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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Digimon Tamers #9 – A Hikari é uma menina ao lado disto...

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Conforme referi antes, em Tamers existem várias crianças com companheiros Digimon na história, vários Treinadores. Apenas três são considerados protagonistas – Takato, Jianliang e Ruki – são os protagonistas. No entanto, a partir da segunda metade de Tamers, em particular nas duas últimas partes do Enredo, pode-se considerar que Juri ganha o estatuto de protagonista  – pela maneira como a jovem se encontra, quase literalmente, no centro de tudo o que acontece. 

 

Segundo o site de Konaka, o papel que Juri desempenha na segunda parte de Tamers só foi decidido precisamente quando estavam a escrever o vigésimo-quarto episódio  – aquele em que o elenco se prepara para ir ao Mundo Digital. A história familiar da jovem, no entanto, ficou decidida desde o início.

 

Bem, mais ou menos. De acordo com o site, a ideia inicial era de que os pais de Juri trabalhassem em prostituição. A jovem seria obrigada a ficar em casa a tomar conta da irmã mais nova. (Um momento de silêncio pelas infâncias que posso ter acabado de destruir.)

 

Não que a versão final da sua história de origem seja muito melhor, verdade seja dita. Juri perdeu a mãe quando ainda era muito nova. Não é muito claro que idade tinha ela ao certo, mas era suficiente para se recordar, ou pelo menos para ter pesadelos sobre isso, mais tarde. 

 

O pai tentou criá-la o melhor que pôde, sozinho, sem grande sucesso. Infelizmente, era de esperar. Numa sociedade tão patriarcal como a japonesa, pouquíssimos homens estariam (estão?) preparados para tomar conta de crianças. Já ouvi falar de um caso parecido, nos anos 50 e 60: um senhor que enviuvou de repente, quando a filha tinha apenas um ano. A criança acabou por ser confiada a uma tia.

 

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O pai de Juri não chegou a esse ponto, mas é possível que tenha casado em segundas núpcias com uma mulher mais nova precisamente para servir de segunda mãe para a filha. Pelo meio, terá decidido que um estilo de educação autoritário era o mais adequado. Com tudo isto, Juri acabou por se afastar emocionalmente do pai. A jovem também revela, a certa altura, que nunca aceitou a madrasta, mesmo reconhecendo que ela era boa pessoa. 

 

Ou seja, Juri não possui nenhuma relação próxima com nenhuma figura parental. Mais: tirando possivelmente o seu irmãozinho, Juri não possui uma relação próxima com ninguém da sua família. É ainda obrigada a trabalhar no restaurante do pai (mais sobre isso adiante). 

 

Juri possui, assim, uma vida familiar difícil, tal como Ruki. Pior ainda. No entanto, reage da maneira completamente oposta. Juri é uma criança alegre, simpática, extrovertida, sempre com um cão de fantoche – sobretudo para divertir o irmãozinho, mas que raramente deixa a sua mão. Enquanto Ruki usava os seus problemas familiares como armadura, Juri enterra-os bem fundo. Ninguém adivinharia – e durante muito tempo ninguém adivinhou – que aquele exterior feliz e bem disposto mascarava uma profunda solidão e baixa auto-estima.

 

É outra maneira de ser impermeável, se formos a ver. Qual das duas atitudes será a melhor, a de Ruki ou a de Juri? Não sei dizer. Sentir-me-ia tentada a dizer que a atitude de Ruki é a melhor, pois não culminou com a jovem possuída pelo D-Reaper, mas seria simplificar demasiado a questão. Até porque, lá está, a Ruki saiu-lhe menos na rifa e Renamon não foi assassinada. 

 

Mas recuemos um pouco. Conforme referido antes, no início Juri é alegre e simpática. Dá-se bem com Takato, embora goze com ele pela sua paixão por Digimon. Conforme referido antes, o jovem tem um fraquinho por ela. Não é claro que Juri o saiba, preto no branco, mas há uma ocasião em que a menina tira partido disso: quando lhe faz aquilo a que gosto de chamar “olhinhos de Jane” para convencê-lo a apresentar-lhe Guilmon.

