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Álbum de Testamentos

"Como é possível alguém ter tanta palavra?" – Ivo dos Hybrid Theory PT

Hábitos de Leitura

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Há cerca de um ano e meio respondi a uma TAG sobre livros. Hoje volto a fazer o mesmo, desta feita à TAG Hábitos de Leitura que vi no blogue Coisa de Menina. Sabe sempre bem escrever sobre livros. Tal como com os Livros Opostos, vou adaptar as perguntas ao português de Portugal. E a primeira é:

 

1) Tens um lugar específico para ler?

 

Eu ler, leio em qualquer lado (hei de falar melhor sobre isso mais à frente), mas o meu sítio preferido para ler é a minha cama. Como quase toda a gente, gosto de ler qualquer coisa antes de dormir.

 

2) Marcador de página ou papel aleatório?

 

Muitos dos livros que leio têm abas nas capas, o que resolve a questão do marcador. Quando não têm, gosto de ter marcadores bonitinhos mas, na prática, é raro tê-los à mão. Acabo por usar folhas soltas dos meus cadernos, com apontamentos e/ou rascunhos da minha escrita. 

 

3) Consegues simplesmente parar de ler ou páras sempre no fim do capítulo ou num certo número de páginas?

 

Depende do livro. Os capítulos podem ser traiçoeiros. Na teoria, servem para dividir a história em episódios. Na prática, um escritor que queira criar um livro viciante, evitará fazer do final de um capítulo um bom momento para pousar o livro, antes pelo contrário. Na triologia Paradox, a autora segue esta filosofia demasiado à letra - a partir de certa altura, quando uma pessoa se aproxima do final de um capítulo, fica logo à espera do acontecimento bombástico que deixa tudo num cliffhanger.

 

4) Comes ou bebes durante a leitura?

 

Às vezes. O mais frequente é beber um café ao mesmo tempo. De vez em quando, como um pequeno snack (um iogurte, uma peça de fruta, uma sandes, uma taça de cereais...). Ler durante uma refeição principal é que é muito raro.

 

5) Ouves música ou vês televisão enquanto lês?

 

Música, de vez em quando. Quando li A Herança pela primeira vez, montei uma playlist a condizer. E sou capaz de jurar que estava a ouvir When You're Gone, de Avril Lavigne, quando li o capítulo "A História do Príncipe" em Harry Potter e os Talismãs da Morte pela primeira vez - mas é possível que tenha sido só na minha cabeça. Estas, no entanto, foram situações pontuais. Geralmente, não há relação entre a música que estou a ouvir e o livro que estou a ler.

 

Televisão, regra geral, só quando estou a fazer companhia a alguém (geralmente os meus pais) e o programa não me interessa particularmente - nos últimos tempos, costumam ser episódios de séries que os meus pais estão a ver pela primeira vez, mas que eu já vi. Quando é um programa que me interessa, não leio.

 

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6) Só lês em casa ou lês em qualquer lugar?

 

Em qualquer lugar. Em minha casa, em casa alheia, no café, nos transportes públicos (exceto o autocarro, porque enjoo), na praia, etc. Agora é mais fácil porque tenho smartphone e um Kobo, mas mesmo antes não era raro andar de um lado para o outro com um livro na mala ou na mochila.

 

7) Lês em voz alta ou em silêncio?

 

Eu detesto ler em voz alta. A minha oralidade é péssima (porque acham que escrevo tanto?). Só se for para ler uma história a uma criança. Tirando isso, não obrigado.

 

8) Lês tudo de seguida ou saltas páginas?

 

Quando leio um livro pela primeira vez, geralmente leio tudo, do início ao fim. Se estiver a reler um livro, posso eventualmente saltar algumas partes. Também não é raro eu pegar num livro que já conheço e ler só as minhas partes preferidas. Eu sou um pouco viciada em leitra, gosto de ter quase sempre qualquer coisa para ler, mesmo que sejam obras que já li quinhentas vezes.

 

9) Manténs o livro como novo ou partes a lombada?

 

Infelizmente, não dou o melhor exemplo no que toca a conservação de livros. Partir a lombada é algo frequente pois, muitas vezes, tento manter os livros abertos em cima da mesa. Com o tempo fui aprendendo a ter mais cuidado, mas, por exemplo, os nossos primeiros livros do Harry Potter estão muito maltratados. Também devo dizer que a qualidade de muitos exemplares deixa muito a desejar.

 

10) Escreves nos livros?

 

Tive uma fase, quando era miúda, em que escrevia um ou outro comentário nos livros e mesmo um ou outro desenho, mas foi só uma meia dúzia de vezes. À parte isso, os únicos livros em que escrevi foi os que estudei em Português, com os apontamentos das aulas (saudades de ouvir o meu professor do Secundário a ler...). Apontamentos esses que, depois, foram aproveitados pelos meus irmãos quando chegou a vez de eles os estudarem.

 

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Quem quiser pegar, também, na TAG, que esteja à vontade. Deem só os respetivos créditos e deixem o link nos comentários, para eu espreitar as respostas. Estou sempre disponível para este género de TAGs - é uma desculpa para escrever sobre coisas diferentes do habitual aqui no blogue.

 

Continuem desse lado.

The Hunger Games/Os Jogos da Fome

 


Ando para escrever sobre a série de livros da autoria de Suzanne Collins e respetivas adaptações cinematográficas há já algum tempo. É uma das sagas da moda e eu, à semelhança de muita gente, li os livros mais ou menos na altura em que saiu o primeiro filme. Não digo que os livros sejam dos meus preferidos mas, definitivamente, foram dos que mais me marcaram nos últimos anos, de uma maneira perturbadora até.

ALERTA SPOILER: Este texto contém revelações do enredo tanto dos livros como dos filmes da série The Hunger Games/Os Jogos da Fome. A leitura só é aconselhada caso tinham lido os três livros, até para a própria compreensão deste texto.

Vou começar por falar do primeiro livro, que deu o nome à série: The Hunger Games/Os Jogos da Fome. Nesta altura do campeonato, já toda a gente conhece as premissas: o mundo pós-apocalíptico e distópico, o governo opressivo, o contraste entre o luxo obsceno e degradante e a miséria medieval dos distritos mais desfavorecidos, o conceito dos Jogos da Fome. O único aspeto que não me convence em Panem é a ausência de uma qualquer obrigatoriedade de veneração dos líderes. As crianças não são obrigadas a cantar o hino nacional de olhos no presidente e no primeiro-ministro, como em Portugal, nem a expressão "Obrigado, Querido Líder" se encontra entre as suas primeiras palavras. A política de medo, sem nenhuma espécie de paternalismo que a atenuasse, facilitou a adesão do povo à revolta, bastou "uma mão-cheia de bagas" e a esperança revelou-se "mais forte que o medo" Se o povo tivesse sido (melhor) ensinado a venerar o presidente Snow, talvez a revolução não se teria alastrado tão "facilmente".

Mas este é apenas um pormenor.

 

Nisto surge Katniss, toda a gente sabe como. Uma jovem endurecida pelas dificuldades por que passou, em particular após a morte do pai e consequente depressão da mãe. Surge também Peeta, filho do padeiro, que ajudara Katniss anteriormente, num momento em que todas as portas se haviam fechado para a jovem. Enquanto Peeta se revela mais ingénuo, Katniss é mais cínica, sempre se questionando sobre as verdadeiras intenções do jovem padeiro, sem perceber que ele está a ser sincero, que os seus sentimentos são verdadeiros. Nos dois primeiros livros, aliás - pelo menos, da primeira vez que os li - Peeta não me é uma personagem mais apelativa: demasiado submisso e, muitas vezes, representando um fardo para Katniss na arena. Só no fim do terceiro livro é que compreendi verdadeiramente a personagem - mas já aí vamos.

