivera presente, funcionando como segunda mãe. 

 

A Juri saíra-lhe muito pior na rifa – mas nunca o usara como desculpa para se isolar, ser arrogante, matar outros Digimon como passatempo. Pelo contrário, Juri era simpática, tratava bem toda a gente, escondendo de todos a sua infelicidade. 

 

Não que o comportamento de Juri fosse saudável, como veremos no próximo texto. Tanto ela como Ruki tentaram lidar o melhor que puderam com coisas sob as quais não tinham controlo. E têm apenas dez anos! Nenhuma delas pode ser censurada.

 

De qualquer forma, esta reflexão é uma boa prova do crescimento de Ruki, enquanto personagem. 

 

ruki.png

 

Na verdade, a história de Ruki em Tamers recorda-me as histórias de outras personagens femininas marcantes. Há uns anos li este excelente artigo, num blogue que já mencionei antes, desmontando alguns mitos sobre personagens femininas fortes – que muitos acusam de amolecerem a partir do momento em que desejam a ajuda e/ou companhia de outras pessoas, se apaixonam, ou, pura e simplesmente, exprimem emoções que não raiva ou orgulho.

 

Katie, a autora do texto, cita como exemplos Kate Beckett, de Castle, e Emma Swan, de Once Upon a Time, mas eu também incluiria Temperance Brennan, também conhecida por Bones. E agora Ruki.

 

Todas estas mulheres tiveram infâncias difíceis, em graus diferentes e, como resposta, ergueram muros em torno de si, fecharam-se ao amor e à amizade. Não posso falar muito sobre Beckett, pois não acompanhei Castle assim tão perto, mas posso falar sobre Emma após escrever várias vezes sobre Once. 

 

Emma crescera como órfã, fora magoada por praticamente toda a gente com quem teve alguma proximidade: o casal lhe a acolheu em bebé mas mandou-a de volta; uma das poucas amigas que teve em miúda; uma mãe de acolhimento que esteve muito perto de adotá-la; o primeiro homem que a amou mas que a deixou grávida e na cadeia em vez dele. Usava casacos de cabedal como armadura, como símbolo dos muros que erguera. Precisou de muito tempo, praticamente toda a série, para abrir o seu coração por completo – primeiro ao filho, depois aos pais, depois ao homem com quem casaria.

 

 

Da mesma maneira, desde que, ainda adolescente, fora abandonada pelos pais e, mais tarde, pelo irmão, Bones usara a sua extrema racionalidade como escudo, não se permitindo sentir qualquer emoção. Em parte por causa do seu trabalho – ninguém consegue trabalhar com ossos e cadáveres se não tiver pelo menos algum controlo sobre as suas emoções. Mas sobretudo para se proteger contra o sofrimento.

 

Mas, regressando a Once, como diria Mary Margaret, estas atitudes podem bloquear o sofrimento, mas também bloqueiam o amor, a amizade, a felicidade em geral.

 

É de Bones, aliás, que vem uma citação perfeita para estes casos. Vou tentar traduzir o melhor que consigo (com supressões).

 

Brennan: Eu sou… bastante forte.

Booth: Tu sempre foste forte.

Brennan: Sabes qual é a diferença entre força e impermeabilidade, não sabes?

Booth: Não.

Brennan: Uma substância impermeável a danos não precisa de ser forte. Quando nos conhecemos, eu era uma substância impermeável. Agora sou uma substância forte. Pode chegar uma altura em que eu esteja suficientemente forte para arriscar perder o resto da minha impermeabilidade. Talvez nessa altura possamos juntar-nos.

 

Durante muito tempo, Ruki sentiu-se relutante em tirar os seus óculos escuros, em confiar noutras pessoas, fazer amizades. Usava o jogo de cartas de Digimon e, mais tarde, os combates com Renamon como armadura – e possivelmente porque não tinha mais nada a que se agarrar. A jovem era uma substância impermeável, que não se deixava afetar por emoções, por nada.

 

ruki.png

 

Os eventos de Tamers, por sua vez, tornaram-na uma substância forte: que sofre danos mas que não é destruída por eles. O seu conhecimento e talento como Digitreinadora deixou de ser um mero escape para se tornar numa arma para proteger aqueles que ama. 

