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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Digimon Frontier #5 – Dando o corpo ao manifesto

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Mais do que nas temporadas anteriores, o grupo de Fronteira é o que melhor se encaixa no tropo da “Five Man Band” – grupo de cinco. Takuya é o líder, Kouji é o “lancer” – o típico segundo na liderança, muitas vezes a antítese do líder. Izumi é a rapariga, geralmente o coração do grupo. Kouichi é o sexto ranger

 

Só Tomoki e Junpei é que não se encaixam muito bem na fórmula. Superficialmente, poder-se-á dizer que Junpei é o tanque/músculo, mas apenas porque tem a aparência de um miúdo grande. Na prática, não desempenha um papel particularmente defensivo ou mais físico que os demais. Por outro lado, existem algumas variantes a este tropo que incluem “a criança” – Tomoki encaixa-se perfeitamente neste papel.

 

A principal categoria que fica por preencher é “o cérebro”/o inteligente. Aliás, este é o primeiro elenco de heróis em Digimon que não possui um “cérebro”: uma personagem com mais inclinação tecnológica e/ou que se destaque pelos seus conhecimentos ou pela sua capacidade de resolver problemas. O mais parecido que temos com isso é o Bokomon. 

 

O que me leva às mascotes de Fronteira. Tenho de dizer, depois do Culumon, que para além de adorável é um herói subvalorizado de Tamers, Bokomon e Neemon foram uma desilusão. O segundo só está lá para tentar ser engraçado (sublinhe-se “tentar”) e para ser maltratado pelo primeiro. Bokomon sempre tem um pouco mais que fazer, não que seja uma grande melhoria: está lá sobretudo para debitar informação. Também passa uma data de episódios grávido com o DigiOvo do Seraphimon. Uma vez mais, suponho que era para ser engraçado – não é. Mesmo que tivesse, acho que ainda faltará uns anos à audiência-alvo para compreender as piadas. 

 

Ao menos é fofinho vê-lo como papá-mamã do Patamon, depois deste nascer. 

 

Por outro lado, admito que, depois do episódio 13 de Ghost Game, custou um bocadinho ver Bokomon quando retomei a maratona de Fronteira. 

 

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Mas regressemos aos miúdos humanos. Tenho de dizer que, como elenco, este é o mais fraquinho até ao momento. Não que não goste dos miúdos, mas estes são menos interessantes e, sobretudo, menos desenvolvidos que noutros universos. 

 

Começando com os seus passados – um de vários aspetos em que Fronteira rompe com outras temporadas. Com uma única exceção – ou melhor, duas – os miúdos tiveram todos vidas estáveis e normais, sem grande drama. Tendo em conta que a ficção em geral adora infâncias infelizes e pais imperfeitos – e as outras temporadas de Digimon são infames por isso – isto é uma desvantagem.

 

É claro que, na vida real, nada disto tem piada. Eu, aliás, gosto de pensar que fãs de Digimon se tornam melhores pais – o anime está cheio de personagens afetadas negativamente pelas suas famílias.

 

Não sei se isso acontece na prática, no entanto. Não há por aí ninguém disposto a fazer um estudo observacional?

 

Dito isto, admito que, a partir de certa altura, Digimon tenha exagerado. Não convém esquecer que a audiência-alvo são crianças. Uma coisa é termos mais divorciados e rebeldias (pré)adolescentes. Outra coisa é termos mães ou irmãos mortos. Faz sentido que, numa temporada que se queria mais leve do que Tamers, os digiguionistas tenham decidido diminuir os dramas familiares (com uma notável exceção).

 

Além disso, como diz Adam Pulver, outro crítico de Digimon, não existirão muitos miúdos identificando-se com uma personagem procurando seguir as pisadas de um irmão que morreu, mas existirão uns quantos identificando-se com personagens com dificuldades em fazer amigos. 

 

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Esse, aliás, é o denominador comum a quase todos os Escolhidos. Temos uma miúda filha de emigrantes com dificuldade em integrar-se. Temos um miúdo um bocadinho mimado demais e vítima de bullying. Um rapaz que prefere agir sozinho. Temos… o Junpei. Kouichi é mais difícil de avaliar, mas ele parece ser tímido. Só Takuya é que não revela tendências anti-sociais – pelo contrário, como vimos acima, encaixa-se no estereótipo do líder extrovertido e impaciente.

 

Ainda assim, esse podia ter sido um dos temas desta temporada: um grupo de misfits, de anti-sociais, que têm de aprender a lidar uns com os outros para poderem sobreviver. Infelizmente não exploram muito esse aspeto, tirando no arco do Sephirotmon

 

Chegou a altura de falarmos sobre o óbvio: é a primeira (e única vez) que o elenco humano não tem companheiros Digimon. São as próprias Crianças Escolhidas a digievoluir e a lutar.

 

Ora, apesar de isto poder ser considerado um sacrilégio, não é necessariamente uma coisa má por si só. Pode-se argumentar que os miúdos de Fronteira fazem mais que os heróis de outras temporadas – meros treinadores de bancada. Sobretudo os do universo de Adventure, cuja única intervenção nos combates é desbloquear as digievoluções – os Digimon é que fazem o trabalho sujo. 

 

Universos como Tamers e Ghost Game tentam contrariar esta limitação pondo os miúdos a orientar os ataques dos seus Digimon, de uma forma ou de outra. E depois temos o Reboot de Adventure, em que os miúdos estão quase sempre montados nos seus Digimon durante os combates. O que é fixe… até ao momento em que os miúdos, inevitavelmente, levam com ataques em cima mas raramente sofrem danos. Assim não vale!

