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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Digimon Tamers #6 – Um líder igual a nós

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Para mim, os elencos em Digimon sempre foram ponto de destaque. Como referi antes, as oito Crianças Escolhidas de Adventure são provavelmente o meu elenco ficcional preferido de todos os tempos. Em 02, não gosto assim tanto das Crianças Escolhidas mas, como referi antes, os vilões são interessantes.

 

Um problema comum, no entanto, é o facto de o desenvolvimento das personagens não ser igual para todos. Regra geral, os dois protagonistas masculinos recebem mais tempo de antena que qualquer um – e conseguem desbloquear um nível superior de digievolução.

 

É compreensível – não é fácil ligar com elencos de seis ou oito miúdos mais companheiros Digimon, mais vilões, mais personagens secundárias, como outros Digimon e familiares dos miúdos.

 

Não digo que Tamers não cometa esse pecado, mas lida melhor com ele. Em vez de tentar vender um grupo de seis ou oito como protagonistas, Tamers assume preto no branco que apenas três miúdos o são – embora Juri acabe por ganhar o estatuto de protagonista, na segunda metade da temporada.

 

Foi uma decisão acertada, a meu ver: os três protagonistas recebem o desenvolvimento devido. Os outros vão aparecendo na história de maneira mais ou menos consistente mas, como fica claro desde o início que estão na categoria abaixo, os guionistas podem dar-se ao luxo de não perder muito tempo com eles.

 

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Outra diferença em relação ao universo de Adventure é o facto de o elenco de Treinadores não formar de imediato uma equipa – nem mesmo o trio principal. Isso deve-se em parte a Ruki, cuja atitude inicial choca com as de Jian e Takato. Além disso, suponho que o facto de só haver visita ao Mundo Digital a meio da história também contribua para esse efeito – não existe o instinto de agrupar com outros humanos, contra um mundo desconhecido.

 

Mesmo assim, não é invulgar vermos cada um dos três protagonistas atuando a solo, apenas com os seus companheiros Digimon. Todos eles possuem um certo grau de introversão, algo em que me revejo.

 

Por outro lado – talvez mesmo em sentido completamente oposto – vemos também os protagonistas, sobretudo Takato, apoiados por outros miúdos, vários dos quais nem sequer são Treinadores. Falo em particular dos colegas de turma de Takato: que brincam com o Guilmon, levam-no à socapa para o acampamento da escola, que fazem chegar uma Carta Azul às mãos de Jian.

 

Isto também é algo que não se viu em Adventure. Os Escolhidos guardavam sigilo rigoroso sobre os Digimon e as suas aventuras. Não que os seus equivalentes, em Tamers, não o façam, mas são mais flexíveis – em parte, penso eu, porque a população infantil sabe o que são Digimon. Em todo o caso, é agradável ver esta rede de apoio, de cumplicidade, em torno dos Treinadores, guardando segredo dos adultos, ajudando os protagonistas da maneira que podem.

 

Os outros Treinadores, tirando Shaochung e Ryo, vêm deste grupo, aliás. E mesmo que estes, à exceção de Juri, não sejam tão desenvolvidos como os três protagonistas, mesmo que, a partir de certa altura, pareça que os digiguionistas estava a adicionar novos Treinadores só pelo gozo, nenhum deles me parece supérfluo – nem mesmo Ryo. Conforme veremos mais à frente nesta análise, de uma maneira ou de outra, todos contribuem para a história.

 

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A verdade é que Tamers tem um elenco surpreendentemente rico e caracterizado. Há personagens mais desenvolvidas do que outras, sim, mas praticamente tudo o que se mexe tem pelo menos alguma personalidade (penso que seja uma manifestação de um dos conceitos da temporada, inteligência artificial). A professora de Takato: as funcionárias do Hypnos; a arca que traz os miúdos do Mundo Digimon para o Mundo Real; Alice, a miúda que funciona como Deus Ex-Machina para permitir formas Extremas no Mundo Real, que poderá ou não ser um fantasma.

 

Não vou falar de todas estas personagens, apenas daquelas que considero mais relevantes e/ou sobre as quais tenha algo a dizer. Existirão personagens sobre as quais não me alongarei muito ou de que não falarei de todo, precisamente porque não acho que tenha alguma coisa a dizer que outros não tenha dito melhor.

