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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna #3

Terceira e última parte da análise a Kizuna. Podem ser as partes anteriores aqui e aqui.

 

1) Spoilers: esta análise vai discutir extensamente os eventos do filme Digimon Last Evolution Kizuna e poderá também revelar detalhes dos enredos das três temporadas do universo de Adventure (Aventure, 02 e Tri). Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios de Digimon têm traduções controversas – na língua portuguesa têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Conforme tinha dito que faria quando terminei as análises a Tri, para esta análise vou usar os nomes japoneses.

 

Esta agora vai doer. 

 

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Como disse antes, fiquei à espera de uma solução milagrosa para a contagem decrescente até ao último minuto. Recusava-me, uma parte de mim ainda se recusa, a aceitar aquele destino. E, em minha defesa, temos o epílogo de 02 na equação, mas falamos sobre isso mais tarde.

 

Para já, Taichi e Yamato levam separadamente os respectivos Digimon a ver a vista, à hora do pôr-do-sol, quando a contagem decrescente está quase no zero. Yamato comprou, inclusivamente, uma harmónica para a ocasião – gosto de pensar que Taichi e Agumon o ouviram tocar, mesmo à distância.

 

Finalmente, Agumon e Gabumon perguntam aos parceiros o que vão fazer no dia seguinte. Taichi e Yamato olham para o horizonte, pensando na questão. Vemos duas borboletas voando em direção às nuvens. Quando os dois rapazes – os dois homens – estão preparados para responder e olham para o lado, Agumon e Gabumon já não estão lá. Os dispositivos digitais apodrecem. As mãos que os seguiram tremem e lágrimas caem nos dispositivos. 

 

Éramos três a chorar. 

 

Ainda há tempo para umas últimas imagens de Taichi e Yamato, vários meses mais tarde – como as cerejeiras estão em flor, é capaz de ser a primavera seguinte. Parecem satisfeitos. É um alívio, este final já é suficientemente triste. Já viram como seria se a última imagem que tivesse de heróis que conheço e adoro há duas décadas fosse deles soluçando (de forma bem audível) sobre os seus dispositivos?

 

Os créditos finais incluem imagens de cada um dos doze protagonistas do universo de Adventure nas respectivas vidas e carreiras. De notar que os da geração de 02 (incluindo Takeru e Hikari) aparecem nas fotografias com os seus Digimon, mas os mais velhos não. A última imagem é a da tese de Taichi, sobre a relação entre a Humanidade e os Digimon.

 

Não que sirva de grande consolo para mim. Pelo menos não de início.

 

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Bom trabalho, digiguionistas. Kizuna é oficialmente o trabalho ficcional que mais me arrasou emocionalmente. Ainda mais que Kokuhaku e Kyousei na altura em que saíram. Este final fez-me chorar e, como já disse várias vezes aqui no blogue, eu não choro facilmente com estas coisas. 

 

Uma asneira que cometi foi ter visto este filme quando não estava ninguém em casa, nem sequer a minha cadela. Eu escolhi essa altura de propósito, para poder ver o filme em paz, sem interrupções. Mas quando Kizuna terminou desta forma, não tinha ninguém que me consolasse. Foi sobretudo nessa altura que me arrependi de não ter esperado para ver nos cinemas, quiçá com outros fãs de Digimon. Não teria de chorar sozinha. 

 

Isso ou, pura e simplesmente, tinha saudades do pessoal que costuma vir ao Odaiba Memorial Day. Ainda tenho. Maldita pandemia…

 

Hoje, mais a frio, não sei se ia querer chorar em público. Talvez não fosse assim tão mau se não fosse a única em lágrimas (e acho que não seria). Ainda assim, eu aconselharia as pessoas a não assistirem a Kizuna sozinhas e a terem lencinhos por perto. E uma bebida.

 

Estive semanas sem coragem para ver o filme segunda vez, para escrever este texto. Se não fosse Adventure 2020, teria cortado com tudo a ver com Digimon – era demasiado doloroso. Deixei de querer ouvir música de Digimon, deixei de querer pensar, tanto em Adventure como em Tamers ou mesmo Frontier. 

 

Talvez esta tenha sido uma reação exagerada a algo que não é real, pelo menos no sentido mais rigoroso da palavra. Adaptando uma frase de Chandler, estava a chorar porque deixaram de desenhar o Agumon e o Gabumon. Mas, pelas Bestas Sagradas, como me tenho fartado de dizer aqui, são duas décadas com este elenco! Mesmo tendo passado dez anos afastada de Digimon enquanto franquia, esse laço não se quebrou. São o meu elenco ficcional preferido!

 

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Não digo que ver (e ouvir) Taichi e Yamato chorando sobre os restos mortais dos seus dispositivos tenha sido a pior coisa que me aconteceu na vida. Claro que não. Nem sequer foi a pior coisa que me aconteceu no ano. Mas no ano da desgraça de 2020 não precisava mais desta!

 

Só recentemente é que me sinto a voltar ao normal. De uma maneira retorcida, o facto de neste momento estar a decorrer o reboot de Digimon Adventure, que me “obriga” a ver um episódio novo todos os domingos de manhã e a escrever uma breve crítica para a página do Facebook pode ter-me ajudado a ultrapassar esta má fase mais depressa. 

 

Escrever esta análise também ajudou. Costuma ajudar.

 

Temos  então de falar da velhíssima questão do epílogo de 02, em que os Digimon estão todos vivos e de boa saúde, em que, aliás, “toda a gente tem um Digimon”. O que contraria o final de Kizuna, e mesmo a regra definida pelo filme, que dita que nenhum adulto funcional pode ser um Escolhido. 

 

Nesta altura do campeonato, fica claro que a Toei há muito se arrependeu do epílogo. Em 2001 incluíram-no porque queriam colocar um ponto final na história deste universo. Queriam criar outros universos, com regras diferentes. Não imaginavam, se calhar, que o universo de Adventure viesse a ganhar tanta popularidade, que quereriam continuar a ordenhar dessa teta quinze, vinte anos depois. Mas agora as sequelas tinham de se encaixar no epílogo que criaram. 

 

Ou pelo menos deviam.

 

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Do que tenho lido por aí, quase toda a gente considera que o epílogo de 02 continua a ser válido. Um dos produtores do filme confirmou-o, mais ou menos, em entrevista. Eu mesma tenho-o interiorizado, sendo essa uma das razões para hoje me sentir menos triste com o final de Kizuna. Eles hão de recuperar os seus Digimon algures nos dezassete anos seguintes.

 

O que, no entanto, traz consigo as suas questões. Nomeadamente, como é que isso vai acontecer. Talvez Koshiro arranje uma maneira de travar o processo, mesmo revertê-lo – talvez ainda antes sequer de as contagens decrescentes de Joe, Mimi e os outros chegarem a zero, evitando que Gomamon, Palmon e os outros desapareçam. Ou então, talvez só os consigam recuperar anos mais tarde. 

 

Gosto de uma teoria na Internet que defende que, seguindo a lógica de que os Digimon representam a infância, os Escolhidos recuperarão os seus companheiros quando forem pais. Todos nós temos de crescer e tal, mas quando temos filhos e brincamos com eles, a nossa criança interior desperta de novo. Aí, os Digimon regressariam.

 

Pelo menos explicava porque é que cada um dos doze Escolhidos resolveu reproduzir-se. Já estou a imaginar a Sora:

 

– O que estás a dizer, Miyako? O Wormon e o Hawkmon voltaram quando a vossa filha nasceu? Também quero! Hei Yamato, faz-me um filho!

 

Ainda assim, mesmo que seja uma questão de tempo até Taichi e os outros Escolhidos recuperarem os seus Digimon… não deixa de ser cruel, estarem constantemente a tirar-lhes os Digimon, para depois os devolverem, para depois lhos tirarem outra vez. Kokuhaku já fora suficientemente duro. Havia necessidade de estar a sujeitar, tanto o elenco como a nós, na audiência, à mesma perda vezes e vezes sem conta?

 

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Iremos alguma vez saber as respostas a estas perguntas? Com outro filme, um CD drama, qualquer coisa? Infelizmente duvido que tão cedo a Toei vá por aí – se alguma vez for. Agora está a explorar o efeito Adventure de maneira diferente, com o reboot. Se quiserem fazer alguma coisa com este universo, com este elenco, fá-lo-ão na Adventure nova. 

 

É possível que nunca venhamos a ter a certeza. 

 

Achava eu que o elenco de Tamers era o menos afortunado, com aquela despedida traumática. Agora já não sei quem teve a pior sorte. Ao menos Takato, Ruki e os outros sabem que os seus Digimon estão vivos (ainda que nada seja garantido naquela versão distópica do Mundo Digital) e que a probabilidade de se reencontrarem não é zero. 

 

Já me garantiram, sem dar spoilers, que existem universos no anime em que as personagens têm companheiros Digimon e continuam com eles no fim. A minha sanidade mental agradece. 

 

Mas basta de lamúrias – pelo menos por agora. Kizuna pode ter um final doloroso, o que não é sinónimo de um final mau. Toda a narrativa do filme foi construída de forma sólida conduzindo a este desfecho. O tom sério e melancólico, o facto de mostrarem as dificuldades de ser um Escolhido enquanto adulto, a ideia subjacente em cada diálogo de que “as coisas não podem ficar para sempre na mesma”. 

 

Se Kizuna tivesse arranjado uma solução milagrosa à última hora, uma maneira caída do céu de Agumon e Gabumon sobreviverem, eu teria poupado muitas lágrimas, mas respeitaria muito menos o filme. Seria uma cobardia. 

 

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Porque Kizuna em si, no geral, está muito bem feito. É certo que é mais fácil ser-se consistente com um filme de noventa minutos, com apenas dois protagonistas – uma temporada com cinquenta ou sessenta episódios de vinte minutos com um elenco alargado ou uma série de seis filmes são muito mais complicados. Mas não deixa de ser um feito. 

 

Especificando um pouco mais, gosto da animação, do estilo do desenho – mais do que do de Tri. O filme pode só ter dois protagonistas, mas gostei que os outros dez Escolhidos tivessem todos aparecido, mesmo outros fora do grupo. Acho que foram bem utilizados.

 

Bem, com uma única exceção. Sora. É a única falha que tenho a apontar a Kizuna, mas é uma falha grande. Preparem-se, vem aí “rant”, como dizem os anglo-saxónicos. 

 

Já falámos sobre a curta-metragem focada nela, que justifica a sua ausência da larga maioria do filme: ela quer descobrir quem é fora da vida de Escolhida. Dentro do universo é uma razão perfeitamente legítima para ter ficado no banco, em Kizuna, e é um desenvolvimento interessante para a personagem.

 

A razão em termos de meta, por sua vez, é muito diferente. Sintam só isto: Sora aparece em Kizuna durante um total inferior a cinco minutos porque os digi-guionistas acharam que os fãs quereriam saber o que se passava entre ela e Taichi e Yamato.

 

 

Isto era literalmente a última coisa que queria que fizessem com Sora – recordo, a minha personagem preferida do universo de Adventure. Reduzirem-na ao papel de interesse romântico, assumirem que a audiência só quer saber dela como pretendente de Taichi ou Yamato. É insultuoso em tantos mas tantos níveis!

 

Eu, por um lado, compreendo em parte a posição deles. 02 emparelhou-a com Yamato, o epílogo oficializou-os ainda que não preto no branco, é claro que as pessoas iam fazer perguntas. 

 

No entanto, na minha opinião, existiam alternativas bem melhores. Deixarem a situação ambígua, como em Tri. Na minha opinião, não funcionou mal – tirando em Soshitsu, em que o esforço dos digiguionistas para não favorecerem nenhum dos rapazes ganhou contornos ridículos. Ou então, opinião impopular: confirmem de passagem que sim, Sora e Yamato namoram e Taichi está feliz por eles! Ninguém morreria por isso!

 

A entrevista com esta infame declaração surgiu na internet algures em maio do ano passado, vários meses antes de conseguir deitar as mãos a Kizuna. Na altura discuti com outros fãs no Twitter e houve quem ficasse do lado dos digiguionistas. Se não se achavam capazes de explorar essa faceta da história, diziam eles, talvez fosse melhor excluir Sora do filme.

 

Admito que, na altura, até me deixei convencer um bocadinho. Mas depois de ver Kizuna, depois de conhecer o reduzido papel de Sora nos eventos do filme, voltei atrás. Peço desculpa, mas isto foi cruel. 

 

Em Kizuna, Sora está a passar exatamente pelo mesmo que Taichi e Yamato: com uma contagem decrescente no seu dispositivo digital, prestes a perder a Piyomon. Parece que o dispositivo com uma única barra que aparece muito brevemente durante os créditos iniciais é dela. 

