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Álbum de Testamentos

"Como é possível alguém ter tanta palavra?" – Ivo dos Hybrid Theory PT

Concertos #2 – Dois em um e um tributo pelo meio

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Faz agora um ano desde que a Eras Tour passou por Portugal. Eu fui à segunda noite e foi um dos concertos mais marcantes da minha vida. Não só por ter trazido dois nomes de peso a Portugal, mas também pelo ambiente, pelo enquadramento. Como tal, esta publicação vai ser quase toda ela dedicada à Eras. 

 

Conforme outros já descreveram, a Eras Tour foi o mais parecido que tivemos na vida real com a Barbieland. Aqueles dias foram uma celebração… eu nem diria da mulher, diria da menina. Do cor-de-rosa, das roupas, das lantejoulas, das pulseiras da amizade.

 

Algo que nunca foi muito muito a minha cena. Não que nunca tenha tido um lado feminino, mas sempre fui muito maria-rapaz. Sempre preferi calças a vestidos e sempre tive vários interesses tipicamente masculinos. Como muitas mulheres da minha geração, tive uma fase (mais longa do que me orgulho) em que pensava que isso fazia de mim melhor que as demais. Mas, mesmo depois de ter deixado essa mentalidade para trás, sei que nunca serei uma pessoa cem por cento estereotipicamente feminina. 

 

Ainda assim, até entrei no espírito da Eras Tour. Eu e a minha irmã começámos a fazer pulseiras de amizade. Para mim foi difícil começar – não sabia onde arranjar as missangas. Comprei dois conjuntos, primeiro na Toys’R’Us, depois na Claire – nenhum deles com letras suficientes. Só mais tarde percebi que o melhor sítio para comprar é mesmo na Temu.

 

Enfim, não foi grave. Ao menos as pulseiras ficaram giras, ficaram diferentes das demais. 

 

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E de qualquer forma tomei-lhe o gosto. Ainda hoje faço dessas pulseiras de vez em quando. Na semana anterior ao concerto, a minha mãe viu-me a mim e à minha irmã a fazê-las e quis uma para si. Calhou o meu irmão revelar o nome da minha sobrinha nessa altura (ela nasceria pouco menos de dois meses depois). Nessa mesma noite, fiz um par de pulseiras com o nome dela: Laura. Mais tarde, sobretudo depois de ela nascer, fiz uma data de pulseiras para vários membros da minha família. Ainda hoje é a única pulseira destas que uso todos os dias. 

 

Pelo meio, cometi a “asneira” de me oferecer para fazer para pessoas do grupo de fãs dos Hybrid Theory e tive várias amigas a pedir-me. E a verdade é que, quando os Linkin Park regressaram ao ativo, alguns fãs começaram a trocar pulseiras. Chegaram mesmo a oferecê-las à Emily.

 

Uma coisa a que não aderi, no entanto, foi ao cosplay. Pelo menos ao ponto a que vários dos outros fãs chegaram. Isso estava, ainda está, aquém das minhas capacidades. Em parte para ser do contra, em parte porque os Paramore também mereciam amor, vesti-me à Hayley Williams, a icónica vocalista. Isto apenas vagamente, com peças que já tinha no armário – incluindo uma t-shirt e um pin (na altura por estrear) da merch de After Laughter. 

 

Não deixei, no entanto, de encher os pulsos de pulseiras nem de desenhar um “13” nas costas da mão. Nunca fui tão bem vestida para um concerto.

 

E adorei ver todas as pessoas vestidas ainda melhor do que eu. As meninas e mulheres recriando diferentes eras e visuais de Taylor. Os homens vestindo t-shirts semelhantes às de Taylor no vídeo de 22, dizendo “It’s me. Hi. I’m the Dad, it’s me.” ou “It’s Me. Hi. I’m the boyfriend, it’s me.” Nunca vi tantas lantejoulas juntas. A própria Hayley Williams o comentou durante a atuação dos Paramore: ainda à luz do dia, o sol refletindo-se nas roupas. O Estádio da Luz nunca brilhou tanto. Na altura citei Bejeweled. Hoje tenho pena de não me ter lembrado de Starlight: “The whole place was dressed to the nines and we were dancing, dancing, like we’re made of Starlight”.

 

Adiantando-me um pouco, digo-o desde já: a minha parte preferida da Eras Tour foi o público no Estádio da Luz. Mais do que da própria Taylor Swift, mais ou menos ao mesmo nível que os Paramore. A minha irmã, as amigas dela, com quem fui, a minha vizinha do lado, as pessoas com quem troquei pulseiras (ou pura e simplesmente ofereci), os mais de sessenta mil que cantaram em altos berros a noite toda. As Swifties têm má fama e uma parte dela é merecida, mas naqueles dias vimos apenas a melhor faceta. 

 

Na verdade, nós no grupo HT não somos assim tão diferentes de Swifties – há menos lantejoulas e cor-de-rosa e mais preto e metal. Mas aquela gente não está preparada para essa conversa. 

 

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Falemos, então, da abertura da Eras, a cargo dos Paramore. A minha banda preferida, tirando os Linkin Park. Não vou ao ponto de dizer que estava lá mais por eles do que pela Taylor, mas é diferente. O vínculo que tenho com os Paramore é mais forte. Conheço-os há mais tempo, vi-os passando por muito – conforme escrevi aqui – e, de igual modo, a música deles acompanhou-me por muito. 

 

Por sua vez, gosto imenso da Taylor, mas nunca me afeiçoei muito a ela e duvido que alguma vez o faça. Em parte porque ela já era uma cantora de grande sucesso quando comecei a ouvi-la com regularidade. Sempre senti que Taylor não “precisava” de mim. Ela tem muitos por aí cumprindo o papel de fã melhor do que eu.

 

Regressando aos Paramore, durante a atuação deles fui para as escadas, para poder dançar à vontade, sem incomodar as pessoas à minha volta. Tinha tentado ao máximo evitar spoilers dos concertos anteriores, mas sabia mais ou menos o que esperar: os êxitos, o excelente cover de Burning Down the House. 

 

Um dos pontos altos foi Still Into You. Eu entrei a pés juntos no espírito, cantando em altos berros, sentindo a letra, relacionando-a com a minha própria história com os Paramore. Cantando “Let’em wonder how we got this far” abrindo os braços para todo o Estádio da Luz.

 

Estava na minha, mas não deixei de reparar pelo canto do olho que a minha irmã, as amigas dela e o resto do público em geral estavam a aderir a Still Into You. Ainda agora, na preparação deste texto, encontrei este vídeo e dá para ouvir o público cantando. 

 

No fim de Still Into You, a banda recebeu uma longa ovação de todo o Estádio da Luz. A Hayley pareceu ficar à beira das lágrimas – com o baterista Zac Farro atrás delas, tirando fotografias ou filmando. Eu estava ali sem acreditar que aquilo estava mesmo a acontecer, cheia de vontade de abraçar a Hayley.

