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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Músicas Não Tão Ao Calhas – Solar Power

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No passado dia 10 de junho houve um eclipse solar – que infelizmente mal se viu em território português. A cantora neozelandesa Ella Yelich-O'Connor, mais conhecida pelo seu nome artístico Lorde, aproveitou a ocasião para lançar Solar Power, o primeiro single do seu terceiro álbum de estúdio com o mesmo nome, que sairá a 20 de agosto.

 

Solar Power sucede a Melodrama, que saiu em 2017. Este é um álbum que, já na altura em que escrevi sobre ele, reconheci ser espetacular e o tempo só o melhorou. Dois, três, quatro anos após o seu lançamento e continuo a descobrir significados novos – mas não tantos como a autora desde excelente vídeo. Melodrama não se saiu grande coisa em termos comerciais, mas ganhou um culto de seguidores devotos, nos quais me incluo.

 

Por sua vez, Melodrama sucedia a Pure Heroine. Pessoalmente, gosto menos e compreendo menos este álbum, mas todos concordam que é também excelente e francamente revolucionário.

 

Ou seja, a fasquia está altíssima para Solar Power. Mais sobre isso adiante.

 

O primeiro single do álbum com o mesmo nome não se encaixaria nem em Pure Heroine e Melodrama. Dá para notar, no entanto, as impressões digitais de Lorde.

 

 

Uma das novidades é o facto de ser conduzida pela guitarra acústica. É apenas a segunda canção de Lorde conduzida por esse instrumento – a primeira foi The Louvre. Em entrevista ao The Guardian, Ella confessou que, durante os trabalhos de Pure Heroine, não achava as guitarras fixes. Eram demasiado “meio dos anos 2000” para o seu gosto, mais adequadas a serem cantadas à volta de uma fogueira, num acampamento.

 

Nisso não éramos parecidas.

 

Os acordes que guiam Solar Power nas estâncias têm um tom grave e contido – que se obtém quando se prende ligeiramente as cordas no braço na guitarra e só se toca as de alumínio. No refrão, as cordas de nylon soltam-se, emitindo um som mais luminoso.

 

Eu falo em refrão mas, para ser rigorosa, Solar Power não tem um refrão convencional. A melodia é semelhante, mas a letra é diferente. Depois do segundo refrão, a música explode para um som ainda mais luminoso, mesmo tropical, que se adequa à letra. 

 

Muitos têm-na comparado a Freedom, de George Michael. Eu concordo que é parecida, mas não tanto como algumas pessoas parecem achar. Pelo menos não ao ponto de ter pensado que era um “sample”. De qualquer forma, os herdeiros do falecido cantor já deram a benção a Lorde e a Solar Power.

 

Em termos de vocais, Lorde não faz nada de extraordinário, mas canta com a sua típica cadência, com o seu típico tom grave. Por outro lado, temos Clairo e Phoebe Bridgers nos backvocals – faz-me lembrar Roses/Violet/Lotus/Iris, nesse aspeto. 

 

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Tirando algumas particularidades de que vamos falar de seguida, Solar Power é uma música de verão pura e dura – o que pode ser interpretado como um passo atrás, depois da maneira como Lorde explorou a dicotomia verão/inverno, calor/frio em Melodrama. Segundo Ella, Solar Power é sobre a “energia namoradeira” que surge quando o tempo aquece e as roupas se reduzem.

 

Nada de muito original aqui. É basicamente o conceito das temporadas de verão dos Morangos com Açúcar.

 

E na verdade, este é um dos casos em que aquilo que o artista diz sobre a música não bate muito certo com o que a música parece dizer. Existem poucas referências a romance ou sexualidade em Solar Power: só mesmo em “my boy behind me, he’s taking pictures” e “are you coming, my baby?” e mesmo assim.

 

A letra é menos Morangos com Açúcar e mais Eu Gosto é do Verão (se bem que menos tola, no bom sentido). Está cheia de frases pedindo para serem transformadas em legendas do Instagram ou do Tik Tok (algo que tenciono fazer com fotos da minha cadela na praia). Solar Power fala sobre encontrar… bem, os seus sítios perfeitos na praia e sentir as mágoas e as preocupações derretendo com a luz do sol.