 

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No entanto, com Taichi e Yamato vemos o processo todo, praticamente todas as fases do luto, as lágrimas em primeiro plano, os soluços bem audíveis. Com Sora temos apenas uns vislumbres curtíssimos, uma breve cena dela com Piyomon nos braços, outras cenas igualmente breves dela já sozinha, com os restos mortais do seu dispositivo. Não sabemos sequer se alguém lhe explicou o que ia acontecer, porque ia acontecer. 

 

O mais triste de tudo? Sora sendo Sora arranja forças dentro de si mesma para deixar a sua dor de lado e torcer à distância pelos amigos, que estão a lutar na Terra do Nunca. Eles não merecem Sora, ninguém merece.

 

Lembram-se de quando Sora se queixou, em Soshitsu, de que ela se preocupa com toda a gente mas, quando é Sora quem precisa, ninguém se preocupa com ela? Não que fosse cem por cento verdade, mas agora Kizuna faz-lhe exatamente isso. A sua dor não é relevante. Tudo isto porque os digiguionistas acharam que a audiência ia dizer algo tipo:

 

– Sim Sora, perderes a Piyomon é muito triste, mas como vai a tua vida amorosa?

 

Torno a repetir, é uma crueldade. Sora merecia muito melhor. E infelizmente não é a primeira vez que Sora é negligenciada em comparação com outras personagens, no universo de Adventure.

 

Dito isto… não sei o que faria diferente. Mal por mal, gosto muito da curta-metragem de Sora, tal como escrevi acima. Mantendo a curta, Sora teria de continuar afastada da maior parte dos eventos de Kizuna, não poderia estar entre as vítimas de Eosmon. Pô-la como terceira protagonista, ao lado de Taichi e Yamato, também não bateria certo. 

 

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Para mim o ideal teria sido manter Sora fora do epicentro de Kizuna, mas deixá-la conversar com Taichi e/ou Yamato durante o segundo acto, mesmo que fosse apenas por telefone. Talvez ela oferecesse uma perspetiva diferente ao conflito emocional. Ela que, como vimos, quis deixar de ser Escolhida, deseja crescer. Talvez ela aceitasse melhor a perda da sua companheira, quando comparada com os amigos: porque na prática já não tem espaço na sua vida para os Digimon e, lá está, as coisas não podem ficar para sempre na mesma. 

 

Mas seria difícil encaixar essa conversa se tivessem de cumprir o limite dos noventa minutos. Não sei o que cortaria para incluir esta cena. 

 

Além disso, quero acreditar que, lá porque a narrativa de Kizuna ignorou o sofrimento de Sora, isso não quer dizer que o resto do elenco faça o mesmo fora dos ecrãs. Estou certa de que pelo menos Mimi não deixará Sora a chorar sozinha. 

 

Tenho, aliás, um headcannon para as primeiras horas depois de Agumon e Gabumon desaparecerem. Taichi vai passar a noite a casa dos pais, para ser consolado por eles e por Hikari. Por sua vez, Yamato vai ter com Sora e, ao consolarem-se um ao outro, uma coisa há de levar à outra e começam a namorar outra vez. 

 

Mudando de assunto, queria falar sobre as curtas-metragens que foram lançadas após uma campanha de crowdfunding e que detalham histórias sobre os Escolhidos e/ou os seus Digimon que não couberam em Kizuna. Já falámos sobre as duas primeiras. Tirando a que se centrou em Sora, estas curtas só apareceram na Internet há poucas semanas.

 

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A vantagem de ter demorado eternidades a escrever esta análise é ter apanhado este “lançamento” tardio. Agora posso incluir notas sobre essas curtas neste texto.

 

Estas pequenas histórias têm tons bastante diferentes entre si. Algumas são mais sérias e emotivas, algumas são mais parvas, no melhor sentido da palavra. Algumas são uma mistura de ambos. 

 

Uma dessas é a que se foca em Joe. Gomamon está preocupado porque o seu parceiro em miúdo não gostava de ver sangue. No entanto, agora está em Medicina, ou seja, há de ver sangue todos os dias ou quase.

 

O que não é necessariamente verdade. Existem especialidades em que não se vê muito sangue. Psiquiatria, por exemplo, oftalmologia (a menos que se fizessem cirurgias e mesmo assim), anatomia patológica (mortos não sangram), investigação…

 

Em todo o caso, em vez de fazer o que qualquer pessoa ou Digimon com dois dedos de testa fariam – falar com Joe – Gomamon arrasta Agumon para fazerem um teste. Mete ketchup. Tudo muito caricato e tal… até ao momento em que Gomamon leva com um camião em cima. 

 

Falta de juízo dá nisto. E aparentemente os Digimon sangram. As coisas que se aprende…

 

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No fim, Agumon continua na rua, coberto de ketchup, esquecido por todos. Eu pagava para ver a cara de Taichi quando encontrasse o seu Digimon naquela figura.

 

Noutra curta, que decorre no Mundo Digital, Palmon e Piyomon invejam Silphymon. Como Silphymon se consegue formar sem a intervenção de Hikari e Miyako só as Bestas Sagradas saberão. Palmon e Piyomon tentam fazer a sua própria digievolução ADN. Traduzindo à letra uma expressão anglo-saxónica, segue-se hilaridade. 

 

Aposto que, quando V-mon as viu naquela fatiota, no fim da curta, sentiu pela primeira vez que não era o companheiro Digimon mais totó do universo de Adventure.

 

Por falar em totó, a última curta diz respeito à épica história de Pumpmon e Gotsumon. Sim, os dois Digimon que supostamente o Vandemon tinha assassinado. Pelos vistos fora tudo a fingir. 

 

Das duas uma: ou os dois ressuscitaram com o Reinício, em Tri, e agora estão a armar-se ou Gabumon e V-mon estavam bêbados e imaginaram a história toda. 

 

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Mudando outra vez de assunto, queria falar sobre Digimon Adventure Tri Super Evolution Stage (qualquer coisa como Palco da Super Digievolução). Esta foi uma peça de teatro que decorreu em Tóquio entre 5 e 13 de agosto de 2017, entre as estreias de Soshitsu e Kyousei. Em finais de 2017, a filmagem da peça apareceu na Internet. Na altura, não achei que se justificasse escrever sobre ela aqui no blogue, mas deixei algumas impressões na página do Facebook.

 

Esta peça decorre algures durante os eventos de Tri, mas não se consegue perceber ao certo quando. Não que importe muito, pois, apesar de decorrer na mesma altura, é uma história independente da série. Não mete Meiko, nem Meicoomon, nem Maki, nem Daigo. Apenas os oito Escolhidos de Adventure e… Etemon. É, aliás – alerta spoiler – uma daquelas histórias em que, no fim, se descobre que foi tudo um sonho.

 

Em todo o caso, na peça – no sonho – os oito dão por si presos numa realidade alternativa onde é para sempre dia 1 de agosto de 1999. Isto porque, lá está, os miúdos consideram que os eventos de Adventure foram o pico da vida deles e estão cheios de medo de crescer.

 

Parece-vos familiar?

 

Curiosamente, a história pinta Joe como o exemplo a seguir. Neste sonho ele não está com dificuldades na escola (é de partir o coração quando regressa à realidade) e está determinado em ir para Medicina. Sabe o que quer ser quando for grande e quer lutar por isso. Não apesar das suas aventuras no Mundo Digital mas graças a elas. 

 

Gostei muito desta peça, recomendo-a. Como já terão concluído, entra em territórios semelhantes a Kizuna. Gosto mais da mensagem final da peça. Para começar, os Escolhidos não têm de se separar dos seus Digimon no fim, mas também pela lição de usar o melhor da infância como base para a vida adulta. 

 

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Já que se fala de crescimento, e como esse é um dos temas de Kizuna, uma coisa que me tem feito confusão diz respeito às mensagens contraditórias. Já vinha de Tri. Tanto esses filmes como Kizuna tentam desmontar o conceito de nostalgia, de saudades de tempos que já foram – neste caso, as primeiras temporadas, Adventure e 02, as infâncias do elenco. Em Tri, conhecemos três personagens cujas experiências enquanto Crianças Escolhidas foram menos idílicas que as dos nossos protagonistas. Em Kizuna, vemos as dificuldades de se ser Escolhido enquanto adulto e recordamos uma regra universal: nada dura para sempre. 

 

No entanto, ainda que Tri e Kizuna mostrem as limitações da nostalgia, esta continua a ser a principal razão de eles existirem. Eles não deixam de se aproveitar da nostalgia, o que tem o seu quê de hipócrita. Kizuna diz-nos para seguirmos em frente, mas a Toei não está a fazê-lo. Bem pelo contrário, poucas semanas após lançar Kizuna, estreou um reboot – ou, como gosto de chamar-lhe, “tábua rasa” – de Adventure. Reboot esse que vai a meio e, apesar de uma melhoria nos episódios mais recentes, parece não compreender aquilo que tornou Adventure tão especial, há duas décadas.

 

Em que é que ficamos, Toei? É para crescer ou não? É para deixar Adventure para trás, ou não?

 

E depois de tantas palavras sobre Kizuna, sobre a inevitável passagem do tempo, sobre a necessidade de seguir em frente e crescer, tenho uma opinião impopular: crescer não é assim tão mau. Crescer tem sido bom para mim. 

 

Não digo que seja necessariamente mais feliz ou que a minha vida seja mais fácil. Ainda assim, como alguém que cresceu um tudo nada demasiado protegida, uma das coisas de que mais gosto na idade adulta é de ter mais controlo sobre a minha vida e, no geral, ser melhor pessoa, mais confiante, responsável e desenrascada. Estou em constante crescimento, em constante (digi)evolução, e gosto mais de mim mesma enquanto adulta do que enquanto criança ou adolescente.

 

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E se tivesse de salvar o Mundo Digital, estaria mais habilitada para fazê-lo agora e não aos onze anos.

 

Eu compreendo que uma franquia dirigida a crianças teria, idealmente, um elenco da mesma idade que o seu público-alvo. Mesmo dentro do universo de Adventure, compreendo que Taichi e os amigos sintam que os seus melhores tempos tenham sido aos dez, onze anos – quando fizeram coisas que, se calhar, muitos adultos não seriam capazes, mas sem a autoconsciência de um adulto ou mesmo de um adolescente. Compreendo que tenham medo de crescer e cortar com essa vida.

 

No entanto, na minha opinião, os Escolhidos deviam orgulhar-se dos jovens adultos em que se transformaram – como eu me orgulho deles. Logo nos primeiros trailers, há pouco mais de um ano, ao ver o elenco na idade adulta, precisei de um momento. Como quem torna a ver um amigo de infância após muitos anos e se surpreende com as mudanças. Ou como quem reencontra um familiar que não via desde que este era criança, que descobre que este já está na faculdade ou que já está a trabalhar, e se orgulha do quão crescidos estão. 

 

Ainda agora sinto esse orgulho. Vendo Joe quase médico, Yamato e os seus “street-smarts”, como comentámos antes, Miyako estudando no estrangeiro, Koshiro com a sua empresa, Taichi mais perto de se tornar um embaixador do Mundo Digital – e admiro-o por ter ido por aí, mesmo depois de ter perdido Agumon. Eu não sei se seria capaz.

 

Todos eles são melhores versões de si mesmos. Em parte graças a aspetos mundanos do dia-a-dia, mas todos sabemos que foi sobretudo graças aos amigos e às suas experiências com os Digimon. O final da história deles pode não ser o mais feliz, pelo menos não por agora, mas aposto que nenhum dos Escolhidos, nenhum deles, lamenta ou se arrepende de ter embarcado nesta jornada.

 

E o mesmo se aplica a nós, na audiência. 

 

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Como referi acima, o final do filme é triste ao ponto de, da primeira vez que o vi, ter ficado com vontade de renegar tudo que fosse Digimon. Mas mesmo nessa altura, arrependida de ter começado a ver Adventure quando tinha dez ou onze anos? Nunca! Pelas recordações, pelo elenco inigualável, pelas fantasias de ser Criança Escolhida e visitar o Mundo Digital, pelos amigos que fizemos pelo caminho, pelos diretos no YouTube, as discussões no Twitter, os milhares de palavras no blogue, os encontros no Odaiba Memorial Day, pelos passeios na praia ao som de Hirari acústica. 

 

E vamos continuar, incluindo aqui no blogue – com Frontier. O plano é fazer o mesmo que fiz com Tamers. Ver pela primeira vez a versão original da temporada, sem stresses; ver de novo algum tempo depois, dobrada em português, desta feita já tomando notas para a análise. 

 

Pois bem, vi Frontier pela primeira vez no ano passado, quando Adventure 2020 estava em pausa. Como passei várias semanas à volta de Kizuna, agora preciso de uma pausa na escrita sobre Digimon. Assim, só devo ver Frontier pela segunda vez daqui a uns meses. Talvez o faça durante o verão, com o espírito do Odaiba Memorial Day.

 

Posso desde já adiantar, no entanto, que duvido que a análise seja tão longa como a de Tamers e mesmo que as de Adventure e 02. Frontier não convida a isso.

