Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Avril Lavigne – Head Above Water (2019)

rs_1024x1024-180918113415-1024.avril-lavigne.91818

(Eu tinha dito que ia fazer este meme...)

 

Avril Lavigne lançou, no passado dia 15 de fevereiro, o seu sexto álbum de estúdio, intitulado Head Above Water. Conforme comentámos antes, este é o primeiro disco que a cantautora lança em mais de cinco anos – uma boa parte deles passados debatendo-se com a Doença de Lyme.

 

Como poderão ler aqui, da última vez que Avril tinha lançado um álbum, o meu parecer foi misto. Ao longo destes cinco anos, admito, tive flutuações na minha opinião. Funciona bem como álbum pop, feel-good, para entreter, para cantar no carro – quer os temas mais animados, quer as baladas. Não representou uma grande evolução no som de Avril, mas incluiu uma ou outra experiência bem sucedida. E Hello Kitty…

 

Não é um mau álbum, mas eu na altura queria algo com mais substância.

 

Sendo o sucessor ao álbum homónimo o primeiro que Avril lança após sobreviver a uma doença grave, seria de esperar que estivesse mais satisfeita com Head Above Water, descrito por ela como o seu mais pessoal até ao momento. E estou.

 

Bem, mais ou menos.

 

 

Antes de começarmos, e já que falamos do quinto álbum, uma curiosidade: depois de ter ouvido Avril Lavigne, o álbum, pela primeira vez enquanto passava um fim de semana em Vila Viçosa, voltei a estrear um álbum novo dela em viagem. Desta feita foi em Bilbau. Tal como aconteceu com o quinto álbum e com a Capital do Mármore, Head Above Water há de ter sempre um saborzinho ao País Basco, ao Museu Guggenheim.

 

Seria giro se conseguisse manter essa tradição: marcar viagens para os dias em que a Avril lança álbuns.

 

Mas falemos de Head Above Water em si. O álbum abre com a faixa do mesmo nome, que também serviu de primeiro avanço. Conforme vimos antes, terá sido a primeira música que Avril compôs para este álbum, inspirada por um momento em que a cantora pensava que estava a morrer. Head Above Water acaba por representar bem o álbum a que dá o nome. Várias músicas apresentam estruturas parecidas, sobretudo na primeira metade do álbum.

 

Uma das minhas preferidas é It Was in Me. Se a ouvirem, acho que percebem porquê: é muito parecida com I’m With You. Na parte musical, sobretudo, mas não só.

 

 

A instrumentação assemelha-se a uma versão moderna da grande balada de Let Go, com o piano a conduzir e um carácter um tudo nada etéreo. A estrutura melódica é semelhante à de I’m With You: estâncias em tom grave, refrão e terceira parte em tons agudos. A música vai ao extremo de, à semelhança da música de 2002, ter uma parte em que o instrumental diminui, Avril canta parte do refrão em tom baixinho para, depois, clamar “It was in me! It was in me!” com uma melodia idêntica à de I'm With You.

 

Até mesmo na temática It Was in Me é parecida com a grande balada de Let Go. Calhou bem ter escrito há pouco tempo sobre I’m With You e outras canções à volta do tema de estar à procura de algo: de companhia, de respostas, de um sentido para a vida. De sítios perfeitos.

 

It Was in Me também pega nesse tema. A narradora procura respostas por todo o lado: em festas, em bens materiais, noutras pessoas.

 

No fim, a resposta estava dentro de si: nas pequenas coisas, na sua espiritualidade, na sua relação com Deus, em si mesma. Dezassete anos depois de I’m With You (metade da vida dela, vejo agora), Avril já não tem medo de estar sozinha. Consegue “sentir-se eufórica enquanto sóbria (infelizmente não existe nenhuma tradução literal para “high”. Apenas “pedrada” e não é cem por cento exata), jovem enquanto velha” sem ajudas exteriores. 

 

PhotoGrid_1540328149309.jpg

 

Mesmo antes de Avril o confirmar em entrevista no outro dia, já suspeitava que ela estava a tentar recriar a magia de I’m With You. A música até foi co-composta por Lauren Christy, que costumava fazer parte do The Matrix! E hão de reparar na curiosa abundância de “yeah-yeah”s neste álbum.

 

Não acho que tenha sido uma má ideia. Para além de ser uma boa sequela a I’m With You, na minha opinião, é uma das melhores músicas de Head Above Water. E é, sem sombra de dúvida, a letra mais madura que Avril alguma vez escreveu até ao momento.

 

Por sua vez, Warrior foi um dos primeiros títulos de que Avril falou – há cerca de dois anos, conforme podem ver aqui.

 

É uma música linda, embora seja demasiado parecida com Head Above Water para o meu gosto: conduzida pelo piano, com os violinos a acompanhar e a interpretação emotiva de Avril.

 

Na verdade, não consigo decidir se gosto mais da versão oficial ou da versão demo, que apareceu na internet no mesmo dia em que o álbum saiu. A demo tem um tom mais intimista, tem mais personalidade própria, não parece tanto uma Head Above Water parte 2 – já ajudava terem dispensado a percussão. Por outro lado, gosto mais da terceira parte da versão do álbum – mas eu teria conservado o crescendo de violinos da demo. E, claro, a versão oficial está melhor produzida, possui melhor qualidade de som.

 

 

A letra não é má, está acima da média no que toca à discografia da Avril, mas ela vai para todas as metáforas óbvias, tornando a canção demasiado genérica. Já de si é vulgaríssimo chamar “guerreiros” a pessoas com doenças graves, sobretudo cancro, e Warrior não se eleva acima desses clichés. Fica a ideia que qualquer um podia ter escrito esta letra.

 

Vou dizer, no entanto, que gosto do verso “I’ve got a whole damn army”: um exército do qual fazem parte a família de Avril, os seus amigos e, claro, nós, os fãs. Conforme escrevi aqui no blogue há pouco tempo, julgo eu, o mais importante são as pessoas, sobretudo em alturas difíceis como estas.

 

E são estas as músicas inspiradas pela Doença de Lyme (bem, It Was in Me mais ou menos). Sim, apenas três músicas.

 

Bem, mudando um pozinho ou outro, Birdie podia aplicar-se ao Lyme. A letra fala da sensação de prisão, de nos sentirmos um animal numa jaula, um pássaro numa gaiola (lá está). Podia ser sobre a doença que a confinou a uma cama durante longos períodos de tempo ao longo de dois, três anos, mas a letra alude mais a uma relação amorosa. Talvez o seu casamento falhado com Chad Kroeger, talvez a relação tóxica de que fala noutras músicas.

 

 

Em termos de instrumentação, Birdie não difere muito das músicas que falámos antes. Por outro lado, em termos de estrutura da melodia, foge um pouco à fórmula da larga maioria do álbum, sobretudo no que diz respeito ao refrão. Tem ainda uma aura de melancolia que joga bem com a letra.

 

Em suma, não sendo das minhas preferidas neste álbum, é certamente uma das mais interessantes e únicas.

 

Outra música que aborda relações disfuncionais é I Fell In Love With the Devil. Produzida pela própria Avril, esta faixa possui um tom inesperadamente gótico e dramático, cortesia do piano e dos violinos. Parece uma música retirada do Under My Skin, sem guitarras elétricas, com um carácter mais maduro e moderno.

 

A condizer com a parte musical, a letra é dramática, mesmo melodrámatica. Não que fosse de esperar outra coisa de um título como I Fell in Love With the Devil. Descreve uma relação tóxica, da qual a narradora parece incapaz de sair sozinha. A letra usa imagens de Céu e Inferno, anjos e demónios – melodramático, lá está, mas funciona dentro da sonoridade.

 

 

Não sendo uma das minhas preferidas, é outra canção interessante. Nos primeiros dias após a edição do álbum, era a mais reproduzida no YouTube. Não surpreende: três quartos da comunidade de fãs venera Under My Skin e I Fell in Love With the Devil parece ter sido criada de propósito para eles.

 

Tell Me It’s Over também aborda uma relação disfuncional, como vimos antes. Ouvindo-a no contexto do álbum é um destaque claro: boa letra, boa sonoridade (tirando a batida irritante), bom desempenho vocal. Foi uma boa jogada lançá-la como single em dezembro – houve quem a descrevesse como uma música de Natal triste. Existem outros temas com influências soul em Head Above Water, como veremos adiante, mas Tell Me It’s Over é de longe o melhor.

 

Praticamente todos os álbuns de Avril, sobretudo os mais calmos e pessoais, como este, possuem pelo menos um outlier. Neste caso, este é Dumb Blonde. Na minha opinião, sendo Head Above Water um álbum mais homogéneo que o costume, nota-se mais a diferença. Também não ajuda o facto de Dumb Blonde estar a meio da tracklist – aquando de Goodbye Lullaby, por exemplo, tiveram o bom senso de colocar What the Hell logo no início.

 

Dumb Blonde era mais ou menos o que eu calculava que fosse, mal saíram as primeiras pistas sobre a múscia. Com uma batida “roubada” a Hollaback Girl, mais prevalente no início, acaba por ganhar mais personalidade após a primeira estância. A minha parte preferida é o pós-refrão, gosto imenso dos vocais.

 

 

Sendo tão contagiante como qualquer outro single pop da discografia da Avril, a letra por outro lado é melhor que o habitual para este estilo. Terá sido inspirada por um idiota qualquer que acusou Avril de ser, lá está, uma loira burra. Avril vingou-se assim. O “braggadocio” em Dumb Blonde lembra um pouco certas músicas do The Best Damn Thing e vai ainda mais longe: é a primeira vez que Avril se gaba do dinheiro que ganha, dos discos de Ouro e Platina (gaba-te enquanto podes, querida…).

 

Dumb Blonde está longe de ser um hino feminista revolucionário, mas sempre tem alguma mensagem, algum significado, o que a coloca num nível acima das Girlfriends e Hello Kittys desta vida.

 

Dumb Blonde possui várias versões. Quando foi lançada como single, uns dias antes do lançamento do álbum, por exemplo, veio com um rap de Nicky Minaj.

 

Nós os fãs só soubemos da colaboração uns dias antes. Ninguém estava à espera. Parece-me óbvio que esta foi uma decisão de última hora, talvez para que a música descole (não parece estar a resultar…). Muitos de nós andavam nervosos, como seria de esperar, por um lado. Por outro, tanto Nicky como Avril trocaram elogios nas redes sociais, o que foi agradável – quando a Comunicação Social gosta tanto de virar cantoras umas contra as outras.

 

 

A participação de Nicky não é má mas, na minha opinião, era desnecessária. Gosto mais da versão a solo. Não a versão que aparece no CD, a versão explícita que, tanto quanto sei, não foi lançada oficialmente. Fico um bocadinho chateada por essa não aparecer pelo menos no CD. Não sou nenhuma criancinha, estou habituada aos “fucks” e “shits” desta vida na música.

 

Tudo isto para dizer que, para o típico single “radiofónico” semelhante a Girlfriend, Dumb Blonde não é má. É certamente melhor que Hello Kitty – o que não era difícil, sejamos sinceros.

 

O resto do álbum consiste em canções de amor (bem, mais ou menos no caso de Bigger Wow). Cinco de seguida, na verdade. A primeira, Souvenir, é a minha preferida – uma das minhas preferidas em todo o álbum, aliás, cativando-me logo nas primeiras audições.

 

Isto acontece-me em todos os álbuns de Avril, mesmo que até nem goste dos álbuns a cem por cento, mesmo que tenha vários defeitos a apontar (e Head Above Water é um desses casos, como veremos adiante). Existe sempre pelo menos uma faixa que me agarra pelo coração, contra toda a racionalidade. Muitas vezes é uma das faixas que mais passam despercebidas, de que Avril menos fala, que menos atenção recebe dos fãs.

 

 

Nada disto acontece com outros artistas ou bandas. É um dos motivos pelos quais ela continua a ser a minha preferida, mesmo passados estes anos todos, mesmo que tenha algumas reservas relativamente aos seus álbuns mais recentes.

 

Continuo a achar que Souvenir tem argumentos a seu favor. Na minha opinião, esta é a 17 de Head Above Water: uma música com um tom primaveril/estival, muito alimentada a nostalgia. Souvenir é, aliás, um romance de verão em forma de música – não apenas pela letra. A guitarra acústica e os discretos elementos eletrónicos dão vida aos cenários idílicos que a canção descreve.

 

Eu, aliás, quero viver para sempre naquele refrão agridoce. Numa das primeiras noites após o lançamento do álbum, estive um bom bocado deitada, ouvindo Souvenir em repetição, de lágrimas nos olhos. A música faz-me desejar passar férias num lugar paradisíaco, longe da minha vida habitual – de preferência sem Internet. O romance de verão seria opcional.

 

Mais uma vez, é raro encontrar uma canção que tenha esse efeito em mim: capaz de me levar às lágrimas, de me arrancar do aqui e agora.

 

A letra de Souvenir fala, assim, de um romance de verão que está a terminar. A narradora brinca com a ideia de manter o contacto depois das férias, de repetir a história no verão seguinte, talvez mesmo tornar a relação permanente.

 

51822119_2028768680505340_7596586970868875264_n.jp

 

É um sentimento bonito, mas a verdade é que nem sempre estes romances sobrevivem à rentrée, ao regresso à rotina, ao mundo real.

 

Curiosamente, uma das músicas que vazaram no dia em que o álbum saiu, In Touch, cuja letra aborda o mesmo tema por outras palavras. Provavelmente foi uma primeira versão de Souvenir. Ainda bem que foi excluída da tracklist que, na minha opinião, Souvenir é muito melhor.

 

Esta é, então, mais de uma canção de amor, é uma canção romântica, idílica. Um pouco como Run Away With Me, se formos a ver.

 

Se Souvenir é uma canção de amor idílica, Goddess é uma canção de amor mais apoiada na realidade. É uma balada acústica fofinha, mais ritmada que Falling Fast (a percussão resulta de bater com os dedos nas cordas na guitarra). Lembra-me um bocadinho 23, da Shakira. Também faz pensar em noites ao ar livre, à volta de uma fogueira, com alguém a tocar guitarra.

