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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna #1

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O filme Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna teve um parto difícil. As primeiras pistas apontando para este projeto surgiram ainda antes da estreia da última parte de Digimon Adventure Tri. Pouco depois soube-se que o realizador original do projeto, Hiroyuki Kakudo (que já tinha realizado Digimon Adventure e Digimon 02), alegadamente porque algo sobre o filme entrava em conflito com o que as séries anteriores haviam estabelecido.

 

Agora que já vi o filme, acho que sei do que é que ele estava a falar. 

 

Nas celebrações do Odaiba Memorial Day seguinte, conforme comentei na altura, foi revelado que o projeto consistia num filme cujos eventos decorreriam quando Taichi e Yamato têm vinte e dois anos. Ao longo do ano seguinte foram saindo mais pormenores sobre o filme. O desenho do elenco, por exemplo. No Odaiba Memorial Day de 2019 foi anunciado que os Escolhidos de 02 participariam no filme, após o cruel tratamento que receberam em Tri. A notícia saiu no dia do nosso encontro do Odaiba Memorial Day – o último que tivemos – e celebrámos adequadamente. 

 

A ideia do filme era assinalar os vinte anos de Digimon Adventure. Ainda assim, Kizuna só se estreou nos cinemas japoneses no início de 2020. Estava previsto estrear-se nos cinemas americanos mais ou menos na mesma altura, mas a pandemia boicotou (mais) esses planos. Mesmo digitalmente o filme só foi lançado vários meses depois, em setembro. 

 

Deste lado do Atlântico, o filme está previsto vir para os cinemas portugueses. Em que salas e em que moldes não se sabe ao certo. A primeira data avançada foi para novembro. Nós estávamos entusiasmados...  até a estreia ter sido adiada em finais de outubro, quando a pandemia se agravou. Chegaram a avançar outras datas, como 21 de janeiro e 18 de fevereiro. No entanto, com este novo confinamento, à hora desta publicação, não existe data marcada para a estreia. Mas estamos com esperanças de que, quando for possível, se marque de novo.

 

De qualquer forma, em inícios de novembro, cansei-me de esperar. Ainda quero ver o filme nos cinemas portugueses, quando for possível, mas já tinha passado tempo suficiente sem ver Kizuna. Por isso vi-o.

 

E arrependi-me amargamente. 

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Antes de começarmos, algumas notas:

 

1) Spoilers: esta análise vai discutir extensamente os eventos do filme Digimon Last Evolution Kizuna e poderá também revelar detalhes dos enredos das três temporadas do universo de Adventure (Aventure, 02 e Tri). Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios de Digimon têm traduções controversas – na língua portuguesa têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Conforme tinha dito que faria quando terminei as análises a Tri, para esta análise vou usar os nomes japoneses.



Adicionalmente, como o costume, tenho muito a escrever sobre este filme, por isso, esta análise virá em três partes. Esta é a primeira, vou tentar publicar a segunda amanhã e a terceira no dia a seguir. 

 

Queria também deixar algumas questões arrumadas antes de falarmos sobre Kizuna em si. Como referi acima, os primeiros anúncios relacionados com este filme saíram no dia em que Bokura no Mirai se estreou. Na altura, pensei que as minhas pontas soltas deixadas por Tri – quem era o Dark Gennai e o que lhe aconteceu, o que aconteceu a Maki, quem eram as outras primeiras Crianças Escolhidas, o que aconteceu ao Yggdrasil, quem era o Alphamon e o que é que lhe aconteceu, etc. 

 

Bem, Kizuna não aborda nada disso, é uma história independente. Decorre na mesma cronologia que Tri – os produtores tomaram o cuidado de confirmá-lo no ecrã, como veremos mais tarde – mas os eventos não têm nada a ver com essa série. Não é sequer necessário ter visto Tri para apreciar Kizuna.

 

O que foi uma decisão sensata – sobretudo tendo em conta as opiniões mistas em relação a Tri. 

 

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Eu mesma nunca mais voltei a ver os seis filmes desde que publiquei a minha análise a Bokura No Mirai. Tenho-me perguntado se agora, que já lá vão dois anos e meio, se a minha opinião será tão favorável como foi na altura. 

 

Um dia hei de rever Tri. Um dia hei de rever todo o universo de Adventure: os filmes, a primeira temporada, 02, Tri. Mas esse dia ainda vem longe. Não tenho assim tanto tempo livre e, quando o tenho, prefiro ver temporadas de Digimon que nunca vi antes. 

 

Enfim. Chega de delongas. Vamos a Kizuna. 

