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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Músicas Não Tão Ao Calhas – This is Why

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Hoje completa-se mais um ciclo aqui no blogue. Inaugurei a rubrica Música Não Tão Ao Calhas – onde analiso singles (ou leaks) recentes dos meus músicos preferidos – há quase dez anos com Now, o primeiro avanço do quarto álbum dos Paramore, homónimo. Agora, analiso o primeiro avanço de This is Why, o sexto álbum deles. Isto depois de já ter feito o mesmo com Hard Times, o primeiro avanço de After Laughter e com Simmer, o primeiro avanço de Petals For Armor, o primeiro álbum a solo da vocalista Hayley Williams (se vocês acharem que conta). 

 

Hei de brindar a isso com a minha próxima chávena de café. 

 

This Is Why, primeiro single do álbum com o mesmo nome, é a primeira música dos Paramore em quase cinco anos e meio – precisamente desde a edição de After Laughter. Foi muito tempo mas, pela parte que me toca, não me custou muito, tirando estes últimos meses. Sobretudo porque os álbuns a solo de Hayley, Petals For Armor e Flowers For Vases, serviram de metadona. Mesmo este ano, quando já estava ansiosa por algo mais, Hayley foi-nos entretendo com o programa de rádio Everything is Emo – que me fez adicionar imensa música às minhas playlists. 

 

Hei de escrever sobre isso nos meus textos de fim de ano. 

 

Os Paramore estavam a precisar de uma pausa. Hayley já tinha referido, a propósito de Petals For Armor, que o ciclo de After Laughter não tinha sido fácil. Taylor abriu-se um pouco mais do que o costume para o The Guardian: falando sobre a perda de um amigo de família durante as filmagens do vídeo de Rose Colored Boy, revelando que deixou de beber, que, a certa altura, sofreu com ansiedade e agorafobia. Zac não se arrepende de ter deixado os Paramore – sente que os anos afastado da banda o rejuvenesceram. Suponho que estes últimos quatro anos tenham tido um efeito semelhante. 

 

Nada disto surpreende. Lorde falava mais ou menos do mesmo no ano passado, quando regressou com Solar Power também após uns anos de pausa. Se há coisa que aprendemos com a pandemia é que há coisas que não valem a pena. Saúde física e mental vêm antes do trabalho. 

 

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Esses anos de pausa e a oportunidade de trabalharem em projetos laterais podem ter ajudado os três a desenvolverem uma relação mais saudável com a banda. Talvez seja por isso que This Is Why é o primeiro álbum dos Paramore em que o alinhamento da banda é o mesmo que o do álbum anterior. 

 

Há uns anos atrás, diria que tinha esperanças num regresso de Josh e Jeremy a médio/longo prazo. Hoje já não faço questão. Só faz falta quem lá está. E como consta que Josh é homofóbico e, no geral, não grande coisa como pessoa… 

 

After Laughter e os próprios Paramore enquanto banda ganharam um culto de seguidores fiéis nos últimos anos. Em parte porque os três – Hayley em particular, a mais mediática – são figuras simpáticas, terra-a-terra, "não problemáticas" (embora já tenham cometido os seus deslizes). Têm fãs de várias idades, raças e expressões de sexualidade e género e uma boa relação com eles. 

 

Por outro lado, After Laughter – um álbum que explora "tempos difíceis" e questões de saúde mental – envelheceu muito bem, num mundo que se tem degradado cada vez mais desde 2017 (que já foi suficientemente mau). 

 

Já calculava há algum tempo que os Paramore iriam entrar em territórios políticos/sociais no seu sexto álbum, por vários motivos. Em primeiro lugar, não faria sentido focarem-se em questões pessoais. Como referido acima, a banda está finalmente estável. Hayley, ainda por cima, teve dois álbuns a solo para exorcizar os demónios pessoais que já tinham dado sinais de vida em After Laughter. 

 

E agora Hayley está numa relação feliz com… o Taylor! Sim, aquilo que se suspeitava desde Petals For Armor – e houve quem suspeitasse há mais tempo ainda – foi confirmado no artigo do The Guardian. Apenas uma frase entre parêntesis no texto, consta que nem Hayley nem Taylor quiseram dizer mais nada. 

 

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Durante muito tempo tive medo da reação dos fãs, depois do que aconteceu entre Hayley e Josh. Mesmo a minha primeira reação aos rumores, há mais de dois anos, não foi muito favorável. Mas, tanto quanto tenho visto, está toda a gente contente – eu incluída, que já tive tempo para me habituar à ideia (sobretudo depois de Flowers For Vases). 

 

Agora espero que as pessoas não os destabilizem, que lhes dêem privacidade. O facto de, aparentemente, já terem namorado em segredo durante pelo menos três anos deve ajudar. E, claro, espero que sejam muito felizes. 

 

Mas fechando este parêntesis, duvido que Hayley tenha algo a acrescentar a Petals For Armor e Flowers For Vases, no que toca à sua vida amorosa. Talvez This is Why tenha uma canção de amor só pela graça, mas não mais do que isso. 

 

Por outro lado, falando por mim, os Paramore sempre foram muito bons a captar e/ou prever o estado de espírito de pessoas da minha geração. O que não surpreende, os três têm a minha idade, mais ano menos ano. Isso às vezes implica entrarem em territórios políticos/sociais. Hello Cold World é um bom exemplo, mas também há quem detecte mensagens políticas em After Laughter, como explicado neste artigo. Pelo menos nesse álbum, Hayley disse que não era essa a intenção, mas o próprio artigo refere que, nestes últimos tempos, é difícil saber onde acaba o pessoal e começa o político/social. 

 

E se já era assim em 2017, em 2022 ainda mais o é, entre pandemia, tensões raciais, guerras culturais, guerra propriamente dita, inflação, alterações climáticas. 

 

A juntar a isso, os Paramore têm estado muito interventivos nos últimos anos. Em parte porque, por estes dias, não dá para nos mantermos neutros – direitos humanos não são para debate. Mas também porque, como referido acima, a banda tem fãs muito diversos e eles procuram usar a sua posição privilegiada para retribuir. Entre outras coisas, apoiaram o Black Lives Matter e, mais recentemente, agora que o Roe vs. Wade foi revogado nos Estados Unidos, vão doar parte dos lucros dos concertos a organizações que dão acesso a interrupções voluntárias da gravidez a pessoas que não têm possibilidades. 

 

 

Eu adoro-os por isso. 

 

Consta, aliás, que uma grande parte do álbum This is Why terá sido inspirada por conversas que os membros dos Paramore foram tendo nos últimos anos acerca destas questões. Afinal de contas, os três foram nados e criados no sul dos Estados Unidos, que se caracteriza pelo extremismo cristão, pelo ultraconservadorismo, que faz as nossas avós beatas parecerem progressivas e modernas. A gente que elegeu Donald Trump, essencialmente. 

 

Aliás, apesar de os Paramore sempre terem recusado o rótulo de "Christian Rock", a música deles, sobretudo nos primeiros álbuns, está cheia de referências religiosas. Hoje em dia, os fãs culpam o antigo guitarrista e co-compositor Josh Farro por isso. São capazes de ter razão mas, para sermos justos, eles compuseram Part II após a saída dele. 

 

A relação dos três com o cristianismo será um dos aspetos que eles reavaliaram – já o sabíamos desde o ano passado. Pergunto-me se alguma das músicas novas abordará esse tema – seria interessante. 

 

Teremos de esperar para ver – ou melhor, para ouvir. Aliás, ainda temos de esperar quatro meses para ouvir o álbum todo – este só será editado a 10 de fevereiro. Sim, é um bocadinho chato – já lá vão cinco anos e meio, que diabo! No entanto, aqui entre nós, até me dá jeito em termos de gestão dos meus blogues. Ia ser complicado se saísse durante o Mundial. 

 

A data tardia do lançamento é o menos, para ser sincera, porque não gostei muito deste início de ciclo (e acho que não fui a única). O festival When We Were Young foi anunciado para agora, dia 22, 23 e 29 de outubro, no início deste ano. Mais tarde foram saindo outras datas para este outono, sendo que a maioria foi anunciada em julho. Todos sabíamos que era pouco provável os Paramore irem em digressão sem lançarem pelo menos um single. 

 

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Pois bem, eles lançaram-me This is Why a 28 de setembro, nas vésperas do primeiro concerto. Pareciam portugueses, deixando tudo para a última hora. 

 

Ainda assim, não me importaria com isso se eles não tivessem começado tão cedo com os indícios. – Quase três semanas antes, na altura em que a Rainha morreu, enchendo-nos de falsas esperanças de um lançamento daí a poucos dias. Quando foi propriamente anunciado, uma semana mais tarde, ainda faltavam quase duas semanas para o dia 28.

 

Mais incompreensível, para além da partidinha que nos pregaram com o "wr0ng" (ah ah, ainda não era desta que os Paramore recebiam o dinheiro das reproduções e do iTunes, hilariante), foi terem partilhado excertos de uma música que, conforme se veio a descobrir, não era This is Why. Com alguma pena minha pois gosto muito do que ouço nesses vídeos. E, sinceramente, não percebo a lógica – terá sido engano? 

 

Provavelmente será o segundo single – aposto que será The News. E talvez saia no dia 3 de novembro, como aparece no site oficial neste momento. Se sair, ou se sair mais algum single antes de sair o álbum (pelo menos mais um, quase de certeza), só devo escrever sobre isso num dos textos de fim de ano. 

 

E depois do já expectável milhar e meio de palavras de introdução, falemos sobre This is Why. 

 

Nem Now nem Hard Times me deixaram de joelhos quando saíram. Foram-se entranhando com o tempo, sim, mas ainda hoje não se encontram entre as minhas preferidas. Com This is Why está a acontecer mais ou menos o mesmo: precisei de ouvir algumas vezes para lhe tomar o gosto e mesmo agora não está entre as minhas preferidas dos Paramore ou mesmo deste ano. 

