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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Música 2021 #4: Salvando o rock em italiano

Primeira entrada de 2022! Bom Ano, pessoal! A retrospetiva musical de 2021 ainda vai a meio, agradeço a vossa paciência.

 

Nunca liguei muito ao Festival da Canção da Eurovisão. Liguei quando foi do Salvador, claro. Depois disso, assisti ao Festival de 2018, organizado por nós, mas fiquei desapontada com o nosso fraco desempenho. O do ano seguinte foi aquele com a música do telemóvel, não foi? Não, não vou ver ao Google, não lhes vou dar essa satisfação. Em todo o caso, fez com que me desligasse de novo do Festival.

 

Até este ano. A minha irmã convenceu-me a ver a final com ela. Até foi divertido. Gostei da nossa música: Love is On My Side, dos Black Mamba. Na minha opinião, em termos de música para Festivais, é a nossa melhor desde Amar Pelos Dois. 

 

 

Compreendo que alguns de nós tenham ficado desapontados por concorrermos com uma música em inglês. Se houve algo que aprendemos com Amar Pelos Dois é que a língua não impede a música de tocar as pessoas. Não faz sentido cantar em inglês só mesmo para ter projeção internacional.

 

Dito isto, não digo que esse tenha sido o único motivo para os Black Mamba cantarem em inglês. Apesar de tudo, a maior parte da música que ouvimos é cantada nesta língua. Não me choca que, para alguns de nós, na hora de compôr, saia inglês em vez de português. 

 

Em todo o caso, como dizia eu, Love Is On My Side é uma boa música. Talvez pouco original, sem se afastar muito do típico jazz e blues, mas não deixa de ser linda. Conseguiu um respeitável décimo-segundo lugar na classificação final – na minha opinião, merecia mais. 

 

Mas, não querendo desvalorizá-la, o assunto principal deste texto é outro. Estou aqui sobretudo para falar dos vencedores da edição deste ano: os italianos Måneskin, com a música Zitti e Buoni.

 

Foi a primeira vez desde 2006 que uma música rock ganha o Festival da Canção. Por sinal, também gosto muito de Hard Rock Hallelujah. Durante muito tempo foi a única música da Eurovisão que ouvia com regularidade. E têm outra coisa em comum com os Måneskin: uma mulher na banda. Não é muito comum no mundo do rock, tirando na posição de vocalista (e mesmo assim).

 

Mas voltando aos italianos. Os Måneskin formaram-se em 2015, qando os membros eram adolescentes. Eles continuam a ser muito novinhos. O vocalista, Damiano David, é o mais velho, faz vinte e três anos agora em janeiro. O mais novo, o guitarrista Thomas Raggi, vai fazer vinte e um, também daqui a pouco tempo. 

 

 

Tecnicamente já são adultos, mas para mim gente mais nova que a minha irmã (que tem vinte e cinco) é criança. Acontece o mesmo com a Billie Eilish, aliás. Eu podia ter andado com eles ao colo ou às cavalitas! E, habituada como estou a ter gente mais velha ou, vá lá, da minha idade entre os meus artistas preferidos, admirar miúdos mais novos é… esquisito.

 

Por outro lado, isto até será um raciocínio falacioso. Com o estilo de vida de estrelas de rock – as viagens, o assédio dos fãs e da comunicação social, entre outros aspetos – eles deverão ter experiência de vida equivalente à minha. 

 

Os Måneskin lançaram-se no mainstream em 2017, quando participaram no X Factor italiano. Ficaram em segundo lugar. Na verdade, a versão de Beggin’, que teve grande rotação agora em 2021, é desses tempos – mais sobre ela já a seguir. Na mesma altura lançaram o single Chosen, que teve sucesso um pouco por toda a Europa – permitindo-lhes fazer uma digressão pelo continente em 2019.

