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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Digimon Tamers #8 – Quando for grande, quero ser como ela...

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...apesar de já ser mais velha que a mãe dela, durante os eventos de Tamers.

 

Consta que Ruki, a única rapariga que faz parte do trio de protagonistas, é a personagem mais popular em Tamers. Eu neste caso concordo com a opinião do público. Se tivesse visto Tamers em miúda, teria desenvolvido uma enorme “girl crush” por Ruki. Tentaria imitar o penteado dela – e falharia, porque o meu cabelo só atingiu o comprimento suficiente para um rabo-de-cavalo aos catorze anos. Andaria a chatear os meus pais para me arranjarem uma t-shirt com um coração azul partido – segundo eles, nunca fui de pedir muitos presentes em pequena, mas as coisas que pedia eram difíceis de arranjar.

 

Hoje felizmente temos a Tee Public e já ganho o meu próprio dinheiro. Por isso…

 

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(Fiquei um bocadinho desapontada por terem demorado várias horas a reparar, no encontro do Odaiba Memorial Day.)

 

Como adulta, continuo a sentir admiração por ela, mas diria que Ruki está mais ou menos empatada com Takato como personagem preferida de Tamers. De uma forma simplista, Takato é quem eu sou. Ruki é quem eu gostava de ser. 

 

Segundo o site de Konaka, brinquedos centrados em personagens femininas vendem menos que os centrados em personagens masculinas (ou pelo menos vendiam menos na altura do planeamento de Tamers. Para contrariar um pouco esse fenómeno, os produtores decidiram que a rapariga protagonista teria de ser a mais poderosa e capaz. 

 

Por um lado, acho que foi uma boa decisão, mesmo que por motivos comerciais: os próprios produtores admitindo que boas personagens femininas vendem. E Tamers quebrou convenções, sobretudo para a época, ao ter dois protagonistas masculinos mais para o emotivo e sensível e uma protagonista feminina mais estóica e durona.

 

É pena, no entanto, que se considere que, para se tornar uma personagem feminina “melhor”, mais apelativa comercialmente, se tenha de torná-la… bem, menos feminina. Sou a primeira a admitir que é uma faca de dois gumes. Eu também era maria-rapaz em miúda, ainda o sou um bocadinho, sendo este um dos motivos pelos quais gosto de Ruki (e de Sora, de quem Ruki parece ser uma versão melhorada, nalguns aspetos). Estou certa que existirão muitas outras meninas com gostos menos femininos na audiência de Digimon. Mas quantas de nós nos tornámos marias-rapaz porque internalizámos que ser-se feminina, gostar de vestidos, de cor-de-rosa, de princesas da Disney não é fixe?

 

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Enfim, passemos à frente.

 

Quando conhecemos Ruki, esta tem várias características de uma adolescente rebelde: reservada, aparentemente fria e distante, segura de si mesma – eu daria tudo para ter um décimo da sua confiança. Não é má rapariga. Não é mal-educada – Konaka referiu no seu site que não queria que Ruki usasse linguagem grosseira. E de facto vêmo-la tratando a avó e a maior parte dos adultos (com notáveis exceções) com respeito (Editado: entretanto, recordaram-me que, na sociedade japonesa, as gerações mais jovens em geral nutrem imenso respeito pelos mais velhos, mais do que no mundo ocidental. Por isso, talvez não seja assim tão significativo.) Mesmo com Takato ou Jian, ela é fria, mas não chega a ser malcriada. 

 

Ruki é apenas solitária, focada nas suas coisas, não tem paciência para pessoas de que não gosta ou que não tem em grande conta. Como Takato e Jian de início, Hirokazu e Kenta mais tarde, mas sobretudo a sua mãe.

 

Recuando um pouco no tempo, quando Ruki nasceu, a sua mãe, Rumiko, tinha apenas dezoito anos. Ela terá chegado a casar com o pai da filha mas, como seria mais ou menos de esperar de um casamento tão precoce, este não resulta. Por altura dos eventos de Tamers, o pai está desaparecido do mapa. Não é muito claro se Ruki ainda mantém contacto com ele – supostamente sim, segundo um monólogo da jovem, mas isso contraria o segundo filme de Tamers (que, por outro lado, acho que toda a gente concorda que não faz parte do cânone oficial).

