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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Digimon Tamers #4 – Os que Escolhem

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Até agora nesta análise a Tamers, olhámos para o Mundo Real e o Mundo Digital onde decorre a ação, bem como para as características dos Digimon enquanto espécie, neste universo. Neste texto, vamos falar do papel dos humanos. Queria refletir em particular sobre o porquê. Porque surgiram os Treinadores, qual é o seu objetivo. 

 

Comecemos pela semântica da coisa. Consta que, em termos do “meta” de Digimon enquanto franquia, o termo Tamer é um hiperónimo para qualquer ser humano que possua um companheiro Digimon. Pode ser alguém Escolhido por uma entidade divina qualquer para salvar o mundo. Ou pode ser apenas alguém que emparceirou com um Digimon para explorar o Mundo Digimon e treiná-lo para combate. Pode até nem sequer possuir um dispositivo digital.

 

Ora, a tradução literal de “tamer” é “domador”. No entanto, pelo menos nesta temporada, a dobragem portuguesa usa o termo Digitreinador ou, pura e simplesmente, Treinador. Não sei como é com vocês, mas a mim recorda-me demasiado a franquia concorrente.

 

Talvez não tenham usado o termo “domador” por possuir uma certa conotação negativa. No entanto, pelo menos no universo de Tamers, “domador” faz mais sentido do que “treinador”.

 

Tal como comentado amplamente no texto anterior, os Digimon neste universo possuem uma faceta fortemente selvagem e violenta. No entanto, é referido várias vezes ao longo da série que emparceirar com uma criança humana representa uma maneira alternativa de digievoluir, sem ser necessário absorver outros Digimon.

 

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Uma parte do trabalho dos miúdos é precisamente controlarem os instintos violentos dos seus Digimon. Takato e Jianliang debatem-se com isso em momentos diferentes, mas o caso mais óbvio é Ryo e Cyberdramon. Se Ryo não o mantiver com trela curta, Cyberdramon andará para sempre à procura de adversários fortes com quem combater. Ryo chega a usar uma espécie de chicote laser para imobilizar o seu Digimon.

 

Isso a mim assemelha-se à definição de “domar” na Infopédia. Pelo menos até certo ponto. O objetivo não é exatamente domesticar os Digimon (pelo menos não devia ser), antes canalizar os seus instintos violentos para fins mais produtivos.

 

Por isso sim, nesse aspeto faria mais sentido chamar-lhes domadores, na minha opinião. Até por uma questão de coerência com as versões japonesa e americana. No entanto, para esta análise, vou usar o termo “oficial” português, Digitreinador – ou Treinador, por uma questão de simplicidade.

 

Um ponto a favor de Tamers em relação a Adventure é o facto de não existirem Crianças Escolhidas, pelo menos não diretamente. Foram os miúdos que escolheram ser Treinadores, de uma maneira ou de outra. De igual modo, os Digimon com que emparceiram não foram desenhados como uma extensão da personalidade dos miúdos. Digimon e Treinador escolhem-se um ao outro. Juri vai literalmente atrás do seu futuro companheiro Digimon, Hirokazu e Kenta vão ao próprio Mundo Digital à procura de parceiros.

 

Parte dos conflitos em Tamers, aliás, derivam de incompatibilidades entre Digimon e parceiro humano – sendo que o principal conflito da história foi despoletado, indiretamente, por uma relação entre Digimon e seus Treinadores que correu mal.

 

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A contrapartida é que não se percebe ao certo qual é o propósito de existirem Treinadores. Não lhes é exigido nada, ninguém espera que salvem o Mundo, nem o Real nem o Digital. O Hypnos de início procura boicotá-los ativamente, considera (não sem razão) que crianças não têm nada que lidar com Digimon. Mesmo quando começam a colaborar com os miúdos, fazem-no com alguma relutância – e com os pais deles a respirar-lhes sobre os pescoços.

 

Da mesma forma, os Treinadores apenas visitam o Mundo Digital para resgatar um amigo, o Culumon. Depois de o salvarem, os miúdos querem logo regressar a casa e as Bestas Sagradas não os impedem – isto apesar de, nesta altura, o D-Reaper já se ter declarado como o inimigo. Mesmo considerando histórias menores, como os Tsuchidarumon na Vila Esquecida ou os Gekomon escravizados por Orochimon, ninguém lhes pede, preto no branco, que façam alguma coisa. No primeiro caso, é Takato quem deseja tentar destruir a mota assombrada (contra a vontade de Jianliang, note-se). No segundo, Orochimon rapta Juri e os demais são obrigados, naturalmente, a intervir.