 

Depois de uma mensagem algo críptica sobre aceitar o futuro e isto ser uma nova aventura dos Escolhidos e dos seus Digimon, Kizuna começa com notas familiares. Literalmente: ouve-se o tema Bolero, de Ravel – recorrente em Adventure, sobretudo nos filmes – enquanto mostra imagens de uma aurora nos céus, algo que não devia ocorrer longe dos pólos. 

 

A ação de Kizuna decorre em 2010, se bem que um 2010 um pouco mais avançado tecnologicamente. Em Kizuna, o uso do smartphone está mais vulgarizado que na altura equivalente na vida real. Consta que os japoneses demoraram mais alguns anos a adotá-lo – mesmo entre nós, portugueses, foi mais a partir de 2012, 2013, certo? Os digiguionistas explicaram em entrevista que, no universo de Adventure, o contacto com o Mundo Digital permitiu à humanidade avançar um pouco mais depressa no que toca a tecnologia. 

 

Sempre explica porque é que em Tri, aparentemente, já existem mensagens de grupo e emojis nos telemóveis. 

 

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Nos anos entre os eventos de Tri e de Kizuna, Koshiro arranjou maneira de integrar as funcionalidades dos dispositivos digitais em smartphones. O que faz sentido em termos práticos, mas eu não gosto muito. Acho demasiado… mundano.

 

É claro que sou enviesada pois os dispositivos originais de Adventure têm valor sentimental para mim, à semelhança dos cartões. Mas também, no que toca a este filme, o sentimentalismo só serviu para dar cabo de mim. 

 

E estou a adiantar-me. 

 

Da primeira vez que vemos os Escolhidos, estes estão a ter um dia normal no escritório – o status quo que será, mais tarde, perturbado. Um Parrotmon (óbvio piscar de olhos ao primeiro filme de Adventure é óbvio) materializa-se no Mundo Real (deveria escrever “realiza-se”, como em Tamers? Isto no fundo é um “selvagem”) e os Escolhidos têm de lidar com ele, encaminhá-lo de volta ao Mundo Digital. O Parrotmon ainda faz uns quantos estragos – espero que as companhias de seguros neste universo já tenham apólices para danos provcados por Digimon.

 

Taichi, Hikari e Takeru acorrem ao local, sob a orientação de Koshiro, através do seu escritório. Yamato chega um pouco depois, de mota. O último entra logo com uma picardia a Taichi, que paga na mesma moeda – de outra forma, não saberíamos que eram eles. Koshiro orienta-os à distância, a partir do seu escritório. 

 

Ao contrário do que aconteceu em Tri, para esta cena, Kizuna recria as sequências de digievolução de Adventure, só que com animação contemporânea. Temos também uma nova versão de Brave Heart – à semelhança das sequências de digievolução, em vez de procurar um carácter próprio, esta é uma versão mais eletrónica do tema original.

 

 

Não que isso seja exatamente uma falha. Faz sentido fazerem isso num filme que comemora os vinte anos de Adventure. Mas nesse aspeto respeito um pouco mais a versão de Tri, por ter feito algo diferente. 

 

Por outro lado… percebo. Estas sequências de digievolução, esta versão de Brave Heart, só aparecem no início do filme. Antes do início do enredo propriamente dito, ainda antes dos créditos de abertura. Não entram na história em si. Calculo que tenha sido deliberado: estes elementos fazem parte do status quo que tinha de ser quebrado. 

 

Porque o status quo tinha de ser quebrado. Não apenas em termos de meta, das regras das histórias, da ideia que o protagonista deve deixar o familiar, o confortável e partir para o desconhecido. É um dos temas do filme: as coisas não podem ficar sempre na mesma, todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. 

 

Eu vejo esta cena inicial com o Parrotmon, vejo o quão adoro estes miúdos e os seus Digimon, pergunto-me porque não podiam tê-los deixado assim. No entanto, deixando de lado o meu sentimentalismo, sendo sincera comigo mesma, esta está longe de ser uma situação idílica. 

 

Estes quatro (cinco se contarmos com Koshiro) são os únicos disponíveis para lidar com o problema do Parrotmon. Nesta altura, Sora já se reformara oficialmente como Escolhida, conforme revelado na sua curta-metragem (mais sobre isso adiante). Joe e Mimi também não vieram e é dado a entender que têm vindo muito menos nos últimos tempos. 