 

Há muita gente a implicar com a rima de “pajamas” com “bananas”, não sem alguma razão. A mim não me incomoda muito porque o inglês não é a minha língua nativa e, em português, pijama até rima com banana. Eu até gosto, pois dá um carácter adorkable à música, na minha opinião.

 

 

Além disso, sejamos sinceros, esta é a mulher que começou uma canção com “He was a boi, she was a girl” e outra com “Singing Radiohead at the top of our lungs” – até eu sei que a música dos Radiohead não é do género que se cante a plenos pulmões. Contestação a esse verso parece-me bem mais compreensível que uma mera rima forçada.

 

Tirando isso, gosto bastante da letra de Goddess (apesar de, por vezes, cair em clichés). Ao contrário de todas as outras canções de amor neste álbum, esta até parece relacionar-se com a Doença de Lyme, pelo menos em parte.

 

Recordemo-nos que Avril passou uma boa parte de dois anos presa a uma cama. Em certos momentos, segundo declarações da mesma, nem conseguia lavar os dentes – quanto mais pentear-se, depilar-se, maquilhar-se. A última deve ter sido particularmente difícil para Avril, que já confessou ser viciada em maquilhagem, sentir-se nua sem o seu característico smokey eye.

 

Não admira, assim, que Avril refira que o seu amado a ache atraente de pijama, que ache o seu corpo perfeito, numa canção de amor. Qualquer mulher tem essas inseguranças: “Será que ele ou ela me vai achar bonita sem maquilhagem? Ou se ganhar uns quilos? Ou quando estiver doente ou velha?”.

 

19-guardian-39.jpg

 

É certo que é mais fácil a Avril parecer sexy de pijama – ela tem acesso a muitos mais produtos e tratamentos cosméticos que nós, simples mortais. Mas também a sociedade faz de tudo para que as mulheres nunca se sintam suficientemente bonitas. Diz-se, aliás, que as modelos são das pessoas mais inseguras que existem.

 

Isto tudo para dizer que, se alguém vos acha atraente mesmo quando não estão no vosso melhor, esse alguém é pelo menos um forte candidato a pessoa certa para vocês.

 

As outras canções do álbum, infelizmente, não me impressionam assim tanto. Estou com dificuldades em decidir se gosto ou não de Crush (que também foi um dos primeiros títulos a ser revelado). Por um lado tem influências soul/jazz interessantes, à semelhança de Tell Me It’s Over, mas a música é demasiado lenta para o meu gosto. Além de que a letra não lhe faz favores nenhuns.

 

O mesmo se passa com Love Me Insane. O instrumental tem alguns elementos interessantes: o piano tem um carácter algo retro, faz-me lembrar Easy, dos Commodores. Também gosto dos violinos. Tirando isso, no entanto, a música acrescenta muito pouco: a letra reutiliza o tema de Crush e o desempenho vocal não é nada por aí além. Esta podia ter sido uma b-side.

 

Uma coisa em que reparei neste álbum é a mania de Avril de criar refrões circulares. Estes começam com a palavra ou expressão que dá o título à música e terminam com a mesma expressão, ou com uma pequena variação. Por vezes, repete esse título algumas vezes, acompanhando-o com monossílabos do género “yeah-yeah”. Esta última é uma tendência que herdou do álbum homónimo e que, sinceramente, já cansa. Isso e os refrões circulares fazem com que as músicas pareçam demasiado forçadas. Não sou fã.

 

 

Bigger Wow inclui esses dois pecados – embora eu até goste dos “Na na na”, ficam no ouvido. Encaixaria bem no álbum homónimo. Mais uma vez, a sonoridade tem elementos interessantes, nomeadamente os violinos mas, mais uma vez, tirando isso, é uma música mediana.

 

O tema, então, já tem barbas na discografia da Avril: é mais uma canção sobre aproveitar a vida, viver experiências fortes e tal. A ironia é que este é um tema que Avril parece adotar por defeito, à semelhança das canções de amor e desgosto.

 

E a verdade é que um Bigger Wow é exatamente aquilo que me fica a faltar, quando acabo de ouvir este álbum.

 

Antes de partirmos para as alegações finais, uma palavra rápida para as tais faixas que vazaram no dia do lançamento oficial. Eu assumo foram excluídas do álbum. De uma maneira geral, acho que foram bem excluídas. As únicas de que gosto são de Break It So Good e o cover de I Want What I Want, mas não sei se se encaixariam muito bem em Head Above Water. Pode ser que pelo menos Break It So Good saia numa edição Deluxe do álbum ou algo assim.

 

Não me interpretem mal, não acho que Head Above Water seja mau. Pelo contrário, todas as músicas têm um aspeto positivo, por pequeno que seja. Ainda assim, estava à espera de mais.

 

avril-lavigne-tell-me-its-over-2.jpg

 

Como referi antes, muitos artistas de que gosto passaram por experiências difíceis nos últimos anos. A única vantagem foi terem criado ótima música inspirada por isso: After Laughter, My Indigo, Post-Traumatic, mesmo 13 Voices. Lorde, então, criou uma autêntica obra de arte a partir de algo tão trivial como um primeiro desgosto de amor… mas também é injusto comparar Lorde com quem quer que seja.

 

Olhemos para o álbum que Avril lança agora, após viver os piores anos da sua vida: só três músicas abordam diretamente as causas desses maus anos. Pelo menos uma delas – Warrior – podia ter sido composta por qualquer outra pessoa.

 

O resto do álbum consiste nos mesmos temas de amor e desgosto que apareceram em literalmente todos os outros álbuns da Avril, ainda que com outras roupagens – e, vá lá, letras melhorzinhas.

 

Quando a tracklist de Head Above Water foi revelada, pensei que Warrior tinha sido deixada para o fim para funcionar como epílogo. Talvez até fosse essa a intenção. No entanto, não funciona pois sure após cinco canções de amor de seguida. Quando finalmente se ouve Warrior, uma pessoa já quase se esqueceu que Avril esteve doente.

 

Por outras palavras, Avril viveu os piores anos da sua vida e isto é o melhor que ela consegue fazer?

 

QlFScpXR_400x400.jpg

 

Fico desiludida porque, se nem após o Lyme Avril consegue sair do registo que tem mantido nos últimos dois, três álbuns, a contar com este, é pouco provável que alguma vez o faça. Head Above Water acaba por ter falhas parecidas com as do álbum homónimo: falta a originalidade que caracterizava Avril no início da sua carreira.

 

Em defesa de Avril Lavigne, o álbum, no entanto, este não tentava ser o que não era. Assumia não ser um disco demasiado sério e introspetivo. Por sua vez, Avril tem tentado vender Head Above Water como o álbum mais pessoal e honesto da sua carreira. Se isto é o reflexo da sua personalidade, das suas crenças, da sua vida interior… tenho pena, mas ela não é assim tão interessante.

 

É certo que, mesmo que lhes falte profundidade e originalidade, as músicas de Head Above Water terão ajudado Avril a lutar contra a sua doença – nem que tenha sido apenas por lhe terem dado um motivo para se levantar da cama, apenas como escapismo. Eu, aliás, sinto-me um bocadinho hipócrita pois também tive períodos nos últimos anos – alguns deles, curiosamente, até poderão ter coincidido com as piores fases da Doença de Lyme da Avril – em que a minha escrita e os meus blogues eram as únicas coisas que davam sentido à minha vida. E eu não escrevia sobre os motivos da minha vida não fazer sentido! (Nem sobre quase nada que diga respeito à minha vida pessoal, na verdade…)

 

A própria Avril tem dado a entender, nalgumas entrevistas, que não gosta de falar muito sobre a sua doença. Mas acaba por entrar em contradição consigo mesma, ao descrever este álbum como “pessoal, íntimo, dramático, cru, poderoso”… quase sem cantar sobre o motivo de ter passado pelos piores anos da sua vida.

 

46999084_1922799904435552_9042704963398008832_n.jp

 

Ainda assim, mesmo que, na minha opinião, Avril não explore a luta contra o Lyme como deve ser, Head Above Water tem sido suficiente para tocar outras pessoas afetadas pela doença, o que não é de desprezar. E ainda que ache que músicas como Head Above Water e sobretudo Warrior são demasiado genéricas para o meu gosto, a vantagem é que qualquer pessoa com uma doença grave ou com outra situação difícil pode identificar-se com elas.

 

Existem outras coisas de que gosto em Head Above Water, aliás. Em termos vocais, este é capaz de ser o melhor de Avril até agora, para começar. Além disso, Head Above Water confirma a tendência de melhoria em termos de letras que começou com o quinto disco. E eu até gosto deste estilo mais adulto, ainda que não com grande profundidade.

 

Não sei se esse se vai manter em álbuns posteriores, se ela vai regressar ao pop rock mais juvenil em discos futuros. O tempo dirá, suponho eu.

 

O que é certo é que eu vou gostar de praticamente tudo o que a Avril criar, mesmo que nem sempre a cem por cento, mesmo que tenha vários defeitos a apontar. Foi o que aconteceu com os primeiros seis álbuns dela, não estou a ver as coisas a mudarem. Estou satisfeita por termos Head Above Water, apesar de tudo, e quero que ela continue a fazer música.

 

DtbVsdDVsAIwGwm.jpg

 

O pior é que, no que toca ao meu nicho musical, temo que ela acabe por ganhar um estatuto parecido àqueles funcionários mais velhos numa empresa. Ninguém os despede pois, apesar de hoje não darem muito para a caixa (embora, de vez em quando, façam um ou outro brilharete), eles fizeram muito pela empresa antes e estão gratos por isso. Mas toda a gente sabe que, hoje, são os trabalhadores mais recentes que obtém os melhores resultados

 

E não devia ser assim. Isto aceitava-se se falássemos de alguém como Bryan Adams, por exemplo. Ele está perto dos sessenta (!!!) e, hoje em dia, praticamente só lança álbuns como desculpa para ir em digressão. Mas a carreira da Avril ainda vai a meio. É demasiado cedo para ter este odor (ainda ligeiro, mesmo assim) a estagnação.

 

Pode ser que isso mude em álbuns futuros. Pode ser que ela tente fazer algo diferente daqui a dois ou três anos. Neste momento, quero ver como é que a minha opinião em relação a este álbum evolui nos próximos meses. Depois farei uma atualização nos textos de fim de ano.

 

Quanto a nós, já estou a escrever a minha análise a My Indigo – finalmente! Temos também os novos álbuns dos Within Temptation e de Bryan Adams, mas ainda não sei quando escreverei sobre eles. Nem sei se vou escrever sobre Shine a Light, para ser sincera.

 

Na verdade, estou a planear um mega projeto aqui para o blogue (julgo já ter falado dele antes). Ainda precisa de muita preparação, deve demorar algumas semanas, se não forem meses. Mas estou ansiosa por começar a escrevê-lo!

 

Obrigada, mais uma vez, pela vossa visita.

 

Pokémon através das gerações - La belle Kalos #1

Hoje retomamos a série "Pokémon através das gerações". Eu queria falar sobre Pokémon X e Pokémon Y no mesmo texto, mas exagerei um bocadinho e o Sapo Blogs literalmente não me deixou publicar aquela monstruosidade. Assim, a análise a estes jogos virá em duas partes. Esta é a primeira, a próxima vem amanhã.

 

IMG_20170306_1238851_HDR.jpg

 

Depois de ter falhado a quarta e a quinta gerações dos jogos Pokémon, desta feita pude acompanhar o lançamento da sexta geração, desde os primeiros anúncios revelando os starters e os Lendários-mascote. Não cheguei a jogá-los eu mesma até alguns meses depois do lançamento de Omega Ruby e Alpha Sapphire, mas ia vendo “Let’s play”'s no YouTube. Não é de todo a mesma coisa que jogar nós mesmos, mas sempre dá para ficar com uma ideia

 

A sexta geração foi a primeira a ser hospedada pela Nintendo 3DS. Como tal, veio com uma impressionante melhoria estética. O tema da geração, aliás, é precisamente “beleza”.

 

Eu gosto em particular dos gráficos em 3D. Era algo que eu desejava para os jogos principais havia cerca de uma década – desde que combatera contra um amigo meu no seu jogo de Pokémon Colosseum, usando a minha equipa da FireRed. Os Pokémon tornam-se completamente diferentes quando ganham três dimensões. Os criadores deram-se ao trabalho de dar animações únicas a cada um dos setecentos e vinte e um Pokémon – fazendo com que ganhassem uma camada extra de personalidade.

 

Por exemplo, já referi aqui no blogue que os gestos elegantes da Gardevoir fizeram-me gostar ainda mais dela. Adoro, também, a maneira como o Torchic corre de volta para o seu lugar, depois de um ataque.

 

part_5__what_s_up_unova__by_justlex-d62gvjq.jpg

  

Por outro lado, adiantando-me um pouco à sexta geração, o efeito estende-se a Pokémon Go, já que o jogo reutiliza as animações destes jogos. Alguns exemplos de que me lembro agora são a Roselia – que, de vez em quando, faz gestos de menina de claque – o Hitmontop – que parece estar a dançar –  e o Snorunt – que se tornou irresistível ao aparecer a tremer de frio.

 

Adiantando-me ainda mais, quando saiu o vídeo que apresentava os segundos estágios dos starters de Sun/Moon, acho que não teria achado tanta graça ao Dartrix e, sobretudo, à Brionne (que tem um desenho um pouco deslavado) se não fossem as animações de combate e do Pokémon Refresh.

 

O que nos leva a uma das funcionalidades introduzidas nesta geração: o Pokémon Amie. Esta é parecida com o Nintendo Dogs – essencialmente fazemos festinhas aos Pokémon e alimentamo-los com queques (que ganhamos jogando mini-jogos). Se o fizermos vezes suficientes, os níveis de afeição aumentam, trazendo vários benefícios.

 

  

Não surpreende que tenham criado esta funcionalidade. Afinal de contas, a larga maioria dos Pokémon são criaturas engraçadas, equivalentes a animais de estimação (embora mais inteligentes, pelo menos no meu headcannon). Dito isto, uma coisa é fazer festinhas a um Eevee, um Pikachu, mesmo a um Absol ou a um Charizard. Quando começamos a fazer festinhas a um Pokémon como um Jynx, ou a um Lendário como o Mewtwo, torna-se esquisito – embora o Pokétuber TrueGreen7 tenha uns vídeos irresistíveis sobre isso, como podem ver acima.

