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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Mais pérolas escondidas de Bryan Adams

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Quando Bryan Adams atuou pela última vez em terras lusas, no final de 2019, compilei uma lista de músicas dele que mereciam mais atenção – tanta quanto os Summer of ‘69 desta vida. Só publiquei o texto uns meses depois dos concertos porque sou péssima a gerir o meu tempo. 

 

Agora, pouco mais de dois anos depois, Bryan está de volta a Portugal. Irá dar um concerto em Gondomar no dia 29 de janeiro e um em Lisboa, no dia 30 – é a esse que vou. Daqui a uns meses, no dia 15 de julho, Bryan atuará no Festival Marés Vivas. 

 

Eu pensava que tinha deixado a promessa de publicar uma sequela às “Pérolas escondidas” quando Bryan regressasse depois de 2019. No entanto, quando fui dar uma vista de olhos a esse texto, não encontro essa promessa em lado nenhum. 

 

Onde fui buscar essa ideia?

 

Passando à frente daquilo que eu espero que não sejam sintomas de demência, com promessa ou sem promessa, o regresso de Bryan é um bom pretexto para desenterrar mais algumas pérolas escondidas da sua discografia. Não tenho tantas como da última vez. As primeiras duas são apenas menções honrosas, aliás (opalas escondidas?). Mas não deixa de valer a pena trazê-las à luz.



 

  • Menções honrosas: I Still Miss You… a Little Bit e Hidin’ From Love

 

 

 

 

Eu na verdade já desenterrei I Still Miss You… a Little Bit há muito tempo, quando escrevi sobre o álbum Bare Bones. Este é um texto muito antigo, um dos primeiros que publiquei aqui – escrito uns meses antes de ter criado o blogue. 

 

Por norma, não gosto de reler nem de referir os meus primeiros textos. Já lá vão quase dez anos, mais ainda nalguns casos. Na minha opinião, a minha escrita melhorou significativamente desde essa altura e não consigo olhar para esses textos sem ter vontade de reescrever tudo (o texto sobre Bare Bones não está muito mau, apesar de tudo). Não os apago do blogue. Mesmo que hoje não esteja satisfeita com eles, foi por escrevê-los – esses e muitos outros – que cheguei ao nível em que estou agora. Mas não os promovo da maneira que faço com textos mais recentes. Assim, de seguida irei repetir algumas coisas de que já falei nessa análise.

 

Como era a norma em Bare Bones, os únicos instrumentos são o piano e a guitarra acústica – com as palmas do público marcando o ritmo. O tom é saltitante e divertido, o que condiz com a letra. Destaque para o momento em que Gary Breit, o pianista, se entusiasma durante o solo. 

 

A letra, então, descreve uma relação que falhou porque a amada não lhe conseguia ser fiel. Ao ponto de trazer outro homem para a cama com eles. 

 

Como já escrevi antes, para mim I Still Miss You… a Little Bit conta a história de What the Hell, de Avril Lavigne, do ponto de vista do homem. Até porque as músicas foram lançadas com poucos meses de intervalo. 

 

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Por outro lado, às vezes gosto de imaginar um videoclipe para esta música com Keith Scott – o guitarrista de Bryan – fazendo de rival amoroso do narrador. Keith aparecendo na cama com Bryan e a mulher… Seria hilariante.

 

Às vezes tenho saudades da era Bare Bones e tenho pena por não ter ido a nenhum concerto nesse conceito. Mas também em Portugal seria sempre difícil – eram em salas mais pequenas, os bilhetes esgotariam num abrir e fechar de olhos. 

 

Agora recuemos trinta anos, para o álbum de estreia de Bryan, homónimo. Como vimos antes, este álbum deixa muito a desejar. Tanto o próprio Bryan como Jim Vallance – o principal co-compositor de Bryan nos primeiros dez anos da sua carreira – concordam. Só gosto verdadeiramente de três músicas neste álbum – e Hidin’ From Love é a minha preferida.

 

A letra é algo vaga – o que não é invulgar com Bryan. Fala sobre um interesse romântico que não se quer comprometer, que não quer avançar na relação. Arranja desculpas, mas a verdade é que ela tem medo do amor, está a esconder-se dele.

 

Sinto-me atacada.

 

Num álbum que Bryan descreve como uma coleção de demos, Hidin’ From Love não é má em termos de instrumental. Eu pelo menos gosto da guitarra elétrica.

 

 

Ainda assim, existe outra versão da música. Em 2020, durante o confinamento, Bryan foi publicando vídeos de si mesmo cantando músicas suas. Regra geral, usava os instrumentais oficiais e cantava por cima deles.

 

Para Hidin’ From Love, no entanto, ele gravou um novo instrumental – porque claramente não estava satisfeito com a versão do álbum. E esta versão é de facto melhor, carregando mais nas influências rock de álbuns posteriores. Só é pena ter deixado o solo de guitarra original de fora.

 

Pergunto-me se ele planeia regravar todo o seu primeiro álbum neste estilo, um dia. Se calhar devia tê-lo feito em 2020, a propósito dos quarenta anos de edição.

 

Bem, ainda haverá o quinquagésimo aniversário.

 

 

  • Miss America

 

 

Uma vez mais, escrevo aqui sobre uma B-side do álbum 11. Este não é um mau álbum de todo, mas infelizmente dois dos meus melhores temas não estão incluídos na edição-padrão.

 

Ao contrário do que aconteceu com The Way of the World, só conheci Miss America mesmo quando saiu a versão Deluxe do álbum, algures em novembro de 2008. Infelizmente, parva como sou, perdi o CD, mas ao menos tanto Way of the World como Miss America estão disponíveis no Spotify. 

 

 

Nos primeiros meses após o lançamento dessa versão de 11, andei obcecada com Miss America. Lembro-me inclusivamente de ouvi-la todas as manhãs, na minha aparelhagem-despertador, enquanto fazia a cama. Tinha imensa vontade de lhe fazer uma montagem de vídeos – era o que eu fazia na altura – mas provavelmente nunca conseguiria colocá-la no YouTube, por causa dos direitos de autor.

 

Musicalmente, Miss America segue a fórmula de quase todo o álbum 11. A guitarra acústica no centro, bateria, piano e guitarra elétrica a acompanhar. Gosto imenso destes dois últimos instrumentos nesta música. 

 

Em termos de letra, é basicamente uma versão mais fofinha de Summer of ‘69. Miss America recorda com saudades um romance de verão entre dois adolescentes antes de a vida os separar. A letra inclui pormenores que dão carácter à música, a tornam credível: o facto de ela ser mais velha, de ele preferir vê-la de cabelo solto, de ambos passarem noites a olhar para as estrelas. 

 

A música não explica preto no branco porque é que o narrador se refere ao seu interesse romântico como Miss America ou Miss USA. Eu, no entanto, sempre assumi que era uma alcunha fofinha do narrador para a sua amada: para ele, ela era a mais bonita do país. 

 

Não é por acaso que a primeira vez que referi Miss America aqui no blogue tenha sido quando Avril Lavigne lançou 17. As duas canções são muito parecidas tematicamente. Ainda assim, dou a vantagem a 17. A letra está mais desenvolvida, mais pormenorizada, Avril verteu nela a sua própria personalidade, a sua própria história. 

 

Pena não ter voltado a fazê-lo no álbum seguinte, quando mais se justificava. 

 

E desviei-me um bocadinho. Miss America não deixa de ser uma linda música, uma verdadeira pérola escondida. Não deixem de ouvi-la.



 

  • The Best Was Yet to Come

 

 

 

The Best Was Yet to Come é a última faixa do alinhamento de Cuts Like a Knife, o terceiro álbum de Bryan. É a única balada no disco, à exceção da clássica Straight From the Heart.

 

Esta é muito semelhante a outras baladas dos anos 80 – sobretudo por ser conduzida pelo piano elétrico. Existe até uma história engraçada sobre isso, contada por Jim Vallance, co-compositor da música, no seu site. Na altura dos trabalhos de Cuts Like a Knife, pediram a Vallance que fizesse uma gravação do piano para que servisse de guia para outro tecladista. Assim, Vallance não se preocupou muito com o rigor da sua gravação. 

 

No entanto, mais tarde, Bryan decidiu usar essa gravação na versão final de The Best Was Yet to Come. Vallance entrou em pânico quando descobriu, mas na altura já era tarde demais. Ainda hoje, Vallance não consegue deixar de ouvir os erros na versão final. 

 

Tem piada porque nem eu, nem – penso – a maior parte dos ouvintes consegue ouvir os erros. Não há nada que soe fora de sítio pois não conhecemos a versão certa. Ao serem incluídas no álbum final, as notas erradas de Vallance passaram a ser as notas certas. 

 

Haverá uma lição de vida aqui, suponho eu. Haverão ocasiões em que o melhor é fingir que não se cometeram erros, que fazia tudo parte do plano. Se os outros não souberem o que era o correto, nunca saberão o que está errado.

 

A letra de The Best Was Yet to Come foi inspirada pela história trágica de Dorothy Stratten, assassinada pelo marido com apenas vinte anos, quando estava prestes a vingar-se em Hollywood. Um crime que ainda é discutido hoje, mais de quarenta anos depois. 

 

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Dorothy era de Coquitlam, uma cidade pequena do Canadá. Os americanos e os canadianos têm uma cena por este tropo: pessoas, geralmente mulheres, que vêm de uma terra pequena para as grandes cidades. Dorothy terá conhecido o futuro marido aos dezoito anos: um homem mais velho, um chulo, que lhe prometeu fazer dela uma estrela. 

 

Pode-se dizer que ele cumpriu a promessa, mas na verdade o que ele queria era explorar Dorothy, ganhar dinheiro à custa dela. Veja-se o facto de ele ter feito dela uma coelhinha da Playboy – apesar de, alegadamente, Dorothy não se sentir à vontade com a nudez e o eroticismo desse mundo. 

 

Ao menos permitiu à jovem dar o salto para a representação. Dorothy chegou a participar nalguns episódios televisivos e num par de comédias românticas. 

 

Gosto de pensar que, hoje em dia, se as pessoas vissem uma miúda da idade de Dorothy sendo seduzida por um homem mais velho, soariam alarmes. Sobretudo com eles casando-se, teria a jovem dezoito ou dezanove anos – as pessoas casavam-se assim tão cedo nos anos 70, 80?

 

Ainda assim, para sermos justos, várias pessoas do círculo de Dorothy ter-se-ão apercebido da relação abusiva. A jovem terá tentado fugir do marido várias vezes, ajudada por essas pessoas. Começou inclusivamente uma relação com Peter Bogdanovic, realizador de um dos filmes em que ela entrou. Por sinal, o senhor morreu no início deste ano. 

 

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Esta também me parece uma relação questionável. Bogdanovic tinha o dobro da idade de Dorothy na altura. Por outro lado, ele terá tratado melhor a jovem que a besta do marido. Depois da morte dela, Bogdanovic ter-se-á aproximado da família de Dorothy e tê-los-á ajudado a suportar a perda. Ao ponto de se ter casado com Louise, a irmã mais nova de Dorothy… quase trinta anos mais nova que Bogdanovic (Louise tinha vinte anos quando se casou).

 

Essa sim, ainda me parece mais questionável. Consta que deu polémica na altura e, para ser sincera, não os censuro. Dito isto… o casamento ainda durou doze anos e, mesmo depois do divórcio, tanto Louise como Bogdanovic continuaram a dar-se bem. Não há nada que indique que tenha havido abuso.

 

Suponho que existam nuances nestas coisas. Diferenças de idades não significam necessariamente relações abusivas.

 

Regressando a Dorothy, esta infelizmente foi assassinada pelo marido – que se matou de seguida. A jovem foi explorada e fetichizada tanto em vida como depois da morte – talvez ainda mais depois da morte – inspirando filmes, livros e canções. Não digo que todos esses trabalhos tenham sido explorações da tragédia dela… mas alguns terão sido. O canal de YouTube The Take tem um vídeo muito interessante sobre esta fetichização de vítimas de crimes.