 

 

Eu achava que seria das poucas pessoas naquele estádio a ralar-se com os Paramore. Escrevi todo um testamento aqui no blogue tentando aumentar o interesse pela banda. No entanto, não precisava de me ter preocupado. O Estádio da Luz não podia tê-los recebido da melhor forma – só mesmo se os Paramore estivessem a atuar para o seu próprio público.

 

Compreendem agora porque digo que o público foi a melhor parte da Eras?

 

A Hayley esteve à altura do momento, soltando um “Obrigada!” em bom português. Tanto quanto sei, isto não aconteceu em noites anteriores da Eras Tour e não voltou a acontecer depois. Desde então, recordo-me deste momento sempre que oiço Still Into You – e também noutras alturas. 

 

Pois bem, nós fizemos a Hayley chorar (ou quase). Poucos minutos depois foi a vez deles me fazerem chorar (ou quase). 

 

Depois de That’s What You Get, a Hayley começou a fazer um pequeno discurso explicando o conceito das músicas-surpresa. Como não estavam a tocar para o seu próprio público, o alinhamento dos Paramore focava-se maioritariamente nos êxitos. Eu tinha feito as pazes com isso, não contava com músicas como Pool ou All I Wanted ou a minha preferida Last Hope. 

 

A banda, no entanto, percebeu que haviam fãs de Paramore acompanhando os concertos em direto através da Internet. Assim, resolveram incluir uma piscadela de olhos a essas pessoas. Até àquela data tinham tocado músicas como Pool, Forgiveness, Rose Colored Boy. Eu até estava com… bem, com esperanças para aquele concerto, mas não me atrevi a assumir nada. 

 

Quando Hayley concluiu o seu discurso com “This song’s for you”, eu sustive a respiração. Segundos depois começou a cantar “I don’t even know myself at all…” e eu passei-me. Guinchei como uma miúda vinte anos mais nova, as mãos tremeram-me, vieram-me as lágrimas aos olhos. E naturalmente cantei a plenos pulmões, esticando os braços para os arcos do Estádio da Luz em “Gotta let it HAPPEN!”.

 

 

Não estava de todo à espera que os Paramore a tocassem – só uma das minhas canções preferidas de todos os tempos. Tinha escrito em duas ocasiões diferentes aqui no blogue a propósito da Eras: “Gostava que tocassem Last Hope, mas é pouco provável”. Mesmo depois de saber que os Paramore tinham músicas-surpresa, quais as probabilidades de a tocarem no concerto a que eu fui? 

 

E peço desculpa por estar outra vez a bater nesta tecla, mas o facto de isto tudo ter acontecido no Estádio da Luz – um sítio que conheço bem de outro dos meus mundos – contribui para a mística disto tudo. Adoro ver fotos dos Paramore – e de Taylor Swift – emolduradas pela Catedral. 

 

Last Hope e Still Into You (e respetiva ovação) foram, assim, os grandes destaques da atuação dos Paramore – e ficaram entre os momentos mais felizes do meu 2024. Foi um bom concerto em geral, com boa adesão por parte do público. Acho que tivemos mais sorte em termos de alinhamento em relação à noite anterior – Last Hope e That’s What You Get em vez de Told You So e Caught in the Middle. Nada contra estas duas últimas – e até fiquei com alguma pena por não ter visto as dancinhas de Hayley em Caught in the Middle – mas, lá está, Last Hope é Last Hope e gosto mais de That’s What You Get. Até porque esta tem ganho novos significados para mim no último ano, ano e meio. 

 

Por outro lado, o público do dia 24 pôde ver Hayley levantando a camisola e abanando as mamas. Já não sei quem teve mais sorte.

 

Uma coisa é certa: os Paramore gostaram de nós, gostaram de estar cá em Portugal. Acho que fomos um dos preferidos deles na Eras, se não tivermos sido o número um. Para além do que aconteceu no segundo concerto, foram à praia, comeram marisco (n’O Ramiro! E não pagaram!) e deram um passeio de barco pelo Tejo – algo que eu mesma fiz um par de vezes, ambas em despedidas de solteira. Sabemos isto tudo pois eles publicaram-no nas redes sociais – pelo que se pode ver aqui, mais nenhum país teve tanto conteúdo publicado como o nosso.

 

Ver fotos e vídeos da banda no nosso país, da Hayley e do Brian no barco, com a Ponte 25 de Abril no fundo… A mensagem que a Hayley nos deixou, como poderão ver acima/abaixo… E quando ela fez anos, vários meses mais tarde, os Paramore publicaram uma foto inédita da Hayley que eu tenho quase a certeza de que foi tirada em Portugal. 

 

Oh sim, fomos os melhores alunos. Não me convencem do contrário.

 

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Na pior das hipóteses, terão ficado com vontade de voltar cá para um concerto em nome próprio. Não sei até que ponto isso depende da vontade deles. Infelizmente, não deverá acontecer tão cedo – eles estão em pausa outra vez e podem voltar a demorar anos a lançar um álbum. Mas fica a esperança de que, um dia destes, voltarão a tocar Last Hope e Still Into You para nós. 

 

Antes de continuarmos a falar sobre a Eras, ainda dentro do universo dos Paramore, quero fazer um aparte para falar dos Decoded. No último ano, ano e meio, fiquei mais aberta a bandas de tributo e bandas de covers (saibam a diferença), por motivos óbvios. Claro que os Hybrid Theory são um caso à parte, em vários aspetos – não espero que outros tributos tenham a mesma dimensão ou o mesmo impacto. 

 

Mas gosto de música ao vivo. Na pior das hipóteses é uma banda tocando-me músicas de que gosto – permitindo-me criar novas memórias com elas e outros benefícios que referi antes.

 

No que toca aos Decoded, tributo aos Paramore, já os vi duas vezes. Bem, três vezes, se contarem com um ensaio aberto. A primeira vez foi no Pátio do Sol (onde os próprios Hybrid Theory tocaram um par de vezes), no dia 27 de julho do ano passado. Soube do concerto e da própria existência da banda meros dias antes – um amigo meu que já os tinha visto deixou o seu carimbo de aprovação. Como estava livre nessa noite, resolvi ir, mesmo a solo. 

 

Foi um dia engraçado: durante o dia foi o encontro do Odaiba Memorial Day. À noite, tive concerto. Apareço na foto com a minha t-shirt da Ruki

 

E gostei, mesmo tendo sido uma atuação curta. 

 

Com isto, passaram-se vários meses e os Decoded comemoraram o primeiro aniversário em março deste ano. Como forma de o assinalarem, eles fizeram um ensaio aberto. Quando falaram disso no Instagram, comentei logo mostrando interesse – mas estava à espera que viessem mais fãs para além de mim. Se soubesse que seria a única (eles escolheram outra rapariga para além de mim que acabou por não vir), talvez pensasse duas vezes.

 

 

Mas isto era só a minha timidez a falar, claro. A banda recebeu-me muito bem na sua sala de ensaios – onde também estavam amigos deles, outra banda, os The Reptilians, tributo aos Strokes. Nunca tinha assistido a um ensaio de banda, foi uma experiência gira. Quase um concerto privado – embora também tenham transmitido uma parte em direto no Instagram. 

