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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Lorde – Solar Power (2021) #2

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Segunda parte da análise a Solar Power. Podem ler a primeira parte aqui. Como poderão ler, a primeira parte desta análise terminou com uma canção de amor. Esta vai começar com outra canção de amor, ainda que menos convencional. Pelo menos no que toca ao seu destinatário: o seu cãozinho Pearl, entretanto falecido. 

 

Tenho de confessar que gosto desta música mais do que devia, mais do que esta merece – por motivos óbvios. Musicalmente, tem problemas semelhantes a The Man with the Axe: a instrumentação é minimalista no mau sentido, sem presença. Os vocais são um bocadinho melhores em Big Star, mas não muito – o refrão sobretudo precisa desesperadamente de intensidade.

 

A sorte de Big Star é que o assunto da letra apela diretamente ao meu coração – e ao de muitas pessoas, aposto. Quando Lorde compôs a música, Pearl ainda estava vivo. Ela referiu inclusivamente ter o cãozinho aos seus pés enquanto ela estava ao piano.

 

A letra fala de muitas coisas que se aplicam a mim como dona da Jane: os nossos cães sendo melhores pessoas do que nós mesmos, dando-nos uma nova razão para apreciar o ar livre, ponderando os prós e contras na hora de viajar, ou mesmo de sair à noite. Pela parte prática de saber quanto tempo conseguem ficar sozinhos em casa e de arranjar quem tome conta deles, mas também porque teremos saudades deles. O refrão é basicamente o meu Instagram. 

 

De notar que a letra usa uma linguagem simplista, inocente, o que faz sentido. É assim que falamos com os nossos cães, como se fossem crianças pequenas. 

 

Não era suposto esta ser uma música triste. Passou a sê-lo depois de Pearl ter falecido. O verso “I’ve got so much to tell you and not enough time to do it” dói particularmente. Lorde diz que ainda hoje sente saudades de Pearl (se bem me recordo, estará a fazer dois anos desde a morte dele nesta altura). Eu compreendo. Aliás, nem posso pensar nisto demasiado a fundo sem que me venham lágrimas aos olhos.

 

*pausa para sessão de festinhas à Jane*

 

 

Olhemos agora para a outra faixa extra. Hold No Grudge, uma das minhas preferidas. Tem uma sonoridade algo diferente do resto do álbum: usa a tal guitarra Fender, alguma guitarra acústica mas, ao contrário do resto do álbum, a percussão é eletrónica. Não são as mesmas batidas fortes de Pure Heroine e algumas músicas de Melodrama. São mais discretas, mas são uma alternativa agradável às múltiplas faixas sem percussão no resto de Solar Power. Gosto muito dos vocais, sobretudo os backvocals no segundo refrão e no fim da música.

 

Em termos de letra, é uma música de separação – de uma relação que, aparentemente, terá terminado há alguns anos. Lorde invoca recordações felizes, contrastando com o presente: já não se recorda de como o amado cantava, já não se recorda do aniversário dele e ele agora namora com outra.

 

Lorde não leva nada disso a mal, no entanto – um contraste claro com Melodrama, sobretudo Hard Feelings. Pontos para o amadurecimento, até porque é possível que esta seja a mesma relação explorada no segundo álbum. Lorde não o odeia, perdoa-lhe e deseja que ele seja feliz. Ella soa particularmente terna no refrão e nos versos finais. 

 

Hold No Grudge merecia fazer parte da edição padrão. Era assim que a maioria de Solar Power devia ser.

 

Falemos agora sobre músicas que fazem comentário social. Começando por Fallen Fruit. Esta é das melhores músicas da segunda categoria em termos de instrumental: não tem percussão, mas tem duas guitarras, a Fender e a acústica, com o tal tom psicadélico que referi antes. Em termos de vocais, é uma das melhores, um belo exemplo de Lorde harmonizando consigo mesma. 

 

A única coisa de que não gosto é de uma espécie de apito que soa de vez em quando. Irrita um bocadinho.

 

 

A letra tem uma mensagem ambientalista, acusando as gerações anteriores à nossa de terem arruinado o planeta para os seus filhos e netos. A Terra é comparada a fruta caída – algo com um prazo de validade curto, obviamente. 

 

Era inevitável este tema surgir num álbum (que se diz) inspirado pela natureza, sobretudo depois de Lorde ter estado na Antárctida. Ella admite que não é uma ativista climática, que não tem autoridade para andar por aí a pregar. No entanto, está a fazer um esforço para reduzir a sua pegada ecológica. Trocando o lançamento de CDs por “music boxes” de cartão com códigos para download, planeando uma digressão mais pequena e amiga do ambiente, entre outras coisas.

 

As próximas duas músicas de que vamos falar pertencem à segunda categoria, mas deixam muito a desejar em termos de qualidade. Uma delas é Dominoes.

 

Na semana em que saiu o álbum, esta era uma das músicas em torno da qual se estava a criar algum hype. Na altura fiquei com a ideia de que iam lançar um videoclipe para Dominoes durante a madrugada de sexta-feira, 20 de agosto. De tal forma que dormi mal nessa noite, com a excitação. No entanto, de manhã vi que o vídeo era apenas uma apresentação com Jack Antonoff na guitarra. E quando a ouvi, tive a mesma reação que tive quando saiu a primeira versão de Find Me Here:

 

– ...só isto?

 

 

Dominoes é uma faixa curtinha, guiada apenas pela guitarra Fender. Tem um tom mais animado do que as outras músicas da segunda categoria, mas isso acaba por se virar contra si mesma. Mais ainda do que músicas como Big Star e The Man with the Axe, Dominoes pede um instrumental mais completo.

 

Um elemento nesta música de mau gosto, na minha opinião, são sirenes. Consta que esta música foi gravada no estúdio Electric Lady, em Nova Iorque, num verão em que houveram vários protestos – ou seja, é possível que tenha sido em 2020, embora ela não o tenha confirmado preto no branco. Se foi de facto no verão no ano passado, terá coincidido com os protestos do Black Lives Matter. Ella deixou a porta do estúdio aberta para que os microfones captassem “o som do verão”.

 

Sou a única que acha isto uma falta de noção gritante? Ainda se a música em si fosse inspirada, direta ou indiretamente, pelo que estava a acontecer… Mais do que as queixas sobre o peso da fama, isto é coisa mesmo à menina branca e privilegiada: tratando um movimento contra a violência policial, algo que mata seres humanos, como um pormenor engraçado para incluir numa música. Estou surpreendida por não ter havido mais polémica em torno disto.

 

Enfim, passemos à letra. Dominoes fala sobre um sujeito que não presta, mas que se vai esquivando às críticas embarcando em correntes, como por exemplo a dos hippies nos anos 60. Do género “eu já não sou a mesma pessoa que magoou a minha ex. Agora estou numa de “new age”, de “peace and love”, planto flores e tudo!”

 

Este é um tema recorrente em Solar Power – ou pelo menos é o que Lorde diz, que na prática não é bem assim. Ella revelou que tem encontrado paralelismos entre a cultura hippie dos anos 60 e 70, de fugir ao mundo moderno e abraçar a natureza e a paz, e alguns movimentos dos dias de hoje. O cottagecore (assumo eu) e a cultura de wellness, como veremos já de seguida. 

 

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O videoclipe de Solar Power parece explorar esse conceito: uma comunidade que vive na praia, aparentemente sem nenhuma das tecnologias do mundo moderno. Lorde tinha referido que o álbum decorre todo numa ilha, que inclui essa praia. Tenho andado desapontada por ainda não termos visto esses videoclipes, tirando Mood Ring – que decorre num cenário diferente, embora não seja difícil imaginar que fique nessa mesma ilha.

 

Ainda dentro deste assunto, temos Leader of A New Regime. A letra pinta um cenário pós-apocalíptico em que a narradora – que será uma avatar da própria Lorde – foge para uma comunidade onde estarão os últimos sobreviventes. Um pouco como aconteceu nos anos 60, a situação está caótica devido ao consumo de drogas e à falta de autoridade em geral. Procura-se, lá está, alguém que lidere esta nova sociedade.

 

Este até seria um conceito interessante se fosse explorado como deve ser. Voltamos a ter uma música demasiado curta – é a mais curta do álbum, só um minuto e meio, ridículo.  Voltamos a ter instrumentação escassa – só guitarra e vocais. Para ser justa, é de novo Lorde harmonizando consigo mesma, criando um efeito psicadélico que condiz com o tema.

 

O facto de, nesta parte do álbum, ser a quarta música neste estilo, com os mesmos problemas, não ajuda. É um alívio quando, depois, ouvimos as primeiras notas de Mood Ring. Finalmente, alguma vida neste álbum!

 

Mood Ring é uma das minhas preferidas neste álbum. Começando pela sonoridade: um tema da primeira categoria, combinando elementos mais etéreos – os vocais de Lorde, sobretudo – com a bateria e as guitarras acústicas. Um pouco como uma colaboração entre Enya e Natalie Imbruglia.

 

 

No que toca a letra, Mood Ring é daquelas músicas que se pode aplicar a múltiplas situações. Segundo Lorde, é uma sátira. A narradora é uma personagem ficcional, diferente de Ella, mais velha, que pinta o cabelo de loiro, será um bocadinho Karen (“the whole world is letting me down”) e tem dinheiro para gastar. Lorde admite que partilha algumas características com esta personagem – e, de facto, pode-se discutir onde é que Ella acaba e a narradora começa. Ao mesmo tempo, apesar de ser uma sátira, Lorde diz sentir compaixão pela personagem que criou.

 

No fundo, isto é algo que Lorde sempre fez, sobretudo com Melodrama: comentário a uma determinada tendência enquanto participa na mesma. 

 

Mood Ring pode aplicar-se, assim, a vários movimentos dos dias de hoje. Desde a ditadura do pensamento positivo (já abordada em Fake Happy e Rose Colored Boy), astrologia, certas medicinas alternativas, a cultura de wellness em geral, as Gwyneth Paltrow e Gustavos Santos desta vida, a filosofia do livro “Comer, Orar e Amar”, que estava na moda há coisa de uma década, mesmo o culto do sol e da natureza praticado por Lorde em Solar Power. 

 

Por acaso – ou não – desde que a música saiu, tenho encontrado uns quantos artigos e vídeos sobre estes assuntos – alguns dos quais tenho partilhado na página de Facebook deste blogue. Temos este excelente vídeo do The Take, que desmonta Goop, de Gwyneth Paltrow – embora se tenham esquecido de referir que muitas destas práticas foram apropriadas de culturas asiáticas, africanas e sul-americanas. 

 

Por outro lado, este artigo do The Guardian fala sobre negacionistas e/ou anti-vacinas nestas comunidades de wellness. Inclui a história chocante de uma mulher com cancro da mama terminal, a quem convenceram que a sua doença era culpa dela, porque supostamente reprimiu a sua sexualidade ou uma treta qualquer do género. 

 

Não vou dizer que não compreendo o apelo destas práticas. Pelo menos as coisas mais soft. Acredito que coisas como ioga e meditação possam trazer benefícios. Também compreendo o apelo do tarot, por exemplo, mais pelos simbolismos e referências culturais ​​– afinal de contas, as cartas de tarot terão sido no século XV como cartas de jogo. Só a partir do século XVIII é que começaram a ser usadas como futurologia. Mesmo essa parte, eu encará-lo-ia mais como um exercício de auto-reflexão do que realmente uma leitura do futuro.