Na minha opinião, se o primeiro volume é o melhor de trilogia não sei, mas é definitivamente o que se lê com mais facilidade. Tem um enredo mais linear, o ritmo é constante e eu, pelo menos, não conseguia parar de ler, precisava de saber desesperadamente como iria Katniss sobreviver aos Jogos.


Antes de prosseguirmos, quero referir brevemente que todo o conceito da "Girl on Fire/A Rapariga em Chamas" recordou-me, deste início, a obra portuguesa Felizmente Há Luar, de Luís de Sttau Monteiro, que aliás aborda temas semelhantes aos Jogos da Fome. Sempre torna o livro mais apelativo aos alunos do 12º ano, quando o estudam em Portugês - isto se ainda fizer parte do programa.

O segundo volume não é tão sólido como o primeiro. Em Catching Fire/Em Chamas, são abordadas as sequelas dos acontecimentos do livro anterior, em particular da maneira como Katniss e Peeta conseguiram sobreviver aos Jogos da Fome, quando a ideia era só haver um vencedor. O truque que os dois tributos usaram para não terem de matar o outro ou matarem-se a si mesmos é interpretado como um desafio ao poder instituído. São, assim, plantadas as sementes da revolta. Katniss é obrigada a tentar controlar o fogo que ela ateou acidentalmente mas não é bem sucedida, obrigando o Capitólio a tomar medidas.

Quando li o livro pela primeira vez, as hesitações de Katniss em aderir à revolta irritaram-me. Hoje sei que são mais do que justificadas - mais sobre isso adiante. Depois de Katniss, finalmente, aceitar passar do modo de fuga ao modo de luta, aquilo que me parecia ser o fluxo natural da história é interrompido pelo Quarteirão. Apesar de, de certa forma, esta edição especial dos Jogos da Fome fazer sentido - sobretudo depois de o filme dar uma explicação melhor, a mim pareceu-me um bocadinho enfiada a martelo. Além disso, os últimos capítulos estão demasiado confusos, penso que só compreendi verdadeiramente tudo o que tinha acontecido quando vi o filme.

O terceiro volume da trilogia, Mocking Jay/A Revolta, revelou-se algo confuso da primeira vez que o li. A ação decorre um pouco aos solavancos, com Katniss profundamente afetada, tanto física como psicologicamente, pelas duas participações nos Jogos da Fome, indo constantemente parar ao hospital, por motivos variados. Mas, ainda que o ritmo da história saia prejudicado, tudo isto faz sentido se formos a ver que a protagonista foi e continua a ser, ao longo do livro, ferida de todas as maneiras possíveis e imaginárias. Por outro lado, existe, na minha opinião, um excesso de personagens - eu, pelo menos, senti dificuldades em lembrar-me de quem é quem.

Neste volume, Katniss encontra-se a colaborar com o Distrito 13, responsável pela revolução em Panem. Apesar de, aparentemente, estarmos agora com os "bons", notei desde início que estes recorriam exatamente aos mesmos meios do Capitólio, seja pela filosofia "quem não é por nós, está contra nós", pela exploração política e mediática da imagem de Katniss, pela chantagem, pelo derrame de sangue. Daí que a relação entre Katniss e os rebeldes seja sempre pautada pela desconfiança. De certa forma, ajudou a atenuar a revelação no final, ainda que o choque não tenha deixado de existir.

 
É também para o fim que surgem outras falhas no livro. Começando pelo assalto ao Capitólio - uma óbvia compensação pela ausência de Jogos da Fome neste livro - cujo objetivo não me convence, visto que a batalha a sério decorre noutra frente. Sendo até essa a responsável pela vitória dos rebeldes. Também me parecem pouco credíveis as ruas armadilhadas do Capitólio e os mutantes para ali atirados. Por fim, já no rescaldo da revolução, por muito que tente, não sou capaz de compreender que Katniss tenha votado "sim" a uma edição dos Jogos da Fome com crianças do Capitólio. OK, no fim o voto não tem efeitos práticos, mas é algo que continua a fazer-me confusão. Apesar destas falhas, gosto muito da maneira como o livro acaba.

Antes de partir para as alegações finais, quero falar das adaptações cinematográficas dos dois primeiros livros. Ambos os filmes estão bem feitos, de uma maneira geral, muito por causa do excelente desempenho do elenco. Destaco Jennifer Lawrence, uma atriz que tenho vindo a admirar cada vez mais, que corporiza de maneira excelente a complexidade de Katniss, as suas diferentes camadas. Em termos de história, ambos os filmes estão extremamente fiéis aos livros, conseguindo em certas alturas superá-los. Momentos como a Ceifa, no primeiro, e o discurso no Distrito 11 no segundo, são retratados com emoção mais pungente nos filmes.


Outra vantagem em relação ao texto original diz respeito à inclusão de cenas pontuais não centradas em Katniss, que clarificam o enredo. Cenas que não eram possíveis num livro escrito na primeira pessoa, mas que fazem falta. É por estas e por outras que eu, provavelmente, não conseguiria escrever um livro na primeira pessoa. Gosto demasiado de apresentar a história sob perspectivas diferentes.

Estou com alguns receios relativamente à adaptação do terceiro livro. Primeiro, por estar dividido em dois filmes - uma decisão claramente comercial mas que duvido que seja a mais adequada à história. Outra preocupação prende-se com o substituto de Philip Seymour Hoffman.

Conforme já afirmei no início deste texto, os Jogos da Fome são uma das sagas mais populares da atualidade mas, na minha opinião, são muito mais do que um mero fenómeno infanto-juvenil ou uma série de blockbusters. Aliás, por vezes a intensa mediatização dos filmes irrita-me, pois estes acabam por passar por mais fúteis do que realmente são. Os Jogos da Fome podem ter como público-alvo o infanto-juvenil mas a verdade é que a série aborda questões bem sérias, sendo o tema principal a guerra e tudo o que com ela se relaciona: o conflito entre humanidade e sobrevivência, o combate à violência com violência. Quanto à crítica à cultura dos reality shows, muito referida a propósito destas obras, na minha opinião, assume um carácter secundário. O tema do "pão e do circo" - que de resto inspiraram a história - não está assim tão pouco batido. Outra das grandes falhas do sistema político em Panem é, aliás, o facto de o pão e o circo serem apenas dados à população do Capitólio, uma minoria. Por contraste, a população da larga maioria dos distritos passa fome e os Jogos não lhes servem de entretenimento - pelo contrário, são um pesadelo.

 

Por entre esta mediatização toda, Katniss é frequentemente apresentada como uma típica heroína feminina, uma badass com o seu arco e flechas, a anti-Bella Swan. Eu, no entanto, mais do que uma heroína, vejo-a como uma vítima. Ela oferece-se para substituir a irmã nos Jogos da Fome, é certo, mas depois disso passa a ter muito pouco a dizer sobre o seu destino. É usada sem dó nem piedade por ambos os lados da guerra, incluindo gente em quem confiava, quase sempre sob ameaça de perder a própria vida ou a daqueles que ama. Os únicos momentos em que verdadeiramente brilha são - conforme chega a ser afirmado em Mocking Jay - quando ela segue os seus próprios instintos, sem que ninguém lhe diga o que fazer. Contudo, demasiadas vezes tais atitudes apenas pioram uma situação já difícil. A sua relutância em Catching Fire pode frustrar mas, com o avançar da história, torna-se compreensível pois acontece tudo aquilo que ela temia e ainda mais: a sua terra natal é destruída, Peeta é torturado e submetido a lavagem cerebral, ela mesma sofre todo o tipo de ferimentos, vários amigos - incluindo a própria irmã - são assassinados. Katniss pode parecer uma heroína, mas não passa de um símbolo, de um peão, tudo o que faz é sobreviver - com grande dificuldade.

