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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Avril Lavigne – Head Above Water (2019)

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(Eu tinha dito que ia fazer este meme...)

 

Avril Lavigne lançou, no passado dia 15 de fevereiro, o seu sexto álbum de estúdio, intitulado Head Above Water. Conforme comentámos antes, este é o primeiro disco que a cantautora lança em mais de cinco anos – uma boa parte deles passados debatendo-se com a Doença de Lyme.

 

Como poderão ler aqui, da última vez que Avril tinha lançado um álbum, o meu parecer foi misto. Ao longo destes cinco anos, admito, tive flutuações na minha opinião. Funciona bem como álbum pop, feel-good, para entreter, para cantar no carro – quer os temas mais animados, quer as baladas. Não representou uma grande evolução no som de Avril, mas incluiu uma ou outra experiência bem sucedida. E Hello Kitty…

 

Não é um mau álbum, mas eu na altura queria algo com mais substância.

 

Sendo o sucessor ao álbum homónimo o primeiro que Avril lança após sobreviver a uma doença grave, seria de esperar que estivesse mais satisfeita com Head Above Water, descrito por ela como o seu mais pessoal até ao momento. E estou.

 

Bem, mais ou menos.

 

 

Antes de começarmos, e já que falamos do quinto álbum, uma curiosidade: depois de ter ouvido Avril Lavigne, o álbum, pela primeira vez enquanto passava um fim de semana em Vila Viçosa, voltei a estrear um álbum novo dela em viagem. Desta feita foi em Bilbau. Tal como aconteceu com o quinto álbum e com a Capital do Mármore, Head Above Water há de ter sempre um saborzinho ao País Basco, ao Museu Guggenheim.

 

Seria giro se conseguisse manter essa tradição: marcar viagens para os dias em que a Avril lança álbuns.

 

Mas falemos de Head Above Water em si. O álbum abre com a faixa do mesmo nome, que também serviu de primeiro avanço. Conforme vimos antes, terá sido a primeira música que Avril compôs para este álbum, inspirada por um momento em que a cantora pensava que estava a morrer. Head Above Water acaba por representar bem o álbum a que dá o nome. Várias músicas apresentam estruturas parecidas, sobretudo na primeira metade do álbum.

 

Uma das minhas preferidas é It Was in Me. Se a ouvirem, acho que percebem porquê: é muito parecida com I’m With You. Na parte musical, sobretudo, mas não só.

 

 

A instrumentação assemelha-se a uma versão moderna da grande balada de Let Go, com o piano a conduzir e um carácter um tudo nada etéreo. A estrutura melódica é semelhante à de I’m With You: estâncias em tom grave, refrão e terceira parte em tons agudos. A música vai ao extremo de, à semelhança da música de 2002, ter uma parte em que o instrumental diminui, Avril canta parte do refrão em tom baixinho para, depois, clamar “It was in me! It was in me!” com uma melodia idêntica à de I'm With You.

 

Até mesmo na temática It Was in Me é parecida com a grande balada de Let Go. Calhou bem ter escrito há pouco tempo sobre I’m With You e outras canções à volta do tema de estar à procura de algo: de companhia, de respostas, de um sentido para a vida. De sítios perfeitos.

 

It Was in Me também pega nesse tema. A narradora procura respostas por todo o lado: em festas, em bens materiais, noutras pessoas.

 

No fim, a resposta estava dentro de si: nas pequenas coisas, na sua espiritualidade, na sua relação com Deus, em si mesma. Dezassete anos depois de I’m With You (metade da vida dela, vejo agora), Avril já não tem medo de estar sozinha. Consegue “sentir-se eufórica enquanto sóbria (infelizmente não existe nenhuma tradução literal para “high”. Apenas “pedrada” e não é cem por cento exata), jovem enquanto velha” sem ajudas exteriores. 

 

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Mesmo antes de Avril o confirmar em entrevista no outro dia, já suspeitava que ela estava a tentar recriar a magia de I’m With You. A música até foi co-composta por Lauren Christy, que costumava fazer parte do The Matrix! E hão de reparar na curiosa abundância de “yeah-yeah”s neste álbum.

 

Não acho que tenha sido uma má ideia. Para além de ser uma boa sequela a I’m With You, na minha opinião, é uma das melhores músicas de Head Above Water. E é, sem sombra de dúvida, a letra mais madura que Avril alguma vez escreveu até ao momento.

 

Por sua vez, Warrior foi um dos primeiros títulos de que Avril falou – há cerca de dois anos, conforme podem ver aqui.

 

É uma música linda, embora seja demasiado parecida com Head Above Water para o meu gosto: conduzida pelo piano, com os violinos a acompanhar e a interpretação emotiva de Avril.

 

Na verdade, não consigo decidir se gosto mais da versão oficial ou da versão demo, que apareceu na internet no mesmo dia em que o álbum saiu. A demo tem um tom mais intimista, tem mais personalidade própria, não parece tanto uma Head Above Water parte 2 – já ajudava terem dispensado a percussão. Por outro lado, gosto mais da terceira parte da versão do álbum – mas eu teria conservado o crescendo de violinos da demo. E, claro, a versão oficial está melhor produzida, possui melhor qualidade de som.

 

 

A letra não é má, está acima da média no que toca à discografia da Avril, mas ela vai para todas as metáforas óbvias, tornando a canção demasiado genérica. Já de si é vulgaríssimo chamar “guerreiros” a pessoas com doenças graves, sobretudo cancro, e Warrior não se eleva acima desses clichés. Fica a ideia que qualquer um podia ter escrito esta letra.

 

Vou dizer, no entanto, que gosto do verso “I’ve got a whole damn army”: um exército do qual fazem parte a família de Avril, os seus amigos e, claro, nós, os fãs. Conforme escrevi aqui no blogue há pouco tempo, julgo eu, o mais importante são as pessoas, sobretudo em alturas difíceis como estas.

 

E são estas as músicas inspiradas pela Doença de Lyme (bem, It Was in Me mais ou menos). Sim, apenas três músicas.

 

Bem, mudando um pozinho ou outro, Birdie podia aplicar-se ao Lyme. A letra fala da sensação de prisão, de nos sentirmos um animal numa jaula, um pássaro numa gaiola (lá está). Podia ser sobre a doença que a confinou a uma cama durante longos períodos de tempo ao longo de dois, três anos, mas a letra alude mais a uma relação amorosa. Talvez o seu casamento falhado com Chad Kroeger, talvez a relação tóxica de que fala noutras músicas.

 

 

Em termos de instrumentação, Birdie não difere muito das músicas que falámos antes. Por outro lado, em termos de estrutura da melodia, foge um pouco à fórmula da larga maioria do álbum, sobretudo no que diz respeito ao refrão. Tem ainda uma aura de melancolia que joga bem com a letra.

 

Em suma, não sendo das minhas preferidas neste álbum, é certamente uma das mais interessantes e únicas.

 

Outra música que aborda relações disfuncionais é I Fell In Love With the Devil. Produzida pela própria Avril, esta faixa possui um tom inesperadamente gótico e dramático, cortesia do piano e dos violinos. Parece uma música retirada do Under My Skin, sem guitarras elétricas, com um carácter mais maduro e moderno.

 

A condizer com a parte musical, a letra é dramática, mesmo melodrámatica. Não que fosse de esperar outra coisa de um título como I Fell in Love With the Devil. Descreve uma relação tóxica, da qual a narradora parece incapaz de sair sozinha. A letra usa imagens de Céu e Inferno, anjos e demónios – melodramático, lá está, mas funciona dentro da sonoridade.

 

 

Não sendo uma das minhas preferidas, é outra canção interessante. Nos primeiros dias após a edição do álbum, era a mais reproduzida no YouTube. Não surpreende: três quartos da comunidade de fãs venera Under My Skin e I Fell in Love With the Devil parece ter sido criada de propósito para eles.

 

Tell Me It’s Over também aborda uma relação disfuncional, como vimos antes. Ouvindo-a no contexto do álbum é um destaque claro: boa letra, boa sonoridade (tirando a batida irritante), bom desempenho vocal. Foi uma boa jogada lançá-la como single em dezembro – houve quem a descrevesse como uma música de Natal triste. Existem outros temas com influências soul em Head Above Water, como veremos adiante, mas Tell Me It’s Over é de longe o melhor.

 

Praticamente todos os álbuns de Avril, sobretudo os mais calmos e pessoais, como este, possuem pelo menos um outlier. Neste caso, este é Dumb Blonde. Na minha opinião, sendo Head Above Water um álbum mais homogéneo que o costume, nota-se mais a diferença. Também não ajuda o facto de Dumb Blonde estar a meio da tracklist – aquando de Goodbye Lullaby, por exemplo, tiveram o bom senso de colocar What the Hell logo no início.

 

Dumb Blonde era mais ou menos o que eu calculava que fosse, mal saíram as primeiras pistas sobre a múscia. Com uma batida “roubada” a Hollaback Girl, mais prevalente no início, acaba por ganhar mais personalidade após a primeira estância. A minha parte preferida é o pós-refrão, gosto imenso dos vocais.

 

 

Sendo tão contagiante como qualquer outro single pop da discografia da Avril, a letra por outro lado é melhor que o habitual para este estilo. Terá sido inspirada por um idiota qualquer que acusou Avril de ser, lá está, uma loira burra. Avril vingou-se assim. O “braggadocio” em Dumb Blonde lembra um pouco certas músicas do The Best Damn Thing e vai ainda mais longe: é a primeira vez que Avril se gaba do dinheiro que ganha, dos discos de Ouro e Platina (gaba-te enquanto podes, querida…).

 

Dumb Blonde está longe de ser um hino feminista revolucionário, mas sempre tem alguma mensagem, algum significado, o que a coloca num nível acima das Girlfriends e Hello Kittys desta vida.

 

Dumb Blonde possui várias versões. Quando foi lançada como single, uns dias antes do lançamento do álbum, por exemplo, veio com um rap de Nicky Minaj.

 

Nós os fãs só soubemos da colaboração uns dias antes. Ninguém estava à espera. Parece-me óbvio que esta foi uma decisão de última hora, talvez para que a música descole (não parece estar a resultar…). Muitos de nós andavam nervosos, como seria de esperar, por um lado. Por outro, tanto Nicky como Avril trocaram elogios nas redes sociais, o que foi agradável – quando a Comunicação Social gosta tanto de virar cantoras umas contra as outras.

