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Álbum de Testamentos

"Como é possível alguém ter tanta palavra?" – Ivo dos Hybrid Theory PT

Música 2022 #3: O romance do futebol

 

Alerta: Este texto contém spoilers para as duas primeiras temporadas de Ted Lasso. Leia por sua conta e risco.

 

Esta é a parte do meu balanço musical em que escrevo sobre uma única canção, isolada de tudo o resto, marcante por um motivo muito específico. Trata-se de She’s A Rainbow, dos Rolling Stones.

 

Esta é uma banda que dispensa apresentações. Não tenho nada a dizer sobre eles que não tenha sido dito antes. Dizem que She’s a Rainbow é um exemplo do rock psicadélico dos anos 70 – aquela introdução no piano é icónica e define do mood da música toda. Acho-a muito primaveril. É possível que seja por a ter ouvido muito na primavera do ano passado – mais sobre isso adiante. Mas também a primavera é a estação mais colorida, o que condiz com a letra – e mesmo com o movimento da altura, o “flower power” e tal.

 

Ora, fiquei a conhecer She’s a Rainbow na série Ted Lasso – a minha série preferida neste momento Uma das melhores coisas de 2022 para mim foi ter tido a oportunidade de ver filmes e séries novas. Várias estavam na minha lista há algum tempo, mas ia adiando-as porque tinha de rever Fronteira para estes textos – por exemplo, Ducktales 2017 e o filme Spiderman: Into the Spiderverse. Outras foram espontâneas, foram capricho – por exemplo, Spy x Family. Já nem me lembro o motivo por que comecei a ver, mas estou a adorar.

 

É algo que pretendo continuar a fazer em 2023… quando conseguir publicar o balanço de 2022, terminar Scarlet e, no geral, meter a ordem na minha vida.

 

Regressando a Ted Lasso, esta é uma série que eu já sabia que ia gostar mesmo antes de começar a ver. A internet já despejou todos os elogios a Ted Lasso, não vou estar repeti-los – mas vou abordar um ângulo que, tanto quanto sei, ainda ninguém abordou. 

 

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Praticamente toda a gente que fala sobre Ted Lasso diz algo do género: 

 

– Ah e tal, é a história de um treinador de futebol americano que vem treinar uma equipa da Premier League, mas não se preocupem! A série quase não é sobre futebol!

 

Não vou dizer o contrário, mas a verdade é que uma das coisas que eu gosto em Ted Lasso é da parte do futebol, mesmo que seja relativamente pouco.

 

Alguns de vocês desse lado já saberão que eu adoro futebol – tenho um segundo blogue dedicado ao meu clube. Devem haver por aí exemplos de ficção desportiva que explorem melhor esse aspeto, mas uma das minhas partes preferidas do futebol foi sempre o lado humano. As interações entre os jogadores (quando são amigáveis, claro), as celebrações dos golos e das vitórias, vídeos e fotografias de bastidores. Momentos como os jogadores desenhando caricaturas uns dos outros, Cristiano Ronaldo consolando Diogo Costa depois da sua quase-asneira, provocações a Gonçalo Ramos após o seu hat-trick perante a Suíça – e isto são apenas os exemplos mais recentes.

 

O futebol é um dos poucos meios onde homens podem abraçar-se uns aos outros, serem afetuosos uns com os outros, sem que lhes seja questionada a sua masculinidade. Isso é uma das melhores coisas deste desporto. 

 

Ted Lasso também tem exemplos disso, mesmo que a maior parte dos jogadores desempenhe um papel secundário na narrativa. Por exemplo, a fogueira no episódio “Two Aces”, a equipa toda fazendo claque a Sam Obisanya durante o seu namoro online, o Natal na casa dos Higgins. 

 

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Também gosto da relação entre a equipa técnica e os jogadores. Ted obviamente fazendo de pai de todos, mas também Roy Kent, a partir de meio da temporada: quando ajudou o capitão Isaac a ultrapassar o seu bloqueio mental e, sobretudo, o abraço a Jamie no final de “Man City”.

 

Nate, claro, é a exceção.

 

Aliás, Ted Lasso tem momentos que podiam ter sido escritos por mim quando tinha quinze anos: a coreografia dos jogadores para Bye Bye Bye, o que quer que eles andavam a fazer durante o aquecimento em “Rainbow”. É uma delícia.

 

Já que falo nisso, confesso que, quando era mais nova, durante uns anos imaginei-me desempenhando um papel semelhante ao de Keeley para a Seleção Portuguesa, o meu clube. Não necessariamente como WAG/mulher-ou-namorada (bem… só mesmo no início), mas como alguém que, não sendo jogadora ou técnica, faz parte da equipa, é colega e amiga de toda a gente. 

 

Ted Lasso celebra, assim, o lado humano do futebol, o romance do futebol. E um dos melhores exemplos disso é precisamente a cena que usa She’s A Rainbow como banda sonora. 

