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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Era Uma Vez/Once Upon a Time - Sexta temporada #1

Tenho uma confissão a fazer: não tinha muita vontade de escrever este texto. Filo-o quase por obrigação: porque escrevo sobre Once Upon a Time pelo menos uma ou duas vezes por ano desde os primeiros meses deste blogue. Se não tivesse nada a dizer, ainda punha a hipótese de não escrever. Mas não era o caso, logo, aqui estou. 

 

Pelos vistos, tinha muito a dizer, pois este texto ficou bem mais comprido do que estava à espera. Tão comprido que tive de dividi-lo em duas partes – publicarei a segunda amanhã.

 

Alerta Spoiler: este texto contém revelações sobre o enredo, pelo que só é aconselhável lê-lo caso tenha visto todos os episódios da sexta temporada de Era Uma Vez/Once Upon a Time, até para a própria compreensão desta entrada.

 

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A verdade é que uma boa parte deste desinteresse deve-se a uma sexta temporada muito irregular. Claros sinais de desgaste, reutilização de ideias já antes exploradas até à exaustão, a ausência de uma linha narrativa coerente, enredos enfiados a martelo, entre outras falhas. Como tal, passei este ano quase todo meio esperando, meio desejando que a série fosse cancelada – sobretudo quando se descobriu que Jennifer Morrison, Ginnifer Goodwin, Josh Dallas, Rebecca Mader e Emilie de Ravin (que fazem, respetivamente, de Emma, Snow, David, Zelena e Belle) não renovaram o contrato. De início, fiquei chateada com a notícia de uma sétima temporada – agora que sabemos que a série dará um salto no tempo e sofrerá uma espécie de Reinício (tenho um certo trauma com esta palavra…), não estou tanto.

 

Mas já lá vamos.

 

O primeiro episódio deixou-me logo com poucas esperanças para o resto da temporada – por causa da história envolvendo a protagonista, Emma. Depois de, na época anterior, se ter tornado no Dark One, ter visto o amante morrer e ter ido resgatá-lo ao mundo dos mortos, Emma descobria agora que estava prestes a morrer, às mãos de uma figura encapuçada. Porque, ao que parecia, era esse o destino de todos os Salvadores.

 

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Durante cinco temporadas – em particular, durante a segunda metade da quarta – OUaT martelou-nos com o dogma “Vilões não têm finais felizes”. Agora diziam que os Salvadores – o supra-sumo dos heróis – também não os têm? Em que é que ficamos?

 

Chamo a isto Síndrome Meredith Grey: aquilo que acontece quando uma série já dura há muito tempo e os guionistas não sabem o que fazer com o protagonista. Assim, vão atirando desgraças para cima dele(a), até já não fazer sentido ou não ser de todo realista.

 

Apesar de não ter gostado muito da premissa inicial, a execução até foi boa, tirando um pormenor ou outro, conforme veremos adiante.

 

Os episódios que se seguiram ao primeiro foram bem melhores. Tal como tinha referido no ano passado, o conceito das Histórias Por Contar era interessante – os episódios que exploraram esse conceito corresponderam a essas expetativas. O problema é que… essa linha narrativa só durou seis episódios – e estou a incluir a história de Aladdin e Jasmine.

 

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Este arco terminou tão depressa porque as duas personagens centrais – Dr. Jekyll e Mr. Hyde – morreram logo no sexto episódio. Por sinal, a história deles foi a minha preferida das Histórias Por Contar. Por um lado, por apresentar o twist de Jekyll ser o verdadeiro vilão; por outro, por desconstruir o irritante princípio de que as mulheres preferem os homens maus.

 

Mas isso daria azo a um texto à parte.

 

Depois da morte de Hyde, pensou-se que Jafar tomaria o seu lugar como vilão. Isto porque a história de Aladdin e Jasmine fora uma das mais promovidas antes do início da temporada. No entanto – de uma forma muito típica em OUaT, diga-se de passagem  – a execução não correspondeu ao hype. Aladdin e Jasmine só foram centrais em dois episódios. Numa mão-cheia de outros, foram apenas secundários. Jafar, esse, tirando uns quantos flashbacks, só apareceu durante uns dez minutos. Os paralelismos entre Emma e Aladdin até tiveram o seu interesse. Tirando isso, esta parte da história não me aqueceu nem arrefeceu.

 

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A Evil Queen foi a primeira vilã da primeira meia temporada, mas não fui grande fã. Para além de ter sido uma repetição da Regina das primeiras temporadas, sobretudo nos flashbacks, a partir de certa altura tornou-se demasiado poderosa, demasiado invulnerável. Teve de vir outro vilão – falaremos sobre ele mais à frente – para a travar, ainda que durante apenas alguns episódios.

 

Uma coisa de que ninguém – ninguém, nem mesmo as próprias personagens – gostou foi do envolvimento entre a Evil Queen e Rumple. Não nego que sempre existiu alguma tensão sexual, sobretudo nos flashbacks – mas também, o sex appeal sempre foi uma parte significativa do modo Evil Queen de Regina. Ela agia assim com praticamente todos os homens com quem se cruzava, David e Hook incluídos. A sua interação com Rumple não era assim tão diferente das demais. Passar das insinuações à prática foi uma péssima ideia.

 

Já que falamos em Rumple, este atingiu o seu ponto mais baixo nesta meia temporada. Se já na época anterior tinha notado contornos de relação abusiva no seu casamento com Belle, estes, agora, foram inconfundíveis. Prendeu Belle no Jolly Roger e, mais tarde, colocou-lhe a versão mágica de um localizador, dizendo que a ama e ao filho por nascer para se justificar; ameaça-lhe acelerar-lhe a gravidez e tirar-lhe o filho à força.

 

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É, na verdade, o que acaba por acontecer, embora seja obra da Evil Queen e não de Rumple (não que Belle o saiba). A recente mãe acaba por decidir entregar o filho (a quem dá o nome Gideon) à Fada Azul, para que o proteja do próprio pai.

 

Houve alguma controvérsia entre os fãs sobre se Belle tinha o direito de negar Gideon a Rumple. Alguns argumentam que Rumple nunca faria mal ao filho e talvez até tenham razão. Eu, no entanto, se estivesse no lugar de Belle, também não quereria um homem como Rumple – que não aceita rejeição, que recorre a atalhos para obrigar pessoas a amá-lo em vez que estabelecer relações genuínas, que tem um histórico bem conhecido de abandono de crianças – perto do meu filho. Fazendo comparações com o “mundo real”, a lei é ambígua, mas eu pessoalmente acho que um agressor nunca poderá ser um bom pai – quanto mais não seja pelos exemplos que dá aos filhos.

