Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Pokémon: Detetive Pikachu (2019)

4d6f8eac1efc327b9d1158f27dfae871.jpg

 

Não estava nos meus planos escrever um texto sobre o filme Detetive Pikachu. Ou melhor, sobre este filme. A minha ideia era deixar algumas impressões sobre ele no meu balanço musical de 2019, a propósito de Carry On e Holding Out for a Hero. As frases, no entanto, transformaram-se em parágrafos, os parágrafos em páginas do meu caderno, fazendo um grande desvio ao assunto do texto. Era evidente que tinha muito a dizer sobre este filme. Fazia mais sentido dedicar-lhe a sua própria publicação, que as pessoas pudessem encontrar com maior ou menos facilidade pesquisando no Google, em vez que enterrá-lo no meio de outro texto.

 

Escolhi publicá-lo hoje, que se assinala o vigésimo-quarto aniversário de Pokémon enquanto franquia (tenho vindo a celebrar estes aniversários desde o inesquecível vigésimo, em 2016). Parece-me adequado dedicar uma publicação à melhor coisa que, a meu ver, aconteceu no último ano (talvez esperassem que eu referisse Sword&Shield, mas os jogos têm estado envolvidos em tanta polémica, começando desde uns meses antes do seu lançamento e continuando até hoje, que me têm alienado da comunidade de fãs). 

 

Um alerta importante: este texto está cheio de spoilers. Leiam-no por vossa conta e risco. Assim, sem mais delongas…

 

À semelhança do que aconteceu com Pokémon Go, um filme live-action era algo que eu sempre desejei, mas só o descobri quando saiu o primeiro trailer. Não vou dizer que nunca tenha pensado nisso… mas nunca o encarei como uma ideia viável. 

 

Em parte porque, tradicionalmente, filmes baseados em videojogos não prestam. Mesmo os baseados em anime não costumam ser grande coisa, tanto quanto sei.  Por exemplo, tanto quanto me lembro, ninguém gostou do filme baseado no Dragon Ball há coisa de dez anos. Também ninguém gostou da adaptação de Death Note do Netflix. 

 

24ebfdcbf89b002d226c3a2cd096a074.jpg

 

Por fim, quando víamos na Internet imagens “realistas” de Pokémon, era quase tudo monstruosidades (veja-se a imagem acima). Não havia nada do charme dos desenhos no anime e dos jogos (bem, tirando os da primeira geração).

 

Tudo mudou quando vi o primeiro trailer. Confesso que demorei um bocadinho a habituar-me a estes Pokémon mais “realistas”. À semelhança da maior parte das pessoas, suponho eu – ninguém se tinha apercebido antes que os Pokémon tinham tanto… pêlo. Suponho que faça sentido, no entanto. Mas depois de nos habituarmos, a maior parte dos modelos são bons. Alguns melhores do que outros, claro, mas no geral acho que conseguiram combinar os aspetos mais realistas dos Pokémon (um dos colaboradores foi precisamente o autor das tais fanarts realistas que circulavam pela Internet) com os aspetos mais apelativos dos bonecos que tão bem conhecemos. 

 

À medida que o tempo passava e mais trailers iam saindo, o meu entusiasmo crescia. No entanto, tentava ser cautelosa, mantendo as minhas expectativas no mínimo. Pela parte que me tocava, Detetive Pikachu não precisava de ser um filme extraordinário (e não o é). Só precisava de ser um típico filme de Hollywood… mas com Pokémon. Só precisava de não ser uma porcaria.

 

E o filme não é uma porcaria, longe disso. Foi uma jogada inteligente terem baseado o filme num spin-off menos conhecido, em vez de basearem nos jogos principais ou no anime. Na minha opinião, criarem uma típica história de um treinador de Pokémon não traria nada de novo aos fãs da franquia e poderia ser alienante para as pessoas de fora. 

 

Em vez disso, Detetive Pikachu colhe inspirações em filmes de detetives noir. É mais sombrio que o anime e que a maior parte dos jogos, mas acho que não ao ponto de traumatizar criancinhas. Eu pelo menos há anos que desejava uma história em Pokémon que não tivesse o tom paternalista e ultra-infantil do anime.

 

(Talvez devesse ler Pokémon Adventures…)

 

maxresdefault (2).jpg

 

Algo de que só me apercebi há relativamente pouco tempo diz respeito às semelhanças entre Detetive Pikachu e Zootopia (um filme de que gosto muito). Em primeiro lugar, centra-se numa cidade aparentemente utópica, onde em teoria criaturas fofinhas podem viver em paz. Na prática é uma fachada. Durante o decurso do filme a máscara acaba por cair mas, no fim, o elenco compromete-se a honrar o espírito da cidade. 

 

Em segundo, ambos são filmes de detetives/”buddy cops”. Um dos protagonistas nasceu numa terra pequena e vem de comboio para a tal cidade. Um dos protagonistas é um cínico, que em criança até tinha crenças que coadunavam mais ou menos com o espírito da cidade, mas a vida encarregou-se de destruí-las (o flashback da infância de Nick ainda hoje me parte o coração). 

 

O enredo centra-se no desaparecimento de um pai. Um dos elementos importantes do caso é uma substância que desperta os instintos selvagens e violentos das tais criaturas fofinhas. Existe um primeiro falso vilão mas, no fim, descobre-se que o verdadeiro vilão é uma figura de autoridade que os protagonistas consideravam um aliado.

 

Para ser sincera, a história é capaz de ser o aspeto mais fraquinho do fime. Pelo menos a parte relacionada com o vilão. Que o Presidente Howard Clifford quisesse transportar-se para o corpo do Mewtwo até faz sentido – quem nunca? Mas qual é a vantagem de obrigar o resto do povo a fazer o mesmo com os seus Pokémon? Não se percebe.

 

A força do filme está nos outros aspetos. O Detetive Pikachu em si é irresístivel: uma versão do Deadpool adequada a menores de 16, com toda a fofura que sempre caracterizou a mascote, captada na perfeição pelo filme. Justice Smith fez um bom trabalho dando vida a todas as facetas de Tim – e para nós, fãs, é bom saber que o ator gosta de Pokémon, à semelhança de Kathryn Newton, que dá vida a Lucy.

 

 

Esta, aliás, é adorável e merecia mais tempo de antena. Tem um par de cenas, como a acima, em que se esforça, de forma hilariante, por passar a imagem de jornalista intrépida. No entanto, na segunda metade do filme, tirando um momento ou outro, existe apenas para dar apoio a Tim.

 

Outra das falhas do filme, aliás, é ter pouquíssimas personagens femininas. Mal passa o teste de Bechdel. O que é uma pena quando Pokémon sempre fez por apelar tanto a rapazes como a raparigas. 

 

Outro ponto forte do filme, talvez a maior força do mesmo, é o respeito, mesmo o carinho com que trata a franquia. Um fã de Pokémon encontrará inúmeras referências e pormenores fantásticos – basta pesquisarem “Detective Pikachu Easter Eggs” no Google ou no YouTube para saberem do que estou a falar. 

 

Por outro lado, o filme não mostra demasiada reverência para com a franquia. Pelo contrário, Detetive Pikachu teve imaginação para explorar lados menos convencionais de Pokémon que conhecemos tão bem (não sei se isso veio do jogo Detetive Pikachu ou se dos próprios guionistas do filme). Um exemplo disso é o que fizeram com o Mr. Mime – que, segundo o que consta, esteve muito perto de não aparecer em Detetive Pikachu. 

 

Mr. Mime é um Pokémon com uma reputação… estranha na comunidade de fãs. Há muita gente que não se sente muito à vontade com Pokémon humanóides. Somando isso a doses variáveis de coulrofobia e não admira que Mr. Mime tenha fama de palhaço assustador. (E depois há toda aquela teoria de que Mr. Mime seria o pai de Ash. O que é estúpido. A mãe dele só conheceu o seu Mr. Mime no episódio 64 do anime, já Ash tinha pelo menos dez anos. Este pessoal nunca estudou Biologia?)

 

 

Eu nunca adorei o Mr. Mime, mas nunca o achei assim tão desconcertante. Não quando temos o Drowzee e o Hypno na mesma geração. Mas compreendo que algumas pessoas adorem odiá-lo.

 

Consta que, de início, a Pokémon Company não estava muito entusiasmada com a ideia de um Mr. Mime “realista” – porque, lá está, o resultado final poderia causar pesadelos. O realizador Rob Letterman teve de pedir autorização diretamente a Tsunekazu Ishihara, o presidente atual da empresa, para que o Pokémon aparecesse no filme.

 

Felizmente acabaram por aceitar. Ainda bem. Não sei como foi com vocês, mas a cena do interrogatório ao Mr. Mime fez-me gostar mais do Pokémon. Mantiveram as características desconcertantes, mas carregaram na parte de palhaço mimo. O resultado final foi uma das cenas mais engraçadas de todo Detetive Pikachu.

 

De mãos dadas com o carinho pela franquia está o facto de o filme ter coração e não se envergonhar disso (estou a olhar para ti, primeira metade de Bokura No Mirai!). Falo sobretudo na jornada emocional de Tim para fazer as pazes com o seu pai. 

c9f2e881e45852d76dfa36756e86bb86a3e3d132.jpg

 

O que me leva à grande reviravolta e fonte de confusão do filme: o facto de a personalidade do Detetive Pikachu ser na verdade um híbrido das mentes de Harry e do seu Pikachu. Eu sinto-me dividida em relação a este desenvolvimento. Por um lado, faz algum sentido. E é certamente comovente, à sua maneira, que o pai de Tim tenha estado lá desde o início. 

 

Por outro lado… é esquisito. É muito esquisito.

 

A pergunta que se coloca é com é que Tim não reconheceu a voz do pai saindo do Pikachu. Eu até consigo arranjar uma explicação, mais ou menos. No anime sempre existiram Pokémon com a habilidade de falar telepaticamente com humanos. Muitas vezes era explicado com “poderes psíquicos” (ex: Mewtwo) ou com aura (ex: Lucario). Talvez Tim soubesse disso e pensasse que o seu subconsciente estava a associar o seu pai com o seu Pikachu. Afinal de contas, ele de início pensou que a voz do Detetive Pikachu era uma alucinação.

 

Enfim, é só uma teoria, um bocadinho rebuscada. Na prática, se Tim tivesse perguntado logo desde início porque é que o Detetive Pikachu estava a falar com a voz do pai, a audiência adivinhava logo o twist final. 

 

O maior problema deste twist é que, agora, será quase impossível fazerem uma sequela com o Detetive Pikachu. Segundo o que percebi (e posso estar enganada), a personalidade do Detetive Pikachu era um híbrido das personalidades de Harry e do seu Pikachu, juntamente com amnésia. Depois de conhecermos a verdade, não dá para voltar atrás.

 

pikachu1.jpg

 

Mesmo que, por um motivo ou outro (e não consigo pensar em nenhum motivo plausível), a mente de Harry fosse de novo inserida no corpo do Pikachu, com amnésia e tudo, Tim saberia a verdade e as interações entre ambos seriam completamente diferentes. Mesmo que Tim também fosse afetado por amnésia ou a história envolvesse personagens que não soubessem a verdade… a audiência saberia. Não seria a mesma coisa. 

 

É por este motivo que me sinto dividida com este twist de Harry ter estado desde o início no corpo do Detetive Pikachu. Por esse motivo e porque, na minha opinião, tira um bocadinho de piada à personagem. 

 

Um dos atrativos da língua atrevida do Detetive Pikachu era o facto de ser um Pokémon, um Pikachu – uma figura adorável, símbolo de uma franquia, herói das nossas infâncias – metendo-se com Tim por causa da sua tentativa falhada de namoriscar com Lucy. saber que, afinal, existia uma mente humana pelo menos em parte por detrás daquelas palavras tira algum impacto. 

 

Acho que a jornada emocional do filme também poderia ter resultado se o Detetive Pikachu fosse apenas o companheiro Pokémon de Harry. Pai e filho fazendo as pazes através do Pikachu do primeiro… Até porque exploraria sobre o qual tenho tido curiosidade nos últimos anos: como é que um Pokémon reage quando o seu treinador/parceiro humano tem filhos. Ficam com ciúmes? Veem a criança como um irmão? Ou como uma espécie de sobrinho ou irmão mais novo que ajudam a criar?

 

Ainda assim, não tenho razões de queixas da forma como o filme explora a relação entre Tim e o seu pai. Uma das coisas de que me tenho vindo a aperceber nos últimos anos é que daddy ou mommy issues dão pano para mangas em termos de drama em ficção. Detetive Pikachu não foge à regra. 

 

 

O filme, aliás, traça um paralelismo curioso, ainda que algo forçado, entre a relação de Tim com Harry e a relação de Tim com os Pokémon em geral. O jovem sente que o pai o trocou pelos Pokémon – o que faria sentido se Harry o tivesse deixado para se tornar um treinador ou um líder de ginásio. Harry no entanto é detetive, o seu trabalho não parece assim tão relacionado com Pokémon – tirando o facto de exercer em Rhyme City, com a sua política menos convencional em relação às criaturas.

 

Pode ter mais a ver com o facto de a mãe ter morrido no dia em que, segundo o que o filme dá a entender, Tim iria receber o seu primeiro Pokémon. Não sei, podia ter sido explicado um bocadinho melhor.

 

A cena acima em que Tim e o Pikachu pensam que Harry morreu mesmo é uma das minhas preferidas em todo o filme. Tim arrependido por não ter vindo viver com o pai anos antes, quando este pediu. O Pikachu consolando-o com palavras que, sem sombra de dúvidas, vêm de Harry.

