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Álbum de Testamentos

"Como é possível alguém ter tanta palavra?" – Ivo dos Hybrid Theory PT

Música 2023 #1: Feels, concertos e a banda de tributo responsável pela maior parte deles

Primeira publicação de 2024! Um ano muito feliz, caros leitores. 

 

Nos últimos tempos, tem estado na moda nas internetes descrever diferentes fases das nossas vidas como eras – inspirando-nos, pelo menos em parte, em Taylor Swift. É uma coisa recente nas redes sociais, mas a verdade é que é algo que faço há já muitos anos, de certa forma. Penso em diferentes períodos da minha vida, recordo-me de filmes e séries que via na altura, da música que ouvia, em que ciclos de álbuns estavam os meus artistas e bandas preferidos. 

 

Daí este meu hábito de fazer um balanço musical no fim de cada ano aqui no blogue. É uma maneira de escrever a minha própria história, de criar um cânone pessoal, romantizar a minha própria vida. É pura auto-indulgência, provavelmente só eu é que quero saber, mas também noventa por cento deste blogue é auto-indulgência. 

 

2023 foi um ano longo e intenso, de altos e baixos. Tenho-lhe chamado o ano dos feels, um ano em que pensei demasiado, senti demasiado. Muitas emoções contraditórias ao mesmo tempo – não é a primeira vez que falo disso. Muitas delas boas, sim, e vou falar da maior parte neste texto, mas também emoções más, ansiedade. Tive alguns motivos para isso (situações pessoais, no trabalho, etc.), mas em muitos casos não há motivo, é só a minha cabeça, sou eu a fazê-lo a mim mesma. Muitas letras dos Linkin Park fazendo sentido. 

 

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Hei de regressar a essa questão na segunda parte deste balanço. De qualquer forma, grande parte das emoções boas deste ano estiveram ligadas aos concertos – 2023 foi o ano deles. Em termos musicais, o ano valeu mais por eles e menos pela música que ouvi – que, aliás, acabou por ser uma continuação de 2022, com algumas exceções. Havemos de falar sobre isso, mas antes queria dedicar a primeira parte deste balanço aos concertos a que fui. Cinco no total, cada um deles marcante à sua maneira. 

 

Não vamos seguir uma ordem cronológica, no entanto. Vamos começar pelo segundo: o de Avril Lavigne, pelo qual esperei mais de metade da minha vida.

 

Não queria que tivesse sido em Zurique, na Suíça, queria que tivesse sido por cá. Mas como aquela mulher nunca mais regressou a Portugal, eu e muitos outros fãs portugueses cansámo-nos de esperar. Em finais de 2019, comprámos bilhetes para concertos em diferentes cidades europeias. No meu caso, os bilhetes foram prenda de Natal do meu irmão nesse ano – bilhetes para mim, para ele e para a sua namorada. 

 

Ainda assim, como se já não tivessem bastado todos aqueles anos à espera, rebentou a pandemia e a digressão europeia foi adiada nada menos que três vezes – e, na minha opinião, a última vez foi desnecessária. Foi toda uma odisseia só para ver aquela mulher ao vivo.

 

E, aqui entre nós, a verdade é que, na altura do concerto, já nem estava muito muito para aí virada. Tinha outras coisas na mente… e no coração. Estava já a tratar da análise a Meteora20, o concerto dos Hybrid Theory no Altice Arena fora menos de uma semana antes e andava cheia de feels à pala disso (mais sobre isso a seguir… como já devem ter percebido pelo título). 

 

Ao mesmo tempo, quem acompanhe o meu blogue já saberá que, apesar de ainda a considerar a minha cantora preferida, a minha mãe musical, o meu entusiasmo em relação a Avril arrefeceu nos últimos anos, depois dos seus últimos dois álbuns. Sentia-me quase com síndrome de impostora, pensando que o meu eu de dez, quinze anos antes, é que merecia estar ali. 

 

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No entanto, quando Avril finalmente subiu ao palco no The Hall, quando a vi pela primeira vez na minha vida com os meus próprios olhos, em vez de através de um ecrã, juro, vieram-me as lágrimas aos olhos. Toda a gente à minha volta a cantar Bite Me e eu ali especada, rezando para que o meu irmão não reparasse. Este meme ilustra-o na perfeição. 

 

Quanto ao concerto em si, já vi melhores, mas não foi nada mau. Há anos que sei que Avril não é excelente em palco e, sobretudo após uma Doença de Lyme e já a caminho dos quarenta, não se podia exigir muito. Daí, por exemplo, o concerto ter tido tantas pausas (pena ela não ter pelo menos trocado de vestimenta). 

 

Uma coisa de que gostei foi de Avril ter convidado os músicos de abertura para regressarem ao palco e cantarem All The Small Things com ela (podia ter sido uma música dela mas pronto). Não é algo que se veja muitos artistas a fazerem. 

 

De qualquer forma, quando são músicas que adoro tanto quanto estas e o músico é simpático, faz um mínimo de esforço, para mim é suficiente. Até o meu irmão disse que se divertiu – lembrava-se da maior parte das músicas depois de eu as ter imposto lá em casa durante praticamente toda a minha adolescência e mais além. 

 

Tivemos direito a Wish You Were Here, alegadamente a pedido dos fãs, o que foi simpático. Mas claro que eu estava lá sobretudo pelos clássicos. Filmei Complicated e parte de I'm With You (e What the Hell). Ainda não estou cem por cento habituada à minha voz, mas ralo-me cada vez menos. No que toca a este concerto então, foram pelo menos dezoito anos à espera da oportunidade para cantá-las assim. Em I'm With You, então, não poupei as cordas vocais. 

 

No dia seguinte, acordei com uma enorme constipação. Foram dois concertos emotivos, bem vividos, em menos de uma semana, em dois países com climas distintos – na segunda-feira anterior fora a banhos na Costa da Caparica, três dias depois estava em Berna, com temperaturas de inverno português. Está visto que não tenho queda para estrela de rock, que faz digressões por vários países. 

 

 

Mas valeu a pena. Os anos de espera, os adiamentos pela pandemia, o frio, a constipação. Tudo. 

 

Ainda não desisti de vê-la por cá, na companhia dos restantes sobreviventes do Fórum Avril Portugal. Houve uma possibilidade há umas semanas, quando foi anunciada a presença dela em vários festivais de música na vizinhança. No entanto, não foi anunciado nada para cá até agora – cheguei a pensar que que ela viria ao NOS Alive – é pouco provável que seja.

 

Um dia.

 

No que toca a música em si, não posso dizer que tenha ouvido muita de Avril este ano, com algumas exceções. I’m a Mess continuou a subir na minha consideração. É de caras a minha preferida da era Love Sux, mesmo não primando pela originalidade, nem sequer dentro da própria discografia de Avril. 

 

Na Primavera, lançou Eyes Wide Shut, uma colaboração com Illenium e Travis Barker. Gosto muito, é uma música fixe, talvez uma das melhores letras de Avril dos últimos anos. Esta, infelizmente, confirma as minhas suspeitas em relação à atitude de Avril no que toca a romance.

 

Por outro lado, Fake As Hell, a colaboração com os All Time Low, é péssima. Acho que nem sequer cheguei a ouvir segunda vez.

 

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Quando não esteve em digressão – ou a tirar fotos com Hayley Williams, aquecendo o coração a muitos millennials como eu – Avril terá passado a maior parte do ano em estúdio. Os álbuns dela têm sempre um parto difícil, é raro termos certezas em relação a lançamentos. Desta feita, no entanto, como já temos concertos marcados, podemos assumir com alguma certeza que teremos, no mínimo, um single até ao início do verão. 

 

Depois de Head Above Water e Love Sux, não tenho expectativas para o próximo álbum. Se seguir o padrão, será um disco menos animado, mais introspetivo – mas não estou muito para aí virada. Neste momento, preferia algo intermédio, variado, semelhante ao quinto álbum.

 

Vamos agora saltar mais de seis meses, até ao concerto de João Pedro Pais. Conforme escrevi no ano passado, ele é um dos meus músicos nacionais preferidos e, sedenta de concertos como tenho andado, quando soube deste, agarrei a oportunidade. Convidei a minha tia – os bilhetes serviram de prenda de anos para ela.