É o que acontece na guerra, na vida real. Tal como alguém diz - não sei se no livro ou no filme - "não há vencedores, apenas sobreviventes". Não há heroísmo, não há glória, apenas se cumprem ordens, se procura sobreviver e, quanto muito, proteger os companheiros - algo que, muitas vezes, implica cometer atrocidades e que, tal como Peeta afirma, "custa tudo o que se é". E os soldados, frequentemente, não passam de peões a quem os líderes recorrem quando não conseguem resolver os seus diferendos de outra maneira. E eu interrogo-me se esses líderes terão, de facto, noção das sequelas que ficam nos soldados, sem nunca desaparecerem por completo.

 


Nesse aspeto, os Jogos da Fome levam essa realidade até à última escala, na medida em que os soldados, os peões, são crianças.

De igual modo, é abordada a maneira como, na urgência de combater a opressão, a ditadura, se corre o risco de nos transformarmos precisamente naquilo que odiamos, no preço que é necessário pagar. O fogo é muito bonito, mas queima. No final de Mocking Jay, o regime cai, os Jogos da Fome são abolidos, é dado a entender que a democracia é instituída em Panem. Será que isso vale todo o sangue derramado, todo o sofrimento provocado? E, no entanto, teria sido melhor ficar tudo na mesma, com os distritos na miséria, crianças morrendo todos os anos, em direto na televisão?

São perguntas que ficam por responder no fim da história. É também por esta altura que, pelo menos pela parte que me toca, sobe a consideração por Peeta. Por, por entre tantas manifestações do pior da natureza humana, ele ir conseguindo manter a gentileza, algum do seu idealismo, acabando, no fim, por se tornar num símbolo de esperança, de "renascimento em vez de destruição", no fundo, do melhor lado na natureza humana.

 

Há que dar crédito a Suzanne Collins por ter sido capaz de ter contado esta história de uma forma acessível aos jovens - embora eu talvez ficasse demasiado perturbada se tivesse lido os livros há meia dúzia de anos - que transmite a sua mensagem de forma eficaz, sem cair em infantilizações ou lamechices: algo extremamente difícil de conseguir. Eu, pelo menos, não sei se conseguiria.

Não é possível evitar fazer comparações com a vida real. Pensar no nosso país, no nosso regime ditatorial, na sorte que tivemos por o 25 de abril ter sido relativamente pacífico, com "apenas" quatro mortos e quarenta e cinco feridos - demasiados danos, mesmo assim. Pensar, não apenas nas restrições à liberdade, mas também nos presos políticos, torturados e assassinados pela PIDE por tentarem mudar o regime - ouvi alguns testemunhos no programa "Limite da Dor" da Antena1. Indigno-me quando oiço pessoas comparando o sistema político atual com os anos da ditadura. Ou suspirando por um regresso de Salazar. O nosso regime atual pode ter muitos defeitos mas, entre muitas melhorias, não matamos nem torturamos presos políticos, tanto quanto sei. Demasiadas vezes, dá-me a sensação de que as pessoas tomam a liberdade por garantida - algo que considero perigoso.

Penso também na Coreia do Norte, cujas atrocidades lá cometidas apareceram nas notícias, recentemente. Penso nos confrontos na Ucrânia, atualmente, em como é tão fácil uma simples manifestação resvalar para a violência e tenho sempre medo de que aconteça o mesmo em Portugal.

É por todas estas reflexões que induz que os Jogos da Fome são uma obra que se destaca sobre as demais. E embora eu não deixe de reconhecer o valor de um mero entretenimento - sobretudo para aqueles cujas vidas são já suficientemente difíceis para, no seu tempo livre, irem meterse em ficção igualmente sombria, ou ainda mais - eu preciso de obras que me inspirem desta forma. Os Jogos da Fome tiveram, indubitavelmente, o mérito de me oferecer uma nova perspetiva sobre este género de ficção, depois de anos em contacto com ele, escrevendo sobre ele. Daí que, naturalmente, me sirva de ajuda na escrita. Digo mais: se, como escritora, o meu trabalho for capaz de induzir nem que seja um terço deste tipo de reflexões, considerá-lo-ei um sucesso.
 

Livros Opostos


Vi neste blogue uma série de perguntas intitulada Livros Opostos, uma TAG, como diz a autora do blogue, que já vinha de vídeos do YouTube mas a que ela respondeu por escrito por, tal como eu, preferir expressar-se através desse meio. Achei graça às perguntas dessa série pelo que decidi respondê-las também, aqui no Álbum. Estas vêm em português do Brasil, pelo que vou adaptá-las ao português de Portugal. Assim, a primeira pergunta é...

1) Qual foi o primeiro livro da tua coleção e qual foi o último que compraste?

Não me lembro do meu primeiro livro visto que vivi sempre rodeada deles, quer livros infantis, quer os policiais da minha mãe. O primeiro livro "a sério" que me lembro de ler é o "Rosa, Minha Irmã Rosa", de Alice Vieira.

O último que comprei foi o "A Chama de Sevenwaters", de Juliet Marillier.

2) Um livro por que pagaste pouco e outro por que pagaste muito.

Lembro-me de ter comprado o livro "Abre os Olhos, Alex!", de Kate Andrews, por pouco mais de três euros, faz agora uma década. Era um daqueles livros para pré-adolescentes que agora não me diz nada mas de que, na altura, gostei muito.

Por outro lado, lembro-me de pagar à volta de vinte euros por "Herança", de Christopher Paolini (falo sobre esse livro e respetiva coleção AQUI).

3) Um livro com protagonista homem e um com protagonista mulher.

Com protagonista homem, temos "A Cidade dos Deuses Selvagens", de Isabel Allende que, na verdade, é o primeiro de uma triologia da qual fazem parte, também, "O Reino do Dragão de Ouro" e "O Bosque dos Pigmeus".

Com protagonista mulher, indico "A Filha da Floresta", o primeiro e o meu preferido dos livros da série Sevenwaters que conta, até agora, seis títulos, cada um deles protagonizado por uma personagem feminina forte, embora de uma forma diferente das protagonistas anteriores.

4) Um livro que leste depressa e outro que leste devagar.

Tenho vários exemplos de leituras rápidas. Uma das mais recentes (embora tenha sido há mais de um ano, já) diz respeito a "Os Jogos da Fome", de Suzanne Collins - li para aí numa noite e numa tarde.

Para leitura lenta, indico "Nómada", de Stephenie Meyer. O livro é enorme e não é o género de histórias que nos façam virar as páginas febrilmente. Levei uma semana - o que, para mim, é muito, tendo em conta que estava de férias. (falo mais sobre esse livro AQUI).

5) Um livro com capa bonita e um com capa feia.

Todos os livros do Ciclo da Herança de Paolini têm belas capas. Uma das que gosto mais é a do primeiro, "Eragon".

Não gostei da capa da edição de "O Plano Infinito" de Isabel Allende que a minha mãe já tem há alguns anos e que li durante este verão.

6) Um livro português e um livro estrangeiro.

Para livro português, o melhor exemplo que encontro diz respeito a "Os Maias", de Eça de Queiroz.

Para livro internacional, escolho o meu preferido de Isabel Allende: "Zorro - O Começo da lenda"

7) Um livro mais fino e um mais grosso.

Um livro fino de que gosto muito ainda hoje é o "Felizmente Há Luar, de Luis de Sttau Monteiro - tendo em conta que é uma peça de teatro, não é de admirar que seja fino.

O primeiro livro grosso que me lembro de ler foi o "Harry Potter e a Ordem da Fénix". Era tão grande e a minha ansiedade tanta que andei com dores de cabeça enquanto o li. Lembro-me, também, de os jornais afirmarem que muitos jovens lendo o livro pela primeira vez andavam com sintomas semelhantes.