 

No fundo, tal como Takato, ao longo de Tamers, Ruki aprendeu a canalizar a sua paixão por Digimon para propósitos heróicos. É por isso que não concordo quando certos fãs dizem que Ruki perdeu a piada ao tornar-se menos durona – eu diria que nunca deixou de sê-lo, apenas tornou-se durona de uma maneira diferente, melhor. Passou de uma durona que usa a carta certa para derrotar e absorver um Digimon para uma durona que salta de uma ravina para tentar proteger os amigos do D-Reaper. 

 

Por outro lado, cheguei a concordar, durante o meeting do Odaiba Memorial Day, que Sakuyamon foi algo nerfada (continuo a odiar esta palavra…), desempenhando um papel demasiado defensivo em comparação com o início de Tamers… mas, depois de rever alguns episódios, ou partes deles, enquanto trabalho nesta análise, não acho que tenha sido assim tão defensivo quanto isso. 


Admito, no entanto, que, pelas semelhanças nas histórias das duas, pela amizade entre elas, gostava de ter visto Ruki pelo menos tão empenhada como Takato no resgate de Juri. Mas claro, Takato é o gogglehead, é o interesse romântico, tinha de receber mais tempo de antena.

 

ruki.png

 

Gostava de assinalar também que, no cúmulo do heroísmo de Takato, o Dukemon ganhou uma nova armadura, mas no cúmulo de Ruki Sakuyamon teve de perder a dela. Para aumentar a arma de Justimon, ainda por cima. Enfim…

 

E o que acontece no fim, depois de Ruki ter aberto o seu coração por completo, a Renamon, à família, aos amigos? Renamon tem de regressar ao Mundo Digital. 

 

Ruki é de longe a personagem mais dolorosa de se ver durante o traumático final de Tamers. Porque é a única vez que a vemos chorar (ao contrário do que acontece com os outros protagonistas, sobretudo Takato), porque sabemos quão difícil foi para ela deixar-se afeiçoar a Renamon e porque, pelo menos na dobragem portuguesa, a atriz que lhe dá voz faz um trabalho excelente. 

 

Quero acreditar que Ruki se tornou suficientemente forte para sobreviver a esse desfecho, que a mãe, a avó e os amigos consolá-la-ão. Mas não deixa de ser cruel.

 

ruki.png

 

Em suma, se no início de Tamers Ruki já era digna de admiração – durona, competente enquanto Treinadora, segura de si – no fim ganha qualidades extra – coragem, compaixão, empatia – que ainda a tornam mais fantástica. Mesmo não tendo podido conservar Renamon, Ruki sai de Tamers uma pessoa melhor, mais forte. É por isso que reitero: quando for grande, quero ser como ela.

 

...apesar de já ser mais velha que a mãe dela, durante os eventos de Tamers.

Digimon Tamers #5 – Dentro e fora da fórmula

Nas minhas análises, esta é a parte em que olhamos para o enredo da temporada. Dividimo-lo em partes e deixamos algumas impressões sobre as mesmas.

 

Antes de partirmos para isso, no entanto, queria ir um pouco ao pormenor antes de olharmos para o quadro geral.

 

Os episódios de Tamers possuem uma estrutura diferente que, confesso, demorei algum tempo a entranhar. Em Adventure e 02 era tudo muito mais simples: com as devidas exceções, os episódios possuíam um determinado problema como premissa inicial e esta, na maior parte dos casos, era resolvida no mesmo episódio. Em praticamente todos os episódios, os protagonistas deparavam-se com um Digimon adversário e pelo menos um dos companheiros dos miúdos digievoluía para derrotá-lo.

 

takato.png

 

Tamers tem alguns episódios assim, mas muitos deles fogem a essa fórmula. No primeiro episódio, por exemplo, só no minuto final é que o chamado gogglehead da temporada – Takato – conhece o seu companheiro, Guilmon. Vários capítulos terminam em cliffhangers, há linhas narrativas que se prolongam por mais do que um episódio. O combate com Beelzebumon, então, dura três episódios.

 

Estranha-se, sim, mas acaba por funcionar bem. Torna a história menos previsível e formulaica.

 

Se olharmos bem para a trama de Tamers em geral, esta acaba por ser o oposto da de Adventure. A primeira temporada de Digimon passa-se quase toda no Mundo Digital, com uma parte no Mundo Real. Tamers decorre quase todo no Mundo Real, com uma parte do Mundo Digital. Em ambos os casos, a mudança de cenário deve-se a um MacGuffin que funciona como encarnação da luz – Hikari no caso de Adventure, Culumon neste caso.