 

The Best Was Yet to Come foi também uma exploração? Talvez. No entanto, a letra não refere o assassinato, nem sequer refere o marido. O carácter vago da letra joga a seu favor – duvido que o ouvinte casual saiba de que fala a música. The Best Was Yet to Come foca-se sobretudo na vida que se perdeu, nos sonhos que ficaram por realizar. 

 

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É daí que vem o título, aliás. O melhor ainda estava para vir.

 

Não se percebe muito bem a quem é dirigida a letra de The Best Was Yet to Come. Existem partes que parecem referir-se a Dorothy – "You had it there and it slipped away, oh you left the song unsung" – e outras que parecem dirigir-se aos seus entes queridos, a eventuais sentimentos de culpa que poderão nutrir – "You can cry yourself to sleep at night, you can't change the things you've done". Falta alguma consistência nesse aspecto. 

 

De qualquer forma, a frase mais dolorosa é mesmo a última: "What 's so good about goodbye when the best was yet to come?“. 

 

Consta que, anos depois da edição de Cuts Like a Knife, Peter Bogdanovic cruzou-se com Bryan e com Vallance e agradeceu-lhes por The Best Was Yet to Come. Segundo ele, a música foi um grande consolo para a família de Dorothy. The Best Was Yet to Come pode ter sido mais um trabalho explorando uma coisa horrível que aconteceu a uma jovem mulher, mas fê-lo com respeito e consideração. 

 

É uma música linda, mas mesmo muito triste. Recomendo-a a quem não a conheça, mas não é para pedir num concerto. 

 

A próxima música é mais alegre, prometo. 

 

 

  • I Will Always Return

 

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Já me fartei de escrever sobre a banda sonora do filme Spirit Stallion of the Cimarron neste blogue, sobretudo nos seus primeiros anos. É um dos meus álbuns preferidos de todos os tempos, o disco que me apresentou a Bryan Adams, cheio de pérolas escondidas – incluindo a minha canção preferida

 

É possível que tenha um viés por ter conhecido este álbum num período particularmente formativo, como expliquei no texto sobre Here I Am. Por outro lado… outro dos responsáveis pela banda sonora é Hans Zimmer! Não é por acaso que o homem é considerado uma lenda no que toca a bandas sonoras. 

 

Em Spirit em particular, o protagonista não fala fisicamente – e a narração de Matt Damon é escassa. A música conta uma grande parte da história.

 

Custa a acreditar que este álbum e este filme vão fazer vinte anos.

 

I Will Always Return era uma das poucas faixas neste álbum sobre as quais me faltava escrever. Isto é, tirando as faixas exclusivamente instrumentais. Depois desta, sobram You Can’t Take Me, Get Off My Back e Brothers Under the Sun. Não está nos meus planos escrever sobre elas… mas não vou dizer “nunca”.

 

 

I Will Always Return é a música principal da banda sonora de Spirit. Representa o… bem, o espírito do filme, a principal motivação do protagonista: regressar a casa.

 

No álbum, a primeira versão da música que aparece é um tema soft rock, guiado pela guitarra acústica. Não muito diferente do estilo habitual de Bryan – encaixaria bem em On A Day Like Today. Inclui inclusivamente Robert “Mutt” Lange nos créditos de composição – um colaborador regular de Bryan na altura. A mensagem da letra é essencialmente a mesma das versões da banda sonora, mas com um maior foco no romance.

 

Imagino que esta versão tenha sido gravada para, eventualmente, ser lançada como single nas rádios. Mais uma canção de amor de Bryan Adams. No entanto, Here I Am acabou por ser o single principal do álbum.

 

Não que me queixe.

 

Eu gosto desta versão. Tive um período (quando tinha dezasseis ou dezassete anos, penso eu) em que andava obcecada com ela. No entanto, hoje acho que as versões da banda sonora são melhores. O próprio Bryan parece concordar, como veremos já de seguida.

 

A versão seguinte de I Will Always Return no álbum chama-se oficialmente This Is Where I Belong. No filme esta soa ainda no início, logo depois de Here I Am. Existe algo no seu instrumental que me faz pensar em cavalos a galope. Em comparação com outras versões, esta tem um carácter sereno e reconfortante, o que condiz com a letra. This Is Where I Belong diz-nos tudo o que precisamos de saber sobre o protagonista, Spirit: ele adora a terra onde nasceu e cresceu.

 

 

Naturalmente, logo a seguir, Spirit é arrancado dela. 

 

Saltando algumas faixas no álbum, damos com Homeland. É a música de abertura do filme, sobre a qual ouvimos o primeiro monólogo de Matt Damon. No fundo é o instrumental da versão final de I Will Always Return, centrada na mesma melodia, ainda que com algumas diferenças. Eu pelo menos sempre a usei para fazer karaoke, ainda que tenha de cantar a primeira estância duas vezes.

 

Eu pura e simplesmente adoro esta instrumentação, estas melodias, aquele piano. Talvez seja o meu viés a falar, mas para mim isto é perfeição musical. Don’t @ me.

 

Gostaria de destacar a sequência final, aquele momento mais eufórico – coincidente com a primeira vez que surgem cavalos no ecrã. É muito semelhante à peça instrumental que soa muito mais à frente, no clímax do filme: o momento em que Spirit salta sobre o precipício para fugir aos soldados. Um momento de exultação, de júbilo. O equivalente musical, mesmo cinemático, ao golo do Éder (salta daí, caralho!). 

 

A versão final de I Will Always Return é igualmente exultante, triunfal – pois soa quando Spirit regressa finalmente a casa. Pode ser semelhante a This Is Where I Belong em termos melódicos, mas o carácter é completamente diferente. TIWIB é serena, IWAR é música de vitória. A interpretação de Bryan começa suave, mas vai ganhando intensidade. Destaque para os agudos, sobretudo na última estância

 

 

Eu não consigo resistir a esta música, sobretudo à parte final. Emociono-me de todas as vezes. É a melhor versão de I Will Always Return e encontra-se facilmente no meu top 10 de músicas de Bryan.

 

Deverá ser por isso que Bryan optou por recriar essa versão – em vez da versão soft rock de que falámos antes – quando tocou I Will Always Return ao vivo nalguns concertos em 2019. Lançou mesmo o áudio dessas apresentações nas plataformas digitais.

 

Esta é aquilo a que gosto de chamar uma versão Bare Bones: apenas piano e guitarra acústica. Guitarra é como quem diz… só a refiro porque Bryan aparece em palco com uma. Na prática mal se ouve.

 

O que em nada diminui a beleza da música. É uma versão reduzida aos melhores instrumentos da versão da banda sonora: o piano e a voz. Continuo a preferir a instrumentação completa, mas I Will Always Return é daquelas músicas que soam bem de qualquer forma.

 

Bryan publicou também uma versão da música em francês: Je Reviendrai Vers Toi. Na preparação deste texto descobri que Bryan também canta na dobragem francesa de Spirit. Já fui dar uma audição e descobri que gosto imenso de Me voilà, a versão francesa de Here I Am – o que é irónico, sendo esta uma canção que associo à Seleção Portuguesa

 

Pois bem, já pedi I Will Always Return para o concerto de domingo, bem como Here I Am. Deixei um comentário numa publicação do Instagram quase duas semanas antes do concerto. Talvez tenha sido demasiado cedo, mas ele falava já nos concertos cá em Portugal e em Espanha… 

 

 

Não será o fim do mundo se Bryan não a tocar, claro que não, mas seria especial se ele o fizesse. Em parte para pagar uma dívida ao meu eu de treze anos, que esperava mais músicas da banda sonora de Spirit no concerto de 2003. 

 

Mas também porque é a música perfeita para celebrar o regresso de Bryan a Portugal e aos palcos depois da pandemia. Nós os fãs somos a casa dele –  e os fãs portugueses são um bocadinho mais do que os outros. Foi duro estarmos separados, tanto para nós como para ele, mas agora estaremos juntos de novo, depois destes dois anos tão difíceis. Como reza I Will Always Return:

 

And now I know it’s true

My every road leads to you

And in the hour of darkness

Your light gets me through!”



E é com esta nota que nos despedimos por hoje. À hora desta publicação ainda não tenho cem por cento de certeza de que os concertos deste fim de semana não serão cancelados. Cá em Portugal não estamos com restrições muito duras. No entanto, bandas como os Måneskin e Bring Me the Horizon cancelaram as suas digressões europeias porque a Europa está demasiado heterogénea em termos de medidas de controlo da pandemia. E eu fiquei com medo.

 

Por outro lado, Bryan tem estado em Madrid na última semana, semana e meia a preparar estes concertos. A digressão vai começar aqui na Península Ibérica, onde as restrições estão mais leves. Mesmo que tenham de cancelar concertos posteriores… bem, eles já estão aqui ao lado. E acho pouco provável que, daqui até ao fim de semana, eles decidam apertar as restrições cá em Portugal. 

 

Em princípio irá mesmo para a frente. Teremos de usar máscara, o que vai chatear um bocadinho, mas paciência. Eu faria sacrifícios bem piores só para poder voltar a concertos como este. 

 

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Se tiverem bilhetes para Lisboa ou para Gondomar, espero que se divirtam muito – com segurança. Vai valer a pena. Obrigada pela vossa visita.

Músicas Não Tão Ao Calhas – So Happy it Hurts e mais um par

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No passado dia 11 de outubro, Bryan Adams lançou So Happy It Hurts, o primeiro single do álbum com o mesmo nome, que sairá no próximo dia 11 de março. Não estava nos meus planos dedicar-lhe um texto – apenas alguns parágrafos no fim do texto anterior. No entanto, quando estava quase a terminar essa publicação, Bryan lançou uma segunda música, On the Road. Assim, decidi escrever sobre as duas canções no mesmo texto. Quando estava quase a terminar essa publicação, o homem lança-me uma terceira música, Kick Ass. 

 

Não há respeito neste mundo por blogueiras em part-time que gostam de escrever sobre músicas novas dos seus artistas preferidos!

 

Sigamos a ordem dos lançamentos. Mais do que Avril Lavigne com Bite Me, So Happy it Hurts é Bryan sendo Bryan, sobretudo o dos últimos anos. Um som rock clássico, vagamente retro, um tom alegre. Imagino-o tocando isto em palco e era capaz de apostar que os gestos e movimentos dele na minha mente – as suas expressões, a maneira como ele toca a guitarra, a cabeça dele abanando ao ritmo da música – não serão muito diferentes da realidade. 

 

Em termos de letra, So Happy it Hurts também está longe de ser um tema super raro na discografia de Bryan. Basicamente, fala sobre saltar para dentro de um carro, arrancar pela noite dentro, deixando todas as preocupações para trás. Mais ou menos o mesmo tema de The Last Night on Earth, do álbum anterior – e este é apenas o exemplo mais recente. 

 

Por outro lado, gostava de saber onde é que o homem andou nestes últimos dois anos para vir, agora, dizer que está “tão feliz que dói”.

 

 

Não é má canção. E o videoclipe é fofinho, sobretudo as partes em que aparece a mãe dele, bem como a mulher grávida e o jogador de futebol americano. É a música ideal para abrir um concerto, sobretudo no pós-confinamento… mas estou a adiantar-me. 

 

Ao contrário de So Happy it Hurts, On the Road é um pouco diferente do costume para Bryan. Esta foi lançada aquando da divulgação do calendário Pirelli de 2022.

 

Lançada é como quem diz… durante mais de uma semana a música só estava disponível no YouTube. Nem sequer havia letra em lado nenhum. Lá está, como blogueira em part-time que gosta de escrever sobre música nova dos seus artistas preferidos, foi um bocadinho chato. Felizmente, quando saiu Kick Ass, On the Road foi também lançada como deve ser.

 

O instrumental de On the Road é algo mais pesado que o costume para Bryan. Não sei como descrevê-lo senão como música de motoqueiros. Talvez seja influência da letra ou mesmo do videoclipe, onde Bryan surge de casaco de cabedal preto.

 

A letra de On the Road entra em territórios parecidos aos de So Happy it Hurts, se bem que com um tom menos delirantemente feliz. Uma vez mais, nada de muito original, a comparação com Open Road chega a ser óbvia. Segundo declarações de Bryan, a letra serve para celebrar o regresso à normalidade (normalidade com vários asteriscos, claro), bem como o estilo de vida de muitos artistas e bandas: sempre na estrada, sempre em digressão.