 

Não se pode dizer, assim, que o mundo os descobriu no Festival da Canção. Mas foi assim que eu os descobri e os adotei. Em parte por influência da minha irmã, que tem estado a estudar italiano. É uma língua lindíssima, todos concordam, sobretudo em música – mas eu estava mais habituada a Eros Ramazzotti. Ouvir rock em italiano é diferente… e eu gosto! É uma língua com raízes latinas, tal como o português, mesmo sem aprender dá para perceber algumas coisas.

 

Também gosto da estética deles. Estrelas de rock andróginas estão longe de ser uma novidade: veja-se Elvis Presley, Mick Jagger, David Bowie, Prince, Freddy Mercury. No entanto, o estilo voltou a estar na moda nos últimos anos. Por estes dias, aceitamos, celebramos mesmo expressões de género e sexualidade fora do estreitamente cis e hetero. Olhemos para Timothée Chalamet e Harry Styles, por exemplo. 

 

 

No fundo, os Måneskin adotaram uma versão mais hardcore, mais rock ‘n’ roll, desse estilo. 

 

À primeira vista, o género musical dos italianos é glam rock, à anos 70 e 80. No entanto, algumas das suas influências são mais fora da caixa em termos de rock. Um pouco de hard rock, um pouco de funk – há momentos em que eles me recordam os Red Hot Chili Peppers. A própria voz de Damiano David tem sido descrita como típica de reggae – e, tal como a língua italiana, funciona surpreendentemente bem com rock. 

 

Aliás, uma das músicas mais populares deles é uma versão rock ‘n’ roll de uma música soul dos anos 60. Eu pensava que a Beggin’ original era a dos Madcon. Fico feliz por não ser pois não gosto da versão deles – a interpretação do vocalista é irritante. O original dos The Four Seasons é muito melhor – e a versão dos Måneskin está ao mesmo nível.

 

Curiosamente, Zitti e Buoni é das mais pesadas que ouvi deles. Dou-lhes crédito por terem resistido à tentação de levar uma música mais leve, cantada em inglês, ao Festival da Canção. É um grito de rebeldia e uma das minhas preferidas deles. 

 

Incluo aqui a atuação no final do Festival, na condição de vencedores. Gosto demasiado de vê-los felizes, de lágrimas nos olhos, beijando-se e abraçando-se uns aos outros durante a atuação, Damiano agradecendo a vitória pelo meio. 

 

 

Nas semanas que se seguiram ao Festival, já se falava de I Wanna Be Your Slave nas redes sociais. Gosto tanto como toda a gente, ainda que ache o instrumental um pouco básico demais – a melodia cantada é a mesma do baixo e da guitarra. O mesmo acontece em certos momentos do single mais recente deles, Mamma Mia – uma música de que não gosto tanto.

 

Gosto de Vengo dalla Luna, no entanto – ainda que se pareça um pouco demais com a versão deles de Let’s Get It Started. Por outro lado, estou surpreendida por pouca gente falar de Torna a Casa, uma das minhas preferidas. Uma power ballad também habitual no rock dos anos 70 e 80, talvez demasiado clássica, pouco original, mas eu sempre gostei deste tipo de música. 

 

Ainda estou em exploração, na verdade. Na preparação deste texto, descobri mais umas músicas de que gosto deles: a já referida Chosen, Morirò da Re e Niente da dire. Esta última é algo diferente para eles, com percussão eletrónica e guitarra acústica. Hei de continuar a explorar a música deles, a acompanhá-los. Espero que venham a Portugal em breve. 

 

Em suma, estes miúdos ainda têm algumas arestas por limar. Um dos problemas, na minha opinião, são os instrumentos a menos – apenas guitarra, baixo, bateria e voz – e algumas músicas sofrem por isso. Por outro lado… são miúdos, são amigos de adolescência, se não forem de infância. Será que quero que tragam gente de fora, que possa vir a estragar-lhes as dinâmicas?

 

Em todo o caso, os Måneskin têm imenso potencial e parecem genuínos. Confio muito mais neles para “salvarem o rock” do que a trupe do Travis Barker (mesmo Avril; por muito que a adore, duvido que recupere a relevância de outros tempos). Já estão a fazê-lo. Chegaram a falar de miúdos de dez anos que dizem que querem aprender a tocar bateria por causa deles. 

