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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna #3

Terceira e última parte da análise a Kizuna. Podem ser as partes anteriores aqui e aqui.

 

1) Spoilers: esta análise vai discutir extensamente os eventos do filme Digimon Last Evolution Kizuna e poderá também revelar detalhes dos enredos das três temporadas do universo de Adventure (Aventure, 02 e Tri). Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios de Digimon têm traduções controversas – na língua portuguesa têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Conforme tinha dito que faria quando terminei as análises a Tri, para esta análise vou usar os nomes japoneses.

 

Esta agora vai doer. 

 

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Como disse antes, fiquei à espera de uma solução milagrosa para a contagem decrescente até ao último minuto. Recusava-me, uma parte de mim ainda se recusa, a aceitar aquele destino. E, em minha defesa, temos o epílogo de 02 na equação, mas falamos sobre isso mais tarde.

 

Para já, Taichi e Yamato levam separadamente os respectivos Digimon a ver a vista, à hora do pôr-do-sol, quando a contagem decrescente está quase no zero. Yamato comprou, inclusivamente, uma harmónica para a ocasião – gosto de pensar que Taichi e Agumon o ouviram tocar, mesmo à distância.

 

Finalmente, Agumon e Gabumon perguntam aos parceiros o que vão fazer no dia seguinte. Taichi e Yamato olham para o horizonte, pensando na questão. Vemos duas borboletas voando em direção às nuvens. Quando os dois rapazes – os dois homens – estão preparados para responder e olham para o lado, Agumon e Gabumon já não estão lá. Os dispositivos digitais apodrecem. As mãos que os seguiram tremem e lágrimas caem nos dispositivos. 

 

Éramos três a chorar. 

 

Ainda há tempo para umas últimas imagens de Taichi e Yamato, vários meses mais tarde – como as cerejeiras estão em flor, é capaz de ser a primavera seguinte. Parecem satisfeitos. É um alívio, este final já é suficientemente triste. Já viram como seria se a última imagem que tivesse de heróis que conheço e adoro há duas décadas fosse deles soluçando (de forma bem audível) sobre os seus dispositivos?

 

Os créditos finais incluem imagens de cada um dos doze protagonistas do universo de Adventure nas respectivas vidas e carreiras. De notar que os da geração de 02 (incluindo Takeru e Hikari) aparecem nas fotografias com os seus Digimon, mas os mais velhos não. A última imagem é a da tese de Taichi, sobre a relação entre a Humanidade e os Digimon.

 

Não que sirva de grande consolo para mim. Pelo menos não de início.

 

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Bom trabalho, digiguionistas. Kizuna é oficialmente o trabalho ficcional que mais me arrasou emocionalmente. Ainda mais que Kokuhaku e Kyousei na altura em que saíram. Este final fez-me chorar e, como já disse várias vezes aqui no blogue, eu não choro facilmente com estas coisas. 

 

Uma asneira que cometi foi ter visto este filme quando não estava ninguém em casa, nem sequer a minha cadela. Eu escolhi essa altura de propósito, para poder ver o filme em paz, sem interrupções. Mas quando Kizuna terminou desta forma, não tinha ninguém que me consolasse. Foi sobretudo nessa altura que me arrependi de não ter esperado para ver nos cinemas, quiçá com outros fãs de Digimon. Não teria de chorar sozinha. 

 

Isso ou, pura e simplesmente, tinha saudades do pessoal que costuma vir ao Odaiba Memorial Day. Ainda tenho. Maldita pandemia…

 

Hoje, mais a frio, não sei se ia querer chorar em público. Talvez não fosse assim tão mau se não fosse a única em lágrimas (e acho que não seria). Ainda assim, eu aconselharia as pessoas a não assistirem a Kizuna sozinhas e a terem lencinhos por perto. E uma bebida.

 

Estive semanas sem coragem para ver o filme segunda vez, para escrever este texto. Se não fosse Adventure 2020, teria cortado com tudo a ver com Digimon – era demasiado doloroso. Deixei de querer ouvir música de Digimon, deixei de querer pensar, tanto em Adventure como em Tamers ou mesmo Frontier. 

 

Talvez esta tenha sido uma reação exagerada a algo que não é real, pelo menos no sentido mais rigoroso da palavra. Adaptando uma frase de Chandler, estava a chorar porque deixaram de desenhar o Agumon e o Gabumon. Mas, pelas Bestas Sagradas, como me tenho fartado de dizer aqui, são duas décadas com este elenco! Mesmo tendo passado dez anos afastada de Digimon enquanto franquia, esse laço não se quebrou. São o meu elenco ficcional preferido!

 

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Não digo que ver (e ouvir) Taichi e Yamato chorando sobre os restos mortais dos seus dispositivos tenha sido a pior coisa que me aconteceu na vida. Claro que não. Nem sequer foi a pior coisa que me aconteceu no ano. Mas no ano da desgraça de 2020 não precisava mais desta!

 

Só recentemente é que me sinto a voltar ao normal. De uma maneira retorcida, o facto de neste momento estar a decorrer o reboot de Digimon Adventure, que me “obriga” a ver um episódio novo todos os domingos de manhã e a escrever uma breve crítica para a página do Facebook pode ter-me ajudado a ultrapassar esta má fase mais depressa. 

 

Escrever esta análise também ajudou. Costuma ajudar.

 

Temos  então de falar da velhíssima questão do epílogo de 02, em que os Digimon estão todos vivos e de boa saúde, em que, aliás, “toda a gente tem um Digimon”. O que contraria o final de Kizuna, e mesmo a regra definida pelo filme, que dita que nenhum adulto funcional pode ser um Escolhido. 

 

Nesta altura do campeonato, fica claro que a Toei há muito se arrependeu do epílogo. Em 2001 incluíram-no porque queriam colocar um ponto final na história deste universo. Queriam criar outros universos, com regras diferentes. Não imaginavam, se calhar, que o universo de Adventure viesse a ganhar tanta popularidade, que quereriam continuar a ordenhar dessa teta quinze, vinte anos depois. Mas agora as sequelas tinham de se encaixar no epílogo que criaram. 

 

Ou pelo menos deviam.

 

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Do que tenho lido por aí, quase toda a gente considera que o epílogo de 02 continua a ser válido. Um dos produtores do filme confirmou-o, mais ou menos, em entrevista. Eu mesma tenho-o interiorizado, sendo essa uma das razões para hoje me sentir menos triste com o final de Kizuna. Eles hão de recuperar os seus Digimon algures nos dezassete anos seguintes.

 

O que, no entanto, traz consigo as suas questões. Nomeadamente, como é que isso vai acontecer. Talvez Koshiro arranje uma maneira de travar o processo, mesmo revertê-lo – talvez ainda antes sequer de as contagens decrescentes de Joe, Mimi e os outros chegarem a zero, evitando que Gomamon, Palmon e os outros desapareçam. Ou então, talvez só os consigam recuperar anos mais tarde. 

 

Gosto de uma teoria na Internet que defende que, seguindo a lógica de que os Digimon representam a infância, os Escolhidos recuperarão os seus companheiros quando forem pais. Todos nós temos de crescer e tal, mas quando temos filhos e brincamos com eles, a nossa criança interior desperta de novo. Aí, os Digimon regressariam.

 

Pelo menos explicava porque é que cada um dos doze Escolhidos resolveu reproduzir-se. Já estou a imaginar a Sora:

 

– O que estás a dizer, Miyako? O Wormon e o Hawkmon voltaram quando a vossa filha nasceu? Também quero! Hei Yamato, faz-me um filho!

 

Ainda assim, mesmo que seja uma questão de tempo até Taichi e os outros Escolhidos recuperarem os seus Digimon… não deixa de ser cruel, estarem constantemente a tirar-lhes os Digimon, para depois os devolverem, para depois lhos tirarem outra vez. Kokuhaku já fora suficientemente duro. Havia necessidade de estar a sujeitar, tanto o elenco como a nós, na audiência, à mesma perda vezes e vezes sem conta?

 

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Iremos alguma vez saber as respostas a estas perguntas? Com outro filme, um CD drama, qualquer coisa? Infelizmente duvido que tão cedo a Toei vá por aí – se alguma vez for. Agora está a explorar o efeito Adventure de maneira diferente, com o reboot. Se quiserem fazer alguma coisa com este universo, com este elenco, fá-lo-ão na Adventure nova. 

 

É possível que nunca venhamos a ter a certeza. 

 

Achava eu que o elenco de Tamers era o menos afortunado, com aquela despedida traumática. Agora já não sei quem teve a pior sorte. Ao menos Takato, Ruki e os outros sabem que os seus Digimon estão vivos (ainda que nada seja garantido naquela versão distópica do Mundo Digital) e que a probabilidade de se reencontrarem não é zero. 

 

Já me garantiram, sem dar spoilers, que existem universos no anime em que as personagens têm companheiros Digimon e continuam com eles no fim. A minha sanidade mental agradece. 

 

Mas basta de lamúrias – pelo menos por agora. Kizuna pode ter um final doloroso, o que não é sinónimo de um final mau. Toda a narrativa do filme foi construída de forma sólida conduzindo a este desfecho. O tom sério e melancólico, o facto de mostrarem as dificuldades de ser um Escolhido enquanto adulto, a ideia subjacente em cada diálogo de que “as coisas não podem ficar para sempre na mesma”. 

 

Se Kizuna tivesse arranjado uma solução milagrosa à última hora, uma maneira caída do céu de Agumon e Gabumon sobreviverem, eu teria poupado muitas lágrimas, mas respeitaria muito menos o filme. Seria uma cobardia. 

 

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Porque Kizuna em si, no geral, está muito bem feito. É certo que é mais fácil ser-se consistente com um filme de noventa minutos, com apenas dois protagonistas – uma temporada com cinquenta ou sessenta episódios de vinte minutos com um elenco alargado ou uma série de seis filmes são muito mais complicados. Mas não deixa de ser um feito. 

 

Especificando um pouco mais, gosto da animação, do estilo do desenho – mais do que do de Tri. O filme pode só ter dois protagonistas, mas gostei que os outros dez Escolhidos tivessem todos aparecido, mesmo outros fora do grupo. Acho que foram bem utilizados.

 

Bem, com uma única exceção. Sora. É a única falha que tenho a apontar a Kizuna, mas é uma falha grande. Preparem-se, vem aí “rant”, como dizem os anglo-saxónicos. 

 

Já falámos sobre a curta-metragem focada nela, que justifica a sua ausência da larga maioria do filme: ela quer descobrir quem é fora da vida de Escolhida. Dentro do universo é uma razão perfeitamente legítima para ter ficado no banco, em Kizuna, e é um desenvolvimento interessante para a personagem.

 

A razão em termos de meta, por sua vez, é muito diferente. Sintam só isto: Sora aparece em Kizuna durante um total inferior a cinco minutos porque os digi-guionistas acharam que os fãs quereriam saber o que se passava entre ela e Taichi e Yamato.

 

 

Isto era literalmente a última coisa que queria que fizessem com Sora – recordo, a minha personagem preferida do universo de Adventure. Reduzirem-na ao papel de interesse romântico, assumirem que a audiência só quer saber dela como pretendente de Taichi ou Yamato. É insultuoso em tantos mas tantos níveis!

 

Eu, por um lado, compreendo em parte a posição deles. 02 emparelhou-a com Yamato, o epílogo oficializou-os ainda que não preto no branco, é claro que as pessoas iam fazer perguntas. 

 

No entanto, na minha opinião, existiam alternativas bem melhores. Deixarem a situação ambígua, como em Tri. Na minha opinião, não funcionou mal – tirando em Soshitsu, em que o esforço dos digiguionistas para não favorecerem nenhum dos rapazes ganhou contornos ridículos. Ou então, opinião impopular: confirmem de passagem que sim, Sora e Yamato namoram e Taichi está feliz por eles! Ninguém morreria por isso!

 

A entrevista com esta infame declaração surgiu na internet algures em maio do ano passado, vários meses antes de conseguir deitar as mãos a Kizuna. Na altura discuti com outros fãs no Twitter e houve quem ficasse do lado dos digiguionistas. Se não se achavam capazes de explorar essa faceta da história, diziam eles, talvez fosse melhor excluir Sora do filme.

 

Admito que, na altura, até me deixei convencer um bocadinho. Mas depois de ver Kizuna, depois de conhecer o reduzido papel de Sora nos eventos do filme, voltei atrás. Peço desculpa, mas isto foi cruel. 

 

Em Kizuna, Sora está a passar exatamente pelo mesmo que Taichi e Yamato: com uma contagem decrescente no seu dispositivo digital, prestes a perder a Piyomon. Parece que o dispositivo com uma única barra que aparece muito brevemente durante os créditos iniciais é dela. 

 

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No entanto, com Taichi e Yamato vemos o processo todo, praticamente todas as fases do luto, as lágrimas em primeiro plano, os soluços bem audíveis. Com Sora temos apenas uns vislumbres curtíssimos, uma breve cena dela com Piyomon nos braços, outras cenas igualmente breves dela já sozinha, com os restos mortais do seu dispositivo. Não sabemos sequer se alguém lhe explicou o que ia acontecer, porque ia acontecer. 

 

O mais triste de tudo? Sora sendo Sora arranja forças dentro de si mesma para deixar a sua dor de lado e torcer à distância pelos amigos, que estão a lutar na Terra do Nunca. Eles não merecem Sora, ninguém merece.