 

Falando a um prazo mais curto sobre os meus planos para este blogue – e deixando Digimon de lado por um momento – o meu próximo texto deverá ser sobre Flowers For Vases, o sucessor a Petals For Armor, que Hayley Williams lançou de surpresa na semana passada. Não vou começar a escrever já já sobre o álbum – preciso de passar mais algum tempo com as músicas. Mas em princípio não devo demorar tanto como demorei com o seu antecessor.

 

Adicionalmente, parece que Avril Lavigne tem um álbum novo prestes a sair do forno. Deverá editá-lo no verão, com o(s) primeiro(s) single(s) saindo daqui a dois ou três meses. No que toca a Avril, eu não conto os pintos até nascerem. Os álbuns dela têm sempre um parto difícil, não me surpreendia se houvesse algum adiamento. Também tenho esperanças de que Lorde decida a qualquer momento sair da sua toca e lançar o seu terceiro álbum.

 

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Como sempre, obrigada por lerem o meu testamento. Escrever sobre Digimon tem sempre aquele saborzinho especial. No caso deste texto em particular, escrevê-lo ajudou-me a lidar com todas as emoções em torno deste filme. Espero ter a oportunidade de ver Kizuna nos cinemas em breve, juntamente com outros fãs. Talvez até com dobragem portuguesa

 

Torno a repetir: zero arrependimentos no que toca a ter entrado em Digimon. Estamos todos melhores por cá estarmos. Despeço-me com a mensagem final de Kizuna: de uma maneira ou de outra, estaremos sempre juntos.  

Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna #1

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O filme Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna teve um parto difícil. As primeiras pistas apontando para este projeto surgiram ainda antes da estreia da última parte de Digimon Adventure Tri. Pouco depois soube-se que o realizador original do projeto, Hiroyuki Kakudo (que já tinha realizado Digimon Adventure e Digimon 02), alegadamente porque algo sobre o filme entrava em conflito com o que as séries anteriores haviam estabelecido.

 

Agora que já vi o filme, acho que sei do que é que ele estava a falar. 

 

Nas celebrações do Odaiba Memorial Day seguinte, conforme comentei na altura, foi revelado que o projeto consistia num filme cujos eventos decorreriam quando Taichi e Yamato têm vinte e dois anos. Ao longo do ano seguinte foram saindo mais pormenores sobre o filme. O desenho do elenco, por exemplo. No Odaiba Memorial Day de 2019 foi anunciado que os Escolhidos de 02 participariam no filme, após o cruel tratamento que receberam em Tri. A notícia saiu no dia do nosso encontro do Odaiba Memorial Day – o último que tivemos – e celebrámos adequadamente. 

 

A ideia do filme era assinalar os vinte anos de Digimon Adventure. Ainda assim, Kizuna só se estreou nos cinemas japoneses no início de 2020. Estava previsto estrear-se nos cinemas americanos mais ou menos na mesma altura, mas a pandemia boicotou (mais) esses planos. Mesmo digitalmente o filme só foi lançado vários meses depois, em setembro. 

 

Deste lado do Atlântico, o filme está previsto vir para os cinemas portugueses. Em que salas e em que moldes não se sabe ao certo. A primeira data avançada foi para novembro. Nós estávamos entusiasmados...  até a estreia ter sido adiada em finais de outubro, quando a pandemia se agravou. Chegaram a avançar outras datas, como 21 de janeiro e 18 de fevereiro. No entanto, com este novo confinamento, à hora desta publicação, não existe data marcada para a estreia. Mas estamos com esperanças de que, quando for possível, se marque de novo.

 

De qualquer forma, em inícios de novembro, cansei-me de esperar. Ainda quero ver o filme nos cinemas portugueses, quando for possível, mas já tinha passado tempo suficiente sem ver Kizuna. Por isso vi-o.

 

E arrependi-me amargamente. 

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Antes de começarmos, algumas notas:

 

1) Spoilers: esta análise vai discutir extensamente os eventos do filme Digimon Last Evolution Kizuna e poderá também revelar detalhes dos enredos das três temporadas do universo de Adventure (Aventure, 02 e Tri). Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios de Digimon têm traduções controversas – na língua portuguesa têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Conforme tinha dito que faria quando terminei as análises a Tri, para esta análise vou usar os nomes japoneses.



Adicionalmente, como o costume, tenho muito a escrever sobre este filme, por isso, esta análise virá em três partes. Esta é a primeira, vou tentar publicar a segunda amanhã e a terceira no dia a seguir. 

 

Queria também deixar algumas questões arrumadas antes de falarmos sobre Kizuna em si. Como referi acima, os primeiros anúncios relacionados com este filme saíram no dia em que Bokura no Mirai se estreou. Na altura, pensei que as minhas pontas soltas deixadas por Tri – quem era o Dark Gennai e o que lhe aconteceu, o que aconteceu a Maki, quem eram as outras primeiras Crianças Escolhidas, o que aconteceu ao Yggdrasil, quem era o Alphamon e o que é que lhe aconteceu, etc. 

 

Bem, Kizuna não aborda nada disso, é uma história independente. Decorre na mesma cronologia que Tri – os produtores tomaram o cuidado de confirmá-lo no ecrã, como veremos mais tarde – mas os eventos não têm nada a ver com essa série. Não é sequer necessário ter visto Tri para apreciar Kizuna.

 

O que foi uma decisão sensata – sobretudo tendo em conta as opiniões mistas em relação a Tri. 

 

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Eu mesma nunca mais voltei a ver os seis filmes desde que publiquei a minha análise a Bokura No Mirai. Tenho-me perguntado se agora, que já lá vão dois anos e meio, se a minha opinião será tão favorável como foi na altura. 

 

Um dia hei de rever Tri. Um dia hei de rever todo o universo de Adventure: os filmes, a primeira temporada, 02, Tri. Mas esse dia ainda vem longe. Não tenho assim tanto tempo livre e, quando o tenho, prefiro ver temporadas de Digimon que nunca vi antes. 

 

Enfim. Chega de delongas. Vamos a Kizuna. 

 

Depois de uma mensagem algo críptica sobre aceitar o futuro e isto ser uma nova aventura dos Escolhidos e dos seus Digimon, Kizuna começa com notas familiares. Literalmente: ouve-se o tema Bolero, de Ravel – recorrente em Adventure, sobretudo nos filmes – enquanto mostra imagens de uma aurora nos céus, algo que não devia ocorrer longe dos pólos. 

 

A ação de Kizuna decorre em 2010, se bem que um 2010 um pouco mais avançado tecnologicamente. Em Kizuna, o uso do smartphone está mais vulgarizado que na altura equivalente na vida real. Consta que os japoneses demoraram mais alguns anos a adotá-lo – mesmo entre nós, portugueses, foi mais a partir de 2012, 2013, certo? Os digiguionistas explicaram em entrevista que, no universo de Adventure, o contacto com o Mundo Digital permitiu à humanidade avançar um pouco mais depressa no que toca a tecnologia. 

 

Sempre explica porque é que em Tri, aparentemente, já existem mensagens de grupo e emojis nos telemóveis. 

 

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Nos anos entre os eventos de Tri e de Kizuna, Koshiro arranjou maneira de integrar as funcionalidades dos dispositivos digitais em smartphones. O que faz sentido em termos práticos, mas eu não gosto muito. Acho demasiado… mundano.

 

É claro que sou enviesada pois os dispositivos originais de Adventure têm valor sentimental para mim, à semelhança dos cartões. Mas também, no que toca a este filme, o sentimentalismo só serviu para dar cabo de mim. 

 

E estou a adiantar-me. 

 

Da primeira vez que vemos os Escolhidos, estes estão a ter um dia normal no escritório – o status quo que será, mais tarde, perturbado. Um Parrotmon (óbvio piscar de olhos ao primeiro filme de Adventure é óbvio) materializa-se no Mundo Real (deveria escrever “realiza-se”, como em Tamers? Isto no fundo é um “selvagem”) e os Escolhidos têm de lidar com ele, encaminhá-lo de volta ao Mundo Digital. O Parrotmon ainda faz uns quantos estragos – espero que as companhias de seguros neste universo já tenham apólices para danos provcados por Digimon.

 

Taichi, Hikari e Takeru acorrem ao local, sob a orientação de Koshiro, através do seu escritório. Yamato chega um pouco depois, de mota. O último entra logo com uma picardia a Taichi, que paga na mesma moeda – de outra forma, não saberíamos que eram eles. Koshiro orienta-os à distância, a partir do seu escritório. 

 

Ao contrário do que aconteceu em Tri, para esta cena, Kizuna recria as sequências de digievolução de Adventure, só que com animação contemporânea. Temos também uma nova versão de Brave Heart – à semelhança das sequências de digievolução, em vez de procurar um carácter próprio, esta é uma versão mais eletrónica do tema original.

 

 

Não que isso seja exatamente uma falha. Faz sentido fazerem isso num filme que comemora os vinte anos de Adventure. Mas nesse aspeto respeito um pouco mais a versão de Tri, por ter feito algo diferente. 

 

Por outro lado… percebo. Estas sequências de digievolução, esta versão de Brave Heart, só aparecem no início do filme. Antes do início do enredo propriamente dito, ainda antes dos créditos de abertura. Não entram na história em si. Calculo que tenha sido deliberado: estes elementos fazem parte do status quo que tinha de ser quebrado. 

 

Porque o status quo tinha de ser quebrado. Não apenas em termos de meta, das regras das histórias, da ideia que o protagonista deve deixar o familiar, o confortável e partir para o desconhecido. É um dos temas do filme: as coisas não podem ficar sempre na mesma, todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. 

 

Eu vejo esta cena inicial com o Parrotmon, vejo o quão adoro estes miúdos e os seus Digimon, pergunto-me porque não podiam tê-los deixado assim. No entanto, deixando de lado o meu sentimentalismo, sendo sincera comigo mesma, esta está longe de ser uma situação idílica. 

 

Estes quatro (cinco se contarmos com Koshiro) são os únicos disponíveis para lidar com o problema do Parrotmon. Nesta altura, Sora já se reformara oficialmente como Escolhida, conforme revelado na sua curta-metragem (mais sobre isso adiante). Joe e Mimi também não vieram e é dado a entender que têm vindo muito menos nos últimos tempos. 

 

Mesmo Taichi e Yamato não podem ficar para o pequeno-almoço com os irmãos mais novos e os Digimon. Taichi está no quarto ano da faculdade, mas já vive sozinho, combina os estudos com um emprego em part-time num casino. Ao que parece, já não vai à casa dos pais há algum tempo. Sobre Yamato não sabemos tanto, mas a narrativa dá a entender que também estará a viver sozinho e a conjugar os estudos com um emprego.

 

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Suponho que Agumon e Gabumon estejam a viver com os irmãos mais novos dos parceiros. As curtas-metragens lançadas em paralelo com o filme dão a entender que os parceiros Digimon dividem o tempo entre o Mundo Digital e o Real, poderão mesmo alternar entre as casas uns dos outros. Mas, como veremos mais à frente, Agumon nunca esteve no apartamento de Taichi, o que é um bocadinho triste.

 

Na verdade, no início de Kizuna, Taichi encontra-se numa situação muito semelhante àquela em que se encontrava no início de Saikai: numa fase da sua vida académica em que precisa de definir o seu futuro. Pensa que a sua verdadeira vocação é ser Escolhido, mas essa ocupação não paga salário nem faz descontos para a segurança social.

 

Devia, por acaso. Afinal de contas, eles estão a prestar um serviço à comunidade, com grande risco pessoal. Alguém devia pagar-lhes. 

 

Tal como acontece em Tri, Taichi resiste à mudança. Debate-se com incertezas em relação ao que quer fazer com a sua vida, com amigos de infância com quem não consegue conviver tanto como antes, com a sensação de que toda a gente está a seguir em frente com as suas vidas menos ele. 

 

E Yamato. Eis uma diferença importante em relação a Tri: em Kizuna, Yamato está na mesma situação. Gosto em particular das cenas com a banda de rua e o menino tocando harmónica numa loja de instrumentos – um belo exemplo de "show, don’t tell”.

 

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No que toca aos outros do grupo de Adventure, como já tinha dito antes, Sora demitira-se como Escolhida e estava a seguir as pisadas da mãe no negócio de arranjos florais. Mimi tem andado a vender acessórios de moda online e Joe está em Medicina, já começando a estagiar em hospital. Koshiro tem a sua própria empresa onde gere as relações com o Mundo Digital e os Escolhidos por todo o mundo. Mesmo Hikari e Takeru, que ainda estão do primeiro ano da faculdade, já têm ideias claras sobre o que querem fazer com a vida deles – Takeru já estará a escrever o livro relatando os eventos de Adventure e 02 (e mesmo depois disso?).

 

Yamato e Taichi são mesmo os únicos do grupo de Adventure com os futuros mais incertos.

