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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Digimon Adventure Tri – Bokura No Mirai #3

Terceira parte da análise a Bokura No Mirai. Podem ler as partes anteriores aqui e aqui.

 

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Tri não tem um epílogo à 02, mas dá um salto de alguns meses no tempo, até ao Natal. Meiko regressara a Tottori no fim do verão – viveu em Odaiba durante o quê? Dois meses? Mas compreende-se: demasiadas recordações dolorosas.

 

Fica um enigma por esclarecer: porque é que Meiko e a família vieram viver para Odaiba. A mim, ninguém me convence que não foi sugestão de Maki, para soltar Meicoomon numa área densamente povoada e colocar a Operação Reinício em marcha.

 

E por falar em Maki…

 

A agente não chega a aparecer em Bokura No Mirai. A última vez que a vimos foi em Kyousei, no fundo do Mar Negro. Terá morrido? Se morreu… bem, a sua história é deveras deprimente. Antes de Mirai, eu calculava que um dos dois – Daigo ou Maki – morreria e o outro sobreviveria. Afinal, parece que ambos faleceram…

 

…ou não? Terá Maki sobrevivido? Não é impossível… Ter-se-á tornado consorte dos Divermon, como queriam que Kari se tornasse, em 02? (*arrepios*) Regressará numa possível terceira sequela de Adventure? Se o novo vilão for Daemon, que supostamente está preso no Mar Negro desde o final de 02… seria interessante.

 

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Por outro lado, se todos os Digimon recuperaram as recordações pré-Reinício, isso significa que Bakumon lembra-se de Maki… Eish!

 

Mas regressemos ao final de Mirai. Através de um e-mail que T.K. envia a Meiko, algumas pontas são atadas. Os miúdos de 02 terão recebido alta do hospital – mas não sabemos ao certo como é que deram de caras com o plano de Yggdrasil ou, sequer, como estarão em termos psicológicos, depois de terem passado semanas aprisionados.  

 

Entretanto, no Mundo Digital, a Homeostase declarou um embargo a Yggdrasil e… é suposto sentirmo-nos descansados? Com o Dark Gennai ainda à solta, com o Alphamon ainda à solta – que nunca mais foi visto desde o ataque de Jesmon que atirou Tai e Daigo para o abismo – sabendo, agora, que a Homeostase nem sempre toma as decisões mais adequadas?

 

Não me convencem.

 

Por sua vez, no Mundo Real, a opinião pública continua desfavorável aos Digimon. Compreende-se. Tanto as autoridades como os próprios Escolhidos tornaram-se melhores, ao longo de Tri, a controlar os danos provocados pelos Digimon. Mas eles continuam a existir. Talvez muitos civis não tenham dado pela diferença.

 

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Um aparte rápido para comentar em algo que reparei há pouco tempo: a premissa inicial de Tri é muito parecida com a dos filmes d’Os Incríveis. Um elenco com vidas duplas, que fazem trabalho de heróis, mas que o público não compreende e acaba por vilanizá-los. Um protagonista que sente dificuldades em adaptar-se à vida como cidadão normal, que sente saudades do passado.

 

Tri e Os Incríveis trabalham as premissas de maneira diferente, claro. Mas Mirai dá a entender que o próximo passo de Tai será semelhante às ações da Mulher-Elástica, n’Os Incríveis 2: tornar-se um representante desses heróis incompreendidos.

 

Sora refere mesmo que Tai tomou a decisão inspirado pelas palavras de despedida de Daigo: sonha alto, constrói o futuro que desejas. Essencialmente, se não estás satisfeito com o futuro que o mundo escolheu, muda-lo tu mesmo – tal como Emma Swan disse certa vez.

 

Tem uma certa piada que a resposta de Matt a isto seja seguir a carreira espacial – só mesmo para não ficar atrás de Tai. Tem piada… mas não chega para dar credibilidade à carreira dele, na minha opinião.

 

Regressando a Tai e a Daigo, pergunto-me se a carreira dele será o único efeito da morte do segundo. Eu, se estivesse no lugar de Tai, tentaria descobrir o mais possível sobre Daigo. Procuraria a família dele, as outras Primeiras Crianças Escolhidas. E, sobretudo, tentaria descobrir o que aconteceu a Maki.

 

É possível que, por alturas do e-mail de T.K., não tenham descoberto o paradeiro da agente. Se tivessem, T.K. escreveria sobre isso no e-mail – até porque Meiko conhecia-a antes.

 

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Consta que Izzy anda a pesquisar uma maneira de aceder ao Mundo Digimon sem a ajuda dos D3. T.K. termina o e-mail dizendo que espera que, um dia, Meiko regresse com eles ao Mundo Digital…

 

…mas porque faria Meiko isso? A sua breve passagem pelo Mundo Digimon só lhe trouxe más experiências. Foi torturada pelo Dark Gennai. Dois amigos caíram no abismo por sua causa e um deles não sobreviveu. Agora nem sequer tem Meicoomon – enquanto os outros Escolhidos puderam conservar os seus companheiros Digimon, saudáveis e com as memórias intactas e tudo.

 

Tai e os outros são miúdos impecáveis, ninguém coloca isso em causa – a maneira como receberam Meiko foi exemplar. Mas, se eu estivesse no lugar de Meiko, não quereria conviver muito com eles – seria demasiado doloroso.

 

É por essas e por outras que não acredito que Meiko regresse numa eventual nova sequela de Adventure. A história dela está terminada – é a única em Tri que não deixou pontas soltas. Só se eventualmente lhe derem um segundo companheiro Digimon – o que acho pouco provável.

 

Ainda assim, os Escolhidos fazem questão de telefonar a Meiko, na véspera de Natal – na última cena de Bokura No Mirai.

 

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Gostei que tivessem escolhido essa época para terminar Tri. Remete para uma das minhas partes preferidas de 02: os episódios natalícios. E, claro, por muitas reservas que tenha em relação a esta quadra, é uma ótima altura para renovar votos de lealdade.

 

É o que Tai faz, na chamada que efetua em nome de todo o grupo – embora a maneira como Matt, Sora e os outros olham para ele dê a entender que Tai quer dizer outra coisa.

 

Seria engraçado, admito, mas não acho que resultasse a longo prazo.

 

De qualquer forma, quando Tai tropeça nas palavras, Agumon está lá para completar a frase. Porque Tai pode ser muito corajoso e amadurecido imenso ao longo de Tri, mas continua a ter dezassete anos.

 

Mirai termina com uma versão fantástica de Butter-fly, cantada não só pelo falecido Wada Kouji, mas também pelas vozes dos Escolhidos. Eu confesso, no entanto, que teria tido mais impacto se não tivéssemos ouvido já três versões diferentes da música nos últimos vinte minutos do filme: a versão normal quando Tai reaparece, uma versão instrumental do tema de Adventure original, quando Kari desbloqueia Magnadramon, e uma versão suave, agridoce, que começa durante a morte de Meicoomon e se prolonga quase até ao fim de Mirai.

 

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Não me interpretem mal, todas estas versões são fabulosas, à sua maneira. A versão agridoce leva-me lágrimas aos olhos. A minha preferida, no entanto, é a versão com o elenco todo – a única coisa que faltou no encontro do Odaiba Memorial Day deste ano foi um karaoke a várias vozes de Butter-fly. No entanto, as quatro versões surgem demasiado de seguida, acabando por se anularem umas às outras, um bocadinho.

 

Eu suspeito que, após a morte de Wada Kouji, os produtores se tenham afeiçoado a Butter-fly. Não vou dizer que não compreendo, ou que não fizesse o mesmo se estivesse no lugar deles. Mas com estes exageros acabam por fazer o oposto daquilo que, por certo, pretendiam.

 

Em contrapartida, Brave Heart acabou por ser negligenciada, relegada para os combates fúteis com Ordinemon – quando podia e devia ter sido tocada durante o momento da digievolução de Magnadramon. Eu gosto de Butter-fly, tenho vindo a gostar cada vez mais, mas Brave Heart será sempre a música de Digimon para mim. Ela merecia mais amor da parte de Tri.

 

Confesso que, depois dos créditos terminarem, no momento em que surge o logótipo de Digimon Adventure Tri, senti um baque e precisei de um momento (e de uns goles de Somersby). Parecendo que não, foram dois anos e meio da minha vida acompanhando esta história.

 

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Já aí vamos.

 

Tal como comentámos antes, Mirai dedica mais tempo a cenas de ação e não tanto ao desenvolvimento de personagens e, na minha opinião, sai prejudicado. Eu, por exemplo, queria ter visto mais manifestações de luto por Tai – sobretudo no que diz respeito a Kari. Esperava ver mais Escolhidos tentando consolá-la, não apenas T.K. – talvez dizendo-lhe que não era a primeira vez que Tai desaparecia assim, que ele poderia estar vivo.

 

Queria, sobretudo, ver interações entre ela e Matt – as duas pessoas que mais estavam a sofrer com a perda. Talvez referissem o episódio 36 de Adventure, em que Tai pedira a Matt que tomasse conta da irmã na sua ausência – e em que Matt acabara por fazer a menina chorar e não consegue impedi-la de entregar-se a Myotismon.

 

Esperava um bocadinho mais de desenvolvimento de Kari, aliás. Este existiu, não me interpretem mal, e foi mais do que tínhamos recebido até ao momento – tivemos de esperar temporada e meia e cinco filmes. Mesmo assim, soube-me a pouco. Pareceu-me mais um ponto de viragem, não uma conclusão.

 

Pode ser que o seja. Pode ser que haja mais, num projeto futuro. Eu pelo menos gostava de ver como será a relação dela com o irmão, depois de Tri.

 

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Assim, a minha opinião sobre Bokura No Mirai é mista: nem muito boa, mas não assim tão má. Assim assim. Sendo este o último filme de Tri, já posso dar a minha classificação final. Kokuhaku é um primeiro lugar claríssimo, não me canso de elogiá-lo. SaikaiKyousei estão empatados no segundo lugar: são filmes muito diferentes, difíceis de comparar, ambos bons mas não tanto como Kokuhaku. Bokura No Mirai fica a seguir, no meio da tabela.

 

Por outro lado, Ketsui tem vindo a subir na minha consideração. Compreendo agora que Mimi dificilmente teria um papel de relevo em Tri. Sendo ela brutalmente honesta com toda a gente, incluindo ela mesma, era incompatível com um enredo em que metade do conflito parte de personagens mordendo línguas e guardando segredos. Daí relegarem-na para um conflito escolar.

 

Além disso, ainda que Ketsui não avance muito na história, em retrospetiva, dá para ver indícios de aspetos que serão importantes mais à frente. Como o facto de Daigo se rever nos Escolhidos mais novos e de Maki revelar ter sentido dificuldades em crescer.

 

Soshitsu é mesmo o pior de todos, na minha opinião. Mais do que qualquer outro filme de Tri, este parece ter sido feito em cima do joelho. Sobretudo a parte final.

 

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E assim terminou Tri, pouco menos de quatro anos após os primeiros anúncios. Está longe de ser perfeita, claro, mas, ao contrário do que alguns fãs parecem recordar-se, não é pior que Adventure E é definitivamente melhor que 02. Talvez até possa ser melhor que Adventure, em certos aspetos – mas tenho de revê-la um dia destes, antes de formar uma opinião sobre isso.

 

Tri não se limita a ser um produto movido a fan service e nostalgia – pelo contrário, acaba por desconstruir esses conceitos, mostrando o lado mais sombrio de ser uma Criança Escolhida. Com personagens como Daigo, Maki e Meiko, que não colheram os mesmos benefícios que os oito de Adventure receberam. Mostrando que a Homeostase está longe de ser perfeita. E que os próprios Escolhidos podem fazer mais mal que bem e têm de tomar decisões difíceis.

 

Tri foi, sobretudo, a história de Meiko e Meicoomon, para o melhor e para o pior. Tudo começou porque elas vieram viver para Odaiba, tudo terminou quando a segunda morreu. Muitos fãs alegam que não era necessário ter acrescentando mais uma Criança Escolhida (sobretudo quando os miúdos de 02 foram excluídos da narrativa), mas eu discordo.

 

Se Meicoomon não tivesse um companheiro humano, pouco mais seria que um dos vilões da semana de Adventure ou 02 – Tri acabaria ao fim de dois filmes, no máximo. Talvez um ou outro Escolhido sentisse alguns escrúpulos em matá-la, mas acabariam por fazê-lo antes que causasse demasiados danos. Mas, como era o Digimon de Meiko, acolheram-na entre eles e, quando deram por ela, Meicoomon tinha matado Leomon, infetado os companheiros Digimon, precipitado o Reinício. E, como era o Digimon de Meiko, demoraram quatro filmes a matá-la.

 

Concordo que Meiko, enquanto personagem, nem sempre foi fácil de aturar. Mas, para ser sincera, se estivesse no lugar dela, teria cometido os mesmos erros. E provavelmente também passaria a vida a chorar.

 

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A situação de Meiko serviu, também, para desenvolver os Escolhidos de maneiras que, sem Meiko ou Meicoomon, se calhar não teriam sido possíveis – quer como reação aos acontecimentos, quer fazendo paralelismos. Como T.K., em Kokuhaku, e Sora, em Soshitsu.

 

Nesse aspeto, Tri partilha um ponto forte com Adventure: o foco nas personagens. Também partilha a desigualdade nos tempos de antena: Tai é mais desenvolvido do que qualquer um, tirando Meiko, Sora volta a ser das menos desenvolvidas, seguida de Mimi e Joe.

 

Tri, mesmo assim, saiu-se um bocadinho melhor que Adventure, pois cada Escolhido tem pelo menos um filme dedicado a si. A única exceção será Matt, até certo ponto, mas uma boa parte do seu desenvolvimento esteve interligado com o de Tai. Logo, aceita-se.

 

Se a questão de Meicoomon ficou resolvida, como vimos antes, o mesmo não se pode dizer da mão por detrás de Meicoomon: Yggdrasil. Este é, sem dúvida, o maior ponto fraco de Tri – sim, ainda mais que a questão dos miúdos de 02 que, mal por mal, não ficou por responder.

 

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Referi em análises anteriores que a motivação de Yggdrasil – um poder dentro do Mundo Digimon que não queria contacto com humanos – tinha imenso potencial. Tri, no entanto, não correspondeu. Sabemos tanto sobre Yggdrasil quanto sabíamos quando ele foi introduzido na história, em Soshitsu.

 

Fica a ideia que Yggdrasil foi enfiado a martelo em Tri, quando os digi-guionistas precisaram que um vilão por detrás das ações de Maki.