 

Lembram-se de quando Sora se queixou, em Soshitsu, de que ela se preocupa com toda a gente mas, quando é Sora quem precisa, ninguém se preocupa com ela? Não que fosse cem por cento verdade, mas agora Kizuna faz-lhe exatamente isso. A sua dor não é relevante. Tudo isto porque os digiguionistas acharam que a audiência ia dizer algo tipo:

 

– Sim Sora, perderes a Piyomon é muito triste, mas como vai a tua vida amorosa?

 

Torno a repetir, é uma crueldade. Sora merecia muito melhor. E infelizmente não é a primeira vez que Sora é negligenciada em comparação com outras personagens, no universo de Adventure.

 

Dito isto… não sei o que faria diferente. Mal por mal, gosto muito da curta-metragem de Sora, tal como escrevi acima. Mantendo a curta, Sora teria de continuar afastada da maior parte dos eventos de Kizuna, não poderia estar entre as vítimas de Eosmon. Pô-la como terceira protagonista, ao lado de Taichi e Yamato, também não bateria certo. 

 

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Para mim o ideal teria sido manter Sora fora do epicentro de Kizuna, mas deixá-la conversar com Taichi e/ou Yamato durante o segundo acto, mesmo que fosse apenas por telefone. Talvez ela oferecesse uma perspetiva diferente ao conflito emocional. Ela que, como vimos, quis deixar de ser Escolhida, deseja crescer. Talvez ela aceitasse melhor a perda da sua companheira, quando comparada com os amigos: porque na prática já não tem espaço na sua vida para os Digimon e, lá está, as coisas não podem ficar para sempre na mesma. 

 

Mas seria difícil encaixar essa conversa se tivessem de cumprir o limite dos noventa minutos. Não sei o que cortaria para incluir esta cena. 

 

Além disso, quero acreditar que, lá porque a narrativa de Kizuna ignorou o sofrimento de Sora, isso não quer dizer que o resto do elenco faça o mesmo fora dos ecrãs. Estou certa de que pelo menos Mimi não deixará Sora a chorar sozinha. 

 

Tenho, aliás, um headcannon para as primeiras horas depois de Agumon e Gabumon desaparecerem. Taichi vai passar a noite a casa dos pais, para ser consolado por eles e por Hikari. Por sua vez, Yamato vai ter com Sora e, ao consolarem-se um ao outro, uma coisa há de levar à outra e começam a namorar outra vez. 

 

Mudando de assunto, queria falar sobre as curtas-metragens que foram lançadas após uma campanha de crowdfunding e que detalham histórias sobre os Escolhidos e/ou os seus Digimon que não couberam em Kizuna. Já falámos sobre as duas primeiras. Tirando a que se centrou em Sora, estas curtas só apareceram na Internet há poucas semanas.

 

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A vantagem de ter demorado eternidades a escrever esta análise é ter apanhado este “lançamento” tardio. Agora posso incluir notas sobre essas curtas neste texto.

 

Estas pequenas histórias têm tons bastante diferentes entre si. Algumas são mais sérias e emotivas, algumas são mais parvas, no melhor sentido da palavra. Algumas são uma mistura de ambos. 

 

Uma dessas é a que se foca em Joe. Gomamon está preocupado porque o seu parceiro em miúdo não gostava de ver sangue. No entanto, agora está em Medicina, ou seja, há de ver sangue todos os dias ou quase.

 

O que não é necessariamente verdade. Existem especialidades em que não se vê muito sangue. Psiquiatria, por exemplo, oftalmologia (a menos que se fizessem cirurgias e mesmo assim), anatomia patológica (mortos não sangram), investigação…

 

Em todo o caso, em vez de fazer o que qualquer pessoa ou Digimon com dois dedos de testa fariam – falar com Joe – Gomamon arrasta Agumon para fazerem um teste. Mete ketchup. Tudo muito caricato e tal… até ao momento em que Gomamon leva com um camião em cima. 

 

Falta de juízo dá nisto. E aparentemente os Digimon sangram. As coisas que se aprende…

 

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No fim, Agumon continua na rua, coberto de ketchup, esquecido por todos. Eu pagava para ver a cara de Taichi quando encontrasse o seu Digimon naquela figura.

 

Noutra curta, que decorre no Mundo Digital, Palmon e Piyomon invejam Silphymon. Como Silphymon se consegue formar sem a intervenção de Hikari e Miyako só as Bestas Sagradas saberão. Palmon e Piyomon tentam fazer a sua própria digievolução ADN. Traduzindo à letra uma expressão anglo-saxónica, segue-se hilaridade. 

 

Aposto que, quando V-mon as viu naquela fatiota, no fim da curta, sentiu pela primeira vez que não era o companheiro Digimon mais totó do universo de Adventure.

 

Por falar em totó, a última curta diz respeito à épica história de Pumpmon e Gotsumon. Sim, os dois Digimon que supostamente o Vandemon tinha assassinado. Pelos vistos fora tudo a fingir. 

 

Das duas uma: ou os dois ressuscitaram com o Reinício, em Tri, e agora estão a armar-se ou Gabumon e V-mon estavam bêbados e imaginaram a história toda. 

 

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Mudando outra vez de assunto, queria falar sobre Digimon Adventure Tri Super Evolution Stage (qualquer coisa como Palco da Super Digievolução). Esta foi uma peça de teatro que decorreu em Tóquio entre 5 e 13 de agosto de 2017, entre as estreias de Soshitsu e Kyousei. Em finais de 2017, a filmagem da peça apareceu na Internet. Na altura, não achei que se justificasse escrever sobre ela aqui no blogue, mas deixei algumas impressões na página do Facebook.

 

Esta peça decorre algures durante os eventos de Tri, mas não se consegue perceber ao certo quando. Não que importe muito, pois, apesar de decorrer na mesma altura, é uma história independente da série. Não mete Meiko, nem Meicoomon, nem Maki, nem Daigo. Apenas os oito Escolhidos de Adventure e… Etemon. É, aliás – alerta spoiler – uma daquelas histórias em que, no fim, se descobre que foi tudo um sonho.

 

Em todo o caso, na peça – no sonho – os oito dão por si presos numa realidade alternativa onde é para sempre dia 1 de agosto de 1999. Isto porque, lá está, os miúdos consideram que os eventos de Adventure foram o pico da vida deles e estão cheios de medo de crescer.

 

Parece-vos familiar?

 

Curiosamente, a história pinta Joe como o exemplo a seguir. Neste sonho ele não está com dificuldades na escola (é de partir o coração quando regressa à realidade) e está determinado em ir para Medicina. Sabe o que quer ser quando for grande e quer lutar por isso. Não apesar das suas aventuras no Mundo Digital mas graças a elas. 

 

Gostei muito desta peça, recomendo-a. Como já terão concluído, entra em territórios semelhantes a Kizuna. Gosto mais da mensagem final da peça. Para começar, os Escolhidos não têm de se separar dos seus Digimon no fim, mas também pela lição de usar o melhor da infância como base para a vida adulta. 

 

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Já que se fala de crescimento, e como esse é um dos temas de Kizuna, uma coisa que me tem feito confusão diz respeito às mensagens contraditórias. Já vinha de Tri. Tanto esses filmes como Kizuna tentam desmontar o conceito de nostalgia, de saudades de tempos que já foram – neste caso, as primeiras temporadas, Adventure e 02, as infâncias do elenco. Em Tri, conhecemos três personagens cujas experiências enquanto Crianças Escolhidas foram menos idílicas que as dos nossos protagonistas. Em Kizuna, vemos as dificuldades de se ser Escolhido enquanto adulto e recordamos uma regra universal: nada dura para sempre. 

 

No entanto, ainda que Tri e Kizuna mostrem as limitações da nostalgia, esta continua a ser a principal razão de eles existirem. Eles não deixam de se aproveitar da nostalgia, o que tem o seu quê de hipócrita. Kizuna diz-nos para seguirmos em frente, mas a Toei não está a fazê-lo. Bem pelo contrário, poucas semanas após lançar Kizuna, estreou um reboot – ou, como gosto de chamar-lhe, “tábua rasa” – de Adventure. Reboot esse que vai a meio e, apesar de uma melhoria nos episódios mais recentes, parece não compreender aquilo que tornou Adventure tão especial, há duas décadas.

 

Em que é que ficamos, Toei? É para crescer ou não? É para deixar Adventure para trás, ou não?

 

E depois de tantas palavras sobre Kizuna, sobre a inevitável passagem do tempo, sobre a necessidade de seguir em frente e crescer, tenho uma opinião impopular: crescer não é assim tão mau. Crescer tem sido bom para mim. 

 

Não digo que seja necessariamente mais feliz ou que a minha vida seja mais fácil. Ainda assim, como alguém que cresceu um tudo nada demasiado protegida, uma das coisas de que mais gosto na idade adulta é de ter mais controlo sobre a minha vida e, no geral, ser melhor pessoa, mais confiante, responsável e desenrascada. Estou em constante crescimento, em constante (digi)evolução, e gosto mais de mim mesma enquanto adulta do que enquanto criança ou adolescente.

 

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E se tivesse de salvar o Mundo Digital, estaria mais habilitada para fazê-lo agora e não aos onze anos.

 

Eu compreendo que uma franquia dirigida a crianças teria, idealmente, um elenco da mesma idade que o seu público-alvo. Mesmo dentro do universo de Adventure, compreendo que Taichi e os amigos sintam que os seus melhores tempos tenham sido aos dez, onze anos – quando fizeram coisas que, se calhar, muitos adultos não seriam capazes, mas sem a autoconsciência de um adulto ou mesmo de um adolescente. Compreendo que tenham medo de crescer e cortar com essa vida.

 

No entanto, na minha opinião, os Escolhidos deviam orgulhar-se dos jovens adultos em que se transformaram – como eu me orgulho deles. Logo nos primeiros trailers, há pouco mais de um ano, ao ver o elenco na idade adulta, precisei de um momento. Como quem torna a ver um amigo de infância após muitos anos e se surpreende com as mudanças. Ou como quem reencontra um familiar que não via desde que este era criança, que descobre que este já está na faculdade ou que já está a trabalhar, e se orgulha do quão crescidos estão. 

 

Ainda agora sinto esse orgulho. Vendo Joe quase médico, Yamato e os seus “street-smarts”, como comentámos antes, Miyako estudando no estrangeiro, Koshiro com a sua empresa, Taichi mais perto de se tornar um embaixador do Mundo Digital – e admiro-o por ter ido por aí, mesmo depois de ter perdido Agumon. Eu não sei se seria capaz.

 

Todos eles são melhores versões de si mesmos. Em parte graças a aspetos mundanos do dia-a-dia, mas todos sabemos que foi sobretudo graças aos amigos e às suas experiências com os Digimon. O final da história deles pode não ser o mais feliz, pelo menos não por agora, mas aposto que nenhum dos Escolhidos, nenhum deles, lamenta ou se arrepende de ter embarcado nesta jornada.

 

E o mesmo se aplica a nós, na audiência. 

 

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Como referi acima, o final do filme é triste ao ponto de, da primeira vez que o vi, ter ficado com vontade de renegar tudo que fosse Digimon. Mas mesmo nessa altura, arrependida de ter começado a ver Adventure quando tinha dez ou onze anos? Nunca! Pelas recordações, pelo elenco inigualável, pelas fantasias de ser Criança Escolhida e visitar o Mundo Digital, pelos amigos que fizemos pelo caminho, pelos diretos no YouTube, as discussões no Twitter, os milhares de palavras no blogue, os encontros no Odaiba Memorial Day, pelos passeios na praia ao som de Hirari acústica. 

 

E vamos continuar, incluindo aqui no blogue – com Frontier. O plano é fazer o mesmo que fiz com Tamers. Ver pela primeira vez a versão original da temporada, sem stresses; ver de novo algum tempo depois, dobrada em português, desta feita já tomando notas para a análise. 

 

Pois bem, vi Frontier pela primeira vez no ano passado, quando Adventure 2020 estava em pausa. Como passei várias semanas à volta de Kizuna, agora preciso de uma pausa na escrita sobre Digimon. Assim, só devo ver Frontier pela segunda vez daqui a uns meses. Talvez o faça durante o verão, com o espírito do Odaiba Memorial Day.

 

Posso desde já adiantar, no entanto, que duvido que a análise seja tão longa como a de Tamers e mesmo que as de Adventure e 02. Frontier não convida a isso.

 

Falando a um prazo mais curto sobre os meus planos para este blogue – e deixando Digimon de lado por um momento – o meu próximo texto deverá ser sobre Flowers For Vases, o sucessor a Petals For Armor, que Hayley Williams lançou de surpresa na semana passada. Não vou começar a escrever já já sobre o álbum – preciso de passar mais algum tempo com as músicas. Mas em princípio não devo demorar tanto como demorei com o seu antecessor.

 

Adicionalmente, parece que Avril Lavigne tem um álbum novo prestes a sair do forno. Deverá editá-lo no verão, com o(s) primeiro(s) single(s) saindo daqui a dois ou três meses. No que toca a Avril, eu não conto os pintos até nascerem. Os álbuns dela têm sempre um parto difícil, não me surpreendia se houvesse algum adiamento. Também tenho esperanças de que Lorde decida a qualquer momento sair da sua toca e lançar o seu terceiro álbum.

