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Álbum de Testamentos

"Como é possível alguém ter tanta palavra?" – Ivo dos Hybrid Theory PT

Digimon Adventure 02: O Início

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Digimon Adventure 02: O Início estreou nos cinemas japoneses em outubro de 2023. Pouco mais de seis meses depois, no dia 16 de maio de 2024, chegou aos cinemas portugueses na sua versão original legendada. Fez parte de um ciclo de anime da Nos, que incluiu outros filmes do género: por exemplo, Spy x Family Código: Branco – um anime de que gosto muito, como penso já ter referido algures aqui no blogue.

 

O Início é protagonizado (bem… mais ou menos) pelo elenco de heróis de Digimon 02. Decorre pouco menos de dois anos após os eventos de Digimon Adventure Kizuna: A última evolução. Na minha opinião, Kizuna é uma das melhores coisas que Digimon alguma vez fez (só mesmo em termos de impacto emocional). Os temas que aborda – crescimento, perda, escolhas, lidar com o passado, encarar o futuro – são universais, daquelas lições que temos de aprender vezes e vezes sem conta. Vi o filme em três alturas diferentes da minha vida: em finais de 2020, quando me cansei de esperar pela estreia; em 2022, quando estreou a dobragem portuguesa nos cinemas; no encontro português do Odaiba Memorial Day (ajudou-me a lidar com algo sobre o qual escrevi aqui). 

 

Dito isto, os eventos no final de Kizuna – nomeadamente o desaparecimento dos companheiros Digimon – contrariam as promessas deixadas pelo epílogo de 02. A ideia que tem passado é de que este epílogo mantém-se válido. Até porque tanto Kizuna como O Início fazem questão de corraborá-lo noutros aspetos, nomeadamente no que toca à carreira dos Escolhidos. 

 

Não sei quantos de nós estavam à espera de ver O Início “corrigindo” o final de Kizuna – ou seja, arranjando maneira de devolver os companheiros Digimon ao elenco de Adventure. Mas se, como eu, se sentaram na sala de cinema com essa expectativa, apanharam um balde de água fria. 

 

Admito que essa desilusão afetou a minha opinião inicial sobre o filme. Ao vê-los pela segunda vez para este texto, mais de um ano mais tarde, já com as expetativas ajustadas, gostei mais. Mesmo assim, mesmo não sendo um mau filme, O Início é… estranho. 

 

Passo a explicar. 

 

 

Os primeiros minutos do filme – que, por sinal, foram divulgados no verão de 2022, quase dois anos antes da estreia em Portugal – parecem fazer a ponte entre Kizuna e O Início, mas acabam por ter pouco a ver com o resto do filme. Não sei se isso foi deliberado. Começamos, uma vez mais, ao som de Bolero, enquanto somos confrontados com um estranho fenómeno com impacto a nível global. Desta feita, temos a certeza de que envolve Digimon: trata-se de um DigiOvo gigante que aparece em cima da Torre de Tóquio e a mensagem “Que todos tenham amigos, que todos tenham um Digimon” aparece em tudo o que é ecrã por todo o planeta.

 

Segue-se a abertura ao som de Target, com cenas do dia-a-dia dos Escolhidos de 02, bem como uma ou outra pista sobre uma personagem nova – uma vez mais, semelhante a Kizuna. O tom é semelhante ao filme anterior, sim, mas eis duas diferenças. A primeira: o grupo de 02 consegue integrar os companheiros Digimon nas suas vidas – melhor que os seus homólogos de Adventure, nomeadamente Taichi, Yamato e Sora. A segunda: o grupo de 02 consegue passar tempo uns com os outros. Vemo-los reunidos no restaurante onde Daisuke trabalha, no início do filme.

 

Adoro o elenco de Adventure, já o deixei bem claro neste blogue, mas tenho de admitir: eles parecem menos unidos que o elenco de 02. Pelo menos não parecem esforçar-se tanto para passarem tempo juntos.

 

Claro que a questão terá as suas nuances. Pelo menos aquando dos eventos d’O Início, Taichi e Koushiro ocupam cargos importantes no governo. É natural terem menos disponibilidade que estudantes universitários com empregos em part-time (que, mesmo assim, já são vidas bastante ocupadas). Mas, aqui entre nós, parte-me um bocado o coração saber que Taichi nem sequer tem tempo para falar com a irmã ao telefone.

 

Quando o grupo está, então, reunido no restaurante de Daisuke, falando sobre o misterioso DigiOvo, a televisão mostra um homem trepando a Torre de Tóquio. O grupo corre para o local e, quando o homem – Lui, um jovem de quase vinte anos, com um olho claramente não humano tapado por uma pala, um dispositivo digital ao estilo de Adventure rachado – escorrega e cai, o Stingmon apanha-o. Quando este o leva para junto dos Escolhidos, Lui não lhes agradece por lhe terem salvo a vida. Mostra-se bastante emo e antipático antes de revelar, por fim, que foi a primeira Criança Escolhida e que matou o seu companheiro Digimon. Antes de tecer duras críticas às parcerias entre humanos e Digimon em geral. 

 

Os miúdos de 02, abençoados sejam, não vão à bola com as tretas de Lui, obrigam-no a falar. Ele pensa que o DigiOvo poderá ser o seu antigo companheiro, Ukkomon – Daisuke e Ken oferecem-se para levar Lui até ele. A partir daqui, o filme centra-se largamente no passado trágico de Lui – revelado através de uma viagem no tempo, quando ele, Daisuke e Ken chegam ao Digiovo, e através de flashbacks.

 

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Digimon sempre se caracterizou por personagens humanas vindas de ambientes familiares complicados, mas Lui bate todos os recordes. Agora que a audiência do universo de Adventure é quase universalmente adulta, os guionistas podem dar-se ao luxo de serem mais sombrios. 

 

No dia do seu quarto aniversário, 29 de fevereiro de 1996, Lui vive com um pai em coma, precisando de oxigénio para sobreviver. O que me faz alguma confusão. É seguro manter uma pessoa com este grau de incapacidade em casa? Não devia estar num hospital ou numa clínica? Até porque claramente é demasiado para a esposa, a cuidadora principal, se não for a única, e que ainda tem o filho de quatro anos a seu cargo. O aspeto negligenciado da casa onde a família vive prova que lhe falta tempo, dinheiro, quase tudo. 

 

Disto isto, não tenho compaixão praticamente nenhuma pela mãe de Lui, pela maneira como trata o filho. Quando este se descuida e urina no sofá, como castigo ela coloca-o fora de casa, na neve, de roupa interior – deixando várias nódoas negras à mostra, mesmo para não deixar margem para dúvidas – enquanto lida com os estragos.

 

A tal viagem no tempo em que Daisuke, Ken e o Lui mais velho embarcaram foi precisamente para este dia. Perante esta cena, Daisuke quer entrar na casa e dizer umas verdades à mãe de Lui, mas os outros chamam-no à razão. Toda a gente sabe que Daisuke é impulsivo, mas eu aqui não o teria impedido de intervir. Talvez até me juntasse a ele e que se lixasse a cronologia. Porque, se há coisa que não tolero, é maus tratos a seres indefesos: crianças, idosos, animais. Estamos a falar de um miúdo de quatro anos!

