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Álbum de Testamentos

"Como é possível alguém ter tanta palavra?" – Ivo dos Hybrid Theory PT

Música 2022 #4: Diz que tudo isto é emo

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Não podia falar sobre música que me marcou em 2022 sem falar sobre Everything is Emo. Este é um podcast/programa de rádio que Hayley Williams dos Paramore lançou entre abril e setembro desse ano. 

 

Neste programa, Hayley fez mais ou menos aquilo que tantos de nós fazem nas internetes, aquilo que eu faço aqui neste blogue: falar de música de que se gosta, que a marcou, partilhando histórias pessoais sobre ela. Como a própria Hayley explicou, ela prestou homenagem a artistas e bandas que a inspiraram, a ela e ao resto dos Paramore, que abriram caminho para eles. Ao mesmo tempo, Hayley elevou artistas e bandas – por exemplo, Wet Leg e Wolf Alice – que surgiram depois dos Paramore. Pelo meio, foi aceitando sugestões da audiência.

 

Houve aqui um bocadinho de exploração do ciclo nostálgico de vinte anos, sim. Mas, pelos motivos listados acima, pareceu-me um pouco mais genuíno que aquilo que, por exemplo, Travis Barker e respetiva trupe têm feito – já terão reparado que os Blink 182 reagruparam e vão lançar um álbum em breve. 

 

E, claro, como alguém que foi adolescente durante os anos 2000, identifiquei-me com algumas coisas de que Hayley falou no podcast: CDs gravados por mim mesma, o som da Internet ligando-se por telefone, ouvindo música no Windows Media Player enquanto escrevia. No meu caso eram as minhas histórias e talvez o meu diário. Hayley não só escrevia um diário (e acho que ainda o faz hoje) como escrevia letras para os Paramore. 

 

Como é que Hayley escrevia letras de música enquanto ouvia música, no entanto? Seria como eu escrever as minhas histórias ao mesmo tempo que oiço um áudiolivro de ficção.

 

O tema do podcast era música emo… e eu não sei ao certo o que isso é. Conheço o termo há anos, claro, já o usei algumas vezes, mas nunca conheci a definição oficial e nunca me “identifiquei” com ele. Até porque, como penso já ter referido cá no blogue, não ligo muito a rótulos ou géneros musicais, tirando termos muitos gerais como rock, pop, eletrónico, etc. Às vezes oiço alguém dizer “Ah, este verso é muito emo” e nem sequer percebo o que levou a essa observação.

 

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Conheço, claro, o estereótipo do emo vestido de negro, que abusa do eyeliner preto, com o rosto inexpressivo – o que parece contradizer o conceito de emo, que vem de “emoção”. Pessoalmente, sempre associei emo a uma certa melancolia, estilo ultra-romantismo ou as fases não-futuristas de Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Fernando Pessoa. A minha playlist Post Kyousei (que compilei depois do filme de Tri com o mesmo nome) é um bom apanhado daquilo que eu considero pelo menos um bocadinho emo. Inclui músicas como Chasing Cars, dos Snow Patrol, My Indigo, Victim of Love ou Sober II (Melodrama) de Lorde – claro que nem toda a gente concordará essas escolhas. 

 

Por outro lado, admira-me ninguém referir The Sound of Silence quando falamos deste género musical. Haverá algo mais emo que os versos “Hello darkness, my old friend. I’ve come to talk with you again”?

 

De resto, parece-me que o discurso em torno do que é emo ou não tem mudado nos últimos anos. Agora, pelos vistos, uma grande parte da música que oiço é emo. 

 

Será…? 

 

Que os Linkin Park sempre foram um bocadinho emo concordo. Os Paramore também sempre estiveram associados a esse género – havia quem dissesse há uns anos que eles não o eram, mas agora os próprios assumem-se assim. Quem vai contrariá-los? Avril Lavigne emo? Já acho um bocadinho esticado. Talvez o Under My Skin e partes do Let Go. Mas tirando isso…

 

Às tantas haverá quem ache que sou emo. Nunca pensei…

 

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O que é certo é que sempre tive um lado musical mais pesado, mais “alternativo”. No entanto, esse lado esteve menos ativo durante uns anos enquanto investi no meu lado mais pop. De 2017/2018 para a frente ganhei um interesse por pop dos anos 80, por pop influenciada pelos anos 80, como descrevi aqui, ou mesmo pop em geral. O After Laughter dos Paramore contribuiu para isso, bem como os trabalhos a solo de Hayley Williams, mas também artistas como Carly Rae Jepsen, Mika, Lorde ou Taylor Swift. Com as devidas exceções, o lado mais pesado ficou mais negligenciado. 

 

O podcast de Hayley e o concerto dos Simple Plan e dos Sum 41 (mais sobre isso mais tarde) ajudaram a despertá-lo de novo. 

 

Mesmo assim, não abdico do meu pop. O meu gosto musical define-se por aquele meme com uma casa escura ao lado de uma casa colorida. 

 

Havemos de falar sobre a casa colorida mais tarde, hoje falamos sobre a casa escura. Não gostei de todas as músicas que Hayley tocou no seu podcast, mas gostei de uma mão-cheia delas. Neste texto vou falar das mais marcantes, mas a playlist que compilar no fim deste balanço musical incluirá outras.

 

Uma das bandas que apareceram mais vezes no podcast foi Jimmy Eat World. Antes disto, só os conhecia de nome e por The Middle. O programa de Hayley convenceu-me a ouvir Bleed American e gostei. Agora arrependo-me de não os ter conhecido melhor antes – é o estilo de música de que sempre gostei.

 

Só recentemente, na preparação para este texto, é que tive oportunidade para olhar com olhos de ver para a maior parte das letras. Foi um problema recorrente em 2022 e que acho que se vai manter em 2023, se me permitem o desabafo. Hayley diz, com toda a razão, que quanto mais música tivermos para amar, mais felizes seremos. O problema no meu caso é nem sempre conseguir passar tempo suficiente com as canções, não consegui conhecê-las a fundo. E sinto admiração à mistura com inveja de pessoas como Hayley, que têm muito mais artistas e bandas no seu radar do que eu. 