 

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Como sempre, obrigada por lerem o meu testamento. Escrever sobre Digimon tem sempre aquele saborzinho especial. No caso deste texto em particular, escrevê-lo ajudou-me a lidar com todas as emoções em torno deste filme. Espero ter a oportunidade de ver Kizuna nos cinemas em breve, juntamente com outros fãs. Talvez até com dobragem portuguesa

 

Torno a repetir: zero arrependimentos no que toca a ter entrado em Digimon. Estamos todos melhores por cá estarmos. Despeço-me com a mensagem final de Kizuna: de uma maneira ou de outra, estaremos sempre juntos.  

Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna #1

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O filme Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna teve um parto difícil. As primeiras pistas apontando para este projeto surgiram ainda antes da estreia da última parte de Digimon Adventure Tri. Pouco depois soube-se que o realizador original do projeto, Hiroyuki Kakudo (que já tinha realizado Digimon Adventure e Digimon 02), alegadamente porque algo sobre o filme entrava em conflito com o que as séries anteriores haviam estabelecido.

 

Agora que já vi o filme, acho que sei do que é que ele estava a falar. 

 

Nas celebrações do Odaiba Memorial Day seguinte, conforme comentei na altura, foi revelado que o projeto consistia num filme cujos eventos decorreriam quando Taichi e Yamato têm vinte e dois anos. Ao longo do ano seguinte foram saindo mais pormenores sobre o filme. O desenho do elenco, por exemplo. No Odaiba Memorial Day de 2019 foi anunciado que os Escolhidos de 02 participariam no filme, após o cruel tratamento que receberam em Tri. A notícia saiu no dia do nosso encontro do Odaiba Memorial Day – o último que tivemos – e celebrámos adequadamente. 

 

A ideia do filme era assinalar os vinte anos de Digimon Adventure. Ainda assim, Kizuna só se estreou nos cinemas japoneses no início de 2020. Estava previsto estrear-se nos cinemas americanos mais ou menos na mesma altura, mas a pandemia boicotou (mais) esses planos. Mesmo digitalmente o filme só foi lançado vários meses depois, em setembro. 

 

Deste lado do Atlântico, o filme está previsto vir para os cinemas portugueses. Em que salas e em que moldes não se sabe ao certo. A primeira data avançada foi para novembro. Nós estávamos entusiasmados...  até a estreia ter sido adiada em finais de outubro, quando a pandemia se agravou. Chegaram a avançar outras datas, como 21 de janeiro e 18 de fevereiro. No entanto, com este novo confinamento, à hora desta publicação, não existe data marcada para a estreia. Mas estamos com esperanças de que, quando for possível, se marque de novo.

 

De qualquer forma, em inícios de novembro, cansei-me de esperar. Ainda quero ver o filme nos cinemas portugueses, quando for possível, mas já tinha passado tempo suficiente sem ver Kizuna. Por isso vi-o.

 

E arrependi-me amargamente. 

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Antes de começarmos, algumas notas:

 

1) Spoilers: esta análise vai discutir extensamente os eventos do filme Digimon Last Evolution Kizuna e poderá também revelar detalhes dos enredos das três temporadas do universo de Adventure (Aventure, 02 e Tri). Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios de Digimon têm traduções controversas – na língua portuguesa têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Conforme tinha dito que faria quando terminei as análises a Tri, para esta análise vou usar os nomes japoneses.



Adicionalmente, como o costume, tenho muito a escrever sobre este filme, por isso, esta análise virá em três partes. Esta é a primeira, vou tentar publicar a segunda amanhã e a terceira no dia a seguir. 

 

Queria também deixar algumas questões arrumadas antes de falarmos sobre Kizuna em si. Como referi acima, os primeiros anúncios relacionados com este filme saíram no dia em que Bokura no Mirai se estreou. Na altura, pensei que as minhas pontas soltas deixadas por Tri – quem era o Dark Gennai e o que lhe aconteceu, o que aconteceu a Maki, quem eram as outras primeiras Crianças Escolhidas, o que aconteceu ao Yggdrasil, quem era o Alphamon e o que é que lhe aconteceu, etc. 

 

Bem, Kizuna não aborda nada disso, é uma história independente. Decorre na mesma cronologia que Tri – os produtores tomaram o cuidado de confirmá-lo no ecrã, como veremos mais tarde – mas os eventos não têm nada a ver com essa série. Não é sequer necessário ter visto Tri para apreciar Kizuna.

 

O que foi uma decisão sensata – sobretudo tendo em conta as opiniões mistas em relação a Tri. 

 

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Eu mesma nunca mais voltei a ver os seis filmes desde que publiquei a minha análise a Bokura No Mirai. Tenho-me perguntado se agora, que já lá vão dois anos e meio, se a minha opinião será tão favorável como foi na altura. 

 

Um dia hei de rever Tri. Um dia hei de rever todo o universo de Adventure: os filmes, a primeira temporada, 02, Tri. Mas esse dia ainda vem longe. Não tenho assim tanto tempo livre e, quando o tenho, prefiro ver temporadas de Digimon que nunca vi antes. 

 

Enfim. Chega de delongas. Vamos a Kizuna. 

 

Depois de uma mensagem algo críptica sobre aceitar o futuro e isto ser uma nova aventura dos Escolhidos e dos seus Digimon, Kizuna começa com notas familiares. Literalmente: ouve-se o tema Bolero, de Ravel – recorrente em Adventure, sobretudo nos filmes – enquanto mostra imagens de uma aurora nos céus, algo que não devia ocorrer longe dos pólos. 

 

A ação de Kizuna decorre em 2010, se bem que um 2010 um pouco mais avançado tecnologicamente. Em Kizuna, o uso do smartphone está mais vulgarizado que na altura equivalente na vida real. Consta que os japoneses demoraram mais alguns anos a adotá-lo – mesmo entre nós, portugueses, foi mais a partir de 2012, 2013, certo? Os digiguionistas explicaram em entrevista que, no universo de Adventure, o contacto com o Mundo Digital permitiu à humanidade avançar um pouco mais depressa no que toca a tecnologia. 

 

Sempre explica porque é que em Tri, aparentemente, já existem mensagens de grupo e emojis nos telemóveis. 

 

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Nos anos entre os eventos de Tri e de Kizuna, Koshiro arranjou maneira de integrar as funcionalidades dos dispositivos digitais em smartphones. O que faz sentido em termos práticos, mas eu não gosto muito. Acho demasiado… mundano.

 

É claro que sou enviesada pois os dispositivos originais de Adventure têm valor sentimental para mim, à semelhança dos cartões. Mas também, no que toca a este filme, o sentimentalismo só serviu para dar cabo de mim. 

 

E estou a adiantar-me. 

 

Da primeira vez que vemos os Escolhidos, estes estão a ter um dia normal no escritório – o status quo que será, mais tarde, perturbado. Um Parrotmon (óbvio piscar de olhos ao primeiro filme de Adventure é óbvio) materializa-se no Mundo Real (deveria escrever “realiza-se”, como em Tamers? Isto no fundo é um “selvagem”) e os Escolhidos têm de lidar com ele, encaminhá-lo de volta ao Mundo Digital. O Parrotmon ainda faz uns quantos estragos – espero que as companhias de seguros neste universo já tenham apólices para danos provcados por Digimon.

 

Taichi, Hikari e Takeru acorrem ao local, sob a orientação de Koshiro, através do seu escritório. Yamato chega um pouco depois, de mota. O último entra logo com uma picardia a Taichi, que paga na mesma moeda – de outra forma, não saberíamos que eram eles. Koshiro orienta-os à distância, a partir do seu escritório. 

 

Ao contrário do que aconteceu em Tri, para esta cena, Kizuna recria as sequências de digievolução de Adventure, só que com animação contemporânea. Temos também uma nova versão de Brave Heart – à semelhança das sequências de digievolução, em vez de procurar um carácter próprio, esta é uma versão mais eletrónica do tema original.

 

 

Não que isso seja exatamente uma falha. Faz sentido fazerem isso num filme que comemora os vinte anos de Adventure. Mas nesse aspeto respeito um pouco mais a versão de Tri, por ter feito algo diferente. 

 

Por outro lado… percebo. Estas sequências de digievolução, esta versão de Brave Heart, só aparecem no início do filme. Antes do início do enredo propriamente dito, ainda antes dos créditos de abertura. Não entram na história em si. Calculo que tenha sido deliberado: estes elementos fazem parte do status quo que tinha de ser quebrado. 

 

Porque o status quo tinha de ser quebrado. Não apenas em termos de meta, das regras das histórias, da ideia que o protagonista deve deixar o familiar, o confortável e partir para o desconhecido. É um dos temas do filme: as coisas não podem ficar sempre na mesma, todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. 

 

Eu vejo esta cena inicial com o Parrotmon, vejo o quão adoro estes miúdos e os seus Digimon, pergunto-me porque não podiam tê-los deixado assim. No entanto, deixando de lado o meu sentimentalismo, sendo sincera comigo mesma, esta está longe de ser uma situação idílica. 

 

Estes quatro (cinco se contarmos com Koshiro) são os únicos disponíveis para lidar com o problema do Parrotmon. Nesta altura, Sora já se reformara oficialmente como Escolhida, conforme revelado na sua curta-metragem (mais sobre isso adiante). Joe e Mimi também não vieram e é dado a entender que têm vindo muito menos nos últimos tempos. 

 

Mesmo Taichi e Yamato não podem ficar para o pequeno-almoço com os irmãos mais novos e os Digimon. Taichi está no quarto ano da faculdade, mas já vive sozinho, combina os estudos com um emprego em part-time num casino. Ao que parece, já não vai à casa dos pais há algum tempo. Sobre Yamato não sabemos tanto, mas a narrativa dá a entender que também estará a viver sozinho e a conjugar os estudos com um emprego.

 

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Suponho que Agumon e Gabumon estejam a viver com os irmãos mais novos dos parceiros. As curtas-metragens lançadas em paralelo com o filme dão a entender que os parceiros Digimon dividem o tempo entre o Mundo Digital e o Real, poderão mesmo alternar entre as casas uns dos outros. Mas, como veremos mais à frente, Agumon nunca esteve no apartamento de Taichi, o que é um bocadinho triste.

 

Na verdade, no início de Kizuna, Taichi encontra-se numa situação muito semelhante àquela em que se encontrava no início de Saikai: numa fase da sua vida académica em que precisa de definir o seu futuro. Pensa que a sua verdadeira vocação é ser Escolhido, mas essa ocupação não paga salário nem faz descontos para a segurança social.

 

Devia, por acaso. Afinal de contas, eles estão a prestar um serviço à comunidade, com grande risco pessoal. Alguém devia pagar-lhes. 

 

Tal como acontece em Tri, Taichi resiste à mudança. Debate-se com incertezas em relação ao que quer fazer com a sua vida, com amigos de infância com quem não consegue conviver tanto como antes, com a sensação de que toda a gente está a seguir em frente com as suas vidas menos ele. 

 

E Yamato. Eis uma diferença importante em relação a Tri: em Kizuna, Yamato está na mesma situação. Gosto em particular das cenas com a banda de rua e o menino tocando harmónica numa loja de instrumentos – um belo exemplo de "show, don’t tell”.

 

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No que toca aos outros do grupo de Adventure, como já tinha dito antes, Sora demitira-se como Escolhida e estava a seguir as pisadas da mãe no negócio de arranjos florais. Mimi tem andado a vender acessórios de moda online e Joe está em Medicina, já começando a estagiar em hospital. Koshiro tem a sua própria empresa onde gere as relações com o Mundo Digital e os Escolhidos por todo o mundo. Mesmo Hikari e Takeru, que ainda estão do primeiro ano da faculdade, já têm ideias claras sobre o que querem fazer com a vida deles – Takeru já estará a escrever o livro relatando os eventos de Adventure e 02 (e mesmo depois disso?).

 

Yamato e Taichi são mesmo os únicos do grupo de Adventure com os futuros mais incertos.

 

A intriga do filme arranca quando Taichi e Yamato estão num bar bebendo cerveja e partilhando crises existenciais, como todos fazemos a certa altura nas nossas vidas adultas. Na mesa ao lado, uma rapariga perde os sentidos. De notar a prontidão com que Taichi e Yamato reagem a imprevistos como este – não surpreende, pois não?

 

A explicação só surge no dia seguinte, quando os dois são convocados ao escritório de Koshiro. Não sem antes receberem uma mensagem em vídeo de Miyako, que está a estudar em Espanha. Faz ela muito bem – aproveitar a vida antes de ter de passar os seus dias em casa a mudar fraldas.

 

Eu digo isto mas também, com base naquilo que tenho vindo a descobrir acerca do inferno por que as mulheres japonesas passam em contexto laboral, não posso criticar Miyako por preferir ficar em casa. 

 

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A mensagem de Miyako não faz praticamente nada para avançar o enredo – ela recebera uma mensagem e já a reencaminhara para Koshiro. Mas depois da negligência de que Miyako e os restantes Escolhidos de 02 foram vítimas em Tri, a presença deles em Kizuna é muito bem vinda. Aliás, num filme tão introspetivo e melancólico como este, as cenas com o elenco de 02 são uma lufada de ar fresco. Não são alívio cómico, são alívio de alegria. 

 

É neste momento que conhecemos Menoa Bellucci. Uma jovem da mesma idade de Taichi e Yamato, mas que já é uma prestigiada investigadora de Digimon. A realização do filme destaca a borboleta azul que decora a ponta da sua trança – mais sobre isso adiante. Menoa vem acompanhada do seu assistente, Kyotaro Imura.