 

 

A participação de Nicky não é má mas, na minha opinião, era desnecessária. Gosto mais da versão a solo. Não a versão que aparece no CD, a versão explícita que, tanto quanto sei, não foi lançada oficialmente. Fico um bocadinho chateada por essa não aparecer pelo menos no CD. Não sou nenhuma criancinha, estou habituada aos “fucks” e “shits” desta vida na música.

 

Tudo isto para dizer que, para o típico single “radiofónico” semelhante a Girlfriend, Dumb Blonde não é má. É certamente melhor que Hello Kitty – o que não era difícil, sejamos sinceros.

 

O resto do álbum consiste em canções de amor (bem, mais ou menos no caso de Bigger Wow). Cinco de seguida, na verdade. A primeira, Souvenir, é a minha preferida – uma das minhas preferidas em todo o álbum, aliás, cativando-me logo nas primeiras audições.

 

Isto acontece-me em todos os álbuns de Avril, mesmo que até nem goste dos álbuns a cem por cento, mesmo que tenha vários defeitos a apontar (e Head Above Water é um desses casos, como veremos adiante). Existe sempre pelo menos uma faixa que me agarra pelo coração, contra toda a racionalidade. Muitas vezes é uma das faixas que mais passam despercebidas, de que Avril menos fala, que menos atenção recebe dos fãs.

 

 

Nada disto acontece com outros artistas ou bandas. É um dos motivos pelos quais ela continua a ser a minha preferida, mesmo passados estes anos todos, mesmo que tenha algumas reservas relativamente aos seus álbuns mais recentes.

 

Continuo a achar que Souvenir tem argumentos a seu favor. Na minha opinião, esta é a 17 de Head Above Water: uma música com um tom primaveril/estival, muito alimentada a nostalgia. Souvenir é, aliás, um romance de verão em forma de música – não apenas pela letra. A guitarra acústica e os discretos elementos eletrónicos dão vida aos cenários idílicos que a canção descreve.

 

Eu, aliás, quero viver para sempre naquele refrão agridoce. Numa das primeiras noites após o lançamento do álbum, estive um bom bocado deitada, ouvindo Souvenir em repetição, de lágrimas nos olhos. A música faz-me desejar passar férias num lugar paradisíaco, longe da minha vida habitual – de preferência sem Internet. O romance de verão seria opcional.

 

Mais uma vez, é raro encontrar uma canção que tenha esse efeito em mim: capaz de me levar às lágrimas, de me arrancar do aqui e agora.

 

A letra de Souvenir fala, assim, de um romance de verão que está a terminar. A narradora brinca com a ideia de manter o contacto depois das férias, de repetir a história no verão seguinte, talvez mesmo tornar a relação permanente.

 

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É um sentimento bonito, mas a verdade é que nem sempre estes romances sobrevivem à rentrée, ao regresso à rotina, ao mundo real.

 

Curiosamente, uma das músicas que vazaram no dia em que o álbum saiu, In Touch, cuja letra aborda o mesmo tema por outras palavras. Provavelmente foi uma primeira versão de Souvenir. Ainda bem que foi excluída da tracklist que, na minha opinião, Souvenir é muito melhor.

 

Esta é, então, mais de uma canção de amor, é uma canção romântica, idílica. Um pouco como Run Away With Me, se formos a ver.

 

Se Souvenir é uma canção de amor idílica, Goddess é uma canção de amor mais apoiada na realidade. É uma balada acústica fofinha, mais ritmada que Falling Fast (a percussão resulta de bater com os dedos nas cordas na guitarra). Lembra-me um bocadinho 23, da Shakira. Também faz pensar em noites ao ar livre, à volta de uma fogueira, com alguém a tocar guitarra.

 

Há muita gente a implicar com a rima de “pajamas” com “bananas”, não sem alguma razão. A mim não me incomoda muito porque o inglês não é a minha língua nativa e, em português, pijama até rima com banana. Eu até gosto, pois dá um carácter adorkable à música, na minha opinião.

 

 

Além disso, sejamos sinceros, esta é a mulher que começou uma canção com “He was a boi, she was a girl” e outra com “Singing Radiohead at the top of our lungs” – até eu sei que a música dos Radiohead não é do género que se cante a plenos pulmões. Contestação a esse verso parece-me bem mais compreensível que uma mera rima forçada.

 

Tirando isso, gosto bastante da letra de Goddess (apesar de, por vezes, cair em clichés). Ao contrário de todas as outras canções de amor neste álbum, esta até parece relacionar-se com a Doença de Lyme, pelo menos em parte.

 

Recordemo-nos que Avril passou uma boa parte de dois anos presa a uma cama. Em certos momentos, segundo declarações da mesma, nem conseguia lavar os dentes – quanto mais pentear-se, depilar-se, maquilhar-se. A última deve ter sido particularmente difícil para Avril, que já confessou ser viciada em maquilhagem, sentir-se nua sem o seu característico smokey eye.

 

Não admira, assim, que Avril refira que o seu amado a ache atraente de pijama, que ache o seu corpo perfeito, numa canção de amor. Qualquer mulher tem essas inseguranças: “Será que ele ou ela me vai achar bonita sem maquilhagem? Ou se ganhar uns quilos? Ou quando estiver doente ou velha?”.

 

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É certo que é mais fácil a Avril parecer sexy de pijama – ela tem acesso a muitos mais produtos e tratamentos cosméticos que nós, simples mortais. Mas também a sociedade faz de tudo para que as mulheres nunca se sintam suficientemente bonitas. Diz-se, aliás, que as modelos são das pessoas mais inseguras que existem.

 

Isto tudo para dizer que, se alguém vos acha atraente mesmo quando não estão no vosso melhor, esse alguém é pelo menos um forte candidato a pessoa certa para vocês.

 

As outras canções do álbum, infelizmente, não me impressionam assim tanto. Estou com dificuldades em decidir se gosto ou não de Crush (que também foi um dos primeiros títulos a ser revelado). Por um lado tem influências soul/jazz interessantes, à semelhança de Tell Me It’s Over, mas a música é demasiado lenta para o meu gosto. Além de que a letra não lhe faz favores nenhuns.

 

O mesmo se passa com Love Me Insane. O instrumental tem alguns elementos interessantes: o piano tem um carácter algo retro, faz-me lembrar Easy, dos Commodores. Também gosto dos violinos. Tirando isso, no entanto, a música acrescenta muito pouco: a letra reutiliza o tema de Crush e o desempenho vocal não é nada por aí além. Esta podia ter sido uma b-side.

 

Uma coisa em que reparei neste álbum é a mania de Avril de criar refrões circulares. Estes começam com a palavra ou expressão que dá o título à música e terminam com a mesma expressão, ou com uma pequena variação. Por vezes, repete esse título algumas vezes, acompanhando-o com monossílabos do género “yeah-yeah”. Esta última é uma tendência que herdou do álbum homónimo e que, sinceramente, já cansa. Isso e os refrões circulares fazem com que as músicas pareçam demasiado forçadas. Não sou fã.

 

 

Bigger Wow inclui esses dois pecados – embora eu até goste dos “Na na na”, ficam no ouvido. Encaixaria bem no álbum homónimo. Mais uma vez, a sonoridade tem elementos interessantes, nomeadamente os violinos mas, mais uma vez, tirando isso, é uma música mediana.

 

O tema, então, já tem barbas na discografia da Avril: é mais uma canção sobre aproveitar a vida, viver experiências fortes e tal. A ironia é que este é um tema que Avril parece adotar por defeito, à semelhança das canções de amor e desgosto.

 

E a verdade é que um Bigger Wow é exatamente aquilo que me fica a faltar, quando acabo de ouvir este álbum.

 

Antes de partirmos para as alegações finais, uma palavra rápida para as tais faixas que vazaram no dia do lançamento oficial. Eu assumo foram excluídas do álbum. De uma maneira geral, acho que foram bem excluídas. As únicas de que gosto são de Break It So Good e o cover de I Want What I Want, mas não sei se se encaixariam muito bem em Head Above Water. Pode ser que pelo menos Break It So Good saia numa edição Deluxe do álbum ou algo assim.

 

Não me interpretem mal, não acho que Head Above Water seja mau. Pelo contrário, todas as músicas têm um aspeto positivo, por pequeno que seja. Ainda assim, estava à espera de mais.

 

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Como referi antes, muitos artistas de que gosto passaram por experiências difíceis nos últimos anos. A única vantagem foi terem criado ótima música inspirada por isso: After Laughter, My Indigo, Post-Traumatic, mesmo 13 Voices. Lorde, então, criou uma autêntica obra de arte a partir de algo tão trivial como um primeiro desgosto de amor… mas também é injusto comparar Lorde com quem quer que seja.

 

Olhemos para o álbum que Avril lança agora, após viver os piores anos da sua vida: só três músicas abordam diretamente as causas desses maus anos. Pelo menos uma delas – Warrior – podia ter sido composta por qualquer outra pessoa.

 

O resto do álbum consiste nos mesmos temas de amor e desgosto que apareceram em literalmente todos os outros álbuns da Avril, ainda que com outras roupagens – e, vá lá, letras melhorzinhas.

 

Quando a tracklist de Head Above Water foi revelada, pensei que Warrior tinha sido deixada para o fim para funcionar como epílogo. Talvez até fosse essa a intenção. No entanto, não funciona pois sure após cinco canções de amor de seguida. Quando finalmente se ouve Warrior, uma pessoa já quase se esqueceu que Avril esteve doente.

 

Por outras palavras, Avril viveu os piores anos da sua vida e isto é o melhor que ela consegue fazer?

 

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Fico desiludida porque, se nem após o Lyme Avril consegue sair do registo que tem mantido nos últimos dois, três álbuns, a contar com este, é pouco provável que alguma vez o faça. Head Above Water acaba por ter falhas parecidas com as do álbum homónimo: falta a originalidade que caracterizava Avril no início da sua carreira.