 

A intriga do filme arranca quando Taichi e Yamato estão num bar bebendo cerveja e partilhando crises existenciais, como todos fazemos a certa altura nas nossas vidas adultas. Na mesa ao lado, uma rapariga perde os sentidos. De notar a prontidão com que Taichi e Yamato reagem a imprevistos como este – não surpreende, pois não?

 

A explicação só surge no dia seguinte, quando os dois são convocados ao escritório de Koshiro. Não sem antes receberem uma mensagem em vídeo de Miyako, que está a estudar em Espanha. Faz ela muito bem – aproveitar a vida antes de ter de passar os seus dias em casa a mudar fraldas.

 

Eu digo isto mas também, com base naquilo que tenho vindo a descobrir acerca do inferno por que as mulheres japonesas passam em contexto laboral, não posso criticar Miyako por preferir ficar em casa. 

 

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A mensagem de Miyako não faz praticamente nada para avançar o enredo – ela recebera uma mensagem e já a reencaminhara para Koshiro. Mas depois da negligência de que Miyako e os restantes Escolhidos de 02 foram vítimas em Tri, a presença deles em Kizuna é muito bem vinda. Aliás, num filme tão introspetivo e melancólico como este, as cenas com o elenco de 02 são uma lufada de ar fresco. Não são alívio cómico, são alívio de alegria. 

 

É neste momento que conhecemos Menoa Bellucci. Uma jovem da mesma idade de Taichi e Yamato, mas que já é uma prestigiada investigadora de Digimon. A realização do filme destaca a borboleta azul que decora a ponta da sua trança – mais sobre isso adiante. Menoa vem acompanhada do seu assistente, Kyotaro Imura.

 

De notar que Taichi, Yamato e Koshiro encaram os convidados com alguma desconfiança. Não surpreende – são homens feitos, já andam nestas andanças há mais de uma década. Depois do que aconteceu com Maki, então…

 

Menoa e Imura explicam aos quatro Escolhidos (Takeru também veio à reunião) que aquilo que acontecera na véspera, com a rapariga no bar, estava a acontecer um pouco por todo o mundo: pessoas entrando em coma sem motivo aparente. O denominador comum é o facto de serem todos Escolhidos – e na altura em que estes perdem a consciência, os seus Digimon desaparecem sem deixar rasto.

 

Menoa e Imura já conseguiram identificar o Digimon responsável e dar-lhe um nome: Eosmon, inspirado por Eos, a deusa do amanhecer segundo a mitologia grega. Eosmon tem roubado as consciências dos Escolhidos, digitalizado-as e guardado-as no ciberespaço (que já servira de cenário a War Game e a Diaboromon Strikes Back). Os dois investigadores já têm um plano desenhado para lidarem com Eosmon (o que é um bocadinho suspeito) e pedem ajuda aos Escolhidos. Os quatro vão para o ciberespaço para enfrentarem Eosmon e tentarem recuperar as consciências das vítimas.

 

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De início corre tudo como o previsto – uma vez mais, como se fosse mais um dia no escritório. Mesmo quando Eosmon digievolui, os outros Escolhidos não se deixam perturbar. Surge o Omegamon, que luta contra Eosmon. No entanto, quando o Omegamon se prepara para dar o golpe final, congela de forma bizarra e desfaz-se. Eosmon escapa. 

 

Quando o grupo regressa ao Mundo Real, tentam naturalmente perceber o que acabara de acontecer. Menoa revela que tem a ver com o motivo pelo qual, alegadamente, não existem Escolhidos adultos. 

 

Parece que o Mundo Digital – por outras palavras, a Homeostase – Escolhe crianças por causa do seu futuro ainda indefinido, do seu potencial para mudarem, para escolherem, para crescerem. Essas escolhas, esse crescimento, era o que catalisava a digievolução. À medida que os Escolhidos vão envelhecendo, vão perdendo esse potencial. O poder para os seus parceiros digievoluírem vai diminuindo até ao dia em que chega a zero.

 

Nesta fase, Menoa apenas refere que Digimon e Escolhido seguem caminhos diferentes. Kizuna mais tarde colocará os pontos nos is no que toca a essa questão. No entanto, mesmo nesta altura do filme, para bom entendedor meia palavra basta: os Digimon desaparecem.

 

Pois… falemos sobre isso. 

 

Essa ideia da digievolução baseada no potencial, que diminui com o tempo, tem uns quantos buracos. Não podia ser de outra maneira, se me vão introduzir novas regras para a digievolução ao fim de três temporadas e múltiplos filmes. 

 

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Sim, regra geral, a digievolução sempre foi catalisada pelo processo de os Escolhidos se tornarem melhores versões de si mesmos. No caso de Adventure e Tri, isso dizia mais respeito ao crescimento individual. No caso de 02, eram as relações entre os Escolhidos. Pode-se argumentar que os laços entre Escolhido e Digimon também entravam nessas contas, se bem que não tanto como em Tamers.

 

Mas agora dizem-me que esse potencial desaparece com o tempo? Não faz sentido. Mimi, Joe, Sora e Koshiro só conseguiram desbloquear os níveis Extremos dos seus Digimon quando já eram adolescentes (Takeru e Hikari são um caso à parte por causa de Hurricane Touchdown). Joe já era maior de idade! Isto para não falar, claro, do Omegamon Merciful Mode. 

 

Pode haver quem questione o peso de Hurricane Touchdown e mesmo de Tri no cânone deste universo (se bem que Kizuna legitimize ambos). Mas, mesmo só considerando Kizuna nesta equação, a lógica não é consistente. Ao escolherem um caminho, uma vida para si, os Escolhidos estão essencialmente a roubá-la aos seus Digimon. Mais à frente na narrativa, Menoa revelará que perdeu a sua companheira Digimon aos catorze anos (ou seja, durante os eventos de 02) quando entrou na faculdade, saltando vários anos escolares. Por essa lógica, Taichi e Yamato deviam ser os últimos a perder os seus Digimon, não os primeiros – já que, como observámos antes, são os únicos do grupo com um futuro incerto.

 

Bem, na verdade, não foram eles os primeiros, foi Sora. O que pode ser explicado pela sua decisão de abdicar dos seus deveres como Escolhida, antes dos eventos de Kizuna (com uma ressalva de que falaremos já a seguir). Ainda assim, Joe é o mais velho dos Escolhidos, está de pedra e cal em Medicina, devia ter sido o primeiro. No entanto, ainda não quis cortar em definitivo com a vida de Escolhido – será essa a diferença?

 

Por outro lado, Menoa refere que as digievoluções diminuem o tempo de vida dos Digimon. Nesse aspeto, faz sentido Taichi e Yamato estarem à frente porque Omegamon.

 

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Estas são as únicas explicações que me ocorrem.

 

Deixando de lado as inconsistências, não concordo com essa ideia de que as crianças perdem potencial e poder de escolha à medida que envelhecem. Da minha experiência, acontece o contrário: sobretudo nos tempos que correm, as crianças têm muito pouco controlo sobre as suas vidas. Os pais e outros adultos escolhem quase tudo por elas: o que comem, o que bebem, o que vestem, a que horas se deitam, em que escola estudam, onde vivem e com quem. 

 

É à medida que crescem que ganham controlo sobre a sua vida. Decidem se querem ir para um curso profissional ou para o Secundário – e para que área – decidem se querem ir para a faculdade – e que curso querem tirar – ou se vão já para o mercado de trabalho. 

 

E, mais importante, eles podem mudar de ideias! Podem mudar de percurso! Kizuna trata tais escolhas como irreversíveis, mas não é isso que acontece na vida real. Alunos podem mudar de área durante o Secundário, podem repetir os exames e concorrer a outro curso, podem só conseguir ir para a faculdade (ou lá regressar) aos trinta, quarenta, cinquenta anos, mesmo mais tarde. Todos nós conhecemos histórias de pessoas que mudaram de carreira numa altura menos convencional das suas vidas. 

 

Até mesmo dentro do universo de Adventure! Para começar, tendo em conta o epílogo de 02, sabemos que Mimi irá, a certa altura, seguir uma carreira em culinária. Mas Sora é um excelente exemplo daquilo que falei nos parágrafos anteriores, conforme provado na curta-metragem lançada há coisa de um ano, poucas semanas antes da estreia de Kizuna nos cinemas japoneses.

 

 

Até aos eventos dessa curta, Sora definia-se essencialmente por dois aspetos: por ser Escolhida e por ser filha de uma mestre em arranjos florais. Na curta, a jovem angustia-se por não saber quem é fora desses rótulos que, lá está, lhe foram impostos na infância – um deles pela Homeostase, outro pela mãe (mesmo com alguma turbulência, como vimos no episódio 26 de Adventure).

 

Tanto Mimi como Piyomon lhe fazem ver que existem muitas outras possibilidades para a sua vida, múltiplos trajetos por onde voar no céu. Assim, Sora decide oficialmente desistir da vida de Escolhida. Acredito que, mais tarde, irá também desistir dos arranjos florais (e eventualmente trabalhar na área da moda) pelo mesmo motivo. 

 

É um grande passo para ela, que sempre se caracterizou pelo seu altruísmo. Finalmente, Sora está a colocar-se a si mesma em primeiro lugar. Aposto que se Mimi não lhe tivesse dito que ela e os amigos a apoiariam sempre, independentemente da decisão de tomasse, Sora ainda não teria desistido de ser Escolhida. Na mesma linha, acho que só desistirá dos arranjos florais se a sua mãe concordar.

 

Não se pode argumentar que é agora que Sora dispõe de todo o seu potencial? Agora que se está a libertar de escolhas que não fez, que quer descobrir quem é fora dessas escolhas e trilhar o seu próprio caminho?

 

É interessante, aliás, comparar Sora com Taichi e Yamato. Os três nasceram no mesmo ano, têm a mesma idade, mas possuem visões opostas em relação ao futuro. Taichi e Yamato angustiam-se com a mudança, com os caminhos de que tiveram de abdicar no passado e que terão de abdicar num futuro próximo. Sora, por sua vez, está ansiosa por mudar, por crescer, por arranjar uma vida diferente para si.

 

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A questão que se coloca é se ela ainda pensará assim quando essas escolhas lhe custarem Piyomon. Havemos de falar sobre isso.

 

Isto tudo para dizer que não concordo com a ideia defendida por Kizuna, sobre a perda de potencial com o crescimento. É uma discordância, não é uma falha.

 

Se nestes últimos parágrafos pareço defensiva… é porque estou. Ainda estou um pouco em negação, a revoltar-me contra o destino traçado por Kizuna, contra a impossibilidade de os Digimon permanecerem com os seus parceiros humanos. 

 

Enfim, paremos por aqui. Amanhã regressamos ao escritório de Koshiro para falarmos sobre as reações de Taichi e Yamato a estas notícias. 

Pokémon: Detetive Pikachu (2019)

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Não estava nos meus planos escrever um texto sobre o filme Detetive Pikachu. Ou melhor, sobre este filme. A minha ideia era deixar algumas impressões sobre ele no meu balanço musical de 2019, a propósito de Carry On e Holding Out for a Hero. As frases, no entanto, transformaram-se em parágrafos, os parágrafos em páginas do meu caderno, fazendo um grande desvio ao assunto do texto. Era evidente que tinha muito a dizer sobre este filme. Fazia mais sentido dedicar-lhe a sua própria publicação, que as pessoas pudessem encontrar com maior ou menos facilidade pesquisando no Google, em vez que enterrá-lo no meio de outro texto.

 

Escolhi publicá-lo hoje, que se assinala o vigésimo-quarto aniversário de Pokémon enquanto franquia (tenho vindo a celebrar estes aniversários desde o inesquecível vigésimo, em 2016). Parece-me adequado dedicar uma publicação à melhor coisa que, a meu ver, aconteceu no último ano (talvez esperassem que eu referisse Sword&Shield, mas os jogos têm estado envolvidos em tanta polémica, começando desde uns meses antes do seu lançamento e continuando até hoje, que me têm alienado da comunidade de fãs). 

 

Um alerta importante: este texto está cheio de spoilers. Leiam-no por vossa conta e risco. Assim, sem mais delongas…

 

À semelhança do que aconteceu com Pokémon Go, um filme live-action era algo que eu sempre desejei, mas só o descobri quando saiu o primeiro trailer. Não vou dizer que nunca tenha pensado nisso… mas nunca o encarei como uma ideia viável. 

 

Em parte porque, tradicionalmente, filmes baseados em videojogos não prestam. Mesmo os baseados em anime não costumam ser grande coisa, tanto quanto sei.  Por exemplo, tanto quanto me lembro, ninguém gostou do filme baseado no Dragon Ball há coisa de dez anos. Também ninguém gostou da adaptação de Death Note do Netflix. 