 

De notar que Taichi, Yamato e Koshiro encaram os convidados com alguma desconfiança. Não surpreende – são homens feitos, já andam nestas andanças há mais de uma década. Depois do que aconteceu com Maki, então…

 

Menoa e Imura explicam aos quatro Escolhidos (Takeru também veio à reunião) que aquilo que acontecera na véspera, com a rapariga no bar, estava a acontecer um pouco por todo o mundo: pessoas entrando em coma sem motivo aparente. O denominador comum é o facto de serem todos Escolhidos – e na altura em que estes perdem a consciência, os seus Digimon desaparecem sem deixar rasto.

 

Menoa e Imura já conseguiram identificar o Digimon responsável e dar-lhe um nome: Eosmon, inspirado por Eos, a deusa do amanhecer segundo a mitologia grega. Eosmon tem roubado as consciências dos Escolhidos, digitalizado-as e guardado-as no ciberespaço (que já servira de cenário a War Game e a Diaboromon Strikes Back). Os dois investigadores já têm um plano desenhado para lidarem com Eosmon (o que é um bocadinho suspeito) e pedem ajuda aos Escolhidos. Os quatro vão para o ciberespaço para enfrentarem Eosmon e tentarem recuperar as consciências das vítimas.

 

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De início corre tudo como o previsto – uma vez mais, como se fosse mais um dia no escritório. Mesmo quando Eosmon digievolui, os outros Escolhidos não se deixam perturbar. Surge o Omegamon, que luta contra Eosmon. No entanto, quando o Omegamon se prepara para dar o golpe final, congela de forma bizarra e desfaz-se. Eosmon escapa. 

 

Quando o grupo regressa ao Mundo Real, tentam naturalmente perceber o que acabara de acontecer. Menoa revela que tem a ver com o motivo pelo qual, alegadamente, não existem Escolhidos adultos. 

 

Parece que o Mundo Digital – por outras palavras, a Homeostase – Escolhe crianças por causa do seu futuro ainda indefinido, do seu potencial para mudarem, para escolherem, para crescerem. Essas escolhas, esse crescimento, era o que catalisava a digievolução. À medida que os Escolhidos vão envelhecendo, vão perdendo esse potencial. O poder para os seus parceiros digievoluírem vai diminuindo até ao dia em que chega a zero.

 

Nesta fase, Menoa apenas refere que Digimon e Escolhido seguem caminhos diferentes. Kizuna mais tarde colocará os pontos nos is no que toca a essa questão. No entanto, mesmo nesta altura do filme, para bom entendedor meia palavra basta: os Digimon desaparecem.

 

Pois… falemos sobre isso. 

 

Essa ideia da digievolução baseada no potencial, que diminui com o tempo, tem uns quantos buracos. Não podia ser de outra maneira, se me vão introduzir novas regras para a digievolução ao fim de três temporadas e múltiplos filmes. 

 

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Sim, regra geral, a digievolução sempre foi catalisada pelo processo de os Escolhidos se tornarem melhores versões de si mesmos. No caso de Adventure e Tri, isso dizia mais respeito ao crescimento individual. No caso de 02, eram as relações entre os Escolhidos. Pode-se argumentar que os laços entre Escolhido e Digimon também entravam nessas contas, se bem que não tanto como em Tamers.

 

Mas agora dizem-me que esse potencial desaparece com o tempo? Não faz sentido. Mimi, Joe, Sora e Koshiro só conseguiram desbloquear os níveis Extremos dos seus Digimon quando já eram adolescentes (Takeru e Hikari são um caso à parte por causa de Hurricane Touchdown). Joe já era maior de idade! Isto para não falar, claro, do Omegamon Merciful Mode. 

 

Pode haver quem questione o peso de Hurricane Touchdown e mesmo de Tri no cânone deste universo (se bem que Kizuna legitimize ambos). Mas, mesmo só considerando Kizuna nesta equação, a lógica não é consistente. Ao escolherem um caminho, uma vida para si, os Escolhidos estão essencialmente a roubá-la aos seus Digimon. Mais à frente na narrativa, Menoa revelará que perdeu a sua companheira Digimon aos catorze anos (ou seja, durante os eventos de 02) quando entrou na faculdade, saltando vários anos escolares. Por essa lógica, Taichi e Yamato deviam ser os últimos a perder os seus Digimon, não os primeiros – já que, como observámos antes, são os únicos do grupo com um futuro incerto.

 

Bem, na verdade, não foram eles os primeiros, foi Sora. O que pode ser explicado pela sua decisão de abdicar dos seus deveres como Escolhida, antes dos eventos de Kizuna (com uma ressalva de que falaremos já a seguir). Ainda assim, Joe é o mais velho dos Escolhidos, está de pedra e cal em Medicina, devia ter sido o primeiro. No entanto, ainda não quis cortar em definitivo com a vida de Escolhido – será essa a diferença?

 

Por outro lado, Menoa refere que as digievoluções diminuem o tempo de vida dos Digimon. Nesse aspeto, faz sentido Taichi e Yamato estarem à frente porque Omegamon.

 

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Estas são as únicas explicações que me ocorrem.

 

Deixando de lado as inconsistências, não concordo com essa ideia de que as crianças perdem potencial e poder de escolha à medida que envelhecem. Da minha experiência, acontece o contrário: sobretudo nos tempos que correm, as crianças têm muito pouco controlo sobre as suas vidas. Os pais e outros adultos escolhem quase tudo por elas: o que comem, o que bebem, o que vestem, a que horas se deitam, em que escola estudam, onde vivem e com quem. 

 

É à medida que crescem que ganham controlo sobre a sua vida. Decidem se querem ir para um curso profissional ou para o Secundário – e para que área – decidem se querem ir para a faculdade – e que curso querem tirar – ou se vão já para o mercado de trabalho. 

 

E, mais importante, eles podem mudar de ideias! Podem mudar de percurso! Kizuna trata tais escolhas como irreversíveis, mas não é isso que acontece na vida real. Alunos podem mudar de área durante o Secundário, podem repetir os exames e concorrer a outro curso, podem só conseguir ir para a faculdade (ou lá regressar) aos trinta, quarenta, cinquenta anos, mesmo mais tarde. Todos nós conhecemos histórias de pessoas que mudaram de carreira numa altura menos convencional das suas vidas. 

 

Até mesmo dentro do universo de Adventure! Para começar, tendo em conta o epílogo de 02, sabemos que Mimi irá, a certa altura, seguir uma carreira em culinária. Mas Sora é um excelente exemplo daquilo que falei nos parágrafos anteriores, conforme provado na curta-metragem lançada há coisa de um ano, poucas semanas antes da estreia de Kizuna nos cinemas japoneses.

 

 

Até aos eventos dessa curta, Sora definia-se essencialmente por dois aspetos: por ser Escolhida e por ser filha de uma mestre em arranjos florais. Na curta, a jovem angustia-se por não saber quem é fora desses rótulos que, lá está, lhe foram impostos na infância – um deles pela Homeostase, outro pela mãe (mesmo com alguma turbulência, como vimos no episódio 26 de Adventure).

 

Tanto Mimi como Piyomon lhe fazem ver que existem muitas outras possibilidades para a sua vida, múltiplos trajetos por onde voar no céu. Assim, Sora decide oficialmente desistir da vida de Escolhida. Acredito que, mais tarde, irá também desistir dos arranjos florais (e eventualmente trabalhar na área da moda) pelo mesmo motivo. 

 

É um grande passo para ela, que sempre se caracterizou pelo seu altruísmo. Finalmente, Sora está a colocar-se a si mesma em primeiro lugar. Aposto que se Mimi não lhe tivesse dito que ela e os amigos a apoiariam sempre, independentemente da decisão de tomasse, Sora ainda não teria desistido de ser Escolhida. Na mesma linha, acho que só desistirá dos arranjos florais se a sua mãe concordar.

 

Não se pode argumentar que é agora que Sora dispõe de todo o seu potencial? Agora que se está a libertar de escolhas que não fez, que quer descobrir quem é fora dessas escolhas e trilhar o seu próprio caminho?

 

É interessante, aliás, comparar Sora com Taichi e Yamato. Os três nasceram no mesmo ano, têm a mesma idade, mas possuem visões opostas em relação ao futuro. Taichi e Yamato angustiam-se com a mudança, com os caminhos de que tiveram de abdicar no passado e que terão de abdicar num futuro próximo. Sora, por sua vez, está ansiosa por mudar, por crescer, por arranjar uma vida diferente para si.

 

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A questão que se coloca é se ela ainda pensará assim quando essas escolhas lhe custarem Piyomon. Havemos de falar sobre isso.

 

Isto tudo para dizer que não concordo com a ideia defendida por Kizuna, sobre a perda de potencial com o crescimento. É uma discordância, não é uma falha.

 

Se nestes últimos parágrafos pareço defensiva… é porque estou. Ainda estou um pouco em negação, a revoltar-me contra o destino traçado por Kizuna, contra a impossibilidade de os Digimon permanecerem com os seus parceiros humanos. 

 

Enfim, paremos por aqui. Amanhã regressamos ao escritório de Koshiro para falarmos sobre as reações de Taichi e Yamato a estas notícias. 

Digimon Tamers #13 – Lágrimas e tinteiros

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Hoje queria começar por falar da banda sonora de Tamers. Conforme já referi várias vezes aqui no blogue, a música é uma das melhores partes de Digimon. As aberturas, os encerramentos, os temas de digievolução e por aí fora. Nunca falta material para os podcasts do Odaiba Memorial Day PT – e como estes ocorrem sobretudo em julho e agosto, ultimamente a música de Digimon soa-me a música de verão.

 

Também ajuda o facto de ter passado as minhas férias a ouvir música de Digimon, sobretudo de Tamers, enquanto passeava na praia. 

 

E, claro, um dos pontos altos dos encontros do Odaiba Memorial Day é sempre cantar estes temas em coro com outros fãs. Com ou sem acompanhamento instrumental, com ou sem bebida – sim, este ano o António trouxe vinho do Porto. Diz que ficou com pena de não ter aberto a garrafa mais cedo, para começar logo a cantoria… mas eu pelo menos não precisava. 

 

É um crime nenhum destes temas estar no Spotify. No dia em que adicionarem todo o catálogo de Digimon a esta plataforma – incluindo versões acústicas/memoriais/alternativas, bem como as versões em português – eu adiro em permanência ao Premium.

 

Ora, esta introdução já vai longa, falemos então sobre a banda sonora de Tamers. Gosto de The Biggest Dreamer mas, no que toca a aberturas, fica atrás de Butter-fly e Target nas minhas preferências. 

 

 

Por outro lado, este é capaz de ser o único caso em que, na dobragem portuguesa, tanto a interpretação das aberturas e dos encerramentos não ficou nada má. A versão portuguesa de The Biggest Dreamer é bastante popular na nossa comunidade de fãs. Sofre do mesmo problema da versão portuguesa de Butter-fly, ou seja, tem uma mulher tentando cantar como um homem. No entanto, gosto das pequenas variações na melodia, dão personalidade. O último “Digimon!” no final foi bem sacado.

 

Na verdade, gosto mais dos encerramentos. Tanto das versões originais como as portuguesas – um shout-out para a Teresa Macedo, que interpretou as versões em PT-PT (as duas, certo?). Estas músicas não são fáceis de cantar. 

 

Durante muito tempo, não consegui escolher uma preferida entre os dois encerramentos.– mesmo agora a escolha não está gravada em pedra – mas acho My Tomorrow irresistível. Tem uma musicalidade menos convencional, conseguindo alternar entre um ritmo mais rápido e alegre e um mais pausado e sentido sem soar desconjuntado. A melodia é tão contagiosa como as melhores de AiM.

 

Tenho um apreço particular pela versão memorial – que conheci quando o António a pôs a tocar num dos podcasts. Esta é cantada pelas vozes das Treinadoras, respetivos Digimon e Culumon. Sim, isso inclui o Leomon. Soa engraçado no meio de tantas vozes femininas.

 

Esta versão, aliás, bem como a nossa cantoria no Odaiba Memorial Day (eu era uma das únicas meninas), faz-me ter pena por não existirem mais versões masculinas de temas da AiM. Soam bem. 

 

 

O segundo encerramento de Tamers é o preferido dos fãs – pelo menos os da nossa comunidade portuguesa. Days ~Aijou to Nichijou~. Em contraste com My Tomorrow, mais leve, Days é uma power ballad com um travo melancólico – que até condiz com o tom da segunda metade da série, sobretudo nas últimas duas partes. Mesmo a letra, sobretudo na versão portuguesa, parece aludir aos eventos finais de Tamers.

 

Não admira que seja tão popular.

 

Depois, temos os habituais temas de digievolução. E, vá lá, o das Cartas Escolhidas. Nenhum deles é um Brave Heart, claro, porque esse tema estará sempre ensopado até aos ossos com nostalgia, mas todos cumprem o seu papel. 

 

Gosto muito de Slash. Tem, à semelhança de Butter-fly e Target algumas influências de punk pop que me dão vontade de ouvir estas canções em contexto de concerto – a sério, quando oiço Slash imagino sempre o cantor em palco dando headbangs ao estilo de Hayley Williams pré-After Laugher (o que, pelos vistos, dá cabo das costas de qualquer um ). Gosto um bocadinho menos do tema de digievolução, mas mantém-se uma boa tradição de 02: sequências digievolutivas sincronizadas com a música. 

 

Por sua vez, foi uma excelente ideia criarem três versões diferentes para One Vision, a música das formas Extremas – uma para cada um dos protagonistas. A minha preferida é a da Sakuyamonobviamente.

