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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

My Indigo (2018)

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Quando os Within Temptation concluíram o ciclo do álbum Hydra, lançado no início de 2014, os membros da banda deram por si sem saber o que fazer a seguir. Sharon den Adel, em particular, estava desgastada, com bloqueio criativo. Começava a sentir as consequências de ter passado uma boa parte da sua vida adulta em digressão, mesmo sendo mãe de três (com Robert Westerholt, guitarrista da banda). Por fim, o seu pai contraiu uma doença grave, de que viria a falecer.

 

Como tenho assinalado várias vezes, os últimos anos não têm sido fáceis para ninguém.

 

Sharon tinha, assim, muito com que lidar, muito para refletir. Quando conseguiu voltar a criar música, esta não se encaixava no leque habitual dos Within Temptation. Desse modo, decidiu lançá-la à parte, num projeto a solo, a que chamou My Indigo.

 

Sharon criou e editou este álbum faz hoje um ano, apenas para se satisfazer a si mesma. Sem a pressão de corresponder aos critérios da música dos Within Temptation, sem preocupações comerciais – daí não ter investido por aí além na divulgação. Em parte por isso e em parte porque o pai faleceu na altura em que My Indigo foi lançado.

 

Na minha opinião, foi uma decisão acertada lançar esta música como um projeto lateral. Tentar vender este material como Within Temptation podia não correr bem – até porque, como referi antes, fãs de metal nem sempre são fáceis de aturar.

 

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My Indigo é uma mistura interessante de indie pop, folk, anos 80 e elementos orquestrais/grandiosos da música dos Within Temptation. É um som mais leve que o rock/metal sinfónico da banda holandesa, mas ao mesmo tempo e um pop mais adulto que a maioria da música que passa nas rádios, tal como referi antes.

 

Sharon escolheu My Indigo para nome deste álbum e deste projeto porque é essa a cor que esta música lhe evocava: índigo. Leve, mas melancólico, contemplativo. Um dos melhores exemplos é o tema-título.

 

My Indigo é também o nome da primeira música deste álbum a ser lançada como single em meados de novembro de 2017. Este não foi um mês fácil para mim, como penso ter referido antes – depois do concerto no Hollywood Bowl, a morte de Chester Bennington estava a atingir-me como ainda não tinha atingido antes. Misturando isso com alguns problemas pessoais e com o estado geral do Mundo (que, verdade seja dita, não melhorou deste essa altura), passei os últimos dois meses de 2017 debaixo de uma nuvem de desânimo.

 

Acabou por ser uma boa altura para My Indigo sair, pois o seu tom melancólico condizia de maneira agradável com o meu estado de espírito.

 

 

Mesmo hoje, My Indigo é uma das minhas músicas preferidas do álbum com o mesmo nome. O som mistura folk com sintetizadores. A letra fala de um amor não correspondido, descrevendo essa relação como “índigo” – o sentimento de melancolia, de resignação, de quem sabe que por muito que ame uma pessoa, por muito que faça por ela, ela nunca dará retorno.

 

Out of the Darkness seria lançada no mês seguinte. Tal como My Indigo, saiu numa boa altura, ressoando com o que andava a sentir naqueles tempos. Musicalmente, poderia funcionar como uma balada dos Within Temptation, mudando apenas alguns elementos. Começa só com piano e voz, com o resto da instrumentação – a percussão, os sintetizadores – juntando-se depois do primeiro refrão.

 

A letra, como o título sugere, fala de procurar fugir da escuridão, deixando para trás a nossa dor, os nossos fantasmas. Out of the Darkness refere mesmo uma pessoa que ajuda a narradora nesse processo, a suportar os momentos maus.

 

Acaba por ter um tema parecido ao de 26, dos Paramore – por sinal, outra música com que me identificava muito em finais de 2017. Tal como 26, Out of the Darkness explora diferentes facetas do idealismo. Por um lado, alerta para o perigo de nos perdermos nos nossos próprios sonhos e mágoas, nos versos “We dwell on our dreams and somehow we forget to live” – que, a propósito, ninguém me convence que não são a uma referência às palavras de Dumbledore, no primeiro livro de Harry Potter). Por outro, parece querer sonhar com algo mais – “See the bluebirds flying high, so I’m wondering down below, could I?”, estes uma possível referência a Somewhere Over the Rainbow.

 

 

Mais do que outra coisa, era a mensagem do refrão que ressoava comigo. Na altura em que Out of the Darkness saiu, via muita gente lidando com situações difíceis. Só para dar alguns exemplos, os fãs dos Linkin Park ainda em luto por Chester e apoiando-se uns aos outros; Hayley Williams, dos Paramore, que pusera uma boa parte da comunidade a falar sobre saúde mental; uma Youtuber que terminara uma relação prolongada e publicara um vídeo falando sobre isso. De uma maneira estranha, consolava-me saber que estávamos todos a tentar lidar com os nossos próprios problemas, a tentar cuidar de nós mesmos. Como reza a letra desta música, estávamos todos a tentar fugir da escuridão.

 

Estas foram as únicas duas músicas que ouvia com regularidade antes de o álbum ser editado.

 

Uma coisa que me confunde é o facto de a tracklist do álbum em CD ser diferente das versões digitais. Nunca tinha encontrado um caso destes. Não é grave: na minha opinião, My Indigo não é um álbum onde a ordem das faixas seja particularmente significativa – ao contrário de, por exemplo, Post Traumatic. Mas é estranho.

 

Crash and Burn, segundo Sharon, fala de uma pessoa próxima dela que vive uma vida instável, errática, de altos e sobretudo de baixos  muito baixos (talvez seja toxicodependente). A pessoa em questão não aprende com os erros. Não que não tenha recebido ajuda, mas ele ou ela gosta de viver no limite. Até agora, tem conseguido sobreviver, reerguer-se depois de cair, mas Sharon receia perdê-lo ou perdê-la de vez, mais cedo ou mais tarde.

 

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A sonoridade encaixa-se no estilo do álbum, com destaque para o saxofone melancólico, que faz lembrar a banda sonora de um filme western.

 

É uma faixa interessante, mas confesso que não está entre as minhas preferidas.

 

Uma música que acho muito gira neste álbum é Black Velvet Sun, mais pela sonoridade que pela letra. Mistura sintetizadores e uma percussão acelerada com o som de um violino, criando um efeito ao mesmo tempo dançante e atmosférico, de uma maneira muito única.

 

Indian Summer é outra canção interessante em termos musicais, ao combinar violinos e sintetizadores, lembrando um bocadinho de world music, um bocadinho de funk.

 

A expressão “indian summer” é usada pelos anglo-saxónicos para designar um Verão tardio: tempo solarengo e temperaturas altas algures entre Setembro e Novembro. Costuma também ser usada como metáfora para um período de alegria juvenil vivido numa fase tardia da vida. A expressão terá tido origem num romance de William Dean Howells, de 1886, com o mesmo nome. Nele, o protagonista vive um romance quando já está na meia idade.

 

 

Faz sentido, desse modo, que a narradora de Indian Summer deseje reacender uma paixão antiga.

 

Someone Like You acaba por funcionar um pouco como uma antítese a Indian Summer – usando também imagens outonais na letra. Esta é uma das minhas canções preferidas em My Indigo, apesar de ter algumas falhas a apontar-lhe. Adoro os vocais doces de Sharon, a sua simplicidade encantadora.

 

Someone Like You supostamente conta a história de um casal que se juntou na adolescência e que se vai separar ao fim de cinquenta e seis anos. Digo “supostamente” porque eu confesso que não chegaria lá sem a explicação de Sharon. A letra é um bocadinho vaga de mais. Tudo o que consigo deduzir dela é que a narradora continua tão investida na relação como no início desta e se pergunta para onde o amante deseja ir.

 

Não sei. Apesar de gostar imenso desta música, acho que funcionaria melhor se tivesse a letra de uma canção romântica, não de separação.

 

Star Crossed Lovers tem a letra mais interessante de todo o álbum, a meu ver. Esta é outra faixa com um carácter vagamente western, desta feita por causa dos violinos.

 

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Star Crossed Lovers parece falar de um casal numa relação há já muitos anos, que talvez tenha começado como um amor proibido. Talvez tivessem havido fatores exteriores, terceiros, a conspirar contra a relação. Assim, o romance ter-se-á alimentado da excitação de quebrar as regras, os dois valorizavam os poucos momentos em que conseguiam estar juntos.

 

Eventualmente, a relação estabilizou. Com o tempo, a paixão poderá ter arrefecido, como acontece muitas vezes com relações prolongadas. Os dois ter-se-ão afastado um do outro sem darem por isso. A narradora deseja regressar ao modo “amantes proibidos”, recuperar esse espírito, essa adrenalina, para salvar a relação.

 

É um tema interessante. Só é pena a faixa ser um bocadinho curta demais.

 

As faixas que sobram possuem uma sonoridade grandiosa, podiam encaixar-se bem num álbum dos Within Temptation, com poucas alterações. O caso mais flagrante de todos é Lesson Learned, bastando acrescentar uns acordes de guitarra elétrica para passar despercebida na tracklist de Hydra.

 

Só me apercebi disso aquando da preparação desta análise, mas a letra de Lesson Learned descreve bem algo que tenho sentido várias vezes nos últimos anos, em que o mundo parece cada vez mais caótico. A narradora sente-se tentada a recorrer à apatia para se proteger das inperfeições do mundo, da aleatoriedade e falta de lógica da vida. No entanto, acaba por perceber que, ao bloquear a dor e a revolta, também bloqueia o amor e a alegria. Percebe que, por muito que diga o contrário, não quer viver uma vida sem emoção.

 

 

A lição que aprendemos, como reza o título, é que é assim que o mundo e o amor funcionam. Mesmo perante a dor e o caos, não deixam de florescer.

 

Where Is My Love também possui semelhanças com os Within Temptation em termos musicais, se bem que menos ostensivas – a repetição de “My mamma said” (um elemento de que não gosto muito, admito) dificilmente se encaixaria na música da banda, por muito épico que seja o acompanhamento.

 

Este é outro caso em que a mensagem da música nos foi informada por Sharon – neste caso, Where Is My Love fala de desigualdade de género – mas sem a adenda eu não chegava lá. Tirando a terceira estância, tomaria esta letra por mais uma história de amor não correspondido.

 

Não deixa de ser uma mensagem relevante, claro. Mas podia ter sido melhor explorada.

 

Por fim, Safe and Sound é uma carta de amor aos filhos de Sharon. Esta também possui um som grandioso, não muito diferente do típico dos Within Temptation. O exemplo mais flagrante é a pausa depois da terceira estância, onde facilmente se imaginam coros, parecidos àqueles presentes em quase todas as canções da banda.

 

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Na letra, Sharon debate-se entre o desejo de proteger os filhos e a necessidade de prepará-los para as dificuldades do mundo – um equilíbrio que todos os bons pais procuram e que eu imagino que não seja fácil de atingir. A terceira estância é particularmente ternurenta – “love you to the moon and back again”. Sharon consegue soar doce e poderosa (sobretudo no refrão) no mesmo tema. É impressionante.

 

E é isto My Indigo. Diria que este é um álbum outonal: maduro, sério, introspetivo, algo melancólico e nostálgico. A própria estética do álbum, em tons terra e alaranjados, condiz com o outono.

 

Conforme fui referindo ao longo desta análise, algumas destas músicas refletem vários conflitos internos que tenho tido nos últimos anos, coisas que senti várias vezes. Apesar de, como referi nos meus textos de fim de ano, ainda apreciar boa música pop, apenas para cantar, dançar e entreter (tenho, aliás, vindo a apreciá-la cada vez mais ultimamente), também preciso de música assim na minha vida.

 

É outro dos motivos pelos quais Head Above Water, de Avril Lavigne, me desiludiu: porque não me deu música assim. Isto apesar de Avril ter estado em boa posição para criar música desse género, com a Doença de Lyme.

 

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My Indigo não é um álbum perfeito, mas considero-o uma aposta ganha por parte de Sharon. Espero que ela não fique por aqui no que toca a este projeto. Quero outro álbum daqui a uns anos.

 

Eu tinha dito que não queria escrever sobre Resist, o novo álbum dos Within Temptation, sem antes escrever sobre My Indigo. Já escrevi, mas ainda não me sinto preparada para escrever sobre o álbum. Vou precisar de mais tempo. Hei de fazê-lo, eventualmente, nem que só consiga publicar no primeiro aniversário de Resist, como estou a fazer com My Indigo.