 

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Por outro lado, sou uma mulher de ciências e estou numa carreira científica, mas tenho colegas que levam os signos mais a sério do que esperava. Admito que já me tenha influenciado um pouco mas, para mim, acaba por ser o equivalente àqueles testes do Buzzfeed que determinam que personagem de Friends vocês seriam ou assim: algo para entreter ou, quanto muito, para auto-reflexão, mas não para levar demasiado a sério. 

 

Em todo o caso, o denominador comum a praticamente todas estas práticas é o desejo dos participantes de encontrarem um propósito para as suas vidas, controlo sobre aspetos que, muitas vezes, são incontroláveis. É aqui que Lorde se identifica com a narradora de Mood Ring.

 

A narradora, no fundo, sabe que nada daquilo funciona, mas quer desesperadamente que funcione. Quer desesperadamente ver as roupas do rei que vai nu. O anel do humor, que dá o título à música, é um símbolo dessa mentalidade: algo que toda a gente com dois dedos de testa sabe que não funciona, mas toda a gente finge que funciona. Acaba por me lembrar, um pouco, Perfect Places, sobretudo nos versos “Take me to some kind of place”, já que também fala em procurar respostas nos sítios errados.

 

Em suma, Mood Ring é a música mais interessante em Solar Power.

 

Chegamos, finalmente, a Oceanic Feeling, que encerra a edição padrão do álbum. Lorde diz que é a sua preferida, mas apenas porque foi a última a ser composta.

 

De uma maneira estranha, vejo Oceanic Feeling menos como uma canção normal, por si só, mais como banda sonora, música de fundo no bem sentido. Uma “vibe”, como se diz hoje em dia. É pouco provável que a oiça fora do contexto deste álbum ou de uma playlist de verão, como a minha

 

 

Musicalmente, começa minimalista, quase só com vocais de Lorde. Sobretudo nas primeiras vezes que a ouvi, lembrava-me de músicas como Bravado e a reprise de Liability e ficava à espera de batidas à Pure Heroine (o mesmo acontecia com The Path). Aqui, no entanto, ouvem-se cigarras (que Lorde quis incluir no álbum por fazerem parte da banda sonora do verão neozelandês. Também fazem parte do nosso) e, mais tarde, bateria ao vivo.

 

Faz-me lembrar Edge of the Ocean, de Ivy, que acaba por ter um tema semelhante.

 

Oceanic Feeling é uma das poucas músicas neste álbum que se encaixa no conceito de “ode ao sol e à natureza”, que Lorde insiste que é o tema principal. Funciona como uma continuação temática de Solar Power, a música: Lorde fala sobre passar o dia à beira-mar com a sua família, pescando ou mergulhando do Bulli Point (um penhasco na Nova Zelândia), imaginando o pai fazendo o mesmo na sua juventude e os seus futuros filhos, no seu tempo.

 

Voltamos ao tema da renúncia à vida de estrela pop. O batôn preto, símbolo da era de Pure Heroine, esquecido numa gaveta qualquer. Nos últimos versos da música ​​– que me recordam a mensagem de Perfect Places ​​– Lorde refere que ainda não encontrou todas as respostas, mas vai continuar a procurá-las na praia e na natureza. E brinca com a ideia de, um dia, virar definitivamente as costas ao mundo da música.

 

E é isto Solar Power. É o segundo álbum editado este ano por uma cantora que adoro que, não sendo mau, ficou abaixo das minhas expectativas. O caso de Solar Power foi pior pois, ao contrário de Flowers For Vases, um lançamento surpresa, estávamos à espera do terceiro álbum de Lorde há um par de anos.

 

Solar Power, aliás, tem alguns problemas em comum com Flowers For Vases: o minimalismo mal executado, faixas incompletas quase todas de seguida, fazendo com que o álbum se arraste. E Lorde não tem a desculpa de ter criado o álbum completo praticamente sozinha, ao contrário de Hayley Williams. Há quem culpe Jack Antonoff pela produção fraquinha. Eu não sei o suficiente sobre o trabalho dele para opinar, mas não me surpreendia se a era dele estivesse a chegar ao fim.

 

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Em junho e julho não me imaginava dizendo isto, mas o tema Solar Power é um dos meus preferidos e gostava que o resto do álbum fosse mais parecido com ele. Aliás, os singles neste álbum ​​– Solar Power, Stoned at the Nail Salon, Mood Ring ​​– foram bem escolhidos, no sentido em que quase todas as outras estão uns quantos furos abaixo (exceto as faixas extra). 

 

Alguns fãs têm acusado Solar Power de ser um álbum demasiado alegre para o gosto dos demais. Não concordo por dois motivos. Primeiro, ao contrário de muitos, não acho que música alegre seja inerentemente inferior a música triste. O estereótipo do artista torturado, como Van Gogh, é um conceito perigoso (mas isso daria azo a um texto à parte). E, como disse antes, ando com falta de música mais animada.

 

Segundo… este não é um álbum assim tão alegre quanto isso. Não que chegue a ser propriamente pesado ou deprimente mas, lá está, as músicas lentas e incompletas roubam vida a um álbum que se queria animado, de verão.

 

O meu problema não é o estilo nem o conceito de Solar Power. O que eu queria era mais das partes boas e menos das partes más. E queria também aquilo que nos foi prometido: um álbum de celebração do sol, do verão e da natureza, não Lorde queixando-se de ser estrela pop música sim música não.

 

Mas pronto, foi o que tivemos. Entretanto, consta que Lorde tem andado a criar música e tem brincado com a ideia de lançar um álbum em breve. Não teríamos de esperar mais quatro anos pelo próximo. Se realmente vier outro, esse deverá ser mais triste que Solar Power ​​– possivelmente processando mais a fundo a morte de Pearl, algo que não coube no terceiro álbum.

 

Ou então, Lorde pode decidir hibernar outra vez durante dois ou três anos. Não me admirava.

 

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De qualquer forma, espero que o próximo trabalho de Lorde seja um bocadinho melhor, mesmo que fique aquém dos primeiros dois álbuns dela. 

 

E é tudo por hoje. Agora tenho de tratar da análise a Fronteira, mas ainda não terminei a segunda maratona. Esta temporada é bem menos cativante que as anteriores, revê-la tem sido custoso. Vou fazer um esforço a partir de agora, mas ainda assim deve demorar. Obrigada pela vossa visita.

Lorde – Solar Power (2021) #1

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Quatro anos depois do último álbum, mais de dois anos depois de se ter escondido das luzes da ribalta, a cantora neozelandesa Ella Yelich-O’Connor, mais conhecida por Lorde, lançou finalmente o sucessor ao excelente Melodrama no dia 20 de agosto: Solar Power. Nesta altura, os fãs já conheciam três músicas do álbum. Falei sobre a primeira, com o mesmo nome, aqui. Agora vamos falar sobre o álbum inteiro. Como o costume, tenho bastante para dizer, assim, este texto virá em duas partes. Publico a segunda amanhã.

 

Vou dizê-lo já, sem rodeios: Solar Power não chega aos calcanhares nem de Pure Heroine nem de Melodrama. Eu não estava à espera que chegasse – pelo menos não aos de Melodrama. Tinha a esperança de que Lorde fizesse um brilharete pela terceira vez, mas seria sempre difícil.

 

Ainda assim, esperava algo um pouco melhor do que isto. 

 

Comecemos pela sonoridade. Alguns fãs não gostaram do corte com o som mais eletrónico e a percussão dos álbuns anteriores, sobretudo do primeiro. Eu pessoalmente não me importo, mas existem músicas melhor conseguidas do que outras.

 

Eu dividiria as faixas de Solar Power em dois grupos. Na primeira categoria temos números folk pop, guiados por guitarras acústicas à Natalie Imbruglia com bateria ao vivo. Na segunda categoria temos músicas sem percussão, guiadas por uma guitarra Fender Jaguar tocada como se fosse uma guitarra acústica, focadas nos vocais, muitas vezes com um tom sonhador e vagamente psicadélico, à anos 60 e 70. Nem todas as faixas se encaixam perfeitamente nestas categorias, mas por uma questão de simplicidade vou recorrer várias vezes a estas designações. 

 

 

Vou, aliás, começar por uma música com características de ambos os grupos: The Path, que também abre o álbum e é uma das minhas preferidas. Esta começa com a guitarra Fender e Lorde harmonizando consigo mesma nos vocais. Mais tarde entra a bateria, depois a guitarra acústica e a música ganha uma nova vida. 

 

Antes de falarmos da letra, devo referir uma das minhas principais críticas a Solar Power. O facto de este não ser o que nos foi prometido. Lorde descreve Solar Power como um álbum de celebração do sol e da natureza, mas isso só se aplica a três canções no máximo. Daquilo que eu oiço, mais do que outra coisa, Solar Power é Lorde dizendo que não quer ser uma estrela pop.

 

Nesse aspeto, The Path é uma boa introdução àquele que é o principal tema de Solar Power. Funciona, aliás, como a Idle Worship de Lorde, ainda que menos sombria e ressentida. “If you’re looking for a saviour, well that’s not me”. Refere ainda que tem “pesadelos com flashes de câmaras”, que fugiu a tudo para o sol e para a natureza e não atende chamadas “da editora ou da rádio”. 

 

Outra música que explora a fuga à fama é California. A letra descreve o estilo de vida de Hollywood: o luxo, a bebida, as pessoas bonitas, muitas delas antigas crianças-prodígio, mas também a falta de privacidade e os juízos de valor – tendo sido isso que a fez fugir para o sol da sua terra. Noutra música, The Man with The Axe, Lorde refere ansiedade só de pensar em concertos – ao ponto de ter tido um ataque de pânico aquando de uma atuação perante a família real norueguesa.



É curioso estas músicas terem saído nesta altura, quando ser uma estrela pop, sobretudo no feminino, nunca teve tão pouco apelo. Veja-se o que aconteceu com duas das maiores cantoras dos últimos vinte anos. Britney Spears foi praticamente escravizada pelo próprio pai e só agora é que conseguiu recuperar o controlo sobre a sua própria vida. Taylor Swift, por comparação, teve mais sorte. Mas ainda assim, para além do habitual escrutínio e falta de privacidade, perdeu os direitos da sua própria música, estando agora a regravar os seus primeiros álbuns. 

 

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Depois temos Billie Eilish, cujo álbum mais recente descreve o lado negro dessa vida, com paparazzi, stalkers, relações tóxicas e pressões externas em relação ao seu visual. E, claro, a Internet, as redes sociais agravam ainda mais estes problemas. Não surpreende que, não apenas Lorde, mas também qualquer artista com popularidade e juízo só use as respectivas contas para assuntos oficiais, como lançamentos de projetos. Taylor Swift, Billie Eilish, Beyoncé, mesmo Hayley Williams. 

 

Além disso, mesmo os fãs hoje em dia são um campo minado. Posso estar enganada, mas, da minha experiência dos últimos anos, as comunidades de fãs online estão piores agora. Vão muito a extremos: os artistas ou são Deus na Terra ou são cancelados. Os stans – ninguém percebeu que a música do Eminem é uma chamada de atenção – veneram automaticamente tudo o que o artista produz, sem sentido crítico, e quem não o faça corre o risco de ser ostracizado. Nunca aconteceu comigo, felizmente, mas também já não sou muito ativa nestas comunidades. Mas já vi acontecer com Jon, um dos meus YouTubers preferidos, que faz crítica musical – só porque ele, como eu, não gostou muito de Flowers For Vases!