 

Além disso, conforme comentei antes, os discípulos de Yggdrasil – o Dark Gennai e o Alphamon – andam por aí à solta, sem castigo. Parece-me mais que os Escolhidos ganharam uma batalha, não a guerra.

 

E se uma batalha já teve estas consequências – um Reinício, duas antigas Crianças Escolhidas mortas, uma companheira Digimon eutanasiada – o que acontecerá a seguir?

 

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O que nos leva ao novo projeto de Adventure. O primeiro anúncio saiu poucas horas antes da estreia de Bokura No Mirai – se bem me recordo, era apenas um tweet dizendo algo como “A aventura digievoluirá de novo”. Talvez nem déssemos importância se Mirai não estivesse, conforme vimos, cheio de sequel baits.

 

Na verdade, depois dessa, não saiu mais nenhuma informação até há poucos dias, no Digimon Thanksgiving Festival 2018 – e mesmo assim foi muito pouco e existem versões diferentes pelas internetes fora. Aquilo que parece ser certo é que será um projeto cinemático, outra vez, que será mais uma sequela a Adventure e que decorrerá quando Tai e Matt tiverem vinte e dois anos – este tweet refere mesmo que estarão no quarto ano da faculdade. Os desenhadores serão diferentes dos de Tri, como podemos ver na imagem acima (que é apenas um esboço).

 

Admito que já tinha tentado imaginar os Escolhidos como jovens adultos, logo, esta premissa agrada-me, para já. No entanto, temos todos uma infinidade de perguntas sobre isto – o António fez um belo apanhado com a imagem abaixo. Eu suspeito que este projeto ainda deve demorar pelo menos um ano até ser lançado. Haverá muito tempo para especular.

 

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Uma coisa é certa: quando voltar a escrever sobre o universo de Adventure – quer sobre este novo projeto, quer uma retrospetiva sobre Adventure, 02 ou Tri – vou usar os nomes japoneses. Ao fim de três anos vendo Digimon quase sempre em japonês, tirando 02, já não me faz sentido usar os nomes americanizados. Não quando nomes como Taichi, Yamato, Hikari e Takeru são bem mais bonitos e adequados às personagens.

 

Só não comecei a usá-los mais cedo aqui no blogue por uma questão de consistência. Seria estranho ter uma parte das análises a Tri com os nomes americanizados (e foi há mais ou menos um ano que comecei a cansar-me deles) e outra com os nomes originais. Mas, agora que acabámos com Tri, isso muda.

 

Ao fim e ao cabo, é um ciclo que se encerra aqui no blogue – um ciclo que começou há precisamente três anos, no Odaiba Memorial Day de 2015, com o meu primeiro texto sobre Adventure. Só regressei a Digimon após dez anos de ausência, só comecei a escrever sobre Adventure porque descobri acerca de Tri.

 

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E a melhor parte, de longe? Esse regresso, a minha escrita, permitiram-me conhecer vários outros fãs, em Portugal e não só, online e, também, em carne e osso. Destaco, obviamente, os dois encontros do Odaiba Memorial Day Portugal a que fui, o último dos quais no fim-de-semana passado.

 

Ao contrário do que aconteceu há dois anos, desta feita, cheguei cedo e fiquei até bem depois do fim oficial. Diverti-me imenso, como não me acontecia há semanas, se não forem meses. Entre outras coisas, joguei um bocadinho de Digimon Rumble Arena 2 (mais de uma década, à vontade, desde a última vez que toquei numa PlayStation; as vezes anteriores contam-se pelos dedos de uma mão), participei nos quizes (onde não me saí mal para alguém que só conhece de passagem o universo de Adventure), competi no karaoke (não me saí por aí além mas, em minha defesa, o I Wish é difícil de cantar!).

 

Uma das minhas partes preferidas foi quando cantámos Brave Heart, alternadamente – como o elenco de Tri fez com Butter-fly, para os créditos do último filme. Eu, aliás, tinha esperança que recriássemos essa versão, mas foi melhor assim pois, como referi acima, Brave Heart é a minha música preferida de Digimon. Estou à espera do vídeo dessa performance.

 

Outro momento giro foi este:

 

 

 

Mais do que tudo, gostei de estar com outros fãs, de reencontrar o António, o Daniel e todos os outros, do convívio que se prolongou até por volta da meia-noite. Como disse acima, foi dos melhores dias que tive ultimamente. Isto… isto foi o melhor que Digimon me deu!

 

Por isso e por me ter dado tanto sobre que escrever aqui no blogue, quer sobre o bom quer sobre o mau, estarei sempre grata a Digimon e a Tri. Vou ter imensas saudades de escrever sobre estes filmes – este último deu-me um gozo especial, depois de várias semanas a braços com textos bem mais difíceis de escrever (os de Pokémon através das gerações) e sobre assuntos deveras frustrantes (o desempenho fraquinho da Seleção Portuguesa no Mundial 2018, para o meu outro blogue).

 

Em todo o caso, não ficamos por aqui em termos de Digimon, neste blogue. Como já dei a entender acima, hei de escrever sobre o novo projeto de Adventure, quando este sair. Além disso, quero começar a ver Tamers e, eventualmente, analisar aqui no blogue (acho que não é a primeira vez que falo disso aqui…). Agora que redescobri esta franquia, tão cedo não quero sair.

 

Antes de terminar, uma palavra para as oito Crianças Escolhidas de Adventure. Nestes últimos anos, apercebi-me que, em toda a ficção, não existem um elenco que eu adore mais do que estes miúdos (só mesmo as minha próprias personagens, e mesmo assim). Mais nenhum elenco alguma vez mexeu comigo desta forma, derreteu-me o coração, afligiu-me, me deu vontade, ao mesmo tempo, de gritar-lhes e de abraçá-los e protegê-los.

 

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Estes miúdos, estes Escolhidos, que cresceram comigo (mesmo que apenas no meu subconsciente) são a melhor parte deste Universo, são o motivo pelo qual adoro Tri, tal como adorei Adventure e 02. Devemos voltar a vê-los, mais cedo ou mais tarde, mas, caso isso não aconteça, foi um prazer e um orgulho.

 

Bem, penso que é tudo o que tenho a dizer sobre Tri, por enquanto – e não foi pouco. Fica só uma última palavra…

 

Dandan.

Digimon Adventure Tri – Bokura No Mirai #2

Segunda parte da análise a Bokura No Mirai. Podem ler a primeira parte aqui

 

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É nesta altura que Mirai revela finalmente o que aconteceu a Tai e a Daigo. Começamos por ver o primeiro recuperando a consciência, um pouco dorido mas, ao que parece, sem ferimentos. O homem mais velho, no entanto, aparece perante nós numa poça do seu próprio sangue.

 

Nem as Bestas Sagradas devem saber como é que os dois tiveram destinos tão diferentes. Ainda se aceitava se Mirai desse uma explicação, por fraquinha que fosse – não me chocava se, por exemplo, de alguma forma, Daigo tivesse protegido Tai do impacto. Mas assim, a seco, fica a ideia que Tai só se safou sem mazelas porque é o protagonista e tal.

 

E não havia necessidade – já ajudava se o jovem aparecesse com uns cortes na cara e talvez um pulso partido para a coisa se tornar mais credível.

 

De alguma forma, ao caírem no abismo, Tai e Daigo foram parar a uma espécie de laboratório tecnológico subterrâneo. Não se percebe se caíram diretamente para lá ou se alguém os transportou. De qualquer forma, quando as luzes se acendem e Tai olha através do vidro, vislumbramos cinco incubadoras, cada uma com uma silhueta familiar…

 

…e, quando os reconheci, festejei como um golo, com murros no ar e penso ter ouvido a audiência a explodir.

 

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Depois de consultar os computadores, Daigo informa que Davis, Yolei, KenCody e… o verdadeiro Gennai, aparentemente (embora eu, de início, tenha pensado que era Ryo, aquele miúdo que teria estado com Ken nas primeiras vezes que este foi ao Mundo Digimon), estão apenas em coma. O homem mais velho revela que, na verdade, há muito que sabia que os miúdos de 02 estavam desaparecidos. Pelos vistos, estes tinham sido feitos prisioneiros depois de descobrirem acerca dos planos de Yggdrasil.

 

Como víramos em Kokuhaku, Maki instruíra Daigo para guardar segredo acerca do desaparecimento dos miúdos. E tendo em conta que, em Kokuhaku, apareceu na posse do D3 e D-terminal de Ken, é possível que, se não tiver tido acesso direto a eles, pelo menos sempre soube onde estavam.

 

Acho que isto confirma, mais ou menos, a teoria que formulei após Saikai: Davis, Yolei, Cody e Ken terão ido ao Mundo Digimon tratar daquilo que pensavam ser um distúrbio menor. Nem sequer avisaram Kari nem T.K. De alguma forma, descobriram acerca da conspiração de Yggdrasil e não conseguiram pedir ajuda – como vimos em Soshitsu, os D-terminais não estavam a funcionar. Acabaram derrotados por Alphamon e aprisionados pelo Dark Gennai.

 

Não deixa de ter uma data de buracos. Continuo a achar que os Escolhidos mais velhos deviam ter detetado o desaparecimento de Davis e  dos outros mais cedo e feito mais perguntas a Maki e a Daigo. Temos ainda a questão das famílias: que ameaças lhes terá feito Maki para manter os pais dos miúdos calados?

 

E o que terá acontecido ao V-mon, ao Wormmon e aos outros companheiros Digimon de 02?

 

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No entanto, nesta altura do campeonato, depois de cinco filmes lidando pessimamente com a questão (quando lidavam), as minhas expectativas eram nulas. Eu receava que arrumassem a questão com duas linhas de diálogo. Por esse prisma, a maneira como encerraram esta parte da história até é aceitável.

 

Por muito que alguns de nós o desejassem (desejavam mesmo, no entanto?), Tri era a história dos oito Escolhidos originais. Não era a história dos miúdos de 02. E, no entanto, acabaram por ter um papel no enredo, por pequeno que tenha sido.

 

Dito isto, espero que um dia destes nos deem mais pormenores da aventura dos miúdos que acabou com eles aprisionados – nem que seja num CD drama ou algo do género. Também quero descobrir como é que os miúdos de 02 lidaram com o pós-Tri, mas isso é conversa para mais à frente.

 

Por outro lado, conforme referi acima, parece que o Gennai também esteve preso com os outros miúdos. Ou seja, o Dark Gennai não era o verdadeiro Gennai… o que é um alívio, sinceramente. Vou continuar a chamar-lhe Dark Gennai, no entanto.

 

Daigo explica rapidamente a Tai o papel de Maki no Reinício, acabando por fazer um mea culpa pelas ações dela. Eu não sei, no entanto, até que ponto podemos responsabilizá-lo. Como vimos aquando de Soshitsu, Maki não é Oikawa, ela sabia perfeitamente o que estava a fazer. Daigo tentara ajudá-la a lidar com a dor. Ele não tem culpa que Maki tenha mentido e afastado-se dele.

 

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O agente, no entanto, devia ter sido sincero com os Escolhidos em relação a Meicoomon e, sobretudo, em relação ao os miúdos de 02. Com a vida de crianças não se brinca.

 

Mas também Daigo está longe de ter sido a única personagem a esconder coisas e a cometer erros em Tri.

 

Havemos de falar melhor sobre Maki mais à frente. Daigo acaba por dar um conselho importante a Tai, quase sem dar por isso: “independentemente do quão difícil é, às vezes tens de tomar uma decisão. Mesmo que vá contra um amigo.”

 

Ou uma irmã, digo eu. Mas não nos adiantemos.

 

É nesse momento que aparece o Dark Gennai, rindo-se na cara dos seus prisioneiros (daqueles que estão conscientes, pelo menos). Este desliga os suportes de vida dos miúdos de 02, dizendo a Tai e a Daigo que podem enviá-los para o Mundo Real… mas o laboratório explodirá quando o fizerem. Existe uma sexta cápsula onde poderão entrar e partir também para o Mundo Real… mas só lá cabe uma pessoa.

 

Para alguém que passou cinco filmes e meio sem sequer pensar nos miúdos de 02, Tai fica genuinamente em pânico e procura desesperadamente uma maneira de reativar as incubadoras e de salvar toda a gente. O Izzy, se calhar, teria sido capaz de fazê-lo, se tivesse sido ele a cair no abismo, com Daigo.

 

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Mas, por outro lado, talvez tivesse sido demasiado esperto para cair na “armadilha” de Daigo. Sendo Tai, o homem mais velho diz-lhe para investigar a cápsula vazia, a ver se existe maneira de contactar o Mundo Real através dela – o que até nem era um mau plano, se os miúdos de 02 não estivessem a morrer.

 

Assim, Daigo encerra Tai na cápsula e ativa o lançamento.

 

A despedida de Daigo é, sem sombra de dúvida, o meu momento preferido em todo o filme – lindo e de partir o coração ao mesmo tempo. A música ajuda é certo, mas eu tenho de incluir o último discurso de Daigo na íntegra, porque é demasiado… “Eu não desisti. Vocês ensinaram-me que existe sempre algo que eu posso fazer até ao fim. O futuro continuará e ligar-se-á. Eu deixo-a a vocês. A nossa… a nossa esperança… de crescidos.” “Ouve, Yagami. Não importa quão difícil seja a realidade, não desistas nunca! Vai e construam o futuro. Sonha… alto!”

 

Adeus Nishijima-sensei, inesperado herói de Tri, que se tornou a minha personagem preferida – entre as novas apresentadas em Tri, pelo menos. Conforme comentei antes, tirando o pai de Meiko e mesmo os outros familiares dos miúdos (que, de resto, tiveram um papel mais secundário), Daigo foi o único verdadeiro aliado dos Escolhidos. O único que não tentou usá-los como peões, o único que zelo, não apenas pela vida deles, também pelo seu bem-estar, mesmo pela sua felicidade.

 

Isto apesar de ter sido bastante maltratado pelo universo de Adventure. Foi uma Criança Escolhida, mas o seu papel na vitória final frente aos Mestres das Trevas foi insignificante. Huckmon deu mesmo a entender que a Homeostase considera as Primeiras Crianças Escolhidas como um fracasso. Maki usou-o, como vimos antes. A agência para quem trabalhava virou-lhe costas. Agora, o Dark Gennai troçava abertamente dele.

 

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E, mesmo assim, Daigo não se resignou ao desprezo e ao ostracismo. Pelo contrário, lutou pelos Escolhidos mais novos até ao seu último suspiro. Deixou o seu contributo na luta contra Yggdrasil – maior do que, se calhar, o próprio Daigo pensava – e morreu como um herói.