 

Em defesa de Avril Lavigne, o álbum, no entanto, este não tentava ser o que não era. Assumia não ser um disco demasiado sério e introspetivo. Por sua vez, Avril tem tentado vender Head Above Water como o álbum mais pessoal e honesto da sua carreira. Se isto é o reflexo da sua personalidade, das suas crenças, da sua vida interior… tenho pena, mas ela não é assim tão interessante.

 

É certo que, mesmo que lhes falte profundidade e originalidade, as músicas de Head Above Water terão ajudado Avril a lutar contra a sua doença – nem que tenha sido apenas por lhe terem dado um motivo para se levantar da cama, apenas como escapismo. Eu, aliás, sinto-me um bocadinho hipócrita pois também tive períodos nos últimos anos – alguns deles, curiosamente, até poderão ter coincidido com as piores fases da Doença de Lyme da Avril – em que a minha escrita e os meus blogues eram as únicas coisas que davam sentido à minha vida. E eu não escrevia sobre os motivos da minha vida não fazer sentido! (Nem sobre quase nada que diga respeito à minha vida pessoal, na verdade…)

 

A própria Avril tem dado a entender, nalgumas entrevistas, que não gosta de falar muito sobre a sua doença. Mas acaba por entrar em contradição consigo mesma, ao descrever este álbum como “pessoal, íntimo, dramático, cru, poderoso”… quase sem cantar sobre o motivo de ter passado pelos piores anos da sua vida.

 

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Ainda assim, mesmo que, na minha opinião, Avril não explore a luta contra o Lyme como deve ser, Head Above Water tem sido suficiente para tocar outras pessoas afetadas pela doença, o que não é de desprezar. E ainda que ache que músicas como Head Above Water e sobretudo Warrior são demasiado genéricas para o meu gosto, a vantagem é que qualquer pessoa com uma doença grave ou com outra situação difícil pode identificar-se com elas.

 

Existem outras coisas de que gosto em Head Above Water, aliás. Em termos vocais, este é capaz de ser o melhor de Avril até agora, para começar. Além disso, Head Above Water confirma a tendência de melhoria em termos de letras que começou com o quinto disco. E eu até gosto deste estilo mais adulto, ainda que não com grande profundidade.

 

Não sei se esse se vai manter em álbuns posteriores, se ela vai regressar ao pop rock mais juvenil em discos futuros. O tempo dirá, suponho eu.

 

O que é certo é que eu vou gostar de praticamente tudo o que a Avril criar, mesmo que nem sempre a cem por cento, mesmo que tenha vários defeitos a apontar. Foi o que aconteceu com os primeiros seis álbuns dela, não estou a ver as coisas a mudarem. Estou satisfeita por termos Head Above Water, apesar de tudo, e quero que ela continue a fazer música.

 

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O pior é que, no que toca ao meu nicho musical, temo que ela acabe por ganhar um estatuto parecido àqueles funcionários mais velhos numa empresa. Ninguém os despede pois, apesar de hoje não darem muito para a caixa (embora, de vez em quando, façam um ou outro brilharete), eles fizeram muito pela empresa antes e estão gratos por isso. Mas toda a gente sabe que, hoje, são os trabalhadores mais recentes que obtém os melhores resultados

 

E não devia ser assim. Isto aceitava-se se falássemos de alguém como Bryan Adams, por exemplo. Ele está perto dos sessenta (!!!) e, hoje em dia, praticamente só lança álbuns como desculpa para ir em digressão. Mas a carreira da Avril ainda vai a meio. É demasiado cedo para ter este odor (ainda ligeiro, mesmo assim) a estagnação.

 

Pode ser que isso mude em álbuns futuros. Pode ser que ela tente fazer algo diferente daqui a dois ou três anos. Neste momento, quero ver como é que a minha opinião em relação a este álbum evolui nos próximos meses. Depois farei uma atualização nos textos de fim de ano.

 

Quanto a nós, já estou a escrever a minha análise a My Indigo – finalmente! Temos também os novos álbuns dos Within Temptation e de Bryan Adams, mas ainda não sei quando escreverei sobre eles. Nem sei se vou escrever sobre Shine a Light, para ser sincera.

 

Na verdade, estou a planear um mega projeto aqui para o blogue (julgo já ter falado dele antes). Ainda precisa de muita preparação, deve demorar algumas semanas, se não forem meses. Mas estou ansiosa por começar a escrevê-lo!

 

Obrigada, mais uma vez, pela vossa visita.

 

Músicas Ao Calhas – Here I Am & I'm With You

Tudo começou quando a minha irmã me enviou esta mensagem:

 

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É claro que eu estava a exagerar para efeito cómico, mas confesso que fiquei um bocadinho chateada. Depois de arranjar uma cadela, tornei-me um bocadinho sensível a animais abandonados ou maltratados. Associar histórias dessas a uma das minhas canções preferidas de todos os tempos era a última coisa que desejava. Não se faz!

 

A neura não durou muito, felizmente. Aliás, esta mensagem da minha irmã pôs-me a pensar nas minhas duas músicas preferidas: I’m With You, de Avril Lavigne, claro está, e Here I Am, de Bryan Adams. Foi aí que reparei – pela primeira vez em mais de metade da minha vida – que as duas canções têm aspetos em comum, o que pode não ser coincidência.

 

Daí este texto. Não é a primeira vez que escrevo sobre I’m With You – esta será a terceira vez. Escrevi sobre ela de passagem na primeiríssima entrada de Músicas Ao Calhas, neste blogue. Também falei sobre ela quando analisei o álbum Let Go.

 

Talvez seja um bocadinho de mais mas, em minha defesa… é uma das minhas canções preferidas de todos os tempos! E espero, com este texto, apresentar uma nova perspetiva sobre a música.

 

 

Antes de começarmos, já que vamos falar sobre as minhas duas músicas preferidas, uma curiosidade. Há cerca de um ano, encontrei este artigo, que descreve um estudo segundo o qual os homens conhecem a sua canção preferida quando têm, em média, catorze anos. Para a mulher, a média é os treze anos. Cheguei a enviar este artigo para o Jon da ARTV (o tal Youtuber, crítico de música, que refiro de vez em quando), ele comentou o artigo no vídeo acima e parece que é verdade – embora hajam exceções, claro.

 

Pelo menos no meu caso, é verdade. Here I Am e I’m With You foram editadas em álbum quando tinha doze anos – com um mês de intervalo, por sinal! Ouvi Here I Am pela primeira vez algures no verão ou outono desse ano, quando fui ver o filme Spirit (sobre o qual escrevi aqui) ao cinema. Por sua vez, só conheci I’m With You no ano seguinte.

 

Tanto Here I Am como I’m With You foram as primeiras canções que conheci como sendo de Bryan Adams e Avril Lavigne, respetivamente. Não sei se o facto de terem sido as primeiras contribuiu para o seu estatuto como favoritas – talvez um pouco. No que toca a outros artistas ou bandas do meu “nicho”, as minhas canções favoritas deles não costumam ser as primeiras que oiço deles.

 

Acho que isso aconteceu com a Avril e com o Bryan porque foram os primeiros artistas que “adotei” oficialmente. Sempre gostei de música e de cantar desde muito pequena, mas foi com a Avril e o Bryan que iniciei oficialmente a minha vida como fã de música.

 

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Ainda há bem pouco tempo comentei que a Avril é a minha mãe musical. Pela mesma lógica, Bryan também pode ser considerado o meu pai musical (e esse tem de facto idade para ser meu pai). A relação de fã que tenho tido com cada um deles é diferente, visto que Bryan, na altura em que o conheci, já tinha uma carreira feita, com toda uma discografia que levei anos a conhecer. Avril, por sua vez, estava ainda a dar os seus primeiros passos no mundo da música.

 

Para além de serem ambos canadianos e de terem um estilo maioritariamente pop rock (e, tanto quanto parece, aparecerem nas capas dos álbuns novos em pelota), aquilo que Avril e Bryan têm em comum é o facto de – não tenho problemas em admiti-lo – não serem os melhores músicos por aí. Nem sequer são os melhores do meu nicho musical.

 

Não significa que sejam maus, bem pelo contrário. Bryan tem tido uma carreira invejável, cheia de êxitos, sobretudo nos anos 80 e 90. Aquela voz enrouquecida é como o vinho do Porto: só fica melhor com o tempo. Tem um jeito especial para baladas de amor (conforme deu para ver aqui), embora também saiba compôr músicas mais animadas, mais soft rock.

 

No entanto, acaba por não se venturar muito para fora de temas de amor e luxúria. Nunca foi o género de artista que tenta esticar os limites da música ou fazer algo que nunca foi feito.

 

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Por sua vez, Avril tem uma voz única, inconfundível. Abriu caminho para outras mulheres no mundo da música, tanto no que toca a música rock como para comporem as suas próprias canções, serem honestas e vulneráveis atrás do microfone. É conhecida pelos temas pop rock com influências de punk pop, mas também tem uma queda para baladas. Além de que, mesmo passados estes anos todos, continua a dar a ideia de ser genuína, despretensiosa, faz a música que entende, sem se preocupar com modas ou em causar choque mediático, ao contrário de muitos artistas por aí.

 

No entanto, apesar de uma boa parte da sua discografia ser honesta e autobiográfica, muitas das suas letras deixam a desejar. Uma coisa são músicas com Sk8er Boi e Girlfriend. Outra coisa são músicas como My Happy Ending, Nobody’s Home e Let Me Go, que tentam passar por sérias e emotivas, mas cuja letra tira-lhes credibilidade.

 

A qualidade aumentou no quinto álbum – e espero que continue a melhorar no próximo – mas, como vimos antes, a letra de Head Above Water, não sendo má, podia ser melhor.

 

Tenho de admitir, para além disso, falta a Avril algum carisma e presença em palco. Mais uma vez, ela tem melhorado com o tempo, mas continua intermitente – embora, na última digressão, os primeiros sintomas da Doença de Lyme podem explicar algumas apresentações mais apagadas.

 

Mesmo com estes “defeitos”, Avril e Bryan continuam a estar bem acima da média, a meu ver. Além disso, são os meus pais musicais, estarão sempre em primeiro lugar no meu coração.

 

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Mas falemos sobre as músicas em si, por ordem cronológica. Como referi acima, conheci Here I Am quando fui ver o filme Spirit. Conforme escrevi antes, Spirit é um dos meus filmes de animação preferidos de todos os tempos, o Rei Leão da DreamWorks, criminalmente subvalorizado (pergunto-me se terá a ver com o facto de os vilões serem os colonizadores americanos).

