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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Linkin Park – Hybrid Theory (2000) #3

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Terceira e última parte da minha análise a Hybrid Theory. Podem ler as primeiras duas partes aqui e aqui

 

Papercut foi a última faixa de Hybrid Theory a cativar-me. Acho que só passei a considerá-la uma favorita em 2017, quando comprei o CD.

 

Vários membros da banda referem-na como a sua preferida. Mike considera-a o cartão de apresentação da banda, não só por ser a primeira faixa do primeiro álbum, mas também por achar, à semelhança de Brad, que é a faixa que melhor integra todas, ou quase todas, as influências dos Linkin Park. Chester dizia que Papercut encapsulava a identidade da banda. Há um par de anos, Zane Lowe – provavelmente o melhor entrevistador de artistas e bandas dos últimos anos – parafraseou estas opiniões de forma hilariante, entrando mesmo em modo de fanboy. 

 

 

Chester também dizia que, pura e simplesmente, gostava do refrão, da letra, do facto de só haver melodia praticamente no fim. Falemos sobre isso então. 

 

Papercut é algo diferente do resto do álbum. A maior parte das faixas de Hybrid Theory são maioritariamente rock ou metal, mas Papercut tem influências hip-hop mais notórias. Veja-se (ou melhor, ouça-se) a introdução, com as batidas, o riff de guitarra e Hahn arranhando discos, antes dos acordes pesados, habituais em Hybrid Theory. À semelhança) de By Myself e Forgotten, as estâncias e grande parte do refrão são em rap – só o último verso é que é melódico. 

 

A parte a seguir ao segundo refrão até ao fim da música é a minha preferida. À semelhança do que acontece no final de A Place For My Head, temos um momento fixe com a bateria e os acordes de guitarra, entre os versos sussurrados "The face inside is right beneath the skin". E depois os versos melódicos, repetidos até ao final da faixa. 

 

A letra é, como referi antes, uma antecessora de Heavy. Temos referências semelhantes a uma escuridão interior, a um lado negro, auto-crítico, paranóico, depressivo, que nem sempre se consegue controlar. Crawling fala mais ou menos do mesmo, agora que penso nisso. 

 

É de facto um clássico da banda. Concordo com todas as declarações que parafraseei antes. Linkin Park é essencialmente isto, pelo menos nos primeiros álbuns. 

 

 

Da edição padrão, falta falar sobre a faixa instrumental, Cure For the Itch. O título da música em português significa “cura para a comichão”. A cura para uma comichão é coçar, arranhar. E é isso que Hahn faz nesta música: arranhar discos.

 

Eu na verdade acho que uma cura mais eficaz para a comichão seria um anti-histamínico, mas pronto. Esta faixa serve para Joe Hahn exibir os seus talentos de DJ – como de resto fica claro na introdução da faixa.  

 

Curiosamente, os Bring Me the Horizon incluíram uma música chamada Itch for the Cure no álbum que lançaram agora – e confirmaram que era uma referência à faixa de Hybrid Theory. Pela letra, parece ter sido inspirada pela pandemia: estamos todos ansiosos por uma cura. 

 

Regressando a Cure for the Itch, o primeiro minuto é quase todo dedicado aos discos giratórios. A voz alterada de Mike dizendo “Wasn’t that fun? Let’s try something else” marca uma mudança na música – torna-se mais atmosférica, com os discos riscados tomando um papel mais secundário.  Penso que é desta parte que Mike estava a falar, quando disse que Cure for the Itch foi a sua primeira tentativa de compor música sem palavras, estilo banda sonora de um filme.

 

Gosto muito dessa parte, pelo ambiente que cria com os "violinos" e as notas ocasionais de piano. Tenho vindo a gostar ainda mais nos últimos tempos, desde que comecei a ouvir High Voltage com regularidade. 

 

E assim passamos da edição-padrão de Hybrid Theory às B-sides. Só comecei a ouvir High Voltage este verão, já em preparação para esta análise. Estou a tomar-lhe o gosto. 

 

 

High Voltage foi lançada como B-side com o single de One Step Closer – era algo que acontecia muito nos anos 2000. Esta é uma faixa com um carácter mais hip-hop que toda a edição-padrão de Hybrid Theory. Deve ter sido por isso que ficou de fora do alinhamento final – isto embora Mike a tenha rearranjado em relação à versão do EP Hybrid Theory (também gosto dessa), dando-lhe um instrumental baseado em Cure For the Itch, para ser incluída no álbum. 

 

Não posso dizer em rigor que o hip-hop alguma vez tenha sido um dos meus géneros musicais preferidos. Tive uma fase em 2004-2005 em que descobri a MTV e outros canais de música, bem como a Cidade FM (*cringe*) – nessa altura o mainstream era muito mais diverso, incluindo hip-hop. Também cheguei a ter aulas de hip-hop (era péssima). De uma maneira estranha, High Voltage leva-me de volta a esses tempos, tem um carácter estranhamente nostálgico. O mesmo se passa com outras B-sides de Hybrid Theory, como veremos já a seguir. 

 

A letra é uma mensagem contra os críticos do nu metal, da fusão de rock com rap. Este tema surgirá de novo na B-side Step Up. O verso “Comin’ at you from every side” será reutilizado em Meteora, na faixa Nobody’s Listening. Por outro lado, a frase “Under the gun, like a new disease” tornou-se irónica em 2020.

 

É uma pena High Voltage ter sido excluída do alinhamento final de Hybrid Theory. Mudando um pouco o seu início, Cure For the Itch funcionaria perfeitamente como uma introdução longa a essa música – como Tinfoil para Powerless, em Living Things. Para mim seria um encerramento melhor que Pushing Me Away. Mas falaremos melhor sobre isso mais adiante.

 

Ao contrário de High Voltage, já conheço My December há uns anos, não muitos, se bem que não a ouvisse muitas vezes. Sempre pensei que esta música tinha sido composta para o Hybrid Theory e deixada de fora por ser demasiado calminha, por não se encaixar no estilo do álbum. No entanto, ao pesquisar para esta análise, descobri que foi composta e gravada depois da edição de Hybrid Theory, para um álbum de Natal: The Real Slim Santa. Mike compôs a canção quase toda no autocarro de digressão. Como a faixa foi lançada como B-side na edição britânica do single One Step Closer bem como na edição japonesa de Hybrid Theory, toda a gente considera-a parte do cânone deste álbum.

 

 

My December é, assim, conduzida pelo piano, acompanhado apenas por percussão leve, discos riscados, violinos e pouco mais. Está numa situação semelhante a She Couldn’t no sentido em que encaixar-se-ia em Hybrid Theory e, ao mesmo tempo, não se encaixaria. Tem um tom sombrio e melancólico que, de facto, me faz lembrar as noites longas do inverno. 

 

O narrador da música lamenta o facto de não ter sítio para onde ir, ninguém com quem passar as festas. Mike revelou que a letra foi inspirada pelo facto de ele e os colegas da banda estarem em digressão, longe das respetivas famílias. My December vai ainda mais longe, dando a entender que a separação se deve a um desentendimento do narrador com os seus entes queridos.

 

É de facto uma canção triste de Natal. Eu mesma tenho opiniões ambíguas em relação à época natalícia, como já referi antes, mas sempre achei que poucas coisas são mais tristes que passar o Natal sozinho. Este ano, aliás, não tenho querido pensar muito nessa época – se eles restringirem a circulação por causa da pandemia, devemos ter muitas pessoas a passar o Natal sozinhas.

 

Chegámos, então, à parte das B-sides que foram lançadas oficialmente nesta edição de aniversário. Nem todas são inéditas, penso que a maior parte já tinha sido no Linkin Park Underground, bem como várias demos de faixas da edição-padrão (ou então foram pirateadas). No entanto, para mim foi a primeira vez que ouvi a larga maioria delas Ainda estou em modo de exploração, ainda preciso de ouvi-las mais vezes. Mas posso falar já das minhas preferidas até ao momento.

 

Lembro-me de ouvir Step Up antes, no tal leitor de MP3 cheio de música dos Linkin Park que o meu irmão trouxe da casa dos meus padrinhos – ou se calhar era  o mash-up com Nobody’s Listening e It’s Going Down que eles tocavam ao vivo. Lembrava-me especificamente do verso “Rock and hip-hop have collaborated for years”. 

 

 

Esta é parecida com High Voltage no sentido em que se inclina um pouco mais para o hip-hop e a letra aborda o conceito de combinar rock com rap. Gosto muito das guitarras elétricas no refrão, por detrás do rap enfático.

 

So Far Away é um caso interessante de Mike cantando antes de Minutes to Midnight. Soa-me a uma antecessora de Rebellion. Também gosto da introdução, com o riff e os acordes de guitarra.

 

Não posso deixar de falar de Pictureboard, no entanto. Pictureboard nunca tinha visto a luz do dia, tirando numa única ocasião em que a banda a tocou ao vivo. Foi composta ainda nos tempos dos Xero e, como referimos antes, fazia parte da cassete de audição de Chester. A banda nunca pôde lançá-la no LP Underground porque, supostamente, inclui um sample sobre o qual não tinham direitos de autor. Pictureboard ganhou estatuto de lenda entre os fãs mais hardcore desde que Mike a referiu de passagem em 2005.

 

Às vezes quando existe um hype exagerado à volta de algo, a realidade acaba por não corresponder à expectativa (veja-se o que aconteceu com o final da Guerra dos Tronos). No entanto, a meu ver, Pictureboard tem qualidade suficiente para merecer o seu estatuto mítico.

 

Musicalmente Pictureboard surpreendeu-me: soa-me a rock mais mainstream, quase pop rock. Isto sem deixar de incluir elementos característicos dos Linkin Park, como o rap e os discos riscados. No que toca à interpretação de Chester, concordo com Brad, ele parece uma pessoa nas estâncias e outra bastante diferente no refrão. Não digo que seja o melhor desempenho vocal dele, mas para alguém que nunca o tivesse ouvido cantar antes é uma boa amostra das suas capacidades. 

 

 

A letra não é nada de extraordinário. É muito curta, torna-se um pouco repetitiva. No entanto, gosto da mensagem de esperança, inesperada para o cânone de Hybrid Theory. É mais uma prova de que os temas mais suaves dos Linkin Park sempre fizeram parte do ADN da banda, apenas foram expressos mais tarde.

 

O que me leva a uma dúvida existencial, provocada por todas estas B-sides. Praticamente o único defeito que tenho a apontar a Hybrid Theory é o facto de ser demasiado homogéneo. Cada faixa tem o seu próprio carácter, não me interpretem mal, mas estas acabam por ser parecidas entre si.

 

E se existe algo que aprendi com esta edição de aniversário foi que não havia necessidade disso. Hybrid Theory podia ter sido um álbum mais diverso. Podia ter tido um lado mais suave, com músicas como She Couldn’t, My December, mesmo Pictureboard até certo ponto. Podia ter tido um lado mais inclinado para o hip-hop, com músicas como High Voltage, Step Up ou It’s Going Down. Os membros dos Linkin Park podia ter-se poupado a muitas queixas de fãs quando, em álbuns posteriores, decidiram explorar facetas diferentes.

 

Não sei de quem partiu a ideia de manter Hybrid Theory quase homogeneamente agressiva, mais inclinada para o rock e para o metal. Talvez Don Gilmore, com o seu foco em “entretenimento” em vez de “problemas”, como vimos acima. Talvez a editora. Talvez tenha sido mesmo uma decisão da banda. Mas a verdade é que limitou um pouco as opções dos Linkin Park no início da sua carreira. 