8) Um livro de ficção e um de não-ficção.

Para livro de ficção vou escolher "O Enigma das Cartas Anónimas" - apenas um entre os inúmeros policiais de Agatha Christie cujo estilo adoro.

O meu livro preferido de não-ficção é o "A Pátria Fomos Nós", de Afonso Melo (mais sobre esse livro AQUI).

9) Um livro meloso e um livro de ação.

O último livro meloso que li foi "Um Dia Perfeito", de Nora Roberts - de vez em quando, este tipo de leituras sabem bem, apesar de não ser nem de longe nem de perto o meu tipo de livros preferido.

Para livro de ação, indicarei "O Adversário Secreto", mais uma vez de Agatha Christie - ela devia ter escrito mais livros protagonizados por Tommy e Tuppence.

10) Um livro que te deixou feliz e um que te deixou triste.

Penso que todos ficámos felizes com o final de "Harry Potter e os Talismãs da Morte". 

Por outro lado, um dos que me deixou mais triste foi o livro "Goa ou o Guardião da Aurora", de Richard Zimmler. Uma pessoa acompanha o crescimento do protagonista, é natural que simpatize com ele. No meu caso, houve a agravante adicional de o associar ao Alex, a minha personagem principal. Não admira que tenha ficado de coração partido com a maneira como o livro acabou.



Se alguém quiser pegar, também, nesta TAG, não se esqueça de dar os respetivos créditos. E, já agora, coloque o link do texto ou vídeo nos comentários desta entrada. Boas leituras!

O Sobrevivente - Planetas Homólogos

 
Uma vez que faz hoje um ano desde o lançamento oficial do meu primeiro livro, O Sobrevivente, julgo que é altura de, finalmente, falar sobre ele aqui no blogue. Não que nunca o tenha feito. Se repararem nas minhas outras entradas, em várias delas faço referência à minha escrita. Mas nesta falarei exclusivamente sobre o processo de criação da minha obra. Este, "oficialmente", começou em inícios de 2010 mas, na verdade, sinto que o tenho criado ao longo de toda a minha vida e só há quase três anos é que comecei a deitá-lo cá para fora.
 
Toda a minha vida adorei livros, eu e os meus dois irmãos mais novos, muito por influência dos nossos pais. É uma coisa quase inata. Ainda mal sabíamos andar e já íamos à estante dos policiais da minha mãe. É claro que na altura era para rasgá-los, não exatamente para lê-los... O meu pai ainda hoje nos lê livros em voz alta. Nós, os cinco, adoramos ler. Mas apenas a mim me calhou gostar de escrever. 

Escrever sempre foi, de resto, a minha atividade preferida, quase desde que aprendi a fazê-lo. Lembro-me de ter começado quando devia ter uns sete ou oito anos. Ou nove. Como já referi em entradas anteriores, comecei por escrever histórias com personagens de desenhos animados, como o Bugs Bunny ou o Rato Mickey e respetiva companhia. Foi algo que nunca deixei de fazer ao longo dos anos. Escrevia historietas de vários tipos, algumas fanfics before-it-was-cool (antes de ser fixe, de estar na moda); experimentei escrever poemas mas não tinha jeito; tive um diário durante vários anos; e, nesta altura, já saberão do meu primeiro blogue, O Meu Clube é a Seleção.


 
 
A ficção sempre foi aquilo que mais me atraiu. Ainda no outro dia estava a folhear um dos meus diários e encontrei uma passagem referente à altura em que me apercebi disso, há cerca de seis anos: "Deu-me um prazer infinito escrever a história. Criar as personagens, definir-lhes a personalidade, jogar com os seus pensamentos e emoções, com o medo, a coragem, a angústia, a cumplicidade, a determinação, motivados pela aventura... E como se fosse uma private joke dos escritores." Na altura, escrevia já as histórias que me serviriam de base a "Planetas Homólogos", a saga que começa com "O Sobrevivente".

Olhando para trás, reparo que os melhores períodos da minha vida têm sido aqueles em que criava ficção a um ritmo frenético. Ao mesmo tempo, aqueles períodos em que me sentia mais vazia correspondem a altura em que escrevia menos, em particular ficção. Com poucas exceções, só este género de escrita me preenche por completo.

E há já muitos anos que pouquíssimas coisas são melhores do que estar ao computador, passando a limpo o rascunho de uma qualquer história que estivesse a escrever na altura, ao som da minha música.
 
Já tinha feito algumas tentativas de escrever algo para publicar, mas não funcionaram. Demorei algum tempo a perceber porquê: eram demasiado impessoais. Para aquilo resultar, teria de torná-lo pessoal, de amar as personagens, de verter a minha personalidade, as minhas crenças, as minhas ideias, na história. Se não significar nada para mim, a minha escrita nunca passaria da mediania. Ou mesmo da mediocridade. Falo por experiência.
 
 
O que nos leva às minhas fontes de inspiração. Já falei de muitas delas em entradas anteriores. A inspiração pode vir de qualquer lado e de diferentes alturas da minha vida. Em termos de livros, destacaria a série Harry Potter e o Ciclo da Herança, de que falei AQUI
 
Outra fonte de inspiração é a música, como já devem ter percebido a partir das várias entradas deste blogue dedicadas ao tema. Existem músicas que me deram ideias (não dou exemplos por serem spoilers). Músicas que descobri e que calharam descrever bem uma determinada personagem (Guardian, de Alanis Morissette; Into The Fire, de Bryan Adams), um determinado sentimento (Keep Holding On, de Avril Lavigne) ou um determinado acontecimento, sobre o qual já tinha escrito, se não nesta história em particular, nas histórias que serviram de base (New Divide, dos Linkin Park). Músicas que ouvi numa altura em que trabalhava numa determinada parte, que me ajudaram na escrita da mesma (Faster, de Within Temptatin) ou cujo espírito se entrelaçou com o espírito da história (How Do Ya Feel Tonight, de Bryan Adams). Alguns dos capítulos do livro, bem como dos próximos, abrem com citações e a larga maioria delas são versos de músicas, como as que citei. 
 
Também me inspiro a partir de filmes, séries, coisas que me aconteceram, as minas próprias crenças e dúvidas. Obtenho inclusivamente inspiração a partir dos meus estudos - isso foi particularmente importante na definição do conceito-base da história. Como já afirmei NESTA ENTRADA, tudo isto pode não ser suficiente para tornar a história original mas torna-a algo que só eu poderia contar.
 
Isso transforma-se numa faca de dois gumes, é claro. Billie Joe Armstrong, dos Green Day, à sua maneira irreverente, definiu na perfeição esse sentimento: um misto de orgasmo e ataque de pânico. Uma pessoa sente-se entusiasmada por realizar o seu sonho, orgulhosa quando as pessoas lhe dão os parabéns e elogiam o seu livro e, ao mesmo tempo, sente-se aflita pois todo o seu eu está ali, escarrapachado nas suas páginas, disponível para qualquer um ler, à mercê da troça e da crítica de toda a gente. Dias antes do lançamento oficial estive com vómitos - algo que, segundo o meu pai, acontece a mim e à minha mãe quando nos stressamos a sério. Não é fácil, digam o que disserem. 
 
 
 
Esta parte da entrada tem imensos spoilers, por isso, caso não tenham lido o livro, aconselho-vos a saltar estes parágrafos.
 
Antes de começar a delinear a história sabia o que queria fazer. Queria criar algo que misturasse aventura, ação, romance, alguma fantasia e/ou ficção científica, lá está, estilo Harry Potter ou Ciclo da Herança. As personagens surgiram-me primeiro, adaptadas de histórias anteriores. O conceito demorou-me um pouco mais. Na altura - relembrando: inícios de 2010 - estavam muito na moda os vampiros e tinha acabado de sair o filme Avatar. Os vampiros não me diziam muito mas não nego que o Avatar me tenha influenciado, embora não saiba dizer se consciente ou inconscientemente. Queria criar as minhas próprias criaturas sobrenaturais.
 