 

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Por seu lado, Takuya e os outros não têm ninguém que os proteja. O que não lhes serve de impedimento. Por muitas falhas que possamos apontar ao grupo de Fronteira, há que dar-lhes crédito: eles dão o corpo ao manifesto. Logo desde o primeiro episódio, por um mundo que, dez minutos antes, não sabiam que existia. E como vimos antes, eles perdem muitos combates – fisicamente. Usando palavras mais brejeiras: eles levam porrada. Repetidamente. E mesmo assim levantam-se de novo, continuam a lutar.

 

Além disso, não sei se alguém alimentava alguma fantasia de se tornar e lutar como um Digimon mas, se existia, pode vê-lo em Fronteira. 

 

Dito isto, tenho algumas críticas a fazer ao conceito. Nomeadamente à natureza das digievoluções.

 

Até aqui, noutros universos, as digievoluções estavam associadas sobretudo a fatores internos, psicológicos e/ou afetivos. Em Adventure, era crescimento pessoal, ligado às virtudes dos Cartões. Em 02, eram as ligações entre as Crianças Escolhidas. Em Tamers, eram as ligações entre humano e Digimon.

 

Em Fronteira, no entanto, os fatores são externos. Os miúdos herdam os espíritos dos Dez Guerreiros Lendários, que representam um elemento ou, possivelmente, uma zona do Mundo Digital. Os miúdos só precisam de encontrar os respetivos espíritos, Humanos e Animais. Mais tarde, os espíritos Híbridos são obtidos via DigiOvo do Seraphimon Ex Machina; o KaiserGreymon e o MagnaGarurumon são obtidos via sacrifício da Ophanimon; o Susanoomon é obtido via sacrifício de Kouichi. 

 

É como se os miúdos estivessem apenas a vestir um fato com super-poderes (como o Tony Stark/Homem de Ferro(?) ou Devi Morris e a sua Lady Gray) ou, quanto muito, a ser possuídos por uma entidade externa. Quase naada é exigido aos miúdos em termos de introspeção. As únicas exceções são as digievoluções de Kouichi e, se quisermos ser generosos, a última aparição de Susanoomon. Isto torna-se um problema ainda mais grave para mim porque digievoluções catalisadas por desenvolvimento das personagens foi sempre uma das minhas partes preferidas de Digimon. E como os miúdos não precisam de crescer como pessoas para digievoluir, o desenvolvimento deles em Fronteira é reduzido, sobretudo quando comparado com as temporadas anteriores. 

 

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Além disso, praticamente todas as vantagens de miúdos digievoluindo eles mesmos são anuladas na última grande parte da temporada – quando Izumi, Junpei, Tomoki e Kouichi têm de abdicar dos seus espíritos para que Takuya e Kouji desbloqueiem o nível Extremo. Kouichi, ainda por cima, tinha acabado de conseguir as suas digievoluções não corrompidas – quase não teve oportunidade de usá-las. 

 

É um tropo recorrente em Digimon os níveis Extremos estarem reservados para os dois rapazes “protagonistas” do grupo. Nunca gostei muito disso. Ainda assim, as outras personagens continuavam a contribuir para os combates, por pouco que fosse, mesmo com digievoluções de nível inferior. Mas impedi-los completamente de digievoluir? Demasiado mau.

 

Ainda se tolerava se estivéssemos a falar apenas dos combates importantes com o Cherubimon e o Lucemon. Mas a situação arrasta-se por todo o arco dos Cavaleiros Reais. É possível que os miúdos tivessem conseguido derrotá-los mais cedo se Izumi e os outros tivessem podido lutar também. Uma pessoa pergunta-se porque é que os outros quatro sequer permanecem no Mundo Digital.

 

Dito isto tudo, o grupo de Fronteira tem uma qualidade redentora – e eu só me apercebi dela ao trabalhar neste preciso texto. Durante muito tempo desvalorizei estes miúdos, pelas razões listadas acima e também pelas motivações deles ao responderem ao apelo da Ophanimon. Com as devidas exceções, estas vão de “não tinha mais nada que fazer” a “eh, pode ser giro”. Nem sequer tínhamos lugares-comuns como curiosidade, insatisfação com a vida atual, desejo de aventura. Motivações como estas não chegavam, nem de longe nem de perto, para sustentar uma temporada inteira levando porrada. 

 

No entanto, olhando mais de perto… estes podem ser os motivos para eles terem embarcado nos Trailmon, mas não são os motivos para se terem envolvido nas lutas e encontrado os espíritos digitais. Takuya desbloqueia o Agnimon enquanto tenta proteger um Tomoki em descontrolo emocional ​​– um miúdo que acabara de conhecer. Kouji desbloqueia o Wolfmon enquanto tenta proteger Tomoki e Junpei – Kouji, que prefere agir sozinho e, uma vez mais, mal conhecia aqueles dois bacanos. Tomoki desbloqueia o Chackmon para ajudar Agnimon num combate. Por fim, vários episódios mais tarde, Takuya regressa brevemente ao Mundo dos Humanos, mas escolhe voltar para o Mundo Digital precisamente por causa dos amigos.

 

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Eu podia continuar. Estes miúdos podem deixar muito a desejar em termos de passado, desenvolvimento e mesmo personalidade em geral, mas merecem crédito por isto: desde muito cedo começam a proteger-se uns aos outros e, sobretudo, sai-lhes tudo do pêlo. Pelo menos em termos da luta em si.