 

Dito isto… quem sou eu para questionar as decisões feitas em relação a este álbum? Hybrid Theory é um dos discos mais vendidos de todos os tempos, vendeu trinta milhões de cópias (quase o dobro das vendas do Let Go de Avril Lavigne, que também foi considerado um êxito), teve um impacto cultural tremendo, alterando a paisagem musical. É preciso muita lata da minha parte chegar aqui, pegar neste álbum monstruoso e dizer: 

 

– Hum, eu teria feito diferente.

 

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Eu acho que o impacto teria sido o mesmo caso Hybrid Theory tivesse músicas como She Couldn’t ou Step Up no alinhamento. Mas não posso ter certezas, claro. E, pela filosofia “Em equipa que ganha não mexe”, é melhor deixar Hybrid Theory como está.

 

E a verdade é que, apesar de reconhecer que Meteora será objetivamente melhor quando comparado com este, apesar de admitir que nem todas as músicas são perfeitas e algumas B-sides são mais interessantes… eu adoro Hybrid Theory. Ponho o CD no carro e sou capaz de cantar em altos berros desde “Why does it feel like night today?” até “Pushes me awaaaay!”. Pode ser demasiado homogéneo, mas é homogeneamente bom. Mesmo os momentos menos bons estão bem acima da média. 

 

E, em minha defesa, não devo ser a única pois, daquilo que sei dos concertos dos Linkin Park, as setlists incluíam quase sempre várias músicas de Hybrid Theory

 

Passando, então, da minha experiência à experiência de outros, tal como referimos antes, Hybrid Theory e os próprios Linkin Park quebraram barreiras na época ao dar voz às emoções de muitos, sobretudo no masculino. Mesmo que a emoção dominante fosse a raiva, a revolta. A banda terá salvo muitas vidas. 

 

Em declarações à Blitz, Mike afirmou que o desejo dos Linkin Park era usar essa revolta para chegar às pessoas, dar-lhes um lugar seguro. “Não estávamos ali a gritar que o mundo era horrível e que era tudo horrível, na verdade queríamos que eles pusessem os braços à volta uns dos outros e tivessem uma experiência catártica. Foi isso que nos guiou, no fim de contas, na maior parte do tempo.”

 

Virando de novo os holofotes para as minhas experiências, já pensei várias vezes – sobretudo nas primeiras semanas após o meu primeiro concerto dos Linkin Park, no Rock in Rio de 2008 – no paradoxo que é ter-me sentido tão feliz, tão integrada cantando em altos berros que, lá está, tudo era horrível. Ainda hoje a música dos Linkin Park vai do zangado e agressivo ao melancólico e deprimente, com momentos ocasionais de esperança e empatia. E no entanto poucas coisas me dão mais alegria que ouvir a música deles, que ver vídeos deles ao vivo – os que incluí neste texto e não só.  

 

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É uma pena Chester não estar cá para celebrar tudo isto connosco, para contar o seu lado da história de origem de Hybrid Theory, mesmo dos Linkin Park enquanto banda. Talvez nessa cronologia alternativa a pandemia nunca tenha ocorrido e os Linkin Park estejam em digressão mundial, celebrando o vigésimo aniversário, tocando estas B-sides, talvez mesmo algumas versões demo.

 

Mas não é isso que está a acontecer. Não adianta chorar sobre o que não pode ser alterado. E, de qualquer forma, diverti-me imenso a descobrir acerca dos primórdios dos Linkin Park, das historietas, das pérolas escondidas. Tem sido um bom escape. A vantagem de eu ser uma fã pouco hardcore é ter ainda muito por descobrir acerca da banda – mesmo que Chester já não esteja cá e que o regresso dos Linkin Park ao ativo ainda não seja certo. 

 

Já que falo nisso, quero deixar um agradecimento ao site Linkinpedia. A maior parte dos factos que referi neste texto vieram de lá. Fartei-me de aprender sobre os Linkin Park e tenciono continuar. Só lamento não ter descoberto o site mais cedo, antes de escrever sobre Post Traumatic e One More Light. 

 

Agora que já escrevi sobre Hybrid Theory, o próximo passo será escrever sobre Meteora. Não de imediato, que passei muito tempo no universo dos Linkin Park. preciso de uma pausa. Posso esperar pelo vigésimo aniversário desse álbum… mas ainda faltam dois anos e meio. Não sei se esperarei tanto tempo. Logo se vê.

 

Muito obrigada pela vossa visita. A mais vinte anos de Hybrid Theory e de Linkin Park, mesmo sem Chester. Ele pode já não estar connosco, mas a sua voz, a sua música, bem como as vozes, os instrumentos de Mike e de cada um dos outros membros, viverão para sempre. 

Linkin Park – Hybrid Theory (2000) #2

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Segunda parte da análise a Hybrid Theory. Podem ler a primeira parte aqui

 

Uma das minhas preferidas, não apenas neste álbum, mesmo de toda a discografia da banda, é With You. Descobriu-se há pouco tempo que é também a preferida de Bella Swan, do Twilight. Não sei o que fazer com essa informação.

 

With You tem uma letra algo vaga, não se percebendo ao certo qual é o assunto. Parece falar de uma pessoa querida que está separada do narrador. Morreu? Partes da letra parecem apontar nesse sentido – “Even though you’re close to me, you’re still so distant and I can’t bring you back”. “The sound of your voice painted on my memories/Even if you’re not with me, I’m with you.” – mas é possível que seja apenas sobre uma separação. A letra também dá a entender que o relacionamento não seria muito saudável – e que o narrador guarda arrependimentos em relação a isso. 

 

Para mim, o melhor da música é o seu instrumental. Gosto muito da introdução – embora não consiga identificar todos os sons, tirando os discos giratórios de Mr. Hahn. Estes, aliás, estão presentes em toda a música, quase tão prevalentes como a guitarra, tendo até direito a um solo.

 

Já que falamos de guitarras, adoro a sequência dos acordes, imediatamente antes da primeira estância. Durante o rap de Mike, nas estâncias, a instrumentação torna-se mais leve, mais atmosférica (algo que torna a acontecer noutras faixas de Hybrid Theory, como veremos adiante). Ouvem-se apenas notas de teclado por cima da bateria – para depois se repetir a sequência inicial, durante o pré-refrão e o refrão. 

 

Não resisto a contar-vos uma historieta pessoal engraçada. Alguns de vocês devem conhecer a música Get With You, so Ritchie Campbell. No refrão, ele canta "but I just can't get with you, with you". Eu ganhei o hábito de, quando apanhava a música na rádio, pôr-me a cantar "You, now I see, keeping everything inside" ou "You, now I see, even when I close my eyes" durante os "with you, with you". Por algum motivo, isto irrita a minha irmã – logo, comecei a fazê-lo de todas as vezes que ouvíamos Get With You. 

 

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Quem tiver irmãos compreende. 

 

A partir de certa altura, bastavam soar os primeiros acordes para a minha irmã se virar para mim e dizer:

 

– Nem penses! 

 

Eu não cantava, mas ficava a rir que nem uma perdida. 

 

Tenho de confessar que, depois de Chester morrer, deixei de fazê-lo. Ainda assim, agora que já passaram uns anos, era capaz de voltar a irritar a minha irmãzinha com estes versos. Mas a verdade é que não a temos apanhado na rádio ultimamente. 

 

Durante muito tempo quis fazer um AMV para esta música. Era a próxima na lista há meia dúzia de anos, quando andava a fazê-los com os filmes de Pokémon. Só que o Windows Movie Maker deixou de funcionar no meu computador. O desejo não desapareceu por completo, confesso, mas agora tenho menos tempo livre. Quando o tenho, prefiro escrever.

 

 

Outra que também esteve sempre entre as minhas preferidas (agora nem tanto, anda a ser destronada) é Points of Authority. Esta é uma das músicas com mais demos em todo o álbum – como dá para ver agora, na edição de aniversário. Numa dessas versões o rap de Mike – que, na versão final, serve de introdução e de terceira parte – toma o lugar do refrão. Outra versão usa o refrão do álbum, mas o rap é diferente – pior, na minha opinião, mais previsível. 

 

Em suma, prefiro mesmo a versão final. Gosto imenso do rap na terceira parte, sobretudo quando Chester se junta a Mike (pelo menos nas versões ao vivo). Além disso, o refrão flui tão bem depois das estâncias que custa a acreditar que, a certa altura, a banda pôs a hipótese de não inclui-lo. 

 

Uma confissão: espero não ter sido a única a ficar baralhada por um momento quando, no Rock in Rio de 2014, cortaram o rap introdutório. Demorei a perceber que música era. 

 

Outra confissão: examinar a letra de Points of Authority para esta análise estragou-me um bocadinho a música para mim. Parva como sou, nunca me tinha apercebido de que o verso "while taking pleasure in the awful things you put me through" poderá ser uma referência aos abusos sexuais a que Chester foi sujeito em miúdo. Existem também referências a comportamentos auto-destrutivos, e dá-se a entender que o agressor também foi uma vítima, que está apenas a lidar com a vida da maneira que sabe. 

 

O que é capaz de ser verídico. 

 

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O instrumental não é dos mais interessantes neste álbum, mas sempre tem uma espécie de beatbox ao longo de toda a faixa, dando-lhe carácter próprio. O que de resto alude ao rap, que fala em corridas demasiado rápidas, em alguém que não está à altura do desafio. 

 

Neste momento e no que toca às últimas semanas, desde que comecei a examinar este álbum para escrever esta análise, as minhas músicas preferidas em Hybrid Theory são A Place For My Head e Forgotten. Já gostava delas individualmente antes disto – explicá-lo-ei porquê já a seguir – são ambas enérgicas, agressivas e soam muito bem em sequência, como surgem no alinhamento do álbum. A Place For My Head termina um pouco de repente – só temos um segundo para respirar, antes de Forgotten abrir logo a matar, com o potente refrão. 

 

Além disso, nestas últimas semanas tenho passado mais tempo com estas duas canções do que com a maioria das outras. A Place For My Head e Forgotten são as faixas mais antigas de Hybrid Theory, compostas ainda no tempo dos Xero. A edição de vigésimo aniversário inclui demos das mesmas – intituladas Essaul e Rhinestone – ainda com a voz de Mark Wakefield. E, como vimos antes, estas demos faziam parte da cassete de audição de Chester. 

 

A Place For My Head é uma das faixas mais pesadas em Hybrid Theory, com as guitarras e os gritos de Chester. Começa enganadoramente suave, com um riff de guitarra que faz uma boa ponte com o final de In the End. Seguem-se a bateria e os discos giratórios. É então que começa o rap de Mike, numa altura em que o riff passa a ser tocado por uma guitarra elétrica. As guitarras tornam-se mais pesadas por alturas do refrão. 

 

Um dos melhores momentos da música é a terceira parte. Quem disser que nunca se assustou quando Chester passa dia sussurros aos gritos está a mentir. Outra das minhas partes preferidas é o encerramento: os acordes pesados de guitarra, a bateria, os gritos de Chester antes de Mike repetir o rap.

 

 

Quem disser que nunca se assustou quando Chester passa dos sussurros aos gritos, na terceira parte da música, está a mentir. 