 

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Eu sei que, como cantora e compositora, isso faz parte do trabalho de Hayley. Mas mesmo assim. 

 

Regressamos a Jimmy Eat World e a Bleed American. Gosto imenso da instrumentação neste álbum. As guitarras e a bateria são o mais óbvio, mas gosto particularmente da maneira como usam o piano nas músicas mais agitadas – por exemplo, Sweetness e If You Don’t, Don’t. Corrijam-me se estiver enganada, mas não é muito habitual em música deste género, pois não?

 

E, claro, as melodias são irresistíveis. 

 

Hear You Me foi uma das primeiras a cativar-me porque, regra geral, vou sempre primeiro para as baladas. No entanto, na minha opinião, Cautioners é uma balada mais interessante – pelo menos no que toca ao instrumental. Por um lado, parte do acompanhamento é sereno, atmosférico, como numa balada convencional. Gosto em particular do piano no refrão e no pequeno crescendo na terceira parte. Ao mesmo tempo, temos os acordes de guitarra elétrica e a bateria a cortar – adoro o efeito.

 

Outras de que gosto são If You Don’t, Don’t e The Authority Song – isto se falarmos apenas na edição-padrão. A versão Deluxe também tem as suas pérolas, como (Splash) Turn Twist, No Sensitivity e The Most Beautiful Things.

 

Tenho tido algumas dificuldades em escolher a minha preferida em Bleed American. Durante muito tempo foi Get it Faster – segundo Hayley no seu podcast, é uma das preferidas da irmã dela, Erica.

 

 

Continuo a achar que é uma das melhores do álbum. É uma música zangada. Na letra, o narrador quer sair de uma situação má. O mais provável será uma relação amorosa, mas também se poderá aplicar a outros cenários, como um emprego ou uma família disfuncional. 

 

A musicalidade reflete bem essas emoções. Partes da música são contidas, a instrumentação é tensa. É como se Get it Faster estivesse a ser cantada e tocada entredentes. A música solta-se no refrão, torna-se mais barulhenta, aliviando a tensão – aqueles “Oh! Oh!” são irresistíveis, convidam-nos a partilhar da raiva e do alívio do narrador. E, como muitos assinalam, aquele momento com as guitarras na terceira parte é muito fixe.

 

No entanto, A Praise Chorus foi subindo nas minhas preferências na reta final de 2022. É uma canção super cativante, super contagiosa – a terceira parte, então, é uma delícia. O refrão deixa-nos com vontade de conquistar o mundo, sobretudo o último.

 

Na preparação deste texto fui ver a letra e pesquisar as origens da música. A Praise Chorus é uma homenagem aos artistas e bandas que inspiraram os Jimmy Eat World, bem como uma celebração de concertos e música em geral. Convida o ouvinte a juntar-se à festa e a não ficar nas margens.

 

O que é definitivamente uma filosofia a que subscrevo. Tendo isso em conta, não surpreende que Hayley a tenha escolhido para abrir Everything is Emo. Por tudo isto, A Praise Chorus é a minha preferida em Bleed American – pelo menos para já.

 

Claro que os Jimmy Eat World têm outros álbuns para além deste. Ainda não os ouvi, tirando uma ou outra música do álbum Futures que Hayley incluiu no podcast. Hei de ouvi-los no futuro, começando talvez por Clarity – dizem que é o melhor deles.

 

 

Depois, tenho uma série de músicas individuais apresentadas no podcast de que gostei. The Taste of Ink e Jackie Down the Line estão entre as minhas preferidas, mas têm a seu favor terem tocado nos primeiros episódios do programa – estão comigo há mais tempo. The Adults Are Talking é muito gira, mas tem-me feito confusão – As it Was do Harry Styles é demasiado parecida com ela.

 

Também gostei de Trust dos The Cure. Adoro a longa introdução instrumental, adoro a atmosfera que pinta.

 

Uma das minhas preferidas em Everything is Emo – e uma das minhas preferias em 2022, ponto – é Sidelines, de Phoebe Bridgers, uma canção de amor. Hayley deu a entender que esta a fez chorar – e se olharmos para a letra dá para perceber porquê.

 

Essencialmente, a narradora de Sidelines não tinha medo de nada porque não tinha nada a perder – nunca se colocava numa situação onde podia ser magoada. Isso mudou quando se apaixonou. Agora tinha um motivo para sair da sua zona de conforto, agora tinha alguém que podia perder – e que a podia perder.

 

Faz lembrar um dos temas recorrentes neste blogue, sobretudo a propósito dos trabalhos a solo de Hayley: impermeabilidade versus força, erguer barreiras versus ser-se vulnerável. No caso de Sidelines é paradoxal: dizer que não se tem medo de nada é batota se uma pessoa se mantém à margem da vida, se evita ativamente situações em que poderá sentir medo. 

 

Lá está, é algo humano, algo universal. Algo com que Hayley se debateu no passado, conforme admitiu em Petals For Armor, com que a própria Phoebe Bridgers se terá debatido. Aliás, Sidelines pode ser um dedo apontado a mim, que sou demasiado boa a estar sozinha. Além de que me faz pensar em inúmeras personagens fictícias. Ruki e Emma, como comentei noutras ocasiões, e a protagonista das histórias que escrevia em miúda – que se mantinha afastada de tudo porque receava afeiçoar-se a pessoas e depois perdê-las. 

 

 

A última canção de Everything is Emo sobre a qual quero falar é Faces in Disguise, dos Sunny Day Real Estate – a última música tocada no podcast. Hayley incluiu-a nas suas cinco canções emo preferidas. Depois desta, também é uma das minhas.

 

Aquilo que me cativou primeiro foi a instrumentação. Adoro um tom atmosférico bem feito. A música mantém-se serena até à terceira parte, onde ganha intensidade. 