 

Um aparte só para comentar que nunca esperei ter de pesquisar sobre violência doméstica enquanto escrevia sobre uma série baseada em contos de fadas… Mas também é verdade que os contos de fadas tem origens bastante sombrias.

 

Ainda que a decisão de Belle seja compreensível, entregar Gideon à Fada Azul acabou por ser pior a emenda que o soneto… mas já aí vamos.

 

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Regressando à Evil Queen, a sua maior façanha de longe enquanto vilã foi a maldição que lançou a Snow e David: uma variante da Maldição do Sono em que, quando um está acordado, o outro está inconsciente.

 

É certo que existem uma série de incoerências nisto. Supostamente, ambos seriam já imunes a este tipo de maldições. Na segunda temporada, a Maldição do Sono implicava sonharem com um quarto em chamas – nesta, contudo, as vítimas mergulham num sono normal.

 

Nesta altura do campeonato é mesmo escusado esperar consistência em Once Upon a Time.

 

De início até foi interessante – e devo dizer que já era altura de a série explorar as consequências de Snow e David partilharem um coração. No entanto, foi um arco narrativo que se prolongou demasiado tempo – e não se percebe, por exemplo, por que motivo Emma não tentou dar-lhes o Beijo do Verdadeiro Amor.

 

Conforme veremos mais à frente, no entanto, gostei da maneira como encerraram essa história.

 

  

Um dos episódios mais interessantes foi o final da primeira meia temporada. Neste, a Evil Queen envia Emma para uma realidade alternativa – aqui, a primeira Maldição nunca ocorreu e Emma cresceu com os pais. Regina consegue, mais tarde, entrar nesta realidade. No momento em que esta encontra Emma em modo cem por cento princesa Disney – apanhando flores e cantando Someday My Prince Will Come/O Meu Amor Virá – eu tive de carregar no “pausa” para me rir.

 

A piada não durou muito. Passou a ser triste, mesmo patético, quando Regina tentou apelar ao lado heróico de Emma – inexistente, nesta realidade. A mim, custa-me a acreditar que Snow e David não tivessem educado Emma, pelo menos um bocadinho, para ser lutadora – sobretudo tendo em conta o passado guerreiro de Snow.

 

Emma, na verdade, só “desperta” quando a versão alternativa de Henry tenta matar Regina e esta não faz nada para se defender.

 

Gostei do regresso, ainda que breve, de August – bem como do pequeno flashback que conta as origens do apelido Swan. Outra pérola desta realidade alternativa foi Hook – trinta anos mais velho, barrigudo, hilariantemente alcóolico. A própria Jennifer Morrison parecia estar a esforçar-se por não se rir.

 

  

Por sua vez, Regina “reencontra” Robin nesta realidade alternativa. Reencontra entre aspas pois este, como todos os habitantes deste mundo, é uma versão diferente do seu antigo amante – um Robin que nada tem de heróico, que rouba para proveito próprio. Regina, como seria de esperar, trá-lo para Storybrooke.

 

Não acredito que houvesse uma única pessoa na audiência que acreditasse que aquilo ia resultar. E, de facto, Robin não se consegue integrar em Storybrooke, na sombra deixada pela versão mais heróica de si. A sua partida torna-se inevitável.

 

Para onde vai ele? Para explicar, temos de saltar alguns episódios. No final da primeira meia temporada, a Evil Queen tinha sido transformada numa serpente e aprisionada por uma figura encapuçada, acabada de chegar a Storybrooke – a mesma figura destinada a matar Emma. Alguns episódios mais tarde regressa à sua forma habitual e confronta Regina com o intuito de matá-la.

 

É durante esse confronto que, conforme todos sabíamos que iria acontecer mais cedo ou mais tarde, Regina percebe que deve aceitar o seu lado mau – ou seja, aceitar-se a si mesma, amar-se a si mesma. Não foi muito diferente da história de Emma, durante o arco de Frozen, sem parecer repetição.

 

 

E a verdade é que, mais do que nas maldições, nos duelos grandiosos, nas figuras da Disney feitas carne, é nestes momentos de crescimento das personagens, de humanidade, que Once Upon a Time brilha verdadeiramente, ofuscando os seus defeitos.

 

Ao contrário do que muitos esperavam, Regina não reabsorve a Evil Queen. Em vez disso, Regina mistura os corações de ambas, de modo a ficarem com a mesma proporção de luz e sombra. A Evil Queen (chateia-me um bocadinho que não tenham arranjado outro nome para ela) vai, depois, viver com Robin na realidade alternativa que ela mesma criara.

 

Já na altura me perguntei se fora boa ideia enviarem a Evil Queen  para um reino em que ela era procurada por regicídio e rapto da princesa. Não foi surpresa, por isso, quando se descobriu que ambos fugiram para a Floresta Encantada original, onde acabaram por ficar noivos.

 

Sempre consola um bocadinho que uma versão de Regina e uma versão de Robin tenham tido um final feliz juntos.

  

Recuemos alguns episódios. Depois de Emma regressar a Storybrooke, encontra a figura encapuçada que estava destinada a matá-la. Nada mais nada menos que… Gideon, o filho de Belle e Rumplestilskin.

 

 

Eu passo a explicar.

 

Tínhamos visto que Belle deixara o filho recém-nascido à guarda da Fada Azul. Infelizmente, esta não foi capaz de proteger a criança durante mais do que um dia, se tanto: esta acabararia por ser raptada pela Fada Negra (que, segundo o que descobríramos no episódio anterior, era a mãe de Rumple e o abandonara pouco depois de ele nascer).

 

Dá vontade de citar o meu meme preferido: “You had one job!”. Se já antes não gostava da Fada Azul, depois desta gosto ainda menos.

 

Havemos de falar melhor sobre a Fada Negra, também conhecida por Fiona. Para já, só é necessário saber que esta aprisionou o neto no seu reino, onde o tempo passa mais depressa. Em suma, Gideon envelheceu vinte e oito anos do dia para a noite, essencialmente.

 

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Por esta altura já contávamos cinco anos e meio de #OUaTlogic. Pais e filhos com as mesmas idades biológicas; Leopold noivo e mãe e filha; Rumple envolvendo-se com mãe e filhas; Emma envolvendo-se com enteado e padrasto; Regina adotando o neto da sua enteada; uma cidade quase sempre isolada do resto do mundo mas que se sustém sem problemas.