 

Até porque, nesta altura, a minha atenção está noutro lado – no grande projeto para este blogue de que já falei antes. Ainda estou numa fase muito inicial no planeamento, isto é capaz de demorar. Mas garanto-vos que vai valer a pena.

 

Fiquem atentos.

Avril Lavigne – Head Above Water (2019)

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(Eu tinha dito que ia fazer este meme...)

 

Avril Lavigne lançou, no passado dia 15 de fevereiro, o seu sexto álbum de estúdio, intitulado Head Above Water. Conforme comentámos antes, este é o primeiro disco que a cantautora lança em mais de cinco anos – uma boa parte deles passados debatendo-se com a Doença de Lyme.

 

Como poderão ler aqui, da última vez que Avril tinha lançado um álbum, o meu parecer foi misto. Ao longo destes cinco anos, admito, tive flutuações na minha opinião. Funciona bem como álbum pop, feel-good, para entreter, para cantar no carro – quer os temas mais animados, quer as baladas. Não representou uma grande evolução no som de Avril, mas incluiu uma ou outra experiência bem sucedida. E Hello Kitty…

 

Não é um mau álbum, mas eu na altura queria algo com mais substância.

 

Sendo o sucessor ao álbum homónimo o primeiro que Avril lança após sobreviver a uma doença grave, seria de esperar que estivesse mais satisfeita com Head Above Water, descrito por ela como o seu mais pessoal até ao momento. E estou.

 

Bem, mais ou menos.

 

 

Antes de começarmos, e já que falamos do quinto álbum, uma curiosidade: depois de ter ouvido Avril Lavigne, o álbum, pela primeira vez enquanto passava um fim de semana em Vila Viçosa, voltei a estrear um álbum novo dela em viagem. Desta feita foi em Bilbau. Tal como aconteceu com o quinto álbum e com a Capital do Mármore, Head Above Water há de ter sempre um saborzinho ao País Basco, ao Museu Guggenheim.

 

Seria giro se conseguisse manter essa tradição: marcar viagens para os dias em que a Avril lança álbuns.

 

Mas falemos de Head Above Water em si. O álbum abre com a faixa do mesmo nome, que também serviu de primeiro avanço. Conforme vimos antes, terá sido a primeira música que Avril compôs para este álbum, inspirada por um momento em que a cantora pensava que estava a morrer. Head Above Water acaba por representar bem o álbum a que dá o nome. Várias músicas apresentam estruturas parecidas, sobretudo na primeira metade do álbum.

 

Uma das minhas preferidas é It Was in Me. Se a ouvirem, acho que percebem porquê: é muito parecida com I’m With You. Na parte musical, sobretudo, mas não só.

 

 

A instrumentação assemelha-se a uma versão moderna da grande balada de Let Go, com o piano a conduzir e um carácter um tudo nada etéreo. A estrutura melódica é semelhante à de I’m With You: estâncias em tom grave, refrão e terceira parte em tons agudos. A música vai ao extremo de, à semelhança da música de 2002, ter uma parte em que o instrumental diminui, Avril canta parte do refrão em tom baixinho para, depois, clamar “It was in me! It was in me!” com uma melodia idêntica à de I'm With You.

 

Até mesmo na temática It Was in Me é parecida com a grande balada de Let Go. Calhou bem ter escrito há pouco tempo sobre I’m With You e outras canções à volta do tema de estar à procura de algo: de companhia, de respostas, de um sentido para a vida. De sítios perfeitos.

 

It Was in Me também pega nesse tema. A narradora procura respostas por todo o lado: em festas, em bens materiais, noutras pessoas.

 

No fim, a resposta estava dentro de si: nas pequenas coisas, na sua espiritualidade, na sua relação com Deus, em si mesma. Dezassete anos depois de I’m With You (metade da vida dela, vejo agora), Avril já não tem medo de estar sozinha. Consegue “sentir-se eufórica enquanto sóbria (infelizmente não existe nenhuma tradução literal para “high”. Apenas “pedrada” e não é cem por cento exata), jovem enquanto velha” sem ajudas exteriores. 

 

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Mesmo antes de Avril o confirmar em entrevista no outro dia, já suspeitava que ela estava a tentar recriar a magia de I’m With You. A música até foi co-composta por Lauren Christy, que costumava fazer parte do The Matrix! E hão de reparar na curiosa abundância de “yeah-yeah”s neste álbum.

 

Não acho que tenha sido uma má ideia. Para além de ser uma boa sequela a I’m With You, na minha opinião, é uma das melhores músicas de Head Above Water. E é, sem sombra de dúvida, a letra mais madura que Avril alguma vez escreveu até ao momento.

 

Por sua vez, Warrior foi um dos primeiros títulos de que Avril falou – há cerca de dois anos, conforme podem ver aqui.

 

É uma música linda, embora seja demasiado parecida com Head Above Water para o meu gosto: conduzida pelo piano, com os violinos a acompanhar e a interpretação emotiva de Avril.

 

Na verdade, não consigo decidir se gosto mais da versão oficial ou da versão demo, que apareceu na internet no mesmo dia em que o álbum saiu. A demo tem um tom mais intimista, tem mais personalidade própria, não parece tanto uma Head Above Water parte 2 – já ajudava terem dispensado a percussão. Por outro lado, gosto mais da terceira parte da versão do álbum – mas eu teria conservado o crescendo de violinos da demo. E, claro, a versão oficial está melhor produzida, possui melhor qualidade de som.

 

 

A letra não é má, está acima da média no que toca à discografia da Avril, mas ela vai para todas as metáforas óbvias, tornando a canção demasiado genérica. Já de si é vulgaríssimo chamar “guerreiros” a pessoas com doenças graves, sobretudo cancro, e Warrior não se eleva acima desses clichés. Fica a ideia que qualquer um podia ter escrito esta letra.

 

Vou dizer, no entanto, que gosto do verso “I’ve got a whole damn army”: um exército do qual fazem parte a família de Avril, os seus amigos e, claro, nós, os fãs. Conforme escrevi aqui no blogue há pouco tempo, julgo eu, o mais importante são as pessoas, sobretudo em alturas difíceis como estas.

 

E são estas as músicas inspiradas pela Doença de Lyme (bem, It Was in Me mais ou menos). Sim, apenas três músicas.

 

Bem, mudando um pozinho ou outro, Birdie podia aplicar-se ao Lyme. A letra fala da sensação de prisão, de nos sentirmos um animal numa jaula, um pássaro numa gaiola (lá está). Podia ser sobre a doença que a confinou a uma cama durante longos períodos de tempo ao longo de dois, três anos, mas a letra alude mais a uma relação amorosa. Talvez o seu casamento falhado com Chad Kroeger, talvez a relação tóxica de que fala noutras músicas.

 

 

Em termos de instrumentação, Birdie não difere muito das músicas que falámos antes. Por outro lado, em termos de estrutura da melodia, foge um pouco à fórmula da larga maioria do álbum, sobretudo no que diz respeito ao refrão. Tem ainda uma aura de melancolia que joga bem com a letra.

 

Em suma, não sendo das minhas preferidas neste álbum, é certamente uma das mais interessantes e únicas.

 

Outra música que aborda relações disfuncionais é I Fell In Love With the Devil. Produzida pela própria Avril, esta faixa possui um tom inesperadamente gótico e dramático, cortesia do piano e dos violinos. Parece uma música retirada do Under My Skin, sem guitarras elétricas, com um carácter mais maduro e moderno.

 

A condizer com a parte musical, a letra é dramática, mesmo melodrámatica. Não que fosse de esperar outra coisa de um título como I Fell in Love With the Devil. Descreve uma relação tóxica, da qual a narradora parece incapaz de sair sozinha. A letra usa imagens de Céu e Inferno, anjos e demónios – melodramático, lá está, mas funciona dentro da sonoridade.

 

 

Não sendo uma das minhas preferidas, é outra canção interessante. Nos primeiros dias após a edição do álbum, era a mais reproduzida no YouTube. Não surpreende: três quartos da comunidade de fãs venera Under My Skin e I Fell in Love With the Devil parece ter sido criada de propósito para eles.

 

Tell Me It’s Over também aborda uma relação disfuncional, como vimos antes. Ouvindo-a no contexto do álbum é um destaque claro: boa letra, boa sonoridade (tirando a batida irritante), bom desempenho vocal. Foi uma boa jogada lançá-la como single em dezembro – houve quem a descrevesse como uma música de Natal triste. Existem outros temas com influências soul em Head Above Water, como veremos adiante, mas Tell Me It’s Over é de longe o melhor.

 

Praticamente todos os álbuns de Avril, sobretudo os mais calmos e pessoais, como este, possuem pelo menos um outlier. Neste caso, este é Dumb Blonde. Na minha opinião, sendo Head Above Water um álbum mais homogéneo que o costume, nota-se mais a diferença. Também não ajuda o facto de Dumb Blonde estar a meio da tracklist – aquando de Goodbye Lullaby, por exemplo, tiveram o bom senso de colocar What the Hell logo no início.

 

Dumb Blonde era mais ou menos o que eu calculava que fosse, mal saíram as primeiras pistas sobre a múscia. Com uma batida “roubada” a Hollaback Girl, mais prevalente no início, acaba por ganhar mais personalidade após a primeira estância. A minha parte preferida é o pós-refrão, gosto imenso dos vocais.

 

 

Sendo tão contagiante como qualquer outro single pop da discografia da Avril, a letra por outro lado é melhor que o habitual para este estilo. Terá sido inspirada por um idiota qualquer que acusou Avril de ser, lá está, uma loira burra. Avril vingou-se assim. O “braggadocio” em Dumb Blonde lembra um pouco certas músicas do The Best Damn Thing e vai ainda mais longe: é a primeira vez que Avril se gaba do dinheiro que ganha, dos discos de Ouro e Platina (gaba-te enquanto podes, querida…).

 

Dumb Blonde está longe de ser um hino feminista revolucionário, mas sempre tem alguma mensagem, algum significado, o que a coloca num nível acima das Girlfriends e Hello Kittys desta vida.

 

Dumb Blonde possui várias versões. Quando foi lançada como single, uns dias antes do lançamento do álbum, por exemplo, veio com um rap de Nicky Minaj.

 

Nós os fãs só soubemos da colaboração uns dias antes. Ninguém estava à espera. Parece-me óbvio que esta foi uma decisão de última hora, talvez para que a música descole (não parece estar a resultar…). Muitos de nós andavam nervosos, como seria de esperar, por um lado. Por outro, tanto Nicky como Avril trocaram elogios nas redes sociais, o que foi agradável – quando a Comunicação Social gosta tanto de virar cantoras umas contra as outras.

 

 

A participação de Nicky não é má mas, na minha opinião, era desnecessária. Gosto mais da versão a solo. Não a versão que aparece no CD, a versão explícita que, tanto quanto sei, não foi lançada oficialmente. Fico um bocadinho chateada por essa não aparecer pelo menos no CD. Não sou nenhuma criancinha, estou habituada aos “fucks” e “shits” desta vida na música.

 

Tudo isto para dizer que, para o típico single “radiofónico” semelhante a Girlfriend, Dumb Blonde não é má. É certamente melhor que Hello Kitty – o que não era difícil, sejamos sinceros.

 

O resto do álbum consiste em canções de amor (bem, mais ou menos no caso de Bigger Wow). Cinco de seguida, na verdade. A primeira, Souvenir, é a minha preferida – uma das minhas preferidas em todo o álbum, aliás, cativando-me logo nas primeiras audições.

 

Isto acontece-me em todos os álbuns de Avril, mesmo que até nem goste dos álbuns a cem por cento, mesmo que tenha vários defeitos a apontar (e Head Above Water é um desses casos, como veremos adiante). Existe sempre pelo menos uma faixa que me agarra pelo coração, contra toda a racionalidade. Muitas vezes é uma das faixas que mais passam despercebidas, de que Avril menos fala, que menos atenção recebe dos fãs.

 

 

Nada disto acontece com outros artistas ou bandas. É um dos motivos pelos quais ela continua a ser a minha preferida, mesmo passados estes anos todos, mesmo que tenha algumas reservas relativamente aos seus álbuns mais recentes.