 

 

Realmente, o rock ‘n’ roll nunca morre. 

 

E por hoje é tudo. Já só faltam mais dois textos para esta série – sobre duas meninas. Fiquem por aí.

Música de 2017 #2

Primeira publicação de 2018! Bom Ano, minha gente! Hoje continuamos a falar da música que me marcou em 2017. Como poderão ler aqui, se ainda não o tiverem feito, terminámos a primeira parte com uma música cantada em português. A próxima música desta lista também é cantada na nossa língua – e sei que não fui de todo a única a render-me a ela.

 

  • Salvador Sobral – Amar Pelos Dois

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Não podia falar da música de 2017 sem falar de Salvador Sobral e de Amar Pelos Dois. Nunca me interessei muito pelo Festival da Canção mas, à semelhança da maior parte dos portugueses, não fiquei indiferente ao músico e à canção que finalmente nos sagraram vencedores da Eurovisão. A noite de 13 de maio é capaz de ter sido a mais feliz do ano todo – foi como estivéssemos a ganhar o Euro 2016 outra vez.

 

Confesso que, noutras circunstâncias, talvez a música me tivesse passado ao lado. É lindíssima, sim, mas está longe de ser pioneira. Não faltam por aí baladas de piano-e-violinos. Ainda este ano tivemos Writer in the Dark, de Lorde. Por sua vez, a minha cantora preferida, Avril Lavigne, tem uma data delas – destacando-se Innocence.

 

Também acho que, se esta música tivesse saído há dez, quinze anos, talvez tivesse passado despercebida a muita gente. Mas estamos em 2017: os instrumentos a sério estão em vias de extinção, tal como já referi antes; pelo menos noventa por cento das músicas que tocam na rádio são descartáveis; a larga maioria das músicas da Eurovisão são mais espetáculo, “foguetes”, que conteúdo (embora a edição deste ano tivesse umas quantas músicas giras, sobretudo a da Bélgica). Não foi, por isso, grande surpresa que Amar pelos Dois se tenha destacado. A sua vitória sempre abrirá caminho para que músicas parecidas, com mais emoção e conteúdo, se qualifiquem para o Festival do próximo ano.

 

 

  

E de facto, se ouvirmos com atenção, Amar Pelos Dois é uma música encantadora na sua simplicidade. A minha manicura habitual diz que a canção lhe parece saída de filmes antigos da Disney – bem visto. A música funcionaria bem como uma serenata de um príncipe à sua amada ou cantada pela Branca de Neve aos animais da floresta.

 

Outro ponto a favor é o facto de o Salvador ser… “Salvadorable”. Possui o equilíbrio perfeito entre esquisito e fofinho – penso que é a isto que os anglo-saxónicos chamam “adorkable”. Ele acaba por ser parecido com a Lorde no sentido em que ambos sentem e interpretam música com o corpo todo, de forma pouco convencional. Tem, ainda um sentido de humor terra a terra, que fica sempre bem.

 

  

Isto é, até se virar contra ele, no concerto do Juntos Por Todos.

 

A boca em si não me chateou… muito. Não era de todo a melhor altura para dizer aquilo, mas não acho que tenha sido por mal. São daquelas atitudes típicas de quem é famoso há pouco tempo e ainda não tem noção da sua posição. O que me chateou mais é que pôs toda a gente a falar sobre isso e as coisas boas que aconteceram durante o resto do concerto passaram ao lado.

 

Enfim. Mais importante é que o dinheiro chegue mesmo às vítimas.