 

Um dos destaques do filme é a sua banda sonora, obviamente. Já escrevi aqui no blogue sobre várias das músicas. Ainda hoje tenho o CD no meu carro e, quando o oiço, não deixo de me maravilhar com os arranjos sublimes de Hans Zimmer – o homem é um génio! É um daqueles álbuns que considero clássicos.

 

Here I Am é considerado o tema principal da banda sonora de Spirit, mas a verdade é que I Will Always Return toca mais vezes ao longo do filme – enquanto Here I Am consiste, apenas, em uma estância e um refrão repetido, no início do filme, e nunca mais se ouve até aos créditos finais. No entanto, Here I Am foi lançada como single e acho que até se saiu bem. Portugal foi um dos três países, a par do Taiwan e do Azerbaijão onde chegou ao primeiro lugar (viva nós!). Mesmo nos Estados Unidos e nalguns países da Europa andou perto dos lugares cimeiros. Ainda hoje é tocada nas rádios.

 

Um rápido aparte: sabemos que estamos a ficar velhos quando a nossa música preferida passa na m80. E no entanto já apanhei Bad Romance, que tem menos de uma década…

 

Estou a desviar-me. Voltemos atrás.

 

 

Here I Am é o Circle of Life de Spirit: a música que toca quando o protagonista nasce. A versão que toca no filme está dentro do estilo dos arranjos de Hans Zimmer. Começa suave e inocente, como seria de esperar, até ganhar um carácter eufórico e grandioso no segundo refrão.

 

A versão single que toca nos créditos finais é diferente, claro: pop rock, mais compatível com as rádios do início dos anos 2000.

 

Ainda assim, Here I Am não é assim tão parecida com o resto da discografia de Bryan. Tem elementos de rock, sim, mas a percussão é diferente e os teclados são mais predominantes que o habitual. Segundo o booklet de Anthology – o álbum Greatest Hits que Bryan lançou em finais de 2005 – foram os produtores Jimmy Jam e Terry Lewis que, quando a banda sonora de Spirit estava quase pronta, pegaram nas gravações iniciais de Here I Am e deram-lhe um carácter mais R&B.

 

Suponho que, se tivesse sido produzida pelos seus colaboradores habituais, Here I Am seria mais parecida ao resto da discografia de Bryan.

 

Só sei que aquelas notas iniciais (de teclado?), que são a imagem de marca da música, aquecem logo o meu coração. A música começa suave, minimalista, até ao refrão. É nesta altura que surgem as guitarras elétricas e a batida, que conferem um tom eufórico que se mantém durante toda a faixa. Destaque para o tal riff que abre a canção e se vai repetindo e para o solo de guitarra.

 

 

A versão original de Here I Am tem quase cinco minutos de duração logo, como seria de esperar, existem versões mais curtas para passar nas rádios. A compilação Ultimate inclui uma delas. Nesta versão (que só ouvi pela primeira vez há coisa de duas semanas), curiosamente, a linha de abertura é tocada por guitarra elétrica, por cima do teclado. Não desgosto da alteração, dá um efeito fixe, mas gostava de saber se a fizeram por algum motivo especial.

 

Cortaram, no entanto, a repetição da primeira estância na terceira parte da música. Sei que é assim que Bryan a tem tocado nos concertos ao longo dos últimos anos, mas não sou fã.

 

Aliás, por princípio, não gosto de versões reduzidas para a rádio. Compreendo o seu propósito, mas por norma prefiro as versões integrais. Há exceções, claro – por exemplo, Let’s Make a Night to Remember é demasiado comprida e não me importo que Bryan corte a segunda parte quando a toca ao vivo. No entanto, regra geral, se os músicos achassem que dá para saltar uns compassos ou mesmo parte de uma estância, estes não teriam sido incluídos no álbum! Parecendo que não, alguns de nós conseguem concentrar-se numa música durante mais de quatro minutos.

 

No caso de Here I Am, então, não cortava nenhum momento de pausa, nenhuma nota do solo de guitarra. Na minha opinião, todos esses elementos, a alternância entre momentos de calma e momentos de euforia, contribuem para a emoção da música. Não digo que as versões editadas não tenham o mesmo efeito, mas fica definitivamente a faltar qualquer coisa.

 

 

Here I Am foi uma das canções incluídas no álbum ao vivo Bare Bones, em 2010 – e também no que foi gravado ao vivo na Casa da Ópera de Sydney e editado em 2013. Este arranjo também funciona – a música chega a parecer uma balada, com o piano tocando o riff de marca da canção e Bryan improvisando o solo na guitarra acústica.

 

Na verdade, a meu ver, Here I Am é daquelas músicas – como, por exemplo, Heaven – cuja melodia é tão boa que soa bem em quase todos os arranjos possíveis.

 

Passando à letra de Here I Am, sou a primeira a admitir que esta não é das melhores – curta, demasiado vaga, perdendo-se um pouco em clichés. Como ainda era muito nova quando conheci a música, nem sequer reparei na letra fraquinha. Nos dezasseis anos seguintes, não fiz outra coisa que não projetar significados nela.

 

Vimos acima que a música foi composta para assinalar o nascimento do protagonista de Spirit. Para mim, Here I Am é precisamente isso: uma música de começos, ou de recomeços. Bryan, por exemplo, escolheu-a para abrir o concerto que deu cá, em fevereiro de 2003 (o primeiro a que assisti na vida). Também em dezembro de 2011 (o segundo dele a que fui) foi uma das primeiras da setlist.

 

Here I Am, no entanto, serviria para marcar o início de qualquer história, desde que não seja demasiado sombria. Um nascimento. O Harry Potter vislumbrando Hogwarts pela primeira vez. Um treinador de Pokémon começando a sua jornada numa região nova. As Crianças Escolhidas despertando, pela primeira vez, no Mundo Digimon.

 

 

Para além destas, há muitos anos que associo Here I Am à Seleção Nacional. Montei este vídeo há quase uma década (!!!). As imagens estão desatualizadas (O Meireles sem barba!) e a qualidade não é a melhor, mas a emoção é a mesma: a euforia de um jogo da Equipa de Todos Nós, sobretudo ao vivo, de um golo, da presença num campeonato de seleções.

 

Fez particular sentido no 10 de julho de 2016 – tonight we’ll make our dreams come true.

 

No fundo, o tema de Here I Am é este: alguém que chegou a um sítio novo, ou regressou a um sítio, que é exatamente onde quer estar.

 

Por sua vez, I’m With You é sobre alguém que não quer estar onde está.

 

 

Avril compôs I’m With You com Lauren Christy (as duas colaboraram outra vez, passados estes anos todos, no sexto álbum, na música It Was in Me) quando estava a ter um dia daqueles: o tempo estava cinzento, ela sentia-se triste, vazia, chateada por não ter namorado.

 

Todos nós já tivemos dias assim. Todos nós nos sentimos sozinhos de vez em quando, sem saber onde estamos nem para onde vamos. Ou até sabemos, mas não queremos lá estar.

 

É aí que está uma das forças de I’m With You: a sua mensagem universal.

 

Já contei antes a minha história, de ter treze anos e de cantarolar I’m With You enquanto esperava que me viessem buscar à escola. Tenho, aliás, visto muitas pessoas na Internet gracejando que I’m With You é sobre estar à espera de um Uber.

 

Também já me vi numa situação parecida à do videoclipe, quando tinha dezoito anos: numa festa a que fui contrariada, em que literalmente toda a gente menos eu se estava a divertir, em que passei a noite inteira à espera que acabasse para poder ir para casa.

 

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Liability, da Lorde, possui uma emoção parecida: a sensação de estar num sítio – ou numa relação – onde não nos integramos, onde não somos bem-vindos, onde nos sentimos isolados. A narradora de Liability decide, em resposta, voltar-se para si mesma, fazer companhia a si mesma. A narradora de I’m With You não tem uma atitude tão saudável, como veremos adiante.

 

Segundo Lorde, de resto, um dos temas do álbum Melodrama é solidão: as partes boas e as partes más.

 

Não gostei da cena dos cãezinhos abandonados, mas a interpretação não está errada. Há pessoas que se comportam como cachorrinhos perdidos: extremamente solitárias, sedentas de companhia, que se agarram a qualquer pessoa. Já apanhei utentes assim na farmácia. Não é o comportamento mais saudável, mas a narradora de I’m With You apresenta traços dele – ao pedir companhia a um estranho.

 

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Uma coisa em que só reparei há cerca de um par de anos foi que, se formos a ver, Give You What You Like é uma versão erótica de I’m With You. Em ambas as canções, as narradoras buscam uma cura para a solidão. Em I’m With You, essa vem da companhia de um estranho. Em Give You What You Like, essa cura vem de um encontro sexual.

 

Mesmo em termos musicais, as duas faixas possuem semelhanças entre si. Ambas começam num tom grave e intimista. Só que Give You What You Like mantém-se nesse tom, enquanto I’m With You evolui para uma power ballad de respeito.

 

O que me leva, então, à parte musical de I’m With You. Segundo a Avril, esta foi composta ao piano – terá sido a única do álbum Let Go a ser composta ao piano – mas, tanto quanto consigo ouvir, esse instrumento não aparece em parte nenhuma da música. I’m With You é guiada por uma guitarra acústica em tom grave, acompanhada por um violoncelo e uma ou outra nota de guitarra. É no refrão que surgem as guitarras elétricas.

 

O destaque, no entanto, é mesmo o desempenho vocal. Conforme vimos quando falámos sobre Let Go, nesta altura a voz da Avril não era tão firme como agora. Era pura, inocente, com nuances deliciosas – uma das minhas partes preferidas em I’m With You é a maneira como ela canta o verso “tryin’ to figure out this life” no último refrão.

 

 

Mesmo com vocais ainda algo frágeis, estes não falham na hora de cantar os agudos. A escalada dos yeah-yeah é um exemplo óbvio, mas a minha parte preferida da música é o último minuto: com os “I’m with you! I’m with you!” agudos e os últimos em tom normal, de novo. Sempre adorei esta transição. É como se houvesse um alívio da tensão após o clímax da música.