 

Outra das minhas partes preferidas é o encerramento:os acordes trovejantes de guitarra, a bateria, os gritos de Chester antes de Mike repetir o rap do pré-refrão. Quando abriram o concerto do Rock in Rio de 2012, eles recriaram esta parte na introdução e ficou espetacular, como poderão ouvir. 

 

Muitos destes elementos da instrumentação de que gosto em A Place For My Head já vinham da demo Essaul – que recebeu o nome de um dos amigos de Mike e dos outros membros dos Xero. Já lá está a introdução, os sussurros que passam a gritos, a conclusão. 

 

A diferença mais significativa é o rap de Mike: bem mais rápido, que tem sido comparado a Eminem. É de facto impressionante – gosto em particular do início da segunda estância, da pequena explosão musical quando Mike diz "stronger than a nuclear bomb". Ainda assim, prefiro o rap na versão final – só mesmo porque esse consigo acompanhar, consigo cantar. O outro não. 

 

Por outro lado, o verso "Soon the Aztec Moon will heat my room, heal my wounds" é hilariante. Que raio significa? 

 

 

Para ser justa, a letra da versão final também não é espetacular. Não é má, apenas simples e inespecífica. Fala de pessoas tóxicas, calculistas, que fazem favores só para poderem cobrar de volta. O narrador deseja fugir delas. 

 

Quando tinha dezassete ou dezoito anos, esta era uma das músicas que me repelia, demasiado pesada para as minhas sensibilidades ainda muito pop. Hoje no entanto, como referi antes, é uma das minhas preferidas. Não sou a única – consta que é bastante popular entre os fãs. 

 

A letra de Forgotten é um bocadinho pior que a de A Place For My Head – pinta cenários vagamente emo, vagamente sombrios, mais nada. Uma vez mais, vale pelo instrumental. 

 

Nesse aspeto, Forgotten tem algumas semelhanças com With You no sentido em que alterna guitarras elétricas com momentos mais leves e atmosféricos, algo eletrónicos, nas estâncias. Gosto imenso do refrão, com Chester e Mike alternando na primeira metade e depois a parte melódica – quase de todas as vezes que oiço esta música, dou por mim a cantar esses versos, sobretudo no final: "In the memory, you will find me". E gosto da maneira como o último verso soa estranhamente esperançoso "until the sun rises up". 

 

By Myself é uma faixa muito parecida com Forgotten, não apenas no instrumental como também pelo facto de o refrão ser meio rap meio melódico. A letra é melhor, a musicalidade não (não que seja pior, é apenas menos impressionante). É uma música algo deprimente, que fala sobre solidão, cansaço, desânimo, insegurança, derrotismo. Só coisas boas, como podem ver. Se uma pessoa não se distrai dando uns headbands, fica na fossa. 

 

 

Consta que Chester não gostava muito de Runaway. Dizia que era uma das piores da banda, ao ponto de não querer mais tocá-la ao vivo. Eles mesmo assim mantiveram-na nas setlists até pelo menos 2012 – acho que só não a retiraram mais cedo porque sabiam que até era popular entre os fãs. 

 

Na minha opinião, é exagero dizer que é das piores dos Linkin Park, mas de facto não é nada de especial. A letra deixa um pouco a desejar – à semelhança de Forgotten, temos imagens sombrias, de revolta adolescente. Musicalmente segue a fórmula de Hybrid Theory, mas não tem a acutilância, a ferocidade de temas como One Step Closer ou A Place For My Head. 

 

Na verdade, agora que saiu a edição de vigésimo aniversário, gosto mais da versão demo desta faixa, Stick N Move – outra que vem dos tempos dos Xero. A versão mais antiga, com a voz de Mark Wakefield, não foi incluída na edição de aniversário, mas está disponível na Internet – em baixa qualidade. 

 

O instrumental é parecido com o de Runaway, mas o vocal é outro: as estâncias são em rap, o refrão é diferente. A versão cantada por Chester tem uma terceira parte apenas instrumental, mas a versão dos Xero tinha um rap de Mike interessante. 

 

Por mim, teria mantido a versão de Stick N Move cantada por Chester, juntamente com o rap da versão dos Xero. Sempre era um pouco mais interessante que Runaway. Mas consta que Don não gostava de Stick N Move. Mike e os outros também não morriam de amores pela canção, por isso, não se importaram que se transformasse em Runaway (mas no fim também não gostaram muito dessa…). Enfim. 

 

Crawling é uma música que tem subido na minha consideração nos últimos anos, se bem que não pelos motivos mais felizes. Musicalmente é uma balada, uma das músicas mais lentas de Hybrid Theory, mas não é menos pesada que a maioria do álbum – com alguns elementos eletrónicos, nomeadamente na introdução. Em termos de vocais, é impossível não assinalar os agudos impossíveis de Chester no refrão – falaremos sobre isso já de seguida. 

 

 

Todos concordam que esta será uma das músicas mais autobiográficas de Chester. O próprio explicou que a letra de Crawling é sobre admitir, por difícil que seja, que se tem um problema consigo mesmo, que não se tem controlo sobre si mesmo. No caso de Chester, isso diz respeito ao seu alcoolismo e toxicodependência, aos seus traumas, aos demónios que, no fim, lhe custaram a vida. Crawling é sobre ser-se o seu próprio pior inimigo. 

 

Há pouco tempo, Mike contou uma história engraçada sobre a letra do refrão. Se ouvirem a versão demo, lançada agora na edição de aniversário, hão de reparar que, tirando uma secção de rap que foi cortada na versão final, existem algumas diferenças pontuais na letra. Por exemplo, o verso "Fear is powerful", no refrão. Consta que, quando Mike e Chester mostraram esta versão a Don e lhe perguntaram a opinião sobre a letra, ele respondeu:

 

– Está boa. Gosto muito do verso "Fear is how I fall". 

 

Don ouvira mal a letra, mas Mike e Chester não disseram nada – concordaram tacitamente que a versão de Don era melhor. 

 

Em todo o caso, esta história chamou-me a atenção para esse verso. "Fear is powerful/how I fall, confusing what is real". O medo deita abaixo, altera a nossa perceção da realidade. Os nossos traumas, as nossas inseguranças fazem-nos recear coisas a que, racionalmente, não daríamos importância. 

 

Chester deu a entender que compôr e cantar Crawling, pôr a nu as suas partes mais negras, obrigou-o a tomar responsabilidade sobre si próprio, sobre a sua saúde mental. Chester não tinha problemas em admitir o seu passado difícil, os seus comportamentos aditivos e autodestrutivos. Tinha mesmo orgulho em ser um alcoólico em recuperação, em canalizar essas facetas para música que, como no caso de Crawling, depois se vendia aos milhões, ganhava Grammys e tocava ouvintes lidando com problemas semelhantes. 

 

Pois… 

 

 

Queria agora falar sobre um momento que contribuiu para a minha elevada consideração por Crawling. Foi, uma vez mais, no concerto de 2012 no Rock in Rio (que coincidiu com a altura em que estava a tomar o gosto à música mais pesada dos Linkin Park). Quando tocaram Crawling, Chester foi cantar para junto do público. Houve um engraçadinho que colocou um cachecol do FC Porto aos ombros do vocalista – um momento hilariante que, como o próprio Chester descreveu, deixou "muita gente feliz e muita gente fula". 

 

Tenho apego a esse momento porque envolveu Chester provando um bocadinho de portugalidade, envolvendo-se por breves instantes nas nossas rivalidades clubísticas. Chester foi um bocadinho nosso. 

 

Mas mesmo sem o cachecol, foi um momento bonito – sobretudo para os sortudos dos fãs, até tiveram o privilégio de contactar com só um dos melhores vocalistas de todos os tempos. Fiquei com inveja, claro, mas também fiquei contente por eles, por fãs portugueses terem tido essa sorte. Sobretudo o rapaz que cantou o refrão cara a cara com Chester. 

 

Agora que ele já não está entre nós, recordações como esta – bem como quando lhe agarrei a mão por um momento no concerto do Rock in Rio de 2014 – ganharam um carácter agridoce. Pergunto-me como terão reagido aqueles fãs à notícia da morte de Chester. Terão dado graças por terem tido aquela oportunidade? Terão sentido pena por essa já não se poder repetir? Sentem mágoa, como eu, por as vozes deles cantando Crawling não terem falado mais alto que as vozes na cabeça dele? 

 

Depois do que aconteceu há três anos, tenho pensado muito no verso "Against my will I stand beside my own reflection, it's haunting", em como ele escolheu cantar esta música específica para junto do público – não apenas no Rock in Rio 2012, também noutras ocasiões, como no vídeo da digressão One More Light. Penso no verso de No Friend, dos Paramore (já não é a primeira vez que escrevo sobre isso aqui no blogue, pois não?): "I see myself in the reflection of people's eyes/Realising that what they see may not even be close to the image I see in myself". Seria por isso que Chester vinha para junto dos fãs? Para se ver refletido nos nossos olhos, para tentar ver-se a si mesmo como nós o víamos? Não o seu pior inimigo mas sim alguém digno de admiração, de carinho? 

 

Nunca saberemos. 

 

 

Queria agora falar sobre a versão de Crawling editada no álbum da digressão One More Light. Em linha com o disco menos pesado e agressivo, esta é uma versão apenas com piano num tom um pouco mais grave que a versão do álbum, mais cantada que gritada – Chester bem se tinha queixado que a melodia original era difícil de cantar. 

 

A música fica com um carácter completamente diferente assim. A versão de estúdio, com o refrão agudo, barulhento, soa raivosa, algo melodramática. Encaixa-se no estilo de Hybrid Theory, não me interpretem mal, e sei que é catártica para muitas pessoas, mas acho que distrai um pouco da mensagem trágica da letra. 

 

O que não é necessariamente um ponto fraco, agora que penso nisso. Um dos feitos de Hybrid Theory, é dos Linkin Park em geral, diz respeito à maneira como deram voz às angústias e revoltas de adolescentes, sobretudo rapazes. Isto nunca altura em que sentimentos no masculino ainda eram menos tolerados que agora. Ainda assim, a emoção dominante em Hybrid Theory é a raiva, que, como já tínhamos visto antes é a única emoção que homens podem exprimir, segundo o patriarcado. 

 

Nesse sentido, Crawling é um bom exemplo desta… ambiguidade, à falta de melhor palavra. À primeira vista (ou melhor, audição), esta é uma música dominada pela ira. No entanto, basta prestar um pouco de atenção para se perceber que essa ira esconde muita coisa.

 

A versão ao piano é mais transparente, nesse aspeto – o que faz sentido mais de quinze anos depois, num homem mais maduro. Esta é uma Crawling mais triste, mais resignada. Eu chorei da primeira vez que a ouvi, quando saiu o álbum ao vivo (tecnicamente já tinha ouvido esta versão antes, quando lançaram Heavy em fevereiro desse ano, mas muita coisa acontecera entretanto, tinha-me esquecido completamente). Ainda tinha passado pouco tempo, a dor era ainda recente. Esta versão soava – ainda soa – como uma versão memorial. Ainda agora, ao ver o vídeo da apresentação ao vivo, ao vê-lo cantando junto dos fãs, lacrimejei um pouco. Abracem-no. Abracem-no e não o larguem. 

 

Eu diria, para resumir, que a versão de estúdio de Crawling é a versão adolescente. A versão ao piano é a versão adulta. 