 

Há um certo tipo de comentário que me faz comichão. Pessoas que escrevem coisas como “esta música curou-me a depressão”. Das duas uma, ou estão a trivializar a saúde mental, ou estão a ser sinceros, o que é preocupante.

 

Contra mim falo, pois eu não era muito diferente aqui há uma década, mais coisa menos coisa. Colocava quase todo o sentido da minha vida no álbum seguinte de Avril Lavigne. E embora não me arrependa de ter feito parte – e ainda faço, de certa forma – dessa comunidade… eu exagerei um bocadinho no tempo que lhe dediquei. Hoje em dia os meus interesses são muito mais diversificados e tenho uma relação muito mais saudável com cada um deles. Tenho pena que isso não tenha acontecido mais cedo.

 

Em todo o caso, esta mentalidade coloca os artistas numa posição difícil – o que nos leva de volta a The Path.

 

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Lorde chegou a dizer que tem dinheiro suficiente para se sustentar para o resto da sua vida. Pontos para a honestidade – é uma das poucas figuras públicas que o admite com todas as letras, apesar de nós, simples mortais, sabermos que muitas estão numa situação semelhante. Ella regressou porque continua a gostar de fazer música, mas esta não é a sua vida real. São umas férias estranhas da vida que leva na Nova Zelândia, com a família e os amigos, onde as pessoas não a reconhecem na rua e os paparazzi são praticamente inexistentes. 

 

E sinceramente? Quem não faria o mesmo se estivesse no lugar dela? Quem não passaria os seus dias a nadar, a pescar, a passear na praia, a jardinar, tendo possibilidades para isso? Aliás, é mais ou menos o que muitos estão a optar fazer em países como os Estados Unidos na chamada Grande Demissão. O trabalho não é tudo na vida!

 

E no entanto…

 

Para uma artista que diz estar farta da vida de estrela pop, Lorde faz bastantes referências a momentos marcantes da sua vida de estrela pop neste álbum. The Path refere um dos Met Galas em que participou (sou a única aqui que não percebe o propósito do Met Gala?). California refere o Grammy que ganhou com Royals. The Man With the Axe refere as “centenas de vestidos” e “quadros emoldurados” que Lorde possui. Helen of Troy refere os Grammys de 2018, em que Lorde foi a única nomeada para álbum do ano que não pôde atuar em palco.

 

É como se dissesse:

 

– Olhem para mim, ser famosa é horrível! Estive nesta festa de pessoas ricas, ganhei este prémio, tenho montes de coisas bonitas mas ah! Não gosto nada!

 

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Por outras palavras, é um bocado “pobre menina rica”, um bocado falta de noção. A própria Lorde admitiu que fala de uma posição de privilégio… mas estará assim tão consciente desse privilégio?

 

Uma das mensagens de Lorde tem pregado, aliás, tem me dado um certo mal-estar. A citação que tem repetido, de “como passamos os nossos dias é como passamos as nossas vidas”, a “arte de não fazer nenhum”, menos redes sociais e Netflix e mais ar livre. 

 

Eu percebo a intenção, mas… Lorde acha que todos conseguimos escolher como passamos os nossos dias e as nossas vidas? É fácil para Ella fugir a tudo e passar os dias  na praia. Vive na Nova Zelândia – país infame pelas suas paisagens e por ter sido dos melhores a lidar com o Coronavírus – e pode dar-se ao luxo de escolher quando trabalha.

 

Não tenho nada contra a maneira como Lorde passa os seus dias. Nem sequer me queixarei se ela decidir hibernar de novo durante anos, antes de lançar mais música. Mas ela tem de ter um pouco mais consideração por quem não pode fazer o mesmo. 

 

E em defesa de Lorde… ela tem dúvidas. Talvez as referências todas sejam um reflexo disso mesmo, da sua ambivalência. California, que como vimos critica o estilo de vida de Hollywood, não deixa de incluir a frase “But everytime I smell tequila, the garden grows out in my mind again”. Mas o maior exemplo disso é Stoned at the Nail Salon. 

 

Esta é outra das minhas preferidas neste álbum. Não sei se é considerada o segundo single oficial, mas foi a segunda música que ouvimos, quase um mês antes do resto do álbum.

 

 

Na minha opinião, Stoned at the Nail Salon é a melhor das músicas da segunda categoria e uma das melhores letras neste álbum. Funciona como uma sequela a Ribs – embora Lorde refira outra como sequela a esse tema – ao refletir sobre a passagem do tempo, o envelhecimento, a nossa própria mortalidade. Ao mesmo tempo, uma vez mais, fala sobre a necessidade de deixar a vida de estrela pop para trás… mas questiona-se se essa é a decisão certa. 

 

Tenho uma teoria no que diz respeito à discografia de Lorde, à luz de Solar Power. Pure Heroine representa a vida mais calma, terra-à-terra, por vezes entediante que Lorde levava na Nova Zelândia em miúda, antes de lançar música. Melodrama, por sua vez, como toda a gente sabe, representa um estilo de vida mais intenso e frágil, de excessos e hedonismo – Lorde nunca o associou, preto no branco, ao estilo de vida do mundo da música, mas penso que se pode fazer esse paralelismo.

 

De uma maneira engraçada, em Solar Power, Lorde está a renegar Melodrama e a voltar a Pure Heroine. Em Royals, ela dizia que não queria saber das jóias, dos hotéis, etc – embora não deixasse de fantasiar com Cadillacs e com a realeza. Em California, ela já experimentou as jóias e os hotéis, mas fartou-se. Em Still Sane, Lorde receava entrar no mundo da música. Em Bravado, estava disposta a engolir esses medos para poder perseguir as suas ambições. Músicas como The Path e The Man with the Axe indicam que essas ambições já não valem o esforço. 

 

Regressando a Stoned At the Nail Salon, a segunda estância é uma referência bastante clara a Melodrama. Alguns fãs viram um paralelismo na primeira frase (“Got a memory of waiting in your bed wearing only my earrings”) com The Louvre (“Half of my wardrobe is on your bedroom floor”) e Lorde confirmou que estes se referem à mesma canção. 

 

Por outro lado, o verso “We’d go dancing all over the landmines under our town” parece-me uma referência a Homemade Dynamite. Stoned at the Nail Salon (e também Secrets From a Girl (Who’s Seen it All)) coloca um ponto final definitivo capítulo da vida de Ella – embora esta admita que ainda nutre sentimentos pelo amado em questão. 

 

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Na verdade, soa um pouco mais como se Lorde estivesse a tentar convencer-se a si mesma que, de facto, está na hora de abrandar, de assentar. É um daqueles casos de, como a própria Ella diz “the grass is always greener on the other side” – esta expressão não tem uma equivalente em português. Só mesmo a canção do António Variações “Estou bem aonde eu não estou, porque eu só quero ir aonde eu não vou”. É uma coisa muito humana, eu mesma sou culpada disto.

 

Ou então, como diz a letra, isto pode ser apenas Lorde ganzada. Não sei se é para levarmos o título da música à letra – acho que ambas as hipóteses são válidas. Podem ser simples devaneios existenciais, ou se calhar Ella costuma fumar um charro enquanto lhe arranjam as unhas. Houve quem tenha imaginado a cena

 

Gosto muito da sonoridade de Stoned at the Nail Salon. A interpretação de Lorde lembra-me Joan Baez em certos momentos – também gosto dos vocais em coro. A instrumentação é simples, mas resultou bem (pena não poder dizer o mesmo de outras músicas da segunda categoria neste álbum…). Gosto das notas de guitarra que soam de vez em quando – por exemplo, depois do primeiro refrão – dando à música um tom sonhador que condiz com a letra. 

 

Obviamente.

 

Já fui falando aqui e além sobre a letra de California, falta falar sobre a sonoridade. Esta até é interessante: parecida com muitas da segunda categoria, embora tenha percussão, umas notas de piano aqui e ali, aquelas notas de guitarra sonhadoras como em Stoned at the Nail Salon. Ainda assim, não chega para me entusiasmar.

 

Para encerrar o tema da fama em Solar Power, falemos sobre Helen of Troy, uma faixa que não faz parte da edição-padrão do álbum. 

 

 

Mas devia fazer. Ambas as faixas extra deviam fazer. 

 

Instrumentalmente, não tenho muito a dizer. Inclui-se na segunda categoria, não é das melhores, mas evita a maior parte das falhas desse grupo. Não soa incompleta ou enfadonha, como outras que veremos adiante.

 

Sendo uma faixa extra, Lorde nunca falou sobre ela até agora – tanto quanto sei, pelo menos. Não existe nenhuma interpretação “oficial” da letra. Para mim, Helen of Troy é sobre o poder disruptor do estatuto de Lorde como celebridade – tanto para ela como para os demais. 

 

Como vimos antes, a letra começa por referir a nega que recebeu nos Grammys. Dá a entender, de seguida, que virou as coisas a essa vida, pelo menos em parte, por causa de indignidades como essa. Refere também ocasiões em que Lorde concentra as atenções em si mesma, mesmo sem o desejar, dando azo a ciúmes e ressentimentos. Lá está, cidades viradas do avesso por causa dela, como Helena de Tróia. 

 

Existe espaço em Helen of Troy para Lorde dar conselhos a si mesma: para não descarregar nos demais, para não ser demasiado dura consigo mesma. E falando sobre isso…

 

Lorde tem falado de Secrets From a Girl (Who’s Seen it All) como uma sequela a Ribs – ao ponto de ter pegado em dois acordes dessa música e trocado a ordem, para criar este tema novo. Mais: Secrets é uma carta da Ella atual à versão de si que escreveu a letra Ribs.

 

 

Temos novamente uma referência aos temas de Melodrama – para dizer que Lorde já não comete os excessos de antes (“Dancing with my girls, then having two drinks and leaving”) e encorajando o seu eu passado a fazer o mesmo. A outra estância, por outro lado, é toda ela uma referência à morte de Pearl, o cão de Lorde. Ella terá escrito esta letra pouco depois da perda e, nesta parte, tenta consolar-se a si mesma. 

 

Musicalmente, é uma música da primeira categoria. Tem momentos mais minimalistas, mas depois surgem as guitarras acústicas e as baterias, criando um som luminoso. Exatamente aquilo que esperaríamos de um álbum inspirado pelo sol. 

 

Ainda assim, não consigo gostar muito de Secrets. Compreendo a intenção, até encontro alguma sabedoria na letra – o verso “everybody wants the best for you, but you gotta want it for yourself” aplica-se demasiado bem à minha vida – mas soa um bocadinho lamechas, sobretudo para Lorde. Suponho que seja inevitável em qualquer forma de carta ao nosso eu do passado – quando eu mesma o fiz, também saiu lamechas. 

 

Na verdade, eu até era capaz de gostar da música se cortassem a narração de Robyn, na parte final. Esforça-se um bocadinho de mais para entrar na moda da saúde mental dos últimos anos. Muitos fãs têm comentado que, se era para ter Robyn na música, que fosse um dueto a sério, cantado. Eu não conheço o trabalho da cantora, não posso opinar, mas se resultasse em algo melhor…

 

Outra música de que não gosto é The Man with the Axe, sobretudo por causa da sonoridade. Lorde referiu que este tema começou por ser um poema – mais valia que ela o tivesse declamado. A maneira como ela o cantou é uma seca. É outra música da segunda categoria, quase só com guitarra, mas os vocais são demasiado graves e lentos, sem nada que cative o ouvinte. 