 

Mas uma criança crescer até à idade adulta antes de o corpo da mãe recuperar totalmente do parto (assumo eu…)? Já é demais.

 

Gideon diz que quer matar Emma para lhe roubar os poderes de Salvadora, de modo a derrotar a sua avó. O que obviamente não faz sentido nenhum – ao que parecia, ele estava a confundir a Salvadora com o Dark One.

 

Não foi, portanto, grande surpresa quando se descobriu que Gideon estava a ser controlado pela Fada Negra. Foi-nos revelado, também, que esta era a grande opositora de Emma, que a “Batalha Final” de que Rumple falava na profecia do episódio-piloto seria entre a Fada Negra e a Salvadora. Isto por ter sido Fiona a criar a primeira Maldição, a Maldição que Emma nasceu para quebrar.

 

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O que não me convenceu. Se os guionistas queriam vender a Fada Negra como a principal vilã até agora em Once Upon a Time, a Némesis de Emma, deviam ter dado pistas sobre isso antes. Tanto quanto me lembro, só se fala dela em Snow Falls, na primeira temporada, e Snow Drifts/No Place Like Home (que, de qualquer forma, é uma espécie de remake de Snow Falls). Mesmo que fosse esta desde o início (coff coff, dúvido), sem os devidos indícios, esta parte parece enfiada a martelo.

 

Para ser sincera, modéstia à parte, a minha teoria de há um par de anos faria mais sentido –  aquela segundo a qual o grande vilão da série seria a essência do Dark One. Mesmo o próprio Rumplestilskin ou a Evil Queen fariam mais sentido.

 

Uma coisa tenho de reconhecer, contudo: em termos de carisma, Fiona não fica nada atrás de outros vilões icónicos da série, como Rumple, Cora ou Regina em modo Evil Queen.

 

Perto do fim da temporada, é revelado o motivo pelo qual Fiona abdicou do filho, ainda antes de lhe dar um nome. No dia em que Rumple nasceu, a Fada Azul e Tiger Lilly profetizam que ele seria um Salvador, destinado a confrontar uma grande força da Escuridão, nascida na mesma altura, na Batalha Final.

 

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Esta cena de Rumple ter estado destinado a ser um Salvador, de início, pareceu-me vinda do nada. Mas, entretanto, lembrei-me da realidade alternativa do final da quarta temporada, em que Rumple é o Light One. Se, nessa realidade, Rumple nunca tiver sido abandonado por nenhum dos pais, nunca tiver ganho fama de cobarde, faz sentido que se tenha tornado um Salvador – mesmo que não seja esse o título que usa.

 

Infelizmente, nesta realidade, Fiona decide tornar-se uma fada para proteger o filho. Quando, a certa altura, fica disposta a matar Tiger Lilly, a sua magia torna-se negra – um pouco à semelhança do que tinha acontecido com Nimue, conforme vimos na quinta temporada. A própria Fiona torna-se, assim, a tal força da Escuridão destinada a matar Rumple.

 

Um caso clássico que profecia que se cumpre a si mesma. O que, de resto, faz a Fada Azul descer ainda mais na minha consideração: mais valia que tivesse ficado calada!

 

A certa altura, a Fada Azul dá a Fiona a hipótese de abdicar do seu poder, de modo a não ter de enfrentar Rumple na Batalha Final. À semelhança do que o filho faria inúmeras vezes, Fiona recusa. Em vez disso, separa Rumple do seu destino como Salvador. Depois disto, a Fada Azul bane Fiona para outro mundo – o tal onde o tempo corre mais depressa.

 

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A ideia com que fiquei foi que, já que Rumple não chegou a ser o Salvador, Emma substituiu-o, ficando ela com a tarefa de enfrentar a Fada Negra, na Batalha Final.

 

Voltaremos a falar sobre essa parte da história e sobre outras partes na próxima entrada, amanhã. Fiquem por aí!

Era Uma Vez/Once Upon a Time - Quinta temporada, segunda parte

O meu plano para este verão consistia em escrever e publicar a minha série de entradas sobre Pokémon de seguida - com um único interregno para uma tag. No entanto, estes textos estão a dar-me mais trabalho do que antecipei. Contava tê-los terminados por agora, mas ainda a procissão vai no adro e o tempo começou a escassear. Já tivemos as estreias tanto da nova temporada de Once Upon a Time como do próximo filme de Digimon Adventure Tri (tanto para escrever!!!), vou ter de deixar essa série em águas de bacalhau durante algum tempo. Que deverá compreender mais algumas semanas, pois, como se OUAT e Tri não bastassem, já não falta muito para a próxima dupla jornada da Seleção - ou seja, terei de me virar para o meu outro blogue

 

Uma coisa é certa, estes textos nunca virão antes do lançamento de Pokémon Sun&Moon, marcado para 23 de novembro cá em Portugal. Fica a promessa, farei por cumpri-la.

 

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Alerta Spoiler: Este texto contém revelações sobre o enredo, pelo que, até para a própria compreensão do mesmo, não é aconselhável que este seja lido, a menos que tenham visto Era Uma Vez /Once Upon a Time até, pelo menos, o final da quinta temporada.

 

A verdade é que, durante algum tempo, tive pouca vontade de escrever sobre Once Upon a Time, sobretudo quando tinha tanta coisa mais apelativa em que pensar e sobre que escrever. Adiei até às últimas semanas antes da rentrée da série. Custa-me dizer isto, mas a segunda metade da quinta temporada foi, na minha opinião, a pior desde o segundo ano de Once Upon a Time.Sabia há muito que haveria uma altura em que se começaria a notar o desgaste: esta chegou. Foi a primeira meia temporada de toda a série em que não gostei de um único episódio a cem por cento: havia sempre um flashback desnecessário ou uma história lateral desinteressante. 