 

Todo o episódio – intitulado Rainbow – é uma homenagem a comédias românticas. Pelo meio, Higgins fala do momento em que conheceu a, agora, esposa – She’s A Rainbow é a música deles – e vemos casais amorosos nas bancadas do Nelson Road. O enredo principal foca-se em Ted tentando conquistar Roy Kent (nesta altura a trabalhar como comentador desportivo) para a equipa técnica do Richmond. É também neste episódio que Roy ajuda Isaac – por sinal, com uma variante a um dos meus lemas de vida, “Lembra-te porque é que começaste”. 

 

 

Roy, naturalmente, começa por dizer que não. No entanto, acaba por perceber que sente saudades, lá está, do lado humano do futebol, da proximidade com os jogadores. Descobre que é essa a sua vocação.

 

A cena com She’s a Rainbow é, então, Roy deixando o estúdio televisivo e dirigindo-se a Nelson Road para se reunir à equipa. Lá está, como um protagonista de uma comédia romântica indo atrás do seu amor. Afeiçoei-me a She’s a Rainbow precisamente ao ouvi-la enquanto ia a pé para o trabalho, em passo acelerado, na Primavera. Sentia-me como Roy. 

 

E depois os outros pormenores. Higgins encontrando-se com a esposa, vestida de azul (“Have you seen her dressed in blue?”). O momento em que Roy entra no relvado – todos os amantes de futebol sabem como é, quando vamos à bola e vemos o campo pela primeira vez. Os adeptos cantando “He’s here, he’s there, he’s every-fuckin-where” ao verem-no – outra coisa que adoro em futebol: os cânticos (quando são favoráveis, claro). As notas dissonantes de She’s a Rainbow quando a câmara se fora na reação de Nate à chegada de Roy – indício trágico para o que acontecerá mais tarde. Por fim, Roy citando Jerry Maguire como forma de aceitar o convite de Ted. 

 

É uma das cenas preferidas de toda a série e o motivo pelo qual She’s a Rainbow é uma das minhas músicas de 2022.

 

Uma das coisas pelas quais anseio em 2023 é a terceira temporada de Ted Lasso que, por sinal, acabou de ser anunciada para a primavera – mais ou menos um ano depois de ter visto as primeiras duas temporadas. A vantagem de ter chegado tarde ao fenómeno foi não precisar de esperar tanto – o último episódio da segunda temporada saiu há quase um ano e meio. Consta que a demora se deveu a perfeccionismo da parte de Jason Sudeikis e dos outros produtores, o que poderá ser mau sinal – pode ter ficado pior a emenda que o soneto. 

 

Houveram alguns aspetos de que não gostei na reta final da segunda temporada. Alguns foram intencionais, como a descida de Nate à vilania. Outros não sei se eram. A direção que estão a tomar com o relacionamento de Keeley e Roy, ninguém ter reconhecido o assédio de Nate a Keeley. 

 

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Mesmo a relação entre Sam e Rebecca deixa-me ambivalente. Por um lado, eles ficam bem juntos. Depois de tudo por que passou, Rebecca merece alguém que lhe mostre uma dose saudável de devoção. Por outro… ela tem o dobro da idade dele, é dona do clube onde ele joga… No mínimo questionável.

 

Em todo o caso, está tudo em aberto. Como se diz em futebol, ainda há muito campeonato para se jogar. Vou dar o benefício da dúvida. A imagem que eles divulgaram na semana passada parece dizer muito do que acontecerá na terceira temporada. Sinto que há ali uma referência a Star Wars mas, como nunca vi Star Wars… terá de ser outra pessoa a descortinar.

 

Obrigada pela vossa visita, como sempre. Ficam a faltar dois textos neste balanço musical do ano. Estes deverão ser mais longos. A ver se consigo publicá-los antes do fim de fevereiro. Continuem por aí.

Follow Friday #5

 Parece que as Follow Friday estão mesmo de volta. Ainda bem.

 

06.jpg

 

Hoje quero falar do Blog de Meia Tigela, cuja autora já me tinha nomeado para os Liebster Awards e que comecei a seguir há umas semanas. Até agora, tenho gostado das coisas que a miana escreve. Queria destacar os textos sobre a mudança de curso que se encontra a levar a cabo. Não me parece que tenha sido fácil tomar esta decisão. A sociedade dos dias de hoje exige que os jovens de dezoito anos (ou mais novos, antes de entrar no Secundário) saibam ao certo o que querem fazer com as suas vidas. Mas a verdade é que, nessa idade, muitos de nós não sabemos ainda quem somos, não sabemos quase nada sobre a vida real. Estamos, também, muito vulneráveis à influência dos nossos pais e de outros adultos na nossa vida, que muitas vezes nos empurram para carreiras que, se calhar, pouco têm a ver connosco. É inevitável que alguns se arrependam, mais tarde, da escolha que fizeram. Não é fácil admitir que errámos, que desperdiçámos anos da nossa vida num curso que não vamos concluir. Mas a vida é demasiado curta para passá-la trabalhando das nove às seis em algo que não nos realiza, não quando existem alternativas. Daí que admire a coragem da miana ao tomar esta decisão.