 

Eu digo que é um MacGuffin, mas não se pode dizer que a audiência não se rale com o Culumon. Bem pelo contrário – o pequenote é uma coisinha extremamente adorável, é preciso ter um coração de pedra para não se importar que ele esteja em perigo.

 

Assim, o enredo de Tamers pode, na minha opinião, ser dividido em cinco partes.

 

43221053_2291401631095039_3935284241889230848_n.jp

 

A primeira parte, que vai do primeiro episódio ao décimo-quarto, funciona como introdução. Vendo Tamers pela primeira vez, parecerá demasiado lenta – tal como Tri pareceu, na verdade – mas, vendo segunda vez, é mais fácil reparar nas sementes que vão sendo plantadas, na evolução lenta mas segura das personagens e da história. Esta parte serve para sermos apresentados às personagens, ao conceito de Treinadores, para preparar os três protagonistas para o papel que terão de desempenhar mais à frente, na história.

 

Conforme vimos antes, os Treinadores começaram sem propósito específico. Nem sequer se assumem logo como equipa, nem sequer se assumem logo como amigos. Nesta parte, vemos Takato aprendendo o “bê-á-bá” de ser Treinador; Jiangliang aprendendo que, por muito que não goste, às vezes lutar é necessário; Ruki descobrindo as consequências de lutar por motivos egoístas. Vemos os três protagonistas habituando-se uns aos outros e também à digievolução. Mesmo os secundários, futuros Treinadores – Hirokazu, Kenta e Juri – são apresentados aos Digimon no final desta parte.

 

Nesta altura do campeonato, os Digimon que se realizam no Mundo Real são meros “selvagens”, pouco mais que espécies infestantes. Tirando um caso ou outro, servem mais para aprendizagem dos Treinadores do que para outra coisa qualquer.

 

É também nesta parte que nos é apresentada a organização Hypnos, pouco a pouco. Durante vários episódios só vemos breves cenas de Yamaki brincando com o seu isqueiro e de Reika e Megumi anunciando o aparecimento de Digimon no Mundo Real (sou capaz de apostar que eles reutilizam a mesma cena uma meia dúzia de vezes).

 

Este arco termina com o Hypnos assumindo-se como uma força que quer erradicar os Digimon do Mundo Real – ou seja, funcionando como antagonistas dos Treinadores. Para esse fim, ativam o programa Shaggai… que acaba por causar mais problemas do que aqueles que resolve, ao permitir a aparição do primeiro Deva.

 

hypnos.png

 

Conforme comentaremos mais à frente, isto é mesmo a cena do Hypnos, pelo menos na primeira metade de Tamers: causar mais problemas do que aqueles que resolvem. Este é apenas um dos primeiros exemplos.

 

Por outro lado, a luta com o primeiro Deva, Mihiramon, durante este episódio de transição, sempre desbloqueia o MegaloGrowlmon, a forma perfeita de Guilmon.

 

Não estava habituada a termos formas Perfeitas tão cedo na temporada. Por esta altura, em Adventure, só agora é que Takeru tinha desbloqueado o Angemon, de forma traumática, diga-se. Em 02, estávamos a começar a segunda ronda de armodigievoluções. Nalgumas coisas o início de Tamers é lendo, mas neste aspeto é surpreendentemente rápido.

 

A segunda parte – que vai do episódio 15 ao 23, inclusive – caracteriza-se pela invasão dos Deva. Se na primeira parte, a digievolução para nível Adulto só ocorre em circunstâncias especiais, na segunda parte esta está normalizada (sendo ativada por carta). Desta feita, é a digievolução para nível Perfeito que ocorre em circunstâncias especiais.

 

Pelo meio, Leomon aparece no Mundo Real. Juri persegue-o durante um episódio, mas só no fim da segunda parte é que a parceria é oficializada.

 

jian-yu.png

 

Nesta fase, é revelada a história de origem dos Digimon, o Grupo Selvagem e o papel que Jiang-yu, pai de Jianliang, desempenhou no processo. Esse mesmo grupo começa a colaborar com o Hypnos, embora com intenções meramente académicas da parte dos cientistas – as de Yamaki não são bem assim.

 

No fim da segunda parte, Vikaralmon – o Deva-porco, uma criatura gigantesca – invade Shinjuku, destruindo uma parte da cidade. Numa tentativa de travá-lo, Yamaki tenta ativar o Shaggai. Torna a correr bem: não só Vikaralmon não é travado como a sede do Hypnos colapsa.