 

O concerto assinalava os vinte e cinco anos de carreira de João Pedro – esse e outro, um mês antes, no Porto. O Coliseu dos Recreios esgotou para a festa. Eram lugares sentados – nada contra por princípio, mas houveram várias ocasiões em que quis dançar, pôr os braços no ar. Em Louco Por Ti, então, até queria dar headbangs (este som são certos fãs dos Hybrid Theory a rir). 

 

O concerto em si teve emoções fortes, várias surpresas – pelo menos para mim. O início foi morno, na minha opinião, até ao momento em que entrou uma figura encapuzada em palco. Fiquei a olhar sem perceber, até aquela espécie de monge templário começar a cantar Ao Passar Um Navio com a voz do Miguel Ângelo.

 

Só dias mais tarde é que percebi o significado, todo o lore que eu não conhecia. Era uma uma referência à fatiota que o João Pedro usara na final do Chuva de Estrelas (ele parece ter dezasseis anos aqui...) – fatiota essa que, por sua vez, era uma referência a Ser Maior, dos Delfins. Diz que no concerto do Porto, um mês antes, o Miguel Ângelo já tinha feito esta gracinha, apanhando o próprio João Pedro de surpresa. Estes dois concertos foram as primeiras vezes desde a tal final do Chuva de Estrelas em que os dois partilharam o palco.

 

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Antes disto, esquecia-me demasiadas vezes do quão boa é a voz do Miguel Ângelo. Fez muito bem em aparecer lá no Coliseu para nos recordar – mais sobre isso já a seguir.

 

Quem também veio dizer olá foi o André Sardet. Para um dueto em Foi Feitiço e para oferecer flores ao João Pedro – algo de que o último não estava à espera, conforme repetiu várias vezes.

 

Houveram vários outros momentos emotivos: Salvador, o filho de João Pedro, subindo ao palco para tocar Paciência com o pai; a música dedicada à mãe de João Pedro; o abraço a Manuela Eanes. Descobri também que a música És do Mundo é dedicada ao Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés. Houve um momento, perto do fim, em que o João Pedro se pôs a percorrer os corredores no meio da audiência. Passou junto a mim, mas infelizmente não me deu um high-five.

 

Fica para a próxima.

 

O concerto ainda durou quase três horas. É certo que não me pareceu muito muito exigente em termos físicos, mas mesmo assim… respeito! Justificou bem o preço dos bilhetes. Tanto eu como a minha tia gostámos muito, eu pessoalmente repetia. Será difícil tornar a apanhar um concerto como este, de quase três horas. 

 

Por outro lado, espero que o próximo seja de pé. 

 

 

Fizeram um par de reportagems sobre estes concertos – podem vê-las aqui e aqui – e a RTP transmitiu há pouco tempo o concerto do Porto. Ainda não consegui acabar de vê-lo, por acaso, mas parece ter sido semelhante ao de Lisboa.

 

Ainda assim, aqui entre nós, acho que o nosso foi melhor.

 

Naturalmente, este concerto fez-me gostar ainda mais da música do João Pedro. Continuo a adorar Louco Por Ti, continuo a adorar Uma Questão de Fé. Ultimamente tenho ouvido muito Fazes-me Falta, uma música a que pouco tinha ligado antes mas que é linda. Aquela terceira parte! 

 

Um dia destes ganho vergonha na cara e começo a ouvir os álbuns mesmo, em vez de só ligar aos singles.

 

Com isto tudo, passei o bichinho à minha tia. Poucos dias depois daquela noite, comprámos bilhetes para o concerto de quarenta anos dos Delfins, no Altice Arena – foram a minha prenda de Natal. A participação do Miguel Ângelo no concerto do João Pedro foi um bom investimento, rendeu-lhe um par de bilhetes.

 

Além disso, terá um gosto especial pois, se bem me recordo, foi em casa dela que ouvi o CD Saber A Mar pela primeira vez – eu devia ter sete ou oito anos – e convenci-a e ao meu tio (quando ainda eram casados) a oferecer-nos um exemplar. 

 

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Tenho estado a rever a matéria para esse concerto nas últimas semanas, sobretudo precisamente o álbum Saber A Mar. Já não ouvia algumas destas músicas há vinte anos, talvez mais. São melhores do que me recordava – a Sofia de oito anos já tinha bom gosto. 

 

Calculo, assim, que a música dos Delfins terá papel de destaque no balanço musical de 2024. Estou ansiosa pelo concerto – e aviso desde já que não respondo por mim quando eles tocarem 1 Lugar Ao Sol

 

Agora e durante o resto desta parte vamos falar dos três concertos que restam. Foram todos da mesma banda, mas cada um teve um impacto diferente. 

 

Já mal me lembro de quem eu era na manhã do dia 15 de abril. Releio o meu balanço musical de 2022 e mal reconheço a pessoa que o escreveu.  Antes de os Hybrid Theory, a banda portuguesa de tributo aos Linkin Park, terem entrado na minha vida – através do concerto que eles deram no Altice Arena. Eles publicaram a transmissão desse concerto no YouTube no mês passado e ainda bem que o fizeram. Já me tinha esquecido de grande parte dele. Foi tão, mas tão bom!

 

E a verdade é que a noite de 15 de abril deu início a todo um arco de personagem, toda uma jornada que durou o resto do ano, que ainda continua. Já escrevi sobre esse concerto, como poderão ler aqui. A versão ultracondensada é que adorei, mas essa noite, juntamente com Meteora20, reabriu feridas relacionadas com a perda de Chester Bennington e andei triste por uns tempos por causa disso. 

 

Além disso, precisei de algum tempo – não muito – para perceber ao certo o que sentia em relação aos Hybrid Theory. Em parte porque foi a primeira banda de tributo, ponto, que conheci, não sabia como era ser fã de uma. Em parte por todas as emoções relacionadas com a morte de Chester e o hiato dos Linkin Park.

 

 

Correndo o risco de soar defensiva… os Hybrid Theory fazem um excelente trabalho recriando o espetáculo de uma banda em pausa. São muito parecidos com os membros “originais” desta banda. O vocalista, Ivo Massana, em particular, tem a voz idêntica à do vocalista “original”, falecido demasiado novo e de quem sentimos tanta falta. Acho que não fui a primeira nem fui a última pessoa sem saber o que sentir. 

 

E de qualquer forma as ambiguidades não duraram muito. Descobrir mais sobre eles, ler os artigos, ouvir as entrevistas, ajudou a desatar os nós. Sentir o respeito deles pelo legado dos Linkin Park, ouvir o Ivo dizer que não gosta de ver vídeos comparando-o com Chester. E ajudou escrever sobre o concerto no Altice Arena e sobre eles.

 

A infame terceira parte da análise a Meteora, que referi há pouco… Sabem o medo que eu tinha de publicá-la? Para começar, foi escrita com o coração na ponta da caneta como nunca tinha escrito antes. Depois, tinha medo que os membros dos Hybrid Theory dessem com essa terceira parte e não adorassem o facto de falar sobre eles e depois passar o resto do texto a chorar por Chester. Tinha medo que sentissem que estava a culpá-los pela minha tristeza. 

 

Pois bem, não precisava de me ter preocupado pois a reação a este texto foi fantástica. Incluindo da parte dos próprios Hybrid Theory. O DJ Dani Pimenta partilhou-o no Facebook dele e o Ivo fez uma story no Instagram, como poderão ver abaixo (aquela era uma foto que eu publicara na página deste blogue uma semana ou duas antes). Quando vi esta última, então, estava sozinha mas acho que corei. E pode ou não ter havido uma lágrima ou outra. 

 

Depois desta fiquei tipo “Bolas, agora tenho de retribuir”. E o concerto seguinte mais perto de mim seria no festival Lendas do Rock, na Quinta da Marialva em Corroios, no dia 20 de julho (de todas as datas possíveis…). 