 

 

 

 

Lembro-me razoavelmente do dia em que defini, finalmente, o conceito-base da história e certos pormenores do enredo, do momento em que tive a epifania - durante uma aula teórica - e até do raciocínio que a ela levou. Acima, estão algumas das digitalizações das notas que tomei na altura. Lembro-me de estar a ouvir a versão dos Full Blown Rose de In The Air Tonight - a versão que aparece em Tru Calling. Lembro-me de estar a pensar no Digimon, no conceito dos mundos/dimensões/realidades alternativas, de acabar por decidir criar um conceito misto de outro planeta e respetivos habitantes, com portais de acesso espalhados um pouco por todo o planeta Terra. Batizei o planeta de Minerva visto ser a única figura mitológica greco-romana de que me lembrava que não tinha dado nome a um planeta. Chamei nervianos aos habitantes. 
 
Nesta parte entra o meu curso. Visto que, naquela altura, andava a estudar a bioquímica do ADN e tudo o que a ele está ligado, decidi fazer uma analogia com os cromossomas homólogos. Daí que os portais se chamem "pontos de quiasma", que a troca de habitantes entre ambos os planetas se designe "crossing over", que a saga se chame "Planetas Homólogos".
 
Como forma de imortalizar esse dia, 22 de março de 2010, decidi torná-lo no dia de aniversário de Alex, a minha personagem masculina principal.

 

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Fim dos spoilers

Comecei a escrever o primeiro capítulo no dia seguinte - bem, em rigor, não comecei pois já tinha um esboço. O que fiz foi escrevê-lo tendo em conta o conceito recém-criado. Foi nesse dia, também, que ouvi How Do Ya Feel Tonight pela primeira vez, a música que acabou por se tornar a faixa-tema da saga (mais pormenores AQUI).
 
Escrevi este livro sem grande planeamento, exceto no início de cada capítulo, deixando que a história se contasse a si mesma. Só quando ia mais ou menos a meio é que defini o esqueleto básico do que restava, bem como dos outros livros da série: quatro no total. Agora já não faço isso, já não parto às escuras para a escrita mas também não planeio tudo ao pormenor. Não sou capaz de fazê-lo, há coisas que só surgem durante a escrita propriamente dita. Só dessa fora consigo sentir a alma do livro.
 
Mas também me acontece o contrário, também me acontece bloquear quando tento ir às cegas. Foi o que me aconteceu no meu terceiro livro. Mas já lá vamos. Nesse aspeto, ESTA ENTRADA do blogue da escritora de fantasia Rachel Aaron foi uma ajuda valiosa. Esta e outras semelhantes do blogue dela. Só é pena que os livros dela não estejam a venda no nosso País, já que os textos dela me têm ajudado tanto. Além de que fiquei curiosa em relação aos livros dela.
 
 
 
Como já afirmei anteriormente, "O Sobrevivente" é o primeiro livro de uma série de quatro. O seu objetivo principal é quase só o de apresentar as personagens, o conceito. De certa forma, a história a sério começa no segundo livro, chamado "O Tsunami". Este já está escrito mas ainda está em bruto, falta-lhe ser editado. Na verdade, acabei de escrevê-lo há cerca de ano e meio mas tenho adiado o processo de edição pois as atenções estavam, na altura, todas voltadas para o lançamento de "O Sobrevivente". Posso desde já adiantar que "O Tsunami" está melhor que o seu antecessor, mais tenso, mais emotivo, com um enredo mais complexo. Estou bastante orgulhosa dele. Ainda não dei a ler a ninguém, tirando a minha irmã e mesmo ela não chegou a acabá-lo. Quero editá-lo primeiro, mas estou ansiosa por ouvir a opinião da minha mãe, do meu irmão e, depois de publicado, das outras pessoas. 
 
Neste momento, encontro-me a escrever o terceiro livro. Como já tinha mencionado no verão passado (ver AQUI), este está a custar-me mais. Enquanto os dois primeiros foram escritos em cerca de seis ou sete meses - lembro-me que, no início de "O Sobrevivente", escrevia um capítulo por semana - ando há mais de um ano a trabalhar neste. Tive vários bloqueios. Por exemplo, reescrevi várias vezes os primeiros capítulos - tanto "O Sobrevivente" como "O Tsunami" têm um bom primeiro capítulo, se tivesse seguido o plano inicial, a história teria demorado demasiado tempo a começar. Admito que aquele misto de entusiasmo e ansiedade ao lançamento de "O Sobrevivente", em particular, a parte da ansiedade, tenham contribuído grandemente para tais bloqueios. 
 
 
 
 
Outro fator terá sido, pelo menos inicialmente, a falta de planeamento, como referi anteriormente. No início, sabia como o livro começava e como acabava. Levei algum tempo a preencher o grande buraco no meio. Só consegui acabar de fazê-lo há poucos meses, depois de ter tido tempo de me organizar, durante o verão. Assim que tal buraco ficou preenchido, consegui retomar o ritmo de escrita dos dois primeiros livros. Só me falta escrever o fim. Ao longo das últimas semanas, fui passando a computador todos os rascunhos que fui escrevendo desde o início do ano, em particular nos últimos meses - cem páginas, no total! - de modo a montar o puzzle, dar coesão à história e descobrir como encerrá-la devidamente. No verão achava o livro não teria grande força por si só mas acho que consegui dar a volta ao texto - literalmente e não só. No processo da escrita, consegui descobrir a alma do livro, já antes mencionada, arranjar maneira de ligá-lo ao livro seguinte. Pode não ficar tão bom como "O Tsunami" mas andará perto, pelo menos em termos de tensão e emotividade. Conto acabar de escrevê-lo dentro de um mês ou dois. E depois começar o quarto e último livro.
 
Nem sempre tem sido fácil esta jornada. Não falo apenas na dualidade orgasmo/ataque de pânico de que falei acima. Tenho plena consciência de que os meus livros não são perfeitos, antes pelo contrário. Existem muitas coisas que gostaria de mudar em "O Sobrevivente" e angustia-me já não poder fazê-lo. Tenho consciência de algumas das fraquezas da minha história, mas temo não estar a conseguir vê-las todas. Nos últimos dois anos habituei-me a ler críticas de livros, filmes, séries, etc - uma das coisas que me levou a criar este blogue. E se isso me permite aprender com os erros alheios, também me faz pensar no que diriam os críticos sobre o meu livro. Interrogar-me se este será pior do que a noção que tenho dele, se estarei a criar estereótipos em vez de personagens, se a minha história será previsível, cheia de clichés, se o meu livro será, pura e simplesmente, patético. Se teria feito melhor se nunca o tivesse publicado.
 
Em suma, muitas vezes sinto-me uma criança brincando aos escritores.

 

 
Não é o suficiente para me fazer parar de escrever, de criar ficção. Não é por teimosia, é porque já está tão enraizado em mim que se tornou quase uma necessidade fisiológica, como já mencionei anteriormente, como  o são a comida, a bebida, o sexo, o sono, etc. A minha mãe disse-me uma vez que admira a minha persistência por ter escrito um livro do princípio ao fim, mas para mim não se trata disso. Isto não me é um esforço, não é trabalho, antes pelo contrário. É ócio. É como ver televisão, estar no Facebook, jogar videojogos. É algo que me serve de consolo, que me ajuda tantas vezes a manter a sanidade mental. Acaba por se tornar um vício. Com a vantagem de, ao contrário do álcool e das drogas, não me dar cabo do fígado e estar a criar algo relativamente útil.
 