 

Mesmo Taichi e Yamato não podem ficar para o pequeno-almoço com os irmãos mais novos e os Digimon. Taichi está no quarto ano da faculdade, mas já vive sozinho, combina os estudos com um emprego em part-time num casino. Ao que parece, já não vai à casa dos pais há algum tempo. Sobre Yamato não sabemos tanto, mas a narrativa dá a entender que também estará a viver sozinho e a conjugar os estudos com um emprego.

 

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Suponho que Agumon e Gabumon estejam a viver com os irmãos mais novos dos parceiros. As curtas-metragens lançadas em paralelo com o filme dão a entender que os parceiros Digimon dividem o tempo entre o Mundo Digital e o Real, poderão mesmo alternar entre as casas uns dos outros. Mas, como veremos mais à frente, Agumon nunca esteve no apartamento de Taichi, o que é um bocadinho triste.

 

Na verdade, no início de Kizuna, Taichi encontra-se numa situação muito semelhante àquela em que se encontrava no início de Saikai: numa fase da sua vida académica em que precisa de definir o seu futuro. Pensa que a sua verdadeira vocação é ser Escolhido, mas essa ocupação não paga salário nem faz descontos para a segurança social.

 

Devia, por acaso. Afinal de contas, eles estão a prestar um serviço à comunidade, com grande risco pessoal. Alguém devia pagar-lhes. 

 

Tal como acontece em Tri, Taichi resiste à mudança. Debate-se com incertezas em relação ao que quer fazer com a sua vida, com amigos de infância com quem não consegue conviver tanto como antes, com a sensação de que toda a gente está a seguir em frente com as suas vidas menos ele. 

 

E Yamato. Eis uma diferença importante em relação a Tri: em Kizuna, Yamato está na mesma situação. Gosto em particular das cenas com a banda de rua e o menino tocando harmónica numa loja de instrumentos – um belo exemplo de "show, don’t tell”.

 

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No que toca aos outros do grupo de Adventure, como já tinha dito antes, Sora demitira-se como Escolhida e estava a seguir as pisadas da mãe no negócio de arranjos florais. Mimi tem andado a vender acessórios de moda online e Joe está em Medicina, já começando a estagiar em hospital. Koshiro tem a sua própria empresa onde gere as relações com o Mundo Digital e os Escolhidos por todo o mundo. Mesmo Hikari e Takeru, que ainda estão do primeiro ano da faculdade, já têm ideias claras sobre o que querem fazer com a vida deles – Takeru já estará a escrever o livro relatando os eventos de Adventure e 02 (e mesmo depois disso?).

 

Yamato e Taichi são mesmo os únicos do grupo de Adventure com os futuros mais incertos.

 

A intriga do filme arranca quando Taichi e Yamato estão num bar bebendo cerveja e partilhando crises existenciais, como todos fazemos a certa altura nas nossas vidas adultas. Na mesa ao lado, uma rapariga perde os sentidos. De notar a prontidão com que Taichi e Yamato reagem a imprevistos como este – não surpreende, pois não?

 

A explicação só surge no dia seguinte, quando os dois são convocados ao escritório de Koshiro. Não sem antes receberem uma mensagem em vídeo de Miyako, que está a estudar em Espanha. Faz ela muito bem – aproveitar a vida antes de ter de passar os seus dias em casa a mudar fraldas.

 

Eu digo isto mas também, com base naquilo que tenho vindo a descobrir acerca do inferno por que as mulheres japonesas passam em contexto laboral, não posso criticar Miyako por preferir ficar em casa. 

 

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A mensagem de Miyako não faz praticamente nada para avançar o enredo – ela recebera uma mensagem e já a reencaminhara para Koshiro. Mas depois da negligência de que Miyako e os restantes Escolhidos de 02 foram vítimas em Tri, a presença deles em Kizuna é muito bem vinda. Aliás, num filme tão introspetivo e melancólico como este, as cenas com o elenco de 02 são uma lufada de ar fresco. Não são alívio cómico, são alívio de alegria. 

 

É neste momento que conhecemos Menoa Bellucci. Uma jovem da mesma idade de Taichi e Yamato, mas que já é uma prestigiada investigadora de Digimon. A realização do filme destaca a borboleta azul que decora a ponta da sua trança – mais sobre isso adiante. Menoa vem acompanhada do seu assistente, Kyotaro Imura.