 

É também nesta altura que o Deva-macaco, Makuramon, deita as mãos a Culumon e leva-o para o Mundo Digital. A segunda parte termina com os Treinadores decidindo ir atrás deles, para o Mundo Digimon.

 

A terceira parte, do episódio 24 ao 34, decorre toda no Mundo Digital. Os Treinadores exploram este mundo diferente enquanto procuram Culumon. O grupo divide-se, encontra Culumon, reúne-se, perde novamente Culumon, divide-se outra vez. Há uma altura em que Ruki decide venturar-se a sós com Renamon, outra em que Shaochung, a irmãzinha de Jianliang, é trazida ao Mundo Digital pelos Digignomos. Pelo meio, é-nos apresentado Ryo que, no entanto, acaba por se afastar sozinho, antes do fim deste arco. Por fim, Impmon faz um pacto quase literal com o diabo, que lhe permite digievoluir para Beelzebumon.

 

beelzebumon.png

 

É inevitável colocar uma quebra no episódio em que o Leomon morre. É um claríssimo ponto de viragem na narrativa. Até este momento, Tamers tivera um tom razoavelmente descontraído. Não exatamente ao nível de um vulgar produto dirigido ao público infantil, mas normal para Digimon.

 

Depois da morte de Leomon, no entanto… bem, a coisa fica preta. E de que maneira!

 

A partir daqui é mais difícil dividir a narrativa, mas eu acho que faz sentido colocar uma divisória no episódio 41. A quarta parte de Tamers decorre ainda no Mundo Digital. Concluí-se o combate com Beelzebumon – onde ocorre uma digievolução negra para nível Extremo, uma digievolução correta para nível Extremo e, no fim, deixam Beelzebumon sair vivo, a pedido de Juri.

 

Depois desta, também Jian e Ruki desbloqueiam as formas Extremas dos seus Digimon, enfrentam as Bestas Sagradas, descobrem que o inimigo não são as Bestas Sagradas e sim o D-Reaper. Encontram o Culumon e este usa os seus poderes para catalisar inúmeras digievoluções para nível Extremo, para poderem enfrentar o D-Reaper. Os miúdos são autorizados a regressar a casa.

 

casa.jpg

 

No universo de Adventure, a reta final das temporadas é sempre mais sombria – no caso de Tri, tanto no sentido figurativo como no literal. Tamers segue pelo mesmo caminho, mas o tom sombrio nem se compara – sobretudo quando se descobre que o D-Reaper está a usar o corpo e a mente de Juri. São precisas várias tentativas para resolver o imbróglio – existem ocasiões em que tanto os Treinadores como o Hypnos e as forças militares não têm outra hipótese senão bater em retirada. Mesmo que isso implique deixar uma menina de dez anos presa naquela monstruosidade.

 

Se Tamers possui um final feliz é questionável. A situação do D-Reaper resolve-se, sim, mas o preço a pagar é elevado. A cena em que esse preço é cobrado é traumática… mas isso é conversa para mais adiante nesta análise.

 

Para já, na próxima publicação, vamos passar àquela que tem sido sempre a minha parte preferida em Tamers: as personagens. Fiquem por aí!

Digimon Tamers #4 – Os que Escolhem

maxresdefault (1).jpg

 

Até agora nesta análise a Tamers, olhámos para o Mundo Real e o Mundo Digital onde decorre a ação, bem como para as características dos Digimon enquanto espécie, neste universo. Neste texto, vamos falar do papel dos humanos. Queria refletir em particular sobre o porquê. Porque surgiram os Treinadores, qual é o seu objetivo. 

 

Comecemos pela semântica da coisa. Consta que, em termos do “meta” de Digimon enquanto franquia, o termo Tamer é um hiperónimo para qualquer ser humano que possua um companheiro Digimon. Pode ser alguém Escolhido por uma entidade divina qualquer para salvar o mundo. Ou pode ser apenas alguém que emparceirou com um Digimon para explorar o Mundo Digimon e treiná-lo para combate. Pode até nem sequer possuir um dispositivo digital.

 

Ora, a tradução literal de “tamer” é “domador”. No entanto, pelo menos nesta temporada, a dobragem portuguesa usa o termo Digitreinador ou, pura e simplesmente, Treinador. Não sei como é com vocês, mas a mim recorda-me demasiado a franquia concorrente.