 

A narradora, aliás, assume-se um pouco como uma profeta, uma deusa solar ensinando ao povo as maravilhas do verão – “Lead the boys and girls onto the beaches. Come one, come all, I’ll tell you my secrets, I’m kinda like a prettier Jesus”. Suponho que a narradora seja a mesma personagem que Ella descreveu na carta de apresentação do álbum – mais sobre isso já a seguir.

 

O videoclipe explora bem essa ideia, mostrando Lorde na praia, líder de uma espécie de tribo ou seita, vestida de amarelo vivo – em contraste com os tons mais terra, mais discretos dos demais (tendo em conta que Ella sofre de sinestesia, esse pormenor foi cem por cento intencional, não duvidem). Lorde sempre representou esse papel de certa forma na sua música – mais a porta-voz da sua geração do que propriamente um guia, é certo. 

 

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Já que falamos do videoclipe, consta que este foi a introdução ao universo cinemático deste álbum. Se Melodrama decorria todo numa única noite, durante uma festa, Solar Power decorre numa praia – ou pelo menos os videoclipes. Lorde não revelou a praia exata onde decorreram as filmagens por motivos óbvios (e mesmo assim, acho que no Reddit já descobriram). Ella disse para imaginarmos que decorre na nossa praia preferida.

 

Na Meia-Praia de Lagos, portanto. Naquela zona não concessionada, mais perto do pontão, com menos pessoas, onde a Jane pode correr à vontade. 

 

Têm circulado piadas na Internet sobre o facto de Solar Power ter começado com Lorde admitindo que “odeia o frio”, quando uma das poucas coisas que soubemos dela, nos últimos anos, foi a sua viagem à Antártida. Eu acho que faz sentido – depois de tanto tempo num dos lugares mais frios do planeta, qualquer um sairia de lá sedento de calor e de verão. 

 

Em suma, Solar Power está longe de ser a melhor música de Lorde. Não sendo propriamente fútil, não tem grande profundidade e a mensagem não é muito original. Sobretudo se compararmos com Pure Heroine e Melodrama. Quem estava à espera de algo mais intenso e revolucionário, apanhou um balde de água fria. 

 

No entanto, mesmo no seu… não vou dizer “pior”, porque Solar Power não é uma música má, mas pronto, menos bom, Lorde continua acima da média. O tom descontraído sabe bem, sobretudo depois do último ano e meio – a própria Ella revelou que essa foi uma das razões pelas quais lançou a música nesta altura. 

 

Como vi na Internet, aliás, a única música alegre deste ano só podia vir da Nova Zelândia.

 

 

Consta que, de resto, apesar de não deixar de incluir algumas faixas mais sérias e introspectivas, Solar Power deverá ser um álbum no geral alegre e despreocupado. Pelo menos é essa a ideia com que fico. Isso agrada-me. Em parte por aquilo que referi sobre o último ano e meio, mas também porque dois dos álbuns que mais tenho ouvido nos últimos meses são o folklore e o evermore de Taylor Swift. Não me interpretem mal, são excelentes álbuns mas são emocionalmente desgastantes (ele é my tears ricochet, ele é seven, ele é august, ele é illicit affairs, ele é this is me trying, ele é ‘tis the damn season, ele é champagne problems, ele é marjorie…). Um álbum mais leve saber-me-á bem.

 

Este será também um trabalho mais focado na natureza – segundo Lorde, em momentos de “desgosto, luto, profundo amor ou confusão”, o mundo natural é o seu abrigo, é o seu sítio perfeito (não se limita à praia). O heterónimo dela neste ciclo será a personagem que ela descreveu na apresentação do álbum: uma mulher “sexy, brincalhona, selvagem e livre”, com múltiplos amantes, ligada à terra e ao passado, mas ao mesmo tempo moderna e de olhos no futuro.