  

Tirando essa parte, na minha opinião, o Pokémon Amie é uma funcionalidade muito bem vinda. Não só por nos dar mais maneiras de interagirmos com os nossos Pokémon, mas também pelos benefícios em combate. Um Pokémon com afeição elevada provoca alterações no diálogo do combate, faz mais critical hits, pode desviar-se de ataques ou, então, evitar ser derrotado por 1 HP – tudo por amor a nós.

 

Uma das primeiras vezes que isto aconteceu comigo e com a minha irmã foi da primeira vez que jogámos (mais ou menos a meias) Alpha Sapphire. A certa altura, andei a brincar com o Blaziken dela no Pokémon Amie. Mais tarde, quando ela estava a combater contra o Steven, já no último Pokémon, o Blaziken aguentou um ataque ficando apenas com 1 HP. Pôde, portanto, dar o golpe final para a vitória depois dessa.

 

Um aparte rápido só para referir que comprámos Alpha Sapphire na mesma altura em que adótamos a Jane, a nossa cadela. Eu ainda estava na fase de adaptação e sentia-me culpada por andar com mais vontade de fazer festinhas a criaturas virtuais e não à minha cadela, de carne, osso e muito pêlo.

 

8b020fe94cfc71f42fcd927fd752eedc.jpg

  

Hoje, obviamente, já não tenho esse problema. Hoje em dia, uma coisa que faço é usar o Amie e o Refresh para provocar ciúmes à Jane. Ponho-me a dizer coisas como “Ah que menino bonito! Queres festinhas?”, ela pensa que estou a falar com outro cão e ladra.

 

Fechando o aparte, estes benefícios do Amie podem ser considerados facilitismo, não sem razão. Ainda assim, pelo menos nesta geração, usar o Amie dá algum trabalho, torna-se moroso e entediante – sempre compensa o colinho que o jogo dá.

 

Além disso, é bom para a parte sentimental. Olhemos para a situação de que falei neste texto, que fez com que o Vaporeon se tornasse o meu Pokémon preferido. Alguns de nós, se calhar, imaginavam que estas coisas ocorriam porque os Pokémon em questão gostavam mesmo de nós. Na minha opinião, foi uma boa jogada transformarem isso numa funcionalidade dos jogos.

 

Havemos de voltar a falar de facilitismo mais à frente. Conforme disse antes, a sexta geração foi a primeira em que experimentei a parte online dos jogos. Não fiquei desiludida. Muitos dizem mal do GTS, não sem razão – eu fico impressionada pela lata das pessoas que oferecem um Magikarp em troca de um Mewtwo. No entanto, se propusermos trocas decentes – isto é, oferecermos Pokémon de valor/raridade equivalente ao que queremos – a coisa funciona bem.

 

18809613_1902645163281336_3142023852700205056_n_b4

  

Uma novidade nesta geração é o Wonder Trade, em que as trocas são feitas ao calhas, é uma lotaria completa. Eu acho super divertido, chega a tornar-se viciante. É certo que, na maior parte das vezes, só obtemos Pidgeys ou equivalentes, mas de vez em quando apanham-se coisas interessantes, como Pokémon com bons IVs ou Egg Moves.

 

Eu, por exemplo, afeiçoei-me a uma Lopunny que recebi, com o Fire Puch, o Ice Punch e o Thunder Punch. Também já me calharam um par de shinies, o que é sempre fixe, um Volcarona em troca de um Baltoy de nível 1 (numa altura em que este ainda não tinha sido lançado oficialmente) e um Slakoth chamado… Lay-Z (melhor alcunha de sempre!).

 

Outra funcionalidade de que gosto muito é do Pokémon Bank – que me permitiu, pela primeira vez em imenso tempo (se não for desde sempre), reunir Pokémon de várias gerações no mesmo sítio. Neste momento, tenho Pokémon da quinta à sétima geração – e só não tenho da primeira e da segunda porque ainda não completámos os jogos da Virtual Console.

 

imagem de cabeçalho.jpg

 

 

Sei que, tecnicamente, isto tem sido possível ir passando Pokémon de uma geração em diante desde a terceira. Há fãs que ainda têm os Pokémon que usaram em Ruby&Sapphire. Eu, no entanto, só pude fazê-lo com o Bank e, pura e simplesmente, adoro-o. Ter Pokémon que usei em jogos diferentes, com quem vivi histórias diferentes, todos juntos, disfrutando do paraíso do Mohr no Pokémon Pélago. E quero tentar guardá-los enquanto puder.

 

Outra das novidades destes jogos diz respeito à Mega Evolução: uma evolução temporária, que requer um objeto especial e que só ativada em combate, depois de se formar um laço entre treinador e Pokémon.

 

Lembra-vos alguma coisa?

 

Aqui entre nós, o possível plágio de Digimon não me incomoda. Pelo contrário, se era para copiar alguma coisa de Digimon, copiaram um dos meus aspetos preferidos da franquia. A cena em que o jogador ativa o Mega Ring traz inclusivamente um bocadinho da euforia e epicidade das digievoluções.

 

  

Só uma mão-cheia de Pokémon é que obteve Mega Evoluções. Não surpreende que a larga maioria deles sejam dos mais populares entre os fãs. Os starters de Kanto (o Charizard teve direito a duas Mega Evoluções, porque… Charizard) e de Hoenn (com os remakes era inevitável), o Mewtwo (também com direito a duas, porque o Mewtwo ainda não era suficientemente OP), o Lucario, a Gardevoir e o Gallade, o Gengar, o Salamence… mas não o pobre Flygon, consta que por bloqueio criativo de Ken Sugimori (a sério?!?).

 

Conforme referi na resposta a um comentário no último texto desta rubrica, nunca pensei assim muito muito nas minhas Mega Evoluções preferidas. Se tivesse de escolher neste momento, escolheria a Mega Lopunny – em parte por aquela de que falei acima e também porque me faz lembrar a protagonista de Millian Dollar Baby (apesar de nunca ter visto esse filme) – e o Mega Rayquaza – que ganhou um visual muito mais intimidante e feroz.

 

Na verdade, na minha opinião, quase todas as Megas Evoluções foram bem sacadas, deram uma versão mais impressionante aos Pokémon em questão. As únicas exceções são o Mega Sableye (pouco imaginativo) e o Mega Slowbro (até dá pena…).

 

32147288_654677578198946_9021206302734417920_n.jpg

  

Mas chega de falar das funcionalidades, passemos aos jogos em si. Conforme referi antes, vi várias pessoas jogando X&Y desde que os jogos saíram – sobretudo Pokétubers, mas também a minha irmã. No entanto, só a joguei eu mesma em junho de 2016.

 

Um bocadinho de contexto. Numa altura em que já andava a fazer planos para esta série de textos, sobre as várias gerações de Pokémon, a minha ideia inicial era jogar X depois do Euro 2016. Conforme referi antes, sabia que ia andar em baixo quando a Seleção Portuguesa, inevitavelmente, fosse expulsa do Europeu. O jogo seria uma boa distração.

 

A minha irmã, no entanto, disse-me que também queria jogar X em julho, quando entraria de férias. Ela acabaria por mudar de ideias e nem sequer jogar, mas eu aceitei começar o meu jogo um mês antes do previsto – na véspera do início do Europeu.

 

Isso acabou por me dar a ideia de seguir um tema nas alcunhas dos meus Pokémon, em X. Todos receberam nomes de jogadores da Seleção Nacional.

 

15977960_855234827912217_5927008578269354388_n.jpg

  

Eu sei. Isto é mesmo o cúmulo da Sofia.

 

Sem problemas com isso, porque acabou por ser uma das melhores ideias que tive. Tornou ainda mais especial a minha aventura por Kalos – que, por sinal, foi inspirada em França, mas só me apercebi da coincidência uns dias depois. Eu e a minha mini-Seleção à conquista de França à nossa maneira, tal como a Seleção de carne e osso.

 

O facto de, no fim, Portugal ter ganho o Europeu tornou tudo ainda melhor (o emblema que nós recebemos após vencermos a Liga é, aliás, muito parecido com o logótipo do Euro 2016). Aquela equipa tornou-se ainda mais especial por ter sido a que usei durante o primeiro campeonato de seleções que ganhámos – um dos períodos mais felizes da minha vida. Por serem uma espécie de avatares dos jogadores que nos deram o nosso primeiro título.

 

Foi um jogo divertido ir adicionando Pokémon à minha equipa e tentando descobrir, de entre os 23 Convocados, quem melhor se encaixava. Começando pelo meu starter, o Chespin: um Pokémon muito defensivo, que ganha o tipo Luta quando evolui.

 

Avril-Lavigne-album-meme.png

  

Ora, tendo em conta que o Bruno Alves era defesa e fizera isto na semana anterior, não foi difícil decidir a alcunha.

 

O segundo membro da minha equipa foi um Fletchling, que evoluiria para Tallonflame. Chamei-lhe Renato Sanches, por vários motivos. Primeiro, porque é vermelho e baseado numa ave de rapina – embora se pareça mais com um falcão do que com a águia, que serve de mascote ao Benfica, onde Renato se formou. Segundo, durante a sexta geração, o Tallonflame era um dos Pokémon mais populares no modo competitivo – ao mesmo tempo, nos meses anteriores ao Europeu, surgiu um hype como nunca tinha visto em torno do Renato. Foi uma coisa parva – eu mesma acabei por me deixar levar, porque o miúdo até correspondeu durante o Euro 2016.

 

Curiosamente, a popularidade do Renato e do Tallonflame começou a decair mais ou menos na mesma altura: alguns meses após o Europeu. O Tallonflame, porque a habilidade Gale Wings foi nerfada (este termo irrita-me um bocado) na sétima geração. O Renato, porque foi aquecer bancos para o Bayern de Munique e nunca mais conseguiu voltar ao nível de antes.

 

Ao usar um Tallonflame, acabei por me aperceber de outras semelhanças com o Renato. Os dois melhores stats do Tallonflame são o Attack e, sobretudo, o Speed. Caracteriza-se assim por ataques rápidos e letais – tais como famosas arrancadas do Renato, uma das quais dando-nos na vitória perante a Croácia.

 

HDACg.jpg

 

Ao mesmo tempo, o grande problema do Tallonflame é a sua defesa – ou melhor, a falta dela. O Tallonflame tem mesmo de se valer dos seus ataques rápidos e letais, porque não consegue aguentar mais do que dois ou três golpes. De maneira similar, o Renato ainda cometia vários erros defensivos comprometedores – por falta de experiência, sobretudo.

 

Não consigo mesmo pensar num Pokémon que melhor represente o Renato.

 

Também usei um Dedenne. Chamei-lhe Raphael Guerreiro, porque ambos têm ar inofensivo. O Dedenne é literalmente um ratinho fofinho (podiam era ter-lhe dado umas cores diferentes, para que não parecesse tanto um Raichu em miniatura). O Raphael é baixinho e tem cara de miúdo. Mas ambos são bem mais fortes do que parecem. O meu Dedenne é, pelo menos. E o Raphael tem um talento incrível, conquistou-me logo nos seus primeiros jogos pela Seleção.

 

Para os restantes membros da minha equipa, as comparações são um tudo nada mais forçadas. O Nani, por exemplo, não tem muitas semelhanças com um Vaporeon, tirando o facto de ambos estarem entre os meus favoritos há muitos anos.

 

124243212.png

 

Da mesma maneira, só chamei Quaresma à minha Meowstic porque uma das alcunhas de Ricardo Quaresma é Harry Potter. E como o tipo Psíquico sempre foi o mais associado a magia, sobretudo antes de introduzirem o tipo Fada… Como era uma fêmea, usei só o apelido do jogador.

 

Por fim, chamei Rui Patrício ao meu Absol. Afinal de contas, tal como este Pokémon aparece sempre antes de acontecer uma coisa má, quando um guarda-redes aparece muito em jogo, é mau sinal. Além disso, em ambos os casos, quando as desgraças acontecem, eles acabam por arcar com a culpa, muitas vezes. É mesmo possível que sejam mais recordados pelas tragédias que não conseguiram evitar, do que por aquelas que conseguiram.

 

Isso, felizmente, não acontece com Rui Patrício. Pelo contrário, ele possui literalmente uma das suas defesas imortalizada em estátua.

 

De qualquer forma, tal como expliquei antes, prefiro pensar no Absol como um guardião do que com um profeta de desgraças. E, acho que todos concordam, Rui Patrício encaixa-se bem nesse papel. (Pena é ninguém ter feito o mesmo por ele na semana passada...)

 

54706_edicao02_vitrola_avril_700x700.jpg

  

Existem uns quantos outros Pokémon, que estiveram perto de ser titulares na minha equipa, que também receberam nomes de jogadores da Seleção. Dos starters de Kanto, escolhi o Squirtle, mas só o mantive na minha equipa até evoluir para Wartortle. Não precisava de outro Pokémon fisicamente defensivo com o Chespin na equipa. Tal como o meu starter, o Squirtle também recebeu o nome de um central. Entre Pepe e José Fonte escolhi o segundo, por motivos óbvios.

 

Também apanhei um Honedge, a quem chamei William Carvalho. Por fim, tive um Ducklett a quem chamei… Éder.

 

Sim, isto aconteceu antes da final do Europeu. Usei esse nome precisamente porque Éder era o patinho feio da Seleção, mas eu tinha esperanças de que se transformasse num cisne durante o Euro – ele pelo menos dizia, meio a brincar meio a sério, que podia tornar-se o melhor marcador da prova.

 

Infelizmente, Fernando Santos deixou-o no banco durante a maior parte do Europeu. Eu fiz o mesmo com o “meu” Éder: deixei-o no PC, preferi usar um Vaporeon.

 

nmlobo.png

  

O Éder de carne e osso, no entanto, arranjou outra maneira de se transformar num cisne – e nenhum de nós alguma vez esquecerá essa transformação.