 

Konaka fez questão de referir no seu site que a personalidade de Ruki não é influenciada pela ausência do pai… mas será verdade? Tal como é referido neste vídeo, o trauma de abandono explicaria pelo menos em parte a relutância de Ruki em abrir o seu coração a Renamon, bem como aos outros treinadores. Mais sobre isso adiante.

 

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Mesmo tendo sido mãe muito cedo (o facto de a avó de Ruki ter estado por perto e de haver dinheiro na família terá ajudado), Rumiko conseguiu lançar uma carreira bem sucedida como super-modelo. Possui mesmo o estatuto de mini-celebridade. Ao contrário de Ruki, é extrovertida, convencionalmente feminina e tenta transformar a filha numa miniatura de si mesma – pressionando-a para ter interesses mais femininos e arrastando-a para sessões fotográficas. 

 

Devo dizer, as cenas em que Rumiko tenta convencer Ruki a usar vestidos bonitos lembram-me a minha própria infância. Qualquer uma que tenha sido maria-rapaz nalguma altura da sua vida terá recordações semelhantes.

 

Só que Rumiko pressiona um bocadinho além do que é saudável e Ruki, naturalmente, ressente-se. Torna-se maria-rapaz – a certa altura dá-se a entender que terá sido por influência do pai. Dedica-se ao jogo de cartas de Digimon, uma franquia dirigida sobretudo a rapazes. 

 

É possível que tenha escolhido deliberadamente um passatempo, um mundo onde a mãe não pudesse assoberbá-la. E eu, admito, revejo-me ainda mais nesta atitude no que no estilo menos feminino. 

 

Rumiko domina o jogo de cartas com facilidade, perdendo apenas para Ryo, ganhando o cognome de Rainha dos Digimon. A vitória, no entanto, não a satisfaz, não preenche o vazio.

 

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É nessa altura que aparecem Digimon em sua casa, pedindo-lhe para ser sua Treinadora. Este é um caso excecional em Tamers, em que são dos Digimon que vão atrás de uma humana, em vez do oposto. Ainda assim, Ruki declara que só quer um Digimon verdadeiramente forte. Renamon avança – um nível Infantil, apesar de existirem níveis Adultos e Perfeitos entre as opções.

 

Na verdade, antes de ver Tamers, pensava que Renamon era um nível Adulto – por causa do tamanho e pelo comportamento, mais parecido com o da Tailmon que do Agumon ou do Guilmon. Tirando esse aspeto, a família digievolutiva da Renamon é a minha preferida em Tamers. 

 

São sempre os Digimon das meninas, curiosamente.

 

No início, Ruki e Renamon possuem uma relação estritamente profissional. Renamon procurava a ajuda de um humano para se tornar mais forte, quiçá digievoluir. Ruki vê Renamon e os restantes Digimon como uma extensão do jogo de cartas: apenas dados digitais, personagens de um videojogo.

 

Nesta fase, há quem compare Ruki a Ken, quando este era Imperador Digimon – no sentido em que ambos encaram os Digimon como um jogo. Não sei se é uma comparação legítima. Ken não possuía controlo total sobre as suas atitudes para começar; torturava e obrigada Digimon a combater sem o consentimento deles.

 

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Por sua vez, Renamon luta de livre vontade. Pode-se argumentar que o mesmo acontece com os adversários que derrota e absorve pois, lá está, dos Digimon vivem sobre a lei do mais forte. Combater e absorver adversários faz parte da sua cultura.

 

Não deixa de ser uma área moralmente cinzenta. Afinal, essa cultura foi inscrita no ADN dos Digimon por humanos e, agora, uma humana aproveita-se dessa cultura para entretenimento e prestígio pessoal. Ruki não está a fazer o mesmo que Ken. Mas não significa que seja o correto.

 

Um caso em que Ruki claramente não faz o correto é quando conhece o Takato e o Guilmon. Aqui não há desculpa, Guilmon tinha pouco menos de um dia de vida, era um bebé. Nem ele nem Takato queriam combater. Ruki só tinha de deixá-los em paz. 

 

Felizmente, esta atitude depressa se volta contra ela. Bem, não sei se posso usar a palavra “felizmente” associada a uma cena onde uma menina de dez anos é encostada à parede por uma criatura apontando-lhe uma arma. Em todo o caso, é a primeira ocasião em que vemos a autoconfiança de Ruki abalada e as suas convicções questionadas. 