 

Nisto, aparece um DigiOvo que choca, dando à luz Ukkomon – um Digimon com a capacidade de realizar desejos. Uma das primeiras coisas que Lui deseja é, naturalmente, alguém que o trate bem. Deseja amigos, diz mesmo que, quando crescer, fará amigos um pouco por todo o mundo. Ukkomon compromete-se a proteger Lui, a ser seu amigo, a arranjar-lhe mais amigos, fazer-lhe as vontades todas. O seu primeiro presente é um dispositivo digital.

 

A vida de Lui vai de um extremo ao outro quase da noite para o dia. A mãe começa a tratá-lo melhor, o pai recupera milagrosamente do coma. Quando Lui vai para a escola, Ukkomon protege-o dos bullies e ajuda-o a fazer amigos.

 

No presente, Lui diz que ele foi a primeira Criança Escolhida e que é graças ao desejo dele que existem Crianças Escolhidas sequer, com Digimon criados de propósito para as protegerem. Isto obviamente vai contra o cânone do universo de Adventure… mas acho que existe margem para interpretação. 

 

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Apesar de ter desejado amigos, Lui nunca terá chegado a conhecer outra Criança Escolhida. Faz sentido que não tenha a informação toda. Faz sentido que não sabia que existira um primeiro grupo de Crianças Escolhidas, que incluiu Maki Himekawa e Daigo Nishijima. É possível que a Homeostase tenha desistido da ideia de Crianças Escolhidas depois de o primeiro grupo ter falhado na sua missão. Poderá ter mudado de ideias depois do incidente de Hikarigaoka e aproveitou-se do desejo de Lui. Aliás, como o jovem não chegou a conhecer outras Crianças Escolhidas até aos eventos deste filme, cheira-me que o desejo poderá ter sido apenas uma desculpa para a Homeostase executar o seu plano. 

 

No filme, Lui diz que Ukkomon estava ligado a um grande ser, que Hikari associa logo à Homeostase. Acho que é mesmo para não termos dúvidas.

 

Os miúdos de 02 ficam ofendidos com a ideia de que os laços que formaram com os seus Digimon foram criados por terceiros, nomeadamente um miúdo de quatro anos e o seu Digimon. Por um lado, compreende-se, por outro… é uma surpresa assim tão grande? É assim tão diferente daquilo daquilo que tinha sido estabelecido antes: que a Homeostase e/ou o Mundo Digital estavam por detrás dos vínculos entre humano e Digimon? Está no próprio termo, Crianças Escolhidas – não foram elas a escolher. Oikawa queria desesperadamente ser Escolhido, sendo essa a sua história de origem vilanesca. 

 

Na mesma linha, já tinha sido deixado bem claro no universo de Adventure que os companheiros Digimon são criados para serem compatíveis com os humanos com quem são emparelhados (Meicoomon é a única exceção de que me recordo neste momento). São programadas para terem o instinto de protegerem os parceiros. Eles sabiam disso: Taichi tentou manipular esse instinto para obrigar Greymon a digievoluir. Mais: esse mesmo instinto tanto salvou como condenou Hikari. Primeiro, impediu Tailmon de a matar. Mais tarde, confirmou perante Vamdemon que Hikari era a oitava Criança – quando DemiDevimon magoou a menina e Tailmon reagiu. 

 

É daqueles aspetos que, enquanto crianças, não nos faz confusão mas que, depois de crescermos e de pensarmos um bocadinho, questionamos a ética. Antes deste filme, Adventure nunca tinha abordado os vínculos entre humanos e Digimon sob esta perspectiva, tirando vagas alusões em Tri. Nem mesmo com Ken e Wormon, tanto quanto me recordo – um exemplo óbvio de como estes vínculos podem levar a abusos. 

 

É possível que, dentro do universo, esta seja a primeira vez que os miúdos de 02 estejam a ser confrontados com a componente artificial da relação com os seus Digimon. Naturalmente, o primeiro instinto deles é colocarem-se na defensiva – e não acho que estejam errados. Sim, os Digimon foram personalizados para os respectivos companheiros humanos e sim, foram programados para os protegerem. Mas isso é apenas um fator na união – não deixa de haver conflito, não deixa de ser necessário esforço para a manter, como qualquer outra relação. De novo, Hikari e Tailmon durante o arco do Vamdemon, na Adventure original, são um bom exemplo disso. Bem como Tri, em geral.

 

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Conforme veremos já a seguir, Ukkomon é uma versão extrema do típico companheiro Digimon: extrema devoção ao seu parceiro humano, nenhuma noção do certo ou do errado, nenhuma consideração por si mesmo. Ukkomon faz as vontades todas a Lui, sem pedir nada em troca. Lui, como qualquer criança, não estranha nada disso, não questiona. Não lhe ocorre que Ukkomon poderá ter sentimentos próprios, vontade própria.

 

Só em 2003 – Lui terá cerca de onze anos – é que o jovem vê o reverso da medalha. Lui acompanha os eventos do filme Diaboromon Contra Ataca pela televisão – ou, quanto muito, vê uma reportagem sobre os mesmos. Ukkomon comenta que os Digimon estão a lutar no lugar dos companheiros humanos, dariam a vida por eles, tudo graças ao desejo de Lui.

 

O jovem fica horrorizado. 

 

Nesse momento, os pais de Lui perdem os sentidos. Aparentemente não respiram, mas Lui logo os reanima, os tentáculos como cordas de marionetas. É aí que percebemos que os pais de Lui estão mortos, provavelmente há vários anos, provavelmente desde o quarto aniversário do jovem. Ukkomon tem-nos usado como fantoches para manter o seu companheiro humano feliz.

 

Naturalmente, Lui passa-se. Tenta estrangular Ukkomon – o Digimon nem sequer oferece resistência. Se matá-lo fizer Lui sentir-se melhor, tudo bem. O jovem, então, muda de ideias. Tenta destruir o seu dispositivo digital com um taco, um estilhaço salta e – se bem me recordo, no cinema, nesta cena tapei os olhos – atinge-o no olho. Ukkomon prontamente arranca o seu próprio olho e… bem, “encaixa-o” no rosto de Lui. 

 

A cena explica que O Início tenha sido classificado como um filme para maiores de 12 anos. Mesmo quando Lui grita com Ukkomon, fazendo com que este desapareça, não é algo limpo, com partículas digitais: a carne dele literalmente desfaz-se à frente de Lui, fluidos corporais pingando no chão e salpicando para o rosto do jovem. Já tínhamos tido elementos de terror em Digimon graças a Ghost Game, mas isto é outro nível. 

 

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No fim da cena, Lui fica sem Ukkomon, só com os cadáveres dos pais como companhia. Depois disto, Lui passou o resto da infância e adolescência vivendo com familiares (onde andavam esses familiares nos primeiros anos de vida de Lui, quando a mãe dele tinha tantas dificuldades?). No presente, Lui vive sozinho e, ao que parece, não tem ninguém. 