 

E ficamos por aqui hoje. Na próxima parte, começamos a falar sobre cada miúdo individualmente. Desta vez, não garanto que cada miúdo tenha um texto só para si. Nem todos têm pano para tanta manga – e aqueles que têm não será necessariamente por bons motivos. 

 

Em todo o caso, obrigada pela vossa visita. Continuem por aí. 

Digimon Frontier #4 – Capitães de Abril, trindade pouco santa e o sexo dos anjos

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Um dos aspetos mais interessantes de Fronteira diz respeito à História do Mundo Digital: mais desenvolvida e rica que qualquer outra até agora. Com a exceção dos Cavaleiros Reais, todos os vilões em Fronteira foram figuras importantes em termos políticos no passado do Mundo Digital. Power Players, como dizem os anglo-saxónicos (não existe uma boa tradução para este termo). Mesmo os Power Players que consideramos bons da fita tomam algumas decisões questionáveis. 

 

Não é possível falar dos vilões de Fronteira sem falarmos do passado do Mundo Digital e não é possível falarmos do passado do Mundo Digital sem falarmos dos vilões.

 

Assim, no início, existiam duas facções em guerra no Mundo Digital. De um lado tínhamos Digimon de tipo Humano, com características mais humanóides. Do outro, tínhamos Digimon de tipo Animal, com características mais animalescas e/ou monstruosas. Não falo apenas de características físicas – é dado a entender que os Digimon de tipo Humano são mais “civilizados”. De tal maneira que, quando os miúdos desbloqueiam as formas Animais, quase todos têm dificuldades em controlar os instintos mais violentos destas formas. 

 

A tradução literal do termo devia ser Digimon tipo Besta. No entanto, como esta palavra é usada como um insulto em português, não admira que tenham preferido dizer Animal. 

 

Consta que este era um conceito planeado para 02, mais especificamente para as Armodigievoluções. Por exemplo, o Flamedramon seria a forma Humana do Veemon, o Raidramon seria a forma Animal e o Sagittarimon seria a forma Híbrida. A ideia, no entanto, foi rejeitada – tendo sido usada dois anos mais tarde, em Fronteira.

 

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Durante os eventos de Frontier, no entanto, não vemos nenhum vestígio desta rivalidade. A única exeção é o filme Revival of the Ancient Digimon (Ressurreição do Digimon Antigo?). É possível que as tensões se tenham desvanecido com o tempo – só as vemos no filme porque este se passa numa ilha isolada do resto do Mundo Digital. 

 

Não é realista, infelizmente. Como todos sabemos, na vida real este tipo de preconceitos têm a mania de permanecer mais tempo do que deviam.

 

Por um lado, tenho pena que o tema não tenha sido explorado mais a fundo. Por outro, admito que, a menos que fosse escrito com muito cuidado, poderíamos entrar em territórios… “problemáticos”, como se diz hoje. É o que por vezes acontece com outros casos de racismo fantástico, quando se começam a tecer comparações com a vida real. 

 

No meio desta guerra civil, surgiu Lucemon, que pôs termo ao conflito e assumiu o governo do Mundo Digital. Este no entanto acabou por descambar para a tirania. Nisto surgiram os Dez Guerreiros Lendários, quais Capitães de Abril, que derrubaram a ditadora e a prenderam na zona da Escuridão. 

 

A política dos Guerreiros Lendários é fascinante. A narrativa dos Guerreiros Lendários não o refere explicitamente, mas assumo que cada um deles tem uma forma Humana e uma forma Animal (e, no caso de Agnimon e Wolfmon, uma forma Híbrida) precisamente para agradarem a ambas as facções. 

 

Da mesma forma, calculo que cada Guerreiro representa, não apenas um elemento, mas também uma determinada zona do Mundo Digital. O Agnimon representa a zona do Fogo, a Ranamon representa a zona da Água e por aí fora. Mais ou menos como nós elegemos deputados representantes de cada distrito. 

 

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Após a queda de Lucemon, três grandes anjos assumiram o poder: Seraphimon, Ophanimon e Cherubimon. Seraphimon fica encarregue da lei e ordem, Ophanimon da vida e do amor e Cherubimon do conhecimento e da verdade. Pelo meio, Cherubimon ficou com os Espíritos da Terra, da Água, da Madeira, do Metal e da Escuridão – e mais tarde ressuscitá-los-ia como vilões. Mas não nos adiantemos. 

 

Nesta santíssima trindade (quase literal, pois são três anjos) governativa, temos dois Digimon de tipo Humano e apenas um de tipo Animal. Mesmo nas melhores circunstâncias, dificilmente resultaria – e custa a acreditar que ninguém se tenha apercebido disso, dentro do universo. 

 

Além disso, tanto as linhas do Ophanimon como do Seraphimon têm formas Extremas de tipo Animal: a Holydramon e o Goddramon. Elas não podiam ter sido usadas para equilibrar um pouco o sistema?

 

Cherubimon, como Digimon de tipo Animal, não se revê nos valores Humanos defendidos pelos outros dois. Talvez Cherubimon devesse ter tido uma mente mais aberta aos pontos de vista dos outros, mas estes dois também não lidam com o problema da melhor maneira. Ophanimon diz que ela e Seraphimon conversavam a sós para tentarem compreender a perspetiva de Cherubimon. Não acredito nela. Se queriam compreendê-lo, não deviam, sei lá, falar com Cherubimon diretamente, ouvir as opiniões dele? 