 

Isto não é uma coisa má. Pelo contrário, confere maior agência aos Treinadores. Eles envolvem-se na história não porque o destino o exigiu ou porque alguém lhes pediu ajuda, mas porque desejam proteger a sua cidade, aqueles que amam, aqueles que não se conseguem defender por si mesmos. Porque só eles têm possibilidades para isso.

 

A minha questão é, se os Treinadores não possuem nenhum propósito senão aqueles que definem para sim, porque é que começaram a surgir, aparentemente do nada, crianças “adotando” Digimon?

 

Durante a segunda vez que vi Tamers, desta feita já tomando notas para escrever esta análise, perguntei-me se o objetivo de existirem Treinadores seria para tentar tornar os Digimon em geral menos violentos. Como referimos antes, a natureza violenta dos Digimon afeta quase todas as relações entre Digimon e Treinador. Mas mesmo fora disso, no episódio em que Ruki, Hirokazu e Kenta pernoitam na casa do Gigimon e da Babamon, nota-se a influência da presença dos humanos. Quando estão sozinhos, os dois Digimon vivem num tédio constante e o único entretenimento que lhes ocorre é andarem à bulha. No entanto, na azáfama de servirem de anfitriões aos miúdos, deixam as brigas de parte e acabam por passar um bom bocado.

 

 

O episódio em si é fraquinho, é um filler e um bocadinho parvo, no bom sentido, quanto mais não seja pela icónica Canção da Pesca (naquelas circunstâncias, o António era menino para cantar o Africa). Mas sempre planta uma ideia interessante: se passarem tempo suficiente com humanos, mesmo que estes não sejam os seus Treinadores, será que os Digimon começam a deixar de lado as suas tendências violentas?

 

Eu pelo menos fiquei com a impressão, em vários momentos de Tamers, que o conflito principal da história seria humanos versus Digimon. Ou pelo menos Digimon-com-humanos versus Digimon-sem-humanos. Só que o D-Reaper meteu-se no meio.

 

É possível que, se não fossem as consequências da Operação Joaninha, para derrotar o D-Reaper, a história tivesse ido nessa direção: numa tentativa de “civilizar” os Digimon enquanto espécie. O que poderia proporcionar uns conflitos interessantes.

 

Conforme vimos no texto anterior, os Digimon não consideram que haja nada de errado com o seu estilo de vida. A parte, aliás, de Chatsuramon considerar insultuoso os Treinadores não absorverem os dados dos seus adversários – quando, antes, o facto de os miúdos terem deixado de absorver dados tenha sido pintado como uma evolução positiva – poderia ter sido melhor explorada. Tamers poderia ter examinado a moralidade das acções dos miúdos, ao tentarem impor os seus valores aos Digimon – quando, ainda por cima, foram os próprios humanos a codificar a lei do mais forte nos dados dos Digimon.

 

Havemos de regressar a este tema quando falarmos dos vilões de Tamers. Regressemos à questão do porquê de existirem Treinadores.

 

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A única resposta que me ocorre é pura e simplesmente porque as crianças o desejaram e os Digignomons concederam-no. Canonicamente, estes só terão influenciado a sagração de Takato e Kenta. No entanto, é possível que também tenham tido um dedinho com as dos outros. E de facto não acho que seja necessária outra explicação.

 

Se formos a ver, aliás, são os humanos quem fizeram quase tudo no universo de Tamers. Foram os humanos a criar os Digimon tal como são. Foram crianças humanas a desejar ganhar companheiros Digimon. Mesmo o grande vilão da história, o D-Reaper, foi criado por humanos e talvez não tivesse chegado ao Mundo Real se Beelzebumon não tivesse assassinado Leomon – o que não teria acontecido se as coisas entre Impmon e os seus Treinadores não tivessem corrido mal. Por fim, a Operação Joaninha que neutraliza o D-Reaper e tem… outras consequências, foi também obra de humanos: neste caso, o Hypnos e o Grupo Selvagem.

 

Os humanos são os principais condutores desta história, o que me agrada. Há menos Deus Ex-Machinas, menos ocasiões em que os protagonistas são salvos pelos dispositivos digitais ou semelhante.

 

O tema da próxima publicação será precisamente esse: o enredo, a narrativa. Publico-a daqui a uns dias, como tenho feito até ao momento. 

 

Espero que tenham um excelente vigésimo Odaiba Memorial Day (não podia deixar de manter a tradição e publicar neste dia). O encontro deste ano foi no sábado passado. Estejam atentos à página de Facebook deste blogue, bem como à página do evento, para saberem como foi. 

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