 

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Por fim, quando víamos na Internet imagens “realistas” de Pokémon, era quase tudo monstruosidades (veja-se a imagem acima). Não havia nada do charme dos desenhos no anime e dos jogos (bem, tirando os da primeira geração).

 

Tudo mudou quando vi o primeiro trailer. Confesso que demorei um bocadinho a habituar-me a estes Pokémon mais “realistas”. À semelhança da maior parte das pessoas, suponho eu – ninguém se tinha apercebido antes que os Pokémon tinham tanto… pêlo. Suponho que faça sentido, no entanto. Mas depois de nos habituarmos, a maior parte dos modelos são bons. Alguns melhores do que outros, claro, mas no geral acho que conseguiram combinar os aspetos mais realistas dos Pokémon (um dos colaboradores foi precisamente o autor das tais fanarts realistas que circulavam pela Internet) com os aspetos mais apelativos dos bonecos que tão bem conhecemos. 

 

À medida que o tempo passava e mais trailers iam saindo, o meu entusiasmo crescia. No entanto, tentava ser cautelosa, mantendo as minhas expectativas no mínimo. Pela parte que me tocava, Detetive Pikachu não precisava de ser um filme extraordinário (e não o é). Só precisava de ser um típico filme de Hollywood… mas com Pokémon. Só precisava de não ser uma porcaria.

 

E o filme não é uma porcaria, longe disso. Foi uma jogada inteligente terem baseado o filme num spin-off menos conhecido, em vez de basearem nos jogos principais ou no anime. Na minha opinião, criarem uma típica história de um treinador de Pokémon não traria nada de novo aos fãs da franquia e poderia ser alienante para as pessoas de fora. 

 

Em vez disso, Detetive Pikachu colhe inspirações em filmes de detetives noir. É mais sombrio que o anime e que a maior parte dos jogos, mas acho que não ao ponto de traumatizar criancinhas. Eu pelo menos há anos que desejava uma história em Pokémon que não tivesse o tom paternalista e ultra-infantil do anime.

 

(Talvez devesse ler Pokémon Adventures…)

 

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Algo de que só me apercebi há relativamente pouco tempo diz respeito às semelhanças entre Detetive Pikachu e Zootopia (um filme de que gosto muito). Em primeiro lugar, centra-se numa cidade aparentemente utópica, onde em teoria criaturas fofinhas podem viver em paz. Na prática é uma fachada. Durante o decurso do filme a máscara acaba por cair mas, no fim, o elenco compromete-se a honrar o espírito da cidade. 

 

Em segundo, ambos são filmes de detetives/”buddy cops”. Um dos protagonistas nasceu numa terra pequena e vem de comboio para a tal cidade. Um dos protagonistas é um cínico, que em criança até tinha crenças que coadunavam mais ou menos com o espírito da cidade, mas a vida encarregou-se de destruí-las (o flashback da infância de Nick ainda hoje me parte o coração). 

 

O enredo centra-se no desaparecimento de um pai. Um dos elementos importantes do caso é uma substância que desperta os instintos selvagens e violentos das tais criaturas fofinhas. Existe um primeiro falso vilão mas, no fim, descobre-se que o verdadeiro vilão é uma figura de autoridade que os protagonistas consideravam um aliado.

 

Para ser sincera, a história é capaz de ser o aspeto mais fraquinho do fime. Pelo menos a parte relacionada com o vilão. Que o Presidente Howard Clifford quisesse transportar-se para o corpo do Mewtwo até faz sentido – quem nunca? Mas qual é a vantagem de obrigar o resto do povo a fazer o mesmo com os seus Pokémon? Não se percebe.

 

A força do filme está nos outros aspetos. O Detetive Pikachu em si é irresístivel: uma versão do Deadpool adequada a menores de 16, com toda a fofura que sempre caracterizou a mascote, captada na perfeição pelo filme. Justice Smith fez um bom trabalho dando vida a todas as facetas de Tim – e para nós, fãs, é bom saber que o ator gosta de Pokémon, à semelhança de Kathryn Newton, que dá vida a Lucy.

 

 

Esta, aliás, é adorável e merecia mais tempo de antena. Tem um par de cenas, como a acima, em que se esforça, de forma hilariante, por passar a imagem de jornalista intrépida. No entanto, na segunda metade do filme, tirando um momento ou outro, existe apenas para dar apoio a Tim.

 

Outra das falhas do filme, aliás, é ter pouquíssimas personagens femininas. Mal passa o teste de Bechdel. O que é uma pena quando Pokémon sempre fez por apelar tanto a rapazes como a raparigas. 

 

Outro ponto forte do filme, talvez a maior força do mesmo, é o respeito, mesmo o carinho com que trata a franquia. Um fã de Pokémon encontrará inúmeras referências e pormenores fantásticos – basta pesquisarem “Detective Pikachu Easter Eggs” no Google ou no YouTube para saberem do que estou a falar. 

 

Por outro lado, o filme não mostra demasiada reverência para com a franquia. Pelo contrário, Detetive Pikachu teve imaginação para explorar lados menos convencionais de Pokémon que conhecemos tão bem (não sei se isso veio do jogo Detetive Pikachu ou se dos próprios guionistas do filme). Um exemplo disso é o que fizeram com o Mr. Mime – que, segundo o que consta, esteve muito perto de não aparecer em Detetive Pikachu. 

 

Mr. Mime é um Pokémon com uma reputação… estranha na comunidade de fãs. Há muita gente que não se sente muito à vontade com Pokémon humanóides. Somando isso a doses variáveis de coulrofobia e não admira que Mr. Mime tenha fama de palhaço assustador. (E depois há toda aquela teoria de que Mr. Mime seria o pai de Ash. O que é estúpido. A mãe dele só conheceu o seu Mr. Mime no episódio 64 do anime, já Ash tinha pelo menos dez anos. Este pessoal nunca estudou Biologia?)

 

 

Eu nunca adorei o Mr. Mime, mas nunca o achei assim tão desconcertante. Não quando temos o Drowzee e o Hypno na mesma geração. Mas compreendo que algumas pessoas adorem odiá-lo.

 

Consta que, de início, a Pokémon Company não estava muito entusiasmada com a ideia de um Mr. Mime “realista” – porque, lá está, o resultado final poderia causar pesadelos. O realizador Rob Letterman teve de pedir autorização diretamente a Tsunekazu Ishihara, o presidente atual da empresa, para que o Pokémon aparecesse no filme.

 

Felizmente acabaram por aceitar. Ainda bem. Não sei como foi com vocês, mas a cena do interrogatório ao Mr. Mime fez-me gostar mais do Pokémon. Mantiveram as características desconcertantes, mas carregaram na parte de palhaço mimo. O resultado final foi uma das cenas mais engraçadas de todo Detetive Pikachu.

 

De mãos dadas com o carinho pela franquia está o facto de o filme ter coração e não se envergonhar disso (estou a olhar para ti, primeira metade de Bokura No Mirai!). Falo sobretudo na jornada emocional de Tim para fazer as pazes com o seu pai. 

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O que me leva à grande reviravolta e fonte de confusão do filme: o facto de a personalidade do Detetive Pikachu ser na verdade um híbrido das mentes de Harry e do seu Pikachu. Eu sinto-me dividida em relação a este desenvolvimento. Por um lado, faz algum sentido. E é certamente comovente, à sua maneira, que o pai de Tim tenha estado lá desde o início. 

 

Por outro lado… é esquisito. É muito esquisito.

 

A pergunta que se coloca é com é que Tim não reconheceu a voz do pai saindo do Pikachu. Eu até consigo arranjar uma explicação, mais ou menos. No anime sempre existiram Pokémon com a habilidade de falar telepaticamente com humanos. Muitas vezes era explicado com “poderes psíquicos” (ex: Mewtwo) ou com aura (ex: Lucario). Talvez Tim soubesse disso e pensasse que o seu subconsciente estava a associar o seu pai com o seu Pikachu. Afinal de contas, ele de início pensou que a voz do Detetive Pikachu era uma alucinação.

 

Enfim, é só uma teoria, um bocadinho rebuscada. Na prática, se Tim tivesse perguntado logo desde início porque é que o Detetive Pikachu estava a falar com a voz do pai, a audiência adivinhava logo o twist final. 

 

O maior problema deste twist é que, agora, será quase impossível fazerem uma sequela com o Detetive Pikachu. Segundo o que percebi (e posso estar enganada), a personalidade do Detetive Pikachu era um híbrido das personalidades de Harry e do seu Pikachu, juntamente com amnésia. Depois de conhecermos a verdade, não dá para voltar atrás.

 

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Mesmo que, por um motivo ou outro (e não consigo pensar em nenhum motivo plausível), a mente de Harry fosse de novo inserida no corpo do Pikachu, com amnésia e tudo, Tim saberia a verdade e as interações entre ambos seriam completamente diferentes. Mesmo que Tim também fosse afetado por amnésia ou a história envolvesse personagens que não soubessem a verdade… a audiência saberia. Não seria a mesma coisa. 

 

É por este motivo que me sinto dividida com este twist de Harry ter estado desde o início no corpo do Detetive Pikachu. Por esse motivo e porque, na minha opinião, tira um bocadinho de piada à personagem. 

 

Um dos atrativos da língua atrevida do Detetive Pikachu era o facto de ser um Pokémon, um Pikachu – uma figura adorável, símbolo de uma franquia, herói das nossas infâncias – metendo-se com Tim por causa da sua tentativa falhada de namoriscar com Lucy. saber que, afinal, existia uma mente humana pelo menos em parte por detrás daquelas palavras tira algum impacto. 

 

Acho que a jornada emocional do filme também poderia ter resultado se o Detetive Pikachu fosse apenas o companheiro Pokémon de Harry. Pai e filho fazendo as pazes através do Pikachu do primeiro… Até porque exploraria sobre o qual tenho tido curiosidade nos últimos anos: como é que um Pokémon reage quando o seu treinador/parceiro humano tem filhos. Ficam com ciúmes? Veem a criança como um irmão? Ou como uma espécie de sobrinho ou irmão mais novo que ajudam a criar?

 

Ainda assim, não tenho razões de queixas da forma como o filme explora a relação entre Tim e o seu pai. Uma das coisas de que me tenho vindo a aperceber nos últimos anos é que daddy ou mommy issues dão pano para mangas em termos de drama em ficção. Detetive Pikachu não foge à regra. 

 

 

O filme, aliás, traça um paralelismo curioso, ainda que algo forçado, entre a relação de Tim com Harry e a relação de Tim com os Pokémon em geral. O jovem sente que o pai o trocou pelos Pokémon – o que faria sentido se Harry o tivesse deixado para se tornar um treinador ou um líder de ginásio. Harry no entanto é detetive, o seu trabalho não parece assim tão relacionado com Pokémon – tirando o facto de exercer em Rhyme City, com a sua política menos convencional em relação às criaturas.

 

Pode ter mais a ver com o facto de a mãe ter morrido no dia em que, segundo o que o filme dá a entender, Tim iria receber o seu primeiro Pokémon. Não sei, podia ter sido explicado um bocadinho melhor.

 

A cena acima em que Tim e o Pikachu pensam que Harry morreu mesmo é uma das minhas preferidas em todo o filme. Tim arrependido por não ter vindo viver com o pai anos antes, quando este pediu. O Pikachu consolando-o com palavras que, sem sombra de dúvidas, vêm de Harry.

 

E, claro, a cena final já com Harry, em que Tim decide ficar em Rhyme City, em vez de regressar a casa. A atuação de Justice e sobretudo de Ryan transmitem as emoções do momento na perfeição. Tão pouco tempo depois de Deadpool, acho que ninguém estava à espera de ver Ryan Reynolds no papel de pai. 

 

É uma história bonita, de amor familiar e de perdão. Está longe de ser original, claro, mas foi bem executada, tornando este filme, como alguns têm dito nas internetes, “melhor do que tem direito a ser”. E como o próprio Ryan Reynolds disse, são temas universais, “wholesome”, que sabem bem de vez em quando nos dias conturbados de hoje.

 

 

Queria falar agora sobre aspetos mais secundários do filme de que gostei. Sei que vai contra o espírito de Rhyme City, mas eu gostei da cena na arena de combate. 

 

Que querem? Um dos maiores apelos de Pokémon para mim continuam a ser as batalhas. #Sorrynotsorry. Embora, claro, não tenha nada contra Rhyme City para os Pokémon e humanos que não gostem desta vertente.

 

Sebastian, que gere (?) esta arena e que dará a pista seguinte é o típico durão deste género de filmes, com os músculos, as tatuagens, o histórico de Internet questionável, mas depois salta para a arena quando sente que o seu Charizard corre perigo, chamando-lhe “my baby”. Preocupa-se muito com o seu “baby” mas usa-o em combates ilegais...  Gostei desse pormenor, dando alguma profundidade a uma personagem secundária, quando um guionista mais preguiçoso não teria ido além do estereótipo. 