 

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Esta vai ser fresca quando crescer... 

 

Talvez seja de assinalar que, até ao momento, Takato assumira que Juri teria medo de Digimon (Culumon inclusive, o que é um disparate, quem tem medo de uma coisinha daquelas…?). Enganara-s redondamente, pois Juri adora Guilmon, desde o primeiro minuto em que o vê. Embora ao Takato, um miúdo fixe, com gostos indubitavelmente masculinos, não ache muita piada ao facto de o companheiro Digimon que ele mesmo desenhou estar a ser descrito como “kawaii”...

 

Depois de algumas ocasiões em que brinca com Guilmon – juntamente com Takato, Hirokazu, Kenta e outros colegas da turma deles – Juri decide, quase do dia para a noite, comprar um baralho inteiro de cartas de Digimon e aprender a jogar. Isto apesar de, no início de Tamers, ter troçado das mesmas pessoas a quem, agora, pedia que lhe ensinassem acerca daquele mundo.

 

No mesmo episódio, Juri começa a procurar obsessivamente um companheiro Digimon. Tenta a sua sorte com Culumon, primeiro, mas o seu verdadeiro alvo é um Leomon acabado de se realizar.

 

Será isto uma cena do Leomon, ter criaturinhas fofas… bem… seduzindo-o para uma inevitável morte? Em Tamers foi Juri, em Tri foi Meicoomon… Bem, todas as aparições de Leomon acabam com ele morto, de qualquer forma, segundo consta.

 

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À primeira vista, tem piada ver um Digimon grande, imponente como o Leomon perseguido por uma menina. A alcunha que Juri lhe dá na dobragem portuguesa, “meu príncipe Leomon” torna tudo ainda mais hilariante. À segunda vista… bem, continua a ter piada, mas também é um bocadinho triste. 

 

No entanto, é triste de todas as vezes quando, no fim do episódio, Leomon não se torna seu parceiro. Juri fica destroçada, além de qualquer consolo, mais do que seria de esperar.

 

Se isto não é um indício trágico, não sei o que mais será.

 

Felizmente (ou infelizmente, dependendo da perspetiva), um par de episódios mais tarde, Juri adota finalmente Leomon como companheiro Digimon oficial – no mesmo episódio em que Makuramon deita as mãos a Culumon, levando-o para o Mundo Digimon. 

 

Quando o elenco de Treinadores decide ir ao Mundo Digital, no episódio seguinte, temos o primeiro vislumbre da vida familiar de Juri. Vemos o pai trabalhando no restaurante com a esposa – uma mulher que, por sua vez, não é a que aparece na fotografia emoldurada no quarto de Juri, com esta em bebé. 

 

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A jovem não avisa ninguém na sua família que vai para o Mundo Digital – outro indício trágico. Nem todos no grupo dizem toda a verdade aos pais, mas sempre deixam uma carta ou um e-mail ou uma história qualquer – nenhuma opção é a ideal ou mesmo correta, mas sempre é melhor que não dizer absolutamente nada.

 

Queria agora falar sobre um episódio da terceira parte do Enredo que, confesso, adoro odiar: sobre uma colónia de Geckomon que é escravizada por um Orochimon alcoólico, obrigamos a fazer-lhe saqué (uma espécie de vinho de arroz, sendo a bebida nacional do Japão). Numa das ocasiões em que o grupo de Treinadores se separa, todos menos Takato, Jian e Terriermon vão parar ao mini-universo onde vive essa colónia. 

 

A certa altura, o Orochimon deita as mãos (figurativamente) a Juri. Leomon tenta salvá-la, como seria de esperar, mas não é bem sucedido. Enquanto o Orochimon a leva, Juri grita a seguinte pérola:

 

– Leomon, eu vou ficar bem! Não te esqueças que o meu pai tem um restaurante! Estou habituada a lidar com bêbados!

 

Juri. Com dez anos. Sabe lidar com bêbados. É para rir ou para chamar a CPJ?