 

Hikari sente compaixão por Ukkomon, percebe que as intenções do Digimon eram puras. Percebo a lógica, mas… que diabo, morreram duas pessoas! (E tenho perguntas em relação aos amigos que Ukkomon lhe arranjou.) É certo que não tenho grande pena da mãe de Lui e que, mal por mal, Ukkomon salvou-o de uma vida de maus tratos e negligência. Não significa que tenha sido correto. 

 

E, de qualquer forma, ponho mais culpas na Homeostase, por ter juntado uma criança humana e um Digimon que não estavam preparados para lidarem um com o outro. 

 

Em todo o caso, não admira que Lui tenha uma visão tão cínica dos vínculos entre humanos e Digimon. Se só conhecesse a relação entre ele e Ukkomon, também eu pensaria assim. Os miúdos de 02 e a própria audiência têm um conhecimento bem mais amplo, sabem que, vá lá, nove em cada dez parcerias são bem mais saudáveis. 

 

Entretanto, soa a meia-noite do dia 29 de fevereiro de 2012, o vigésimo aniversário de Lui. O gigantesco DigiOvo choca, nasce BigUkkomon, surgem inúmeros DigiOvos com o objetivo de realizar o desejo do pequeno Lui: dar um companheiro Digimon a todos os seres humanos. 

 

Curiosamente, os miúdos de 02 reagem mal à possibilidade. À primeira vista parece hipócrita: eles têm mais direito a companheiros Digimon que o resto da Humanidade? Por outro lado, consta que o número de Escolhidos tem duplicado todos os anos. Aquando dos eventos deste filme, vai em sessenta mil. É um crescimento rápido, mas dá para gerir. Dará tempo aos recém-Escolhidos e às pessoas em redor de se adaptarem aos companheiros Digimon. E não esquecer que, partindo do princípio que as regras de Kizuna continuam válidas, as parcerias têm prazo de validade. 

 

Em contrapartida, tomando em conta as intenções de Ukkomon, estamos a falar de milhares de milhões de Digimon nascendo ao mesmo tempo no Mundo dos Humanos. Claro que não ia correr bem. 

 

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Durante o debate do elenco sobre o que fazer, Takeru lembra que, se fora de facto Ukkomon a criar as parcerias entre humanos e Digimon, derrotarem-no poderia comprometê-las. Ninguém se surpreende que tenha sido Takeru a referir a possibilidade – ele que nunca recuperou por completo da perda do Angemon em Adventure. Não me admiraria se o jovem tivesse passado o último par de anos em angústia, depois de ter visto o irmão perdendo Gabumon, temendo que um dia chegasse a sua vez. E Takeru nem sequer está a pensar apenas em si mesmo neste momento – invoca também os outros sessenta mil Escolhidos. Não é justo meia dúzia de pessoas decidirem por dezenas de milhares. 

 

Hikari argumenta que não podem colocar os seus próprios desejos acima do bem-estar do resto do mundo. As pessoas têm traçado paralelismos entre este debate e o que os respectivos onii-chans tiveram em Kizuna – quando decidiram arriscar o curto tempo de vida dos seus Digimon para salvarem os amigos da Terra do Nunca. Também aqui a família Yagami defende colocarem o coletivo acima do individual – ainda que Hikari o faça com mais idealismo e menos desespero. A jovem acredita que o seu vínculo com Tailmon é suficientemente forte, mais forte que uma suposta programação por forças externas. Será capaz de sobreviver a um confronto com o BigUkkomon.

 

Também ajuda o facto de existir uma terceira opção de que Taichi e Yamato não dispunham. Ken deduz que talvez Ukkomon não queria lutar – a viagem no tempo poderá ter sido uma tentativa de comunicar com Lui. Assim, acabam por tentar a via diplomática, deixar o último falar com Ukkomon – com a vantagem adicional de preservarem as parcerias entre humanos e Digimon. Claro que, se necessário, partirão para a luta.

 

Depois desta, O Início tem a oportunidade de exibir o seu orçamento – animação lindíssima nas cenas de combate entre os Digimon e os tentáculos do BigUkkomon e nas sequências de digievolução. À semelhança do que Kizuna fez com as últimas, não se puseram a inventar, limitaram-se a recriar as sequências da 02 original com uma animação moderna.

 

No entanto, é aqui que eu mais lamento a inexistência de uma dobragem em português de Portugal. Mais do que com qualquer outra temporada de Digimon, inclusive a Adventure original, estou afeiçoada à versão portuguesa das digievoluções. Não consigo ouvir Beat It! sem ouvir “X-Veemon… Stingmon… Digievolução ADN para… Paildramon!”. As legendas em português nem sequer usaram os termos corretos. 

 

Além disso, não sei se alguma vez cheguei a referi-lo aqui no blogue mas, mesmo com as suas imperfeições, regra geral, prefiro as vozes portuguesas para Digimon como o Paildramon. Nas versões nipónicas, as vozes são, na minha opinião, demasiado jovens, demasiado adolescentes. Em português, deram-lhe vozes de homens adultos – a meu ver, mais poderosas e adequadas. 

 

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Se tivesse o software certo, faria uma montagem com o áudio da dobragem portuguesa de 02 e as sequências modernizadas d’O Início. 

 

Os Escolhidos conseguem levar Lui até ao BigUkkomon. Este torna a comunicar via regresso ao passado – ao mesmo dia. Desta feita, o Lui adulto aborda a sua própria mãe (sem se identificar). Essencialmente, pede-lhe que seja mais atenta e compreensiva para com o filho, pois este ama-a. Nesta versão dos acontecimentos – que eu assumo que seja idealizada por Lui e/ou Ukkomon – este curto diálogo é suficiente para a mãe começar a tratá-lo melhor. 

 

Na realidade – mesmo dentro do universo – a situação não se resolveria assim tão facilmente. Não reduziria os fardos que a mãe de Lui tem de carregar sozinha, não lhe daria magicamente uma maneira mais saudável de lidar com o cansaço e a frustração. 

 

Mas compreende-se. Lui pode ser adulto mas ainda é muito novo. Pode ainda não entender a complexidade da situação – é natural que tenha ainda esta fantasia. Deem-lhe uns anos. 

 

A cena avança uma hora ou duas, com o Lui de quatro anos já em casa com a mãe – desta feita numa cena bem mais harmoniosa. Ukkomon aparece perante o Lui adulto, disposto a conversar abertamente. Ukkomon admite que pensava que coisas que faziam Lui feliz em criança eram sinónimo de coisas corretas. Por sua vez, Lui admite que a relação entre ambos sempre foi unilateral, que no fundo não sabe nada sobre o seu companheiro Digimon. Ukkomon sempre dando, Lui sempre recebendo. 

 

Não que se possa censurar o jovem por tal: ele tinha quatro anos, era uma criança pequena, maltratada, carente de quase tudo. Mesmo em circunstâncias menos extremas, quantos anos é que demora uma criança a aprender que os pais e outras pessoas da sua vida são seres com desejos e necessidades próprias? Sobretudo se esses seres lhes dão tudo sem nunca pedir nada em troca, sem nunca dizer “não”.