 

 

Esta música precisa de intensidade, de vida: vocais mais fortes e um tudo nada mais rápidos e instrumentação mais completa, reforçando os discretos elementos de jazz e blues que noto. 

 

Ao menos a letra é semi-interessante. Tirando os aspetos que já fomos referindo, sobre a sua vida de estrela pop, The Man with the Axe é uma canção de amor para o atual parceiro (possivelmente noivo) de Lorde. A letra confirma que é um homem bastante mais velho – segundo os rumores já estará na casa dos quarenta. 

 

A mim faz-me confusão, confesso. Depois do divórcio de Hayley e das múltiplas situações que terão inspirado Your Power, de Billie Eilish, romances entre mulheres jovens e homens muito mais velhos fazem soar alarmes. Ella, ainda por cima, é apenas um ano mais velha que a minha irmã e eu não estou a ver a minha irmã namorando ninguém com quarenta anos ou mais.

 

Aliás, nem eu me vejo a mim própria namorando ninguém com quarenta anos ou mais. E já tenho trinta e um.

 

Dito isto, conheço casais com uma grande diferença de idade do homem para a mulher e que funcionam. Costuma-se dizer que as mulheres amadurecem mais depressa – eu tenho as minhas dúvidas. Acho que, na verdade, a sociedade é muito mais indulgente para rapazes e homens do que para raparigas e mulheres. 

 

No caso específico de Lorde, ela sempre se caracterizou por ser madura para a idade (ao ponto de ter circulado uma teoria da conspiração que defendia que Ella, na verdade, está na casa dos quarenta). Além disso, recentemente, a jovem queixou-se que a fama obrigou-a a crescer demasiado depressa. Diz mesmo que os amigos a veem hoje como uma mãe ou mesmo como uma avó. 

 

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Nesse aspeto, faz sentido que ela prefira uma relação com alguém mais velho.

 

Enfim, se resulta com ela…  Só espero que, daqui a uns anos, Lorde não esteja a cantar a sua versão de Your Power.

 

Muito bem, ficamos por aqui para já. Amanhã continuo. Obrigada pela vossa visita.

Paramore – All We Know Is Falling (2005) #2

Segunda parte da minha análise a All We Know Is Falling. Podem ler a primeira parte aqui.

 

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Here We Go Again é outro clássico dos Paramore, outro destaque em All We Know is Falling. À semelhança de Conspiracy, à primeira vista parece referir-se a conflitos entre os membros da banda, nomeadamente aquando da partida de Jeremy – sendo também aplicável a crises posteriores. “Cá vamos nós outra vez” é certamente aquilo que nós, fãs, pensamos sempre que aparece o mais leve indício de problemas nos Paramore. 

 

No entanto, a sua história de origem é ainda mais indefinida que a de Conspiracy. Supostamente Here We Go Again foi uma das músicas que cativou as editoras, juntamente com Hallelujah (suponho que o seu tom otimista não encaixasse neste álbum, daí ter sido guardada para Riot!). Ou seja, terá sido composta antes de Jeremy se ter ido embora – a partida dele não terá sido inspiração para a letra. 

 

Em todo o caso, a letra de Here We Go Again aplica-se facilmente a qualquer corte de relações, seja entre amigos, amantes, familiares – no que toca a isso, Hayley não terá falta de exemplos em que se basear, coitada.

 

Começa por falar em palavras duras, ditas no calor do momento. Uma pessoa acaba por se arrepender e tenta retirar o que disse, mas nem sempre é possível. O mal já está feito. Dá-se mesmo a entender que tais palavras levaram ao fim da relação. 

 

No refrão, a narradora diz que está satisfeita com a separação – ou pelo menos aprendeu a viver com ela. Por outro lado, na segunda estância põe-se a pensar no que teria acontecido se o relacionamento não tivesse terminado. É uma reação tipicamente humana – vemos Hayley explorando ideias semelhantes em Flowers For Vases, por exemplo. E aposto que não existe nenhum fã mais hardcore dos Paramore que nunca tenha tentado imaginar o percurso da banda caso Zac e Josh não tivessem saído em 2010, e/ou se Jeremy não tivesse saído em 2015.

 

Musicalmente, não há muito a dizer. Não existe nenhum elemento de grande destaque no instrumental, mas no seu todo é bastante sólido. Evita as armadilhas em que outras músicas deste álbum caem. 

 

 

Por outro lado, quando tocada ao vivo torna-se interessante, pois no fim da música põem-se a brincar com excertos de outras músicas. Eles experimentaram vários no ciclo de All We Know is Falling e um fã deu-se ao trabalho de compilar no vídeo acima. 

 

Pequeno aparte só para a delícia de ver quatro cabeças abanando com sincronia perfeita. 

 

Falemos sobre alguns destes outros, então. O de Sk8er Boi era alegadamente para responder a uns armados em engraçados que chamavam Avril à Hayley. De todos os nomes que terão chamado à jovem (entre os quais “tiny hot topic bitch), este não estará entre os piores. Mas compreendo a irritação: naquela altura qualquer rapariga cantando por cima de guitarras era um clone da Avril. 

 

A própria Avril será um clone da Avril, segundo consta...

 

De que estávamos a falar? Ah, certo, Here We Go Again. 

 

Um dos encerramentos mais engraçados, na minha opinião, é com Incomplete dos Backstreet Boys – uma música que ficou em 2005, em termos de memória colectiva. Uma rara ocasião em que Josh e Hayley harmonizam nos vocais (deviam tê-lo feito mais vezes) e com um screamo bem sacado.

 

 

Eventualmente decidiram tornar o outro com One Armed Scissor, de At the Drive-in, o definitivo. E de facto é o que melhor se encaixa em termos de letra. Gosto em particular do verso “I write to remember” – quem também é escritor sabe do que falo.

 

Never Let This Go é outra que, à primeira vista, podia ser sobre a partida de Jeremy, mas é pouco provável que o seja. Hayley terá dito certa vez que é sobre quando o amor corre mal.

 

O que não esclarece muito. 

 

Devo dizer que Never Let This Go é a de que menos gosto em All We Know is Falling. Instrumentalmente, tirando as notas introdutórias, que me recordam Decode e I Caught Myself, não é nada de especial. A letra também deixa muito a desejar – muito curta, vaga, cheia de clichés emo. Eles têm bem melhor, conseguem fazer bem melhor. 

 

Admito que Whoa está longe de ser a melhor música dos Paramore. O refrão é demasiado cliché, quase reproduzindo o chamado Millenial Whoop, um truque barato para cativar o ouvinte, sobretudo ao vivo… mas resulta. É o tipo de música que agrada ao meu eu de quinze, dezasseis anos.

 

Por outro lado, a introdução está bem sacada, com aqueles acordes de guitarra pesados mas dançantes.

 

 

Uma vez mais, a letra não é nada de especial. Parece falar sobre a banda, faz o ponto da situação no caminho para a glória. Não dá para ter a certeza, é demasiado vaga. Em todo o caso, é a faixa mais alegre num álbum bastante (emo) melancólico.

 

Regressando a esse registo, falemos sobre Emergency, o segundo single deste álbum e, na minha opinião, a melhor em All We Know is Falling e uma das melhores dos Paramore – merecia muito mais apreciação. 

 

Em termos de musicalidade, é a melhor em All We Know is Falling: como que a duas vozes, com o instrumental a acompanhar, os riffs acelerando e abrandando, o ligeiro crescendo imediatamente antes do refrão.

 

Queria no entanto destacar a letra. Hayley baseou-se nas suas experiências com os múltiplos divórcios dos seus pais e na ideia que tinha do amor em geral. É fascinante examiná-la agora, após Petals For Armor. Após a própria Hayley ter passado por um divórcio. Até porque, a meu ver, as opiniões que Hayley exprime em Emergency são uma das razões pelas quais se manteve tanto tempo numa relação tóxica.

 

Em defesa dela, estas eram opiniões populares nos anos 2000. O número de divórcios estava em alta, diziam, porque as pessoas não se queriam comprometer a longo prazo, além da fase de lua-de-mel. Desistiam à primeira dificuldade, não percebiam que os casamentos exigiam esforço (“So you give up every chance you get, just to feel new again”).

 

Existe verdade nestas ideias, mas estas ignoram um princípio importante: antes só que mal acompanhado.

 

 

Hayley chega a acusar os pais de não saberem o que é o amor (“And you do your best to show me love, but you don’t know what love is”), mas hoje fica claro que eles sabiam mais do que ela. Por estes dias, Hayley fala em traumas geracionais, em como ela e a mãe fugiram com companheiro abusivo dela ao virem para Franklin – mas saberia a jovem a verdade na altura, quando tinha onze ou doze anos? Talvez ela só o tenha descoberto muito mais tarde e, até lá, pensava que era apenas a mãe a divorciar-se outra vez.

 

E anos mais tarde, quando Hayley ficou noiva e o noivo se envolveu com outra mulher, a jovem casou-se à mesma com ele. Em parte porque, como já tínhamos comentado noutra ocasião, queria mostrar aos pais que ela, ao contrário deles, conseguiria manter uma relação. 

 

Os resultados estão à vista, conforme temos vindo a comentar extensamente neste blogue.

 

A frase mais importante da letra, no entanto, é “No one cares to talk about it”. Quando a toca ao vivo, Hayley acrescenta mesmo “So can we talk about it?”. E a parte mais trieste é que Hayley e a mãe só começaram a falar sobre os divórcios há poucos anos – já depois de a jovem tem passado pelo seu.

 

Compreende-se que Cristi não tenha querido falar sobre isso antes. Não será fácil admitir os seus erros, as suas vergonhas, as armadilhas em que caiu, a uma filha adolescente. Além disso, uma coisa é falar sobre estas coisas com uma miúda de dezasseis anos e falar com uma mulher de trinta.

 

Ainda assim, Hayley podia ter-se poupado a muito sofrimento se os pais tivessem sabido comunicar melhor com ela sobre estes assuntos. Até porque, segundo Hayley, ela e Cristi cometeram os mesmos erros nas suas vidas amorosas: envolveram-se em relações abusivas porque queriam alguém que não as abandonasse. Estavam dispostas a aceitar tudo desde que se sentissem desejadas.

 

 

Tudo isto é compreensível, tudo isto é humano, tudo isto é triste, tudo isto é fado. Felizmente, nesta altura Cristi está num casamento feliz e Hayley, aparentemente, também estará numa relação saudável (com o Taylor?).

 

Uma última palavra para o chamado Crab Mix, lançado no EP The Summer Tic, em 2006 – em que Josh contribui com screamos. É uma versão fixe. Não vou ao ponto de desejar que tivessem usado esta como versão oficial, mas podiam ter incluído screamo no último refrão, em jeito de elemento-surpresa. 

 

Brighter é outra das minhas preferidas neste álbum. Musicalmente é das mais rápidas em All We Know is Falling. Pontos para a bateria de Zac (recordo que ele tinha treze ou catorze anos quando gravou isto). Também Hayley impressiona com a sua voz – reparem no crescendo antes do refrão, em “that you shine brighter than anyone”.

 

A letra não é muito consistente. Penso que nenhum dos membros da banda alguma vez revelou a inspiração por detrás dela. No entanto, All We Know is Falling é dedicado a Lanie Kealhofer, juntamente com a fase “you shine brighter than anyone”. Lanie era uma amiga de Hayley, de quando ela vivia no Mississipi, que morreu num acidente de barco poucas semanas antes da edição deste álbum. Assim, assume-se que Brighter é sobre a morte dela.