 

 

Existe outra versão adulta de Crawling, outra versão memorial. Eu já tinha falado dos Bad Wolves aqui no blogue, a propósito do cover de Zombie, que lançaram pouco depois da morte de Dolores O'Riordan. Este ano voltaram a homenagear outra lenda do rock que partiu demasiado cedo. Lançaram um cover de Crawling na semana do aniversário da morte de Chester. 

 

Este cover acaba por ter um tom semelhante da versão de Crawling ao piano. É uma versão acústica no fundo: conduzida pelo piano, também, acompanhada por guitarra acústica, violinos, percussão. Incluíram também um solo de guitarra muito fixe. Gosto muito deste cover. 

 

Quando publicaram esta versão de Crawling no Facebook, juntaram-lhe uma mensagem dolorosa sobre os efeitos a longo termo de abusos sexuais na infância (a parte de desvalorizar o racismo é que era desnecessária). Chester infelizmente foi um bom exemplo. 

 

Por paradoxal que seja, gosto cada vez mais de Crawling, em parte por causa destas versões mais recentes. Mas também reconheço que, depois de 20 de julho de 2017, é uma das mais dolorosas. Antes da morte de Chester, havia muita gente que não levava a letra de Crawling a sério. Achavam que era exagerada, talvez para apelar aos dramas de adolescentes – sendo esses próprios dramas desvalorizados. 

 

Mas não, não era exagero nenhum, era real – e quando muitos de nós o descobriram já era tarde. E foram precisamente as coisas sobre as quais cantou que o mataram. 

 

Eu sei que tanto a vida como a morte de Chester terão ajudado muitas pessoas. Se hoje se fala mais sobre saúde mental, se as mentalidades estão a mudar, é pelo menos em parte por causa do que lhe aconteceu. Mas dói à mesma. Nos meus piores dias tenho vontade de mudar a letra para "these wounds will never heal". 

 

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*suspiro* Às vezes chateia-me que, desde julho de 2017, sempre que se fala dos Linkin Park, falamos inevitavelmente do que aconteceu a Chester. Já foi um alívio não ter tido de falar no assunto quando escrevi sobre She Couldn't, tirando uma referência muito breve. Imagino que seja mil vezes pior para Mike e os outros – talvez seja por isso que ainda não regressaram em força como banda. 

 

Que se pode fazer? Chester era o coração dos Linkin Park. Sem ele é tudo diferente, sobretudo tendo partido da maneira como partiu. Talvez um dia seja possível recordar Chester sem dor, só com alegria. Quanto a mim e a este blogue, vou tentar não puxar o assunto sem necessidade, mas quando achar que se justifica não vou deixar de assinalá-lo. 

 

Enfim, perdoem-me este desabafo, perdoem-me terminar esta parte da análise numa nota tão triste. A terceira e última parte será menos deprimente. Publico-a amanhã. 

Linkin Park – Hybrid Theory (2000) #1

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Hybrid Theory, o primeiro álbum de estúdio dos Linkin Park, completou na semana passada vinte anos bem contados desde a sua edição. Conforme o prometido, para assinalar o aniversário (ainda que com alguns dias de atraso), hoje vamos começar a examinar este álbum. Digo começar porque, como o costume, tinha muito a escrever e, assim, a análise terá três partes. Esta é a primeira.

 

Sendo Hybrid Theory um álbum de estreia, não podemos falar sobre ele sem falarmos sobre as origens da banda. Até porque, no passado dia 9 de outubro, saiu uma edição especial do álbum, comemorativa do vigésimo aniversário, com uma data de material adicional, parte dele completamente inédito, que vai até aos primórdios dos Linkin Park enquanto banda. 

 

Já que falo nisso, quero desde já avisar que esta análise focar-se-á sobretudo no alinhamento padrão do álbum, como já tinha dito antes. Isto porque, em primeiro lugar, é aquele com o qual estou mais familiarizada. Tirando um caso ou outro, no que toca aos Linkin Park, oiço sobretudo os álbuns de estúdio. Antes desta edição de Hybrid Theory, nunca liguei muito a B-sides, a demos ou mesmo a álbuns de remixes, como o Reanimation, o Collision Course ou o Recharge (exceto singles como Numb/Encore e A Light that Never Comes). Sou uma fã pouco hardcore

 

Em segundo lugar, esta nova edição de Hybrid Theory é constituída por nada menos que oitenta faixas, quatro horas e vinte e cinco minutos de música de acordo com o Spotify. É certo que uma parte parece ter sido para encher chouriços: algumas são versões ao vivo e, por exemplo, temos uma versão de One Step Closer literalmente igual à versão de estúdio, apenas sem os discos giratórios. Mas de qualquer forma, é demasiado material e esta análise já vai ser longa. Vou deixar algumas impressões sobre as B-sides mais perto do fim (tirando High Voltage e My December), e hei de referir algumas demos quando analisar as faixas principais do álbum. Mais nada.

 

Comecemos então pelo princípio. Mike Shinoda, hoje multi-instrumentista, vocalista/rapper e em geral cérebro dos Linkin Park, sempre mostrou aptidão para a música. Esta e o desenho são as suas grandes paixões. Aos seis anos já tocava piano. Em adolescente fazia misturas de música rock com hip-hop só pelo gozo, com equipamento de produção comprado por ele mesmo. Foi assim que aprendeu a produzir música.

 

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Quando estava no equivalente americano ao Secundário, Mike formou uma banda chamada Xero, juntamente com os seus amigos Brad Delson (atual guitarrista dos Linkin Park), Rob Bourdon (atual baterista) e Mark Wakefield, amigo de infância de Mike, como vocalista. Mais tarde, o grupo conheceu Joe Hahn (DJ) e Dave “Phoenix” Farrell (baixista) na faculdade e acolheu-nos nos Xero. Mark, no entanto, acabou por desistir da banda e, segundo Mike, acabou por seguir uma carreira como agente de bandas. 

 

Por esta altura, entretanto, Chester Bennington, cantor, tinha deixado a sua banda, Grey Daze. Esteve perto de desistir da música quando, no dia em que completava vinte e três anos, recebeu uma cassete com demos dos Xero. A edição de aniversário de Hybrid Theory inclui essas demos – segundo o que consegui averiguar com fãs mais bem informados do que eu, as faixas terão sido Pictureboard, Rhinestone (uma versão beta de Forgotten) e Essaul (uma versão beta de A Place For My Head). Chester terá faltado à sua própria festa de aniversário para gravar por cima das versões instrumentais destas faixas. 

 

Quando ouviram as músicas com a voz de Chester, Mike e os outros ficaram rendidos. Brad inclusivamente, a propósito do lançamento da edição de aniversário de Hybrid Theory, falou há pouco tempo sobre o momento em que ouviu Pictureboard cantada por Chester – o guitarrista quase chorou. 

 

Quem nunca?

 

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Brad e os outros pediram a Chester para vir, mas por algum motivo não lhes ocorreu desmarcarem as audições com outros cantores. Já estavam a ensaiar com Chester, mesmo a gravar com ele, mas oficialmente ainda estavam à procura de vocalista. As audições decorreram ao longo de três dias, com a banda a interromper os ensaios com Chester para ouvir outros candidatos.

 

Ora, Chester não estava a achar piada nenhuma à brincadeira. Eu, para ser sincera, reagiria da mesma forma, se tivesse sido comigo. Qual é a lógica de fazer audições se o vocalista já estava praticamente escolhido? Era muito mais honesto desmarcar as audições – ao menos não davam falsas esperanças aos candidatos. 

 

Consta que um desses recusou-se mesmo a fazer a audição depois de ouvir Chester a cantar, nos ensaios da banda. 

 

– Vocês são uns idiotas se não aceitarem este gajo [Chester] – terá ele dito. Depois voltou-se para Chester e disse – Se eles não te aceitarem, liga-me e começamos nós uma banda. 

 

Felizmente, Mike e os outros não foram idiotas. 

 

Assim, Chester juntou-se ao grupo e assumiram como nome “Hybrid Theory” – precisamente pela sua filosofia de fundirem géneros musicais. Como vimos antes, She Couldn’t foi uma das primeiras músicas a compôrem – embora não a tenham incluído no EP que gravaram de forma independente e começaram a enviar às editoras discográficas. Esse EP, também intitulado Hybrid Theory, foi incluído na edição de aniversário. Ao mesmo tempo, recorriam à Internet para fazerem a sua música chegar diretamente a possíveis fãs. 

 

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A Internet do final dos anos 90, há que sublinhar. Muito antes de o YouTube, o Soundcloud e afins existirem. Não deve ter sido fácil. 

 

De início tudo o que era editora os rejeitou, apesar de estarem a ter algum sucesso na Internet. Mesmo a Warner só aceitou assiná-los após os ter rejeitado três vezes – e a ideia com que fico é que o fez de má vontade, pois os primeiros tempos não foram fáceis para eles. Consta que o presidente da Warner não gostava deles, não queria lançar-lhes o álbum. Houve quem lhes dissesse para arranjarem algo que os distinguisse dos demais, tipo Joe Hahn usando bata de laboratório em palco (eu pessoalmente não me importava, mas pronto). 

 

O pior de tudo foi terem tentado meter Chester como protagonista da banda e despromoverem os outros membros a banda de apoio. Queriam mesmo expulsar Mike, o que seria uma blasfémia. Felizmente, Chester não era uma besta e disse-lhes onde podiam enfiarem essa ideia.

 

Até o produtor que trabalhou com eles, Don Gilmore (que mais tarde produziria algumas faixas de Under My Skin) lhes fez a vida negra. No entanto, fê-lo porque acreditava neles, não o contrário.  Consta que Don obrigou-os a comporem e gravarem uma grande parte do Hybrid Theory em dois meses – veja-se o facto de só A Place For My Head e Forgotten terem sobrevivido deste os tempos dos Xero até ao alinhamento final. Don obrigava-os a rescreverem letras umas trinta vezes, a regravarem instrumentais até ao infinito. A partir de certa altura, Mike e os outros já não podiam vê-lo à frente.

 

A meu ver, Don era como certos pais e professores muito exigentes com as crianças, não por maldade, antes por quererem extrair o melhor delas. Em pequenos não gostamos nada, mas mais tarde reconhecemos que a sua exigência nos tornou melhores. É claro que, com crianças, é preciso ter cuidado com tais pressões, podem ter o efeito oposto. Ao menos Mike e os outros já eram adultos – o que mesmo assim não os impediu de se irritarem com Don, ao ponto de escreverem uma letra sobre ele, como veremos adiante. E para sermos justos com Don, ele admitiu que sim, era exigente com Chester e os outros e estes irritavam-se, mas seguiam as suas instruções e os resultados estão à vista. 

 

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Chester contribuía para as letras baseando-se na sua vida difícil, com o divórcio dos pais, abuso sexual, toxicodependência, como todos sabemos – contrabalançando com a infância mais saudável de Mike e dos outros. Tentavam ser honestos, mas não demasiado específicos de modo a poder ressoar com a maioria da audiência. Consta que Don lhes ia dizendo:

 

– Não quero ouvir os vossos problemas, quero ser entretido!

 

Confesso que devo ser uma exceção à regra entre os fãs de Linkin Park porque, tirando alguns casos, no que toca a Hybrid Theory, ligo menos aos “problemas” e mais ao entretenimento: à sonoridade, à atitude, aos headbangs, ao mood. Como referi algumas vezes neste blogue, este género de música inspira-me quando escrevo cenas de ação, de luta, em ficção. Só há pouco tempo – e nalguns casos só agora, nas pesquisas para esta análise – é que comecei a prestar atenção à parte dos “problemas”.