 

Não surpreende que, a partir de certa altura, Cherubimon tenha começado a desconfiar dos companheiros. Eu simpatizei com a solidão e isolamento dele (Alexa, toca Conspiracy, dos Paramore) – a posição ideal para ser corrompido por Lucemon. Nada nos garante que Cherubimon seja cem por cento inocente nesta história: acredito que uma parte de si quisesse vingança. Aquando dos eventos de Frontier, já estava perdido. O seu único aspeto redentor é o facto de ter evitado ao máximo matar tanto Seraphimon como Ophanimon. 

 

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Ao mesmo tempo, uma vez mais, a resposta de Ophanimon ao problema – enviar um apelo a crianças no Mundo dos Humanos, que ainda não foi influenciado por Cherubimon – é questionável. Seraphimon não concorda, como é revelado no episódio 13. Para começar, entregar o destino de um mundo inteiro a crianças é daquelas coisas que nunca aconteceriam na vida real – mas, lá está, isto é uma história para crianças, elas têm de ser as protagonistas. 

 

Ophanimon diz que só crianças com “coração puro” é que responderiam ao apelo – mas, como descobrimos mais à frente na temporada, os antigos bullies de Tomoki também vieram para o Mundo Digital. Mesmo as motivações iniciais dos nossos protagonistas não são propriamente nobres, como veremos na próxima parte da análise. 

 

Além disso, independentemente das intenções deles… o grupo que incluiu os bullies de Tomoki não recebeu nenhum espírito, andaram pura e simplesmente a passar pelo Mundo Digital, obrigando um Angemon a fazer de guarda-costas/ama-seca. Quem nos garante que não houveram outras crianças para além destes – crianças que, se calhar, não tiveram a proteção? Ou que ainda estavam no Mundo Digital quando os Cavaleiros Reais o destruíram por completo? Podem não ter conseguido regressar ao Mundo dos Humanos a tempo. Podem ter acontecido tragédias.

 

Por fim, não foi bonito Ophanimon tentando apelar ao lado bom de Cherubimon… apenas para recuperar os dispositivos e os espíritos digitais que este roubara. Foi necessário, admito, e talvez ela até estive a ser sincera quando pediu desculpa ao antigo amigo. Mas vendo-a apunhalando Cherubimon pelas costas, ainda suspeito mais que não terá sido a primeira vez que o faz. Ophanimon pode ser um anjo, mas está longe de ser uma santinha. 

 

Recuemos um pouco na cronologia e falemos sobre os Guerreiros Lendários corrompidos pelo Cherubimon. Este até é um grupo relativamente interessante de vilões. Para começar, estes chegam a roubar os dispositivos e/ou os espíritos digitais aos protagonistas, impedindo-os de digievoluírem. É estranho que isto só se tenha tornado prática na quarta temporada de Digimon enquanto anime. Antes disto só o Apocalymon – e mesmo assim, os Escolhidos de Adventure contornaram o problema com relativa facilidade. 

 

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Falando individualmente, o Grottlemon não é dos mais interessantes. O Arbormon passa a vida a debitar provérbios e lições para as criancinhas da audiência – o que, OK, é uma cena, suponho eu. 

 

A Ranamon é essencialmente a femme fatale para Izumi, a menina boazinha. Ela até mostra alguma astúcia ao usar o seu sex appeal para convencer os seus minions a fazerem o seu trabalho sujo. No entanto, toda a gente, incluindo ela própria, só se interessa pela sua beleza – ou falta dela, quando está sob a forma de Calamaramon. Na mesma linha, Ranamon fixa-se em Izumi apenas porque acha que esta é mais bonita do que ela. Ao ponto de, a certa altura, lhe dar literalmente uma maçã envenenada. 

 

Pontos para a subtileza.

 

O Mercuremon é dos mais competentes do grupo, ainda que com uma queda para o dramático. Afinal de contas, ele é a mão por detrás de um dos arcos mais psicológicos em Fronteira. Além disso, devo admitir que achei o episódio em que ele se transforma em BlackSeraphimon bastante assustador, da primeira vez que o vi. Nada como um órgão e uma igreja sinistra para causar arrepios. Por fim, mesmo depois de perder o espírito humano do metal, os miúdos são obrigados a pensar fora da caixa – e Takuya é obrigado a usar as suas capacidades de liderança – para derrotá-lo sob a forma de Sephirotmon. 

 

Sobra o Duskmon… mas sobre ele falamos noutra ocasião.

 

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Passando aos Cavaleiros Reais, não tenho muito a dizer sobre o Dynasmon, mas o LordKnightmon é um caso… curioso. Ele é aquilo a que os anglo-saxónicos chamam um “queer-coded villain” – um vilão com características estereotipicamente não cis/hetero. Este vídeo – e os outros, citados no fim – explica melhor o conceito, as suas origens, a forma como, a partir de certa altura, teve o efeito oposto ao desejado inicialmente, entre outros aspetos.

 

LordKnightmon encaixa-se no perfil. Um Digimon cor-de-rosa, que de vez em quando aparece com uma rosa na mão, basicamente o arquétipo de um homossexual. Não sei se em 2002 isso corrompeu a inocência de muitas criancinhas, mas a mim não me aqueceu nem arrefeceu. Eu na verdade nem falaria muito sobre ele se não tivesse sabido que, na dobragem americana, ele aparece como fêmea. Não lhe chamam LordKnightmon, claro, chamam-lhe Crusadermon. Infelizmente não fico surpreendida. 