 

De referir também que, apesar de, tanto quanto se sabe, Tim nunca ter chegado a ser treinador, ele não é nenhum ignorante no que toca a Pokémon. Os conselhos que dá ao Pikachu antes do combate com o Charizard são um exemplo disso – e é bonito quando, mais à frente no filme, o Pikachu recorda-se desses conselhos (já aí vamos).

 

Por outro lado, quando Sebastian liberta acidentalmente quantidades industriais do gás R, forma-se um caos com pormenores hilariantes. Começando com os Loudred tocando dubstep, acabando com o Pikachu evoluindo um Magikarp com um pontapé (pontos para a referência).

 

Por fim, a cara de “Oh crap!” do Charizard só por si valeu o preço dos dois bilhetes.

 

 

Outra parte muito bem sacada foi o jardim dos Torterra – os Torterra gigantescos que acabaram por se fundir (e confundir) com a paisagem. Detetive Pikachu levou as inspirações da tartaruga continental quase à letra e foi espetacular. O Torterra é um dos meus Pokémon preferidos de Sinnoh precisamente por causa desse conceito.

 

Apesar das minhas reservas em relação às motivações de Howard Clifford enquanto vilão, gostei da interpretação de Bill Nighy – que, segundo consta, tornou-se um fã de Pokémon ao entrar neste filme. Gostei também do papel do Mewtwo na história: dos paralelismos com o primeiro filme do anime e ainda mais do facto de não ser o vilão. 

 

Outro dos destaques do filme é o combate entre o Mewtwo-possuído-por-Howard e o Detetive Pikachu. Em particular o facto de o último ter usado o Volt Tackle – tanto por seguir o conselho de Tim como porque, dos ataques característicos do Pikachu, é o meu preferido, sobretudo no anime.

 

Queria deixar uma palavra rápida para a banda sonora do filme. Não sendo nada por aí além, gosto das notas eletrónicas em temas como este que me recordam a banda sonora dos jogos. E, claro, a deliciosa sequência dos créditos, com desenhos de Ken Sugimori de todo o elenco no estilo do anime e das artes oficiais dos jogos, com um remix do tema principal da franquia com o estilo da banda sonora do filme.

 

 

Valha-me Hélix, já não bastava o Ryan Reynolds cantando Gotta Catch’em All. Eles sabem exatamente como fazer-me comer da mão deles… 

 

Em suma, como podem calcular, gosto mesmo muito deste filme. Tanto quanto sei, a maior parte da comunidade de fãs também gostou. Agora que penso isso, é capaz de ter sido o último momento relativamente pacífico na comunidade. Cerca de um mês depois descobriu-se acerca da remoção da National Dex em Pokémon Sword&Shield e caiu Kanto e a Trindade… mas não quero falar sobre isso hoje. 

 

Detetive Pikachu foi o único filme até agora que vi duas vezes no cinema. Primeiro com pessoas do meu grupo de Raids de Pokémon Go, depois com a minha irmã e um amigo dela. E agora comprei-o no YouTube – em parte para poder escrever este texto, mas sobretudo porque quero apoiar este filme dentro das minhas possibilidades. Porque não quero que seja o único.

 

Pois é, já se falam em sequelas – ou pelo menos em outros filmes neste universo. Uma sequela direta com o próprio Detetive Pikachu será difícil, como vimos acima. Mas não faltam ideias.

 

O que se lê nas internetes é que existem planos para fazer um filme baseado na jornada de Red, em Pokémon Red e Blue… mas a ideia não me entusiasma. Afinal de contas, esta é uma história que já foi contada ad nauseaum, em dois remakes dos jogos da primeira geração (um deles há menos de dois anos) e em Pokémon Origins (de que não gosto por aí além). 

 

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É certo que o mainstream ainda não conhece a história. Talvez o público até aprecie… mas eu não queria mesmo.

 

Não quando existem melhores ideias, na minha opinião. Outras histórias baseadas nos jogos: a história de N, por exemplo, ou Zinnia. Ou então, se quiserem continuar na onda dos filmes noir, podiam colocar Lucy como protagonista. Lucy investigando uma história para uma reportagem, acompanhada pelo seu Psyduck. Tim e Harry podiam aparecer, mas num papel mais secundário. Looker podia entrar na história!

 

Em alternativa, podiam pegar em qualquer outro conceito típico de Hollywood e desenvolvê-lo no universo de Pokémon. Um filme de espionagem, por exemplo, estilo Missão Impossível ou James Bond. Uma comédia romântica – centrada em dois treinadores rivais mas apaixonados. O próprio Ryan Reynolds deu uma excelente ideia numa entrevista: um filme tipo Indiana Jones. Não falta mitologia e Pokémon Lendários para servir de inspiração.

 

Há esperanças de que daqui nasça um universo cinemático inteiro. Talvez um dos poucos ainda não monopolizado pela Disney. E espero que ninguém os deixe deitar as garras a Pokémon. A acontecer, não será de um dia para o outro, demorará meia dúzia de anos… mas acho que valerá a pena esperar. 

 

Com tudo isto, se vos apetece celebrar o aniversário de Pokémon enquanto franquia, verem o filme Detetive Pikachu é uma boa forma de o fazerem. De resto, ficam votos de que Pokémon continue a crescer, a criar conteúdo de qualidade, que os Dexxers vão dar banho a um Skunktank arranjem formas mais produtivas de passar o seu tempo. A mais vinte e quatro anos!

Digimon Tamers #12 – Vilões entre aspas

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Outra diferença de Tamers em relação ao universo de Adventure é o facto de não existir Luz versus Escuridão, no sentido de Bem versus Mal. A única ocasião que se aproxima disso é quando surge o Megidramon. Talvez porque, em Tamers, não existem bons e maus propriamente ditos – ou pelo menos não no sentido habitual das histórias dirigidas ao público infantil.

 

Isto na minha opinião é um ponto a favor. É realista. Parte dos conflitos em Tamers – alguns dos quais podiam e deviam ter sido melhor explorados – sobretudo durante a primeira metade da narrativa, derivam de pontos de vista contrário, choque de culturas, desconfiança em relação ao que é diferente, revolta de um grupo oprimido contra o seu opressor. Tudo conflitos semelhantes aos que ocorrem no nosso mundo, que ocupam uma larga fatia das nossas notícias. 

 

Ninguém em Tamers está cem por cento certo ou errado, nem mesmo o D-Reaper. Existe verdade nas suas crenças de que tanto a Humanidade como os Digimon têm imperfeições. A solução dele para tais problemas é que, obviamente, não será a mais adequada.

 

Mas não nos adiantemos. 

 

O primeiro antagonista em Tamers é a organização Hypnos e o seu líder, Yamaki. Como referido antes, estes não se revelam de imediato. Durante vários episódios, apenas vemos as mesmas imagens de Reika e Megumi anunciando o aparecimento de Digimon selvagens em Shinjuku, bem como de Yamaki brincando com o seu isqueiro. Só ao sétimo episódio é que descobrimos ao certo quem são eles: uma organização que se dedica a crescente rede digital. 

 

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Ou seja, o Hypnos é o equivalente japonês ao NSA dos Estados Unidos. 

 

É de facto espantoso o quão à frente do seu tempo Tamers estava. Só nos últimos anos – em 2013, com as denúncias de Edward Snowden, e no ano passado, com o escândalo do Facebook (embora a Google também o desconcertante hábito de registar cada um dos nossos passos) – é que o cidadão comum se apercebeu verdadeiramente das implicações da Internet. Mas a verdade é que já havia quem alertasse para a possibilidade no início dos anos 2000. 

 

Tamers não foge ao assunto. Yamaki garante a um inspetor do governo que só estão interessados em informações criminosas – é claro que cada um arranja a definição que mais lhe convém para esse termo. De tal forma que a existência do Hypnos é mantida escondida do público – o inspetor diz mesmo que, se a verdade viesse a público, o governo cairia. 

 

Ora, nesta equação, os Digimon são uma espécie invasora que atrapalha o trabalho do Hypnos. Conforme dei a entender antes, a inutilidade da organização para tratar destas ameaças chega a ser caricata. O trabalho que lhes compete acaba por ser feito por crianças de dez anos (incluindo Takato na sua fase de tentativa e erro). O que nos leva às motivações do Hypnos, em particular de Yamaki.

 

Este até começa com relativas boas intenções – quão nobres poderão ser as intenções de alguém que procura controlar a Internet? É claro que era necessário alguém com experiência e recursos para lidar com a ameaça dos Digimon. Também não estão errados quando dizem que crianças deviam andar a brincar com criaturas capazes de destruir edifícios e matar pessoas. 

 

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Só que o Hypnos é realmente muito mau a fazer o trabalho que lhe compete. As duas primeiras ativações do Shaggai só pioram as coisas em vez de melhorarem: a primeira abre a porta aos Deva. A segunda leva ao colapso do quartel-general do Hypnos. Pelo meio, a certa altura, Yamaki parece deixar-se levar pelo poder e começa a tornar aquilo pessoal. Note-se o momento em que deita as mãos a Jian.

 

O que, tenho de dizê-lo, é completamente inaceitável. Jian é uma criança, Yamaki é um adulto, tem a obrigação de se controlar. 

 

A destruição do Hypnos e consequente perda de emprego tem o condão de obrigar Yamaki a descer à Terra. Vemo-o recolhido no seu (?) apartamento juntamente com Reika – é assim que se descobre que eles namoram. Consta que, quando leram o guião escrito por Konaka, os seus colaboradores foram apanhados de surpresa por esta revelação. O guionista revelou, também, que terá sido Reika a impedir Yamaki de sucumbir por completo à depressão.

 

Em todo o caso, quando os Treinadores se preparam para ir para o Mundo Digital para resgatar Culumon, Yamaki consegue deixar o seu abatimento de lado, ainda que por pouco tempo. Vai ter com eles imediatamente antes de partirem e empresta-lhes um dispositivo que lhes permitirá comunicarem com o Mundo Real enquanto estiverem no Mundo Digital. 

 

Ainda assim, Yamaki mantém-se confinado ao apartamento, com a namorada (o que, sejamos sinceros, não é assim tão mau). Certo dia, um tipo qualquer do governo decide ativar o Shaggai de novo porque… razões. Corre quase tão bem como das duas primeiras vezes – e vemos o efeito que isso tem no Mundo Digital. Têm de vir Yamaki e Reika para corrigirem a asneira do outro e, no processo, recuperam as rédeas do Hypnos. 

 

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Depois desta, Yamaki e o Hypnos estabelecem-se firmemente como aliados dos Treinadores, em colaboração com o Grupo Selvagem. Existe um momento em que Yamaki se culpa pela crise do D-Reaper. Reika faz-lhe ver que ele foi apenas o primeiro a querer controlar a Internet – e como vimos acima, o tempo veio a dar-lhe razão. 

 

Da ideia que tenho, ninguém acha os Deva muito interessantes enquanto vilões. Eu concordo. Quando começam a aparecer no início da segunda parte da narrativa, pouco mais são que vilões-do-episódio, que os heróis derrotam sem pensar duas vezes. São níveis Perfeitos, e alguns até são difíceis de derrotar, mas outros são derrotados por níveis Adultos.

 

Acho também que não sou a única que nem sequer consegue decorar os nomes de uma boa parte deles. São o Deva-Cobra, o Deva-Cavalo, o Deva-Rato e por aí fora.

 

A certa altura Jian consulta o seu instrutor de kenpo para descobrir mais sobre os Deva – que foram inspirados pelo zodíaco chinês, que por sua vez colheu inspiração dos Doze Generais Celestiais do budismo. Quando o instrutor revela que os Deva originais eram figuras benevolentes, Jian acaba aprendendo que o mal e o bem são uma questão de perspetiva. 

 

O que é irónico se tivermos em conta que os Deva são o mais próximo que Tamers têm dos típicos maus da fita de desenhos animados: unidimensionais, interessados apenas em debitar propaganda anti-humanos e provocar o caos no Mundo Real.

 

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Os únicos Deva minimamente interessantes são Makuramon, Chatsuramon e Antylamon. O último, obviamente, por ser o companheiro de Shaochung. Por sua vez, Makuramon é um dos que ganha mais tempo de antena. Durante a segunda parte da narrativa, disfarça-se de criança humana e tenta infiltrar-se no grupo de amigos de Takato – para poder aproximar-se de Culumon. Não se pode dizer que o disfarce resulte pois, embora não descubram logo que o miúdo tentando colar-se é um Digimon, o seu comportamento é sinistro e enervante.

 

Para os miúdos e para mim, diga-se. Entre este e o Etemon, está visto que Digimon inspirados em macacos não são comigo.

 

No fim, Makuramon acaba por ser o único a fazer o seu trabalho, ou pelo menos parte dele: deitar as mãos a Culumon e levá-lo para o Mundo Digital. 