 

I’m With You é uma música triste na sua maioria, mas sempre deixa uma nota de esperança – a narradora consegue encontrar companhia no fim. Vimos antes que confiar em estranhos pode não ser a atitude mais saudável, pode correr mal. Mas também pode vir a correr bem. Pode ser que esse estranho se torne alguém importante na nossa vida – talvez um novo amor ou “apenas” um novo amigo. Se estivermos dispostos a dar esse salto de fé.

 

Numa sessão de perguntas e respostas que ela deu no Twitter, em dezembro último, Avril revelou que, se pudesse dedicar uma canção aos seus fãs, essa seria I’m With You. Para começar, é a sua favorita (embora, nos primeiros anos da sua carreira, alegasse que Losing Grip era a sua favorita). Em concertos, ela costuma virar o microfone para o público, para a primeira parte do último refrão. Nos últimos anos, chega mesmo a fazer as audiências repetirem essa parte várias vezes. Avril revelou que, mais do que qualquer outra, quando a canta, sente-se em sintonia com os seus fãs.

 

Gosto de pensar que é, também, dedicada àqueles que têm usado a música da Avril para combater a solidão, para conhecer e ligar-se a outra pessoas, para descobrir quem eram e o seu lugar no mundo. Como eu.

 

 

 

Como podem ver, as minhas duas músicas preferidas são o oposto uma da outra, de certa forma. I’m With You é sobre estar-se perdido – ou, pelo menos, no sítio errado – e encontrar uma luz que nos poderá conduzir ao sítio certo. Here I Am é sobre a euforia de estar no sítio certo.

 

Que diz isso sobre mim? Que alterno entre perdida e achada? Que ando sempre à procura de algo? De sítios perfeitos, como reza outra das minhas canções preferidas?

 

Talvez seja isso. Afinal de contas, existiram muitas alturas na minha vida em que me sentia isolada, desajeitada, sem saber o que estava a fazer com a minha vida, incapaz de me integrar entre os “normais”. Demorei muito tempo a aprender a sentir-me confortável na minha pele – ainda ando a trabalhar nisso. Fui capaz em parte porque, nos últimos anos, tive o prazer de conhecer várias pessoas, de viver experiências fabulosas, precisamente à conta das minhas paixões – as coisas que dificultavam a minha integração.

 

Por outras palavras, de viver momentos como os descritos em Here I Am.

 

E, agora que penso nisso, se houver uma canção equivalente a Here I Am na discografia de Avril – uma canção sobre estar no sítio certo – é Innocence.

 

 

I’m With You e Here I Am funcionam, assim, como prequela e sequela, duas facetas de mim mesma – com Perfect Places a funcionar, talvez, como um intermédio entre ambos esses modos. À medida que envelheço tenho conseguido inclinar-me mais para o modo Here I Am, mas continuo a ter os meus dias I’m With You.

 

Ou talvez tudo isto sejam coincidências. Talvez esteja a projetar, a ver tratados filosóficos em músicas pop. Mas também de que serve a música – e a arte em geral – senão como ponto de partida para descobrir quem somos?

 

Felizmente, como referido no texto anterior, nas próximas semanas vou receber dois álbuns novos de cada um destes artistas, com duas semanas de intervalo – já depois de ter recebido Resist, dos Within Temptation. Mais de trinta músicas novas no total para catalisarem as minhas introspeções.

 

Ou, pelo menos, para cantar no carro ou para ajudar a suportar um dia difícil.

 

Como é habitual, quero escrever análises desses três álbuns. E como também é habitual, essas análises devem demorar. Não quero escrever sobre Resist sem escrever sobre My Indigo – uma análise que ando a adiar desde o verão passado. No entanto, é possível que comece a escrever sobre Head Above Water mal o álbum esteja disponível.

 

Que querem? É a minha mãe musical!

 

De qualquer forma, as análises a esses quatro álbuns deverão ser as próximas publicações neste blogue, mesmo que ainda demorem umas semanas (se não forem meses).

 

Obrigada por terem lido este texto particularmente egocêntrico. Faltam oito dias e picos para Head Above Water e vinte e dois dias para Shine A Light. Até lá... 

Músicas Não Tão Ao Calhas – Tell Me It's Over

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Avril Lavigne lançou, no ano passado 12 de dezembro, a música Tell Me It’s Over, que serve de segundo avanço ao seu sexto álbum – que se chamará Head Above Water, tal como o primeiro single, e será lançado a 15 de fevereiro.

 

"Oh, you come and you leave
Shame on me for believing every word out of your mouth"

 

Se a faixa Head Above Water não representou uma grande inovação no que toca à Avril, pelo menos em termos musicais, Tell Me It’s Over é outra história. Esta é uma música soul com elementos de jazz, uma faixa que parece saída do século passado (anos 50 ou assim), com saxofones à mistura com piano e violinos. Faz lembrar o tema Love on the Brain, da Rihanna – uma música bastante boa mas, na minha nada enviesada opinião, Tell Me It’s Over é melhor.

 

Acho que ninguém estava à espera desta – o mais próximo que Avril tinha estado deste estilo foi com o cover de How You Remind Me. Julgo ter referido há uns anos que esperava ouvir mais músicas dela nesse género. Mas daí a ouvir a voz da Avril num coro de soul vai um pedaço.

 

Julgo que a Avril referiu uma ou outra vez, em entrevistas, que gostava de ouvir jazz nas horas vagas. Em declarações mais recentes, a propósito deste lançamento, referiu mesmo que se inspirou em nomes como Aretha Franklin, Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Etta James, em parte por serem ícones feministas (mais sobre isso adiante).

 

 

De qualquer forma, gosto muito do resultado final.

 

Começando pela interpretação. Esta música pode ter sido território novo para a Avril mas, baseando-se no seu desempenho vocal, não se nota nada. Quando saiu uma prévia da faixa, com os seis primeiros segundos, eu contava com vocais graves, estilo Give You What You Like.  Em vez disso, Avril alterna sem dificuldade entre agudos e graves, dá voz aos coros, como se tivesse passado os seus (*faz contas de cabeça*) quase dezassete anos de carreira cantando neste estilo.

 

Tanto Head Above Water como Tell Me It’s Over mostram que a voz da Avril nunca esteve em melhor forma – ótimas indicações para o álbum novo.

 

A letra de Tell Me It’s Over, não sendo nada do outro mundo, é melhor que a de Head Above Water – mais fluida e consistente, sem partes que parecem só lá estar para a rima ou para preencher buracos. No que toca à Avril, está acima da média em termos de qualidade.

 

Esta é mais uma canção entre várias na discografia da Avril sobre relações falhadas. Tell Me It’s Over fala sobre uma relação tóxica, sem futuro, mas em que o homem insiste em permanecer na vida da narradora. Não é capaz de dar-lhe o que ela quer, ou de tratá-la como deve ser, mas consegue manipulá-la demasiadas vezes. Na terceira parte da canção, a narradora está determinada a cortar com ele de vez e para sempre.

 

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É curioso que Avril tenha escrito esta letra nesta altura do campeonato. Ela sempre deu a impressão de ser bastante exigente em termos românticos – músicas como He Wasn’t e The Best Damn Thing deixam-no bem claro. Se olhássemos para essas duas faixas, nunca imaginaríamos a narradora delas (assumindo que é a mesma narradora nas três músicas), presa numa relação tóxica – antes, não aceitava um homem que não lhe abrisse as portas, mas agora não consegue largar um que, no videoclipe, lhe destrói o telemóvel?

 

Só prova que , por vezes, somos os nossos piores conselheiros.

 

Como podem ver, estou bastante satisfeita com Tell Me It’s Over. A única falha que tenho a apontar é à percussão – a batida soa um bocado artificial. Não havia necessidade, podiam ter gravado uma bateria a sério.

 

É apenas um pormenor, não afeta a qualidade da música, na minha opinião. Só reparei nisso porque uma pessoa o referiu no Twitter – se não o tivesse lido, ter-me-ia passado ao lado.

 

Não digo que Tell Me It’s Over esteja já entre as minhas músicas preferidas, mas é um passo na direção certa. O álbum homónimo jogou muito pelo seguro, tirando uma ou outra exeção. Tanto esse como o Goodbye Lullaby pareceram seguir um critério comercial na escolha dos singles – o quarto álbum, por exemplo, era cerca de oitenta por cento, mais coisa menos coisa, baladas e/ou música maioritariamente acústica, mas só uma dessas faixas se tornou single.

 

Não que tenha dado grande resultado.

 

Desta feita, foram lançadas duas baladas como singles – pela primeira vez em toda a carreira da Avril. A única exceção poderá ser Nobody’s Home depois de My Happy Ending, para o Under My Skin, mas não considero My Happy Ending uma balada.

 

Calculo que ela tenha mais controlo sobre a sua carreira e estratégias de marketing, depois de se ter mudado de gravadora. Faz bem. Se é para ser flop, que o seja com liberdade criativa, segundo os termos da Avril!

 

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Como disse antes, o álbum chamar-se-á Head Above Water, tal como o primeiro single. É um bom nome para este álbum, tendo em conta as circunstâncias e tudo o que a Avril revelou, quando lançou o single. Só acho estranho que ela não tenha revelado na altura que o álbum teria o mesmo nome (talvez só o tenha decidido depois).

 

O nome, data de lançamento, capa e tracklist foram revelados oficialmente no passado dia de 7 de dezembro – exatamente oito anos após o mesmo ter acontecido com o Goodbye Lullaby (mais um argumento para a minha previsão de que Head Above Water será uma versão melhorada de Goodbye Lullaby).

 

A capa não é das mais populares entre os fãs. Eu mesma não gostei muito à primeira – não pela nudez, mais por a achar demasiado escura. É, aliás, a segunda capa de seguida em preto. Eu sei que é a cor preferida da Avril, mas acho que ficava um pouco melhor a cores, com o fundo em azul.

 

Além de que aquele braço é um fail de Photoshop. Espero que corrijam antes do lançamento do álbum. Duvido que o façam, no entanto, já que a capa tem sido publicada em vários sítios sem alterações desde essa altura.

 

Agora que já se passaram alguns dias, já gosto um pouco mais da capa. Continuo a achar que a capa do álbum homónimo é pior.