 

Em todo o caso, os Linkin Park nunca tiveram problemas em combinar o seu lado autobiográfico com o lado do entretenimento.

 

Quando o álbum ficou pronto, toda a gente na editora se rendeu, esquecida de quaisquer problemas que pudessem ter com o grupo. O álbum passou a ser a prioridade número um. E, mais tarde, Don voltaria a colaborar com eles nos trabalhos de Meteora.

 

Não puderam, contudo, manter Hybrid Theory como nome da banda. A editora já tinha um grupo chamado Hybrid, ia criar muita confusão. E, aqui entre nós, Hybrid Theory não soa bem como nome de banda – é pouco fluido. Além de que, se quisessem algum dia criar música que não se encaixasse em teorias híbridas, estariam a contradizer o seu próprio nome. 

 

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Um dia Chester passou por um parque público chamado Lincoln Park. Consta que existe um em quase todas as cidades americanas. Tentaram adotá-lo como nome para a banda, mas quando tentaram criar um site o domínio “lincolnpark.com” já existia. Apropriarem-se dele sairia caro. Saiu mais barato mudarem para linkinpark.com – que, todos concordam, soa muito melhor.

 

Hybrid Theory ficou, deste modo, o nome do álbum. Eu, no entanto, não comecei por aí. Quando descobri os Linkin Park, estávamos em 2004/2005 – era de Meteora, quiçá de Collision Course. Mesmo assim, só fiquei a conhecê-los mais a fundo em 2007, na era Minutes to Midnight. No verão desse ano, o meu irmão foi passar férias com os meus padrinhos, que têm um filho pouco mais novo que ele. Regressou a casa com o MP3 cheio de música dos Linkin Park. Ele nunca me disse onde a obteve, mas estou certa de que foi legal. 

 

Na altura tinha dezassete anos. Gostava de rock, desde que não se afastasse demasiado do pop – embora já começasse a ouvir Green Day, também por influência do meu irmão. Sou uma exceção à regra no sentido em que comecei a ouvir música mais pesada como adulta (bem, adulta legal) e não como adolescente. Os Linkin Park foram, a par dos Green Day (que hoje em dia já praticamente não oiço), a banda que me ajudou a fazer a transição. 

 

Nesse primeiro ano, quando ouvia Linkin Park, ouvia as faixas todas em aleatório, sem querer saber a que álbum pertenciam. De início, as músicas que mais me atraíam eram as mais levezinhas – ou seja, Pushing Me Away e, mais tarde, In the End, no caso de Hybrid Theory. 

 

Vou admiti-lo desde já: o motivo pelo qual Pushing Me Away me atraiu diz respeito às semelhanças com Numb. O riff na introdução, as guitarras que se juntam, a estância cantada por Chester, umas frases em rap de Mike no pré-refrão. Isso na altura não pesou, mas outra semelhança é o facto de, tal como Numb, surgir no fim do alinhamento, depois de uma faixa instrumental. 

 

 

Mesmo a letra entra em territórios parecidos com Numb – no sentido em que o narrador se queixa de ter de suprimir emoções, uma parte de si, para agradar a outra pessoa. 

 

Sei que não é justo estar a comparar uma canção com outra composta mais tarde. Mas como ouvi Numb primeiro não consigo evitar – e, em minha defesa, a própria banda admitiu há pouco tempo que, se não tivessem criado Pushing Me Away, provavelmente não teriam composto Numb, que Numb é uma versão melhorada de Pushing Me Away. Esta faixa pode ter sido a primeira a cativar-me neste álbum, mas hoje considero-a a menos interessante. Isto sem deixar de ser uma boa canção. 

 

A segunda música de Hybrid Theory a cativar-me foi In the End – isto quando já ouvia a amálgama de músicas dos Linkin Park há uns meses. Tornou-se rapidamente uma das minhas favoritas. 

 

Não é difícil compreender o motivo pelo qual esta canção se distinguiu das demais: é uma versão mais leve, mais pop, mais acessível, da fórmula rap sobre guitarra elétrica dos Linkin Park, sobretudo no início da carreira deles. In the End começa com uma sequência de piano, composta por Mike, que se repete várias vezes ao longo da música. As estâncias são acompanhadas por notas de guitarra e baixo e, de vez em quando, piano. Os acordes mais pesados – mesmo assim, não demasiado – só surgem no refrão e na terceira parte. In the End terá sido incluída em Hybrid Theory e lançada como single precisamente para servir de ponte entre o mainstream e o som mais pesado do resto do álbum.

 

E resultou. Pelo menos comigo resultou, mesmo tendo conhecido a música fora do contexto do álbum. E pela maneira como In the End é uma das canções mais populares da banda, acho que não fui caso único – se calhar, para muitos fãs, esta foi a primeira música dos Linkin Park que conheceram. 

 

In the End caracteriza-se pelo tom leve, de apatia, de frustração. A letra é simples, fala sobre algo pelo qual se lutou, se sacrificou mas que… no fim… falha e/ou não vale o esforço. Pode referir-se a qualquer coisa: uma relação, um projeto, um emprego um objetivo qualquer.  Consta que foi inspirada pelos conflitos entre a banda e a editora – aquelas pessoas que queriam promover Chester a protagonista à custa de Mike. Uma altura em que o grupo receava que o seu sonho de editar um disco fosse ao ar. 

 

 

In the End foi sempre um ponto alto nos concertos dos Linkin Park – falo por experiência própria. Quando a tocaram no concerto do Rock in Rio de 2008, marcou-me particularmente – por ter decorrido poucos meses depois de me ter deixado cativar por In the End. Nunca irei esquecer a emoção de ouvir toda a gente à minha volta cantando (“rapando”?) em altos berros, de ver Mike junto do público. Ainda hoje partilho este vídeo nas redes sociais quando Mike faz anos.

 

In the End sempre foi a canção dos fãs nos concertos. Tecnicamente Chester cantava o refrão, um ou outro verso do rap, a terceira estância. Na prática, era frequente a voz dele afogar-se no coro da audiência. E na segunda parte da terceira estância, Chester pura e simplesmente voltava o microfone para o público. Como tal, não surpreendeu que, no concerto do Hollywood Bowl, o convidado especial de In the End tenha sido o preferido da banda: a audiência. Nem que, durante a digressão de Post Traumatic, Mike tenha escolhido esta música para deixar palavras sábias sobre Chester – antes de tocar a música ao piano, com a audiência cantando as partes melódicas. 

 

Demorei alguns anos a ganhar apreciação pelo som mais pesado dos Linkin Park. Foi na altura em que saiu o Living Things. Passei uma boa parte desse ano e do seguinte a ouvir essas músicas, uma vez mais fora do contexto dos álbuns – à mistura com os excelentes temas do quinto disco. Só mais tarde – em 2017, poucas semanas antes do lançamento de One More Light, quando comprei o Hybrid Theory e Meteora em CD – é que me apercebi que a maior parte das músicas de que mais gostava vinham de Hybrid Theory.

 

Falemos então sobre elas. Começando pelo single de apresentação da banda, One Step Closer. 

 

Este tema é um enorme clássico dos Linkin Park, um bom exemplo da sua sonoridade mais pesada – destaquem-se as guitarras na introdução, mas também Hahn com os discos giratórios, na terceira parte da música. 

 

 

Consta que a letra de One Step Closer foi inspirada pela irritação que Mike e Chester sentiam com Don Gilmore – que, como referimos acima, era muito exigente com eles, raramente ficava satisfeito com o seu trabalho. O “Shut up!” da terceira parte era dirigido a Don. One Step Closer fala de frustração, de raiva, de se sentir puxado até ao limite. É uma letra simples, não demasiado específica, aplicável a milhentas situações. Talvez seja daí que venha o apelo para muitos fãs. 

 

Eu pessoalmente acho a letra algo básica – sobretudo a terceira parte. Os gritos de Chester, entre Hahn arranhando discos, são impressionantes, não me interpretem mal. No entanto, o “Shut up when I’m talking to you” soa-me a um professor a gritar com alunos mal comportados. 

 

Em suma, é uma boa canção, um clássico, presença obrigatória nos concertos – durante vários anos encerrou setlists. Eu em particular tenho uma boa recordação com ela: no início de 2017, no Coliseu dos Recreios, enquanto esperava pelo início do concerto dos Sum 41. Como o costume, estavam a dar-nos música, literalmente – vinda dos altifalantes, para nos entreter. Quando tocaram o One Step Closer, uma grande parte do público, eu incluída, cantou em coro. 

 

Não surpreendeu. Os Sum 41 e os Linkin Park surgiram mais ou menos na mesma altura, têm algumas semelhanças no estilo, partilham muitos fãs. Foi um momento bonito, que serviu de aperitivo para o que viria mais tarde.

 

Ah, as saudades que tenho de concertos…

 

Ainda assim, One Step Closer não está entre as minhas preferidas dos Linkin Park. Nem mesmo de Hybrid Theory.

 

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Quais é que são as minhas preferidas? A resposta fica para amanhã.

Hayley Williams – Petals For Armor (2020) #3

Terceira parte da análise a Petals For Armor. Podem ler as partes anteriores aqui e aqui

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Vamos agora começar a falar sobre a terceira parte do álbum, a tal que representa a fase da borboleta. Esta é a parte mais homogénea das três – tirando Watch Me While I Bloom, todas as faixas são canções de amor, todas sequelas maduras a The Only Exception, de uma forma ou de outra. Não surpreende que estas músicas tenham sido lançadas todas de uma vez, com o resto do álbum. São muito parecidas umas com as outras, talvez até demasiado parecidas, não fazia sentido individualizá-las.

 

Suponho que o elefante na sala seja o novo amor na vida de Hayley, depois do divórcio. Não se sabe se é o mesmo referido em Sudden Desire e Why We Ever – se ela conseguiu reparar a relação que sabotou – ou se é outro homem. Pessoalmente inclino-me para a primeira hipótese, mas é um mero palpite, não tenho nada em que me basear. 

 

Hayley tem explicado muito sobre as músicas deste álbum, mas não revelou a identidade do seu novo companheiro. Não tem essa obrigação. A filosofia Petals For Armor é muito bonita e tal, mas quando envolve outra pessoa o caso muda de figura (aqui entre nós, já é um bocadinho questionável não conhecermos a perspetiva do ex no que toca ao casamento falhado). 

 

Quase toda a gente diz que é o Taylor. Eu sinceramente espero que não. Em parte porque, da última vez que ela namorou um companheiro de banda, a coisa correu mal (é certo que Hayley e Taylor já não são adolescentes… mas mesmo assim).

 

Enfim. Quando Hayley e o namorado estiverem para aí virados (isto se não tiverem acabado entretanto), logo anunciam a relação. Eu pessoalmente não tenho pressa em saber.

 

 

Pure Love, que abre a terceira parte, parece uma resposta direta aos erros cometidos aquando de Why We Ever (isto é, segundo o contexto dado por Hayley). Uma vez mais, musicalmente é guiada pelo baixo e pela bateria, com um ritmo interessante. Quando começam os vocais começa também o teclado (é Hayley quem o toca, pelo menos uma parte. Gosto em particular das notas claras no refrão, a condizer com os agudos (menos polidos, sobretudo nos últimos refrões) de Hayley.