 

 

Ainda assim, acho que gosto mais de This is Why do que gostei de Now e Hard Times. Não tenho a certeza – já lá vão uns aninhos. 

 

Musicalmente, This is Why tem sido descrita como uma combinação do estilo de After Laughter e, um pouco, de Petals For Armor, com as sonoridades mais antigas dos Paramore. Não é uma música pesada – é dançante, rítmica, baseada mais em riffs e menos em acordes – mas é mais áspera, menos pop, que After Laughter. Nesse sentido, foi bem escolhida como primeiro avanço. 

 

Aliás, ouço imensas semelhanças com Hard Times: o ritmo, o tom falsamente animado, a letra curta, as metáforas com quedas na terceira parte, os acordes que pontuam os versos do refrão (fazem-me lembrar os que soam no final de Hard Times, entre "Makes you wonder why you even try" e "Still don't know how I even survive"). 

 

O refrão é mesmo a minha parte preferida de This is Why. Adoro as múltiplas vozes. 

 

Outro aspecto de que gosto é a longa introdução instrumental – dando tempo a Zac e a Taylor para fazerem a cena deles antes de Hayley entrar. Gosto dos padrões da bateria e das notas de baixo e guitarra. Em suma, um instrumental irrepreensível. 

 

Agora falemos sobre a letra. De uma maneira geral, This is Why fala sobre instintos misantrópicos, isolacionistas. Sobre estar-se farto de pessoas. O ponto de vista de Hayley é semelhante ao meu: no início da pandemia tinha algumas esperanças de que as dificuldades trouxessem ao de cima o melhor da Humanidade.

 

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Nalguns casos terá trazido… mas na maior parte das vezes foi o contrário. 

 

Nem é preciso olharmos para o Mundo em geral. Olhemos só para o microcosmos do futebol, por exemplo, para o último mês, mês e meio. Tivemos crianças apanhadas no fogo cruzado das rivalidades clubísticas cá em Portugal. Em Java, na Indonésia, morreram cento e setenta e quatro pessoas e outras tantas ficaram feridas durante uma invasão de campo. Na Argentina morreu uma pessoa num incidente parecido, que envolveu confrontos entre polícia e adeptos. 

 

Pegando no argumento acima, seria de esperar que, após meses de futebol em estádios vazios ou de lotação limitada, quando os adeptos voltassem à bola fariam por serem civilizados. 

 

Ainda há pouco tempo saiu um estudo demonstrando que a maior parte das pessoas, sobretudo jovens adultos, sofreu desenvolvimento carácter negativo com os eventos dos últimos anos. Este artigo fala em "declínios na extroversão, abertura, amabilidade e consciência". No que toca a este género de ciência pop, é sempre necessário dar um desconto, claro. Mas a verdade é que o estudo condiz com a nossa percepção: estamos todos piores e tornamo-nos uns aos outros piores. 

 

A letra de This is Why reflete essa diminuição da extroversão: "This is why I don't leave the house". Hayley faz logo uma entrada a pés juntos: "If you have an opinion, maybe you should shove it". 

 

Temos aqui um problema semelhante a Hard Times: a letra é um pouco curta demais e, fora do contexto, pode ser mal interpretada. Pode parecer intolerância, recusa em aceitar opiniões diferentes das suas – precisamente um dos comportamentos que a banda diz criticar. É interessante compararmos This is Why com Ain't it Fun: "It's easy to ignore trouble when you're living in a bubble". Uma das mensagens de Ain't it Fun e do Self-titled em geral diz respeito à necessidade de sairmos das nossas zonas de conforto, das nossas casas, de modo a podermos crescer, expandir o nosso mundo. 

 

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Dito isto… eu percebo. Em teoria sim, temos de ter mentes abertas, conversar com o outro lado, ouvir o que eles nos têm para dizer. Na prática, é difícil. É preciso que o outro lado esteja disposto a fazer o mesmo e isso nem sempre acontece. Além de que este tipo de conversas exige tempo e energia que nem todas as pessoas têm. 

 

E sobretudo, pelo menos no que toca às redes sociais, o jogo está viciado. Conforme explicado aqui na vizinhança, os algoritmos tendem a favorecer polarização, opiniões instantâneas e inflamadas, "da boca para fora", que suscitem likes, partilhas, guerras nas caixas de comentários ("Dare to have conviction 'cause we want crimes of passion"). João Ferreira Dias só refere o Facebook mas o mais certo é o mesmo passar-se com o Twitter, o Tik Tok, o YouTube e companhia. Em resposta – e eu mesma sou culpada disso – agarramo-nos aos nossos pontos de vista. Caímos nas chamadas "câmaras de eco", em que só recebemos notícias que confirmem as nossas convicções. Encaramos opiniões contrárias como ameaças, como ataques pessoais ("You're either with us or you can keep it to yourself"). 

 

Quando é assim, o melhor é não jogarmos ou arriscam-nos a fazer parte do problema. Os membros dos Paramore abandonaram o jogo há algum tempo – é raro eles mesmos usarem as redes sociais. 

 

Quanto a mim, faço por jogar segundo as minhas próprias regras. No meu "feed" do Twitter, os tweets aparecem por ordem cronológica e não por destaques – nem imaginam a diferença que faz, recomendo fortemente. Procuro evitar dar "opiniões instantâneas" – não é raro sair uma notícia qualquer que nos suscita uma reação, apenas para serem divulgados pormenores horas mais tarde, que mudam o contexto do caso. Tento usar as redes sociais quase só a propósito dos meus interesses e para contactar com família e amigos. 

 

Não tenho tido sempre um comportamento exemplar nas internetes, admito. Mas, por estes dias, tento ter. Ajuda muito não ser uma figura pública, não ter uma data de pessoas à espera que eu cometa um deslize para me cancelarem, e nunca ter sido alvo de cyber bullying até agora. 

 

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Em todo o caso, agora quero ouvir o resto do álbum, para ver como é que este primeiro avanço se encaixa. Sobretudo tendo em conta que foi a última a ser composta e, segundo Hayley, traduzir a mensagem essencial de This is Why enquanto álbum. 

 

Aliás, adoro a maneira como a tracklist foi divulgada: escondida nas t-shirts que vendem nos concertos, estilo caça ao tesouro. Nem a Taylor Swift alguma vez se lembrou desta! 

 

E é tudo o que tenho a dizer sobre This is Why, pelo menos para já. Agora, nos próximos parágrafos, vou virar os holofotes para mim mesma, isto vai assemelhar-se a uma página do meu diário. Se não estiverem interessados, podem clicar noutro sítio, não levo a mal. 

 

O lançamento deste single marcou o fim de um setembro muito intenso para mim, sobretudo nos dias imediatamente antes. Aconteceu muita coisa na minha vida: estive uma semana de férias no Algarve, publiquei um texto novo aqui no blogue, tivemos dois jogos da Seleção, tive um "sunset", um concerto dos Simple Plan e dos Sum 41 (com Cassyette a abrir), vi Digimon Adventure Last Evolution Kizuna dobrado em português… duas vezes. 

 

Já que falo nisso, rever Kizuna um ano e meio depois não doeu, pelo menos não tanto como as primeiras vezes, mas foi outra vez uma catrefada de emoções, tive de passar de novo pelo processo de digestão e ainda não terminei. 

 

Acho que este filme irá sempre mexer comigo, mesmo depois de sair The Beginning. 

 

 

Quanto à dobragem em si? Adorei. O elenco português fez um excelente trabalho. A minha voz preferida é a da Menoa, por Vera LimaDeixo uma amostra acima (sem Menoa, infelizmente).

 

Muitas das coisas que listei acima ocorreram em menos de uma semana. Atrasei-me com o meu texto sobre música portuguesa e passei um par de dias em stress para publicar no meu outro blogue antes dos jogos da Seleção. No sábado dia 24 de manhã, publiquei a crónica pré-jogos. À noite tive o tal sunset enquanto decorria a vitória de Portugal sobre a Chéquia. No domingo de manhã vi Kizuna nos cinemas pela segunda vez. Na segunda-feira tive o concerto. Na terça-feira Portugal perdeu com a Espanha e falhou a final four da Liga das Nações. Finalmente, na quarta-feira saiu This is Why. 

 

Foram muitas emoções diferentes em poucos dias: alegria, tristeza, stress, frustração, comunhão, desilusão, Kizuna. Houveram dias em que bebi café a mais, tive insónias a meio da noite e escrevi em modelos desatualizados de receitas manuais. Ainda não sei se irei partilhar o que escrevi – a minha versão de Midnights? 

 

Já não estava habituada a isto – sobretudo depois de dois anos e meio de pandemia. Terá acontecido mais naquela meia semana do que num ano ou dois. Coisas que não puderam acontecer durante muito tempo porque Covid. Foi bom. 

 

E não acabou aqui, na verdade. Este texto foi quase todo escrito durante uma viagem a Paris e a Zurique. Foi a primeira vez que vim ao estrangeiro desde antes da pandemia, tirando uma visita rápida a Salamanca há um ano. Não foi tão intenso como aqueles dias no final de setembro, mas foi ótimo. 

 

This is Why veio, assim, num momento feliz da minha vida. Aliás, Setembro foi um mês em que me fartei de descobrir ou redescobrir música, de diferentes formas e por diferentes motivos. Assim, compilei a playlist abaixo para captar, pelo menos em parte, a montanha-russa de emoções que foram aqueles dias. Deem uma espreitadela.

 

 

Entretanto vou ganhar vergonha na cara e tentar publicar pelo menos um dos textos que tenho em atraso antes do Mundial. 

 

Como sempre, obrigada pela vossa visita. Continuem desse lado.