 

 

E de facto aquilo que me é mais óbvio destas duas músicas é que Bryan estava farto de estar confinado. Não era o único, claro. Mas imagino que para ele – ele que, de acordo com a sua música, passou quase toda a sua vida na estrada, já deu a volta ao mundo cerca de mil vezes – tenha sido particularmente doloroso. E que doa ainda mais agora, que contraiu Covid, precisamente no seu regresso aos palcos. 

 

Pergunto-me se esse será um tema recorrente em So Happy it Hurts. 

 

Falta falar sobre Kick Ass – a mais engraçada das três. Começa com uma narração melodramática do lendário John Cleese, sobre um anjo enviado por Deus, vestido com calças de ganga, botas e boné –  podia ser eu – para salvar a Humanidade do inferno da música má e trazer o rock aos mortais.

 

No fundo é a mesma filosofia de Kids Wanna Rock e Go Down Rockin’, apresentada de forma hilariante. Pergunto-me o que Travis Barker e respetiva turma pensariam desta música. 

 

À parte isso, é certo que esta música não é para ser levada cem por cento a sério, mas podemos parar de fingir que o rock é o único género musical que é bom? Rock é o meu género musical preferido, rock e todas as suas variantes, mas se uma pessoa só se limita a isso arrisca-se a perder muita música boa.

 

Mas pronto. 

 

 

Mesmo sem a introdução de Cleese – e existe uma versão da música sem essa parte – Kick Ass é uma boa música. Gosto da parte em que Bryan – falando pelo tal anjo – nomeia cada instrumento e este se junta à música. Faz-me lembrar o filme Escola de Rock, a parte em que Dewey atribui um instrumento a cada miúdo. 

 

Por outro lado, acho um bocadinho estranho Bryan falar na primeira pessoa do plural, apresentando-se como uma “kickass rocking band”, quando tecnicamente ele é um artista a solo. Se bem que nós, fãs um pouco mais hardcore, já vamos conhecendo os membros da banda dele. Em particular, o lendário Keith Scott.

 

Em suma, estas são três boas músicas de Bryan, mesmo não sendo nada por aí além. So Happy it Hurts é a mais fraquinha das três, mas não por muito, apenas por causa da previsibilidade. On the Road e Kick Ass sempre têm qualquer coisa de diferente para se distinguirem.

 

O que nos leva a So Happy it Hurts, o álbum. Não estou assim tão ansiosa por ele. Estou à espera que seja semelhante ao seu antecessor, Shine a Light: um conjunto de músicas agradáveis ao ouvido, mas pouco memoráveis. 

 

Mas posso estar enganada, claro. Estas três músicas até são boas, como vimos. Se o resto do álbum for de qualidade semelhante, ficarei satisfeita.

 

Ainda assim, em princípio não deverei escrever sobre So Happy it Hurts. A menos que o álbum seja deveras interessante, o que duvido. 

 

 

Antes de lançar So Happy it Hurts, no entanto, Bryan irá voltar a Portugal! Dia 29 de janeiro em Gondomar e dia 30 em Lisboa – tenho bilhetes para esse último. Não contente com isso, Bryan ainda virá ao Festival Marés Vivas, em julho.

 

Algo me diz que ele tem saudades nossas. 

 

É um bocadinho estranho, pois só se passaram dois anos desde a última vez que ele este cá. Estava habituada a encontros tetra-anuais. Mas não me queixo! Noutras circunstâncias talvez pusesse a hipótese de não ir, mas depois da pandemia, enquanto estiver dentro das minhas possibilidades, não quero desperdiçar oportunidades. 

 

Além disso, como o último concerto foi em finais de 2019, poucos meses antes de isto tudo se ter virado do avesso, as recordações dessa noite foram um dos meus consolos durante a pandemia. Vai ser especial regressar aos concertos precisamente com Bryan – e criar novas recordações. 

 

Também será especial pois, se tudo correr bem, vou ver os meus dois pais musicais com cerca de um mês e meio de diferença – o concerto de Avril Lavigne em Zurique é a 7 de março. Isso já devia ter acontecido há dois anos (com um intervalo maior entre concertos). A ver se desta não falha. Os álbuns também deverão sair mais ou menos na mesma altura, à semelhança do que aconteceu em 2019 – o de Avril, no entanto, ainda não tem data oficial; não me admirava se se atrasasse um bocadinho. 

 

 

Estou é com medo que o concerto seja cancelado, com a evolução da pandemia nas últimas semanas. As festas de fim de ano já foram canceladas – mas suponho que tenha sido por ser difícil verificar testes e certificados de vacinação. Não me importo se tiver de mostrar certificado e fazer teste antes do concerto de Bryan. 

 

A parte da máscara é que será mais difícil. Uma pessoa vai para lá dançar, saltar, cantar em altos berros e, pelo menos no meu caso, soprar beijinhos para o palco. Não dá jeito fazê-lo com máscara. Mas se tiver de ser…

 

Só não cancelem, por favor. Quero mesmo ir a estes concertos!!

 

Entretanto, conforme prometido, hei de escrever uma sequela a este texto. Desta vez, vou fazer por publicar a tempo – nas vésperas dos concertos de Bryan cá. Também já estou a preparar a minha retrospetiva musical de 2021. Ainda estou a tentar decidir os moldes, mas à partida vou voltar ao modelo dos primeiros anos deste blogue: uma publicação por artista ou banda, sensivelmente.

 

E é tudo por agora. Obrigada pela vossa visita, como sempre. Até à próxima!

 

Pérolas escondidas de Bryan Adams #2

Segunda parte da minha lista de músicas menos conhecidas de Bryan Adams mas que mereciam mais atenção. Podem ler a primeira parte aqui

 

Ontem ficámos com Victim of Love. Agora vamos saltar mais de dez anos e vários álbuns até On a Day Like Today para falar de... 

 

 

  • Fearless & Lie to Me (& Before the Night is Over)

 

 

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On A Day Like Today é um dos meus álbums preferidos de Bryan Adams pura e simplesmente porque tem muitas músicas de que gosto. Já escrevi sobre How Do Ya Feel Tonight. Também gosto imenso de C’mon C’mon C’mon – soa a uma sequela à mensagem esperançosa da faixa anterior.

 

Durante muitos anos tive uma obsessão pela faixa-título. Já arrefeceu um bocadinho, mas faz parte da minha playlist da Seleção (à semelhança de Here I Am) e ainda hoje gosto bastante dela. Cloud Number 9 está numa situação semelhante: o meu eu aos treze/catorze anos ficava de coração derretido com a versão Chicane Mix dessa música, incluída em The Best of Me. 

 

E estas são apenas algumas. Hoje, no entanto, queria chamar a atenção para duas músicas neste álbum que abordam o tema de traições, que contam a história segundo personagens diferentes do triângulo amoroso.

 

Tecnicamente este álbum tem três músicas sobre o assunto. No entanto, Before the Night is Over é, na minha opinião, a menos interessante. Consideremo-la uma menção honrosa. 

 

Before the Night is Over tem várias semelhanças com One Night Love Affair – conforme apontaram há relativamente pouco tempo no grupo de fãs de Bryan Adams no Facebook. Tanto em termos instrumentais como temáticos – ao ponto de, segundo pessoas desse grupo, Bryan ter tocado um medley das duas durante a digressão de On a Day Like Today (não encontrei provas disso na Internet, no entanto).

 

 

(Um aparte só para dizer que, no concerto deste vídeo, só tinham o Keith Scott a tocar guitarra, Bryan ficou com o baixo e... não gosto. Como disse Vallance numa entrevista que li há imenso tempo, fica um buraco na música quando Keith faz um solo.)

 

Como vimos antes, One Night Love Affair fala sobre um caso de uma noite só com consequências inesperadas para o narrador. Before the Night is Over também se foca numa aventura romântica, aparentemente também de uma única noite (embora não seja muito certo). Desta feita, ambas as partes estão comprometidas com outras pessoas: um quadrado amoroso, portanto. Aqui o narrador sabe perfeitamente que está a cometer uma transgressão mas não se importa – o proibido faz parte do apelo.

 

É uma música gira, mas as outras duas de que vos vou falar são melhores, a meu ver. À semelhança de outras canções de Bryan, tem uma sequência de guitarra elétrica que lhe serve de imagem de marca – neste caso, uma série de três acordes no fim de cada verso das estâncias e no início de cada verso do refrão.

 

A letra de Fearless é narrada pelo “outro” – o homem com quem o interesse romântico está a trair o companheiro oficial. O narrador que que a sua amada deixe o parceiro romântico e se junte oficialmente a ele. 

 

Desde que ouvi esta música pela primeira vez não consigo evitar imaginar um videoclipe a partir das imagens pintadas pela letra (talvez um bocadinho literais, admito). Ela acordando na cama com o narrador, no início da primeira estância. Vestindo-se e preparando-se para sair enquanto o narrador pede-lhe que fique. Na segunda estância estão ambos no carro do narrador, parados em frente da casa dela. O narrador tenta dissuadi-la de entrar em casa, tenta convencê-la a deixar o companheiro, mesmo no caminho até à porta da frente. O narrador decide mesmo confrontar o seu rival, lá está, “sem medo”.

 

 

No fim, a questão fica no ar. Quem irá ela escolher? Na letra de Fearless, o narrador parece convencido que a amada o prefere ao companheiro, mas só ouvimos a história da perspetiva dele. Será ele capaz de ver as coisas como são?

 

Mesmo que a mulher decida deixar o companheiro para se juntar ao narrador, eu não poria as mãos no fogo por essa relação a longo prazo. Sobretudo se ela se mostra tão relutante em deixar o parceiro oficial… Costuma-se dizer que, se ele(a) traiu contigo, é provável que, mais cedo ou mais tarde, te traia. Talvez seja assim que ele(a) lida com problemas na relação.

 

Por sua vez, Lie to Me conta a história da perspetiva do homem que está a ser traído… mas que não quer enfrentar essa realidade. Pelo menos não por agora.

 

Musicalmente, Lie to Me tem um tom relativamente grave e intimista, a condizer com a vulnerabilidade da letra. Faz lembrar outra música do álbum, Inside Out, embora esta última tenha uma sonoridade um pouco mais etérea. Por sua vez, o início da melodia nas estâncias faz lembrar Cloud Number 9. 

 

Na letra de Lie to Me, o narrador percebe que a companheira está a traí-lo, que a relação está com problemas, mas não quer confrontá-la (nem a si mesmo) com a verdade. Não se sente com forças para isso.

 

É uma situação bastante triste, na verdade. Como já referi antes, é parecida com a True Love dos Coldplay. É possível que hajam muitas pessoas que se conseguem identificar com esta letra, que até tenham feito o mesmo em circunstâncias parecidas: insistirem numa relação sem futuro só mesmo porque era confortável, servia de consolo, tinham medo de ficar sozinhos. 

 

 

Voltando ao cenário anterior, do videoclipe, seria cruel se o outro escolhesse este preciso momento para confrontar o seu rival. Por outro lado, não estou a ver a mentira aguentar muito mais tempo.

 

Suponho que a moral da história seja: sejam fiéis aos vossos parceiros. Ninguém gosta de triângulos amorosos em ficção e muito menos na vida real. 

 

 

  • Not Romeo Not Juliet

 

 

O álbum Room Service, lançado em 2004, tem valor sentimental para mim porque foi o primeiro álbum de estúdio de Bryan cujo lançamento testemunhei. Depois de algumas semanas ouvindo Open Road na rádio, comprei o CD no dia em que saiu – o mesmo dia em que comecei o décimo ano numa escola nova. Nos primeiros meses, o álbum serviu-me de consolo enquanto eu me tentava adaptar a uma nova realidade. 

 

Músicas como, lá está, Open Road, This Side of Paradise, Flying, Room Service, sempre me agradaram. Tive uma fase, nos primeiros tempos com o álbum, em que andei obcecada com I Was Only Dreamin’. She’s a Little Too Good For Me é hilariante. 