 

Para sermos justos, falar de sexos e géneros em Digimon daria azo a um texto por si só – e eu não seria a melhor pessoa para escrevê-lo. Oficialmente, os Digimon não têm sexo pois não se reproduzem de forma sexuada – o género é uma história diferente. Como a língua japonesa tem termos de género neutro, os digiguionistas não precisam de atribuir género a todos os Digimon. No entanto, na hora de traduzir para línguas como o português, em que usamos o “o” e o “a” para tudo, a coisa complica-se. E aparecem casos como a Renamon, com uma voz claramente masculina na dobragem alemã. Ou a Tailmon, que, nas dobragens portuguesas, ora é referida como “ele”, ora é referida como “ela”, tanto quanto me recordo. 

 

Tudo isto para dizer que, por princípio, estas alterações no género não terão necessariamente intenções duvidosas. Mesmo o próprio LordKnightmon aparece como macho nas versões originais de Fronteira e, segundo o que vi na Internet, em Savers/Data Squad, mas em Cyber Sleuth/Hackers Memory aparece como fêmea. Mas falando deste LordKnightmon em específico, acho que isto foi um ato de censura da parte dos dobradores americanos. Claro que foi. Eles ainda hoje têm horror a falar de homossexualidade às crianças. 

 

Não que nós estejamos muito melhor nesse aspeto. Vejam os papás que não deixam os filhinhos inocentes frequentar as aulas de Cidadania e Desenvolvimento.

 

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Pode-se debater se, em termos de expressões de género e sexualidade não cis/hetero, é preferível representação vilanesca ou nenhuma representação. Não faço parte da comunidade LGBTQ+, logo, a minha opinião vale o que vale, estão à vontade para discordar. No entanto, tendo em conta que, como dizem no vídeo que referi acima, vários queer-coded villains, sobretudo dos filmes da Disney dos anos 90, são hoje personagens muito populares – quer por pessoas da comunidade LGBTQ+, quer por pessoas cis/hetero – a escolha é óbvia. Vilões ou não, as pessoas da comunidade LGBTQ+, como quaisquer outras, têm o direito a existir, a serem elas mesmas, a verem pessoas como elas no ecrã!

 

Havemos de regressar a este tema. Para já, à parte o que acabámos de discutir, os Cavaleiros Reais não são particularmente memoráveis – tirando o facto de estarem associados ao pior arco da temporada. No entanto, têm alguns aspetos curiosos. 

 

Para começar, são bons lutadores e estrategas – pudera. À primeira vista são meros paus mandados da Lucemon, que lhes prometeu uma viagem até ao Mundo dos Humanos. Quando Lucemon regressa à vida, no entanto, esta dá a entender que não pretende cumprir a sua parte do acordo. A lealdade deles vacila e isso leva a que sejam derrotados por Takuya e Kouji – que, ainda por cima, estavam em crescendo. Um twist interessante. 

 

Eu digo que Takuya e Kouji os derrotam, mas, na verdade, Lucemon mete-se à última hora para dar o golpe final e absorver os dados dos dois Cavaleiros Reais. É com esses dados que digievolui para Lucemon Falldown Mode. 

 

Hão de reparar que tenho usado o género feminino para me referir a Lucemon. Isto deve-se ao facto de, na dobragem portuguesa, Lucemon aparecer como fêmea. Daquilo que consegui averiguar, na maior parte das dobragens isso não acontece. Geralmente é uma mulher quem lhe dá a voz quando está na forma normal, com a aparência de uma criança, mas depois de digievoluir passa a ter dobrada por um homem. E é sempre referida como “ele”. A nossa dobragem (e possivelmente a espanhola, na qual a nossa se baseia?) é a exceção, com uma mulher – Patrícia Andrade, segundo esta wiki – dobrando ambas as formas (possivelmente por falta de orçamento) e referindo-se a Lucemon como “ela”.

 

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Sinto-me hipócrita, admito. Critico a dobragem americana por ter mudado o género a LordKnightmon, mas gostei de ver (e ouvir) Lucemon como fêmea na dobragem portuguesa. Sobretudo porque Patrícia Andrade fez um excelente trabalho com a voz de Lucemon – uma voz de bruxa, que funciona surpreendentemente bem. 

 

Reforço que vocês estão à vontade para discordar do que digo. Mas acho que estes dois casos são diferentes. É certo que, em Cyber Sleuth, existe uma LordKnightmon fêmea mas, na dobragem japonesa, este tem uma voz masculina. Além disso, tem “Lord” no nome, que significa “senhor” e é usado como título nobre masculino. Tudo isto me dá a entender que, pelo menos em Fronteira, a intenção original era que este fosse um Digimon macho. 

 

No que toca a Lucemon, no entanto, existe mais ambiguidade . O “Luce” em Lucemon vem muito provavelmente de Lúcifer, um anjo caído que eventualmente se tornou no Diabo. Canonicamente anjos não têm sexo – é daí que vem a expressão “discutir o sexo dos anjos” – mas pelo menos os anjos mais conhecidos parecem ser do género masculino: Miguel, Gabriel, Lúcifer… No modo normal, Lucemon parece uma criança pré-pubescente, sem características sexuais secundárias. Pode ser um menino, pode ser uma menina. Não é preto no branco. Funcionaria bem com qualquer género, mesmo género não binário. 

 

Mas lá está, talvez eu esteja errada – tanto em relação a Lucemon como a LordKnightmon. Talvez não existam respostas cem por cento certas nem cem por cento erradas aqui. Isto é, tirando aquelas que negam direitos a pessoas com base na sua orientação sexual e expressão de género, claro. Em todo o caso, acho importante irmos continuando a falar sobre esta questão. 