 

Ambos acabam por decidir começar do zero e fazerem um esforço por comunicarem melhor desta vez. Lui faz questão de dizer que, apesar de fazer anos, não quer presentes, não deseja nada. Para que isso seja possível, no entanto, Lui precisa de regressar a 2012 e derrotar o Big Ukkomon – claro que precisa, o filme tem de ter um clímax. Ao menos a animação é bonita, como referi acima.

 

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O BigUkkomon é, assim, derrotado e desintegra-se, tal como os inúmeros DigiOvos. Por seu lado, Lui recebe um DigiOvo de onde, podemos assumir, nascerá Ukkomon. Ao mesmo tempo, os dispositivos digitais de todos os Escolhidos por todo o Mundo desfazem-se em partículas luminosas – mas os Digimon não desaparecem. 

 

Aliás, não sabemos as consequências do fenómeno: se os Digimon serão capazes de digievoluir, se deixam de estar programados para proteger os seus companheiros humanos, mesmo contra vontade. Se isto permitirá ao elenco de Adventure recuperar os seus Digimon ou se, depois desta, eles estão perdidos para sempre.

 

Sejamos sinceros: se eles continuarem a fazer filmes para este universo, é possível que se esqueçam convenientemente deste desenvolvimento. Dito isto, no que toca a este filme e só a este filme, creio que o objetivo era provar que os vínculos entre humanos e Digimon não dependiam, nem nunca dependeram, dos dispositivos digitais, de forças externas. Não a longo prazo, pelo menos. 

 

O Início termina com o elenco envolvido numa batalha de bolas de neve. Sinceramente, é um bom final, é um final descontraído, bem-vindo no final de um filme que teve momentos pesados. Há uma cena pós-créditos que mostra os instantes finais antes de Ukkomon renascer. 

 

E é isto O Início. Quando vi o filme pela primeira vez, estava demasiado irritada por este não ter “corrigido” o final de Kizuna para lhe dar mérito. Agora que já se passou mais de um ano e tive oportunidade de revê-lo, no seu todo ou em partes, de analisá-lo, não detesto O Início. Até gosto. 

 

Uma das minhas críticas iniciais era de que o filme não se encaixa muito bem em Adventure. Hoje concordo apenas em parte. Sim, por vezes parece que estamos a ver um episódio de Ghost Game – e nem sequer me refiro apenas aos elementos de terror. O episódio 50, por exemplo, também se foca numa relação pouco saudável entre um humano e um Digimon – fica bem claro que cada uma das duas espécies pensam de maneira diferente. 

 

Por outro lado, O Início explora um dos aspetos centrais do universo de Adventure: a natureza das parcerias entre os Escolhidos e os seus Digimon. Como referi acima, sempre houve um certo grau de imposição, nunca foi algo em que os participantes embarcaram de vontade cem por cento livre. Faz sentido que os guionistas tenham querido explorar um dos lados mais sombrios desse tipo de vínculos – e, ao mesmo tempo, provar que não é só a Homeostase que mantém os Digimon ao lado dos Escolhidos. E Lui é uma personagem bem construída. 

 

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Dito isto, temos de falar sobre o que correu menos bem. Para começar, a história é demasiado simplista para um filme de Digimon. Eles esticaram o que podiam esticar, embelezaram o que podiam embelezar – viagens no tempo, cenas de combate vistosas. Mas, se olharmos para o esqueleto da coisa, o enredo é apenas: DigiOvo aparece, Lui aparece, longa backstory de Lui, nasce BugUkkomon, Lui vai falar com ele, fazem as pazes, derrotam-no, fim. Mudando um pozinho ou outro, podia, lá está, ser um episódio de Ghost Game. Daí achar o filme esquisito. 

 

No entanto, a maior crítica a O Início é outra: os miúdos de 02, supostos protagonistas do filme, não fazem quase nada, mal contribuem para o enredo. 

 

Não é a primeira vez que as sequelas de Adventure e 02 trazem personagens de fora. Meiko teve muito tempo de antena em Tri, o que irritou muitos fãs, mas ao menos o velho elenco foi sendo desenvolvido em paralelo com ela, ainda que em graus diferentes. Não deixa de ser a história dos oito de Adventure. Em Kizuna, Menoa foi a antagonista – a história não é dela, é de Taichi e de Yamato. 

 

N’O Início, em contrapartida, os miúdos de 02 são secundários naquele que devia ser o filme deles. A história é de Lui. Durante uma boa parte do filme, os miúdos de 02 são quase avatares da audiência: estão lá para ouvir sobre o passado de Lui, deixam opiniões, dão conselhos. No último terço do filme, fazem de guarda-costas/motoristas para que Lui chegue a Ukkomon. No lugar deles podia estar o elenco de Adventure ou de Tamers (ainda que fosse mais difícil juntá-los no mesmo lugar) e o enredo seria praticamente o mesmo.

 

Ainda assim, mesmo que o elenco de 02 não influencie o enredo, definitivamente influenciam… à falta de melhor palavra, o sabor do filme. Mesmo que não tenha havido desenvolvimento, pudemos ver os miúdos de 02 sendo eles mesmos. Daisuke e Miyako implicando um com o outro, a calma e sensatez de Ken contrastando com a exuberância de Daisuke. Takeru e Hikari sendo unha com carne, como sempre. Iori é que aparece pouco – mas também ele sempre foi um dos mais discretos. 

 

E, à boa maneira das várias sequelas de Adventure e 02, há alimento para shipping: Miyako e Ken, um casal confirmado no epílogo de 02, mostrando alguma proximidade. Ao mesmo tempo, a certa altura, Miyako mete-se com Daisuke e Ken, acusando-os de estarem a “namoriscar”. 

 

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Consta que os próprios guionistas argumentaram que o grupo de 02 é demasiado harmonioso, demasiado bem com a vida, livre de conflito. Não será possível escrever histórias interessantes protagonizadas só por eles. Admito que possa ser verdade até certo ponto… mas cheira-me a desculpa esfarrapada. 

 

Eles não percebem que o povo está aqui para ver o elenco com quem cresceu? O de Adventure será mais popular mas, depois de Tri os ter negligenciado, todos concordam que 02 merece mais amor. Ainda há pouco tempo, graças às funcionalidades de memórias das redes sociais, recordei-me de encontros anteriores do Odaiba Memorial Day. Nós quase literalmente fizemos uma festa no de 2019 só porque tinham anunciado nesse dia que os miúdos de 02 iam entrar em Kizuna!

 

Não sou contra arranjarem personagens humanas novas. Mas o mínimo que os guionistas deviam fazer com os velhos Escolhidos é deixá-los ser parte ativa das suas próprias histórias. 

 

Por fim, ainda que isso não seja cem por cento culpa d'O Início, as pontas de Kizuna continuam por atar. Continuamos sem saber como é que os Escolhidos mais velhos recuperarão os Digimon. Ou como é que todos os seres humanos ganharão um companheiro Digimon. Pergunto-me se os guionistas, ou a Toei, ou quem quer que esteja a tomar estas decisões, se preocupa sequer em manter o cânone intacto. 