 

Continuo a achar que Souvenir tem argumentos a seu favor. Na minha opinião, esta é a 17 de Head Above Water: uma música com um tom primaveril/estival, muito alimentada a nostalgia. Souvenir é, aliás, um romance de verão em forma de música – não apenas pela letra. A guitarra acústica e os discretos elementos eletrónicos dão vida aos cenários idílicos que a canção descreve.

 

Eu, aliás, quero viver para sempre naquele refrão agridoce. Numa das primeiras noites após o lançamento do álbum, estive um bom bocado deitada, ouvindo Souvenir em repetição, de lágrimas nos olhos. A música faz-me desejar passar férias num lugar paradisíaco, longe da minha vida habitual – de preferência sem Internet. O romance de verão seria opcional.

 

Mais uma vez, é raro encontrar uma canção que tenha esse efeito em mim: capaz de me levar às lágrimas, de me arrancar do aqui e agora.

 

A letra de Souvenir fala, assim, de um romance de verão que está a terminar. A narradora brinca com a ideia de manter o contacto depois das férias, de repetir a história no verão seguinte, talvez mesmo tornar a relação permanente.

 

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É um sentimento bonito, mas a verdade é que nem sempre estes romances sobrevivem à rentrée, ao regresso à rotina, ao mundo real.

 

Curiosamente, uma das músicas que vazaram no dia em que o álbum saiu, In Touch, cuja letra aborda o mesmo tema por outras palavras. Provavelmente foi uma primeira versão de Souvenir. Ainda bem que foi excluída da tracklist que, na minha opinião, Souvenir é muito melhor.

 

Esta é, então, mais de uma canção de amor, é uma canção romântica, idílica. Um pouco como Run Away With Me, se formos a ver.

 

Se Souvenir é uma canção de amor idílica, Goddess é uma canção de amor mais apoiada na realidade. É uma balada acústica fofinha, mais ritmada que Falling Fast (a percussão resulta de bater com os dedos nas cordas na guitarra). Lembra-me um bocadinho 23, da Shakira. Também faz pensar em noites ao ar livre, à volta de uma fogueira, com alguém a tocar guitarra.

 

Há muita gente a implicar com a rima de “pajamas” com “bananas”, não sem alguma razão. A mim não me incomoda muito porque o inglês não é a minha língua nativa e, em português, pijama até rima com banana. Eu até gosto, pois dá um carácter adorkable à música, na minha opinião.

 

 

Além disso, sejamos sinceros, esta é a mulher que começou uma canção com “He was a boi, she was a girl” e outra com “Singing Radiohead at the top of our lungs” – até eu sei que a música dos Radiohead não é do género que se cante a plenos pulmões. Contestação a esse verso parece-me bem mais compreensível que uma mera rima forçada.

 

Tirando isso, gosto bastante da letra de Goddess (apesar de, por vezes, cair em clichés). Ao contrário de todas as outras canções de amor neste álbum, esta até parece relacionar-se com a Doença de Lyme, pelo menos em parte.

 

Recordemo-nos que Avril passou uma boa parte de dois anos presa a uma cama. Em certos momentos, segundo declarações da mesma, nem conseguia lavar os dentes – quanto mais pentear-se, depilar-se, maquilhar-se. A última deve ter sido particularmente difícil para Avril, que já confessou ser viciada em maquilhagem, sentir-se nua sem o seu característico smokey eye.

 

Não admira, assim, que Avril refira que o seu amado a ache atraente de pijama, que ache o seu corpo perfeito, numa canção de amor. Qualquer mulher tem essas inseguranças: “Será que ele ou ela me vai achar bonita sem maquilhagem? Ou se ganhar uns quilos? Ou quando estiver doente ou velha?”.

 

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É certo que é mais fácil a Avril parecer sexy de pijama – ela tem acesso a muitos mais produtos e tratamentos cosméticos que nós, simples mortais. Mas também a sociedade faz de tudo para que as mulheres nunca se sintam suficientemente bonitas. Diz-se, aliás, que as modelos são das pessoas mais inseguras que existem.

 

Isto tudo para dizer que, se alguém vos acha atraente mesmo quando não estão no vosso melhor, esse alguém é pelo menos um forte candidato a pessoa certa para vocês.

 

As outras canções do álbum, infelizmente, não me impressionam assim tanto. Estou com dificuldades em decidir se gosto ou não de Crush (que também foi um dos primeiros títulos a ser revelado). Por um lado tem influências soul/jazz interessantes, à semelhança de Tell Me It’s Over, mas a música é demasiado lenta para o meu gosto. Além de que a letra não lhe faz favores nenhuns.

 

O mesmo se passa com Love Me Insane. O instrumental tem alguns elementos interessantes: o piano tem um carácter algo retro, faz-me lembrar Easy, dos Commodores. Também gosto dos violinos. Tirando isso, no entanto, a música acrescenta muito pouco: a letra reutiliza o tema de Crush e o desempenho vocal não é nada por aí além. Esta podia ter sido uma b-side.

 

Uma coisa em que reparei neste álbum é a mania de Avril de criar refrões circulares. Estes começam com a palavra ou expressão que dá o título à música e terminam com a mesma expressão, ou com uma pequena variação. Por vezes, repete esse título algumas vezes, acompanhando-o com monossílabos do género “yeah-yeah”. Esta última é uma tendência que herdou do álbum homónimo e que, sinceramente, já cansa. Isso e os refrões circulares fazem com que as músicas pareçam demasiado forçadas. Não sou fã.

 

 

Bigger Wow inclui esses dois pecados – embora eu até goste dos “Na na na”, ficam no ouvido. Encaixaria bem no álbum homónimo. Mais uma vez, a sonoridade tem elementos interessantes, nomeadamente os violinos mas, mais uma vez, tirando isso, é uma música mediana.

 

O tema, então, já tem barbas na discografia da Avril: é mais uma canção sobre aproveitar a vida, viver experiências fortes e tal. A ironia é que este é um tema que Avril parece adotar por defeito, à semelhança das canções de amor e desgosto.

 

E a verdade é que um Bigger Wow é exatamente aquilo que me fica a faltar, quando acabo de ouvir este álbum.

 

Antes de partirmos para as alegações finais, uma palavra rápida para as tais faixas que vazaram no dia do lançamento oficial. Eu assumo foram excluídas do álbum. De uma maneira geral, acho que foram bem excluídas. As únicas de que gosto são de Break It So Good e o cover de I Want What I Want, mas não sei se se encaixariam muito bem em Head Above Water. Pode ser que pelo menos Break It So Good saia numa edição Deluxe do álbum ou algo assim.

 

Não me interpretem mal, não acho que Head Above Water seja mau. Pelo contrário, todas as músicas têm um aspeto positivo, por pequeno que seja. Ainda assim, estava à espera de mais.

 

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Como referi antes, muitos artistas de que gosto passaram por experiências difíceis nos últimos anos. A única vantagem foi terem criado ótima música inspirada por isso: After Laughter, My Indigo, Post-Traumatic, mesmo 13 Voices. Lorde, então, criou uma autêntica obra de arte a partir de algo tão trivial como um primeiro desgosto de amor… mas também é injusto comparar Lorde com quem quer que seja.

 

Olhemos para o álbum que Avril lança agora, após viver os piores anos da sua vida: só três músicas abordam diretamente as causas desses maus anos. Pelo menos uma delas – Warrior – podia ter sido composta por qualquer outra pessoa.

 

O resto do álbum consiste nos mesmos temas de amor e desgosto que apareceram em literalmente todos os outros álbuns da Avril, ainda que com outras roupagens – e, vá lá, letras melhorzinhas.

 

Quando a tracklist de Head Above Water foi revelada, pensei que Warrior tinha sido deixada para o fim para funcionar como epílogo. Talvez até fosse essa a intenção. No entanto, não funciona pois sure após cinco canções de amor de seguida. Quando finalmente se ouve Warrior, uma pessoa já quase se esqueceu que Avril esteve doente.

 

Por outras palavras, Avril viveu os piores anos da sua vida e isto é o melhor que ela consegue fazer?

 

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Fico desiludida porque, se nem após o Lyme Avril consegue sair do registo que tem mantido nos últimos dois, três álbuns, a contar com este, é pouco provável que alguma vez o faça. Head Above Water acaba por ter falhas parecidas com as do álbum homónimo: falta a originalidade que caracterizava Avril no início da sua carreira.

 

Em defesa de Avril Lavigne, o álbum, no entanto, este não tentava ser o que não era. Assumia não ser um disco demasiado sério e introspetivo. Por sua vez, Avril tem tentado vender Head Above Water como o álbum mais pessoal e honesto da sua carreira. Se isto é o reflexo da sua personalidade, das suas crenças, da sua vida interior… tenho pena, mas ela não é assim tão interessante.

 

É certo que, mesmo que lhes falte profundidade e originalidade, as músicas de Head Above Water terão ajudado Avril a lutar contra a sua doença – nem que tenha sido apenas por lhe terem dado um motivo para se levantar da cama, apenas como escapismo. Eu, aliás, sinto-me um bocadinho hipócrita pois também tive períodos nos últimos anos – alguns deles, curiosamente, até poderão ter coincidido com as piores fases da Doença de Lyme da Avril – em que a minha escrita e os meus blogues eram as únicas coisas que davam sentido à minha vida. E eu não escrevia sobre os motivos da minha vida não fazer sentido! (Nem sobre quase nada que diga respeito à minha vida pessoal, na verdade…)

 

A própria Avril tem dado a entender, nalgumas entrevistas, que não gosta de falar muito sobre a sua doença. Mas acaba por entrar em contradição consigo mesma, ao descrever este álbum como “pessoal, íntimo, dramático, cru, poderoso”… quase sem cantar sobre o motivo de ter passado pelos piores anos da sua vida.

 

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Ainda assim, mesmo que, na minha opinião, Avril não explore a luta contra o Lyme como deve ser, Head Above Water tem sido suficiente para tocar outras pessoas afetadas pela doença, o que não é de desprezar. E ainda que ache que músicas como Head Above Water e sobretudo Warrior são demasiado genéricas para o meu gosto, a vantagem é que qualquer pessoa com uma doença grave ou com outra situação difícil pode identificar-se com elas.

 

Existem outras coisas de que gosto em Head Above Water, aliás. Em termos vocais, este é capaz de ser o melhor de Avril até agora, para começar. Além disso, Head Above Water confirma a tendência de melhoria em termos de letras que começou com o quinto disco. E eu até gosto deste estilo mais adulto, ainda que não com grande profundidade.

 

Não sei se esse se vai manter em álbuns posteriores, se ela vai regressar ao pop rock mais juvenil em discos futuros. O tempo dirá, suponho eu.

 

O que é certo é que eu vou gostar de praticamente tudo o que a Avril criar, mesmo que nem sempre a cem por cento, mesmo que tenha vários defeitos a apontar. Foi o que aconteceu com os primeiros seis álbuns dela, não estou a ver as coisas a mudarem. Estou satisfeita por termos Head Above Water, apesar de tudo, e quero que ela continue a fazer música.

 

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O pior é que, no que toca ao meu nicho musical, temo que ela acabe por ganhar um estatuto parecido àqueles funcionários mais velhos numa empresa. Ninguém os despede pois, apesar de hoje não darem muito para a caixa (embora, de vez em quando, façam um ou outro brilharete), eles fizeram muito pela empresa antes e estão gratos por isso. Mas toda a gente sabe que, hoje, são os trabalhadores mais recentes que obtém os melhores resultados

 

E não devia ser assim. Isto aceitava-se se falássemos de alguém como Bryan Adams, por exemplo. Ele está perto dos sessenta (!!!) e, hoje em dia, praticamente só lança álbuns como desculpa para ir em digressão. Mas a carreira da Avril ainda vai a meio. É demasiado cedo para ter este odor (ainda ligeiro, mesmo assim) a estagnação.

 

Pode ser que isso mude em álbuns futuros. Pode ser que ela tente fazer algo diferente daqui a dois ou três anos. Neste momento, quero ver como é que a minha opinião em relação a este álbum evolui nos próximos meses. Depois farei uma atualização nos textos de fim de ano.