 

Em setembro, o Salvador colocou a carreira em pausa, pelos motivos de saúde que todos conhecemos. Felizmente, há poucas semanas, recebeu finalmente um coração novo (esperemos que este também possa amar pelos dois…) e, por alturas do Natal, saiu dos Cuidados Intensivos. Ainda lhe espera uma recuperação longa, mas todos desejamos que tudo corra bem a partir de agora e que não demore muito a regressar aos estúdios e aos palcos – de preferência, a tempo de dar um saltinho ao próximo Festival da Canção, organizado por Portugal.

 

  • Paramore

 

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Os Paramore foram a banda que mais ouvi no Spotify, como poderão ver aqui. Isso deve-se muito ao álbum que lançaram – e que, de maneira paradoxal, me fez revisitar a discografia antiga deles. After Laughter é muito 2017, com uma data de canções sobre pessimismo, sobre desânimo, sobre cair na real… disfarçadas de músicas alegres. Uma espécie de escapismo ao contrário.

 

As minhas opiniões sobre o álbum não mudaram muito desde que publiquei a minha análise, no verão passado. After Laughter está muito bem feito – não parenas graças a Hayley Williams, às suas letras, à sua interpretação, mas também aos instrumentais criados por Taylor York, com a ajuda ocasional de Zac Farro.

 

Quando se fala de Paramore, a maior parte das pessoas fala apenas sobre a Hayley, tratando os outros membros (ou ex-membros) como mera banda de apoio. O que é um erro. Se Hayley é a cara, a voz e o final das músicas dos Paramore, Taylor é o cérebro. É onde surgem os xilofones de Hard Times, os riffs de Told You So, a guitarra acústica de 26, o piano de Tell Me How.

 

Para não dizer, mais uma vez, que poderá ser graças a Taylor que ainda temos Paramore.

 

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O que nos vale é que o Taylor é muito tímido, segundo consta, não parece ser pessoa para reclamar créditos (talvez seja por isso que ainda não tenha imitado Josh ou Jeremy).

 

Mais sobre isso um dia destes.

 

Tal como referi acima, After Laughter representa bem este ano, pelo menos para mim. Uma das principais, nesse capítulo, é 26. Já tinha referido, na análise, que esta, na minha opinião, descreve um conflito entre idealismo e cinismo. Acho que já tinha dito aqui, algures, que por norma não sou uma pessoa cínica e não desejo sê-lo.

 

  

No entanto, tive momentos este ano em que estive perto – sobretudo durante as tais semanas de desânimo, depois do concerto pelo Chester. Houveram alturas em que não me reconhecia a mim mesma e que me assustaram – uma delas aquando dos jogos da Seleção de novembro, em que não me conseguia entusiasmar como antes. Procurava agarrar-me a qualquer resquício de esperança, de alegria, que conseguisse encontrar, mas a realidade nem sempre colaborava. Até mesmo no filme mais recente de Tri (cuja análise andava a escrever na altura) a esperança e o idealismo tinham saído derrotados, no final mais sombrio daquele universo.

 

Consegui ultrapassar esse mau momento, mas nada me garante que não volte a cair no desânimo, um dia destes. Não quero de todo perder a capacidade de sonhar, de me entusiasmar com pequenas grande coisas, como a minha escrita, jogos de futebol, músicas novas, entre outras coisas. De esperar por dias melhores. Tal como Hayley diz, em 26, sobreviver nem sempre é a parte mais difícil. Às vezes, o mais difícil é manter a nossa esperança e o nosso idealismo intacto, perante todas as facetas horríveis deste mundo.

 

Sem pensar que, por muito triste que seja a perda de pessoas excelentes, como o Chester, a verdade é que não parecem existir grandes vantagens em viver neste planeta.

 

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A propósito do Chester, mais uma vez, a morte dele deu-me novas perspetivas sobre as músicas Idle Worship e No Friend – músicas que nos recordam que os nossos heróis são apenas humanos. Prova melhor do que o que aconteceu a Chester não há.

 

Um excerto de No Friend reza assim “I see myself in the reflection of people’s eyes, realizing that what they see may not be even close to the image I see in myself”. Parece-me que esse sempre foi o caso de Chester – ele que descrevia a sua própria mente como um lugar hostil, que dizia que ele mesmo era o seu pior inimigo, quando, na verdade, era idolatrado por milhões. E, no fim, ninguém conseguiu salvá-lo dele mesmo.