 

A letra de Pure Love é essencialmente a filosofia Petals For Armor aplicada ao romance. Essencialmente, para fazer o seu amor resultar, Hayley teve de aprender a deixar cair os muros, a ser vulnerável, a ser forte em vez de impermeável, como vimos antes. Hayley está disposta a fazer a sua parte para que a relação resulte (“I give a little, you give a little”).

 

No refrão, Hayley fala em ser “experimental”. Segundo ela, é no sentido de descobrir como é ter uma relação adulta e saudável – a primeira da sua vida – ultrapassando o seu medo de intimidade. Também admitiu que pode ser interpretado no sentido sexual, mesmo não tendo sido essa a sua intenção quando escreveu a letra – iria em linha com o tema de Sudden Desire, na minha opinião.

 

Quase todas as músicas desta parte do álbum andam à volta deste tema. Fazem-me lembrar o casal Emma e Hook em Once Upon a Time. Não foi por acaso que me lembrei dela, entre outras personagens, quando Hayley apresentou a filosofia Petals For Armor. Lá está, o romance Captain Swan foi apenas a faceta romântica da coisa – foi, aliás, o último muro a cair.

 

Taken é muito parecida com Pure Love, parecendo quase uma continuação desta última. A instrumentação é praticamente a mesma: baixo, percussão, teclados (ainda que estes últimos só apareçam no refrão). Tem no entanto notas de guitarra que lhe dão um toque de blues – eu gosto. A melodia é mais grave, sem os agudos de Pure Love.

 

 

Mesmo a letra acaba por entrar em territórios parecidos, de uma forma mais vaga até. Fala sobre acreditar de novo no amor, estar disposta a arriscar, tornar oficial: Hayley já não está o mercado. Acrescenta pouco a um álbum que já tem Pure Love e Crystal Clear.

 

Não me interpretem mal, eu gosto de Taken – gosto do ritmo e das influências de blues. No entanto, se tivesse de retirar uma faixa a Petals For Armor, retirava esta – na minha opinião, seria a única em que não se notaria a falta.

 

Sugar on the Rim é uma das músicas mais divertidas e experimentais de todo o álbum. Está entre as minhas preferidas. Claras influências disco nos sintetizadores, os vocais meio artificiais repetindo “sugar on the rim”, o tom algo sexy. Definitivamente nada compatível com o que os Paramore fariam.

 

O título da música vem de uma técnica de preparação de cocktails, em que se fixa açúcar na borda no copo para enfeitar ou alterar o sabor de uma bebida. Brian uma vez fez isso com uma margarita durante um almoço com Hayley (com margaritas é mais comum usar-se sal), dando a ideia para esta canção. 

 

Esse açúcar na borda do copo serve de metáfora (bem… comparação, se quisermos ser rigorosos) para o amor, a alegria que contrabalança com a infelicidade. Ao contrário do Rose Colored Boy, não ignora o lado negro da vida – pelo contrário, Hayley fala em brincar com as sombras, diz que não tem medo do escuro. As coisas boas são suficientes para aguentar as coisas más – no final, doce é o sabor que fica nos lábios (pode também ser uma referência ao amargo em Leave it Alone).

 

 

Por outro lado, Hayley revelou que esta canção também é dedicada à comunidade gay. Suponho que seja por causa do “rimming” (vão ao Google… não em público, atenção!). Mas também a parte da vergonha e de viver escondido é algo com que, infelizmente, muitos da comunidade LGBT se poderão identificar.

 

É um conceito original e uma música muito gira. Se algum dia Hayley conseguir levar este álbum aos palcos, Sugar on the Rim será um ponto alto.

 

Watch Me While I Bloom é a única música nesta parte do álbum que não é uma canção de amor. Funciona um pouco como uma sequela a Rose/Violet/Lotus/Iris no sentido em que usa de novo metáforas florais – sobretudo na parte do “I myself was a wilted woman (...) forgot my roots, now watch me bloom”

 

É sobretudo a canção de vitória de Hayley, que depois dos anos mais difíceis da sua vida, voltou a ser quem era, sente emoções boas de novo. Uma Tell Me It’s Okay mais madura. Hayley está pronta para sair do seu casulo, para desabrochar, para mostrar um novo lado de si mesma. 

 

A música começa precisamente com “How lucky I feel to be in my body again” – aquilo que falámos antes sobre contacto com o próprio corpo. Por outro lado, ninguém me convence que o verso “Big invisible spark” não é uma referência a Let the Flames Begin, Part II e em particular Last Hope.

 

Hayley tem chamado a atenção para os versos “If you feel like you’re never gonna reach the sky ‘til you pull up your roots, leave your dirt behind, you’ve got a lot to learn”. Temos muito a tentação de esperar que a nossa vida esteja perfeitamente resolvida, com as pontas todas atadas, antes de irmos atrás do que queremos. Ou de achar que o processo é linear, que nunca daremos passos atrás. 

 

 

Ora, a vida não funciona assim. Nunca seremos perfeitos, nunca teremos as respostas todas e não podemos ficar parados por causa disso.

 

Havemos de regressar a essa ideia. 

 

Chegamos finalmente a Crystal Clear, a faixa que encerra Petals For Armor, outra que está entre as minhas favoritas. Esta foi outra das poucas em que Hayley não participou na composição da parte musical. Desta feita foi Taylor quem criou este instrumental, com notas de órgão algo etéreas e batidas à Phil Collins. 

 

Uma vez mais temos uma canção romântica, que fala sobre arriscar de novo, acreditar no amor. Quer-me parecer, no entanto, que quando Hayley promete não ceder ao medo não se refere apenas ao romance – também se pode aplicar a outras áreas da sua vida.

 

O título, aliás, pode também aludir à filosofia Petals For Armor. Crystal Clear, transparência, honestidade, vulnerabilidade.

 

Hayley recorre de novo a metáforas aquáticas para falar de um relacionamento amoroso, desta feita numa luz muito mais positiva – o que condiz com a sonoridade, que faz pensar em águas calmas e transparentes, raios de luz atravessando o subaquático. Ao contrário do romance descrito em Pool, este dá-lhe oxigénio em vez de tirar-lho. Não tem medo de mergulhar até ao fundo porque a água continua transparente. Hayley está a arriscar de novo – pode ser que seja desta. 

 

 
 
 
 
 
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O pormenor delicioso desta canção ocorre na parte final, com versos cantados por Rusty Williams, o avô de Hayley – ela trata-o por “Grandat”. Rusty era um “crooner” quando era jovem (consta que era o nome dado a cantores masculinos que cantavam baladas, como Frank Sinatra por exemplo) e Hayley cresceu ouvindo-o cantando canções de amor compostas por ele mesmo. A sua preferida é uma chamada Friends or Lover. Um dia, Rusty tocou-a ao piano em casa de Taylor. Este gravou-a e, como surpresa para Hayley, incorporou uma parte dos vocais de Rusty em Crystal Clear.

 

O Taylor é um anjo.

 

Ficamos assim a saber a quem Hayley sai. A jovem fala muito sobre os avós, que começaram a namorar aos doze anos e ainda hoje estão juntos (isto é, dentro do possível, foi esta a avó que caiu das escadas e perdeu faculdades). É super amoroso, uma bonita homenagem àquela que será a história de amor preferida de Hayley.

 

E é isto Petals For Armor. Como fomos observando, este álbum começou sombrio e tornou-se gradualmente mais luminoso. Mas não nos deixemos enganar, nenhum destes casos ficou completamente resolvido. Hayley afirmou que a sua vida contiua uma confusão, que ainda passa por cada uma das músicas de Petals For Armor. Ainda sente raiva, luto, medo, dor, amor, tudo. Ainda não tem todas as pontas atadas, ainda tem lições por aprender. “As histórias são infinitas, cada uma delas entrelaçada com dor e esperança”, escreveu ela quando lançou o álbum.

 

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Confesso que foi este o meu erro durante a era do Self-Titled: achar que já sabíamos tudo, que nunca voltaríamos atrás, que de alguma forma tínhamos ficado prontos para enfrentar qualquer coisa. Daí o choque quando Jeremy saiu da banda e com os temas abordados em After Laughter. A vida não é assim tão simples, de facto – e se a atual pandemia provou alguma coisa foi que tudo pode mudar de um momento para o outro, quase sem darmos por isso.

 

Por estranho que pareça depois deste testamento todo, ainda estou a processar o álbum. Gosto de todas as faixas, algumas mais do que de outras, mas não consigo escolher uma única como favorita absoluta. As minhas opiniões estão sempre a mudar. Daqui a uns meses, se calhar, terei novas coisas a dizer sobre este álbum.

 

Posso adiantar desde já, de qualquer forma, que Petals For Armor é um belo trabalho. Em termos musicais, é razoavelmente consistente em termos de instrumentação, conforme assinalado ao longo deste texto, mas é bastante eclético em termos de estilos musicais. Temos pop, new wave, disco, baladas, um bocadinho de rock, um bocadinho de jazz, um bocadinho de blues… Hayley e Taylor tiveram uma oportunidade de sair do território habitual dos Paramore, divertir-se um bocadinho noutros estilos musicais. Eu gosto de músicos multifacetados, que conseguem criar música em vários géneros – até porque eu mesma sou multifacetada, nunca fui de me interessar por uma só coisa.

 

Petals For Armor assemelha-se a álbuns como Melodrama e Post Traumatic no sentido em que as músicas funcionam muito bem como conjunto. O álbum é melhor que apenas o somatório das suas partes: vale tanto pelas músicas individuais como pela história que contam em conjunto. Um capítulo da história de Hayley, que continuará no próximo disco que ela lançar (quer a solo ou, mais provável, juntamente com os Paramore). 

 

Tivemos, aliás, uma combinação de temas novos, com perspectivas diferentes, com temas já recorrentes no cânone dos Paramore e não só. Raiva, luto, desejo, feminilidade no primeiro caso. Amizade, esperança, redenção, desgostos românticos e acreditar de novo no amor no segundo. Há coisas que são clichés por algum motivo – há lições que temos de estar sempre a aprender. 

 

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Devo dizer, ainda, que foi divertido estar a olhar para as metáforas e temas recorrentes deste álbum, mesmo nem todos sendo super originais. E estou grata por Hayley ter dado tantas entrevistas, fornecido tanto material para esta análise. Demoro mais tempo a escrever, escrevo autênticos testamentos – gastei quase noventa páginas A5 com o primeiro rascunho manuscrito (é certo que a minha letra é grande), isto já vai em quase dez mil palavras – mas é uma delícia.

 

O que acontece agora? O plano de Hayley era ir em digressão, levar Petals For Armor aos palcos, mas isto é 2020, um péssimo ano para planos. Ela tenciona ir em 2021, mas sabe-se lá se será possível – até porque a situação está catastrófica nos Estados Unidos. Não dá para calcular quanto tempo durará a era Petals For Armor – talvez mais um ano, talvez mais dois. Talvez a pausa nos concertos se prolongue tanto que Hayley se canse de esperar e ela e Taylor comecem a trabalhar noutra coisa. 

 

Já que falamos nisso, Hayley tem deixado pistas em relação à direção tomada no próximo álbum dos Paramore. Para o júbilo de muitos fãs, a jovem admitiu que ela e Taylor têm saudades das guitarras pesadas dos álbuns pré-After Laughter. 