 

Uma vez mais, nada disto é inédito ou particularmente original. Nos últimos anos estes movimentos de regresso à natureza têm estado na moda. Veja-se, lá está, folklore e evermore, por exemplo, bem como a estética cottage core, mesmo Petals For Armor até certo ponto. O heterónimo de Lorde que descrevi acima, aliás, lembra-me a Mulher Selvagem de Mulheres que Correm com os Lobos. 

 

Tudo isto faz sentido como resposta ao mundo atual: cada vez mais tecnológico e, claro, com uma pandemia. Solar Power, aliás, fala mesmo em atirar o telemóvel para a água – e Lorde já veio avisar que não vai voltar para as redes sociais. 

 

Como li algures – ironicamente na Internet – há dez anos vínhamos para as internetes para fugir ao mundo real. Agora fugimos para o mundo real para escapar às internetes.

 

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Solar Power sai então a 20 de agosto – um tudo nada demasiado perto do fim do verão para o meu gosto, se é um álbum estival. Bem, eu este ano também não vou ter férias de verão, só posso desfrutar da época ao fim-de-semana, por isso…

 

Fica para o ano. 

 

Estou a fazer por não elevar demasiado as minhas expectativas para este álbum. É muito difícil que Solar Power seja melhor que Melodrama ou Pure Heroine. Consta que esse terá sido um dos motivos para Ella ter demorado tanto tempo a cozinhar este trabalho. Eu pelo menos não levarei a mal se não conseguir atingir o mesmo nível estratosférico – parecendo que não, a miúda é humana!

 

Dito isto, continua a ser Lorde. Não baixo assim tanto a fasquia. 

 

É possível que Ella lance outro single antes de 20 de agosto. Há rumores de que Stoned at the Nail Salon poderá sair nos próximos dias. Deveria ter esperado? Deveria ter escrito sobre as duas músicas no mesmo texto? Talvez, mas não me apeteceu ficar à espera: o blogue já estava parado há muito tempo. Além disso, aqui o estaminé faz nove anos hoje, queria assinalá-lo com um texto novo.

 

Logo vejo se escrevo sobre Stoned at the Nail Salon ou sobre qualquer outro single que venha a ser lançado antes do álbum. Em princípio não o farei: quero começar a trabalhar noutros projetos e escrever sobre outras coisas no próximo texto deste blogue. Posso desde já adiantar que este será um texto de Músicas Ao Calhas sobre uma personagem recorrente aqui no estaminé. Não quero ter pressa com este (já tenho stress que chegue noutras áreas da minha vida), mas não devo demorar muito. 

 

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Um brinde rápido a este blogue, um dos orgulhos da minha vida – e um agradecimento a todos os que o têm visitado. Encerro este texto com uma pequena playlist baseada em Solar Power – que poderá vir a crescer com o tempo. Agora que acabaram de ler, se tiverem possibilidades para isso, ide aproveitar o sol... mas não se esqueçam do protetor solar!

 

Lorde - Melodrama (2017)

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A cantora neozelandesa Ella Yelich-O’Connor, mais conhecida por Lorde, lançou o seu segundo de estúdio, Melodrama, no passado dia 16 de junho. Se acompanham o meu blogue, saberão que só no ano passado é que ouvi o seu primeiro álbum, Pure Heroine – no entanto, cativou-me logo. Quando se soube que vinha aí Melodrama, fiquei, naturalmente, interessada – sobretudo depois de ouvirmos Green Light e Liability. Pure Heroine é um álbum excelente a todos os níveis, sem falhas significativas. Será que Melodrama consegue atingir a fasquia deixada pelo seu antecessor?

 

Bem, sim. Lorde tem apenas vinte anos de idade, mas já conseguiu a proeza de ter dois álbuns excelentes no seu currículo. A miúda não é deste planeta!

 

É muito difícil dizer qual dos dois álbuns é o melhor. No entanto, uma das coisas que prefiro em Melodrama é a instrumentação. Pure Heroine caracteriza-se pela produção minimalista. As músicas são conduzidas pela voz, só com batidas e um ou outro instrumento ou sintetizador, tudo muito discreto.