 

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Um rápido àparte: depois de ver este episódio pela primeira vez, tive de descobrir como é que a dobragem americana, infame pelo seu puritanismo (como substituirem o vinho do Wizarmon por molho picante ou, pior, Vandemon “banindo” o Gottsumon e o Pumpmon para a sua “cave”, em vez de assassiná-los) descalçaria esta bota. Pois bem, substituíram o saqué por batido de leite. Eu fiquei uns bons dez minutos a rir-me com esta…

 

Em retrospetiva, não sei se inclua isto na lista de indícios trágicos sobre a família de Juri. Sinto-me tentada a incluir. Não estou a ver nenhum digiguionista a colocar esta fala na boca de uma menina de dez anos como se nada fosse.

 

Em todo o caso, por retorcido que seja, a experiência de Juri com alcoólicos sempre lhe dá coragem e capacidade para lidar com o Orochimon (a história deste episódio, aliás, parece ter sido inspirada pela Lenda do Orochi). Se acreditarmos que o CD drama Digimon Tamers 2018 faz parte do cânone (mais sobre isso um dia destes), em adulta Juri torna-se professora. E de facto, depois de ter lidado com bêbados em criança, lidar com alunos e respetivos pais será um piquenique. 

 

Regressemos ao Orochimon. A ideia de Juri era embebedá-lo, mas, longe de entorpecê-lo, o saqué dá mais força ao Digimon. Felizmente, na altura em que a jovem se apercebera do seu erro, já Leomon e os outros tinham conseguido chegar junto dela. Juri saca de uma carta da LadyDevimon, de todos os Digimon, ajudando Leomon a salvar o dia.

 

É de facto uma pena que a sua história com o Leomon tenha sido tão curta. Juri parecia ter potencial enquanto Treinadora e acabámos por ver muito pouco disso. 

 

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Temos então de falar sobre o ponto de viragem da história dela, infelizmente. O grupo acabara de se reunir de novo e Beelzebumon viera para cumprir a sua parte do acordo com o Chatsuramon. No início do combate, Leomon agarra Beelzebumon, impedindo-o de desferir um golpe, potencialmente fatal, em Kyubimon. Leomon consegue ler a situação e tenta avisar Beelzebumon que este está a ser manipulado. 

 

A resposta de Beelzebumon a este aviso é, quase literalmente, arrancar o coração a Leomon.

 

É importante chamar a atenção para as últimas palavras de Leomon em vida – “Parece que é este o meu destino” – pois estas serão uma faceta importante do trauma de Juri. Por outro lado, o aparecimento de Megidramon também terá agravado a situação para a menina. Ver o Guilmon, o primeiro Digimon que Juri conhecera e a quem se afeiçoara transformado naquela monstruosidade. Ver Takato, o seu amigo, potencial interesse amoroso, um rapaz até agora simpático e gentil, exprimindo tamanha raiva e instintos assassinos. 

 

Como vimos antes, o combate contra Beelzebumon estende-se por três episódios. Neste intervalo de tempo, o Megidramon “desdigievolui” e digievolui para Dukemon. No momento em que este último se prepara para acabar com Beelzebumon, Juri impede-o. Sabe que isso não trará Leomon de volta, não deseja mais lutas ou morte. Não por sua causa. E apesar de ela não o dizer preto no branco, eu apostaria que a menina não quer que Takato e Guilmon se tornem assassinos por sua causa.

 

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O anime de Digimon sempre deixou bem claro que perder um companheiro digital é traumático, independentemente das circunstâncias. Mesmo em universos onde estes regressam à vida. No caso de Ken, em 02, por exemplo, em que o próprio teve culpas na perda de Wormon, a morte deste desencadeia todo um processo de redenção pelo sofrimento que causou. O renascimento de Wormon representa a sua segunda oportunidade. 