 

De notar que Taichi, Yamato e Koshiro encaram os convidados com alguma desconfiança. Não surpreende – são homens feitos, já andam nestas andanças há mais de uma década. Depois do que aconteceu com Maki, então…

 

Menoa e Imura explicam aos quatro Escolhidos (Takeru também veio à reunião) que aquilo que acontecera na véspera, com a rapariga no bar, estava a acontecer um pouco por todo o mundo: pessoas entrando em coma sem motivo aparente. O denominador comum é o facto de serem todos Escolhidos – e na altura em que estes perdem a consciência, os seus Digimon desaparecem sem deixar rasto.

 

Menoa e Imura já conseguiram identificar o Digimon responsável e dar-lhe um nome: Eosmon, inspirado por Eos, a deusa do amanhecer segundo a mitologia grega. Eosmon tem roubado as consciências dos Escolhidos, digitalizado-as e guardado-as no ciberespaço (que já servira de cenário a War Game e a Diaboromon Strikes Back). Os dois investigadores já têm um plano desenhado para lidarem com Eosmon (o que é um bocadinho suspeito) e pedem ajuda aos Escolhidos. Os quatro vão para o ciberespaço para enfrentarem Eosmon e tentarem recuperar as consciências das vítimas.

 

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De início corre tudo como o previsto – uma vez mais, como se fosse mais um dia no escritório. Mesmo quando Eosmon digievolui, os outros Escolhidos não se deixam perturbar. Surge o Omegamon, que luta contra Eosmon. No entanto, quando o Omegamon se prepara para dar o golpe final, congela de forma bizarra e desfaz-se. Eosmon escapa. 

 

Quando o grupo regressa ao Mundo Real, tentam naturalmente perceber o que acabara de acontecer. Menoa revela que tem a ver com o motivo pelo qual, alegadamente, não existem Escolhidos adultos. 

 

Parece que o Mundo Digital – por outras palavras, a Homeostase – Escolhe crianças por causa do seu futuro ainda indefinido, do seu potencial para mudarem, para escolherem, para crescerem. Essas escolhas, esse crescimento, era o que catalisava a digievolução. À medida que os Escolhidos vão envelhecendo, vão perdendo esse potencial. O poder para os seus parceiros digievoluírem vai diminuindo até ao dia em que chega a zero.

 

Nesta fase, Menoa apenas refere que Digimon e Escolhido seguem caminhos diferentes. Kizuna mais tarde colocará os pontos nos is no que toca a essa questão. No entanto, mesmo nesta altura do filme, para bom entendedor meia palavra basta: os Digimon desaparecem.

 

Pois… falemos sobre isso. 

 

Essa ideia da digievolução baseada no potencial, que diminui com o tempo, tem uns quantos buracos. Não podia ser de outra maneira, se me vão introduzir novas regras para a digievolução ao fim de três temporadas e múltiplos filmes. 

 

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Sim, regra geral, a digievolução sempre foi catalisada pelo processo de os Escolhidos se tornarem melhores versões de si mesmos. No caso de Adventure e Tri, isso dizia mais respeito ao crescimento individual. No caso de 02, eram as relações entre os Escolhidos. Pode-se argumentar que os laços entre Escolhido e Digimon também entravam nessas contas, se bem que não tanto como em Tamers.

 

Mas agora dizem-me que esse potencial desaparece com o tempo? Não faz sentido. Mimi, Joe, Sora e Koshiro só conseguiram desbloquear os níveis Extremos dos seus Digimon quando já eram adolescentes (Takeru e Hikari são um caso à parte por causa de Hurricane Touchdown). Joe já era maior de idade! Isto para não falar, claro, do Omegamon Merciful Mode. 

 

Pode haver quem questione o peso de Hurricane Touchdown e mesmo de Tri no cânone deste universo (se bem que Kizuna legitimize ambos). Mas, mesmo só considerando Kizuna nesta equação, a lógica não é consistente. Ao escolherem um caminho, uma vida para si, os Escolhidos estão essencialmente a roubá-la aos seus Digimon. Mais à frente na narrativa, Menoa revelará que perdeu a sua companheira Digimon aos catorze anos (ou seja, durante os eventos de 02) quando entrou na faculdade, saltando vários anos escolares. Por essa lógica, Taichi e Yamato deviam ser os últimos a perder os seus Digimon, não os primeiros – já que, como observámos antes, são os únicos do grupo com um futuro incerto.

 

Bem, na verdade, não foram eles os primeiros, foi Sora. O que pode ser explicado pela sua decisão de abdicar dos seus deveres como Escolhida, antes dos eventos de Kizuna (com uma ressalva de que falaremos já a seguir). Ainda assim, Joe é o mais velho dos Escolhidos, está de pedra e cal em Medicina, devia ter sido o primeiro. No entanto, ainda não quis cortar em definitivo com a vida de Escolhido – será essa a diferença?