 

A letra fala sobre paixão latente. Duas pessoas que se desejam uma à outra mas que não o exprimem. Acho piada porque o cenário adequa-se ao estereótipo do emo: rostos inexpressivos com múltiplas emoções borbulhando por dentro. 

 

Everything is Emo abre e fecha com chave de ouro. 

 

Na verdade, na preparação deste texto, tenho olhado para as listas das músicas deste podcast – lendo-as com a voz de Hayley – tenho voltado a ouvir partes de episódios. Ainda continuo a descobrir músicas de que gosto e a reparar em coisas que não tinha reparado antes – por exemplo, notando semelhanças entre as músicas de Bloc Party do podcast e as músicas de This is Why lançadas oficialmente até agora.

 

Hei de continuar a ouvir estas músicas. E espero que Hayley volte a fazer um programa deste género um dia destes – ela não fechou essa porta.

 

 

Queria agora falar de outras músicas, mais ou menos dentro do género emo, mas que descobri fora do podcast de Hayley. Inside of Love, dos Nada Surf, é uma música que já está nas minhas playlists há uns anos e identifico-me um pouco com a letra. Ashes of Eden dos Breaking Benjamin é uma agradável balada rock, ainda que dispensasse a religiosidade da letra.

 

Uma palavra para Song for Zula, de Phosphorescent. Há uns meses, uma colega minha estava a ouvir esta canção no trabalho, eu gostei e fiz Shazam. Não sei se isto é oficialmente emo, mas encaixa-se na minha definição – uma letra super triste. O acompanhamento é lindo – outra música com um instrumental etéreo bem sacado.

 

Por seu lado, o cover de Running Up that Hill dos Placebo é uma que conheço há ainda mais tempo – desde uma inesquecível cena da segunda temporada de Bones. Tinha-a negligenciado nos últimos anos, mas voltou à minha rotação em 2022. Como se devem recordar, o original de Kate Bush explodiu no ano passado graças a Stranger Things. Nada contra essa versão, bem pelo contrário, mas prefiro a versão dos Placebo. E adoro a apresentação deles no Vilar de Mouros do ano passado – ficou ainda melhor que a versão de estúdio. 

 

Finalmente, já que falo em covers, tenho de referir um que está entre as minhas músicas preferidas de 2022. O autor é Anthony Vincent, um YouTuber que acompanho de longe há vários anos, desde que ele gravou uma versão de In the End dos Linkin Park em vinte estilos diferentes. Com o próprio Chester Bennington a apadrinhar. 

 

Ora, este ano, Anthony fez ao contrário e gravou duas canções de Eminem no estilo de Linkin Park. De Rap God não gostei muito, ficou demasiado parecida com Papercut.

 

 

A versão de Lose Yourself, no entanto, ficou perfeita. Este cover é clássico Linkin Park, sem que se pareça demasiado com uma canção específica. Como se fosse, de facto, apenas mais uma canção dos Linkin Park, uma faixa do baú de Hybrid Theory ou de Meteora. Não vou mentir, numa altura em que é pouco provável virmos a ter um novo álbum da banda, esta versão mexe com as minhas emoções. 

 

Até porque aquele último screamo é parecidíssimo com o de Chester.

 

Outro evento relacionado com emo/pop punk que influenciou o meu ano musical foi, então, o concerto dos Simple Plan e dos Sum 41, com Casyette a abrir – uma espécie de When We Were Young em ponto pequeno. 

 

Antes de falarmos sobre as bandas principais, uma palavra para o número de abertura. Cassyette é uma cantora inglesa, na altura desconhecida para mim e, suspeito, uma grande parte da audiência na Sala Tejo do Pavilhão Atlântico. No entanto, a jovem conquistou a nossa admiração – os gritos impressionados do público depois de cada screamo.

 

Pois é, já referi que Cassyette faz screamo? Não conheço muitas muitas cantoras que o façam. Aliás, acho que ela soa melhor ao vivo – os screamos perdem-se um bocadinho na produção das gravações de estúdio. 

 

O único defeito que não chega a sê-lo que tenho a apontar é que, na minha opinião, a voz de Cassyette parece-se demasiado com a da P!nk. Às vezes distrai um pouco. Tirando isso, esta foi uma boa adição ao meu nicho pessoal. As minhas canções preferidas neste momento são September Rain e Sad Girl Summer. Tenho pena que o concerto se tenha dado depois do final de Everything is Emo – teria tentado sugerir Cassyette.

 

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Regressamos aos Simple Plan e aos Sum 41. Existe algo comum a estas duas bandas, para além de serem canadianas (fiquei chateada por não terem colocado t-shirts da digressão Blame Canada à venda no Pavilhão Atlântico; teria um significado especial para mim, que gosto de vários músicos canadianos). É o facto de ter negligenciado ambas nos últimos anos, ainda que em graus diferentes e por motivos diferentes. 

 

Começando pelos Simple Plan. Não sei se cheguei a referi-lo aqui, mas praticamente deixei de ouvi-los depois de Taking One for the Team, em 2016. Mantive uma meia-dúzia de músicas na minha rotação – Perfect World, Holding On, Boom! e pouco mais. Depois de comprar bilhete para o concerto, dei uma oportunidade a Harder than it Looks. Mas a verdade é que esse álbum apenas me recordou dos motivos pelos quais deixei de ouvir a banda.

 

Nem sei bem como explicar. São as letras demasiado simplistas, demasiado literais, sem subtileza nenhuma. Várias delas são quase uma paródia ao emo, podiam ter sido escritas por um puto de doze anos – veja-se por exemplo I’m Just a Kid. Poderá ser precisamente por isso que os Simple Plan cativaram muitos de nós quando éramos mais novos – essencialmente musicando páginas do nosso diário – mas era de esperar que, pelo menos no meu caso, se tenha tornado menos apelativo à medida que fui envelhecendo.

 

Até porque os Simple Plan evoluíram pouco. Harder than it Looks partilha defeitos com Love Sux: letras sem profundidade, dependentes de clichés, demasiado imaturas para a idade dos músicos – estes tipos estão na casa dos quarenta, já têm filhos! Porque eles ainda cantam sobre haters? Até com a Taylor Swift, dez anos mais nova, já começo a achar excessivo.