Digimon Frontier #9 – Crise de Identidade

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Não preciso de falar sobre o papel da música em Digimon. Qualquer análise da franquia que eu faça aqui no blogue tem de incluir no mínimo uma referência a música – ou, no caso destas análises longas, uma secção. 

 

Esta é a primeira temporada em Digimon em que não gosto do tema principal de digievolução. O que é uma pena, pois With the Will é o primeiro cantado por Wada Kouji. Não quero dizer que seja má – sei que alguns gostam e, afinal de contas, dá nome a um conhecido site de fãs. Apenas não clicou comigo. 

 

The Last Element, que soa nas digievoluções Extremas e com o Susanoomon, é uma história diferente, no entanto. Muito mais agradável ao meu ouvido, sobretudo o início: as notas eletrónicas no fundo, a guitarra elétrica, o ritmo que abranda e acelera de novo. O início é sempre a parte mais importante no que toca a temas de digievolução, por motivos óbvios, e nesse aspeto The Last Element cumpre muito bem. Mas o resto também está bem conseguido, sobretudo o refrão.

 

Regra geral, não costumo ligar muito às chamadas “character songs”, mas queria falar de duas. A primeira é Salamander, o tema de Takuya, uma das que mais gosto em Fronteira. Funcionaria bem como um tema de abertura. Gosto muito do momento em que soa, no episódio da corrida dos Trailmon. 

 

Por outro lado, a música merecia soar num momento mais significativo da história de Takuya – por exemplo, quando decide regressar ao Mundo Digital – em vez de ser relegada para um mero filler

 

Eu gostava do tema de Kouichi, With Broken Wings, quando o ouvia em episódios como o 33. Um tema blues rock, adequado à personagem e àquela parte da história. No entanto, quando fui ouvir a versão completa da música, apanhei uma desilusão: esta a meio adota um estilo completamente diferente, estraga tudo. 

 

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Falta falarmos sobre a abertura e os encerramentos – deixei-os para o fim deliberadamente. Fire é muito fixe. Todas as aberturas até aqui têm sido boas, mas ainda assim Fire é uma das melhores. É melhor que The Biggest Dreamer, de Tamers. Estará mais ou menos ao nível de Target e Butter-fly, embora seja difícil fazer comparações com esta última. Por um lado é icónica, por outro é demasiado batida, é difícil sermos isentos sobre ela. 

 

Existe uma versão de Fire apenas com piano e voz. Fiquei a conhecê-la com a dobragem portuguesa do último episódio de Fronteira. Não sei se isso aconteceu com a emissão original dos episódios na SIC e/ou Canal Panda ou se foi uma gracinha do PTDigi, mas eles substituíram a abertura normal por esta versão, o que foi bem sacado.

 

É bonita. À semelhança do que já tinha acontecido com Butter-fly, a música ganha uma emotividade diferente sob esta forma.

 

Não adoro a versão portuguesa de Fire, mas não ficou má. Como já aconteceu antes, é uma mulher – a cantora Ana Vieira – a cantar uma melodia composta para um homem. Ainda assim, Ana fez um bom trabalho com ela.

 

Só tenho pena que não tenham escrito a letra de modo a condizer com o “lip syncing” dos miúdos, durante a sequência de abertura (um pormenor de que sempre gostei).

 

Diz que o segundo encerramento de Fronteira, An Endless Tale, é a última contribuição de AiM em encerramentos até Tri, o que é um bocadinho triste. Este tema é um dueto entre ela e Wada Kouji. Faz-me lembrar Aikotoba, do quinto filme de Tri, embora An Endless Tale seja uma power ballad mais clássica e, tenho de admiti-lo, menos original. Nesse aspeto, prefiro o carácter mais intimista de Aikotoba. Também acho que Fronteira usou An Endless Tale um bocadinho em excesso. No entanto, adequou-se perfeitamente à cena final e ao epílogo, que discutimos no texto anterior.

 

 

Deixei o primeiro encerramento de Fronteira – Innocent ~ Mujaki na mama de ~ – de propósito. É a minha música preferida desta temporada. Não sei explicar exatamente porquê mas vou tentar. Uma parte é pura e simplesmente a melodia e o acompanhamento musical, muito agradáveis ao ouvido. Mas acho que será também o carácter agridoce, a conjugação entre a sonoridade alegre e luminosa e a letra melancólica, ainda que esperançosa.

 

Só tenho uma pequena falha a apontar. A letra fala sobre estar longe de quem se gosta, o que não encaixa na história de Fronteira. Não há companheiros Digimon sendo deixados para trás. Mesmo os miúdos nunca chegam a separar-se ao ponto de terem saudades uns dos outros.

 

Não consigo escolher entre a versão original de Innocent, cantada por Wada Kouji, e a versão dobrada em português, cantada uma vez mais por Ana Vieira – dei o título Volta P’ra Ti ao ficheiro áudio no meu telemóvel. À primeira não gostei muito, mas entranhou-se rapidamente – de tal maneira que passei o resto do verão passado absolutamente obcecada por esta música. Ana tem uma bela voz e adoro a interpretação dela. Também gosto do facto de a letra ser uma tradução bastante fiel da Innocent original.

 

Por fim, o risinho de Ana na conclusão parte tudo. 

 

O que me leva à dobragem portuguesa em geral. Não é má, ainda que não seja tão boa como a dobragem de Tamers. E mesmo assim sempre tem os seus pontos fortes, como a voz da Lucemon que referi antes. Por estes dias não sou demasiado dura com as dobragens portuguesas – regra geral, não têm um orçamento tão generoso como outros países. 

 

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Queria falar agora sobre os nomes dos Digimon, que, como o costume, diferem entre a dobragem nipónica original e as influenciadas pela dobragem americana, como a nossa. Temos coisas boas e coisas más aqui. Por um lado, a dobragem original já incluía referências óbvias a Adventure ao incluir variações de Greymon e Garurumon nas linhas digievolutivas do Agnimon e do Wolfmon. A dobragem vai ainda mais longe, não só ao chamar BurningGreymon ao Vritramon, por exemplo, mas também ao incluir referências semelhantes nas outras linhas, Como, por exemplo, chamar MetalKabuterimon ao Bolgmon ou KaiserLeomon ao JagerLoweemon (o que, nesta fase, já é mau gosto).

 

Por outro lado, alguns nomes americanos são melhores que os originais. Os produtores deviam estar com pouca imaginação quando criaram nomes tão insonsos como Wolfmon, Fairymon e Shutumon. Lobomon sempre é um bocadinho mais interessante – e simpático para nós, que falamos português – e Kazemon e Zephyrmon são muito fixes, talvez dos melhores nomes em Fronteira.

 

Aliás, acho que, se não fosse a sexualização desnecessária, a linha da Fairymon seria a minha preferida.

 

E com isto já abordei todos os aspetos de Fronteira que queria. Na minha opinião, o principal problema desta temporada, que explica muitas das suas falhas, resume-se a isto: Fronteira não sabe o que é, o que quer ser. Não se decide entre ser uma história de profundidade semelhante às temporadas anteriores ou se quer ser uma história menos sombria, mais “kid friendly”

 

Daí os paradoxos todos. Um elenco de heróis em que quatro têm passados simples (e, segundo consta, os produtores quiseram mesmo seguir tropos habituais de anime) e dois têm dos passados mais retorcidos de todo o anime de Digimon – que, mesmo assim, não foi abordado de forma completamente satisfatória. Um Mundo Digital com uma história rica, com racismo fantástico, política, Power Players teoricamente do lado dos bons com atitudes questionáveis… e tudo isso se traduz em meros conflitos bem versus mal, sem quaisquer nuances (tirando o caso do Duskmon/Kouichi).

 

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Além disso, os vinte primeiros episódios da temporada, mais coisa menos coisa, foram muito leves, mesmo parvos nalguns momentos ("parvo" não é obrigatoriamente uma coisa má), mas depois os quinze episódios seguintes ganham quase literalmente um filtro escuro – que nem sequer é devidamente aproveitado para desenvolver as personagens. E depois temos os Cavaleiros Reais. Ou seja, só um terço da temporada, mais coisa menos coisa, pode ser considerada “leve”. 

 

Por fim, o fator Takuya-e-Kouji-mais-quatro pode não ter diretamente a ver com esse paradoxo, mas certamente não ajudou – anulando os benefícios da jogada arrojada de cortarem com os companheiros Digimon, como vimos antes.

 

É possível que, no início do planeamento de Fronteira, a ideia era esta ser uma temporada semelhante a 02 ou Tamers em termos de complexidade e seriedade. No entanto, depois da famosamente sombria reta final de Tamers, os produtores de Fronteira poderão ter recebido instruções para tornar a história menos pesada – com razão porque, por muito que goste de Tamers hoje, não sei se teria gostado tanto se a tivesse visto em miúda. Os digiguionistas terão feito o melhor que conseguiram.

 

Mas isto sou só eu a especular. Há quem diga nas internetes que o desenvolvimento de Fronteira teve algumas complicações nos bastidores, mas não encontrei nenhuma prova em concreto. 

 

Nesse aspeto, o Reboot de Adventure foi melhor conseguido como uma versão mais leve de Digimon. Adventure 2020 tem algumas semelhanças com Fronteira – um Mundo Digital com um passado de conflitos, Seraphimon, Cherubimon e Ophanimon como Power Players, companheiros Digimon como reencarnações de antigos guerreiros – mas o enredo e as personagens são ainda mais superficiais. Em claro contraste com o elenco original de Adventure, como referi há pouco tempo numa caixa de comentários, as personagens descrevem-se com uma frase: Taichi nunca desiste, Sora é uma típica menina heroína de ação, Koshiro é o cérebro, Mimi é a neta do Rui Nabeiro, etc. 