 

Eu confesso que, há um ano ou dois, nunca imaginaria que a história dele terminaria assim. Não depois de ter passado a primeira metade de Tri na sombra de Maki.

 

Confesso que pensei muito no Daigo durante o resgate da equipa de futebol juvenil, que ficou presa numa gruta na Tailândia. Vi várias semelhanças entre Daigo e o treinador que velou pelas crianças, que sacrificou o seu bem-estar pelo delas – que não tinham mais ninguém – tendo sido determinante para que todos sobrevivessem. Um daqueles casos em que a realidade consegue ser ainda melhor que a ficção.

 

Por outro lado, na análise a Kyousei, referi que me identificava com Daigo, com o seu instinto protetor em relação aos miúdos. Seria eu capaz de dar a vida pelos Escolhidos?

 

Claro que sim! Por aqueles miúdos, tudo!

  

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OK, romantismos à parte, acho que nenhuma pessoa decente deixaria um miúdo como Tai morrer no seu lugar – é certo que ele já não é uma criança, mas não deixa de ser um menor. Sobretudo se estivéssemos tão maltratados como Daigo, que se calhar nem sequer sobreviveria à viagem de regresso ao Mundo Real.

 

Eu seria capaz de passar o resto da análise a falar sobre Daigo, mas o filme não termina com ele. Ainda há muito sobre que escrever.

 

Entretanto, no Mundo Real, Kari desperta no quarto de Izzy (?) com desejos suicidas. T.K., à sua cabeceira, passa-se, como seria de esperar. Suplica-lhe que não guarde a dor para si – não vá a Escuridão invadi-la de novo ou, pior, a jovem passar das palavras aos actos.

 

Mirai, no entanto, quase estraga o momento de novo ao pôr Patamon subitamente envergonhado e a tapar os olhos.

 

Eu só dou graças por não terem feito uma dessas depois da cena do sacrifício de Daigo.

 

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Em todo o caso, depois desta, Kari e T.K. vislumbram Ordinemon através da janela. A jovem resolve saltar da cama e ir juntar-se à luta, acompanhada por T.K. Mas antes dão de caras com uma data de Digimon invasores. Este prossegue com os seus jogos psicológicos com os Escolhidos, começando por atirar um Devimon ao MagnaAngemon – uma jogada brilhante de tão baixa.

 

O MagnaAngemon – uma forma Perfeita bastante forte, que, se bem se lembram, derrotou sozinho o Piedmon, um Mestre das Trevas – em teoria, seria mais do que capaz de derrotar Devimon – que é forte para um nível Adulto, mas não deixa de ser um Adulto. No entanto, tendo em conta o seu historial com o Devimon, compreende-se que tenha tido dificuldades. Não tanto por ele mesmo – ele foi Reiniciado, não se deve lembrar de Devimon – talvez por sentir o medo de T.K.

 

Como se não bastasse, o Dark Gennai ainda se vira para Kari e culpa-a  pela “morte” do irmão – consequência de ter rejeitado a Homeostase, segundo ele.

 

Como disse acima, tão baixo que se torna brilhante.

 

Eu, nesta altura, gritava para o monitor:

 

– Defende-te, miúda! Dá-lhe um murro, ou assim! Faz qualquer coisa.

 

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Mas Kari fica calada, deixando o Dark Gennai rir-se na cara dela. Tem de vir T.K. defendê-la.

 

Estão a ver? É por cenas como esta que esta rapariga me irrita, por muito que a adore! É tão passiva, pelas Bestas Sagradas! Quando foi Sora a ser assediada pelo Dark Gennai, ela não deixou de dar luta. O Joe, claro, não esteve com meias medidas e atirou-se mesmo a ele (eu não me canso desse momento…). Até Meiko, que tem ar de mosquinha-morta, tem mais coragem e espírito de luta do que parece.

 

Não vou implicar muito mais com Kari, pois esta toma, mais tarde, aquela que deverá ser a atitude mais corajosa da sua vida. De qualquer forma, as provocações do Dark Gennai fazem-na entrar numa espécie de dimensão telepática, cheia de cubos que, ao que parece, guardam memórias. Aqui, temos um cameo do Wizardmon – é uma pena não termos visto o verdadeiro Wizardmon, ressuscitado pelo Reinício, mas não acho que tenha sido por acaso que o subconsciente de Kari o escolheu como guia.

 

A jovem encontra, então, aquilo que penso ser as consciências de Meicoomon e Gatomon. A primeira chora como uma criança pequena que não percebe o que lhe está a acontecer, que só quer ir para junto da mãe ou figura equivalente. Gatomon confirma que Meicoomon é quem mais está a sofrer. Afirma ainda que “toda a luz está dentro de Meicoomon” – uma frase que já conhecíamos dos primeiros trailers e sinopses de Mirai.

 

Depois de sair daquela espécie de transe, Kari e T.K. telefonam logo a Izzy para lhes contar – este, claro, desvenda logo o mistério. Os três vão ter com os outros Escolhidos (não chegamos a descobrir como acaba o combate do MagnaAngemon com Devimon), numa altura em que estes estão outra vez a apanhar uma tareia da Ordinemon.

 

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Huckmon volta a falar do Reinício, o que tira os miúdos do sério – sobretudo Matt. O jovem está determinado a liderar os Escolhidos para que salvem o mundo à maneira deles, contra tudo e contra todos, o que é muito bonito e inspirador… mas a verdade é que o que estavam a fazer não estava a resultar.

 

Felizmente, Izzy tem uma ideia. Lembram-se do campo de dados que Izzy criou em Kokuhaku, para preservar as memórias dos companheiros Digimon, antes do Reinício? Bem, parece que o plano dele não foi completamente mal-sucedido. De alguma forma, no combate com os outros companheiros Digimon, imediatamente antes do Reinício, o campo de dados ficou incorporado em Meicrackmon. Assim, depois do Reinício, Meicoomon tem guardado em si as memórias, não só dos companheiros Digimon.

 

No meio disto tudo, as boas recordações que Meicoomon guardava de Meiko foram trancadas, daí ela ter-se tornado instável e agressiva, sobretudo quando se sente ameaçada.

 

Se acho isto rebuscado e um bocadinho Deus Ex-Machina? Sim. Se acho isto mais rebuscado e mais Deus Ex-Machina que, por exemplo, os dispositivos digitais terem-se ativado sozinhos para imobilizar VenomMyotismon e para travar a explosão do Apocalymon, em Adventure? Não de todo.

 

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Sempre achei que Izzy podia ter impedido os Digimon de serem Reiniciados se tivesse tido mais tempo. Que, afinal, ele tenha conseguido cumprir uma parte do seu propósito é aceitável, na minha opinião.

 

No que diz respeito às recordações dos companheiros Digimon, pelo menos. Que o campo de dados tenha guardado as memórias de todos os Digimon, no entanto, já me parece demais.

 

Mesmo a parte de Meicoomon possuir as suas boas recordações bloqueadas é um bocadinho confusa. Meicoomon sempre teve um comportamento errático. Mais durante a segunda metade de Tri, é certo, mas não me pareceu que a ligação entre Meiko e Meicoomon tenha chegado a desaparecer. Afinal de contas, Raguelmon protegeu a jovem a certa altura, durante Kyousei – isso seria possível se Meicoomon não recordasse os seus bons momentos com a jovem?

 

Enfim.

 

O plano de Izzy é, então, desbloquear essas memórias – na esperança de que, quando se recordasse de Meiko, Meicoomon estabilizasse, Ordinemon se desfizesse e todos vivessem felizes para sempre. As memórias, no entanto, estão protegidas por palavra-passe – Izzy calcula que essa palavra seja um termo significativo para Meicoomon.

 

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Não se demora muito a descobri-la: “dandan”, um termo do dialeto de Tottori (a terra natal de Meiko), a primeira palavra que ouvimos Meicoomon pronunciar em Tri, a primeira palavra que Meiko lhe ensinou.

 

Isto remete para Aikotoba, a música dos créditos de Kyousei, reutilizada pela Crunchyroll para encerrar os episódios de Bokura No Mirai, tirando o último. O refrão reza algo como “Mesmo que o tempo nos separe, estaremos sempre unidos pelas nossas palavras secretas de amor”. A chave para as memórias dos Digimon estavam debaixo do nosso nariz desde Kyousei.

 

Bem jogado, Tri. Bem jogado.

 

De resto, palavras podem ser, de facto, uma prova de intimidade, de cumplicidade: alcunhas, diminutivos, fala à bebé, piadas privadas, referências. Foi um bom toque aplicá-lo a um laço entre Escolhido e companheiro Digimon.

 

Antes da estreia de Mirai, cheguei a desejar que os comapnheiros Digimon não chegassem a recuperar as memórias pré-Reinício. Na altura, antecipava um final um pouco mais cor-de-rosa para Tri. Se os Digimon permanecessem amnésicos, teriam boas relações com os companheiros à mesma, mas não seria a mesma coisa. Os Escolhidos teriam de viver para sempre com aquela consequência do Reinício – que, por sua vez, resultara dos seus próprios erros. E tornaria as cenas do “último dia no Mundo Real” ainda mais poderosas.

 

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No entanto, Mirai teve um final mais triste do que estava à espera. Assim sendo, reverter os efeitos do Reinício é aceitável.

 

E é uma cena lindíssima, diga-se – começando com a espetacular versão de Shouri Zen No Theme. Só é uma pena que, nas memórias dos Digimon, só tenham usado cenas de Tri – podiam ter recriado uma ou outra cena de Adventure ou 02, tal como fizeram em filmes anteriores.

 

O desbloqueio das recordações faz com que os Digimon regressem às formas Extremas e com que Gatomon desperte e lute para se libertar de Ordinemon. Ao mesmo tempo, ao recuperarem as memórias, os Digimon invasores começam a bater em retirada, regressando ao Mundo Digital.

 

Vendo que a recuperação das memórias está a afetar Ordinemon, que esta está a tentar ganhar controlo sobre si mesma, Huckmon digievolve para Jesmon e liberta Gatomon. Kari dá finalmente uma para a caixa ao mergulhar no rio para salvar a sua companheira. O Reinício é cancelado.

 

Meicoomon, no entanto, continua sob a forma de Ordinemon. Os miúdos não têm nem cinco segundos para respirar – Yggdrasil começa de imediato o vazio deixado por Gatomon.

 

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Perante isto, Meiko, farta de assistir à tortura da sua companheira, entra no rio aos protestos. Acaba por se colocar na rota dos tentáculos, ou lá o que são, de Ordinemon. Da primeira vez, Matt consegue desviá-la. Da segunda (ou terceira?), a jovem tropeça e Agumon tenta protegê-la.

 

É nesse momento que alguém, regressado dos mortos, desvia-os no último segundo.

 

Este miúdo sempre soube como fazer uma entrada.

 

Tal como acontecera quando Tai caíra no abismo, quando este reaparece, os outros Escolhidos demoram um minuto a reagir. O próprio Tai olha para cada um deles, como que certificando-se de que estão todos bem. Ele e Matt olham-se longamente. No fim, o segundo atira-lhe os óculos, resmungando:

 

– Estás atrasado!

 

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Não tens emenda, pois não Ishida?

 

Tai põe os óculos na testa pela primeira vez em Tri, forma-se o Omegamon. Preparavam-se todos para acabar com o problema à moda antiga, de uma vez por todas…

 

…até Kari, de todas as pessoas, meter um travão naquilo.

 

A jovem dirige-se ao irmão, faz-lhe ver que Ordinemon não é um inimigo como todos os outros, é uma companheira Digimon, uma vítima, não merece morrer daquela forma.

 

Não surpreende que seja Kari a lembrar-lhes daquilo. Ela desbloqueou a sua primeira digievolução graças ao sacrifício de Wizardmon. Nos seus primeiros dias no Mundo Digimon, viu imensos aliados morrerem pelas Crianças Escolhidas. Em 02, teve como colegas miúdos particularmente escrupulosos no que tocava a matar Digimon. E, cinco minutos antes, tinha Gatomon presa em Ordinemon.

 

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O que é de surpreender é que, para defender este ponto de vista, Kari tenha enfrentado Tai. Tai, o onii-chan que acabara de recuperar dos mortos. A jovem chega a tocar-lhe no ombro, fazendo-lhe um bocadinho de chantagem emocional.

 

Tai, no entanto, não se deixa manipular. Ele acabara de ver Daigo dando a vida por ele e de enviar os Escolhidos mais novos para o hospital – coisas que aconteceram porque Daigo tivera demasiado medo de ir contra Maki. Toda a situação com Meicoomon só chegara àquela fase, aliás, porque vários deles (começando por Tai, até certo ponto, passando por T.K. e os companheiros Digimon, acabando em Meiko) tiveram demasiado medo de fazer o que era certo. Em parte, porque não queriam magoar aqueles que amavam.

 

Tai não podia deixar o problema de Ordinemon por resolver só para não magoar a irmã, por muito que a amasse.

 

Matt afirma mesmo que eles já não eram os Escolhidos, agora em eles quem Escolhia. Já não eram as crianças que tinham sido atiradas para o Mundo Digital, sem lhes perguntaram se era isso que queriam, para travarem as batalhas que a Homeostase não conseguia travar sozinha. A Homeostase, aliás, andava a dar provas de que, às vezes, toma decisões questionáveis e já nem sequer precisava da ajuda de humanos.

 

Os Escolhidos já tinham ido contra a vontade tanto de Yggdrasil como da Homeostase, queriam afirmar-se como um poder independente – mas, como diria o tio Ben, quanto maior o poder, maior a responsabilidade. Se os Escolhidos não queriam ser peões, tinham de ser líderes e tomar decisões difíceis.

 

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Em sua defesa, Kari reage como uma mulher adulta. Provavelmente nunca perdoará Tai por isto, mas percebe que o irmão não toma esta decisão de ânimo leve. Assim, em vez de lavar as mãos do assunto, a jovem aceita fazer a sua parte – fazendo Gatomon digievoluir para Magnadramon.

 

À semelhança de muitos fãs, eu estava à espera de abraços e lágrimas aquando do reencontro dos irmãos. Nesse aspeto, foi duro ouvi-los falando tão desapaixonadamente um com o outro. No entanto, foi m momento significativo para ambos. Tínhamo-los visto, sobretudo nos dois primeiros filmes de Tri, pisando ovos à volta um do outro, com medo de falarem abertamente. Sempre me pareceu, por exemplo, que o discurso de Kari perante Joe, em Ketsui, era essencialmente aquilo que a jovem queria dizer ao seu onii-chan mas não tinha coragem.