 

Ainda hoje gosto muito de East Side Story. Até há bem pouco tempo considerava-a uma antecessora de You’re Beautiful, de James Blunt – a mesma história de “homem atraído por uma mulher que vê nos transportes”, com a diferença de que a música de Bryan decorre num autocarro e a de James decorre no metro… até descobrir o verdadeiro significado de You’re Beautiful

 

Agora que penso nisso, acho que gosto mesmo de todas as músicas deste álbum. Às tantas será mesmo o meu preferido de Bryan.

 

 

Curiosamente, a canção sobre a qual vou escrever agora terá sido a que demorou mais tempo a cativar-me – cerca de meia dúzia de anos. Not Romeo Not Juliet tem um ritmo midtempo que me recorda músicas como Complicated e Hand In My Pocket. O seu ponto de destaque, no entanto, é a letra.

 

Not Romeo Not Juliet assemelha-se a Victim of Love no sentido em que a letra aborda o tema do amor de uma maneira atípica para Bryan – neste caso tem uma visão mais prática e realista, sobretudo quando comparada com as várias canções românticas idílicas na discografia do cantor. 

 

Esta canção conta a história duas personagens cínicas, endurecidas pela vida, infelizes, que se juntam só mesmo para fazerem companhia um ao outro. Para não terem de ser infelizes sozinhos. Não admitem, sequer, que seja amor. Veem-se a si mesmo como simplesmente duas pessoas juntas, sem expectativas, sem pressões. A ver no que dá.

 

O narrador defende que o amor nunca é perfeito, ao contrário do que muitas vezes se pensa. Nunca se tem a certeza absoluta. Pelo menos não se não houver um esforço nesse sentido. (“We’re nothing unless we try”)

 

O título da música vem da frase “We’re not Romeo, we’re not Juliet”... mas haverá alguém que queira ser Romeu e Julieta? Dois adolescentes que arruinaram as suas próprias vidas para se casarem e acabaram mortos? Só pessoas que nunca leram ou viram a peça, que pensam que Love Story é uma adaptação fidedigna. 

 

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Para sermos justos, não parece haver consenso sobre se Romeu e Julieta é uma épica história de amor ou uma fábula. Eu mesma não consigo decidir-me. Se a intenção de Shakespeare era avisar acerca da irracionalidade das paixões adolescentes, porque incluiu a reconciliação das famílias no fim da história – dando a entender que, ao menos, surgiu uma coisa boa da tragédia? 

 

Será a moral da história para os pais? Avisá-los para as consequências dos seus ódios e mesquinhezes, de forçar as filhas a casarem (no caso de Capuleto)?

 

E com isto desviei-me imenso do assunto do texto. Isto tudo para dizer que os protagonistas de Not Romeo Not Juliet não são adolescentes ingénuos, imaturos emocionalmente, longe disso. São adultos com experiência de vida, de sofrimento, que não são conduzidos exclusivamente por emoções. Ou seja, é provável que tenham um final mais feliz que Romeu e Julieta.

 

 

  • The Way of the World

 

 

Em termos sentimentais, 11 está numa situação parecida à de Room Service. Foi apenas o segundo álbum de Bryan cujo lançamento acompanhei, três anos e meio após o disco anterior (na altura era muito tempo). No ano anterior tinha descoberto que era possível acompanhar a atividade de artistas através da Internet (foi na altura que descobri os sites de fãs de Avril Lavigne). Assim, nas semanas antes de o álbum sair, li várias entrevistas e declarações, fiquei a par do essencial.

 

11 era para ser um álbum acústico. No entanto, depois de Bryan fazer uma pausa nos trabalhos deste disco para ir em digressão, este decidiu que não queria deixar o rock de fora. Desse modo, manteve a base acústica, mas incorporou mais guitarras elétricas do que o previsto. Ainda assim, Bryan passaria os anos seguintes dando concertos estilo Bare Bones. O disco recebeu o nome de 11 pura e simplesmente porque era o décimo-primeiro álbum de estúdio e Bryan não teve imaginação para mais. 

 

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O álbum foi também marcado pelo regresso da parceria com Jim Vallance, após cerca de quinze anos sem colaborarem – ele e Bryan zangaram-se no início dos anos 90 e, segundo o que li, não foi bonito, foi parecido com um divórcio. 

 

Havemos de regressar a Vallance. Para já, dizer que me lembro de ouvir I Thought I’d Seen Everything semanas antes de o álbum sair (foi lançado como single no dia em que fiz dezoito anos, mas só a descobri dias mais tarde). Ainda hoje gosto muito dessa música. Já escrevi sobre She’s Got a Way. Broken Wings é uma que tem sobrevivido ao teste do tempo, é uma canção de amor não muito original mas reconfortante.

 

A música de que falamos hoje é uma das minhas preferidas em 11 e nem sequer faz parte do alinhamento padrão. Para encaixar no conceito do título, este álbum só podia ter onze faixas, logo, algumas tiveram de ficar de fora. Por sinal, entre essas encontram-se duas das minhas preferidas.

 

Com Way of the World foi particularmente cruel. Esta encontrava-se entre as prévias publicadas no site de Bryan antes do lançamento de 11 e cativou-me logo. Mas depois o álbum saiu sem Way of the World. Antes da edição Deluxe, lançada mais de seis meses depous, seria um exclusivo do iTunes – que eu, na altura, não sabia usar. Não que isso tenha atrapalhado durante muito tempo pois acabei por sacá-la.

 

Way of the World foi uma das três canções que Bryan co-compôs com Vallance. Na altura, não podendo estar no mesmo sítio, iam enviando ficheiros áudio por e-mail um ao outro. Vallance publicou no seu site o demo instrumental a partir do qual Bryan e Gretchen Peters, também co-compositora, desenvolveram a música.

 

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Gosto imenso desta demo – quase mais do que da versão final. Vale a pena ouvi-la. 

 

Way of the World tem uma sonoridade diferente do resto do álbum – talvez tenha sido por isso que tenha ficado de fora da edição-padrão. Existe algo de atmosférico, de dramático, nas guitarras elétricas – daí a ter incluído durante muitos anos na playlist que ouvia enquanto escrevia cenas de ação. Como o próprio Vallance assinala no seu site, a bateria, o solo de guitarra depois da terceira parte, os violinos são elementos de destaque.

 

A letra condiz com o dramatismo do acompanhamento musical. Way of the World, como o título dá a entender, fala sobre a face sombria do mundo, com alusões a guerra e poluição. 

 

Regra geral, quando Bryan tenta sair da sua bolha habitual de amor/sexo para abordar temas mais… digamos, interventivos, a coisa não resulta muito bem. É essa uma das falhas de Into the Fire. Way of the World será uma das exceções. Existem alguns momentos algo simplistas, como por exemplo “We got a lot of dirty water, we got a lot of dirty air” mas, no geral, não ficou má.

 

O narrador revela o desejo de mudar o mundo, mas ao mesmo tempo manifesta o desejo de arranjar um cantinho para si, para a sua guitarra e a sua família, longe disto tudo. Não sei como é com vocês, mas devo confessar que, nos tempos que correm, me identifico cada vez mais com esta incoerência.

 

 

E pronto. Foram uma mão-cheia de músicas mais obscuras de Bryan Adams que achei por bem destacar. Gostava de um dia escrever uma sequela a este texto, mas não sei se consigo encontrar muitas mais faixas pouco conhecidas de que goste tanto como destas. Tenho de dar mais tempo de antena aos CDs de Bryan, a ver se descubro mais pérolas escondidas.

 

Antes de nos despedirmos, queria falar um pouco sobre os meus planos para o blogue a curto/médio prazo. Suponho que tenha de falar sobre o elefante na sala: o três vezes maldito COVID-19. O vírus que me tem tirado uma grande parte das coisas que trazem alegria à minha vida. Cancelou-me o concerto de Avril Lavigne, em Zurique (e parte de mim acha que é castigo divino pelas críticas que lhe tenho feito). Cancelou-me o Euro 2020. Mesmo coisas menores como idas ao cinema, raides e outros eventos do Pokémon Go, a natação, passeios longos com a minha cadela, idas ao café. 

 

Não sou estúpida. Mais: sou farmacêutica, profissional de saúde. Sei perfeitamente porque é que estas medidas tiveram de ser tomadas. Concordo com elas, talvez devessem ter sido tomadas mais cedo. Mas não tenho de gostar.

 

Está visto que sou menos introvertida do que pensava. Consigo viver em isolamento, até mesmo disfrutar dele. Não me faltam maneiras de me entreter. No entanto, não quero viver exclusivamente assim.

 

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A escrita, na verdade, é uma das poucas coisas que o COVID-19 não me pode tirar. Suponho que agora terei mais tempo… Não estou de quarentena, mas comecei a trabalhar menos horas esta semana. Vou tentar dar prioridade à escrita e não a outras atividades, como ver vídeos no YouTube ou jogar Sims – embora possa abrir uma exceção para as maratonas de Digimon em PT-PT na página do Odaiba Memorial Day em Portugal (provavelmente uma das melhores coisas deste período de isolamento).

 

Vou aproveitar e escrever textos que ando a adiar há algum tempo – pelo menos até encontrar maneira de ver Kizuna, o filme de Digimon Adventure, ou até Petals For Armor sair por completo. Da maneira como as coisas estão, não dá para fazer grandes planos – vive-se uma semana de cada vez, quando não for um dia de cada vez. Vou escrevendo para me manter sã, entretida, quiçá também para entreter outras pessoas. 

 

Até se resolver este imbróglio.

 

Devia ser nesta parte que eu deixava uma mensagem inspiradora de esperança. Há uns anos talvez o fizesse – neste momento não estou nessa onda. Apenas peço para lavarem as mãos, ficarem em casa, não serem bestas, protegerem-se a vocês mesmos e aos demais (uma das coisas que tenho aprendido com esta pandemia é que o mundo está cheio de bestas). Mais cedo ou mais tarde isto há de passar.

Pérolas escondidas de Bryan Adams #1

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Este é um texto que queria ter publicado há meses – uns dias antes do concerto de Bryan Adams, em dezembro do ano passado (sobre o qual escrevi aqui). Este no entanto revelou-se mais comprido e trabalhoso do que esperava (de tal forma que acabei por decidir publicá-lo em duas partes). Quando dei por mim, faltava uma semana para o concerto e eu ainda nem ia a meio do primeiro rascunho. 

 

Acabei por decidi deixar o texto de lado e começar a trabalhar noutros, mais urgentes. Só agora é que consegui regressar a este. Não vou aproveitar o interesse aumentado em Bryan Adams a propósito dos seus concertos em Portugal, paciência. Não quero esperar pela próxima passagem de Bryan por terras lusas. 

 

Mas sobre que é este texto? Passo a explicar. Penso que é do conhecimento geral que Bryan Adams é um cantor muito popular no nosso país. Eu não fujo à regra – é o meu cantor masculino preferido. Bryan possui um vasto catálogo de êxitos, pelo qual muitos artistas morreriam para obter. Durante muito tempo, aliás, quase só conhecia esses êxitos (de compilações como The Best of Me e Anthology) e um ou outro álbum dos mais recentes. 

 

Hoje no entanto não quero escrever sobre os Summer of 69 desta vida. Pelo contrário, vamos falar sobre as músicas menos conhecidas, que não são incluídas nos álbuns de Greatest Hits mas que, na minha opinião, são tão boas como os êxitos. As subvalorizadas. As pérolas escondidas. Algumas delas nem sequer são singles, uma delas nem sequer faz parte da edição padrão do respetivo álbum. 

 

Nesta lista vou seguir uma ordem cronológica (ainda que o primeiro caso fuja um bocadinho à regra). Como penso já ter referido antes aqui no blogue, acabei por adquirir a maior parte dos CDs de Bryan em 2010, quando estes começaram a sair em fascículos. Ainda não exclui por completo a hipótese de, um dia, analisar pelo menos alguns desses álbuns aqui no blogue. No entanto, vou deixar alguns apontamentos sobre eles caso alguma das suas músicas apareça nesta lista. 