 

Depois da final, fiquei com pena de não ter dado titularidade ao meu Ducklett, confesso. No entanto, para compensar, treinei-lhe os E.V.s (tarefa bastante facilitada nesta geração) para poder, pelo menos, usá-lo na Battle Maison e afins.

 

Mas chega do meu sentimentalismo – por agora, pelo menos. Falemos dos jogos X&Y em si. Depois de uma quinta geração bastante arrojada e inovadora em termos de conteúdo e enredo, os jogos X&Y recuperam fórmulas antigas: rivais, oitos ginásios, equipa vilanesca com administradores e líderes, Elite 4, Campeão (ou melhor, Campeã), sem desvios.

 

Bem, quase.

 

tumblr_oh9ym4oznq1ru6zhto7_1280.jpg

 

Uma das poucas variações da fórmula, na verdade, diz respeito ao facto de termos um total de quatro rivais. A perspetiva de explorar uma região integrada num grupo de amigos até é agradável, não o nego – sobretudo durante a parte de defrontar a equipa vilanesca. No entanto, nenhum destes quatro é particularmente interessante.

 

A única de de gosto é de Shauna, que parece nutrir um fraquinho pelo protagonista, independentemente do género. Destaque para a famosa cena na varanda do Parfum Palace, com os fogos-de-artifício, em que no fim o mordomo nos oferece o TM para… o Protect.

 

É sempre giro ver a Game Freak piscando o olho aos fãs mais velhos.

 

No geral, prefiro que os criadores se limitem a um ou dois rivais, minimamente desenvolvidos e interessantes. Felizmente, tem sido essa a regra após X&Y.

 

maxresdefault.jpg

 

O tema desta geração é “Beleza” e os jogos X&Y exploram bem esse conceito – começando pelas melhorias gráficas e pela capacidade, até esta altura inédita, de personalizarmos os nossos avatares. “Kalos”, o próprio nome da região, aliás, significa “beleza” em grego.

 

É de facto uma região lindíssima – pudera, é baseada em França. Estive lá de férias no ano passado e posso confirmar que os criadores capturaram bem o ambiente e o estilo arquitetónico. O Parfum Palace é provavelmente o maior exemplo. Apesar de ter sido baseado no Palácio de Versailles, que eu não cheguei a visitar, encontrei muitas semelhanças entre ele e os castelos que visitei: como o Chatêau de Chambord, o de Villandry (cujos jardins são muito parecidos aos do Parfum Palace) e o de Chinon.

 

Há quem acuse os produtores de se terem baseado apenas na perspetiva turística de França (outros dizem o mesmo sobre Alola, da sétima geração). Talvez seja por isso que os jogos possuem tantas referências à Idade Média, à nobreza e realeza, com várias personagens usando títulos nobiliárquicos e com a arrogância associada a sangue azul…

 

 lumiose_city_scene_illustration.0.jpg

 

…isto apesar de a França ter sido dos primeiros países da Europa a implementar a República. Enfim.

 

X&Y aborda também o lado negro deste conceito, não apenas a parte glamourosa. Isto da beleza é tudo muito bonito, literalmente, mas é efémero: flores murcham, a chuva dá lugar ao sol, as pessoas envelhecem e morrem. Não surpreende, assim, que, numa sociedade tão centrada na beleza, surjam extremistas como Lysandre. Pessoas tão revoltadas com a efemeridade da beleza que fazem de tudo para preservá-la eternamente… ou para destruir todos aqueles que se considerem “feios”.

 

Consta que Lysandre, o líder dos Team Flare, a equipa vilanesca destes jogos, não foi sempre assim. Até costumava ser boa pessoa e ajudar os mais necessitados. No entanto, acabou por se cansar dos vícios da Humanidade e assim se tornou no misantrópico que conhecemos em X&Y.

 

É uma motivação como qualquer outra, mas existe por aí muito boa gente misantrópica que não se põe a destruir o mundo. Além disso, Lysandre chega a ser hipócrita, pois está disposto a sacrificar Pokémon inocentes, alegando que eles, de qualquer forma, estavam destinados a ser escravizados pelos humanos.

 

IMG_20170306_1238851_HDR.jpg

 

Deve ser, deve.

 

As motivações de Lysandre acabam por ser parecidas com as de Cyrus, na quarta geração, mas, a meu ver, fazem mais sentido no conceito de X&Y. Além disso, os paralelismos com Hitler e os nazis são um bocadinho óbvios – como se o termo “Holo Caster” nos deixasse duvidar...

 

Lysandre distingue-se de outros líderes vilanescos porque encontra-se bem integrado na sociedade de Kalos. Conforme vimos em Generations, ele é essencialmente o Steve Jobs da região, bom amigo de Diantha, a Campeã, e Sycamore, o Professor. Durante uma boa parte do jogo, Lysandre fala dos seus planos para “criar um mundo lindo”, tenta recrutar o protagonista para os seus planos, sem que uma sobrancelha se erga. Mas é um choque para o elenco (não necessariamente para a audiência) quando Lysandre anuncia as suas intenções via Holo Caster.

 

Agora que penso nisso, não sei se esse anúncio terá sido a decisão mais inteligente – é como se estivesse a pedir para ser travado. Ou o Steve Jobs lá do sítio não é assim tão inteligente ou temos uma falha no enredo (aposto mais na segunda).

 

part_5__what_s_up_unova__by_justlex-d62gvjq.jpg

 

Conforme referi quando escrevi sobre Generations a ascensão se Lysandre mostra o lado negro e corrupto da sociedade de Kalos. Eu gostava de ter visto mais reações a esta revelação – uma maior reflexão por parte de Sycamore, Diantha e outros membros da sociedade sobre os motivos pelos quais Lysandre ganhou tanto poder. Porque é que ninguém se apercebeu das suas verdadeiras intenções. Talvez chegassem à conclusão de que este é o lado negro de toda uma cultura centrada em algo tão efémero e relativo como beleza.

 

Este é um dos motivos pelos quais estes jogos precisavam de uma sequela. Ou, pelo menos, de uma versão melhorada.

 

Havemos de regressar a esta ideia... amanhã. Vamos também falar, entre outras coisas, das melhores personagens e histórias destes jogos, sobre coisas que não resultaram tão bem e, claro, sobre a música. Não percam!

 

Pokémon através das gerações - Cinquenta sombras de Black&White

Eis-me aqui continuando a minha rubrica “Pokémon através das gerações”... mais de um ano depois do último texto. Pensar que a minha ideia inicial era publicar todas as análises (às seis primeiras gerações e a Pokémon Go) no verão de 2016…

 

Hoje em dia, que demoro séculos a escrever e a publicar um texto, acho impressionante ter conseguido publicar análises (com um tamanho considerável) às três primeiras gerações em menos de um mês.

 

Mas não quero falar do passado. Neste momento, quero ver se termino esta série ao longo dos próximos meses – ou pelo menos publicar dois ou três textos, a contar com este. De qualquer forma, neste último ano consegui, finalmente, acabar de jogar Sun. Uns meses mais tarde, joguei Ultra Moon assim que saiu. Como tal, esta rubrica incluirá uma análise à sétima geração.

 

E com um bocadinho de sorte, hei de conseguir publicá-la antes de sair a oitava geração. É por isso que eu preferia que os próximos jogos ainda demorassem algum tempo a sair. Por isso… e porque quero adiar a inevitável compra da Nintendo Switch o mais possível.

 

maxresdefault.jpg

 

Mas falemos sobre os jogos de Unova, os últimos a serem lançados na Nintendo DS. Como tenho imenso a dizer sobre esta geração, resolvi analisá-la em dois textos. No de hoje, o foco principal serão os jogos Black&White. No texto de amanhã, falaremos sobretudo sobre Black2&White2.

 

Esta geração – sobretudo os primeiros jogos, Black&White – foi das mais polarizantes de toda a franquia. Mais ou menos como a terceira. Tínhamos visto no texto anterior desta rubrica que a quarta geração não inovou por aí além, apoiando-se muito nas gerações anteriores, apresentação uma região confusa e uma história que deixou muito a desejar – embora a mitologia e os lendários em si sejam interessantes.

 

A geração que se seguiu foi a antítese completa.

 

À semelhança do que a terceira geração fizera até certo ponto, a quinta geração fez tábua rasa à franquia, sobretudo nos primeiros jogos Black&White. Estes são capazes de ser os jogos mais isolados da série principal até ao momento – com pouquíssimas referências às gerações anteriores e Pokémon cem por cento inéditos até ao post-game. Em nenhum dos jogos desta geração, aliás, é impossível obter o Pikachu sem ser transferido de outros jogos (não sabia que isso era legal…).

 

20398733_scvlm.png

  

Junichi Masuda disse, na altura, que isto foi intencional: “Temos miúdos que jogaram Diamond e Pearl e adultos que cresceram com Red e Blue. Quando esses jogadores combatem, alguns saberão mais sobre as respetivas fraquezas que outros. Nós quisemos que todos começassem do zero e liderassem equipas que nunca tivessem treinado antes.

 

Depois de uma geração com pouquíssimos Pokémon completamente novos, conforme vimos antes, faz sentido que Masuda e os demais criadores tenham querido fazer algo diferente. Falando por experiência própria, quando estreio um jogo, às vezes é difícil resistir à tentação de usar Pokémon que já conheço bem, em vez de tentar fazer uma equipa com Pokémon novos. Em Black&White não existe esse risco, para o melhor e para o pior.

 

Apesar de a ideia ser boa, no entanto, a meu ver, a execução deixou um bocadinho a desejar.

 

Esta geração apresentou-nos 156 Pokémon novinhos em folha, mas, como conjunto, estes são capazes de ser os de que menos gosto de toda a franquia. Um dos principais motivos prende-se com o facto de, apesar de tecnicamente serem Pokémon inéditos, na prática, muitos reciclam conceitos de Pokémon já bem conhecidos, sobretudo da primeira geração. Tal como vimos antes, todas as gerações têm equivalentes ao Pidgey, ao Ratatta, ao Pikachu. A quinta geração, no entanto, vai mais longe.

 

part_5__what_s_up_unova__by_justlex-d62gvjq.jpg

 

Admito que, em alguns casos, os novos são melhores. Ninguém gosta muito do Trubbish e do Garbodor, mas gosto mais deles do que do Grimer e do Muk, que, conforme expliquei antes, são apenas massas disformes e nojentas. Por sua vez, o Drilbur e o Excadrill são melhores Pokémon inspirados em toupeiras que o Diglett e o Dugtrio. Por fim, pode haver quem argumente que o Zorua e o Zoroark são uma reciclagem do Ditto, mas acho que todos concordam que são muito mais fixes.

 

A maior parte, no entanto, parecem versões deslavadas de Pokémon antigos. Como os Woobat e Swoobat, substituindo a família dos Zubat (ninguém gosta muito do Zubat, mas este ao menos tem uma excelente evolução final); os Audino substituindo a Chansey; os Foongus e Amoongus que, tal como os Voltorb e Electrode, se confundem com Poké-bolas; as famílias do Roggenrola e do Timburr, que partilham muitas características com a família do Geodude e do Machop, respetivamente; o par Troh e Sawk fazem lembrar o par Hitmonlee e Hitmonchan; Boufalant e Alolomola são tão parecidos com o Tauros e o Luvdisc que muitos pensaram serem evoluções dos últimos, respetivamente. E estes são apenas aqueles de que me lembro agora.

  

Dentro do universo, estes conceitos repetidos podem ser casos de evolução convergente – não falo da evolução típica em Pokémon, antes em evolução darwiniana (que foi acrescentada ao cânone da franquia na sétima geração). Trocando por miúdos, Pokémon sem ancestrais comuns e habitando em regiões muito distantes umas das outras (e já foi confirmado que Unova está muito longe das demais regiões) acabam por desenvolver características comuns ao adaptarem-se a ambientes similares. Por exemplo, o Zubat e o Woobat pertencerão a linhas evolutivas muito distantes, mas, como tiveram de se adaptar ao ambiente das cavernas, tornaram-se parecidos.

 

Por contraste, adiantando-me um bocadinho de novo, as formas de Alola são um exemplo de evolução divergente. Por exemplo, um Vulpix normal e um Vulpix de Alola têm muitas coisas em comum, mas o segundo teve de se adaptar às montanhas nevadas de Alola, logo, ganhou um tipo novo.

 

maxresdefault.jpg

 

Não sei se algum dia num futuro distante, quando fizerem remakes da quinta geração, irão incluir a minha teoria da evolução convergente no cânone oficial. Porque, tirando isso, as semelhanças que listei acima parecem-me mais falta de imaginação do que outra coisa qualquer. Se queriam criar um jogo só com Pokémon novos, podiam ter criado mais conceitos novos, funções novas, em vez que reciclarem categorias antigas.

 

Para além desta questão, temos uma série de Pokémon que parecem estar lá só para encher chouriços, como o Basculin, o Alolomola e o Maractus. Também temos uns quantos com desenhos que, não sendo horríveis, não gosto muito: como o Munna e Musharna, o Darumaka (tem cara de parvo), a família do Solosis e do Tynamo, o Ferroseed e Ferrothorn, o Elgyem e o Beheeyem, o Stunfisk, o Shelmet, o Heatmor.

 

Os starters, por sua vez, são a meu ver os menos apelativos de todas as gerações até agora. O único de que gosto – e mesmo assim não por aí além – é da família do Snivy. A família do Tepig é a terceira de seguida com o tipo Fogo/Luta e, comparada com o Infernape e o Blaziken, é a pior.

 

teo_by_colordrake-d6c41cb.png

  

Voltamos, também a ter um número excessivo de lendários – ainda bem que isso mudou na geração seguinte, apesar de tudo. Tirando o trio Reshiram, Zekrom e Kyurem, não sou grande fã de nenhum deles. As Swords of Justice, mais uma vez, parecem-me uma versão deslavada das bestas de Johto. Por sua vez, os génios da meteorologia são redundantes depois do trio Groudon/Kyogre/Rayquaza. Também não gosto do desenho deles – embora saiba que foram inspirados nos kamis da mitologia japonesa.