 

É nestas alturas que compreendo Albus Dumbledore, quando dizia que é preciso muito mais coragem para fazer frente a amigos do que a inimigos.

 

Este é um momento de viragem na relação de Tai e Kari, portanto. Será que ela, de facto, guardará ressentimento para sempre por causa disto? Essa possibilidade parte-me o coração um bocadinho. Estou certa, aliás, de que os Escolhidos interrogar-se-ão durante muito tempo, talvez para sempre, se poderiam ter feito as coisas de maneira diferente. Talvez acabem por descobrir que, afinal, até havia uma forma de salvarem Meicoomon.

 

Espero, no entanto, que todos eles, sobretudo Kari, cheguem à conclusão de que tomaram a melhor decisão que podiam naquelas circunstâncias e que se perdoem, tanto uns aos outros, como a si mesmos.

 

Mas estamos a adiantar-nos um bocadinho.

 

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Quando nem mesmo Omegamon, acompanhado pelos seis outros Digimon em nível Extremo, chegam para derrotar Ordinemon, o dispositivo digital de Meiko ativa-se, fazendo com que os outros seis Digimon cedam o seu poder a Omegamon, dando-lhe uma nova forma: Omegamon Merciful Mode. este desenvolvimento não chega a ser explicado, mas eu tenho uma teoria: é uma mensagem de Ordinemon, talvez mesmo da própria Meiko, pedindo-lhes que terminem o seu sofrimento.

 

E é precisamente isso que Omegamon faz: um ato de misericórdia. As reações dos Escolhidos, imediatamente antes do golpe final, são de partir o coração. Vários deles mal conseguem controlar as emoções. T.K. nem sequer consegue olhar. Destaque para o ligeiro toque de Tai na mão de Matt – faz-me lembrar o clímax de Saikai, em que fora Matt a amparar o amigo.

 

É impossível, aliás, não reparar na evolução de Tai desde esse filme. O jovem passara a primeira metade de Tri quase toda sem saber o que fazer. Mas agora era o mais firme e determinado de todos. Agora tomara, finalmente, uma decisão e levá-la-ia até ao fim, doesse a quem doesse.

 

Após o golpe final, Meiko tem uma visão de Meicoomon. Vêmo-la feliz como nunca a tínhamos visto, despedindo-se de Meiko com um último “dandan”. A jovem descontrola-se por um segundo, mas consegue recompôr-se o suficiente para retribuir a despedida. Meicoomon partia, não renasceria porque morrera no Mundo real, mas estava finalmente em paz.

 

Só depois de a sua companheira Digimon se desfazer em partículas digitais é que Meiko deixa as lágrimas escorrer livremente.

 

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Entretanto, no Mundo Real, com a morte de Ordinemon, a Escuridão desvanece do céu, as distorções desaparecem – mas os danos de Ordinemon permanecem nos edifícios e infraestruturas.

 

Na verdade, Mirai não nos dá nem um minuto para respirarmos de alívio por o problema Meicoomon estar, finalmente, resolvido. Somos logo brindados com o irritante evil laugh do Dark Gennai que, de alguma forma, apoderara-se da partícula de Apocalymon – a tal que infetou Meicoomon quando ela ainda estava no Digiovo. Vêmo-lo desaparecendo através de um portal, falando em Daemon ou Diaboromon.

 

Bem, obrigadinho Tri por não teres demorado a informar-nos que tudo isto foi em vão – ou quase! Não dava para guardar o óbvio sequel bait para depois dos créditos, ou assim?

 

Havemos de regressar a isto.

 

Já estamos perto do fim do filme, mas ainda há muito para dizer. Não saiam daí, vou tentar publicar a terceira parte logo à noite. Até lá... 

 

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Pokémon através das gerações - La belle Kalos #1

Hoje retomamos a série "Pokémon através das gerações". Eu queria falar sobre Pokémon X e Pokémon Y no mesmo texto, mas exagerei um bocadinho e o Sapo Blogs literalmente não me deixou publicar aquela monstruosidade. Assim, a análise a estes jogos virá em duas partes. Esta é a primeira, a próxima vem amanhã.

 

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Depois de ter falhado a quarta e a quinta gerações dos jogos Pokémon, desta feita pude acompanhar o lançamento da sexta geração, desde os primeiros anúncios revelando os starters e os Lendários-mascote. Não cheguei a jogá-los eu mesma até alguns meses depois do lançamento de Omega Ruby e Alpha Sapphire, mas ia vendo “Let’s play”'s no YouTube. Não é de todo a mesma coisa que jogar nós mesmos, mas sempre dá para ficar com uma ideia

 

A sexta geração foi a primeira a ser hospedada pela Nintendo 3DS. Como tal, veio com uma impressionante melhoria estética. O tema da geração, aliás, é precisamente “beleza”.

 

Eu gosto em particular dos gráficos em 3D. Era algo que eu desejava para os jogos principais havia cerca de uma década – desde que combatera contra um amigo meu no seu jogo de Pokémon Colosseum, usando a minha equipa da FireRed. Os Pokémon tornam-se completamente diferentes quando ganham três dimensões. Os criadores deram-se ao trabalho de dar animações únicas a cada um dos setecentos e vinte e um Pokémon – fazendo com que ganhassem uma camada extra de personalidade.

 

Por exemplo, já referi aqui no blogue que os gestos elegantes da Gardevoir fizeram-me gostar ainda mais dela. Adoro, também, a maneira como o Torchic corre de volta para o seu lugar, depois de um ataque.

 

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Por outro lado, adiantando-me um pouco à sexta geração, o efeito estende-se a Pokémon Go, já que o jogo reutiliza as animações destes jogos. Alguns exemplos de que me lembro agora são a Roselia – que, de vez em quando, faz gestos de menina de claque – o Hitmontop – que parece estar a dançar –  e o Snorunt – que se tornou irresistível ao aparecer a tremer de frio.

 

Adiantando-me ainda mais, quando saiu o vídeo que apresentava os segundos estágios dos starters de Sun/Moon, acho que não teria achado tanta graça ao Dartrix e, sobretudo, à Brionne (que tem um desenho um pouco deslavado) se não fossem as animações de combate e do Pokémon Refresh.

 

O que nos leva a uma das funcionalidades introduzidas nesta geração: o Pokémon Amie. Esta é parecida com o Nintendo Dogs – essencialmente fazemos festinhas aos Pokémon e alimentamo-los com queques (que ganhamos jogando mini-jogos). Se o fizermos vezes suficientes, os níveis de afeição aumentam, trazendo vários benefícios.

 

  

Não surpreende que tenham criado esta funcionalidade. Afinal de contas, a larga maioria dos Pokémon são criaturas engraçadas, equivalentes a animais de estimação (embora mais inteligentes, pelo menos no meu headcannon). Dito isto, uma coisa é fazer festinhas a um Eevee, um Pikachu, mesmo a um Absol ou a um Charizard. Quando começamos a fazer festinhas a um Pokémon como um Jynx, ou a um Lendário como o Mewtwo, torna-se esquisito – embora o Pokétuber TrueGreen7 tenha uns vídeos irresistíveis sobre isso, como podem ver acima.

  

Tirando essa parte, na minha opinião, o Pokémon Amie é uma funcionalidade muito bem vinda. Não só por nos dar mais maneiras de interagirmos com os nossos Pokémon, mas também pelos benefícios em combate. Um Pokémon com afeição elevada provoca alterações no diálogo do combate, faz mais critical hits, pode desviar-se de ataques ou, então, evitar ser derrotado por 1 HP – tudo por amor a nós.

 

Uma das primeiras vezes que isto aconteceu comigo e com a minha irmã foi da primeira vez que jogámos (mais ou menos a meias) Alpha Sapphire. A certa altura, andei a brincar com o Blaziken dela no Pokémon Amie. Mais tarde, quando ela estava a combater contra o Steven, já no último Pokémon, o Blaziken aguentou um ataque ficando apenas com 1 HP. Pôde, portanto, dar o golpe final para a vitória depois dessa.

 

Um aparte rápido só para referir que comprámos Alpha Sapphire na mesma altura em que adótamos a Jane, a nossa cadela. Eu ainda estava na fase de adaptação e sentia-me culpada por andar com mais vontade de fazer festinhas a criaturas virtuais e não à minha cadela, de carne, osso e muito pêlo.

 

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Hoje, obviamente, já não tenho esse problema. Hoje em dia, uma coisa que faço é usar o Amie e o Refresh para provocar ciúmes à Jane. Ponho-me a dizer coisas como “Ah que menino bonito! Queres festinhas?”, ela pensa que estou a falar com outro cão e ladra.

 

Fechando o aparte, estes benefícios do Amie podem ser considerados facilitismo, não sem razão. Ainda assim, pelo menos nesta geração, usar o Amie dá algum trabalho, torna-se moroso e entediante – sempre compensa o colinho que o jogo dá.

 

Além disso, é bom para a parte sentimental. Olhemos para a situação de que falei neste texto, que fez com que o Vaporeon se tornasse o meu Pokémon preferido. Alguns de nós, se calhar, imaginavam que estas coisas ocorriam porque os Pokémon em questão gostavam mesmo de nós. Na minha opinião, foi uma boa jogada transformarem isso numa funcionalidade dos jogos.

 

Havemos de voltar a falar de facilitismo mais à frente. Conforme disse antes, a sexta geração foi a primeira em que experimentei a parte online dos jogos. Não fiquei desiludida. Muitos dizem mal do GTS, não sem razão – eu fico impressionada pela lata das pessoas que oferecem um Magikarp em troca de um Mewtwo. No entanto, se propusermos trocas decentes – isto é, oferecermos Pokémon de valor/raridade equivalente ao que queremos – a coisa funciona bem.

 

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Uma novidade nesta geração é o Wonder Trade, em que as trocas são feitas ao calhas, é uma lotaria completa. Eu acho super divertido, chega a tornar-se viciante. É certo que, na maior parte das vezes, só obtemos Pidgeys ou equivalentes, mas de vez em quando apanham-se coisas interessantes, como Pokémon com bons IVs ou Egg Moves.

 

Eu, por exemplo, afeiçoei-me a uma Lopunny que recebi, com o Fire Puch, o Ice Punch e o Thunder Punch. Também já me calharam um par de shinies, o que é sempre fixe, um Volcarona em troca de um Baltoy de nível 1 (numa altura em que este ainda não tinha sido lançado oficialmente) e um Slakoth chamado… Lay-Z (melhor alcunha de sempre!).

 

Outra funcionalidade de que gosto muito é do Pokémon Bank – que me permitiu, pela primeira vez em imenso tempo (se não for desde sempre), reunir Pokémon de várias gerações no mesmo sítio. Neste momento, tenho Pokémon da quinta à sétima geração – e só não tenho da primeira e da segunda porque ainda não completámos os jogos da Virtual Console.

 

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Sei que, tecnicamente, isto tem sido possível ir passando Pokémon de uma geração em diante desde a terceira. Há fãs que ainda têm os Pokémon que usaram em Ruby&Sapphire. Eu, no entanto, só pude fazê-lo com o Bank e, pura e simplesmente, adoro-o. Ter Pokémon que usei em jogos diferentes, com quem vivi histórias diferentes, todos juntos, disfrutando do paraíso do Mohr no Pokémon Pélago. E quero tentar guardá-los enquanto puder.

 

Outra das novidades destes jogos diz respeito à Mega Evolução: uma evolução temporária, que requer um objeto especial e que só ativada em combate, depois de se formar um laço entre treinador e Pokémon.

 

Lembra-vos alguma coisa?

 

Aqui entre nós, o possível plágio de Digimon não me incomoda. Pelo contrário, se era para copiar alguma coisa de Digimon, copiaram um dos meus aspetos preferidos da franquia. A cena em que o jogador ativa o Mega Ring traz inclusivamente um bocadinho da euforia e epicidade das digievoluções.

 

  

Só uma mão-cheia de Pokémon é que obteve Mega Evoluções. Não surpreende que a larga maioria deles sejam dos mais populares entre os fãs. Os starters de Kanto (o Charizard teve direito a duas Mega Evoluções, porque… Charizard) e de Hoenn (com os remakes era inevitável), o Mewtwo (também com direito a duas, porque o Mewtwo ainda não era suficientemente OP), o Lucario, a Gardevoir e o Gallade, o Gengar, o Salamence… mas não o pobre Flygon, consta que por bloqueio criativo de Ken Sugimori (a sério?!?).

 

Conforme referi na resposta a um comentário no último texto desta rubrica, nunca pensei assim muito muito nas minhas Mega Evoluções preferidas. Se tivesse de escolher neste momento, escolheria a Mega Lopunny – em parte por aquela de que falei acima e também porque me faz lembrar a protagonista de Millian Dollar Baby (apesar de nunca ter visto esse filme) – e o Mega Rayquaza – que ganhou um visual muito mais intimidante e feroz.

 

Na verdade, na minha opinião, quase todas as Megas Evoluções foram bem sacadas, deram uma versão mais impressionante aos Pokémon em questão. As únicas exceções são o Mega Sableye (pouco imaginativo) e o Mega Slowbro (até dá pena…).

 

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Mas chega de falar das funcionalidades, passemos aos jogos em si. Conforme referi antes, vi várias pessoas jogando X&Y desde que os jogos saíram – sobretudo Pokétubers, mas também a minha irmã. No entanto, só a joguei eu mesma em junho de 2016.

 

Um bocadinho de contexto. Numa altura em que já andava a fazer planos para esta série de textos, sobre as várias gerações de Pokémon, a minha ideia inicial era jogar X depois do Euro 2016. Conforme referi antes, sabia que ia andar em baixo quando a Seleção Portuguesa, inevitavelmente, fosse expulsa do Europeu. O jogo seria uma boa distração.

 

A minha irmã, no entanto, disse-me que também queria jogar X em julho, quando entraria de férias. Ela acabaria por mudar de ideias e nem sequer jogar, mas eu aceitei começar o meu jogo um mês antes do previsto – na véspera do início do Europeu.

 

Isso acabou por me dar a ideia de seguir um tema nas alcunhas dos meus Pokémon, em X. Todos receberam nomes de jogadores da Seleção Nacional.

 

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Eu sei. Isto é mesmo o cúmulo da Sofia.

 

Sem problemas com isso, porque acabou por ser uma das melhores ideias que tive. Tornou ainda mais especial a minha aventura por Kalos – que, por sinal, foi inspirada em França, mas só me apercebi da coincidência uns dias depois. Eu e a minha mini-Seleção à conquista de França à nossa maneira, tal como a Seleção de carne e osso.