 

 

Depois, temos as chamadas Insert Songs e/ou Character Songs/músicas de personagens. As músicas de Culumon – Culu Culu Culumon – e do BeelzebumonBlack Intruder que, agora vejo, parece o avô japonês de Uptown Funk – são muito giras. Também gosto imenso de Fragile Heart, a música que soa quando o Culumon usa a Digievolução Brilhante e tudo o que se mexe passa ao nível Extremo.

 

Mas a minha absoluta preferida em Tamers é 3 Primary Colors

 

Já conhecia este tema antes de ver Tamers, dos podcasts do Odaiba Memorial Day Portugal. Sempre a achei bonita, mesmo desconhecendo o contexto: misturando órgão com guitarra acústica e percussão leve, vozes de crianças. 

 

3 Primary Colors é interpretada pelos mesmos atores que dão voz ao trio de protagonistas (mais sobre isso já a seguir). Existe, no entanto, uma versão (mais) acústica, alternativa, interpretada por Onta Michihiko, AiM e Wada Kouji, que em nada fica atrás da original. 

 

Dizia eu que 3 Primary Colors é cantada pelas vozes de Takato, Ruki e Jian. Se olharmos para a letra (ou, vá lá, as traduções da mesma), vemos que cada um canta sobre os conflitos pessoais (ou pelo menos parte deles) que são explorados na história. Takato e a sua inexperiência, Ruki e o seu carácter solitário, Jian e a sua relutância em lutar. 

 

 

No refrão, os três comparam-se a si mesmo às três cores primárias – e, de facto, cada um dos três protagonistas tem uma cor associada às suas digievoluções. A de Takato é o vermelho, a de Ruki é o azul, a de Jian é o verde. Como aprendemos na Físico-Química do oitavo ano (ou do sétimo?), estas são as cores primárias da luz – não as da arte, o ciano, o mangenta e o amarelo.

 

Um aparte rápido: num dos podcasts deste verão, o António a certa altura referiu que, mais para o final, passaria “a música dos tinteiros” em especial para mim. Demorei uns bons quarenta e cinco minutos a perceber do que estava a falar…

 

Como dizia, os protagonistas equiparam-se a cores primárias. De início não se querem misturar, querem conservar a pureza das suas cores. Mas acabam por reconhecer que, se tiverem coragem para se unirem uns aos outros poderão criar um espectro inteiro de cores novas resplandecentes.

 

É uma metáfora linda, mas não acho que faça assim tanto sentido no contexto de Tamers. Mesmo tendo demorado a formar equipa, aqui os conflitos entre humanos, sobretudo entre os protagonistas, são relativamente poucos. Pelo menos quando comparados com o universo de Adventure. Mas, não sejamos hipócritas, 3 Primary Colors merece que se ignore a ligeira incoerência. 

 

Enquanto estava a escrever o primeiro rascunho deste texto, descobri uma versão espanhola de 3 Primary Colors, cantada por fãs. Não é nada má – só acho que a voz de Jian desafina um bocado. Faz-me sonhar com uma versão portuguesa… Outra coisa que percebi há pouco tempo é que o tema do anime de Pokémon baseado na música de créditos dos jogos da segunda geração tem uma emotividade muito parecida à de 3 Primary Colors.

 

 

O que torna tudo tão agridoce que dá vontade de chorar, para além da instrumentação, é o facto de 3 Primary Colors soar durante o traumático final de Tamers. Já fui falando sobre este momento ao longo desta análise: o facto de a ativação do Shaggai, para neutralizar o D-Reaper, implicar a expulsão dos Digimon do Mundo Real. 

 

Ninguém dá duas horas aos miúdos para se despedirem dos seus companheiros, como Adventure – nem dois minutos, quanto mais duas horas. Os Digimon são-lhes literalmente arrancados dos braços. Naturalmente, todos choram que nem umas Madalenas, desde Shaochung a Jiang-yu, audiência inclusive. 

 

É que ninguém merece. Ninguém! Depois de tudo o que estes miúdos passaram para se livrarem do D-Reaper, é assim que o destino os recompensa? Dito isto… a verdade é que o imbróglio do D-Reaper complicara-se tanto que nunca poderia ter uma solução fácil. Como vimos antes, em Tamers não há soluções fáceis.

 

Uma pessoa quase fica com raiva aos miúdos de Adventure. Eles também tiveram a sua dose, é certo, sobretudo em Tri – tanto os oito originais de Adventure como o elenco de 02 – mas não foi pior que aquilo por que os miúdos de Tamers passaram. No fim, tiveram direito a conservar os seus Digimon até à idade adulta e mais além – ao contrário de Takato e dos outros.

 

Em todo o caso, nos últimos segundos em que estão juntos, os miúdos e os Digimon trocam promessas de que se voltarão a ver, mais cedo um mais tarde, de uma forma ou de outra. Mais sobre isso adiante.

 

 

Antes de cair o pano, há tempo para um breve epílogo. Nada do género de 02, atenção, apenas algumas cenas que terão ocorrido algum tempo depois – alguns meses, no máximo. Vemos Takato com os seus colegas de turma – Juri, Hirokazu e Kenta incluídos – todos aparentemente bem. No que toca a Juri é um alívio. Temos também um vislumbre rápido de Yamaki, na padaria dos pais de Takato.

 

É uma pena não mostrarem nem Ruki, nem Jian, nem Shaochung, nem mesmo Ai e Makoto. Não dá para saber como estarão a lidar com a separação. Bastavam dois segundos de cada um deles, um vislumbre de Jian e a irmã com o pai, de Ruki com a mãe e a avó, de Ai e Makoto a brincar, quiçá fazendo desenhos de Impmon. 

 

Um dia, Takato passa pelo casinhoto onde Guilmon vivia. Vislumbra-se um DigiGnomon no céu e, de facto, quando o jovem entra no casinhoto, vê aquilo que parece ser uma brecha para o Mundo Digital. 

 

E é assim que termina Tamers: com a vaga esperança de que o reencontro não seja de todo impossível.

 

A dobragem portuguesa tem o mau gosto de mostrar imediatamente imagens de Digimon Frontier. Nem sequer tem a delicadeza de passar os créditos finais. Pelas Bestas Sagradas, este foi um final doloroso, de uma série que teve momentos extremamente sombrios! Deem-nos um minuto antes de partirmos para outra. Outra em que, ainda por cima, nem sequer há companheiros Digimon!

 

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Falta de noção…

 

Queria agora falar um pouco sobre os CDs Drama (ou CDs Dramas? Qual é o plural correto?) que explicam o que acontece após os eventos de Tamers – isto é, partindo do princípio de que fazem parte do cânone oficial. 

 

Segundo Message in a Packet, que decorre cerca de um ano após o final de Tamers, Takato tentou atravessar a brecha que vimos na cena final de Tamers, mas chocou com a firewall criada pelo Hypnos para cortar a passagem de um mundo para o outro. Em todo o caso, Jian planeia seguir a carreira do pai e procurar maneira de regressar ao Mundo Digital. Pelo meio, arranja uma forma de os Treinadores gravarem mensagens de voz para enviarem aos seus companheiros Digimon.

 

Confesso que estou arrependida por não ter lido a tradução deste CD Drama antes da preparação deste texto. Message In a Packet está recheado de pistas importantes sobre o desenvolvimento dos miúdos. Algumas são coisas que já sabíamos ou podíamos deduzir dos eventos de Tamers. Outras dão indicações do impacto que a reviravolta final da série teve no elenco.

 

Por exemplo, para começar, gostei de saber que Juri deixou uma mensagem tanto para Culumon como para Impmon. Em relação à mensagem para o primeiro, achei curiosa a maneira como a jovem se revê em Culumon: uma criatura amorosa, que se dá bem com toda a gente, embora não tenha um melhor amigo e ande muitas vezes sozinho. 

 

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Acredito, no entanto que Juri está a projetar-se em Culumon. Sim, o pequenote tem algumas coisas em comum com ela: ambos são seres que escondem muito por detrás da sua fronte amigável. Mas a mim – e posso estar enganada – nunca fiquei com a impressão que Culumon se sentisse sozinho, como Juri. Talvez antes de conhecer Takato, Jian e os outros humanos, mais os respetivos companheiros Digimon; talvez nos períodos em que esteve separado dos Treinadores, no Mundo Digital. Tirando isso, Culumon sempre me pareceu satisfeito por ser o companheiro de toda a gente e de ninguém em particular. 

 

Em relação à mensagem para Impmon, é um dos casos em que não é dito nada que surpreenda por aí além. Juri deixa uma palavra sobre Ai e Makoto, no final, o que me faz pensar se Jian se lembrou deles para estas mensagens. Talvez não se tenha lembrado, talvez até se tenha lembrado, mas não conseguiu localizar os dois irmãos.

 

É capaz de ser melhor assim. Ai e Makoto são muito pequeninos. Talvez não comprendessem bem a intenção daquelas mensagens e tudo aquilo ainda os deixasse ainda mais tristes. 

 

Por sua vez, Ruki foi quem reagiu pior à separação, tendo sido a última a aceitar gravar a sua mensagem. Não me surpreende. Vimos antes, no teto dedicado à jovem, que Ruki construíra uma boa parte a sua identidade em torno dos Digimon. De início só lhe interessava ganhar combates, primeiro no jogo de cartas, depois com Renamon. Mais tarde, quando se Renamon se tornou a sua melhor amiga (na mensagem Ruki descreve-a como a irmã mais velha que nunca teve), essa identidade centrou-se nos propósitos mais heróicos de ser Treinadora. 

 

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É natural, assim, que Ruki se tenha sentido perdida durante algum tempo depois da separação. Não podia voltar ao jogo de cartas, pois este recordava-lhe demasiado Renamon (pergunto-me, no entanto, se Takato, Hirokazu e os outros ainda jogam, depois dos eventos de Tamers). É certo que nunca se deu melhor com a mãe e a avó, mas aos dez, onze anos, há coisas sobre as quais não falamos com adultos. 

 

Por outro lado, o CD Drama dá a entender que Ruki ainda não convive muito com Takato e os outros. A jovem não consegue sentir a esperança que os outros sentem de voltar a ver os seus Digimon porque, da experiência dela, pessoas que partem não costumam voltar (sim Konaka, a ausência do pai de Ruki não tem nada a ver com o caso…).

 

Ruki não o sabe, mas tudo o que ela sente é normal. Quem é que sabe quem é aos dez, onze anos? Eu tenho quase o triplo da idade dela e só agora é que começo a descobrir. Ela e os amigos ainda nem sequer começaram a adolescência – não tarda nada as coisas vão ficar ainda mais confusas. 

 

Em todo o caso, depois de despejar o que lhe vai na alma nesta mensagem, Ruki parece sentir-se melhor consigo mesma. É uma coisa de introvertidos como nós: estamos tão habituados a guardar tudo dentro de nós, a ficarmos presos nas nossas próprias cabeças. Esquecemo-nos que faz bem desabafar. Ruki conclui que ela, Renamon, Takato e os outros e respetivos companheiros Digimon são uma família, que um dia estariam juntos de novo e que, a partir daquele momento, tentaria ser melhor enquanto pessoa. Quero acreditar que Ruki cumpriu essa promessa – ou pelo menos que começou a conviver um pouco mais com Takato, Juri e os outros Treinadores.

 

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Muitas das reflexões em Message in a Packet fazem-me pensar que uma sequela com uma premissa básica semelhante a Tri – isto é, alguns anos após os eventos de Tamers, o elenco com diferentes graus de dificuldade em aceitar a passagem do tempo e em deixar o passado no passado – poderia funcionar. Podiam manter a limitação de os Digimon não poderem regressar ao Mundo Real – era uma boa desculpa para a história decorrer quase toda no Mundo Digital, desenvolvendo e explorando um pouco esse mundo. 

 

É só uma ideia. Qualquer sequela de Tamers teria de ser pelo menos co-escrita por Konaka (o poster acima não é oficial, é uma fanart). E a verdade é que... ele já teve algumas ideias. 

 

O que nos leva ao segundo CD Drama, lançado no ano passado, escrito por Konaka: Digimon Tamers 2018. Este decorre dezoito anos após os eventos de Tamers, quando os protagonistas já têm vinte e oito anos (eles nasceram em 1990, como eu!). Os protagonistas é como quem diz… reencontramos Jian, Ruki e Juri. Takato, no entanto, desaparecera misteriosamente da face da Terra (possivelmente no sentido literal da expressão) cerca de um ano antes. 

 

Com uma nova ameaça vinda do Mundo Digital, Nyx (o novo Hypnos) cria uma réplica de Takato aos treze anos de idade. Este reencontra Jian e Ruki já adultos. Os três depois reúnem-se com Guilmon e Terriermon… mas não com Renamon. É então que a nova ameaça se materializa no Mundo Real – o Malice Bot, uma criatura nascida na chamada Dark Net, ainda mais poderosa que o D-Reaper. Na cena final do CD Drama, Renamon aparece e aparenta estar de alguma forma envolvida com esta nova criatura. 

 

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Estranho? Confuso? Também achei. Parece, lá está, conceito para uma sequela a Tamers, o guião de um episódio-piloto que nos atira logo para o clímax da ação. Como se, por exemplo, Tri tivesse começado com Ordinemon aparecendo no Mundo Real. E a existência de uma réplica pré-adolescente de Takato reencontrando Guilmon, quando o Takato adulto e verdadeiro anda por aí algures é deliciosamente retorcida.