 

Eu devo ser a única fã da banda que não fazia questão de regressar a essa sonoridade. Adoro as músicas antigas deles, claro que adoro, mas fazem parte do passado – tal como o cabelo cor de chama de Hayley. Nunca lhes pediria para voltarem para trás – a uma altura em que, agora sabemos, eles não estavam assim tão felizes. Não quando, hoje em dia, continuam a fazer música de qualidade, melhor até nalguns aspetos.

 

Mas se eles mesmo quiserem regressar a esse estilo não me queixo. O mais certo é adorar à mesma – tenho adorado todos os álbuns até agora… 

 

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Na verdade, mais do que o género musical, estou curiosa em relação à influência de Petals For Armor nos próximos trabalhos dos Paramore. Irá Hayley contribuir para a composição dos instrumentais ou voltará ao hábito antigo de esperar pelo material composto por Taylor e Zac? Por falar em Taylor, irá ele produzir os próximos álbuns sozinho? (Tenho quase a certeza que sim.) Voltarão a compôr com Joey? Irão incorporar estilos de Petals For Armor na música da banda?

 

Eu espero que sim, espero que algumas coisas mudem. Na minha opinião, seria um desperdício não aproveitar o que aprenderam com Petals For Armor para enriquecer o som dos Paramore.

 

Eu, aliás, tenciono escrever em breve sobre All We Know is Falling e Brand New Eyes, os dois álbuns que me faltam analisar. Estes são daqueles textos que ando a adiar há anos mas, pelo menos neste caso, estou contente por ter esperado. Não só porque, como já é habitual no cânone dos Paramore, Petals For Armor fez com que olhasse de maneira diferente para esses álbuns. Mas também Hayley prestou novos testemunhos sobre esses períodos nas múltiplas entrevistas que deu, em particular nesta.

 

Não vou escrever já já sobre esses álbuns. Depois de tanto tempo à volta de Petals For Armor, preciso de uma pausa de tudo o que se relacione com os Paramore.

 

Os meus planos a curto, médio prazo para este blogue ainda estão um bocadinho incertos. Estou a pensar escrever uma entrada de Músicas Ao Calhas, um texto mais rápido e curto que estes últimos dois e, possivelmente, os textos seguintes.

 

É aí que as coisas estão um pouco indefinidas. Já revelei antes que quero escrever sobre Hybrid Theory e Meteora dos Linkin Park em breve. Queria no entanto que o primeiro saísse no dia em que completa vinte anos, ou seja lá para 24 de outubro. Provavelmente começo já a escrever sobre ele em agosto. Sei que o texto vai demorar e, como em setembro e outubro devo estar ocupada com o meu outro blogue (porque, se tudo correr bem, a Seleção irá regressar, fazendo de mim uma mulher feliz), mais vale deixar o trabalho adiantado.

 

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Pelo meio, gostava de escrever sobre o filme Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna, quando conseguir vê-lo. Tecnicamente já dá para sacar na Internet, mas é uma versão de fraca qualidade, não me atrai. Talvez se surgir uma versão melhor entretanto… mas mesmo assim não sei. Supostamente o filme sairá nos cinemas portugueses a 12 de novembro – se isso se cumprir, eu quero ir ver, mesmo que já tenha visto o filme antes. E talvez espere por essa data para escrever e publicar a análise.

 

É assim que tenho sobrevivido a isto tudo: escrevendo, lendo, vendo Digimon (os episódios da nova versão de Adventure ao domingo e, quando esta esteve em pausa porque Covid, vi Frontier pela primeira vez), jogando Isle of Armor, a expansão de Pokémon Sword&Shield, recordando antigos jogos da Seleção Nacional, sobretudo no Euro 2016. Sempre foi mais ou menos assim, agora ainda mais. Como sempre, obrigada por lerem e por me aturarem. Até à próxima!

Hayley Williams – Petals For Armor (2020) #2

Segunda parte da análise a Petals For Armor. Podem ler a primeira parte aqui

 

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Hayley referiu que a divisão de Petals For Armor por partes se inspira também no ciclo de vida da borboleta: lagarta, casulo, borboleta. Uma vez mais, está longe de ser uma metáfora super original. Borboletas até têm sido um elemento recorrente no cânone dos Paramore (Brick by Boring Brick, a capa de Brand New Eyes, Part II, Still Into You…). Petals for Armor explora a sua simbologia mais comum: metamorfose. A trilogia de vídeos Simmer/Leave it Alone/Cinnamon parece inspirar-se nesse conceito. 

 

Falo sobre isto nesta fase da análise porquê? Porque a segunda parte de Petals For Armor corresponde à fase do casulo, a fase mais importante segundo Hayley – porque é quando ocorre a maior transformação. 

 

E de facto, tirando My Friend, todas as músicas da segunda parte de Petals For Armor representam transformação, mudança, de uma forma ou de outra. Dead Horse e Why We Ever ilustram etapas fulcrais na recuperação psicológica de Hayley, como veremos adiante. Por sua vez, Over Yet é uma canção motivacional, apelando à mudança. Por fim, um dos temas de Roses/Violet/Lotus/Iris é crescer e desabrochar. 

 

Falemos então sobre Dead Horse. Hayley foi dando pistas sobre esta música durante semanas, dizendo que estava com medo de lançá-la. Em parte por ser uma música mais pop, por ter medo que se tornasse a sua Hollaback Girl. Em parte porque traz partes negras do seu passado para a luz, é mesquinha tanto para o seu ex-marido como para si mesma. É a primeira da segunda parte da tracklist, mas foi a última a ser lançada. 

 

O instrumental de Dead Horse foi composto por Daniel James. Esta foi uma das poucas canções em Petals For Armor em que Hayley não participou na criação do instrumental – como costumava acontecer com os Paramore, o instrumental foi-lhe “dado”, ela “só” teve de compôr a letra e a melodia. 

 

A faixa, aliás, começa com uma mensagem de voz de Hayley para Daniel, quando lhe enviou os rascunhos em áudio – que foram partilhados no Instagram da jovem. Aparentemente atrasou-se no envio porque esteve deprimida. Fora desse contexto, no entanto, não é difícil ouvir a canção e imaginar que é um pedido de desculpas ao ex pelo que vai ouvir já de seguida.

 

 

Dead Horse tem uma sonoridade algo tropical, com notas de xilofone e batidas dançantes. Faz lembrar o estilo de After Laughter, embora se note que não foi Taylor a compôr este instrumental. Durante os trabalhos desse álbum, Hayley refilava por Taylor só lhe enviar música alegre quando ela se sentia na fossa. No entanto, nestas entrevistas Hayley admitiu que dançar enquanto cantava sobre temas difíceis a ajudava, tinha efeito terapêutico. O mesmo acontece com Dead Horse. 

 

Para falarmos da primeira estância, precisamos de falar sobre o elemento que falta: água. Hayley referiu em entrevista que este sempre foi um tema recorrente nos seus sonhos e pesadelos, daí ter composto algumas canções há volta do tema. Há uma referência breve em Proof, mas o maior exemplo é Pool. 

 

Esta é uma canção de After Laughter, mas Hayley, começou a trazê-la à baila em diversas entrevistas  – de forma algo inesperada na altura mas, depois de ouvirmos Dead Horse, fez sentido. Hayley revelou que Taylor compôs o – fantástico – instrumental, mas esta só conseguiu criar letras e melodias um ano depois. 

 

A jovem queria por força criar uma canção de amor, algo que provasse que o que ela e o ex-marido tinham era verdadeiro, que o casamento fora uma boa ideia. Aquilo que saiu foi uma música em que ela compara a relação a uma onda indomável, um mar agitado em que ela se está a afogar, mas em que ela insiste em mergulhar, à espera de um resultado diferente. E vocês sabem o que se diz de pessoas que fazem o mesmo outra e outra vez, à espera de resultados diferentes…

 

Para ser sincera, Pool é ainda uma das minhas preferidas em After Laughter e, antes disto, nunca me parecera assim tão sombria. A minha interpretação da água é diferente da de Hayley. A água é o meu elemento, representa liberdade, mistério, misticismo. Para mim o subaquático, mar agitado q.b., uma onda indomável, representam excitação, não perigo ou sofrimento. 

 

Mas, lá está, é a minha opinião, compreendo que nem todos vejam assim. 

 

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A primeira estância de Dead Horse é, assim, toda ela uma referência a Pool. A relação é de novo comparada a um afogamento, mas numa luz muito menos positiva. Da primeira vez que ouvi a música, os versos “Held my breath for a decade, dyed my hair blue to match my lips” deixaram-me de olhos arregalados durante o resto da faixa. Credo, Hayley… 

 

Quem não perceber, que vá ao Google e pesquise cianose.

 

A expressão “beat it like a dead horse” refere-se a insistir em algo que já não vai a lado nenhum. Como um casamento. A expressão “I sang along to a silly little song”  e suas variantes podem aludir a várias faixas antigas de Hayley. Toda a gente concorda que se refere às várias canções de amor que a jovem dedicou ao ex-marido – The Only Exception, Proof, Still Into You… – mas a mim também me recorda Stop This Song (Lovesick Melody), em que uma atração romântica e comparada a uma canção irresistível. 

 

Na segunda estância, então, sai a verdade feia: “I was the other woman first”. Hayley começou a andar com o ex quando este ainda estava casado com a primeira mulher, Sherri DuPree. 

 

Para ser sincera, ponho muito menos culpas em Hayley do que no ex. As facetas mais misóginas da nossa sociedade gostam de falar na “outra”, na mulher provocante que seduz um homem para o pecado mas, por amor de Deus, Hayley era uma miúda! Legalmente já era adulta, tinha dezoito ou dezanove anos, mas na prática gente dessa idade ainda mal deixou a adolescência.

 

Por sua vez, o ex já tinha vinte e seis anos, era um homem feito, casado, experiente – enquanto que, para Hayley, conforme referido acima, aquela seria provavelmente a primeira ou quando muito a segunda relação a sério. Acham mesmo que a iniciativa partiu dela?

 

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Hayley assume que estava numa posição vulnerável na altura em que começou a andar com o, agora, ex-marido. Ela e Josh tinham terminado a relação há pouco tempo e os Paramore enquanto banda estavam em guerra. Hayley sentia-se sozinha, provavelmente com a auto-estima em baixo, quando um músico como ela, mais velho, começou a mostrar interesse por ela, ela foi na cantiga.

 

Não quero com isto dizer que Hayley está isenta de culpas. Ela podia ser ainda nova, mas já tinha idade suficiente para saber o que estava a fazer, ao envolver-se com um homem casado. Não é a primeira a cometer este erro, não será a última. Eu mesma não posso garantir a cem por cento que dessa água não beberei – às vezes a paixão e o desejo falam demasiado alto. Mas não deixa de ser um erro, algo que magos profundamente as partes envolvidas. 

 

Hayley tem dado a entender que esteve muito tempo em negação, enterrando bem a fundo essa vergonha ("Held my breath for a decade"): o facto de ter roubado o marido a outra mulher. Tentou racionalizar a coisa, justificar o que fizera a Sherri, dizendo a si mesma e a toda a gente que o ex era o amor da vida dela, a sua… a sua única exceção. 

 

Mesmo quando a coisa começou a descambar, mesmo quando ele começou a trair Hayley (ainda há pouco tempo vimos que, regra geral, se ele ou ela traiu alguém contigo, mais cedo ou mais tarde vai trair-te também), ela insistiu, manteve o noivado, manteve o casamento. Hayley queria, ao mesmo tempo, imitar o casamento vitalício dos seus avós e queria evitar aqueles que, aos seus olhos, tinham sido os erros dos pais. Ao contrário deles, ela conseguiria manter um casamento, em vez desistir à primeira dificuldade. 