 

Existem partes da letra que se encaixam nessa teoria. Outras, nem tanto – em particular o refrão. Não dá para ter a certeza, por isso. Mas também já lá vão mais de quinze anos. É pouco provável que venhamos a descobrir a verdade.

 

 

Em todo o caso, pessoalmente, Brighter é uma das músicas que me faz pensar em Chester Bennington, no que lhe aconteceu (tenho uma playlist delas). “And I’ll wave goodbye watching you shine bright” descreve bem a minha segunda metade de 2017

 

Franklin é uma música mais interessante do que, se calhar, soa à primeira vista, sobretudo em termos de letra. Musicalmente, destaca-se do resto do álbum por ser uma balada com vocais mais suaves, menos gritados, e com um fascinante padrão de bateria. Josh e Hayley cantam juntos no refrão – é uma pena não o terem feito mais vezes quando podiam. Os últimos versos de Franklin, então, soam particularmente bonitos. 

 

Houve uma altura há uns anos em que me perguntava como teria sido se Josh tivesse sido oficialmente co-vocalista dos Paramore. Talvez a banda tivesse tido um percurso mais pacífico. Hoje no entanto, depois de saber mais sobre as origens dos Paramore, acho que nunca resultaria. É possível, até, que fosse esse o plano inicial e que a editora tenha vetado. 

 

Além disso, acho que Hayley e Josh seriam sempre tratados de maneira diferente – por serem de géneros diferentes, por ela ser (na minha opinião mas não só) mais carismática e mais talentosa vocalmente.

 

Mas regressemos a Franklin. A música recebeu o nome da terra onde os membros da banda viviam antes de serem descobertos. No entanto, como veremos de seguida, a letra da música tem uma mensagem bastante universal. Funcionaria com qualquer nome de qualidade – Franklin, Napanee, Massamá.

 

À primeira, a letra de Franklin parece falar apenas sobre ter saudades de casa. Porém, se formos a ver, não é tanto de casa que a narradora tem saudades – é das pessoas que ela e os amigos eram antes de partirem. De tal forma que a narradora admit que regressar não é solução – não é a mesma coisa.

 

 

A mim faz-me pensar em Frodo Baggins regressando ao Shire no final d’O Senhor dos Anéis e percebendo que já não pertence lá. No entanto, não é preciso ter percorrido quilómetros e quilómetros a pé, atravessado reinos em guerra e levado o Anel Um até à cratera de Mordor para se identificar com a letra de Franklin. Nem sequer é preciso ter saído da terra natal.

 

No fundo, a letra de Franklin é sobre crescer. Sobre a maneira como as coisas mudam, as pessoas mudam e não é possível voltarmos a ser quem éramos antes, por muito que o desejemos. 

 

Finalmente, encerrando o álbum, temos My Heart, outro clássico adorado pelos fãs. 

 

Que atire a primeira pedra (see wbat I did there?) quem nunca achou antes que isto era uma canção de amor – de amor romântico, isto é. My Heart é, na verdade, uma carta de amor para Deus.

 

Este é outro aspeto que faz parte do ADN dos Paramore: a fé. Não que alguma vez tenham andado por aí tentando converter os seus fãs. Mesmo as referências ao cristianismo na sua música, tirando, vá lá, o outro de Let the Flames Begin, são discretas. Mas é uma parte da identidade da banda, sobretudo durante os seus primeiros anos. 

 

E, à boa maneira dos Paramore, a certa altura foi fonte de discórdia.

 

 

Nos últimos anos, a banda tem deixado o cristianismo um pouco mais de lado. Numa entrevista recente, aliás, Hayley revelou que hoje questiona muitos dos princípios religiosos que lhe foram impingidos durante a infância e a adolescência. Ainda acredita em Deus, mas não no Deus que lhe ensinaram.

 

Eu compreendo. E aqui entre nós, com o historial do cristianismo no que toca às mulheres, às comunidades LGBTQ+, à pedofilia na Igreja Católica, nenhuma pessoa decente pode levar aquilo demasiado a sério. Nestas alturas, costumo parafrasear o sábio Eli Gold de The Good Wife: a religião é como um medicamento; em doses baixas é terapêutica, em doses altas é tóxica. 

 

Regressando a My Heart, o momento-chave da música é o screamo de Josh na terceira parte. Este é um elemento que não devia resultar – My Heart é uma balada, é uma canção de amor a Deus – mas resulta. Em versões ao vivo, então, soa espetacular – sobretudo quando eles acrescentavam um outro.

 

Infelizmente Josh foi-se embora. Desde então, esta música só é tocada em acústico. Soa bonita à mesma, não me interpretem mal, mas não é a mesma coisa.

 

Na verdade, gosto um pouco mais de My Heart fora do contexto de All We Know is Falling. No álbum é a terceira música seguida neste registo mais sentido. Ainda por cima, a terceira parte da faixa repete a fórmula de Franklin – com o acompanhamento a diminuir de intensidade, Hayley cantando a mesma frase duas ou três vezes, seguindo-se uma “explosão”. 

 

É um dos problemas de All We Know is Falling como um todo. Na primeira metade ficaram as músicas mais rápidas, na segunda ficaram as mais lentas. Teria ajudado se a ordem das faixas fosse diferente? Um bocadinho, talvez, mas acho que não chegaria para mascarar as falhas do álbum. All We Know is Falling é, na minha opinião, demasiado curto, demasiado homogéneo, com muitas arestas por limar em termos de letras e instrumentais. 

 

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Dito isto, All We Know is Falling está numa situação parecida com a de Flowers For Vases: por si só deixa a desejar, mas as falhas aceitam-se para as circunstâncias. 

 

Estamos a falar de adolescentes compondo e gravando um disco! Zac tinha treze ou catorze anos durante os trabalhos de All We Know is Falling! Na idade deles, o meu maior feito fora entrar no Quadro de Honra no nono ano – algo que não me valeu de muito, tirando o orgulho da família (que desapareceria em poucos meses, quando cheguei ao décimo ano e tive dificuldades) e um livro oferecido pela escola (O Que Todas as Raparigas (Exceto eu) Sabem, de Nora Raleigh Baskin. Até gostei.). 

 

E mesmo sendo o pior álbum dos Paramore, está longe de ser mau – ainda que eu tenha demorado anos a apreciar muitas das coisas boas que fui assinalando ao longo desta análise.  Tem músicas que, como vimos, ainda hoje são adoradas pelos fãs – e uma ou duas que, na minha opinião, estão entre as melhores da banda. 

 

O próprio Josh admitiria numa entrevista posterior que o álbum seguinte teria mais energia. E teve. Os Paramore, aliás, são um caso raro no mundo da música em que cada álbum é melhor que o anterior. Pela lógica seria de esperar que fosse sempre assim, mas todos conhecemos artistas ou bandas com excelentes álbuns de estreia e/ou segundos álbuns e que nunca mais conseguiram chegar ao mesmo nível.

 

Se bem que, muitas vezes, estas opiniões são influenciadas por fãs teimosos que fazem birra se os seus artistas ou bandas mudam o seu estilo com o tempo. 

 

No que toca aos Paramore, acho que quase todos concordamos que Riot! É melhor que All We Know is Falling e Brand New Eyes é melhor que Riot!. Pode haver quem argumente que a tendência se mantém com os álbuns seguintes – mas eu acho que os três álbuns mais recentes dos Paramore estão mais ou menos ao mesmo nível. Cada um tem a sua personalidade, qual deles é o melhor depende do gosto de cada um. 

 

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A ver onde é que o sexto álbum dos Paramore se encaixará nesta classificação. Nesta altura, já está mais do que confirmado que a banda já está a trabalhar nisso. No outro dia, Hayley anunciou inclusivamente que vai-se manter afastada das redes sociais para, em parte, escrever letras. 

 

Eu no entanto acho que ainda vai demorar um bocadinho. Aponto para 2022 ou, quanto muito, finais de 2021. Os fãs estão com pressa (e alguns têm sido bastante indelicados nas internetes), mas vocês já sabem que eu lido bem com esperas – sobretudo depois de Hayley ter lançado dois álbuns a solo em menos de um ano. A banda, aliás, faria bem em ter calma e dar tempo à pandemia para passar – se é para lançar música nova, que o façam de um palco.

 

A mim até me dá jeito a pausa já que, depois de escrever sobre Flowers For Vases e All We Know is Falling, fiquei saturada. Preciso de me ausentar no universo Paramore/Hayley Williams. A menos que a banda demore mesmo muito nos trabalhos, só tornarei a escrever sobre os Paramore quando começar o ciclo do sexto álbum. Provavelmente quando lançarem o primeiro single.

 

Isso quer dizer que só escreverei sobre Brand New Eyes depois do sexto disco dos Paramore. Esse não será um texto nada fácil. Em parte por causa dos conflitos na banda, ainda mais complicados que aquando de All We Know is Falling. Em parte porque eu mesma tenho tido uma relação difícil com Brand New Eyes – tanto com as músicas individualmente como com o álbum como um todo. 

 

A prazo mais curto, receio que este blogue vá ficar em pausa durante as próximas semanas, se não forem meses. O Euro 2020 está à porta e vou estar mais ocupada com o meu outro blogue. Depois do Europeu, planeio ver a dobragem portuguesa de Digimon Frontier e começar, finalmente, a escrever sobre essa temporada. A análise não deverá ser tão longa como a de Tamers, mas ainda deverá demorar um pouco.

 

Em todo o caso, continuo à espera de música nova de Bryan Adams e de Avril Lavigne – os meus pais musicais deverão lançar álbuns novos ao mesmo tempo outra vez. A menos que eles me troquem as voltas e lancem os singles em pleno Euro 2020, em princípio teremos as respectivas crónicas de Músicas Não Tão Ao Calhas. 

 

Como sempre, obrigada pela vossa visita e pela vossa compreensão. Sigam a página de Facebook deste blogue. Até à próxima!

Paramore – All We Know Is Falling (2005) #1

Quem conheça este blogue saberá que os Paramore são uma das minhas bandas preferidas há vários anos. Eu diria mesmo que, neste momento, estão no primeiro lugar das minhas preferências. No entanto, durante muito tempo não tive cópias físicas dos álbuns deles, tirando do Self-Titled e, mais tarde, do After Laughter – compradas quando estes foram lançados. 

 

Há uns anos, decidi mudar isso e encomendei na Fnac online os três primeiros CDs da banda. Um deles, o All We Know Is Falling, comprei algures em fevereiro ou março de 2018. No entanto, quando a encomenda chegou, a caixa do CD vinha partida.

 

Acabou por não ser muito problemático para mim. Bastou-me ir a uma loja da Fnac e eles trocaram-me o CD na hora. No entanto, já na altura achei que o episódio foi uma boa metáfora para o início dos Paramore como banda. 

 

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Não estava nos meus planos continuar no universo Paramore depois de ter escrito sobre Flowers For Vases. No entanto, calhou ter voltado a ouvir All We Know Is Falling pouco tempo depois de ter publicado esse texto e ter ficado inspirada. Além disso, visto músicas como Inordinary e Just a Lover recordarem as origens da banda, faz sentido regressar ao primeiro álbum dos Paramore.

 

Por outro lado, depois de um álbum maioritariamente acústico e vocais maioritariamente graves e contidos da parte de Hayley, é estranho ouvir guitarras pesadas e refrões explosivos.

