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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Digimon Tamers #7 – Moumantai!

Fight0021.jpg

 

Devo avisar desde já que, dos três protagonistas de Tamers, Jianliang (Jian para os amigos) é o qe menos me diz. Não que não goste dele, apenas gosto mais dos outros dois. É dos três aquele que menos evolui, o que não prejudica a história – pelo contrário, desempenha um papel importante nela.

 

Talvez seja só eu, mas vejo algumas semelhanças entre ele e Iori, de 02. As personalidades são semelhantes – calmos, sensatos, maduros, ligados à família. Praticam artes marciais e os seus instrutores acabam por ter um papel algo importante para a história. Os seus pais ( no sentido de progenitores masculinos) têm um passado com os Digimon que os filhos descobrem no decurso da narrativa.

 

Por fim, os dois acabam por ter papéis semelhantes nas temporadas onde aparecem. Iori via o mundo a preto e branco numa história de vilões (exceto um) em tons de cinzento. Jian detesta violência num universo onde, como vimos antes, os Digimon e o Mundo Digital se regem pela lei do mais forte. É um pacifista numa zona de guerra.

 

O lado pacifista de Jian recebe mais destaque na primeira parte do Enredo, mas só muito mais tarde é que descobrimos o porquê. Quando era mais novo, magoara outro miúdo recorrendo ao Kenpo. Não se conhece a gravidade das agressões, mas foi suficiente para que o jovem ganhe aversão à violência.

 

Isso explica as circunstâncias em que se torna Treinador de Terriermon. Algum tempo antes do início da narrativa de Tamers, Terriermon era apenas playable character no videojogo de Digimon, que Jian recebera do pai. A partir de certa altura, o jovem começa a interrogar-se se Terriermon consegue sentir dor durante os combates no jogo.

 

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Não é qualquer criança que faz estas perguntas. Todos nós jogámos videojogos envolvendo pelo menos algum grau de violência, mas nem todos nos pudemos a pensar que as personagens sentem as consequências dessa violência. Sobretudo porque – enfim, tanto quanto sabemos – são apenas isso: personagens, bonecos digitais.

 

Mesmo assumindo que é esse o caso com o Terriermon – e o pai, Jiang-yu, reforça essa ideia – por causa das suas ações em miúdo, Jian não consegue desligar esses sentimentos. E acaba por descobrir que tem razão – é assim que Terriermon se materializa no Mundo Real e Jian se torna o seu Treinador.

 

Apesar de ter sido a aversão de Jian à violência a ganhar-lhe o estatuto de Treinador, isto também constitui fonte de conflito entre ele e Terriermon. Este é um Digimon semelhante aos outros, com instintos agressivos, sempre à procura de um combate. Jian não o deixa lutar, obriga-o a literalmente ser um brinquedo para a irmã, para frustração de Terriermon.

 

De início, a narrativa até parece dar razão a Jian. Logo nos primeiros episódios quando Ruki deseja que Renamon lute e tente absorver os dados de Guilmon, tanto o jovem como Terriermon tentam travar a luta. Quando Terriermon dá por si na mira do ataque de Renamon, digievolui para Gargomon e desata a disparar em todas as direções, rindo como um maníaco. Acaba mesmo por apontar um dos braços-metralhadora  a uma Ruki que, pela primeira vez em Tamers, deixa cair a faceta de durona.

 

Guilmon consegue derrubá-lo e eventualmente Gargomon recupera a razão mas, sim… aquilo podia ter corrido muito mal. Jian tinha bons motivos para manter a trela curta.

 

jian e takat.png

 

E no entanto, logo no episódio seguinte, a trela curta de Terriermon começa a atrapalhar mais do que ajuda. São atacados por um Gorimon, o mesmo que tinham enfrentado no videojogo, por sinal. De início, Jian impede Terriermon de lutar, deixando Takato e Guilmon a lutar sozinhos. O Treinador mais recente, no entanto, ainda não sabe o que está a fazer. Com o Gorimon a fazer o que quer com os dois companheiros Digimon, Jian não tem outra hipótese senão intervir com uma carta. E mesmo assim, não deixa Terriermon absorver os dados e Gorimon, depois de derrotá-lo.