 

E, claro, a cena final já com Harry, em que Tim decide ficar em Rhyme City, em vez de regressar a casa. A atuação de Justice e sobretudo de Ryan transmitem as emoções do momento na perfeição. Tão pouco tempo depois de Deadpool, acho que ninguém estava à espera de ver Ryan Reynolds no papel de pai. 

 

É uma história bonita, de amor familiar e de perdão. Está longe de ser original, claro, mas foi bem executada, tornando este filme, como alguns têm dito nas internetes, “melhor do que tem direito a ser”. E como o próprio Ryan Reynolds disse, são temas universais, “wholesome”, que sabem bem de vez em quando nos dias conturbados de hoje.

 

 

Queria falar agora sobre aspetos mais secundários do filme de que gostei. Sei que vai contra o espírito de Rhyme City, mas eu gostei da cena na arena de combate. 

 

Que querem? Um dos maiores apelos de Pokémon para mim continuam a ser as batalhas. #Sorrynotsorry. Embora, claro, não tenha nada contra Rhyme City para os Pokémon e humanos que não gostem desta vertente.

 

Sebastian, que gere (?) esta arena e que dará a pista seguinte é o típico durão deste género de filmes, com os músculos, as tatuagens, o histórico de Internet questionável, mas depois salta para a arena quando sente que o seu Charizard corre perigo, chamando-lhe “my baby”. Preocupa-se muito com o seu “baby” mas usa-o em combates ilegais...  Gostei desse pormenor, dando alguma profundidade a uma personagem secundária, quando um guionista mais preguiçoso não teria ido além do estereótipo. 

 

De referir também que, apesar de, tanto quanto se sabe, Tim nunca ter chegado a ser treinador, ele não é nenhum ignorante no que toca a Pokémon. Os conselhos que dá ao Pikachu antes do combate com o Charizard são um exemplo disso – e é bonito quando, mais à frente no filme, o Pikachu recorda-se desses conselhos (já aí vamos).

 

Por outro lado, quando Sebastian liberta acidentalmente quantidades industriais do gás R, forma-se um caos com pormenores hilariantes. Começando com os Loudred tocando dubstep, acabando com o Pikachu evoluindo um Magikarp com um pontapé (pontos para a referência).

 

Por fim, a cara de “Oh crap!” do Charizard só por si valeu o preço dos dois bilhetes.

 

 

Outra parte muito bem sacada foi o jardim dos Torterra – os Torterra gigantescos que acabaram por se fundir (e confundir) com a paisagem. Detetive Pikachu levou as inspirações da tartaruga continental quase à letra e foi espetacular. O Torterra é um dos meus Pokémon preferidos de Sinnoh precisamente por causa desse conceito.

 

Apesar das minhas reservas em relação às motivações de Howard Clifford enquanto vilão, gostei da interpretação de Bill Nighy – que, segundo consta, tornou-se um fã de Pokémon ao entrar neste filme. Gostei também do papel do Mewtwo na história: dos paralelismos com o primeiro filme do anime e ainda mais do facto de não ser o vilão. 

 

Outro dos destaques do filme é o combate entre o Mewtwo-possuído-por-Howard e o Detetive Pikachu. Em particular o facto de o último ter usado o Volt Tackle – tanto por seguir o conselho de Tim como porque, dos ataques característicos do Pikachu, é o meu preferido, sobretudo no anime.

 

Queria deixar uma palavra rápida para a banda sonora do filme. Não sendo nada por aí além, gosto das notas eletrónicas em temas como este que me recordam a banda sonora dos jogos. E, claro, a deliciosa sequência dos créditos, com desenhos de Ken Sugimori de todo o elenco no estilo do anime e das artes oficiais dos jogos, com um remix do tema principal da franquia com o estilo da banda sonora do filme.

 

 

Valha-me Hélix, já não bastava o Ryan Reynolds cantando Gotta Catch’em All. Eles sabem exatamente como fazer-me comer da mão deles… 

 

Em suma, como podem calcular, gosto mesmo muito deste filme. Tanto quanto sei, a maior parte da comunidade de fãs também gostou. Agora que penso isso, é capaz de ter sido o último momento relativamente pacífico na comunidade. Cerca de um mês depois descobriu-se acerca da remoção da National Dex em Pokémon Sword&Shield e caiu Kanto e a Trindade… mas não quero falar sobre isso hoje. 

 

Detetive Pikachu foi o único filme até agora que vi duas vezes no cinema. Primeiro com pessoas do meu grupo de Raids de Pokémon Go, depois com a minha irmã e um amigo dela. E agora comprei-o no YouTube – em parte para poder escrever este texto, mas sobretudo porque quero apoiar este filme dentro das minhas possibilidades. Porque não quero que seja o único.

 

Pois é, já se falam em sequelas – ou pelo menos em outros filmes neste universo. Uma sequela direta com o próprio Detetive Pikachu será difícil, como vimos acima. Mas não faltam ideias.

 

O que se lê nas internetes é que existem planos para fazer um filme baseado na jornada de Red, em Pokémon Red e Blue… mas a ideia não me entusiasma. Afinal de contas, esta é uma história que já foi contada ad nauseaum, em dois remakes dos jogos da primeira geração (um deles há menos de dois anos) e em Pokémon Origins (de que não gosto por aí além). 

 

tumblr_prh9udjtEk1rn5t5xo1_1280.png

 

É certo que o mainstream ainda não conhece a história. Talvez o público até aprecie… mas eu não queria mesmo.

 

Não quando existem melhores ideias, na minha opinião. Outras histórias baseadas nos jogos: a história de N, por exemplo, ou Zinnia. Ou então, se quiserem continuar na onda dos filmes noir, podiam colocar Lucy como protagonista. Lucy investigando uma história para uma reportagem, acompanhada pelo seu Psyduck. Tim e Harry podiam aparecer, mas num papel mais secundário. Looker podia entrar na história!

 

Em alternativa, podiam pegar em qualquer outro conceito típico de Hollywood e desenvolvê-lo no universo de Pokémon. Um filme de espionagem, por exemplo, estilo Missão Impossível ou James Bond. Uma comédia romântica – centrada em dois treinadores rivais mas apaixonados. O próprio Ryan Reynolds deu uma excelente ideia numa entrevista: um filme tipo Indiana Jones. Não falta mitologia e Pokémon Lendários para servir de inspiração.

 

Há esperanças de que daqui nasça um universo cinemático inteiro. Talvez um dos poucos ainda não monopolizado pela Disney. E espero que ninguém os deixe deitar as garras a Pokémon. A acontecer, não será de um dia para o outro, demorará meia dúzia de anos… mas acho que valerá a pena esperar. 

 

Com tudo isto, se vos apetece celebrar o aniversário de Pokémon enquanto franquia, verem o filme Detetive Pikachu é uma boa forma de o fazerem. De resto, ficam votos de que Pokémon continue a crescer, a criar conteúdo de qualidade, que os Dexxers vão dar banho a um Skunktank arranjem formas mais produtivas de passar o seu tempo. A mais vinte e quatro anos!

Músicas Não Tão Ao Calhas – Simmer & Leave it Alone

tumblr_mzq1fyz67N1sbsafmo1_500.jpg

 

No passado dia 22 de Janeiro, Hayley Williams, vocalista dos Paramore, lançou Simmer, o primeiro single do seu projeto lateral a solo, o álbum Petals For Armor. Pouco mais de uma semana depois, no dia 30, lançou o segundo single Leave it Alone.

 

Simmer saiu exatamente sete anos depois do lançamento de Now, o primeiro single do álbum Self-titled, o quarto dos Paramore. Não sei se foi intencional ou se foi mera coincidência. Em todo o caso, à semelhança de muitos fãs, eu adorei o pormenor. 

 

No meu caso foi extra especial porque Now foi a primeira Música Não Tão Ao Calhas – uma rubrica deste blogue onde, como sabem, analisamos canções recém-lançadas dos artistas do meu nicho. Na maioria das vezes, são primeiros singles de álbuns novos. 

 

No caso de Hayley Williams, este é o terceiro primeiro single que analisamos nesta rubrica. Os primeiros dois – Now e Hard Times – foram assinados pela banda Paramore. Simmer é o primeiro sob do nome Hayley Williams. 

 

No entanto, mesmo quando integrada nos Paramore, é Hayley quem escreve as letras, inspirada pelas suas próprias experiências. Ao mesmo tempo, apesar de este ser oficialmente um projeto a solo, Taylor York, guitarrista e co-compositor dos Paramore, colaborou com Hayley em Petals For Armor. Não tenho a certeza absoluta de que Zac Farro, o baterista dos Paramore, também tenha colaborado neste projeto, mas é possível. 

 

Tendo tudo isto em conta, na minha mente, Petals For Armor faz parte do mesmo cânone que os álbuns da banda. São capítulos da mesma história. E não sei se isso acontece com outros fãs dos Paramore, mas a história contada na música deles acaba por ser um espelho da minha. Aprendo lições de vida com ela. Se isso acontece por projeções minhas ou porque, de facto, o nosso mundo não é assim tão grande e acabamos todos por passar mais ou menos pelo mesmo, não sei. Mas é o que sinto há anos. 

 

À semelhança do que aconteceu com Hard Times, antes de podermos falar sobre Simmer, temos de falar sobre... bem, como chegámos aqui. 

 

 

A era de After Laughter terminou em setembro de 2018. Desde essa altura, os Paramore poucos sinais de vida deram. A partir de certa altura, os fãs começaram a ficar impacientes, mas eu estava tranquila. No que toca a esta banda, “no news is good news”. Tudo o que não seja a perda de membros é bom. No caso de isso acontecer (algo que achava pouco provável, mas já me enganei antes a este respeito), eles avisavam-nos. 

 

Entretanto, que os deixassem desfrutar da paz e estabilidade que não tiveram durante muito tempo. Hayley em particular.

 

Conforme comentámos na altura, nos anos anteriores a After Laughter, a vocalista dos Paramore passou por… bem, vou voltar a usar o trocadilho, tempos difíceis. Tempos esses que coincidiram com o início da era. Com o passar do tempo depois do lançamento do álbum, o estado psicológico de Hayley melhoraria. No entanto, a jovem só teve oportunidade para trabalhar nos assuntos mal resolvidos que acumulara ao regressar a casa, depois de encerrar o ciclo de AL.

 

No verão de 2017, Hayley anunciou o divórcio de Chad Gilbert, dos New Found Glory. Durante muito tempo, a jovem não disse nada sobre esse assunto em particular, tirando uma pista ou outra. 

 

Não que tivesse a obrigação de fazê-lo, como é evidente. Se Hayley tivesse mantido o silêncio sobre o assunto até agora, estava no seu direito. 

 

No entanto, em março do ano passado, a jovem deu uma extensa entrevista à revista online L’Odet dando alguns pormenores. Nomeadamente que ignorou instintos e sinais de alerta praticamente desde o início da relação (que ainda durou quase uma década), que mesmo no dia do casamento se sentia mal no vestido de noiva, que nunca chegou a passar pelo período de lua-de-mel. 

 

linds23-088-1 (1).jpg

 

Ainda antes do anúncio da separação, quando Hayley revelou pela primeira vez que se fora abaixo depois de Jeremy ter saído da banda, eu já tinha achado estranho ela ter-se casado quando supostamente estava com sintomas de depressão. Por algum motivo se diz para não se tomar decisões importantes quando sentimos emoções fortes. Não me surpreendeu descobrir que Hayley se casou ignorando os seus instintos.

 

É uma entrevista muito interessante, recomendo. Hayley fala sobre coisas que, tanto quanto sei, nunca falara antes, pelo menos não desta forma. Sobre, por exemplo, crescer com pais divorciados – algo que eu, filha de um casal estável e feliz há mais de trinta anos, nunca tive de experienciar. 

 

A parte que mais me impressionou, pela negativa, foi quando Hayley descreveu os tempos imediatamente a seguir à separação – que coincidiram com o início do ciclo de After Laughter. Nesta altura, por motivos que não foram bem explicados, Hayley estava a viver numa casa infestada com… morcegos.

 

Morcegos! Fucking morcegos! E uma espécie de carraças de morcegos. Eu não queria acreditar, ainda não acredito. Eu preferia viver no meu carro. Valha-me Deus, eu quase preferia viver na rua!

 

Porque é que Taylor, Zac, Brian e as outras pessoas na vida de Hayley a deixaram viver assim? Sem lhe oferecerem um sofá em casa deles ou algo do género. É certo que só conheço a parte que Hayley contou da história. Quero assumir que, a certa altura, os outros tenham intervindo e tirado Hayley daquela casa – se a jovem não tiver decidido fazê-lo por si mesma. 

 

 

Agora vejo que este deve ter sido um dos maiores sintomas de depressão que Hayley manifestou, tanto quanto sei. Ninguém psicologicamente saudável vive numa casa com morcegos quando tem dinheiro para, no mínimo, contratar uma empresa para se livrar da infestação. Depois de falar disto, referir ideação suicida é quase redundante.

 

Ainda assim, não consigo deixar de pensar que estive perto de perder duas das minhas pessoas preferidas do mundo da música por suicídio. Perder Chester já foi difícil que chegue. Perder Hayley – que, ainda por cima, em Leave it Alone fala de brincar com uma forca – possivelmente no mesmo ano, da mesma forma, seria insuportável.

 

Além de que existem imensas pessoas que eu sei que nunca recuperariam – amigos próximos dela e também fãs. E com o histórico da banda nos anos anteriores... Não! Não de todo! Nem quero pensar mais nisso.