 

Dito isto… eles foram simpáticos e deram um bom espetáculo. Eu fiz mal o trabalho de casa, devia ter-me focado nos velhos êxitos em vez de em Harder than it Looks – eles só tocaram Iconic desse álbum. Já não me lembrava de algumas letras das músicas mais antigas – inclusivamente, tinha-me esquecido que Summer Paradise existia.

 

 

Ao menos serviu para recuperar apreciação por algumas destas músicas. Welcome to My Life continua muito fixe. Perfect continua a bater mais forte do que merece (mommy issues, caro leitor). E “You say ‘Good morning’ when it’s midnight” continua a ser um dos meus versos preferidos em música.

 

Fui filmando um ou outro vídeo durante o concerto, eles estão todos na página de Facebook daqui do blogue. A certa altura esqueci-me de desligar a câmara antes de guardar o telemóvel na minha mala e acabei por gravar o áudio de cerca de quarenta minutos do concerto. A qualidade não ficou muito má, se quiserem podem ouvir aqui. Se os Simple Plan quiserem voltar a Portugal um dia destes, sou mulher para voltar a vê-los.

 

Com os Sum 41 é diferente. Ouvi-os menos nos últimos anos não por gostar menos deles, antes porque, como expliquei antes, cansei-me um pouco de música mais pesada. Soube quando eles lançaram Order in Decline em 2019, mas não me apeteceu ouvi-lo. Fi-lo no verão passado, em preparação para o concerto.

 

Ainda só conheço o álbum de forma superficial mas, no geral, gostei. Os Sum 41 têm um lado mais pop punk dos anos 2000 e um lado mais pesado, quase heavy metal. Order in Decline explora o segundo – com um par de baladas para desopilar.

 

Segundo Deryck, a intenção não era criar um álbum político. Ele terá escrito as letras com base nas suas experiências pessoais. Como nos últimos anos não tem dado para nos mantermos imparciais em relação ao que se passa no mundo, o político acaba por verter para a escrita – suspeito que isto também terá sido o caso com This is Why. Temos, assim, várias referências a Donald Trump, ainda presidente em 2019 – 45 (A Matter of Time) é um exemplo óbvio, mas outras músicas, como A New Sensation ou Heads Will Roll também poderão aludir a ele.

 

 

Fico com uma certa pena de não ter ouvido o álbum em 2019 para, depois, tocar estas músicas quando Trump perdeu as eleições. Por outro lado, infelizmente, não faltam por aí tiranos a quem estas músicas se podem aplicar.

 

Vou acrescentar algumas músicas de Order in Decline à playlist anual, mas ainda preciso de passar mais tempo com este álbum antes de formar uma opinião (mais) definitiva.

 

De qualquer forma, eles não tocaram nenhuma destas músicas no concerto. Este serviu sobretudo para celebrar os vinte anos de All Killer No Filler e de Does This Look Infected.

 

Gostei mais deste concerto do que do de 2017, embora não saiba explicar bem porquê. Talvez eles estivessem mais calorosos desta vez, talvez eu estivesse mais sedenta de concertos depois da pandemia – e depois de perder Chester. Não sei, só sei que gostei. Estava à frente, encostada à esquerda – não necessariamente aquilo a que os anglo-saxónicos chamam “nosebleed section”, mas suficientemente perto para sentir o calor dos lança-chamas em palco.

 

Não sei se tenho um lado emo, mas definitivamente tenho um lado pop punk, alternativo, quase metaleiro. Em ocasiões como esta, ela canta em altos berros, dança, dá headbangs – e fica dois ou três dias sem conseguir baixar a cabeça. Pode parecer estranho pois, à primeira vista, sou uma pessoa calma, introvertida, uma menina certinha, betinha, que bebe pouco e à meia-noite já está pronta para ir para casa.

 

Em minha defesa, Hayley é pior do que eu – a essa hora já ela foi para a cama há muito. Está visto que eu e ela temos muito em comum.

 

 

Por outro lado, para além da parte metaleira, também tenho um coração romântico. Assim, fiquei contente quando, depois do concerto em si, quando metade do pessoal já tinha saído, Deryck subiu de novo ao palco e cantou Best of Me em acústico. Best of Me não é single, nem sequer sei se é muito popular, mas sempre gostei dela. E depois da intensidade do concerto, soube bem aquele momento mais calmo, de maior proximidade entre Deryck e nós, o público mais resistente.

 

Há quase um ano, os Sum 41 anunciaram que o seu próprio álbum chamar-se-á Heaven and Hell. Neste exploração ambos os lados – o pop punk em Heaven, o metal em Hell. 

 

Heaven refletirá a nostalgia do pop punk dos anos 2000 e também a felicidade pessoal de Deryck. Ele que tem um filho pequeno (um miúdo muito giro) e está à espera de outro.

 

Um aparte só para dizer que, como alguém que o acompanha há muitos anos, sabe bem ver Deryck feliz depois de tudo a que sobreviveu. Que se mantenha assim. 

 

Hell por sua vez, refletirá tudo o que se tem passado fora dessa bolha familiar. Nesse aspeto, deverá ser parecido com Order in Decline.

 

Parece fixe mas, infelizmente, ainda não há previsão para o lançamento. Problemas na produção? Espero que não seja o caso. Talvez eles queiram terminar a digressão primeiro, ou esperar que o segundo filho de Deryck nasça. Talvez o álbum só venha lá para o fim deste ano.

 

Pessoalmente não me importo. Terei que chegue com que me entreter.

 

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O que me leva de volta, finalmente, aos Paramore e a This is Why. Atrasei-me tanto mas tanto com este texto que 2023 já começou há muito, eles já lançaram C’est Comme Ça e, à hora desta publicação, estamos a horas do lançamento do álbum completo. 