 

O que me leva a Digimon Adventure Beyond. Eu sei que isto não tem diretamente a ver com O Início, mas também é o universo de Adventure, merece uma palavrinha. Estreado em março deste ano, é essencialmente um AMV ao som de uma versão muito gira de Brave Heart. Mostra os Escolhidos em adultos, com os seus companheiros Digimon. 

 

Na altura em que o vídeo saiu, muito boa gente nas internetes virou-se do avesso para tentar perceber se e como Beyond se encaixa no cânone oficial. Segundo o que pesquisei na preparação deste texto, parece que a teoria aceite é de que estas são cenas soltas de diferentes alturas da cronologia entre Tri e, vá lá, algum tempo depois d'O Início. 

 

 

Para ser sincera, não me preocupo muito. Vale pelas vibes. 

 

E, de qualquer forma, o vídeo está muito giro. Animação excelente e, claro, é sempre um prazer ver este elenco. As minhas partes preferidas são as com uma Sora de novo maria-rapaz. Aliás, nunca o estilo dela foi tão parecido com o meu: veja-se o boné, as calças de ganga, a camisola atada à cintura. 

 

Por outro lado, chega a ser cruel. O vídeo podia ser o trailer de um novo filme, mesmo de uma nova temporada. Tanto potencial nas cenas que mostraram… 

 

Uma parte de mim deseja que eles parem de ordenhar sempre da mesma vaca – que deixem Adventure tal como está e que explorem outras coisas. Outra parte de mim, no entanto, nunca se fartará e quer muito – mesmo muito – ver os Escolhidos mais velhos recuperando os seus Digimon. E no fim de contas já não falta muito tempo para 2027, o ano em que decorre o epílogo de 02. É possível que o assinalem de alguma forma. 

 

A curto prazo, vão estrear uma temporada nova, inédita: Digimon Beatbreak. Não sei se vou acompanhá-la. O reboot de Adventure e Ghost Game tiveram os seus momentos, a segunda tinha um conceito interessante, conforme expliquei noutra ocasião. No entanto, ambas se tornaram um frete ao fim de algum tempo – de tal forma que não deverei escrever sobre elas aqui no blogue. Receio que o mesmo aconteça a Beatbreak. 

 

Dito isto, eles deram mais detalhes sobre a temporada no início do mês, a propósito do Odaiba Memorial Day. Houve um pormenor que me chamou a atenção: as idades do elenco principal. Temos um rapaz e uma rapariga de dezasseis anos, um rapaz de dez e… um jovem de vinte e dois anos. Tanto quanto sei, tal amplitude de idades não é habitual. Isso dá-me alguma curiosidade. 

 

Acho que vou esperar que saiam os primeiros episódios e ver o que as pessoas dizem sobre eles. Depois decido com base nisso. 

 

 

Entretanto, talvez veja Savers pela primeira vez no próximo ano, com o intuito de, mais tarde, escrever sobre essa temporada. Iria coincidir com o seu vigésimo aniversário. 

 

Talvez. Não vou prometer nada, que anda tudo muito imprevisível. 

 

Em todo o caso, soube bem escrever este texto. É sempre um gosto escrever sobre Digimon, sobretudo durante o verão. Ainda por cima, fez agora uma década desde o meu primeiro texto sobre a franquia. Não tenciono ficar por aqui. 

 

Falando de um futuro mais imediato, os próximos textos do blogue serão sobre música. Conforme já referi no texto anterior, o primeiro será sobre From Zero, dos Linkin Park; o seguinte será sobre Virgin, de Lorde. Depois disso, escreverei sobre música a solo de Hayley Williams. No início deste mês, a vocalista dos Paramore lançou dezassete singles soltos, de surpresa. Entretanto, já confirmou que vai lançá-los sob o formato de um álbum intitulado Ego Death at a Bachelorette Party (ou pura e simplesmente Ego, como nós, os fãs, temos vindo a chamar). 

 

Esse será, então, a terceira análise. E, à boa maneira do universo Paramore, vai ser… interessante. 

 

Como sempre, obrigada pela vossa visita. Até à próxima!

Digimon 02 #13

Não se pode falar de Digimon sem falar da música, em particular dos temas das digievoluções. Em 02 são introduzidas duas novas variantes de digievolução - Armo e ADN - cada uma com direito a tema próprio. Nesta temporada, as sequências de digievolução são um pouco melhor feitas que as de Adventures, sobretudo ao sincronizarem-se melhor com as músicas (o orçamento devia estar mais alargado). 

 

 

 

Break Up serve de banda sonora à ArmoDigievolução. Esta começa suave, com os "la la la...", mas depressa ganha ritmo com um solo de bateria que pede headbangs e notas de guitarra e piano. A música suaviza de novo nas estâncias, mas mantém o crescendo até ao refrão. Por esta altura, estamos já de punhos no ar.

 

 

Beat Hit, o tema da Digievolução ADN, também tem uma introdução em crescendo. Gosto particularmente do solo da bateria, que se sincroniza perfeitamente com os disparos do Paildramon na sequência evolutiva. Possui ainda uns quantos solos de guitarra bem sacados (à semelhança de Break Up). Ainda assim, o melhor é mesmo a sua terceira parte: primeiro com vocais distorcidos, depois com o solo de saxofone - instrumento que regressa para a conclusão da música.

 

Aquando da digievolução para nível Hiper Campeão, contudo, nota-se que os produtores ficaram com preguiça de arranjarem uma terceira música. Usaram Target, o tema do genérico (que não é nada de especial, embora eu goste da versão calminha do mesmo que, de vez em quando, aparece como música de fundo), e arrumaram o assunto. É um bocadinho anti-climático. Mais valia usarem de novo Beat Hit.

 

Nem Break Up nem Beat Hit roçam, sequer, a magia e emoção de Brave Heart, nem aspiram a isso. Ambas as faixas cumprem bem o seu papel de aumentar o entusiasmo da audiência aquando das digievoluções e dos combates. Não se lhes poderia exigir mais nada.

 

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Uma palavra rápida para as dobragens. Ao contrário do que aconteceu com Adventure, revi quase toda a temporada 02 em português de Portugal. Os episódios eram-me mais fáceis de enontrar que os originais e, pleo que me recordavaa a dobragem portuguesa não era má - ou, pelo menos, não tão má como a da primeira temporada. Ora, ainda que não tenha nada a apontar às vozes em si, a interpretação deixa muito a desejar. É, infelizmente, um problema comum a muitos desenhos animados na televisão portuguesa: metade dos atores contratados para as dobragens não estão para se chatear. Até em miúda eu percebia isso.

 

Em suma, apesar das fraquezas do Enredo e das Personagens menos bem desenvolvidas que em Adventure, a história global de Digimon 02 é boa, com uma boa mensagem, vilões interessantes (mais do que os heróis) e um final satisfatório - ainda que com um epílogo controverso. Em comparação com Adventure, empalidece, em certo, mas continua a ser muito melhor que a larga maioria das séries dirigidas ao público infantil. Quantos desenhos animados conhecem vocês que falem de solidão, rejeição, ansiedade escolar e, sobretudo, morte de entes queridos? Quantos desenhos animados conhecem vocês em que os vilões são pessoas normais que não conseguiram lidar com as coisas más que lhes aconteceram? 