 

Não estou a dizer que isso seja defeito ou que as músicas pedissem mais instrumentos – pelo contrário, faz parte do carácter do álbum. Eu, no entanto, sempre gostei de instrumentos em música. Como tal, fiquei feliz por instrumentos como, por exemplo, o piano (em várias canções), o clarinete (em Sober), os violinos (em Sober II/Melodrama e Writer in the Dark), participarem em Melodrama – e de forma inteligente, como veremos a seguir.

 

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Tínhamos comentado, a propósito de Green Light, que a narradora desta faixa parecia ser uma miúda embriagada, acabada de se separar, que sai à noite para esquecer o ex-namorado; que se esforça desesperadamente por se divertir e mostrar que está a seguir em frente, mas que sofre em silêncio. Na verdade, o mesmo parece acontecer com o resto de Melodrama. O álbum reflete as diferentes fases, as diferentes emoções, pelas quais uma pessoa passa enquanto recorre ao estilo de vida festeiro – sexo, álcool, drogas, as chamadas party-bangers – para ultrapassar uma separação. Lorde referiu mesmo, em entrevista, que todas as canções decorrem na mesma noite.

 

Ora, quem me conheça minimamente saberá que esse estilo de vida pouco ou nada me diz. Contam-se pelos dedos das mãos as vezes que fui a uma discoteca – das vezes que me diverti, foi por causa da companhia e não do ambiente. Se é para chegar trôpega a casa a altas horas da noite, prefiro que seja após um concerto ou festival de música.

 

Além disso, nunca fui grande fã de party bangers.

 

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No entanto, sei perfeitamente que muitos apreciam este estilo de vida – ou, pelo menos, passam por uma fase em que o apreciam. Aos dezanove/vinte anos, como a Lorde, às vezes antes, às vezes mais tarde. Como tal, não me vou armar em moralista nesta análise – até porque o álbum Melodrama acaba por desmistificar este estilo de vida, obriga-nos a olhar além do glamour, dos filtros do Instagram.

 

Uma das características de Melodrama, aliás, é a auto-consciencialização: a noção de que nada daquilo é real e/ou duradouro. Nem a festa, nem os romances mais ou menos sérios. É tudo melodrama: um exagero, mesmo uma paródia da realidade.

 

Falemos, então, das canções em si. Green Light funciona bem como introdução a Melodrama. Na tracklist seguem-se duas músicas que se centram no ponto alto da festa. Das duas, a minha preferida é Sober.

 

 

Esta, de início, segue o estilo típico de Lorde, com batidas e instrumentação mínima. Ressaltar a repetição de “Night, midnight, lose my mind”, marcando o ritmo. Quando chega o refrão, a partir do meio, os versos são pontuados por notas de clarinete (ou de corneta? Não sei, é um instrumento de sopro de metal) – um dos exemplos da instrumentação inteligente em Melodrama.

 

Faz-me desejar, aliás, que tivéssemos mais clarinetes ou instrumentos do género na música pop.

 

A letra de Sober parece falar sobre um caso de uma noite só – ou, pelo menos, um caso que se limita à parte física, à euforia. A narradora compara-o a um delírio febril, ao efeito de uma droga. Na verdade, é dado a entender que a outra parte parece mais investida na relação que a narradora – que, por sua vez, parece ter perfeita noção de que aquilo não sobreviverá à ressaca: “But what will we do when we’re sober?”.

 

Essa pergunta será, aliás, respondida mais à frente no álbum. Antes, temos Homemade Dynamite. Esta é a música de que menos gosto em Melodrama. Não que seja uma música má – este álbum, ou melhor, Lorde não tem músicas más – ou mesmo que não goste de todo. Apenas não a acho tão interessante como o resto de Melodrama.

 

 

Segundo terá dito a própria Lorde, Homemade Dynamite marca, essencialmente, o momento na festa em que as drogas começam a fazer efeito. Em termos de letra e tema, acaba por não ser muito diferente de Sober, visto que até fala de um possível caso de uma noite só. Musicalmente, não difere muito da típica sonoridade de Lorde, embora com um ritmo mais dançante. Consta que deverá ser single a certa altura. Não é de surpreender – composta com Tove Lo, Homemade Dynamite é a mais parecida em Melodrama com a típica party banger.