 

Por outro lado, Menoa refere que as digievoluções diminuem o tempo de vida dos Digimon. Nesse aspeto, faz sentido Taichi e Yamato estarem à frente porque Omegamon.

 

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Estas são as únicas explicações que me ocorrem.

 

Deixando de lado as inconsistências, não concordo com essa ideia de que as crianças perdem potencial e poder de escolha à medida que envelhecem. Da minha experiência, acontece o contrário: sobretudo nos tempos que correm, as crianças têm muito pouco controlo sobre as suas vidas. Os pais e outros adultos escolhem quase tudo por elas: o que comem, o que bebem, o que vestem, a que horas se deitam, em que escola estudam, onde vivem e com quem. 

 

É à medida que crescem que ganham controlo sobre a sua vida. Decidem se querem ir para um curso profissional ou para o Secundário – e para que área – decidem se querem ir para a faculdade – e que curso querem tirar – ou se vão já para o mercado de trabalho. 

 

E, mais importante, eles podem mudar de ideias! Podem mudar de percurso! Kizuna trata tais escolhas como irreversíveis, mas não é isso que acontece na vida real. Alunos podem mudar de área durante o Secundário, podem repetir os exames e concorrer a outro curso, podem só conseguir ir para a faculdade (ou lá regressar) aos trinta, quarenta, cinquenta anos, mesmo mais tarde. Todos nós conhecemos histórias de pessoas que mudaram de carreira numa altura menos convencional das suas vidas. 

 

Até mesmo dentro do universo de Adventure! Para começar, tendo em conta o epílogo de 02, sabemos que Mimi irá, a certa altura, seguir uma carreira em culinária. Mas Sora é um excelente exemplo daquilo que falei nos parágrafos anteriores, conforme provado na curta-metragem lançada há coisa de um ano, poucas semanas antes da estreia de Kizuna nos cinemas japoneses.

 

 

Até aos eventos dessa curta, Sora definia-se essencialmente por dois aspetos: por ser Escolhida e por ser filha de uma mestre em arranjos florais. Na curta, a jovem angustia-se por não saber quem é fora desses rótulos que, lá está, lhe foram impostos na infância – um deles pela Homeostase, outro pela mãe (mesmo com alguma turbulência, como vimos no episódio 26 de Adventure).

 

Tanto Mimi como Piyomon lhe fazem ver que existem muitas outras possibilidades para a sua vida, múltiplos trajetos por onde voar no céu. Assim, Sora decide oficialmente desistir da vida de Escolhida. Acredito que, mais tarde, irá também desistir dos arranjos florais (e eventualmente trabalhar na área da moda) pelo mesmo motivo. 

 

É um grande passo para ela, que sempre se caracterizou pelo seu altruísmo. Finalmente, Sora está a colocar-se a si mesma em primeiro lugar. Aposto que se Mimi não lhe tivesse dito que ela e os amigos a apoiariam sempre, independentemente da decisão de tomasse, Sora ainda não teria desistido de ser Escolhida. Na mesma linha, acho que só desistirá dos arranjos florais se a sua mãe concordar.

 

Não se pode argumentar que é agora que Sora dispõe de todo o seu potencial? Agora que se está a libertar de escolhas que não fez, que quer descobrir quem é fora dessas escolhas e trilhar o seu próprio caminho?

 

É interessante, aliás, comparar Sora com Taichi e Yamato. Os três nasceram no mesmo ano, têm a mesma idade, mas possuem visões opostas em relação ao futuro. Taichi e Yamato angustiam-se com a mudança, com os caminhos de que tiveram de abdicar no passado e que terão de abdicar num futuro próximo. Sora, por sua vez, está ansiosa por mudar, por crescer, por arranjar uma vida diferente para si.

 

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A questão que se coloca é se ela ainda pensará assim quando essas escolhas lhe custarem Piyomon. Havemos de falar sobre isso.

 

Isto tudo para dizer que não concordo com a ideia defendida por Kizuna, sobre a perda de potencial com o crescimento. É uma discordância, não é uma falha.

 

Se nestes últimos parágrafos pareço defensiva… é porque estou. Ainda estou um pouco em negação, a revoltar-me contra o destino traçado por Kizuna, contra a impossibilidade de os Digimon permanecerem com os seus parceiros humanos. 

 

Enfim, paremos por aqui. Amanhã regressamos ao escritório de Koshiro para falarmos sobre as reações de Taichi e Yamato a estas notícias. 

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