 

Como podem ver, existem muitos Pokémon de que não gosto nesta geração mas aqueles de que gosto, gosto a sério.

 

A começar pelos Lendários-mascote do jogo, Zekrom e Reshiram – sobretudo pelo conceito e história por detrás deles. Estes foram outrora um único dragão, que ajudou dois irmãos a criar e a governar Unova. Estes dois irmãos, no entanto, acabaram por se voltar um contra o outro. Supostamente porque um era a favor da verdade e o outro a favor dos ideais – eu acho que esta é uma outra maneira de dizer que um era mais para o cínico e realista, enquanto outro era idealista e sonhador. Em todo o caso, como os irmãos não se entendessem, o dragão dividiu-se em dois, cada um tomando um dos lados no conflito.

 

Esta história faz-me lembrar a lenda da criação de Roma, também por dois irmãos que se tornam inimigos. É por esse motivo que costumo chamar Romulus e Remus ao Zekrom e ao Reshiram, respetivamente.

 

part_5__what_s_up_unova__by_justlex-d62gvjq.jpg

 

Estes dois dragões representam, assim, o yin e o yang: verdade e ideais, realismo e idealismo. Na minha opinião, representam também qualquer par de visões distintas do mundo: direita versus esquerda na política, determinismo versus livre arbítrio, religião versus ciência, Cristiano Ronaldo versus Lionel Messi.

 

Da maneira como vejo as coisas, aliás, a grande lição desta geração, sobretudo dos jogos Black/White é que este género de visões raramente são… bem, preto no branco. Duas teorias opostas nem sempre se excluem uma à outra – muitas vezes, complementam-se. Destaquemos as citações de Drayden – “I can sympathize with some of that you say, but I can’t forgive the way you reject everything else!” (reproduzida de forma excelente em Generations) – Alder – “Even if we don’t understand each other, that’s not a reason to reject each other. There are two sides to any argument. Is there one point of view that has all the answers?” – e N – “It’s not by rejecting different ideas, but by accepting different ideas that the world creates a chemical reaction. This is truly the formula for changing the world.” O tempo só tem tornado estas mensagens ainda mais relevantes, sobretudo nesta era de instabilidade política em vários países e de discussões infinitas nas internetes.

 

O que nos leva ao enredo dos jogos. Outra das coisas que caracteriza este geração, sobretudo Black&White, é o facto de a história tomar prioridade como nunca antes – ao ponto de mexer com a fórmula habitual dos oito-ginásios-equipa-vilã-Elite-4-Campeão. Foi um risco que a Game Freak decidiu correr, algo que eu aplaudo. Ainda que goste de muitos aspetos da história de Black&White, conforme veremos adiante, existiram uns quantos de não foram muito bem executados.

 

Como é do conhecimento geral, a equipa vilã é o Team Plasma que, em Black&White, faz campanha pela libertação dos Pokémon – em vez de deixá-los na posse de humanos, obrigados a lutar entre si para benefício desses humanos.

 

Team.Plasma.full.981349.jpg

  

Esta sempre foi uma das maiores críticas à franquia, de resto: promover, alegadamente, a crueldade animal.

 

Ainda que as acusações não sejam cem por cento descabidas, duas coisas. Primeiro, qualquer pessoa decente, crianças incluídas, sabe fazer a distinção entre realidade e fantasia.

 

Segundo, a franquia esforçou-se, desde o início, por passar a mensagem de que os-Pokémon-são-nossos-amigos, sobretudo na série animada. Logo nos primeiro episódios, Ash, o protagonista, leva um sermão quando pensam que este obrigou o Pikachu a lutar até ao limite das suas forças; treinadores que tratam os Pokémon como meras ferramentas, que os negligenciam, maltratam e/ou abandonam, são vilanizados; praticamente todos os Pokémon que Ash adiciona à sua equipa fazem-no de livre vontade; quando querem partir, é o próprio Ash que os liberta – com muitas lágrimas à mistura, incluindo da audiência.

 

Ainda assim, regressando à quinta geração, foi uma jogada corajosa por parte da Game Freak criar o Team Plasma. Obrigou tanto a audiência como os próprios jogos a refletir sobre a premissa básica da franquia, mesmo a questioná-la. Esta é, até à data, a geração mais introspetiva em Pokémon, tanto pelos dilemas éticos como pelo que referi antes sobre visões em conflito. E, apesar de toda a gente garantir a pés juntos, eu incluída, que não joga Pokémon pela história, o enredo uma das coisas que dá personalidade aos jogos e às gerações, conforme julgo ter afirmado antes.

 

18809613_1902645163281336_3142023852700205056_n_b4

  

Ainda assim, mais do que a história propriamente dita, aquilo que se destaca nesta geração são as personagens: mais desenvolvidas do que em qualquer jogo anterior. Começando pelos nossos rivais.

 

Bianca e Cheren não são os meus preferidos, mas são interessantes e encaixam-se bem no tema dos jogos. Cheren é o rival mais típico: ambicioso, determinado a sagrar-se Campeão. Representa os ideais. Chega a ser um pouco arrogante, a levar-se demasiado a sério. Perto do fim do jogo, começa a questionar esse propósito e a descobrir que existem outras formas de se forte para além de, apenas, ganhar combates.

 

Bianca, por sua vez, é a menos capaz do grupo, incluindo o protagonista. No início do jogo é bastante insegura e anda algo perdida, sobretudo quando o Team Plasma lhe tenta roubar o seu Munna, ao perceber que todos em seu redor são mais fortes do que ela. Representa a verdade. No entanto, acaba por aceitar as suas próprias limitações e encontra o seu propósito como assistente da Professora Juniper.

 

No que toca a esta última, gosto particularmente da sua interação com o seu pai. Este não gosta da ideia de ter a filha, ainda adolescente, aventurando-se sozinha pelo mundo. Chega a segui-la até Nimbasa com intenções de trazê-la de volta a casa. Bianca consegue dissuadir o pai com a ajuda da líder do ginásio local, Elesa.

 

Na verdade, o único problema que tenho com este par de rivais é o facto de termos de combatê-los demasiadas vezes.

 

teo_by_colordrake-d6c41cb.png

  

Já que referimos Elesa, falemos dos líderes de ginásio: muito mais desenvolvidos que em qualquer jogo anterior, nesta geração. Todos têm uma ocupação para além dos ginásios e praticamente todos contribuem para o enredo – ajudando o protagonista resolvendo problemas causados pelos Plasma, dando informação importante ou, pura e simplesmente, servindo de mentores aos treinadores novatos. E, claro, o ponto alto é quando aparecem no castelo do Team Plasma, tal como reproduzido em Generations.

 

Já aí vamos. Antes, temos de falar da personagem mais importante da quinta geração, indiscutivelmente: N. N é uma personagem que não se encaixa perfeitamente em nenhuma das categorias típicas dos jogos. Pode ser considerado um rival, mas não no sentido habitual de ver quem é o melhor treinador. Pode ser considerado um líder vilanesco, mas é apenas uma marioneta do verdadeiro vilão. Pode ser considerado um Campeão, mas esse papel é desempenhado oficialmente por Alder. E o combate final com N não serve para determinar quem é o melhor treinador da região – serve para decidir o destino de toda Unova.

 

Comecemos pelo princípio. N terá sido encontrado em tenra idade por Ghetsis vivendo entre Pokémon selvagens. Dizem que N nasceu com o dom de entender a linguagem dos Pokémon. Eu, no entanto, acredito que ele pura e simplesmente desenvolveu essa capacidade por ter vivido entre Pokémon durante a idade em que os humanos aprendem a comunicar.

 

Team.Plasma.full.981349.jpg

  

De qualquer forma, esta capacidade adequava-se aos propósitos de Ghetsis. Assim, este acolheu-o e criou-o em isolamento, em contacto apenas com Pokémon maltratados por humanos – precisamente para que pensasse que humanos e Pokémon não se deviam misturar. N foi também educado pelos sete Sábios do Team Plasma (a melhor tradução que encontro para “sages”), Ghetsis incluído, para se tornar o herói da lenda, que se aliaria a Reshiram ou a Zekrom – a marioneta perfeita para quando Ghetsis e o Team Plasma começassem a fazer campanha pela libertação dos Pokémon.

 

Suponho que esteja na altura de falar do Mamoswine na sala: a campanha do Team Plasma é apenas uma desculpa para obrigar as pessoas a separarem-se dos seus Pokémon – para que ninguém lhes faça frente quando, como praticamente todas as equipas vilanescas, tentarem a dominação mundial.

 

Muitos fãs detestaram esta reviravolta no enredo e eu concordo com eles, pelo menos em parte. À primeira vista, parece um cop-out, como dizem os anglo-saxónicos: os argumentistas terão tido medo de ir até ao fim na questão da libertação dos Pokémon, logo, à última hora, terão decidido que era tudo a brincar.

 

No entanto, não se pode dizer que não tenham existido indícios da falsidade do Team Plasma. Só o facto de os próprios membros possuírem Pokémon e fazerem-nos combater pela sua campanha levanta suspeitas. Logo após o primeiro ginásio, vemo-los maltratando um Munna indefeso para usarem a sua… névoa de sonho?... para manipular as mentes das pessoas, obrigando-as a adotarem a sua filosofia pacifista. E, no clímax da história, um dos membros do Team Plasma admite que o castelo que se ergue na Liga Pokémon (já lá vamos) foi construído por Pokémon roubados e obrigados a trabalhar até à exaustão.

 

Team.Plasma.full.981349.jpg

  

Além disso, o recurso a retóricas demagógicas para ganhar apoiantes e alcançar o poder é algo que acontece na vida real. Veja-se a maneira como o atual Presidente dos Estados Unidos foi eleito: apelando aos privilegiados, que confundem a igualdade e a perda desses privilégios com opressão.

 

Não que esteja a equiparar Trump a Ghetsis. Não acho que o primeiro tenha inteligência para conceber e colocar em prática esquemas semelhantes ao do segundo. Acho mais provável que Trump seja a marioneta, não a mão por detrás dela.

 

Mas estou a desviar-me.

 

Na verdade, aquilo que salva toda esta história é mesmo o facto de N e os seus seguidores acreditarem sinceramente na mensagem que pregam. O jovem tem o coração no lugar certo, mas age limitado pelos vieses que Ghetsis lhe impôs. Conforme uma das irmãs adotivas dele afirma, “não existe nada mais belo nem mais aterrador que a inocência”.

 

232614zb8br1rj8bfbr7je.jpg

  

Existe um membro do Team Plasma em Black/White que dá a entender que, se a organização tivesse tentado tomar o poder e separado as pessoas dos seus Pokémon pela força – como fariam as organizações vilanescas de jogos anteriores, se calhar – as pessoas fariam finca-pé e virar-se-iam automaticamente contra eles. Mesmo que o Team Plasma conseguisse tomar o governo (?) de Unova, o povo nunca os aceitaria e tudo faria para boicotá-los.

 

Em vez disso, o Team Plasma procurou apelar ao coração das pessoas através de oradores, como N, que acreditavam sinceramente na mensagem que pregavam. Conseguiram fazer com que muitos se separassem de livre vontade dos seus Pokémon – ou pelo menos plantaram dúvidas nas mentes deles.

 

Há que lhes dar crédito. Apesar das intenções malévolas, obrigaram as pessoas – tanto no universo de Black&White como a comunidade de fãs de carne e osso – a refletir sobre a premissa básica dos jogos.

 

Só descobrimos acerca da manipulação de Ghetsis no clímax do enredo, após a Elite 4. Nesta altura, já há muito que N se aliara a Reshiram ou Zekrom, consoante a versão. Derrotara a Elite 4 antes de nós. Chegamos no preciso momento em que N derrota Alder, o Campeão de Unova, e o Castelo do Team Plasma se ergue.

 

teo_by_colordrake-d6c41cb.png

  

Na minha opinião, a cena do castelo é um bocadinho melodramática, mas o Team Plasma é isto: muita parra e pouca uva, muito show-off para esconder o facto de não passarem de criminosos vulgares – os apoiantes diretos de Ghetsis, pelo menos.

 

É também nesta altura que aparecem os líderes de ginásio para… não exatamente salvar o dia, mas para ajudar. E tal como referimos antes, é só um dos momentos mais fixes de toda a franquia.

 

Chegamos, assim, à sala do trono, onde se encontra N: pronto para tomar o controlo de Unova e ordenar a libertação dos Pokémon. Quando entra o seu dragão – Reshiram em White, Zekrom em Black – a nossa Dark ou Light Store, respetivamente, ativa-se e aparece o outro dragão para ser capturado.

 

A maneira como o jogo quer desesperadamente que capturemos Zekrom ou Reshiram, consoante a versão, é algo caricata – sobretudo porque, na altura, era inédita. Não só o dragão tem um índice de captura elevadíssimo como permanece disponível para combater de novo mesmo que o derrotemos. Temos ainda um NPC que oferece Ultra Balls. Consta que a única forma de o jogo prosseguir sem que o dragão seja capturado é termos um PC cheio – e, mesmo assim, pode voltar a ser capturado no post-game.

 

Team.Plasma.full.981349.jpg

  

Eles queriam mesmo que nós e N recriássemos a rivalidade dos irmãos fundadores de Unova. O único motivo pelo qual não tentaria saltar a parte em que capturo o dragão é mesmo porque gosto demasiado da simbologia deste combate: um confronto de ideologias aparentemente opostas, uma disputa pelo destino de Unova.

 

Recuando um bocadinho, no entanto, depois de se capturar o dragão, o jogo oferece a hipótese de incluí-lo de imediato na equipa, enviando outro Pokémon para o PC no seu lugar. Isto também era inédito na altura. Mas é uma pena que só tenham implementado essa funcionalidade para capturas comuns duas gerações mais tarde.

 

Dá-se, assim, o combate com N. Quando este é derrotado, ele estaca: (não era suposto isto acontecer. N achava que tinha a razão do lado dele, que nós é que estávamos errados. Seria possível que estivesse enganado? Que tanto ele como nós tivéssemos razão?)