 

No entanto, preferia Sober como single. Ou então Supercut.

 

The Louvre é o mais parecido que temos em Melodrama com uma canção de amor. A letra supostamente descreve a relação de Lorde com o, agora, ex-namorado. Ao contrário de uma típica canção de amor, a descrição que esta faz do romance não é propriamente idílica: temos referências a ilusão, obsessão, vício, mesmo estupidificação. A narradora admite mesmo que negligencia os amigos a favor do amante. Ao mesmo tempo, descreve aquela fase em que o casal se considera superior aos simples mortais, dignos de figurar no Louvre (na parte de trás, mas o Louvre é o Louvre). Amam, assim, perdidamente e dizem-no cantando a toda a gente (“Broadcast the boom boom boom boom and make’em all dance to it”).

 

Musicalmente, The Louvre é conduzida por acordes de guitarra graves e discretos, aos quais vão sendo acrescentados elementos deliciosos aqui e ali: como as batidas no refrão e as notas de guitarra elétrica (ou órgão? Não consigo perceber ao certo…) no fim.

 

  

 

No entanto, Melodrama também mostra o lado menos bonito, tanto das festas como dos romances. Sober II (Melodrama) é uma das minhas músicas preferidas neste álbum e também uma das mais interessantes. Funciona bem como sequela a Sober pois as melodias são parecidas e a letra responde à pergunta deixada pela prequela: o que acontece depois das drogas. Naturalmente, em Sober II (Melodrama) temos referências a arrependimento, censura, consequências inesperadas – gosto particularmente dos versos “They’ll talk about us and discover how we kissed and killed each other”. Repete-se muito a frase “We told you this was melodrama” – não foi falta de aviso, eles sabiam no que se estavam a meter.

 

A instrumentação nesta música é perfeita. A abertura com os violinos frios, dolorosos, implacáveis, evocam na perfeição as dores de cabeça e fotofobia típicas de uma manhã de ressaca. Não será por acaso que a música quase homónima da P!nk, Sober, usa violinos de maneira semelhante, sobretudo no final da faixa.

 

Passemos, então, às chamadas break up songs, para além de Green Light. Uma delas é uma faixa com duas partes: Hard Feelings/Loveless. Em termos de sonoridade, não divergem muito do estilo habitual de Lorde. A primeira parte é lenta, suave, conduzida por batidas leves e um sintetizador discreto, que se vão tornando mais intensos. A segunda parte, por sua vez, é bem mais dançante, conduzida por batidas, com notas de piano apimentando os vocais.

 

Em termos de letra, Hard Feelings parece começar no rescaldo imediato da separação, num momento de grande vulnerabilidade, em que a ferida é ainda recente. Lorde referiu mesmo que esta música é a calma após a grande discussão, a grande separação. Em consonância com o tema geral do álbum, temos referências a ressaca, a pós-melodrama.

 

  

Há uma ideia de passagem do tempo à medida que a canção decorre. Na segunda estância, assim, a narradora procura manter-se ocupada, aprender a estar sem o ex-namorado. A dor permanece, mas a narradora está determinada a esquecê-lo, a ultrapassar a separação.

 

É tão eficaz, na verdade, que a segunda parte da canção, L.O.V.E.L.E.S.S. é a completa antítese de Hard Feelings. Aqui temos uma Lorde em modo vingativo, anti-romântico, troçando abertamente do ex-namorado e do amor em geral. Lorde chama mesmo ao seu grupo “A geração sem amor”, que gozam com os respetivos amantes (ela descreve-o de forma mais colorida…). Nesse aspeto, a versão do vídeo acima, que ela filmou com um grupo coral e uma boombox à anos 90, faz todo o sentido.

 

E é muito fixe!

 

  

Writer in the Dark, por sua vez, é uma balada de piano, à semelhança de Liability, acompanhada por violinos no refrão e no final da música. Não posso deixar de assinalar os vocais agudos de Lorde, no refrão: meu. Deus. Como é que ela faz aquilo?