 

Quanto a nós, já estou a escrever a minha análise a My Indigo – finalmente! Temos também os novos álbuns dos Within Temptation e de Bryan Adams, mas ainda não sei quando escreverei sobre eles. Nem sei se vou escrever sobre Shine a Light, para ser sincera.

 

Na verdade, estou a planear um mega projeto aqui para o blogue (julgo já ter falado dele antes). Ainda precisa de muita preparação, deve demorar algumas semanas, se não forem meses. Mas estou ansiosa por começar a escrevê-lo!

 

Obrigada, mais uma vez, pela vossa visita.

 

Mike Shinoda – Post Traumatic (2018)

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Mike Shinoda lançou, no passado dia 15 de junho, Post Traumatic, o seu primeiro álbum em nome próprio – apesar de já habitar no mundo da música há cerca de vinte anos, sobretudo como cérebro dos Linkin Park, mas também com o seu side-project, Fort Minor.

 

O projeto Post Traumatic, aliás, começou com um EP de três músicas, lançado no início do ano – já falámos sobre ele antes, bem como sobre um par de músicas que Mike lançou uns meses depois.

 

Na verdade, à data do lançamento oficial, quase metade do álbum estava cá fora. Penso que já referi aqui que não gosto muito dessa moda: quando vamos ouvir o álbum pela primeira vez as músicas que já conhecemos antes ensombram as que não conhecemos. Demora imenso tempo até estarem todas em pé de igualdade.

 

Foi, em parte, por isso que depois de About You me esforcei por não ouvir nada até ao lançamento oficial do álbum. Mike, no entanto, explicou que a ideia era ir partilhando as músicas connosco em tempo real, dentro do possível, documentando o seu estado de espírito na altura.

 

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Post Traumatic é isso, aliás: um diário musical de Mike, nos primeiros nove meses, mais coisa menos coisa, após a morte de Chester Bennigton. A tracklist está ordenada de modo mais ou menos cronológico. E de facto nota-se uma evolução ao longo do álbum, começando com um tom sombrio (raiva, desesperança, frustração e, sobretudo, luto) e terminando num tom… não diria luminoso, mas bem menos pesado, com alguma esperança, até.

 

Não que seja uma progressão linear. Mesmo depois de um ponto de viragem algures entre Promises I Can’t Keep e Crossing A Line, há ocasiões em que Mike parece regredir, em que a uma música mais leve se segue uma mais sombria. O contraste mais ostensivo, na minha opinião, é Hold It Together (uma das mais pesadas de todo o álbum) a seguir a Crossing a Line. Outro exemplo é Ghosts vir antes de Make It Up as I Go – que, por sinal, começa com a frase “I keep on running backwards”. O próprio Mike já comentou, em diversas ocasiões, que o todo este processo não lhe tem sido linear, que as fases do luto – negação, raiva, negociação, depressão, aceitação – não ocorrem necessariamente por esta ordem. Cada pessoa tem a sua progressão.

 

Eu argumentaria que o tema principal de Post Traumatic é precisamente controlo. Não apenas sobre as emoções da perda, mais até sobre as consequências dessa perda.

 

Conforme tínhamos comentado antes, Mike não perdeu apenas uma das pessoas mais importantes da sua vida, ele essencialmente perdeu o seu emprego, o seu modo de vida, parte da sua identidade. Perdeu os Linkin Park. O futuro da banda tem sido amplamente discutido ao longo do último ano, ano e meio (se pode ou deve continuar sem Chester, se devem arranjar um novo vocalista, etc), mas lá está: não se sabe. Ninguém sabe. Depois de quase duas décadas de Linkin Park, da noite para o dia a vida profissional de Mike, tal como a conhecia, esfumou-se, deixando-o sem saber o que fazer.

 

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A frase “only my life’s work hanging in the fucking balance”, de Over Again, parece ser a ideia principal de Post Traumatic, o denominador comum à maioria das faixas. O álbum documenta a busca de Mike por controlo sobre o seu destino, a procura de, como o próprio têm referido, “um novo normal”.

 

Já escrevi antes sobre as primeiras quatro faixas do álbum. As minhas opiniões não mudaram radicalmente desde essa altura. No entanto, gosto um bocadinho mais de Watching As I Fall e Nothing Makes Sense. A primeira faz mais sentido no contexto do álbum – falaremos melhor sobre isso mais à frente – e ganhei apreço às guitarras elétricas, bem à Linkin Park, depois dos últimos refrões.

 

Também Nothing Makes Sense Anymore faz mais sentido (no pun intended) no contexto do álbum. Os efeitos na voz do Mike não me incomodam tanto e compreendo um bocadinho melhor a letra, as metáforas. A pintura que levou com tinta entornada quando estava quase pronta. Mike num penhasco sobre o mar, julgando-se protegido do tumulto das ondas, até o chão abater-se sobre os seus pés, atirando-o para a tempestade. Mike debatendo-se no escuro, à procura de uma luz. Gosto particularmente dos versos “I’m a calll without an answer, I’m a shadow in the dark, trying to pull it back together, as I watch it fall apart”.

 

Passou-se isso com a maior parte das músicas em Post Traumatic: precisei de tempo, de ouvir várias vezes, para aprender a apreciá-las. Isso, ou estou numa altura em que só consigo ouvir música com ouvidos de ouvir sob a forma de CDs no meu carro.

 

 

Quando About You foi lançada, por exemplo, não achei nada de especial – mais uma vez, não era fã dos efeitos na voz de Mike. No entanto, uma vez mais com o tempo deixei-me de ralar com isso, sobretudo no contexto do álbum.

 

O tema principal da canção é o facto de toda a gente assumir que toda e qualquer música criada pós Jullho de 2017 será sobre Chester. Não que não seja compreensível: foi um acontecimento de grande impacto na vida pessoal dele e toda a gente soube. Um pouco à semelhança do que acontece, por exemplo, com as músicas da Taylor Swift, em que toda a gente tenta descobrir sobre qual nos ex-namorados ela canta.

 

No entanto, uma coisa são ex-namorados, outra coisa muito diferente é um homem que morreu demasiado cedo e de uma forma horrível. Tendo em conta que Mike sente dificuldade em manter o luto sob controlo (e havemos de voltar a falar sobre esse aspeto), não lhe será fácil ouvir toda a gente perguntando-lhe coisas como:

 

– E neste verso, em que falas de beijar o céu? És tu a tentares ir ter com o Chester ao Além?

 

Talvez isto tenha sido um fator pesando contra a decisão de lançar música a solo – saber que não poderia fugir a estas perguntas, que mesmo que compusesse sobre outros temas, as pessoas iriam sempre ligá-lo a Chester. Aliás, em About You, Mike parece não querer dar esse passo. Em parte pelos motivos que acabámos de discutir, em parte porque já passara metade da sua vida fazendo música. Talvez já não tivesse nada sobre que cantar.

 

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É um medo que todas as pessoas criativas têm de vez em quando: que um dia a fonte seque e já não tenham nada para criar. Mike chega mesmo a pôr a hipótese de aproveitar a desculpa e zarpar.

 

Ainda bem que não o fez.

 

Em About You, temos a participação de blackbear. Segundo Mike, os versos que ele interpreta foram inspirados na experiência que ele teve com os Linkin Park (ele colaborou com Mike na composição de Sorry For Now, no álbum One More Light). Os versos são abstratos de propósito, a ideia é cada ouvinte fazer a sua interpretação.

 

A meu ver, estes versos refletem sobre o processo de cantar sobre, lá está, alguém que morreu. O narrador (o próprio blackbear?) parece achar que é apenas uma cura rápida, nada que funcione a longo prazo (“Find something that works fits the symmetry, for only a quick broken remedy”). Ao mesmo tempo, também fala da falta de controlo sobre o processo de luto, tal como referimos antes.

 

 

A faixa que se segue, Brooding, é um tema instrumental. O termo “brooding” não tem tradução literal em português – significa algo como amuar, sem a conotação condescendente.

 

É um bocadinho complicado tentar interpretar o significado de uma peça instrumental, mas vou tentar... Brooding começa, de facto, de forma melancólica, ganhando ritmo depois do primeiro minuto – talvez simbolizando emoções em conflito, talvez representando uma tomada de decisão. Não sei. Signifique o que significar, faz uma boa transição entre About You e Promises I Can’t Keep.

 

Em termos musicais, esta última tem um estilo parecido ao do álbum Living Things. É o que acontece com muitas músicas neste álbum: adotam um estilo híbrido entre rock e eletrónico, semelhante ao dos álbuns A Thousand Suns e Living Things. Promises I can’t Keep tem ainda alguns elementos que me recordam Leave Out All the Rest. Em todo o caso, é um estilo de que gosto.

 

Em termos de letra, Promises I Can’t Keep pega de novo no tema da perda de controlo, parecendo até uma sequela direta a A Place to Start. Mike lamenta o fim da sua vida antiga com os Linkin Park, segura, previsível. Receia o futuro. Culpa-se a si mesmo por ter sido apanhado de surpresa, por não ter conseguido evitar o que aconteceu.

 

 

Ao mesmo tempo, no refrão, Mike parece ganhar noção que a segurança da sua vida antiga, o controlo que tinha sobre ela, eram ilusórios. Que não havia muito que ele pudesse ter feito. Assim, Mike procura habituar-se a isso. Procura aceitar que poderá não conseguir pôr os seus planos em prática e, lá está, cumprir as suas promessas.

 

Penso que é aqui que se dá o switch, que quando Mike se conforma com a instabilidade, quando aceita que a sua vida nunca mais será a mesma, que fica em condições de dar o próximo passo.

 

O que nos leva a Crossing A Line.

 

Tal como já tínhamos visto antes, esta faixa também pega no tema da falta de controlo, da incerteza, mas sob um ponto de vista mais esperançoso. Mike continua a sentir-se impotente perante o desconhecido, mas ao menos sabe o que quer fazer e acredita em si mesmo.

 

Crossing A Line continua a ser uma das minhas preferidas. Após uma primeira parte bastante sombria, o seu tom luminoso é agradável.

 

 

Avançando um pouco na tracklist, aliás, encontramos Make it Up As I Go, que me soa a uma versão sombria de Crossing A Line. Em ambas as canções, Mike mostra-se decidido a seguir em frente, a construir uma nova vida, a encontrar “um novo normal”. A diferença está na motivação. Em Crossing A Line, Mike é motivado por esperança. Em Make it Up As I Go, Mike é motivado por resignação, impaciência, mesmo teimosia, diria eu.

 

Mike queixa-se, mais uma vez, que o caminho para a recuperação não é linear, que de vez em quando dá passos para trás. Admite mesmo que ainda não está bem, que ainda tem dúvidas, que de vez em quando perde a esperança.

 

No entanto, Mike não quer de todo ficar parado e ceder ao desespero. Sabe que ninguém pode ajudá-lo, que tem de ser ele mesmo a desenrascar-se. Quer seguir em frente, mesmo que não saiba para onde vai, mesmo que tenha de se venturar no desconhecido. Mesmo que tenha, como reza o título da canção, de ir improvisando, de ir inventando pelo caminho.

 

É uma letra que acho muito interessante e algo estranha, mesmo. No que toca a músicas sobre seguir em frente, estou habituada a temas luminosos e letras esperançosas – Last Hope, dos Paramore, Keep Holding On, da Avril Lavigne, Million Reasons, da Lady Gaga, Crossing a Line neste mesmo álbum. Não estava habituada a uma música ao mesmo tempo sombria e motivadora. Mas acredito que existam pessoas que se identifiquem mais com este estilo do que com músicas como as que referi acima.

 

 

K.Flay é quem canta o refrão de Make it Up As I Go. Julgo que esta é a primeira vez que ouvimos a voz de Mike ao lado de uma voz feminina. Não sou grande fã da voz de K., soa-me demasiado artificial. Em Make it Up as I Go até encaixa bem, mas não sei se ia gostar de ouvir uma música cantada a solo por ela.

 

Voltando um bocadinho atrás na tracklist, a Crossing a Line, uma das músicas mais esperançosas de todo o álbum, segue-se uma das mais deprimentes. Holding It Together mostra as piores partes do processo de luto: os esforços que Mike ia fazendo para não ir abaixo, as noites mal dormidas, a sua esposa, Anna Shinoda, sofrendo com ele.

 

A música fala especificamente de um episódio verídico, em que alguém terá falado a Mike acerca de Chester, durante uma festa de anos de uma criança- Mike não gostou e terá respondido com uma piada que não caiu bem.