 

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A convivência com Takato, Jian e respetivos companheiros Digimon provoca mudanças em Renamon antes de em Ruki. Ao ver as relações afetivas que Guilmon e Terriermon cultivam com os seus treinadores, ela começa a desejar algo semelhante para si – ainda que apenas no subconsciente. Renamon começa a sentir que está a desiludir Ruki pessoalmente por não conseguir a digievolução.

 

Esta, na verdade, é desbloqueada, não após a absorção de adversários suficientes e sim durante um combate em, pela primeira vez, ambas se preocupam com a segurança uma da outra. Em que tentam proteger-se uma à outra.

 

Ainda assim, Ruki não percebe logo a mensagem. A jovem ainda não está preparada para aceitar que gosta de Renamon. As coisas só mudam quando Ruki começa a ser perseguida por algo… gélido. Ao perceber que a sua Treinadora está assustada, Renamon oferece-se para protegê-la… ao que Ruki responde com duas pedras na mão- Tenta colocar o Digimon no seu lugar e ergue uma barreira entre elas. 

 

Renamon ausenta-se. Por norma, sabe que Ruki gosta do seu espaço, sobretudo quando algo a perturba. No entanto, dá para ver que ficou magoada.

 

Ruki não demora a descobrir a identidade do seu stalker. IceDevimon, uma criatura francamente sinistra – parece que, tal como o Takeru, não sou grande fã de Devimon nem que Digimon semelhantes. Este deseja substituir Renamon como companheiro Digimon de Ruki. Persegue e rapta a jovem, trá-la para a sua cave e mostra-lhe os cadáveres congelados de todos os Digimon que derrotou – como quem mostra as duas credenciais, a sua sala de troféus.

 

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IceDevimon acaba por funcionar como personificação da faceta que Ruki, até ao momento, procurara mostrar ao mundo: fria, ambiciosa, implacável. IceDevimon pensa que Ruki valoriza tais características, que a persuadirão a jovem a tornar-se sua Treinadora… mas Ruki está essencialmente a olhar-se ao espelho e não gosta do que vê. 

 

Ninguém gostaria. Ruki repetira inúmeras vezes desde o início de Tamers que os Digimon são apenas dados. Quando uma pessoa repete a mesma ideia com esta frequência, pode significar que está a tentar convencer-se a si mesma tanto quanto dos demais. Os Digimon podem ser apenas criaturas digitais – o que não significa que sejam incapazes de sofrer ou que seja agradável vê-los congelados numa perpétua expressão de terror.

 

Ruki não quer ser mais essa pessoa, mas também não quer pedir ajuda a Renamon. Receia que, depois da maneira como a tratou, ela não venha. Renamon, no entanto, conseguira sentir que Ruki estava em perigo e aparece para ajudar.

 

De início tudo corre bem, como já acontecera muitas vezes em Digimon. Pela primeira vez, Ruki afirma que Renamon é sua amiga, com todas as letras. Em resposta, Renamon digievolui… mas Kyubimon é incapaz de derrotar IceDevimon. Quem o faz é Guilmon, orientado por Takato que, pela primeira vez, usa cartas e é bem sucedido. 

 

No rescaldo daquela situação, Ruki grita que detesta Digimon, vai para casa sem Kyubimon e deita fora as suas cartas e o seu D-arco.

 

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Uma reação intempestiva, é certo, mas compreensível. Vejamos a situação. Ruki tinha acabado de sobreviver a um Digimon francamente sinistro. Acabara de descobrir que o seu passatempo, aquilo que dava sentido à sua vida, era essencialmente uma carnificina. Tinha tentado fazer diferente, admitir ao mundo que gostava de Renamon, o que não era fácil para uma pessoa orgulhosa e reservada como ela – o que não chegara para derrotar IceDevimon. Quem o fizera, fora um puto que, no episódio anterior, estivera a chorar como um bebé agarrado ao Growmon. 

 

Em suma, Ruki devia estar a sentir-se confusa e humilhada e reagiu da maneira que qualquer criança da idade dela reagiria: amuando, batendo com a porta, dizendo que não quer brincar mais.

 

Tanto ela como Renamon passam algum tempo afastadas, refletindo. Renamon chega a conversar sobre o sentido de ter um companheiro humano, primeiro com Jian, mais tarde com Impmon, que tem um histórico… digamos, interessante com Treinadores. Este último acaba por funcionar como o reverso da medalha para Renamon, como veremos um dia destes.