 

Gostava de ver uma continuação para esta história. Ou melhor: que fosse expandida para uma nova série, quer de OVAs ou de episódios semanais. No entanto, tanto quanto sei, não existem planos para isso. Nem para qualquer género de sequela a Tamers num futuro próximo. O foco da Toei parece estar noutro lado (mais sobre isso adiante). Fica esta ponta por atar. Uma ponta gigantesca, diga-se.

 

E com isto penso que já cobri todos os aspetos de Tamers que queria e mais alguns. Esta análise já vai em mais de trinta mil palavras e mesmo assim houveram coisas se que não falei, por um motivo ou por outro. 

 

Penso que já deve ter ficado patente que eu adoro Tamers. Para além de ter todos os elementos que adoramos em Digimon – um elenco forte, tanto de humanos como de Digimon, que se desenvolve com a história, combates, digievoluções fixes, boa música – vai ainda mais longe e subverte expectativas. Tanto em termos de Digimon como de ficção em geral, sobretudo dirigida a crianças. 

 

Não existe bem e mal claramente definidos. Os Digimon, como referido várias vezes, nem sempre são amigáveis e regem-se pela lei do mais forte. Figuras de autoridade cometem erros. Digimon morrem e não regressam à vida. Conflitos não se resolvem apenas num episódio – volto a repetir, em Tamers não há soluções fáceis. Finalmente, pode debater-se se isso foi o mais adequado para uma série dirigida ao público infantil, mas Tamers não teve medo de entrar em territórios sombrios.

 

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Queria deixar uma nota para a dobragem portuguesa que, como dei a entender antes, está bastante boa na minha opinião. Já falei sobre a voz do Impmon e da Ruki (bem, suponho que neste caso devo chamá-la Rika) de passagem. As dobragens portuguesas em geral têm a mania de dar vozes mais próximas de vozes adolescentes, ou mesmo de adultos, a crianças bem mais novas. Makoto, por exemplo, não tem mais de três anos mas fala como se fosse dez anos mais velho, o que é um bocadinho ridículo. No entanto, pelo menos no caso de Rika, até funciona bem – porque, lá está, ela fala com a firmeza de uma miúda cinco anos mais velha. 

 

Tirando isso, e a voz estranhamente metálica de Taomon, não tenho grandes defeitos a apontar à dobragem portuguesa. Está acima da média, pelo menos no que toca a Digimon.

 

Se gosto mais do universo de Tamers do que de Adventure? Não sei dizer. Acho que preciso de mais tempo para decidi-lo: foram seis meses seguidos imersa neste mundo. Penso que Tamers é mais consistente, mais madura, mas Adventure tem um grande valor nostálgico para mim. Duvido que alguma vez seja ultrapassada. 

 

Se tivesse de responder já já, diria que os dois estão ao mesmo nível. E apesar de ainda só ter passado um ano com Takato e os seus amigos – em contraste com Taichi e companhia limitada, que conheço há quase duas décadas – com o tempo imagino-os um lugar semelhante aos oito Escolhidos de Adventure no meu coração.

 

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Está, então, na altura de colocarmos o ponto final nesta análise. Ufa. Como penso ter dito antes, foi há mais ou menos um ano que comecei a ver Tamers pela primeira vez. Há seis meses comecei a ser segunda, já tomando notas para esta análise. Comecei a publicar esta análise em meados de julho e já estamos em finais de outubro. Isto demorou ainda mais do que eu esperava. 

 

Em minha defesa, nunca imaginei que este monstro chegasse às trinta mil palavras. E o mês de outubro está a ser particularmente difícil no meu emprego  – têm havido muitas noites em que não tenho energia para me sentar ao computador. Daí estas duas últimas publicações terem demorado. 

 

Isto foi moroso e deu imenso trabalho mas… foi divertido. Houveram dias mais fáceis do que outros, mas no geral, tirando neste último mês, não tive grandes dificuldades em dar prioridade a esta análise. Nem mesmo quando já tinha a Nintendo Switch Lite e o Let’s Go Eevee. Adorei trabalhar nestes textos. Alguns deles, como os dedicados ao conceito de Treinadores, a Takato, Ruki, Juri e Impmon, saíram-me com relativa facilidade. Mas mesmo aqueles cujo tema considerava menos interessante ficaram mais ou menos ao nível dos outros, depois de algum tempo refinando-os. 

 

No geral, estou satisfeita com esta análise. 

 

O problema é que, depois de meses imersa numa série tão interessante e complexa como Tamers, tenho pouca vontade de partir para outra – para universos como Frontier e Data Squad, que não parecem reunir tanto consenso como Tamers e mesmo Adventure. Frontier, então, já é um meme na nossa comunidade de fãs portugueses, pois todos acham que é a pior temporada de todas. 

 

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Não quero fazer juízos de valor sem ver eu mesma, mas tenho de confessar: uma série de Digimon sem companheiros Digimon não me entusiasma. Nem sequer percebo como poderá funcionar. 

 

Será uma questão de dar algum tempo para limpar o palato. Estou certa de que gostarei de pelo menos um aspeto ou outro das próximas temporadas. E sobretudo, que terei coisas a escrever sobre elas, nem que seja só para dizer mal.

 

Não deve faltar tempo para eu limpar o palato, pois ainda deve demorar até eu começar a escrever sobre Frontier. Já depois de ter começado a publicar esta análise, foi anunciada a data de lançamento do próximo filme de Adventure: Last Evolution Kizuna, a 21 de fevereiro do próximo ano. 

 

Não tenho feito questão de saber todos os pormenores sobre o filme, em parte por ter estado em modo Tamers, em parte para evitar spoilers e para não elevar demasiado as minhas expectativas. Apenas sei que Taichi terá vinte e dois anos e estará a terminar a faculdade, que, abençoadas sejam as Bestas Sagradas, o elenco de 02 estará presente e pouco mais.

 

Pelo meio, diz que vão haver cinco curtas metragens animadas centradas no elenco de Adventure. Segundo este artigo, serão histórias que não encaixaram em Kizuna. Não sei muito bem quando saem – supostamente já deviam ter saído. Talvez escreva sobre elas no mesmo texto, ou série de textos, sobre o filme. 

 

 

E pronto, chegámos ao fim. Depois de seis meses nisto, vou abrandar um bocadinho as coisas com este blogue – tecnicamente já abrandei este mês. Não vou deixar de escrever por completo, até já estou a planear um texto novo, mas, pelo menos nas próximas semanas, não quero sentir a obrigação de passar todo o meu tempo livre à volta deste blogue. Quero terminar o Let’s Go Eevee (neste momento estou em Celadon), quero ir nadar (inscrevi-me na natação livre em setembro), quero participar em mais raids de Pokémon Go. 

 

Quero também ver/rever os filmes de Adventure antes de Kizuna. Só vi parte da versão condensada e super confusa de três deles que é Digimon o filme. Não devo escrever sobre eles no blogue, no entanto – posso é deixar um apontamento ou outro na página. 

 

Obrigada a todos os que acompanharam este verdadeiro testamento ao longo destes meses. Digimon ficará em pausa neste blogue durante algum tempo, mas devera regressar com Kizuna. Regressem também.  

Digimon Tamers #12 – Vilões entre aspas

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Outra diferença de Tamers em relação ao universo de Adventure é o facto de não existir Luz versus Escuridão, no sentido de Bem versus Mal. A única ocasião que se aproxima disso é quando surge o Megidramon. Talvez porque, em Tamers, não existem bons e maus propriamente ditos – ou pelo menos não no sentido habitual das histórias dirigidas ao público infantil.

 

Isto na minha opinião é um ponto a favor. É realista. Parte dos conflitos em Tamers – alguns dos quais podiam e deviam ter sido melhor explorados – sobretudo durante a primeira metade da narrativa, derivam de pontos de vista contrário, choque de culturas, desconfiança em relação ao que é diferente, revolta de um grupo oprimido contra o seu opressor. Tudo conflitos semelhantes aos que ocorrem no nosso mundo, que ocupam uma larga fatia das nossas notícias. 

 

Ninguém em Tamers está cem por cento certo ou errado, nem mesmo o D-Reaper. Existe verdade nas suas crenças de que tanto a Humanidade como os Digimon têm imperfeições. A solução dele para tais problemas é que, obviamente, não será a mais adequada.

 

Mas não nos adiantemos. 

 

O primeiro antagonista em Tamers é a organização Hypnos e o seu líder, Yamaki. Como referido antes, estes não se revelam de imediato. Durante vários episódios, apenas vemos as mesmas imagens de Reika e Megumi anunciando o aparecimento de Digimon selvagens em Shinjuku, bem como de Yamaki brincando com o seu isqueiro. Só ao sétimo episódio é que descobrimos ao certo quem são eles: uma organização que se dedica a crescente rede digital. 

 

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Ou seja, o Hypnos é o equivalente japonês ao NSA dos Estados Unidos. 

 

É de facto espantoso o quão à frente do seu tempo Tamers estava. Só nos últimos anos – em 2013, com as denúncias de Edward Snowden, e no ano passado, com o escândalo do Facebook (embora a Google também o desconcertante hábito de registar cada um dos nossos passos) – é que o cidadão comum se apercebeu verdadeiramente das implicações da Internet. Mas a verdade é que já havia quem alertasse para a possibilidade no início dos anos 2000. 

 

Tamers não foge ao assunto. Yamaki garante a um inspetor do governo que só estão interessados em informações criminosas – é claro que cada um arranja a definição que mais lhe convém para esse termo. De tal forma que a existência do Hypnos é mantida escondida do público – o inspetor diz mesmo que, se a verdade viesse a público, o governo cairia. 

 

Ora, nesta equação, os Digimon são uma espécie invasora que atrapalha o trabalho do Hypnos. Conforme dei a entender antes, a inutilidade da organização para tratar destas ameaças chega a ser caricata. O trabalho que lhes compete acaba por ser feito por crianças de dez anos (incluindo Takato na sua fase de tentativa e erro). O que nos leva às motivações do Hypnos, em particular de Yamaki.

 

Este até começa com relativas boas intenções – quão nobres poderão ser as intenções de alguém que procura controlar a Internet? É claro que era necessário alguém com experiência e recursos para lidar com a ameaça dos Digimon. Também não estão errados quando dizem que crianças deviam andar a brincar com criaturas capazes de destruir edifícios e matar pessoas. 

 

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Só que o Hypnos é realmente muito mau a fazer o trabalho que lhe compete. As duas primeiras ativações do Shaggai só pioram as coisas em vez de melhorarem: a primeira abre a porta aos Deva. A segunda leva ao colapso do quartel-general do Hypnos. Pelo meio, a certa altura, Yamaki parece deixar-se levar pelo poder e começa a tornar aquilo pessoal. Note-se o momento em que deita as mãos a Jian.

 

O que, tenho de dizê-lo, é completamente inaceitável. Jian é uma criança, Yamaki é um adulto, tem a obrigação de se controlar. 

 

A destruição do Hypnos e consequente perda de emprego tem o condão de obrigar Yamaki a descer à Terra. Vemo-o recolhido no seu (?) apartamento juntamente com Reika – é assim que se descobre que eles namoram. Consta que, quando leram o guião escrito por Konaka, os seus colaboradores foram apanhados de surpresa por esta revelação. O guionista revelou, também, que terá sido Reika a impedir Yamaki de sucumbir por completo à depressão.

 

Em todo o caso, quando os Treinadores se preparam para ir para o Mundo Digital para resgatar Culumon, Yamaki consegue deixar o seu abatimento de lado, ainda que por pouco tempo. Vai ter com eles imediatamente antes de partirem e empresta-lhes um dispositivo que lhes permitirá comunicarem com o Mundo Real enquanto estiverem no Mundo Digital. 

 

Ainda assim, Yamaki mantém-se confinado ao apartamento, com a namorada (o que, sejamos sinceros, não é assim tão mau). Certo dia, um tipo qualquer do governo decide ativar o Shaggai de novo porque… razões. Corre quase tão bem como das duas primeiras vezes – e vemos o efeito que isso tem no Mundo Digital. Têm de vir Yamaki e Reika para corrigirem a asneira do outro e, no processo, recuperam as rédeas do Hypnos. 

 

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Depois desta, Yamaki e o Hypnos estabelecem-se firmemente como aliados dos Treinadores, em colaboração com o Grupo Selvagem. Existe um momento em que Yamaki se culpa pela crise do D-Reaper. Reika faz-lhe ver que ele foi apenas o primeiro a querer controlar a Internet – e como vimos acima, o tempo veio a dar-lhe razão. 

 

Da ideia que tenho, ninguém acha os Deva muito interessantes enquanto vilões. Eu concordo. Quando começam a aparecer no início da segunda parte da narrativa, pouco mais são que vilões-do-episódio, que os heróis derrotam sem pensar duas vezes. São níveis Perfeitos, e alguns até são difíceis de derrotar, mas outros são derrotados por níveis Adultos.

 

Acho também que não sou a única que nem sequer consegue decorar os nomes de uma boa parte deles. São o Deva-Cobra, o Deva-Cavalo, o Deva-Rato e por aí fora.

 

A certa altura Jian consulta o seu instrutor de kenpo para descobrir mais sobre os Deva – que foram inspirados pelo zodíaco chinês, que por sua vez colheu inspiração dos Doze Generais Celestiais do budismo. Quando o instrutor revela que os Deva originais eram figuras benevolentes, Jian acaba aprendendo que o mal e o bem são uma questão de perspetiva. 