 

Por sua vez, pode-se argumentar que o destino não foi assim tão duro com Takeru, pois este recebeu o Digiovo do Patamon menos de um minuto após o sacrifício de Angemon. Este, mesmo assim, guardou o trauma durante anos – em 02, em Tri. Estou convencida de que a experiência da perda influenciou as suas decisões em Kokuhaku, que contribuíram, pelo menos em parte, para o Reinício de todos os companheiros Digimon do elenco. 

 

No que toca a estes últimos, vemos as consequências desta perda a curto prazo nos restantes filmes de Tri. Na minha opinião, tal trauma pode tê-los impedido de eutanasiarem Meicoomon mais cedo, evitando inúmeros danos colaterais, sobretudo a morte de Daigo. Pergunto-me se o trauma do Reinício será referido em Last Evolution Kizuna, o próximo filme de Adventure. 

 

Por fim, Maki foi a única Escolhida no universo de Adventure (exceto Meiko) que não recuperou o seu Digimon depois de o perder. Mais: foi a própria Homeostase quem o reclamou sem cerimónia ou piedade. Anos mais tarde, nem a entidade divina nem os seus representantes valorizam ou sequer reconhecem o contributo e o sacrifício de Maki, Daigo e restante grupo das Primeiras Crianças Escolhidas. Pode-se argumentar que Maki teve pior sorte que Juri, pois teve ainda menos controlo sobre o seu destino. 

 

A resposta da Escolhida ao seu trauma foi unir-se voluntariamente ao inimigo, manipulando Escolhidos mais novos e um (ex?) parceiro romântico no processo. E vimos como é que isso acabou.

 

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Tendo tudo isto nem conta, a direção que a história de Juri toma não surpreende. Durante uns quantos episódios, vêmo-la fechada sobre si mesma, fitando a estática no ecrã do seu D-arco, balbuciando frases soltas sobre o destino. A certa altura, quando Takato tenta consolá-la, Juri diz não ser boa pessoa – porque, segundo ela, recuperou demasiado depressa da morte da mãe e, quando o pai casou de novo, nunca aceitou a madrasta, como vimos antes. 

 

Novo indício trágico.

 

Por outro lado, depois de Ruki regressar da ravina onde resgatara Culumon e desbloqueara Sakuyamon, Juri corre a abraçá-la, aliviada por a amiga ter sobrevivido. Um claro exemplo de um gato escaldado com medo de água fria.

 

A certa altura o fantoche da menina começa a falar sozinho – qualquer coisa sobre não gostar de tristeza. Depois desta, Juri afasta-se para, segundo os amigos, ir ao WC. Quando regressa, vem… diferente.

 

Qualquer membro da audiência com mais de dez anos, talvez menos, ou que pelo menos se recorde das Sementes da Escuridão de 02, desconfia logo que aquela não é bem a Juri. Eu não cheguei logo a “substituída por um dos agentes do D-Reaper”, pensei primeiro que ela estaria possuída por qualquer coisa. 

 

Os miúdos atribuem o seu estado catatónico a uma nova fase da sua depressão. Mas, confesso, custa-me a acreditar que ninguém tenha reparado nos olhos dela.

 

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Em todo o caso, “Juri” regressa ao Mundo Real juntamente com os outros Treinadores. O regresso dos miúdos é um evento bastante mediático, com os vários familiares acorrendo ao local (uma variação interessante em relação ao universo de Adventure), mas Juri não tem ninguém à espera dela. Quando conseguem entrar em contacto com o seu pai, este responde que, se a filha foi capaz de ir ao Mundo Digital sem avisar ninguém, será igualmente capaz de vir sozinha até à casa dos familiares onde se tinham abrigado. E é se quiser.

 

Novo indício trágico, um particularmente duro. É certo que Tadashi não sabia tudo por que a filha passara no Mundo Digital. Mesmo assim, que pai se recusa a vir buscar a filha após esta ter estado desaparecida, por muito zangado que esteja?