 

Conforme tinha sido referido na última análise, depois de Hook ter morrido no final da primeira metade da temporada, nesta metade o elenco principal visitaria o Submundo para trazê-lo de volta à vida. Já tinha referido que o conceito inicial do Submundo me parecera interessante: uma versão retorcida de Storybrooke, em que as almas dos que partiram ficavam lá presas, de maneira semelhante à Maldição inicial, na primeira temporada. Porque é que o Submundo se parece com Storybrooke? Veremos adiante. No entanto, eu pelo menos cansei-me depressa. Para uma dimensão supostamente só acessível depois da morte, a partir de certa altura, o Submundo começa a parecer demasiado... mundano. Na prática, no Submundo não existem diferenças vivos e mortos. Estes últimos levam uma "vida" quase normal, com necessidades semelhantes às de pessoas vivas (incluindo sexuais, conforme hilariantemente demonstrado por Cruella). Eu, pelo menos, esperava uma existência mais etérea. O Submundo acaba por não ser assim tão diferente de outras dimensões no universo de Once Upon a Time, como a Terra do Nunca ou Oz. Esta opinião vem reforçada pela forma como Belle, Zelena e Ruby vão facilmente lá parar. Se o reino dos mortos é tão facilmente acessível, uma pessoa interroga-se por que motivo ninguém do elenco principal, como Rumplestilskin, Regina ou Zelena, o visitou antes.

 

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A parte subterrânea do Submundo (se é que podemos chamar assim) parece-me mais interessante, com inspirações na mitologia greco-romana e as referências à Divina Comédia de Dante. Agora que penso nisso, teria sido interessante se Dante e a sua amada morta, Beatriz, tivessem aparecido em Once Upon a Time ou, apenas, mencionados. Dante podia, por exemplo, ser o Autor homólogo do Livro de Histórias do Submundo.

 

Embora se façam vários trocadilhos entre o Submundo e o Inferno na série, o Submundo equivale mais ao Purgatório: um local onde ficam retidas as almas com "assuntos inacabados". Segundo o que nos é dito no início da meia temporada, as almas só abandonam o Submundo ou para ir para "um lugar melhor" (o Céu, assume-se, ou pura e simplesmente "a luz") ou para "um lugar bem pior" (o Inferno). No entanto, acabamos por não ver ninguém indo parar a esse lugar pior, tirando o desgraçado que Cora usou como exemplo no primeiro episódio. Em vez disso, algumas das almas vão parar (acidentalmente ou não) ao Rio das Almas Perdidas, onde se transformam numa espécie de zombie (*arrepios*). Ao longo da meia temporada, encontramos várias dessas almas com "assuntos inacabados", em histórias que faziam lembrar o Entre Vidas/Ghost Whisperer, umas mais interessantes do que outras.

 

 

Logo no primeiro episódio tivemos a oportunidade de reencontrar Henry Sénior, o pai de Regina. Esta meia temporada pode ter tido muitas falhas, conforme veremos adiante, mas este episódio pelo menos conseguiu algo que muitos poucos produtos ficcionais conseguem: fazer-me chorar. Isso aconteceu nas cenas em que Regina reencontra o pai e, depois, quando consegue acesso à "luz" e Regina lhe apresenta o neto homónimo. Admito que posso ter projetado imenso mas, de qualquer forma, o ator Tony Perez injeta imensa ternura na sua interpretação de Henry Sénior (a banda sonora também ajudou). Demonstra bem o amor incondicional e, por vezes, pouco saudável que este sempre nutriu pela filha - ao ponto de parecer quase um "banana", assistindo quase sem protestos às atrocidades que Regina ia cometendo (os flashbacks mostram, precisamente, uma das poucas ocasiões em que Henry tentou fazer frente à filha, sem sucesso). Da mesma maneira como viu a esposa, Cora, empurrando Regina para maus caminhos e nada fez para a impedir. Fez sentido, então, que Henry Sénior tenha conseguido seguir em frente da primeira vez que a filha não se deixou manipular pela mãe.

 

Mais sobre Cora adiante.

 

No Submundo também encontramos vilões, como a Bruxa Cega (morta na primeira temporada por Hansel e Gretel, a mando de Regina) e Cruella (morta da forma que sabemos). A primeira gere o diner homólogo ao da Avozinha em Storybrooke (com crianças no menu...) e, não tendo representado verdadeiro antagonismo aos heróis (tirando perto do fim). Sempre providenciou umas trocas de picardias em jeito de comic relief. Cruella, por sua vez, tinha os seus próprios interesses. Inicialmente, tentou manobrar Henry para que este usasse a pena de Autor para a devolver a vida. Acabou por não dar em nada, tirando convencer Henry a usar a pena "para o bem". Após isso, Cruella foi relegada para a posição de vilã-quando-o-enredo-precisar - um papel semelhante ao que Zelena representava na primeira metade da temporada - mas sempre com o seu charme muito próprio (revejam a cena com David que referi antes). No fim, assume a liderança do Submundo, no lugar de Hades.

 

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Reencontramos, também, Milah, a primeira esposa de Rumple, mãe de Neal, que também teve um romance com Hook. Milah é uma personagem muito complexa, ao nível das melhores personagens de Once Upon a Time, que toma atitudes com as quais não concordaríamos, mas não totalmente incompreensíveis. Dizer que o seu casamento com Rumple não foi feliz é eufemismo. Ser casada com alguém tão inseguro como Rumple era na altura não deverá ter sido nenhum prémio. No entanto, se a esposa se tivesse mostrado mais compreensiva em determinadas alturas, talvez Rumple não se tivesse tornado tão cobarde quanto se tornou. Rumple essencialmente vendeu o potencial segundo filho do casal sem consultar Milah, fazendo com que esta agarrasse a primeira oportunidade para fugir. No entanto, deixou Baelfire, que não tinha culpa de nada, para trás - ou seja, este acabaria por ser abandonado por ambos os pais em alturas diferentes. Ao abandonar Rumple, trocando-o por Hook, deixou o primeiro ainda mais predisposto para a Escuridão. No entanto, continuo a achar que não merecia ter morrido da forma como morreu.

 

Quando a encontramos no Submundo, os assuntos inacabados de Milah prendem-se com o seu abandono de Baelfire. Numa conversa em que ela e o antigo marido se mostram inesperadamente vulneráveis, Milah confessou que tudo o que deseja é voltar a ver o filho e pedir-lhe perdão. Pouco antes, Emma - após uma apresentação extremamente misógina por parte de Rumple - dera-lhe algum conforto ao revelar-lhe que Neal estava feliz, num lugar melhor. Foi de uma crueldade indescritível Rumple ter, mais tarde, atirado-a para o Rio das Almas Perdidas. Volto a dizer, nem mesmo Milah merecia isto. O mais triste é que, da parte de Rumple, isto já não surpreende. 