 

Ai Hayley, Hayley… 

 

O estado em que ela ficou nestes últimos anos não surpreende tendo em conta os sonhos de que teve de acordar, aquilo que teve de admitir a si mesma e ao mundo inteiro. Pode ter sido essa a batata quente a que After Laughter parece aludir, o piano que caiu em cima dela, conforme referiu no texto que escreveu há dois anos. Não admira que, hoje em dia, Hayley não queira nem ouvir falar de Misery Business (e aqui entre nós, quando descobri que a rapariga a quem a música chama p*ta tinha treze ou catorze anos nos eventos que inspiraram a letra… yep, cancelem Misery Business). 

 

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Sim, as botas que Hayley enche de cimento no videoclipe são as mesmas que usou no casório. Ela mesma o confirmou.

 

Há que dar crédito à Hayley – não é toda a gente que admite erros deste calibre assim, preto no branco. Faz parte da filosofia Petals For Armor: mostrar as partes feias. Deitar cá para fora a raiva, a vergonha, a mesquinhez para, depois, seguir em frente. 

 

Felizmente, consta que Hayley a certa altura entrou em contacto com Sherri e pediu-lhe desculpa. Continuo a achar que o maior culpado é o ex – que ainda por cima já arranjou uma terceira noiva, uma mulher ainda mais nova que Hayley. 

 

Em todo o caso, Dead Horse termina com "And now you get another song". Que seja a última. 

 

Não há muito a dizer sobre My Friend. Musicalmente, está dentro do estilo da maior parte do álbum: notas de guitarra, baixo e bateria leve nas estâncias, teclados no refrão. A letra é uma homenagem a Brian, melhor amigo de Hayley, seu esteticista e co-fundador de Good Dye Young. Conforme Hayley referiu quando lançou a música, eles conhecem-se desde o fim da adolescência, acompanharam-se um ao outro durante muitos altos e baixos (ambos se divorciaram no mesmo ano), são unha e carne. 

 

My Friend está longe de ser um grande destaque em Petals For Armor, mas não deixa de ser uma música bonita. É a World’s On Fire deste álbum – a música que homenageia as pessoas que ajudaram na recuperação emocional descrita em Petals For Armor. 

 

Over Yet é algo diferente da generalidade das músicas em Petals for Armor. É conduzida pelo baio, como várias outras, mas tem um ritmo mais rápido, uma sonoridade algo new wave, à anos 80 e 90 – não muito diferente de algumas faixas de After Laughter. É uma música estival – não admira, tendo em conta que Hayley a compôs, juntamente com Joey e Stephanie Marziano durante uma curta escapadinha de verão – muito gira, com uma mensagem de otimismo e motivação…

 

 

...que não tem nada a ver com o que tem vindo de Hayley nos últimos anos.

 

Lembro-me de ter estranhado logo no dia em que saiu. A letra parece ter sido escrita do ponto de vista do Rose Colored Boy, com o tom otimista irritante de que Hayley se queixava em After Laughter. Diz essencialmente “what doesn’t kill you makes you stronger”

 

Cheguei a perguntar-me se Hayley tinha sido raptada e Over Yet era a maneira que arranjara de pedir ajuda. 

 

Hayley revelaria mais tarde que, de facto, estranhara a letra otimista que lhe estava a sair da caneta. Para terminá-la teve de se imaginar na pele (pele é como quem diz…) de uma instrutora de aeróbica num universo distópico futurista que, a meio da canção, perde a pele revelando ser um robô (podia ser uma personagem de Sonic Underground). De uma maneira paradoxal, para escrever esta letra luminosa, Hayley teve de aceder a uma parte bastante sombria de si mesma.

 

Eu confesso que, de início, não adorei a letra. Em parte por causa do timing: saiu no início de abril, em pleno estado de emergência. It’s the right time to come alive? Qual quê! Aquela ela a altura perfeita para não nos levantarmos da cama – para quê, se nem sequer podíamos sair de casa? Mesmo quando Hayley publicou um vídeo de aeróbica (com o cabelo pintando de laranja. Não me parece que tenha sido coincidência), não me entusiasmei – para ser justa, apanhou-me num mau dia.

 

No dia seguinte, no entanto, lá experimentei fazer os exercícios do vídeo. Durante todo o mês de abril e parte do mês de maio fiz este vídeo quase todos os dias, para compensar pela falta de natação e de longos passeios a pé.

 

 

Este sim é o tipo de exercício, de dança, que está dentro das minhas capacidades. Não digo que fizesse todos os passos na perfeição, mas ao menos mexia-me. De início fazia os exercícios de calças de ganga porque nem sequer tinha calas de fato de treino – como nunca fui de ir ao ginásio, nunca tinham feito falta. Além disso, nunca gostei de leggings e, parva como sou, não me lembrei de calças de pijama. Eventualmente comprei um par online.

 

O vídeo de Over Yet tornou-se, assim, parte da minha rotina durante o estado de emergência. Infelizmente, quando retomei o horário normal do trabalho, deixei de ter tempo – e, sejamos sinceros, energia – para fazer o vídeo. Eu na verdade devia retomar esse hábito… mas está demasiado calor. Em todo o caso, fez com que me afeiçoasse à música. 

 

Como referido acima, Hayley alega que a mensagem de Over Yet não é completamente honesta, insinuando mesmo que é uma paródia. O que é estranho, tendo em conta o conceito deste álbum. 

 

Além disso, a letra não me parece tão pouco genuína quanto isso. Pode aproximar-se perigosamente do cliché, mas incorpora o estilo de escrita de Hayley, dando-lhe um carácter próprio. Frases como “make it a friend”, “get out of your head” (um conceito familiar em saúde mental) e, sobretudo “for every darkened part of me, there’s a light I can see, both belong, both are me”). 

 

Não é a primeira vez que refiro aqui, aliás, que Hayley tem dentro de si partes cínicas e partes sonhadoras e isso nota-se na música dela. Ela pode racionalizar como quiser mas a letra de Over Yet veio de algum lado.

 

E não há mal nenhum nisso. Às vezes precisamos mesmo de uma música motivadora, mesmo que não muito original, para nos dar energia. Ou, pelo menos, para fazermos aeróbica em confinamento. 

 

 

Num álbum chamado Petals For Armor, era de esperar pelo menos uma canção sobre flores. Essa é Roses/Violet/Lotus/Iris. De início não achei grande piada ao título comprido – não teria sido melhor chamar-lhe Flowers ou Garden? Mas acabei por me habituar – sobretudo depois de decorarmos a letra do refrão. 

 

Musicalmente temos de novo a prevalência do baixo, mas também temos guitarra acústica e violinos delicados. A mim soa-me um pouco a música de fundo, à banda sonora de um documentário sobre a Primavera – o que até condiz com a letra. Confesso que precisei de algum tempo para tomar-lhe o gosto. A faixa conta com a participação das cantoras Julien Baker, Phoebe Bridger e Lucy Dacus, que formam o grupo boygenius. 

 

Roses/Violet/Lotus/Iris usa flores como metáfora para feminilidade e resiliência, força e vulnerabilidade em simultâneo. Uma analogia que, a própria Hayley admite, é tão velha como o tempo. Flores representam a jornada emocional de Hayley, de “mulher murcha”, abrindo caminho através da terra até desabrochar à superfície. Flores crescem a ritmos diferentes, sem se prejudicarem umas às outras, por vezes com a ajuda uma das outras.

 

O lótus em particular, referido no refrão, cresce em lama ou em águas estagnadas. Daí que, em várias culturas, simbolize beleza interior, pureza, renascimento, visto ser capaz de se alhear do ambiente feio e hostil onde nasce e desabrochar à superfície com grande beleza. 

 

Flores silvestres em geral, que adoro ver nos campos, sobretudo durante a primavera, nascem onde querem, quando querem, segundo as suas próprias regras. A papoila vermelha, a minha flor preferida, livre para crescer num campo qualquer. 

 

Roses/Violet/Lotus/Iris possui, assim, uma mensagem feminista sobre resiliência, rebeldia e solidariedade feminina. Um dos temas recorrentes nas entrevistas disse respeito à misoginia que teve de enfrentar ao longo de toda a sua carreira. 

 

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Ao mesmo tempo, nem sempre terá tido as melhores relações com outras mulheres. Veja-se a misoginia internalizada de Misery Business e também a história contada em Dead Horse. Uma das coisas que Hayley aprendeu nos últimos anos foi, então, a abraçar a sua própria feminilidade e a cultivar amizades com outras mulheres. Roses/Violet/Roses/Iris é uma homenagem a isso.

 

Segundo Hayley, Why We Ever reflete um ponto de viragem na sua vida. Conforme Sudden Desire dera a entender, Hayley entrara noutra relação após o seu divórcio. Até estaria a correr bem mas, segundo o que consigo deduzir das declarações de Hayley, o seu medo de ser magoada de novo levou a que sabotasse a relação – magoando o parceiro, ironicamente.

 

Uma coisa é Hayley sofrer por causa do seu passado, pelos múltiplos divórcios dos pais, pela falta de estabilidade na infância, pela relação tóxica que durou uma década. Outra coisa é quando outras pessoas, entes queridos de Hayley, saem magoados. 

 

Terá sido nesta altura que Hayley percebeu que os seus traumas, o seu medo de abandono, afetavam todas as suas relações, nem sequer apenas as românticas (eu pergunto-me mesmo se terão contribuído, pelo menos em parte, para os múltiplos conflitos nos Paramore). Atraía pessoas tóxicas e alienava pessoas boas. Estava na altura de mudar isso, de Hayley tomar responsabilidade pela sua própria saúde mental, identificar os seus maus hábitos e tentar mudá-los, aprender a amar melhor. 

 

Isto é tudo muito bonito (não estou a ser irónica), mas se ouvíssemos a música por si só, sem contexto, não chegávamos ao significado oficial. Why We Ever parece apenas sobre uma relação falhada, sobre saudades e arrependimento, em que a narradora quer uma oportunidade para pedir desculpa e consertar as coisas. Tudo muito vago – o que é uma pena. Se Why We Ever refletisse a história por detrás dela como deve ser, teria uma letra muito diferente. 

 

 

Musicalmente, Why We Ever é conduzida pelo teclado, a que mais tarde se junta o baixo, a bateria e notas de guitarra. Terá sido a primeira música que Hayley gravou sozinha em sua casa, usando o ProTools e equipamento que comprou em finais de 2018 – embora a primeira tentativa não tenha saído grande coisa. Dá para ver vídeos dessa experiência no seu Instagram

 

A mim recorda-me o cover de Nineteen, de Tegan e Sara, que Hayley gravou em 2017. Esta é uma versão minimalista, apenas com sintetizadores e voz. Tem um tom mais intimista e vulnerável que a versão original, parecido ao de Why We Ever.


Em retrospetiva, não admira que Hayley tenha gravado este cover naquela altura. A jovem teria, de facto, dezanove anos no início da relação com o, agora, ex-marido. E este cover saiu poucos meses após o anúncio do divórcio. Pergunto-me a quem se dirige o verso que Hayley acrescentou, “Could you blame me?”. Ao ex, a Sherri ou a si mesma?

 

E com isto chegámos ao fim da segunda parte de Petals For Armor, ou seja, ficamos por aqui hoje. Regressem amanhã para a terceira parte. 

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