 

Eu confesso que, da primeira vez que vi Tamers, não simpatizei nada com o pai de Juri. Sobretudo no momento em que, quando reencontra a “filha”, a puxa com brusquidão para o táxi. Mesmo agora sabendo toda a verdade, continuo a achar que Tadashi vai longe demais. Uma coisa é ser-se severo. Outra coisa é ser-se cruel. Por muito zangado que Tadashi esteja, não sem razão, ele é o adulto. Aquilo não é aceitável.

 

Mas estou a adiantar-me. Recuemos um pouco. Quando se descobre, então, que Juri não tem ninguém que a leve a casa, Takato oferece-se para acompanhá-la de comboio. 

 

Confesso que me faz alguma confusão duas crianças de dez anos andando sozinhas de comboio, de noite. Suponho que, se foram capazes de sobreviver ao Mundo Digital com apenas um par de traumas psicológicos, hão de conseguir sobreviver aos transportes públicos. Ao menos têm uma criatura que cospe bolas de fogo a protegê-los.

 

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O mutismo de “Juri” continua durante a viagem de comboio. Takato aproveita a ocasião para abrir o seu coração perante a “amiga”: faz um misto de declaração de amor e de culpa por aquilo que aconteceu ao Leomon, por não ser capaz de consolá-la, por agora ela estar naquele estado catatónico. Tudo isto regado com lágrimas porque Takato.

 

Não sei se é suposto sentirmos pena do miúdo neste momento, mas eu não consigo evitar irritar-me um bocadinho. Esqueçamos que aquela não é a verdadeira Juri. A menina perdera o Leomon no Mundo Digital. Ao regressar ao Mundo Real, o pai nem se dignara a vir buscá-la – tinha de estar a regressar com Takato, de comboio, à noite. A última coisa de que Juri precisava neste momento era de fazer o amigo sentir-se melhor consigo mesmo. A paixoneta e sentimentos de culpa não são para aqui chamados.

 

Faz lembrar aquele episódio de How I Met Your Mother, em que Robin descobre que não pode ter filhos. Quando imagina a reação da melhor amiga, Lily, à notícia, imagina-a virando os holofotes para si, choramingando que é uma péssima, obrigando a própria Robin a consolá-la. A previsão revela-se certeira pois, quando Robin lhe conta uma história para encobrir o verdadeiro motivo da sua tristeza, Lily tem a mesma reação. 

 

Por outro lado, é óbvio que Takato não tem más intenções. Pelo contrário, está a tentar ajudar. Além disso, ele tem dez anos, é demasiado para compreender estas subtilezas. Há adultos que não as compreendem. 

 

De qualquer forma, nem Takato nem ninguém merece receber a resposta que “Juri” lhe dá: ler em voz alta a composição nutricional do snack que Takato lhe comprou. Até a mim me doeu…

 

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Juri reúne-se, então, com a família. Culumon fica com ela. Logo no episódio seguinte, vêmo-lo brincando com o irmãozinho de Juri. A certa altura, o menino cai, começando a choramingar. A mãe dele (madrasta de Juri) consola-o da forma habitual, dizendo algo como:

 

– Já passou. Já passou.

 

Nisto aparece “Juri”. Esta empurra o menino contra o chão, ambas as mãos nos ombros dele, repetindo monocordicamente as palavras da madrasta: “Já passou. Já passou.”

 

Acho que teria sido um pouco menos assustador se ela tivesse pura e simplesmente tentado esganá-lo.

 

Mais tarde, a madrasta dá pela falta da enteada. Quando pergunta ao filho, este responde que a irmã desaparecera “pela parede” – só mesmo uma criança muito nova para ver algo assim e não estranhar.

 

Se até este momento existia alguém na audiência que ainda pensasse que aquela era a verdadeira Juri, depois desta não há margem para dúvidas. Sobretudo quando Takato a vislumbra em Shinjuku, no intervalo das lutas do D-Reaper – a uma distância considerável da casa onde devia estar abrigada com a família.