 

Tendo isso em conta, não me vou alongar muito sobre The News, que ainda conta para 2022. Haverá oportunidade para isso quando escrever sobre This is Why, o álbum. Dizer apenas que gostei, que soube bem ouvir dois meses depois dos primeiros excertos.

 

No fim disto tudo, que acham? Sou emo ou não? Fica ao vosso critério. Pessoalmente não me ralo.

 

Por hoje é tudo. Só falta mais um texto para, finalmente, concluir o balanço musical de 2022. A ver se consigo fazê-lo antes do final de 2023.

 

Obrigada pela vossa visita. Até à próxima.

Sum 41 - 13 Voices (2016)

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A banda de punk rock canadiana, Sum 41, atuou recentemente em Lisboa, no Coliseu dos Recreios e eu estive lá. A banda, liderada por Deryck Whibley, veio apresentar o seu mais recente álbum de estúdio, 13 Voices, editado em outubro do ano passado. Está na altura de, finalmente, falarmos sobre isso.

 

Não tenho um único álbum preferido bem definido dos Sum 41. A verdade é que não oiço a discografia completa deles há muito tempo, só aquelas músicas de que gosto mesmo e que fui incluindo nas minhas playlists. Os álbuns de All Killer No Filler a Underclass Hero contribuem com mais ou menos o mesmo número de músicas para essas playlists. Dito isto, considero que as melhores, de uma maneira geral pertencem ao álbum Chuck – títulos como No Reason, Open Your Eyes, We’re All to Blame, There’s No Solution e Pieces.

 

De qualquer forma, talvez um dia destes escreva Críticas Retrospetivas a alguns desses álbuns. Não nos próximos meses, mas um dia.

 

Screaming Bloody Murder é, infelizmente, o álbum de que menos gosto neles. Essa é uma opinião comum a muitos fãs, eu sei, mas garanto-vos que tentei, várias vezes. As únicas de que gosto são Reason to Believe (gostei quando o Deryck tocou a conclusão dessa música ao piano, durante o concerto), Crash, Exit Song e, um pouco, Blood in My Eyes (que chegou a estar nomeada para os Grammy).

 

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13 Voices até se assemelha um pouco a Screaming Bloody Murder mas, na minha opinião, está uns quantos furos acima. Acho que ninguém ficou surpreendido quando se veio a saber que este álbum foi fortemente influenciado pela quase-morte por alcoolismo de Deryck e consequente recuperação. Deryck afirmou mesmo que a tracklist segue quase uma ordem cronológica. Assim, A Murder of Crows foi a primeira música a ser composta por Deryck após sair do hospital.

 

À semelhança de Reason to Believe em Screaming Bloody Murder, A Murder of Crows é uma abertura épica para 13 Voices. Para além das guitarras e da bateria, noto também alguns elementos sinfónicos – tanto quanto sei, uma novidade na discografia dos Sum 41 e voltarão a aparecer no álbum. Deryck afirmou, neste vídeo, que compôs A Murder of Crows pensando em pessoas na sua vida, que considerava amigas, que tinham estado lá para as festas e para a bebida, mas que, no pior período da vida de Deryck, voltaram-lhe costas.

 

Não que isso seja uma grande surpresa. Pelo contrário, é um denominador comum a muitos casos semelhantes. Pessoas tóxicas, abutres. Não é por acaso que esta canção se chama A Murder of Crows, “um assassino de corvos”. Já Grow Up dos Paramore faz referências a pessoas desse género. Não é de surpreender que uma das primeiras coisas que Deryck tenha feito depois de sair do hospital tenha sido cortar essas pessoas da sua vida.

 

  

Outro tema fortemente influenciado por aquilo que aconteceu a Deryck foi War, o primeiro single oficial de 13 Voices (apesar de Fake My Own Death ter sido revelada algumas semanas antes). War tem sido descrita como a Pieces deste álbum e, de facto, as semelhanças são evidentes. Porém, enquanto Pieces é guiada pela guitarra elétrica e possui um tom depressivo, War é guiada pelo piano e tem um tom mais determinado e esperançoso.

 

War vale sobretudo pela sua letra, no entanto. Costumo falar muito em música que salva vidas – segundo Deryck, War foi quase literalmente o caso. Recordar que, devido aos danos que o álcool provocou nos seus nervos, Deryck teve de começar quase do zero. Teve de aprender de novo a andar, a tocar guitarra, mesmo a viver. Não é um percurso fácil para ninguém e, naturalmente, existem dias maus. Num desses dias, Deryck esteve muito perto de desistir e pegar numa garrafa. Em vez disso, pegou em papel e lápis (ou então caneta, sei lá…) e escreveu aquilo que se tornaria a letra de War.

 

Depois de escrevê-la, Deryck encarou aquelas palavras como um contrato consigo mesmo, uma promessa de que continuaria a lutar pela sua recuperação. Antes de tocar War, no Coliseu de Lisboa,  Deryck disse mesmo que uma das coisas que o motivou nesta luta foi o desejo de gravar um disco e regressar aos palcos para ver os fãs. Chegou mesmo a agradecer-nos por isso, à “família Sum 41” – é muito amor!

 

  

Breaking the Chain (uma das minhas preferidas neste álbum) também parece refletir uma fase da sua recuperação. Tem uma sonoridade interessante pois inclui uma orquestra e tudo (algo inédito na discografia de Sum 41, tanto quanto sei), sem dispensar as guitarras elétricas. Na letra, o narrador reflete sobre o seu passado. Assume pela primeira vez, preto no branco, os erros que cometeu e decide mudar, redimir-se. A palavra “chain” pode significar  “corrente” ou “sequência de eventos”, “padrão”. No contexto desta música, ambos os significados fazem sentido. A expressão que serve de título à faixa pode, assim, referir-se à quebra das correntes que o prendem à sua vida anterior, ou então à quebra da cadeia de eventos, do ciclo vicioso, que inevitavelmente resultaria na sua morte.