 

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Na verdade, acho a tracklist muito mais interessante – com títulos como Love Me Insane e Bigger Wow. Além de que tem piada haver uma música chamada I Fell In Love With the Devil, num álbum cuja faixa-título é essencialmente uma oração.

 

Dumb Blonde é, segundo Avril, a música mais agitada, mas parecida com os seus típicos singles pop rock. Segundo um texto que vazou por umas horas há um par de meses, Dumb Blonde será uma música contra estereótipos misóginos como, lá está, “a loira burra”.

 

Quase quinze anos após Don’t Tell Me, Avril vai finalmente lançar outra música feminista. Ainda bem!

 

Por sua vez, Warrior é um título que conhecemos há quase dois anos. Pelos vistos, foi escolhida para encerrar o álbum. Baseando-me nisto, acho que Warrior funcionará como um epílogo à história contada em Head Above Water. Avril refletirá sobre tudo por que passou, concluindo que é uma guerreira, que sobreviverá e sairá mais forte desta luta.

 

Ficamos à espera, então. Talvez saia mais um single antes mas, se não sair, não me importo. Pode haver quem não tenha gostado de ter de esperar três meses por Tell Me It’s Over, depois de Head Above Water. Eu, no entanto, acho-o preferível a levar com metade de um álbum antes do lançamento oficial.

 

Só espero que o resto do álbum esteja ao nível dos primeiros dois singles, sobretudo de Tell Me It’s Over.

 

Antes, tenho planeado um texto de Músicas Ao Calhas centrando-se em duas músicas, uma delas da Avril. Mesmo que não hajam mais entradas de Músicas Não Tão Ao Calhas antes do lançamento de Head Above Water, preparem-se para uma dose saudável de Avril Lavigne neste blogue.

 

Entretanto, ando já a trabalhar no habitual texto de fim de ano. Este deverá ser um pouco mais curto que o do ano passado – ainda não sei se vou sequer dividi-lo em duas partes. De qualquer forma, já comecei a escrever o primeiro rascunho. Espero conseguir publicá-lo a tempo.

 

Obrigada pela sua visita, como sempre.

Músicas Não Tão Ao Calhas – Head Above Water

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Avril Lavigne lançou, no passado 19 de setembro, Head Above Water, uma música que serve de primeiro avanço ao seu sexto álbum de estúdio (ainda sem nome e sem data de lançamento).

 

Quem siga este blogue há pouco tempo, se calhar, não saberá que Avril é a minha cantora preferida de todos os tempos. Como ela tem estado afastada dos holofotes durante os últimos quatro anos, tirando uma ou outra ocasião, não tenho tido muitas oportunidades para escrever sobre ela.

 

O seu último álbum de estúdio, homónimo, saiu há quase quatro anos. Depois desse, Avril lançou um single isolado, Fly, deu a voz à Branca de Neve do Príncipe Bué Encantado (embora não se perceba o que está a acontecer a esse filme) e emprestou a voz a canções de outros artistas. Desses, escrevi sobre Get Over Me e Listen, mas não sobre Wings Clipped. Não gostei desta última e, como saiu na véspera do quinto filme de Tri, não quis perder tempo com ela.

 

Foi uma longa espera, mais do que com os álbuns anteriores, mas, falando por mim, não me custou tanto como antes – em parte porque andei entretida com outras coisas, outras músicas. Em parte porque, desta feita, havia um motivo excelente (mais sobre isso adiante). Fui gerindo a página do Avril Portugal, que é a última ligação que tenho ao Fórum com o mesmo nome, mas existiram várias ocasiões em que mal pensava nela.

 

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No entanto, tudo isso mudou nas últimas semanas, assim que saíram os primeiros sinais de que Avril ia lançar música nova – e não era mais uma falsa partida, era mesmo a sério, com fotografias promocionais, com filmagens de videoclipe. Tenho-me sentido como se tivesse dezanove anos outra vez – altura em que quase só ouvia, pensava e respirava Avril Lavigne. As saudades que eu tive destas coisas.

 

Avril é como se fosse a minha casa no mundo da música, a minha mãe musical. Foi uma das primeiras artistas cuja música me apaixonou. Foi ela quem me trouxe ao mundo da música, com quem aprendi a ser fã, que ajudou a formar o meu carácter (musical e não só).

 

Estive muito tempo agarrada às saias dela, quando era mais nova, pouco ouvindo de outros artistas (tirando Bryan Adams, que por esta lógica pode ser considerado o meu pai musical). Com o tempo, fui saindo de debaixo da asa dela, descobrindo outra música – música, em muitos casos, falando de modo cem por cento racional, melhor que a da Avril – mas nunca deixo de voltar para ela. Tal como uma mãe, ela sabe sempre aquilo de que gosto e nunca haverá ninguém que tome o lugar dela.

 

Isto sou eu, claro, mas estou longe de ser a única. Uma coisa de que me apercebi nos últimos anos, de resto, é que a pegada que Avril deixou no mundo da música não desapareceu – mesmo que, na última década, ela tenha deixado de ter o sucesso comercial de outros tempos. As pessoas respeitam-na, sobretudo pelos seus primeiros dois álbuns mas não só. Reconhecem, tal como eu, o seu talento enquanto cantora e compositora, que ela é genuína de uma maneira que poucos são, no mundo da música. Avril, além disso, tem sido citada como influência por toda uma geração de artistas indie rock, como Soccer Mommy e Snail Mail.

 

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Isto é, quando não falam sobre a estúpida teoria da conspiração – que, à luz das últimas declarações dela, é de péssimo gosto.

 

Conforme já referi noutras ocasiões, os últimos anos não foram fáceis para Avril – nem para ela, nem para a maioria do meu “nicho” musical, como tenho vindo a reparar. A Avril contraiu a Doença de Lyme em 2014 – mais ou menos na mesma altura em que o seu primeiro marido, Deryck Whibley dos Sum 41, se ia matando à custa do álcool. Os Paramore estiveram à beira da implosão, depois da saída do baixista Jeremy Davies, o que quase deu cabo da vocalista Hayley Williams. Mesmo os Within Temptation terão passado por uma mini-crise, por desgaste, bloqueio criativo e problemas pessoais. Por fim, e sem dúvida o pior de tudo… o Chester morreu.

 

Não tem sido fácil para ninguém. Mesmo comigo tem sido com altos e baixos.

 

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Avril já tinha falado sobre a sua experiência com o Lyme noutras ocasiões mas, tanto quanto me lembro, não tinha ido tão longe como na carta de apresentação de Head Above Water. Avril escreveu que passou uma boa parte dos últimos anos, sobretudo os dois primeiros, presa à cama; que houve uma altura em que estava nos braços da sua mãe, sentindo o corpo a desligar-se e aceitando que ia morrer.

 

Vão ter de me perdoar a linguagem mas ler isto, do punho da minha mãe musical, pouco mais de um ano depois de perder o Chester, foi fodido.

 

Terá sido nessas circunstâncias que Avril rogou a Deus que não a deixasse morrer, que “mantivesse a sua cabeça à tona da água”. Daí Head Above Water – essa prece feita música e a primeira faixa gravada para este álbum.

 

  

And my voice becomes the driving force”

 

Musicalmente, Head Above Water é uma balada – é a primeira vez que Avril usa uma balada como primeiro single de um álbum novo. É um bocadinho estranho que tenha demorado tanto tempo, quando algumas das suas canções mais populares são neste estilo – como I’m With You e Keep Holding On. Começa com piano, num ritmo um bocadinho mais acelerado que o habitual, ao qual se juntam mais instrumentos – destacando-se uma guitarra elétrica discreta, um violoncelo e aquela percussão típica de baladas.

 

Em termos de vocal, Avril entra com tudo desde o início, a voz clara e forte do princípio ao fim. Na biografia atualizada do seu site oficial, Avril refere que, após ter passado dois anos praticamente sem cantar, não sabia em que estado estaria a sua voz. Quando gravou Head Above Water, no entanto, a sua voz soou “mais forte do que nunca”. Eu tenho de concordar.

 

Destacaria, aliás, o verso que citei acima, tanto pelo seu significado como pela maneira como Avril o canta – eu fiquei de queixo caído da primeira vez que o ouvi. Yep, se há voz capaz de servir de força motriz, é esta.

 

Falemos, então, da letra. Com referi acima, Head Above Water é uma oração, um pedido de socorro a Deus, Avril rogando-Lhe que não a deixe morrer. Não que ela chegue a usar essa palavra, recorrendo antes a eufemismos (“I’m too young to fall asleep”).

 

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Um aspeto que me agrada particularmente é a temática aquática. Conforme referi noutras ocasiões, a água é o meu elemento. Entre outras coisas, sempre adorei nadar, sobretudo no mar, sobretudo debaixo de água e já escrevi aqui no blogue sobre canções que usam metáforas aquáticas. Ao contrário de Underwater e Pool, no entanto, em Head Above Water, a água, o mar, possuem uma conotação negativa – representam a doença dela.

 

Ao mesmo tempo, foi nestes momentos de dificuldade que Avril se aproximou de Deus – como acontece com muitas pessoas em circunstâncias semelhantes. (“I’ll meet you there, at the altar, as I fall down to my knees”, “I need you now, I need you most”)

 

Infelizmente, a letra de Head Above Water acaba por cair nas mesmas armadilhas que uma boa parte da discografia da Avril: a letra é demasiado vaga e acaba por se perder um pouco em clichés. Confesso que fiquei um pouco desiludida, depois de o quinto álbum tem incluído algumas letras boas, como 17 e Give You What You Like, melhorando bastante em relação ao seu antecessor, estava à espera de um bocadinho mais.

 

Não que isso prejudique demasiado a música. A letra é suficientemente sólida para transmitir a mensagem e a emoção – e para comover outros doentes de Lyme (mais sobre isso adiante).

 

  

É isto, essencialmente. Não diria que esteja caída de quatro com Head Above Water, mas é uma boa música, uma música que poderá tocar muitas pessoas, sobretudo alguém que tenha passado por uma situação semelhante – quer seja Lyme ou outra doença grave, quer sejam dificuldades económicas ou assim. Por muito que uma pessoa até possa gostar das Girlfriends e Hello Kittys desta vida e que, por vezes, Avril não queira levar a sua música demasiado a sério, a verdade é que é desta faceta da Avril que gostamos. Da música que vem do coração e que salva vidas, mesmo com letras imperfeitas.