 

Demorei semanas a decidir-me. Mesmo depois de comprar bilhete, só quase no próprio dia é que tive cem por cento de certeza de que ia. Para começar, era num sítio que eu não conhecia (em junho, fiz questão de tirar uma tarde de sábado para visitar a Quinta da Marialva, mesmo para saber o que esperar). O concerto era num dia de semana, os HT atuariam tardíssimo – podia pedir para entrar mais tarde no trabalho, no dia seguinte, mas tinha algum medo de conduzir à uma ou duas da manhã. Por fim… estava com medo de abrir a ferida outra vez. 

 

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Por outro lado… eu tinha de voltar a vê-los, tinha de lhes agradecer pessoalmente se conseguisse – nesta altura, já sabia que os membros dos Hybrid Theory costumavam receber os fãs depois dos concertos. 

 

Além disso, era no fucking dia 20 de julho, o sexto aniversário da morte de Chester – que, ainda por cima, calhou a uma quinta-feira, o mesmo dia da semana que em 2017. Seria sempre um dia difícil para mim, sobretudo depois da recaída de meses antes. 

 

Era como no final da primeira temporada de Ted Lasso. Das duas uma: ou ficava triste em casa, ou ficava triste num festival de música, entre outros fãs de Chester e Linkin Park, também eles com saudades. 

 

E talvez nem estivesse triste. Corria o risco de me divertir, de curtir a música que Chester nos deixou, homenageando-o da melhor forma possível. De criar recordações felizes para este dia, para as funcionalidades de memórias dos Facebooks desta vida. 

 

Bem, tecnicamente, o concerto começava depois da meia-noite, já dia 21. Também servia, eram os anos do Ivo – outra coisa para reduzir a tristeza da efeméride. 

 

Escolhi não ficar sozinha.

 

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Assim, fui às Lendas do Rock no dia 20 e correu tudo bem. Mais do que bem. Era um festival de bandas de tributo e os Hybrid Theory eram cabeças de cartaz naquela noite. Fiquei na fila da frente, onde conheci pessoalmente outros membros do grupo de fãs dos HT. Não muitos, infelizmente – mais ou menos de esperar, era noite de semana.

 

As primeiras bandas deram para entreter e até para me divertir. Os de que mais gostei foram dos Black Metallica – pena não terem tocado Whiskey in a Jar. Ainda os HT não tinham subido ao palco e eu já estava de pescoço dorido. 

 

Mas os Hybrid Theory são outro nível, não se compara. Como disse acima, houveram partes do concerto do Altice Arena de que eu já me tinha esquecido e soube bem recordá-las assim. Ao mesmo tempo, apesar do que passara nos meses anteriores, apesar de ser dia 20 de julho, não houve tristeza nenhuma (só durante One More Light e mesmo assim). Pelo contrário, não me lembrava da última vez que me sentira tão feliz. 

 

Ainda assim, ainda não estava habituada à voz do Ivo, às semelhanças nalguns gestos e expressões. Ainda não estou, na verdade.

 

E não sei se me quero habituar.

 

Destaque para o momento em que cantámos rapidamente os Parabéns ao Ivo no início de One More Light. Mas para mim o ponto alto do concerto foi durante In the End. Calhou estar a filmar e… bem, vou deixar as imagens falarem por si.

 

 

Como se não bastasse, apareço numa fotografia profissional do momento. Um luxo!

 

Mas os momentos marcantes não ficaram por aqui. Depois do concerto, continuava a querer falar pelo menos com o Ivo… mas estava cheia de vergonha. Teve de ser a Sandra Sousa, do grupo de fãs, a chamar-mo (super grata!), quando estavam a arrumar as coisas em palco. Eram os anos dele, aquele era o primeiro de três concertos em três dias em quase literalmente três cantos do país (Corroios, Faro e Funchal). Foram só cinco minutos, eu nem quis tirar foto mas não levava a mal se o Ivo dissesse que não. 

 

Mas não disse e eu fico muito grata. 

 

Lá lhe agradeci pela partilha do texto do blogue – provavelmente gaguejei, já não me recordo. Eu tinha ensaiado aquela conversa na minha cabeça algumas vezes nas semanas anteriores. Nunca imaginei a resposta dele. 

 

–  Como é possível alguém ter tanta palavra?

 

Eu ri-me.

 

– História da minha vida – disse-lhe eu, e é verdade. É algo que podia ter sido dito por alguém da minha família, por amigos meus, gente que me conheça há anos. De onde acham que vem o nome do blogue? Naturalmente, passou a ser o novo slogan cá do estaminé.

 

Depois desta, despedimo-nos, desejei-lhe um dia feliz e o meu coração nunca mais arrefeceu.

 

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(fonte)

 

Eis uma coisa (entre muitas, na verdade) que não estava no meu bingo para 2023: a noite do aniversário da morte do Chester foi das mais felizes do ano. Gostava que passasse a ser um ritual anual. Claro que nem sempre irá dar, mas este ano o dia 20 calha a um sábado. Se derem um concerto nesse dia (estou a contar com isso porque 20 de julho) e for em Portugal Continental, talvez seja possível.

 

Penso que foi depois das Lendas do Rock, mais ou menos, que comecei a ficar mais ativa no grupo de fãs. Estávamos no verão, os HT andavam em digressão por todo o país, haviam inúmeras fotos e vídeos para partilhar. Começámos a conversar no Messenger, primeiro sobre a banda, claro, depois sobre outras coisas: fotos do que comíamos, como no início do Instagram, disparates variados. Quando dei por mim, estava a falar online todos os dias com uma mão cheia deles, a ir a convívios com eles, a fazer amizades! Algo que continua até agora. 

 

Ao mesmo tempo, depois de Corroios, só queria mais e mais Hybrid Theory. A oportunidade seguinte seria a Semana Académica de Lisboa… até a cancelarem. Foi uma situação horrível, um balde de água fria coroando um mês de setembro que não me correu bem. Nem quero falar muito sobre isso, leiam mais pormenores aqui (ainda estamos à espera do reembolso). 

 

Entretanto, ainda antes deste cancelamento, foi anunciado um concerto no Pavilhão Multiusos de Gondomar para o dia 2 de dezembro. Comprei bilhete quase de imediato, para o Golden Circle. Sim, foi em Gondomar, a mais de trezentos quilómetros de casa, mas este seria o mais parecido que teríamos a uma repetição do Altice. Além disso, o cancelamento do SAL só aumentou ainda mais os desejos de vitamina HT. 

 

Agora que penso nisso, esta não foi a primeira vez que fiz uma visita-relâmpago à zona do Porto para ter uma das noites mais felizes da minha vida. Curiosamente, nessa ocasião também acabei num almoço nos arredores de Coimbra, no dia seguinte. 

 

Os mais de dois meses de espera foram longos e difíceis, mas ao menos serviram para ir cimentando as amizades novas com o pessoal do grupo de fãs. De tal forma que a festa não foi só a noite de sábado, foi o fim de semana inteiro. Já conhecia pessoalmente alguns dos fãs de outros convívios, outros foi a primeira vez, mas gostei de estar com todos. Pude finalmente conhecer o JLee, o fundador do grupo de fãs e um amor de pessoa. Já pude voltar a ver alguns deles depois de Gondomar, mas não deixo de ter saudades desse fim de semana.

 

Mas falemos sobre o espetáculo em si. Como referi antes, fiquei no Golden Circle, tal como a larga maioria do grupo, na fila da frente. Vimos o tributo aos Korn. A música não me diz muito, mas eles não foram maus, deram para aquecer. 

 

 

Mas, claro, tal como em Corroios, eu estava lá para os Hybrid Theory e eles não desiludiram quando, finalmente, subiram ao palco. Houve pirotecnia (também tinha havido no Altice Arena, mas aí fiquei bem mais longe do palco) e, na fila da frente, começámos a ser assados logo com Burn it Down.

 

Se bem que, nos dias frios que temos tido, os lança-chamas até têm feito falta.

 

O alinhamento não foi radicalmente diferente do costume – diz que eles criam um por ano – e mesmo assim teve algumas novidades. Regressaram Don’t Stay e Shadow of the Day – desta vez sem Virgul porque, pela minha sondagem, só mesmo eu e a minha irmã é que gostámos. Tocaram Figure.09, o que me agradou. Na verdade, alguns de nós tivemos spoiler disso umas horas antes. Conseguimos ouvi-los do lado de fora do Multiusos, tocando-a durante o soundcheck.