 

Outra alma presa ao Submundo relacionada com Rumple é a do pai, Peter Pan. Este acaba por não ter grande tempo de antena, mas não me queixo. Ele cumpriu o seu papel na terceira temporada, não se encontra, na minha opinião, entre as personagens mais interessantes de Once Upon a Time. Desta feita, ele não sente rancor contra o filho, deseja mesmo regressar ao mundo dos vivos com ele... no lugar de um dos heróis. Rumple vai aceitando a sua ajuda, em alguns momentos, mas no fim condena-o ao Rio das Almas Perdidas. Problema resolvido.

 

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 Voltaremos a falar de Rumple mais à frente. Para já, o caso de que falaremos agora está mais ligado a Oz do que ao Submundo. Há pelo menos dois, três anos, que se especulava sobre a inclusão de um casal LGBT em Once Upon a Time. O primeiro indício disso ocorreu perto do início da terceira temporada, entre Mulan e Aurora. Como poderão ver, há suficiente ambiguidade para uns pensarem que Mulan se refere a Aurora e outros pensarem que ela se refere a Phillip. A questão voltou a surgir já na quinta temporada - no episódio The Bear King, o tal que se seguiu à revelação de que Hook se tornara um Dark One. Desde essa altura, os fãs estavam à espera que o romance se desenrolasse entre Mulan e Ruby. Quando, afinal, Ruby se apaixona por Dorothy, houve quem tivesse ficado desiludido. É possível, no entanto, que a Disney tenha vetado uma potencial saída do armário por parte de uma das suas princesas, sobretudo uma que terá, em breve, o seu próprio filme em live action. Talvez fosse um passo demasiado avançado - embora se fale da possibilidade de Elsa arranjar uma namorada na sequela a Frozen.

 

Tirando esse aspeto e, talvez, o facto de as personagens se terem apaixonado ao ponto de terem "amor verdadeiro" em menos de um episódio (o que, de resto, não é propriamente inédito em Once Upon a Time - a abordagem ao primeiro romance lésbico da série foi quase perfeita. As hesitações sentidas pelas personagens não se prendiam com o género e sim com traumas do passado, com dúvidas existenciais, semelhantes às sentidas por outras personagens em OUAT). Personagens terceiras ao casal reagiram com naturalidade ao romance, nada afetadas pelo seu caráter homossexual. Deram um exemplo que devia ser seguido por muitas pessoas de carne e osso (incluindo algumas aqui na blogosfera...).

 

Passemos, agora, ao menos bom das almas do Submundo. A história de Liam Jones, o irmão de Hook, não me aqueceu nem me arrefeceu. A de Hércules e Mégara foi, na minha opinião, uma oportunidade desperdiçada. No filme da Disney, Mégara oferecera os seus serviços como escrava a Hades em troca da vida do seu amante. Depois de regressar a vida, no entanto, o "cretino" trocara-a por outra. Teria sido interessante se Once Upon a Time tivesse pegado nessa história, estabelecendo um paralelismo entre ela e a busca de Emma or Hook.

 

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Em vez disso, Mégara faz o papel de uma típica donzela indefesa (e nem sequer no sentido irónico do termo, como no filme), numa história que se focou mais em Snow. Não foi assim tão interessante - os flashbacks mostraram, essencialmente, os primeiros passos da jovem Snow passando de princesinha mimada a guerreira, com a ajuda de Hércules. No presente, Hércules está morto e preso no Submundo. Snow ajuda-o a seguir em frente e, no processo, recupera confiança em si própria. Valeu a pena só pela prestação de Bailee Madison, que já anteriormente tinha feito de jovem Snow. Bailee já de si é parecida com Ginnifer Goodwin. Adicionalmente, imita na perfeição as expressões e a maneira de falar da atriz mais velha. É uma delícia vê-la. Se quiserem incluir mais flashbacks da juventude de Snow na série, no futuro, protagonizados por Bailee, eu assinaria de imediato por baixo.

 

No fim deste episódio, Snow declara que não quer voltar a ser tratada por Mary Margaret - por norma mais passiva, focando-se mais em discursos de esperança e tal - e sim por Snow White, mais proativa e lutadora. Tudo muito bonito e inspirador e tal mas, na prática, não teve consequências. Tudo o que Snow fez no resto da temporada, para além de dar apoio a Emma e, mais tarde, a Ruby, foi lamentar-se por estar longe do filho, Neal (aumentando ainda mais o sentimento de culpa a Emma - mais sobre isso adiante) até conseguir, finalmente, regressar mais cedo a Storybrooke. Sempre deu um momento bonitinho, quando David troca o nome dela pelo seu na lápide que a prende ao Submundo, mas de resto Snow continua a dar pouco para a caixa.

 

O mesmo se passa com o marido, David. O reencontro dele com o seu irmão gémeo mau, James, foi antecipado logo desde o primeiro episódio no Submundo. E nem precisava disso, na verdade, já que há muito que ficou claro que James é a antítese do irmão - um confronto entre eles teria sempre potencial. No entanto, a montanha acabou por parir um rato. Enfiaram o reencontro num episódio em que o interesse principal era outro. James limitou-se a atacar o irmão, a tomar o seu lugar até chegar a Emma e Robin, a ameaçar atirá-los para o Rio das Almas Perdidas. À última hora, David e Hook aparecem, quase literalmente como Cavaleiros Andantes, os dois irmãos lutam e James vai parar ao Rio. Tudo muito superficial, quase cliché. Só prova que David e Snow continuam entre os elos mais fracos no elenco.

 

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Mesmo assim, não são piores que Belle e Rumplestilskin. Snow e David podem ser pouco interessantes mas, como casal, são exemplares. Rumple e Belle estão no extremo oposto, ganhando já contornos de relação abusiva. Ao menos agora, ao contrário de ocasiões anteriores, Rumple foi totalmente sincero com Belle; deixou-lhe bem claro que não vai abdicar de ser o Dark One, nem mesmo por ela. Belle, mesmo assim, continua convencida que consegue mudá-lo, mesmo contra a vontade dele. Pelo meio, o casal descobre que estão à espera de bebé (uma integração da gravidez da atriz, Emilee de Ravin, na história) e Hades usa o acordo anteriormente referido para chantagear os pais. Belle tenta obrigar Rumple a resolver o problema sem recorrer a magia negra (vai sonhando, Belle...), mas a coisa complica-se quando Gaston, o antigo noivo de Belle assassinado por Rumple, aparece para se vingar No meio do confronto, longe de virar Rumple para a Luz, Belle acaba por se aproximar da Escuridão dele ao atirar Gaston para o Rio das Almas perdidas, para salvar a vida do marido.