 

Mas regressemos aos Paramore. Neste final de 2017, Hayley parece um bocadinho melhor que há alguns meses, quando o Aflter Laughter estava para sair. Talvez o pior já tenha passado para ela e para o resto da banda.

 

Em todo o caso, gosto sempre de recordar que a última frase em After Laughter é “I can still believe”. Se a Hayley ainda consegue manter a esperança, ou a fé, ou o que quer que lhe chamemos, nós podemos tentar fazer o mesmo.

 

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  • Lorde

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Aquando do texto de Ano Novo do ano passado, eu sabia que voltaria a escrever sobre Lorde no texto deste ano. Após o excelente Pure Heroine, a fasquia estava alta para o segundo álbum de Ella Yelich-O'Connor. No entanto, Melodrama não desiludiu ninguém: é uma autêntica obra de arte, do princípio ao fim. Desde a energia dançante de Green Light e Supercut, à vulnerabilidade de Liability de Writer in the Dark, passando pela bipolaridade de Hard Feelings/L.O.V.E.L.E.S.S.

 

Não que o público em geral tenha dado por isso. Segundo as minhas pesquisas, apenas o single Green Light teve sucesso moderado. Conforme já tinha escrito antes, Homemade Dynamite seria o grande single – até lançaram um remix com uns quantos artistas da moda, a ver se descolava. Não que tenha tido grande sucesso, tanto quanto sei.

 

Tem piada. Em 2013/2014, quando ainda não era fã dela, as rádios portuguesas tocavam Royals até dar comigo em doida. Agora que já sou, não me lembro de ter ouvido uma música que seja dela.

 

De qualquer forma, continuo a fazer figas para que ela venha a Portugal no próximo ano.

 

  

Parece-me um sacrilégio estar a falar de favoritos num álbum tão consistentemente bom, mas tenho andado obcecada com Sober: uma canção como nenhuma outra, que combina inúmeros pormenores fantásticos. Deste os “Night, midnight, lose my mind”, às trompetes e saxofone no refrão, passando pelo rugido de um tigre (numa trela de ouro, espero eu). Este podcast disseca os elementos todos.

 

Não que as outras canções fiquem atrás em qualidade, mesmo não sendo tão intricadas. Nalgumas, aliás, a simplicidade é o seu ponto forte. Como Liability (só piano) e Writer in the Dark (piano e violinos, como vimos antes). Outras recriam o estilo minimalista de Pure Heroine. Nomeadamente Hard Feelings/L.O.V.E.L.E.S.S. e a reprise de Liability.

 

Já que falamos no estilo minimalista de Lorde, queria fazer um aparte e falar sobre o cover que ela gravou para o Live Lounge da BBC 1 e que tem incluído nos seus concertos.

 

 

Quando descobri acerca deste cover, fiquei contente por dois motivos. Primeiro, porque In the Air Tonight é uma das minhas canções preferidas de todos os tempo. Escrevi sobre ela aqui no blogue, há quase cinco anos (!!). Segundo, porque a versão original é perfeita para a Lorde – tão perfeita que me pergunto porque não reparei mais cedo.

 

Conforme escrevi na altura, a versão original de In the Air Tonight é grave, um tanto ou quanto fantasmagórica, assenta-se muito na percussão, com destaque para o famoso solo, no final da segunda estância. A música acabou, assim, por antecipar o estilo característico de Lorde, sobretudo do seu primeiro álbum.

 

Isto para não falar dos “Oh, Lord” – que, nesta versão, têm imensa piada.

 

Mas regressemos a Melodrama. Falta falar sobre a minha canção preferida nesse álbum e de todo 2017: Perfect Places.