 

Entretanto, Renamon vai derrotando outros Digimon sozinha, concluindo que talvez não precise de Ruki para se tornar mais forte. No entanto, nesta altura, tornar-se mais forte só porque sim já não a satisfaz – tal como o jogo de cartas deixou de satisfazer Ruki, a partir de certa altura.

 

Por seu lado, apesar de Ruki ter, aparentemente, desistido dos Digimon, não consegue manter-se afastada quando estes aparecem. Vêmo-la de fora do campo de dados, enquanto Renamon derrota um bando de Flybeemon, afastando-se de seguida sem falar com a sua companheira. Pensa, agora, que Renamon só queria saber dela para se tornar mais forte. 

 

É também nesta altura que a avó de Ruki, na sua sabedoria, avisa que o isolamento constante não é saudável, que ninguém sobrevive a este mundo sozinho.

 

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Havemos de regressar a esta ideia mais adiante. Para já, dizer que, quando outro Digimon, uma Harpymon, aparece, mais uma vez Ruki não consegue manter-se afastada. Desta feita, deixa-se ver por Renamon. À primeira vista, esta derrota a Harpymon, mas em vez de lhe absorver os dados, fica ali parada, apercebendo-se de que nada daquilo lhe contribui para a sua felicidade. Lá porque Renamon consegue derrotar adversários sozinha, não significa que o queira. 

 

Ora, Harpymon aproveita as reflexões existenciais de Renamon para atacá-la quando tem as defesas em baixo. Renamon, apanhada de surpresa, não se consegue defender. Ruki, em pânico, leva a mão aos bolsos mas lembra-se que atirara tanto o seu D-arco como as cartas para o caixote. Sem alternativa, agarra num pau caído e corre a espetá-lo nas costas da Harpymon. 

 

Naturalmente, o Digimon selvagem volta-se para Ruki – que fica com uma cara de devia-ter-pensado-melhor-nisto. Felizmente, Renamon digievolui à moda antiga, para proteger a sua companheira (uma sorte o Culumon estar por perto), e derrota a Harypymon.

 

Ou seja, tal como na ocasião em que desbloquearam a Kyubimon, por muito reservadas e orgulhosas que sejam, Ruki e Renamon não conseguem afastar-se uma da outra, preocuparem-se uma com a outra, protegerem-se uma à outra. E desta vez admitem-no preto no branco.

 

Depois de conseguir abrir-se a Renamon, Ruki começa a fazer o mesmo com os outros Treinadores – sobretudo quando começam a aparecer os Deva e ela, Takato e Jian se encarregam de proteger a população civil. Eu destacaria a ocasião em que se oferece para ensinar o jogo de cartas a Juri, quando esta adquire o seu próprio baralho. 

 

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Por outro lado, regressando à relação de Ruki com a sua mãe, quando o elenco vai ao Mundo Digital resgatar Culumon, a jovem sente-se mal pelo sofrimento que vai provocar a Rumiko. Assim, dá um primeiro passo no sentido de uma reconciliação ao aceitar usar um dos vestidos que a mãe tentara impôr-lhe – em jeito de despedida. 

 

Havemos de regressar a Rumiko. Para já, no Mundo Digital, os instintos protetores de Ruki tornam a manifestar-se, desta feita para com Hirokazu e Kenta. Os dois tinham-se juntado ao grupo de resgate à procura de companheiro. Não o encontram de imediato, ou seja, passam bastante tempo indefesos – e Ruki assume a tarefa de protegê-los.

 

Não que o faça pacificamente. Pelo contrário, não se coibe de dizer-lhes exatamente o que pensa deles (e até tem alguma razão), chegando mesmo a dar-lhes um literal pontapé no rabo. Quando Ryo se junta à festa – o lendário Digitreinador, o único a derrotar Ruki no campeonato de cartas antes de literalmente desaparecer da face da Terra, que a narrativa trata quase como um Gary Stu e tenta insinuar que Ruki tem um fraquinho por ele – a jovem atinge o seu limite, optando por virar as costas ao grupo e venturar-se sozinha.


Enfim. Como fizem os anglo-saxónicos, baby steps.

 

No meio disto tudo, tem alguma piada ver Renamon “ralhando” com Ruki, aconselhando-a a ter paciência com os demais. Como, por exemplo, quando a jovem reclama com Juri por esta a tratar por “chan”. (Há um par de ocasiões em que, na versão original, Ruki reage mal a ser tratada por um chan, compreensivelmente. A dobragem portuguesa traduz ambas literalmente, o que é uma falha infeliz, conforme expliquei aqui.) Só reforça a ideia de que Treinador e digimon puxam um pelo outro, crescem em conjunto.