 

Estou certa que o tal sujeito, ou sujeita, não terá falado com más intenções. Eu própria, se calhar, também meteria o pé na poça. Mas, lá está, Mike estava com dificuldades em manter as emoções do luto sob controlo. Talvez pensasse que a festa de anos do miúdo ajudá-lo-ia a espairecer. Até vir esta pessoa estragar tudo.

 

 

Há pessoas que dão tempo a Mike para recuperar, que o aconselham a não ter pressas. Um bom conselho, só que Mike sente o tempo a passar, deixando-o para trás. Como diria Ellis Grey, o carrossel não pára de girar. Não dá para carregar no botão de pausa, não dá para andar para trás, não dá para sair dele.

 

Não que Mike não o tenha tentado, como vemos em Lift Off.

 

Esta é uma faixa interessante. Tem uma sonoridade inesperadamente etérea, fazendo pensar em voos noturnos e céus estrelados. A interpretação do refrão – por Chino Moreno, dos Deftones – também contribui para esse efeito. As estâncias, cantadas em rap, casam estranhamente bem com o acompanhamento atmosférico.

 

A parte musical condiz com a letra da canção. Mike terá composto Lift Off baseando-se na necessidade que sentiu, em diferentes alturas desde que Chester morreu, de fugir da tudo. De, lá está, tentar carregar no botão de pausa e sair do carrossel.

 

 

A expressão “Lift Off”, “descolagem” será, então, uma metáfora para este escapismo: levantando voo em direção ao espaço, longe de tudo, fugindo para um plano superior, etéreo. Para sítios perfeitos, como se calhar diria Lorde.

 

As estâncias também usam imagens espaciais. Na primeira estância, Mike usa um bocadinho de “braggadocio” – uma espécie de arrogância vazia que quase tudo o que é rapper demonstra na sua música. Não faz muito o meu estilo, confesso, mas depois do ano que Mike teve, não me importo. Se isso o ajuda…

 

A segunda estância é interpretada por Machine Gun Kelly (só me apercebi há relativamente pouco tempo que era o tal que não se encaixava em Papercut, durante o concerto por Chester). A parte dele lembra-me um pouco Airplanes, de B.o.b e Hayley Williams no sentido em que fala de sonhos falhados.

 

Agora que penso nisso, Airplanes e Lift Off são bastante parecidas: tanto pela parte de Machine Gun Kelly, pelas temáticas aeronáuticas e espaciais e pela sonoridade algo atmosférica e sonhadora.

 

 

Ghosts é a música mais pop de todo o álbum. Segundo Mike, nesta faixa ele permitiu-se a si mesmo divertir-se. “Já tive dias difíceis que chegue”, disse mesmo. “Se acordo e me sinto bem, não devia sentir-me culpado por me divertir.”

 

Eu também acho que não. O próprio Mike afirmou, durante o concerto no Hollywood Bowl, que Chester quereria que ele, o resto da banda, os fãs, se divertissem, que não estivessem sempre em baixo. Não quando existem horas e horas de vídeos de Chester fazendo palhaçadas, no YouTube.

 

E eu confesso que, com isto tudo, a última coisa que queria era que Mike perdesse essa faceta da sua personalidade. A faceta que se ria (e Mike é daquelas pessoas que se ri com a cara toda) quando o Chester fazia uma das suas; que ficou atónita quando, durante o concerto no Hollywood Bowl, o público cantou durante o vídeo dos Unicorns and Lollipops; que ainda hoje é conhecido por #trollnoda; que faz coisas destas.

 

Em Ghosts dá, então, para ver essa faceta – sobretudo no videoclipe. Foi o próprio Mike a produzi-lo. O protagonista é uma meia-fantoche, chamada Boris, acompanhado pela sua namorada (?), Miss Oatmeal.

 

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A música em si é bem menos pesada que a maioria de Post-Traumatic, mas  não é assim tão leve como parece. Ghosts fala sobre o lado sobrenatural da vida: sonhos, dejá-vus, coisas que vislumbramos pelo canto do olho e que desaparecem quando olhamos diretamente. Depois de uma perda como a de Chester, terão vindo muitas pessoas ter com Mike, falando-lhe destes aspetos mais surrealistas da vida.

 

 No que toca a estas coisas, Mike diz ter uma mente aberta, mas que nunca teve nenhum contacto direto com o sobrenatural – tirando uma experiência com uma médium, que lhe disse onde poderia encontrar um certo objeto.

 

Eu confesso que, no que toca a estas coisas, me inclino mais para o cético. Não digo preto no branco que não existe, mas sou uma mulher de ciência: tendo a acreditar no que é palpável, no que se pode provar sem contestação. No que toca a estes fenómenos, na minha opinião, muitos deles poderão ser manifestações do subconsciente.

 

Mas, lá está, compreendo o apelo, sobretudo se estivermos a falar de entes queridos. Além de que, como diria Albus Dumbledore, só porque ocorre nas nossas cabeças, não significa que não seja real. Como li algures no Twitter, estes fenómenos serão tão reais quanto uma pessoa necessite que sejam – desde que, claro, como também diria Dumbledore, não nos percamos em fantasias e nos alheemos por completo do presente.

 

 

O que nos leva, de novo, à letra de Ghosts. Nesta, os fenómenos sobrenaturais são retratados como uma fonte de consolo, um mundo para onde Mike foge durante a noite. Não existem referências diretas a Chester em parte nenhuma desta canção, nem Mike falou dele a propósito de Ghosts, tanto quanto sei. Mas é possível que Mike interprete estas manifestações como sinais enviados pelo amigo. É possível que ele encontre algum consolo nisso, na “presença” do amigo.

 

Não me interpretem mal, isto são apenas especulações minhas. Não acredito que Mike alguma vez confirme esta minha teoria – o que é compreensível.

 

No que toca a estas coisas do sobrenatural, gosto muito mais deste lado agridoce do que da faceta assustadora. O mundo real assusta muito mais, sobretudo os seres humanos, não precisamos de inventar coisas sobrenaturais para nos assustarem. É por isso que não acho piada quase nenhuma ao Dia das Bruxas.

 

Mas estou a desviar-me.

 

I.O.U. é a faixa de que menos gosto em Post Traumatic. Não porque seja má, antes porque não faz muito o meu estilo: um tema puramente hip-hop, com muito “braggadocio”, que Mike terá composto a pensar em Fort Minor. Tenho vindo a descobrir que não gosto assim tanto desse estilo musical.

 

 

Não que não aprecie nada em I.O.U. – por exemplo, gosto imenso dos versos “Used to be the quiet kid in the sandbox, now it’s ‘hands up’ everytime that your man rocks”

 

Our man, o nosso homem. O nosso Mike. Ah ah!

 

Segundo o próprio, os amigo de Mike terão ficado descansados quando o ouviram a disparatar (a expressão que ele usou foi “talking shit”) numa música de rap. Era sinal de que ele estava a recuperar, a voltar a ser o Mike que conheciam e adoravam. Por isso é que não me queixo. Mais uma vez, se isso o fizer feliz…

 

Mas continuo a preferir rap/hip-hop temperado com outros estilos musicais, como em Post Traumatic e em quase toda a discografia dos Linkin Park.

 

 

Um exemplo disso é Running From My Shadow – uma música com a participação de grandson, com um estilo que é um denominador comum à maioria de Post Traumatic.

 

A letra fala sobre, bem, fugir da própria sombra: negração, procrastinação, empurrar problemas com a barriga, ciclos viciosos. Segundo Mike, Running From My Shadow não fala sobre uma situação específica, antes sobre uma infinidade de momentos diferentes, um padrão na sua vida.

 

Confesso que também tenho esse defeito, até certo ponto: complicando questões que poderia ter resolvido de maneira simples se as tivesse encarado como uma mulher adulta, boicotando-me a mim mesma, como reza Caught in the Middle. Já fui pior.

 

Destaco o verso de grandson, que resume bem a mensagem da canção: “Running from my shadow, now my shadow is my only friend!”. Se continuamos sempre a adiar, a adiar, um dia a batata quente explode-nos nas mãos. E não há ninguém que possamos culpar ou a quem recorrer senão a nós mesmos.

 

 

World’s on Fire tem uma sonoridade interessante. Começa minimalista e assim se mantém até ao primeiro refrão. Ganha, depois, alguns elementos eletrónicos que fazem lembrar Robot Boy.

 

Quando falámos sobre o vídeo de Nothing Makes Sense Anymore, comentámos que este parece comparar o que aconteceu à vida de Mike com os incêndios na Califórnia, no final de 2017. A letra de World’s on Fire também pega nessa metáfora – desta vez para dizer, em suma, “when the world’s on fire, all I need is you”. “

 

You” é quase de certeza a esposa de Mike, Anna Shinoda, talvez também os seus filhos. Numa altura em que, como temos assinalado várias vezes neste texto, uma parte do mundo de Mike ardeu, Anna terá sido o seu porto de abrigo, o seu consolo, quem o impediu de ir completamente abaixo. Mesmo que Mike perca tudo, só precisa dela para sobreviver.

 

E tem razão. Por muito que se fale, que se escreva, o que mais importa são as pessoas. O resto é irrelevante.

 

Por outro lado, tenho vindo a reparar que o refrão de World’s On Fire parece ter sido composto a pensar na voz de Chester – não tanto a melodia principal, mais os backvocals mais agudos. Fazem lembrar algumas canções dos Linkin Park, como por exemplo Waiting for the End ou Rebellion, em que as vozes dos dois harmonizavam, com Chester cantando as melodias mais agudas, regra geral. Não me custa imaginá-lo fazendo o mesmo nesta canção.

 

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Não sei se Mike se apercebe disto, se o seu subconsciente ainda está habituado a compôr para a voz de Chester, se esse hábito vai desaparecer com o tempo. Faz parte do processo, suponho eu.

 

Chegamos, finalmente, a Can’t Hear You Now, uma das minhas preferidas. Sendo este um álbum muito autobiográfico, com uma tracklist ordenada de forma mais ou menos cronológica, não surpreende que esta, a última faixa, seja uma das músicas mais animadoras e esperançosas. Não deixa, no entanto, de manter um certo grau de sarcasmo e melancolia.

 

Em Can’t Hear You Now, vemos um Mike mais confiante em si próprio – não com “braggadaccio”, como noutras músicas, algo mais genuíno. Admite que ainda tem dias maus, de vez em quando, que por vezes sente o controlo a fugir-lhe. No entanto, está numa fase bem melhor, no geral. Na maior parte do tempo consegue ignorar os seus demónios, as suas inseguranças, bloquear a sua influência.

 

Em Watching As I fall, Mike dizia que queria fugir precisamente a essas vozes – “Maybe I’m just falling to get somewhere they won’t”. Em Can’t Hear you Now, vemos que ele conseguiu.

 

 

Um dos motivos pelos quais gosto tanto de Can’t Hear You Now é por saber que, pelo menos no momento descrito pela canção, Mike está numa fase menos infeliz. Sinto pena quando o CD reinicia automaticamente no meu carro, regressando a A Place to Start.

 

Também gosto porque me identifico com ela. A minha vida não tem sido, nem de longe nem de perto, tão má como o 2017 de Mike, mas também sinto que estou num período melhor em relação ao ano passado. Tenho os meus dias maus, claro (demasiados), tenho as minhas neuroses, mas hoje tenho uma segurança e uma confiança em mim mesma que não tinha há anos – se é que alguma vez a tive.

 

Mas estou a desviar-me. Outra vez.

 

Alguns de vocês devem andar a perguntar por Looking for an Answer. Mike disse numa entrevista que a deixou de fora porque não se encaixava no ritmo do álbum – e eu acho que ele tem razão.

 

Não sei se Mike está a guardar Looking for an Answer para um, ainda hipotético, futuro álbum dos Linkin Park ou outro projeto qualquer. Pode ser até que ele nunca chegue a gravá-la. Talvez Mike não queira regressar ao momento em que compôs a canção (ele admitiu, em entrevista recente, que não lhe é fácil cantar músicas como A Place to Start e partes de Over Again). Talvez ele queira que seja uma faixa exclusiva do concerto por Chester.

 

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Para ser sincera, a ausência de Looking for an Answer não me incomoda. Estou bastante satisfeita com Post Traumatic tal como está.