 

Por sua vez, Ghetsis, perante a derrota da sua marioneta, descarta N de imediato de revela as suas verdadeiras intenções – para choque tanto do filho adotivo como de Alder e Cheren. Pela primeira vez, Ghetsis decide tomar o assunto nas próprias mãos e enfrentar-nos ele mesmo.

 

Team.Plasma.full.981349.jpg

 

Durante muito tempo, Giovanni foi o meu vilão preferido em Pokémon. No entanto, depois de ficar a conhecer o enredo desta geração, Ghetsis roubou-lhe o lugar. O homem é pura e simplesmente pérfido, um completo manipulador. Pegou numa criança inocente e manipulou-a durante anos para usar como peão (e muitos especulam que, assim que Ghetsis deixasse de precisar de N, o jovem seria… descartado). Ghetsis tentou, também, manipular um povo inteiro e não foi completamente mal sucedido. Numa cronologia alternativa, Ghetsis tentaria ainda manipular Giovanni… mas estou a adiantar-me.

 

De alguma forma, N tem presença de espírito para nos curar os Pokémon à distância, antes do combate com Ghetsis – imenso respeito! Se eu tivesse acabado de descobrir que o meu pai adotivo era um sociopata e que toda a minha vida fora uma mentira, não sei se capaz de funcionar normalmente.

 

Quando conseguimos travar Ghetsis, somos brindados com o seu mau génio. Não sei qual das duas versões do vilão é a mais assustadora: a versão calma, persuasiva, que nos faz acreditar que nós é que estamos errados. Ou a versão descontrolada, que não aceita a derrota, insulta sem piedade o próprio filho adotivo, que ameaça e chega mesmo a agredir uma menina de onze anos…

 

...e estou a desviar-me outra vez.

 

232614zb8br1rj8bfbr7je.jpg

  

Após Ghetsis ser levado sob custódia (para ser resgatado pela Shadow Triad mais tarde), N sofre, naturalmente (no pun intended) uma crise existencial de todo o tamanho. No fim, decide partir. Sabemos que passará os dois anos seguintes a reavaliar a sua vida, a ver o mundo em liberdade, tal como é, sem os vieses impostos por Ghetsis.

 

Depois disto – ou seja, no post-game – não há muito para fazer (e o salto de quase dez níveis entre a equipa de Ghesis e os primeiros treinadores depois da Liga é um bocadinho ridículo). Looker regressa e pede-nos ajuda para procurar e prender os Seis Sábios. Teria sido fixe se desse para combater com cada um deles, mas limitamo-nos a encontrá-los, a ouvir-lhes os monólogos e a ver Looker prendendoos. Tirando isto e umas quantas novas localizações, é um post-game fraquinho.

 

Felizmente, os jogos seguintes compensam nesse capítulo.

 

Antes de partirmos para esses, uma palavra sobre o visual de Hilda, a protagonista feminina destes jogos. O guarda-roupa dela é exatamente aquilo que sempre gostei de vestir – sobretudo quando era mais nova. Boné que faz rabo-de-cavalo, top, colete (adoro coletes!), ténis ou botas com atacadores. Só trocava os calções por calças de ganga – por algum motivo, as protagonistas femininas em Pokémon estão contratualmente proibidas de usar calças…

 

20526978_69V9P.jpeg

 

E ficamos aqui por hoje. O resto da análise à quinta geração virá amanhã. Continuem desse lado!

Digimon Adventure Tri - Kyousei #3

Terceira parte da análise a Kyousei. Podem ler as partes anteriores aqui e aqui.

 

Chegamos à parte que dói a sério. Começando pelo momento em que Meiko atinge o seu limite e pede aos amigos que matem Meicoomon.

 

124243212.png

  

Quando vi o filme pela primeira vez, este pedido atingiu-me como um murro no estômago. Em parte porque, na minha opinião, é um sacrilégio. Não se mata um Digimon ligado a um Escolhido, não se faz. Mas sobretudo porque sofria do mesmo viés dos veteranos: acreditava que o elo entre Meiko e Meicoomon acabaria por salvá-la.

 

Mas, conforme temos assinalado ao longo deste texto, os sinais estão todos lá. Os veteranos insistindo que Meiko deve acreditar na sua parceira, Meiko alienando-se cada vez mais. Tudo o que tinham feito até ao momento só piorara a situação. Naquela fase, estavam apenas a prolongar o sofrimento, não apenas de Meicoomon, também de Meiko.

 

Tai é o primeiro a compreender e a aceitar a decisão. Compromete-se a eliminar Meicoomon por misericórdia, segundo os termos dos Escolhidos – não os da Homeostase ou de Yggdrasil. Porque este género de decisões também faz parte dos deveres de um Escolhido.

 

Os outros veteranos têm mais dificuldade em aceitar a decisão. Há que recordar que, na cronologia de Tri, os eventos de Kokuhaku ocorreram poucos dias antes. O Reinício e as suas consequências ainda estavam frescas na memória. Ninguém pode censurá-los por estarem reticentes em matar um companheiro Digimon.

 

20398733_scvlm.png

  

Mas acabam por aceitá-lo. Até mesmo Matt.

 

No entanto, ficam-se pelas intenções. Começa agora um dos momentos mais dolorosos que vi até ao momento, em Digimon. Depois de os amigos acederem ao pedido de Meiko, esta desata a correrem em direção ao confronto entre os Digimon. Não se sabe ao certo porquê – talvez para estar ao lado de Meicoomon nos seus últimos momentos, talvez para morrer com ela. Em todo o caso, Tai e Matt vão atrás dela. Daigo também, depois de instruir os outros para se manterem afastados.

 

Jesmon escolhe este momento para lançar o seu ataque especial, Un Pour Tous. Este deixa Raguelmon fora de combate, mas também abre fissuras no solo. Uma delas deixa Tai de um lado, Meiko e Matt do outro. Quando o solo começa a colapsar, Tai ordena silenciosamente a Omegamon que salve Matt e Meiko.

 

Eis o motivo para a derrota fácil dos outros Digimon, antes: se algum deles estivesse ainda apto, poderia ter salvo Tai.

 

124243212.png

  

Assim, Daigo é o único em condições de tentar socorrer o jovem. O seu grito, “Yagami!”, ficou-me nos ouvidos durante dias depois de ver o filme pela primeira vez. No entanto, nem ele nem Tai são suficientemente rápidos. O chão colapsa debaixo dos pés de ambos, rochas caem sobre eles.

  

Depois de a poeira assentar, apenas sobra uma fissura fina e os óculos de Tai.

 

Choque. Silêncio.

 

Da primeira vez que vi o filme, nem sequer reparei que Daigo também tinha caído. Só no dia seguinte, enquanto tomava as primeiras notas para esta análise e me pus a pensar no efeito que a “morte” de Tai teria em Daigo, é que me apercebi que não me lembrava de ver o agente depois de o jovem cair.

 

E só há relativamente pouco tempo é que me apercebi que Jesmon e Alphamon desaparecem depois da queda de Tai.

 

20398733_scvlm.png

  

No rescaldo imediato da queda, a maior parte dos Escolhidos olha, especada, incapaz de processar o que acabou de acontecer. Kari, por sua vez, avança em direção à fissura, em estado catatónico, balbuciando pelo seu onii-chan. Apenas Nyaromon se apercebe de que algo se passa.

 

A desorientação de Nyaromon atingiu-me particularmente (o que sentirão os Digimon quando sobre uma digievolução negra?). Recordemo-nos que ela foi Reiniciada. Não sabe acerca das capacidades sobrenaturais da sua companheira humana. A Nyaromon não-amnésica podia, se calhar, ter percebido o que estava a acontecer e tentado travá-lo. Com o Reinício, no entanto, não pôde fazer nada para impedir que Kari fosse possuída pela Escuridão. E possuída a sério!

 

A possessão de Kari catalisa, não só a digievolução de Nyaromon para Ophanimon Fall Down Mode, também a sua fusão com Raguelmon. O resultado final é Ordenimon – uma coisa monstruosa, que faz antigos vilões, como as diferentes formas do Myotismon, os Mestres das Trevas, Apocalymon, parecerem o Avô Cantigas. (Quem precisa de histórias de terror depois disto?) A aparição de Ordenimon quebra a simbiose e o Mundio Digital começa a verter para o Mundo Real.

 

Sem Título11.png

 

Em suma, começou o Apocalipse. E os Escolhidos perderam o seu líder, perderam o Omegamon (a sua melhor arma), perderam a Angewomon, poderão ter pedido a sanidade mental de um deles, perderam até o seu protetor adulto. Não têm aliados absolutamente nenhuns, nem entre os humanos, nem entre os Digimon e as entidades sobrenaturais que os governam.

  

É de surpreender que eu tenha precisado de uma bebida depois de ver Kyousei pela primeira vez?

 

O filme tira uns minutos, antes dos créditos finais, para mostrar a reação dos Escolhidos ao que acabou de acontecer – ao som da mesma banda sonora do prólogo de Soshitsu.

 

A cena em que Matt pendura os óculos de Tai ao seu pescoço ficou retido na minha retina durante vários dias (juntamente com o grito de Daigo). É, em simultâneo, um momento lindíssimo e dilacerante. Por tudo o que simboliza: uma passagem de testemunho involuntária; a adoção da liderança; um talismã de um ente querido perdido; uma homenagem a esse ente querido; uma lembrete do que lhe aconteceu. E também porque não deixa de parecer profundamente errado ser Matt e não Tai a usar os óculos.

 

  

Matt ordena aos amigos que sequem as lágrimas e se levantem para lutar. Com o mundo colapsando à volta deles, não há tempo para lutos.

 

De notar que, em Adventure, esta atitude por parte de Tai foi um dos catalisadores para o exílio voluntário de Matt, durante o último arco. Só prova quanto os dois jovens evoluíram desde essa altura.

 

Um último destaque para Koromon, ainda sentindo o imperativo de proteger o seu Escolhido, ao que parece (um dos primeiros sinais de que Tai sobreviveu?). Acaba por ser consolado, talvez mesmo adotado, por Meiko.

 

Conforme já dei a entender, este filme afetou-me profundamente. Já Kokuhaku tinha afetado, um ano antes, mas de maneira diferente. Kokuhaku teve um final triste, sim, mas agridoce, com uma nota de esperança. O final de Kyousei, por sua vez, não é apenas triste: é sombrio. Pelos motivos que listámos acima.

 

  

Não que fosse de esperar outra coisa. Este é o penúltimo filme da série. O seu objetivo era mesmo tornar a situação o mais complicada e desesperante possível – para depois ser resolvida no capítulo final. É uma das regras da ficção: fazer as personagens sofrer, desafiá-las, levá-las aos limites, obrigá-las a mostrar o que valem para sobreviver. Facilidades dão péssimas histórias. E este, de facto, é o maior desafio que os Escolhidos alguma vez tiveram de enfrentar.

 

Eu sabia que seria assim, antes de ver Kyousei. Devia ter estado preparada. Mas não estava.

 

A melhor forma que encontro para descrever o efeito que este filme teve em mim é com The Sound Of Silence: “Hello darkness, my old friend…”. Cheguei mesmo a compilar numa playlist no Spotify refletindo o meu estado de espírito pós-Kyousei. Músicas como Everything Burns (que representa bem o que aconteceu com Kari), Frozen, dos Within Temptation (que representa o ponto de vista de Tai em relação ao seu sacrifício), We Are Broken, dos Paramore (que descreve a situação dos Escolhidos no fim do filme), entre muitas outras.

 

Emoções à parte, há que dar crédito a um trabalho ficcional quando este consegue mexer com a sua audiência desta forma. É certo que Tri tem a vantagem de trabalhar com um elenco amado há muitos anos pela larga maioria da audiência. Isso apenas significa, no entanto, que o trabalho foi bem feito desde o início.

 

Portugal-Gana06.jpg

  

Eu, pelo menos, consumo bastante ficção desde pequena e, antes de Tri, foram pouquíssimas as ocasiões em que uma história me afetou tanto. Recordo, também, que não tive nenhum contacto com este universo durante dez anos.

 

Como tal, na minha opinião, Kyousei é o segundo melhor filme de Tri até agora. Kokuhaku continua à frente porque explora melhor a parte dramática e emocional e não se arrasta tanto a meio.

 

Está mais ou menos empatado com Saikai, contudo. Os dois filmes têm tons completamente diferentes, é difícil comparar.

 

Não que esteja cem por cento satisfeita com o modo como a narrativa está a decorrer. Entre outras coisas (coff coff, 02), estamos quase no fim de Tri e ainda sabemos muito pouco sobre o grande vilão da história (supostamente).

 

Sem Título2.png

 

É possível que os digi-guionistas estejam a fiar-se no facto de uma boa parte da audiência conhecer Yggdrasil de outros universos de Digimon. Mesmo assim, o universo de Adventure já tinha estabelecido (mais ou menos) a Homeostase como a principal divindade do Mundo Digimon. Onde é que Yggdrasil se encaixa nesta equação? É uma divindade com poder equivalente à Homeostase? É uma divindade menor? É uma força que surgiu no Mundo Digimon após 02?

 

Tudo o que sabemos sobre a sua motivação aprendemos no monólogo do Dark Gennai, em Soshitsu. Ao que parece, Yggdrasil opõe-se à interferência de humanos no Mundo Digimon. Kyousei não aprofunda o assunto. O que é uma pena, porque esta motivação encaixa-se bem no tema recorrente de Tri: a desconstrução do conceito de Crianças Escolhidas.

 

Por essa lógica, o disfarce adotado por Gennai, de Imperador Digimon, faria muito mais sentido: se formos a ver, o Imperador Digimon foi o pior exemplo da interferência de humanos no Mundo Digital.

 

Esse conflito, além disso, liga-se bem com o que se passa na atualidade, com a crise dos refugiados, as políticas anti-imigração, os movimentos ultra-nacionalistas.

 

Sem Título1.png

 

Uma das minhas seguidoras no Twitter, aliás, fez-me reparar nas semelhanças entre o Dark Gennai e Donald Trump. Não apenas porque Gennai vilaniza humanos, tal como Trump vilaniza qualquer um que não seja um homem branco heterossexual, também porque… vêmo-lo assediando raparigas. E eu, pelo menos, sinto repugnância física por ambos.