 

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Por outro lado, Ruki pode ter pouca paciência para com os rapazes do grupo que não Takato ou Jian, mas é meiga com Shaochung, mesmo com a choradeira toda. Mais compreensiva que o irmão, como vimos no texto anterior.

 

Com a luta com o Beelzebumon e consequente morte de Leomon, os instintos protetores de Ruki saem reforçados. A seguir a Takato, ela é a mais preocupada com a visível depressão de Juri, a sua conversa sobre o destino. Renamon diz mesmo que o coração da amiga está fechado pelo sofrimento – mas que terá de ser ela própria a escolher abri-lo de novo, a aceitar a morte do Leomon e a seguir em frente.

 

As palavras de Renamon são surpreendentemente proféticas, como veremos no próximo texto. Para já, pergunto-me se Ruki se revia em Juri naquele momento. Ela também passara muito tempo com o coração fechado e teve de escolher abri-lo de novo, como vimos antes. 

 

Havemos, aliás, de voltar a falar de semelhanças entre as duas meninas. Entretanto, quando descobrem que Culumon está preso numa ravina cheia de D-Reaper, Ruki oferece-se para descer sozinha com Renamon, precisamente para que nenhum dos amigos tenha de arriscar a vida – embora Ryo vá atrás dela. 

 

Ruki consegue chegar a Culumon, mas teemos um par de momentos assustadores. Algumas bolhas do D-Reaper rasam Ruki e Culumon e acabam por apanhar a mochila da primeira.  Por fim, chegam a uma posição em que os quatro – Ruki, Renamon, Culumon, Ryo – estão encurralados pelo D-Reaper. Takato, Jian e os outros estão mais acima, mais resguardados, mas não escaparão durante muito tempo.

 

É na combinação destas fintas próximas à morte com o desejo de proteger os amigos, mesmo de desafiar o destino e escrever a sua própria história que Ruki e Renamon dão um literal salto de fé, para o abismo do D-Reaper. Assim nasce o nível Extremo de Renamon.

 

 

Tenho um conhecimento limitado de Digimon, mas estou certa de que haverá quem concorde comigo quando disser que a sequência de digievolução para Sakuyamon é a mais bela em toda a franquia (embora não seja a minha preferida, está em segundo lugar). O fundo azul com a lua, a água, as cerejeiras em flor, o coro feminino no início de One Vision… Só de escrever fico com pele de galinha!

 

Tamers faz questão de realçar que o interior de Sakuyamon é quentinho, que ela mesma irradia calor para os demais. Aposto que é um contraste intencional com o gelo de IceDevimon, a sua cave cheia de cadáveres, que se comparava a si mesmo com Ruki, na primeira parte da narrativa. Sakuyamon é uma guerreira, mas é também uma força benevolente, maternal, protetora – um pouco como a Wonder Woman – que entoa um cântico com traços de canção de embalar, enquanto usa os seus poderes contra o D-Reaper.

 

No episódio seguinte, Ruki e Renamon citam a benevolência e compaixão de Sakuyamon como inspiração para irem à procura do Impmon e levá-lo para o Mundo Real. Mesmo depois de este ter assassinado o Leomon, mesmo depois de ter estado a isto de assassinar o Dukemon (com Takato lá dentro).

 

Uma vez mais, talvez Ruki e Renamon se tenham revisto em Impmon. Como referido antes, elas quiseram absorver o Guilmon no início de Tamers. Tinham, também, uma longa lista de adversários derrotados – adversários esses que podiam ter um Treinador ou andar à procura de um. Além disso, conforme veremos quando falarmos sobre Impmon, se as coisas entre ela e Ruki não tivessem resultado, Renamon podia ter seguido um trajeto muito parecido. 

 

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Esta decisão quase custou a boleia para o Mundo Real – não só a Ruki e Renamon, mas também a Takato, que ficou para trás à espera delas – mas valeu a pena. Ambas deram a Impmon uma segunda oportunidade e este, como veremos mais tarde, não a desperdiça.