 

Existe outra ocasião em que a incompetência de Takato encosta Jian as cordas, obrigando-o a deixar Terriermon combater. Nesta altura do campeonato, Takato tivera a sua primeira vitória e, de uma maneira muito típica de um miúdo da sua idade, achava-se invencível depois de ter ganho um combate. É então que um Musyamon aparece numa rua movimentada de Shinjuku. Takato mete os pés pelas mãos. Quando uma menina da idade de Shaochung, talvez mais nova, entra no campo de dados, Jian vê-se obrigado a intervir. É apenas a segunda vez que vemos Terriermon a digievoluir para Gargomon, mas desta feita ele não perde o controlo. Pelo contrário, salva o dia.

 

É neste momento que Jian e Terriermon conseguem chegar a um compromisso: lutar quando necessário para proteger os demais. É o primeiro, aliás, a assumir esse papel enquanto Digitreinador. Ao mesmo tempo, à medida que os miúdos se vão habituando uns aos outros, assume o papel de mediador, de ajuizado do grupo, servindo de contraponto não só à combatividade de Ruki como à inocência de Takato.

 

Isto é, até ao momento em que Shaochung se junta à festa no Mundo Digital.

 

Estou a ver que Digimon tem uma cena com onii-chans sobreprotectores – Yamato e Taichi foram apenas os primeiros. Como irmã mais velha, gosto disso.

 

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Infelizmente, a sobreprotecção de Jian não mostra a sua melhor faceta. Shaochung aparece no Mundo Digital no episódio anterior ao da morte do Leomon e torna-se Treinadora de um Deva. Não só Jian é incapaz de consolar a irmã durante o longo combate contra Beelzebumon (Ruki, de todas as pessoas, sai-se melhor nisso), como aproveita todas as oportunidades para pressioná-la para deixar Lopmon – a única coisa boa que acontecera a Shaochung no Mundo Digital. Quando Chatsuramon aparece, Renamon e Dukemon fazem mais para proteger a menina que o seu próprio irmão. Jian nem sequer repara que Terriermon caiu na ravina e só no episódio seguinte é que repara que o seu Digimon ficou com ferimentos.

 

Pode-se argumentar, também, que em circunstâncias normais Jian teria conseguido chamar Takato à razão, impedindo-o de criar o Megidramon.

 

Esta má fase de Jian culmina no episódio que se segue à derrota de Beelzebumon. Nesta altura, o grupo tenta infiltrar-se no território de Zhuqiaomon e Jian está obcecado por enviar a irmã de volta a casa (embora trate Shaochung com uma brusquidão incaracterística quando esta faz birra, recusando-se a ficar para trás, em segurança).

 

O jovem chega a achar que terá de ser ele mesmo, sozinho, a enfrentar Zhuqiaomon e a resgatar Culumon – com Ruki e Takato ao lado dele a pensar: “O Guilmon e a Renamon são o quê? Bonecos de peluche?”. Faz lembrar um pouco a situação que atirou Sora para a caverna escura, na parte final de Adventure, mas melhor elaborada.

 

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Rapidmon estaria sempre em desvantagem perante Zhuqiamon, mas a situação complica-se ainda mais quando os ferimentos da luta com o Chatsuramon começam a manifestar-se. É aí que Jian percebe os erros que tem cometido.

 

Tem de ser o próprio Terriermon a fazer-lhe ver que o jovem não precisa de ser tão duro consigo mesmo, não precisa de tomar responsabilidade por tudo, que existe mais gente no grupo. É nesse momento que desbloqueia o MegaloGargomon. Depois desta, Jian não torna a perder a cabeça desta maneira – o que é de admirar, tendo em conta o que acontece a seguir, em Tamers.

 

Shaochung não é o único membro da família de Jian a contribuir para a história. Conforme referido antes, o seu pai, Jiang-yu, fez parte do Grupo Selvagem, que criou os Digimon.

 

O filho, no entanto, ignora esse facto durante muito tempo. Jiang-yu oferece-lhe o videojogo de Digimon, vê o filho colecionando as cartas. A partir de certa altura, vê dois dos seus filhos brincando com um peluche de Digimon. Mas não lhe ocorre revelar ao filho o seu papel nas origens da franquia. Jiang-yu nem sequer diz a verdade a Jian quando este lhe mostra uma carta azul que lhe veio parar às mãos e o pai deteta o código de Shibumi.

 

Em defesa de Jiang-yu, também o filho não lhe conta que o peluche é, na verdade, um Digimon. Nem que passa muito do seu tempo livre – incluindo de noite – lutando com outros Digimon.