 

Também é possível que isto seja apenas uma ideologia de que se aproveita para recrutar peões. Ou uma desculpa para, quiçá, Yggdrasil usurpar o lugar da Homeostase e atacar o Mundo Real.

 

O problema de Tri (um de vários) é ser tão vago que uma pessoa como eu, que gosta de analisar estas coisas ao pormenor, a partir de certa altura, não consegue distinguir o que acontece de facto nos filmes e as nossas próprias teorias. Ou as de outros fãs, na Internet.

 

Outro reparo a Kyousei (mais ou menos) diz respeito ao papel de Kari. Ela aparece no poster, este devia ser o filme dela, pela lógica de Tri. No entanto, não é isso que acontece. Meiko, que também aparece no poster, tem tempo de antena de sobra. Mas, em vez de dividir o protagonismo com Kari, divide-o com o irmão desta. Tri está a imitar Adventure no sentido em que Tai é das personagens mais desenvolvidas, por vezes em detrimento das outras.

 

Sem Título.png

  

Dito isto, não posso dizer que não esteja de todo satisfeita com o papel de Kari em Kyousei. É certo que, com o reduzidíssimo desenvolvimento de Kari em termporada e meia e quatro filmes, tudo o que vem à rede é peixe. Mesmo assim, os digi-guionistas conseguiram evitar algumas das armadilhas em que costumam cair, no que toca à jovem. Como o uso dela como mero veículo de exposição, de Deus Ex-Machina ou de donzela indefesa.

 

Já falámos sobre o momento em que se rebela contra a Homeostase. Por sua vez, a sua possessão por parte das trevas não foi um evento ao calhas – foi uma consequência direta da perda de alguém que ama. Se formos a ver, foi mais ou menos o mesmo que aconteceu com Ken e Oikawa, em 02 – apenas mais rápido.

 

Tínhamos visto nessa temporada, aliás, que Kari sempre fora mais vulnerável do que o normal à influência das trevas – tal como, segundo as minhas teorias, alguns de nós são mais suscetíveis do que outros a depressões. A jovem ia conseguindo resistir graças àqueles que ama. 02 tirou um par de episódios para estabelecer T.K. e Yolei como pilares para a sanidade mental de Kari, mas ficou bem claro, desde o início desse arco, que Tai fora sempre um dos pilares mais importantes. Acho que todos sabíamos que, se Kari perdesse o seu onii-chan, o dique colapsaria e a Escurdão invalida-ia a jorros.

 

Gostava, no entanto, que Tri tivesse recordado a audiência acerca desta característica instabilidade de Kari, antes. Assim, a possessão de Kari parece um pouco repentina – sobretudo para quem não se lembre tão bem de 02.

 

Sem Título11.png

  

Não deu para perceber ao certo em que estado ficou Kari, no final de Kyousei. Só a vemos amparada por T.K. Estará ainda sob a influência da Escuridão? Voltará a si, apercebendo-se do que desencadeou? E os outros Escolhidos, que se calhar não sabiam que Kari tinha estes poderes?

 

O que é certo é que, agora que Kari perdeu o irmão e a sua companheira Digimon, será muito difícil ela não ser desenvolvida no próximo filme. Finalmente. Espero, por exemplo, que se aproveite a oportunidade para descontruir a relação entre os dois irmãos, que nunca foi muito saudável: ele pela culpa de quase a ter matado, ela por se ter tornado demasiado dependente dele. (Por favor, digi-guionistas, não estraguem isto!!)

 

Estou, também, curiosa relativamente à maneira como os Escolhidos lidarão com Ordenimon. Continuarão decididos a matar Meicoomon ou, agora, que esta se fundiu com Gatomon, mudarão de ideias? Afinal de contas, Gatomon não está corrompida (pelo menos não da mesma maneira que Meicoomon) e, sinceramente, Kari acabou de perder o irmão, não precisa de mais.

 

Isto se forem, sequer, capazes de fazer mossa a Ordenimon – sem o Omegamon, será muito difícil.

 

Sem Título1.png

  

Outra incógnita diz respeito à liderança de Matt. Da última vez que Tai despareceu e os miúdos não sabiam se ele estava vivo – na transição do segundo para o terceiro arco de Adventure – o grupo acabou por se desintegrar. Teve de ser o próprio Tai a reuni-los de novo.

 

As circunstâncias, agora, são muito diferentes: os miúdos estão mais velhos, têm mais experiência nestas lides. Matt, em particular, é uma pessoa completamente diferente, mais parecida com o Tai de Adventure – sobretudo na filosofia de “lutar primeiro, chorar depois”. Por fim, naquela altura em Adventure, não havia nenhum vilão a precisar de ser derrotado – tanto quanto sabiam. Agora passa-se o completo oposto.

 

Também temos a questão do luto por Tai. Matt vai obrigar toda a gente a engolir as lágrimas, como acabámos de ver. Mas é possível que pelo menos alguns dos Escolhidos não consigam aguentar por muito tempo.

 

É o que eu espero, pelo menos. De que serve Tai “morrer” se a única reação a que teremos direito for a possessão de Kari? Será um desperdício se o jovem voltar para junto dos amigos antes de ter havido choradeira a sério.

 

Sem Título2.png

  

Toda a gente sabe que o Tai não morreu. Porque epílogo de 02 e porque ele e Omegamon aparecem no poster do próximo filme. Mesmo que não tivéssemos estes “spoilers”, acho que alguns de nós não acreditariam que Tai estivesse mesmo morto.

 

Daigo, por sua vez, não tem nenhuma garantia. É possível que ele tenha morrido a sério. Não me parece, no entanto. A sua história individual ainda não terminou – pelo contrário, está apenas a começar a sério. Se houver alguma personagem a morrer em Tri, acho mais provável ver Maki. Ou Meiko.

 

Em todo o caso, se tanto Tai como Daigo sobreviveram, hão de ter ido parar a algum sítio. É uma das maiores perguntas a que o próximo filme terá de responder.

 

A minha hipótese preferida é Tai e Daigo irem parar ao mesmo sítio aonde o elenco de 02 foi parar, no início de Saikai – talvez como prisioneiros de Alphamon e/ou Yggdrasil, no Mar Negro ou no Mundo dos Sonhos ou, pura e simplesmente, numa parte desconhecida do Mundo Digimon. Seria uma boa maneira de trazer Davis e os outros para a história e compensaria pela maneira fraquinha como têm ligado com esta questão até agora.

 

Sem Título.png

  

Bem, quase.

 

Não me atrevo, no entanto, a alimentar demasiadas esperanças. As minhas expectativas estão tão baixas que quase me contento com uma ou duas linhas de diálogo dando uma explicação, mesmo que seja má. É um bocadinho triste, na verdade.

 

É por estas e por outras que, mais do que com os filmes anteriores, estou ansiosa pela sinopse do próximo. Esta, infelizmente, ainda deverá demorar.

 

Mas falemos, então, sobre o último filme de Tri. Este chamar-se-á, Bokura No Mirai, que significa “O Nosso Futuro”. Foge da regra de Tri, até agora, dos títulos de uma palavra só e… aqui entre nós, isso chateia-me um bocadinho. Mais por motivos práticos: os títulos simples dão jeito nestas análises. Vai ser um bocadinho chato estar sempre a escrever Bokura No Mirai.

 

PhotoGrid_1511725036261.jpg

   

À parte isso, este título não diz muito – apenas que parece adequado a um final de série e que possa ser uma referência ao tema Bokura No Digital World, do final de 02.

 

Nesse aspeto, o poster é mais últil: com o elenco principal de humanos e Digimon, Meiko e Meicoomon caindo. A minha primeira interpretação foi que ambas morreriam nesse filme – um bom reflexo do meu estado de espírito pós-Kyousei. Agora, acredito que signifique, apenas, que os Escolhidos vão continuar à procura de uma maneira de salvar Meicoomon.

 

O desfecho mais provável para esta história será Meicoomon morrer, de uma forma ou de outra, e renascer completamente saudável, sem o tal fragmento de Apocalymon.

 

Por outro lado, o detalhe do poster que tem deixado os fãs em polvorosa é o suposto chapéu do Wizardmon, como mostra a imagem abaixo. Faria sentido. Um dos efeitos do Reinício é a ressurreição de Digimon falecidos no Mundo Real. Ninguém se admiraria se o Wizardmon ajudasse Kari e/ou Gatomon a voltarem a si. Ou se ajudasse Gatomon a desbloquear a sua verdadeira forma Hiper Campeã.

 

Sem Título.png

 

Só espero que ele não morra outra vez. Não precisamos de outro Leomon.

 

Entre isto, o destino de Tai e Daigo, o destino de Maki e todas as pontas por atar em Tri, Bokura No Mirai tem muito com que lidar. Por esse motivo, entre outros, vários fãs (eu incluída) estão à espera que este filme tenha cinco episódios, à semelhança de Kokuhaku. Mesmo assim, quatro episódios até podem chegar – se os digi-guionistas forem capazes de acelerar o ritmo da história e de cortar nos fillers.

 

A estreia de Bokura No Mirai está marcada para 5 de maio de 2018. Esta data só foi anunciada há cerca de duas semanas – antes disso, a única previsão que tínhamos para a estreia era para o verão. Muitos fãs, na altura, ficaram desanimados mas, aqui entre nós, eu não me importaria de esperar. Ainda não me sinto preparada para me despedir de Tri e muito menos das nossas eternas Crianças Escolidas. Não me queixava se tivéssemos mais uns meses de especulação e teorias – afinal de contas, estas acabam com o último filme.

 

Estou, no entanto, aliviada por a estreia do filme não coincidir com o Mundial 2018 – altura em que estarei ocupada com o meu outro blogue. Já foi difícil com Kyousei, que saiu no dia a seguir à Convocatória para os últimos jogos da Seleção. Tinha de escrever um texto entusiástico, motivador, no pós-Kyousei, quando tudo o que me apetecia era deitar-me no chão, ouvindo Pieces, dos Sum 41, em loop. Acabei por conseguir escrever esse texto, mas demorou-me mais tempo do que o costume.

 

Sem Título11.png

  

Com uma estreia em princípios de maio, terei tempo de sobra para processar o filme antes de me virar para o meu outro blogue. O pior que pode acontecer é atrasar-me na escrita da análise… ainda mais do que o costume, isto é. Porque, por mais que me esforce, estes testamentos levam-me semanas.

 

Como é o último filme, no entanto, não haverá grande pressa. Pelo contrário, sei que vou ter saudades de escrever sobre Tri.

 

Em parte para mitigar essas eventuais saudades, estou a pensar começar a ver as outras temporadas de Digimon – Tamers, Frontier e por aí fora – depois de publicar essa última análise. Talvez mesmo escrever sobre elas aqui no blogue, como fiz com Adventure e 02, há dois anos. Com a diferença de estas não serão influenciadas pela nostalgia de tê-las visto na infância – serão as opiniões de uma mulher adulta, contactado com esses universos pela primeira vez.

 

O motivo principal, contudo, é por não querer perder o contacto com Digimon depois de Tri. Estive dez anos fora, voltei há dois. Desde então, fiz várias amizades online graças à franquia – incluindo durante o encontro do Odaiba Memorial Day. Agora que aqui estou, não quero voltar a sair tão cedo.

 

Obrigada a todos os que se deram ao trabalho de ler este testamento.

Digimon Adventure Tri - Kyousei #2

Segunda parte da minha análise a Kyousei. Podem ler a primeira parte aqui.

 

124243212.png

 

Como as casas dos miúdos estão cercadas de jornalistas, Daigo leva-os para a escola – vazia em tempo de férias de verão. Aqui, coloca-os ao corrente da destruição provocada por Meicrackmon, bem como da decisão da Homeostase em eliminá-la.

 

Não se percebe se Daigo lhes conta a parte de Meicoomon ter nascido com uma partícula de Apocalymon ou de Meiko ter sido Escolhida para, essencialmente, lhe servir de Alprazolam. É possível que lhe tenha omitido este segundo aspeto porque, pelas Bestas Sagradas, a miúda não precisa de mais sentimentos de culpa por algo que lhe foi imposto aos onze anos.

 

De notar que, quando os miúdos querem partir para a luta, Tai obriga-os a parar e a pensarem antes de agir. Matt pensa logo que Tai está a regressar à apatia dos primeiros filmes de Tri – ou isso ou ele, pura e simplesmente, tem como primeiro instinto partir para a discussão no que toca a Tai (chega a ser caricato, às vezes). Tai diz apenas que eles têm de abordar as coisas com cuidado para evitar danos colaterais desnecessários. Garante, no entanto, que está do lado dos seus Digimon e lutará por eles.

 

Meiko, por sua vez, continua a sentir-se culpada pelo caos que o seu Digimon está a provocar e a questionar o seu propósito como Escolhida. Dá para reparar mesmo que, à medida que o tempo passa, Meiko vai ficando cada vez mais alheada dos outros, mais fechada sobre si mesma.

 

20398733_scvlm.png

  

Os amigos repetem a conversa da gruta, insistem que Meicoomon precisa da sua companheira, que Meiko não pode desistir dela. Nesta fase, isto começa a soar repetitivo, sobretudo quando vemos o filme pela primeira vez. Mas acho que é intencional: para mostrar que os oito veteranos estão agarrados, com unhas e dentes, à fé que os ajudou a sobreviver a seis anos como Escolhidos. Não conseguem, nem por um momento, conceber um cenário diferente. Nem mesmo quando percebem que Meicoomon está a ser manipulada por Yggdrasil e que a posição da Homesostase neste conflito é incerta.

 

Nesse aspeto, a frase dita por Kari mais tarde, um pouco vinda do nada – “Não é possível compreender a gravidade de algo até este acontecer perto de nós” – descreve bem o conflito entre Meiko e os amigos. Pode até mesmo ser aplicável a Tri em geral. Os Escolhidos veteranos não se apercebem que a história deles com os Digimon é diferente da de Meiko. Eles receberam os seus companheiros digitais para os ajudar a resolver um problema, ou vários. Por sua vez, o Digimon de Meiko era o problema que ela tinha de resolver.

 

Também faz parte do crescimento: nem sempre existem soluções ou caminhos universalmente certos.