 

  

Já tinha explicado antes aquilo que me atrai na música: um refrão que é puro ecstasy, uma letra com a qual me identifico. Tenho vindo a identificar-me cada vez mais com Perfect Places, aliás – sobretudo com o verso “I hate the headlines and the weather”.

 

No site Genius, Lorde escreveu sobre esta frase: “Esta música começou a ganhar forma no final do verão de 2016, em Nova Iorque e as notícias eram horríveis todos os dias e estava tanto calor de uma maneira errada, da maneira como eu imagino o tempo num filme de desastres mesmo antes de uma bomba rebentar ou de os aliens aterrarem. Deu comigo em doida, um bocadinho, eu andava por Midtown e sentia-me à beira de arrancar as minhas roupas ou de me passar perante um estranho. E todos os dias nas notícias diziam “Lado positivo! Temperaturas recorde todo o fim de semana!” e eu pensava “NÃO PERCEBEM O QUE ISTO SIGNIFICA!!! VAMOS TODOS MORRER!!!” Este é provavelmente o verso mais Melodrama em todo o álbum.”

 

Bem, tendo em conta o que se passou em Portugal com os incêndios, num verão que nunca mais acabava, nada disto me parece melodramático. Eu, aliás, alteraria o verso seguinte para “My whole country is on fire”.

 

E, claro, a parte do “All of our heroes fading”. Já me fartei de falar do Chester, mas este ano também perdemos Pedro Rolo Duarte (que ouvia há vários anos na rádio) e o Zé Pedro, dos Xutos – mais uma banda que não vai voltar a ser o mesmo. E não nos limitamos a heróis de carne e osso – tenho também um herói de infância que não teve um desfecho feliz da última vez que o vi.

 

  

Perfect Places funciona, assim, como uma boa representação do meu 2017: o mundo desabando à minha volta, eu tentando agarrar-me à minha versão de sítios perfeitos, às coisas boas da vida, a experiências que transcendessem a turbulência deste ano. Podem não resolver nada, podem não passar de escapismo, mas em certas ocasiões são das poucas coisas que me fazem levantar da cama. Que me impedem, lá está, de ceder ao cinismo.

 

E a verdade é que, apesar destas queixas todas, o ano 2017 trouxe várias coisas boas: as músicas de que falámos neste texto (em particular a que venceu na Eurovisão), o bom período da Seleção Portuguesa, a segunda e terceira geração de Pokémon Go, bem como os Raids Lendários, os jogos Ultra Sun e Ultra Moon, os dois filmes de Tri (mesmo com todos os defeitos, mesmo com o final triste do último).  Enquanto tivermos coisas como essas nas nossas vidas, conseguiremos sobreviver. Eu pelo menos conseguirei.

 

 

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Agora que já falei sobre os principais artistas e músicas deste ano, deixo aqui algumas notas sobre outros músicos do meu nicho. Bryan Adams lançou Ultimate, um Greatest Hits com um par de músicas novas, Ultimate Love e Please Stay.

 

Ultimate Love tenta abordar temas atuais e ser inspiradora, mas não consegue elevar-se acima de clichés e banalidades. De Please Stay gosto mais, apesar de não fugir muito à fórmula das canções de amor de Bryan Adams. Essa, ao menos, tem passado algumas vezes na rádio.

 

Não tenho mais a dizer sobre estas faixas. Aqui entre nós, tanto elas como o próprio CD, Ultimate, eram desnecessários.

 

  

Primeiro, os Spotifys e YouTubes desta vida tornaram os álbuns de Greatest Hits obsoletos. Se alguém quiser conhecer melhor um artista ou banda, vai às playlists This Is [Artist] ou pesquisa no YouTube e clica nos primeiros resultados. Fãs de longa poderão comprar o CD para a coleção, mas calculo que muitos, como eu, limitar-se-ão a comprar as músicas inéditas no iTunes.

 

Segundo, o álbum de inéditas mais recente do Bryan saiu há apenas dois anos. Não fazia falta material novo tão cedo, na minha opinião.