 

O facto de, no fim, Portugal ter ganho o Europeu tornou tudo ainda melhor (o emblema que nós recebemos após vencermos a Liga é, aliás, muito parecido com o logótipo do Euro 2016). Aquela equipa tornou-se ainda mais especial por ter sido a que usei durante o primeiro campeonato de seleções que ganhámos – um dos períodos mais felizes da minha vida. Por serem uma espécie de avatares dos jogadores que nos deram o nosso primeiro título.

 

Foi um jogo divertido ir adicionando Pokémon à minha equipa e tentando descobrir, de entre os 23 Convocados, quem melhor se encaixava. Começando pelo meu starter, o Chespin: um Pokémon muito defensivo, que ganha o tipo Luta quando evolui.

 

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Ora, tendo em conta que o Bruno Alves era defesa e fizera isto na semana anterior, não foi difícil decidir a alcunha.

 

O segundo membro da minha equipa foi um Fletchling, que evoluiria para Tallonflame. Chamei-lhe Renato Sanches, por vários motivos. Primeiro, porque é vermelho e baseado numa ave de rapina – embora se pareça mais com um falcão do que com a águia, que serve de mascote ao Benfica, onde Renato se formou. Segundo, durante a sexta geração, o Tallonflame era um dos Pokémon mais populares no modo competitivo – ao mesmo tempo, nos meses anteriores ao Europeu, surgiu um hype como nunca tinha visto em torno do Renato. Foi uma coisa parva – eu mesma acabei por me deixar levar, porque o miúdo até correspondeu durante o Euro 2016.

 

Curiosamente, a popularidade do Renato e do Tallonflame começou a decair mais ou menos na mesma altura: alguns meses após o Europeu. O Tallonflame, porque a habilidade Gale Wings foi nerfada (este termo irrita-me um bocado) na sétima geração. O Renato, porque foi aquecer bancos para o Bayern de Munique e nunca mais conseguiu voltar ao nível de antes.

 

Ao usar um Tallonflame, acabei por me aperceber de outras semelhanças com o Renato. Os dois melhores stats do Tallonflame são o Attack e, sobretudo, o Speed. Caracteriza-se assim por ataques rápidos e letais – tais como famosas arrancadas do Renato, uma das quais dando-nos na vitória perante a Croácia.

 

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Ao mesmo tempo, o grande problema do Tallonflame é a sua defesa – ou melhor, a falta dela. O Tallonflame tem mesmo de se valer dos seus ataques rápidos e letais, porque não consegue aguentar mais do que dois ou três golpes. De maneira similar, o Renato ainda cometia vários erros defensivos comprometedores – por falta de experiência, sobretudo.

 

Não consigo mesmo pensar num Pokémon que melhor represente o Renato.

 

Também usei um Dedenne. Chamei-lhe Raphael Guerreiro, porque ambos têm ar inofensivo. O Dedenne é literalmente um ratinho fofinho (podiam era ter-lhe dado umas cores diferentes, para que não parecesse tanto um Raichu em miniatura). O Raphael é baixinho e tem cara de miúdo. Mas ambos são bem mais fortes do que parecem. O meu Dedenne é, pelo menos. E o Raphael tem um talento incrível, conquistou-me logo nos seus primeiros jogos pela Seleção.

 

Para os restantes membros da minha equipa, as comparações são um tudo nada mais forçadas. O Nani, por exemplo, não tem muitas semelhanças com um Vaporeon, tirando o facto de ambos estarem entre os meus favoritos há muitos anos.

 

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Da mesma maneira, só chamei Quaresma à minha Meowstic porque uma das alcunhas de Ricardo Quaresma é Harry Potter. E como o tipo Psíquico sempre foi o mais associado a magia, sobretudo antes de introduzirem o tipo Fada… Como era uma fêmea, usei só o apelido do jogador.

 

Por fim, chamei Rui Patrício ao meu Absol. Afinal de contas, tal como este Pokémon aparece sempre antes de acontecer uma coisa má, quando um guarda-redes aparece muito em jogo, é mau sinal. Além disso, em ambos os casos, quando as desgraças acontecem, eles acabam por arcar com a culpa, muitas vezes. É mesmo possível que sejam mais recordados pelas tragédias que não conseguiram evitar, do que por aquelas que conseguiram.

 

Isso, felizmente, não acontece com Rui Patrício. Pelo contrário, ele possui literalmente uma das suas defesas imortalizada em estátua.

 

De qualquer forma, tal como expliquei antes, prefiro pensar no Absol como um guardião do que com um profeta de desgraças. E, acho que todos concordam, Rui Patrício encaixa-se bem nesse papel. (Pena é ninguém ter feito o mesmo por ele na semana passada...)

 

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Existem uns quantos outros Pokémon, que estiveram perto de ser titulares na minha equipa, que também receberam nomes de jogadores da Seleção. Dos starters de Kanto, escolhi o Squirtle, mas só o mantive na minha equipa até evoluir para Wartortle. Não precisava de outro Pokémon fisicamente defensivo com o Chespin na equipa. Tal como o meu starter, o Squirtle também recebeu o nome de um central. Entre Pepe e José Fonte escolhi o segundo, por motivos óbvios.

 

Também apanhei um Honedge, a quem chamei William Carvalho. Por fim, tive um Ducklett a quem chamei… Éder.

 

Sim, isto aconteceu antes da final do Europeu. Usei esse nome precisamente porque Éder era o patinho feio da Seleção, mas eu tinha esperanças de que se transformasse num cisne durante o Euro – ele pelo menos dizia, meio a brincar meio a sério, que podia tornar-se o melhor marcador da prova.

 

Infelizmente, Fernando Santos deixou-o no banco durante a maior parte do Europeu. Eu fiz o mesmo com o “meu” Éder: deixei-o no PC, preferi usar um Vaporeon.

 

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O Éder de carne e osso, no entanto, arranjou outra maneira de se transformar num cisne – e nenhum de nós alguma vez esquecerá essa transformação.

 

Depois da final, fiquei com pena de não ter dado titularidade ao meu Ducklett, confesso. No entanto, para compensar, treinei-lhe os E.V.s (tarefa bastante facilitada nesta geração) para poder, pelo menos, usá-lo na Battle Maison e afins.

 

Mas chega do meu sentimentalismo – por agora, pelo menos. Falemos dos jogos X&Y em si. Depois de uma quinta geração bastante arrojada e inovadora em termos de conteúdo e enredo, os jogos X&Y recuperam fórmulas antigas: rivais, oitos ginásios, equipa vilanesca com administradores e líderes, Elite 4, Campeão (ou melhor, Campeã), sem desvios.

 

Bem, quase.

 

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Uma das poucas variações da fórmula, na verdade, diz respeito ao facto de termos um total de quatro rivais. A perspetiva de explorar uma região integrada num grupo de amigos até é agradável, não o nego – sobretudo durante a parte de defrontar a equipa vilanesca. No entanto, nenhum destes quatro é particularmente interessante.

 

A única de de gosto é de Shauna, que parece nutrir um fraquinho pelo protagonista, independentemente do género. Destaque para a famosa cena na varanda do Parfum Palace, com os fogos-de-artifício, em que no fim o mordomo nos oferece o TM para… o Protect.

 

É sempre giro ver a Game Freak piscando o olho aos fãs mais velhos.

 

No geral, prefiro que os criadores se limitem a um ou dois rivais, minimamente desenvolvidos e interessantes. Felizmente, tem sido essa a regra após X&Y.

 

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O tema desta geração é “Beleza” e os jogos X&Y exploram bem esse conceito – começando pelas melhorias gráficas e pela capacidade, até esta altura inédita, de personalizarmos os nossos avatares. “Kalos”, o próprio nome da região, aliás, significa “beleza” em grego.

 

É de facto uma região lindíssima – pudera, é baseada em França. Estive lá de férias no ano passado e posso confirmar que os criadores capturaram bem o ambiente e o estilo arquitetónico. O Parfum Palace é provavelmente o maior exemplo. Apesar de ter sido baseado no Palácio de Versailles, que eu não cheguei a visitar, encontrei muitas semelhanças entre ele e os castelos que visitei: como o Chatêau de Chambord, o de Villandry (cujos jardins são muito parecidos aos do Parfum Palace) e o de Chinon.

 

Há quem acuse os produtores de se terem baseado apenas na perspetiva turística de França (outros dizem o mesmo sobre Alola, da sétima geração). Talvez seja por isso que os jogos possuem tantas referências à Idade Média, à nobreza e realeza, com várias personagens usando títulos nobiliárquicos e com a arrogância associada a sangue azul…

 

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…isto apesar de a França ter sido dos primeiros países da Europa a implementar a República. Enfim.

 

X&Y aborda também o lado negro deste conceito, não apenas a parte glamourosa. Isto da beleza é tudo muito bonito, literalmente, mas é efémero: flores murcham, a chuva dá lugar ao sol, as pessoas envelhecem e morrem. Não surpreende, assim, que, numa sociedade tão centrada na beleza, surjam extremistas como Lysandre. Pessoas tão revoltadas com a efemeridade da beleza que fazem de tudo para preservá-la eternamente… ou para destruir todos aqueles que se considerem “feios”.

 

Consta que Lysandre, o líder dos Team Flare, a equipa vilanesca destes jogos, não foi sempre assim. Até costumava ser boa pessoa e ajudar os mais necessitados. No entanto, acabou por se cansar dos vícios da Humanidade e assim se tornou no misantrópico que conhecemos em X&Y.

 

É uma motivação como qualquer outra, mas existe por aí muito boa gente misantrópica que não se põe a destruir o mundo. Além disso, Lysandre chega a ser hipócrita, pois está disposto a sacrificar Pokémon inocentes, alegando que eles, de qualquer forma, estavam destinados a ser escravizados pelos humanos.

 

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Deve ser, deve.

 

As motivações de Lysandre acabam por ser parecidas com as de Cyrus, na quarta geração, mas, a meu ver, fazem mais sentido no conceito de X&Y. Além disso, os paralelismos com Hitler e os nazis são um bocadinho óbvios – como se o termo “Holo Caster” nos deixasse duvidar...

 

Lysandre distingue-se de outros líderes vilanescos porque encontra-se bem integrado na sociedade de Kalos. Conforme vimos em Generations, ele é essencialmente o Steve Jobs da região, bom amigo de Diantha, a Campeã, e Sycamore, o Professor. Durante uma boa parte do jogo, Lysandre fala dos seus planos para “criar um mundo lindo”, tenta recrutar o protagonista para os seus planos, sem que uma sobrancelha se erga. Mas é um choque para o elenco (não necessariamente para a audiência) quando Lysandre anuncia as suas intenções via Holo Caster.

 

Agora que penso nisso, não sei se esse anúncio terá sido a decisão mais inteligente – é como se estivesse a pedir para ser travado. Ou o Steve Jobs lá do sítio não é assim tão inteligente ou temos uma falha no enredo (aposto mais na segunda).

 

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Conforme referi quando escrevi sobre Generations a ascensão se Lysandre mostra o lado negro e corrupto da sociedade de Kalos. Eu gostava de ter visto mais reações a esta revelação – uma maior reflexão por parte de Sycamore, Diantha e outros membros da sociedade sobre os motivos pelos quais Lysandre ganhou tanto poder. Porque é que ninguém se apercebeu das suas verdadeiras intenções. Talvez chegassem à conclusão de que este é o lado negro de toda uma cultura centrada em algo tão efémero e relativo como beleza.

 

Este é um dos motivos pelos quais estes jogos precisavam de uma sequela. Ou, pelo menos, de uma versão melhorada.

 

Havemos de regressar a esta ideia... amanhã. Vamos também falar, entre outras coisas, das melhores personagens e histórias destes jogos, sobre coisas que não resultaram tão bem e, claro, sobre a música. Não percam!

 

Pokémon através das gerações - Cinquenta sombras de Black&White

Eis-me aqui continuando a minha rubrica “Pokémon através das gerações”... mais de um ano depois do último texto. Pensar que a minha ideia inicial era publicar todas as análises (às seis primeiras gerações e a Pokémon Go) no verão de 2016…

 

Hoje em dia, que demoro séculos a escrever e a publicar um texto, acho impressionante ter conseguido publicar análises (com um tamanho considerável) às três primeiras gerações em menos de um mês.

 

Mas não quero falar do passado. Neste momento, quero ver se termino esta série ao longo dos próximos meses – ou pelo menos publicar dois ou três textos, a contar com este. De qualquer forma, neste último ano consegui, finalmente, acabar de jogar Sun. Uns meses mais tarde, joguei Ultra Moon assim que saiu. Como tal, esta rubrica incluirá uma análise à sétima geração.

 

E com um bocadinho de sorte, hei de conseguir publicá-la antes de sair a oitava geração. É por isso que eu preferia que os próximos jogos ainda demorassem algum tempo a sair. Por isso… e porque quero adiar a inevitável compra da Nintendo Switch o mais possível.

 

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Mas falemos sobre os jogos de Unova, os últimos a serem lançados na Nintendo DS. Como tenho imenso a dizer sobre esta geração, resolvi analisá-la em dois textos. No de hoje, o foco principal serão os jogos Black&White. No texto de amanhã, falaremos sobretudo sobre Black2&White2.

 

Esta geração – sobretudo os primeiros jogos, Black&White – foi das mais polarizantes de toda a franquia. Mais ou menos como a terceira. Tínhamos visto no texto anterior desta rubrica que a quarta geração não inovou por aí além, apoiando-se muito nas gerações anteriores, apresentação uma região confusa e uma história que deixou muito a desejar – embora a mitologia e os lendários em si sejam interessantes.

 

A geração que se seguiu foi a antítese completa.

 

À semelhança do que a terceira geração fizera até certo ponto, a quinta geração fez tábua rasa à franquia, sobretudo nos primeiros jogos Black&White. Estes são capazes de ser os jogos mais isolados da série principal até ao momento – com pouquíssimas referências às gerações anteriores e Pokémon cem por cento inéditos até ao post-game. Em nenhum dos jogos desta geração, aliás, é impossível obter o Pikachu sem ser transferido de outros jogos (não sabia que isso era legal…).

 

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Junichi Masuda disse, na altura, que isto foi intencional: “Temos miúdos que jogaram Diamond e Pearl e adultos que cresceram com Red e Blue. Quando esses jogadores combatem, alguns saberão mais sobre as respetivas fraquezas que outros. Nós quisemos que todos começassem do zero e liderassem equipas que nunca tivessem treinado antes.