 

Assim sendo, eu recomendaria tanto Adventure como 02 a qualquer criança (mais alertaria os pais para perguntas difíceis). Recomendaria Adventure a um adolescente ou adulto que se interessasse por anime e não se importasse com o público-alvo da série, mas só lhes recomendaria 02 se tivessem gostado muito da primeira temporada.

 

Não ficamos por aqui em termos de Digimon. Ainda falta falar da razão pela qual revi Adventure e 02 e escrevi estes testamentos todos: o primeiro filme de Digimon Adventures Tri, que saiu há pouco mais de um mês. A próxima entrada será sobre ele. Espero tê-la publicada antes do final do ano.

 

E já que hoje é dia 24... votos de um Natal muito feliz! 

 

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Digimon 02 #12 - ...e viveram felizes para sempre?

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Tenho vindo a perceber que ninguém gosta de epílogos do género "não-sei-quantos anos mais tarde...". Muita coisa acontece nesse intervalo de tempo, por norma, as personagens mudam, mas nós, a audiência, não testemunhamos nada dessa mudança e as decisões tomadas pelas personagens nem sempre fazem sentido para nós. É um dos problemas do epílogo de Harry Potter: ainda no outro dia, J.K.Rowling teve de explicar o facto de Harry ter dado o nome de Snape a um dos filhos.

 

O mesmo se passa com o epílogo de 02, em que descobrimos os diferentes rumos que as doze Crianças Escolhidas tomaram. Este epílogo é tão controverso precisamente porque, nalguns casos, estes destinos são incompreensíveis.

 

Comecemos pelos casos menos polémicos: Izzy torna-se um estudioso do Mundo Digital, Joe torna-se médico de Digimons, Cody, como vimos antes, torna-se advogado. Nada a apontar. Conforme já tinha referido, Davis abre o tal restaurante italiano. Ele precisava de se transformar num grande empresário e de figurar na capa da Time? Também não me parece, mas faz sentido tendo e conta o espírito sonhador e lutador que revelou na batalha final de 02.

 

Outros destinos aceitáveis são ods de Ken como detetive, Kari como educadora de infância e T.K. como escritor. Mimi torna-se cozinheira e crítica culinária - não me é difícil imaginá-la como juíza no MasterChef. Ela consegue ser suficientemente mazinha para isso, quando quer. Tai torna-se diplomata e medeia as relações entre o Mundo Real e o Digital - pode parecer estranho no fim de 02, mas pelo primeiro filme de Tri já se torna mais compreensível.

 

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Agora o resto... (*suspiro*) Não me incomoda que Yolei se tenha casado com Ken. Mas tornar-se dona-de-casa?... Não vou ser daqueles que dizem que não ter carreira é anti-feminista e tal, eu acredito em liberdade para escolher sem ser julgada. Mas, para ser sincera, Yolei é a última rapariga em Digimon que eu imaginaria abdicando de uma carreira profissional. Ela, que, como disse antes, é inteligente, é a única com o mesmo fascínio de Izzy pela informática. Além disso, enérgica e entusiasta como é, não estou a vê-la contente por ficar em casa a tomar conta de criancinhas o tempo todo. Não faz sentido nenhum.

 

Por fim temos Matt e Sora (*suspiro ainda maior*). Não é dito preto no branco que eles se juntaram... mas o filho de Matt parece-se com Sora e a filha de Sora parece-se com Matt (outra coisa mal feita no epílogo é que cada um dos filhos das antigas Crianças Escolhidas são quase um copy-paste do progenitor que conhecemos). Eu não sou do género shipper, ao contrário de três quartos da Internet (tenho alturas em que chego a ser anti-shippers depois do que fizeram com Arrow) mas... Matt e Sora? Não me faz muito sentido, as personalidades deles são demasiado semelhantes. Se Matt não estivesse tão marcado pelo divórcio dos pais - pelo menos em Adventures - creio que seria muito parecido com Sora. Desde miúda que acho que Tai e Sora fariam muito mais sentido como casal. Dito isto, já que temos Tri, se derem alguns sinais favoráveis a um relacionamento entre Matt e Sora, não digo mais nada... mas espero que não desperdicem demasiado tempo com romance e, por amor a todos os monstrinhos digitais, ponham Tai e Matt às turras um com o outro (e já puseram...) por todos os motivos que quiserem... menos por Sora!

 

Na verdade, incomodam-me mais as carreiras que ambos seguiram. Matt, que tanto em 02 como em Tri toca em bandas de rock, torma-se... astronauta? A sério? Alguém se lembra de Matt alguma vez ter dado sinais de interesse em astronomia/astrofísica? Quem eu esperaria que trabalhasse nessa área seria Izzy, talvez Cody ou... bem, Yolei!

 

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Por sua vez Sora - a maria-rapaz de Adventures, que jogava futebol numa equipa masculina - torna-se... estilista de quimonos. Yep. Não digo que não seja possível uma menina ter uma fase de maria-rapaz para, mais tarde, se tornar mais feminina. Ouvi falar vagamente de uma certa Avril Lavigne que passou por um processo parecido. É dado a entender que Sora deixou-se convencer pela mãe a desistir do futebol e a seguir uma carreira mais "feminina", perdendo uma oportunidade de ser uma pioneira. O meu eu aos doze anos, que admirava imenso Sora, está um bocadinho desiludido. 

 

Uma das questões que esperamos ver respondidas em Tri é quanto deste epílogo ainda fará parte do cânone após o último filme. Não sei se os guionistas vão respeitar o que ficou determinado no fim de 02 ou se vão alterar coisas. A segunda opção pode ser arriscada, mesmo que os guionistas o façam para agradar aos fãs - as alterações terão de ser muito bem feitas e bem fundamentadas. Manter os destinos definidos no epílogo será a opção mais segura mas, já agora, espero que aproveitem para justificar as opções mais controversas, ainda que discretamente.

 

Estamos quase a terminar a nossa análise - não vamos chegar às quinze entradas sobre Adventure, mas não ficamos longe... Em princípio a próxima entrada será a última. Continuem por aí...

Digimon 02 #11 - Oikawa, as Sementes da Escuridão e a batalha final

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Quando Oikawa aparece pela primeira vez em 02, tudo na sua aparência grita "Sinistro!", mas também isto é uma série infantil, não precisam de muita subtileza. Ele aborda a mãe de Matt e T.K e parece saber mais sobre Digimons que o cidadão comum. Nos episódios seguintes, com a ajuda dos seus minions Arukenimon e Mummymon, começa a recrutar crianças (para todos os efeitos, rapta-as) em quem, conforme já foi referido anteriormente, implantará Sementes da Escuridão. Descobrimos, mais tarde, que foi ele quem manipulou Ken para que se tornasse Imperador Digimon. Também se descobre que Oikawa criou Arukenimon e Mummymon, misturando o seu próprio ADN com dados digitais.