 

A maior força deste álbum é o facto de ser tão pessoal, tão honesto – fazendo-me ignorar certos aspetos que, noutras circunstâncias, me incomodariam muito mais. Como, por exemplo, alguns efeitos na voz de Mike e o “braggadocio”. Conforme tenho referido várias vezes ao longo dos anos neste blogue, música assim tem muito mais valor.

 

É nesta parte que costumo fazer uma atualização sobre a maneira como tenho lidado com a morte do chester. Não que muitos de vocês se ralem, penso eu, mas escrever sobre isso, no texto de fim de ano e na análise às primeiras músicas de Post Traumatic, ajudou-me, na altura. Por isso, tenham paciência, vão ter de me aturar.

 

Até há cerca de mês e meio, estava mais ou menos da mesma maneira que em abril: melhor que em 2017, com altos e baixos. Momentos em que ainda não acreditava que aconteceu mesmo, vídeos antigos de bastidores que me davam – ainda dão – vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.

 

No entanto, tive uns dias maus em finais de outubro – mais especificamente no aniversário do concerto por Chester. Estava a rever partes do vídeo no YouTube. A certa altura, cheguei à parte do discurso de Chester no último concerto que deu em vida. E fui-me abaixo.

 

 

Naquele dia tinha havido (mais) um tiroteio nos Estados Unidos – com motivações anti-semíticas. No dia seguinte, Jair Bolsonaro ganharia as eleições no Brasil. Nessa altura, eu só pensava que Chester tinha morrido menos de duas semanas depois de fazer aquele discurso – um discurso que ele fez para tentar consertar o mundo, no rescaldo do atentado em Manchester. E desde julho de 2017 só via – ou melhor, só vejo – o mundo deteriorando-se cada vez mais.

 

Onde está a justiça nisto? Quem permite que isto aconteça? Que entidade superior achou por bem tirar-nos Chester, deixando-nos a braços com um mundo cheio de energúmenos?

 

Demorei uns dias a sair desta. Uma das coisas que me salvou deste estado de espírito foram palavras de Mike. Ele tem andado em digressão para promover Post Traumatic. Não passou por Portugal e, infelizmente, tão cedo não deverá fazê-lo.

 

Tenho, mesmo assim, evitado ao máximo spoilers dos concertos, mas sei que estes têm incluído um momento de homenagem a Chester, na forma de In the End – com o público cantando as partes que não o rap. Antes dessa música, Mike costuma falar um bocadinho sobre o amigo que perdeu e tudo o que se tem passado desde aí. Numa das vezes, disse que uma das coisas que queria fazer com esta digressão era deixar os fãs exprimirem as suas emoções em relação a Chester.

 

 

Eu fiquei sem palavras. Mike não tinha de fazer isto. Ele tinha todo o direito de ignorar-nos, de dizer que a nossa dor não era nada comparada com a dele, da família e amigos próximos de Chester – e não é, nunca tive ilusões disso.

 

Em vez disso, Mike virou o microfone para nós, deu-nos espaço para sentirmos o que tínhamos a sentir, exprimirmos o que tínhamos a exprimir. Nós não merecemos Mike, tal como não merecíamos Chester.

 

E no entanto é essa a questão. É isso que Chester faria, é isso que Chester quereria que Mike fizesse. Afinal de contas, Chester teve uma vida muito mais difícil que muitos de nós, sofreu muito mais que muitos de nós. E em vez de se tornar uma pessoa cínica, amarga e misantrópica, tornou-se o completo oposto disso: um homem gentil, divertido, que adorava os seus fãs, que distribuía alegria, que tentou quase até ao fim da sua vida fazer deste mundo um lugar melhor.

 

Ele escolheu ser assim, ele escolheu ser melhor. Escolheu tratar bem um mundo que não o merecia – embora não tenha sido capaz de tratar bem a si mesmo.

 

É isto que significa a hashtag #MakeChesterProud (demorei mais de um ano a percebê-lo), o movimento que Mike começou e que ele e outras pessoas próximas de Chester têm conduzido. Escolhermos ser melhores, apesar da nossa dor, cuidarmos uns dos outros como de nós mesmos, agarrarmos todos os momentos de felicidade que encontrarmos, virarmos as costas ao ódio, à intolerância, à toxicidade. Se não pudermos consertar o mundo inteiro, consertarmos o que está ao nosso alcance.

 

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Eu quero pelo menos tentá-lo.

 

Isto ficou um bocadinho lamechas, admito-o, mas eu precisava de escrever isto. Tenham paciência comigo, ainda estou a aprender a lidar com este mundo, com esta vida. Conforme escrevi no texto anterior, estes últimos anos não foram fáceis para ninguém. Consola-me um bocadinho saber que estamos no mesmo barco, de certa forma, que estamos todos a fazer o que podemos para, lá está, mantermos a cabeça à tona da água.

 

 

Estive várias semanas sem publicar – este texto demorou-me mais do que estava à espera – mas tão cedo não tenciono fazer um hiato tão grande. Estou já a trabalhar nos meus textos habituais de fim de ano, tenho uma entrada de Músicas Ao Calhas planeada e respostas a uma tag.

 

Em todo o caso, como sempre, obrigada pela vossa paciência.

 

Lorde - Melodrama (2017)

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A cantora neozelandesa Ella Yelich-O’Connor, mais conhecida por Lorde, lançou o seu segundo de estúdio, Melodrama, no passado dia 16 de junho. Se acompanham o meu blogue, saberão que só no ano passado é que ouvi o seu primeiro álbum, Pure Heroine – no entanto, cativou-me logo. Quando se soube que vinha aí Melodrama, fiquei, naturalmente, interessada – sobretudo depois de ouvirmos Green Light e Liability. Pure Heroine é um álbum excelente a todos os níveis, sem falhas significativas. Será que Melodrama consegue atingir a fasquia deixada pelo seu antecessor?

 

Bem, sim. Lorde tem apenas vinte anos de idade, mas já conseguiu a proeza de ter dois álbuns excelentes no seu currículo. A miúda não é deste planeta!

 

É muito difícil dizer qual dos dois álbuns é o melhor. No entanto, uma das coisas que prefiro em Melodrama é a instrumentação. Pure Heroine caracteriza-se pela produção minimalista. As músicas são conduzidas pela voz, só com batidas e um ou outro instrumento ou sintetizador, tudo muito discreto.

 

Não estou a dizer que isso seja defeito ou que as músicas pedissem mais instrumentos – pelo contrário, faz parte do carácter do álbum. Eu, no entanto, sempre gostei de instrumentos em música. Como tal, fiquei feliz por instrumentos como, por exemplo, o piano (em várias canções), o clarinete (em Sober), os violinos (em Sober II/Melodrama e Writer in the Dark), participarem em Melodrama – e de forma inteligente, como veremos a seguir.

 

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Tínhamos comentado, a propósito de Green Light, que a narradora desta faixa parecia ser uma miúda embriagada, acabada de se separar, que sai à noite para esquecer o ex-namorado; que se esforça desesperadamente por se divertir e mostrar que está a seguir em frente, mas que sofre em silêncio. Na verdade, o mesmo parece acontecer com o resto de Melodrama. O álbum reflete as diferentes fases, as diferentes emoções, pelas quais uma pessoa passa enquanto recorre ao estilo de vida festeiro – sexo, álcool, drogas, as chamadas party-bangers – para ultrapassar uma separação. Lorde referiu mesmo, em entrevista, que todas as canções decorrem na mesma noite.

 

Ora, quem me conheça minimamente saberá que esse estilo de vida pouco ou nada me diz. Contam-se pelos dedos das mãos as vezes que fui a uma discoteca – das vezes que me diverti, foi por causa da companhia e não do ambiente. Se é para chegar trôpega a casa a altas horas da noite, prefiro que seja após um concerto ou festival de música.

 

Além disso, nunca fui grande fã de party bangers.

 

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No entanto, sei perfeitamente que muitos apreciam este estilo de vida – ou, pelo menos, passam por uma fase em que o apreciam. Aos dezanove/vinte anos, como a Lorde, às vezes antes, às vezes mais tarde. Como tal, não me vou armar em moralista nesta análise – até porque o álbum Melodrama acaba por desmistificar este estilo de vida, obriga-nos a olhar além do glamour, dos filtros do Instagram.

 

Uma das características de Melodrama, aliás, é a auto-consciencialização: a noção de que nada daquilo é real e/ou duradouro. Nem a festa, nem os romances mais ou menos sérios. É tudo melodrama: um exagero, mesmo uma paródia da realidade.

 

Falemos, então, das canções em si. Green Light funciona bem como introdução a Melodrama. Na tracklist seguem-se duas músicas que se centram no ponto alto da festa. Das duas, a minha preferida é Sober.

 

 

Esta, de início, segue o estilo típico de Lorde, com batidas e instrumentação mínima. Ressaltar a repetição de “Night, midnight, lose my mind”, marcando o ritmo. Quando chega o refrão, a partir do meio, os versos são pontuados por notas de clarinete (ou de corneta? Não sei, é um instrumento de sopro de metal) – um dos exemplos da instrumentação inteligente em Melodrama.

 

Faz-me desejar, aliás, que tivéssemos mais clarinetes ou instrumentos do género na música pop.

 

A letra de Sober parece falar sobre um caso de uma noite só – ou, pelo menos, um caso que se limita à parte física, à euforia. A narradora compara-o a um delírio febril, ao efeito de uma droga. Na verdade, é dado a entender que a outra parte parece mais investida na relação que a narradora – que, por sua vez, parece ter perfeita noção de que aquilo não sobreviverá à ressaca: “But what will we do when we’re sober?”.

 

Essa pergunta será, aliás, respondida mais à frente no álbum. Antes, temos Homemade Dynamite. Esta é a música de que menos gosto em Melodrama. Não que seja uma música má – este álbum, ou melhor, Lorde não tem músicas más – ou mesmo que não goste de todo. Apenas não a acho tão interessante como o resto de Melodrama.

 

 

Segundo terá dito a própria Lorde, Homemade Dynamite marca, essencialmente, o momento na festa em que as drogas começam a fazer efeito. Em termos de letra e tema, acaba por não ser muito diferente de Sober, visto que até fala de um possível caso de uma noite só. Musicalmente, não difere muito da típica sonoridade de Lorde, embora com um ritmo mais dançante. Consta que deverá ser single a certa altura. Não é de surpreender – composta com Tove Lo, Homemade Dynamite é a mais parecida em Melodrama com a típica party banger.

 

No entanto, preferia Sober como single. Ou então Supercut.

 

The Louvre é o mais parecido que temos em Melodrama com uma canção de amor. A letra supostamente descreve a relação de Lorde com o, agora, ex-namorado. Ao contrário de uma típica canção de amor, a descrição que esta faz do romance não é propriamente idílica: temos referências a ilusão, obsessão, vício, mesmo estupidificação. A narradora admite mesmo que negligencia os amigos a favor do amante. Ao mesmo tempo, descreve aquela fase em que o casal se considera superior aos simples mortais, dignos de figurar no Louvre (na parte de trás, mas o Louvre é o Louvre). Amam, assim, perdidamente e dizem-no cantando a toda a gente (“Broadcast the boom boom boom boom and make’em all dance to it”).

 

Musicalmente, The Louvre é conduzida por acordes de guitarra graves e discretos, aos quais vão sendo acrescentados elementos deliciosos aqui e ali: como as batidas no refrão e as notas de guitarra elétrica (ou órgão? Não consigo perceber ao certo…) no fim.

 

  

 

No entanto, Melodrama também mostra o lado menos bonito, tanto das festas como dos romances. Sober II (Melodrama) é uma das minhas músicas preferidas neste álbum e também uma das mais interessantes. Funciona bem como sequela a Sober pois as melodias são parecidas e a letra responde à pergunta deixada pela prequela: o que acontece depois das drogas. Naturalmente, em Sober II (Melodrama) temos referências a arrependimento, censura, consequências inesperadas – gosto particularmente dos versos “They’ll talk about us and discover how we kissed and killed each other”. Repete-se muito a frase “We told you this was melodrama” – não foi falta de aviso, eles sabiam no que se estavam a meter.

 

A instrumentação nesta música é perfeita. A abertura com os violinos frios, dolorosos, implacáveis, evocam na perfeição as dores de cabeça e fotofobia típicas de uma manhã de ressaca. Não será por acaso que a música quase homónima da P!nk, Sober, usa violinos de maneira semelhante, sobretudo no final da faixa.