 

Com o grupo em risco de cair no desânimo, T.K. desafia toda a gente para uma sessão de histórias de terror – mesmo no espírito de uma noite de acampamento ou de uma festa do pijama.

  

 

 

Esta parte é um filler, não há como negá-lo. Ninguém espera ver os heróis em amena cavaqueira em vésperas do Apocalipse. Dito isto, estas cenas proporcionam algum alívio cómico – que também é importante tendo em conta o que aconteceu até agora, no filme, e sobretudo o que acontecerá a seguir. E, sejamos sinceros, é um dos momentos mais engraçados até agora em Tri. Ainda mais que a invasão dos balneários, em Ketsui.

 

Um dos principais motivos para esta cena resultar tão bem é o facto de maior alvo da piada ser o Matt. Personagens que se levam demasiado a sério são ótimos alvos para comédia. Em Adventure, esse papel era desempenhado por Joe. Uma parte da sua evolução como personagem, contudo, consistiu em  aprender a não levar a vida tão a sério.

 

Assim, o alvo das brincadeiras passou a ser Matt – quase sempre de mau humor, que leva tudo a peito, que precisa de doses exatas de pimenta nos seus noodles. É uma delícia vê-lo com medo de histórias de terror (o Matt, de todas as pessoas…) e os amigos a rirem-se dele – em particular o seu irmãozinho. O pormenor de Matt tocando baixo no ar, durante a história, foi bem sacado.

 

Por outro lado, depois de tudo por que os miúdos passaram nos últimos seis anos… como é que algum deles tem medo deste género de histórias? Isto para não dizer que história de terror a sério será o que acontece na manhã seguinte…

 

Mas não nos adiantemos.

 

15977960_855234827912217_5927008578269354388_n.png

  

Outro momento bonito foi quando os miúdos ligaram aos pais – um toque de realismo que não se prolonga demasiado e até contribui para alguma caracterização. Como Sora e Mimi consolando-se uma à outra e Matt recusando-se a falar com a sua mãe (hum…).

 

A única conversa que ouvirmos é a de Tai com a sua mãe. Já a tínhamos visto antes, no filme, acompanhando a situação através dos noticiários. O seu papel como representante das famílias dos Escolhidos (dos oito veteranos, pelo menos) não terá sido atribuído por acaso. Pelo contrário, parte o coração, tendo em conta o que acontecerá a seguir. Sobretudo quando ela pede a Tai que tome conta da irmã e dos Digimon.

 

Podia escrever um testamento à parte deste sobre as possíveis implicações por detrás deste pedido inocente e a sua influência na relação entre Tai e Kari. Já irei dizer algumas coisas mais à frente e poderei dizer ainda mais, na análise ao próximo filme de Tri. Mas, para já, passemos à frente.

 

Depois dos telefonemas aos pais, Tai encontra Meiko sozinha, no exterior (no pátio da escola?) – outro sinal de que está cada vez menos em sintonia com os outros Escolhidos. Tai ouve-a pensando em voz alta. Quando Meiko dá pela presença dele, os dois conversam.

 

124243212.png

  

Sempre gostei de momentos assim em ficção. Duas personagens (interesses românticos ou não) a sós, trocando confidências e/ou tendo conversas profundas debaixo das estrelas, enquanto o resto do elenco dorme. Às vezes com tempo para comentários sobre as constelações ou para a ocasional estrela cadente. Por sinal, em Kyousei, a sequência dos créditos e a música – a lindíssima Aikotoba – captam bem o espírito intimista e pacífico desses momentos.

 

Esta cena encaixa-se bem nesse modelo. Tai ouvira Meiko refletindo sobre a sua relação com Meicoomon, questionando a filosofia com que os amigos andavam a martelá-la. Todos lhe diziam que havia um laço inquebrável, quase sagrado, entre Escolhido e companheiro Digimon. No entanto, tudo o que Meiko fizera de acordo com esse princípio só piorara a situação.

 

Tai tenta consolar Meiko à sua maneira. Reflete sobre as diferenças entre a maneira como uma criança vê as coisas e a maneira como um adulto as vê – um dos temas recorrentes em Tri e com o qual quase toda a audiência se identifica. Afinal de contas, quase todos nós vimos Adventure pela primeira vez quando éramos pequenos – há quase vinte anos, nalguns casos. Nenhum de nós vê o mundo da mesma maneira. Eu não vejo, pelo menos.

 

Tai, no entanto, comente o mesmo erro que ele e os outros veteranos têm cometido neste filme: não consegue ver além dos seus próprios vieses, não percebe que a experiência de Meiko com o cargo de Escolhido é diferente. A jovem começa mesmo a assumir que o Dark Gennai estava a falar dela quando dizia: “Não devias ter nascido” – ao que Tai responde com brusquidão. Arrependido, dá a conversa por terminada – não sem antes dizer a Meiko para não ir por esses caminhos.

 

20398733_scvlm.png

  

Depois disto, ambos ficam a ruminar sobre a conversa – e ambos são ouvidos por Agumon, por sinal. Mais uma vez, a unidimensionalidade do Digimon acaba por resultar bem.

 

Meiko confessa, para a surpresa de absolutamente ninguém, que tem inveja dos outros Escolhidos – cada um com um companheiro Digimon, com todas as vantagens, sem o medo constante que eles de repente se passem e destruam tudo à sua volta. Agumon, por sua vez, diz acreditar que Meicoomon ama a sua companheira humana, tal como qualquer outro companheiro Digimon. Isso sempre consola Meiko um bocadinho.

 

Tai, por sua vez, torna a refletir sobre a sua condição de quase-adulto – em que já não consegue deixar de se preocupar com as coisas, com as consequências das suas palavras e ações.

 

Sinto a tentação de perguntar se Tai deseja mesmo voltar a ser o miúdo impulsivo e irresponsável de Adventure. Eu não quereria. Tenho saudades da minha infância de vez em quando, sim. Isso não significa que queria voltar a ser a pessoa que era na altura – uma miúda mimada, egoísta, ainda mais bicho-do-mato que sou agora.

 

Mas estou a desviar-me.

 

15977960_855234827912217_5927008578269354388_n.png

 

Agumon, na sua inocência, diz que, tal como ele come quando tem fome, quando Tai se preocupa, deve fazer alguma coisa em relação a isso. Procurar resolver os problemas que o atormentam.

 

A oportunidade para isso surge na manhã seguinte, quando Meicoomon reaparece. Esta parte do filme dá-me um dejá-vu de Kokuhaku: voltámos a passar três episódios (OK, um bocadinho menos) com Meicoomon fugida, causando confusão pelo Mundo Real e os miúdos basicamente à espera que ela regresse, para o confronto.

 

E a verdade é que, em Kokuhaku, essa espera foi melhor. Não que não tenha acontecido nada de interessante até agora – pelo contrário, gastámos cerca de quatro mil palavras a falar sobre isso. Mas nada disto teve um impacto emocional que se compare à infeção de Patamon e os Digimon passando bons momentos com os seus companheiros humanos antes do Reinício.

 

As próprias personagens fazem referências aos eventos de Kokuhaku – nomeadamente quando Izzy impede os Digimon de partirem imediatamente para o combate com Meicrackmon, receando que estes sejam infetados de novo. Os Digimon, no entanto, insistem em lutar e os miúdos aceitam.

 

Por fim, tal como aconteceu em Kokuhaku, este confronto acaba horrivelmente mal. Eu diria mesmo que agora foi pior.

 

124243212.png

  

Antes de partirem para a luta, Meiko tenta, pela milionésima vez, apelar a Meicoomon e ao laço que as une – se é que este ainda existe. Chega mesmo a pedir à sua companheira que a castigue por ter falhado enquanto Escolhida.

 

Meicrackmon não reage. Os miúdos não têm escolha senão partirem para o confronto físico. Os Digimon passam logo ao nível Perfeito – desta vez não se perdeu demasiado tempo com sequências de digievolução infinitas. Dividiu-se o ecrã e está a andar. Uma mudança bem-vinda após a confusão que foi o final de Soshitsu.

 

Entretanto, os miúdos e Daigo apercebem-se que o medo sentido por Meicoomon torna-a virulenta e catalisa a distorção. Faz sentido com o que temos visto até agora – nomeadamente o assassinato de Leomon, após se ter recordado dele na forma infetada.

 

Os miúdos não têm tempo para mudar de abordagem – uma vez que este é o momento escolhido por Jesmon para entrar em cena. Ainda não foi confirmado oficialmente, mas é quase certo que este Jesmon é o Huckmon digievoluído, enviado pela Homeostase para eliminar Meicrackmon.

 

20398733_scvlm.png

  

É neste momento que os miúdos sentem na pele a traição da Homeostase. Ela (ela?) usara os miúdos a seu bel-prazer durante seis anos para resolver aquilo que, pelo que se via agora (e, de certa forma, se viu com as Primeiras Crianças Escolhidas), até podia ter resolvido sozinha. Agora que os Escolhidos questionavam os métodos dela, descartava-os. Conforme Tai diz, os Escolhidos já não sabem em quem confiar, já não sabem quem é o verdadeiro inimigo nesta equação.

 

Outro sinal de que o público-alvo de Tri já não é o infantil: o Bem e o Mal não se distinguem facilmente, nenhuma das partes está cem por cento certa. Nem mesmo os Escolhidos.

 

Além de atirar os miúdos aos lobos, a aparição de Jesmon desencadeia a digievolução de Meicrackmon para Raguelmon. Pelas palavras do Dark Gennai, que observa a cena à distância, isto ajuda a causa de Yggdrasil.

 

De facto, se virmos bem as coisas, as ações da Homeostase para resolver o problema Meicoomon só têm piorado uma situação já de si má. Desde a expulsão de Meicoomon para o Mundo Real, passando pelo Reinício, acabando no que acontece a seguir, em Kyousei. E esta ainda tem a lata de culpar os Escolhidos pelo que está a acontecer, conforme veremos já de seguida.

 

15977960_855234827912217_5927008578269354388_n.png

 

Os miúdos têm uma oportunidade de falar diretamente com a Homeostase quanto esta toma posse de Kari. Através dos lábios da jovem, a Homeostase ordena aos Escolhidos que não interfiram, que deixem Jesmon eliminar Raguelmon. Chega mesmo a acusá-los de terem falhado – tal como Hackmon fizera com Daigo – e mesmo a ameaçar matá-los também.

 

Tal como já acontecera com o envio de Jesmon, hostilizar os Escolhidos tem o efeito contrário ao desejado. Só torna os miúdos mais casmurros, mais empenhados em proteger Raguelmon – que, ainda por cima, poucos minutos, protegera Meiko. Os miúdos interpretam-no como um sinal de que o laço entre o Digimon e Meiko ainda não despareceu e nem querem ouvir falar em matar Meicoomon.

 

Daigo é dos que mais protesta. Tanto por raiva pelo que aconteceu com Maki como por genuína afeição aos miúdos, tal como vimos antes. Chega mesmo a gritar:

 

– Estas crianças não são teus peões!

 

124243212.png

  

Os maiores protestos, contudo, partem de Kari, que se rebela contra a possessão da Homeostase. Da primeira vez que vi esta cena, cheguei a festejar, como um golo num jogo de futebol. Já estava na altura de Kari deixar de aceitar, passivamente, o papel de marioneta de entidades sobrenaturais. Esperámos anos pelo momento em que Kari se defendesse a si mesma, quer da Homeostase quer da Escuridão, sem ser amparada por outros. Eu, pelo menos. Como se diz em inglês, you go, girl!

 

O reverso da medalha, no entanto, virá mais tarde.

 

Numa coisa a Homeostase tem razão, no entanto: as emoções estão a toldar a visão dos Escolhidos. E nem sequer se pode dizer que a Homeostase esteja errada. Pelo contrário, ela está a dar prioridade ao bem coletivo – e, sejamos honestos, este nunca teve mais ameaçado. Mas ainda faltava até os miúdos estarem em condições de enfrentarem a verdade.

 

Por sinal, a pessoa que, em teoria, tinha mais motivos para protestar mantém-se alheada do conflito. Tomem nota, que isto é importante.

 

20398733_scvlm.png

  

Para já, a revolta dos miúdos catalisa o regresso do Omegamon – nesta fase, já tinham surgido todas as formas Extremas disponíveis. A luta muda-se para o Mundo Digimon (aparentemente) via distorções.

 

É também nesta altura que Alphamon decide juntar-se à festa – porque a situação não estava preta que chegue. Ao que que parece, este está do lado de Yggdrasil e luta com Jesmon para impedir que este mate Raguelmon.

 

Não dá para ter certezas absolutas, no entanto. É um dos problemas de Tri: continua a haver muito por explicar. Há coisas que nós, na audiência, assumimos como certas, mas que os filmes não confirmam preto no branco. Mas isso é conversa para as alegações finais.

 

Para já, dizer apenas que Alphamon consegue, com um só golpe, reduzir os Digimon (tirando Omegamon) dos miúdos às formas Bebés. O que, sinceramente, é uma desilusão. Estivemos anos e anos à espera destas formas Extremas e estas não se aguentam perante um dos primeiros adversários a sério que encontram?

 

15977960_855234827912217_5927008578269354388_n.png

  

Acho, no entanto, que isto se deveu a motivos de enredo, mais do que a verdadeira inaptidão dos Digimon. Não me admirava se, no próximo filme, eles fizessem melhor figura.

 

Hoje ficamos por aqui – agora que começa a custar escrever sobre Kyousei. Acho melhor tirarmos uma publicação para falar sobre os eventos da reta final do filme e as suas consequências. Continuamos amanhã. 

Pesquisar

 

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Sofia

    Muito obrigada pelos elogios, significam mais do q...

  • Dimitri Gabriel

    Sofia, em primeiro lugar quero lhe parabenizar pel...

  • P. P.

    Somente não concordo com "Já de si é vulgaríssimo ...

  • Sofia

    Sim, Iddle Worship e No Friend são músicas difícei...

  • Anónimo

    After Laughter é uma obra-prima, de certeza. Idle ...

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D

Segue-me no Twitter

Revista de blogues

Conversion