 

Na altura, a banda indicou-me as duas datas seguintes em Lisboa e eu prometi ir a pelo menos uma – de preferência acompanhada. Vim ao The Family Values Punk Edition no RCA Club, dia 9 deste mês. Essencialmente uma festa do pop punk/punk rock. Para além dos Paramore, tivemos tributo a Blink 182, Green Day e Offspring.

 

Um registo algo diferente da Eras, digamos. Aliás, foi mesmo uma noite para beber um pouco mais e andar ao moche como nunca antes (não durante os Decoded, mais durante Blink +351 e Green Play). Em termos de pura diversão, foi das melhores que tive. 

 

Consegui, então, arrastar uma amiga da família HT (apesar de esta só conhecer a música dos Paramore muito superficialmente). Encontrámos os Decoded mal entrámos no RCA, junto ao bar. Fizeram-me logo uma festa, com elogios à minha t-shirt  (a mesma que usei na Eras).

 

Eu é que não tenho remédio, continuo tímida e desajeitada no primeiro contacto. Ainda hoje acontece com os Hybrid Theory, mesmo já os conhecendo há dois anos e treze concertos. O que vale é que acabo sempre por sair da minha concha – geralmente quando os concertos começam. 

 

Gostei mais deste segundo concerto – por estar acompanhada, pelo maior à-vontade com a banda e também porque, da minha experiência, o RCA tem melhor ambiente que o Pátio do Sol (não desfazendo). Havia um grupinho que volta e meia cantava pelo Ricardo (Ricardo Lopes, o guitarrista que "faz" de Josh). E, durante The Only Exception, aquela malta que, mais tarde, andaria ao moche, pôs-se toda a cantar de braço dado. 

 

Mais uma recordação para associar a uma música que está na minha vida há quinze anos, uma das minhas canções de amor preferidas

 

 

...pois, temos de falar do que se passa no vídeo acima. Não vou mentir, depois de ter estado no ensaio deles, sabia que havia a possibilidade de os Decoded me chamarem ao palco para Misery Business. Não queria ser arrogante, não queria assumir... mas sabia. Passei uma boa parte do concerto sentindo uma mistura de nervos e excitação antecipando o momento. Quando começaram a tocar MizBiz, deixei de sentir as pernas. Finalmente, a Inês (Inês Martinho, a vocalista) chamou-me ao palco. Lembrei-me de passar o telemóvel à minha amiga para que me filmasse e lá consegui trepar para o palco, com os meus braços e pernas a tremer. Não fui a única convidada – como podem ver acima, chamaram também outra rapariga, chamada Diana. 

 

Como qualquer fã de Paramore, tinha passado anos e anos sonhando com um convite para cantar Misery Business em palco. Tudo o que fiz foi passar da fantasia à realidade e consegui vencer os nervos. Acho que me saí bem. Pude ser uma estrela de rock durante dois minutos – e a minha amiga, abençoada seja, fez de minha fã, como se pode ouvir. 

 

Ainda só estamos em maio mas este foi já um dos melhores momentos do meu ano. Como se não bastasse, ainda me tiraram uma foto espetacular, como poderão ver abaixo.

 

Não admira que os Paramore não consigam matar a música, por muito que tentem. Estes momentos são demasiado bons. Misery Business não pode nunca desaparecer.

 

E os Decoded dão um bom espetáculo. A Inês tem uma boa voz. O timbre não se parece muito muito com o de Hayley, mas ela reproduz bem os maneirismos, a maneira de cantar. Durante este segundo concerto, ouvi a minha amiga, bem como outras pessoas na audiência do RCA, a elogiar a baterista Marta Ferreira (ou seja, "faz" de Zac). E ela merece: é pequena, mas tem energia suficiente para as baterias dos Paramore – mais intricadas do que muitos pensam. Eu diria no entanto que o meu preferido é o baixista, Pedro Araújo ("faz" de Jeremy. Gosto da postura dele, do seu entusiasmo, das suas interações com os outros colegas da banda. 

 

Depois disto tudo, os Decoded agora são dos meus. Era o mínimo. Hei de continuar a acompanhá-los dentro das minhas possibilidades – e hei de tentar trazer mais amigos ou, no mínimo, converter a amiga que veio aos Paramore. Não hão de faltar oportunidades – até porque estes, ao menos, são de Lisboa. 

 

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Voltemos à Eras Tour. Tenho de dizê-lo: em termos de produção e de dimensão, foi o melhor concerto a que assisti até agora. Os bilhetes foram caros, sim, mas pelo menos neste caso o preço até se justifica. 

 

Não digo que seja o meu tipo de concerto. Estou habituada a concertos de rock, focados na música. Os de Taylor Swift (e de outras estrelas pop, na verdade), no entanto, sempre foram diferentes: teatrais, com várias mudanças de visual, coreografias elaboradas, pouco espaço para espontaneidade. Mais musicais que concertos, por vezes. 

 

É uma questão de gosto, claro. E de qualquer forma, a Eras Tour consegue manter o calor, a proximidade, aquele je ne sais quoi que faz de concertos das melhores experiências do mundo. Como já muitos descreveram, Taylor tem o dom de fazer os outros sentirem que são as pessoas mais importantes do mundo, de parecer que ela canta pessoalmente para cada um de nós.

 

Como escrevi acima, não consegui evitar todos os spoilers, mas evitei o suficiente para ter muitas surpresas. Começando logo pelo relógio e a contagem decrescente – que nós, no público, fizemos aos gritos e em bom portugês, como se fosse Ano Novo. E depois o tema de introdução, com excertos de letras de músicas em que Taylor diz os títulos dos diferentes álbuns. Que termina com a própria Taylor aparecendo em palco, cantando "It's been a long time coming but it's you and me, that's my whole world". Eu não sou grande Swiftie e no entanto o raio da música ainda hoje me deixa com pele de galinha, leva-me lágrimas aos olhos. 

 

Depois disto foram só três horas e meia de concerto, só quarenta e seis músicas no alinhamento. Várias delas tiveram parte cortadas, algo de que não gosto muito por norma, mas aqui aceita-se. Pelo meio, muitas coreografias, muitas mudanças de visual, quase sempre de saltos altos (“in stilettos for miles”), sem parar. 

 

Eu pensava que existiriam pausas de, vá lá, cinco minutos entre diferentes “eras” – nem por sombras. Não dava para sequer trocar impressões com a vizinha do lado. Estou convencida de que Taylor troca de roupa como um Sim – desce no seu elevadorzinho, faz uma pirueta e o maillot transforma-se num vestido. Não há outra explicação possível.

 

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Dar um concerto assim será mais exigente em termos físicos do que um jogo de futebol profissional. Há artigos na internet sobre os treinos que Taylor fazia – três horas seguidas na passadeira a diferentes velocidades enquanto cantava o alinhamento completo. Há quem tenha tentado recriar este esquema de treino – claro que não é recomendável começar logo com as quarenta e seis músicas. O melhor é começar com, vá lá, metade da secção de Lover e ir aumentando progressivamente.