 

O que é irónico se tivermos em conta que os Deva são o mais próximo que Tamers têm dos típicos maus da fita de desenhos animados: unidimensionais, interessados apenas em debitar propaganda anti-humanos e provocar o caos no Mundo Real.

 

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Os únicos Deva minimamente interessantes são Makuramon, Chatsuramon e Antylamon. O último, obviamente, por ser o companheiro de Shaochung. Por sua vez, Makuramon é um dos que ganha mais tempo de antena. Durante a segunda parte da narrativa, disfarça-se de criança humana e tenta infiltrar-se no grupo de amigos de Takato – para poder aproximar-se de Culumon. Não se pode dizer que o disfarce resulte pois, embora não descubram logo que o miúdo tentando colar-se é um Digimon, o seu comportamento é sinistro e enervante.

 

Para os miúdos e para mim, diga-se. Entre este e o Etemon, está visto que Digimon inspirados em macacos não são comigo.

 

No fim, Makuramon acaba por ser o único a fazer o seu trabalho, ou pelo menos parte dele: deitar as mãos a Culumon e levá-lo para o Mundo Digital. 

 

Chatsuramon, o Deva-Leão (ou gato?), é o mediador do pacto de Impmon com o diabo. Uma incoerência que não passa despercebida é o facto de os Deva serem todos do nível Perfeito mas, quando recrutam Impmon, este digievolui para o nível Extremo. Três questões: um, se Zhuqiaomon consegue, indireta ou indiretamente, desbloquear um nível Extremo de outro Digimon, para que precisa de Culumon? Dois, porque não fez  mesmo com os seus minions, parte dos quais são fracos até para níveis Perfeitos? Por fim, porque tornaram um recruta recente mais poderoso do que eles – talvez capaz de fazer frente a Zhuqiaomon? Estão mesmo a pedir para serem apunhalados pelas costas.

 

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É assim que os Devam acabam, aliás, tirando Antylamon. Makuramon e Chatsuramon podem até ter tido algum interesse, mas as suas mortes são meras notas de rodapé em episódios que a atenção da audiência está no duelo entre Beelzebumon e Megidramon/Dukemon. Ninguém sentirá a falta deles.

 

É mais ou menos nesta altura da história, um pouco mais tarde, que descobrimos que, no universo de Tamers, os deuses do Mundo Digital são as Bestas Sagradas. Os Deva, no entanto, só falam de um deus que substituiu os humanos – provavelmente Zhuqiaomon, o seu amo. Descobrimos também que este último precisava de Culumon para, como referimos antes, digievoluir tudo o que se mexe para combater o D-Reaper.

 

E de facto é isso que Culumon faz, quando lho pedem. E uma pessoa fica tipo “Porque é que não lhe pediram com jeitinho mais cedo?” Podiam ter evitado pelo menos metade dos eventos de Tamers – sobretudo a morte do Leomon, que deixou Juri vulnerável ao D-Reaper. 

 

Parece uma falha do enredo, mas eu não acho que o seja. Não a cem por cento pelo menos. Acho que é um erro de Zhuqiaomon. Este parece ser o único das Bestas Sagradas que se ressente dos humanos – possivelmente passando as suas crenças aos seus servidores. É possível que tanto os Deva como Zhuqiaomon tenham aproveitado a busca por Culumon para se vingarem da Humanidade. As consequências desse ódio para Zhuqiaomon é perder os seus minions e conferir mais poder ao inimigo que queria derrotar.

 

Por outro lado, descobre-se que fora Qinglongmon a transformar a luz da digievolução num Digimon e a enviá-lo para o Mundo Real. A ideia era que Culumon fugisse do alcance do D-Reaper, para que este não o usasse como catalisador. Mas não se lembrou de avisar o colega Zhuqiaomon, que passara metade de Tamers tentando recuperar o pequenote.

 

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Este é, na minha opinião, o maior ponto fraco do enredo de Tamers. As Bestas Sagradas não comunicam entre si? Não faria mais sentido atuarem em conjunto perante um inimigo tão poderoso como o D-Reaper? Em vez darem tiros nos pés ao levarem a cabo planos que contradizem os dos colegas? 

 

Se isto não for uma falha do enredo (e não estou convencida que não o seja), este parece ser um daqueles casos em que um aliado incompetente causa mais danos que um vilão. Quase culpo mais Qinglongmon do que Zhuqiaomon pelos eventos de Tamers. Zhuqiaomon pecou por ódio e preconceito. Qinglongmon pecou por negligência. 

 

Falemos, então, sobre o D-Reaper. Este é um caso típico de uma inteligência artificial tão inteligente, tão inteligente (passe a redundância) que chega à conclusão de que a Humanidade é demasiado tóxica e deve ser eliminada. O D-Reaper no início era um programa muito simples de eliminação de dados em excesso. O problema foi que, com a expansão do Mundo Digital, em paralelo com o crescimento da Internet, o D-Reaper sofreu também uma digievolução à sua maneira – tornando-se uma ameaça ao Mundo Digital. 

 

Tecnicamente, o D-Reaper é o grande vilão de Tamers. Se pode, no entanto, ser considerado vilão é questionável – porque o D-Reaper não tem noção do bem e do mal, faz apenas aquilo para que foi programado. Não tem noção da moralidade.

 

Bem, pelo menos em teoria. Mais sobre isso já a seguir.

 

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Vemos o D-Reaper pela primeira vez no episódio da estreia da Sakuyamon. No início, este era apenas uma massa disforme, cor-de-rosa, que solta bolhas. Ao contrário do estilo desenhado à mão de praticamente todo Tamers, o desenho do D-Reaper mete CGI e o contraste entre os dois estilos é desconcertante. 

 

As bolhas são, em teoria, um exemplo de carnificina sem sangue, sem violência, adequadas ao público infantil. Na prática, a ausência de sangue, de violência, é o que mais me assusta nelas. Basta um toque apenas para a vítima pura e simplesmente deixar de existir. Uma pessoa não consegue oferecer resistência, não consegue debater-se. Apenas desaparece deste mundo. Nem sequer deixa um cadáver ou partículas digitais para trás. 

 

É horrível.

 

Quando o D-Reaper chega ao Mundo Digital, o seu tamanho aumenta exponencialmente. Forma uma massa gigantesca que irradia calor, com centro no parque de Shinjuku – aparentemente a partir da brecha para o Mundo Digimon no casinhoto de Guilmon. É dado a entender nos últimos episódios de Tamers, quando a expansão acelera e surgem massas noutras grandes cidades, que o plano do D-Reaper é erradicar a espécie humana por aquecimento global.

 

Como se os humanos precisassem de ajuda nesse capítulo. O D-Reaper é apenas um catalisador. Aqui não há Greta que nos valha. 

 

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A criatura possui diversos agentes e/ou formas para levar a cabo os seus fins. A mais notável é, claro, a Juri-Type, sobre quem falámos antes, de passagem. É a única dos agentes que não possui um cordão umbilical que a una ao D-Reaper, a única que consegue funcionar longe dele. Durante muito tempo, assume uma aparência muito similar à de Juri – tirando os olhos e a palidez – que lhe permite tomar o lugar da menina entre os Treinadores e ir para o Mundo Real. Vimos antes que o seu objetivo era analisar a espécie humana. 

 

Quando Juri-Type revela a sua verdadeira natureza perante Takato, ganha formas mais monstruosas: a de uma Juri mais velha, alada, ou de uma figura feminina, também alada, mas de pele azul, olhos grandes e cabelo espetado. Parece ser ela a responsável pela tortura psicológica de Juri, pois tenta fazer o mesmo com Takato. 

 

Teoricamente, à semelhança dos outros agentes, Juri-Type não terá vontade independente do D-Reaper – que como vimos não tem código moral, não age por malícia. Mas até que ponto isso será verdade para a Juri-Type? Até que ponto pode uma criatura usar tortura psicológica para neutralizar as suas vítimas sem intenções maliciosas?

 

O D-Reaper funciona, assim, bastante bem como grande vilão da temporada, se bem que ache que a sua introdução na história poderia ter sido menos forçada. Continuo a achar que, do ponto de vista puramente do enredo e da temática, teria feito mais sentido se o Zhuqiaomon fosse o grande vilão da temporada, com intenções de exterminar a raça humana. No entanto, o D-Reaper é um vilão deveras assustador, poderoso, retorcido, fora do convencional, proporcionando alguns dos momentos mais memoráveis em Tamers. 

 

Além disso, consta que será Digimon Savers a explorar a fundo a via Mundo Real versus Mundo Digital. Tri também tentou ir nessa direção, sem grande sucesso.

 

E com isto terminamos a análise ao elenco de Tamers. Estamos quase a chegar ao fim. O próximo texto será o último – mas ainda haverá muito sobre que falar. 

Digimon Tamers #11 – Uma pistola de brinquedo e um beijinho

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Esta é a parte da análise que eu mais ansiava escrever. Para vários temas desta série, precisei de pesquisar um bom bocado, rever partes de episódios, mesmo episódios inteiros, desenvolver as minhas opiniões. No que toca a Impmon, no entanto, planeei a maioria deste texto antes de qualquer outro – antes ainda de ver Tamers pela segunda vez, já de caneta em punho.

 

Não deve ser surpresa. Penso que todos concordamos que Impmon é uma das melhores personagens, não só de Tamers, de todo Digimon enquanto franquia.

 

Impmon não é bem um vilão. No entanto, tal como os melhores exemplos desse arquétipo, funciona porque é aquilo que os heróis podiam ser se tivessem tido menos sorte e/ou se tivessem tomado as decisões erradas. No caso de Impmon, o seu maior pecado é o orgulho, misturado com inveja. Uma coisa que o diabrete faz muito, quando lhe colocam o dedo na ferida, quando o confrontam com a verdade, é enfurecer-se e fincar ainda mais os pés nos seus hábitos destrutivos (auto e não só).

 

Mas comecemos pelo princípio. Na primeira metade de Tamers, Impmon é uma criatura ao mesmo tempo hilariante – no caso da dobragem portuguesa, muito por culpa da excelente interpretação de Pedro Cardoso – e irritante. Passa a vida à volta dos Treinadores, arreliando os seus Digimon (Culumon incluído). Troça deles por estarem ligados a humanos, acusa-os de serem pouco mais de mascotes, de brinquedos (no caso de Terriermon, não está completamente errado)...

 

...e no entanto, ele não os “deslarga”. Seria de esperar que ele se mantivesse afastado de criaturas que, parafraseando-o, lhe dão vontade de vomitar. Mas não é isso que acontece.

 

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Há que realçar, no entanto, que Impmon os arrelie, os Treinadores não antipatizam com Impmon. Pelo contrário, toleram-no, chegam mesmo a tratá-lo com simpatia. Talvez seja esse um dos motivos pelos quais o diabrete não se afasta. O que só torna o que acontece mais tarde ainda mais reprovável.

 

Não são precisos muitos dedos de testa para perceber que Impmon é um caso clássico de “estão verdes, não prestam”. Sobretudo quando descobrimos o seu passado. Impmon nem sempre fora um Digimon independente, também tivera um Treinador. Ou melhor dois: Ai e Makoto, dois irmãos, ela com cinco anos no máximo, ele com três no mínimo. 

 

Como seria mais ou menos de esperar da parte de crianças daquela idade, os dois disputam Impmon como um brinquedo que são obrigados a partilhar. Chega a um ponto em que o diabrete farta-se e vai-se embora. Com isto tudo, fica com uma opinião péssima em relação aos humanos em geral. 

 

Não se pode censurar Impmon por esta atitude, mas também crianças daquelas idades não constituem uma boa amostra da Humanidade. Ao contrário do que muitas vezes tendemos a pensar (eu incluída), as crianças nem sempre são puras e angélicas. Muitas vezes, sobretudo antes dos cinco, seis anos, são egoístas insensíveis, melodramáticas, incapazes de empatia e de lidar com a frustração.

 

É claro que, nesta fase, ainda não é culpa delas. Pecam por ignorância. Com a devida educação ultrapassam essa fase. Crescem.

 

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Bem, algumas. Infelizmente há muita gente que nunca chega a aprender, que não chega a crescer.

 

Não acho que seja coincidência que, no início, os episódios centrados em Ruki e Renamon também destaquem Impmon. Quando Renamon sente dúvidas em relação ao seu vínculo com Ruki, Impmon funciona como o diabo no seu ombro, dizendo-lhe os humanos são estúpidos e os Digimon estão melhor sozinhos. 

 

Existem claros paralelismos entre os dois. Tamers dá a entender que Impmon veio para o Mundo Real pelo mesmo motivo que Renamon: à procura de um parceiro humano que o ajudasse a ficar mais forte, quiçá a digievoluir. 

 

O problema é que Renamon foi ter com a campeã do jogo de cartas. Impmon foi ter com dois pirralhos. Não se sabe como é que Ai e Makoto se tornaram Treinadores de Impmon, o que é uma pena. Na minha opinião, os meninos queriam um Digimon com quem brincar. Impmon alinhou por, das duas uma: por achar que, eventualmente, eles ajudá-lo-iam a digievoluir ou, pura e simplesmente, deixou em stand-by o seu desejo de se tornar mais forte e contentou-se com ser o companheiro de brincadeiras dos dois irmãos. Isto é, até a relação azedar.