 

Depois de uma geração com pouquíssimos Pokémon completamente novos, conforme vimos antes, faz sentido que Masuda e os demais criadores tenham querido fazer algo diferente. Falando por experiência própria, quando estreio um jogo, às vezes é difícil resistir à tentação de usar Pokémon que já conheço bem, em vez de tentar fazer uma equipa com Pokémon novos. Em Black&White não existe esse risco, para o melhor e para o pior.

 

Apesar de a ideia ser boa, no entanto, a meu ver, a execução deixou um bocadinho a desejar.

 

Esta geração apresentou-nos 156 Pokémon novinhos em folha, mas, como conjunto, estes são capazes de ser os de que menos gosto de toda a franquia. Um dos principais motivos prende-se com o facto de, apesar de tecnicamente serem Pokémon inéditos, na prática, muitos reciclam conceitos de Pokémon já bem conhecidos, sobretudo da primeira geração. Tal como vimos antes, todas as gerações têm equivalentes ao Pidgey, ao Ratatta, ao Pikachu. A quinta geração, no entanto, vai mais longe.

 

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Admito que, em alguns casos, os novos são melhores. Ninguém gosta muito do Trubbish e do Garbodor, mas gosto mais deles do que do Grimer e do Muk, que, conforme expliquei antes, são apenas massas disformes e nojentas. Por sua vez, o Drilbur e o Excadrill são melhores Pokémon inspirados em toupeiras que o Diglett e o Dugtrio. Por fim, pode haver quem argumente que o Zorua e o Zoroark são uma reciclagem do Ditto, mas acho que todos concordam que são muito mais fixes.

 

A maior parte, no entanto, parecem versões deslavadas de Pokémon antigos. Como os Woobat e Swoobat, substituindo a família dos Zubat (ninguém gosta muito do Zubat, mas este ao menos tem uma excelente evolução final); os Audino substituindo a Chansey; os Foongus e Amoongus que, tal como os Voltorb e Electrode, se confundem com Poké-bolas; as famílias do Roggenrola e do Timburr, que partilham muitas características com a família do Geodude e do Machop, respetivamente; o par Troh e Sawk fazem lembrar o par Hitmonlee e Hitmonchan; Boufalant e Alolomola são tão parecidos com o Tauros e o Luvdisc que muitos pensaram serem evoluções dos últimos, respetivamente. E estes são apenas aqueles de que me lembro agora.

  

Dentro do universo, estes conceitos repetidos podem ser casos de evolução convergente – não falo da evolução típica em Pokémon, antes em evolução darwiniana (que foi acrescentada ao cânone da franquia na sétima geração). Trocando por miúdos, Pokémon sem ancestrais comuns e habitando em regiões muito distantes umas das outras (e já foi confirmado que Unova está muito longe das demais regiões) acabam por desenvolver características comuns ao adaptarem-se a ambientes similares. Por exemplo, o Zubat e o Woobat pertencerão a linhas evolutivas muito distantes, mas, como tiveram de se adaptar ao ambiente das cavernas, tornaram-se parecidos.

 

Por contraste, adiantando-me um bocadinho de novo, as formas de Alola são um exemplo de evolução divergente. Por exemplo, um Vulpix normal e um Vulpix de Alola têm muitas coisas em comum, mas o segundo teve de se adaptar às montanhas nevadas de Alola, logo, ganhou um tipo novo.

 

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Não sei se algum dia num futuro distante, quando fizerem remakes da quinta geração, irão incluir a minha teoria da evolução convergente no cânone oficial. Porque, tirando isso, as semelhanças que listei acima parecem-me mais falta de imaginação do que outra coisa qualquer. Se queriam criar um jogo só com Pokémon novos, podiam ter criado mais conceitos novos, funções novas, em vez que reciclarem categorias antigas.

 

Para além desta questão, temos uma série de Pokémon que parecem estar lá só para encher chouriços, como o Basculin, o Alolomola e o Maractus. Também temos uns quantos com desenhos que, não sendo horríveis, não gosto muito: como o Munna e Musharna, o Darumaka (tem cara de parvo), a família do Solosis e do Tynamo, o Ferroseed e Ferrothorn, o Elgyem e o Beheeyem, o Stunfisk, o Shelmet, o Heatmor.

 

Os starters, por sua vez, são a meu ver os menos apelativos de todas as gerações até agora. O único de que gosto – e mesmo assim não por aí além – é da família do Snivy. A família do Tepig é a terceira de seguida com o tipo Fogo/Luta e, comparada com o Infernape e o Blaziken, é a pior.

 

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Voltamos, também a ter um número excessivo de lendários – ainda bem que isso mudou na geração seguinte, apesar de tudo. Tirando o trio Reshiram, Zekrom e Kyurem, não sou grande fã de nenhum deles. As Swords of Justice, mais uma vez, parecem-me uma versão deslavada das bestas de Johto. Por sua vez, os génios da meteorologia são redundantes depois do trio Groudon/Kyogre/Rayquaza. Também não gosto do desenho deles – embora saiba que foram inspirados nos kamis da mitologia japonesa.

 

Como podem ver, existem muitos Pokémon de que não gosto nesta geração mas aqueles de que gosto, gosto a sério.

 

A começar pelos Lendários-mascote do jogo, Zekrom e Reshiram – sobretudo pelo conceito e história por detrás deles. Estes foram outrora um único dragão, que ajudou dois irmãos a criar e a governar Unova. Estes dois irmãos, no entanto, acabaram por se voltar um contra o outro. Supostamente porque um era a favor da verdade e o outro a favor dos ideais – eu acho que esta é uma outra maneira de dizer que um era mais para o cínico e realista, enquanto outro era idealista e sonhador. Em todo o caso, como os irmãos não se entendessem, o dragão dividiu-se em dois, cada um tomando um dos lados no conflito.

 

Esta história faz-me lembrar a lenda da criação de Roma, também por dois irmãos que se tornam inimigos. É por esse motivo que costumo chamar Romulus e Remus ao Zekrom e ao Reshiram, respetivamente.

 

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Estes dois dragões representam, assim, o yin e o yang: verdade e ideais, realismo e idealismo. Na minha opinião, representam também qualquer par de visões distintas do mundo: direita versus esquerda na política, determinismo versus livre arbítrio, religião versus ciência, Cristiano Ronaldo versus Lionel Messi.

 

Da maneira como vejo as coisas, aliás, a grande lição desta geração, sobretudo dos jogos Black/White é que este género de visões raramente são… bem, preto no branco. Duas teorias opostas nem sempre se excluem uma à outra – muitas vezes, complementam-se. Destaquemos as citações de Drayden – “I can sympathize with some of that you say, but I can’t forgive the way you reject everything else!” (reproduzida de forma excelente em Generations) – Alder – “Even if we don’t understand each other, that’s not a reason to reject each other. There are two sides to any argument. Is there one point of view that has all the answers?” – e N – “It’s not by rejecting different ideas, but by accepting different ideas that the world creates a chemical reaction. This is truly the formula for changing the world.” O tempo só tem tornado estas mensagens ainda mais relevantes, sobretudo nesta era de instabilidade política em vários países e de discussões infinitas nas internetes.

 

O que nos leva ao enredo dos jogos. Outra das coisas que caracteriza este geração, sobretudo Black&White, é o facto de a história tomar prioridade como nunca antes – ao ponto de mexer com a fórmula habitual dos oito-ginásios-equipa-vilã-Elite-4-Campeão. Foi um risco que a Game Freak decidiu correr, algo que eu aplaudo. Ainda que goste de muitos aspetos da história de Black&White, conforme veremos adiante, existiram uns quantos de não foram muito bem executados.

 

Como é do conhecimento geral, a equipa vilã é o Team Plasma que, em Black&White, faz campanha pela libertação dos Pokémon – em vez de deixá-los na posse de humanos, obrigados a lutar entre si para benefício desses humanos.

 

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Esta sempre foi uma das maiores críticas à franquia, de resto: promover, alegadamente, a crueldade animal.

 

Ainda que as acusações não sejam cem por cento descabidas, duas coisas. Primeiro, qualquer pessoa decente, crianças incluídas, sabe fazer a distinção entre realidade e fantasia.

 

Segundo, a franquia esforçou-se, desde o início, por passar a mensagem de que os-Pokémon-são-nossos-amigos, sobretudo na série animada. Logo nos primeiro episódios, Ash, o protagonista, leva um sermão quando pensam que este obrigou o Pikachu a lutar até ao limite das suas forças; treinadores que tratam os Pokémon como meras ferramentas, que os negligenciam, maltratam e/ou abandonam, são vilanizados; praticamente todos os Pokémon que Ash adiciona à sua equipa fazem-no de livre vontade; quando querem partir, é o próprio Ash que os liberta – com muitas lágrimas à mistura, incluindo da audiência.

 

Ainda assim, regressando à quinta geração, foi uma jogada corajosa por parte da Game Freak criar o Team Plasma. Obrigou tanto a audiência como os próprios jogos a refletir sobre a premissa básica da franquia, mesmo a questioná-la. Esta é, até à data, a geração mais introspetiva em Pokémon, tanto pelos dilemas éticos como pelo que referi antes sobre visões em conflito. E, apesar de toda a gente garantir a pés juntos, eu incluída, que não joga Pokémon pela história, o enredo uma das coisas que dá personalidade aos jogos e às gerações, conforme julgo ter afirmado antes.

 

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Ainda assim, mais do que a história propriamente dita, aquilo que se destaca nesta geração são as personagens: mais desenvolvidas do que em qualquer jogo anterior. Começando pelos nossos rivais.

 

Bianca e Cheren não são os meus preferidos, mas são interessantes e encaixam-se bem no tema dos jogos. Cheren é o rival mais típico: ambicioso, determinado a sagrar-se Campeão. Representa os ideais. Chega a ser um pouco arrogante, a levar-se demasiado a sério. Perto do fim do jogo, começa a questionar esse propósito e a descobrir que existem outras formas de se forte para além de, apenas, ganhar combates.

 

Bianca, por sua vez, é a menos capaz do grupo, incluindo o protagonista. No início do jogo é bastante insegura e anda algo perdida, sobretudo quando o Team Plasma lhe tenta roubar o seu Munna, ao perceber que todos em seu redor são mais fortes do que ela. Representa a verdade. No entanto, acaba por aceitar as suas próprias limitações e encontra o seu propósito como assistente da Professora Juniper.

 

No que toca a esta última, gosto particularmente da sua interação com o seu pai. Este não gosta da ideia de ter a filha, ainda adolescente, aventurando-se sozinha pelo mundo. Chega a segui-la até Nimbasa com intenções de trazê-la de volta a casa. Bianca consegue dissuadir o pai com a ajuda da líder do ginásio local, Elesa.

 

Na verdade, o único problema que tenho com este par de rivais é o facto de termos de combatê-los demasiadas vezes.

 

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Já que referimos Elesa, falemos dos líderes de ginásio: muito mais desenvolvidos que em qualquer jogo anterior, nesta geração. Todos têm uma ocupação para além dos ginásios e praticamente todos contribuem para o enredo – ajudando o protagonista resolvendo problemas causados pelos Plasma, dando informação importante ou, pura e simplesmente, servindo de mentores aos treinadores novatos. E, claro, o ponto alto é quando aparecem no castelo do Team Plasma, tal como reproduzido em Generations.

 

Já aí vamos. Antes, temos de falar da personagem mais importante da quinta geração, indiscutivelmente: N. N é uma personagem que não se encaixa perfeitamente em nenhuma das categorias típicas dos jogos. Pode ser considerado um rival, mas não no sentido habitual de ver quem é o melhor treinador. Pode ser considerado um líder vilanesco, mas é apenas uma marioneta do verdadeiro vilão. Pode ser considerado um Campeão, mas esse papel é desempenhado oficialmente por Alder. E o combate final com N não serve para determinar quem é o melhor treinador da região – serve para decidir o destino de toda Unova.

 

Comecemos pelo princípio. N terá sido encontrado em tenra idade por Ghetsis vivendo entre Pokémon selvagens. Dizem que N nasceu com o dom de entender a linguagem dos Pokémon. Eu, no entanto, acredito que ele pura e simplesmente desenvolveu essa capacidade por ter vivido entre Pokémon durante a idade em que os humanos aprendem a comunicar.

 

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De qualquer forma, esta capacidade adequava-se aos propósitos de Ghetsis. Assim, este acolheu-o e criou-o em isolamento, em contacto apenas com Pokémon maltratados por humanos – precisamente para que pensasse que humanos e Pokémon não se deviam misturar. N foi também educado pelos sete Sábios do Team Plasma (a melhor tradução que encontro para “sages”), Ghetsis incluído, para se tornar o herói da lenda, que se aliaria a Reshiram ou a Zekrom – a marioneta perfeita para quando Ghetsis e o Team Plasma começassem a fazer campanha pela libertação dos Pokémon.

 

Suponho que esteja na altura de falar do Mamoswine na sala: a campanha do Team Plasma é apenas uma desculpa para obrigar as pessoas a separarem-se dos seus Pokémon – para que ninguém lhes faça frente quando, como praticamente todas as equipas vilanescas, tentarem a dominação mundial.

 

Muitos fãs detestaram esta reviravolta no enredo e eu concordo com eles, pelo menos em parte. À primeira vista, parece um cop-out, como dizem os anglo-saxónicos: os argumentistas terão tido medo de ir até ao fim na questão da libertação dos Pokémon, logo, à última hora, terão decidido que era tudo a brincar.

 

No entanto, não se pode dizer que não tenham existido indícios da falsidade do Team Plasma. Só o facto de os próprios membros possuírem Pokémon e fazerem-nos combater pela sua campanha levanta suspeitas. Logo após o primeiro ginásio, vemo-los maltratando um Munna indefeso para usarem a sua… névoa de sonho?... para manipular as mentes das pessoas, obrigando-as a adotarem a sua filosofia pacifista. E, no clímax da história, um dos membros do Team Plasma admite que o castelo que se ergue na Liga Pokémon (já lá vamos) foi construído por Pokémon roubados e obrigados a trabalhar até à exaustão.

 

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Além disso, o recurso a retóricas demagógicas para ganhar apoiantes e alcançar o poder é algo que acontece na vida real. Veja-se a maneira como o atual Presidente dos Estados Unidos foi eleito: apelando aos privilegiados, que confundem a igualdade e a perda desses privilégios com opressão.