Pelo menos é o que digo a mim mesma.
 
De qualquer forma, a escrita - de ficção e não só - já se enraizou de tal forma na minha personalidade que, se não fosse escritora, não seria a mesma pessoa. Seria ainda mais insignificante, mais patética, do que sou atualmente. Além de que a escrita já me levou mais longe do que tudo o resto - não muito, mas o suficiente para me fazer sentir que, em quase vinte e três anos de respiração individual, já fiz alguma coisa nesta vida, por pequena que seja.
 
Como podem ver, desistir da escrita ou mesmo fazer apenas uma pausa, por curta que seja, não é opção.
Ainda não sei o que escreverei depois de terminar esta história. Tenho uma ou duas ideias muito vagas. O problema é que sinto que os "Planetas Homólogos" são a história que estava destinada a escrever, a história que esteve dentro de mim a vida inteira mas que só comecei a deitar cá para fora em 2010. E tendo em conta o que disse anteriormente, que a minha ficção só funciona quando amo as personagens, quando amo a história, tenho algum receio de não conseguir amar outras histórias, outras personagens, da maneira que amo estas.
 
Visto que ainda estou longe de terminar esta história, não terei de me preocupar com isso tão cedo. Nos próximos tempos, continuarei a trabalhar nela. Ao mesmo tempo, vou lendo livros, vendo séries e filmes, ouvindo música, falando sobre algumas dessas obras aqui no blogue, de modo a encontrar fontes de inspiração.
 
Mesmo que nunca seja uma escritora de sucesso, que não consiga vender muitos livros, que nunca realize os meus sonhos mais irrealistas - com ver os meus livros adaptados ao cinema - mesmo que nem sequer consiga publicar mais nenhum livro, ninguém será capaz de roubar o prazer destas epifanias criativas, dos impulsos febris de escrita, de escrevinhar até sentir a mão dorida, gastando bics atrás de bics, de passar horas e horas ao computador, convertendo o texto manuscrito em texto digital. Enquanto for capaz de escrever, quer seja ficção, quer seja nos meus blogues, de desfrutar tudo o que a isso está associado, nunca serei um fracasso como escritora, pois uma grande parte de mim viverá para sempre nos meus textos.

Podem adquirir o livro AQUI.

Visitem a página do Facebook AQUI.

 

O Ciclo da Herança

AVISO: Esta entrada inclui informações relevantes sobre o enredo dos livros pelo que só é aconselhável lê-lo caso já os tenha lido.
 

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Esta série de livros foi-me apresentada pelo meu irmão há já uma boa meia dúzia de anos ou mais. Julgo que foi em 2004, 2005, que ele comprou "Eragon", o primeiro livro e "Eldest" depois de ser editado. No entanto, não foi ele quem me convenceu a ler os livros. Foi Avril Lavigne. Desculpa, mano...

 

 

O livro "Eragon" foi adaptado ao cinema e o resultado esteve em exibição em finais de 2006. A cantora canadiana - que se encontrava naquela altura a gravar o seu terceiro álbum de originais - foi convidada para compor e interpretar um tema para o filme. Avril chegou a criar duas ou três músicas para o efeito - no ano passado chegou a aparecer na Internet uma faixa chamada Won't Let You Go que, pelas semelhanças com o tema utilizado nos créditos no filme, se suspeita ter sido composta com o mesmo objetivo. Por alguma razão, Keep Holding On foi a escolhida.
 
Keep Holding On é mais conhecida como uma balada sobre amizade mas, para mim, é mais do que isso. Mais do que sobre apenas companheirismo, penso que a música fala sobretudo sobre união, transmissão de coragem, resistência perante adversidades, tudo isto com um cheirinho a épico. Daí que a mensagem se aplique, não apenas o filme "Eragon" e ao próprio Ciclo da Herança, mas também a outras obras de ficção: Harry Potter, o Senhor dos Anéis, mais recentemente os Jogos da Fome e, sobretudo, às histórias que eu escrevia na altura, que serviram de base a "O Sobrevivente". Daí que depressa a faixa se tenha tornado especial para mim, que tenha incluído a citação "With you by my side I will fight and defend". Esse carácter universal da música é, na minha opinião, o seu maior ponto forte.

 
Quando vi o filme pela primeira vez não tinha, portanto, ainda lido o livro em que se baseara. Por isso, até não desgostei, se bem que se assemelhasse a outras produções inspiradas em O Senhor dos Anéis, como por exemplo As Crónicas de Nárnia. Contudo, lembro-me de o meu irmão me segredar, não deviam ter ainda passado quinze minutos desde o início do filme, que este não prestava.
 
E, realmente, quando se compara o livro com o filme, é óbvio que foi uma adaptação muito mal feita. Simplificaram demasiado a história de tal forma que inviabilizaram logo a adaptação do segundo livro. É uma pena que tal tenha acontecido. Mas falarei melhor sobre isso mais à frente.
 
 
Quando Eragon encontra uma pedra azul polida na floresta, acredita que poderá ser uma descoberta bendita para um simples rapaz do campo: talvez sirva para comprar carne para manter a família durante o Inverno. Mas quando descobre que a pedra transporta uma cria de dragão, Eragon depressa se apercebe de que está perante um legado tão antigo como o próprio Império.

De um dia para o outro, a sua vida muda radicalmente, e ele é atirado para um perigoso mundo novo de destino, de magia e de poder. Empunhando apenas uma espada legendária e levando os conselhos dum velho contador de histórias como guia, Eragon e o jovem dragão terão de se aventurar por terras perigosas e enfrentar inimigos obscuros, dum Império governado por um rei cuja maldade não conhece fronteiras.Conseguirá Eragon alcançar a glória dos lendários heróis da Ordem dos Cavaleiros do Dragão? O destino do Império pode estar nas suas mãos...
Christopher Paolini planeou a série quando tinha quinze anos, se não me engano. Inicialmente, tencionava criar uma trilogia mas, quando começou a trabalhar no terceiro volume, decidiu esticar a série para um ciclo de quatro livros. Grande fã de fantasia, a sua ideia inicial era criar uma história que reunisse os seus elementos preferidos sem, contudo, pretensões de ser publicada. É assim que muitos escritores jovens dão os seus primeiros passos. Eu, por exemplo, quando era pequena escrevia histórias com o Bugs Bunny e/ou o Rato Mickey e afins e, mais tarde, com o Pokémon. Meros exercícios de escrita mas, sem eles, dificilmente teria escrito livros "a sério". No entanto, Paolini acabou por decidir publicar "Eragon", o primeiro livro da série. A obra acabou por ser um sucesso a nível planetário, mesmo utilizando conceitos emprestados.

"Eragon" é capaz de ser, dos quatro, o livro que se lê mais facilmente, por ter mais ação, por quase todo o livro contribuir para o avanço da história, enquanto os outros três possuem frequentes passagens mais "paradas", digamos. A tensão é maior por o protagonista se encontrar sobre ameaça quase permanente, por, durante uma boa parte do enredo, não perceber o que acontece em seu redor, por ainda ser relativamente imaturo, sobretudo nas capacidades que começa a desenvolver, acabando, como uma das personagens chega a assinalar "por obrigar toda a gente a protegê-lo".

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A narrativa de Eldest começa três dias após a cruel batalha travada por Eragon para libertar o Império das forças do mal. Agora, o Cavaleiro de Dragões se vê envolvido em novas e emocionantes aventuras. Em busca de um tal Togira Ikonoka – "O Imperfeito que é Perfeito" –, que supostamente possui as respostas para todas as suas perguntas, Eragon parte, junto com Saphira, o dragão azul que o acompanha desde o início da aventura, para Ellesméra, a terra onde vivem os elfos. Lá, eles pretendem aprender os segredos da magia, da esgrima e aperfeiçoar o seu domínio da língua antiga.