 

Passemos, então, às chamadas break up songs, para além de Green Light. Uma delas é uma faixa com duas partes: Hard Feelings/Loveless. Em termos de sonoridade, não divergem muito do estilo habitual de Lorde. A primeira parte é lenta, suave, conduzida por batidas leves e um sintetizador discreto, que se vão tornando mais intensos. A segunda parte, por sua vez, é bem mais dançante, conduzida por batidas, com notas de piano apimentando os vocais.

 

Em termos de letra, Hard Feelings parece começar no rescaldo imediato da separação, num momento de grande vulnerabilidade, em que a ferida é ainda recente. Lorde referiu mesmo que esta música é a calma após a grande discussão, a grande separação. Em consonância com o tema geral do álbum, temos referências a ressaca, a pós-melodrama.

 

  

Há uma ideia de passagem do tempo à medida que a canção decorre. Na segunda estância, assim, a narradora procura manter-se ocupada, aprender a estar sem o ex-namorado. A dor permanece, mas a narradora está determinada a esquecê-lo, a ultrapassar a separação.

 

É tão eficaz, na verdade, que a segunda parte da canção, L.O.V.E.L.E.S.S. é a completa antítese de Hard Feelings. Aqui temos uma Lorde em modo vingativo, anti-romântico, troçando abertamente do ex-namorado e do amor em geral. Lorde chama mesmo ao seu grupo “A geração sem amor”, que gozam com os respetivos amantes (ela descreve-o de forma mais colorida…). Nesse aspeto, a versão do vídeo acima, que ela filmou com um grupo coral e uma boombox à anos 90, faz todo o sentido.

 

E é muito fixe!

 

  

Writer in the Dark, por sua vez, é uma balada de piano, à semelhança de Liability, acompanhada por violinos no refrão e no final da música. Não posso deixar de assinalar os vocais agudos de Lorde, no refrão: meu. Deus. Como é que ela faz aquilo?

 

Em termos de tema, Writer in the Dark é muito parecida com Hard Feelings: ambas exprimem amargura e ressentimento pela separação e, ao mesmo tempo, manifesta o desejo de seguir em frente com a sua vida. Assumindo que a letra é verídica, descobrimos que o ex-namorado não era homem suficiente para aceitar o sucesso de Lorde. Esta, assim, sentiu-se obrigada a diminuir-se, a tirar pedaços de si mesma, para não ferir o orgulho dele.

 

Não nego que o facto de a música ter “escritora” no título me agrada particularmente. No entanto, neste contexto, acho que significa mais “artista” do que outra coisa qualquer. Alguém que, se calhar, sente as coisas com demasiada intensidade e que imortaliza as suas emoções na sua arte.

 

  

Consta que Supercut é uma favorita entre os fãs. Não é difícil perceber porquê. Musicalmente, é como se Green Light e Ribs se juntassem e tivessem um filho: riffs de piano parecidos com os da primeira, batidas parecidas com as da segunda, o ritmo dançante de ambas.

 

O termo “Supercut” refere-se a uma montagem de vídeos que, geralmente, se focam num elemento único – tipo isto. É isto que passa na mente da narradora: um greatest hits da relação que terminou, sem as partes menos boas, em constante repetição. O verso “In my head I do everything right” soa-me particularmente triste – é muita mágoa e arrependimento numa única frase.

 

Gostava de chamar a atenção para o verso “In your car, the radio up”. É um tema recorrente que Lorde e Avril Lavigne têm em comum: no carro com os interesses românticos. No caso da Avril, o exemplo mais flagrante é Complicated: “I like you the way you are, when we’re driving in your car”. Carros voltam a aparecer, em contexto semelhante, no quinto álbum, com as músicas 17 (“My favorite place was sitting in his car”) e You Ain’t Seen Nothin’ Yet (“Your car, I’m sitting right beside you”).

 

É possível, no entanto, que estas sejam referências propositadas a Complicated.

 

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Por sua vez, Lorde já explorara esse tema em 400 Lux. Em Melodrama, para além de Supercut, Green Light aborda-o de passagem (ao falar do “carro de outro”) e, em Hard Feelings, serve de metáfora à relação que tem os dias contados.

 

Já falámos sobre Liability antes. Ouvindo-a no contexto do resto do álbum, encaixa-se bem no contexto de Melodrama. Existem, mesmo, várias interpretações possíveis que se encaixariam. Para além de poder referir-se à relação que terminou, poderia referir-se a alguém que não gostou da festa e culpa a narradora por o(a) ter arrastado para a mesma. Ou então o contrário: alguém que se aproveitou do espírito festeiro da narradora e a descartou na manhã seguinte, depois de obter o que queria.

 

Liability tem, no entanto, uma reprise, mais à frente em Melodrama. Não sei ao certo qual é a diferença entre uma reprise e uma sequela ou segunda parte. Esta, no entanto, parece funcionar como uma correção à música original. Ao contrário de Liability propriamente dita, que é uma balada de piano, Liability (Reprise) aproxima-se mais do som habitual de Lorde, ao limitar-se a batida e vocais.

 

  

Na letra, a narradora percebe que ela não é um risco, não é o problema, nem no que toca a relação que terminou nem no que toca à desta. Começa, aliás, a aperceber-se nos efeitos nocivos deste estilo de vida. Que a rapariga embriagada na festa, tentando esquecer o namorado, não é a sua verdadeira identidade. Que aquilo é tudo melodrama, como referimos acima: não é real.

 

E assim se abre caminho para o epílogo do álbum: Perfect Places.

 

Esta é a minha música preferida em Melodrama e talvez mesmo em 2017, até agora. Em termos de sonoridade, de início, não difere muito do estilo habitual de Lorde, com a batida e o sintetizador discreto. Entretanto, ouvem-se algumas notas de piano, o sintetizador ganha intensidade. Por fim, Lorde faz “tch-tch”, como quem engatilha uma arma ou ativa uma bomba, e a música explode com um dos melhores refrões dos últimos anos – um híbrido do refrão de Team com Midnight City, dos M83, com notas de piano e sintetizadores à anos 80.

 

  

A letra de Perfect Places faz um resumo dos temas recorrentes em Melodrama e ainda acrescenta coisas. Vemos a narradora recorrendo às festas como escapismo: não apenas no que toca à separação, esmiuçada no resto do álbum, mas também à atualidade, ao clima, ao desaparecimento de heróis, ao controlo excessivo por parte dos demais. A própria Lorde admitiu que era esse o caso para si e para os amigos, sobretudo durante o verão do ano passado – que procurava uma fuga à realidade, que tinha medo de estar a sós com os seus pensamentos (“Now I can’t stand to be alone”).

 

Este verão tenho percebido um pouco de que Lorde fala em Perfect Places. O verso “I hate the headlines and the weather”, por exemplo, faz-me pensar na tragédia dos incêndios. E o verso “All of our heroes fading”, que Lorde admitiu referir-se às mortes de David Bowie e Prince, no ano passado, faz-me pensar no Chester.

 

Por outro lado, a perda de ídolos, a humanização das pessoas e instituições que venerávamos em miúdos, é uma das etapas do crescimento. Eu, pelo menos, passei por uma fase assim quando tinha aproximadamente a idade da Lorde.

 

Posso não me identificar com o estilo de vida descrito em Melodrama, mas identifico-me definitivamente com o desejo de um escape, a procura de um sentido, de algo que transcenda a realidade. Mas procuro esses sítios perfeitos noutros lugares: na praia onde passo férias desde miúda, num concerto, num jogo da Seleção, num encontro do Pokémon Go ou do Odaiba Memorial Day ou, pura e simplesmente, numa jantarada com familiares e/ou amigos.

 

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Curiosamente, no outro dia, o modo aleatório do Spotify tocou Innocence, de Avril Lavigne, a seguir a Perfect Places. E, de facto, parece que Lorde estava à procura daquilo que Avril encontrou em Innocence.

 

Perfect Places, de resto, faz-me lembrar I Still Haven’t found What I’m Looking For, dos U2, e See the Light, dos Green Day. Não só por funcionar bem como um epílogo para Melodrama, mas também por transmitir aquela sensação agridoce de quem está à espera e/ou à procura de uma resposta. Ao longo de Melodrama, Lorde procurou-a numa pista de dança, no fundo de um copo, numa droga qualquer, nos braços de um estranho. Até perceber, em Perfect Places, que a resposta não está ali.

 

Onde a procurará a seguir? Descobriremos no próximo álbum, suponho eu.

 

Melodrama é prova de que é possível fazer música pop, música de festa/party bangers que não seja vazia de sentido ou de qualidade duvidosa. Não que isso seja de surpreender: Pure Heroine já tinha provado mais ou menos o mesmo. Lorde, pura e simplesmente, joga num campeonato diferente em relação aos simples mortais, não há comparação possível.

 

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Gostava que Melodrama estivesse a ter mais rotação, no entanto. Ainda não ouvi nem Green Light nem Perfect Places nas rádios portuguesas. Também não me parece que, lá por fora, Melodrama esteja a ter o mesmo impacto que Pure Heroine teve, na altura (posso estar enganada). Acho que será uma questão de tempo, contudo.

 

Quanto a mim, gosto imenso de Melodrama. Acho que vou passar muito tempo, ainda, a decifrar estas canções – tal como ainda acontece com Pure Heroine. Talvez até escreva uma análise ao primeiro álbum de Lorde – não para lá, antes a médio/longo prazo.

 

Apesar de reconhecer que Ella é uma excelente cantora e compositora, ainda não tenho um vínculo emocional com ela como os que tenho com outros artistas de quem gosto. Mas também isso é uma questão de tempo – sobretudo se ela vier em digressão a Portugal, em breve.

 

Quanto a nós, vou fazer uma pausa nos textos sobre música aqui no blogue. A única exceção será quando Bryan Adams lançar duas músicas novas no outono, juntamente com um álbum Best Of, tal como anunciou aqui (pensava que já ninguém lançava álbuns Best Of...). Tenciono escrever sobre Once Upon a Time a seguir – mas deverá ser um texto mais curto que o último. Até lá...

Paramore - After Laughter (2017) #2

Segunda parte da análise a After Laughter. Primeira parte aqui.

 

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Existem algumas canções em After Laughter que fogem à norma do falsamente alegre. Uma delas é Forgiveness – que terá sido a primeira a ser composta para este álbum. Esta faixa é conduzida por notas suaves de guitarra, acompanhada por baixo e uma bateria discreta.

 

Consta que a letra de Forgiveness foi inspirada numa crise na relação de Hayley com o seu, em breve, ex-marido. O que não surpreende. A letra descreve um cenário em que alguém pede perdão, mas a narradora está ainda demasiado magoada para concedê-lo.

 

Uma pessoa poderia interpretar esta letra como um retrocesso. Em vários momentos ao longo do Self-Titled, Hayley parecia razoavelmente aberta ao perdão. Não tanto porque a(s) outra(s) pessoa(s) o merecessem, mais por uma questão de paz de espírito. É possível que seja assim para algumas situações, mas não para todas. Sobretudo se a ofensa em questão ainda está fresca na memória e/ou se a outra pessoa ainda não fez nada para merecer ser perdoada.

 

Por outro lado, podem existir casos em que “perdoar e esquecer” até seja benéfico para a pessoa ofendida. Dito isto, existem coisas que ninguém tem a obrigação de perdoar.

 

  

Desde Brand New Eyes, todos os trabalhos dos Paramore (incluindo o Singles Club) têm incluído uma balada acústica. After Laughter manteve essa tradição. Se dois desses números acústicos – Misguided Ghosts e Hate to See Your Heart Break – se juntassem e tivessem um filho, esse seria provavelmente 26. Para além da guitarra acústica, esta faixa possui ainda uma secção de violino lindíssima.

 

Em entrevista, Hayley revelou que escreveu a letra de 26 como uma carta para a versão mais jovem de si mesma. Eu diria, também, que esta letra representa um conflito entre o seu lado mais cínico e o seu lado mais sonhador. Os dois sempre se manifestaram na música dos Paramore (Careful e Brick By Boring Brick para o cinismo; Miracle e Daydreaming para o idealismo). Em 26, Hayley quer agarrar-se ao lado sonhador, idealista – embora sinta que a realidade a puxa para o cinismo.