 

O que interessa é que Hayley sobreviveu e parece mais feliz, agora. Como referi antes, a jovem tem passado o último ano e meio lidando com as questões que a abateram no passado. Tem andado em acompanhamento psicológico intensivo e outros tratamentos, alguns convencionais, outros menos. Como por exemplo uma espécie de massagista craniosacral.

 

Foi durante uma sessão com ela que aconteceu algo especial. Citando a entrevista a L’Odet, “Tive uma visão de muitas flores nascendo do meu corpo. O meu lado cínico interpretou-o como ‘Bem, a única maneira de isso acontecer é se morreres, estiveres enterrada e alguém lá tiver colocado flores bonitas’”.

 

Uma pausa só para dizer… credo! Sonha com flores e isto é a primeira coisa que lhe vem à cabeça? Ela bem tinha avisado sobre a sua mente, em Rose Colored Boy… 

 

 

Enfim, continuando…

 

Mas depois este novo lado a que nunca tinha acedido apareceu, afastou-o e disse: ‘Não. Isto és tu. Isto é o agora. É o que está a acontecer agora e é à volta disto que tens estado a escavar neste último ano. Esta beleza e feminilidade e nova força que vai sair de ti.’ E escolhi agarrar-me a isso.

 

(...) Desde essa altura tenho colhido imensas flores para a minha casa. Mantenho-as junto a mim para me recordarem que estou a avançar para feminilidade e força e depois feminilidade e solidão o poder de ser auto-suficiente mas também de ser suave e aberta.”

 

Poucos dias após Hayley anunciar que ia embarcar num projeto, numa altura em que a expressão Petals For Armor andava a circular entre os fãs mas ainda não tivera confirmação oficial, calhou reler esta entrevista. Esta parte chamou-me a atenção. Seria daqui que viria o suposto nome do projeto lateral? 

 

Em entrevista à BBC, Hayley confirmou as origens do nome Petals For Armor, voltando a falar da mesma visão. “Apercebi-me naquele momento que havia muito a tentar crescer de dentro para fora de mim e que isso ia doer. E acho que, para mim, é uma espécie de filosofia de vida tentar ser suave num mundo mesmo mesmo duro. Sentir dor, sentir tudo, deixar tudo vir e deitar para fora algo que possa redimir de isso tudo, mesmo que de início seja feio.”

 

e00a1d7805c01c3647af615840b32ca2.640x795x1.jpg

 

“(...) Eu sentia que a melhor maneira de me proteger era ser vulnerável e aceitar sentir imensa dor certas vezes e sentir imensa alegria certas vezes. Enquanto me mantiver suave e aberta para deixar estas coisas entrar e sair de mim conseguirei sobreviver mais facilmente ao mundo, em vez de me manter dura e sempre de punhos em riste.”

 

Ora, quem tiver acompanhado o meu blogue nos últimos tempos há de notar algo de familiar neste discurso. Foi mais ou menos o mesmo que escrevi quando analisei Ruki, de Digimon Tamers, comparando-a com personagens de outras histórias, como Emma Swan e Temperance Brennan, também conhecida por Bones

 

Lembram-se da diferença entre ser-se forte e ser-se impermeável? Uma substância impermeável repele todo o tipo de agressões, sem se atingir por elas. Uma substância forte sofre agressões, mas não se deixa destruir por elas. Pessoas impermeáveis, que constroem muros à sua volta e se fecham às emoções até podem conseguir evitar o sofrimento a curto prazo. Mas esses muros também bloqueiam emoções boas, como amor e alegria. 

 

Também me recorda uma das melhores cenas de Anatomia de Grey – a única cena que redime o infame episódio duplo que se segue à morte de Derek. À semelhança do que Hayley admite fazer, Amelia passou toda a sua vida recalcando os seus sentimentos, muitas vezes com a ajuda de drogas. 

 

Nesta cena, Owen faz-lhe ver que ninguém consegue viver assim. A única maneira de sobreviver é permitirmo-nos sentir a dor para depois arrumá-la a um canto; sermos destruídos e reconstruirmo-nos de novo. 

 

 

Para Amelia, como dá para ver no vídeo, de início foi feio, tal como Hayley disse. Feio, doloroso, mas necessário. 

 

Suponho que tenha sido mais ou menos essa a lição que Hayley aprendeu. A ser forte em vez de impermeável. A proteger-se com pétalas em vez de punhos. A jovem admite que tem a tendência de recalcar as suas emoções, de negar o que está a sentir. Se calhar, se estivesse mais em contacto com os seus sentimentos, não se teria casado e teria evitado muito sofrimento.

 

Pode-se argumentar que After Laughter enquanto álbum defende a filosofia de negar sentimentos. Canções como Rose Colored Boy e Fake Happy falam sobre colar sorrisos no rosto, escondendo a infelicidade que se sente. Mesmo o facto de a maior parte das canções ter instrumentais e melodias alegres e letras deprimentes. 

 

Então Hayley começou a lidar mais ativamente com as suas emoções. Como uma das melhores maneiras que ela possui para isso é escrevendo e compondo, começou a criar música. De início foi só para si mesma, sem expectativas ou compromissos. 

 

Só quando já contava meia dúzia de faixas é que percebeu que havia ali qualquer coisa. Taylor em particular encorajou-a a tornar aquilo oficial, em investir a sério no projeto.

 

EO6vPZeWkAUjlU-.jpg

 

E puff! Fez-se o Chocapic Petals For Armor.

 

Por ocasião do seu trigésimo-primeiro aniversário, Hayley largou a bomba numa mensagem publicada nas redes sociais: em janeiro iria lançar música a solo, que criara “com a ajuda de alguns dos seus amigos mais íntimos”.

 

Como seria mais ou menos de esperar, uma parte da comunidade de fãs entrou em pânico. Depois de tudo por que a banda passou, este era o pior pesadelo de muita gente. 

 

Eu, no entanto, nunca acreditei que Hayley se tivesse “vendido” nem que isto significasse o fim dos Paramore enquanto banda – até porque, poucas semanas antes, a banda tinha publicado uma espécie de renovação de votos. 

 

Além disso, Zac lançou o EP The Velvet Face, do seu projeto Half Noise, praticamente em paralelo com After Laughter. Nem Hayley nem Taylor pareceram ter problemas com isso. Pelo contrário, apoiaram desde início, chegaram mesmo a tocar músicas como French Class (uma canção que tenho ouvido algumas vezes nos últimos tempos) em concertos. 

 

Porque não haveriam Zac e Taylor de fazer o mesmo com Petals For Armor? Eu quero, aliás, acreditar que as novelas nos Paramore ficaram na década passada. Que os anos 20 sejam de paz e estabilidade.

 

hayley-williams-simmer-solo-album-petals-for-armor

 

Em todo o caso, a maior parte das reservas das pessoas desapareceram depois de Simmer ser lançada. Em parte porque Hayley revelou que o projeto teve a bênção e mesmo a colaboração de Taylor e Zac, em parte porque… tanto Simmer como Leave it Alone são boas músicas.

 

E depois de duas mil palavras só para dar contexto (não tenho remédio), vamos finalmente falar sobre elas. 

 

Simmer começa com um som que faz lembrar um alarme de perigo, que se mantém no fundo durante uma boa parte da faixa. Também se ouvem uns suspiros que funcionam como imagem de marca da canção. 

 

Confesso que demorei a habituar-me a eles. Ainda agora não posso dizer que adore essas partes. Parecem orgasmos ou alguém a morrer. Acho que a intenção era mesmo desconcertar. Ou simbolizar a acumulação e libertação de tensão. 

 

Entretanto, entra a bateria e o baixo, com os sintetizadores discretos no fundo, que se mantém durante as estâncias. No refrão ouve-se uma guitarra elétrica, mas sempre sem assoberbar.

 

075679826725-cover-zoom.jpg

 

É uma instrumentação bastante minimalista, virando os holofotes para os vocais controlados de Hayley. É um híbrido estranho entre Billie Eilish e o rock de After Laughter, mais baseado em riffs de guitarra do que em acordes pesados.

 

Há quem diga que este é um som completamente diferente daquilo que estamos habituados da parte dos Paramore. No que toca a Leave it Alone talvez, como veremos adiante. Com Simmer, nem por isso, na minha opinião. A mim soa-me a uma evolução natural do estilo de After Laughter, como vimos no parágrafo acima. Não me parece radicalmente diferente de, por exemplo, Idle Worship ou No Friend. 

 

A diferença é que o som de After Laughter é mais pop, mais luminoso, influenciado pelos anos 80. Tanto Simmer como Leave it Alone não douram a pílula, são tão sombrias e cruas como as letras.

 

A de Simmer, então, fala sobre raiva e as dificuldades em contê-la. Segundo a lógica daquilo que falámos acima… não sei muito bem onde é que esta canção se encaixa. Se na, vamos chamar-lhe, “filosofia velha” dos punhos em riste, ou na, vamos chamar-lhe, “filosofia nova”, das pétalas como armadura.

 

Suponho que, para quem viva sempre com muros erguidos à sua volta, a raiva será a única emoção que se permitem sentir. Porque serve de proteção, para manter as pessoas afastadas. Porque muitas vezes é exprimida para disfarçar outras emoções, como medo ou dor. Isso acontece muito em homens que vivem sob as expectativas do patriarcado – que considera a ira a única emoção aceitável no género masculino. 

 

hayley-williams-simmer.jpg

 

Há que relembrar, no entanto, que não é por acaso que a ira é considerada um pecado mortal no cânone cristão. Se não for controlada, a raiva é extremamente destrutiva – não é preciso fornecer exemplos.

 

Por outro lado, também se poderia encaixar na filosofia nova. Mesmo tendo em conta todos os aspetos negativos, a raiva não deixa de ser uma emoção. Uma das emoções que, se calhar, Hayley recalcou. Quase toda a gente concorda que reprimir a raiva por completo não é saudável. A longo prazo poderá ser mesmo pior a emenda do soneto.

 

Além de que, se for usada corretamente, em doses terapêuticas, a raiva pode ser um catalisador. Pode dar coragem para mudar uma situação desfavorável. 

 

Voltando a questão do género, não é por acaso que um dos objetivos dos movimentos feministas nos últimos anos (pelo menos nos Estados Unidos) tem sido reclamar o direito das mulheres à raiva. Afinal de contas, a ira é um pecado mais facilmente perdoado no homem que na mulher (não me olhem assim, vocês sabem que é verdade). Uma mulher zangada recebe logo o rótulo de histérica ou de está-com-o-período. Ao patriarcado interessa manter as mulheres submissas e complacentes.

 

Isto tudo para dizer que a raiva tem vantagens e desvantagens, como muitas coisas na vida. Hayley revelou que a ideia inicial para a letra de Simmer era fazer uma reflexão geral sobre a ira. No entanto, na segunda estância acabou por entrar em territórios mais específicos, admitindo que sentiu dificuldades em gravá-la.

 

80867693_859817014473791_6374442240273750259_n.jpg

 

Dá para ouvir. Os versos são cantados mais baixos que o resto da canção – não consegui ouvi-los bem da primeira vez. Há uma frase que é deixada incompleta. Como se, de facto, Hayley não se atrevesse a dizê-lo em voz alta, sem filtros.

 

Gostava de tirar alguns parágrafos para olhar para estes versos. Antes de prosseguir, no entanto, quero deixar bem claro que isto é um mero exercício de especulação – duvido que Hayley algum dia confirme ou desminta estas interpretações. É provável que estes versos tenham sido inspirados pelo amplamente comentado acima casamento falhado. Não dá para ter certezas absolutas, lá está, mas acho que todos concordam. 

 

Comecemos por “If I had seen my reflection as something more precious he would’ve never…”. É outra vez a questão dos morcegos. Da mesma maneira como Hayley teria evitado aquela casa se tivesse mais consideração por si mesma, se tivesse a sua auto-estima em níveis normais, não teria prolongado tanto uma relação que não era a adequada.

 

Não quero com isto comparar o ex de Hayley a morcegos… mas se calhar até quero comparar o ex de Hayley a morcegos (se os rumores que li por aí são verdadeiros, ele merece).

 

Faz lembrar a citação do filme As Vantagens de Ser Invisível: “aceitamos o amor que achamos que merecemos”.

 

Os versos que se seguem são particularmente chocantes: “If my child needed protection from a fucker like that man, I’d sooner gut him”. Deixando de parte as tendências homicidas, faz-me lembrar respostas no site Quora escritas por vítimas de relações abusivas (quer por companheiros, quer por familiares). Quando eram só eles(as), aguentavam – achavam que mereciam, até certo ponto. No entanto, quando tiveram filhos, perceberam que não queriam que estes vivessem o mesmo.

 

Screen-Shot-2020-01-22-at-1.41.04-PM-e157972212066

 

Pergunto-me se foi assim que Hayley descobriu que a culpa não era só sua por a relação não ter resultado. Imaginando um filho seu ou, pura e simplesmente, um amigo ou familiar passando pelo mesmo que ela passou, finalmente percebendo que não, ninguém merece aquilo.

 

Há que ter em atenção que estes versos podem não ser cem por cento factuais. Em parte porque, em linha com o tema de Simmer, podem ter sido escritos sob influência da raiva. Além de que estamos apenas a ouvir a versão de Hayley da história.

 

Em todo o caso, a terceira parte da canção apela-nos a, lá está, usarmos pétalas como armadura. Neste contexto, penso que significa que a misericórdia é mais desejável que a raiva – respondendo à pergunta do refrão.