 

Uma pessoa mais lúcida do que Belle interpretaria isto como um sinal para se afastar de vez de Rumple e procuraria ajuda em Emma e os outros. No entanto, não é isso que acontece (não é por acaso que, muitas vezes, vítimas de relações abusivas se encontram isoladas de outras pessoas da sua vida, quer por imposição do companheiro ou por outro motivo qualquer). A única pessoa para além de Rumple a quem Belle recorre é... Zelena. Esta fá-la decidir administrar a si mesma a Maldição do Sono, como forma de proteger o filho que tem por nascer de Hades. Tanto ela como Rumple sabem perfeitamente que Rumple não a ama o suficiente para quebrar a Maldição com um beijo de verdadeiro amor. Desse modo, Belle espera que Rumple arranje maneira de anular o acordo com Hades, que a traga de volta a Storybrooke, onde o pai poderá acordá-la. 

 

Nunca achei que isso fosse resultar. Estamos a falar de um homem que tentou fazer com que a filha perdesse as memórias de modo a mantê-la afastada de um homem que ele não aprovava: Rumple. Duvido muito que o beijo do verdadeiro amor resultasse se fosse aplicado por ele. Não surpreende, deste modo, que, mais tarde, Moe tenha preferido manter a filha amaldiçoada, sem a possibilidade de voltar para o marido. A verdade é que entre o pai, Rumple e Gaston, Belle tem tido uma sorte péssima com os homens da sua vida. Na altura em que a temporada terminou, Belle ainda se encontrava sob o efeito da Maldição do Sono e Rumple ainda não sabia como acordá-la (consta que isso terá um arco narrativo próprio na sexta temporada). Só espero que, quando acordar, Belle corte definitivamente com Rumple. Não me queixaria, aliás, se ela fosse excluída da história pois toda esta história com Rumple desgastaram imenso a personagem. 

 

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Regressemos, então, à raison d'être de toda a meia temporada: Emma resgatando Hook. Depois de a primeira metade do quinto ano de Once Upon a Time se ter concentrado quase só nela, Emma ocupa um lugar mais secundário durante vários episódios. No relativamente pouco tempo de antena a que tem direito, infelizmente, não faz nada de muito interessante. Na minha opinião, perde demasiado tempo com sentimentos de culpa por a família ter vindo consigo para o Submundo. Fez-me ter saudades da Dark Swan - ela, ao menos  não perdia tempo com lamúrias, preocupava-se antes em fazer o que tinha de ser feito. É de resto habitual em Once Upon a Time, mas não só: muitos vilões são mais interessantes que os heróis. Talvez por os últimos terem, por norma, uma atitude mais passiva, reagindo em vez de agindo, muitas vezes debatendo-se com o que está certo e errado - enquanto os vilões fazem o que querem, sem dar satisfações a ninguém... mas isso daria azo a um outro texto, por si só.

 

Pudemos, no entanto, conhecer a história de origem do icónico casaco de cabedal vermelho de Emma (ando a rondar a Cada das Peles à procura de um parecido) e de como ela se tornou agente de fianças. Achei os flashbacks centrados em Emma e Cleo interessantes, só estranhei o facto de terem ocorrido apenas dois anos antes dos eventos da primeira temporada. Emma sempre deu a entender que contava vários anos de experiência em, como ela diz, "encontrar pessoas". Além de que a ideia de que Emma passou cerca de oito anos, desde o nascimento de Henry e de que saiu da prisão, deambulando por aí no seu carocha amarelo, sustentando-se com assaltos a lojas de conveniência, é deprimente.

 

No início da meia temporada, eu estava à espera que arrastassem o resgate de Hook, que ele só se reencontrasse com Emma mais tarde, na temporada. O reencontro deu-se logo no terceiro episódio. O arrastamento deu-se imediatamente depois, quando Hades prendeu os heróis ao Submundo. Em linha com o que referi antes, sobre o Submundo parecer demasiado mundano, Emma e Hook levam uma vida quase normal durante a maior parte da meia temporada. O que faz com que os eventos do antepenúltimo episódio doam mais.

 

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Eu sinceramente ainda não percebi que mensagem a série quer passar a Emma pois ora a castiga por não se querer comprometer com Hook, ora a castiga por se agarrar a ele (tornando-o um Dark One para lhe salvar a vida, indo resgatá-lo ao Submundo). Sinceramente, achei parvo que Emma e Hook tenham sido obrigados a despedir-se (sendo esta a quarta vez que Emma vê Hook morrer) para, um episódio mais tarde, Hook ressuscitar literalmente por intervenção divina (ainda que merecida, de certa forma). Parvo... e tendo em conta que os deuses não mostraram a mesma bondade a outras personagens, mesmo cruel.

 

Mas já aí vamos.

 

Ainda não falei do vilão da meia temporada, Hades, o Senhor do Submundo. Este é, na verdade, um dos motivos para que esta meia temporada tenha tido menos qualidade. Once Upon a Time tem se caracterizado pelos vilões carismáticos mas Hades, na minha opinião, não é um deles. Greg Germann faz uma interpretação demasiado monocórdica do deus do Submundo, exceto quando se põe a sussurrar. Talvez ele pense que isso torna a personagem mais assustadora mas, na verdade, apenas o torna irritante. A sua aptência por decadência e degradação faz sentido, tendo em conta que ele é, de certa forma, o Senhor da Morte. No entanto, não é fornecida mais nenhuma explicação. As suas motivações são as típicas dos vilões de Once Upon a Time - sem sequer uma história de origem satisfatória, tirando um ressentimento ao irmão Zeus. Este congelou o coração de Hades e confinou-o ao Submundo. Não será agradável, é certo, mas nada nos garante que Hades não o tenha merecido.

 

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A única altura em que Hades revela um mínimo de profundidade é no seu relacionamento com Zelena. Aí admito, o Senhor do Submundo é adorável quando está apaixonado. Achei particularmente tocante, de uma forma retorcida, o facto de ter criado o Submundo à imagem de Storybrooke, como forma de consolar Zelena por Rumple não a ter escolhido para lançar a Maldição. Existem, no entanto, alturas em que não se percebe se Hades está mesmo apaixonado por Zelena ou se está apaixonado pela ideia de estar apaixonado - visto que ele precisa do beijo do verdadeiro amor para se libertar das maldições de Zeus.