 

Comecemos, então, por falar de Takato, o gogglehead da temporada, que pouco tem em comum com os goggleheads anteriores. Enquanto Taichi e Daisuke se encaixam mais no estereótipo do herói-alfa – extrovertidos, impulsivos, confiantes, partindo para ação sem pensar muito nas consequências, levando os companheiros por arrasto – Takato é mais para o gentil e sensível. Por outras palavras, se Taichi e Daisuke são claros Gryffindor, Takato é um Hufflepuff (com traços de Gryffindor).

 

Consta que Takato foi criado para representar o típico fã de Digimon: é um miúdo de dez anos como qualquer outro, sem qualquer talento especial ou qualidade que os distinga dos demais para além do seu amor pela franquia. Que se envolve na história porque a sua fanart, o Digimon que ele mesmo inventa, ganha vida.

 

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Takato é frequentemente visto rodeado de amigos, mas não é particularmente carismático. Possui, aliás, alguns traços de introvertido (algo que os três protagonistas têm em comum). Não tem a personalidade dominadora típica, não só dos antigos goggleheads, mas também da maior parte dos protagonistas de histórias infantis.

 

Neste contexto, personagens como Takato correm o risco de serem interpretados como tímidos e sossegados para não dizer bananas. Os próprios produtores de Tamers reagiram assim, quando Konaka lhes apresentou a ideia. Estou certa, também, que pelo menos uma parte da audiência, sobretudo enquanto crianças, pode não ter achado grande piada a Takato – até porque ele chora um bocadinho demais do que demasiados consideram aceitável para um rapaz.

 

Mas a verdade é que é realista, mais realista que Taichi e Daisuke. O primeiro, então, só se tornou mais contido e ponderado em Tri. Por muito que custe nos custe a engolir, sobretudo enquanto miúdos, muitos de nós somos parecidos com Takato. Eu pelo menos sei que sou – mais sobre isso já a seguir.

 

Conforme referi acima, a história de Takato, e de Tamers em geral, começa quando nasce Guilmon, um Digimon desenhado pelo próprio jovem – sem pensar na parte prática de ter um Digimon, diga-se. Nos primeiros episódios de Tamers, Guilmon age como o recém-nascido que é. Ou melhor, como um cão que fala. Possui um pensamento inocente e infantil, só quer estar e brincar com o seu Treinador, e não compreende porque é que tal nem sempre é possível. Chega mesmo a virar a cabeça como a minha Jane. 

 

Por outro lado, apesar da sua natureza gentil e inocente, apesar de estar a ser criado por um humano, sem nenhum contacto com o Mundo Digital, tem os mesmos instintos agressivos dos Digimon deste universo. Na presença de outros membros da sua espécie, tem uma reação equivalente a pêlo eriçado e, quando entra em modo de agressão, é muito difícil de ser travado.

 

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Ora, Takato, ainda uma criança, não muito mais maduro que o próprio Guilmon, fica encarregue deste monstrinho que ele mesmo criou. Durante a primeira parte da narrativa, vêmo-lo tentando aprender a lidar com a sua nova responsabilidade com vários percalços pelo meio.

 

É nestes momentos que mais me revejo em Takato. Algo que tenho vindo a descobrir sobre mim mesma é que eu tenho algumas dificuldades em adaptar-me a experiências novas: quando aprendi a conduzir, quando comecei a trabalhar, quando arranjei uma cadela. Cometo erros enquanto estou a aprender. Não consigo deixar de ver uma parte de mim nas cenas em que Takato tenta colar os pedaços da sua vida enquanto Treinador com tiras de fita-cola, com muitas lágrimas à mistura.

 

Takato receia, ainda, vir a ficar sem Guilmon tão facilmente como o encontrou… e infelizmente os seus receios acabarão por se concretizar, como veremos adiante. Por sinal, são esses mesmos receios que catalisam a primeira ocasião em que Takato, Jian e Ruki trabalham como equipa – para resgatar Guilmon, que ficou preso uma estranha dimensão que não chega a ser explicada devidamente.