 

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Em suma, muita parra e pouca uva, muito espetáculo e profundidade quase zero. Como especulam aqui, este Reboot terá tido uma população-alvo mais jovem que a habitual para Digimon.

 

Adventure 2020 pode ser mais consistente nas suas intenções, mas eu ainda assim prefiro Fronteira. Mal por mal, Fronteira tinha muito mais ambições. Tentou. Respeito-a por isso, mesmo não tendo conseguido cumprir.

 

Não que me ressinta do Reboot por não ter feito o mesmo. Este pura e simplesmente não era para mim, que já estou na casa dos trinta e que, mesmo em miúda, preferia as camadas mais profundas do anime de Digimon. Sempre deu para entreter, sobretudo por ter coincidido com o primeiro ano e meio da pandemia. E foi suficientemente bem sucedida para dar luz verde à arrojada Ghost Game.

 

Regressemos a Fronteira e àquilo que falei na introdução desta análise. Sim, esta temporada deu um tombo significativo em termos de qualidade, comparada com as suas antecessoras – sobretudo em relação à excelente Tamers. Esta e Adventure continuam a ser as minhas temporadas preferidas e, sobretudo, os meus elencos preferidos. Não desgosto dos miúdos de Fronteira (tirando Junpei) mas, ao contrário dos miúdos de Adventure, Tamers e mesmo 02, não guardo nenhum deles no coração. 

 

Por outro lado, se isso é uma coisa boa ou má é questionável. Nos últimos anos o facto de adorar os elencos de Tamers e sobretudo Adventure só me tem trazido mágoa. Mais sobre isso já a seguir. 

 

Se Fronteira merece o constante “roast” do pessoal do Digimon PT? Não. Como foi sendo assinalado, Fronteira tem várias qualidades redentoras, não a classificaria como “má”. Se é para bater nalguma temporada, o Reboot merece mais. 

 

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E penso que já disse tudo o que queria sobre Fronteira. Eu devia referir o seguinte mais vezes, mas as opiniões que expressei nesta análise – bem como quaisquer outras que exprima aqui neste blogue – não estão gravadas em pedra. Estas irão evoluir com o tempo. E, claro, vocês estão à vontade para questionar e discordar. É para isso que servem os comentários, estou disponível para continuar a conversa.

 

Queria deixar aqui algumas notas sobre a atualidade de Digimon em termos de anime. Já ficaram as minhas impressões sobre o Reboot uns parágrafos acima. Antes dizia que faria uma análise longa ao Reboot, estilo esta, mas mudei de ideias. Essa temporada não dá sumo suficiente. Talvez mude de ideias de novo no futuro, mas duvido. 

 

Ghost Game é o anime de Digimon em decurso no neste momento. O conceito é excelente: essencialmente Digimon versão terror. Terror adequado a menores de 12 anos, mas mesmo assim precisei de me adaptar, que esse género de histórias nunca foi a minha praia. 

 

De início soube muito bem, depois de um Reboot tão desenxabido. No entanto, Ghost Game já foi melhor. A novidade dos elementos de terror já se dissipou há muito, a história está demasiado episódica. O enredo marco nunca foi muito claro e passámos de pistas pontuais a pistas nenhumas. O elenco de heróis começou semi-interessante, mas tem dado pouco para a caixa (embora o último episódio, focado em Ruli, não tenha sido nada mau). Em todos os episódios temos Digimon criando o caos, atacando civis, por vezes matando-os – e ninguém, tirando os nossos heróis, se rala. Yamaki, no universo de Tamers, ativou o Shaggai por muito menos. 

 

Ghost Game ainda vai mais ou menos a meio – vá lá, já estará na segunda metade – ainda vai a tempo de se redimir. Consta, aliás, que o enredo deverá adensar-se em breve. É bom que o faça. Reservo as minhas opiniões finais para mais tarde. 

 

Aliás, é possível que Ghost Game tenha direito a análise longa aqui no blogue. Ainda não decidi se a escrevo mal Ghost Game chegue ao fim ou se avanço para Savers/Data Squad. Não será tão cedo, de qualquer forma. Passei muito tempo a preparar esta análise (a minha segunda maratona de Fronteira, já com papel e caneta, começou há pouco mais de um ano, mesmo com longas pausas pelo meio). Preciso de uma pausa de Digimon aqui no blogue.

 

 

Entretanto, estão a acontecer coisas giras. A maior de todas é a exibição de Digimon Adventure Last Evolution Kizuna nos cinemas portugueses (spoilers ligeiros nos próximos parágrafos). Em português de Portugal. Com as mesmas pessoas que dobraram Adventure e 02 há vinte anos ou mais. 

 

Vamos chorar em português.

 

Eu ainda nem acredito que isto vai mesmo acontecer. Nem sequer me lembro da última vez que houve um evento de Digimon com alcance próximo de mainstream cá em Portugal. Se me contassem esta há meia dúzia de anos…

 

Estou um bocadinho arrependida de não ter esperado para ver Kizuna pela primeira vez agora. Mas também não sei se conseguiria evitar spoilers durante dois anos e meio. 

 

Infelizmente a estreia do filme tem sofrido vários adiamentos. De início ia estrear-se a 9 de junho. Para mim não era ideal: ainda estava a meio desta análise. 11 de agosto era uma boa data para mim – dava-me tempo para concluir esta análise e era perto do Odaiba Memorial Day, o que seria adequado. 

 

Mas agora há dias anunciaram novo adiamento, para 8 de setembro… e essa sim, deixou-me chateada. Agora que as pessoas começavam a reparar nos cartazes e eu começava a sentir-me entusiasmada… Ainda por cima, estou de férias fora de Lisboa nessa altura, não me dará jeito ir ao cinema. Talvez consiga ir no fim de semana seguinte mas, mesmo assim… é chato. Não havia necessidade.

 

 

Ao menos terei mais de um mês para limpar o palato, depois de tanto tempo imersa no universo de Fronteira. E pode ser que setembro dê mais jeito a algumas pessoas. Mas chega de adiamentos, por favor!

 

Esta será a primeira vez que verei Kizuna desde a minha análise, no início de 2021. Vou ser sincera, estou com um bocadinho de medo de reabrir a ferida. Desta vez não estarei sozinha, ao contrário da primeira vez que vi o filme. Se isso é uma coisa boa ou má é questionável: por um lado, chorar perante estranhos não costuma ser divertido. Por outro lado, se houverem lágrimas da minha parte, essas não serão as únicas. Sobretudo tendo em conta testemunhos como estes

 

Em todo o caso, vou levar lencinhos, tanto para mim como para oferecer a quem precise. E talvez uma bebida. E o meu bonequinho da Biyomon para abraçar. 

 

Um consolo para quem vá ver Kizuna pela primeira vez é saber que teremos em breve uma sequela. Já tinham dado pistas no ano passado. O filme chamar-se-á Digimon Adventure 02: The Beginning (O Início), decorrerá dois anos depois dos eventos de Kizuna, terá Daisuke e V-mon como protagonistas e focar-se-á na primeira pessoa a ter um companheiro Digimon.

 

É altamente provável que seja este filme a “corrigir” o final de Kizuna e a fazer a ponte com o epílogo de 02. A premissa parece encaixar-se. Aposto que a primeira pergunta que farão a esse misterioso primeiro Escolhido será “O que aconteceu ao teu companheiro Digimon?”. A história seguirá a partir daí. 

 

Por um lado, fico entusiasmada. Mais um filme no universo de Adventure, com personagens que adoro, mais uma análise aqui no blogue. E possivelmente mais um filme para dobrarem em português de Portugal.

 

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Por outro lado, estou com medo. Levei imenso tempo a recuperar de Kizuna. Acho que ainda não o fiz por completo. Não preciso de outro filme mexendo com as minhas emoções dessa maneira – sobretudo se este também não tiver um final feliz.

 

Uma parte de mim, aliás, está ressentida com tudo isto. Com a Toei insistindo em ordenhar desta vaca, insistindo em brincar com o final feliz de 02 e Tri, enviando mensagens contraditórias. Kizuna dizendo-nos para deixarmos Adventure e as nossas infâncias para trás, mas a Toei não fazendo o mesmo. 

 

Mas pronto, este é o meu lado mais amargo a escrever. Diz que deveremos descobrir mais sobre The Beginning este fim de semana, durante as celebrações do DigiFest. No entanto, a ideia que tem passado é que o filme demorará algum tempo a estrear. 

 

Não me importo. Não tenho pressa. Pensar que por esta altura, há três anos, estávamos a celebrar a presença do elenco de 02 em Kizuna. Eles foram uma bênção nesse filme, como escrevi na altura, mas agora merecem estar no papel principal. 

 

E chegámos ao fim. Isto foi divertido. Mesmo não tendo gostado tanto de Fronteira como de outros trabalhos, é sempre um prazer escrever sobre Digimon. Mas agora estou contente por poder partir para outra, depois destes meses todos.

 

Obrigada por todas as visitas e comentários. Os meus parabéns a Fronteira e aos seus fãs pelo vigésimo aniversário. 

 

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Digimon Frontier #7 – O choramingas, o enfeite, o stalker

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Julgo que esta não é uma opinião popular – e de resto, pela parte que me toca, não está gravada em pedra – mas Tomoki é a minha personagem preferida em Fronteira. Não significa que o adore – não adoro nenhum dos miúdos deste elenco, o que é um bocadinho triste. Mas é com Tomoki que eu mais me identifico. 

 

Não me surpreende não ver muita gente citando Tomoki como uma personagem de que gostam. Ele não é o género de personagens de que uma audiência infantil goste muito: não é confiante, não é particularmente corajoso e é um pouco choramingas, sobretudo na primeira metade da história. Por outras palavras, é um miúdo realista.