 

Assim, sem mais delongas, começamos por…

 

 

  • Don’t Ya Say It

 

 

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Bryan Adams não foi um sucesso instantâneo – esse só começou com o terceiro álbum Cuts Like a Knife. No que toca ao seu primeiro álbum, homónimo, que completou quarenta anos (!) há pouco tempo, isso dever-se-á ao facto de… o álbum não ser grande coisa. O próprio Bryan descreveu o seu disco de estreia como uma manta de retalhos de estilos musicais, admitindo que ninguém sabia ao certo o que estava a fazer e que ele precisou de tocar ao vivo para descobrir a sua identidade musical. 

 

Além que Bryan tinha apenas dezoito, dezanove anos quando gravou este disco. Eu e a minha irmã costumamos brincar dizendo que ele ainda não tinha atravessado a puberdade. A sua voz ainda estava longe de ter o característico timbre rouco – este só começaria a aparecer dois álbuns mais tarde.

 

Confesso que, apesar e ter o CD, foram pouquíssimas as vezes que o ouvi do princípio ao fim. As únicas músicas que oiço com alguma frequência são Remember, que foi incluída no Anthology (Bryan cantou-a no concerto de Lisboa), Hidin’ From Love (a mais gira do álbum na minha opinião) e esta. 

 

Don’t Ya Say It é muito diferente do resto da discografia de Bryan. Com elementos dançantes, mesmo da disco pop que dominaria os anos 80 e que ainda hoje adoramos. A letra não é nada por aí além – pouquíssimas letras de Bryan o são. Fala apenas sobre um interesse amoroso que não consegue retribuir os sentimentos do narrador, logo, este coloca-lhe os patins (a letra da música não usa pronomes especificando o género, mas os interesses românticos de Bryan costumam ser mulheres. Por uma questão de facilidade, vamos adotar essa regra neste texto).

 

Na verdade, Don’t Ya Say It figura nesta lista mais por causa do cover que a cantora portuguesa Aurea gravou para o seu primeiro álbum, homónimo (uma coincidência engraçada), editado em 2010. Gosto um bocadinho mais da versão dela. 

 

 

Não que esta seja radicalmente diferente da versão original. No fundo, fez um arranjo moderno de um tema com trinta anos, na altura. O tema de Bryan é muito anos 80, mas não necessariamente no bom sentido. Aqueles sintetizadores soam demasiado artificias, como uma versão de karaoke barata. O solo de saxofone está bem sacado, no entanto.

 

Por sua vez, a versão de Aurea está melhor produzida, com mais influências soul, com uma maior participação do saxofone – embora o solo seja de teclado. E, claro, o desempenho vocal de Aurea é irrepreensível. 

 

Esta música está associada a um momento feliz. Na altura em que descobri este cover, enviei um tweet a Bryan perguntando-lhe a sua opinião… e ele respondeu. Eu, claro, na tenra idade de… quase vinte e dois anos, reagi como uma autência fan girl.

 

Ah… quando o Twitter não era um campo minado… 

 

  • Tonight

 

Esta é capaz de ser uma das minhas preferidas nesta lista, mesmo de toda a discografia de Bryan.

 

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A primeira vez que me lembro de ouvir Tonight na rádio foi em 2006, algures durante a Primavera. Naquela altura tinha comprado a compilação Anthology há relativamente pouco tempo. Andava a ouvir temas como Cuts Like a Knife, Somebody, It’s Only Love, Heat of the Night, All I Want is You, rendendo-me à maioria.

 

Tonight é diferente desses temas em termos musicais, como veremos adiante, e mais uma vez a voz dele ainda não era aquilo que é hoje. No entanto, nas primeiras vezes que ouvi, lembro-me de haver qualquer coisa que reconheci como sendo de Bryan. 

 

Ora, esse período coincidiu com a contagem decrescente para o Mundial 2006. Na altura, a EMI desafiou cinco jogadores da Equipa das Quinas – Costinha, Luís Figo, Maniche, Nuno Gomes e Ricardo – a fazerem eles mesmos uma seleção de músicas cada um. Podem ler a lista completa aqui (foi o único sítio da Internet onde encontrei a lista). Consta que a própria Seleção ouvia estas compilações no autocarro, durante o Mundial.

 

Nota-se mesmo que isto aconteceu a meio dos anos 2000, com temas como Don’t Cha, Don’t Phunk With My Heart, Love Generation, Pon de Replay e Fuck It (I Don’t Want You Back) – que é feito deste gajo? 

 

A lista do Costinha, no entanto, inclui vários temas rock dos anos 80, incluindo Tonight. Na altura fiquei naturalmente contente por haver pelo menos um jogador das Quinas que gostava também de Bryan Adams. Ainda hoje me interrogo se foi por esta escolha de Costinha que, nos meses seguintes, apanhei Tonight várias vezes na rádio.

 

 

Talvez não. Hoje em dia ainda passa de vez em quando na m80.

 

Naquele tempo ainda não sabia sacar músicas, quer legalmente quer ilegalmente – nem acho que a minha Internet desse para tal. Tinha um leitor de mp3 mas só albergava faixas retiradas de CDs. 

 

As novas gerações não conhecem as dificuldades desses tempos: ouvir uma canção na rádio, ficar obcecada com ela, deixar a rádio ligada durante horas só para poder apanhá-la de novo. Algumas até passavam pelo menos uma vez por dia. Outras eram tão raras como Shinies em Pokémon.

 

Houveram muitos CDs que comprei so mesmo por causa daquela música que captou a minha atenção. Nalguns casos eu depois não ligava ao resto do álbum, mas também foi assim que descobri alguns que, hoje, estão entre os meus artistas ou bandas preferidos. Por exemplo, Within Temptation.

 

Com Tonight, acabei também por comprar o CD You Want It You Got It. Infelizmene, o resto do álbum não me impressionou por aí além. Só agora é que começo a dar uma oportunidade a uma música ou outra – daí que, desta vez, não falarei muito sobre ele.

 

Mas esta introdução já vai longa, vamos falar sobre a música em si. A letra é simples. A sua mensagem é essencialmente “não estamos a ir a lado nenhum com esta discussão, vamos fazer uma pausa e dormir sobre o assunto”. Cumpre o seu papel. 

 

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Na verdade, interessa-me mais falar sobre o arranjo musical. Um dos aspetos mais interessantes em Tonight, aquilo que a torna tão rara tanto na discografia de Bryan como na música rock em geral (tanto quanto conheço, atenção) é o facto de ser guiada pelo baixo. Não existe guitarra rítmica tocando acordes de apoio à melodia, apenas uma guitarra tocando pontualmente uma nota ou outra, um acorde ou outro.

 

Peço desculpa por voltar mais uma vez ao passado, mas a nostalgia é um dos fatores que me atrai para a música. Como penso ter referido aqui antes, aos quinze anos comecei a aprender a tocar guitarra. Ao voltar a estudar música pela primeira vez desde o meu sexto ano, o meu ouvido ficou treinado para melhor distinguir e apreciar cada instrumento. Ainda hoje uso essa capacidade nas minhas análises a música.

 

É por isso que, apesar de ter aprendido a apreciar música eletrónica, continuo a preferir instrumentos a sério. São das minhas partes preferidas em música.

 

Nesse aspeto Tonight foi um objeto de estudo interessante. Quando tinha dezassete anos e já tinha o CD You Want It You Got It, lembro-me de estar a conversar com o meu irmão e um amigo dele sobre o papel da guitarra baixo em música (algo que eu mesma ainda estava a tentar compreender). Lembro-me de pôr Tonight a tocar precisamente para dar um exemplo de uma música com o baixo em destaque – e de compararmos com Holiday, dos Green Day, em que o baixo segue o mesmo padrão da guitarra rítmica (é mais fácil de reparar nos primeiros compassos depois do solo de guitarra. 

 

Para quem estiver interessado na questão, o baixo serve para ligar a parte rítmica da música à parte melódica, para dar profundidade ao som. Se removerem o baixo de músicas conhecidas – como, por exemplo, Ain’t it Fun – dá para notar a diferença.

 

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E faz confusão.

 

Hoje daria como exemplo de faixas com prevalência do baixo músicas da primeira parte de Petals for Armor, em particular canções como Leave it Alone (como vimos aqui) e Sudden Desire. Dá para perceber que foram co-compostas por um baixista, Joey Howard. Muita da personalidade destas canções, mesmo de Simmer até certo ponto, vem do baixo. Um tom intimista, sombrio, depressivo no caso de Leave it alone, erótico no caso de Sudden Desire.

 

E estou a desviar-me outra vez. Isto tudo foi para dizer que o baixo é um óbvio destaque em Tonight. A guitarra elétrica também brilha, mesmo sendo escassa – ou talvez precisamente por isso. Os outros instrumentos na música são apenas a bateria e um órgão ainda mais discreto que a guitarra. 

 

É uma instrumentação relativamente minimalista, mas resulta. Todos os instrumentos cumprem o seu papel, destacam-se de uma maneira ou de outra, não é preciso acrescentar mais nada.

 

No canal de YouTube de Bryan temos um vídeo de uma apresentação ao vivo de Tonight no concerto da Amnistia Internacional em 1986. Como poderão ver (e ouvir), de início é apenas Bryan com uma guitarra elétrica. Também resulta. 

 

 

Jim Vallance, co-compositor de Tonight, aponta no site para as semelhanças entre esta música e o tema dos Outfield, Your Love. E de facto existem parecenças "lisonjeadoras", como escreve Vallance: a guitarra elétrica durante o refrão, o destaque para a palavra “Tonight”.

 

Não é algo que me incomode, para ser sincera. E se, tanto quanto sei, ninguém processou os Outfield por plágio, assumo que o mesmo se passa com Bryan e com a sua equipa. Eu até gosto muito de Your Love – pode ser parecida com Tonight nalgumas coisas, mas também tem muitos méritos por si própria.

 

E não sou a única, curiosamente. Your Love também faz parte da compilação de Costinha.

 

Em suma, Tonight estará entre as minhas canções preferidas de Bryan Adams. Como referi aqui, uns dias antes do concerto de dezembro último no Altice Arena, deixei um comentário nas redes sociais pedindo que Tonight fosse incluída na setlist

 

O meu desejo foi realizado. Tocaram-na de maneira muito parecida à versão do álbum – é possível que fosse a primeira vez em algum tempo que a tocavam ao vivo, não terão tido tempo para inventar. Destaco o momento em que a atenção se voltou brevemente para o baixista Solomon Walker, após o segundo refrão.

 

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Foi um belo momento, um de muitos nessa noite. É sempre assim quando Bryan dá concertos. 

 

 

  • Take me Back

 

 

Esta é uma faixa do terceiro álbum de estúdio de Bryan, Cuts Like a Knife. À terceira foi de vez: este foi o álbum com que Bryan começou finalmente a ter sucesso visível – embora tenha sido o álbum seguinte, Reckless, a catapultá-lo para a estratosfera, a dar-lhe o estatuto de lenda. Dois dos singles, Cuts Like a Knife e Straight From the Heart são clássicos e presença obrigatória nas setlists.

 

Curiosamente, em maio Bryan vai dar três concertos em Londres, no Royal Albert Hall. Em cada um dos concertos, tocará um álbum por completo – juntamente com os outros êxitos. No dia 11, tocará Cuts Like a Knife. No dia 12, tocará Into the Fire (?!). No dia 13, tocará Waking Up the Neighbours. 

 

Isto é, se o Coronavírus não os cancelar entretanto… 

 

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Pessoalmente gosto bastante de Cuts Like a Knife enquanto álbum. Tem um estilo consistente, talvez demasiado homogéneo nalguns momentos – praticamente todas as canções são sobre amor, sem grande originalidade mas gosto de quase todas as músicas. O tema-título é um ponto alto em concertos, sobretudo com a parte dos “Na na na…”. Gosto da versão original de Straight From the Heart, mas adoro a versão acústica que Bryan tem tocado nos últimos anos – sobretudo esta

 

Por outro lado, também gosto de This Time – a versão do álbum Live At Sydney Opera House, estilo Bare Bones, com um homem do público gritando dois versos no início, é hilariante. Sobre The Best Was Yet to Come será provavelmente incluída numa eventual sequela a este texto. Músicas como The Only One, a versão original de I’m Ready e What’s It Gonna Be são agradáveis ao ouvido.