 

Por outro lado, tive pena que tivessem cortado Crawling e Leave Out All The Rest. Talvez não quisessem abrandar demasiado o ritmo – até porque One More Light arrancaria lágrimas suficientes. Também não tocaram From the Inside nem Somewhere I Belong, mas com essas importo-me menos.

 

Momento engraçado quando o Ivo se trocou todo com Lost, como poderão ver no vídeo acima/abaixo: repetiu a primeira estância em vez de cantar a segunda. 

 

Enfim, não foi grave (acho que uma boa parte do público nem percebeu, sorte ter sido uma música mais “recente”), teve piada. Por algum motivo está o YouTube cheio de compilações de bloopers em concertos – dos Linkin Park e não só. Como se costuma dizer, só acontece a quem faz – e no que toca a Lost ao vivo, praticamente ninguém faz. Não a este nível.

 

 

Mesmo assim, não resisti a ser má, mais tarde. Já explico. 

 

Uma das minhas preferidas neste concerto foi Faint, por dois motivos. Primeiro, pelo Miguel Martins, que veio tocar para junto de nós. Ele apareceu no meu vídeo, este mostra outra parte. 

 

Foi também pelo Dani. De toda a banda, ele será o que menos se comporta como o seu homólogo, Joe Hahn (corrijam-me se estiver enganada), mas eu prefiro assim. O homem dá cá um espetáculo! Podia passar o concerto todo a vê-lo dançar e a abanar o capacete.

 

E falando de abanar o capacete… aparentemente surpreendi quase toda a gente do grupo de fãs quando deixei sair o meu lado mais metaleiro. Até compreendo a confusão. Na maior parte do tempo sou uma betinha: calminha, introvertida, de poucas palavras. Acho que, com os anos, me deixei influenciar por músicos como Hayley Williams, famosa pelos seus headbangs. Ou então, pura e simplesmente, adoro concertos, adoro música, ponto – o que não surpreende quem dê uma vista de olhos a este blogue. Gosto de senti-la, de vivê-la com o meu corpo. E essa paixão só tem aumentado com o tempo – ou então sou eu que me vou sentindo cada vez mais confortável na minha própria pele. Também suspeito que parte disso será vingança pelos cancelamentos durante a pandemia.

 

Aliás, acho que não é a primeira vez que o refiro, esta paixão começou no Rock in Rio de 2008, com os Linkin Park. É também por isso que me afeiçoei tanto aos Hybrid Theory: porque permitem-me prestar homenagem a isso.

 

Em Gondomar, então, dei-lhe tão forte que, depois do concerto, fiquei com a cabeça pesada, a andar à roda. Tanto headbang deve ter sido demais para o meu ouvido interno. 

 

Zero arrependimentos.

 

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Foi nessa altura que os membros da banda nos receberam. Pude dar um beijo ou abraço a cada um deles, outra coisa que me aqueceu o coração de uma maneira parva – sobretudo depois de tudo o que aconteceu desde o concerto no Altice Arena. Isso e as duas fotos que tirei, sobretudo a segunda, com a banda e praticamente todo o grupo de fãs – a família toda. 

 

Pelo meio, ainda me virei para o Ivo, mostrei-lhe a página do Genius e perguntei-lhe:

 

– Queres que te mande o link?

 

Acabámos os dois a rir. Mais tarde senti-me um bocadinho culpada pelo roast, de tal forma que, quando fiz publicações nas redes sociais, fui menos má. 

 

Ainda assim, a Ana Luísa do grupo de fãs brasileiros foi ainda pior do que eu. Vale a pena ler os nossos comentários neste reel – até porque o próprio Ivo se juntou à festa. 

 

O que me leva a outra das minhas partes preferidas do ritual de um concerto HT: as publicações nas redes sociais nos dias seguintes. Até porque os rapazes fartam-se de partilhar as nossas stories do Instagram. É bom, recordamos momentos felizes em conjunto com quem esteve lá, partilhamos parte da experiência com quem não pôde estar, adiamos o início da depressão pós-concerto.

 

Em suma, um fim-de-semana inesquecível. A maneira perfeita de encerrar o ano.

 

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Nesta fase, há muito que desisti de racionalizar a questão dos Hybrid Theory. Não os confundo com os Linkin Park, são uma banda diferente – são literalmente uma banda tributo. Tirando isso, não preciso de justificar mais nada. Compreendo que nem toda a gente goste mas, respeitosamente, quem não gosta come menos. Eu cá adoro-os, eles têm sido simpáticos comigo (mais até), deram-me três concertos fantásticos e encontrei uma família entre os seus fãs. Direta e indiretamente, têm-me feito dar passos para fora da minha zona de conforto, revelado novas facetas minhas, despertado tantas emoções – das boas – em mim. 

 

Aliás, se me permitem, esta está a ser uma história lindíssima, quase poética, chega a ser caricata. Há pouco menos de um ano estava a comprar bilhetes para o Altice Arena às cegas, sem pensar bem no que estava a fazer, sem saber o que esperar. “Há de ser giro, dizem que eles são bons.” Imaginava lá eu tudo o que esta simples decisão desencadeou. 

 

Nem sempre foi fácil, sobretudo aquelas semanas de recaída nas saudades de Chester, em que até In the End me deixava com um nó na garganta. Continuo a achar que foi um exagero da minha parte. Dito isto, passaria por tudo outra vez, não me arrependo de uma lágrima que seja. Tudo isso me levou até aqui. Os Hybrid Theory foram a melhor coisa que me aconteceu em 2023.

 

E, lá está, já não é só pela própria banda – é também pelas pessoas que conheci graças a eles. Chamo-lhe a família HT. Sou mais próxima de alguns deles do que outros, não vivemos assim tão perto uns dos outros, não nos vemos assim tantas vezes – mas temo-nos uns aos outros.

 

Não é muito diferente do que acontece com a minha família biológica, na verdade.

 

Por essa parte temos de agradecer ao JLee. Já o fiz pessoalmente, mas nunca é demais repeti-lo. Graças ao JLee, os Hybrid Theory são mais do que uma banda: são uma família. Falando por mim, já não é só pelos próprios rapazes e pela experiência Linkin Park que vou continuar a ir aos concertos, dentro das minhas possibilidades. Será também para estar com estas pessoas.

 

 

Claro que fica sempre aquela mágoa por os próprios Linkin Park não estarem no ativo, por o Chester não estar cá para ver a sua música ainda unindo pessoas, ainda conquistando fãs, incluindo de palmo e meio. Ninguém queria que tivesse de ser assim, todos temos saudades. Dito isto, a par da maior sensibilidade para questões de saúde mental, isto está a ser a melhor coisa a nascer da tragédia. E eu não conheço melhor forma de homenagear Chester, de, hashtag, deixá-lo orgulhoso.

 

E a história vai continuar daqui a menos de duas semanas, em Amiais de Baixo. E noutros concertos depois desse, ainda por marcar. Não sei o que o futuro reserva para os Hybrid Theory (ou para os Linkin Park), mas, enquanto eles continuarem, eu continuo.

 

Com tudo isto, em termos de música em si, Linkin Park foi uma das bandas que mais ouvi em 2023. Em parte por causa de Meteora20, mas também por causa dos Hybrid Theory. Músicas que não andava a ouvi tanto nos anos anteriores que reentraram na minha cabeça. Músicas que ganharam facetas novas depois de ver e/ou ouvir o que os HT fazem com elas. 

 

Sharp Edges, que eles têm usado para encerrar os concertos, será porventura o exemplo mais óbvio. Por outro lado, antes de 2023, não contava ouvir One More Light ao vivo nem o desejava particularmente. Mas é sempre um ponto alto nos concertos dos Hybrid Theory. Descobri, aliás, que o grito de “I do!” no meio é super catártico. 

 

Por outro lado, passei uma boa parte do ano obcecada pelo cover que os rapazes fizeram de Iridiscent. A música original não está entre as minhas preferidas, mas esta versão ficou linda. 

 

Espero que eles criem mais versões destas no futuro.

 

 

Por fim, nós, na família HT, somos todos fãs de Linkin Park, claro. E, naturalmente, de vez em quando falamos sobre as nossas músicas preferidas.