 

Não posso deixar de falar sobre o videoclipe. Começando pelo elefante na sala: Hayley está nua. Mais do que isso, existe algo de cru e visceral na aparência dela. Não usa maquilhagem – ou então tem uma maquilhagem de cara lavada muito convincente – e a iluminação enche o seu rosto de sombras, dando-lhe um ar ligeiramente demoníaco. 

 

A breve cena em que o rosto de Hayley surge sob uma luz vermelha parece representar uma personificação da raiva homicida descrita na letra – a cara interior que está mesmo debaixo da pele. O vídeo, de resto, recorre muito a luzes vermelhas para simbolizar essa ira.

 

 

Mesmo depois de já terem saído duas sequelas a este videoclipe (um interlúdio e o vídeo de Leave it Alone) não parece existir consenso sobre quem é ao certo a figura encapuçada que persegue Hayley – que tem o mesmo rosto que ela. Na minha opinião, é uma personificação do passado de Hayley. A Hayley do presente está em claro modo de fuga ou luta, medo ou raiva. De início foge, mas depois cobre-se de barro para lutar – derrotando a Hayley do passado. 

 

No vídeo de interlúdio, a Hayley-coberta-de-barro aparece com uma expressão clara de “Meu Deus, que fiz eu?”. Agora, em vez de medo ou raiva, reage com compaixão – arrasta o corpo inconsciente da Hayley-do-passado para outra divisão e toma-a nos seus braços. 

 

Não são necessários muitos dedos de testa para compreender o significado: ser-se gentil para consigo mesma, perdoar-se a si mesma. Segundo Hayley, esta foi outra das lições que teve de aprender no último ano e meio – suponho que seja um dos temas de Petals For Armor (mesmo já tendo falado sobre isso de passagem, a propósito de 26).

 

O resto do vídeo mostra a Hayley-do-passado e a Hayley-coberta-de-barro sendo envolvidas num casulo – uma cena um bocadinho sinistra na minha opinião. No fim, vemos uma Hayley diferente abrindo os olhos. Uma Hayley com o rosto coberto de pétalas.

 

O que nos leva a Leave it Alone – que foi lançada no dia 30, quase sem aviso, sem sequer sabermos o nome da música até esta ser lançada.

 

https___images.genius.com_d1a7804f005cf35f7c117190

 

Da primeira vez que ouvi Leave It Alone não reconheci a voz de Hayley. Não me lembro de alguma vez a ter ouvido cantando desta forma, num tom tão grave. Agora que já a ouvi várias vezes consigo perceber que é mesmo ela – mesmo assim é algo diferente.

 

Instrumentalmente, Leave it Alone é ainda mais minimalista que Simmer. Hayley compô-la com Joey Howard, baixista acompanhante dos Paramore (que também ajudou a compor Simmer), apenas com um baixo e uma caixa de ritmos (foi uma das primeiras a ser composta para Petals For Armor). No outro dia, Joey partilhou o ficheiro de áudio da primeira gravação da música. A versão final não possui muitos mais instrumentos que esta. Para além do baixo e da bateria, só um violoncelo, uns violinos, umas notas de órgão e pouco mais. 

 

Mais uma vez, esta é uma faixa que combina géneros. A mim soa-me a uma mistura de Lana del Rey com indie rock. Algo que serviria de música de fundo a um clube noturno retro, de algures entre os anos 20 e 30. Muitos fãs dizem que parece Radiohead – como conheço mal a banda, vou acreditar neles.

 

Em relação à letra… bem, é pesada. A primeira estância resume-se a “Agora que recuperei a vontade de viver, está toda a gente a morrer à minha volta”.

 

Como se isto não chegasse em termos de ironia, a própria música tira a vontade de viver. Mas estou a adiantar-me.

 

83296127_3156579187709236_6504117173902901248_n.jp

 

A segunda estância começa com “You don’t remember my name somedays or that we’re related”. Aponta logo para um familiar com demência. Não surpreendeu, assim, quando poucas horas depois apareceram declarações de Hayley na Internet, revelando que a letra fora inspirada pelo menos em parte por um acidente com a sua avó. Há pouco mais de um ano, a senhora sofreu uma queda, bateu com a cabeça, e desde essa altura começou a sofrer de demência.

 

Pois eu sei o que isso é. Há poucos meses enterrámos o meu avô, depois de ter passado os últimos anos da sua vida sem as faculdades todas (já tinha mais de noventa anos). Ele nunca deixou de me reconhecer como alguém de quem ele gostava mas, lá está, não se lembrava do meu nome nem de que eu era a sua neta. E, segundo a minha avó, depois de eu sair, já não se lembrava de eu ter lá estado.

 

Muitos fãs têm revelado histórias semelhantes a propósito desta música, algumas bem piores. Não é fácil.

 

Leave it Alone é mesmo sobre isso: luto, morte. No caso de Hayley, o acidente com a sua avó aconteceu na pior altura possível – quando estava empenhada em tratar da sua saúde mental. Consta que outras pessoas na vida dela, amigos da família, foram morrendo na mesma altura – da minha experiência, estas coisas acontecem todas ao mesmo tempo, sem cerimónias. 

 

Toda a gente sabe como é perder entes queridos – ou irá descobri-lo mais cedo ou mais tarde. Hayley a certa altura interroga-se se faz sentido amar quando mesmo na melhor das hipóteses um dia a outra pessoa morre. Ou então morremos nós e as pessoas que amamos ficam obrigadas a lidar com tal perda.

 

81824187_474289589919352_3907910505503387174_n.jpg

 

Pela parte que me toca, acho preferível amar e mais tarde perder do que não amar de todo. Ficam sempre as recordações, aquele calor no coração de que fala Everglow dos Coldplay. 

 

Além disso, gosto de acreditar que, depois de morrermos, reencontrar-nos-emos todos de uma forma ou de outra, no outro lado. Gosto de acreditar que o meu avô foi pôr a conversa em dia com os meus avós maternos, que morreram antes dele. Que poderemos ver Eusébio jogando com Luís Figo e Cristiano Ronaldo (se já tiverem morrido nessa altura) como se estivessem todos na casa dos vinte. Que quando Mike, Phoenix, Rob e os restantes membros dos Linkin Park morrerem (daqui a várias décadas, espero bem), Chester chamá-los-á para partilharem o palco de novo.

 

Mas estou a desviar-me um bocado.

 

Na terceira parte de Leave it Alone, Hayley aconselha o ouvinte a deixar o amor entrar na sua vida, mas que tenha noção de que não será para sempre. Que esteja preparado para isso.

 

Não há muito a dizer sobre o videoclipe de Leave it Alone. Hayley encontra-se na fase do casulo. Este está a querer abrir, mas a ideia com que fico é que ela ainda não está preparada para sair, pelo menos não por completo.

 

 

Adoro o visual dela no casulo, a maquilhagem com as pétalas. Mas acho que invejo mais o vestido que ela usa na floresta, com a capa azul.

 

E pronto. Foram Simmer e Leave it Alone, a primeira degustação de Petals For Armor. Se estas músicas forem uma amostra representativa, este vai ser um álbum que nos arrasará emocionalmente. A ver se nos preparamos para isso.

 

Ambas as músicas são muito boas, únicas, cruas, poderosas (toma nota, Avril!). No entanto, se tivesse de escolher entre as duas, prefiro Simmer. Não porque ache que seja a melhor música, mais porque… Leave it Alone é um tudo nada demasiado triste para mim. É pesada emocionalmente, deita uma pessoa abaixo. 

 

Não quer dizer que não goste, longe disso. No entanto, por exemplo, enquanto escrevia este texto estive a ouvir Leave it Alone em repetição. Acidentalmente passei-a à frente, para uma música bem mais alegre, e senti-me logo aliviada.

 

Eu compreendo que Hayley não queira dourar a pílula para nós, queira ser honesta, crua, mesmo implacável. Como vimos acima, estas são as partes feias da “filosofia nova”, de deitar muros abaixo e processar emoções.

 

63640c3c23f22fcf391a7da1adab400a.960x960x1.jpg

 

Dito isto, aqui entre nós que ninguém nos ouve (ou lê), espero que não demore muito até chegarmos às partes bonitas (ou pelo menos menos feias). 

 

Petals for Amor será editado a 8 de maio. Hayley já afirmou que quer ir em digressão para promover este álbum, mas ao que parece ainda está tudo em fase de planeamento. Em relação aos Paramore, por agora, estes continuarão em águas de bacalhau. Segundo o que Hayley deu a entender, quando este ciclo estiver concluído e estiverem na disposição para isso, a banda gravará um novo álbum. 

 

Por outras palavras, os Paramore estão em pausa, mas ainda estão longe de terminar.

 

Por mim tudo bem, não tenho pressa agora que vamos ter Petals For Armor. Obrigada por lerem este looooongo testamento sobre um par de músicas. Continuem por aí.

Digimon Tamers #13 – Lágrimas e tinteiros

tinteiros.png

 

Hoje queria começar por falar da banda sonora de Tamers. Conforme já referi várias vezes aqui no blogue, a música é uma das melhores partes de Digimon. As aberturas, os encerramentos, os temas de digievolução e por aí fora. Nunca falta material para os podcasts do Odaiba Memorial Day PT – e como estes ocorrem sobretudo em julho e agosto, ultimamente a música de Digimon soa-me a música de verão.

 

Também ajuda o facto de ter passado as minhas férias a ouvir música de Digimon, sobretudo de Tamers, enquanto passeava na praia. 

 

E, claro, um dos pontos altos dos encontros do Odaiba Memorial Day é sempre cantar estes temas em coro com outros fãs. Com ou sem acompanhamento instrumental, com ou sem bebida – sim, este ano o António trouxe vinho do Porto. Diz que ficou com pena de não ter aberto a garrafa mais cedo, para começar logo a cantoria… mas eu pelo menos não precisava. 

 

É um crime nenhum destes temas estar no Spotify. No dia em que adicionarem todo o catálogo de Digimon a esta plataforma – incluindo versões acústicas/memoriais/alternativas, bem como as versões em português – eu adiro em permanência ao Premium.

 

Ora, esta introdução já vai longa, falemos então sobre a banda sonora de Tamers. Gosto de The Biggest Dreamer mas, no que toca a aberturas, fica atrás de Butter-fly e Target nas minhas preferências. 

 

 

Por outro lado, este é capaz de ser o único caso em que, na dobragem portuguesa, tanto a interpretação das aberturas e dos encerramentos não ficou nada má. A versão portuguesa de The Biggest Dreamer é bastante popular na nossa comunidade de fãs. Sofre do mesmo problema da versão portuguesa de Butter-fly, ou seja, tem uma mulher tentando cantar como um homem. No entanto, gosto das pequenas variações na melodia, dão personalidade. O último “Digimon!” no final foi bem sacado.

 

Na verdade, gosto mais dos encerramentos. Tanto das versões originais como as portuguesas – um shout-out para a Teresa Macedo, que interpretou as versões em PT-PT (as duas, certo?). Estas músicas não são fáceis de cantar. 

 

Durante muito tempo, não consegui escolher uma preferida entre os dois encerramentos.– mesmo agora a escolha não está gravada em pedra – mas acho My Tomorrow irresistível. Tem uma musicalidade menos convencional, conseguindo alternar entre um ritmo mais rápido e alegre e um mais pausado e sentido sem soar desconjuntado. A melodia é tão contagiosa como as melhores de AiM.

 

Tenho um apreço particular pela versão memorial – que conheci quando o António a pôs a tocar num dos podcasts. Esta é cantada pelas vozes das Treinadoras, respetivos Digimon e Culumon. Sim, isso inclui o Leomon. Soa engraçado no meio de tantas vozes femininas.

 

Esta versão, aliás, bem como a nossa cantoria no Odaiba Memorial Day (eu era uma das únicas meninas), faz-me ter pena por não existirem mais versões masculinas de temas da AiM. Soam bem. 

 

 

O segundo encerramento de Tamers é o preferido dos fãs – pelo menos os da nossa comunidade portuguesa. Days ~Aijou to Nichijou~. Em contraste com My Tomorrow, mais leve, Days é uma power ballad com um travo melancólico – que até condiz com o tom da segunda metade da série, sobretudo nas últimas duas partes. Mesmo a letra, sobretudo na versão portuguesa, parece aludir aos eventos finais de Tamers.

 

Não admira que seja tão popular.

 

Depois, temos os habituais temas de digievolução. E, vá lá, o das Cartas Escolhidas. Nenhum deles é um Brave Heart, claro, porque esse tema estará sempre ensopado até aos ossos com nostalgia, mas todos cumprem o seu papel. 

 

Gosto muito de Slash. Tem, à semelhança de Butter-fly e Target algumas influências de punk pop que me dão vontade de ouvir estas canções em contexto de concerto – a sério, quando oiço Slash imagino sempre o cantor em palco dando headbangs ao estilo de Hayley Williams pré-After Laugher (o que, pelos vistos, dá cabo das costas de qualquer um ). Gosto um bocadinho menos do tema de digievolução, mas mantém-se uma boa tradição de 02: sequências digievolutivas sincronizadas com a música. 

 

Por sua vez, foi uma excelente ideia criarem três versões diferentes para One Vision, a música das formas Extremas – uma para cada um dos protagonistas. A minha preferida é a da Sakuyamonobviamente.