 

Zelena foi, aliás, uma das melhores personagens desta meia temporada. A Verdocas ganhou finalmente algum desenvolvimento quase um ano depois do seu bombástico regresso à série. Tal deveu-se tanto à filha recém-nascida (à boa moda de Once Upon a Time) e ao romance com Hades, como à relação com a irmã, Regina. Depois de Hades a ter arrastado, bem como à bebé e a Belle, para o Submundo, Zelena vira-se para Regina e Robin, confiando-lhes a filha e comprometendo-se a tentar torna-se a mãe de que esta precisa. Eventualmente, as duas irmãs vão se aproximando a pouco e pouco. O Senhor do Submundo, no entanto, revela-lhe que não deseja magoar, nem Zelena nem a sua filha. Pelo contrário, deseja reatar o romance com a Verdocas. Esta acaba-se por se sentir dividida entre ele e a irmã, que procura desesperadamente uma maneira de vencer Hades e de sair do Submundo. 

 

Entretanto, Regina recorre a Cora, a mãe de ambas, para tentar proteger Zelena de Hades. Cora sendo Cora, mesmo com boas intenções, recorre inicialmente à manipulação - desta feita para tentar fazer a filha mais velha esquecer o Senhor do Submundo. Quando isso não resulta, Cora acaba por recorrer a memórias que suprimira às filhas.

 

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Aproveito a ocasião para comentar que o modelo dos flashbacks de Once Upon a Time está a ficar obsoleto. Em metade dos casos não acrescenta praticamente nada de relevante à história e/ou à caracterização do elenco. Este caso é particularmente flagrante pois aliam os flashbacks a outro frequente plot device da série: alterações de memórias. Basicamente, enfiaram a martelo uns flashbacks da infância de Regina e Zelena, em que estas se teriam encontrado e feito amizade, antes de Cora as obrigar a beber uma poção de memória que as fez esquecerem-se uma à outra. Assim, bastou a Cora reverter o efeito da poção para Regina e Zelena se tornarem imediatamente amigas do peito. Um truque óbvio e barato, quando existiam maneiras mais genuínas de estabelecer uma amizade entre as duas irmãs.

 

Em todo o caso, estes eventos sempre permitiram a Cora fazer as pazes com ambas as filhas, redimindo-se de certa forma e conseguindo partir para a Luz. Provavelmente sob o efeito das emoções todas, Regina resolve dar uma oportunidade a Hades e Zelena. Antes de se encontrar com o Senhor do Submundo, contudo, Rumple e Peter Pan raptam a Bruxinha Verde, usando-a para obrigar Hades a rasgar o contrato que lhe dá direitos sobre o filho do Dark One. Hades alia-se aos heróis para salvar a amada, dando-lhes em troca passagem para fora do Submundo. Depois de resolvido o problema de Rumple (não foi muito difícil...), Zelena e Hades dão o beijo do verdadeiro amor (na minha opinião, não devia ter resultado) e vão para Storybrooke - Hades tenta reter o resto dos heróis no Submundo nas costas de Zelena. Estes escapam por pouco.

 

Por esta altura, percebe-se que Hades não se contenta com a simples vida doméstica que Zelena deseja para si e para a filha. À boa maneira dos vilões de Once Upon a Time, ele quer tudo e qué-lo agora. Zelena, não querendo acreditar que Hades lhe está a mentir, acaba por entrar em conflito com a irmã e com os outros heróis. No meio dos confrontos, Hades acaba por recorrer ao Cristal Olímpico para eliminar Robin - não se limita a matá-lo, oblitera mesmo a sua alma, de modo a que não haja nem Céu, nem Inferno, nem Submundo para ele. Só aí é que Zelena se apercebe da verdadeira natureza de Hades e recorre ao Cristal Olímpico para matá-lo.

 

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Esta morte de Robin é um dos aspetos que mais critico nesta meia temporada. Não que gostasse por aí além dele - pelo contrário, nunca teve nenhum interesse especial para além de ser o objeto romântico de Regina e é precisamente por isso que a morte dele me desagradou. Robin nunca teve direito a mais desenvolvimento para além de ser o típico ladrão honrado e a segunda hipótese de Regina no amor. Praticamente tudo o que lhe acontece na série - apaixonar-se, recuperar a esposa falecida, descobrir que essa esposa era, afinal, Zelena sob disfarce e que esta espera um filho seu, quase morrer no início da quinta temporada e, finalmente, morrer no fim desta - serviu para caracterizar Regina e não a ele. Se Robin fosse uma mulher e Regina um homem, choveriam de imediato críticas à série. Não vou deixar de criticar só porque agora reverteram os papéis, não quando aquilo deviam ter caracterizado os dois elementos do casal devidamente, em vez de reduzir um deles a plot device.

 

Um dos objetivos da morte de Robin foi precisamente despoletar a 582ª crise existencial de Regina na série, na qual esta hesita entre o heroísmo e a vilania. Esta foi uma das tramas principais do episódio duplo de final de temporada. Desta feita não houve viagem no tempo nem a uma realidade alternativa. Em vez disso, temos uma viagem a Nova Iorque atrás de Henry, que rouba o Cristal Olímpico, pega em Violet e foge para a Big Apple para tentar erradicar a magia. Por sua vez, os Charmings, Zelena e Hook caem num portal (outra vez), indo parar a um novo reino, onde são feitos prisioneiros.

 

Na minha opinião, este foi o final de temporada mais fraquinho desde o da segunda. Em parte pela comparação com os finais anteriores, de que eu gostei muito, admito. Mas também achei que as tramas foram pouco interessantes. Considero mais ou menos compreensível que Henry quisesse erradicar a magia, depois de todos os sarilhos em que a sua família se meteu ao longo das temporadas por causa dela. É claro que, depois de passar das intenções aos atos, se iria arrepender ao descobrir que eliminara a única maneira de resgatar metade da sua família. Como é que se resolve este imbróglio? Henry sobe para um muro, pede às pessoas para acreditarem em magia e que atirem moedas para um repuxo, desejando que ele recupere a família. As pessoas obedecem e puff! Fez-se o Chocapic!