 

Tirando isto tudo de que falei, como principal vilã da temporada… Lucemon não é nada de extraordinário. Não tem grande profundidade. Não tenho muito a dizer sobre ela.

 

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Como puderam ver ao longo deste texto, Fronteira até tem vilões interessantes. No entanto, na prática, na realidade micro de cada episódio, todos os confrontos são típicos conflitos “bons contra os maus” – como qualquer desenho animado do Canal Panda. Descobrir o passado do Cherubimon não altera nada na narrativa. Os miúdos queriam derrotá-lo antes de ouvirem a história dele. Depois de a ouvirem, continuam a querer derrotá-lo – e assim fazem. A única exceção é o que acontece com o Duskmon – mas sobre ele falamos noutra altura.

 

Esta é uma das minhas maiores frustrações com Fronteira. Na próxima parte da análise vamos começar a falar de outro aspeto que gera frustrações: o elenco de heróis. 



 

Esta foi a tricentésima publicação deste blogue. Talvez devesse ter feito algo de especial, mas não deu. Não me importo que o número redondo tenha sido atingido com este texto, que me deu um bocadinho mais gozo a escrever do que o costume. Guardo a celebração para o décimo aniversário deste blogue, em julho.

 

Para já, deixo um agradecimento pelas vossas visitas. Continuem por aí.

Digimon Frontier #2 – Salvando o Mundo Digital, literalmente

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Antes de falarmos sobre a versão de Fronteira do Mundo Digital, queria assinalar algo. Esta é a primeira temporada de Digimon a passar pouquíssimo tempo no Mundo dos Humanos (vou tentar usar este termo em vez de “Mundo Real”). Parte do primeiro episódio, o notável episódio 21 e os últimos. 

 

Isto não é necessariamente um defeito, mas existem possibilidades que se perdem. Não conhecemos as famílias nem os amigos dos Escolhidos tirando em flashbacks – algo a que havemos de regressar mais tarde – e não temos aqueles elementos de slice of life de que gostava tanto em 02 (sobretudo em miúda) e Tamers. A única altura em que o Mundo dos Humanos se torna relevante é mesmo no fim, quando os vilões já tinham destruído o Mundo Digital. Literalmente.

 

Um aspeto curioso desta versão do Mundo Digital é o Digicódigo. Essencialmente o material genético dos Digimon, dos lugares em si, do próprio corpo dos Escolhidos – sublinhe-se “corpo”. É um caso de simplicidade que funciona, de menos que é mais. Pode-se argumentar que, a partir de certa altura, o Mundo Digital de Adventure se tornou demasiado complexo – uma consequência natural de múltiplas sequelas. Cada história nova nesse universo tinha de introduzir novas regras, que levassem a novos conflitos… mas isso daria azo a um texto por si só. 

 

Os Escolhidos passam grande parte de Fronteira a capturar o Digicódigo de antagonistas e a purificá-lo. E os vilões – em particular os Cavaleiros Reais nos últimos episódios – procuram roubar esse Digicódigo para alimentar Lucemon na sua tentativa de regresso à vida. Salvar o Mundo Digital ganha um sentido literal – as ações dos vilões fazem com que a terra literalmente se desintegre debaixo dos pés do elenco. 

 

Em Fronteira, aliás, o Mundo Digital chega a ser completamente obliterado. Literalmente desaparece, todos os Digimon morrem, o que infelizmente não é tratado com a devida seriedade. É certo que, depois de derrotados os maus da fita e recuperados os dados, reconstrói-se tudo de novo, mas mesmo assim. Só temos um momento relativamente breve de desespero no último episódio… mas isso é assunto para outra parte da análise.

 

Além disso, sim, o Mundo Digital é reconstruído, todos os Digimon renascem mas… eles renascem como Bebés. Ou quanto muito no nível Infantil. Ainda levará algum tempo até as coisas regressarem à normalidade – ou talvez se estabeleça um novo normal. 

 

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Outro elemento característico de Fronteira diz respeito aos Trailmon, cujas linhas percorrem todo o Mundo Digital. Sempre gostei de comboios e os Trailmon são engraçados. Acho fixe que a porta de entrada para o Mundo Digital seja numa estação de comboios. Gostei daquele episódio filler dedicado a uma corrida entre Trailmon – era inevitável. 

 

Não gostei tanto do outro filler que envolve um Trailmon. Para começar, surge numa altura em que o foco está no drama entre Kouji e Kouichi, em pleno Continente da Escuridão (mais sobre isso já a seguir). Se tínhamos de ter um filler nesta altura, teria de ser uma coisa leve, algo que aliviasse de uma das partes mais sombrias da temporada. 

 

O que é que os digiguionistas de Fronteira escolheram, de todos os enredos possíveis? Puseram metade do elenco a prestar cuidados paliativos a um Trailmon. Para além de deprimente, não vai a lado nenhum pois o raio do Trailmon nem sequer morre!

 

Fronteira às vezes é bizarro.

 

Em teoria, o mundo Digital de Fronteira tem zonas diferentes para cada elemento – uma zona para o fogo, a água, o vento, etc. Na prática, a ideia não tem grande expressão. Nas poucas zonas elementares que visitamos, o elemento que representam é um mero aspeto estético – se é mais do que isso, a narrativa não se foca nele. Os cenários são cenários como quaisquer outros, no geral. 