 

Em todo o caso, tanto ele como Renamon entraram em conflito com os seus Treinadores e, a certa altura, tentaram tornar-se mais fortes sozinhos. A diferença é que Renamon era suficientemente forte para derrotar adversários sozinha – até isso deixar de ser suficiente e escolher ficar com Ruki. Impmon, por sua vez, é inútil em combate. Só assusta humanos. Ainda consegue arreliar Guilmon e Terriermon quando os seus Treinadores os proíbem de ripostar mas, quando podem ripostar, enxotam-o com facilidade.

 

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Mesmo assim, o diabrete garante a toda a gente, incluindo a si mesmo, que está bem assim, que não precisa de humanos ou de digievoluir.

 

Tem piada por um lado, como referi acima, mas por outro uma pessoa fica com vontade de lhe dar um par de estalos. Porque insiste Impmon em magoar-se a si mesmo, dizendo que despreza humanos, mas sem conseguir afastar-se deles? Das duas uma, ou aceita que precisa de humanos e tenta fazer as pazes com os seus Treinadores – ou tenta procurar outro Treinador, ou pelo menos aceita a amizade do Takato e dos outros – ou segue com a sua vida, procura um sítio onde possa viver (quer no Mundo Real quer no Mundo Digital) sem precisar de digievoluir. Agora, ficar preso naquele limbo pelo seu próprio orgulho e inveja é que não ajuda ninguém, a começar por ele mesmo. 

 

O cúmulo da sua negação e teimosia manifesta-se quando Impmon é confrontado por um dos Deva, Indramon, e este lhe pergunta porque não digievoluiu ainda, se já teve parceiros humanos – como referi antes, dedo na ferida. A resposta do diabete é tornar-se ainda mais arruaceiro perante civis – os únicos que, lá está, é capaz de assustar. Quando o Indramon regressa, Impmon faz questão de enfrentá-lo sozinho, para provar que não precisa de ninguém, muito menos de humanos, nem de digievoluir. Nem sequer permite que Takato e os outros o encorajem.

 

Como seria de esperar de um Digimon fraquinho mesmo para nível Infantil perante um nível Perfeito, Impmon é massacrado, perante os olhares horrorizados dos miúdos. De início, Renamon impede os humanos de intervir – ela sabe uma coisinha ou outra sobre orgulho. Ainda assim, até ela atinge o seu limite e, em conjunto com os outros, salva a vida a Impmon – apenas para o diabrete insistir na luta, levando uma sova que o atira para o horizonte.

 

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Impmon passa os episódios seguintes escondido de toda a gente enquanto lambe as feridas no corpo e no orgulho. Nisto, abre-se uma brecha para o Mundo Digital, de onde soa uma voz perguntando-lhe se quer tornar-se mais forte.

 

O diabrete vai, então, para o Mundo Digimon na mesma altura em que o resto do elenco vai. É aqui que se encontra com um dos Deva, Chatsuramon. Pegando de novo na fábula, Chatsuramon mostra-lhe uma parra que Impmon pensa ser uma uva: induz-lhe uma ilusão onde o diabrete estaria de volta ao Mundo Real à casa de Ai e Makoto. Impmon descobre a verdade, no entanto, quando se prepara para abraçá-los e estes passam através dele. Mais: Impmon vê os seus antigos Treinadores recebendo um cachorrinho e começando imediatamente a disputá-lo, como haviam feito com o seu Digimon.

 

Pergunto-me agora se essa cena com os meninos e o cachorrinho ocorreu mesmo – se era uma transmissão em direto do Mundo Real – ou se era uma ficção criada pelo Chatsuramon. Em todo o caso, serve para provar que, mais do que um catalisador para a digievolução, Impmon apreciava os seus antigos Treinadores pelo companheirismo. E inveja amargamente Guilmon, Renamon e os outros por terem as duas coisas. 



Mais uma vez, a reação de Impmon é fechar ainda mais o coração e fazer um pacto quase literal com o diabo. Desbloqueia a sua forma Extrema, Beelzebumon, e em troca assassinará os Treinadores e os seus Digimon – que, recordo, ainda o consideram um aliado, mesmo um amigo. 

 

Já falámos um par de vezes sobre o que acontece quando Beelzebumon aparece para cumprir a sua parte do acordo, não é necessário repetir. Gostava só de chamar atenção para o aviso de Leomon, que percebe logo que o demónio digital está a ser manipulado pelos Deva. É em resposta a esse aviso que Beelzebumon dá o golpe fatal.

 

Nota para mim mesma: nunca confrontar Impmon/Beelzebumon com a verdade.

 

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Como vimos antes, perante a morte do Leomon, Takato obriga Guilmon a digievoluir para a monstruosidade que é Megidramon… mas Beelzebumon, surpreendentemente, revela-se um adversário à altura. Talvez tenha sido pelo melhor – pode ter sido o único motivo pelo qual Megidramon não chegou a usar os seus poderes de destruidor de mundos.

 

Acaba por ser impressionante, até. Há um momento em que Beelzebumon está de costas no chão, uma das mãos afastanto as presas do Megidramon, a outra desfazendo o Makuramon em partículas digitais. Mais tarde, quando Rapidmon e Taomon decidem tentar a sua sorte frente a Beelzebumon, este consegue encurralá-los, obrigando-os a cederem parte dos seus dados ao demónio digital para se libertarem. No fim, ele próprio põe Megidramon fora de combate.

 

Mesmo quando Takato recupera o juízo e desbloqueia o Dukemon, o combate com Beelzebumon continua equilibrado. Pelo meio, Dukemon derrota Chatsuramon (que viera para castigar Lopmon por se ter aliado aos humanos), mas Beelzebumon desvia os dados para si. Finalmente, como referido antes, o demónio digital fica a isto de eliminar Dukemon (com Takato lá dentro), mas é interrompido pelo Guardromon. E quando os papéis se invertem, é Juri quem impede o Dukemon de dar o golpe final.

 

O gesto da menina desarma Beelzebumon. Mais: provoca-lhe uma crise existencial de todo o tamanho. Não é a primeira vez que um humano ou um Digimon associado a um humano o trata com compaixão. Pelo contrário, os Treinadores e seus Digimon haviam passado a primeira metade de Tamers tratando Impmon com mais gentileza do que este merecia. Tais gestos, no entanto, chocavam com a carapaça do seu orgulho e inveja (isto parece ser um tema recorrente nesta série: muros, barreiras, que mantém os demais afastados e os corações fechados). 

 

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Fora preciso ter ficado quase literalmente entre a espada e a parede para Beelzebumon cair em si e perceber que estava errado em relação aos humanos. 

 

Este é o momento em que o demónio digital bate no fundo. O momento que melhor o simboliza é quando este é atacado por um bando de Chrysalimon (depois de, alguns episódios antes, ter dizimado uns quantos destes Digimon enquanto testava o seu novo poder) e regride para Impmon. Fica bastante maltratado. 

 

Como vimos antes, Ruki e Renamon dão uma corrida para ir buscá-lo antes de perderem a boleia para o Mundo Real. E ainda bem que o fizeram. 

 

Quando regressa a Shinjuku, Impmon vai à procura dos seus Treinadores. Há um momento engraçado quando o diabrete encontra o instrutor de kenpo de Jian e lhe pede que lhe leia o bilhete que Ai e Makoto lhe deixaram. Descobre assim que os meninos foram evacuados para a casa dos avós e é lá que os reencontra. 

 

Numa reviravolta surpreendente para crianças tão novas, Ai e Makoto pedem desculpa a Impmon pela maneira como o trataram. Reconhecem que as discussões entre eles, a disputa por Impmon como um brinquedo que não queriam partilhar, fizeram com que o diabrete se fartasse e se fosse embora – e enveredasse por um caminho destrutivo, mas os irmãos não sabem e, pelo menos por enquanto, não precisam de saber essa parte. Ai e Makoto chegam mesmo a mostrar um ursinho de peluche que haviam rasgado nas suas guerras. 

 

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Sinceramente, os meninos demonstram uma maturidade, uma responsabilidade pelos seus próprios actos que eu demorei anos a obter, que eu suspeito que demasiados adultos não possuam. Ai tem cinco anos no máximo! É certo que, regra geral, nestas idades atitudes egoístas e mimadas têm consequências relativamente menores – castigos, brinquedos confiscados, pais zangados. Não costumam implicar a perda de um amigo, de um companheiro de brincadeiras.

 

Impmon fez bem em deixá-los, apesar de tudo. Obrigou os meninos a sofrerem as consequências dos seus actos. A parte da inveja, do orgulho, do pacto com o diabo, do assassínio de Leomon, é que era desnecessária. 

 

Em todo o caso, Impmon perdoa-os e torna a ser o seu companheiro Digimon. Quando vê notícias da destruição provocada pelo D-Reaper na televisão, no entanto, quer juntar-se à luta. Como os meninos são demasiado novos para o acompanharem, estes ficam para trás. 

 

Antes de Impmon sair, no entanto, Makoto dá-lhe a sua pistola laser de brinquedo, para que a use “contra os maus”. Ai, por sua vez, dá-lhe um beijinho, em jeito de despedida – algo de que o diabrete não estava à espera. Enquanto se afasta, Impmon digievolui para Beelzebumon Blast Mode, com um par de asas e a pistola laser  convertida num canhão.

 

E foi assim, senhoras e senhoras, que Tamers criou a melhor sequência de digievolução de todos os tempos. Com uma pistola de brinquedo e um beijinho. Não há nada mais amoroso, não há nada mais fixe. Até a sequência da Sakuyamon fica atrás disto. É certo que só conheço este universo e o de Adventure, mas duvido que haja algo melhor do que isto.

 

 

Há que também dar crédito a Tamers por ter resistido à tentação de criar uma digievolução completamente nova para Impmon, mais convencionalmente heroica, para refletir este desenvolvimento. Beelzebumon continua a ser um demónio, continua a ter um nome inspirado por um dos nomes do diabo. Apenas ganhou algumas características menos vilanescas. 

 

Acho piada, aliás, ao contraste entre um demónio motoqueiro e os seus Treinadores, crianças pequenas e inocentes. Não me admirava, aliás, se uns anos após os eventos de Tamers, a fase de rebeldia adolescente de Ai e Makoto envolvesse motas e cabedal preto. 

 

Beelzebumon junta-se, assim, aos Treinadores no combate ao D-Reaper. Por motivos óbvios, ele é um dos mais motivados para salvar Juri – tanto como Takato ou talvez ainda mais. Conforme referido antes, ele e Culumon descobre Juri no núcleo do D-Reaper. Conseguem infliltrar-se, mas Beelzebumon e apanhado pelos tentáculos e fica inconsciente durante um par de episódios. Recupera a consciência numa altura em que o D-Reaper cria agentes novos para proteger o núcleo – e acaba por ser expulso para o exterior, onde se reencontra com Dukemon. 

 

Vimos antes que Dukemon e Beelzebumon tentam os dois abrir caminho até Juri – o desespero do segundo fica patente em cada gesto. Não ajuda o facto de o nono agente, a Bola do D-Reaper, apontar o seu olho gigante para Beelzebumon enquanto repete, usando a voz de Juri: “Beelzebumon. Nível Extremo do Impmon. O Digimon que absorveu o Leomon.” É francamente sinistro.

 

Por outro lado, sim, também fiquei zangada por o D-Reaper ter destruido a pistola laser de Makoto. Não se faz! 

 

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Como vimos antes, o esforço de Beelzebumon consegue despertar Juri do seu transe. E quando o demónio recorre ao Punho Real, consegue abrir um buraco na esfera e estender uma mão a Juri.

 

Se isto fosse uma história diferente, Juri teria sido resgatada neste momento e tudo ficaria bem. Mas isto é Tamers, em Tamers não há soluções fáceis. Como vimos antes, Juri ainda não estava preparada para perdoar Beelzebumon, para confiar nele. 

 

Infelizmente, pouco após a janela fechar, Beelzebumon é atingido pelas costas. Por momentos, o ferimento parece ser fatal – e Ai e Makoto estão a ver tudo na televisão! Ele prometera que voltaria!

 

Da primeira vez que vi Tamers, poucos episódios atrás, pensava que Beelzebumon morreria para se redimir. Esteve muito perto… A intervenção atempada de Grani salva-lhe a vida, numa altura em que este já regrediu para Impmon.

 

O diabrete não teve, assim, uma conclusão épica e triunfal para a sua história. O verdadeiro encerramento acontecerá mais tarde e será mais sereno. Antes, Ai e Makoto cuidam de Impmon enquanto este recupera da luta contra o D-Reaper. É nesta altura que os DigiGnomos lhes dão o seu próprio D-arco (só agora?).

 

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Depois de derrotado o D-Reaper, Impmon apresenta Ai e Makoto aos outros Treinadores. Imagino que para Juri, Takato, Ruki e companhia os meninos sejam a maior prova de que a bondade e compaixão que demonstraram para com Impmon não foram desperdiçados. Juri diz mesmo que está contente por Impmon ter sobrevivido – por certo porque não quereria que Ai e Makoto passassem pelo mesmo que ela passou, porque Juri sabe alguma coisa sobre canalizar traumas para ações destrutivas. Assim, perdoa Impmon.

 

O diabrete obtinha assim o seu final feliz… para imediatamente a seguir ser recambiado para o Mundo Digital, para longe dos seus Treinadores. Ai e Makoto nem sequer devem compreender os motivos. Nem no universo de Tamers há justiça…

 

Como referi antes, não considero Impmon/Beelzebumon um vilão propriamente dito. Aliás, nenhum dos antagonistas em Tamers merece ser classificado como vilão no sentido convencional do termo… mas isso é conversa para o próximo texto.

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