 

Ainda não falei sobre Arukenimon nem Mummymon, pois não? Falo agora rapidamente. Na altura em que ainda não se conhece a verdadeira identidade de Arukenimon, o mistério à volta da mulher, que cria Digimons a partir de Torres Negras e parece conhecer Ken demasiado bem, está bem construído, com as respostas sendo reveladas a pouco e pouco. Eventualmente, monta uma (óbvia) armadilha às Crianças Escolhidas, que as obriga a esforçarem-se para lhe sobreviverem. É também nessa altura que revela a sua verdadeira identidade e que Mummymon se junta a ela. No entanto, o par prolonga a sua estadia por demasiado tempo. A partir de certa altura tornam-se pouco mais que um mal conseguido alívio cómico. Eu tê-los-ia excluído da história mais cedo, no fim do arco "BlackWarGreymon e as Pedras Sagradas" - e de forma mais bondosa do que aquela que acabam por receber.

 

Enfim, voltando a Oikawa, já tinha dado a entender em entradas anteriores que este tem uma história de vida semelhante à de Ken. Oikawa era uma criança solitária, cujo único amigo era Hiroki, o pai de Cody. Ambos gostavam muito de videojogos, tendo sido capazes de descobrir o Mundo Digimon. O avô paterno de Cody, Chikara, tenta refrear a obsessão do filho pelos videojogos, mas não é bem sucedido. Hiroki e Oikawa crescem, mas o seu interesse pelo Mundo Digital não desaparece. É dado a entender que Oikawa começa a trabalhar na criação de Arukenimon e Mummymon encorajado por Hiroki. Até que este último morre em serviço. À semelhança do que aconteceu com Ken, Oikawa cai numa depressão, ninguém procura ajudá-lo, ficando vulnerável à influência das Trevas.

 

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O ponto mais baixo de Oikawa ocorre durante a cronologia de Adventures, no dia em que as Crianças Escolhidas derrotam VenomMyotismon e regressão ao Mundo Digital para enfrentar os Dark Masters. Quando Oikawa está imerso numa mistura de inveja, desespero e raiva, o espírito do recém-derrotado Myotismon apodera-se dele e usa-o para colocar em prática um plano - algo rebuscado, diga-se - para recuperar a sua forma física.

 

Tal como referi na entrada anterior, BlackWarGreymon é a primeira personagem a perceber o que se passa com Oikawa e a ter noção da gravidade disso. Tenta aconselhar Oikawa a resistir ao domínio. Quando não é bem sucedido, usa a sua morte para encerrar a passagem entre o Mundo Real e o Digital, numa tentativa de conter a força maligna que controla Oikawa. 

 

Isto ocorre pouco após Chikara confrontar Oikawa. O pai de Hiroki não mostra arrependimento por ter tentado afastar o filho dos videojogos, mas confessa que se arrepende de não ter tentado ajudar Oikawa após a morte de Hiroki, mesmo sabendo que o melhor amigo do filho precisava - da mesma maneira como os pais de Ken se arrependem de não terem apoiado o filho mais novo quando este mais necessitava. Chikara tenta corrigir o seu erro, estende uma mão a Oikawa e este, por um momento, parece conseguir escapar à influência de Myotismon... apenas para que Myotismon recupere o controlo de novo e ataque Chikara. Como sabemos, BlackWarGreymon salva a vida ao avô de Cody metendo-se à frente do ataque.

 

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No episódio seguinte, Oikawa reúne as portadoras as Sementes da Escuridão e usa o seu poder para abrir a passagem para o Mundo Digital. Aparentemente consegue e as Crianças Escolhidas seguem-nos... mas acabam por ir parar ao Mundo dos Sonhos - não se percebe ao certo se isto é devido ao selo de BlackWarGreymon, se é pela combinação errada das cartas, se é pela influência de Myotismon. É aqui que este recupera o seu corpo, assumindo a forma de MaloMyotismon. E começa a batalha final. 

 

Esta batalha prolonga-se por sensivelmente dois episódios e meio, muita coisa acontece. As Crianças Escolhidas são encurraladas numa realidade ilusória e escapam dela. Enfrentam MaloMyotismon com todas as evoluções possíveis ao mesmo tempo (é um momento muito fixe). O combate acaba por abrir uma brecha no Mundo dos Sonhos, conduzindo ao Mundo Digimon. A partir daqui MaloMyotismon tenta contaminar tanto o Mundo Real como o Digital com Escuridão. Há um momento bonito em que todas as Crianças Escolhidas por todo o Mundo (incluindo o elenco de Adventures) usam a Luz dos seus dispositivos digitais para contrariar a Escuridão. Eventualmente essas mesmas Crianças conseguem abrir passagens entre o Mundo Real e o Mundo Digimon e são transportadas até ao palco do combate.

 

Mas nem assim se consegue derrotar MaloMyotismon - o desânimo das crianças portadoras das Sementes da Escuridão mantém-no vivo, sobretudo quando estas lamentam não serem Crianças Escolhidas. Só quando os heróis as obrigam a revelar os seus sonhos é que MaloMyotismon é, finalmente, derrotado.

 

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Há quem ache este desenvolvimento um pouco lamechas, não sei razão, mas eu acho que faz sentido dentro do tema de 02. Tal como o final de Adventures fez sentido: numa temporada muito centrada no desenvolvimento das personagens, faz sentido que o momento decisivo tenha sido as Crianças recordarem o caminho que percorreram e serem capazes de invocar as Virtudes que lhes atribuíram mesmo sem os Cartões. 

 

Aquilo que é, ao mesmo tempo, o melhor e o pior de 02 é o facto de esta ser menos a história das Crianças Escolhidas e mais a história dos vilões: Ken, Oikawa, mesmo BlackWarGreymon de certa forma contribuíram mais para o avanço e resolução do Enredo que os heróis, conforme de resto tenho vindo a dar a entender. O mesmo volta a acontecer agora, no final, com as crianças portadoras de Sementes da Escuridão. Tal como Ken e Oikawa, ao deixarem-se dominar pelos seus sentimentos negativos - neste caso, baixa auto-estima, ansiedade escolar, rejeição - foram facilmente influenciáveis pelas Trevas. Vimos que Ken só conseguiu escapar ao controlo da Escuridão ao fazer as pazes com os pais, consigo mesmo e com a memória de Osamu, ao recuperar a esperança. Vimos que a única altura em que Oikawa escapou ao controlo de Myotismon foi quando alguém lhe ofereceu a sua amizade. O mesmo acontece com as portadoras das Sementes da Escuridão: ao recordarem os seus próprios sonhos, recuperam a inocência, a alegria de viver, a esperança. Recuperam o poder que Myotismon lhes tirou, permitindo que este seja derrotado.