 

A única zona explorada mais a fundo é o Continente da Escuridão, mas aí temos o problema oposto: passamos demasiado tempo lá. Quase vinte episódios, sempre sob céu noturno, literalmente na sombra. Já tinha sido cansativo em Bokura No Mirai, aqui é ainda pior. 

 

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À parte isto tudo, gostei de algumas localizações por onde a história passa, o ligeiro worldbuilding, mesmo que contribua pouco para o enredo. A escola com a professora Togemon e os bebés todos. O mercado de Akita, com cameos de múltiplos Digimon de temporadas anteriores. Os castelos de Ophanimon (incluindo a biblioteca) e Seraphimon. As luas. Este Mundo Digital tem três luas e nós visitamo-las!

 

Além de que o episódio em que eles estão presos na lua e experimentando diferentes formas de regressar à “Terra” é hilariante. Por outro lado, a pobre Della Duck demorou mais de dez anos a escapar da lua, quem ri por última aqui…?


Por falar de episódios, no próximo texto iremos analisar o enredo de Fronteira. Como o costume, obrigada pela vossa visita. Até à próxima!

Saltando a Fronteira, vinte anos depois #1

Digimon.Frontier.full.1460676.jpg

 

Hoje completam-se vinte anos desde a estreia do primeiro episódio de Digimon Frontier – ou Digimon Fronteira, como é conhecido em terras portuguesas – no Japão. Vou aproveitar a ocasião para, finalmente, analisar esta temporada. 

 

Quem conheça o nosso grupo do Digimon PT/Odaiba Memorial Day PT saberá que o facto de ninguém gostar de Fronteira já é um meme entre nós. Não que não compreendesse, pelo menos em parte. Praticamente a única coisa que sabia sobre Fronteira antes era que o elenco não incluía companheiros Digimon. Havemos de falar sobre isso, claro, mas esta é uma queixa legítima. Até agora (assumo eu, que ainda não vi Savers, nem Xros Wars, nem Appmon), as parcerias entre humanos e Digimon eram a imagem de marca do anime. Sobretudo em Tamers, a temporada imediatamente anterior. Cortar com isso foi uma decisão arrojada que nunca iria agradar a toda a gente.

 

Ainda assim, quando me sentei para ver Fronteira pela primeira vez há quase dois anos, fi-lo com a mente aberta. Tentei dar uma hipótese a esta temporada para provar que merece sentar-se sem vergonha entre Adventure, 02 e Tamers. 

 

No entanto… bem, é melhor mostrá-lo em vez de explicá-lo.

 

A minha primeira maratona de Fronteira – a versão original – às cegas, foi relativamente rápida. Cerca de um mês e meio, encaixada confortavelmente na pausa do reboot de Adventure. A minha segunda maratona – dobrada em português, já tomando notas para a análise – só começou mais de um ano mais tarde, sobretudo porque precisei de tempo para digerir Kizuna. Comecei durante o verão de 2021, mas só terminei em fevereiro deste ano, mais de seis meses depois. Cheguei a estar dois meses sem progredir nessa maratona.

 

Por comparação, quando foi com Tamers, a minha segunda maratona demorou muito menos. Cerca de um mês, mais coisa menos coisa. O que é que isto vos diz?

 

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Pois é, tenho de concordar com a opinião popular, pelo menos na minha tribo. Não gosto muito de Fronteira. Pelo menos não tanto como de Adventure, Tamers, mesmo Tri e 02. No que toca ao reboot de Adventure, ainda não tenho opinião formada.

 

Dito isto, tal não significa que Fronteira seja completamente má. Pelo contrário, tem vários aspetos que a redimem. Nos próximos tempos aqui no blogue iremos, então, discutir o que resultou e o que não resultou nesta temporada. 

 

Esta análise irá estender-se por várias partes, seguindo uma estrutura semelhante ao que fiz com as temporadas anteriores. Não deverá ser tão longa como a de Tamers – Fronteira não tem material para tanto. Irei usar os nomes japoneses e, como deverá ser óbvio, spoilers em todo o lado. A primeira parte da análise virá ainda hoje. No entanto, ainda estou a trabalhar nas partes seguintes. Para ter tempo de terminá-las, vou publicar apenas uma por semana. 

 

Como o costume, obrigada pela vossa visita. Fãs de Fronteira, tenham um feliz vigésimo aniversário. Se gostarem do que escrevo, podem pagar-me um café na minha conta do Ko-fi, se quiserem.Continuem desse lado. 

Música 2021 #1: Flowers For Vases e o que farão os Paramore a seguir

Chegámos àquele período em que olhamos para trás e refletimos sobre o ano que termina. Quem acompanha este blogue há algum tempo saberá que, nesta altura, gosto de fazer um apanhado da música que mais me marcou ao longo do ano. 

 

Uma espécie de Spotify Wrapped por escrito.

 

Estes têm sido textos difíceis de escrever, contudo. Em parte por ter menos tempo, já que coincidem com as festas. Mas também tenho tido dificuldades em decidir os moldes adequados para a retrospetiva. 

 

Este ano decidi regressar ao básico e fazer como fazia nos primeiros anos deste blogue: uma publicação para cada artista ou banda, sensivelmente (poderão haver exceções). Mesmo que me atrase e só consiga concluir a retrospectiva em inícios ou mesmo meados de janeiro (espero que não), na pior das hipóteses já tenho esta primeira parte publicada. E talvez seja mais apelativo, tanto para mim como para quem leia.