 

Além disso, como referi no texto anterior, mudei de emprego há pouco tempo. A minha vida tornou-se menos familiar, sobretudo no mês passado – ainda que, por enquanto, não tenha reduzido o meu tempo de escrita, como cheguei a temer. Para lidar com esse stress, optei por um texto mais dentro da minha zona de conforto, em vez de projetos mais ambiciosos.

 

Como All We Know is Falling é o primeiro álbum dos Paramore, a sua estreia no mundo da música, importa ir às origens da banda. À semelhança do que fizemos com os Linkin Park e Hybrid Theory – é uma pena não existir um site equivalente à Linkinpedia para os Paramore.

 

Os Paramore nasceram enquanto banda em Nashville, no estado do Tennessee, nos Estados Unidos. Hayley Williams mudou-se para Franklin juntamente com a sua mãe quando tinha onze ou doze anos. Foi aqui que conheceu os futuros companheiros da banda: Josh e Zac Farro, Taylor York, Jeremy Davis. Hayley e Jeremy faziam ambos parte de uma banda que fazia covers funk (Ain’t it Fun não veio do nada). Ao mesmo tempo, começou a compôr música com Taylor e Josh – daqui surgindo temas como Conspiracy e a B-side Oh Star. 

 

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Hayley diz que, até àquela altura, ouvira sobretudo música pop e R&B – e essas influências apareceriam muitos anos mais tarde, com Petals For Armor. No entanto, com os Farro aprendeu a ouvir música mais pesada, como Radiohead e Deftones. 

 

Quem nunca?

 

Consta que, de início, várias pessoas estiveram perto de fazer parte da banda. Josh e Zac não estariam muito entusiasmados com a ideia de ter uma rapariga no grupo – sem comentários. Houve um tipo chamado Randall que era o vocalista original, chegando a co-compôr as primeiras versões de músicas como Conspiracy e Stop This Song (Lovesick Melody). Segundo Hayley, quando ela se juntou oficialmente, Josh expulsou Randall da banda via Messenger do AOL.

 

Também terá havido um baixista antes de Jeremy, cujo apelido de solteira da mãe foi usado para batizar a banda. Mais tarde, descobriram que Paramore vem de “paramour”, que significa “amor secreto” ou “por amor” – o que acharam adequado. 

 

Por outro lado, Jeremy terá ficado de pé atrás quando conheceu os Farro. Jeremy já teria dezassete ou dezoito anos e Zac apenas onze ou doze – qualquer um teria dúvidas. No entanto, depois de ouvi-los tocar, Jeremy mudou de ideias.

 

Por fim, Taylor ajudaria a compôr tanto em All We Know is Falling como em Riot!. No entanto, só iria em digressão com o resto da banda durante o ciclo do segundo álbum – e só se tornou um membro oficial em 2009. Taylor só não se juntou mais cedo por dois motivos. Primeiro, por interferência da editora. Segundo, porque os pais queriam que ele fizesse o equivalente ao décimo-segundo ano primeiro.

 

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Calculo que tenha sido duro para o Taylor de treze ou catorze anos. De todos, Hayley incluída, Taylor foi o único que nunca renunciou aos Paramore por vontade própria. Dito isto, no lugar dos pais dele, eu teria decidido o mesmo. Isso de ter uma banda e gravar um disco é muito bonito, mas é um tiro no escuro. Eu também quereria que o meu filho tivesse todas as armas possíveis antes de se lançar nessa aventura, caso não resultasse.

 

Além disso, não é segredo nenhum que a vida de músico nem sempre é fácil – nem para adultos, quanto mais para miúdos. Aliás, sabendo agora o que se sabe da carreira dos Paramore, sobretudo nos primeiros álbuns, não teria feito mal àqueles miúdos esperarem uns anos – Zac chegou a afirmar que um dos motivos pelos quais saiu em 2010 foi por sentir que a banda lhe roubara a infância. Muitas coisas teriam sido diferentes, a começar pelos álbuns, mas aposto que teriam tido muito menos crises.

 

É difícil sabê-lo, no entanto. E também não é certo que a Atlantic Records e/ou a Fueled By Ramen ficassem à espera deles. 

 

E por falar da Atlantic e da Fueled By Ramen…

 

Por estes dias já toda a gente sabe que Hayley foi a única dos Paramore a assinar um contrato com a Atlantic Records. Antes disso, Hayley compusera algumas músicas a solo e enviara demos para várias editoras – chegou a cantar para LA Reid, em Nova Iorque, tal como a Avril. Todos os interessados viram nela uma miúda bonita, carismática, com uma voz incrível – ou seja, com tudo para ser uma estrela – e queriam precisamente fazer dela a próxima Avril Lavigne.

 

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O problema é que Hayley não queria de todo ser uma cantora a solo. Queria formar uma banda com os seus amigos. Hoje sabemos que a jovem queria fazer dos Paramore a família que nunca tivera até à altura.

 

Pensemos nisso por um momento. Hayley tinha catorze ou quinze anos nesta altura. Nesta idade, a maior decisão que uma pessoa vulgar toma é se quer ir para o Secundário (e, se sim, para que área) ou para um curso profissional – e há quem argumente, com alguma razão, que o típico adolescente não tem maturidade suficiente para fazer esta escolha. 

 

No entanto, com esta idade, Hayley tinha praticamente todos os adultos na sua vida – desde os seus pais a uma data de executivos – a dizerem-lhe para cagar nos esquecer os companheiros de banda e agarrar a oportunidade de se lançar no mundo da música. Nove em cada dez pessoas – não não, noventa e nove em cada cem pessoas nestas circunstâncias teria cedido. Que miúdo de catorze ou quinze anos é capaz de se sentar numa reunião com pessoas poderosas da indústria musical e dizer, entre lágrimas, “ou faço isto com os Paramore ou volto para a garagem do Taylor”?

 

De uma maneira extremamente retorcida, se Hayley não tivesse passado a infância lidando com divórcios e não visse nos Paramore a família que nunca teve, o mais certo é não estarmos aqui a ter esta conversa. 

 

A Atlantic Records, de resto, foi a única interessada na ideia da banda. E mesmo assim só Hayley assinou com a Atlantic. O único contrato como banda foi assinado com a Fueled By Ramen, uma divisão da Atlantic um pouco mais nicho, que se achou mais adequada.

 

Twilight+Cast+Paramore+Lost+Show+Performance+KBSeL

 

Eu compreendo os ressentimentos de Josh e dos outros. Quem não ficaria? Sobretudo se os pais de Hayley tentaram proteger a filha à custa dos outros miúdos. A ser verdade, não foi o correto – se tivesse no lugar dos pais dela, gosto de pensar que tentaria proteger tanto a minha filha como os amigos dela – mas compreende-se. 

 

Além disso… onde estavam os pais dos Farro, mesmo de Jeremy, no meio desta história toda? Porque não estiveram lá a tentar defender os interesses dos filhos? Fica a pergunta.

 

Tenho muito menos compaixão pelos executivos, agentes e outras pessoas da Atlantic e/ou Fueled By Ramen – que, ninguém duvida, terão favorecido descaradamente a “estrela”. Não se espera comportamento ético por parte dessa gente, mas recordo que eles estavam a lidar com miúdos – Zac tinha onze ou doze anos! Há limites!

 

Hayley referiu mesmo que as pessoas da editora tentaram virá-los uns contra os outros – tendo isso inspirado a letra de Conspiracy. O que certamente explica a maneira como Josh deixaria os Paramore anos mais tarde. Havemos de falar sobre isso noutra ocasião, mas pelo menos no que toca a isto Josh fez mal em culpar Hayley. 

 

Mas o drama não ficou por aqui. Oh não, minha gente, com esta banda o drama nunca fica por aqui… 

 

Quando os Paramore finalmente conseguiram a luz verde para gravarem um disco, Jeremy virou-se para os amigos e disse algo como:

 

– Comprei um bilhete de avião para Nashville…

 

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Os outros tiveram as reações esperadas, Hayley terá chorado, coitada, mas não conseguiram dissuadi-lo. Mais tarde, Jeremy diria que se assustara – e, para ser sincera, com tudo o que acontecera até ao momento e tudo o que aconteceria mais tarde, compreendo. Os membros que restaram compuseram All We Know nos dias seguintes. Mais tarde, decidiram usar a partida de Jeremy como inspiração para o conceito do álbum. Daí o nome e a capa, com um sofá vazio e a sombra de alguém afastando-se.

 

O primeiro álbum dos Paramore centra-se na saída de um membro da banda. Ainda eles não tinham começado e já tinham perdido um membro. Eles nunca tiveram qualquer hipótese, pois não? Está no seu ADN!

 

Não admira que Hayley sinta a necessidade de dizer dia sim, dia não, que os Paramore ainda são uma banda.

 

A parte mais engraçada é que Jeremy nem sequer se manteve afastado muito tempo. Depois de deixar os Paramore, esteve a entregar pizzas – é claro que não ia durar, não tendo ele uma hipótese de se lançar no mundo da música. Não consigo descobrir ao certo quando é que ele voltou, mas foi a tempo de filmar o videoclipe de Pressure. Estou a tentar imaginá-lo caindo de pára-quedas no meio do ciclo de um álbum inspirado pela sua ausência.

 

Como diriam os anglosaxónicos, awkward…

 

E depois de mais de mil e quinhentas palavras de introdução (é sempre assim), vamos às músicas.

 

 

Comecemos pela faixa que dá o nome ao álbum, All We Know. Como vimos acima, esta foi uma das primeiras a ser composta, logo no rescaldo da partida de Jeremy. A letra é bastante simples e direta, talvez um pouco simples e direta demais. Musicalmente, tem aquele estilo pop punk/rock alternativo que define a primeira metade da carreira dos Paramore. Belos riffs da guitarra de Josh, bela bateria de Zac, vocais impressionantes de Hayley.

 

Eu, no entanto, não gosto muito da música. Não me diz muito. 

 

Pressure, no entanto, que se segue a All We Know na tracklist e cuja letra pega onde a sua antecessora parou, é outra história. Quando há pouco mais de dez anos decidi conhecer melhor a banda e me pus a ouvir as músicas deles em aleatório, Pressure foi das que mais depressa me cativou (bem como Emergency). Não me surpreendeu quando descobri mais tarde que é um clássico dos Paramore. 

 

Por estes dias, Hayley diz que foi Pressure que os cimentou no pop punk/emo, pois não era esse o estilo musical que ela e os amigos ouviam – coisas mais pesadas, como vimos antes. A mim mete-me sempre confusão quando artistas dizem coisas destas: como se pode criar arte num determinado género quando se prefere consumir outro por prazer?

 

Musicalmente, Pressure é irrepreensível, mas o ponto alto é o refrão – um dos melhores que a banda alguma vez compôs. Em termos de letra, esta terá sido inspirada pela ausência de Jeremy mas sinceramente? Nesta fase podia aplicar-se a todas as partidas traumáticas da banda.

 

 

Começando pelos versos de abertura:  “Tell me where our time went and if it was time well spent”. A narradora pergunta ao visado se ao menos gostou do tempo que passaram juntos, mesmo que o outro se tenha ido embora. 

 

Os versos “now that I’m losing hope and there’s nothing else to show for all of the days that we spent carried away from home” parecem um pouco mais específicos para esta situação. Aludem possivelmente a uma altura em que não estariam a fazer grandes progressos nos trabalhos de All We Know is Falling. 