 

E Head Above Water até tem sido bem recebida pelo público. Tem dominado as tabelas de vendas do iTunes, chegando mesmo ao primeiro lugar nos Estados Unidos, algo que não acontecia desde Girlfriend (embora eu tenha algumas dúvidas no que toca à relevância do iTunes numa era dominada pelo streaming). Tem sido ainda melhor recebida por outros doentes de Lyme – como esta senhora. Não sei como isto afetará o sucesso comercial de Avril e do próximo álbum a longo prazo, mas é um bom começo.

 

Ainda não há nenhuma pista em relação ao álbum ou mesmo a outros singles. Há quem diga que o álbum ainda sai este ano, mas eu duvido. A ideia com que fiquei foi que Avril quer ir fazendo isto aos bocadinhos, regressando a pouco e pouco ao mundo da música, não vá a sua saúde ressentir-se. Acredito, aliás, que os adiamentos se devem a recaídas (sinto-me culpada por ter reclamado antes…). Não me admirava se saíssem vários singles antes de o álbum ser lançado por completo.

 

Em todo o caso, se houver outro single nos próximos tempos, podem contar com mais um texto de Músicas Não Tão Ao Calhas. Mal posso esperar.

 

Como o costume, obrigada pela vossa visita. 

Música de 2017 #2

Primeira publicação de 2018! Bom Ano, minha gente! Hoje continuamos a falar da música que me marcou em 2017. Como poderão ler aqui, se ainda não o tiverem feito, terminámos a primeira parte com uma música cantada em português. A próxima música desta lista também é cantada na nossa língua – e sei que não fui de todo a única a render-me a ela.

 

  • Salvador Sobral – Amar Pelos Dois

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Não podia falar da música de 2017 sem falar de Salvador Sobral e de Amar Pelos Dois. Nunca me interessei muito pelo Festival da Canção mas, à semelhança da maior parte dos portugueses, não fiquei indiferente ao músico e à canção que finalmente nos sagraram vencedores da Eurovisão. A noite de 13 de maio é capaz de ter sido a mais feliz do ano todo – foi como estivéssemos a ganhar o Euro 2016 outra vez.

 

Confesso que, noutras circunstâncias, talvez a música me tivesse passado ao lado. É lindíssima, sim, mas está longe de ser pioneira. Não faltam por aí baladas de piano-e-violinos. Ainda este ano tivemos Writer in the Dark, de Lorde. Por sua vez, a minha cantora preferida, Avril Lavigne, tem uma data delas – destacando-se Innocence.

 

Também acho que, se esta música tivesse saído há dez, quinze anos, talvez tivesse passado despercebida a muita gente. Mas estamos em 2017: os instrumentos a sério estão em vias de extinção, tal como já referi antes; pelo menos noventa por cento das músicas que tocam na rádio são descartáveis; a larga maioria das músicas da Eurovisão são mais espetáculo, “foguetes”, que conteúdo (embora a edição deste ano tivesse umas quantas músicas giras, sobretudo a da Bélgica). Não foi, por isso, grande surpresa que Amar pelos Dois se tenha destacado. A sua vitória sempre abrirá caminho para que músicas parecidas, com mais emoção e conteúdo, se qualifiquem para o Festival do próximo ano.

 

 

  

E de facto, se ouvirmos com atenção, Amar Pelos Dois é uma música encantadora na sua simplicidade. A minha manicura habitual diz que a canção lhe parece saída de filmes antigos da Disney – bem visto. A música funcionaria bem como uma serenata de um príncipe à sua amada ou cantada pela Branca de Neve aos animais da floresta.

 

Outro ponto a favor é o facto de o Salvador ser… “Salvadorable”. Possui o equilíbrio perfeito entre esquisito e fofinho – penso que é a isto que os anglo-saxónicos chamam “adorkable”. Ele acaba por ser parecido com a Lorde no sentido em que ambos sentem e interpretam música com o corpo todo, de forma pouco convencional. Tem, ainda um sentido de humor terra a terra, que fica sempre bem.

 

  

Isto é, até se virar contra ele, no concerto do Juntos Por Todos.

 

A boca em si não me chateou… muito. Não era de todo a melhor altura para dizer aquilo, mas não acho que tenha sido por mal. São daquelas atitudes típicas de quem é famoso há pouco tempo e ainda não tem noção da sua posição. O que me chateou mais é que pôs toda a gente a falar sobre isso e as coisas boas que aconteceram durante o resto do concerto passaram ao lado.

 

Enfim. Mais importante é que o dinheiro chegue mesmo às vítimas.

 

Em setembro, o Salvador colocou a carreira em pausa, pelos motivos de saúde que todos conhecemos. Felizmente, há poucas semanas, recebeu finalmente um coração novo (esperemos que este também possa amar pelos dois…) e, por alturas do Natal, saiu dos Cuidados Intensivos. Ainda lhe espera uma recuperação longa, mas todos desejamos que tudo corra bem a partir de agora e que não demore muito a regressar aos estúdios e aos palcos – de preferência, a tempo de dar um saltinho ao próximo Festival da Canção, organizado por Portugal.

 

  • Paramore

 

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Os Paramore foram a banda que mais ouvi no Spotify, como poderão ver aqui. Isso deve-se muito ao álbum que lançaram – e que, de maneira paradoxal, me fez revisitar a discografia antiga deles. After Laughter é muito 2017, com uma data de canções sobre pessimismo, sobre desânimo, sobre cair na real… disfarçadas de músicas alegres. Uma espécie de escapismo ao contrário.

 

As minhas opiniões sobre o álbum não mudaram muito desde que publiquei a minha análise, no verão passado. After Laughter está muito bem feito – não parenas graças a Hayley Williams, às suas letras, à sua interpretação, mas também aos instrumentais criados por Taylor York, com a ajuda ocasional de Zac Farro.

 

Quando se fala de Paramore, a maior parte das pessoas fala apenas sobre a Hayley, tratando os outros membros (ou ex-membros) como mera banda de apoio. O que é um erro. Se Hayley é a cara, a voz e o final das músicas dos Paramore, Taylor é o cérebro. É onde surgem os xilofones de Hard Times, os riffs de Told You So, a guitarra acústica de 26, o piano de Tell Me How.

 

Para não dizer, mais uma vez, que poderá ser graças a Taylor que ainda temos Paramore.

 

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O que nos vale é que o Taylor é muito tímido, segundo consta, não parece ser pessoa para reclamar créditos (talvez seja por isso que ainda não tenha imitado Josh ou Jeremy).

 

Mais sobre isso um dia destes.

 

Tal como referi acima, After Laughter representa bem este ano, pelo menos para mim. Uma das principais, nesse capítulo, é 26. Já tinha referido, na análise, que esta, na minha opinião, descreve um conflito entre idealismo e cinismo. Acho que já tinha dito aqui, algures, que por norma não sou uma pessoa cínica e não desejo sê-lo.

 

  

No entanto, tive momentos este ano em que estive perto – sobretudo durante as tais semanas de desânimo, depois do concerto pelo Chester. Houveram alturas em que não me reconhecia a mim mesma e que me assustaram – uma delas aquando dos jogos da Seleção de novembro, em que não me conseguia entusiasmar como antes. Procurava agarrar-me a qualquer resquício de esperança, de alegria, que conseguisse encontrar, mas a realidade nem sempre colaborava. Até mesmo no filme mais recente de Tri (cuja análise andava a escrever na altura) a esperança e o idealismo tinham saído derrotados, no final mais sombrio daquele universo.

 

Consegui ultrapassar esse mau momento, mas nada me garante que não volte a cair no desânimo, um dia destes. Não quero de todo perder a capacidade de sonhar, de me entusiasmar com pequenas grande coisas, como a minha escrita, jogos de futebol, músicas novas, entre outras coisas. De esperar por dias melhores. Tal como Hayley diz, em 26, sobreviver nem sempre é a parte mais difícil. Às vezes, o mais difícil é manter a nossa esperança e o nosso idealismo intacto, perante todas as facetas horríveis deste mundo.

 

Sem pensar que, por muito triste que seja a perda de pessoas excelentes, como o Chester, a verdade é que não parecem existir grandes vantagens em viver neste planeta.

 

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A propósito do Chester, mais uma vez, a morte dele deu-me novas perspetivas sobre as músicas Idle Worship e No Friend – músicas que nos recordam que os nossos heróis são apenas humanos. Prova melhor do que o que aconteceu a Chester não há.

 

Um excerto de No Friend reza assim “I see myself in the reflection of people’s eyes, realizing that what they see may not be even close to the image I see in myself”. Parece-me que esse sempre foi o caso de Chester – ele que descrevia a sua própria mente como um lugar hostil, que dizia que ele mesmo era o seu pior inimigo, quando, na verdade, era idolatrado por milhões. E, no fim, ninguém conseguiu salvá-lo dele mesmo.

 

Mas regressemos aos Paramore. Neste final de 2017, Hayley parece um bocadinho melhor que há alguns meses, quando o Aflter Laughter estava para sair. Talvez o pior já tenha passado para ela e para o resto da banda.

 

Em todo o caso, gosto sempre de recordar que a última frase em After Laughter é “I can still believe”. Se a Hayley ainda consegue manter a esperança, ou a fé, ou o que quer que lhe chamemos, nós podemos tentar fazer o mesmo.

 

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  • Lorde

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Aquando do texto de Ano Novo do ano passado, eu sabia que voltaria a escrever sobre Lorde no texto deste ano. Após o excelente Pure Heroine, a fasquia estava alta para o segundo álbum de Ella Yelich-O'Connor. No entanto, Melodrama não desiludiu ninguém: é uma autêntica obra de arte, do princípio ao fim. Desde a energia dançante de Green Light e Supercut, à vulnerabilidade de Liability de Writer in the Dark, passando pela bipolaridade de Hard Feelings/L.O.V.E.L.E.S.S.

 

Não que o público em geral tenha dado por isso. Segundo as minhas pesquisas, apenas o single Green Light teve sucesso moderado. Conforme já tinha escrito antes, Homemade Dynamite seria o grande single – até lançaram um remix com uns quantos artistas da moda, a ver se descolava. Não que tenha tido grande sucesso, tanto quanto sei.