 

Por outro lado, gosto do blogue porque a miana é uma das minhas: é uma mulher amante de futebol. Gosto sempre de conhecer pessoas que gostem de futebol de forma apaixonada mas saudável e a miana tem apresentado várias provas disso, como este texto por exemplo. Existindo ainda tanto machismo no futebol, acho importante apoiar outras mulheres que vivem o futebol de maneira semelhante à minha.

 

Até à próxima Follow Friday!

Sobre o machismo no mundo do futebol

Ao contrário do que planeava inicialmente, vou inaugurar "a sério" a nova morada no meu blogue com um texto diferente dos que costumo publicar, algo polémico. Como já dei a entender em várias entradas do Álbum, uma das minhas maluqueiras é o futebol, com claro destaque para a Seleção Nacional, tendo inclusivamente um blogue a ela dedicado. Nessa condição, leio com frequência jornais desportivos e consulto os seus sites. O meu favorito é o Record. No entanto, tem havido um aspeto que muito me desagrada no periódico e um pormenor da sua capa de ontem, dia 10 de outubro, é mais um exemplo disso:

156360_718222284862792_194156329_n.jpgComo podem ver, o Record anuncia Cristina Ferreira como nova colunista recorrendo a uma fotografia em que a apresentadora se encontra com pouca roupa. Não sei se é essa a intenção dos responsáveis pelo desenho da capa, mas a ideia que passa é que a maior credencial de Cristina diz respeito aos seus atributos físicos. Tal motivou-me a escrever sobre algo que me vem incomodando há algum tempo: o machismo no mundo do futebol.

 

Visto que não conheço tão bem A Bola e O Jogo como conheço o Record, não sei se o mesmo se passa em outros jornais. No entanto, no Record as mulheres têm vindo a ser demasiadas vezes retratadas de maneira objetificada. No site, publicam inúmeros artigos - nem todos diretamente relacionados com desporto - onde figuram fotografias de, como se diz no português corriqueiro, "gajas nuas", na minha modesta opinião mais indicadas em publicações de outro cariz. Isto para não falar no concuro Miss Fanática Record, que dá a entender que a única coisa que se espera numa mulher adepta de um clube de futebol é que tenha um corpo escultural. 

 

O jornal Record não está sozinho nestes hábitos. O jornalista João Miguel Tavares já falou de outro caso no seu blogue. Outro exemplo é o anúncio da Sagres a propósito do Euro 2012. Entre várias coisas, reparem no homem que olha para o decote de uma das adeptas. 

 

 

Ainda está muito enraizada na sociedade a ideia de que o desporto, e sobretudo o futebol, é um assunto de homens. No entanto, a realidade já não é assim. Conheço muitas mulheres que adoram futebol, bem como homens que não gostam - por exemplo, eu e a minha irmã gostamos bem mais de futebol que o nosso irmão. E ao contrário do que muitas vezes a Imprensa desportiva e as agências de publicidade dão a entender, nem todas somos bonitas nem sensuais (eu não o sou, pelo menos) e não é or isso que percebemos ou gostamos menos do desporto e dos nossos clubes (no meu caso, a Seleção).

 

Às vezes passa-se o oposto, até. Pelo menos no meu caso e no da minha irmã, nós interessamo-nos pelo lado mais humano da modalidade, vemos pessoas em vez de apenas jogadores, ao contrário do que muitos adeptos fazem. É claro que já passei por fases por que qualquer mulher passa na adolescência com os seus ídolos, em que dava particular importância ao impressionante físico do Cristiano Ronaldo mas, sem querer generalizar, as mulheres têm o potencial de trazerem uma visão diferente ao futebol, contribuindo para o seu enriquecimento. Julgo que foi até com esse intuito que o Record conviou Cristina Ferreira para escrever uma coluna semanal. 

 

Não venho com isto defender quotas de 30% de mulheres entre os jornalistas desportivos nem nenhuma medida do género. Acredito que o mundo do desporto irá tendo, naturalmente, uma população feminina cada vez mais alargada. E já começa a ser altura de o futebol português começar a entrar no século XXI e aprender a respeitar as mulheres. É claro que isto é apenas uma faceta de um problema muito maior, ainda muito enraizado não só na sociedade portuguesa, mas também em todo o Mundo em graus diferentes. Mas há que começar por algum lado.

 

Agora, se não se importam, tenho de ir atualizar a minha página sobre a Seleção, que o jogo com a França dentro de menos de hora e meia.

 

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