 

Não sou de ir ao ginásio ou mesmo de fazer corrida. Para fazer exercício, pratico natação. Mas até era capaz de tentar este esquema de treino. Cantando músicas de Taylor Swift, até seria divertido.

 

Música em geral torna tudo mais divertido, ponto.

 

Imenso respeito a Taylor, assim. E talvez ainda mais à sua equipa. Muita coisa terá tido de funcionar na perfeição para montar este espetáculo.

 

Mas volto a reforçar que o público foi das melhores partes. Mais de sessenta mil gargantas cantando em altos berros durante mais de três horas e meia. Acho que fiquei com perdas auditivas. O videozinho que filmei de You Belong With Me foi uma boa amostra. 

 

Ainda assim, acho que o melhor exemplo foram mesmo os dez minutos de All too Well. A plenos pulmões, uma dose saudável de dramatismo. Foi cá uma catarse – dá para senti-lo no modesto vídeo que filmei. O desgraçado que inspirou a música devia ficar com as orelhas em fogo em todas as noites da Eras. 

 

    

 

Houveram outros destaques, claro. Um deles também durante Red, mais especificamente durante We Are Never Getting Back Together – quando o dançarino Kam Saunders completou a frase “Like, we are never getting back together…” com “... nem que a vaca tussa”, em português. 

 

Esta é daquelas coisas que não sabia que acontecia na Eras: o Kam dizendo uma frase diferente em cada noite, na língua do país em questão. Sou suspeita, mas acho que a nossa foi das melhores: mais original que um palavrão e, na verdade, uma das expressões mais engraçadas da língua portuguesa. 

 

E pergunto-me quem ensinou a frase ao Kam (e à própria Taylor?). Se foi ideia de algum dos trabalhadores portugueses por detrás dos concertos. 

 

Outros destaques ocorreram durante folkmore. August era das que por que mais ansiava. Uma surpresa bem agradável foi a transição, no fim, para aquilo a que os fãs chamam illicit affairs (angry version).

 

Por outro lado, devia ter antecipado o efeito de marjorie. Marjorie é daquelas que me leva lágrimas aos olhos sempre. A letra foi inspirada pela falecida avó de Taylor e, como já escrevi antes, a mim recorda-me a minha própria falecida avó. Estávamos na Eras Tour, que pontenciava cada emoção associada àquelas músicas. Mas também, como expliquei antes, foram poucos dias depois de conhecermos o nome da minha sobrinha, a primeira bisneta dela do lado da minha mãe.

 

No fim da música olhei para a minha vizinha do lado e vi que ela também estava a chorar. Rimo-nos as duas. No fim do concerto, ofereci-lhe uma pulseira, só mesmo por causa deste momento.

 

 

Marjorie foi imediatamente seguida por willow – e eu adorei o cenário mágico que montaram no palco. Agora percebo porque é que a secção mais básica e retrógrada da população americana acusou Taylor de bruxaria.

 

The Tortured Poets Department é capaz de ter sido das minhas partes preferidas de todo o concerto – curiosamente, uma das mais teatrais. Como muito boa gente, tenho os meus problemas com este álbum, mas a Eras sempre me fez gostar mais de algumas músicas. Deu-me imenso gozo, por exemplo, gritar “Who’s afraid of little old me?!?!”.

 

O melhor, mesmo assim, foi a sequência antes de I Can Do It With A Broken Heart. Um momento muito meta, que parecia retirado de uma comédia muda dos anos 20. Uma artista de palco que bateu no fundo. Vêm um par de colegas ou assistentes (?) reanimá-la, vesti-la, colocá-la de novo de pé, dar-lhe um empurrão para que o espetáculo continue.

 

A cena pode ser interpretada de duas maneiras. Uma: Taylor obrigada a trabalhar, a subir ao palco, mesmo estando mais morta do que viva. Outra: Taylor mais morta do que viva, mas a sua equipa e/ou os seus entes queridos dão-lhe forças para subir ao palco, fazer aquilo para que nasceu. A ocasião em que Travis, o atual namorado de Taylor, desempenhou o papel de um dos assistentes, como é possível ver em baixo, parece apoiar a segunda interpretação. 

 

A música em si é uma das minhas preferidas em The Tortured Poets Department. Como o pequeno sketch na Eras Tour dá a entender, é a The Show Must Go On de Taylor, o momento After Laughter de Taylor. Aliás, se formos a ver, nos primeiros meses da Eras Tour, Taylor estava numa situação semelhante àquela em que Hayley estava no início da era de After Laughter: “obrigada” a subir ao palco e a dar espetáculo, enquanto a vida pessoal se desfazia em pedaços. Hayley uma vez chegou a comparar-se a uma marioneta caída, com o amigo e colega de banda Taylor York a puxar-lhe as cordas. Mais ou menos o que acontece no sketch antes de I Can Do It With A Broken Heart. 

 

Eu coloquei o verbo “obrigar” entre aspas, porque não me convencem que Taylor ou Hayley foram obrigadas ao que quer que fosse. Não terá sido por falta de dinheiro, ao contrário da maior parte de nós, simples mortais. 

 

 

Mas a questão é precisamente essa. É por isso que After Laughter é um álbum que teima em manter-se relevante. É por isso que I Can Do It With A Broken Heart é mais universal do que soa à primeira vista. Todos nós como adultos temos de fazê-lo com um coração partido. Trabalhar, cuidar dos filhos, cuidar de nós próprios, seguir com a nossa vida, mesmo que estejamos tristes, doentes, cansados. Mesmo que (sobretudo nos últimos anos, sobretudo nos últimos meses) tenhamos o mundo a desmoronar-se à nossa volta.

 

Mas estou a desviar-me. 

 

Regressando à Eras, queria falar agora sobre as músicas-surpresa. Num concerto com esta complexidade tecnológica, não dá para variar o alinhamento. As músicas-surpresa, no entanto, são apenas Taylor com uma guitarra acústica numa e um piano noutra – é mais fácil alterá-las todas as noites. Consta que é algo que Taylor já fazia em digressões anteriores.

 

E eu acho uma excelente ideia. A mulher tem onze álbuns, quatro deles com baús, um deles com várias faixas extra, um deles duplo. Incluir estes temas todos no alinhamento de um concerto é obviamente impossível. Mas, sobretudo com a popularidade de Taylor, cada uma destas músicas é a preferida de alguém. Essas pessoas merecem vê-las tocadas ao vivo pelo menos uma vez.

 

Dito isto, nesta o trabalho era todo de Taylor. Recordar os acordes de todas estas músicas, reduzi-las ao seu esqueleto (quando várias delas têm um instrumental eletrónico originalmente). A coisa só terá ficado mais complicada quando ela começou a fazer misturas – mashups, como são mais bem conhecidas. O trabalho adicional de pegar em duas músicas diferentes e tentar encaixá-las uma na outra, como um puzzle

 

Antes do concerto fiz por não ouvir nenhum mashup. Depois de ver por mim mesma, no entanto, adoro o conceito. Sempre gostei de encontrar paralelismos, temas em comum entre músicas – sejam elas dos mesmos artistas ou de artistas diferentes. Isso já inspirou uns quantos textos aqui no blogue. É um exercício giro ver as músicas que Taylor combinou e tentar descobrir o raciocínio por detrás.