 

Talvez não tenham usado o termo “domador” por possuir uma certa conotação negativa. No entanto, pelo menos no universo de Tamers, “domador” faz mais sentido do que “treinador”.

 

Tal como comentado amplamente no texto anterior, os Digimon neste universo possuem uma faceta fortemente selvagem e violenta. No entanto, é referido várias vezes ao longo da série que emparceirar com uma criança humana representa uma maneira alternativa de digievoluir, sem ser necessário absorver outros Digimon.

 

RyoAkiyamaWhip.jpg

 

Uma parte do trabalho dos miúdos é precisamente controlarem os instintos violentos dos seus Digimon. Takato e Jianliang debatem-se com isso em momentos diferentes, mas o caso mais óbvio é Ryo e Cyberdramon. Se Ryo não o mantiver com trela curta, Cyberdramon andará para sempre à procura de adversários fortes com quem combater. Ryo chega a usar uma espécie de chicote laser para imobilizar o seu Digimon.

 

Isso a mim assemelha-se à definição de “domar” na Infopédia. Pelo menos até certo ponto. O objetivo não é exatamente domesticar os Digimon (pelo menos não devia ser), antes canalizar os seus instintos violentos para fins mais produtivos.

 

Por isso sim, nesse aspeto faria mais sentido chamar-lhes domadores, na minha opinião. Até por uma questão de coerência com as versões japonesa e americana. No entanto, para esta análise, vou usar o termo “oficial” português, Digitreinador – ou Treinador, por uma questão de simplicidade.

 

Um ponto a favor de Tamers em relação a Adventure é o facto de não existirem Crianças Escolhidas, pelo menos não diretamente. Foram os miúdos que escolheram ser Treinadores, de uma maneira ou de outra. De igual modo, os Digimon com que emparceiram não foram desenhados como uma extensão da personalidade dos miúdos. Digimon e Treinador escolhem-se um ao outro. Juri vai literalmente atrás do seu futuro companheiro Digimon, Hirokazu e Kenta vão ao próprio Mundo Digital à procura de parceiros.

 

Parte dos conflitos em Tamers, aliás, derivam de incompatibilidades entre Digimon e parceiro humano – sendo que o principal conflito da história foi despoletado, indiretamente, por uma relação entre Digimon e seus Treinadores que correu mal.

 

DL27N89WsAE8ln2.jpg_large

 

A contrapartida é que não se percebe ao certo qual é o propósito de existirem Treinadores. Não lhes é exigido nada, ninguém espera que salvem o Mundo, nem o Real nem o Digital. O Hypnos de início procura boicotá-los ativamente, considera (não sem razão) que crianças não têm nada que lidar com Digimon. Mesmo quando começam a colaborar com os miúdos, fazem-no com alguma relutância – e com os pais deles a respirar-lhes sobre os pescoços.

 

Da mesma forma, os Treinadores apenas visitam o Mundo Digital para resgatar um amigo, o Culumon. Depois de o salvarem, os miúdos querem logo regressar a casa e as Bestas Sagradas não os impedem – isto apesar de, nesta altura, o D-Reaper já se ter declarado como o inimigo. Mesmo considerando histórias menores, como os Tsuchidarumon na Vila Esquecida ou os Gekomon escravizados por Orochimon, ninguém lhes pede, preto no branco, que façam alguma coisa. No primeiro caso, é Takato quem deseja tentar destruir a mota assombrada (contra a vontade de Jianliang, note-se). No segundo, Orochimon rapta Juri e os demais são obrigados, naturalmente, a intervir.

 

Isto não é uma coisa má. Pelo contrário, confere maior agência aos Treinadores. Eles envolvem-se na história não porque o destino o exigiu ou porque alguém lhes pediu ajuda, mas porque desejam proteger a sua cidade, aqueles que amam, aqueles que não se conseguem defender por si mesmos. Porque só eles têm possibilidades para isso.

 

A minha questão é, se os Treinadores não possuem nenhum propósito senão aqueles que definem para sim, porque é que começaram a surgir, aparentemente do nada, crianças “adotando” Digimon?