 

Em oposição, os versos “Some things I’ll never know and I have to let them go”, de uma maneira algo caricata, refletem algo que os fãs dos Paramore tiveram de aprender ao longo dos anos, com tanto drama. Nunca saberemos a verdade toda. Nunca saberemos quem é o bom e o mau da fita – ou sequer se eles existem – e se haviam maneiras de se evitar os conflitos e as separações. Eu posso ter gasto mil e quinhentas palavras só nesta análise tentando compreender, mas isto é tudo especulação, não são factos comprovados.

 

Por outras palavras, mais vale aceitar. 

 

Por fim, Pressure termina com um ligeiro twist. Em vez de “We’re better off without you”, como todos os anteriores, o último refrão reza “You’re better off without me”. À luz do que sei agora sobre os traumas de abandono de Hayley… au!

 

 

Uma nota sobre o Pressure-flip. Ironicamente, um dos momentos mais icónicos de Jeremy em palco decorria durante uma música inspirada pelo seu abandono da banda. Quando fui ver os Paramore ao Optimus Alive de 2011, não sabia que essa acrobaciazinha era algo que eles faziam em palco. Não há dúvidas de que esta foi a melhor maneira de descobri-lo. É um dos momentos que melhor recordo desse concerto – que ainda por cima fora antecedido pelo pequeno discurso de Hayley dando-nos as boas-vindas à família (tenho qualquer coisa no olho…). 

 

Existem versões contraditórias para a origem de Conspiracy. Aquilo que parece certo é que foi a primeira música de sempre dos Paramore. Em 2016, Hayley contou que o instrumental foi composto pelo tal Randall, o primeiro vocalista da banda. Quando a jovem o substituiu, ela mudou a letra e a melodia. Hayley conta como trazia os poemas que escrevera em casa para os ensaios de banda e os lia ao som da música. 

 

No entanto, no ano passado, em entrevista à Vulture, Hayley disse que a letra de Conspiracy foi inspirada pelas tensões entre os membros da banda e a editora. O que não bate certo – a menos que as tensões tenham começado cedo, assim que Hayley se juntou à festa (admirem-se…). 

 

É possível que a primeira versão da letra fosse ligeiramente diferente. Ou então que tenha sido inicialmente inspirada por outra coisa – talvez a sua situação familiar com os pais e os padrastos – e que, mais tarde, tenha ganho novos significados. Se acontece connosco, ouvintes, também acontecerá com os criadores. 

 

Em todo o caso, a letra reflete bem as múltiplas crises nos Paramore – a desconfiança, a paranóia, a impotência, a solidão. E foi logo a primeira música que eles compuseram enquanto banda.

 

É o que eu digo, está no ADN deles!

 

 

À parte isso, infelizmente, não gosto muito de Conspiracy. O instrumental tem os seus momentos, gosto da introdução, mas existem partes que não fluem bem – sobretudo no refrão. Na mesma linha, nota-se que a letra foi escrita por uma rapariga novinha – demasiado simples, rimando muitas palavras com elas mesmas.

 

Bem, foi a primeira música deles. Ninguém pode censurá-los por não acertarem à primeira, sobretudo naquelas idades.

 

Ficamos por aqui, para já. Peço desculpa por só termos falado de três canções: com esta banda é preciso quase sempre falar do que acontece nos bastidores. Amanhã haverá mais. Não percam!

Hayley Williams – Flowers For Vases / descansos (2021) #2

Segunda parte da minha análise a Flowers For Vases. Podem ler a primeira parte aqui.

 

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Na altura do lançamento de Flowers For Vases, Wait On não era uma música completamente desconhecida. Hayley já a tinha tocado em junho do ano passado, num vídeo do Instagram (se a memória não me falha). Como poderão ver (e ouvir), é uma versão incompleta, ainda em composição. 

 

Musicalmente é muito simples, baseada apenas em arpejos de guitarra acústica – faz lembrar um pouco In the Mourning, na verdade – e um ou outro efeito mais etéreo. A letra parece falar de várias coisas. A narradora começa por lamentar estar sempre à espera do seu amado, como se a vida dela girasse à volta dele. 

 

O refrão, no entanto, usa a metáfora do céu, que mesmo estando por vezes coberto de nuvens e, de vez em quando, precise de deixar a chuva cair, não desaba. Mantém-se firme sobre as nossas cabeças.

 

Isto é uma variante ao conceito de Petals For Armor, sobre o qual já escrevi várias vezes aqui no blogue – nem sempre a propósito de Hayley. A jovem está ainda a aprender a ser forte, a sentir as coisas e a não deixar que estas a destruam. A resistir à tentação de se tornar impermeável. Hayley chegou a citar Dolly Parton, dizendo que não quer endurecer o coração, mas que procura fortalecer os músculos à volta desse órgão.

 

Ninguém disse que era fácil ser-se forte.

 

 

No contexto de Wait On, suponho que as emoções com que a narradora está a lidar sejam as saudades do amado, que está longe dela. Na última estância, Hayley usa a metáfora de um pássaro que guardou as suas penas para que o amado pudesse usá-las no cabelo – e saber que ela estará sempre com ele.

 

Segue-se KYRH, sigla para Keep You Right Here. Flowers For Vases tem duas siglas como títulos – sem necessidade, na minha opinião. Qual é a piada? 

 

Esta faixa é praticamente um interlúdio – num álbum de faixas já de si muito curtas. Um interlúdio num álbum de interlúdios. Musicalmente, é uma balada guiada pelo piano, com notas de guitarra e um tom etéreo. Agradável, mas não muito original. 

 

A letra é curta, fala apenas de manter alguém à distância certa. Esse acaba por ser um tema recorrente em Flowers For Vases: procurar um equilíbrio entre dar espaço a um ente querido e as saudades que sentimos deles. 

 

Nessa linha, falemos sobre HYD. Devo dizer que, pelo menos em termos musicais, esta é uma das que menos gosto em Flowers For Vases. É demasiado lenta para o meu gosto, falta-lhe intensidade, vida. Uma vez mais, temos guitarra acústica, piano, elementos atmosféricos mas, nesta fase do álbum, já começa a cansar.

 

A letra ao menos é interessante, talvez das mais interessantes em Flowers For Vases. Para mim, HYD é a maior prova de que Taylor é o misterioso amante de Hayley. As pistas estão todas lá, sobretudo na segunda estância.

 

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Começando por “many storms have come and, if not for you, I’d have been struck down, disappeared at sea”. Hayley e Taylor já passaram por muito juntos, tanto no que toca às crises da banda como nas suas vidas pessoais. Por estes dias, já é do conhecimento geral que 2015 foi um dos piores anos da vida de Hayley – Jeremy deixou os Paramore, o ex tê-la-á traído poucos meses antes da data inicial do casamento deles. No entanto, Hayley chegou a afirmar que passaria por tudo outra vez só mesmo porque, no meio disto tudo, Taylor deu provas da sua amizade. 

 

Depois, temos “I know it’s hard for you to take a compliment”. Taylor não gosta de elogios. Existem ocasiões, em entrevistas ou em palco – como por exemplo no vídeo que acabei de referir – em que Hayley se prepara para dizer bem de Taylor, vira-se para ele e diz algo do género:

 

– Vais detestar esta parte…

 

Por fim, “my life began the day you came in it”. Hayley tem dito que considera que só nasceu verdadeiramente quando ela e a mãe vieram viver para Nashville, quando ela conheceu os futuros membros os Paramore (havemos de regressar a essa ideia). Um desses futuros membros? Taylor. Ele só se juntou oficialmente à banda durante o ciclo de Riot!, vários anos depois dos restantes, mas ele e Hayley compuseram juntos desde início – músicas como Conspiracy e a B-side Oh Star. 

 

Dá para perceber um bocadinho porque é que Hayley se apaixonou por ele, mesmo que muitos anos depois. 

 

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Segundo a letra de HYD, no entanto, eles terão estado separados. Talvez ainda estejam. Assumindo que é sobre Taylor, este parece estar a sofrer de depressão (“And it that dark little place you have made, you’d swear all these pretty clouds are grey”) e sentiu a necessidade de deixá-la.

 

A narradora não reage muito bem, fica magoada, quase ressentida – porque, como acabámos de ver, quando Hayley passou pelo mesmo, ela não o afastou, ele esteve lá, terá mesmo sido fulcral para a sua sobrevivência (havemos de regressar a esta ideia já a seguir). Além disso, há que recordar que Hayley tem problemas de abandono, derivados do divórcio dos pais, conforme admitiu numa das entrevistas a Zane Lowe.

 

Como acontece com Over Those Hills, se bem que em circunstâncias muito diferentes, a narradora pergunta-se como estará o amado. Se ele ainda a ama, se ele está a conseguir ultrapassar a sua depressão. Ela acredita que sim.

 

Existe uma parte confusa perto do fim, em que se fala de uma criança. Não sei se ela está a falar do seu cão, se está a falar da sua criança interior, como em Simmer, se eles tiveram um filho sem dizer nada a ninguém (ligeiramente menos provável). Infelizmente, no que toca a Flowers For Vases, não tenho respostas para todas as perguntas – até porque Hayley falou muito pouco sobre estas músicas. 

 

Fica à interpretação de cada um.

 

Queria falar agora sobre Find Me Here. Esta é uma versão diferente da lançada no EP Self-Serenades, mais longa, mais completa. Continua curta, mesmo assim – apenas vinte segundos mais longa que a primeira versão, ainda parece um interlúdio. Musicalmente, pegou nas partes boas da primeira versão e melhorou-as ainda mais – nomeadamente os vocais à Simon & Garfunkel. 

 

 

Em termos de letra, para Flowers For Vases, Hayley acrescentou uma estância que não chega a sê-lo – são apenas dois versos – e uma variante ao refrão. Acaba por manter a mesma mensagem da versão de Self-Serenades, com uma pequena extensão: tal como ela sempre amará a outra pessoa, mesmo que este não possa estar com ela, o amado também sempre a amará. Mesmo separados, nenhum deles estará sozinho.

 

Esta mensagem tem ainda maior impacto no contexto de Flowers For Vases – parece ser uma resposta direta a Wait On e HYD. Dá para ver a jornada feita por Hayley desde lidar mal com a separação até aceitá-la. Suponho que uma das lições que Hayley aprendeu durante 2020 foi que cada um lida com os seus problemas de saúde mental de maneira diferente. Para alguns, como ela, a presença dos entes queridos é importante. Outros, como possivelmente Taylor, precisam de fazê-los sozinhos. Há que procurar um equilíbrio, mesmo que seja difícil. 

 

Nesse aspeto, talvez não tenha sido assim tão boa ideia ter lançado Find Me Here no Self-Serenades. Mais valia ter esperado por Flowers For Vases. Enfim. 

 

Com tudo isto em consideração, e apesar de continuar a achar que a faixa é curta demais, Find Me Here está entre as minhas preferidas neste álbum. 

 

Voltando um bocadinho atrás na tracklist, Inordinary é uma das preferidas de Hayley. Parece ter sido inspirada por aspetos do passado dela de que falou em entrevistas sobre Petals For Armor. Hayley admitiu que a primeira parte da canção é sobre uma coisa e a segunda parte é sobre outra, o contexto muda. 