 

Depois de aprender os princípios básicos da vida de Treinador, Takato encontra-se num meio termo entre o pacifismo de Jian e a ambição de Ruki. Consegue por um lado desfrutar das lutas com Digimon – chega a passar por uma fase muito típica de excesso de confiança. No entanto, sente por vezes receio da natureza selvagem de Guilmon. Por vezes sente relutância em deixá-lo digievoluir, com receio daquilo em que Guilmon se pode transformar.

 

A jornada de Takato enquanto Treinador passa, precisamente, pela aceitação de Guilmon tal como ele é, como um igual, como um companheiro de batalha. É o que acontece, por exemplo, na estreia de MegaloGrowlmon.

 

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Nesta parte da história surge Mihiramon, o primeiro Deva, o primeiro adversário de nível Perfeito, com um objetivo específico (que no entanto só conhecemos muito depois). Renamon e Terriermon tentam a sua sorte primeiro, mas não conseguem fazer-lhe um arranhão e quase morrem no processo. Takato envia Guilmon para a batalha com visível relutância – não só receia que o seu Digimon não esteja à altura do desafio, como também que este perca a sua... bem, humanidade... ao digievoluir para um nível superior.

 

Ora, tal como os outros dois, Growmon leva uma sova e fica a isto de se desfazer em partículas digitais. Nisto, Takato entra numa espécie de transe telepático com o seu Digimon. É aqui que percebe que, para sobreviverem àquela luta, para que o jovem seja digno do título de Treinador, tem de dominar os seus medos. Tem de crescer – não, não, de digievoluir em conjunto com Guilmon.

 

Esta parte funciona bem ao indiciar a maneira como o nível Extremo de Guilmon será desbloqueado... mas estou a adiantar-me um pouco.

 

Existe um momento nessa jornada em que Takato dá um grande passo atrás – já na parte que decorre no Mundo Digital. O jovem descobre as origens de Guilmon e dos Digimon em geral da boca do estranho fantasma de Shibumi. O facto de Guilmon ter sido criado pelos Digignomos, a partir de bolsas de dados aleatórios, deita-o um pouco abaixo. Como se acreditasse que tal origem torna Guilmon menos real, não verdadeiramente um ser vivo. Dá para ver o impacto que isso tem na relação entre os dois quando estes se reencontram.

 

É possível que isso tenha influenciado o que acontece a seguir, pelo menos em parte.

 

Chegou a altura de falarmos da morte do Leomon. Em versão condensada, Impmon, um Digimon que os Treinadores consideravam um aliado, senão um amigo, faz um pacto com o diabo, quase literalmente, para desbloquear a sua digievolução para Beelzebumon em troca da morte dos miúdos. No combate em que tenta cumprir a sua parte do acordo, assassina Leomon.

 

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Antes de prosseguirmos, tenho de fazer um aparte. Estou surpreendida por ainda não o ter visto referido em lado nenhum, mas o filme Kyousei de Tri parece ter plagiado esta parte. Tanto em Tamers como em Kyousei há uma cena de morte às mãos de um suposto aliado (embora em Kyousei só Daigo tenha morrido e mesmo assim não de imediato). Em reação, um dos miúdos perde o controlo das suas emoções, fazendo com que o seu Digimon sofra uma digievolução negra. A mera existência da criatura resultante é suficiente para ameaçar a estabilidade do Mundo Digital.

 

Será coincidência?

 

No caso de Tamers, quem morre é Leomon – não o Digimon de Takato, mas o Digimon do seu interesse amoroso, um Digimon bom e honrado, a quem os miúdos se tinham afeiçoado. E às mãos de um Digimon que consideravam um aliado, senão um amigo, com quem tinham chegado a brincar!

 

Acho que qualquer um teria perdido a cabeça nestas circunstâncias. Takato ainda vai mais longe, ao perder por completo qualquer vestígio de compaixão ou racionalidade e ao ordenar a Guilmon que digievolua para uma forma suficientemente forte para enfrentar Beelzebumon. São apenas alguns minutos de loucura, mas chegam para criar o Megidramon e para o D-arco de Takato se estilhaçar.

 

Não admira. Conforme vimos antes, uma das funções de um Treinador é manter os instintos violentos do seu Digimon sob controlo. Takato acaba de fazer o completo oposto.