 

 

Depois, temos as chamadas Insert Songs e/ou Character Songs/músicas de personagens. As músicas de Culumon – Culu Culu Culumon – e do BeelzebumonBlack Intruder que, agora vejo, parece o avô japonês de Uptown Funk – são muito giras. Também gosto imenso de Fragile Heart, a música que soa quando o Culumon usa a Digievolução Brilhante e tudo o que se mexe passa ao nível Extremo.

 

Mas a minha absoluta preferida em Tamers é 3 Primary Colors

 

Já conhecia este tema antes de ver Tamers, dos podcasts do Odaiba Memorial Day Portugal. Sempre a achei bonita, mesmo desconhecendo o contexto: misturando órgão com guitarra acústica e percussão leve, vozes de crianças. 

 

3 Primary Colors é interpretada pelos mesmos atores que dão voz ao trio de protagonistas (mais sobre isso já a seguir). Existe, no entanto, uma versão (mais) acústica, alternativa, interpretada por Onta Michihiko, AiM e Wada Kouji, que em nada fica atrás da original. 

 

Dizia eu que 3 Primary Colors é cantada pelas vozes de Takato, Ruki e Jian. Se olharmos para a letra (ou, vá lá, as traduções da mesma), vemos que cada um canta sobre os conflitos pessoais (ou pelo menos parte deles) que são explorados na história. Takato e a sua inexperiência, Ruki e o seu carácter solitário, Jian e a sua relutância em lutar. 

 

 

No refrão, os três comparam-se a si mesmo às três cores primárias – e, de facto, cada um dos três protagonistas tem uma cor associada às suas digievoluções. A de Takato é o vermelho, a de Ruki é o azul, a de Jian é o verde. Como aprendemos na Físico-Química do oitavo ano (ou do sétimo?), estas são as cores primárias da luz – não as da arte, o ciano, o mangenta e o amarelo.

 

Um aparte rápido: num dos podcasts deste verão, o António a certa altura referiu que, mais para o final, passaria “a música dos tinteiros” em especial para mim. Demorei uns bons quarenta e cinco minutos a perceber do que estava a falar…

 

Como dizia, os protagonistas equiparam-se a cores primárias. De início não se querem misturar, querem conservar a pureza das suas cores. Mas acabam por reconhecer que, se tiverem coragem para se unirem uns aos outros poderão criar um espectro inteiro de cores novas resplandecentes.

 

É uma metáfora linda, mas não acho que faça assim tanto sentido no contexto de Tamers. Mesmo tendo demorado a formar equipa, aqui os conflitos entre humanos, sobretudo entre os protagonistas, são relativamente poucos. Pelo menos quando comparados com o universo de Adventure. Mas, não sejamos hipócritas, 3 Primary Colors merece que se ignore a ligeira incoerência. 

 

Enquanto estava a escrever o primeiro rascunho deste texto, descobri uma versão espanhola de 3 Primary Colors, cantada por fãs. Não é nada má – só acho que a voz de Jian desafina um bocado. Faz-me sonhar com uma versão portuguesa… Outra coisa que percebi há pouco tempo é que o tema do anime de Pokémon baseado na música de créditos dos jogos da segunda geração tem uma emotividade muito parecida à de 3 Primary Colors.

 

 

O que torna tudo tão agridoce que dá vontade de chorar, para além da instrumentação, é o facto de 3 Primary Colors soar durante o traumático final de Tamers. Já fui falando sobre este momento ao longo desta análise: o facto de a ativação do Shaggai, para neutralizar o D-Reaper, implicar a expulsão dos Digimon do Mundo Real. 

 

Ninguém dá duas horas aos miúdos para se despedirem dos seus companheiros, como Adventure – nem dois minutos, quanto mais duas horas. Os Digimon são-lhes literalmente arrancados dos braços. Naturalmente, todos choram que nem umas Madalenas, desde Shaochung a Jiang-yu, audiência inclusive. 

 

É que ninguém merece. Ninguém! Depois de tudo o que estes miúdos passaram para se livrarem do D-Reaper, é assim que o destino os recompensa? Dito isto… a verdade é que o imbróglio do D-Reaper complicara-se tanto que nunca poderia ter uma solução fácil. Como vimos antes, em Tamers não há soluções fáceis.

 

Uma pessoa quase fica com raiva aos miúdos de Adventure. Eles também tiveram a sua dose, é certo, sobretudo em Tri – tanto os oito originais de Adventure como o elenco de 02 – mas não foi pior que aquilo por que os miúdos de Tamers passaram. No fim, tiveram direito a conservar os seus Digimon até à idade adulta e mais além – ao contrário de Takato e dos outros.

 

Em todo o caso, nos últimos segundos em que estão juntos, os miúdos e os Digimon trocam promessas de que se voltarão a ver, mais cedo um mais tarde, de uma forma ou de outra. Mais sobre isso adiante.

 

 

Antes de cair o pano, há tempo para um breve epílogo. Nada do género de 02, atenção, apenas algumas cenas que terão ocorrido algum tempo depois – alguns meses, no máximo. Vemos Takato com os seus colegas de turma – Juri, Hirokazu e Kenta incluídos – todos aparentemente bem. No que toca a Juri é um alívio. Temos também um vislumbre rápido de Yamaki, na padaria dos pais de Takato.

 

É uma pena não mostrarem nem Ruki, nem Jian, nem Shaochung, nem mesmo Ai e Makoto. Não dá para saber como estarão a lidar com a separação. Bastavam dois segundos de cada um deles, um vislumbre de Jian e a irmã com o pai, de Ruki com a mãe e a avó, de Ai e Makoto a brincar, quiçá fazendo desenhos de Impmon. 

 

Um dia, Takato passa pelo casinhoto onde Guilmon vivia. Vislumbra-se um DigiGnomon no céu e, de facto, quando o jovem entra no casinhoto, vê aquilo que parece ser uma brecha para o Mundo Digital. 

 

E é assim que termina Tamers: com a vaga esperança de que o reencontro não seja de todo impossível.

 

A dobragem portuguesa tem o mau gosto de mostrar imediatamente imagens de Digimon Frontier. Nem sequer tem a delicadeza de passar os créditos finais. Pelas Bestas Sagradas, este foi um final doloroso, de uma série que teve momentos extremamente sombrios! Deem-nos um minuto antes de partirmos para outra. Outra em que, ainda por cima, nem sequer há companheiros Digimon!

 

46486178_2321284481440087_2236487636799717376_n.jp

 

Falta de noção…

 

Queria agora falar um pouco sobre os CDs Drama (ou CDs Dramas? Qual é o plural correto?) que explicam o que acontece após os eventos de Tamers – isto é, partindo do princípio de que fazem parte do cânone oficial. 

 

Segundo Message in a Packet, que decorre cerca de um ano após o final de Tamers, Takato tentou atravessar a brecha que vimos na cena final de Tamers, mas chocou com a firewall criada pelo Hypnos para cortar a passagem de um mundo para o outro. Em todo o caso, Jian planeia seguir a carreira do pai e procurar maneira de regressar ao Mundo Digital. Pelo meio, arranja uma forma de os Treinadores gravarem mensagens de voz para enviarem aos seus companheiros Digimon.

 

Confesso que estou arrependida por não ter lido a tradução deste CD Drama antes da preparação deste texto. Message In a Packet está recheado de pistas importantes sobre o desenvolvimento dos miúdos. Algumas são coisas que já sabíamos ou podíamos deduzir dos eventos de Tamers. Outras dão indicações do impacto que a reviravolta final da série teve no elenco.

 

Por exemplo, para começar, gostei de saber que Juri deixou uma mensagem tanto para Culumon como para Impmon. Em relação à mensagem para o primeiro, achei curiosa a maneira como a jovem se revê em Culumon: uma criatura amorosa, que se dá bem com toda a gente, embora não tenha um melhor amigo e ande muitas vezes sozinho. 

 

B00008OJXI.jpg

 

Acredito, no entanto que Juri está a projetar-se em Culumon. Sim, o pequenote tem algumas coisas em comum com ela: ambos são seres que escondem muito por detrás da sua fronte amigável. Mas a mim – e posso estar enganada – nunca fiquei com a impressão que Culumon se sentisse sozinho, como Juri. Talvez antes de conhecer Takato, Jian e os outros humanos, mais os respetivos companheiros Digimon; talvez nos períodos em que esteve separado dos Treinadores, no Mundo Digital. Tirando isso, Culumon sempre me pareceu satisfeito por ser o companheiro de toda a gente e de ninguém em particular. 

 

Em relação à mensagem para Impmon, é um dos casos em que não é dito nada que surpreenda por aí além. Juri deixa uma palavra sobre Ai e Makoto, no final, o que me faz pensar se Jian se lembrou deles para estas mensagens. Talvez não se tenha lembrado, talvez até se tenha lembrado, mas não conseguiu localizar os dois irmãos.

 

É capaz de ser melhor assim. Ai e Makoto são muito pequeninos. Talvez não comprendessem bem a intenção daquelas mensagens e tudo aquilo ainda os deixasse ainda mais tristes. 

 

Por sua vez, Ruki foi quem reagiu pior à separação, tendo sido a última a aceitar gravar a sua mensagem. Não me surpreende. Vimos antes, no teto dedicado à jovem, que Ruki construíra uma boa parte a sua identidade em torno dos Digimon. De início só lhe interessava ganhar combates, primeiro no jogo de cartas, depois com Renamon. Mais tarde, quando se Renamon se tornou a sua melhor amiga (na mensagem Ruki descreve-a como a irmã mais velha que nunca teve), essa identidade centrou-se nos propósitos mais heróicos de ser Treinadora. 

 

latest.jpg

 

É natural, assim, que Ruki se tenha sentido perdida durante algum tempo depois da separação. Não podia voltar ao jogo de cartas, pois este recordava-lhe demasiado Renamon (pergunto-me, no entanto, se Takato, Hirokazu e os outros ainda jogam, depois dos eventos de Tamers). É certo que nunca se deu melhor com a mãe e a avó, mas aos dez, onze anos, há coisas sobre as quais não falamos com adultos. 

 

Por outro lado, o CD Drama dá a entender que Ruki ainda não convive muito com Takato e os outros. A jovem não consegue sentir a esperança que os outros sentem de voltar a ver os seus Digimon porque, da experiência dela, pessoas que partem não costumam voltar (sim Konaka, a ausência do pai de Ruki não tem nada a ver com o caso…).

 

Ruki não o sabe, mas tudo o que ela sente é normal. Quem é que sabe quem é aos dez, onze anos? Eu tenho quase o triplo da idade dela e só agora é que começo a descobrir. Ela e os amigos ainda nem sequer começaram a adolescência – não tarda nada as coisas vão ficar ainda mais confusas. 

 

Em todo o caso, depois de despejar o que lhe vai na alma nesta mensagem, Ruki parece sentir-se melhor consigo mesma. É uma coisa de introvertidos como nós: estamos tão habituados a guardar tudo dentro de nós, a ficarmos presos nas nossas próprias cabeças. Esquecemo-nos que faz bem desabafar. Ruki conclui que ela, Renamon, Takato e os outros e respetivos companheiros Digimon são uma família, que um dia estariam juntos de novo e que, a partir daquele momento, tentaria ser melhor enquanto pessoa. Quero acreditar que Ruki cumpriu essa promessa – ou pelo menos que começou a conviver um pouco mais com Takato, Juri e os outros Treinadores.

 

a9apf3JLyw-ZowL3pXQY3jC6oHR7qPLYAThJ-do3-R4.jpg

 

Muitas das reflexões em Message in a Packet fazem-me pensar que uma sequela com uma premissa básica semelhante a Tri – isto é, alguns anos após os eventos de Tamers, o elenco com diferentes graus de dificuldade em aceitar a passagem do tempo e em deixar o passado no passado – poderia funcionar. Podiam manter a limitação de os Digimon não poderem regressar ao Mundo Real – era uma boa desculpa para a história decorrer quase toda no Mundo Digital, desenvolvendo e explorando um pouco esse mundo. 

 

É só uma ideia. Qualquer sequela de Tamers teria de ser pelo menos co-escrita por Konaka (o poster acima não é oficial, é uma fanart). E a verdade é que... ele já teve algumas ideias. 

 

O que nos leva ao segundo CD Drama, lançado no ano passado, escrito por Konaka: Digimon Tamers 2018. Este decorre dezoito anos após os eventos de Tamers, quando os protagonistas já têm vinte e oito anos (eles nasceram em 1990, como eu!). Os protagonistas é como quem diz… reencontramos Jian, Ruki e Juri. Takato, no entanto, desaparecera misteriosamente da face da Terra (possivelmente no sentido literal da expressão) cerca de um ano antes. 

 

Com uma nova ameaça vinda do Mundo Digital, Nyx (o novo Hypnos) cria uma réplica de Takato aos treze anos de idade. Este reencontra Jian e Ruki já adultos. Os três depois reúnem-se com Guilmon e Terriermon… mas não com Renamon. É então que a nova ameaça se materializa no Mundo Real – o Malice Bot, uma criatura nascida na chamada Dark Net, ainda mais poderosa que o D-Reaper. Na cena final do CD Drama, Renamon aparece e aparenta estar de alguma forma envolvida com esta nova criatura. 

 

bNNjtwDie-NraaZ4c3XS88hiB02_S9BgPZy_DmKxOnQ.jpg

 

Estranho? Confuso? Também achei. Parece, lá está, conceito para uma sequela a Tamers, o guião de um episódio-piloto que nos atira logo para o clímax da ação. Como se, por exemplo, Tri tivesse começado com Ordinemon aparecendo no Mundo Real. E a existência de uma réplica pré-adolescente de Takato reencontrando Guilmon, quando o Takato adulto e verdadeiro anda por aí algures é deliciosamente retorcida.