 

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Assim, na primeira parte da música, Hayley recorda os primórdios dos Paramore. Os tempos em que ela conheceu os futuros membros da banda, Taylor incluído, em que tentou fazer deles a família que desejava ter tido em criança. E, claro, em que aprendeu a tocar guitarra, a compôr música, em que tinha sonhos e ambições que não cabiam numa vida comum em Nashville. 

 

Na segunda parte, por outro lado, Hayley recua ligeiramente no tempo, recordando o momento em que ela e a mãe fugiram do Mississipi e do companheiro abusivo da última. A narradora diz sentir saudades desses tempos, do sabor da liberdade, da relativa paz e normalidade da sua vida. Ao contrário da primeira parte, que valoriza o incomum, a segunda parte valoriza o comum. 

 

Posso estar enganada, mas a ideia que tenho é que só há relativamente pouco tempo é que Hayley aprendeu a dar valor a esta decisão da sua mãe. Havemos de regressar a este assunto quando finalmente escrever sobre All We Know Is Falling. Em todo o caso, é por causa dos dois eventos descritos em Inordinary – a fuga para Nashville, conhecer Taylor, Josh e os outros – que Hayley diz que a sua vida começou no sétimo ano. 

 

Musicamlmente, nada a assinalar. É mais uma faixa guiada pela guitarra acústica, acompanhada por piano e efeitos atmosféricos. 

 

Estou sempre a dizer a mesma coisa, não estou? A culpa é deste álbum.

 

Em Inordinary em particular, em dispensava o piano e o resto do acompanhamento, mantinha a faixa só com guitarra e voz. Os outros elementos não acrescentam nada. 

 

 

Ao menos a canção de que vamos falar a seguir tem uma sonoridade um pouco diferente. No Use I Just Do é outra faixa demasiado curta, outra que parece um interlúdio – o que é uma pena, pois eu até estava a gostar. Guiada pelo piano, acompanhada por elementos estranhos – a melhor maneira que encontro para descrever é dizendo que soa-me a uma guitarra distorcida à distância. 

 

Em todo o caso, resulta.

 

Em termos de letra, é simples, é curta, mas transmite bem a mensagem. É uma canção de amor. A narradora ama o seu interesse romântico por quem ele é. Não apenas porque se sente sozinha e precisa de companhia. Por muito que a narradora tente, ele é o único que ela ama. Está fora do seu controlo. 

 

Pena mesmo ser tão curta.

 

Descansos é uma faixa quase instrumental, a penúltima em Flowers For Vases. Inicialmente a música tinha letra, chamava-se Baby in the Bathtub (um título curioso), mas consta que a letra deixou de ser revelante. Assim, Hayley cortou-a e manteve o instrumental e alguns – poucos – vocais sem palavras. A faixa inclui ainda o áudio de vídeos caseiros do primeiro Dia das Bruxas de Hayley. 

 

O instrumental em si é bonito, com notas de guitarra e piano e um tom melancólico, agridoce. Como se, de facto, Hayley estivesse a ver as cassetes da sua infância, sentindo saudades de tempos mais inocentes.

 

 

Falta-nos falar sobre Just a Lover – que muitos especulam ser uma resposta ao excerto do avô de Hayley, incluído por Taylor em Crystal Clear: “friends or lovers, which will it be?” (como é que eu duvidei durante tanto tempo…?). 

 

Instrumentalmente é das mais interessantes em Flowers For Vases. Começando com piano, baixo e bateria, evoluindo mais tarde para uma guitarra elétrica explosiva. 

 

Uma vez mais, é… demasiado… curta! A música pedia mais uma estância antes de trazerem a guitarra elétrica. Além disso, não havia necessidade de manter os vocais introdutórios num volume tão baixo. Para quê? 

 

A letra é algo confusa. Começando pela introdução. Hayley faz uma referência à Wendy de Peter Pan. Numa das entrevistas a propósito de Petals For Armor, Hayley revelou que uma das coisas que viera a descobrir com o(s) seu(s) psicólogo(s) é que tentou fazer dos Paramore a sua família, tentou de fazer de Wendy, de mãezinha do grupo que tomava conta de toda a gente. Não era a atitude mais saudável.

 

Em Just a Lover, Hayley diz mesmo que o amor a transformou em muitas outras pessoas, mas agora é “apenas uma amante”. A minha interpretação é que, agora, Hayley é capaz de amar só porque sim, de maneira pura – não para compensar por uma carência, não apenas porque se sente sozinha e indesejada.

 

Isto pode dizer respeito tanto à sua possível relação com Taylor como à sua relação com os Paramore enquanto banda. 

 

 

A estância seguinte fala, outra vez, dos primórdios dos Paramore. A depois dessa é que se torna confusa. A ideia com que fico é que Hayley se deixou levar pelas metáforas e a mensagem da música perde-se. 

 

Em todo o caso, vejo a última estância como um lamento pelo futuro incerto da banda em termos de pandemia – “I’ll be singing into empty glasses, no more music for the masses”. Há quem diga, no entanto, que os copos vazios são aos tempos em que Hayley tentava afogar a sua depressão com doses copiosas de álcool, durante a era de After Laughter. 

 

Não sei. Just a Lover termina com a narradora dizendo que sabe o que isto era, ou o que fora. Pena não ter partilhado a informação connosco. 

 

E é isto Flowers For Vases. O único álbum até agora do universo musical de Hayley Williams que não adoro. Como fui dando a entender ao longo desta análise, é demasiado homogéneo em termos de sonoridade. 

 

Comparemos com Petals For Armor: quase todas as músicas têm essencialmente os mesmos instrumentos, mas os estilos musicais são muito mais variados e diferentes do que se ouve por aí – sobretudo pelo facto de quase todas serem guiadas pelo baixo, cortesia da colaboração com Joey Howard. 

 

Por sua vez, as músicas de Flowers For Vases soam muito parecidas a quaisquer outras canções acústicas/folk/baladas de piano. Além disso, como também fui assinalando, a maior parte delas é demasiado curta. Acho que li em qualquer lado que várias das músicas deste álbum estiveram incompletas durante muito tempo. Hayley só as terá completado quando decidiu lançá-las. 

 

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Não consigo encontrar a fonte dessa informação, no entanto, estejam à vontade para não acreditarem. Mas não me surpreenderia se fosse verdade. Por esse aspeto e pela falta de variedade em termos de instrumental, Flowers For Vases soa-me a um longo interlúdio ou a um EP. 

 

Talvez devesse ter sido um EP – até porque temos casos de o mesmo tema ser abordado em mais do que uma canção, com poucas alterações. Como vimos antes, as três primeiras músicas falam sobre, ao mesmo tempo, querer e não querer seguir em frente após uma relação falhada. Outras três tentando processar o facto de o amado precisar de espaço. Alguns dos temas já tinham sido (melhor) abordados em Petals For Armor, até. Eu teria cortado músicas como First Thing to Go ou HYD ou KYRH. 

 

Dito isto tudo… há que recordar que este é um álbum quase cem por cento a solo por Hayley. Ela compô-lo sozinha e tocou todos os instrumentos. Pessoalmente, nunca tinha ouvido falar de nenhum caso assim, mas uma rápida pesquisa no Google mostrou-me que não é assim tão invulgar.

 

Ainda assim, a maior parte dos músicos não consegue criar um álbum sozinho. Precisa de co-compositores, produtores, instrumentistas, etc. Hoje em dia, aliás, muitas músicas do mainstream contam cinco ou seis compositores. Uptown Funk conta para aí uma dúzia deles. Segundo consta, no entanto, foi o equivalente a um trabalho de grupo em que só uma ou duas pessoas trabalham, os outros apenas assinam no fim. Neste caso não foi pela nota, foi pelos lucros da música.

 

Mesmo que um músico não tenha propósitos tão monetários, não deixa de ser difícil fazer um álbum praticamente sem ajuda. Hayley, ainda por cima, é famosa pelas letras e melodias, não pelos instrumentos. Pelo contrário, Petals For Armor foi o primeiro álbum em que ela teve créditos na instrumentação. Ela mesma admitiu que, desde a sua adolescência, 2020 foi o ano em que mais tocou guitarra. Foi a primeira vez em uma década que instalou um kit de bateria na sua casa.

 

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Tendo isto tudo em conta, podemos censurar Hayley por Flowers For Vases não ser uma obra-prima? Eu já acho um grande feito, tendo em conta as circunstâncias, que o álbum tenha uns quantos bons momentos instrumentais!

 

Além disso, concordo com as opiniões de fãs na Internet que dizem que, mais do que qualquer outro, Flowers For Vases é um álbum que Hayley criou só para si mesma, sem grande consideração pela audiência. Terá sido por isso que a promoção foi mínima. 

 

Calhou não fazer muito o meu género, tirando uma música ou outra. Não me imagino a regressar muito a este álbum. Ao contrário do que tem sido a minha prática com artistas de que gosto nos últimos anos, não me vou dar ao trabalho de comprar o CD.

 

E não há mal nenhum nisso. Como a própria Hayley escreveu na mensagem de lançamento, melhor sorte para a próxima.

 

E Hayley parece já mais ou menos pronta para uma próxima. Pintou o cabelo de laranja e, quase cinco anos depois, parece que é para durar – também acho que é a altura certa. Houveram momentos nos anos anteriores, a propósito de iniciativas para a Good Dye Young e assim, em que ela parecia ameaçar regressar ao laranja, mas a ideia não me agradava. Ainda não estávamos lá. Mas agora estamos.

 

Hayley diz também que o seu próximo projeto musical será com os Paramore. Não sei se vão entrar em estúdio já já – tenho as minhas dúvidas, até porque ainda não há fim à vista para a pandemia. Há quem aposte num álbum novo ainda este ano, mas eu acho melhor termos paciência. Não me importo de esperar.

 

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Já conto mais de dez anos como fã dos Paramore. Às vezes ponho-me a ouvir músicas do Singles Club e surpreendo-me com tudo o que mudou desde esses tempos, o quão Hayley e Taylor evoluíram como músicos. Tem sido uma montanha-russa – e note-se que só me juntei à família depois de Zac e Josh terem saído da maneira como saíram. Ainda hoje, passados estes anos todos – mesmo estando os Paramore numa fase tão boa que Hayley pode lançar música a solo sem que se questione o seu compromisso com a banda – continuamos a tentar perceber porque é que a jornada tem sido tão turbulenta.

 

Há umas semanas alguém comentou no Twitter que os Paramore deviam fazer daqueles documentários musicais que estão muito na moda hoje em dia. Hayley admitiu que houveram tentativas. Eu no entanto acho que era preciso, no mínimo, uma série de seis episódios.

 

Hei de escrever sobre isso quando analisar os álbuns All We Know Is Falling e Brand New Eyes. Já não é a primeira vez que falo destes textos, estou sempre a adiar. Ainda assim, quero ver se escrevo sobre o primeiro álbum antes de sair o próximo. 

 

Os próximos tempos aqui no blogue serão algo incertos. Vou começar um emprego novo, mais exigente, que me vai roubar tempo de escrita. Ainda não sei como vou gerir mas, no mínimo, publicações aqui vão ser (ainda) mais espaçadas. Avril Lavigne e Bryan Adams têm dado a entender que irão lançar música a qualquer momento. Talvez consiga escrever sobre esse material novo na rúbrica Músicas Não Tão Ao Calhas, mas não consigo prometer nada. Pode ser que tenha mesmo de deixar o blogue indefinidamente em pausa – espero que não seja necessário. 

 

Obrigada desde já pela vossa compreensão. Saúde, ânimo e até uma próxima. 

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