 

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É nesta altura que se descobre que Juri está desaparecida. Takato torna a vê-la em Shinjuku – desta feita, com palavras niilistas nos lábios. De notar que o jovem é o único a vê-la. Nem Jian nem Ruki parecem dar por ela. Mais tarde, aliás, quando os três protagonistas estão a lutar contra o D-Reaper, já conjugados com os seus Digimon, nas suas formas Extremas, o D-Reaper escolhe agarrar Dukemon e trazê-lo para o seu núcleo.

 

Aqui Takato e Guilmon separam-se – as formas Extremas não se aguentam no núclo do D-Reaper – e tornam a encontrar “Juri”. Esta finalmente revela a sua verdadeira identidade: nada menos de um dos agentes do D-Reaper, conhecida por J-Reaper ou Juri-Type, que substituíra a verdadeira Juri após esta ser raptada pelo D-Reaper ainda no Mundo Digital. 

 

A J-Reaper viera infliltrada entre os Treinadores para o Mundo Real para analisar a humanidade. Estudara a mente de Juri, bem como as pessoas com quem contactara – só refere a depressão da menina, mas eu pergunto-me se a declaração lacrimosa de Takato, os modos bruscos de Tadashi, as lamúrias do irmão mais novo também foram objetos de análise. Chegara à conclusão de que os seres humanos são demasiado irracionais e instáveis para existirem, devendo, por isso, ser eliminados. 

 

A verdadeira Juri estava presa no núcleo do D-Reaper, mantida num transe de pesadelos. A J-Reaper tentara, inclusivamente, fazer o mesmo a Takato, esfregando-lhe no nariz recordações roubadas a Juri – é a intervenção de MarineAngemon e Kenta que o salva.

 

Um dos pesadelos de Juri centra-se na morte da mãe e na justificação que tanto o pai como os médicos lhe tinham dado: 

 

– É o destino.

 

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É provável que tanto Tadashi como os médicos tivessem usado esta expressão no sentido de “Não havia nada que ninguém pudesse fazer”. Juri, no entanto, internalizou a mensagem como o Universo conspirando ativamente para que a menina perca aqueles que ama. Primeiro a mãe, em tenra idade, depois o Leomon. Talvez tivesse determinado que o pai se afastaria emocionalmente dela. Daí o D-Reaper repetir monocordicamente a palavra “destino” na voz de Juri.

 

São cenas horríveis, os pesadelos de Juri. Realmente, todo este terror, todas estas monstruosidades catalisadas pelos traumas de uma menina de dez anos fazem os estranhos poderes de Hikari, no universo de Adventure, a sua estranha relação com as Trevas, parecerem uma ninharia. Até a Ordinemon, que Hikari soltara no mundo quando pensara que tinha perdido o seu adorado onii-chan parece um mero Digimon vilão-da-semana comparado com o D-Reaper e os seus agentes, a Juri-Type em particular. 

 

Quase fico aliviada por não ter visto Tamers em miúda. Acho que teria pesadelos durante semanas – e já tinha doze ou treze anos quando Tamers foi exibido pela primeira vez em Portugal! 

 

Felizmente, por esta altura, Culumon e Beelzebumon conseguem infiltrar-se no D-Reaper. Culumon consegue entrar na esfera onde Juri se encontra, mas Beelzebumon é agarrado pelos tentáculos do D-Reaper e é mantido preso e inconsciente durante alguns episódios.

 

Quando se descobre que Juri está aprsionada no núcleo do D-Reaper, os seus pais são naturalmente convidados a juntar-se aos adultos de apoio aos Treinadores: os membros do Hypnos, o Grupo Selvagem, os pais dos miúdos. 

 

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Vemos a madrasta de Juri a chorar no ombro de Rumiko (com a filha desta última a ver, conforme comentámos no texto anterior), pedindo perdão à falecida mãe da enteada. Tadashi, por sua vez, de início mantém a sua postura fria (da primeira vez que vi Tamers, nesta altura estava a chamar-lhe nomes). No entanto, depressa vemos as coisas sob a perspetiva dele – aquilo que comentámos antes, sobre as suas dificuldades em ser pai solteiro.