 

No que toca ao meu concerto, tive alguma sorte. Ainda não conheço a discografia de Taylor assim tão bem. Calhou conhecer as quatro músicas. Ambas músicas de que gosto mais ou menos misturadas com músicas de que até gosto. Não me posso queixar.

 

 

A primeira mistura foi de The Tortured Poets Department, a música, com Now That We Don’t Talk. Na altura, TTPD, o álbum, tinha saído pouco mais de um mês antes. Naturalmente, Taylor favoreceu-o nas músicas-surpresa. Na altura até gostava de The Tortured Poets Department, a música. Mais pela sonoridade – gosto da percussão, quase soa a bateria ao vivo.

 

Não consigo levar a letra a sério, no entanto. “No fucking body” soa a algo dito por uma menina de dez anos dizendo palavrões pela primeira vez. E nem me digam nada sobre o início da segunda parte.

 

Dito isto, fez sentido combiná-la com Now That We Don’t Talk, que tem um estilo de narrativa semelhante. Misturando as duas, criou-se uma história nova. Começando por The Tortured Poets Department (que ela tocou praticamente inteira), a relação está de pé mas algo tremida – em Now That We Don’t Talk já terminou. A fase de transição entre as duas corresponde ao luto: “Who’s gonna love you like me… now that we don’t talk?”. No fim, chega à aceitação: “Guess this is how it has to be now that we don’t talk”.

 

Ao piano, Taylor misturou You’re On Your Own, Kid com Long Live. A primeira foi uma das músicas-surpresa mais tocadas na Eras. É claramente uma das preferidas de Taylor – e uma das mais populares entre os fãs. Não é o meu caso, mas já gostei menos.

 

E, de qualquer forma, a mistura com Long Live foi muito bem sacada. You’re On Your Own, Kid é uma retrospetiva da carreira de Taylor, o bom e sobretudo o mau. Long Live é também sobre a carreira dela, mas foca-se no bom, nas vitórias.

 

Além de que Long Live é uma das minhas preferidas de Taylor. Long Live foi uma de várias retiradas do alinhamento normal aquando da inclusão de The Tortured Poets Department, com muita pena minha. Esta, no entanto, foi uma boa forma de compensar. E, se lerem aqui os motivos pelos quais gosto desta música, não será surpresa se vos disser que, mais do que qualquer outra música, foi especial cantar Long Live no Estádio da Luz.

 

 

Depois deste concerto fiquei livre para ouvir outras misturas, anteriores e posteriores. Não ouvi todas ainda – são demasiadas! Mas, das que ouvi até agora, tenho algumas favoritas. Is it Over Now com I Wish You Would e loml com White Horse, por exemplo – daquelas que fazem todo o sentido, mesmo de maneira óbvia, pelas semelhanças na sonoridade das versões originais. E as letras encaixam na perfeição. No caso de loml com White Horse, por exemplo, a frase “I’m gonna find someone someday who might actually treat me well” soa ainda mais poderosa após o contexto de loml (a minha preferida em TTPD neste momento). 

 

Outra de que gostei foi de Haunted com exile em Edimburgo. Não tanto pelas músicas em si mas pelo público – que foi uma excelente segunda voz. Adoro quando coisas como estas acontecem em concertos (como, por exemplo, algumas vezes, no Live in Lisbon de Bryan Adams). 

 

A minha preferida, no entanto, foi The Great War com You’re Losing Me. A primeira é a minha canção preferida de Taylor, para começar. Fez sentido combiná-la com You’re Losing Me, que usa imagens semelhantes – e acaba por mudar a história da guerra. Desta feita, a relação não se aguentou, mas a narradora sobreviveu. 

 

Entre Paramore e Taylor Swift foram, então, mais de quatro horas de cantoria. A minha garganta já está habituada a concertos, mas desta vez foi muito tempo. E isto ao ar livre, com um ventinho fresco a soprar. Saí da Luz com uma constipação daquelas, passei mais de uma semana a tossir como uma desalmada. 

 

Zero arrependimentos, claro. E agora que faz um ano, tenho saudades. Tenho imensa pena de não poder repetir este dia.

 

Depois desta, cheguei a ver algumas transmissões de concertos posteriores. Regra geral, deixava a passar enquanto fazia outras coisas. Sempre dava para ir acompanhando um bocadinho. Tive a sorte de ver um momento lindo: o público de Milão fazendo uma serenata a Taylor. Imenso respeito. A reação dela foi adorável.

 

 

E, se me permitem o aparte, o vestido que ela estava a usar era lindíssimo.

 

A Eras Tour terminou no final de 2024. Foi a maior e a mais lucrativa digressão de todos os tempos. Tenho pena que já tenha acabado – mas sinto-me privilegiada por ter podido estar lá.

 

Tenho-me perguntado o que Taylor irá fazer a seguir em termos de digressões. Se voltará a dar concertos “normais”, em estádios mas focados apenas no álbum mais recente. Ou se criará algo semelhante à Eras em termos de conceito, tentando talvez suplantá-la. Só o tempo o dirá.

 

Neste momento, ao que parece, Taylor irá manter-se afastada dos holofotes por uns tempos. Ninguém a censura, após dois anos de digressão e de vários anos seguidos lançando álbuns. Eu mesma já pedia uma pausa no ano passado – não fazia questão de ter The Tortured Poets Department. Agora que este já saiu, não vou dizer que lamento que este tenha sido lançado. Tenho algumas críticas a fazer-lhe, mas este texto já vai longo, ficam para outra ocasião (ou talvez não). 

 

Agora finalmente vou ter tempo para (continuar a) explorar a discografia existente de Taylor, ao meu ritmo, sem que ela venha do nada atirar mais trinta músicas para cima de mim. O que tem acontecido nos últimos anos (nem é a primeira vez que o refiro), tirando quando Taylor lança álbuns, é ter fases breves de obsessão por uma música dela que me apareceu no aleatório. Espero conseguir continuar a fazê-lo

 

Acho que mesmo o projeto Taylor’s Version só deverá ser retomado, na melhor das hipóteses, no outono deste ano. Aposto que a reedição de Reputation sairá no início de 2026 e o álbum de estreia será reeditado no outono desse ano – para coincidir com o vigésimo aniversário da carreira de Taylor.

 

E para já ficamos por aqui. A segunda parte ainda vai demorar um bocado – ainda nem a rascunhei. Mas já estou contente por ter conseguido publicar duas vezes este mês. 

 

Obrigada pela visita. 

Música 2021 #2: Já tenho direito ao cartão de Swiftie?

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Esta é outra que vem na sequência do ano passado – e que eu sabia que podia voltar a aparecer na lista de fim de ano. Taylor Swift continua a subir nas minhas preferências e acredito que, não sendo propriamente a melhor cantora, é certamente a melhor compositora da nossa geração. 