 

Não que esteja a equiparar Trump a Ghetsis. Não acho que o primeiro tenha inteligência para conceber e colocar em prática esquemas semelhantes ao do segundo. Acho mais provável que Trump seja a marioneta, não a mão por detrás dela.

 

Mas estou a desviar-me.

 

Na verdade, aquilo que salva toda esta história é mesmo o facto de N e os seus seguidores acreditarem sinceramente na mensagem que pregam. O jovem tem o coração no lugar certo, mas age limitado pelos vieses que Ghetsis lhe impôs. Conforme uma das irmãs adotivas dele afirma, “não existe nada mais belo nem mais aterrador que a inocência”.

 

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Existe um membro do Team Plasma em Black/White que dá a entender que, se a organização tivesse tentado tomar o poder e separado as pessoas dos seus Pokémon pela força – como fariam as organizações vilanescas de jogos anteriores, se calhar – as pessoas fariam finca-pé e virar-se-iam automaticamente contra eles. Mesmo que o Team Plasma conseguisse tomar o governo (?) de Unova, o povo nunca os aceitaria e tudo faria para boicotá-los.

 

Em vez disso, o Team Plasma procurou apelar ao coração das pessoas através de oradores, como N, que acreditavam sinceramente na mensagem que pregavam. Conseguiram fazer com que muitos se separassem de livre vontade dos seus Pokémon – ou pelo menos plantaram dúvidas nas mentes deles.

 

Há que lhes dar crédito. Apesar das intenções malévolas, obrigaram as pessoas – tanto no universo de Black&White como a comunidade de fãs de carne e osso – a refletir sobre a premissa básica dos jogos.

 

Só descobrimos acerca da manipulação de Ghetsis no clímax do enredo, após a Elite 4. Nesta altura, já há muito que N se aliara a Reshiram ou Zekrom, consoante a versão. Derrotara a Elite 4 antes de nós. Chegamos no preciso momento em que N derrota Alder, o Campeão de Unova, e o Castelo do Team Plasma se ergue.

 

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Na minha opinião, a cena do castelo é um bocadinho melodramática, mas o Team Plasma é isto: muita parra e pouca uva, muito show-off para esconder o facto de não passarem de criminosos vulgares – os apoiantes diretos de Ghetsis, pelo menos.

 

É também nesta altura que aparecem os líderes de ginásio para… não exatamente salvar o dia, mas para ajudar. E tal como referimos antes, é só um dos momentos mais fixes de toda a franquia.

 

Chegamos, assim, à sala do trono, onde se encontra N: pronto para tomar o controlo de Unova e ordenar a libertação dos Pokémon. Quando entra o seu dragão – Reshiram em White, Zekrom em Black – a nossa Dark ou Light Store, respetivamente, ativa-se e aparece o outro dragão para ser capturado.

 

A maneira como o jogo quer desesperadamente que capturemos Zekrom ou Reshiram, consoante a versão, é algo caricata – sobretudo porque, na altura, era inédita. Não só o dragão tem um índice de captura elevadíssimo como permanece disponível para combater de novo mesmo que o derrotemos. Temos ainda um NPC que oferece Ultra Balls. Consta que a única forma de o jogo prosseguir sem que o dragão seja capturado é termos um PC cheio – e, mesmo assim, pode voltar a ser capturado no post-game.

 

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Eles queriam mesmo que nós e N recriássemos a rivalidade dos irmãos fundadores de Unova. O único motivo pelo qual não tentaria saltar a parte em que capturo o dragão é mesmo porque gosto demasiado da simbologia deste combate: um confronto de ideologias aparentemente opostas, uma disputa pelo destino de Unova.

 

Recuando um bocadinho, no entanto, depois de se capturar o dragão, o jogo oferece a hipótese de incluí-lo de imediato na equipa, enviando outro Pokémon para o PC no seu lugar. Isto também era inédito na altura. Mas é uma pena que só tenham implementado essa funcionalidade para capturas comuns duas gerações mais tarde.

 

Dá-se, assim, o combate com N. Quando este é derrotado, ele estaca: (não era suposto isto acontecer. N achava que tinha a razão do lado dele, que nós é que estávamos errados. Seria possível que estivesse enganado? Que tanto ele como nós tivéssemos razão?)

 

Por sua vez, Ghetsis, perante a derrota da sua marioneta, descarta N de imediato de revela as suas verdadeiras intenções – para choque tanto do filho adotivo como de Alder e Cheren. Pela primeira vez, Ghetsis decide tomar o assunto nas próprias mãos e enfrentar-nos ele mesmo.

 

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Durante muito tempo, Giovanni foi o meu vilão preferido em Pokémon. No entanto, depois de ficar a conhecer o enredo desta geração, Ghetsis roubou-lhe o lugar. O homem é pura e simplesmente pérfido, um completo manipulador. Pegou numa criança inocente e manipulou-a durante anos para usar como peão (e muitos especulam que, assim que Ghetsis deixasse de precisar de N, o jovem seria… descartado). Ghetsis tentou, também, manipular um povo inteiro e não foi completamente mal sucedido. Numa cronologia alternativa, Ghetsis tentaria ainda manipular Giovanni… mas estou a adiantar-me.

 

De alguma forma, N tem presença de espírito para nos curar os Pokémon à distância, antes do combate com Ghetsis – imenso respeito! Se eu tivesse acabado de descobrir que o meu pai adotivo era um sociopata e que toda a minha vida fora uma mentira, não sei se capaz de funcionar normalmente.

 

Quando conseguimos travar Ghetsis, somos brindados com o seu mau génio. Não sei qual das duas versões do vilão é a mais assustadora: a versão calma, persuasiva, que nos faz acreditar que nós é que estamos errados. Ou a versão descontrolada, que não aceita a derrota, insulta sem piedade o próprio filho adotivo, que ameaça e chega mesmo a agredir uma menina de onze anos…

 

...e estou a desviar-me outra vez.

 

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Após Ghetsis ser levado sob custódia (para ser resgatado pela Shadow Triad mais tarde), N sofre, naturalmente (no pun intended) uma crise existencial de todo o tamanho. No fim, decide partir. Sabemos que passará os dois anos seguintes a reavaliar a sua vida, a ver o mundo em liberdade, tal como é, sem os vieses impostos por Ghetsis.

 

Depois disto – ou seja, no post-game – não há muito para fazer (e o salto de quase dez níveis entre a equipa de Ghesis e os primeiros treinadores depois da Liga é um bocadinho ridículo). Looker regressa e pede-nos ajuda para procurar e prender os Seis Sábios. Teria sido fixe se desse para combater com cada um deles, mas limitamo-nos a encontrá-los, a ouvir-lhes os monólogos e a ver Looker prendendoos. Tirando isto e umas quantas novas localizações, é um post-game fraquinho.

 

Felizmente, os jogos seguintes compensam nesse capítulo.

 

Antes de partirmos para esses, uma palavra sobre o visual de Hilda, a protagonista feminina destes jogos. O guarda-roupa dela é exatamente aquilo que sempre gostei de vestir – sobretudo quando era mais nova. Boné que faz rabo-de-cavalo, top, colete (adoro coletes!), ténis ou botas com atacadores. Só trocava os calções por calças de ganga – por algum motivo, as protagonistas femininas em Pokémon estão contratualmente proibidas de usar calças…

 

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E ficamos aqui por hoje. O resto da análise à quinta geração virá amanhã. Continuem desse lado!

Digimon Adventure Tri - Kyousei #3

Terceira parte da análise a Kyousei. Podem ler as partes anteriores aqui e aqui.

 

Chegamos à parte que dói a sério. Começando pelo momento em que Meiko atinge o seu limite e pede aos amigos que matem Meicoomon.

 

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Quando vi o filme pela primeira vez, este pedido atingiu-me como um murro no estômago. Em parte porque, na minha opinião, é um sacrilégio. Não se mata um Digimon ligado a um Escolhido, não se faz. Mas sobretudo porque sofria do mesmo viés dos veteranos: acreditava que o elo entre Meiko e Meicoomon acabaria por salvá-la.

 

Mas, conforme temos assinalado ao longo deste texto, os sinais estão todos lá. Os veteranos insistindo que Meiko deve acreditar na sua parceira, Meiko alienando-se cada vez mais. Tudo o que tinham feito até ao momento só piorara a situação. Naquela fase, estavam apenas a prolongar o sofrimento, não apenas de Meicoomon, também de Meiko.

 

Tai é o primeiro a compreender e a aceitar a decisão. Compromete-se a eliminar Meicoomon por misericórdia, segundo os termos dos Escolhidos – não os da Homeostase ou de Yggdrasil. Porque este género de decisões também faz parte dos deveres de um Escolhido.

 

Os outros veteranos têm mais dificuldade em aceitar a decisão. Há que recordar que, na cronologia de Tri, os eventos de Kokuhaku ocorreram poucos dias antes. O Reinício e as suas consequências ainda estavam frescas na memória. Ninguém pode censurá-los por estarem reticentes em matar um companheiro Digimon.

 

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Mas acabam por aceitá-lo. Até mesmo Matt.

 

No entanto, ficam-se pelas intenções. Começa agora um dos momentos mais dolorosos que vi até ao momento, em Digimon. Depois de os amigos acederem ao pedido de Meiko, esta desata a correrem em direção ao confronto entre os Digimon. Não se sabe ao certo porquê – talvez para estar ao lado de Meicoomon nos seus últimos momentos, talvez para morrer com ela. Em todo o caso, Tai e Matt vão atrás dela. Daigo também, depois de instruir os outros para se manterem afastados.

 

Jesmon escolhe este momento para lançar o seu ataque especial, Un Pour Tous. Este deixa Raguelmon fora de combate, mas também abre fissuras no solo. Uma delas deixa Tai de um lado, Meiko e Matt do outro. Quando o solo começa a colapsar, Tai ordena silenciosamente a Omegamon que salve Matt e Meiko.

 

Eis o motivo para a derrota fácil dos outros Digimon, antes: se algum deles estivesse ainda apto, poderia ter salvo Tai.

 

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Assim, Daigo é o único em condições de tentar socorrer o jovem. O seu grito, “Yagami!”, ficou-me nos ouvidos durante dias depois de ver o filme pela primeira vez. No entanto, nem ele nem Tai são suficientemente rápidos. O chão colapsa debaixo dos pés de ambos, rochas caem sobre eles.

  

Depois de a poeira assentar, apenas sobra uma fissura fina e os óculos de Tai.

 

Choque. Silêncio.

 

Da primeira vez que vi o filme, nem sequer reparei que Daigo também tinha caído. Só no dia seguinte, enquanto tomava as primeiras notas para esta análise e me pus a pensar no efeito que a “morte” de Tai teria em Daigo, é que me apercebi que não me lembrava de ver o agente depois de o jovem cair.

 

E só há relativamente pouco tempo é que me apercebi que Jesmon e Alphamon desaparecem depois da queda de Tai.

 

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No rescaldo imediato da queda, a maior parte dos Escolhidos olha, especada, incapaz de processar o que acabou de acontecer. Kari, por sua vez, avança em direção à fissura, em estado catatónico, balbuciando pelo seu onii-chan. Apenas Nyaromon se apercebe de que algo se passa.

 

A desorientação de Nyaromon atingiu-me particularmente (o que sentirão os Digimon quando sobre uma digievolução negra?). Recordemo-nos que ela foi Reiniciada. Não sabe acerca das capacidades sobrenaturais da sua companheira humana. A Nyaromon não-amnésica podia, se calhar, ter percebido o que estava a acontecer e tentado travá-lo. Com o Reinício, no entanto, não pôde fazer nada para impedir que Kari fosse possuída pela Escuridão. E possuída a sério!

 

A possessão de Kari catalisa, não só a digievolução de Nyaromon para Ophanimon Fall Down Mode, também a sua fusão com Raguelmon. O resultado final é Ordenimon – uma coisa monstruosa, que faz antigos vilões, como as diferentes formas do Myotismon, os Mestres das Trevas, Apocalymon, parecerem o Avô Cantigas. (Quem precisa de histórias de terror depois disto?) A aparição de Ordenimon quebra a simbiose e o Mundio Digital começa a verter para o Mundo Real.

 

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Em suma, começou o Apocalipse. E os Escolhidos perderam o seu líder, perderam o Omegamon (a sua melhor arma), perderam a Angewomon, poderão ter pedido a sanidade mental de um deles, perderam até o seu protetor adulto. Não têm aliados absolutamente nenhuns, nem entre os humanos, nem entre os Digimon e as entidades sobrenaturais que os governam.

  

É de surpreender que eu tenha precisado de uma bebida depois de ver Kyousei pela primeira vez?

 

O filme tira uns minutos, antes dos créditos finais, para mostrar a reação dos Escolhidos ao que acabou de acontecer – ao som da mesma banda sonora do prólogo de Soshitsu.

 

A cena em que Matt pendura os óculos de Tai ao seu pescoço ficou retido na minha retina durante vários dias (juntamente com o grito de Daigo). É, em simultâneo, um momento lindíssimo e dilacerante. Por tudo o que simboliza: uma passagem de testemunho involuntária; a adoção da liderança; um talismã de um ente querido perdido; uma homenagem a esse ente querido; uma lembrete do que lhe aconteceu. E também porque não deixa de parecer profundamente errado ser Matt e não Tai a usar os óculos.

 

  

Matt ordena aos amigos que sequem as lágrimas e se levantem para lutar. Com o mundo colapsando à volta deles, não há tempo para lutos.

 

De notar que, em Adventure, esta atitude por parte de Tai foi um dos catalisadores para o exílio voluntário de Matt, durante o último arco. Só prova quanto os dois jovens evoluíram desde essa altura.

 

Um último destaque para Koromon, ainda sentindo o imperativo de proteger o seu Escolhido, ao que parece (um dos primeiros sinais de que Tai sobreviveu?). Acaba por ser consolado, talvez mesmo adotado, por Meiko.

 

Conforme já dei a entender, este filme afetou-me profundamente. Já Kokuhaku tinha afetado, um ano antes, mas de maneira diferente. Kokuhaku teve um final triste, sim, mas agridoce, com uma nota de esperança. O final de Kyousei, por sua vez, não é apenas triste: é sombrio. Pelos motivos que listámos acima.

 

  

Não que fosse de esperar outra coisa. Este é o penúltimo filme da série. O seu objetivo era mesmo tornar a situação o mais complicada e desesperante possível – para depois ser resolvida no capítulo final. É uma das regras da ficção: fazer as personagens sofrer, desafiá-las, levá-las aos limites, obrigá-las a mostrar o que valem para sobreviver. Facilidades dão péssimas histórias. E este, de facto, é o maior desafio que os Escolhidos alguma vez tiveram de enfrentar.