 

Em termos de tema, Writer in the Dark é muito parecida com Hard Feelings: ambas exprimem amargura e ressentimento pela separação e, ao mesmo tempo, manifesta o desejo de seguir em frente com a sua vida. Assumindo que a letra é verídica, descobrimos que o ex-namorado não era homem suficiente para aceitar o sucesso de Lorde. Esta, assim, sentiu-se obrigada a diminuir-se, a tirar pedaços de si mesma, para não ferir o orgulho dele.

 

Não nego que o facto de a música ter “escritora” no título me agrada particularmente. No entanto, neste contexto, acho que significa mais “artista” do que outra coisa qualquer. Alguém que, se calhar, sente as coisas com demasiada intensidade e que imortaliza as suas emoções na sua arte.

 

  

Consta que Supercut é uma favorita entre os fãs. Não é difícil perceber porquê. Musicalmente, é como se Green Light e Ribs se juntassem e tivessem um filho: riffs de piano parecidos com os da primeira, batidas parecidas com as da segunda, o ritmo dançante de ambas.

 

O termo “Supercut” refere-se a uma montagem de vídeos que, geralmente, se focam num elemento único – tipo isto. É isto que passa na mente da narradora: um greatest hits da relação que terminou, sem as partes menos boas, em constante repetição. O verso “In my head I do everything right” soa-me particularmente triste – é muita mágoa e arrependimento numa única frase.

 

Gostava de chamar a atenção para o verso “In your car, the radio up”. É um tema recorrente que Lorde e Avril Lavigne têm em comum: no carro com os interesses românticos. No caso da Avril, o exemplo mais flagrante é Complicated: “I like you the way you are, when we’re driving in your car”. Carros voltam a aparecer, em contexto semelhante, no quinto álbum, com as músicas 17 (“My favorite place was sitting in his car”) e You Ain’t Seen Nothin’ Yet (“Your car, I’m sitting right beside you”).

 

É possível, no entanto, que estas sejam referências propositadas a Complicated.

 

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Por sua vez, Lorde já explorara esse tema em 400 Lux. Em Melodrama, para além de Supercut, Green Light aborda-o de passagem (ao falar do “carro de outro”) e, em Hard Feelings, serve de metáfora à relação que tem os dias contados.

 

Já falámos sobre Liability antes. Ouvindo-a no contexto do resto do álbum, encaixa-se bem no contexto de Melodrama. Existem, mesmo, várias interpretações possíveis que se encaixariam. Para além de poder referir-se à relação que terminou, poderia referir-se a alguém que não gostou da festa e culpa a narradora por o(a) ter arrastado para a mesma. Ou então o contrário: alguém que se aproveitou do espírito festeiro da narradora e a descartou na manhã seguinte, depois de obter o que queria.

 

Liability tem, no entanto, uma reprise, mais à frente em Melodrama. Não sei ao certo qual é a diferença entre uma reprise e uma sequela ou segunda parte. Esta, no entanto, parece funcionar como uma correção à música original. Ao contrário de Liability propriamente dita, que é uma balada de piano, Liability (Reprise) aproxima-se mais do som habitual de Lorde, ao limitar-se a batida e vocais.

 

  

Na letra, a narradora percebe que ela não é um risco, não é o problema, nem no que toca a relação que terminou nem no que toca à desta. Começa, aliás, a aperceber-se nos efeitos nocivos deste estilo de vida. Que a rapariga embriagada na festa, tentando esquecer o namorado, não é a sua verdadeira identidade. Que aquilo é tudo melodrama, como referimos acima: não é real.

 

E assim se abre caminho para o epílogo do álbum: Perfect Places.

 

Esta é a minha música preferida em Melodrama e talvez mesmo em 2017, até agora. Em termos de sonoridade, de início, não difere muito do estilo habitual de Lorde, com a batida e o sintetizador discreto. Entretanto, ouvem-se algumas notas de piano, o sintetizador ganha intensidade. Por fim, Lorde faz “tch-tch”, como quem engatilha uma arma ou ativa uma bomba, e a música explode com um dos melhores refrões dos últimos anos – um híbrido do refrão de Team com Midnight City, dos M83, com notas de piano e sintetizadores à anos 80.