 

Tem piada. Em 2013/2014, quando ainda não era fã dela, as rádios portuguesas tocavam Royals até dar comigo em doida. Agora que já sou, não me lembro de ter ouvido uma música que seja dela.

 

De qualquer forma, continuo a fazer figas para que ela venha a Portugal no próximo ano.

 

  

Parece-me um sacrilégio estar a falar de favoritos num álbum tão consistentemente bom, mas tenho andado obcecada com Sober: uma canção como nenhuma outra, que combina inúmeros pormenores fantásticos. Deste os “Night, midnight, lose my mind”, às trompetes e saxofone no refrão, passando pelo rugido de um tigre (numa trela de ouro, espero eu). Este podcast disseca os elementos todos.

 

Não que as outras canções fiquem atrás em qualidade, mesmo não sendo tão intricadas. Nalgumas, aliás, a simplicidade é o seu ponto forte. Como Liability (só piano) e Writer in the Dark (piano e violinos, como vimos antes). Outras recriam o estilo minimalista de Pure Heroine. Nomeadamente Hard Feelings/L.O.V.E.L.E.S.S. e a reprise de Liability.

 

Já que falamos no estilo minimalista de Lorde, queria fazer um aparte e falar sobre o cover que ela gravou para o Live Lounge da BBC 1 e que tem incluído nos seus concertos.

 

 

Quando descobri acerca deste cover, fiquei contente por dois motivos. Primeiro, porque In the Air Tonight é uma das minhas canções preferidas de todos os tempo. Escrevi sobre ela aqui no blogue, há quase cinco anos (!!). Segundo, porque a versão original é perfeita para a Lorde – tão perfeita que me pergunto porque não reparei mais cedo.

 

Conforme escrevi na altura, a versão original de In the Air Tonight é grave, um tanto ou quanto fantasmagórica, assenta-se muito na percussão, com destaque para o famoso solo, no final da segunda estância. A música acabou, assim, por antecipar o estilo característico de Lorde, sobretudo do seu primeiro álbum.

 

Isto para não falar dos “Oh, Lord” – que, nesta versão, têm imensa piada.

 

Mas regressemos a Melodrama. Falta falar sobre a minha canção preferida nesse álbum e de todo 2017: Perfect Places.

 

  

Já tinha explicado antes aquilo que me atrai na música: um refrão que é puro ecstasy, uma letra com a qual me identifico. Tenho vindo a identificar-me cada vez mais com Perfect Places, aliás – sobretudo com o verso “I hate the headlines and the weather”.

 

No site Genius, Lorde escreveu sobre esta frase: “Esta música começou a ganhar forma no final do verão de 2016, em Nova Iorque e as notícias eram horríveis todos os dias e estava tanto calor de uma maneira errada, da maneira como eu imagino o tempo num filme de desastres mesmo antes de uma bomba rebentar ou de os aliens aterrarem. Deu comigo em doida, um bocadinho, eu andava por Midtown e sentia-me à beira de arrancar as minhas roupas ou de me passar perante um estranho. E todos os dias nas notícias diziam “Lado positivo! Temperaturas recorde todo o fim de semana!” e eu pensava “NÃO PERCEBEM O QUE ISTO SIGNIFICA!!! VAMOS TODOS MORRER!!!” Este é provavelmente o verso mais Melodrama em todo o álbum.”

 

Bem, tendo em conta o que se passou em Portugal com os incêndios, num verão que nunca mais acabava, nada disto me parece melodramático. Eu, aliás, alteraria o verso seguinte para “My whole country is on fire”.

 

E, claro, a parte do “All of our heroes fading”. Já me fartei de falar do Chester, mas este ano também perdemos Pedro Rolo Duarte (que ouvia há vários anos na rádio) e o Zé Pedro, dos Xutos – mais uma banda que não vai voltar a ser o mesmo. E não nos limitamos a heróis de carne e osso – tenho também um herói de infância que não teve um desfecho feliz da última vez que o vi.

 

  

Perfect Places funciona, assim, como uma boa representação do meu 2017: o mundo desabando à minha volta, eu tentando agarrar-me à minha versão de sítios perfeitos, às coisas boas da vida, a experiências que transcendessem a turbulência deste ano. Podem não resolver nada, podem não passar de escapismo, mas em certas ocasiões são das poucas coisas que me fazem levantar da cama. Que me impedem, lá está, de ceder ao cinismo.

 

E a verdade é que, apesar destas queixas todas, o ano 2017 trouxe várias coisas boas: as músicas de que falámos neste texto (em particular a que venceu na Eurovisão), o bom período da Seleção Portuguesa, a segunda e terceira geração de Pokémon Go, bem como os Raids Lendários, os jogos Ultra Sun e Ultra Moon, os dois filmes de Tri (mesmo com todos os defeitos, mesmo com o final triste do último).  Enquanto tivermos coisas como essas nas nossas vidas, conseguiremos sobreviver. Eu pelo menos conseguirei.

 

 

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Agora que já falei sobre os principais artistas e músicas deste ano, deixo aqui algumas notas sobre outros músicos do meu nicho. Bryan Adams lançou Ultimate, um Greatest Hits com um par de músicas novas, Ultimate Love e Please Stay.

 

Ultimate Love tenta abordar temas atuais e ser inspiradora, mas não consegue elevar-se acima de clichés e banalidades. De Please Stay gosto mais, apesar de não fugir muito à fórmula das canções de amor de Bryan Adams. Essa, ao menos, tem passado algumas vezes na rádio.

 

Não tenho mais a dizer sobre estas faixas. Aqui entre nós, tanto elas como o próprio CD, Ultimate, eram desnecessários.

 

  

Primeiro, os Spotifys e YouTubes desta vida tornaram os álbuns de Greatest Hits obsoletos. Se alguém quiser conhecer melhor um artista ou banda, vai às playlists This Is [Artist] ou pesquisa no YouTube e clica nos primeiros resultados. Fãs de longa poderão comprar o CD para a coleção, mas calculo que muitos, como eu, limitar-se-ão a comprar as músicas inéditas no iTunes.

 

Segundo, o álbum de inéditas mais recente do Bryan saiu há apenas dois anos. Não fazia falta material novo tão cedo, na minha opinião.

 

Dito isto, é bom saber que Bryan ainda não se acomodou, continua com vontade de fazer e lançar música, dar concertos. Conforme escrevi há quase dois anos, se o Bryan ainda não se cansou, eu também não me canso.

 

Por sua vez, Sharon den Adel, dos Within Temptation, inaugurou um projeto a solo, de nome My Indigo. O álbum, homónimo, tem lançamento marcado para 20 de abril e já duas canções foram divulgadas: uma homónima, My Indigo, e Out of the Darkness.

 

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Tenho gostado do que ouvi até agora, sobretudo de My Indigo – a primeira que conhecemos, a meio de novembro. Estive quase para escrever sobre ela, nas Músicas Não Tão Ao Calhas, mas preciso de mais tempo para decifrar a música. Prefiro esperar pelo lançamento do álbum.

 

My Indigo é, assim, o primeiro álbum por que esperar em 2018. Outro será, possivelmente, o sexto de Avril Lavigne… que, se se recordarem do texto do ano passado, ela tinha prometido para este ano. Eu, na altura, pensava que estava a ser pessimista quando dizia para apontarmos para novembro e dezembro. Pelos vistos não estava…

 

Não é o atraso em si que me incomoda, atenção. Não me importo de esperar… muito. A doença de Lyme não é brincadeira nenhuma, os sintomas podem durar anos (alguns fãs esquecem-se disso). Mesmo tirando o Lyme da equação, também não quero que a Avril lance material com o qual não esteja satisfeita, só porque os fãs estão impacientes. Um bom álbum pode demorar um ano ou cinco a ser lançado. Mas um mau álbum dura para sempre depois de partilhado com o mundo.

 

Confesso que um dos motivos para pensar assim foi um tweet da Lorde, há algumas semanas: quando um idiota qualquer reclamou com ela por ter demorado quatro anos a lançar um álbum, ela disse não vai lançar álbuns “que existam apenas numa única dimensão”, nem que leve dez anos a criá-los.

 

  

Não, o meu problema não é a demora – sobretudo se o sexto álbum valer a espera. O meu problema é que a Avril tem a mania de fazer promessas que depois não cumpre. Ela, por exemplo, passou os primeiros meses de 2017 deixando pistas sobre possíveis canções novas, em especial Warrior. Chegou mesmo a dizer, num vídeo, que “fez um álbum sem tentar fazer um álbum”. Mas, depois disso, passaram-se meses e meses sem mais nada de concreto e, no mês passado, num direto do Facebook, disse mesmo que ainda nem sequer tinha gravado Warrior.

 

Isso para não falar da palavra “soon”, que já se tornou um meme entre os fãs.

 

Eu nem me posso irritar com ela, porque já não é a primeira vez que ela faz isto. Já com os últimos dois álbuns foi este drama. Preferia mil vezes que ela se mantivesse calada, demorando o tempo que quiser em estúdio, e, quando estivesse pronta – e por “pronta” quero dizer já com nome, capa, tracklist, pelo menos um single lançado e, de preferência, CDs físicos sendo já enviados para as lojas e datas de digressão marcadas (para Portugal, por favor!!!!) – fizesse o grande anúncio nas redes sociais.

 

E, mesmo assim, acho que só acreditaria quando as músicas aparecessem no Spotify ou no iTunes.

 

  

Em todo o caso, espero mesmo que este álbum valha este drama todo. Vai ser bom ouvir música nova da Avril, depois de tudo o que aconteceu desde o último álbum.

 

É com esta nota de esperança que termino este texto. Deixo uma playlist com as músicas de que falámos aqui.

 

 

Também podem ver e ouvir aqui as músicas que mais toquei no Spotify este ano, se quiserem.

 

Que 2018 corra melhor para todos nós (já será bom se não ocorrer mais nenhuma tragédia, como a dos incêndios florestais, e se mais nenhum dos meus heróis ou qualquer pessoa de quem goste, morrer). Que não falte boa músicam, pelo menos. Fiquem bem. Feliz Ano Novo!

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