 

Quando regressam a casa, Ruki e Renamon não conseguem lá ficar por muito tempo, por causa da ameaça do D-Reaper. Rumiko aproveita para terminar o que a filha começara antes de ir para o Mundo Digital. Pela primeira vez trata Ruki, não como um molde de plasticina para ela esculpir à sua imagem e semelhança, e sim como uma pessoa independente. Respeita-a por esta seguir o seu coração, as suas convicções, contra as opiniões dos demais – tal como Rumiko fizera aos dezoito anos, ao casar e ter um bebé nessa idade, certamente contra os conselhos dos mais velhos.

 

Se essa decisão de Rumiko foi a mais acertada é questionável – o casamento não durou e a filha está a crescer sem o pai por perto. Mas sempre lhe deu Ruki, que provavelmente nem seria a mesma pessoa se tivesse sido nada e criada noutras circunstâncias. 

 

Eu adoro a simbologia da t-shirt que Rumiko oferece à filha: idêntica à que Ruki usara até ao momento, mas com um coração inteiro em vez de partido. Ao contrário dos vestidos de antes, é uma peça de roupa que respeita a personalidade da filha. Mais: a própria Rumiko também arranja uma t-shirt com um coração, mas em rosa e vermelho, mais de acordo com o seu estilo pessoal. As t-shirts, com o mesmo desenho mas em cores diferentes, mostram que mãe e filha são pessoas distintas, mas na mesma equipa.

 

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Além de que a mudança de um coração partido para um inteiro é um bom reflexo da evolução de Ruki. Mas eu confesso que a adolescente rebelde em mim gosta um bocadinho mais do coração partido.

 

Outro momento marcante envolvendo Ruki e a sua família ocorre alguns episódios depois, quando se descobre toda a verdade sobre a situação familiar de Juri. Ruki apercebe-se que a sua família, por comparação, não é assim tão má. Os pais estão divorciados, mas estão ambos vivos. Rumiko tem muitos defeitos, mas toda a gente percebe que está a dar o seu melhor. Além de que a sua avó sempre estivera presente, funcionando como segunda mãe. 

 

A Juri saíra-lhe muito pior na rifa – mas nunca o usara como desculpa para se isolar, ser arrogante, matar outros Digimon como passatempo. Pelo contrário, Juri era simpática, tratava bem toda a gente, escondendo de todos a sua infelicidade. 

 

Não que o comportamento de Juri fosse saudável, como veremos no próximo texto. Tanto ela como Ruki tentaram lidar o melhor que puderam com coisas sob as quais não tinham controlo. E têm apenas dez anos! Nenhuma delas pode ser censurada.

 

De qualquer forma, esta reflexão é uma boa prova do crescimento de Ruki, enquanto personagem. 

 

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Na verdade, a história de Ruki em Tamers recorda-me as histórias de outras personagens femininas marcantes. Há uns anos li este excelente artigo, num blogue que já mencionei antes, desmontando alguns mitos sobre personagens femininas fortes – que muitos acusam de amolecerem a partir do momento em que desejam a ajuda e/ou companhia de outras pessoas, se apaixonam, ou, pura e simplesmente, exprimem emoções que não raiva ou orgulho.

 

Katie, a autora do texto, cita como exemplos Kate Beckett, de Castle, e Emma Swan, de Once Upon a Time, mas eu também incluiria Temperance Brennan, também conhecida por Bones. E agora Ruki.

 

Todas estas mulheres tiveram infâncias difíceis, em graus diferentes e, como resposta, ergueram muros em torno de si, fecharam-se ao amor e à amizade. Não posso falar muito sobre Beckett, pois não acompanhei Castle assim tão perto, mas posso falar sobre Emma após escrever várias vezes sobre Once. 

 

Emma crescera como órfã, fora magoada por praticamente toda a gente com quem teve alguma proximidade: o casal lhe a acolheu em bebé mas mandou-a de volta; uma das poucas amigas que teve em miúda; uma mãe de acolhimento que esteve muito perto de adotá-la; o primeiro homem que a amou mas que a deixou grávida e na cadeia em vez dele. Usava casacos de cabedal como armadura, como símbolo dos muros que erguera. Precisou de muito tempo, praticamente toda a série, para abrir o seu coração por completo – primeiro ao filho, depois aos pais, depois ao homem com quem casaria.

 

 

Da mesma maneira, desde que, ainda adolescente, fora abandonada pelos pais e, mais tarde, pelo irmão, Bones usara a sua extrema racionalidade como escudo, não se permitindo sentir qualquer emoção. Em parte por causa do seu trabalho – ninguém consegue trabalhar com ossos e cadáveres se não tiver pelo menos algum controlo sobre as suas emoções. Mas sobretudo para se proteger contra o sofrimento.