Em sua jornada, que também é uma caminhada para a maturidade, Eragon conhece seres e lugares diferentes e se apaixona por Arya, filha da rainha Islanzdaí. Mas também descobre que nem tudo é o que parece. Conflitos e traições aguardam o jovem herói e por um longo tempo ele não tem certeza em quem pode confiar. Os desafios de Eragon são entremeados pela luta de Roran, cuja importância aumentou em relação ao primeiro livro, formando narrativas paralelas que se juntam no fim com um único objetivo: derrotar o grande rei.

Mais maduro e preparado, Eragon consegue afastar o exército inimigo por algum tempo. A vitória definitiva, no entanto, só acontece depois da revelação de um grande segredo, que fará com que Eragon e Roran se unam novamente e decidam partir para uma nova e perigosa missão, que parece ser o ponto de partida do terceiro livro: salvar a noiva de Roran, Katrina, dos Ra’zac.
Enquanto "Eragon" se focaliza exclusivamente na personagem principal, homónima, em "Eldest", a história é-nos contada também na perspetiva de Roran - primo de Eragon - e Nasuada - neste livro, eleita líder dos Varden, uma organização de resistência ao regime totalitário de Galbatorix. E ainda bem que assim é, uma vez que a situação de Eragon é bem menos interessante do que no primeiro livro, agora que já não se encontra em perseguição/fuga quase permanente. A tensão, neste livro, acaba por se centrar em Roran, perseguido pelo Império sem saber porquê, acabando por ser obrigado a fugir, juntamente com a população da sua aldeia natal, de modo a salvar as vidas deles todos, e a resgatar Katrina, a sua noiva.

No entanto, aquelas passagens mais monótonas de que falei acima, mais irrelevantes do ponto de vista da ação, não deixam de ser interessantes pelas reflexões que a própria personagem principal é induzida a fazer, traçando paralelismos com a realidade. Abordarei este assunto mais exaustivamente mais à frente nesta entrada.


Em Brisingr, Eragon e seu dragão, Saphira, conseguiram sobreviver à batalha colossal na Campina Ardente contra os guerreiros do Império. No entanto, Cavaleiro e dragão ainda terão de se deparar com inúmeros desafios. Eragon se vê envolvido numa série de promessas que talvez não consiga cumprir, como o juramento a seu primo, Roran, de ajudá-lo a resgatar sua amada Katrina das garras de Galbatorix. Todavia, Eragon deve lealdade a outros também. Os Varden precisam desesperadamente de sua habilidade e força, assim como elfos e anões. Com a crescente inquietação dos rebeldes e a iminência da batalha, Eragon terá de fazer escolhas que o levarão a atravessar o Império, viajando muito além. Escolhas que poderão submetê-lo a sacrifícios inimagináveis? Conseguirá o jovem unir as forças rebeldes e derrotar o Império?
Este é, na minha opinião, o livro mais fraco do ciclo, por ser aquele que menos avança na ação, por ter demasiadas passagens monótonas - e nem todas têm a contrapartida de induzirem reflexões, algumas parecem estar lá apenas para encher chouriços. Tem os seus momentos, sem dúvida - o momento em que Eragon descobre a verdadeira identidade do seu pai é, na minha opinião, o ponto alto de Brisingr - mas o livro não tem grande força por si só, limita-se a abrir caminho para o último livro, a definir o cenário em que este decorrerá, a fornecer armas a Eragon para o confronto final - armas tanto no sentido literal como no figurativo: segredos, alianças, etc. Nesse aspeto, assemelha-se a Harry Potter e o Príncipe Misterioso, até porque também Brisingr termina com a morte de um mentor. Até Eclipse, da saga Twillight/Crepúsculo ou Luz e Escuridão, se assemelha em parte pois também vai dando pistas - ainda que de uma forma mais subtil - que remetem para o livro final.

Isto deve até ser uma maldição relacionada com penúltimos livros pois encontro-me, neste momento, a trabalhar no terceiro e penúltimo livro da minha série e estou a ter grandes dificuldades. Enquanto os dois primeiros livros me saíram naturalmente, ficando o primeiro rascunho pronto em cerca de seis ou sete meses, ando encalhada neste há quase um ano. E não acredito na máxima que diz que o que é escrito sem esforço é lido sem gosto, antes pelo contrário. Pelo menos no meu caso, com as suas exceções, os melhores textos são aqueles que se escrevem a si mesmos. Uma parte de mim deseja, pura e simplesmente, saltar para o livro final - o que não é possível. Em todo o caso, pode ser que o resultado final se aproveite. Vou fazer por isso, pelo menos.

 
 
Há pouco tempo atrás, Eragon – Aniquilador de Espectros, Cavaleiro de Dragão – não era mais que um pobre rapaz fazendeiro, e o seu dragão, Saphira, era apenas uma pedra azul na floresta. Agora, o destino de toda uma sociedade pesa sobre os seus ombros.


Longos meses de treinos e batalhas trouxeram esperança e vitórias, bem como perdas de partir o coração. Ainda assim, a derradeira batalha aguarda-os, onde terão de confrontar Galbatorix. E, quando o fizerem, têm de ser suficientemente fortes para o derrotar. São os únicos que o podem conseguir. Não existem segundas tentativas.


O Cavaleiro e o seu Dragão chegaram até onde ninguém acreditava ser possível. Mas serão capazes de vencer o rei tirano e restaurar a justiça em Alagaësia? Se sim, a que custo?
Os primeiros capítulos deste livro continuam, um pouco, a linha de Brisingr: relativos poucos avanços na história, cimentação de alianças, preparação do herói para o confronto final. E mesmo ultrapassada essa parte, o livro demora a arrancar. Só arranca verdadeiramente após o rapto de Nasuada. A partir daí o livro ganha maior interesse à medida que nos são revelados os segredos finais - segredos esses que me fizeram arquejar de espanto quando os li pela primeira vez - conhecemos, finalmente, Galbatorix no cativeiro de Nasuada - até ao momento, Galbatorix fora uma personagem ausente, o máximo que havíamos tido direito fora ouvir a sua voz à distância no final de Brisingr - onde também assistimos à tortura, tanto física como mental da jovem líder dos Varden e ao nascimento de uma ligação entre esta  Murtagh - ligação esta que se tornará crucial - e assistimos ao longamente antecipado confronto final, herói versus vilão.

Nesta última parte, faz-me alguma confusão a forma como Galbatorix está ciente de todas as armas dos heróis, incluindo as "arranjadas" à última hora. Não ficou bem explicado. Não sei se foi uma ponta deixada propositadamente por atar ou se foi um deslize...

O epílogo da história ainda se estende por uns quantos capítulos. Pessoalmente, tenho pena de que o terceiro ovo de dragão só tenha chocado já depois de Galbatorix ter sido derrotado, mas compreendo que tal não fosse possível...


Muitos esperavam que, no final, como em todas as histórias, o herói conquistasse a donzela. O próprio autor admitiu que era esse o plano inicial. No entanto, à medida que a história ia prosseguindo e a personagem se ia desenvolvendo, Paolini concluiu que não seria coerente com a sua personalidade se Arya "caísse nos braços" de Eragon.

Eu tive pena. Gosto da dinâmica entre Eragon e Arya, de como ela é, em simultâneo, mentora e companheira de luta do jovem Cavaleiro, ao invés de ser apenas uma donzela em apuros - ou vice-versa. Mas compreendo. No momento em que Herança acaba, a diferença de idades e a fidelidade de Arya a um amante morto são grandes barreiras a um eventual romance entre ela e Eragon. No entanto, a meu ver, uma vez que ambos são imortais e Cavaleiros, com o tempo, tais obstáculos deixarão de sê-lo.