 

Nesse aspeto, Tomoki tem algumas semelhanças com Takato, outra personagem que não se encaixa perfeitamente nos arquétipos do género – ainda que no caso dele se note mais por ser o gogglehead – e por ser outro com quem me identifico. Diz bastante sobre mim, não é? Revejo-me em personagens inseguras e “choramingas”. Por outro lado, são personagens que se vão tornando mais fortes ao longo da história. Gosto de pensar que o mesmo tem acontecido comigo.

 

No início da história, Tomoki é o único que não veio de livre vontade para o Mundo Digital (tirando Kouichi, mas ele só se torna relevante muito mais tarde). Foi literalmente empurrado para dentro do Trailmon. Tomoki é o mais novo do grupo, vítima de bullying, um tudo nada mimado demais pelos seus pais e o que mais tem dificuldades em adaptar-se à vida no Mundo Digital. Uma vez mais, nada disto é irrealista num miúdo de nove anos.

 

Um aspeto interessante é que Tomoki tem plena consciência das suas limitações. Um dos motivos pelos quais, depois de lhe abrirem uma porta para regressar a casa, Tomoki escolhe permanecer no Mundo Digital é precisamente porque ele quer tornar-se mais forte. Chega mesmo a dizer que os pais apoiariam essa decisão se soubessem. Vários episódios mais tarde, quando os dispositivos dos rapazes são roubados e ele tenta recuperá-los, Tomoki está mais preocupado com os de Takuya e Kouji do que com o seu. 

 

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E a verdade é que a narrativa não procura desenganá-lo. Deixa bem claro que Takuya e Kouji são os únicos que interessam, como temos vindo a assinalar. É um dos aspetos infames em Fronteira, mas dentro do universo Tomoki aceita-o sem problemas.

 

Já tinha referido no texto anterior que adoro a maneira como Takuya e Tomoki se adotam um ao outro como irmãos, assumindo papéis a que estão habituados. Takuya traz ao de cima o lado heróico de Tomoki: veja-se a maneira como o mais novo desbloqueia o seu Espírito Humano.

 

Ao mesmo tempo, no episódio de Tomoki do arco de Sephirotmon, descobrimos que o seu irmão mais velho, Yutaka, ocupa na família uma posição semelhante à de Takuya: de irritação por o mais novo levar com demasiada indulgência. Em retrospetiva, Tomoki de início pensa que o irmão tem ciúmes dele ​​– isso talvez fosse verdade se Yutaka fosse mais novo, mas Tomoki refere noutro episódio que o irmão já está na faculdade, ou seja, terá dezoito anos. Se tem ciúmes de um miúdo com metade da sua idade, alguma coisa estará mal. 

 

O mais certo é as queixas de Yutaka partirem de preocupações honestas com o irmão mais novo. Yukata acusa Tomoki de não saber fazer nada sozinho e de estar à espera que esteja lá sempre alguém para lhe fazer a papinha toda. Isso poderá acontecer enquanto os pais estiverem lá, mas o mundo real não funciona assim (Alexa, toca Ain’t It Fun dos Paramore).

 

Ora, Tomoki tem apenas nove anos. Em circunstâncias normais, ainda é um bocadinho cedo para o obrigarem a ser independente. Ainda assim, ainda tirando o fator Mundo Digital da equação, Tomoki é vítima de bullying e não tem amigos. 

 

No que toca à primeira questão, por princípio discordo com argumentos que colocam a responsabilidade pela situação na vítima. Ainda assim, pode-se argumentar que a indulgência dos pais de Tomoki já está a causar danos. Que se tornam ainda mais evidentes quando o jovem vem para o Mundo Digital, onde é obrigado a lutar com as próprias mãos (este é outro conflito interno que não poderia ocorrer, ou ocorreria de maneira diferente, se existissem companheiros Digimon neste universo). Aliás, o argumento de Yutaka não é muito diferente do de Kouji no episódio 7, que comentámos no texto anterior. 

 

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Assim, Tomoki percebe finalmente o que o irmão mais velho queria dizer. E promete a si mesmo dizer-lho quando regressar a casa. 

 

A evolução de Tomoki fica concluída durante o arco dos Cavaleiros Reais, quando se descobre que os antigos bullies fazem parte do segundo grupo de miúdos que veio parar ao Mundo Digital. Estes de início procuram intimidar o mais pequeno de novo, tentando convencê-lo que ele é demasiado fraco para o Mundo Digital e que devia regressar a casa. No fim, porém, Tomoki vence-los salvando-lhes o couro (eu tê-los-ia deixado às aranhas um bocadinho), provando que já não é o mesmo miúdo frágil que eles empurraram para dentro do Trailmon.

 

Tomoki pode não ser o grande herói de Fronteira e pode, à semelhança dos não-Takuya-ou-Kouji, ter-se tornado irrelevante no último terço da história. No entanto, ao longo da história, tornou-se numa versão mais heróica de si mesmo. Às vezes isso é suficiente.

 

Vamos agora falar das personagens de que menos gosto no elenco de heróis. No primeiro caso isso não é por culpa própria. Deverá ser das personagens sobre a qual tenho mais a dizer… mas não por bons motivos.

 

Izumi é a única rapariga no elenco de heróis. Isso já de si é um sinal de alarme – todas as temporadas anteriores tinham pelo menos duas raparigas heroínas (As meninas também gostam de Digimon!). Mas a maneira como Fronteira trata a sua única personagem principal feminina deixa muito a desejar – e estou a ser simpática. 

 

Penso que não é a primeira vez que admito aqui que, em análises anteriores, fui demasiado crítica em relação ao tratamento recebido pelas personagens femininas em Digimon. Além disso, Tamers tinha dado vários passos em frente ao incluir Ruki e Juri, duas personagens femininas muito bem construídas. Fronteira, no entanto, anulou esses progressos e recuou ainda mais ao fazer de Izumi, a) a única rapariga, b) praticamente sem desenvolvimento, c) excessivamente sexualizada, d) de longe a mais inapta.

 

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Podemos começar por falar das digievoluções de Izumi? Sobretudo da Fairymon? Esta não é a primeira vez nem será a última que temos o Digimon com o aspeto de uma mulher em trajes menores, claro que não. Quando falamos de Digimon “puros”, por norma não sou muito comichosa em relação a isso. Vocês estão à vontade para discordar, mas na minha opinião, em termos de progressão de maturidade, é difícil traçar paralelismos entre Digimon e humanos. Depende de muitos fatores, começando pelo universo: no universo de Adventure, é dado a entender que, regra geral, a maturidade avança com o nível de digievolução. A única exceção é Meicoomon, que de resto é um caso à parte em muitos aspetos.

 

Assim, até agora, os principais exemplos de sexualização não eram assim tão questionáveis. Tanto Tailmon como Renamon têm uma maturidade acima da média.

 

No entanto, no que toca a Izumi, estamos a falar de uma menina de onze anos no máximo essencialmente vestindo o corpo de uma mulher adulta. Uma mulher adulta usando lingerie. Nem sequer é um visual interessante: as fatiotas da Angewomon e da Rosemon ao menos são engraçadas. Além disso, é uma péssima indumentária para ir à luta, já que deixa todos os órgãos vitais desprotegidos. 

 

Tecnicamente já tinha acontecido o mesmo com Ruki em Tamers, mas, em primeiro lugar, Sakuyamon foi muito menos sexualizada (o único caso mais questionável foi aquela ocasião em que deixou cair a armadura). Em segundo lugar, era a fusão de Ruki e Renamon: quem determina onde acaba uma e começa a outra?

 

Com Izumi é menos ambíguo. Tecnicamente esta estará a ser possuída por uma entidade externa, como vimos antes, mas fica bem claro que é ela quem controla o corpo e toma as decisões. Uma criança. 

 

Se mesmo assim precisássemos de mais argumentos, basta referirmos as infames cenas imaginárias do episódio 15. Estamos a falar de uma menina de onze anos, uma criança. Nem sequer uma adolescente pós-puberdade, uma criança. Nojento!

 

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Eu até poderia tolerar (bem… mais ou menos) este tratamento se, adicionalmente, não tivessem tornado a personagem tão incompentente, a pior do grupo. 

 

Começando logo pelo quarto episódio. Izumi encontra o seu Espírito Humano, como todos os outros, digievolui e tal. No entanto, não vence o combate – tem de vir Kouji vencer a luta por ela e capturar o DigiCódigo. Na estreia de uma digievolução! Uma ocasião em que, nalguns casos, os digiguionistas forçam as circunstâncias de modo a dar ao miúdo em questão o seu momento de glória (como, por exemplo, no episódio 26 de Adventure. O Vandemon ataca o grupo mas aquele é o episódio de Sora, logo, só deu Garudamon – apesar de nesta altura já três dos miúdos tinham desbloqueado formas Perfeitas). Izumi não tem direito nem a essa pequena cortesia. 

 

E infelizmente este episódio dá uma boa indicação do tratamento que a jovem recebe no resto da temporada. 

 

Izumi apenas se destaca pela positiva em dois aspetos. Em primeiro lugar, por ser a única com um controlo perfeito sobre a sua forma Animal. Sempre é alguma coisa, mas eu suspeito que isso se deva, pelo menos em parte, ao facto de a Shutumon ter características mais Humanas que a maior parte das formas Animais. Parece mais um Espírito Híbrido na verdade.

 

Já que falo nosso, descobri há pouco tempo que existem formas Híbridas para as outras linhas que não a do Agnimon e do Wolfmon. Por final, Jet Silphymon, a forma Híbrida da Fairymon, é muito fixe. Aproveito para dizer que deviam ter deixado Izumi, Junpei e os outros desbloquearem as formas Híbridas durante o arco do Sephirotmon. 