 

De Linkin Park e não só, na verdade. Hei de falar sobre isso na segunda parte deste balanço, mas tenho-me deixado influenciar pelas sugestões do pessoal do grupo. E vice-versa, na verdade. É uma das maneiras mais bonitas de descobrir música nova. 

 

Lost foi a minha música número um, tanto no Spotify Wrapped como no meu Last.fm – até mesmo no YouTube Music. Faz todo o sentido. Foi a música que deu o pontapé de saída para a era Meteora20 e marcou a minha história com os HT – porque, ao contrário da maioria dos fãs de Linkin Park, já tive o privilégio de ouvi-la tocada ao vivo. Três vezes.

 

Pode-se discutir se é das melhores dos Linkin Park (acho que sim, pelo menos top 20) ou mesmo se é a melhor do baú de Meteora (acho que sim, mas há quem discorde). Para mim vale, não só pelos méritos próprios, mas também pelo que representa, pelas emoções que despertou em tanta gente. É a minha música preferida de 2023. 

 

E por hoje fico por aqui. A segunda parte deste balanço também falará de feels e concertos (neste caso, concertos futuros), mas será mais convencional, mais focada em música propriamente dita. Ainda deverá demorar um bocadinho, claro, mas não é grave. Desde que não ultrapasse o recorde do ano passado, em que só consegui terminar o balanço de 2022 em finais de fevereiro.

 

Uma vez mais, obrigada Hybrid Theory, banda e família. Obrigada também a vocês, caros leitores. Continuem por aí. 

Música de 2019 #1

Primeira publicação de 2020! Bom ano, pessoal! Com algum atraso, eis o meu habitual apanhado da música que mais me marcou no ano.

 

Isto no fundo é uma espécie de Spotify Wrapped por escrito. Como muito se comentou, na altura em que estes começaram a sair e toda a gente os partilhava nas redes sociais… ninguém quer saber dos Spotify Wrapped dos outros (só dos seus próprios). Suponho que ainda menos gente quererá saber deste meu, que ainda por cima se estende por oito mil palavras (esta é a primeira parte). No entanto, se eu me ralasse com isso, não tinha blogues.

 

Recordo que, à semelhança dos textos equivalentes anteriores, não falarei apenas de música lançada em 2019. Dito isto, pela primeira vez em algum tempo, música lançada neste ano está em maioria. Sobretudo porque tive vários artistas do meu “nicho” lançando música em 2019. Três deles, aliás, lançaram logo no início do ano, com duas semanas de intervalo entre cada lançamento de álbum.

 

Na altura andava entusiasmada com isso. No entanto, todos esses três álbuns deixaram a desejar, em graus diferentes. O que faltou? Veremos já de seguida, começando com… 

 

 

  • Within Temptation

 

 

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O primeiro dos tais três álbuns lançados no início do ano foi Resist, dos Within Temptation. Conforme escrevi antes, depois de encerrado o ciclo de Hydra, os Within Temptation precisaram de fazer uma pausa. A vocalista Sharon den Adel aproveitou para lançar um projeto a solo, My Indigo – um álbum de que gostei muito. Esse trabalho ajudou Sharon a desbloquear a sua criatividade. Assim, a banda regressou ao estúdio e nasceu Resist.

 

Eu, naturalmente, estava interessada. Quando o álbum saiu, fiz questão de ouvi-lo com frequência no Spotify e, mais tarde, comprei o CD. Por outras palavras, não se pode dizer que não tenha dado uma oportunidade a Resist. 

 

Este, no entanto, revelou ser um álbum que, pelo menos pela parte que me toca, entra por um ouvido e sai por outro. Não é mau, é apenas… aborrecido, desenxabido. Cansei-me depressa dele. 

 

Pode haver quem argumente que um álbum aborrecido é pior que um álbum pura e simplesmente mau. Eu acho que depende dos casos. De qualquer forma, não me lembro da última vez que ouvi Resist do princípio ao fim e não tenho grande vontade de voltar a ouvi-lo tão cedo. Mesmo as músicas de que gosto mais neste álbum – The Reckoning, In Vain, Supernova, Mercy Mirror – considero apenas vagamente interessantes, boazitas. 

 

Talvez o problema seja eu. Talvez os meus gostos estejam a mudar. Talvez esteja a entrar naquela fase em que praticamente todos os artistas de rock entram mais cedo ou mais tarde, em que começam a preferir o pop.

 

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Ou talvez não. As críticas a Resist que li têm sido mistas: há quem goste, há quem não goste, as piores faixas para uns são as preferidas de outros. Naturalmente não é possível agradar a todos. E, como já referi antes aqui no blogue, neste género musical os fãs são complicados. 

 

Ainda assim, uma crítica que li e com a qual concordo refere que os instrumentais não fazem quase nada senão acompanhar os vocais. Se formos a ver (ou melhor, a ouvir), é verdade. Os únicos momentos em que o instrumental faz alguma coisa de interessante neste álbum são a trompa eletrónica de The Reckoning, o coro masculino de Supernova, os elementos vagamente eletrónicos nesta última música e em Endless War. 

 

Comparemos com Hydra. Este não é dos álbuns mais populares entre os fãs, pode ser demasiado pop/mainstream, mas, com uma ou outra exceção, ninguém pode acusar os seus instrumentais de falta de carácter. Silver Moonlight será o melhor exemplo, mas Paradise (What About Us) também tem um instrumental giro. Whole World is Watching parece ser um percussor de várias músicas de My Indigo e músicas como Dangerous e Tell Me Why têm uns padrões de bateria alucinantes. 

 

E claro, nem falo dos álbuns anteriores a Hydra, menos controversos, as influências célticas em The Silent Force. Mesmo My Indigo tem uns belos instrumentais. Por comparação, Resist é demasiado monótono. 

 

Não deve admirar que, depois disto tudo, prefira um segundo álbum de My Indigo em vez de outro álbum dos Within Temptation. No entanto, mesmo que a banda não demore a regressar ao estúdio, uma pessoa tem sempre a esperança de que o próximo trabalho seja melhor. 

 

 

  • Avril Lavigne 

 

 

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Nesta fase já não é necessário fazer grandes introduções quando escrevo sobre Avril Lavigne neste blogue. Esta lançou o seu sexto álbum de estúdio, Head Above Water, este ano – que ficou aquém das expectativas, como poderão ler aqui

 

Quando um álbum é lançado relativamente cedo no ano, às vezes, por alturas do fim do ano, as minhas opiniões mudaram um pouco. Neste caso, no entanto, não existem grandes diferenças em relação ao que escrevi anteriormente. 

 

A primeira metade do álbum é melhor que a segunda, na minha opinião. Birdie e I Fell In Love With the Devil são claros destaques, bem como It Was in Me. Souvenir continua a ser a minha preferida, mas depois dela a qualidade do álbum decai.

 

Falando em I Fell In Love With the Devil, referir que a canção teve alguma cobertura mediática durante o verão, aquando do lançamento do videoclipe. Queria, aliás, dedicar-lhe alguns parágrafos.

 

Se eu tivesse de descrever o vídeo com o menor número de palavras possível, diria que é previsível no bom sentido. Reflete a música de forma quase perfeita e está muito dentro do estilo de Avril. Parece uma versão (ainda) mais gótica do vídeo de Alice.

 

 

E “gótico” nem sequer é a melhor palavra para descrever este vídeo. Nem mesmo “sombrio”. Este é um vídeo tétrico, sobretudo a parte de Avril conduzir o seu próprio carro funerário, cantar no seu próprio caixão. Isto pode parecer estranho, mas fiquei aliviada quando Avril referiu, numa entrevista, que ia tendo um mini ataque de pânico quando estava deitada no caixão. É bom saber que não sou a única a quem a ideia provoca um medo primário (provavelmente um reflexo do medo da morte).

 

Tudo isto fez com que I Fell in Love with the Devil subisse um bocadinho mais na minha consideração. Mas também sempre gostei dela, mesmo que nem sempre a tenha considerado uma favorita.

 

Avril, na verdade, parece bastante orgulhosa desta letra, bem como de outras este álbum. Chegou a falar em lançar um livro de poesia… o que, aqui entre nós, me parece um salto maior do que a perna. Sou a primeira a reconhecer que as letras dela em geral melhoraram significativamente nos últimos dois álbuns mas, na minha opinião, Avril está longe de ser das melhores nesse capítulo. 