 

Vou seguir uma ordem mais ou menos cronológica. As primeiras artistas vêm em continuidade de 2020. Começando por Hayley Williams, que, depois de ter encerrado 2020 com o EP Petals For Armor: Self-Serenades, de ter deixado pistas nas redes sociais e ter “vazado” o tema My Limb, lançou o seu segundo álbum a solo, Flowers For Vases em inícios de fevereiro. 

 

 

Vários temas de Flowers For Vases aparecem no meu Spotify Wrapped, mas isso não é representativo. Conforme expliquei aqui, tirando quando tenho o Premium, geralmente só uso o Spotify no meu computador, enquanto escrevo ou preparo textos para publicação. 

 

Assim, as músicas de Flowers For Vases terão acumulado reproduções enquanto eu tratava da análise. Eu nem sequer gosto assim tanto de Inordinary ou de Good Grief. O álbum foi marcante no início do ano, sim. Mas, tal como previ na altura, regressei pouco a este trabalho, tirando as minhas músicas preferidas – My Limb, Over Those Hills, Find Me Here, Just a Lover. Asystole quando estou para aí virada. 

 

Conforme escrevi na análise, Flowers For Vases tem os seus momentos, mas é um álbum demasiado minimalista em termos de instrumental. As músicas são demasiado curtas e, nalguns casos, pouco intensas, incapazes de me cativar. 

 

Na minha opinião, Hayley precisa de pelo menos uma outra pessoa com quem compôr. As músicas de Flowers For Vases, mesmo deixando a desejar, continuam acima da média no que toca a música no geral. Ainda assim, mesmo as melhores neste álbum mal conseguem competir com os temas de Petals For Armor e da maioria da discografia dos Paramore. Adaptando uma frase que citei na análise a PFA, Hayley até se pode safar muito bem a solo, mas sozinha já não se safa tão bem.

 

Além disso, só prova que aqueles que dizem que os Paramore são Hayley-mais-dez não sabem do que falam. Hayley é claramente uma jogadora de equipa.

 

Captura de ecrã 2021-12-18, às 23.53.49.png

 

A mim parece-me que o início de 2021, quando saiu Flowers For Vases, foi há imenso tempo. Foi um ano muito comprido para mim, tanto quanto 2020 pareceu na altura. 

 

Isto será em parte porque mudei de emprego este ano. Tenho rotinas diferentes, questões de trabalho que me apoquentavam há um ano hoje nada significam. Mas mesmo tirando estas questões mais pessoais, as coisas mudaram. Em janeiro/fevereiro estávamos na pior fase da pandemia, no nosso segundo confinamento, sem sequer podermos beber um café “ao postigo”. Desde aí a pandemia melhorou significativamente à medida que a vacinação se disseminou. Tornou a piorar nas últimas semanas e os próximos meses são muito incertos, mas longe da gravidade do início do ano. 

 

Assim, quando oiço certas músicas de Flowers For Vases, sobretudo aquelas que oiço menos vezes, tenho recordações do início do ano. Entretanto, Hayley entrou em estúdio com Taylor e Zac e, agora, o sexto álbum dos Paramore já esteve bem mais longe. Hayley praticamente confirmou-o para 2022 e acho que está na altura. Até porque os Paramore acabam de ter o seu melhor ano de sempre no Spotify – um feito notável para uma banda que não lança música nova há mais de quatro anos. A ideia que eu tenho é que eles têm ganho popularidade no Tik Tok.

 

Eles têm de aproveitar.

 

Captura de ecrã 2021-12-19, às 00.05.42.png

 

 

Tenho-me esforçado por não pensar muito no próximo álbum dos Paramore. Em parte por, como referi quando escrevi sobre All We Know is Falling, ter precisado de me alhear um pouco do universo cinemático deles (embora tenha começado a ouvir este podcast, que recomendo). 

 

Ao mesmo tempo, não quero especular demasiado nem criar expectativas, que correm o risco de serem defraudadas. Estou a tentar manter a minha mente o mais aberta possível. Ao contrário de uma grande fatia dos fãs, não tenho preferência pelo género musical do próximo trabalho. Podem trazer o som mais pesado dos primeiros álbuns – juntando-se a Avril Lavigne, Travis Barker e companhia – podem trazer as influências de synth pop e new wave de After Laughter ou seguir uma direção completamente diferente. A mim é-me igual, desde que a qualidade seja a mesma de sempre.

 

Só tenho dois desejos. O primeiro, o mais importante, é que Hayley não cante sobre o ex-marido. Falando por mim, estou farta, ela que enterre esse cavalo morto de vez. Que cante antes sobre o Taylor sobre a nova relação saudável que diz ter neste momento. 

 

O segundo desejo é que Hayley aplique as lições aprendeu com os seus trabalhos a solo. Que suje as mãos com a instrumentação, mesmo que use algumas das influências de Petals For Armor e Flowers For Vases. Não seria absolutamente essencial, mas seria interessante. 

 

A ver no que dá. 2022 vai ser bom pois a minha santíssima trindade – o meu cantor preferido, a minha cantora preferida e a minha banda preferida – irá toda lançar música nova. Não tenho grande pressa com o álbum novo dos Paramore – até me covinha que eles “deixassem” Avril e Bryan lançarem os seus trabalhos primeiro antes de anunciarem o seu. 

 

Ficamos por aqui, para já. Se não conseguir publicar antes, votos de Boas Festas e de boas entradas em 2022, sempre com os devidos cuidados porque pandemia. Até à próxima!

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