 

No final do ano passado, eu estava ainda a começar a explorar folklore e evermore. Agora que já passei bastante tempo com esses álbuns, posso alongar-me um pouco mais sobre eles. 

 

Não que tenha muito a dizer que outros não tenham dito já. Apenas que ambos são álbuns poderosíssimos, que mexem com as emoções – um pouco demais para o meu conforto, até. As músicas de separação (pelas quais Taylor é infame) nem sequer são as piores, pelo menos não no meu caso.

 

Devo dizer que gosto mais de folklore do que de evermore – ambos são excelentes, mas, no geral, gosto mais das músicas do primeiro. De todas as faixas de folklore – incluindo a faixa extra, the lakes – apenas peace e hoax não me cativam muito. 

 

Cardigan não é das minhas favoritas, mas existe um par de versos que batem forte – sobretudo no final do ano passado, início deste. “Tried to change the ending, Peter losing Wendy” lembra-me Kizuna. Embora talvez a primeira versão da letra fosse mais adequada “Peter leaving Wendy”. Ou mesmo ao contrário “Wendy losing Peter”

 

Exile, my tears ricochet e illicit affairs são todas tristes, cada uma à sua maneira. Identifico-me um pouco com this is me trying. Seven, então, é terrível, traz-me lágrimas aos olhos de todas as vezes. August é a melhor do triângulo amoroso musical e mesmo de todo o álbum. 

 

 

Por fim, tomei o gosto a mirrorball. Traduz de maneira interessante aquilo que Taylor estaria a sentir no início da pandemia: o mundo do espetáculo fechando portas, mas o desejo dela de entreter não fora a lado nenhum. “When they called off the circus, burned the disco down, when they sent home the horses and the rodeo clowns, I’m still on that tightrope, I’m still trying everything to get you laughing at me”. 

 

Evermore tem menos músicas causando o mesmo impacto, mas elas estão lá. Como primeiro single, gosto mais de willow do que de cardigan. Gold rush é muito gira: um cruzamento entre o synth pop de 1989 e música dos anos 50. No body no crime é deliciosamente sombria. Cowboy like me merecia mais apreciação. Marjorie foi inspirada pela falecida avó de Taylor, mas também me recorda a minha – é outra que me faz chorar.

 

São bons álbuns mas, como referi várias vezes ao longo do ano, a partir de certa altura tornaram-se demasiado pesados emocionalmente para mim. Comecei a sentir falta de música mais alegre.

 

Entretanto, Taylor começou a lançar as regravações dos seus álbuns antigos. Fearless na primavera, Red agora no outono. Na altura em que se começou a falar disso, não achei que fosse resultar. Se Avril decidisse regravar os seus primeiros álbuns, não resultaria de todo, na minha opinião. A sua voz muda muito de álbum para álbum, sobretudo na primeira metade da sua carreira – a sua voz hoje em dia é muito mais firme, ela nunca conseguiria replicar a fragilidade dos seus vocais em Let Go ou o timbre mais grave, à maria-rapaz, de Under My Skin

 

Além disso, qual era a piada de voltar a lançar música que os fãs já conhecem de trás para a frente e de frente para trás?

 

No entanto, tive de engolir as minhas dúvidas depois do que ela fez com Fearless (Taylor’s Version) e sobretudo Red (Taylor’s Version). Como a própria Taylor explicou, acaba por ser uma nova forma de explorar nostalgia e fan service. Taylor pega no feedback que recebeu ao longo dos anos dos fãs em relação às músicas mais populares, àquelas que deviam ter sido singles/recebido videoclipes (o caso mais óbvio é All Too Well, como veremos já de seguida). Por sua vez, os fãs recordam um álbum e uma era que os marcou e ainda recebem conteúdo extra. 

 

 

Taylor tem regravado as faixas-padrão de modo a soarem idênticas às originais, por motivos óbvios. Mas com as b-sides – ela chama-lhes From the Vault, do cofre – é diferente. Tecnicamente estas nunca foram lançadas por meios oficiais, nunca renderam dinheiro (mesmo que os fãs mais hardcore já as conheçam há muitos anos), ela agora pode fazer o que quiser com elas: rearranjá-las, mudar partes da letra, trazer convidados.

 

É diferente, é interessante. Com isto em conta, decidi aproveitar estas regravações para ficar a conhecer melhor a discografia de Taylor, um álbum de cada vez. 

 

Fearless não me impressionou por aí além, no entanto. Tirando aquelas de que já gostava antes – Love Story, White Horse, Fifteen – acrescentei poucas às minhas playlists: a faixa-título, Superstar, The Other Side of the Door, Mr. Perfectly Fine e Don’t You. E mesmo assim não adoro nenhuma delas.

 

Com Red foi diferente. Gosto mais de Red do que de Fearless. Não sei se esta é uma opinião popular na comunidade de fãs. Será o equivalente a dizer que gosto mais de The Best Damn Thing do que de Under My Skin?

 

De resto, acho que o lançamento de Red TV teve mais impacto. Talvez por causa do lançamento da versão de dez minutos de All too Well, com direito a curta-metragem e tudo. 

 

À semelhança de toda a gente, All too Well é uma das minhas preferidas de Taylor. Até escrevi sobre ela no ano passado e tudo. A minha declaração de que não precisávamos da versão de dez minutos envelheceu como um iogurte. Apesar do que escrevi, quando ficou confirmado que teríamos dez minutos de All too Well, fiquei tão entusiasmada como toda a gente. Na noite anterior ao lançamento de Red TV, mal consegui dormir pensando na música, sonhando constantemente que esta já tinha saído e que a ouvia pela primeira vez. 

 

 

Isto já me dá direito ao cartão de Swiftie?

 

Em relação à música em si, começo por dizer que as minhas previsões não estavam erradas. A versão longa de All too Well não tem os mesmos clímaxes em termos de instrumental que a versão curta tem. A letra é menos linear em termos de progressão, chegando a contradizer-se a si mesma. Perto do fim da música, a narradora diz que o ex se lembra tão bem como ela – a parte de ele não ter devolvido o cachecol e tal. Mas na estância final, ela pergunta-lhe se ele também sofreu com a separação, se ele também se lembra.

 

É possível que seja intencional, no entanto.

 

Em todo o caso, estes são problemas menores. Os pontos fortes da versão longa compensam sobejamente. Os cinco minutos extra oferecem novas perspectivas sobre o romance falhado, novas camadas de emoção, talvez demasiado melodramática nalguns momentos, mas sem deixar ninguém indiferente.

 

Taylor diz que esta versão é o primeiro rascunho da música, tal como a compôs em 2011 ou 2012… mas será verdade? Estou disposta a admiti-lo para noventa por cento da letra, mas existem partes que são demasiado 2021, nomeadamente o foco na diferença de idades. Duvido que Taylor aos vinte e um, vinte e dois, estivesse afastada o suficiente da situação para se aperceber desse aspeto.

 

Enfim, é apenas um pormenor. Concordo com Taylor quando diz que esta é a versão definitiva de All too Well. 