 

No entanto, queria destacar Take Me Back – mais uma vez, menos pela letra, mais pelo instrumental. Esta é outra faixa em que o baixo ocupa um lugar de destaque, se bem que não tanto como Tonight.

 

Take Me Back começou com uma demo composta por Jim Vallance em 1980, uma coisa muito básica. Podem ouvi-la no site deste último. Na altura Bryan mostrou-se vagamente interessado. No entanto só a gravou um par de anos mais tarde, nos trabalhos para o álbum Cuts Like a Knife, desenvolvendo-a, dando-lhe personalidade. 

 

A música arranca num tom grave, algo tenso, mal controlado. Quando soam os vocais da primeira estância, as guitarras como que contém-se, só se elevando quando os vocais pausam. Precisamente como se a trela fosse aliviada momentaneamente, antes de ser encurtada de novo.

 

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Gosto imenso do refrão, dos vocais de apoio uma oitava acima do tom principal – um elemento que já veio da demo de Vallance. É uma pena só ouvirmos o refrão duas vezes – é o único defeito que temo a apontar à canção. 

 

Depois do segundo refrão, a energia da música é finalmente libertada, com acordes sonoros de guitarra elétrica e os vocais “Ah won’t you take me back!”. Esta parte não veio da demo, foi Bryan a compô-la. 

 

Na terceira parte da música, no entanto, regressa-se à contenção. É agora que o baixo se destaca, conduzindo a música, enquanto o órgão e sobretudo a guitarra elétrica vão brincando, improvisando discretamente. Repete-se a primeira estância num tom falado.

 

Era nesta parte que, nos primeiros anos após a edição de Cuts Like a Knife, Bryan começava a falar para o público. Monólogos politicamente incorretos, segundo Vallance no seu site. Dá para ouvir um aqui (não me parece assim tão politicamente incorreto… se calhar era segundo os critérios dos anos 80). Segundo o livrinho que veio com o fascículo deste CD, Bryan socorria-se desta canção muitas vezes para cativar públicos mais difíceis. 

 

Em suma, não sendo uma música extraordinária, Take Me Back é uma música interessante, invulgar, sobretudo dentro da discografia de Bryan. Talvez a peça da próxima vez que ele der um concerto por cá. 

 

 

  • Victim of Love

 

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Tirando os mais recentes Get Up! e Shine a Light, o álbum Into the Fire foi o último de Bryan Adams que comprei, em 2015 – foi o único que não consegui comprar em fascículo. Eu já conhecia algumas músicas: o tema-título, Hearts of Fire, Heat of the Night (quando tinha dezasseis, dezassete anos andava obcecada com esta), Victim of Love. 

 

Na altura em que comprei o CD já tinha este blogue. Cheguei a pensar escrever sobre este álbum, mas outros projetos foram-se metendo à frente, este ficou para trás.

 

Talvez um dia escreva sobre Into the Fire. Não tenho grande vontade, para ser sincera, mas não excluo a hipótese por completo. Assim, a única coisa que vou dizer sobre o álbum neste momento é que tem algumas músicas giras mas, no geral… é esquisito.

 

Victim of Love é capaz de ser a melhor música em Into the Fire, sobretudo pela letra, e uma das melhores de toda a discografia de Bryan. É uma canção muito única, muito diferente de todas as outras do cantor. Quase todas no álbum Into the Fire o são, na verdade. 

 

Victim of Love é a única neste álbum, tirando Hearts on Fire, que fala de amor – o que é raríssimo na discografia de Bryan. E mesmo assim fala de amor de uma maneira completamente diferente – tanto dentro da música de Bryan como da maioria das canções de amor e separação, tanto quanto conheço.

 

 

Esta balada tem uma letra e um tom extremamente melancólicos, quase “emo”, invulgares para Bryan. Fala sobre desgostos amorosos, relações falhadas, sem culpar nenhuma das partes do casal – pois ambos sofrem no rescaldo (“Doesn’t matter who was right or wrong. When the fire’s over, when the magic’s gone, You pick up the pieces, do the best you can.”). Nem sempre as relações resultam – faz parte da vida, faz parte do crescimento. A letra coloca a culpa no amor em si, chama-lhes, lá está, “vítimas do amor”. 

 

Ainda assim, a música deixa uma discreta nota de esperança, dizendo que não é o fim do mundo. Mesmo que doa ao princípio, uma pessoa pode sempre tentar de novo. “It knocks you down but you try again.” “Ain’t nothing you can’t rise above.” O instrumental reflete bem a melancolia da letra, sobretudo com o piano e a guitarra elétrica. 

 

É de facto uma canção que merecia mais destaque. No entanto, tenho de confessar que não pediria esta música num concerto. É demasiado triste, ia destacar-se pela negativa numa setlist cheia de músicas bem mais leves e alegres. Talvez faça mais sentido num concerto de Bare Bones. Ou então no tal concerto de maio com todas as músicas de Into the Fire – muitas têm um tom semelhante, não destoará tanto.

 

Na verdade, Victim Of Love é ótima para uma playlist de consolo após uma separação. “You’re just a victim of love” seria um título perfeito. 

 

As próximas canções também se referem a vítimas do amor, se bem que de uma maneira diferente... mas falamos sobre essas e outras na segunda parte deste texto, amanhã. 

Música de 2019 #1

Primeira publicação de 2020! Bom ano, pessoal! Com algum atraso, eis o meu habitual apanhado da música que mais me marcou no ano.

 

Isto no fundo é uma espécie de Spotify Wrapped por escrito. Como muito se comentou, na altura em que estes começaram a sair e toda a gente os partilhava nas redes sociais… ninguém quer saber dos Spotify Wrapped dos outros (só dos seus próprios). Suponho que ainda menos gente quererá saber deste meu, que ainda por cima se estende por oito mil palavras (esta é a primeira parte). No entanto, se eu me ralasse com isso, não tinha blogues.

 

Recordo que, à semelhança dos textos equivalentes anteriores, não falarei apenas de música lançada em 2019. Dito isto, pela primeira vez em algum tempo, música lançada neste ano está em maioria. Sobretudo porque tive vários artistas do meu “nicho” lançando música em 2019. Três deles, aliás, lançaram logo no início do ano, com duas semanas de intervalo entre cada lançamento de álbum.

 

Na altura andava entusiasmada com isso. No entanto, todos esses três álbuns deixaram a desejar, em graus diferentes. O que faltou? Veremos já de seguida, começando com… 

 

 

  • Within Temptation

 

 

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O primeiro dos tais três álbuns lançados no início do ano foi Resist, dos Within Temptation. Conforme escrevi antes, depois de encerrado o ciclo de Hydra, os Within Temptation precisaram de fazer uma pausa. A vocalista Sharon den Adel aproveitou para lançar um projeto a solo, My Indigo – um álbum de que gostei muito. Esse trabalho ajudou Sharon a desbloquear a sua criatividade. Assim, a banda regressou ao estúdio e nasceu Resist.

 

Eu, naturalmente, estava interessada. Quando o álbum saiu, fiz questão de ouvi-lo com frequência no Spotify e, mais tarde, comprei o CD. Por outras palavras, não se pode dizer que não tenha dado uma oportunidade a Resist. 

 

Este, no entanto, revelou ser um álbum que, pelo menos pela parte que me toca, entra por um ouvido e sai por outro. Não é mau, é apenas… aborrecido, desenxabido. Cansei-me depressa dele. 

 

Pode haver quem argumente que um álbum aborrecido é pior que um álbum pura e simplesmente mau. Eu acho que depende dos casos. De qualquer forma, não me lembro da última vez que ouvi Resist do princípio ao fim e não tenho grande vontade de voltar a ouvi-lo tão cedo. Mesmo as músicas de que gosto mais neste álbum – The Reckoning, In Vain, Supernova, Mercy Mirror – considero apenas vagamente interessantes, boazitas. 

 

Talvez o problema seja eu. Talvez os meus gostos estejam a mudar. Talvez esteja a entrar naquela fase em que praticamente todos os artistas de rock entram mais cedo ou mais tarde, em que começam a preferir o pop.

 

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Ou talvez não. As críticas a Resist que li têm sido mistas: há quem goste, há quem não goste, as piores faixas para uns são as preferidas de outros. Naturalmente não é possível agradar a todos. E, como já referi antes aqui no blogue, neste género musical os fãs são complicados. 

 

Ainda assim, uma crítica que li e com a qual concordo refere que os instrumentais não fazem quase nada senão acompanhar os vocais. Se formos a ver (ou melhor, a ouvir), é verdade. Os únicos momentos em que o instrumental faz alguma coisa de interessante neste álbum são a trompa eletrónica de The Reckoning, o coro masculino de Supernova, os elementos vagamente eletrónicos nesta última música e em Endless War. 

 

Comparemos com Hydra. Este não é dos álbuns mais populares entre os fãs, pode ser demasiado pop/mainstream, mas, com uma ou outra exceção, ninguém pode acusar os seus instrumentais de falta de carácter. Silver Moonlight será o melhor exemplo, mas Paradise (What About Us) também tem um instrumental giro. Whole World is Watching parece ser um percussor de várias músicas de My Indigo e músicas como Dangerous e Tell Me Why têm uns padrões de bateria alucinantes. 

 

E claro, nem falo dos álbuns anteriores a Hydra, menos controversos, as influências célticas em The Silent Force. Mesmo My Indigo tem uns belos instrumentais. Por comparação, Resist é demasiado monótono. 

 

Não deve admirar que, depois disto tudo, prefira um segundo álbum de My Indigo em vez de outro álbum dos Within Temptation. No entanto, mesmo que a banda não demore a regressar ao estúdio, uma pessoa tem sempre a esperança de que o próximo trabalho seja melhor. 

 

 

  • Avril Lavigne 

 

 

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Nesta fase já não é necessário fazer grandes introduções quando escrevo sobre Avril Lavigne neste blogue. Esta lançou o seu sexto álbum de estúdio, Head Above Water, este ano – que ficou aquém das expectativas, como poderão ler aqui

 

Quando um álbum é lançado relativamente cedo no ano, às vezes, por alturas do fim do ano, as minhas opiniões mudaram um pouco. Neste caso, no entanto, não existem grandes diferenças em relação ao que escrevi anteriormente. 

 

A primeira metade do álbum é melhor que a segunda, na minha opinião. Birdie e I Fell In Love With the Devil são claros destaques, bem como It Was in Me. Souvenir continua a ser a minha preferida, mas depois dela a qualidade do álbum decai.

 

Falando em I Fell In Love With the Devil, referir que a canção teve alguma cobertura mediática durante o verão, aquando do lançamento do videoclipe. Queria, aliás, dedicar-lhe alguns parágrafos.

 

Se eu tivesse de descrever o vídeo com o menor número de palavras possível, diria que é previsível no bom sentido. Reflete a música de forma quase perfeita e está muito dentro do estilo de Avril. Parece uma versão (ainda) mais gótica do vídeo de Alice.

 

 

E “gótico” nem sequer é a melhor palavra para descrever este vídeo. Nem mesmo “sombrio”. Este é um vídeo tétrico, sobretudo a parte de Avril conduzir o seu próprio carro funerário, cantar no seu próprio caixão. Isto pode parecer estranho, mas fiquei aliviada quando Avril referiu, numa entrevista, que ia tendo um mini ataque de pânico quando estava deitada no caixão. É bom saber que não sou a única a quem a ideia provoca um medo primário (provavelmente um reflexo do medo da morte).

 

Tudo isto fez com que I Fell in Love with the Devil subisse um bocadinho mais na minha consideração. Mas também sempre gostei dela, mesmo que nem sempre a tenha considerado uma favorita.

 

Avril, na verdade, parece bastante orgulhosa desta letra, bem como de outras este álbum. Chegou a falar em lançar um livro de poesia… o que, aqui entre nós, me parece um salto maior do que a perna. Sou a primeira a reconhecer que as letras dela em geral melhoraram significativamente nos últimos dois álbuns mas, na minha opinião, Avril está longe de ser das melhores nesse capítulo. 