 

Chatsuramon, o Deva-Leão (ou gato?), é o mediador do pacto de Impmon com o diabo. Uma incoerência que não passa despercebida é o facto de os Deva serem todos do nível Perfeito mas, quando recrutam Impmon, este digievolui para o nível Extremo. Três questões: um, se Zhuqiaomon consegue, indireta ou indiretamente, desbloquear um nível Extremo de outro Digimon, para que precisa de Culumon? Dois, porque não fez  mesmo com os seus minions, parte dos quais são fracos até para níveis Perfeitos? Por fim, porque tornaram um recruta recente mais poderoso do que eles – talvez capaz de fazer frente a Zhuqiaomon? Estão mesmo a pedir para serem apunhalados pelas costas.

 

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É assim que os Devam acabam, aliás, tirando Antylamon. Makuramon e Chatsuramon podem até ter tido algum interesse, mas as suas mortes são meras notas de rodapé em episódios que a atenção da audiência está no duelo entre Beelzebumon e Megidramon/Dukemon. Ninguém sentirá a falta deles.

 

É mais ou menos nesta altura da história, um pouco mais tarde, que descobrimos que, no universo de Tamers, os deuses do Mundo Digital são as Bestas Sagradas. Os Deva, no entanto, só falam de um deus que substituiu os humanos – provavelmente Zhuqiaomon, o seu amo. Descobrimos também que este último precisava de Culumon para, como referimos antes, digievoluir tudo o que se mexe para combater o D-Reaper.

 

E de facto é isso que Culumon faz, quando lho pedem. E uma pessoa fica tipo “Porque é que não lhe pediram com jeitinho mais cedo?” Podiam ter evitado pelo menos metade dos eventos de Tamers – sobretudo a morte do Leomon, que deixou Juri vulnerável ao D-Reaper. 

 

Parece uma falha do enredo, mas eu não acho que o seja. Não a cem por cento pelo menos. Acho que é um erro de Zhuqiaomon. Este parece ser o único das Bestas Sagradas que se ressente dos humanos – possivelmente passando as suas crenças aos seus servidores. É possível que tanto os Deva como Zhuqiaomon tenham aproveitado a busca por Culumon para se vingarem da Humanidade. As consequências desse ódio para Zhuqiaomon é perder os seus minions e conferir mais poder ao inimigo que queria derrotar.

 

Por outro lado, descobre-se que fora Qinglongmon a transformar a luz da digievolução num Digimon e a enviá-lo para o Mundo Real. A ideia era que Culumon fugisse do alcance do D-Reaper, para que este não o usasse como catalisador. Mas não se lembrou de avisar o colega Zhuqiaomon, que passara metade de Tamers tentando recuperar o pequenote.

 

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Este é, na minha opinião, o maior ponto fraco do enredo de Tamers. As Bestas Sagradas não comunicam entre si? Não faria mais sentido atuarem em conjunto perante um inimigo tão poderoso como o D-Reaper? Em vez darem tiros nos pés ao levarem a cabo planos que contradizem os dos colegas? 

 

Se isto não for uma falha do enredo (e não estou convencida que não o seja), este parece ser um daqueles casos em que um aliado incompetente causa mais danos que um vilão. Quase culpo mais Qinglongmon do que Zhuqiaomon pelos eventos de Tamers. Zhuqiaomon pecou por ódio e preconceito. Qinglongmon pecou por negligência. 

 

Falemos, então, sobre o D-Reaper. Este é um caso típico de uma inteligência artificial tão inteligente, tão inteligente (passe a redundância) que chega à conclusão de que a Humanidade é demasiado tóxica e deve ser eliminada. O D-Reaper no início era um programa muito simples de eliminação de dados em excesso. O problema foi que, com a expansão do Mundo Digital, em paralelo com o crescimento da Internet, o D-Reaper sofreu também uma digievolução à sua maneira – tornando-se uma ameaça ao Mundo Digital. 

 

Tecnicamente, o D-Reaper é o grande vilão de Tamers. Se pode, no entanto, ser considerado vilão é questionável – porque o D-Reaper não tem noção do bem e do mal, faz apenas aquilo para que foi programado. Não tem noção da moralidade.

 

Bem, pelo menos em teoria. Mais sobre isso já a seguir.

 

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Vemos o D-Reaper pela primeira vez no episódio da estreia da Sakuyamon. No início, este era apenas uma massa disforme, cor-de-rosa, que solta bolhas. Ao contrário do estilo desenhado à mão de praticamente todo Tamers, o desenho do D-Reaper mete CGI e o contraste entre os dois estilos é desconcertante. 

 

As bolhas são, em teoria, um exemplo de carnificina sem sangue, sem violência, adequadas ao público infantil. Na prática, a ausência de sangue, de violência, é o que mais me assusta nelas. Basta um toque apenas para a vítima pura e simplesmente deixar de existir. Uma pessoa não consegue oferecer resistência, não consegue debater-se. Apenas desaparece deste mundo. Nem sequer deixa um cadáver ou partículas digitais para trás. 

 

É horrível.

 

Quando o D-Reaper chega ao Mundo Digital, o seu tamanho aumenta exponencialmente. Forma uma massa gigantesca que irradia calor, com centro no parque de Shinjuku – aparentemente a partir da brecha para o Mundo Digimon no casinhoto de Guilmon. É dado a entender nos últimos episódios de Tamers, quando a expansão acelera e surgem massas noutras grandes cidades, que o plano do D-Reaper é erradicar a espécie humana por aquecimento global.

 

Como se os humanos precisassem de ajuda nesse capítulo. O D-Reaper é apenas um catalisador. Aqui não há Greta que nos valha. 

 

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A criatura possui diversos agentes e/ou formas para levar a cabo os seus fins. A mais notável é, claro, a Juri-Type, sobre quem falámos antes, de passagem. É a única dos agentes que não possui um cordão umbilical que a una ao D-Reaper, a única que consegue funcionar longe dele. Durante muito tempo, assume uma aparência muito similar à de Juri – tirando os olhos e a palidez – que lhe permite tomar o lugar da menina entre os Treinadores e ir para o Mundo Real. Vimos antes que o seu objetivo era analisar a espécie humana. 

 

Quando Juri-Type revela a sua verdadeira natureza perante Takato, ganha formas mais monstruosas: a de uma Juri mais velha, alada, ou de uma figura feminina, também alada, mas de pele azul, olhos grandes e cabelo espetado. Parece ser ela a responsável pela tortura psicológica de Juri, pois tenta fazer o mesmo com Takato. 

 

Teoricamente, à semelhança dos outros agentes, Juri-Type não terá vontade independente do D-Reaper – que como vimos não tem código moral, não age por malícia. Mas até que ponto isso será verdade para a Juri-Type? Até que ponto pode uma criatura usar tortura psicológica para neutralizar as suas vítimas sem intenções maliciosas?

 

O D-Reaper funciona, assim, bastante bem como grande vilão da temporada, se bem que ache que a sua introdução na história poderia ter sido menos forçada. Continuo a achar que, do ponto de vista puramente do enredo e da temática, teria feito mais sentido se o Zhuqiaomon fosse o grande vilão da temporada, com intenções de exterminar a raça humana. No entanto, o D-Reaper é um vilão deveras assustador, poderoso, retorcido, fora do convencional, proporcionando alguns dos momentos mais memoráveis em Tamers. 

 

Além disso, consta que será Digimon Savers a explorar a fundo a via Mundo Real versus Mundo Digital. Tri também tentou ir nessa direção, sem grande sucesso.

 

E com isto terminamos a análise ao elenco de Tamers. Estamos quase a chegar ao fim. O próximo texto será o último – mas ainda haverá muito sobre que falar. 

Digimon Tamers #11 – Uma pistola de brinquedo e um beijinho

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Esta é a parte da análise que eu mais ansiava escrever. Para vários temas desta série, precisei de pesquisar um bom bocado, rever partes de episódios, mesmo episódios inteiros, desenvolver as minhas opiniões. No que toca a Impmon, no entanto, planeei a maioria deste texto antes de qualquer outro – antes ainda de ver Tamers pela segunda vez, já de caneta em punho.

 

Não deve ser surpresa. Penso que todos concordamos que Impmon é uma das melhores personagens, não só de Tamers, de todo Digimon enquanto franquia.

 

Impmon não é bem um vilão. No entanto, tal como os melhores exemplos desse arquétipo, funciona porque é aquilo que os heróis podiam ser se tivessem tido menos sorte e/ou se tivessem tomado as decisões erradas. No caso de Impmon, o seu maior pecado é o orgulho, misturado com inveja. Uma coisa que o diabrete faz muito, quando lhe colocam o dedo na ferida, quando o confrontam com a verdade, é enfurecer-se e fincar ainda mais os pés nos seus hábitos destrutivos (auto e não só).

 

Mas comecemos pelo princípio. Na primeira metade de Tamers, Impmon é uma criatura ao mesmo tempo hilariante – no caso da dobragem portuguesa, muito por culpa da excelente interpretação de Pedro Cardoso – e irritante. Passa a vida à volta dos Treinadores, arreliando os seus Digimon (Culumon incluído). Troça deles por estarem ligados a humanos, acusa-os de serem pouco mais de mascotes, de brinquedos (no caso de Terriermon, não está completamente errado)...

 

...e no entanto, ele não os “deslarga”. Seria de esperar que ele se mantivesse afastado de criaturas que, parafraseando-o, lhe dão vontade de vomitar. Mas não é isso que acontece.

 

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Há que realçar, no entanto, que Impmon os arrelie, os Treinadores não antipatizam com Impmon. Pelo contrário, toleram-no, chegam mesmo a tratá-lo com simpatia. Talvez seja esse um dos motivos pelos quais o diabrete não se afasta. O que só torna o que acontece mais tarde ainda mais reprovável.

 

Não são precisos muitos dedos de testa para perceber que Impmon é um caso clássico de “estão verdes, não prestam”. Sobretudo quando descobrimos o seu passado. Impmon nem sempre fora um Digimon independente, também tivera um Treinador. Ou melhor dois: Ai e Makoto, dois irmãos, ela com cinco anos no máximo, ele com três no mínimo. 

 

Como seria mais ou menos de esperar da parte de crianças daquela idade, os dois disputam Impmon como um brinquedo que são obrigados a partilhar. Chega a um ponto em que o diabrete farta-se e vai-se embora. Com isto tudo, fica com uma opinião péssima em relação aos humanos em geral. 

 

Não se pode censurar Impmon por esta atitude, mas também crianças daquelas idades não constituem uma boa amostra da Humanidade. Ao contrário do que muitas vezes tendemos a pensar (eu incluída), as crianças nem sempre são puras e angélicas. Muitas vezes, sobretudo antes dos cinco, seis anos, são egoístas insensíveis, melodramáticas, incapazes de empatia e de lidar com a frustração.

 

É claro que, nesta fase, ainda não é culpa delas. Pecam por ignorância. Com a devida educação ultrapassam essa fase. Crescem.

 

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Bem, algumas. Infelizmente há muita gente que nunca chega a aprender, que não chega a crescer.

 

Não acho que seja coincidência que, no início, os episódios centrados em Ruki e Renamon também destaquem Impmon. Quando Renamon sente dúvidas em relação ao seu vínculo com Ruki, Impmon funciona como o diabo no seu ombro, dizendo-lhe os humanos são estúpidos e os Digimon estão melhor sozinhos. 

 

Existem claros paralelismos entre os dois. Tamers dá a entender que Impmon veio para o Mundo Real pelo mesmo motivo que Renamon: à procura de um parceiro humano que o ajudasse a ficar mais forte, quiçá a digievoluir. 

 

O problema é que Renamon foi ter com a campeã do jogo de cartas. Impmon foi ter com dois pirralhos. Não se sabe como é que Ai e Makoto se tornaram Treinadores de Impmon, o que é uma pena. Na minha opinião, os meninos queriam um Digimon com quem brincar. Impmon alinhou por, das duas uma: por achar que, eventualmente, eles ajudá-lo-iam a digievoluir ou, pura e simplesmente, deixou em stand-by o seu desejo de se tornar mais forte e contentou-se com ser o companheiro de brincadeiras dos dois irmãos. Isto é, até a relação azedar.

 

Em todo o caso, tanto ele como Renamon entraram em conflito com os seus Treinadores e, a certa altura, tentaram tornar-se mais fortes sozinhos. A diferença é que Renamon era suficientemente forte para derrotar adversários sozinha – até isso deixar de ser suficiente e escolher ficar com Ruki. Impmon, por sua vez, é inútil em combate. Só assusta humanos. Ainda consegue arreliar Guilmon e Terriermon quando os seus Treinadores os proíbem de ripostar mas, quando podem ripostar, enxotam-o com facilidade.

 

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Mesmo assim, o diabrete garante a toda a gente, incluindo a si mesmo, que está bem assim, que não precisa de humanos ou de digievoluir.