 

É este o tema de 02: o triunfo da vontade própria, da esperança, da inocência e, claro, da amizade e do amor sobre o poder da Escuridão. O tema de Adventures é essencialmente o mesmo, é certo, mas em 02 a Escuridão não está apenas num qualquer Digimon monstruoso: está dentro de nós. Acaba por ser uma mensagem muito parecida com as de Once Upon a Time, sobre o poder da vontade própria, bem como a importância do amor nas suas diversas formas - sobretudo na temporada atual, que viu Emma, a protagonista, possuída igualmente pelas Trevas.

 

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O que me chateia neste final é, lá está, a irrelevância das Crianças Escolhidas. Em quase todos os momentos-chave em 02, as coisas resolvem-se com Deus Ex-Machinas ou devido a ações de outras personagens sem serem os protagonistas. Acontece o mesmo aqui. Todo o contributo que as Crianças Escolhidas fazem para a vitória consiste em darem a Luz dos seus D3 (à semelhança de outras mil crianças) e encorajarem as portadoras das Sementes da Escuridão a vencerem Myotismon à sua maneira.

 

Mudando um pouco de assunto, também achei "batota" que as portadoras das Sementes da Escuridão, depois de se convencerem que podiam ser felizes mesmo não sendo Crianças Escolhidas... recebem cada uma um companheiro Digimon. Aliás, o final dá a entender que todos os seres humanos arranjam um companheiro Digimon. Tri já veio desmentir... por agora.

 

As coisas não acabam com a derrota de Myotismon, no entanto. Tal como referi antes, Cody faz questão de ajudar um moribundo Oikawa a cumprir o seu sonho de visitar o Mundo Digimon. O destino é-lhe simultaneamente cruel e generoso ao dar a Oikawa um companheiro Digimon quando este está prestes a morrer. Nesse momento, Oikawa usa o poder do Mundo dos Sonhos de modo a que o que resta da sua energia vital repare e proteja o Mundo Digimon. Curiosamente, essa energia assume a forma de borboletas, o que referencia a música-tema de Adventure.

 

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Uau. Será que Oikawa é o sujeito narrativo em Butterfly? Ele esteve sempre lá desde o início? Eis algo sobre que pensar...

 

Na próxima entrada falaremos, então, sobre esse tão controverso epílogo...

Digimon 02 #10 - O Digimon que seguia Sartre

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BlackWarGreymon é o Mewtwo de Digimon. Ambos encontram-se entre os mais poderosos entre os seus semelhantes. Ambos foram criados artificialmente para serem a arma de um vilão. Ambos têm crises existenciais sobre a sua condição contra-natura, por não serem seres vivos no verdadeiro sentido da palavra, por não saberem onde pertencem. Ambos, de uma maneira igualmente rebuscada, optam por um caminho destrutivo como solução para os seus problemas existenciais. Ambos procuram um adversário à altura e quem os criou/deu vida. No caso de Mewtwo, tanto o adversário como o criador correspondem a Mew, o Pokémon Lendário a partir do qual Mewtwo foi clonado. No caso de BlackWarGreymon, o adversário é Azulongmon e o criador é Oikawa. Ambos, a certa altura, decidem optar por um caminho diferente por influência de criaturas do lado dos heróis. No caso de Mewtwo, falamos de Ash, que se sacrifica para terminar a luta entre Mewtwo e Mew e, mais tarde, salva a vida ao próprio Mewtwo. No caso de BlackWarGreymon, é Agumon, que desde a primeira oportunidade procura apelar ao lado "humano" de BlackWarGreymon - mais tarde, Veemon e Wormmon fazem o mesmo. São todos criaturas inocentes, sem maldade, sem preconceitos, antídoto ideal para demónios interiores dos dois anti-vilões. Suponho que outras histórias sobre criações artificiais atinjam notas semelhantes. 

 

Se por um lado, as crises existenciais de BlackWarGreymon, o vazio que ele sente, têm a sua lógica e são de aplaudir, sobretudo depois de Adventure ter tido vilões tão unidimensionais, por outro lado, demasiadas vezes BlackWarGreymon parece um adolescente passando por uma fase emo e, definitivamente, entra demasiado em terreno filosófico - o que é estranho para uma série destinada a um público infantil. Também não ajuda o facto de ser responsável pelo mini-arco mais frustrante de toda a temporada, em que ele pura e simplesmente não percebe que o percurso destrutivo que percorre não lhe levará a lado nenhum. 

 

O papel de BlackWarGreymon está melhor conseguido na última parte da narrativa. Depois de sair de cena após o confronto com Azulongmon, BlackWarGreymon aparece no Mundo Real à procura do seu criador, ainda que indireto, Oikawa. É notável a maneira como BlackWarGreymon consegue ver claramente a verdadeira natureza Oikawa (é o primeiro a fazê-lo, aliás), as semelhanças entre ambos. Tanto Oikawa como BlackWarGreymon têm ligações tanto ao Mundo Real como ao Digital sem pertencerem verdadeiramente a nenhum deles. Os dois desprezam-se mutuamente à conta de tais semelhanças.

 

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A certa altura, WarGreymon e Imperialdramon impedem BlackWarGreymon de matar Oikawa (o único que poderia extrair as Sementes da Escuridão que implantara em várias crianças). Têm um pequeno combate, de que BlackWarGreymon sai derrotado. Depois de regressarem ao nível Infantil, Agumon, Veemon e Wormmon tentam convencer BlackWarGreymon a seguir um caminho alternativo. Achei curiosas as palavras de Wormmon, claramente inspiradas naquilo que se passou com Ken. BlackWarGreymon considera ridículos os conselhos dos Digimons... mas aceita segui-los, pois, na verdade, as suas ações anteriores não haviam resultado em nada.

 

Mesmo assim, não termina aqui o seu interesse em Oikawa. Quando este recolhe a energia da primeira Semente da Escuridão que desabrocha, no episódio seguinte, BlackWarGreymon confronta-o de novo, desta feita com a verdade: que mesmo com o poder da Semente da Escuridão, Oikawa continua sozinho. Da mesma maneira que a destruição que BlackWarGreymon provocara em nada contrariara a sua sensação de vazio. Assiste à conversa entre Oikawa e o avô de Cody, sobre a qual falaremos na próxima entrada. É o único a perceber que Oikawa não está a agir por vontade própria, que está a ser controlado por uma qualquer força da Escuridão. Assim, quando essa força tenta atingir o avô de Cody, BlackWarGreymon mete-se a frente e é atingido mortalmente. Percebendo a ameaça da mão que manipula Oikawa como uma marioneta, numa tentativa de detê-la, BlackWarGreymon usa a sua própria morte para selar o portal entre o Mundo Real e o Mundo Digimon.

 

Tenho uma certa pena que BlackWarGreymon não tenha vivido tempo suficiente para experimentar o caminho sugerido por Agumon, que não tenha tido tempo para ser feliz. Podíamos tê-lo visto como aliado das Crianças Escolhidas, ou mais do que isso: como um amigo. De qualquer forma, ainda que a história de BlackWarGreymon nem sempre tenha sido bem conseguida, ao menos teve um fim satisfatório: algo que, nesta temporada, não foi muito comum.

 

Na próxima publicação falaremos, finalmente, de Oikawa.

 

 

 

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