 

Por outro lado, se ela quiser mesmo escrever um livro de poesia, se for algo de que ela goste… porque não? Mesmo que não seja material digno do Prémio Nobel, mesmo que fique uns furos abaixo das letras de outros artistas, eu compraria. Se isso a ajudar a melhorar a sua escrita…

 

O problema com Avril é que, por muito que as letras tenham melhorado, por muito poderosa que a sua voz se tenha tornado, por muitas experiências que ela faça com o seu som (e algumas até são bem sucedidas)... no fim do dia, vira o disco e toca o mesmo, quase literalmente. Se rasgarmos as embalagens, os produtos são os mesmos de sempre: as mesmas canções de amor e desgosto desde o início da sua carreira. 

 

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Mesmo quando tenta variar um pouco, na maior parte das vezes perde-se em clichés, acrescenta muito pouco ao cânone geral da música. As letras são demasiado vagas, demasiado superficiais para causarem algum impacto.

 

Por estes dias, Avril goza o estatuto de uma artista veterana, recebe louros por ter inspirado toda uma geração de cantoras femininas a cantarem e comporem sobre os seus próprios sentimentos e experiências. Já tinha falado um pouco sobre isso aqui. Este ano em particular tem sido Billie Eilish quem não poupa elogios a Avril, uma das suas maiores inspirações. 

 

O pior é que muitas dessas cantoras inspiradas por Avril, para quem a canadiana abriu caminho de uma forma ou de outra, tornaram-se melhores Avrils que a própria Avril.

 

Vou dar exemplos. Hayley Williams dos Paramore há muito que usurpou o lugar de Avril no meu nicho musical: alguém que cresce comigo, cuja música reflete a fase da vida em que estou. Taylor Swift é uma das maiores estrelas pop do momento e também admitiu ter sido inspirada por Avril. Nunca o referi cá no blogue, mas nos últimos anos tornei-me numa fã muito casual dela. A sua música e imagem pública em geral podem ter algumas falhas, mas diria que, neste momento, as suas letras estão entre as melhores do mundo da música. 

 

Por sua vez, Lorde, como já referi antes, é uma espécie de Cristiano Ronaldo da música pop: joga num campeonato diferente, acima dos simples mortais. A jovem nunca terá sido diretamente inspirada pela canadiana, mas pode-se argumentar que, se não tivéssemos tido Avril, talvez não tivéssemos tido Lorde. Ou Adele. Ou Billie Eilish. 

 

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Ao longo dos últimos dez, quinze anos, estas mulheres surgiram e floresceram no mundo da música apontando os microfones para os seus cérebros e corações. Avril, infelizmente, não foi capaz de acompanhar. Pelo contrário, foi perdendo a originalidade que a caracterizava no início da sua carreira. Não quero insinuar que ela se tenha vendido (se era essa a sua intenção, está visto que não resultou). Apenas que, por algum motivo, foi deixando de ter coisas para dizer. E, como já referi antes, se nem depois dos piores anos da sua vida tem algo a dizer para além de frases-feitas e terrenos batidos… quando terá?

 

Dito isto tudo, não quero deixar de assinalar o trabalho que Avril tem feito como, digamos, ativista anti-Doença de Lyme. Veja-se esta semana, depois de Justin Bieber ter anunciado que também sofreu da doença. Pelos vistos é mais prevalente do que se pensa, o que significa que o trabalho de Avril e da sua Fundação será cada vez mais relevante.

 

Avril referiu em entrevistas que o sucessor a Head Above Water será diferente, será um álbum mais pop rock, com mais guitarra e bateria. Vai manter o padrão, portanto, alternando entre música mais séria e intimista e música mais leve e divertida. The Best Damn Thing após Under My Skin, o homónimo após Goodbye Lullaby. 

 

Eu não me imaginava escrevendo isto há meia dúzia de anos, ou mesmo há um ano, mas nesta fase prefiro isso, prefiro que ela regresse ao pop rock, a música semelhante ao quinto álbum. Como já referi antes, Avril Lavigne o álbum tem os seus defeitos, mas faz exatamente aquilo a que se propõe: ser um disco variado mas leve, feel-good, com músicas boas de cantar, sem se levar demasiado a sério. Quando saiu não me satisfez por completo, mas hoje acho-o preferível a um álbum que tenta ser “poderoso”, “cru” e tal e não consegue. 

 

E daí não sei. Às tantas o sétimo álbum inclui uma espécie de Hello Kitty parte 2 e eu, na altura vou escrever aqui que quero que Avril regresse às baladas. Não sei mesmo o que pensar. Só sei que quero mais daquela que ainda é a minha cantora preferida.

 

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Isto agora vai parecer uma transição estranha, mas há uns meses Avril anunciou uma digressão europeia para a primavera de 2020. Os bilhetes têm-se vendido surpreendentemente bem: alguns concertos foram mudados para salas maiores, algumas cidades receberam uma segunda data (Londres tem três no total). 

 

Aqui entre nós, depois dos desempenhos modestos dos álbuns que Avril lançou esta década, não estava à espera deste fenómeno. Talvez seja por ela não vir à Europa desde 2011, talvez seja o fator nostalgia, talvez Head Above Water não se esteja a sair tão mal quanto isso.

 

Ora, a digressão não passará por Portugal. Fiquei desapontada, claro, mas de início resignei-me a continuar a esperar. Há muitos anos que alimento a esperança de ir a um concerto dela no meu país. Ouvindo-a usando “Lisboa/Lisbon” e “Portugal” para se dirigir ao público, acompanhada por outros fãs portugueses, alguns dos quais conheço há uma década ou mais.

 

Só que esses fãs portugueses não partilham do meu sentimentalismo. Começou toda a gente de imediato a fazer planos para ir aos concertos nas várias cidades europeias. Eu mesmo assim continuei na minha… até me aperceber que estava a ser parva.

 

Conforme referi acima, Avril não vem à Europa desde 2011. Esteve de baixa durante quatro anos por causa do Lyme. Sabe-se lá quando poderá voltar depois disto. Eu ainda por cima tenho já um artista amado que não poderei voltar a ver. Olhando para esta digressão... O meu irmão está a viver em Zurique, a primeira data da digressão europeia – ou seja dormida grátis. Tenho também um voucher da TAP por causa de um voo que me cancelaram há uns meses – ou seja viagem grátis.

 

Quando terei eu melhor oportunidade que esta?

 

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Por isso, lá engoli o meu orgulho e arranjei bilhetes para o concerto. Ou melhor, acabou por ser o meu irmão a comprar-mos, para mim, para ele e para a namorada, como prenda de Natal. Zurique, a 13 de março, no Samsung Hall – foi um dos que foi mudado para uma arena maior.

 

Tenho de confessar que estou um bocadinho menos entusiasmada do que imaginaria. Talvez por não se em Portugal, talvez porque, lá está, fiquei desiludida com o álbum Head Above Water, talvez porque, em termos de desempenho em palco, Avril é muito inconsistente – pelo menos em comparação com outros dos meus artistas preferidos. Em todo o caso, não acho que seja má ideia manter as minhas expectativas baixas. 

 

Dito isto, mesmo que a maior parte do concerto não seja nada de especial, tenho a certeza que músicas como Complicated, Sk8er Boi ou I’m With You serão pontos altos. Momentos como os que sempre sonhei, que valerão o preço do bilhete. E quando ela cantar Girlfriend, mesmo não sendo das minhas preferidas, não vou querer saber, vou dançá-la como se não houvesse amanhã – o meu querido maninho vai desejar ter-me oferecido um livro ou algo do género este Natal em vez disto. 

 

Pois é, a minha “relação” com Avril já viu melhores dias. Há alturas em que penso se ainda devo considerá-la a minha cantora preferida. No entanto, uma das coisas que a perda de Chester me ensinou foi que, no fim do dia, álbuns que desiludem são problemas menores, interessam pouco. Há que estar grato por os nossos artistas continuarem a fazer música, a dar concertos. É praticamente certo que todos os discos terão pelo menos um ou dois temas de que gosto. E mesmo que não tragam, teremos sempre os velhos favoritos, que nunca faltarão nas setlists.

 

Avril então já teve uma baixa prolongada (pensando agora que muitos portugas dariam tudo para ter uma baixa assim…). Esperemos que não tenha de voltar a parar durante tanto tempo. E mesmo que eu já não seja tão devota como há meia dúzia de anos, enquanto ela estiver por cá, eu também estarei. 

 

 

  • Bryan Adams

 

 

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O álbum Shine a Light, o décimo-terceiro de inéditos de Bryan Adams, foi o último dos três a ser lançado no início do ano – no dia 1 de março. Não diria que este álbum tenha sido uma desilusão tão grande como foram os outros dois álbuns de que falei acima, mas ficou um pouco aquém das minhas expectativas. 

 

Não que seja um mau álbum. Apenas o acho um pouco… descaracterizado. As músicas são boazitas, regra geral, mas não são particularmente marcantes, não arrebatam. Quando oiço o CD no meu carro até o aprecio mas quando começo a ouvir outra coisa, mal me lembro que as músicas existem, não sinto vontade de ouvi-las de novo. Quase todas as faixas podiam ter sido incluídas em qualquer álbum de Bryan Adams desde o início dos anos 90 para a frente e ninguém daria por ela. 

 

Uma das poucas exceções é That’s How Strong Our Love Is, o dueto com Jennifer Lopez, mas não pelos melhores motivos. Não que tenha problemas com a participação da cantora, nada disso – só com a percussão eletrónica irritante, que não tem nada a ver com o estilo de Bryan.

 

Para ser justa, muitos álbuns de Bryan são assim. Lembro-me de ler algures na Internet entrevistas antigas onde ele referia que, regra geral, vai compondo música até ter faixas suficientes para um disco. Nesses casos, escolhe um dos singles para dar nome ao álbum. No caso de Shine A Light, esse conjunto de faixas foi composto nos intervalos da preparação do musical de Pretty Woman.

 

(Se me permitem o grande desvio ao assunto… terá Bryan sido a primeira escolha para compôr as canções deste musical? Ninguém pôs a hipótese de pedir aos Roxette, compositores e intérpretes do êxito It Must Have Been Love, da banda sonora do filme? Talvez até tenha estado em cima da mesa e os Roxette recusaram devido ao estado de saúde de Marie Fredriksson…

 

Enfim. Isto sou só eu a divagar. Mais sobre os Roxette adiante.) 

 

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Admito que devia ter baixado um bocadinho as expectativas, mas a verdade é que os dois álbuns anteriores de Bryan foram mais conceptuais do que o habitual. 11 esteve perto de ser um álbum maioritariamente acústico. Bryan acabaria por mudar de ideias, mas o resultado final continua a ter uma forte base acústica. Além de que, em termos de letras, 11 acaba por ser relativamente consistente, com temas recorrentes de esperança e otimismo.

 

Por sua vez, Get Up, como vimos quando saiu, caracterizou-se muito pela sonoridade vagamente retro e pela produção de Jeff Lynne, que incutiu o seu próprio carácter nas canções.

 

Estes dois álbuns baralharam-me as expectativas, portanto. E apesar de continuar a achar que Shine A Light não tem nenhuma música absolutamente extraordinária, a verdade é que o álbum subiu um bocadinho – não muito – na minha consideração ao longo do ano.

 

Para começar, afeiçoei-me a Last Night on Earth depois de esta ter aberto o concerto de 6 de dezembro. Uma das que me cativou desde as primeiras audições, por outro lado, foi Part Friday Night Part Sunday Morning. Tem uma letra engraçada, sobre uma personagem feminina que tem tanto de “good girl” como de “bad girl” (em suma, é uma mulher de carne e osso. Compreendo o choque.)

 

Por outro lado, gosto mais de Whiskey in the Jar do que de metade do resto do álbum – o que tem piada tendo em conta que é a única que não é inédita. Whiskey in the Jar é uma canção tradicional irlandesa que, na verdade, conta versões de vários cantores contemporâneos (gosto bastante da versão dos Metallica). Consta que Bryan foi desafiado a cantá-la num concerto em Dublin e acabou por decidir incluí-la em Shine a Light.