 

Mas, regressando a Once, como diria Mary Margaret, estas atitudes podem bloquear o sofrimento, mas também bloqueiam o amor, a amizade, a felicidade em geral.

 

É de Bones, aliás, que vem uma citação perfeita para estes casos. Vou tentar traduzir o melhor que consigo (com supressões).

 

Brennan: Eu sou… bastante forte.

Booth: Tu sempre foste forte.

Brennan: Sabes qual é a diferença entre força e impermeabilidade, não sabes?

Booth: Não.

Brennan: Uma substância impermeável a danos não precisa de ser forte. Quando nos conhecemos, eu era uma substância impermeável. Agora sou uma substância forte. Pode chegar uma altura em que eu esteja suficientemente forte para arriscar perder o resto da minha impermeabilidade. Talvez nessa altura possamos juntar-nos.

 

Durante muito tempo, Ruki sentiu-se relutante em tirar os seus óculos escuros, em confiar noutras pessoas, fazer amizades. Usava o jogo de cartas de Digimon e, mais tarde, os combates com Renamon como armadura – e possivelmente porque não tinha mais nada a que se agarrar. A jovem era uma substância impermeável, que não se deixava afetar por emoções, por nada.

 

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Os eventos de Tamers, por sua vez, tornaram-na uma substância forte: que sofre danos mas que não é destruída por eles. O seu conhecimento e talento como Digitreinadora deixou de ser um mero escape para se tornar numa arma para proteger aqueles que ama. 

 

No fundo, tal como Takato, ao longo de Tamers, Ruki aprendeu a canalizar a sua paixão por Digimon para propósitos heróicos. É por isso que não concordo quando certos fãs dizem que Ruki perdeu a piada ao tornar-se menos durona – eu diria que nunca deixou de sê-lo, apenas tornou-se durona de uma maneira diferente, melhor. Passou de uma durona que usa a carta certa para derrotar e absorver um Digimon para uma durona que salta de uma ravina para tentar proteger os amigos do D-Reaper. 

 

Por outro lado, cheguei a concordar, durante o meeting do Odaiba Memorial Day, que Sakuyamon foi algo nerfada (continuo a odiar esta palavra…), desempenhando um papel demasiado defensivo em comparação com o início de Tamers… mas, depois de rever alguns episódios, ou partes deles, enquanto trabalho nesta análise, não acho que tenha sido assim tão defensivo quanto isso. 


Admito, no entanto, que, pelas semelhanças nas histórias das duas, pela amizade entre elas, gostava de ter visto Ruki pelo menos tão empenhada como Takato no resgate de Juri. Mas claro, Takato é o gogglehead, é o interesse romântico, tinha de receber mais tempo de antena.

 

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Gostava de assinalar também que, no cúmulo do heroísmo de Takato, o Dukemon ganhou uma nova armadura, mas no cúmulo de Ruki Sakuyamon teve de perder a dela. Para aumentar a arma de Justimon, ainda por cima. Enfim…

 

E o que acontece no fim, depois de Ruki ter aberto o seu coração por completo, a Renamon, à família, aos amigos? Renamon tem de regressar ao Mundo Digital. 

 

Ruki é de longe a personagem mais dolorosa de se ver durante o traumático final de Tamers. Porque é a única vez que a vemos chorar (ao contrário do que acontece com os outros protagonistas, sobretudo Takato), porque sabemos quão difícil foi para ela deixar-se afeiçoar a Renamon e porque, pelo menos na dobragem portuguesa, a atriz que lhe dá voz faz um trabalho excelente. 

 

Quero acreditar que Ruki se tornou suficientemente forte para sobreviver a esse desfecho, que a mãe, a avó e os amigos consolá-la-ão. Mas não deixa de ser cruel.

 

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Em suma, se no início de Tamers Ruki já era digna de admiração – durona, competente enquanto Treinadora, segura de si – no fim ganha qualidades extra – coragem, compaixão, empatia – que ainda a tornam mais fantástica. Mesmo não tendo podido conservar Renamon, Ruki sai de Tamers uma pessoa melhor, mais forte. É por isso que reitero: quando for grande, quero ser como ela.

 

...apesar de já ser mais velha que a mãe dela, durante os eventos de Tamers.

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