 

É neste momento que lhe saem as garras de papá sobreprotetor. Pega no camião do pai de Takato (o futuro compadre?) e vai até junto do D-Reaper. De início tenta negociar: desfaz-se em lágrimas, pede para tomar o lugar da filha. Quando isso não resulta, pega de novo no camião e tenta atropelar o D-Reaper. 

 

Nada disto resulta mas, pelo meio, o D-Reaper analisa-o. A criatura fica baralhada quando analisa as memórias de Juri sobre o pai – porque, neste universo, os Digimon não têm progenitores e talvez porque a relação de Tadashi com a filha não encaixa com a visão niilista que recolhera até agora. Além que de Juri reage à presença do pai – embora não chegue para sair do seu transe.

 

Depois desta, há uma cena breve, o episódio seguinte, em que vemos Tadashi debatendo-se contra uma janela do Hypnos, numa das ocasiões em que o D-Reaper fala com a voz de Juri. Tirando isso, Tadashi não torna a aparecer em Tamers – o que é uma pena.

 

É nesse mesmo episódio, de resto, que Juri finalmente sei do seu transe. O responsável é Beelzebumon, de todas as criaturas possíveis, humanas ou digitais. Depois de algum tempo inconsciente, prisioneiro do D-Reaper, conseguira soltar-se e emparceirar com Dukemon no resgate de Juri. É quando Beelzebumon está a tentar abrir a esfera onde a menina está presa ao murro que esta finalmente desperta. Este, por sua vez, só consegue abrir a esfera quando recorre ao Punho Real, um ataque do Leomon.

 

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Este é um dos poucos casos em que, conforme observámos antes, um Digimon usa poderes de um adversário que absorveu. Embora também seja legítimo uma pessoa interrogar-se se aquilo não será uma manifestação do próprio Leomon, ajudando a salvar a sua Treinadora.

 

Através do buraco que abriu, Beelzebumon enfiar-se parcialmente dentro da esfera e estende uma mão a Juri. Esta, no entanto, ao ver Beelzebumon usar o Punho Real do Leomon, bloqueara. O buraco na esfera fecha-se de novo antes que a menina conseguisse descongelar.

 

Naquele momento, uma boa parte da audiência fica com vontade de dar um par de estalos à miúda, por ter deixado fechar aquela quase literal janela de oportunidade. Ainda há semanas, no encontro do Odaiba Memorial Day, estivemos a falar sobre este momento. Mesmo eu, da primeira vez que vi este episódio, fiquei confusa com o final deste – como se estivesse a colocar a última peça de um longo puzzle e esta, por algum motivo, não encaixasse. Porquê, Juri, porquê?

 

No entanto, se formos a ver, Juri estivera afogada em pesadelos durante dias. Acabara de acordar deles e a primeira coisa que via fora o Digimon que começara tudo aquilo, que lhe arruinara a vida e que, ainda por cima, usava o ataque de marca do Leomon – mesmo a servir de lembrete. Eh pá, eu se calhar também bloquearia! É um daqueles casos – como Takato com o Megidramon – em que o cérebro parece falhar durante segundos, em que uma pessoa se arrepende quase de imediato, mas as consequências são graves.

 

Também é possível que Juri não tenha ido com Beelzebumon porque não estava preparada para ser salva – não achava que o merecia. Os seus sentimentos de culpa e baixa auto-estima agravam-se quando pensa que Beelzebumon vai morrer – o que, felizmente, não acontece. Juri tenta, então, escapar sozinha, mas o D-Reaper torna a imobilizá-la – desta feita fisicamente. A menina fica assim durante uma semana, pois nesta altura o D-Reaper cresce ainda mais, obrigando os Treinadores a bater em retirada.

 

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No fim dessa semana, quando Culumon diz a Juri que ele só deseja vê-la feliz, a jovem diz que não o merece. Somos, então, brindados com uma tentativa de suicídio num desenho animado que passou no Canal Panda. Uma menina tentando asfixiar-se com um cão de fantoche. Eu… eu nem tenho palavras. 