 

Gostava de ver uma continuação para esta história. Ou melhor: que fosse expandida para uma nova série, quer de OVAs ou de episódios semanais. No entanto, tanto quanto sei, não existem planos para isso. Nem para qualquer género de sequela a Tamers num futuro próximo. O foco da Toei parece estar noutro lado (mais sobre isso adiante). Fica esta ponta por atar. Uma ponta gigantesca, diga-se.

 

E com isto penso que já cobri todos os aspetos de Tamers que queria e mais alguns. Esta análise já vai em mais de trinta mil palavras e mesmo assim houveram coisas se que não falei, por um motivo ou por outro. 

 

Penso que já deve ter ficado patente que eu adoro Tamers. Para além de ter todos os elementos que adoramos em Digimon – um elenco forte, tanto de humanos como de Digimon, que se desenvolve com a história, combates, digievoluções fixes, boa música – vai ainda mais longe e subverte expectativas. Tanto em termos de Digimon como de ficção em geral, sobretudo dirigida a crianças. 

 

Não existe bem e mal claramente definidos. Os Digimon, como referido várias vezes, nem sempre são amigáveis e regem-se pela lei do mais forte. Figuras de autoridade cometem erros. Digimon morrem e não regressam à vida. Conflitos não se resolvem apenas num episódio – volto a repetir, em Tamers não há soluções fáceis. Finalmente, pode debater-se se isso foi o mais adequado para uma série dirigida ao público infantil, mas Tamers não teve medo de entrar em territórios sombrios.

 

D72dOBiWwAA4kBT.jpg_large

 

Queria deixar uma nota para a dobragem portuguesa que, como dei a entender antes, está bastante boa na minha opinião. Já falei sobre a voz do Impmon e da Ruki (bem, suponho que neste caso devo chamá-la Rika) de passagem. As dobragens portuguesas em geral têm a mania de dar vozes mais próximas de vozes adolescentes, ou mesmo de adultos, a crianças bem mais novas. Makoto, por exemplo, não tem mais de três anos mas fala como se fosse dez anos mais velho, o que é um bocadinho ridículo. No entanto, pelo menos no caso de Rika, até funciona bem – porque, lá está, ela fala com a firmeza de uma miúda cinco anos mais velha. 

 

Tirando isso, e a voz estranhamente metálica de Taomon, não tenho grandes defeitos a apontar à dobragem portuguesa. Está acima da média, pelo menos no que toca a Digimon.

 

Se gosto mais do universo de Tamers do que de Adventure? Não sei dizer. Acho que preciso de mais tempo para decidi-lo: foram seis meses seguidos imersa neste mundo. Penso que Tamers é mais consistente, mais madura, mas Adventure tem um grande valor nostálgico para mim. Duvido que alguma vez seja ultrapassada. 

 

Se tivesse de responder já já, diria que os dois estão ao mesmo nível. E apesar de ainda só ter passado um ano com Takato e os seus amigos – em contraste com Taichi e companhia limitada, que conheço há quase duas décadas – com o tempo imagino-os um lugar semelhante aos oito Escolhidos de Adventure no meu coração.

 

1f16d10e714bae839083d1d32d1c95b863646b53_hq.jpg

 

Está, então, na altura de colocarmos o ponto final nesta análise. Ufa. Como penso ter dito antes, foi há mais ou menos um ano que comecei a ver Tamers pela primeira vez. Há seis meses comecei a ser segunda, já tomando notas para esta análise. Comecei a publicar esta análise em meados de julho e já estamos em finais de outubro. Isto demorou ainda mais do que eu esperava. 

 

Em minha defesa, nunca imaginei que este monstro chegasse às trinta mil palavras. E o mês de outubro está a ser particularmente difícil no meu emprego  – têm havido muitas noites em que não tenho energia para me sentar ao computador. Daí estas duas últimas publicações terem demorado. 

 

Isto foi moroso e deu imenso trabalho mas… foi divertido. Houveram dias mais fáceis do que outros, mas no geral, tirando neste último mês, não tive grandes dificuldades em dar prioridade a esta análise. Nem mesmo quando já tinha a Nintendo Switch Lite e o Let’s Go Eevee. Adorei trabalhar nestes textos. Alguns deles, como os dedicados ao conceito de Treinadores, a Takato, Ruki, Juri e Impmon, saíram-me com relativa facilidade. Mas mesmo aqueles cujo tema considerava menos interessante ficaram mais ou menos ao nível dos outros, depois de algum tempo refinando-os. 

 

No geral, estou satisfeita com esta análise. 

 

O problema é que, depois de meses imersa numa série tão interessante e complexa como Tamers, tenho pouca vontade de partir para outra – para universos como Frontier e Data Squad, que não parecem reunir tanto consenso como Tamers e mesmo Adventure. Frontier, então, já é um meme na nossa comunidade de fãs portugueses, pois todos acham que é a pior temporada de todas. 

 

23137b8d4502688271487d85690f3213.jpg

 

Não quero fazer juízos de valor sem ver eu mesma, mas tenho de confessar: uma série de Digimon sem companheiros Digimon não me entusiasma. Nem sequer percebo como poderá funcionar. 

 

Será uma questão de dar algum tempo para limpar o palato. Estou certa de que gostarei de pelo menos um aspeto ou outro das próximas temporadas. E sobretudo, que terei coisas a escrever sobre elas, nem que seja só para dizer mal.

 

Não deve faltar tempo para eu limpar o palato, pois ainda deve demorar até eu começar a escrever sobre Frontier. Já depois de ter começado a publicar esta análise, foi anunciada a data de lançamento do próximo filme de Adventure: Last Evolution Kizuna, a 21 de fevereiro do próximo ano. 

 

Não tenho feito questão de saber todos os pormenores sobre o filme, em parte por ter estado em modo Tamers, em parte para evitar spoilers e para não elevar demasiado as minhas expectativas. Apenas sei que Taichi terá vinte e dois anos e estará a terminar a faculdade, que, abençoadas sejam as Bestas Sagradas, o elenco de 02 estará presente e pouco mais.

 

Pelo meio, diz que vão haver cinco curtas metragens animadas centradas no elenco de Adventure. Segundo este artigo, serão histórias que não encaixaram em Kizuna. Não sei muito bem quando saem – supostamente já deviam ter saído. Talvez escreva sobre elas no mesmo texto, ou série de textos, sobre o filme. 

 

 

E pronto, chegámos ao fim. Depois de seis meses nisto, vou abrandar um bocadinho as coisas com este blogue – tecnicamente já abrandei este mês. Não vou deixar de escrever por completo, até já estou a planear um texto novo, mas, pelo menos nas próximas semanas, não quero sentir a obrigação de passar todo o meu tempo livre à volta deste blogue. Quero terminar o Let’s Go Eevee (neste momento estou em Celadon), quero ir nadar (inscrevi-me na natação livre em setembro), quero participar em mais raids de Pokémon Go. 

 

Quero também ver/rever os filmes de Adventure antes de Kizuna. Só vi parte da versão condensada e super confusa de três deles que é Digimon o filme. Não devo escrever sobre eles no blogue, no entanto – posso é deixar um apontamento ou outro na página. 

 

Obrigada a todos os que acompanharam este verdadeiro testamento ao longo destes meses. Digimon ficará em pausa neste blogue durante algum tempo, mas devera regressar com Kizuna. Regressem também.  

Digimon Tamers #12 – Vilões entre aspas

0102.png

 

Outra diferença de Tamers em relação ao universo de Adventure é o facto de não existir Luz versus Escuridão, no sentido de Bem versus Mal. A única ocasião que se aproxima disso é quando surge o Megidramon. Talvez porque, em Tamers, não existem bons e maus propriamente ditos – ou pelo menos não no sentido habitual das histórias dirigidas ao público infantil.

 

Isto na minha opinião é um ponto a favor. É realista. Parte dos conflitos em Tamers – alguns dos quais podiam e deviam ter sido melhor explorados – sobretudo durante a primeira metade da narrativa, derivam de pontos de vista contrário, choque de culturas, desconfiança em relação ao que é diferente, revolta de um grupo oprimido contra o seu opressor. Tudo conflitos semelhantes aos que ocorrem no nosso mundo, que ocupam uma larga fatia das nossas notícias. 

 

Ninguém em Tamers está cem por cento certo ou errado, nem mesmo o D-Reaper. Existe verdade nas suas crenças de que tanto a Humanidade como os Digimon têm imperfeições. A solução dele para tais problemas é que, obviamente, não será a mais adequada.

 

Mas não nos adiantemos. 

 

O primeiro antagonista em Tamers é a organização Hypnos e o seu líder, Yamaki. Como referido antes, estes não se revelam de imediato. Durante vários episódios, apenas vemos as mesmas imagens de Reika e Megumi anunciando o aparecimento de Digimon selvagens em Shinjuku, bem como de Yamaki brincando com o seu isqueiro. Só ao sétimo episódio é que descobrimos ao certo quem são eles: uma organização que se dedica a crescente rede digital. 

 

0101.png

 

Ou seja, o Hypnos é o equivalente japonês ao NSA dos Estados Unidos. 

 

É de facto espantoso o quão à frente do seu tempo Tamers estava. Só nos últimos anos – em 2013, com as denúncias de Edward Snowden, e no ano passado, com o escândalo do Facebook (embora a Google também o desconcertante hábito de registar cada um dos nossos passos) – é que o cidadão comum se apercebeu verdadeiramente das implicações da Internet. Mas a verdade é que já havia quem alertasse para a possibilidade no início dos anos 2000. 

 

Tamers não foge ao assunto. Yamaki garante a um inspetor do governo que só estão interessados em informações criminosas – é claro que cada um arranja a definição que mais lhe convém para esse termo. De tal forma que a existência do Hypnos é mantida escondida do público – o inspetor diz mesmo que, se a verdade viesse a público, o governo cairia. 

 

Ora, nesta equação, os Digimon são uma espécie invasora que atrapalha o trabalho do Hypnos. Conforme dei a entender antes, a inutilidade da organização para tratar destas ameaças chega a ser caricata. O trabalho que lhes compete acaba por ser feito por crianças de dez anos (incluindo Takato na sua fase de tentativa e erro). O que nos leva às motivações do Hypnos, em particular de Yamaki.

 

Este até começa com relativas boas intenções – quão nobres poderão ser as intenções de alguém que procura controlar a Internet? É claro que era necessário alguém com experiência e recursos para lidar com a ameaça dos Digimon. Também não estão errados quando dizem que crianças deviam andar a brincar com criaturas capazes de destruir edifícios e matar pessoas. 

 

111.png

 

Só que o Hypnos é realmente muito mau a fazer o trabalho que lhe compete. As duas primeiras ativações do Shaggai só pioram as coisas em vez de melhorarem: a primeira abre a porta aos Deva. A segunda leva ao colapso do quartel-general do Hypnos. Pelo meio, a certa altura, Yamaki parece deixar-se levar pelo poder e começa a tornar aquilo pessoal. Note-se o momento em que deita as mãos a Jian.

 

O que, tenho de dizê-lo, é completamente inaceitável. Jian é uma criança, Yamaki é um adulto, tem a obrigação de se controlar. 

 

A destruição do Hypnos e consequente perda de emprego tem o condão de obrigar Yamaki a descer à Terra. Vemo-o recolhido no seu (?) apartamento juntamente com Reika – é assim que se descobre que eles namoram. Consta que, quando leram o guião escrito por Konaka, os seus colaboradores foram apanhados de surpresa por esta revelação. O guionista revelou, também, que terá sido Reika a impedir Yamaki de sucumbir por completo à depressão.

 

Em todo o caso, quando os Treinadores se preparam para ir para o Mundo Digital para resgatar Culumon, Yamaki consegue deixar o seu abatimento de lado, ainda que por pouco tempo. Vai ter com eles imediatamente antes de partirem e empresta-lhes um dispositivo que lhes permitirá comunicarem com o Mundo Real enquanto estiverem no Mundo Digital. 

 

Ainda assim, Yamaki mantém-se confinado ao apartamento, com a namorada (o que, sejamos sinceros, não é assim tão mau). Certo dia, um tipo qualquer do governo decide ativar o Shaggai de novo porque… razões. Corre quase tão bem como das duas primeiras vezes – e vemos o efeito que isso tem no Mundo Digital. Têm de vir Yamaki e Reika para corrigirem a asneira do outro e, no processo, recuperam as rédeas do Hypnos. 

 

2.png

 

Depois desta, Yamaki e o Hypnos estabelecem-se firmemente como aliados dos Treinadores, em colaboração com o Grupo Selvagem. Existe um momento em que Yamaki se culpa pela crise do D-Reaper. Reika faz-lhe ver que ele foi apenas o primeiro a querer controlar a Internet – e como vimos acima, o tempo veio a dar-lhe razão. 

 

Da ideia que tenho, ninguém acha os Deva muito interessantes enquanto vilões. Eu concordo. Quando começam a aparecer no início da segunda parte da narrativa, pouco mais são que vilões-do-episódio, que os heróis derrotam sem pensar duas vezes. São níveis Perfeitos, e alguns até são difíceis de derrotar, mas outros são derrotados por níveis Adultos.

 

Acho também que não sou a única que nem sequer consegue decorar os nomes de uma boa parte deles. São o Deva-Cobra, o Deva-Cavalo, o Deva-Rato e por aí fora.