É outra das características de Herança: por um lado, muitas pontas soltas são atadas - algumas até de forma algo forçada - outros arcos narrativos são deixados em aberto. Como a personagem Angela, uma das mais interessantes e misteriosas das quatro obras. Paolini deu a entender que atar essas pontas em futuras obras - mas num futuro ainda distante.

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A série foi batizada Ciclo da Herança pois, na sua essência, a história é sobre passagem do testemunho da geração mais velha para a mais nova, sobretudo no que toca à luta contra a tirania de Galbatorix. Ao longo da série, praticamente todos os progenitores, todos os mentores - que ainda não estiverem mortos no início de "Eragon" - vão morrendo um a um, tendo o seu trabalho de ser continuado pelos filhos e/ou alunos, pelos herdeiros.

Um dos aspetos mais interessantes do Ciclo é, na minha opinião, a dinâmica daquelas que considero as três personagens principais: Eragon, o seu meio-irmão Murtagh e o seu primo Roran. Eragon e Roran foram criados como irmãos, no mesmo meio. No entanto, o primeiro torna-se Cavaleiro do Dragão, enquanto o outro mantém-se humano. Não que isso lhe constitua um entrave, ele acaba por desempenhar um importante papel na luta contra o Império ao tirar o maior partido possível das armas que possui. Ele e Eragon têm, portanto, vidas divergentes. Por sua vez, Eragon e Murtagh têm vidas convergentes. O primeiro cresce num meio completamente diferente daquele em que o irmão cresce: sempre consciente de que é filho do falecido Morzan, um antigo aliado de Galbatorix e um dos homens mais odiados do Império. No entanto, os dois irmãos acabam por ter vários aspetos em comum e acabam, ambos, por se tornarem Cavaleiros.

Este conceito de personagens ligadas umas às outras desta forma, por um lado tão parecidas, por outro lado tão diferentes, faz com que o Ciclo se assemelhe a Harry Potter. O trio Harry-Voldemort-Snape acaba por ser parecido com o trio Eragon-Roran-Murtagh.

Murtagh assemelha-se a Snape no sentido em que ambas as personagens são ambíguas, despertam sentimentos contraditórios. Isto é mais claro no caso de Murtagh já que, no caso de Snape, a maneira como ele se relaciona com Harry dificulta a perceção do seu lado bom. E, no final, o amor leva-os à redenção, desempenhando um papel fundamental na derrota do mau da fita.

Acho tão interessante esta dinâmica que resolvi reproduzi-la também nos meus livros. Aparecerá a partir do terceiro.


Já que se aborda o assunto, vale a pena mencionar as semelhanças entre o Ciclo da Herança e Harry Potter. São várias e provavelmente tratam-se de coincidências. Ambas as séries se centram num órfão "escolhido" para derrotar um inimigo tirano, cujo poder reside, em parte, em certos objetos - os conceitos de Horcruxes e Eldunarí são parecidos embora já tenha ouvido dizer que o conceito de objetos de poder não é novo.

Por fim - e considero este um dos maiores pontos fortes de ambas as séries - o facto de, apesar de ambas serem séries de fantasia, ambas apresentarem analogias para a "vida real", induzindo reflexões. No Ciclo da Herança, este carácter está mais evidente em Eldest e Brisingr e os temas abordados são o racismo, a desconfiança perante aquilo é diferente, a ditadura, a política, a própria natureza humana, deixando, no fim, uma mensagem de tolerância, de empatia, de que "o importante não é aquilo que se nasce mas aquilo em que se torna", que "são as nossas escolhas e não as nossas qualidades que determinam quem somos".

E, mais uma vez, espero conseguir o mesmo com os meus livros.

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Diria que a minha personagem preferida é Nasuada. Ela é filha de Ajihad, líder dos Varden, acabando por herdar a liderança do grupo de resistência. Quando Nasuada foi nomeada líder pelo Conselho de Anciãos, estes esperavam que a jovem funcionasse como uma marioneta, que eles fossem os verdadeiros detentores do poder. No entanto, Nasuada cedo deixa bem claro que é capaz de tomar decisões pelos Varden, mostrando ser uma líder carismática, capaz de conquistar a lealdade por parte dos seus súbitos.

Nasuada destaca-se no Ciclo da Herança precisamente pela sua personalidade forte, pela forma como gere a resistência ao Império. Apesar de fazer questão de lutar ao lado dos soldados, fugindo à sua condição de mulher, o seu maior papel é nos bastidores das batalhas, fazendo a gestão pessoal de guerreiros como Eragon e Roran, transmitindo coragem e determinação ao seu povo. Durante Eldest e Brisingr, Nasuada é, no fundo, a personificação dos Varden - tanto as suas motivações como preocupações são as motivações e as preocupações do grupo rebelde. É a figura política perfeita, dedicada ao seu povo, como não existe na vida real. Nesses dois livros é difícil destrinçar Nasuada, a pessoa, de Nasuada, a líder os Varden.

O seu rapto em "Herança" torna-se interessante pois, pela primeira vez vemos Nasuada "liberta" da responsabilidade da liderança dos Varden, sem outras motivações ou preocupações que não a própria sobrevivência, a resitência à tortura por parte de Galbatorix. É obviamente de louvar a sua coragem e perseverança perante as condições em que decorre o seu cativeiro e interessante assistir ao nascimento do "romance" entre ela e Murtgah que, como já foi referido várias vezes nesta entrada, consegue alterar as motivações do jovem Cavaleiro conduzindo-o à redenção.

Depois da morte de Galbatorix, a sua nomeação para Rainha surge de uma forma natural. Eu, pelo menos, estava à espera. Segundo o plano inicial, seria Roran a assumir o trono. No entanto, à semelhança do que tinha acontecido com Arya, à medida que a personagem se foi desenvolvendo, tornou-se claro que tudo o que Roran deseja é uma vida pacífica, em Carvahal, junto da mulher e dos filhos que eventualmente terá. De resto, notam-se algumas semelhanças nas personalidades de Nasuada e Roran: também ele é devotado ao seu povo - no caso dele, a aldeia de Carvahal - e revela ter capacidade de liderança, de incitar os outros para a luta, pelo que daria igualmente um bom rei, se assim o desejasse.


Com tudo isto, acho lamentável o facto de terem desperdiçado a adaptação ao cinema do Ciclo da Herança. Apesar de não ser completamente original, a série tem, na minha opinião, potencial para ser um fenómeno do calibre de Harry Potter, Crepúsculo e Jogos da Fome.

Talvez fosse necessário para tal apostar forte na vertente romântica da coisa. O Ciclo não tem o triângulo amoroso da praxe mas tem a sua quota-parte de amores contrariados. A história de Eragon e Arya teria de acabar com eles juntos, por muito que isso contrariasse a personalidade da última. O amor entre Roran e Katrina é interessante embora seja a história clássica da donzela cujo pretendente não é aprovado pela família, em particular o pai, e depois da donzela em perigo. O romance mais interessante nesse aspeto acabaria por ser o de Nasuada e Murtagh: uma paixão entre "inimigos" que, ainda por cima, desempenha um importante papel na derrota do mau da fita. Mais uma vez, o final teria de ser alterado pois, no livro, visto que o desfecho de Murtagh fica um pouco em aberto, o potencial romance com Nasuada é igualmente deixado em stand-by.

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Em suma, o Ciclo da Herança é uma das minhas séries de livros preferida, é uma referência, é uma fonte de inspiração, pelos motivos que listei exaustivamente - estiquei-me imenso, não foi? Para algo que começou por ser um mero exercício de escrita, considero que foi muito bem construído. Christopher Paolini pode ter aspetos a melhorar mas tem tempo para fazê-lo já que está ainda em início de carreira. E se o seu exercício de escrita é deste calibre, mal posso esperar para ver o que pode ele escrever "a sério".

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