 

A verdade é que Juri pensa que, se morrer, o D-Reaper será travado (algo questionável nesta fase do campeonato) e os amigos deixarão de correr perigo. Eu suspeito que seja essa a lógica por detrás de muitas mortes por suicídio: acharem que os seus entes queridos estarão melhor sem eles. 

 

Bem, Juri está enganada e não é a única. Morrer por suicídio nunca, NUNCA, é solução, bem pelo contrário! Se alguém com ideias de se magoar a si mesmo estiver a ler este texto, por favor, não o faça, peça ajuda! Vou deixar links para linhas de apoio em Portugal e no Brasil (se alguém conhecer mais linhas, deixe nos comentários). Não estão sozinhos, o mundo precisa de vocês, por favor, peçam ajuda! 

 

Regressando a Tamers, no caso de Juri, é Culumon quem entra em pânico e dissuade a jovem de ceder à sua depressão. Em lágrimas, o pequenote recorda-lhe que há imensas pessoas que gostam dela e querem-a viva e feliz. O próprio Culumon, Takato, Guilmon, Ruki, os seus pais, o seu irmãozinho, até mesmo Beelzebumon.

 

Isto na verdade não são palavras muito diferentes daquelas que outras personagens tinham dirigido a Juri ao longo de Tamers, Takato sobretudo. Mas até ao momento a mensagem tinha chocado com o muro da baixa auto-estima da jovem. Fora preciso alguém tirar-lhe quase literalmente a arma da mão, alguém sujeitar-se às torturas do D-Reaper só para estar ao lado dela, para Juri acreditar nessas palavras. Para acreditar que merece ser salva. Para acreditar que a própria Humanidade e o Mundo em geral merecem ser salvos, que o destino de ninguém está gravado em pedra, que cada um escolhe quem quer ser. 

 

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Sim, ela pede ajuda a Takato à distância, como numa típica história de donzela indefesa. Quando sai finalmente do D-Reaper, vai literalmente nos braços do seu interesse amoroso. Mas se isto fosse uma típica história de donzela indefesa, Juri teria sido resgatada antes, por Beelzebumon. Juri precisava de acreditar que merece viver, que merece ser salva, antes de aceitar a ajuda dos demais. 

 

Há ainda tempo antes do final de Tamers para Juri conhecer Ai e Mako, os Treinadores de Impmon, e finalmente perdoar este último. Mesmo no rescaldo imediato da morte do Leomon, a menina mostrara misericórdia – era uma questão de tempo até ao perdão. Juri sabe como é ter traumas e deixá-los manifestarem-se de maneiras destrutivas – ainda que tal tenha resultado da manipulação do D-Reaper. 

 

Por fim, a menina aprendera que tanto as pessoas como os Digimon têm a capacidade para mudar. Impmon já o fizera, logo, merecia ser perdoado. 

 

Depois disto tudo, apesar de perder Culumon (que se tornara quase um segundo companheiro Digimon) por causa das consequências da Operação Joaninha, à primeira vista Juri tem um final feliz. No breve epílogo de Tamers, vêmo-la com Takato e os outros colegas de turma, aparentemente satisfeita… mas, lá está, ela também parecera satisfeita antes de as coisas terem dado para o torto.

 

Eu acho que Juri ainda precisará de algum tempo. A sua bagagem toda – a morte da mãe, a relação difícil com o pai e a madrasta, a perda do Leomon, a tortura do D-Reaper – não se resolve de um dia para o outro, com um mero resgate do seu Príncipe Encantado. Juri não partirá do zero: agora sabem que tem pessoas que gostam dela, que lutaram por ela. Tadashi certamente fará um esforço por ser melhor para a filha. Irá demorar – espero que lhe arranjem acompanhamento psicológico – mas quero acreditar que ela ficará bem, mais cedo ou mais tarde, que se tornará mais forte.

 

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E com isto terminámos a análise aos protagonistas. Como não terei muito a dizer sobre os restantes Treinadores, no próximo texto falarei de todos os que faltam, bem como de Culumon. Fiquem por aí!

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