 

A certa altura Jian consulta o seu instrutor de kenpo para descobrir mais sobre os Deva – que foram inspirados pelo zodíaco chinês, que por sua vez colheu inspiração dos Doze Generais Celestiais do budismo. Quando o instrutor revela que os Deva originais eram figuras benevolentes, Jian acaba aprendendo que o mal e o bem são uma questão de perspetiva. 

 

O que é irónico se tivermos em conta que os Deva são o mais próximo que Tamers têm dos típicos maus da fita de desenhos animados: unidimensionais, interessados apenas em debitar propaganda anti-humanos e provocar o caos no Mundo Real.

 

EDpoiO3WsAAb103.png

 

Os únicos Deva minimamente interessantes são Makuramon, Chatsuramon e Antylamon. O último, obviamente, por ser o companheiro de Shaochung. Por sua vez, Makuramon é um dos que ganha mais tempo de antena. Durante a segunda parte da narrativa, disfarça-se de criança humana e tenta infiltrar-se no grupo de amigos de Takato – para poder aproximar-se de Culumon. Não se pode dizer que o disfarce resulte pois, embora não descubram logo que o miúdo tentando colar-se é um Digimon, o seu comportamento é sinistro e enervante.

 

Para os miúdos e para mim, diga-se. Entre este e o Etemon, está visto que Digimon inspirados em macacos não são comigo.

 

No fim, Makuramon acaba por ser o único a fazer o seu trabalho, ou pelo menos parte dele: deitar as mãos a Culumon e levá-lo para o Mundo Digital. 

 

Chatsuramon, o Deva-Leão (ou gato?), é o mediador do pacto de Impmon com o diabo. Uma incoerência que não passa despercebida é o facto de os Deva serem todos do nível Perfeito mas, quando recrutam Impmon, este digievolui para o nível Extremo. Três questões: um, se Zhuqiaomon consegue, indireta ou indiretamente, desbloquear um nível Extremo de outro Digimon, para que precisa de Culumon? Dois, porque não fez  mesmo com os seus minions, parte dos quais são fracos até para níveis Perfeitos? Por fim, porque tornaram um recruta recente mais poderoso do que eles – talvez capaz de fazer frente a Zhuqiaomon? Estão mesmo a pedir para serem apunhalados pelas costas.

 

1.png

 

É assim que os Devam acabam, aliás, tirando Antylamon. Makuramon e Chatsuramon podem até ter tido algum interesse, mas as suas mortes são meras notas de rodapé em episódios que a atenção da audiência está no duelo entre Beelzebumon e Megidramon/Dukemon. Ninguém sentirá a falta deles.

 

É mais ou menos nesta altura da história, um pouco mais tarde, que descobrimos que, no universo de Tamers, os deuses do Mundo Digital são as Bestas Sagradas. Os Deva, no entanto, só falam de um deus que substituiu os humanos – provavelmente Zhuqiaomon, o seu amo. Descobrimos também que este último precisava de Culumon para, como referimos antes, digievoluir tudo o que se mexe para combater o D-Reaper.

 

E de facto é isso que Culumon faz, quando lho pedem. E uma pessoa fica tipo “Porque é que não lhe pediram com jeitinho mais cedo?” Podiam ter evitado pelo menos metade dos eventos de Tamers – sobretudo a morte do Leomon, que deixou Juri vulnerável ao D-Reaper. 

 

Parece uma falha do enredo, mas eu não acho que o seja. Não a cem por cento pelo menos. Acho que é um erro de Zhuqiaomon. Este parece ser o único das Bestas Sagradas que se ressente dos humanos – possivelmente passando as suas crenças aos seus servidores. É possível que tanto os Deva como Zhuqiaomon tenham aproveitado a busca por Culumon para se vingarem da Humanidade. As consequências desse ódio para Zhuqiaomon é perder os seus minions e conferir mais poder ao inimigo que queria derrotar.

 

Por outro lado, descobre-se que fora Qinglongmon a transformar a luz da digievolução num Digimon e a enviá-lo para o Mundo Real. A ideia era que Culumon fugisse do alcance do D-Reaper, para que este não o usasse como catalisador. Mas não se lembrou de avisar o colega Zhuqiaomon, que passara metade de Tamers tentando recuperar o pequenote.

 

hum.png

 

Este é, na minha opinião, o maior ponto fraco do enredo de Tamers. As Bestas Sagradas não comunicam entre si? Não faria mais sentido atuarem em conjunto perante um inimigo tão poderoso como o D-Reaper? Em vez darem tiros nos pés ao levarem a cabo planos que contradizem os dos colegas? 

 

Se isto não for uma falha do enredo (e não estou convencida que não o seja), este parece ser um daqueles casos em que um aliado incompetente causa mais danos que um vilão. Quase culpo mais Qinglongmon do que Zhuqiaomon pelos eventos de Tamers. Zhuqiaomon pecou por ódio e preconceito. Qinglongmon pecou por negligência. 

 

Falemos, então, sobre o D-Reaper. Este é um caso típico de uma inteligência artificial tão inteligente, tão inteligente (passe a redundância) que chega à conclusão de que a Humanidade é demasiado tóxica e deve ser eliminada. O D-Reaper no início era um programa muito simples de eliminação de dados em excesso. O problema foi que, com a expansão do Mundo Digital, em paralelo com o crescimento da Internet, o D-Reaper sofreu também uma digievolução à sua maneira – tornando-se uma ameaça ao Mundo Digital. 

 

Tecnicamente, o D-Reaper é o grande vilão de Tamers. Se pode, no entanto, ser considerado vilão é questionável – porque o D-Reaper não tem noção do bem e do mal, faz apenas aquilo para que foi programado. Não tem noção da moralidade.

 

Bem, pelo menos em teoria. Mais sobre isso já a seguir.

 

0000.png

 

Vemos o D-Reaper pela primeira vez no episódio da estreia da Sakuyamon. No início, este era apenas uma massa disforme, cor-de-rosa, que solta bolhas. Ao contrário do estilo desenhado à mão de praticamente todo Tamers, o desenho do D-Reaper mete CGI e o contraste entre os dois estilos é desconcertante. 

 

As bolhas são, em teoria, um exemplo de carnificina sem sangue, sem violência, adequadas ao público infantil. Na prática, a ausência de sangue, de violência, é o que mais me assusta nelas. Basta um toque apenas para a vítima pura e simplesmente deixar de existir. Uma pessoa não consegue oferecer resistência, não consegue debater-se. Apenas desaparece deste mundo. Nem sequer deixa um cadáver ou partículas digitais para trás. 

 

É horrível.

 

Quando o D-Reaper chega ao Mundo Digital, o seu tamanho aumenta exponencialmente. Forma uma massa gigantesca que irradia calor, com centro no parque de Shinjuku – aparentemente a partir da brecha para o Mundo Digimon no casinhoto de Guilmon. É dado a entender nos últimos episódios de Tamers, quando a expansão acelera e surgem massas noutras grandes cidades, que o plano do D-Reaper é erradicar a espécie humana por aquecimento global.

 

Como se os humanos precisassem de ajuda nesse capítulo. O D-Reaper é apenas um catalisador. Aqui não há Greta que nos valha. 

 

EEipdoeUYAAsU2n.jpg

 

A criatura possui diversos agentes e/ou formas para levar a cabo os seus fins. A mais notável é, claro, a Juri-Type, sobre quem falámos antes, de passagem. É a única dos agentes que não possui um cordão umbilical que a una ao D-Reaper, a única que consegue funcionar longe dele. Durante muito tempo, assume uma aparência muito similar à de Juri – tirando os olhos e a palidez – que lhe permite tomar o lugar da menina entre os Treinadores e ir para o Mundo Real. Vimos antes que o seu objetivo era analisar a espécie humana. 

 

Quando Juri-Type revela a sua verdadeira natureza perante Takato, ganha formas mais monstruosas: a de uma Juri mais velha, alada, ou de uma figura feminina, também alada, mas de pele azul, olhos grandes e cabelo espetado. Parece ser ela a responsável pela tortura psicológica de Juri, pois tenta fazer o mesmo com Takato. 

 

Teoricamente, à semelhança dos outros agentes, Juri-Type não terá vontade independente do D-Reaper – que como vimos não tem código moral, não age por malícia. Mas até que ponto isso será verdade para a Juri-Type? Até que ponto pode uma criatura usar tortura psicológica para neutralizar as suas vítimas sem intenções maliciosas?

 

O D-Reaper funciona, assim, bastante bem como grande vilão da temporada, se bem que ache que a sua introdução na história poderia ter sido menos forçada. Continuo a achar que, do ponto de vista puramente do enredo e da temática, teria feito mais sentido se o Zhuqiaomon fosse o grande vilão da temporada, com intenções de exterminar a raça humana. No entanto, o D-Reaper é um vilão deveras assustador, poderoso, retorcido, fora do convencional, proporcionando alguns dos momentos mais memoráveis em Tamers. 

 

Além disso, consta que será Digimon Savers a explorar a fundo a via Mundo Real versus Mundo Digital. Tri também tentou ir nessa direção, sem grande sucesso.

 

E com isto terminamos a análise ao elenco de Tamers. Estamos quase a chegar ao fim. O próximo texto será o último – mas ainda haverá muito sobre que falar. 

Digimon Tamers #10 – As segundas linhas, o Gary Stu e a mascote

c6bfcb0d4c03f04564a7cec74070a495.jpg

 

Nesta parte da análise vamos, então, analisar personagens do lado dos bons que, na minha opinião, não justificam uma publicação individual dedicada a eles. Começando por Hirokazu e Kenta, duas adições tardias à equipa dos Treinadores.

 

Mesmo só se juntando oficialmente ao grupo na segunda metade da narrativa, Hirokazu e Kenta estão lá desde o início. São, ao que parece, os dois melhores amigos de Takato e partilham com ele a paixão por Digimon enquanto franquia. Dos três, aliás, Hirokazu parece ser o melhor no jogo de cartas – pelo menos, vêmo-lo sempre ganhando, quando joga contra Kenta. 

 

Os dois funcionam com um muito bem-vindo alívio cómico, numa temporada tão sombria como esta. No entanto, na minha opinião, não é essa a melhor utilidade deles. Conforme referi antes, os protagonistas, sobretudo Takato, possuem um grupo de apoio de crianças da sua idade. Hirokazu e Kenta acabam por funcionar como representantes desse grupo. Estão lá para apoiar. Não são a primeira linha de ataque, mas em momentos-chave fazem a diferença. 

 

Falemos de cada um individualmente. Hirokazu usa uma t-shirt estampada com um símbolo que faz lembrar o Cartão da Lealdade/Confiabilidade do universo de Adventure – e de facto acho que este seria adequado para Hirokazu. 

 

70175813_2676344059051023_1470437991439663104_n.jp

 

Para começar, o jovem obteve o seu Digimon ficando para trás, a cuidar dos seus ferimentos. Como referi acima, é leal aos seus amigos, está lá para ajudar no que pode. É certo que ele e Kenta cometeram um par de asneiras que deixaram Ruki à beira de um ataque de nervos. No entanto, em momentos de aperto, foi fundamental. Nomeadamente, quando ele mesmo desenhou uma Carta Azul, para ser usada por Takato, Ruki e Jian, e quando um ataque de Guardromon na altura certa, distrai Beelzebumon, salvando a vida a Dukemon. 

 

O jovem demonstra mesmo um altruísmo raro para a idade quando se oferece para ficar a tomar conta de Shaochung, enquanto o trio de protagonistas, juntamente com Lopmon, tenta penetrar no castelo do Zhuqiaomon. Isto sem deixar de admitir que até queria ir com eles.

 

Quantas crianças de dez anos são capazes disso? De pôr de parte os seus desejos em nome do bem comum?

 

Por outro lado, por muito boas que fossem as intenções de Hirokazu, na prática pouca diferença fez. O jovem instruíra o Guardromon para “ficar de olho” em Shaochung. A menina, no entanto, acaba por ser transportada pelo ar até ao castelo do Zhuqiaomon (mais sobre isso adiante). Quando Hirokazu ralha com o seu Digimon por não ter feito nada, Guardromon defende-se dizendo que fez exatamente o que o Treinador lhe pedira: não tirara os olhos de Shaochung.

 

‘Tadinho...

 

EE2DprSUcAAsWGh.jpg

 

Hirokazu no fundo desempenha um papel semelhante ao de Joe em Adventure. Não pertence à primeira linha de combate, atua mais na retaguarda, como apoio, como cuidador – uma contribuição mais discreta para a causa, mas não menos importante. É interessante reparar que Joe demorou quase toda a temporada original de Adventure a conformar-se com esse papel, mas Hirokazu assume-o praticamente desde que descobriu que os Digimon eram verdadeiros.

 

Na minha opinião, merecia mais crédito. 

 

Kenta cumpre um papel semelhante, se bem que contribua um bocadinho menos. É o último a arranjar um Digimon – Shaochung, que vem para o Mundo Digital depois dele, recebe o seu primeiro; Juri recebe, perde o seu e é substituída pela Juri-Type antes de MarinAngemon se juntar oficialmente à equipa. A sagração, aliás, dá-se mesmo à última hora, literalmente durante a viagem de regresso ao Mundo Real. 

 

O MarinAngemon tinha aparecido aquando da Digievolução Brilhante catalisada pelo Culumon e brincara um bocadinho com Kenta. Mais tarde, já na Arca de regresso, o pequenote surge literalmente no bolso do miúdo, juntamente com o seu recém-criado D-arco.