 

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Em ambos os casos, a verdade só vem à tona quando Jian-yu dá com o filho, Takato e os respetivos Digimon sendo importunados por Impmon, no parque. Este último chega a atirar uma bola de fogo a Jiang-yu, só mesmo para este ter a certeza de que não está a alucinar.

 

Pouco depois de Jianliang descobrir a verdade sobre o Grupo Selvagem, Yamaki recruta Jiang-yu e outros membros do grupo como colaboradores do Hypnos. Jiang-yu parece assumir, de início, que o objetivo é retomar o projeto dos Digimon – só alguns episódios mais tarde é que se descobre que Yamaki pretende usar os conhecimentos deles para ativar o Shaggai uma segunda vez, para expulsar todos os Digimon do Mundo Real.

 

Jiang-yu protesta, pois o programa expulsará também os Digimon do filho e dos amigos dele – ainda que Yamaki lhe aponte, não sem razão, que Jiang-yu começara tudo aquilo vinte anos antes e o envolvimento de Jiangliang e das outras crianças com os Digimon colocava as suas vidas em perigo.

 

A atitude de Jiang-yu no que diz respeito ao Shaggai mudará mais à frente na história. Para já, como referido antes, uma vez mais, a ativação do Shaggai causa mais problemas do que aqueles que resolve. Ainda assim, Jiang-yu acha por bem fazer o seu mea culpa perante o filho e os amigos. Só torna a colaborar com Yamaki vários episódios mais tarde – depois de este bater no fundo e reerguer-se.

 

Durante o resto dos eventos de Tamers, aliás, Jiang-yu e o resto do Grupo Selvagem trabalham em conjunto com o Hypnos, dando apoio aos Treinadores – tanto quando estes se encontram no Mundo Digital como durante a luta contra o D-Reaper, em Shinjuku.

 

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É durante a luta contra o D-Reaper, aliás, que ocorre um momento-chave na caracterização tanto de Jian como do seu pai. Depois de vários planos falhados, Hypnos e o Grupo Selvagem levam a cabo a Operação Joaninha. Se percebi corretamente (se estiver errada, avisem-me!), Jiang-yu instala uma versão do Shaggai em Terriermon. Este será ativado quando o MegaloGargomon se enfiar no vórtex, criado pelo D-Reaper, que une o Mundo Real ao Digital. Depois de ativado, o MegaloGargomon começará a girar a grande velocidade no sentido oposto ao do vórtex (um minuto de silêncio pelo estômago de Jian), revertendo o D-Reaper ao seu estado inicial, mais básico que uma calculadora, inofensivo.

 

O que Jiang-yu não revela ao filho é que a Operação Joaninha implicará o regresso dos companheiros Digimon ao Mundo Digital. A verdade só vem à tona poucos minutos após a neutralização do D-Reaper, numa altura em que os Digimon já começaram a… bem, desdigievoluir.

 

Esta é uma cena de fazer chorar as pedras da calçada, como veremos mais tarde, mas acho que qualquer um faria o mesmo no lugar de Jiang-yu. A ameaça do D-Reaper ganhara escala mundial, toda a Humanidade estava em risco de ser aniquilada. Por comparação, a expulsão dos companheiros Digimon é um preço razoável a pagar. E se, aquando da situação com o Vikaralamon, Jiang-yu não estava disposto a arriscar a perda dos Digimon das crianças, agora já não se pode dar a esse luxo.

 

Mesmo do ponto de vista da narrativa, nesta fase do campeonato uma solução fácil não seria credível. Aliás, em Tamers não há soluções fáceis, ponto.

 

Ainda assim, quando diz a verdade ao filho, Jiang-yu considera-se indigno de perdão. Um dos momentos mais bonitos em toda a série é a imagem de Jianliang lavado em lágrimas, mas sorrindo ao pai e abanando a cabeça – mostrando a Jiang-yu que o perdoa.

 

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Fico contente por ser essa a última imagem que vemos de Jian.

 

Qual é, então, a lição que Jianliang aprende ao longo de Tamers? Eu diria que é de flexibilidade. Aprende a ser mais flexível consigo mesmo, com as suas crenças, com os demais. Muda ainda menos que Takato em relação ao início da história, mas também não precisa

 

Agora que penso nisso, a lição que Jian aprende é o lema de Terriermon: Moumantai! Tem calma, não há problema, não faz mal. Não sendo a minha personagem preferida, nem aquela em que mais me revejo, essa é uma lição valiosa para qualquer um de nós.

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