 

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E com isto desviei-me ligeiramente. Regressemos a Izumi. O segundo único momento positivo da jovem é quando derrota Ranamon sozinha. Não é um feito menor – Tomoki não se pode gabar de ter feito um Guerreiro Lendário regredir até ao estado de DigiOvo. 

 

Mas mesmo a rivalidade entre Ranamon e Izumi tem os seus problemas. Como referimos antes, Ranamon define-se pela sua beleza e implica com Izumi sobretudo porque acha que a jovem é mais bonita do que ela – uma opinião que é reforçada por terceiros como os Toucanmon, que a certa altura Ranamon recruta mas que trocam de lado quando descobrem que a forma Animal dela, Calamaramon, é “feia”. É daqueles tropos misóginos tão velhos como o tempo mas que deviam ser enterrados de vez.

 

Aquando destas duas vitórias, Izumi debita clichés de girl power – como se isso nos fizesse esquecer a forma como a jovem é tratada no resto da história. Além disso, por muito que tenha a apontar ao tratamento recebido por outras personagens femininas antes de Izumi, nunca faltaram momentos fortes com elas. Seja Shaochung recusando-se a deixar Lopmon ou Ai reconhecendo os seus erros com Impmon. Para não falar de outros mais óbvios, como Sora cuidando dos amigos às escondidas, Mimi procurando maneiras menos violentas de salvar o Mundo Digital, Hikari finalmente fazendo frente ao irmão, Miyako puxando Hikari para a luz, Meiko lutando por Meicoomon, Ruki… sempre que aparece no ecrã, Juri… sempre que aparece no ecrã. 

 

Nenhuma delas precisou de justificar estes momentos dizendo que foi porque as mulheres são isto ou aquilo. Elas limitaram-se a ser elas mesmas. 

 

À parte isto tudo, Izumi como personagem até tem algumas premissas interessantes. Como o facto de ser filha de emigrantes em Itália. Na versão original, os ataques de Fairymon são em italiano. Tenho pena que a dosagem portuguesa não tenha mantido esse pormenor. 

 

Izumi é também outra personagem com dificuldade em fazer amizades. Sente necessidade de companhia, mas não se quer esforçar por se integrar num grupo e socializar – o que é muito eu. 

 

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No entanto, isto é uma coisa que Izumi diz, não tanto uma coisa que ela faz. Tirando alguma fricção natural nos primeiros episódios, Izumi encaixa-se relativamente bem no grupo, não exibe comportamento anti-social nem se separa de livre vontade do grupo. Não que isso não seja plausível – eu também sou introvertida, mas se fosse parar ao Mundo Digital também não quereria venturar-me sozinha, sobretudo se não tivesse companheiro Digimon. E pode ter sido o facto de Izumi ter sido obrigada a permanecer com o grupo que a tornou menos anti-social.

 

Ainda assim, Fronteira podia ter explorado melhor este aspeto. 

 

Outra coisa que não ajuda em relação a Izumi é o facto de ter havido “ship tease” com todos os outros elementos do elenco de heróis (tirando Tomoki – corrijam-se se estiver enganada!). O que nos leva a Junpei. 

 

Este é o único no elenco de heróis de quem não gosto. Não sou grande fã de Izumi mas, como referi acima, não é tanto por culpa dela. É mais pela maneira como a narrativa a trata. De Junpei não gosto mesmo pela sua personalidade.

 

Nomeadamente o facto de metade da sua caracterização (ou talvez mais) se centrar no fraquinho que nutre por Izumi – o que só reforça o papel dela na história como enfeite, mero objeto de desejo. Admito que é daqueles tropos que, em miúda, não me incomodava e às vezes até achava piada – como o Brock da franquia concorrente – mas que envelheceu muito mal. 

 

É certo que esta não é a primeira vez que temos personagens humanas apaixonando-se umas pelas outras em Digimon. Também não adoro a história entre Daisuke e Hikari em 02, mas tolero-a muito melhor: é apenas uma faceta na caracterização de Daisuke e, de qualquer forma, a paixoneta vai-se desvanecendo ao longo da temporada. Por sua vez, o fraquinho de Takato por Juri é importante para o enredo de Tamers, mas, em parte por ser mais tímido, Takato é muito mais respeitador para com Juri.

 

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Com Junpei não há nada disso, infelizmente. Ele, aliás, só permanece no Mundo Digital para poder andar atrás de Izumi. Nem sequer tem a qualidade redentora de querer ser um herói e/ou proteger os amigos. Ele praticamente não tem qualidades redentoras, ponto. Mesmo alguns dos seus melhores momentos – como quando Izumi perde o seu espírito e Junpei advoga com o grupo para tentarem recuperá-lo – vêm, pelo menos em parte, com a segunda intenção de se tornar mais desejável aos olhos de Izumi. 

 

À parte isso, Junpei é outro anti-social. A cena dele é, como diz Pulver, confundir amigos com fãs, tentar comprar amizades com chocolates e truques de magia. O que denota alguns problemas de auto-estima: Junpei sentirá que ele mesmo não é suficiente para cativar os demais, que precisa de se tornar mais interessante e esforça-se demasiado. 

 

Uma vez mais, isto podia ter sido explorado de maneira interessante. Fronteira podia até ter feito um paralelismo entre ele e Izumi: ela não se quer esforçar para fazer amizades, Junpei esforça-se da maneira errada. Mas não acontece nada disso. Ele forma amizades dentro do grupo, sim – o que é credível, não me interpretem mal – mas isso aconteceria com qualquer um. A caracterização de Junpei não faz diferença. O único desenvolvimento de Junpei ao longo da história é tornar-se menos irritante.

 

Não tenho mais nada a dizer sobre ele. Por hoje ficamos por aqui. Só falta falarmos sobre mais um Escolhido e achei por bem deixar um texto inteiro só para ele. Estou ansiosa por escrevê-lo, na verdade, ele é um caso… interessante. 

 

Não garanto, no entanto, que esse seja o próximo texto aqui no blogue. No dia 17 de julho aqui o estaminé completa dez anos online e vou querer escrever sobre isso e publicá-lo nesse dia. 

 

Obrigada pela vossa visita e, já agora, feliz vigésimo-quinto aniversário de Digimon!

Digimon Frontier #6 – Takuya e Kouji mais quatro

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Quero resistir à tentação de dizer que Takuya e Kouji são meras cópias de Taichi e Yamato de Adventure. É uma leitura demasiado comum, demasiado simplista, que se torna preguiçosa. 

 

Não que esteja errada. Sim, existem semelhanças entre os dois pares de personagens e é óbvio que estas foram intencionais. Veja-se a maneira como as linhas digievolutivas incluem referências às linhas do Agumon e do Gabumon. 

 

No entanto, existem pontos de divergência claros entre as personagens mais velhas e as personagens mais novas. Para começar, Takuya e Kouji são menos desenvolvidos que Taichi e Yamato em Adventure. Além disso, as suas situações familiares podem ser parecidas à primeira vista (o líder é um irmão mais velho com uma típica família nuclear, o “lancer” vive com o pai divorciado e tem um irmão que vive com a mãe), mas olhando mais de perto não são assim tão semelhantes. E é sobretudo daí que, na minha opinião, nascem as diferenças.

 

Começando por Takuya, que tem um irmão mais novo, Shinya. Aliás, os eventos de Fronteira começam – podemos dizer mesmo que decorrem – no dia de anos de Shinya. Longe do estranho vínculo que Taichi e Hikari cultivavam em Adventure, Takuya tem uma relação mais normal com Shinya: não se dão particularmente bem, mas aparentemente não há nada de tóxico entre eles. Como irmão mais velho, Takuya ressente-se por os pais serem mais indulgentes para com o irmão mais novo (sei o que isso é…), mas não deixa de reconhecer que ele também não é perfeito como irmão.

 

No entanto, quando vem para o Mundo Digital, um dos companheiros de Takuya é Tomoki, um miúdo da idade de Shinya. Quando Tomoki tem um descontrolo emocional quase suicida ao chegar à Aldeia do Fogo, o primeiro instinto de Takuya é protegê-lo – o que o leva ao seu Espírito Humano.

 

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Aliás, uma das coisas de que mais gosto em Fronteira é o vínculo entre Takuya e Tomoki. A maneira como estes se adotaram um ao outro como irmãos. Na versão original, Tomoki trata o amigo mais velho por Takuya-oniichan. Não sei se é habitual em japonês, mas imagino que seja precisamente para ilustrar a maneira como Tomoki vê Takuya. Ao mesmo tempo, é possível que Takuya esteja a tentar compensar com o amigo mais novo pelas suas falhas com o seu irmão biológico.

 

Tendo tudo isto em conta, eu diria que, no início da história, Takuya tem mais em comum com Yamato do que com Taichi. Um episódio em que isso se vê bem é o sétimo, imediatamente depois da primeira derrota perante o Grottemon. Takuya, Kouji e Tomoki são separados do resto do grupo e falam sobre o que aconteceu no episódio anterior. 

 

Eu acho piada a este episódio pois faz de Takuya e Kouji pais adotivos de Tomoki, em conflito sobre a melhor maneira de educar o filho. Kouji é o pai mais severo. Como veremos adiante, nesta parte da história, ele é o mais motivado do elenco para cumprir a missão. Está preocupado com a derrota recente e não tem paciência para os choradinhos de Tomoki, acha que o miúdo não tem estaleca para ser uma Criança Escolhida e que Takuya o mima demasiado. Por sua vez, Takuya considera que Kouji é demasiado duro para com Tomoki, que é um par de anos mais novo que eles e nem sequer veio para o Mundo Digital de livre vontade.

 

É um daqueles casos em que nenhum dos lados está cem por cento ou errado. Sim, Tomoki precisa de se adaptar às dificuldades da sua missão no Mundo Digital. No entanto, já tínhamos visto em Adventure o que acontece quando insistimos em seguir em frente às cegas, sem pararmos para cuidarmos de nós mesmos e lidarmos com o que está a acontecer.