 

The Fall and the Rise é uma música que tem vindo a… bem, a subir na minha consideração. Esta adota um estilo recorrente na discografia dos Sum 41, com versos cantados quase em rap – como acontece, por exemplo, em Still Waiting e I’m Not the One. O riff de guitarra e aquilo que me parece ser um órgão dramático fazem um crescendo interessante até ao refrão. Gosto, também, da terceira parte da música, em que esta abranda ligeiramente e os vocais se tornam mais melodiosos. Na minha mente, a música pinta a imagem de uma corrida num sítio agreste (uma floresta escura, por exemplo, ou um deserto), o que, de resto, condiz com a letra da música. Tudo isto dá a The Fall and the Rise um carácter desafiador, determinado. Calculo que Deryck tenha escrito estes versos numa altura em que se sentia mais esperançoso, confiante em si mesmo, decidido a recuperar-se e a voltar ao “sítio aonde pertence” – os palcos, assumo eu.

 

  

Goddamn I’m Dead Again também faz referências ao que aconteceu a Deryck. A letra é essencialmente Deryck ralhando consigo mesmo por quase ter dado cabo de si próprio. A música destaca-se, também, pelo seu excelente solo de guitarra (embora algumas partes se assemelhem, suspeitamente, ao solo de Hotel California), da autoria de Dave “Brownsound” Baksh. Deryck afirmou que Goddamn I’m Dead Again é, de resto, a canção que assinala o regresso de Dave à banda.

 

Se Goddamn I’m Dead Again é a canção de Dave, There Will Be Blood será a música de Frank Zummo, o novo baterista da banda. Segundo Deryck, There Will Be Blodd partiu de uma composição antiga de Frank, que Deryck concluiu. Esta música volta a ter alguns elementos sinfónicos, dramáticos, soa-me muito parecia à sonoridade habitual dos Within Temptation. Até a letra aborda temas semelhantes. Fugindo um pouco ao que aconteceu com Deryck, parece falar de anjos severos, prontos a castigar os pecadores. No entanto, a cena dos “the little ones” torna-se repetitiva e um pouco irritante. Não sou a única a pensar assim, de reste, tenho encontrado opiniões semelhantes na Internet. There Will Be Blood não é uma música má, recebe pontos pelos elementos sinfónicos, mas é a faixa de que menos gosto em 13 Voices.

 

Fake My Own Death foi a primeira música que conhecemos de 13 Voices, mas não me diz por aí além. A letra não é nada de especial, na minha opinião – aborda temas costumeiros na discografia da banda (o videoclipe dá a entender que se refere à cultura de Internet). Dito isto, gosto da terceira parte da música e gosto ainda mais do refrão.

 

  

Nesse aspeto, gosto muito mais de God Save Us All, apesar de “roubar” elementos a The Catalyst dos Linkin Park (ou talvez graças a isso). O próprio título remete para “God save us everyone”. A verdade é que esta nem sequer é a primeira vez que os Sum 41 imitam os Linkin Park (acidentalmente ou não). A terceira parte de I’m Not the One faz lembrar a terceira parte de A Place For My Head. O verso “How can we fake this anymore” de No Reason é muito parecido, tanto na escolha de palavras como na melodia, ao verso “I cannot take this anymore” de One Step Closer. Finalmente - esta pode ser só eu - There’s No Solution soa-me muito parecida com Crawling.

 

Li, também, na Internet que God Save Us All é muito parecida com Throne, dos Bring Me the Horizon. Já ouvi essa música e tenho de concordar que as semelhanças são claras.

 

Eventuais acusações de plágio à parte, God Save Us All tem um ritmo acelerado, bem à punk rock, fazendo lembrar os momentos mais loucos, selvagens, do concerto deles, o que até condiz com a letra. Como é do conhecimento geral, a música rock já foi mais popular e, provavelmente, terão  tentado persuadir os Sum 41 a adotar um som mais pop, mais mainstream. Deryck escreveu a letra de God Save Us All (Death to Pop) a protestar contra isso, por achar a música pop, sobretudo dos dias de hoje, vazia de sentido e de emoção – algo com que concordo.

 

  

Twisted By Design é a música que encerra 13 Voices. Esta volta a apresentar elementos sinfónicos e possui um certo carácter épico e grandioso - o que se adequa a uma canção que funciona como um epílogo para 13 Voices. Deryck descreve-a como a sua canção de vitória – a letra reflete sobre tudo por que o narrador passou, tudo aquilo a que sobreviveu. Por um lado, admite que é melhor pessoa agora. Ao mesmo tempo, sabe que está longe de ser uma pessoa perfeita e aceita que essas partes menos bonitas de si provavelmente nunca irão desaparecer. Twisted By Design marca, também, a transição da fase em que Deryck apenas sobrevive para a fase assustadora em que Deryck faz mais do que isso: vive.

 

13 Voices não é um álbum que me tenha entusiasmado por aí além, mas é bastante sólido, sem nenhuma falha significativa a apontar. A sua grande força é o seu carácter autobiográfico, conforme temos vindo a assinalar ao longo deste texto. Tal como costumo dizer várias vezes neste blogue, uma música que se baseie em experiências reais, sentimentos reais, eleva-se logo acima da mediania. O facto de 13 Voices ser um álbum de esperança, sobrevivência e redenção, à semelhança de um certo outro álbum que me marcou fortemente.

 

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Antes de acabarmos, quero falar, então, sobre o concerto no Coliseu dos Recreios. Cheguei ao Coliseu quase uma hora antes da abertura de portas e já havia uma fila generosa para o concerto. Confesso que não estava à espera - depois de ter conseguido ficar na fila da frente do concerto de Bryan Adams com relativa facilidade (também são públicos bem diferentes...). Já sabendo que ia haver moche, não fiquei na plateia (não sou assim tão hardcore, pessoal…), mas fiquei nas bancadas junto ao palco. Apesar de ser demasiado betinha para andar ao moche, foi refrescante ver o pessoal curtindo à séria, numa altura em que, na maior parte dos concertos, metade do público está o tempo todo de telemóvel no ar.