 

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Para além de ser um gritante deus ex-machina, achei esta cena demasiado lamechas (e os fãs de Once Upon a Time, por norma, têm uma elevada tolerância a lamechice). Se alguém fizesse o que Henry fez na vida real, as pessoas rir-se-iam a cara dele, vaiavam-no ou, pura e simplesmente, ignoravam-no. Por outro lado, mesmo que resultasse e os Charmings, Hook e Zelena surgissem magicamente do repuxo... estamos em 2016, há smartphones em todo o lado. É mais do que certo que alguém filmaria a cena e colocaria no YouTube, arriscando a exposição de Storybrooke e dos seus habitantes. Ainda estou à espera das consequências desta jogada de Henry, mas o mais certo é os guionistas terem passado à frente assim que o problema do resgate dos heróis ficou resolvido.

 

Decobrimos, entretanto, que o reino onde os Charmings, Hook e Zelena ficam retidos chama-se Terra das Histórias por Contar. As primeiras personagens que conhecemos nesse mundo são Dr. Jekill e Mr. Hyde. Confesso que sei porquíssimo sobre essa história, tirando a premissa inicial (em pequena, costumava ver um episódio do Looney Tunes baseado nesse conto que me assustava imenso). São, aliás, esses dois que inspiram a decisão seguinte de Regina.

 

Depois de termos passado quase todo o episódio duplo a ver se Regina caía de novo na vilania ou não (se caísse, eu ia dar um berro), perto do fim Regina decide tomar o soro do Dr. Jekill de modo a arrancar o seu lado negro feito carne e a matá-lo. Aparentemente consegue, mas, nos minutos finais, descobrimos que esse lado negro personificado, a Evil Queen pura e dura, sem pingo de humanidade, sobreviveu e tenciona ripostar.

  

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É bastante óbvio que este desenvolvimento é a maneira de os guionistas, como se diz em inglês "have their cake and eating it too", ou seja ter duas boas situações que, por norma, se excluiriam uma à outra. Depois de anos e anos consolidando Regina como uma heroína, ela não podia reverter para os seus modos vilanescos. No entanto, também é óbvio que os guionistas adoram a Evil Queen (embora, na minha opinião, esta tenha começado a roçar a caricatura nos últimos tempos) e a teta dos flashbacks já começa a secar. Com esta solução toda a gente ganha. Ficou claro desde início que pura e simplesmente erradicar o seu lado negro era uma solução demasiado fácil. Daí que não tenha sido uma grande surpresa descobrir que a Evil Queen continua viva. Toda a gente sabe, de certa forma, que mais cedo ou mais tarde Regina descobrirá que o seu lado bom e o seu lado sombrio não têm fronteiras definidas, que um não existe sem o outro, que ela não pode, pura e simplesmente, apagar todas as atrocidades que cometeu ao longo dos anos. Tudo isto, por um lado, é redundante, como dei a entender acima. Por outro, uma parte de mim anseia ver o que irá a Evil Queen tramar.

 

Não será só com ela que os heróis se virão a braços na sexta temporada: também com uma data de personagens da Terra das Histórias Por Contar, trazidas para Storybrooke por Mr Hyde - depois de uma negociata com Rumple, em troca de uma solução para a maldição de Belle. A sexta temporada terá, deste modo, uma estrutura semelhante à primeira. Cada episódio focar-se-á numa história diferente (algumas das quais fugindo ao cânone habitual dos contos de fadas, como o Conde de Montecristo, Simbad, o Marinheiro, Vinte Mil Léguas Submarinas, entre outras), de pequena escala, com maior envolvimento do elenco secundário, muitas vezes negligenciado nas últimas temporadas, como Dr. Archie, Dr. Whale, Cinderela e o marido. E, ao contrário dos últimos anos, este arco deverá durar a temporada inteira.

 

Talvez esta mudança de paradigma seja boa para combater o desgaste que senti nesta meia temporada. No entanto, o primeiro episódio já foi exibido e este não me entusiasmou - pelo contrário, a sensação de desgaste saiu reforçada, pelo menos no que toca a Emma... mas vou guardar as minhas opiniões sobre isso para outra ocasião. Já que em princípio, este arco narrativo durará a temporada toda, só deverei escrever sobre ela quando esta terminar. Por outro lado, agora que tenho uma página no Facebook, talvez vá fazendo mini-análises semanais após a exibição americana de cada episódio.

 

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A verdade é que, depois do Europeu, vários dos meus interesses mudaram e tenho-me sentido farta de séries em geral. Não ajuda o facto de o nível ter sido fraco... outra vez. Arrow continua a insistir nos mesmos erros da terceira temporada, de tal modo que, em princípio, não vou voltar para a quinta temporada - a menos que as críticas sejam muito boas. Legends of Tomorrow teve os seus momentos, mas desisti mais ou menos a meio. Ainda posso retomar, mas é pouco provável. Com tanto filme de super-heróis a saírem, cada um com infinitas campanhas de marketing, ando saturada - apesar de só ter seguido duas séries centradas neles e, no que toca aos filmes, só ter visto o Deadpool. 

 

The Good Wife até começou mais ou menos bem, mas acabou por se arrastar até ao final, nunca conseguindo sair da mediocridade. Considerei particularmente insultuoso que uma série que sempre se destacou pela maneira exemplar como tratava as personagens femininas, quebrando estereótipos, tenha terminado com uma mulher agredindo outra por causa dos respetivos maridos - e eu gostava tanto de Kurt e Diane como casal!

 

Ironicamente, tendo em conta o que escrevi no ano passado, acabei por gostar mais de ver Anatomia de Grey, ainda que como mero entretenimento apenas é ainda que os defeitos continuem lá todos (drama só porque sim, ninguém naquele elenco sabe lidar com as coisas como pessoas normais, sobretudo a protagonista, de quem gosto cada vez menos). Por outro lado, durante os últimos tempos, a única série que me tem apetecido ver é Last Man Standing/Um Homem Entre Mulheres, na FOX Comedy: uma sitcom que está longe de ser brilhante em termos de enredo e caracterização, mas que ao menos entretém-me e faz-me rir. 

 

 

  

Apesar de todas as minhas críticas, Once Upon a Time é, neste momento, a única série que representa mais do que um entretenimento para mim, mesmo que o meu entusiasmo esteja em mínimos históricos. Mal por mal, os pontos fortes mantém-se: um elenco subvalorizado, personagens femininas bem construídas, celebração do amor em todas as suas formas, temas de esperança e redenção. E embora uma parte de mim deseje que a sexta temporada seja a última, sei que vou ter saudades de Once Upon a Time quando esta terminar de vez. 

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