 

Os papéis de Takuya e Kouji invertem-se mais tarde, quando Duskmon se junta à festa. E a quem os miúdos não conseguem fazer um arranhão que seja, ficando obrigados a bater em retirada. Kouji em particular percebe que este adversário não é como os anteriores, não está ao alcance deles. Por muito determinado que esteja em levar a missão para a frente, Kouji não é estúpido, não tenciona arriscar a vida ao desbarato. 

 

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Por seu lado, Takuya formula um plano para enfrentarem o Duskmon. Basicamente, ele digievoluirá para Agnimon, agarrará o Duskmon pelas costas e os outros atacá-lo-ão em conjunto.

 

Como se o Duskmon aceitasse placidamente ser agarrado pelo Agnimon.

 

Kouji discorda e di-lo abertamente, mas também não tem nenhuma ideia melhor que ir fugindo ao Duskmon. Na minha opinião, este é outro caso em que ninguém está cem por cento errado. Kouji faz bem em alertar os amigos para o poder do adversário. No entanto, até quando conseguiriam escapar a Duskmon? Um segundo confronto era inevitável, mesmo que a iniciativa não partisse dos miúdos. Mais valia terem um plano para quando isso acontecesse. 

 

Kouji chega a ter uma conversa em privado com Takuya. Acusa-o de não levar nada daquilo a sério, de não ter consciência da mortalidade, tanto dele como dos amigos. Conclui dizendo a Takuya para executar o plano por sua conta e risco, se morrer pela sua própria estupidez, o problema é dele. Mas que deixe Kouji e os outros de fora das consequências.

 

O Duskmon ataca-os pouco depois. Os miúdos executam o plano de Takuya que, como o previsto, dá para o torto. Agnimon fica à mercê do Duskmon, que se prepara para um ataque possivelmente fatal. Apesar do que dissera antes, Kouji (sob a forma de Garummon) não aguenta e atira-se para a frente do ataque.

 

Como disse antes, este é o meu momento preferido em Fronteira. Um plot twist bem feito que desenvolve o carácter de três personagens principais. Takuya, que vê Kouji quase morrendo por causa dos seus erros; Kouji, que revela assim não ser tão desprendido como dá a entender; Duskmon, que tem uma reação estranha ao descobrir a identidade do Digimon que atacou e enche o campo de batalha com uma estranha névoa. Takuya decide embarcar num Dark Trailmon de regresso ao Mundo dos Humanos. 

 

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(fonte)

 

As semelhanças deste evento ao que aconteceu a Taichi em Adventure, no final do arco do Etemon, são evidentes. Para além do óbvio, ocorrem numa parte da história em que tanto Taichi como Takuya são confrontados com a sua própria imprudência. Ao mesmo tempo, ambos os eventos são a antítese um do outro. Taichi regressa ao Mundo dos Humanos num ato de coragem. Takuya regressa num ato de cobardia.

 

Mais: Takuya nem sequer regressa como ele mesmo. Regressa como Flamon, a forma Infantil do Agnimon. Algo que impede Takuya de retomar a sua vida normal, algo que o recordará daquilo que fez sempre que se olhar ao espelho. A marca da vergonha. É brilhante, na verdade. 

 

Não podendo ficar ele mesmo no Mundo dos Humanos, Takuya decide tentar impedir o seu eu do passado de regressar ao Mundo Digital – por motivos que não são explicados, Takuya viaja ligeiramente para trás no tempo. O jovem passa, também, todo o episódio sendo assombrado pelo espectro do Duskmon. Como era de esperar, no último momento, Takuya muda de ideias e decide regressar para proteger os amigos. 

 

É facilmente um dos melhores episódios da temporada. É uma pena que a repercussão no resto da história seja mínima. Takuya reencontra os amigos com relativa facilidade no episódio seguinte e ninguém torna a comentar o facto de Kouji lhe ter salvo a vida, depois de ter prometido que não o faria. O impacto emocional teria sido maior se a visita de Takuya ao Mundo dos Humanos (fruto da sua própria cobardia, recordo) tivesse feito com que o grupo se dividisse, como aconteceu em Adventure (hum…). 

 

Aliás, depois deste evento, o desenvolvimento de Takuya é quase inexistente. As únicas exceções serão quando ajuda Kouji a salvar Kouichi (mais sobre isso mais tarde) e o último episódio, quando ele finalmente vai abaixo depois de tantas derrotas – e mesmo assim não dura muito. Infelizmente não é caso único em Fronteira – e nem sequer é dos piores casos.

 

Falemos sobre Kouji, que sempre é um bocadinho mais interessante como personagem. Como referimos antes, o jovem é o mais motivado do grupo para salvar o Mundo Digital. Isto porque a missão é pessoal para ele: o apelo de Ophanimon inclui a possibilidade de o Mundo Digital lhe dar respostas sobre si e a sua família.

 

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Kouji vem de uma situação familiar muito particular. Descobrimos durante o arco do Sephirotmon que ele é órfão de mãe (isto é… mais ou menos). O pai voltou a casar e praticamente obriga o filho a tratar a madrasta por “mãe”. Kouji estava a preparar-se para dar esse passo quando recebeu a mensagem de Ophanimon. 

 

Se formos a ver, isto é basicamente a mesma história de Juri. No entanto, a maneira como as personagens lidam com isso é diametralmente oposta – Kouji parece-se mais com Ruki nesse aspeto. Além de que Juri está mais longe de aceitar a madrasta. 

 

Aliás, acho interessante que, apesar de estar a meio do ato de comprar flores para a madrasta, Kouji larga tudo para ir para o Mundo Digital. Prova que, apesar de tudo, o jovem ainda tinha dúvidas – e a mensagem de Ophanimon reforçou-as. Isso serve-lhe de motivação durante os primeiros episódios de Fronteira, mas por alturas do arco do Sephirotmon, Kouji está mais determinado do que nunca a regressar a casa e a adotar a madrasta como mãe. Isso não muda, nem mesmo com os eventos dos episódios seguintes – mais sobre isso noutra ocasião.

 

No fundo, Kouji é parecido com Yamato, sim, mas com um Yamato sem Takeru. O Yamato do Reboot, aliás, é mais parecido com Kouji do que o Yamato original. Nenhum deles tem um irmãozinho com eles no Mundo Digital e estão mais motivados que os outros para cumprir a missão. No caso do Yamato do Reboot, este tem Takeru sozinho no Mundo dos Humanos e quer protegê-lo à distância do efeito dos distúrbios no Mundo Digital. 

 

Para além deste aspeto, tanto Kouji como o Yamato do Reboot são introvertidos (também se aplica ao Yamato original), preferem agir sozinhos no início da respetiva história, não têm grande consideração pelo resto do elenco de heróis mas acabam por se juntar ao grupo quase sem darem por isso. No caso de Kouji, mesmo quando entra na equipa, são várias as vezes em que se afasta e procura resolver os seus problemas a solo. 

 

No entanto, é de notar que, no momento mais difícil de Kouji – quando descobre a verdade sobre a sua família e sobre Kouichi – ele apoia-se nos amigos. Sobretudo Takuya. Ele explica-lhe, da melhor maneira que consegue, o que é ser irmão e, mais importante, dá-lhe o equivalente psicológico a um murro à 02 – para que Kouji se recomponha e salve o irmão da influência de Cherubimon. 

 

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Depois disto, Kouji torna-se um pouco mais caloroso, ainda que seja quase só com Kouichi e, vá lá, um pouco com Takuya – mais em situações de combate. 

 

Uma vez mais, não existe um desenvolvimento por aí além de Kouji. A partir de certa altura a história é “Takuya e Kouji mais quatro” em termos de combates, Fronteira é infame por isso, mas nem sequer temos um desenvolvimento decente dos dois. Mas esse é um problema global, como vimos no texto anterior. 

 

E ficamos por aqui hoje. Continuaremos a analisar as personagens individualmente no próximo texto. Eu já me demorei mais do que queria com este e o próximo poderá demorar outra vez – a Seleção irá regressar ao ativo e terei de dar prioridade ao meu outro blogue. Em todo o caso, obrigada pela vossa visita. Até à próxima!

Digimon Frontier #5 – Dando o corpo ao manifesto

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Mais do que nas temporadas anteriores, o grupo de Fronteira é o que melhor se encaixa no tropo da “Five Man Band” – grupo de cinco. Takuya é o líder, Kouji é o “lancer” – o típico segundo na liderança, muitas vezes a antítese do líder. Izumi é a rapariga, geralmente o coração do grupo. Kouichi é o sexto ranger

 

Só Tomoki e Junpei é que não se encaixam muito bem na fórmula. Superficialmente, poder-se-á dizer que Junpei é o tanque/músculo, mas apenas porque tem a aparência de um miúdo grande. Na prática, não desempenha um papel particularmente defensivo ou mais físico que os demais. Por outro lado, existem algumas variantes a este tropo que incluem “a criança” – Tomoki encaixa-se perfeitamente neste papel.

 

A principal categoria que fica por preencher é “o cérebro”/o inteligente. Aliás, este é o primeiro elenco de heróis em Digimon que não possui um “cérebro”: uma personagem com mais inclinação tecnológica e/ou que se destaque pelos seus conhecimentos ou pela sua capacidade de resolver problemas. O mais parecido que temos com isso é o Bokomon. 

 

O que me leva às mascotes de Fronteira. Tenho de dizer, depois do Culumon, que para além de adorável é um herói subvalorizado de Tamers, Bokomon e Neemon foram uma desilusão. O segundo só está lá para tentar ser engraçado (sublinhe-se “tentar”) e para ser maltratado pelo primeiro. Bokomon sempre tem um pouco mais que fazer, não que seja uma grande melhoria: está lá sobretudo para debitar informação. Também passa uma data de episódios grávido com o DigiOvo do Seraphimon. Uma vez mais, suponho que era para ser engraçado – não é. Mesmo que tivesse, acho que ainda faltará uns anos à audiência-alvo para compreender as piadas. 