 

 

A canção em si é encantadora. Bryan canta-a acompanhado apenas de uma guitarra acústica e uma harmónica – e isso, na minha opinião, é o ponto forte da música. É uma pena Bryan não ter muitas músicas em nome próprio neste estilo.

 

Em todo o caso, não tenhamos ilusões. Um dos motivos principais, se não for o principal, para Bryan lançar este álbum nesta altura do campeonato será para servir de pretexto para (mais) uma digressão. O que nos leva ao concerto que ele deu no Pavilhão Atlântico a 6 de dezembro. 

 

Foi a minha quarta vez num concerto de Bryan Adams. Já escrevi sobre a terceira vez, em janeiro de 2016. Isto já se tornou num encontro habitual tetranual – a minha segunda vez foi em dezembro de 2011. 

 

Houveram muitos aspetos semelhantes entre este concerto e o de 2016. Para começar, mais uma vez, fui eu e a minha irmã. Chegámos cedo, ficámos na plateia quase no mesmo local exato: segunda ou terceira fila, à direita, junto a um dos microfones. Uma vez mais, nos últimos vinte, trinta minutos antes do início do concerto, mostraram a capa do álbum mais recente nos ecrãs gigantes (neste caso Shine A Light), a cara de Bryan mexendo-se de vez em quando. A grande diferença foi que, no fim, do nada, a cabeça vermelha virou-se para a câmara e rugiu, pregando um valente susto à audiência. A minha irmã até se agarrou a mim.

 

Isto faz-se, senhor Bryan?

 

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Um aspeto que diferiu em relação ao outro concerto foi o facto de nos terem pedido explicitamente para não filmarmos com os telemóveis. Podíamos usá-los para tirar uma ou outra fotografia (e, tacitamente, para acendermos as luzes durante as baladas), mas se estivéssemos a filmar os seguranças iriam intervir.

 

Não me importei muito e até aplaudi o pedido. Também não estava a planear passar muito tempo de telemóvel no ar – só para filmar uma canção ou outra.

 

Eu, aliás, sou um bocadinho paradoxal. Eu gosto de ver vídeos depois do concerto, para ajudar a recordar, mas… não quero ser eu a filmá-los. Quero passar os concertos aos pulos, a cantar, a dançar, não a filmar. Traduzindo uma expressão anglo-saxónica, quero comer o bolo sem deixar de tê-lo. Com o outro concerto até foi possível pois foi a minha irmã a filmar a maior parte dos vídeos – que mesmo assim não foram muitos.

 

Felizmente no grupo de fãs de Bryan Adams no Facebook, de que faço parte, partilharam vários vídeos. E descobri este canal no YouTube, que filmou algumas das canções. A maior parte filmados nas bancadas, logo as imagens deixam a desejar, mas valem pelo áudio.

 

Bryan abriu, assim, com Last Night on Earth. É uma decisão que não compreendo muito bem, confesso. Porquê abrir com uma música do álbum que em sequer é single, que se calhar metade da audiência não conhece? Já em 2011 e 2016 tinha feito o mesmo, abrindo com House Arrest e Do What You Gotta Do respetivamente. 

 

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Não faria sentido abrir com um êxito, para entusiasmar logo o público? Não precisava de ser um dos Summer of 69 desta vida, mas, sei lá, um Somebody. Ou então Shine a Light, o primeiro single do álbum novo, que partilha o nome com o álbum e com a digressão, que até toca nas rádios. 

 

Enfim.

 

Para ser justa, mesmo não sendo single, mesmo não sendo um êxito, The Last Night On Earth até é uma boa música para abrir um concerto: alegre, excitante, com uma mensagem recorrente na música de Bryan de viver o momento, de fugir a tudo e divertir-se. 

 

Mas continuo a achar que Shine a Light teria sido melhor.

 

Na verdade, foi a segunda canção da noite que causou maior impacto em mim. Uns dias antes tinha deixado um comentário numa publicação de Bryan no seu Instagram, pedindo duas músicas para o concerto. Depois de, em 2016, outras pessoas terem feito pedidos de músicas nas redes sociais, queria tentar a minha sorte.

 

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Como poderão ver acima, as músicas que pedi foram Tonight e The Best Of Me. Hei de explicar a primeira um dia destes, noutro texto. Por sua vez, a segunda é a preferida da minha irmã – ou andará lá perto. 

 

Suspeito que a culpa seja minha – um dos primeiros CDs de Bryan Adams que comprei foi a compilação com o mesmo nome, de 1999. Eu tinha treze anos e a minha irmã cinco e dormíamos no mesmo quarto. Na altura, tinha um rádio-despertador com leitor de CDs. Com o alarme, o CD inserido começava a tocar – assim, tanto eu e a minha irmã acordámos muitas vezes com Bryan exclamando “You got it!” antes do início do instrumental. 

 

Em retrospetiva, era uma maneira algo abrupta de acordar – taquicárdia logo de manhãzinha. Hoje escolho músicas mais suaves para despertar (acho que as minhas atuais são 3 Primary Colors e Hard Feelings/L.O.V.E.L.E.S.S.). Em todo o caso, fez com que a minha irmã ficasse a gostar de The Best Of Me

 

Também pode ter sido porque, na mesma altura, de noite, quando ela já estava a dormir, eu punha-me a ouvir o CD muito baixinho. Estou convencida que foi assim que ela se tornou fã de Bryan Adams. 

 

Mas falava eu do comentário no Instagram. Tanto quanto vi na altura, não estava mais ninguém a pedir canções nos comentários – pelo menos não naquela publicação. Ainda assim, não me atrevia a acreditar que Bryan ou alguém da sua equipa veriam o meu comentário, no meio de dezenas de outros. 

 

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Se calhar viram. Mesmo antes do concerto, enquanto esperávamos que nos deixassem entrar no Pavilhão, ouvimos Bryan e o resto da banda ensaiando Tonight (à semelhança do que já tinha acontecido no concerto de 2016). Eu ainda não conseguia acreditar que o meu desejo tinha sido concedido.

 

Mas Tonight foi mesmo incluída na setlist, foi logo a segunda canção. The Best Of Me também seria tocada mais tarde (já lá vamos). A minha irmã reconheceu Tonight antes de mim e agarrou-me logo o braço. Mais tarde, depois do concerto, fui à net consultar as setlists dos concertos e ele, de facto, não tinha tocado Tonight nas noites anteriores. Tocou-a no dia seguinte, no concerto de Braga, mas depois dessa, tirando no concerto de Barcelona, em resposta a um pedido do público, não voltou a tocá-la.

 

Foi porque eu pedi? Foi porque, mesmo quase quarenta anos depois, Tonight continua a ter bastante rotação nas rádios portuguesas? Não sei. Em todo o caso, fiquei contente. Aqui entre nós, a remota possibilidade de eu ter introduzido duas músicas na setlist de um concerto de Bryan Adams deixa-me um bocadinho embriagada de poder, ah ah. Já começo a pensar nas músicas que vou pedir para o próximo concerto.

 

Depois desta, a primeira metade, primeiros dois terços, da setlist foi a típica de qualquer outro concerto de Bryan. Can’t Stop This Thing We Started, Run to You, It’s Only Love, (Everything I Do) I Do It For You… Em retrospetiva, a apresentação de Heaven foi muito semelhante à do concerto de 2016, com o público cantando a primeira estância espontaneamente. Mas na altura não me apercebi. Foi um ponto alto, que me tocou no coração.

 

Também não faltou Here I Am, a minha preferida, ainda que numa apresentação acústica, estilo Bare Bones. O impacto foi o mesmo de sempre – como escrevi antes, Here I Am soa-me perfeita, toca-me no coração, sob qualquer arranjo – e adorei a iluminação do palco durante a música. Vejam por vocês no vídeo abaixo. 

 

 

Como o costume, procurei aproveitar ao máximo. Cantei, dancei, saltei… No fim do concerto o meu telemóvel marcava mais uns quatro mil passos em relação ao início – apesar de não ter saído do mesmo lugar. Ao mesmo tempo, houveram momentos – não muitos – em que pura e simplesmente me calei e fiquei a ouvir a audiência a cantar. Não me canso de sons como esse.

 

Por outro lado, como estava perto do palco, sempre que Bryan ou Keith Scott, o guitarrista, vinham para perto de nós, eu tentava interagir. O melhor que consegui foi Keith retribuindo um beijo que lhe soprei durante Cuts Like A Knife. Foi fofo.

 

Uma coisa em que reparei durante este concerto, com grande pena minha, foi que a idade de Bryan e de muitos membros da banda dele. Keith, que já vai nos 65 anos, parecia ter menos cabelo Houve um momento, se não estou em erro durante Can’t Stop This Thing We Started, em que o baixista Solomon Walker (para aí uns vinte anos mais novo que os colegas de banda) deu um salto em palco que nem Bryan nem Keith conseguiram acompanhar. 

 

Pode não significar nada – agora que penso nisso, eles podiam pura e simplesmente não estar a prestar atenção e perderam o momento. E mais tarde os dois saltariam, ao mesmo tempo. No entanto, na altura senti-o com um lembrete de que, parecendo que não, o tempo passa. 

 

Já aí voltamos. 

 

 

Bryan não se esqueceu de homenagear a sua costela portuguesa, antes da versão acústica de Straight From the Heart, como já é habitual. Desta feita, como poderão ver no vídeo, mostrou fotografias dos seus anos em Birre, Cascais, em miúdo. Terminando com uma foto, tirada no próprio dia, das suas filhas brincando na praia do Guincho.

 

Houveram alturas do concerto em que Bryan aceitou pedidos da audiência – alguns antes do encore, alguns durante. Foi nessa altura que tocou The Best Of Me, ainda que incompleta. Não sei se foi por causa do meu comentário no Instagram ou se alguém no público pediu – fiquei com a ideia que o pedido veio de uma tal Carla, que segundo Bryan tem vindo a todos os concertos dele em Lisboa. De qualquer forma, a minha irmã ficou contente.

 

Bryan ia perguntando os nomes às pessoas que pediam as canções: Marta, Raquel… Às vezes não percebia logo, ou fingia não perceber. Chegou mesmo a incluir “Anabela”, autora de um dos pedidos, na letra quando cantou Please Forgive Me.

 

Houveram músicas requisitadas pela audiência que Bryan tocou com a banda toda – Do I Have to Say the Word teve mesmo direito a imagens do videoclipe gigante (das duas uma: ou a canção é um pedido comum, ou os vídeos estão sempre a jeito). Para a maior parte dos pedidos, no entanto, Bryan tocou sozinho, com a guitarra acústica, muitas vezes só a primeira estância e um refrão. Como já referi aqui, não gosto muito quando fazem isso, mas, pelo menos neste concerto, sempre foi melhor que não tocar as músicas de todo.

 

E a verdade é que, apesar de ter recusado alguns pedidos, como Rebel, Bryan fez por agradar o mais possível. Fiquei com a impressão de que as últimas duas canções não estavam no plano. Eu por minha vontade ficava lá a noite toda, claro, mas pronto, o homem tinha de dormir – o concerto de Braga era no dia seguinte e eles também mereciam um Bryan no seu melhor.

 

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E pronto, foi uma das noites mais felizes de 2019 para mim – mesmo que o concerto não tenha sido muito diferente dos anteriores que vi. De ver em quando preciso de noites como esta: o mundo fica lá fora, celebrando música leve, simples, sobre amor, nostalgia, sexo, ser-se jovem, livre e feliz. 

 

Mesmo passados estes anos todos, ainda não me fartei de Bryan Adams. Por um lado quero acreditar que ele estará de volta daqui a quatro anos, para mais uma noite como esta. Por outro… como disse antes, o tempo passa. Quem sabe se ele consiguirá voltar? Quem sabe se eu conseguirei voltar?

 

O tempo dirá. De qualquer forma, enquanto todos tivermos possibilidades para isso, enquanto Bryan continuar a lançar álbuns, a arranjar desculpas, eu estarei lá.

 

E por hoje já chega. A segunda parte do texto será publicada amanhã ou depois. 

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