 

Dito isto, é bom saber que Bryan ainda não se acomodou, continua com vontade de fazer e lançar música, dar concertos. Conforme escrevi há quase dois anos, se o Bryan ainda não se cansou, eu também não me canso.

 

Por sua vez, Sharon den Adel, dos Within Temptation, inaugurou um projeto a solo, de nome My Indigo. O álbum, homónimo, tem lançamento marcado para 20 de abril e já duas canções foram divulgadas: uma homónima, My Indigo, e Out of the Darkness.

 

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Tenho gostado do que ouvi até agora, sobretudo de My Indigo – a primeira que conhecemos, a meio de novembro. Estive quase para escrever sobre ela, nas Músicas Não Tão Ao Calhas, mas preciso de mais tempo para decifrar a música. Prefiro esperar pelo lançamento do álbum.

 

My Indigo é, assim, o primeiro álbum por que esperar em 2018. Outro será, possivelmente, o sexto de Avril Lavigne… que, se se recordarem do texto do ano passado, ela tinha prometido para este ano. Eu, na altura, pensava que estava a ser pessimista quando dizia para apontarmos para novembro e dezembro. Pelos vistos não estava…

 

Não é o atraso em si que me incomoda, atenção. Não me importo de esperar… muito. A doença de Lyme não é brincadeira nenhuma, os sintomas podem durar anos (alguns fãs esquecem-se disso). Mesmo tirando o Lyme da equação, também não quero que a Avril lance material com o qual não esteja satisfeita, só porque os fãs estão impacientes. Um bom álbum pode demorar um ano ou cinco a ser lançado. Mas um mau álbum dura para sempre depois de partilhado com o mundo.

 

Confesso que um dos motivos para pensar assim foi um tweet da Lorde, há algumas semanas: quando um idiota qualquer reclamou com ela por ter demorado quatro anos a lançar um álbum, ela disse não vai lançar álbuns “que existam apenas numa única dimensão”, nem que leve dez anos a criá-los.

 

  

Não, o meu problema não é a demora – sobretudo se o sexto álbum valer a espera. O meu problema é que a Avril tem a mania de fazer promessas que depois não cumpre. Ela, por exemplo, passou os primeiros meses de 2017 deixando pistas sobre possíveis canções novas, em especial Warrior. Chegou mesmo a dizer, num vídeo, que “fez um álbum sem tentar fazer um álbum”. Mas, depois disso, passaram-se meses e meses sem mais nada de concreto e, no mês passado, num direto do Facebook, disse mesmo que ainda nem sequer tinha gravado Warrior.

 

Isso para não falar da palavra “soon”, que já se tornou um meme entre os fãs.

 

Eu nem me posso irritar com ela, porque já não é a primeira vez que ela faz isto. Já com os últimos dois álbuns foi este drama. Preferia mil vezes que ela se mantivesse calada, demorando o tempo que quiser em estúdio, e, quando estivesse pronta – e por “pronta” quero dizer já com nome, capa, tracklist, pelo menos um single lançado e, de preferência, CDs físicos sendo já enviados para as lojas e datas de digressão marcadas (para Portugal, por favor!!!!) – fizesse o grande anúncio nas redes sociais.

 

E, mesmo assim, acho que só acreditaria quando as músicas aparecessem no Spotify ou no iTunes.

 

  

Em todo o caso, espero mesmo que este álbum valha este drama todo. Vai ser bom ouvir música nova da Avril, depois de tudo o que aconteceu desde o último álbum.

 

É com esta nota de esperança que termino este texto. Deixo uma playlist com as músicas de que falámos aqui.

 

 

Também podem ver e ouvir aqui as músicas que mais toquei no Spotify este ano, se quiserem.

 

Que 2018 corra melhor para todos nós (já será bom se não ocorrer mais nenhuma tragédia, como a dos incêndios florestais, e se mais nenhum dos meus heróis ou qualquer pessoa de quem goste, morrer). Que não falte boa músicam, pelo menos. Fiquem bem. Feliz Ano Novo!

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