 

Durante a segunda vez que vi Tamers, desta feita já tomando notas para escrever esta análise, perguntei-me se o objetivo de existirem Treinadores seria para tentar tornar os Digimon em geral menos violentos. Como referimos antes, a natureza violenta dos Digimon afeta quase todas as relações entre Digimon e Treinador. Mas mesmo fora disso, no episódio em que Ruki, Hirokazu e Kenta pernoitam na casa do Gigimon e da Babamon, nota-se a influência da presença dos humanos. Quando estão sozinhos, os dois Digimon vivem num tédio constante e o único entretenimento que lhes ocorre é andarem à bulha. No entanto, na azáfama de servirem de anfitriões aos miúdos, deixam as brigas de parte e acabam por passar um bom bocado.

 

 

O episódio em si é fraquinho, é um filler e um bocadinho parvo, no bom sentido, quanto mais não seja pela icónica Canção da Pesca (naquelas circunstâncias, o António era menino para cantar o Africa). Mas sempre planta uma ideia interessante: se passarem tempo suficiente com humanos, mesmo que estes não sejam os seus Treinadores, será que os Digimon começam a deixar de lado as suas tendências violentas?

 

Eu pelo menos fiquei com a impressão, em vários momentos de Tamers, que o conflito principal da história seria humanos versus Digimon. Ou pelo menos Digimon-com-humanos versus Digimon-sem-humanos. Só que o D-Reaper meteu-se no meio.

 

É possível que, se não fossem as consequências da Operação Joaninha, para derrotar o D-Reaper, a história tivesse ido nessa direção: numa tentativa de “civilizar” os Digimon enquanto espécie. O que poderia proporcionar uns conflitos interessantes.

 

Conforme vimos no texto anterior, os Digimon não consideram que haja nada de errado com o seu estilo de vida. A parte, aliás, de Chatsuramon considerar insultuoso os Treinadores não absorverem os dados dos seus adversários – quando, antes, o facto de os miúdos terem deixado de absorver dados tenha sido pintado como uma evolução positiva – poderia ter sido melhor explorada. Tamers poderia ter examinado a moralidade das acções dos miúdos, ao tentarem impor os seus valores aos Digimon – quando, ainda por cima, foram os próprios humanos a codificar a lei do mais forte nos dados dos Digimon.

 

Havemos de regressar a este tema quando falarmos dos vilões de Tamers. Regressemos à questão do porquê de existirem Treinadores.

 

guilmon.png

 

A única resposta que me ocorre é pura e simplesmente porque as crianças o desejaram e os Digignomons concederam-no. Canonicamente, estes só terão influenciado a sagração de Takato e Kenta. No entanto, é possível que também tenham tido um dedinho com as dos outros. E de facto não acho que seja necessária outra explicação.

 

Se formos a ver, aliás, são os humanos quem fizeram quase tudo no universo de Tamers. Foram os humanos a criar os Digimon tal como são. Foram crianças humanas a desejar ganhar companheiros Digimon. Mesmo o grande vilão da história, o D-Reaper, foi criado por humanos e talvez não tivesse chegado ao Mundo Real se Beelzebumon não tivesse assassinado Leomon – o que não teria acontecido se as coisas entre Impmon e os seus Treinadores não tivessem corrido mal. Por fim, a Operação Joaninha que neutraliza o D-Reaper e tem… outras consequências, foi também obra de humanos: neste caso, o Hypnos e o Grupo Selvagem.

 

Os humanos são os principais condutores desta história, o que me agrada. Há menos Deus Ex-Machinas, menos ocasiões em que os protagonistas são salvos pelos dispositivos digitais ou semelhante.

 

O tema da próxima publicação será precisamente esse: o enredo, a narrativa. Publico-a daqui a uns dias, como tenho feito até ao momento. 

 

Espero que tenham um excelente vigésimo Odaiba Memorial Day (não podia deixar de manter a tradição e publicar neste dia). O encontro deste ano foi no sábado passado. Estejam atentos à página de Facebook deste blogue, bem como à página do evento, para saberem como foi. 

Pesquisar

 

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Sofia

    Claro, a maior parte das pessoas é̶ ̶n̶o̶r̶m̶a̶l, ...

  • Simple Girl

    Li esta análise (e a primeira parte), não costumo ...

  • Sofia

    Missão cumprida, ah ah! Piadas à parte, não é prec...

  • Anónimo

    eu estou completamente v-i-c-i-a-d-o nas suas anal...

  • Anónimo

    Nada, eu que agradeço por você analisar tão bem. S...

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Segue-me no Twitter

Revista de blogues

Conversion

Em destaque no SAPO Blogs
pub