 

Ao menos é fofinho vê-lo como papá-mamã do Patamon, depois deste nascer. 

 

Por outro lado, admito que, depois do episódio 13 de Ghost Game, custou um bocadinho ver Bokomon quando retomei a maratona de Fronteira. 

 

Captura de ecrã 2022-05-04, às 23.41.15.png

 

Mas regressemos aos miúdos humanos. Tenho de dizer que, como elenco, este é o mais fraquinho até ao momento. Não que não goste dos miúdos, mas estes são menos interessantes e, sobretudo, menos desenvolvidos que noutros universos. 

 

Começando com os seus passados – um de vários aspetos em que Fronteira rompe com outras temporadas. Com uma única exceção – ou melhor, duas – os miúdos tiveram todos vidas estáveis e normais, sem grande drama. Tendo em conta que a ficção em geral adora infâncias infelizes e pais imperfeitos – e as outras temporadas de Digimon são infames por isso – isto é uma desvantagem.

 

É claro que, na vida real, nada disto tem piada. Eu, aliás, gosto de pensar que fãs de Digimon se tornam melhores pais – o anime está cheio de personagens afetadas negativamente pelas suas famílias.

 

Não sei se isso acontece na prática, no entanto. Não há por aí ninguém disposto a fazer um estudo observacional?

 

Dito isto, admito que, a partir de certa altura, Digimon tenha exagerado. Não convém esquecer que a audiência-alvo são crianças. Uma coisa é termos mais divorciados e rebeldias (pré)adolescentes. Outra coisa é termos mães ou irmãos mortos. Faz sentido que, numa temporada que se queria mais leve do que Tamers, os digiguionistas tenham decidido diminuir os dramas familiares (com uma notável exceção).

 

Além disso, como diz Adam Pulver, outro crítico de Digimon, não existirão muitos miúdos identificando-se com uma personagem procurando seguir as pisadas de um irmão que morreu, mas existirão uns quantos identificando-se com personagens com dificuldades em fazer amigos. 

 

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Esse, aliás, é o denominador comum a quase todos os Escolhidos. Temos uma miúda filha de emigrantes com dificuldade em integrar-se. Temos um miúdo um bocadinho mimado demais e vítima de bullying. Um rapaz que prefere agir sozinho. Temos… o Junpei. Kouichi é mais difícil de avaliar, mas ele parece ser tímido. Só Takuya é que não revela tendências anti-sociais – pelo contrário, como vimos acima, encaixa-se no estereótipo do líder extrovertido e impaciente.

 

Ainda assim, esse podia ter sido um dos temas desta temporada: um grupo de misfits, de anti-sociais, que têm de aprender a lidar uns com os outros para poderem sobreviver. Infelizmente não exploram muito esse aspeto, tirando no arco do Sephirotmon

 

Chegou a altura de falarmos sobre o óbvio: é a primeira (e única vez) que o elenco humano não tem companheiros Digimon. São as próprias Crianças Escolhidas a digievoluir e a lutar.

 

Ora, apesar de isto poder ser considerado um sacrilégio, não é necessariamente uma coisa má por si só. Pode-se argumentar que os miúdos de Fronteira fazem mais que os heróis de outras temporadas – meros treinadores de bancada. Sobretudo os do universo de Adventure, cuja única intervenção nos combates é desbloquear as digievoluções – os Digimon é que fazem o trabalho sujo. 

 

Universos como Tamers e Ghost Game tentam contrariar esta limitação pondo os miúdos a orientar os ataques dos seus Digimon, de uma forma ou de outra. E depois temos o Reboot de Adventure, em que os miúdos estão quase sempre montados nos seus Digimon durante os combates. O que é fixe… até ao momento em que os miúdos, inevitavelmente, levam com ataques em cima mas raramente sofrem danos. Assim não vale!

 

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Por seu lado, Takuya e os outros não têm ninguém que os proteja. O que não lhes serve de impedimento. Por muitas falhas que possamos apontar ao grupo de Fronteira, há que dar-lhes crédito: eles dão o corpo ao manifesto. Logo desde o primeiro episódio, por um mundo que, dez minutos antes, não sabiam que existia. E como vimos antes, eles perdem muitos combates – fisicamente. Usando palavras mais brejeiras: eles levam porrada. Repetidamente. E mesmo assim levantam-se de novo, continuam a lutar.

 

Além disso, não sei se alguém alimentava alguma fantasia de se tornar e lutar como um Digimon mas, se existia, pode vê-lo em Fronteira. 

 

Dito isto, tenho algumas críticas a fazer ao conceito. Nomeadamente à natureza das digievoluções.

 

Até aqui, noutros universos, as digievoluções estavam associadas sobretudo a fatores internos, psicológicos e/ou afetivos. Em Adventure, era crescimento pessoal, ligado às virtudes dos Cartões. Em 02, eram as ligações entre as Crianças Escolhidas. Em Tamers, eram as ligações entre humano e Digimon.

 

Em Fronteira, no entanto, os fatores são externos. Os miúdos herdam os espíritos dos Dez Guerreiros Lendários, que representam um elemento ou, possivelmente, uma zona do Mundo Digital. Os miúdos só precisam de encontrar os respetivos espíritos, Humanos e Animais. Mais tarde, os espíritos Híbridos são obtidos via DigiOvo do Seraphimon Ex Machina; o KaiserGreymon e o MagnaGarurumon são obtidos via sacrifício da Ophanimon; o Susanoomon é obtido via sacrifício de Kouichi. 

 

É como se os miúdos estivessem apenas a vestir um fato com super-poderes (como o Tony Stark/Homem de Ferro(?) ou Devi Morris e a sua Lady Gray) ou, quanto muito, a ser possuídos por uma entidade externa. Quase naada é exigido aos miúdos em termos de introspeção. As únicas exceções são as digievoluções de Kouichi e, se quisermos ser generosos, a última aparição de Susanoomon. Isto torna-se um problema ainda mais grave para mim porque digievoluções catalisadas por desenvolvimento das personagens foi sempre uma das minhas partes preferidas de Digimon. E como os miúdos não precisam de crescer como pessoas para digievoluir, o desenvolvimento deles em Fronteira é reduzido, sobretudo quando comparado com as temporadas anteriores. 

 

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Além disso, praticamente todas as vantagens de miúdos digievoluindo eles mesmos são anuladas na última grande parte da temporada – quando Izumi, Junpei, Tomoki e Kouichi têm de abdicar dos seus espíritos para que Takuya e Kouji desbloqueiem o nível Extremo. Kouichi, ainda por cima, tinha acabado de conseguir as suas digievoluções não corrompidas – quase não teve oportunidade de usá-las. 

 

É um tropo recorrente em Digimon os níveis Extremos estarem reservados para os dois rapazes “protagonistas” do grupo. Nunca gostei muito disso. Ainda assim, as outras personagens continuavam a contribuir para os combates, por pouco que fosse, mesmo com digievoluções de nível inferior. Mas impedi-los completamente de digievoluir? Demasiado mau.

 

Ainda se tolerava se estivéssemos a falar apenas dos combates importantes com o Cherubimon e o Lucemon. Mas a situação arrasta-se por todo o arco dos Cavaleiros Reais. É possível que os miúdos tivessem conseguido derrotá-los mais cedo se Izumi e os outros tivessem podido lutar também. Uma pessoa pergunta-se porque é que os outros quatro sequer permanecem no Mundo Digital.

 

Dito isto tudo, o grupo de Fronteira tem uma qualidade redentora – e eu só me apercebi dela ao trabalhar neste preciso texto. Durante muito tempo desvalorizei estes miúdos, pelas razões listadas acima e também pelas motivações deles ao responderem ao apelo da Ophanimon. Com as devidas exceções, estas vão de “não tinha mais nada que fazer” a “eh, pode ser giro”. Nem sequer tínhamos lugares-comuns como curiosidade, insatisfação com a vida atual, desejo de aventura. Motivações como estas não chegavam, nem de longe nem de perto, para sustentar uma temporada inteira levando porrada. 

 

No entanto, olhando mais de perto… estes podem ser os motivos para eles terem embarcado nos Trailmon, mas não são os motivos para se terem envolvido nas lutas e encontrado os espíritos digitais. Takuya desbloqueia o Agnimon enquanto tenta proteger um Tomoki em descontrolo emocional ​​– um miúdo que acabara de conhecer. Kouji desbloqueia o Wolfmon enquanto tenta proteger Tomoki e Junpei – Kouji, que prefere agir sozinho e, uma vez mais, mal conhecia aqueles dois bacanos. Tomoki desbloqueia o Chackmon para ajudar Agnimon num combate. Por fim, vários episódios mais tarde, Takuya regressa brevemente ao Mundo dos Humanos, mas escolhe voltar para o Mundo Digital precisamente por causa dos amigos.

 

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Eu podia continuar. Estes miúdos podem deixar muito a desejar em termos de passado, desenvolvimento e mesmo personalidade em geral, mas merecem crédito por isto: desde muito cedo começam a proteger-se uns aos outros e, sobretudo, sai-lhes tudo do pêlo. Pelo menos em termos da luta em si.

 

E ficamos por aqui hoje. Na próxima parte, começamos a falar sobre cada miúdo individualmente. Desta vez, não garanto que cada miúdo tenha um texto só para si. Nem todos têm pano para tanta manga – e aqueles que têm não será necessariamente por bons motivos. 

 

Em todo o caso, obrigada pela vossa visita. Continuem por aí. 

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