 

Eu sabia que seria assim, antes de ver Kyousei. Devia ter estado preparada. Mas não estava.

 

A melhor forma que encontro para descrever o efeito que este filme teve em mim é com The Sound Of Silence: “Hello darkness, my old friend…”. Cheguei mesmo a compilar numa playlist no Spotify refletindo o meu estado de espírito pós-Kyousei. Músicas como Everything Burns (que representa bem o que aconteceu com Kari), Frozen, dos Within Temptation (que representa o ponto de vista de Tai em relação ao seu sacrifício), We Are Broken, dos Paramore (que descreve a situação dos Escolhidos no fim do filme), entre muitas outras.

 

Emoções à parte, há que dar crédito a um trabalho ficcional quando este consegue mexer com a sua audiência desta forma. É certo que Tri tem a vantagem de trabalhar com um elenco amado há muitos anos pela larga maioria da audiência. Isso apenas significa, no entanto, que o trabalho foi bem feito desde o início.

 

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Eu, pelo menos, consumo bastante ficção desde pequena e, antes de Tri, foram pouquíssimas as ocasiões em que uma história me afetou tanto. Recordo, também, que não tive nenhum contacto com este universo durante dez anos.

 

Como tal, na minha opinião, Kyousei é o segundo melhor filme de Tri até agora. Kokuhaku continua à frente porque explora melhor a parte dramática e emocional e não se arrasta tanto a meio.

 

Está mais ou menos empatado com Saikai, contudo. Os dois filmes têm tons completamente diferentes, é difícil comparar.

 

Não que esteja cem por cento satisfeita com o modo como a narrativa está a decorrer. Entre outras coisas (coff coff, 02), estamos quase no fim de Tri e ainda sabemos muito pouco sobre o grande vilão da história (supostamente).

 

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É possível que os digi-guionistas estejam a fiar-se no facto de uma boa parte da audiência conhecer Yggdrasil de outros universos de Digimon. Mesmo assim, o universo de Adventure já tinha estabelecido (mais ou menos) a Homeostase como a principal divindade do Mundo Digimon. Onde é que Yggdrasil se encaixa nesta equação? É uma divindade com poder equivalente à Homeostase? É uma divindade menor? É uma força que surgiu no Mundo Digimon após 02?

 

Tudo o que sabemos sobre a sua motivação aprendemos no monólogo do Dark Gennai, em Soshitsu. Ao que parece, Yggdrasil opõe-se à interferência de humanos no Mundo Digimon. Kyousei não aprofunda o assunto. O que é uma pena, porque esta motivação encaixa-se bem no tema recorrente de Tri: a desconstrução do conceito de Crianças Escolhidas.

 

Por essa lógica, o disfarce adotado por Gennai, de Imperador Digimon, faria muito mais sentido: se formos a ver, o Imperador Digimon foi o pior exemplo da interferência de humanos no Mundo Digital.

 

Esse conflito, além disso, liga-se bem com o que se passa na atualidade, com a crise dos refugiados, as políticas anti-imigração, os movimentos ultra-nacionalistas.

 

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Uma das minhas seguidoras no Twitter, aliás, fez-me reparar nas semelhanças entre o Dark Gennai e Donald Trump. Não apenas porque Gennai vilaniza humanos, tal como Trump vilaniza qualquer um que não seja um homem branco heterossexual, também porque… vêmo-lo assediando raparigas. E eu, pelo menos, sinto repugnância física por ambos.

 

Também é possível que isto seja apenas uma ideologia de que se aproveita para recrutar peões. Ou uma desculpa para, quiçá, Yggdrasil usurpar o lugar da Homeostase e atacar o Mundo Real.

 

O problema de Tri (um de vários) é ser tão vago que uma pessoa como eu, que gosta de analisar estas coisas ao pormenor, a partir de certa altura, não consegue distinguir o que acontece de facto nos filmes e as nossas próprias teorias. Ou as de outros fãs, na Internet.

 

Outro reparo a Kyousei (mais ou menos) diz respeito ao papel de Kari. Ela aparece no poster, este devia ser o filme dela, pela lógica de Tri. No entanto, não é isso que acontece. Meiko, que também aparece no poster, tem tempo de antena de sobra. Mas, em vez de dividir o protagonismo com Kari, divide-o com o irmão desta. Tri está a imitar Adventure no sentido em que Tai é das personagens mais desenvolvidas, por vezes em detrimento das outras.

 

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Dito isto, não posso dizer que não esteja de todo satisfeita com o papel de Kari em Kyousei. É certo que, com o reduzidíssimo desenvolvimento de Kari em termporada e meia e quatro filmes, tudo o que vem à rede é peixe. Mesmo assim, os digi-guionistas conseguiram evitar algumas das armadilhas em que costumam cair, no que toca à jovem. Como o uso dela como mero veículo de exposição, de Deus Ex-Machina ou de donzela indefesa.

 

Já falámos sobre o momento em que se rebela contra a Homeostase. Por sua vez, a sua possessão por parte das trevas não foi um evento ao calhas – foi uma consequência direta da perda de alguém que ama. Se formos a ver, foi mais ou menos o mesmo que aconteceu com Ken e Oikawa, em 02 – apenas mais rápido.

 

Tínhamos visto nessa temporada, aliás, que Kari sempre fora mais vulnerável do que o normal à influência das trevas – tal como, segundo as minhas teorias, alguns de nós são mais suscetíveis do que outros a depressões. A jovem ia conseguindo resistir graças àqueles que ama. 02 tirou um par de episódios para estabelecer T.K. e Yolei como pilares para a sanidade mental de Kari, mas ficou bem claro, desde o início desse arco, que Tai fora sempre um dos pilares mais importantes. Acho que todos sabíamos que, se Kari perdesse o seu onii-chan, o dique colapsaria e a Escurdão invalida-ia a jorros.

 

Gostava, no entanto, que Tri tivesse recordado a audiência acerca desta característica instabilidade de Kari, antes. Assim, a possessão de Kari parece um pouco repentina – sobretudo para quem não se lembre tão bem de 02.

 

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Não deu para perceber ao certo em que estado ficou Kari, no final de Kyousei. Só a vemos amparada por T.K. Estará ainda sob a influência da Escuridão? Voltará a si, apercebendo-se do que desencadeou? E os outros Escolhidos, que se calhar não sabiam que Kari tinha estes poderes?

 

O que é certo é que, agora que Kari perdeu o irmão e a sua companheira Digimon, será muito difícil ela não ser desenvolvida no próximo filme. Finalmente. Espero, por exemplo, que se aproveite a oportunidade para descontruir a relação entre os dois irmãos, que nunca foi muito saudável: ele pela culpa de quase a ter matado, ela por se ter tornado demasiado dependente dele. (Por favor, digi-guionistas, não estraguem isto!!)

 

Estou, também, curiosa relativamente à maneira como os Escolhidos lidarão com Ordenimon. Continuarão decididos a matar Meicoomon ou, agora, que esta se fundiu com Gatomon, mudarão de ideias? Afinal de contas, Gatomon não está corrompida (pelo menos não da mesma maneira que Meicoomon) e, sinceramente, Kari acabou de perder o irmão, não precisa de mais.

 

Isto se forem, sequer, capazes de fazer mossa a Ordenimon – sem o Omegamon, será muito difícil.

 

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Outra incógnita diz respeito à liderança de Matt. Da última vez que Tai despareceu e os miúdos não sabiam se ele estava vivo – na transição do segundo para o terceiro arco de Adventure – o grupo acabou por se desintegrar. Teve de ser o próprio Tai a reuni-los de novo.

 

As circunstâncias, agora, são muito diferentes: os miúdos estão mais velhos, têm mais experiência nestas lides. Matt, em particular, é uma pessoa completamente diferente, mais parecida com o Tai de Adventure – sobretudo na filosofia de “lutar primeiro, chorar depois”. Por fim, naquela altura em Adventure, não havia nenhum vilão a precisar de ser derrotado – tanto quanto sabiam. Agora passa-se o completo oposto.

 

Também temos a questão do luto por Tai. Matt vai obrigar toda a gente a engolir as lágrimas, como acabámos de ver. Mas é possível que pelo menos alguns dos Escolhidos não consigam aguentar por muito tempo.

 

É o que eu espero, pelo menos. De que serve Tai “morrer” se a única reação a que teremos direito for a possessão de Kari? Será um desperdício se o jovem voltar para junto dos amigos antes de ter havido choradeira a sério.

 

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Toda a gente sabe que o Tai não morreu. Porque epílogo de 02 e porque ele e Omegamon aparecem no poster do próximo filme. Mesmo que não tivéssemos estes “spoilers”, acho que alguns de nós não acreditariam que Tai estivesse mesmo morto.

 

Daigo, por sua vez, não tem nenhuma garantia. É possível que ele tenha morrido a sério. Não me parece, no entanto. A sua história individual ainda não terminou – pelo contrário, está apenas a começar a sério. Se houver alguma personagem a morrer em Tri, acho mais provável ver Maki. Ou Meiko.

 

Em todo o caso, se tanto Tai como Daigo sobreviveram, hão de ter ido parar a algum sítio. É uma das maiores perguntas a que o próximo filme terá de responder.

 

A minha hipótese preferida é Tai e Daigo irem parar ao mesmo sítio aonde o elenco de 02 foi parar, no início de Saikai – talvez como prisioneiros de Alphamon e/ou Yggdrasil, no Mar Negro ou no Mundo dos Sonhos ou, pura e simplesmente, numa parte desconhecida do Mundo Digimon. Seria uma boa maneira de trazer Davis e os outros para a história e compensaria pela maneira fraquinha como têm ligado com esta questão até agora.

 

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Bem, quase.

 

Não me atrevo, no entanto, a alimentar demasiadas esperanças. As minhas expectativas estão tão baixas que quase me contento com uma ou duas linhas de diálogo dando uma explicação, mesmo que seja má. É um bocadinho triste, na verdade.

 

É por estas e por outras que, mais do que com os filmes anteriores, estou ansiosa pela sinopse do próximo. Esta, infelizmente, ainda deverá demorar.

 

Mas falemos, então, sobre o último filme de Tri. Este chamar-se-á, Bokura No Mirai, que significa “O Nosso Futuro”. Foge da regra de Tri, até agora, dos títulos de uma palavra só e… aqui entre nós, isso chateia-me um bocadinho. Mais por motivos práticos: os títulos simples dão jeito nestas análises. Vai ser um bocadinho chato estar sempre a escrever Bokura No Mirai.

 

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À parte isso, este título não diz muito – apenas que parece adequado a um final de série e que possa ser uma referência ao tema Bokura No Digital World, do final de 02.

 

Nesse aspeto, o poster é mais últil: com o elenco principal de humanos e Digimon, Meiko e Meicoomon caindo. A minha primeira interpretação foi que ambas morreriam nesse filme – um bom reflexo do meu estado de espírito pós-Kyousei. Agora, acredito que signifique, apenas, que os Escolhidos vão continuar à procura de uma maneira de salvar Meicoomon.

 

O desfecho mais provável para esta história será Meicoomon morrer, de uma forma ou de outra, e renascer completamente saudável, sem o tal fragmento de Apocalymon.

 

Por outro lado, o detalhe do poster que tem deixado os fãs em polvorosa é o suposto chapéu do Wizardmon, como mostra a imagem abaixo. Faria sentido. Um dos efeitos do Reinício é a ressurreição de Digimon falecidos no Mundo Real. Ninguém se admiraria se o Wizardmon ajudasse Kari e/ou Gatomon a voltarem a si. Ou se ajudasse Gatomon a desbloquear a sua verdadeira forma Hiper Campeã.

 

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Só espero que ele não morra outra vez. Não precisamos de outro Leomon.

 

Entre isto, o destino de Tai e Daigo, o destino de Maki e todas as pontas por atar em Tri, Bokura No Mirai tem muito com que lidar. Por esse motivo, entre outros, vários fãs (eu incluída) estão à espera que este filme tenha cinco episódios, à semelhança de Kokuhaku. Mesmo assim, quatro episódios até podem chegar – se os digi-guionistas forem capazes de acelerar o ritmo da história e de cortar nos fillers.

 

A estreia de Bokura No Mirai está marcada para 5 de maio de 2018. Esta data só foi anunciada há cerca de duas semanas – antes disso, a única previsão que tínhamos para a estreia era para o verão. Muitos fãs, na altura, ficaram desanimados mas, aqui entre nós, eu não me importaria de esperar. Ainda não me sinto preparada para me despedir de Tri e muito menos das nossas eternas Crianças Escolidas. Não me queixava se tivéssemos mais uns meses de especulação e teorias – afinal de contas, estas acabam com o último filme.

 

Estou, no entanto, aliviada por a estreia do filme não coincidir com o Mundial 2018 – altura em que estarei ocupada com o meu outro blogue. Já foi difícil com Kyousei, que saiu no dia a seguir à Convocatória para os últimos jogos da Seleção. Tinha de escrever um texto entusiástico, motivador, no pós-Kyousei, quando tudo o que me apetecia era deitar-me no chão, ouvindo Pieces, dos Sum 41, em loop. Acabei por conseguir escrever esse texto, mas demorou-me mais tempo do que o costume.

 

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Com uma estreia em princípios de maio, terei tempo de sobra para processar o filme antes de me virar para o meu outro blogue. O pior que pode acontecer é atrasar-me na escrita da análise… ainda mais do que o costume, isto é. Porque, por mais que me esforce, estes testamentos levam-me semanas.

 

Como é o último filme, no entanto, não haverá grande pressa. Pelo contrário, sei que vou ter saudades de escrever sobre Tri.

 

Em parte para mitigar essas eventuais saudades, estou a pensar começar a ver as outras temporadas de Digimon – Tamers, Frontier e por aí fora – depois de publicar essa última análise. Talvez mesmo escrever sobre elas aqui no blogue, como fiz com Adventure e 02, há dois anos. Com a diferença de estas não serão influenciadas pela nostalgia de tê-las visto na infância – serão as opiniões de uma mulher adulta, contactado com esses universos pela primeira vez.

 

O motivo principal, contudo, é por não querer perder o contacto com Digimon depois de Tri. Estive dez anos fora, voltei há dois. Desde então, fiz várias amizades online graças à franquia – incluindo durante o encontro do Odaiba Memorial Day. Agora que aqui estou, não quero voltar a sair tão cedo.

 

Obrigada a todos os que se deram ao trabalho de ler este testamento.

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