 

Tem piada por um lado, como referi acima, mas por outro uma pessoa fica com vontade de lhe dar um par de estalos. Porque insiste Impmon em magoar-se a si mesmo, dizendo que despreza humanos, mas sem conseguir afastar-se deles? Das duas uma, ou aceita que precisa de humanos e tenta fazer as pazes com os seus Treinadores – ou tenta procurar outro Treinador, ou pelo menos aceita a amizade do Takato e dos outros – ou segue com a sua vida, procura um sítio onde possa viver (quer no Mundo Real quer no Mundo Digital) sem precisar de digievoluir. Agora, ficar preso naquele limbo pelo seu próprio orgulho e inveja é que não ajuda ninguém, a começar por ele mesmo. 

 

O cúmulo da sua negação e teimosia manifesta-se quando Impmon é confrontado por um dos Deva, Indramon, e este lhe pergunta porque não digievoluiu ainda, se já teve parceiros humanos – como referi antes, dedo na ferida. A resposta do diabete é tornar-se ainda mais arruaceiro perante civis – os únicos que, lá está, é capaz de assustar. Quando o Indramon regressa, Impmon faz questão de enfrentá-lo sozinho, para provar que não precisa de ninguém, muito menos de humanos, nem de digievoluir. Nem sequer permite que Takato e os outros o encorajem.

 

Como seria de esperar de um Digimon fraquinho mesmo para nível Infantil perante um nível Perfeito, Impmon é massacrado, perante os olhares horrorizados dos miúdos. De início, Renamon impede os humanos de intervir – ela sabe uma coisinha ou outra sobre orgulho. Ainda assim, até ela atinge o seu limite e, em conjunto com os outros, salva a vida a Impmon – apenas para o diabrete insistir na luta, levando uma sova que o atira para o horizonte.

 

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Impmon passa os episódios seguintes escondido de toda a gente enquanto lambe as feridas no corpo e no orgulho. Nisto, abre-se uma brecha para o Mundo Digital, de onde soa uma voz perguntando-lhe se quer tornar-se mais forte.

 

O diabrete vai, então, para o Mundo Digimon na mesma altura em que o resto do elenco vai. É aqui que se encontra com um dos Deva, Chatsuramon. Pegando de novo na fábula, Chatsuramon mostra-lhe uma parra que Impmon pensa ser uma uva: induz-lhe uma ilusão onde o diabrete estaria de volta ao Mundo Real à casa de Ai e Makoto. Impmon descobre a verdade, no entanto, quando se prepara para abraçá-los e estes passam através dele. Mais: Impmon vê os seus antigos Treinadores recebendo um cachorrinho e começando imediatamente a disputá-lo, como haviam feito com o seu Digimon.

 

Pergunto-me agora se essa cena com os meninos e o cachorrinho ocorreu mesmo – se era uma transmissão em direto do Mundo Real – ou se era uma ficção criada pelo Chatsuramon. Em todo o caso, serve para provar que, mais do que um catalisador para a digievolução, Impmon apreciava os seus antigos Treinadores pelo companheirismo. E inveja amargamente Guilmon, Renamon e os outros por terem as duas coisas. 



Mais uma vez, a reação de Impmon é fechar ainda mais o coração e fazer um pacto quase literal com o diabo. Desbloqueia a sua forma Extrema, Beelzebumon, e em troca assassinará os Treinadores e os seus Digimon – que, recordo, ainda o consideram um aliado, mesmo um amigo. 

 

Já falámos um par de vezes sobre o que acontece quando Beelzebumon aparece para cumprir a sua parte do acordo, não é necessário repetir. Gostava só de chamar atenção para o aviso de Leomon, que percebe logo que o demónio digital está a ser manipulado pelos Deva. É em resposta a esse aviso que Beelzebumon dá o golpe fatal.

 

Nota para mim mesma: nunca confrontar Impmon/Beelzebumon com a verdade.

 

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Como vimos antes, perante a morte do Leomon, Takato obriga Guilmon a digievoluir para a monstruosidade que é Megidramon… mas Beelzebumon, surpreendentemente, revela-se um adversário à altura. Talvez tenha sido pelo melhor – pode ter sido o único motivo pelo qual Megidramon não chegou a usar os seus poderes de destruidor de mundos.

 

Acaba por ser impressionante, até. Há um momento em que Beelzebumon está de costas no chão, uma das mãos afastanto as presas do Megidramon, a outra desfazendo o Makuramon em partículas digitais. Mais tarde, quando Rapidmon e Taomon decidem tentar a sua sorte frente a Beelzebumon, este consegue encurralá-los, obrigando-os a cederem parte dos seus dados ao demónio digital para se libertarem. No fim, ele próprio põe Megidramon fora de combate.

 

Mesmo quando Takato recupera o juízo e desbloqueia o Dukemon, o combate com Beelzebumon continua equilibrado. Pelo meio, Dukemon derrota Chatsuramon (que viera para castigar Lopmon por se ter aliado aos humanos), mas Beelzebumon desvia os dados para si. Finalmente, como referido antes, o demónio digital fica a isto de eliminar Dukemon (com Takato lá dentro), mas é interrompido pelo Guardromon. E quando os papéis se invertem, é Juri quem impede o Dukemon de dar o golpe final.

 

O gesto da menina desarma Beelzebumon. Mais: provoca-lhe uma crise existencial de todo o tamanho. Não é a primeira vez que um humano ou um Digimon associado a um humano o trata com compaixão. Pelo contrário, os Treinadores e seus Digimon haviam passado a primeira metade de Tamers tratando Impmon com mais gentileza do que este merecia. Tais gestos, no entanto, chocavam com a carapaça do seu orgulho e inveja (isto parece ser um tema recorrente nesta série: muros, barreiras, que mantém os demais afastados e os corações fechados). 

 

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Fora preciso ter ficado quase literalmente entre a espada e a parede para Beelzebumon cair em si e perceber que estava errado em relação aos humanos. 

 

Este é o momento em que o demónio digital bate no fundo. O momento que melhor o simboliza é quando este é atacado por um bando de Chrysalimon (depois de, alguns episódios antes, ter dizimado uns quantos destes Digimon enquanto testava o seu novo poder) e regride para Impmon. Fica bastante maltratado. 

 

Como vimos antes, Ruki e Renamon dão uma corrida para ir buscá-lo antes de perderem a boleia para o Mundo Real. E ainda bem que o fizeram. 

 

Quando regressa a Shinjuku, Impmon vai à procura dos seus Treinadores. Há um momento engraçado quando o diabrete encontra o instrutor de kenpo de Jian e lhe pede que lhe leia o bilhete que Ai e Makoto lhe deixaram. Descobre assim que os meninos foram evacuados para a casa dos avós e é lá que os reencontra. 

 

Numa reviravolta surpreendente para crianças tão novas, Ai e Makoto pedem desculpa a Impmon pela maneira como o trataram. Reconhecem que as discussões entre eles, a disputa por Impmon como um brinquedo que não queriam partilhar, fizeram com que o diabrete se fartasse e se fosse embora – e enveredasse por um caminho destrutivo, mas os irmãos não sabem e, pelo menos por enquanto, não precisam de saber essa parte. Ai e Makoto chegam mesmo a mostrar um ursinho de peluche que haviam rasgado nas suas guerras. 

 

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Sinceramente, os meninos demonstram uma maturidade, uma responsabilidade pelos seus próprios actos que eu demorei anos a obter, que eu suspeito que demasiados adultos não possuam. Ai tem cinco anos no máximo! É certo que, regra geral, nestas idades atitudes egoístas e mimadas têm consequências relativamente menores – castigos, brinquedos confiscados, pais zangados. Não costumam implicar a perda de um amigo, de um companheiro de brincadeiras.

 

Impmon fez bem em deixá-los, apesar de tudo. Obrigou os meninos a sofrerem as consequências dos seus actos. A parte da inveja, do orgulho, do pacto com o diabo, do assassínio de Leomon, é que era desnecessária. 

 

Em todo o caso, Impmon perdoa-os e torna a ser o seu companheiro Digimon. Quando vê notícias da destruição provocada pelo D-Reaper na televisão, no entanto, quer juntar-se à luta. Como os meninos são demasiado novos para o acompanharem, estes ficam para trás. 

 

Antes de Impmon sair, no entanto, Makoto dá-lhe a sua pistola laser de brinquedo, para que a use “contra os maus”. Ai, por sua vez, dá-lhe um beijinho, em jeito de despedida – algo de que o diabrete não estava à espera. Enquanto se afasta, Impmon digievolui para Beelzebumon Blast Mode, com um par de asas e a pistola laser  convertida num canhão.

 

E foi assim, senhoras e senhoras, que Tamers criou a melhor sequência de digievolução de todos os tempos. Com uma pistola de brinquedo e um beijinho. Não há nada mais amoroso, não há nada mais fixe. Até a sequência da Sakuyamon fica atrás disto. É certo que só conheço este universo e o de Adventure, mas duvido que haja algo melhor do que isto.

 

 

Há que também dar crédito a Tamers por ter resistido à tentação de criar uma digievolução completamente nova para Impmon, mais convencionalmente heroica, para refletir este desenvolvimento. Beelzebumon continua a ser um demónio, continua a ter um nome inspirado por um dos nomes do diabo. Apenas ganhou algumas características menos vilanescas. 

 

Acho piada, aliás, ao contraste entre um demónio motoqueiro e os seus Treinadores, crianças pequenas e inocentes. Não me admirava, aliás, se uns anos após os eventos de Tamers, a fase de rebeldia adolescente de Ai e Makoto envolvesse motas e cabedal preto. 

 

Beelzebumon junta-se, assim, aos Treinadores no combate ao D-Reaper. Por motivos óbvios, ele é um dos mais motivados para salvar Juri – tanto como Takato ou talvez ainda mais. Conforme referido antes, ele e Culumon descobre Juri no núcleo do D-Reaper. Conseguem infliltrar-se, mas Beelzebumon e apanhado pelos tentáculos e fica inconsciente durante um par de episódios. Recupera a consciência numa altura em que o D-Reaper cria agentes novos para proteger o núcleo – e acaba por ser expulso para o exterior, onde se reencontra com Dukemon. 

 

Vimos antes que Dukemon e Beelzebumon tentam os dois abrir caminho até Juri – o desespero do segundo fica patente em cada gesto. Não ajuda o facto de o nono agente, a Bola do D-Reaper, apontar o seu olho gigante para Beelzebumon enquanto repete, usando a voz de Juri: “Beelzebumon. Nível Extremo do Impmon. O Digimon que absorveu o Leomon.” É francamente sinistro.

 

Por outro lado, sim, também fiquei zangada por o D-Reaper ter destruido a pistola laser de Makoto. Não se faz! 

 

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Como vimos antes, o esforço de Beelzebumon consegue despertar Juri do seu transe. E quando o demónio recorre ao Punho Real, consegue abrir um buraco na esfera e estender uma mão a Juri.

 

Se isto fosse uma história diferente, Juri teria sido resgatada neste momento e tudo ficaria bem. Mas isto é Tamers, em Tamers não há soluções fáceis. Como vimos antes, Juri ainda não estava preparada para perdoar Beelzebumon, para confiar nele. 

 

Infelizmente, pouco após a janela fechar, Beelzebumon é atingido pelas costas. Por momentos, o ferimento parece ser fatal – e Ai e Makoto estão a ver tudo na televisão! Ele prometera que voltaria!

 

Da primeira vez que vi Tamers, poucos episódios atrás, pensava que Beelzebumon morreria para se redimir. Esteve muito perto… A intervenção atempada de Grani salva-lhe a vida, numa altura em que este já regrediu para Impmon.

 

O diabrete não teve, assim, uma conclusão épica e triunfal para a sua história. O verdadeiro encerramento acontecerá mais tarde e será mais sereno. Antes, Ai e Makoto cuidam de Impmon enquanto este recupera da luta contra o D-Reaper. É nesta altura que os DigiGnomos lhes dão o seu próprio D-arco (só agora?).

 

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Depois de derrotado o D-Reaper, Impmon apresenta Ai e Makoto aos outros Treinadores. Imagino que para Juri, Takato, Ruki e companhia os meninos sejam a maior prova de que a bondade e compaixão que demonstraram para com Impmon não foram desperdiçados. Juri diz mesmo que está contente por Impmon ter sobrevivido – por certo porque não quereria que Ai e Makoto passassem pelo mesmo que ela passou, porque Juri sabe alguma coisa sobre canalizar traumas para ações destrutivas. Assim, perdoa Impmon.

 

O diabrete obtinha assim o seu final feliz… para imediatamente a seguir ser recambiado para o Mundo Digital, para longe dos seus Treinadores. Ai e Makoto nem sequer devem compreender os motivos. Nem no universo de Tamers há justiça…

 

Como referi antes, não considero Impmon/Beelzebumon um vilão propriamente dito. Aliás, nenhum dos antagonistas em Tamers merece ser classificado como vilão no sentido convencional do termo… mas isso é conversa para o próximo texto.

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