 

Eu sabia que os Sum 41 eram bons ao vivo e não saí de lá desiludida. Deryck faz-me lembrar Chester Bennington – são ambos muito magrinhos, mas possuem uma energia inesgotável em palco (e ambos se debateram com adições em certas alturas das suas vidas...). Eu procurei retribuir com headbangs, cantando em altos berros.

 

A setlist incluiu todos, ou quase todos, os singles de cada um dos álbuns. Isso funcionou bem comigo pois muitos desses singles incluem as minhas músicas preferidas deles. Alguns dos pontos altos do concerto, para mim, foram Walking Disaster (com as luzes dos telemóveis ligadas, no início), In Too Deep, With Me (com Deryck num palco no meio da plateia e toda a gente cantando em coro), Pieces e o cover de We Will Rock You – adoro esta versão!

 

Tal como é costume quando aproveito bem um concerto, saí de lá mal me conseguindo mexer e fiquei de bangover durante dois ou três dias. Os Sum 41 não estão entre as minhas bandas absolutamente preferidas, pelo menos não neste momento, mas têm um lugar no meu coração, sobretudo depois da noite de 20 de janeiro. Faço parte da família Sum 41.

 

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Mais do que tudo, estou grata por Deryck ter conseguido vencer esta batalha, por ter sido capaz de voltar a Lisboa, com o resto da banda, celebrar comigo e com milhares de outros fãs portugueses. No mundo da música, sobretudo da música rock, ainda existe muito a cultura do “live fast, die young” – o que acho uma treta. Com o devido respeito para lendas como Kurt Cobain, eu prefiro que os meus artistas preferidos vivos, criando música, dando concertos até não poderem mais. Que cresçam ao mesmo tempo que eu e (quando tal se aplica) que vão documentando esse crescimento sob a forma de música

 

Deryck sobreviveu porque concorda com este princípio. Um dos motivos pelos quais ele não voltou a beber foi porque, como já dissemos antes, não queria morrer, queria continuar a fazer música e regressar aos palcos. A música foi mais forte que o álcool. Que isso sirva de inspiração a outros que estejam a passar por situações semelhantes. 13 Voices contou a história dessa luta. Estaremos de volta daqui a uns anos (não tantos como os cinco que separaram este álbum do anterior, espero) com o próximo capítulo musical da história dos Sum 41.

Música de 2016 #2

 

Primeira publicação de 2017. Feliz Ano Novo! Esta é a segunda parte do meu texto sobre as músicas que me marcaram em 2016. Primeira parte aqui.

 

  • Purpose

 

 

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Bem, começámos por Lorde, passámos por Queen, David Guetta, agora estamos em… Justin Bieber. Até há relativamente pouco tempo, à semelhança de muito boa gente, não ia muito com a cara do miúdo. Não tanto por causa da música dele. Mais pelas suas fãs, cujos modos histéricos se transformaram num meme.

 

Sejamos sinceros, quase todos nós, meninas sobretudo, passámos por fases de histeria por uma celebridade, algures entre os doze e os dezasseis anos. A diferença é que agora, com as redes sociais, os chamados fanboys e fangirls fazem muito mais barulho. A verdade é que não sinto grande respeito por Bieber por ter deixado que isso tudo lhe subisse à cabeça - é certo que ela era um miúdo e a histeria à volta dele era mesmo muita, mas os adultos na vida dele podiam ter feito mais, se calhar.

 

No entanto, quando ele lançou o último álbum, Purpose, e comecei a ouvir os singles na rádio, até gostei de alguns. Love Yourself foi uma daquelas tocadas na rádio até ao enjoo, mas é bastante encantadora na sua simplicidade e ironia. De Sorry gosto imenso, com aqueles vocais algo fantasmagóricos no início. Também gosto da música dele com o DJ Snake, Let Me Love You.

 

 

 

Mas não é dessas músicas que quero falar. Quero falar de Purpose, o tema-título do álbum e… a música da final do Euro 2016 para o herói da mesma, Éder. Depois de ele o ter referido, no rescaldo do Europeu, fiquei curiosa e fui ouvir a música.

 

Purpose é uma canção muito simples, só voz e piano. O seu ponto forte é a letra - estou até surpreendida por o Bieber ter escrito isto, tendo em conta aquilo que conhecemos dele. Trata-se, essencialmente, de uma carta de despedida (na hora da morte?), em que o narrador agradece a alguém (pode ser a amada, um amigo ou familiar, pode mesmo ser Deus) a quem se abriu e que o ajudou a encontrar a de espírito e um sentido para a sua vida. Eu dispensava, no entanto, a inclusão do discurso de Bieber, recheado de clichés - estraga um pouco a canção.

 

Tendo em conta aquilo que descobrimos acerca do Éder depois da final de Paris (só depois. Que antes, quando lhe chamavam “coxo” ou “cone”, ninguém queria saber), não é de surpreender que Purpose o tenha marcado. Suponho que a letra o tenha marcado. Suponho que a letra o tenha feito pensar nos momentos mais difíceis da sua vida (e não foram poucos) e nas pessoas que o ajudaram a ultrapassá-los. Em particular, Susana Torres, a famosa mental coach que ajudou Éder a acreditar em si mesmo outra vez, a quem Éder dedicou o inesquecível golo da final.

 

 

Só sei que estarei eternamente grata a essas pessoas, que estiveram ao lado do Éder quando ele mais precisava, quando o resto do Mundo lhe virava costas. Permitiram que ele chegasse à final de Paris e fizesse aquilo que mais ninguém - incluindo nomes bem mais prestigiados do futebol português - fora capaz de fazer: marcar um golo que oferecesse a Portugal o seu primeiro título em Seleções. Como me tenho fartado de repetir, algo com que sonhava desde os meus catorze anos.



 

  • Sum 41

 

 

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Começámos com o indie pop (?) de Lorde, passámos por uma das melhores bandas de todos os tempos, passámos por artistas mais mainstream e vamos acabar com punk rock - duas bandas que, por sinal, lançaram álbuns no mesmo dia, após alguns anos de pausa.