 

Nem todas as canções em After Laughter são assim tão depressivas, felizmente. Uma delas é, por sinal, uma das minhas preferidas: Pool. Esta é a única canção de amor neste álbum. Em entrevista, Hayley referiu que não se sente muito à vontade no que toda a canções de amor, que provavelmente nunca criará uma música romântica propriamente dita, idílica, sem um senão, sem uma reserva. E agora, com a separação, duvido que tão depressa voltemos a ter canções de amor no reportório dos Paramore.

 

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Em linha com isso, Pool parece fazer referências à ansiedade de Hayley. A letra compara um relacionamento amoroso a um mar agitado ou a uma piscina sem fundo: mergulhar nele é algo arriscado, incerto, perigoso, mas irresistível. No fundo (no pun intended), a narradora está a aprender que, no amor, nem sempre poderá ter controlo total. Existirá sempre um grau de incerteza relativamente ao futuro.

 

Não que isso tenha resultado muito bem para a Hayley…

 

Pool tem, aliás, sido a minha canção de verão deste ano. Tanto graças à sua sonoridade new wave, à anos 90, que me dá uma certa nostalgia, bem como às várias referências aquáticas – algo de que sempre gostei, tal como referi num texto recente deste blogue.

 

A única canção verdadeiramente alegre em After Laughter é Grudges. Consta que Zac e Taylor colaboraram na composição do instrumental (que não difere muito do resto do álbum), o que motivou Hayley a escrever sobre o regresso do baterista à banda. A letra celebra, assim, o renascimento da amizade, deixando de lado o passado, os motivos da antiga zanga e a longa ausência. Os vocais de Zac na terceira parte da música foram bem sacados.

 

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Vou falar, agora, das músicas de que gosto menos em After Laughter. Caught in the Middle, para começar, deixa-me algo dividida. Não sou grande fã da parte musical – não sendo má, não é nada por aí além. O refrão, por sua vez, soa-me estranho, um bocadinho forçado.

 

Por outro lado, a letra de Caught in the Middle é aquela com a qual mais me identifico em todo o After Laughter. Há coisa de uns dois, três anos, estive numa situação semelhante à descrita nesta letra: incapaz de pensar no passado, nos sonhos que tinha, nas promessas que fizera a mim mesma, e que não tinham dado em nada; cheia de medo de pensar no futuro a médio/longo prazo. Ainda hoje, em dias maus, chego a regressar temporariamente a esse modo.

 

Felizmente, não era algo que interferisse assim tanto com a minha vida, que me impedisse de funcionar normalmente. O caso da Hayley terá sido bem mais grave – ao ponto de,como ela descreveu em entrevista, ter desistido temporariamente da banda, ter passado dias e dias a ver séries, sem sair da cama, ter tido mesmo um diagnóstico de depressão e ansiedade. Costuma-se dizer, de resto, que a depressão ocorre quando somos atormentados pelo passado e a ansiedade ocorre quando somos atormentados pelo futuro – mas isto, claro, é simplificar demasiado a questão.

 

Não posso deixar de falar daqueles que serão, de longe, os melhores versos neste álbum: “I don't need no help, I can sabotage me by myself”, cantados no melhor tom sarcástico de Hayley. Tenho vindo a perceber, nos últimos tempos, que também tenho uma tendência para me boicotar a mim mesma. Ando a tratar disso…

 

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Mas este álbum é a consulta no psicólogo da Hayley, não minha.

 

Tenho tido um relacionamento complicado com Idle Worship. Nesta música, encontramos uma Hayley cínica, amarga, mesmo enraivecida. Sob um instrumental mais sombrio que no resto do álbum, Hayley tece críticas à veneração que muitos fãs nutrem por ela.

 

Confesso que fiquei, um pouco, com as orelhas a arder. Já passei há muito a fase de ter ídolos absolutos. Dito isto, muitos de vocês já terão reparado que passo a vida a falar de Hayley como uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música, a minha guia espiritual. Sobretudo graças ao marcante álbum Self-Titled.

 

Mas não posso dizer que Hayley esteja errada – que não seja um fardo ter tanta gente idolatrando-nos. Não me custa, aliás, imaginar uma Hayley deprimida sentindo-se a anos-luz da carismática vocalista dos Paramore, que dominava os palcos com a sua voz, a sua energia e o seu cabelo cor de chama.

 

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Este pode, até, ser outro dos motivos pelos quais ela desistiu dos Paramore por algum tempo – por não se sentir capaz de voltar a ser a Hayley que todos conhecemos e adoramos.

 

Por outro lado, Idle Worship serve para nos recordar que, só porque Hayley é uma cantora excelente e bem sucedida, isso não significa que não tenha problemas, falhas, como toda a gente. O seu iminente divórcio é um bom exemplo disso. Não é de todo razoável exigir que ela seja sempre um exemplo a seguir, que faça tudo bem, que não cometa erros.

 

Até porque Hayley sabe perfeitamente que, nos piores momentos da banda, toda a gente se volta contra ela. Já aconteceu antes. Várias vezes.

 

Devo dizer, no entanto, que Hayley não é uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música por achar que ela é (ou deveria ser) sempre perfeita, carismática, glamourosa – essa criatura, se existisse, não teria nada a ver comigo. Ela é uma das minhas preferidas porque é humana, com falhas e dificuldades tal como todos nós – e porque transfere a sua humanidade para a sua música.

 

  

No Friend é uma música que demorei algum tempo a compreender. Quando a ouvi pela primeira vez, cheguei a pensar que era um glitch ou algo do género – com o seu riff de guitarra repetitivo e os vocais masculinos que mal se conseguem ouvir. Consta, então, que foi co-composta e interpretada por Aaron Weiss, dos MeWithoutYou (que Hayley refere como a sua banda preferida). Os Os registos originais no site da ASCAP indicam que esta foi composta como um outro para Idle Worship – e de facto notam-se algumas semelhanças no instrumental. A letra torna, além disso, a pegar no tema da veneração tóxica.

 

Muitos fãs têm estranhado a música, eu incluída. No entanto, está a acontecer comigo o mesmo o que aconteceu com Future, no Self-Titled: de início, também não gostava, mas acabei por compreender o seu propósito.

 

A minha teoria é que os membros oficiais dos Paramore, Hayley sobretudo, a certa altura, precisaram de exorcizar demónios no que diz respeito à história turbulenta da banda. Precisaram de alguém de fora que dissesse coisas que eles, provavelmente, sentem, mas que não têm coragem de dizer eles mesmos. E a letra escrita por Aaron Weiss acaba por fazer referências a vários temas da discografia dos Paramore. No Friend não é, de todo, uma das minhas canções preferidas em After Laughter, mas compreendo a sua inclusão no álbum.

 

Até porque, ao deitar toda a raiva cá para fora, abre-se caminho a Tell Me How: o momento mais vulnerável em After Laughter.

 

  

Tell Me How é conduzida por notas de piano, ao qual se juntam notas de guitarra e uma bateria discreta, tudo muito suave. Na mesma linha, os vocais de Hayley são graves, quase sussurrados, magoados.

 

Fora de contexto, poder-se-ia pensar que a letra se refere a uma separação amorosa. No entanto, para uma pessoa minimamente informada sobre a situação da banda ao longo dos últimos anos, fica claro que a letra sobre Jeremy. Hayley chora (mais uma) amizade que perdeu, as infinitas mudanças na banda, o eterno ciclo de destruição e reconstrução dos Paramore. Uma das frases que se destaca em Tell Me How é a que reza “Of all the weapons you fight with, your silence is the most violent”.

 

Suponho que esta seja a parte da Hayley que desistiu da banda durante algum tempo.

 

A ideia com que fico é que, em Tell Me How, Hayley se encontra numa encruzilhada. Não só sem saber se deve continuar nos Paramore ou não, mas também sem saber se deve continuar a debater-se com o passado, a tentar descobrir onde é que errou, ou se deve seguir com a sua vida.

 

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Gosto de pensar que Hayley escolheu a segunda opção, que é a isso que se referem os versos finais. Tell Me How (e o próprio álbum After Laughter) termina com Hayley dizendo “I can still believe” – uma nota de esperança encerrando um álbum bastante deprimente, na sua maioria.

 

After Laughter não é tão bom (ou melhor, não é tão arrebatador) como o Self-Titled, mas também não estava à espera que fosse. É, no entanto, tão intricado e introspetivo como são os álbuns anteriores. E as referências a problemas de saúde mental – ainda muito pouco falados e cheios de preconceitos – tornam-no ainda mais relevante.

 

Aquilo que mais impacto me tem causado, no que toca a After Laughter, é a mudança na mensagem relativamente ao Self-Titled. Tal como escrevi na altura, este último é um álbum de sobreviventes, de vencedores, um álbum otimista, confiante no futuro. Admito mesmo que esse espírito me contagiou, a certa altura na minha vida. Fez-me sentir igualmente confiante, otimista, convencida de que já sabia como a vida funcionava, qual era o meu lugar no mundo.

 

É óbvio, agora, que a realidade havia de nos atingir, mais cedo ou mais tarde. No caso da banda, isso veio na forma da desistência de Jeremy e talvez mesmo na separação de Hayley.

 

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Esse, de resto, é o tema de After Laughter: o momento em que a batata quente nos explode nas mãos sem que estivéssemos à espera. O momento após uma gargalhada em que regressamos ao mundo real.

 

O facto de a banda, ao que parece, ter deixado para trás os elementos emo/pop punk tem causado controvérsia entre os fãs e não só. Era de esperar. Pessoalmente, admito que terei algumas saudades das guitarras pesadas em Paramore. À parte isso, a mudança de estilo não me incomoda, porque as músicas são boas. Estão muito bem feitas, com vários elementos que não se notam à primeira audição, com boas letras. O rótulo que os demais queiram colocar neste estilo musical é irrelevante.

 

O regresso dos Paramore às luzes da ribalta, de resto, tem-me feito redescobrir – mais uma vez – a discografia deles. Em particular o primeiro, All We Know Is Falling. Estou a descobrir que a tensão, os conflitos, a instabilidade fazem parte do DNA dos Paramore. O seu primeiro álbum foi maioritariamente inspirado pela desistência de um membro, Jeremy (a primeira, apenas temporária). Músicas desse álbum, como a homónima All We Know, Pressure, Here We Go Again, Conspiracy continuam a aplicar-se bem à banda, sobretudo nos momentos mais turbulentos.

 

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Os Paramore bem podem dizer que, agora, estão mais fortes do que nunca e tal, mas eu já ouvi essa antes – e só os acompanho a sério desde finais de 2010! Fãs mais antigos já devem ter ouvido esta mais vezes. Estou cada vez mais convencida de que a banda nunca terá estabilidade. Poderá chegar o dia em que termine de vez – ou, pelo menos, em que entre num hiato prolongado.

 

Depois de ter escrito sobre Riot! há dois anos, planeava escrever sobre Brand New Eyes pouco tempo depois. Confesso que tencionava tecer duras críticas aos membros da banda, por terem dito que a criação daquele álbum tinha resolvido os conflitos dentro do grupo. O que claramente não era verdade – conforme provado pela saída de Josh e Zac.

 

No entanto, depois de Jeremy ter saído da banda, fiquei sem coragem para escrever sobre isso – porque teria de admitir que o Self-Titled, um dos álbuns da minha vida, era igualmente “mentiroso”.

 

Só agora, mais de um ano e meio após a partida de Jeremy, em que começo a aceitar a eterna instabilidade da banda, é que me sinto em condições de escrever sobre Brand New Eyes. Não será a curto prazo – talvez daqui a uns meses.

 

Já agora, um aparte sobre os meus planos imediatos para o blogue. Tenho ainda dois álbuns lançados recentemente sobre os quais quero escrever. Um deles é One More Light, dos Linkin Park (Alerta Spoiler: gostei mais do que estava à espera mas, mesmo assim, não por aí além). O outro é Melodrama, de Lorde (Alerta Spoiler: A miúda não desiludiu, de todo). Espero não me demorar muito tempo com estes textos.

 

Quanto aos Paramore, ainda que esteja algo cética relativamente ao futuro da banda, espero, no entanto, que os próximos tempos sejam mais felizes para a Hayley, o Zac e o Taylor.

 

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