 

  

A letra de Perfect Places faz um resumo dos temas recorrentes em Melodrama e ainda acrescenta coisas. Vemos a narradora recorrendo às festas como escapismo: não apenas no que toca à separação, esmiuçada no resto do álbum, mas também à atualidade, ao clima, ao desaparecimento de heróis, ao controlo excessivo por parte dos demais. A própria Lorde admitiu que era esse o caso para si e para os amigos, sobretudo durante o verão do ano passado – que procurava uma fuga à realidade, que tinha medo de estar a sós com os seus pensamentos (“Now I can’t stand to be alone”).

 

Este verão tenho percebido um pouco de que Lorde fala em Perfect Places. O verso “I hate the headlines and the weather”, por exemplo, faz-me pensar na tragédia dos incêndios. E o verso “All of our heroes fading”, que Lorde admitiu referir-se às mortes de David Bowie e Prince, no ano passado, faz-me pensar no Chester.

 

Por outro lado, a perda de ídolos, a humanização das pessoas e instituições que venerávamos em miúdos, é uma das etapas do crescimento. Eu, pelo menos, passei por uma fase assim quando tinha aproximadamente a idade da Lorde.

 

Posso não me identificar com o estilo de vida descrito em Melodrama, mas identifico-me definitivamente com o desejo de um escape, a procura de um sentido, de algo que transcenda a realidade. Mas procuro esses sítios perfeitos noutros lugares: na praia onde passo férias desde miúda, num concerto, num jogo da Seleção, num encontro do Pokémon Go ou do Odaiba Memorial Day ou, pura e simplesmente, numa jantarada com familiares e/ou amigos.

 

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Curiosamente, no outro dia, o modo aleatório do Spotify tocou Innocence, de Avril Lavigne, a seguir a Perfect Places. E, de facto, parece que Lorde estava à procura daquilo que Avril encontrou em Innocence.

 

Perfect Places, de resto, faz-me lembrar I Still Haven’t found What I’m Looking For, dos U2, e See the Light, dos Green Day. Não só por funcionar bem como um epílogo para Melodrama, mas também por transmitir aquela sensação agridoce de quem está à espera e/ou à procura de uma resposta. Ao longo de Melodrama, Lorde procurou-a numa pista de dança, no fundo de um copo, numa droga qualquer, nos braços de um estranho. Até perceber, em Perfect Places, que a resposta não está ali.

 

Onde a procurará a seguir? Descobriremos no próximo álbum, suponho eu.

 

Melodrama é prova de que é possível fazer música pop, música de festa/party bangers que não seja vazia de sentido ou de qualidade duvidosa. Não que isso seja de surpreender: Pure Heroine já tinha provado mais ou menos o mesmo. Lorde, pura e simplesmente, joga num campeonato diferente em relação aos simples mortais, não há comparação possível.

 

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Gostava que Melodrama estivesse a ter mais rotação, no entanto. Ainda não ouvi nem Green Light nem Perfect Places nas rádios portuguesas. Também não me parece que, lá por fora, Melodrama esteja a ter o mesmo impacto que Pure Heroine teve, na altura (posso estar enganada). Acho que será uma questão de tempo, contudo.

 

Quanto a mim, gosto imenso de Melodrama. Acho que vou passar muito tempo, ainda, a decifrar estas canções – tal como ainda acontece com Pure Heroine. Talvez até escreva uma análise ao primeiro álbum de Lorde – não para lá, antes a médio/longo prazo.

 

Apesar de reconhecer que Ella é uma excelente cantora e compositora, ainda não tenho um vínculo emocional com ela como os que tenho com outros artistas de quem gosto. Mas também isso é uma questão de tempo – sobretudo se ela vier em digressão a Portugal, em breve.

 

Quanto a nós, vou fazer uma pausa nos textos sobre música aqui no blogue. A única exceção será quando Bryan Adams lançar duas músicas novas no outono, juntamente com um álbum Best Of, tal como anunciou aqui (pensava que já ninguém lançava álbuns Best Of...). Tenciono escrever sobre Once Upon a Time a seguir – mas deverá ser um texto mais curto que o último. Até lá...

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