 

Os Sum 41 têm estado entre as minhas bandas preferidas desde, sensivelmente, 2011. No entanto, visto que eles não editaram nada nos últimos cinco anos, enquanto outros artistas de que gosto lançavam música, existiram alturas em que mal me lembrei deles. Pelo meio, o baterista Steve Jocz (a.k.a. Stevo-32) deixou a banda, Deryck quase foi desta para melhor por causa do álcool, conforme referi há dois anos e Dave “Brownsound” Baksh regressou à banda.

 

Finalmente, em outubro deste ano, os Sum 41 editaram 13 voices. Como ainda não tive oportunidade para me sentar e ouvir as músicas com ouvidos de ouvir, não tenho uma opinião formada sobre o álbum. Para já, uma das que gosto mais é Breaking the Chain. Também gosto dos singles God Save Us All e War. De qualquer forma, conto fazer uma análise mais detalhada a 13 voices em breve, aqui no blogue.

 

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Entretanto, no dia 20 de janeiro, os Sum 41 vão atuar no Coliseu dos Recreios e eu vou lá estar. Os bilhetes não são caros (pelo contrário, estão a metade do preço a que me habituei nos últimos anos) e consta que eles são bons ao vivo. Mas vou, sobretudo, porque, se houve coisa que aprendi com o que aconteceu ao Deryck (e, também, com os vários ícones musicais que perdemos este ano, sendo George Michael o mais recente) é que a vida é curta para desperdiçarmos oportunidades como esta. Tal como referi antes, concertos são uma forma de celebrarmos a música com os seus criadores. Se tenho possibilidades para isso, não tenciono falhar um único concerto de um artista ou banda de que gosto.

 

Depois digo como foi aqui no blogue ou, pelo menos, na página do Facebook.



 

  • Green Day

 

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É de facto uma coisa curiosa: duas bandas de peso no punk rock lançaram no mesmo dia o primeiro álbum após da batalha dos respetivos vocalistas com dependências - no caso de Billie Joe Armstrong, falamos de dependência de substâncias. Confesso que tenho pouca tolerância para estas coisas. Quem não conhece os efeitos do álcool e das drogas hoje em dia?

 

Não gostei assim muito de ¡Uno!, ¡Dos!, ¡Tré!, tirando uma mão-cheia de músicas. O próprio Billie Joe admitiu, recentemente, que a trilogia foi uma má ideia, que a decisão terá sido influenciada pela sua toxicodependência. Com tudo isto, à semelhança do que aconteceu com os Sum 41, os Green Day foram ficado para trás nas minhas prioridades musicais.

 

No entanto, com a edição de Revolution Radio, estou a dar-lhes uma nova oportunidade. Até porque, dozes anos após American Idiot, a banda está de novo politicamente ativa - o que nunca foi tão importante por motivos óbvios. Até agora, ouvi Revolution Radio ainda menos vezes que 13 voices, mas também tenciono ouvi-lo melhor e escrever sobre ele aqui no blogue.

 

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E foi esta a música de 2016. Longe vão os tempos em que o assunto principal deste blogue era música: contam-se pelos dedos de uma mão os textos dedicados ao tema no ano que terminou agora. Tirando estes, de fim de ano, o último foi publicado em maio. É possível que aqui o estaminé tenha mais publicações sobre Pokémon e Digimon. Não que isso seja uma coisa má. Pelo contrário, gosto que o blogue tenha diversidade, que capte audiências diferentes. Conforme referi no início deste texto, criei o Álbum para escrever sobre o que me apetece e tenho vários interesses.

 

Por outro lado - e julgo que já o referi antes aqui no blogue - mesmo que nem sempre escreva sobre música por si só, esta é um denominador comum a praticamente todas as minhas “maluqueiras”. Montei vários AMVs com cenas de filmes de Pokémon, referi Everglow na minha carta aberta a Misty e, na minha série de textos sobre os jogos, falo sempre sobre a banda sonora. Conforme me farto de repetir, Digimon não seria a mesma coisa sem Brave Heart ou Butterfly. E, claro, a música é uma das mais importantes fontes de inspiração na minha escrita.

 

De qualquer forma, talvez em 2017 possa compensar a falta de música de 2016. Vários dos meus artistas preferidos deverão lançar material novo este ano. Já falei da Lorde. Os Linkin Park têm, também, passado os últimos meses deixando pistas promissoras sobre o seu novo álbum. A Avril Lavigne anunciou no dia de Natal que vai lançar um disco em 2017, dando a entender que refletirá a sua luta contra a Doença de Lyme (tendo em conta o que aconteceu com os seus dois álbuns anteriores, eu apontaria para um lançamento em novembro ou dezembro). Por fim, os Paramore terão passado 2016 quase todo trabalhando em música nova - não deverão demorar muito mais a lançar qualquer coisa. Depois de 2015 e 2016 terem sido pouco prolíficos em termos de música dos meus artistas preferidos, estes potenciais lançamentos deixam-me entusiasmada. A confirmarem-se, podem contar com análises a esses álbuns - e talvez também aos singles - aqui no blogue.

 

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2016 foi um ano estranho. Teve pontos muito baixos para a Humanidade em geral - vários atentados terroristas, Brexit, Donald Trump. No entanto, também teve coisas muito boas, na minha opinião. O Euro 2016 foi uma delas, obviamente. Outra diz respeito aos filmes de Tri (Ketsui e Kokuhaku) e ao Odaiba Memorial Day. E, claro, uma das melhores coisas foi Pokémon Go e tudo o que fez pela franquia - no seu vigésimo ano de vida, ainda por cima.

 

O meu desejo para 2017 é, então, que tenha tantas coisas boas como 2016 (e uma das melhores seria livrar-nos de Donald Trump, de uma forma ou de outra) e, se possível, que tenha menos coisas más. Obrigada por terem estado desse lado em 2016. Continuem por aí em 2017 pois eu, o blogue e a página do Facebook não vamos a lado nenhum. Feliz Ano Novo!

 

 

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