 

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A sorte do miúdo é que, apesar do potencial destrutivo de Megidramon, Beelzebumon, para seu crédito, consegue fazer-lhe frente. Takato, aliás, demora muito pouco tempo a fazer o seu mea culpa. Até porque Juri, a pessoa por quem ele supostamente fizera isto, teme-o e ressente-se dele por ter obrigado Guilmon – um Digimon de quem ela também gostava – a transformar-se naquela monstruosidade.

 

A chave para a evolução de Takato – e consequente digievolução de Guilmon – passa, mais uma vez, pelo reconhecimento de que Guilmon é o seu parceiro, o seu igual. Não um monte de dados, não um mero veículo para a sua raiva, para os seus desejos de vingança. Takato vai ainda mais longe, ao desejar lutar ele mesmo ao lado de Guilmon, como se fossem um só.

 

E é o que acontece. Literalmente.

 

Está na altura de falarmos sobre as formas Extremas dos Digimon protagonistas, em Tamers. Pois… era absolutamente necessário que as crianças estivessem nuas?

 

É certo que estas surgem, como se costuma dizer, com a anatomia de uma Barbie e não num contexto erótico. Por um lado, se é para haver nudez (e já fui mais comichosa nestas coisas), seja em que contexto for, que seja com adultos com capacidade de consentir. Por outro lado, também não acho que estas imagens sejam inadequadas para crianças – as transformações das Navegantes da Lua eram um bocadinho piores nesse aspeto. É um daqueles casos em que, se calhar, um miúdo não vê nenhum mal, mas um adulto não consegue evitar pensar nas implicações.

 

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Além disso, sejamos sinceros, se Tamers traumatizou criancinhas, não foi de certeza com a nudez dos protagonistas.

 

Enfim, fechemos este parêntesis.

 

A forma Extrema de Guilmon, Dukemon, é um cavaleiro, um literal “Knight in Shinning Armor”. Faz sentido – é essencialmente para isso que Takato evolui: um típico herói, que luta não pode glória pessoa ou soberba e sim por causas nobres. Por aquilo em que acredita estar certo, por aqueles que ama.

 

Takato, aliás, passa o último terço de Tamers tentando resgatar uma donzela em apuros. E pelo meio arranja um corcel: Grani.

 

Durante algum tempo, senti-me relutante em classificar Takato como líder dos Treinadores – porque, lá está, não possui uma personalidade dominadora, como Taichi e Daisuke, e, regra geral, não existem muitas divergências de opinião no grupo. A sua liderança é diferente.

 

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Para começar, tirando Shaochung, a irmã de Jianliang, e Ryo, Takato é o elo comum entre todos os Treinadores. Jian dá uma ajuda a Takato quando descobre que este também tem um Digimon; como referimos acima, o jovem pede ajuda a Ruki para resgatar Guilmon. Por sua vez, Hirokazu e Kenta já eram amigos de Takato, antes, quiseram tornar-se Treinadores certamente por influência dele.

 

Para além disso, conforme observado aqui, Takato acaba por ser a força motriz do grupo, tomando as principais decisões, lá está, não porque prefere agir primeiro e pensar depois, e sim porque sabe o que é preciso ser feito – convencendo os amigos a fazê-lo também. Foi dele que, por exemplo, partiu a ideia de ir até ao Mundo Digital atrás dos raptores de Culumon.

 

Por fim, na quinta parte da história, os três protagonistas decidem, cada um por si mesmos, enfrentar o D-Reaper mas, assim que se descobre o papel de Juri naquela confusão, Takato, como seu interesse amoroso, está mais motivado que qualquer um para resgatá-la – levando-o a assumir, naturalmmente, uma posição de liderança.

 

Em suma, na minha opinião, a evolução de Takato enquanto personagem baseia-se em dois aspetos: na sua relação com Guilmon e no despertar do seu lado heróico. Não muda radicalmente no decurso da história, mantém a sua faceta amável e sensível – o que é admirável tendo em conta aquilo por que passa para derrotar o D-Reaper. Apenas se transforma numa versão mais madura e heróica de si mesmo.

 

E tendo em conta que, no início, ele era igual a nós, um mero fã de Digimon, com inseguranças, que comete erros, gosto de pensar que, em circunstâncias parecidas, também seríamos capazes de nos transformarmos em heróis.

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