 

 

Mas esta não é a única música de destaque em Red TV. Eu já adorava o tema-título mesmo antes disto, por exemplo, bem como Treacherous (ainda que há menos tempo). Quando saiu a regravação, no entanto, tomei o gosto a Begin Again.

Por acaso, várias das que gosto vêm do “cofre”. Por exemplo, gosto imenso de Girl At Home. A versão original tinha um arranjo mais country que não era mau. Mas esta versão, mais ao estilo de 1989, é muito mais gira. E a letra envelheceu surpreendentemente bem.

 

Também gosto de Come Back… Be Here. O início recorda-me Wish You Were Here, de Avril Lavigne. É possível que tenham inspirações comuns, típicas do início dos anos 2010. 

 

Finalmente, temos I Bet You Think About Me. Adoro o tom trocista da letra (que será sobre o mesmo interesse romântico de All too Well), muito bem explorado pelo videoclipe, lançado poucos dias depois de Red TV. Pontos para o que fizeram com o branco e o vermelho – e o bolo parece delicioso. Se algum dia me casar e for um casamento dos grandes, também quero um bolo de noiva red velvet.

 

Dizem que a próxima regravação será de 1989. Sendo este um dos álbuns que melhor conheço de Taylor, isto contraria um pouco o meu plano. Mas não me queixo: continuo a querer conhecer mais músicas do cofre, quiçá com novos videoclipes. 

 

Não se admirem, assim, se voltar a escrever sobre Taylor daqui a um ano.

 

 

E chegámos ao fim da segunda parte desta retrospetiva. Se não voltar a publicar antes, boas entradas em 2022!

Músicas Ao Calhas – All too Well

Ninguém vai acreditar que foi por mero acaso que resolvi escrever sobre Taylor Swift agora, ninguém vai acreditar que já planeava fazê-lo há algum tempo. Vão achar que quis aproveitar-me do interesse aumentado em Taylor a propósito do álbum folklore, lançado há pouco mais de uma semana. 

 

Acreditem ou não, eu já estava a escrever o primeiro rascunho deste texto quando Taylor anunciou o álbum literalmente na véspera do dia em que saiu. Como é que eu ia adivinhar? A mulher costuma demorar pelo menos dois anos entre álbuns!

 

Bem, agora já está. Vou aproveitar-me do interesse aumentando em Taylor, mesmo não tendo sido essa a minha intenção. 

 

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Taylor Swift é uma cantautora que dispensa apresentações. É a primeira vez que lhe dedico um texto neste blogue, mas a verdade é que tenho acompanhado a carreira dela assim ao de longe desde 2014/2015. Talvez mesmo antes, mais foi só em 2014 que comecei a ouvir ativamente músicas dela. Os singles de 1989 basicamente, como Blank Space e Out of the Woods. Com o passar dos anos, sobretudo desde que comecei a usar o Spotify com frequência, fui acrescentando mais músicas dela às minhas playlists, aqui e ali.

 

Durante anos não quis admitir que Taylor Swift era uma cantora do meu nicho musical. Mas a verdade é que ela ia aparecendo em várias listas de mais tocadas no Spotify. Quem é que eu queria enganar?

 

Era só uma questão de tempo até escrever sobre ela aqui. 

 

Ainda assim, não sou de todo uma enorme fã de Taylor (uma Swiftie, uma stan ou o que quer que os miúdos fixes lhe chamem por estes dias). Sou uma fã muito casual, muito superficial. Não conheço assim tão bem a discografia dela. Só tenho ouvido músicas soltas, acho que nunca cheguei a ouvir um álbum dela do princípio ao fim – quero fazê-lo com folklore, no entanto.

 

Na mesma linha, no que toca à sua repercussão mediática, aos dramas com ex-namorados, com outras celebridades… em geral, não ligo muito, tenho ter uma posição neutra.

 

Tirando no caso do Kanye. Que se lixe o Kanye, o homem é uma besta. Eu sei que ele tem tido problemas com a sua doença bipolar, mas isso não serve de desculpa para todas as coisas que tem feito.

 

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Voltando a Taylor, por um lado sim, acredito que seja difícil passar o fim da adolescência e toda a idade adulta, em particular a sua vida amorosa, debaixo do escrutínio impiedoso dos holofotes. Também admito que, se ela fosse um homem, a sua vida seria mais fácil.

 

Por outro lado, nenhuma dessas dificuldades, nenhum dos lados negros da fama a impediram de se tornar uma das maiores estrelas pop da atualidade, uma das mulheres mais poderosas e influentes dos Estados Unidos, se não for do mundo. Não precisa que tenhamos pena dela, na minha opinião. Além de que, não apenas como celebridade, também como compositora, como letrista, tem maior controlo sobre a narrativa do que outras personagens da sua história. 

 

Em todo o caso, sei reconhecer boa música quando a oiço e é por isso que estou aqui. All too Well é considerada, de maneira quase unânime, uma das melhores canções de Taylor Swift, se não for a melhor. Como (ainda) não conheço assim tão bem a discografia dela, não posso dizer que seja, de facto, a número um. Mas é uma das melhores entre aquelas que conheço. 

 

É sem dúvida uma das melhores baladas que conheço. Baladas a sério, mesmo power ballads, daquelas que arrebatam. Sempre gostei deste estilo de música, duas das minhas canções preferidas de todos os tempos – I’m With You e Last Hope – são power ballads. All too Well está ao mesmo nível.

 

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All too Well, aliás, é um caso bastante raro, se não for único, entre as power ballads no sentido em que não assenta em grandes notas agudas para arrebatar. I’m With You caracteriza-se muito pelos agudos. Last Hope nem tanto, mais nos pré-refrões, mas estão lá. Mesmo aquelas baladas universalmente aclamadas, como I Don’t Want to Miss a Thing, Total Eclipse of the Heart, Always, My Heart Will Go On, I Will Always Love You, todas elas assentam em grandes agudos. 

 

É, de resto, uma técnica muito usada em música: cantar os últimos refrões uma oitava acima, acrescentar uns quantos backvocals mais agudos, mesmo elevar o tom da música. A própria Taylor já usou este último truque com grande eficácia em Love Story. 

 

All too Well, no entanto, só tem um único verso agudo. Não precisa de mais. Taylor sob controlo total, transmitindo bem as emoções da música através da sua voz. Na verdade, no que diz respeito a vocais, prefiro versões ao vivo, em particular a lindíssima apresentação nos Grammys de 2014. A voz soa menos polida, mais crua – numa versão de estúdio não dava, mas ao vivo funciona e, para ser sincera, leva-me às lágrimas. 

 

O acompanhamento musical contribui para o arrebatamento da canção em partes iguais à voz. Começa relativamente minimalista, só com um par de guitarras (ou piano, no caso das versões ao vivo), ganhando novas camadas ao longo da faixa. All too Well é feita de crescendos atrás de crescendos, de crescendos sobre crescendos, clímaxes sobre clímaxes. Por volta dos três minutos e quarenta a intensidade diminui por instantes, mas não tarda a crescer de novo. Culmina no último refrão antes de diminuir de novo para o final. 