 

Por outro lado, se ela quiser mesmo escrever um livro de poesia, se for algo de que ela goste… porque não? Mesmo que não seja material digno do Prémio Nobel, mesmo que fique uns furos abaixo das letras de outros artistas, eu compraria. Se isso a ajudar a melhorar a sua escrita…

 

O problema com Avril é que, por muito que as letras tenham melhorado, por muito poderosa que a sua voz se tenha tornado, por muitas experiências que ela faça com o seu som (e algumas até são bem sucedidas)... no fim do dia, vira o disco e toca o mesmo, quase literalmente. Se rasgarmos as embalagens, os produtos são os mesmos de sempre: as mesmas canções de amor e desgosto desde o início da sua carreira. 

 

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Mesmo quando tenta variar um pouco, na maior parte das vezes perde-se em clichés, acrescenta muito pouco ao cânone geral da música. As letras são demasiado vagas, demasiado superficiais para causarem algum impacto.

 

Por estes dias, Avril goza o estatuto de uma artista veterana, recebe louros por ter inspirado toda uma geração de cantoras femininas a cantarem e comporem sobre os seus próprios sentimentos e experiências. Já tinha falado um pouco sobre isso aqui. Este ano em particular tem sido Billie Eilish quem não poupa elogios a Avril, uma das suas maiores inspirações. 

 

O pior é que muitas dessas cantoras inspiradas por Avril, para quem a canadiana abriu caminho de uma forma ou de outra, tornaram-se melhores Avrils que a própria Avril.

 

Vou dar exemplos. Hayley Williams dos Paramore há muito que usurpou o lugar de Avril no meu nicho musical: alguém que cresce comigo, cuja música reflete a fase da vida em que estou. Taylor Swift é uma das maiores estrelas pop do momento e também admitiu ter sido inspirada por Avril. Nunca o referi cá no blogue, mas nos últimos anos tornei-me numa fã muito casual dela. A sua música e imagem pública em geral podem ter algumas falhas, mas diria que, neste momento, as suas letras estão entre as melhores do mundo da música. 

 

Por sua vez, Lorde, como já referi antes, é uma espécie de Cristiano Ronaldo da música pop: joga num campeonato diferente, acima dos simples mortais. A jovem nunca terá sido diretamente inspirada pela canadiana, mas pode-se argumentar que, se não tivéssemos tido Avril, talvez não tivéssemos tido Lorde. Ou Adele. Ou Billie Eilish. 

 

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Ao longo dos últimos dez, quinze anos, estas mulheres surgiram e floresceram no mundo da música apontando os microfones para os seus cérebros e corações. Avril, infelizmente, não foi capaz de acompanhar. Pelo contrário, foi perdendo a originalidade que a caracterizava no início da sua carreira. Não quero insinuar que ela se tenha vendido (se era essa a sua intenção, está visto que não resultou). Apenas que, por algum motivo, foi deixando de ter coisas para dizer. E, como já referi antes, se nem depois dos piores anos da sua vida tem algo a dizer para além de frases-feitas e terrenos batidos… quando terá?

 

Dito isto tudo, não quero deixar de assinalar o trabalho que Avril tem feito como, digamos, ativista anti-Doença de Lyme. Veja-se esta semana, depois de Justin Bieber ter anunciado que também sofreu da doença. Pelos vistos é mais prevalente do que se pensa, o que significa que o trabalho de Avril e da sua Fundação será cada vez mais relevante.

 

Avril referiu em entrevistas que o sucessor a Head Above Water será diferente, será um álbum mais pop rock, com mais guitarra e bateria. Vai manter o padrão, portanto, alternando entre música mais séria e intimista e música mais leve e divertida. The Best Damn Thing após Under My Skin, o homónimo após Goodbye Lullaby. 

 

Eu não me imaginava escrevendo isto há meia dúzia de anos, ou mesmo há um ano, mas nesta fase prefiro isso, prefiro que ela regresse ao pop rock, a música semelhante ao quinto álbum. Como já referi antes, Avril Lavigne o álbum tem os seus defeitos, mas faz exatamente aquilo a que se propõe: ser um disco variado mas leve, feel-good, com músicas boas de cantar, sem se levar demasiado a sério. Quando saiu não me satisfez por completo, mas hoje acho-o preferível a um álbum que tenta ser “poderoso”, “cru” e tal e não consegue. 

 

E daí não sei. Às tantas o sétimo álbum inclui uma espécie de Hello Kitty parte 2 e eu, na altura vou escrever aqui que quero que Avril regresse às baladas. Não sei mesmo o que pensar. Só sei que quero mais daquela que ainda é a minha cantora preferida.

 

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Isto agora vai parecer uma transição estranha, mas há uns meses Avril anunciou uma digressão europeia para a primavera de 2020. Os bilhetes têm-se vendido surpreendentemente bem: alguns concertos foram mudados para salas maiores, algumas cidades receberam uma segunda data (Londres tem três no total). 

 

Aqui entre nós, depois dos desempenhos modestos dos álbuns que Avril lançou esta década, não estava à espera deste fenómeno. Talvez seja por ela não vir à Europa desde 2011, talvez seja o fator nostalgia, talvez Head Above Water não se esteja a sair tão mal quanto isso.

 

Ora, a digressão não passará por Portugal. Fiquei desapontada, claro, mas de início resignei-me a continuar a esperar. Há muitos anos que alimento a esperança de ir a um concerto dela no meu país. Ouvindo-a usando “Lisboa/Lisbon” e “Portugal” para se dirigir ao público, acompanhada por outros fãs portugueses, alguns dos quais conheço há uma década ou mais.

 

Só que esses fãs portugueses não partilham do meu sentimentalismo. Começou toda a gente de imediato a fazer planos para ir aos concertos nas várias cidades europeias. Eu mesmo assim continuei na minha… até me aperceber que estava a ser parva.

 

Conforme referi acima, Avril não vem à Europa desde 2011. Esteve de baixa durante quatro anos por causa do Lyme. Sabe-se lá quando poderá voltar depois disto. Eu ainda por cima tenho já um artista amado que não poderei voltar a ver. Olhando para esta digressão... O meu irmão está a viver em Zurique, a primeira data da digressão europeia – ou seja dormida grátis. Tenho também um voucher da TAP por causa de um voo que me cancelaram há uns meses – ou seja viagem grátis.

 

Quando terei eu melhor oportunidade que esta?

 

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Por isso, lá engoli o meu orgulho e arranjei bilhetes para o concerto. Ou melhor, acabou por ser o meu irmão a comprar-mos, para mim, para ele e para a namorada, como prenda de Natal. Zurique, a 13 de março, no Samsung Hall – foi um dos que foi mudado para uma arena maior.

 

Tenho de confessar que estou um bocadinho menos entusiasmada do que imaginaria. Talvez por não se em Portugal, talvez porque, lá está, fiquei desiludida com o álbum Head Above Water, talvez porque, em termos de desempenho em palco, Avril é muito inconsistente – pelo menos em comparação com outros dos meus artistas preferidos. Em todo o caso, não acho que seja má ideia manter as minhas expectativas baixas. 

 

Dito isto, mesmo que a maior parte do concerto não seja nada de especial, tenho a certeza que músicas como Complicated, Sk8er Boi ou I’m With You serão pontos altos. Momentos como os que sempre sonhei, que valerão o preço do bilhete. E quando ela cantar Girlfriend, mesmo não sendo das minhas preferidas, não vou querer saber, vou dançá-la como se não houvesse amanhã – o meu querido maninho vai desejar ter-me oferecido um livro ou algo do género este Natal em vez disto. 

 

Pois é, a minha “relação” com Avril já viu melhores dias. Há alturas em que penso se ainda devo considerá-la a minha cantora preferida. No entanto, uma das coisas que a perda de Chester me ensinou foi que, no fim do dia, álbuns que desiludem são problemas menores, interessam pouco. Há que estar grato por os nossos artistas continuarem a fazer música, a dar concertos. É praticamente certo que todos os discos terão pelo menos um ou dois temas de que gosto. E mesmo que não tragam, teremos sempre os velhos favoritos, que nunca faltarão nas setlists.