 

EE2DprRUUAEUH3m.jpg

 

À primeira vista, ninguém suspeitaria que aquela coisinha adorável é de nível Extremo. Mal passaria por Infantil, quanto mais Extremo! Em teoria, um Digimon que se consegue manter no nível Extremo em repouso daria a Kenta uma enorme vantagem em relação aos colegas – o safadinho nem sequer precisava de se fundir com o seu Digimon! Na prática, o MarinAngemon não gosta de lutar, prefere recorrer a ataques não-violentos – e Kenta não parece ver problemas nisso.

 

Pergunto-me se o objetivo de atribuir este Digimon a um dos miúdos era dar outra perspetiva a um dos principais conflitos em Tamers: o MarinAngemon como exemplo de um Digimon sem instintos violentos. É possível que fosse essa a ideia inicial mas que não tenha havido tempo para executá-la. É pena. 

 

Em todo o caso, MarinAngemon tem direito ao seu momento de glória com a intervenção que salva Takato das garras da Juri Type. Mais uma vez, uma ajuda muito bem-vinda, que poderá ter evitado que Takato se juntasse a Juri como refém do D-Reaper. Nos últimos episódios também foi capaz de criar uma bolha de proteção no interior do D-Reaper, permitindo que Juri fosse finalmente resgatada.

 

Em suma, não sendo as minhas personagens preferidas, longe disso, gosto bastante de Hirokazu e Kenta. Mais do que a maior das pessoas, calculo.

 

Falemos então sobre Ryo, uma personagem que, segundo consta, chegou a Tamers ainda antes de Konaka. Antes de aparecer neste universo, Ryo era o protagonista dos videojogos WonderSwann, que só foram lançados no Japão. Estes decorrem no universo de Adventure (pelo menos os primeiros, penso eu). No entanto, visto estarem a ter um tremendo sucesso em terras nipónicas, os produtores decidiram que Ryo teria de aparecer em Tamers – mesmo que tal criasse uma série de inconsistências, sobretudo para quem não estivesse familiarizado com os jogos.

 

transferir (3).jpg

 

Podem ler aqui um resumo da história dos jogos. Como poderão ler, estes cruzam os universos de Adventure e de Tamers e não se encaixa muito bem na narrativa da série de anime: nomeadamente o facto de Ryo, aparentemente, ter nascido no universo de Adventure mas ter um pai no universo de Tamers. Para evitar ficar com o cérebro em nós, prefiro esquecer que os jogos existem e considerar apenas o que decorre nesta série. 

 

Assim, Ryo era o antigo campeão do jogo de cartas, o único a derrotar Ruki (embora ninguém tenha tido a delicadeza de nos informar antes, ou de pelo menos deixar pistas). Um ano antes dos eventos de Tamers, tornara-se Treinador do Cyberdramon e emigrara para o Mundo Digital.

 

Conforme referi antes, Ryo e Cyberdramon oferecem um exemplo de Treinador-e-Digimon em que o primeiro está mais próximo da definição de domador que qualquer outra personagem. Tirando isso… eu sinceramente dispensava-o.

 

A história trata-o como um Gary Stu (a versão masculina de uma Mary Sue), o que não surpreende tendo em conta os motivos pelos quais ele aparece em Tamers. A história pinta-o como o Lendário Digitreinador, o melhor Treinador de todos os tempos. No entanto, tirando o seu companheiro Digimon particularmente violento e a sua maior experiência com o Mundo Digital, Ryo é um daqueles casos em que é o melhor porque tem acesso a cartas raras, que nenhum dos outros tem. Além de que consegue desbloquear o nível Extremo, com fusão com o seu Digimon e tudo, mas não o vemos e não sabemos quando ocorreu ao certo, nem como nem porquê. 

 

EDv-1bWXoAExGIp.jpg

 

Depois temos a parte de ser um potencial interesse amoroso para Ruki… o que me irrita um bocadinho. Não porque ache que não são compatíveis, porque até acho – tirando os quatro anos de diferença nas idades (eles que esperem até Ruki ter dezoito anos antes de as coisas se tornarem demasiado sérias). Mais porque não havia necessidade. Tamers já tem Juri com um papel proeminente como interesse amoroso de Takato. A outra protagonista feminina também precisava de um potencial apaixonado? 

 

Por fim, o final de Tamers introduz uma complicação que fica por resolver: o Cyberdramon fica sem Ryo. É possível que, nesta altura, esteja menos violento, mas quanto tempo aguentará antes de reverter para os hábitos antigos? O que acontecerá quando Cyberdramon começar de novo à procura de adversários, sem Ryo para o refrear, num Mundo Digimon em cacos após a destruição causada pelo D-Reaper? 

 

Ryo acaba por ser, infelizmente, o elo mais fraco do elenco de Tamers. Podia ter sido um bocadinho melhor escrito ou então excluído por completo. Enfim, nada que estrague demasiado Tamers. 

 

Falta, então, falar sobre Shaochung, a irmãzinha de Jian (bem, tecnicamente ainda sobram Ai e Makoto, mas eles ficam para o próximo texto). Quando escrevemos sobre o jovem, referimos que, durante muito tempo, a menina trata Terriermon como um peluche, sem suspeitar que é um Digimon verdadeiro. 

 

Se me permitem o aparte, uma dúvida: os Digimon em Tamers têm sinais vitais visíveis? Estou a pensar se Shaochung não deveria ter reparado que o seu peluche tinha batimento cardíaco, que ele respirava. Talvez os Digimon não apresentem esses sinais – ou talvez Shaochung seja demasiado nova para reconhecê-los. 

 

 

Enfim, passemos à frente. 

 

Nem sempre é divertido para Terriermon ser o brinquedo de Shaochung – suponho que não o seja para qualquer brinquedo de criança daquela idade (vide Toy Story 3) – mas este acaba por se afeiçoar à irmãzinha do seu Treinador. Acho mesmo que Terriermon gosta tanto de Shaochung como do irmão dela – da mesma forma, mesmo depois de a menina arranjar um companheiro Digimon para si, Terriermon não fica para trás no seu coração.  

 

Quando o elenco se prepara para a viagem ao Mundo Digital, ele e Jian contam a verdade a Shaochung – que é suficientemente nova para aceitar que o seu boneco preferido sempre esteve vivo. 

 

Como referimos antes, aliás, são as saudades de Terriermon que fazem com que os Digignomos tragam Shaochung para o Mundo Digital. Devo dizer que achei as cenas de Shaochung sozinha, no Mundo Digimon, muito stressantes: uma menina de sete anos, sozinha, desprotegida, num mundo recheado de criaturas com instintos violentos, algumas delas com instruções claras para matar humanos. 

 

Foi uma sorte Shaochung ter encontrado Antylamon, um membro dos Deva, e este ter engraçado com ela o suficiente para trair o seu grupo e protegê-la do Makuramon. É assim que adota Shaochung como sua Treinadora. Como castigo por se ter aliado aos humanos, Antylamon regride ao seu nível Infantil, Lopmon, que é essencialmente o Terriermon versão Shiny (coincidência? Ninguém acredita).

 

70596955_2624382004268010_6573627830859464704_n.jp

 

Como vimos antes, o irmão de início opõe-se a que Shaochung se torne Treinadora e adote Lopmon (e de facto, o Digimon demora algum tempo a perder os instintos de Deva). O que só torna as coisas ainda mais difíceis para a menina que, ao contrário de Takeru e Hikari em Adventure, reage às coisas da maneira normal para a idade dela. 

 

Chorando que nem uma desalmada.

 

E sinceramente? A primeira experiência de Shaochung no Mundo Digital, logo depois de receber Lopmon, é o combate com Beelzebumon. Até eu choraria que nem uma desalmada naquelas circunstâncias!

 

Depois de derrotado Beelzebumon, a jogada seguinte é invadir o castelo de Zhuqiamon, onde os Treinadores pensam que o Culumon está aprisionado. Como Lopmon conhece o castelo, já que servira como guarda do mesmo enquanto Deva, o Digimon é presença obrigatória no grupo de invasão. Quando Jian ordena à irmã que fique para trás, ela chora – outra vez.

 

Ora, é certo que há muito de birra de criança nos protestos de Shaochung, na sua determinação em ir com o irmão e com Lopmon, mas acho que ninguém quereria ficar para trás enquanto o seu companheiro Digimon vai para uma situação perigosa. Sobretudo tão pouco tempo depois da perda de Leomon. 

 

DcRQLPEXUAEV7yl.jpg

 

Da mesma forma, Jian exagera na rispidez, mas lá está, não está errado em considerar que a situação é demasiado perigosa para a irmã.

 

A discussão acaba por não fazer grande diferença, pois Shaochung é transportada para o castelo assim que percebe que Lopmon corre perigo. O facto de a menina ser capaz de usar o seu D-arco para ver através dos olhos do seu Digimon é altamente conveniente. A presença de Shaochung no terreno de batalha acaba por servir de motivação extra para Jian e, sobretudo, Terriermon desbloquearem o MegaloGrowmon.

 

Shaochung e Lopmon fazem um par engraçado. Por um lado, temos uma típica menina de seis anos, alegre, relativamente despreocupada. Do outro, temos um Digimon com a maturidade bem superior à de uma criança, falando com o tom formal de quem passou muito tempo – talvez a vida toda – a servir figuras divinas. Na minha opinião, o par funciona e é interessante.

 

A inocência de Shaochung permite-lhe sobreviver à guerra com o D-Reaper sem grandes traumas. Isso e o facto de não estar no terreno tantas vezes como os outros Treinadores, devido à sua idade. Uma vez mais, a menina vale-se da visão de Antylamon via D-arco para contribuir para a luta – é assim que descobre, por exemplo, que Beelzebumon e Culumon se tinham infiltrado no interior o D-Reaper.

 

Mesmo sem a sua Treinadora por perto, Antylamon ajuda os outros Digimon nos combates contra o D-Reaper. Ryo a certa altura oferece uma carta a Shaochung, em recompensa pela sua ajuda, e quando a menina a usa, a sua sequência de Carta Escolhida é pura e simplesmente adorável! 

 

2.png

 

É uma pena ela e Antylamon terem ficado de fora da batalha final contra o D-Reaper. De qualquer forma, Shaochung merece crédito pois a sua atitude alegre e inocente dá alguma leveza a uma temporada tão sombria como esta.

 

Ainda assim, o maior contribuinte nesse capítulo não é ela, é Culumon. O Digimon que serve de mascote a Tamers e que me roubou o coração desde o primeiro minuto. Durante muitos anos, o Togepi foi a criatura mais fofa que alguma vez vi em animação. Mas a verdade é que não tem olhos grandes, orelhas que se encolhem e esticam  não termina a suas frases com “culu” (ou “calu”, na dobragem portuguesa). 

 

Durante o episódio em que Takato anda à procura de um Treinador para ele, eu só dizia: 

 

– Escolhe-me a mim! Escolhe-me a mim! Eu tomo bem conta do Culumon! Jogo futebol com ele e tudo!

 

Mas a verdade é que o Culumon nunca adota ninguém como Treinador. Acaba por ser o companheiro Digimon de toda a gente e de ninguém em particular. 

 

 

Isto porque Culumon não é um Digimon como os outros – há quem não o considere um Digimon sequer. Nunca o vemos a lutar, mas está sempre lá quando ocorrem digievoluções (bem, quase sempre). Takato é o primeiro a somar dois e dois – mas quando o faz, já o Makuramon lhe tinha deitado as mãos e levado-o para o Mundo Digital.

 

Culumon é o catalisador da digievolução no universo de Tamers. É a luz da digievolução feita carne pelo Qinglongmon, uma das Bestas Sagradas. Este permite que Culumon fuja para o Mundo Real, para que escape às garras do D-Reaper, evitando que este o use para acelerar o seu crescimento… e no entanto Zhuqiaomon, outra das Bestas Sagradas, envia agentes ao Mundo Real para raptar Culumon. A ideia é que o pequenote use os seus poderes para ajudar vários Digimon a digievoluírem, para poderem enfrentar o D-Reaper.

 

Confusos? Eu também. Havemos de regressar a esse assunto noutro texto desta análise.

 

Tal como Shaochung, mesmo perante todos os eventos de Tamers, mesmo depois de raptado, Culumon nunca perde os seus modos inocentes e amigáveis. E o pequenote é irresistível para qualquer um – é um dos que ajuda Ruki a abrir o seu coração, torna-se BFF de Guilmon, Terriermon, aguenta o bullying de Impmon e até o diabrete acaba por se tornar amigo dele. Sobretudo quando emparceiram no resgate a Juri.

 

Aliás, o maior contributo de Culumon para a luta contra o D-Reaper foi ter ficado ao lado de Juri e, como vimos no texto anterior, ter-lhe salvo a vida.

 

1517834957445.jpg

 

Eu na verdade fico surpreendida por tão pouca gente falar do Culumon quando se fala sobre Tamers. O pequenote é subvalorizado, na minha opinião.

 

No próximo texto, por outro lado, vamos falar sobre uma personagem que definitivamente não é subvalorizada. Pelo contrário, é capaz de ser a melhor personagem de Tamers (se não for de todo Digimon enquanto franquia). Fiquem por aí...

Pesquisar

 

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Sofia

    Missão cumprida, ah ah! Piadas à parte, não é prec...

  • Anónimo

    eu estou completamente v-i-c-i-a-d-o nas suas anal...

  • Anónimo

    Nada, eu que agradeço por você analisar tão bem. S...

  • Sofia

    Muito obrigada pelos elogios, significam mais do q...

  • Dimitri Gabriel

    Sofia, em primeiro lugar quero lhe parabenizar pel...

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D

Segue-me no Twitter

Revista de blogues

Conversion