 

É uma montanha-russa de emoções.

 

 

Falemos então sobre a letra. Resumidamente, All too Well fala sobre uma relação falhada, à semelhança de oito em cada dez músicas de Taylor. Esta terminou de forma amarga, só que a narradora não consegue esquecer os bons momentos, continua presa a esse passado. 

 

Penso que já referi aqui no blogue que Taylor Swift é uma das melhores compositoras, uma das melhores letristas da actualidade, na minha opinião. Dá para ver um pouco disso aqui, várias das coisas que ela faz bem. 

 

Uma delas é a forma como conta histórias ao longo das músicas. All too Well, por exemplo, conta a história da relação que falhou, do princípio ao fim – como veremos melhor adiante. 

 

Outra coisa que Taylor faz bem é dar pormenores, reais ou ficcionados, que tornam as histórias muito mais tangíveis. Como as camisas em xadrez nesta música, os aviões de papel em Out of the Woods, os Old Fashioned em Getaway Car, a Cornelia Street da música com o mesmo nome. Por um lado, suspeita-se que esses pormenores sirvam de pistas para a audiência brincar aos detetives, tentando descobrir de quem Taylor está a falar (não estou a tecer juízos de valor, eu compreendo o apelo).

 

Por outro, esses pormenores também servem para fazer um bocadinho de “show, don’t tell”. Vou roubar um exemplo ao Pop Song Professor e referir New Year’s Day: em vez de dizer apenas que quer estar lá nos bons e nos maus momentos, a narradora diz que quer estar nas festas, nas doze badaladas à meia-noite, mas que também estará lá na manhã seguinte, arrumando a casa com o amado.

 

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Temos exemplos disso em All too Well. Começando pelo lenço (ou cachecol? A tradução dá para os dois lados…) na primeira estância, que, tal como a própria canção o confirma mais tarde, simboliza a esperança e inocência do início da relação. 

 

Consta que foram chatear a irmã do Jake Gyllenhaal (o ex de Taylor que, supostamente, terá inspirado All too Well) a perguntar por esse lenço. Ela não sabia do que estavam a falar. Provavelmente é ficcional.

 

A parte entre a estância refere-se, então, à fase de lua de mel, em que o casal se divertia, em que ele não conseguia tirar os olhos dela (“You almost ran a red ‘cause you were looking over at me” – nada mais romântico do que uma quase contra-ordenação muito grave), em que tudo parecia perfeito, destinado (“Autumn leaves falling down like pieces into place”). 

 

De notar as pausas da narrativa – nos pré-refrões, em que a narradora assegura que sabe que aquilo tudo é passado e ainda está a tentar aceitá-lo. 

 

Na parte seguinte, depois do primeiro refrão, temos a narradora descobrindo acerca da infância do amado, falando com a mãe dele, vendo fotografias. Sabemos que a relação já vai além da excitação inicial – ninguém conhece a família do parceiro romântico, fazendo perguntas sobre a sua meninice, se não está a pensar a longo prazo. A própria letra resume-o bem: “You tell me about your past thinking your future was me”.

 

Temos também uma breve referência a um momento de intimidade, a meio da noite: “We're dancing round the kitchen in the refrigerator light”.

 

 

Aquele que será, porventura, o maior clímax da música corresponde ao momento da separação. A letra refere problemas de comunicação, expetativas diferentes mas, segundo a narradora, a culpa é sobretudo dele. Nesta fase da sua carreira, quase todas as músicas de Taylor sobre relações falhadas colocavam a culpa no ex – Back to December será uma das poucas exceções. Foi só a partir de 1989 que ela começou a admitir culpas no cartório.

 

Uma vez mais, não estou aqui para tecer juízos de valor. Faz parte do crescimento.

 

De qualquer forma, segundo All too Well, esta separação incluiu uma chamada telefónica cheia de palavras desnecessariamente duras, supostamente honestas, que a magoaram profundamente. A ser verdade, não se faz.

 

A parte seguinte, depois da acalmia, ocorre já algum tempo depois do fim. Ela ainda está a fazer o luto, ainda não conseguiu reencontrar-se consigo mesma. Estão naquela fase em que devolvem as coisas que ficaram na casa um do outro.

 

Mas – plot twist – ele não devolveu o tal lenço. Ele também ainda não desligou por completo. No ano passado, aquando do lançamento de Lover, foi revelada uma das primeiras versões do último refrão, rezando “There we are again, you’re crying on the phone/Realized you lost the one real thing you’ve ever known”. Partindo do princípio que estes versos são verídicos, já foi tarde, agora já não dá para voltar atrás.

 

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É uma canção extraordinária, de facto. Tem cinco minutos e meio de duração – talvez seja por isso que nunca foi lançada como single – mas acho que ninguém lhe cortaria um segundo que fosse. 

 

Reza a lenda, aliás, que existe uma versão de All too Well com dez minutos de duração. No entanto, daquilo que descobri nas internetes, essa versão não era mais do que um primeiro rascunho sem filtros, um longo desabafo à guitarra. Taylor admitiu que demorou algum tempo a editar tal monstro, a reduzir às partes essenciais. Tanto quanto percebo, ao contrário do que uma parte dos fãs acredita, Taylor nunca chegou a gravar uma versão com dez minutos, ou mais, de duração.

 

E, para ser sincera, não acho que essa versão faça falta. A versão final utiliza com mestria os seus cinco minutos e meio de duração. Uma versão com o dobro ou o triplo da duração provavelmente divagaria na letra, não teria os mesmos crescendos e clímaxes. All too Well está perfeita como está.

 

Taylor afirmou que a canção tem tido duas vidas. A primeira como seu desabafo, como catarse sua. A segunda vinda do feedback dos fãs, que lhe gritam a música de volta nos concertos (a sério, vejam o vídeo abaixo, uma pessoa fica com pele de galinha), que fazem tatuagens com a letra. 

 

É ao mesmo tempo o risco e a excitação de expressões artísticas como a música: depois de lançadas no mundo já não pertencem exclusivamente ao artista, ganham uma personalidade nova. Para o pior e, pelo menos deste caso, para o melhor. All too Well tem recebido a apreciação que merece. Eu mesma só conheço esta canção há relativamente pouco tempo, mas já me imagino de lágrimas nos olhos cantando-a aos berros num concerto.

 

 

Sei perfeitamente que não sou, nem de longe nem de perto, a primeira pessoa a elogiar All too Well (e não serei decerto a última). Mesmo a maior parte destas opiniões não são propriamente originais. Mas a verdade é que este blogue também funciona um pouco como um diário de bordo das minhas paixões. Se descubro alguma coisa de que gosto a sério, mesmo que seja com algum atraso, escrevo sobre ela aqui.

 

Talvez volte a escrever sobre a música de Taylor no futuro. Existe pelo menos mais uma canção que merece uma entrada de Músicas Ao Calhas, mas não vou escrevê-la já já – são planos a médio prazo.

 

Por agora, se não se importam, vou ouvir folklore como deve ser, para ver se é essa Coca-Cola toda.

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