 

Avril então já teve uma baixa prolongada (pensando agora que muitos portugas dariam tudo para ter uma baixa assim…). Esperemos que não tenha de voltar a parar durante tanto tempo. E mesmo que eu já não seja tão devota como há meia dúzia de anos, enquanto ela estiver por cá, eu também estarei. 

 

 

  • Bryan Adams

 

 

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O álbum Shine a Light, o décimo-terceiro de inéditos de Bryan Adams, foi o último dos três a ser lançado no início do ano – no dia 1 de março. Não diria que este álbum tenha sido uma desilusão tão grande como foram os outros dois álbuns de que falei acima, mas ficou um pouco aquém das minhas expectativas. 

 

Não que seja um mau álbum. Apenas o acho um pouco… descaracterizado. As músicas são boazitas, regra geral, mas não são particularmente marcantes, não arrebatam. Quando oiço o CD no meu carro até o aprecio mas quando começo a ouvir outra coisa, mal me lembro que as músicas existem, não sinto vontade de ouvi-las de novo. Quase todas as faixas podiam ter sido incluídas em qualquer álbum de Bryan Adams desde o início dos anos 90 para a frente e ninguém daria por ela. 

 

Uma das poucas exceções é That’s How Strong Our Love Is, o dueto com Jennifer Lopez, mas não pelos melhores motivos. Não que tenha problemas com a participação da cantora, nada disso – só com a percussão eletrónica irritante, que não tem nada a ver com o estilo de Bryan.

 

Para ser justa, muitos álbuns de Bryan são assim. Lembro-me de ler algures na Internet entrevistas antigas onde ele referia que, regra geral, vai compondo música até ter faixas suficientes para um disco. Nesses casos, escolhe um dos singles para dar nome ao álbum. No caso de Shine A Light, esse conjunto de faixas foi composto nos intervalos da preparação do musical de Pretty Woman.

 

(Se me permitem o grande desvio ao assunto… terá Bryan sido a primeira escolha para compôr as canções deste musical? Ninguém pôs a hipótese de pedir aos Roxette, compositores e intérpretes do êxito It Must Have Been Love, da banda sonora do filme? Talvez até tenha estado em cima da mesa e os Roxette recusaram devido ao estado de saúde de Marie Fredriksson…

 

Enfim. Isto sou só eu a divagar. Mais sobre os Roxette adiante.) 

 

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Admito que devia ter baixado um bocadinho as expectativas, mas a verdade é que os dois álbuns anteriores de Bryan foram mais conceptuais do que o habitual. 11 esteve perto de ser um álbum maioritariamente acústico. Bryan acabaria por mudar de ideias, mas o resultado final continua a ter uma forte base acústica. Além de que, em termos de letras, 11 acaba por ser relativamente consistente, com temas recorrentes de esperança e otimismo.

 

Por sua vez, Get Up, como vimos quando saiu, caracterizou-se muito pela sonoridade vagamente retro e pela produção de Jeff Lynne, que incutiu o seu próprio carácter nas canções.

 

Estes dois álbuns baralharam-me as expectativas, portanto. E apesar de continuar a achar que Shine A Light não tem nenhuma música absolutamente extraordinária, a verdade é que o álbum subiu um bocadinho – não muito – na minha consideração ao longo do ano.

 

Para começar, afeiçoei-me a Last Night on Earth depois de esta ter aberto o concerto de 6 de dezembro. Uma das que me cativou desde as primeiras audições, por outro lado, foi Part Friday Night Part Sunday Morning. Tem uma letra engraçada, sobre uma personagem feminina que tem tanto de “good girl” como de “bad girl” (em suma, é uma mulher de carne e osso. Compreendo o choque.)

 

Por outro lado, gosto mais de Whiskey in the Jar do que de metade do resto do álbum – o que tem piada tendo em conta que é a única que não é inédita. Whiskey in the Jar é uma canção tradicional irlandesa que, na verdade, conta versões de vários cantores contemporâneos (gosto bastante da versão dos Metallica). Consta que Bryan foi desafiado a cantá-la num concerto em Dublin e acabou por decidir incluí-la em Shine a Light.

 

 

A canção em si é encantadora. Bryan canta-a acompanhado apenas de uma guitarra acústica e uma harmónica – e isso, na minha opinião, é o ponto forte da música. É uma pena Bryan não ter muitas músicas em nome próprio neste estilo.

 

Em todo o caso, não tenhamos ilusões. Um dos motivos principais, se não for o principal, para Bryan lançar este álbum nesta altura do campeonato será para servir de pretexto para (mais) uma digressão. O que nos leva ao concerto que ele deu no Pavilhão Atlântico a 6 de dezembro. 

 

Foi a minha quarta vez num concerto de Bryan Adams. Já escrevi sobre a terceira vez, em janeiro de 2016. Isto já se tornou num encontro habitual tetranual – a minha segunda vez foi em dezembro de 2011. 

 

Houveram muitos aspetos semelhantes entre este concerto e o de 2016. Para começar, mais uma vez, fui eu e a minha irmã. Chegámos cedo, ficámos na plateia quase no mesmo local exato: segunda ou terceira fila, à direita, junto a um dos microfones. Uma vez mais, nos últimos vinte, trinta minutos antes do início do concerto, mostraram a capa do álbum mais recente nos ecrãs gigantes (neste caso Shine A Light), a cara de Bryan mexendo-se de vez em quando. A grande diferença foi que, no fim, do nada, a cabeça vermelha virou-se para a câmara e rugiu, pregando um valente susto à audiência. A minha irmã até se agarrou a mim.

 

Isto faz-se, senhor Bryan?

 

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Um aspeto que diferiu em relação ao outro concerto foi o facto de nos terem pedido explicitamente para não filmarmos com os telemóveis. Podíamos usá-los para tirar uma ou outra fotografia (e, tacitamente, para acendermos as luzes durante as baladas), mas se estivéssemos a filmar os seguranças iriam intervir.

 

Não me importei muito e até aplaudi o pedido. Também não estava a planear passar muito tempo de telemóvel no ar – só para filmar uma canção ou outra.

 

Eu, aliás, sou um bocadinho paradoxal. Eu gosto de ver vídeos depois do concerto, para ajudar a recordar, mas… não quero ser eu a filmá-los. Quero passar os concertos aos pulos, a cantar, a dançar, não a filmar. Traduzindo uma expressão anglo-saxónica, quero comer o bolo sem deixar de tê-lo. Com o outro concerto até foi possível pois foi a minha irmã a filmar a maior parte dos vídeos – que mesmo assim não foram muitos.

 

Felizmente no grupo de fãs de Bryan Adams no Facebook, de que faço parte, partilharam vários vídeos. E descobri este canal no YouTube, que filmou algumas das canções. A maior parte filmados nas bancadas, logo as imagens deixam a desejar, mas valem pelo áudio.

 

Bryan abriu, assim, com Last Night on Earth. É uma decisão que não compreendo muito bem, confesso. Porquê abrir com uma música do álbum que em sequer é single, que se calhar metade da audiência não conhece? Já em 2011 e 2016 tinha feito o mesmo, abrindo com House Arrest e Do What You Gotta Do respetivamente. 

 

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Não faria sentido abrir com um êxito, para entusiasmar logo o público? Não precisava de ser um dos Summer of 69 desta vida, mas, sei lá, um Somebody. Ou então Shine a Light, o primeiro single do álbum novo, que partilha o nome com o álbum e com a digressão, que até toca nas rádios. 

 

Enfim.

 

Para ser justa, mesmo não sendo single, mesmo não sendo um êxito, The Last Night On Earth até é uma boa música para abrir um concerto: alegre, excitante, com uma mensagem recorrente na música de Bryan de viver o momento, de fugir a tudo e divertir-se. 

 

Mas continuo a achar que Shine a Light teria sido melhor.

 

Na verdade, foi a segunda canção da noite que causou maior impacto em mim. Uns dias antes tinha deixado um comentário numa publicação de Bryan no seu Instagram, pedindo duas músicas para o concerto. Depois de, em 2016, outras pessoas terem feito pedidos de músicas nas redes sociais, queria tentar a minha sorte.

 

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Como poderão ver acima, as músicas que pedi foram Tonight e The Best Of Me. Hei de explicar a primeira um dia destes, noutro texto. Por sua vez, a segunda é a preferida da minha irmã – ou andará lá perto. 

 

Suspeito que a culpa seja minha – um dos primeiros CDs de Bryan Adams que comprei foi a compilação com o mesmo nome, de 1999. Eu tinha treze anos e a minha irmã cinco e dormíamos no mesmo quarto. Na altura, tinha um rádio-despertador com leitor de CDs. Com o alarme, o CD inserido começava a tocar – assim, tanto eu e a minha irmã acordámos muitas vezes com Bryan exclamando “You got it!” antes do início do instrumental. 

 

Em retrospetiva, era uma maneira algo abrupta de acordar – taquicárdia logo de manhãzinha. Hoje escolho músicas mais suaves para despertar (acho que as minhas atuais são 3 Primary Colors e Hard Feelings/L.O.V.E.L.E.S.S.). Em todo o caso, fez com que a minha irmã ficasse a gostar de The Best Of Me

 

Também pode ter sido porque, na mesma altura, de noite, quando ela já estava a dormir, eu punha-me a ouvir o CD muito baixinho. Estou convencida que foi assim que ela se tornou fã de Bryan Adams. 

 

Mas falava eu do comentário no Instagram. Tanto quanto vi na altura, não estava mais ninguém a pedir canções nos comentários – pelo menos não naquela publicação. Ainda assim, não me atrevia a acreditar que Bryan ou alguém da sua equipa veriam o meu comentário, no meio de dezenas de outros. 

 

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Se calhar viram. Mesmo antes do concerto, enquanto esperávamos que nos deixassem entrar no Pavilhão, ouvimos Bryan e o resto da banda ensaiando Tonight (à semelhança do que já tinha acontecido no concerto de 2016). Eu ainda não conseguia acreditar que o meu desejo tinha sido concedido.

 

Mas Tonight foi mesmo incluída na setlist, foi logo a segunda canção. The Best Of Me também seria tocada mais tarde (já lá vamos). A minha irmã reconheceu Tonight antes de mim e agarrou-me logo o braço. Mais tarde, depois do concerto, fui à net consultar as setlists dos concertos e ele, de facto, não tinha tocado Tonight nas noites anteriores. Tocou-a no dia seguinte, no concerto de Braga, mas depois dessa, tirando no concerto de Barcelona, em resposta a um pedido do público, não voltou a tocá-la.

 

Foi porque eu pedi? Foi porque, mesmo quase quarenta anos depois, Tonight continua a ter bastante rotação nas rádios portuguesas? Não sei. Em todo o caso, fiquei contente. Aqui entre nós, a remota possibilidade de eu ter introduzido duas músicas na setlist de um concerto de Bryan Adams deixa-me um bocadinho embriagada de poder, ah ah. Já começo a pensar nas músicas que vou pedir para o próximo concerto.

 

Depois desta, a primeira metade, primeiros dois terços, da setlist foi a típica de qualquer outro concerto de Bryan. Can’t Stop This Thing We Started, Run to You, It’s Only Love, (Everything I Do) I Do It For You… Em retrospetiva, a apresentação de Heaven foi muito semelhante à do concerto de 2016, com o público cantando a primeira estância espontaneamente. Mas na altura não me apercebi. Foi um ponto alto, que me tocou no coração.

 

Também não faltou Here I Am, a minha preferida, ainda que numa apresentação acústica, estilo Bare Bones. O impacto foi o mesmo de sempre – como escrevi antes, Here I Am soa-me perfeita, toca-me no coração, sob qualquer arranjo – e adorei a iluminação do palco durante a música. Vejam por vocês no vídeo abaixo. 

 

 

Como o costume, procurei aproveitar ao máximo. Cantei, dancei, saltei… No fim do concerto o meu telemóvel marcava mais uns quatro mil passos em relação ao início – apesar de não ter saído do mesmo lugar. Ao mesmo tempo, houveram momentos – não muitos – em que pura e simplesmente me calei e fiquei a ouvir a audiência a cantar. Não me canso de sons como esse.

 

Por outro lado, como estava perto do palco, sempre que Bryan ou Keith Scott, o guitarrista, vinham para perto de nós, eu tentava interagir. O melhor que consegui foi Keith retribuindo um beijo que lhe soprei durante Cuts Like A Knife. Foi fofo.

 

Uma coisa em que reparei durante este concerto, com grande pena minha, foi que a idade de Bryan e de muitos membros da banda dele. Keith, que já vai nos 65 anos, parecia ter menos cabelo Houve um momento, se não estou em erro durante Can’t Stop This Thing We Started, em que o baixista Solomon Walker (para aí uns vinte anos mais novo que os colegas de banda) deu um salto em palco que nem Bryan nem Keith conseguiram acompanhar. 

 

Pode não significar nada – agora que penso nisso, eles podiam pura e simplesmente não estar a prestar atenção e perderam o momento. E mais tarde os dois saltariam, ao mesmo tempo. No entanto, na altura senti-o com um lembrete de que, parecendo que não, o tempo passa. 

 

Já aí voltamos. 

 

 

Bryan não se esqueceu de homenagear a sua costela portuguesa, antes da versão acústica de Straight From the Heart, como já é habitual. Desta feita, como poderão ver no vídeo, mostrou fotografias dos seus anos em Birre, Cascais, em miúdo. Terminando com uma foto, tirada no próprio dia, das suas filhas brincando na praia do Guincho.

 

Houveram alturas do concerto em que Bryan aceitou pedidos da audiência – alguns antes do encore, alguns durante. Foi nessa altura que tocou The Best Of Me, ainda que incompleta. Não sei se foi por causa do meu comentário no Instagram ou se alguém no público pediu – fiquei com a ideia que o pedido veio de uma tal Carla, que segundo Bryan tem vindo a todos os concertos dele em Lisboa. De qualquer forma, a minha irmã ficou contente.

 

Bryan ia perguntando os nomes às pessoas que pediam as canções: Marta, Raquel… Às vezes não percebia logo, ou fingia não perceber. Chegou mesmo a incluir “Anabela”, autora de um dos pedidos, na letra quando cantou Please Forgive Me.

 

Houveram músicas requisitadas pela audiência que Bryan tocou com a banda toda – Do I Have to Say the Word teve mesmo direito a imagens do videoclipe gigante (das duas uma: ou a canção é um pedido comum, ou os vídeos estão sempre a jeito). Para a maior parte dos pedidos, no entanto, Bryan tocou sozinho, com a guitarra acústica, muitas vezes só a primeira estância e um refrão. Como já referi aqui, não gosto muito quando fazem isso, mas, pelo menos neste concerto, sempre foi melhor que não tocar as músicas de todo.

 

E a verdade é que, apesar de ter recusado alguns pedidos, como Rebel, Bryan fez por agradar o mais possível. Fiquei com a impressão de que as últimas duas canções não estavam no plano. Eu por minha vontade ficava lá a noite toda, claro, mas pronto, o homem tinha de dormir – o concerto de Braga era no dia seguinte e eles também mereciam um Bryan no seu melhor.

 

mw-1600 (1).jpg

 

E pronto, foi uma das noites mais felizes de 2019 para mim – mesmo que o concerto não tenha sido muito diferente dos anteriores que vi. De ver em quando preciso de noites como esta: o mundo fica lá fora, celebrando música leve, simples, sobre amor, nostalgia, sexo, ser-se jovem, livre e feliz. 

 

Mesmo passados estes anos todos, ainda não me fartei de Bryan Adams. Por um lado quero acreditar que ele estará de volta daqui a quatro anos, para mais uma noite como esta. Por outro… como disse antes, o tempo passa. Quem sabe se ele consiguirá voltar? Quem sabe se eu conseguirei voltar?

 

O tempo dirá. De qualquer forma, enquanto todos tivermos possibilidades para isso, enquanto Bryan continuar a lançar álbuns, a arranjar desculpas, eu estarei lá.

 

E por hoje já chega. A segunda parte do texto será publicada amanhã ou depois. 

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