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Álbum de Testamentos

"Como é possível alguém ter tanta palavra?" – Ivo dos Hybrid Theory PT

Linkin Park – From Zero (Deluxe Edition) (2025) #1

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Hoje vamos finalmente falar sobre From Zero, o álbum de regresso dos Linkin Park após uma pausa de sete anos, devida à morte do vocalista Chester Bennington, em 2017. Faz hoje um ano do lançamento da edição-padrão do álbum, mas neste texto falaremos também sobre Up From the Bottom, Unshatter e Let You Fade. Ou seja, tecnicamente, esta é uma análise à edição Deluxe de From Zero, editada oficialmente a 17 de maio deste ano. Virá dividida em duas partes, a segunda parte será publicada logo à tarde. 

 

Conforme já expliquei anteriormente, já gosto mais do título From Zero. Se quisermos ser cem por cento factuais, claro que os Linkin Park não começaram do zero: tinham sete álbuns e cerca de vinte e cinco anos de história a sustentá-los. Penso que, neste contexto, tirando a alusão à primeira versão dos Linkin Park, Xero, “Zero” representa os sete anos de pausa. A banda e os fãs têm usado a expressão “From Zero to [país ou cidade onde há concerto dos Linkin Park]”. Nós, por exemplo, temos dito “From Zero to Portugal”, a propósito do concerto deles no Rock in Rio do próximo ano. Há uma t-shirt e tudo! 

 

Porque a sensação é mesmo essa: recuperámos a nossa banda do nada. Antes deste regresso, não me atrevia a sonhar com, por exemplo, um regresso deles cá.

 

Por outro lado, se me permitem que volte a falar outra vez sobre os Hybrid Theory, o tributo português aos Linkin Park, a expressão From Zero também se aplicaria a eles. Um dos nomes que terão usado, quando o plano ainda era criarem música original, era Zeroh. E nem sequer era uma referência a Xero, não tinha nada a ver com os Linkin Park. Segundo o Ivo, o vocalista, aludia ao facto de terem zero ideias para o nome da banda.

 

Não vou comentar. 

 

Regressando a From Zero, o álbum, este é mais ou menos o que seria de esperar. Um típico álbum dos Linkin Park. Pode-se argumentar que a banda jogou pelo seguro em vez de explorar territórios novos – como fora a norma desde Minutes to Midnight, inclusive, para a frente. Como já escrevi antes, acho compreensível. No que toca a este álbum, estarem ativos depois de tanto tempo em latência, depois de reconstruírem a banda, já é território novo. 

 

Além de que duas pessoas novas na banda, em particular uma nova voz, já constituem novidade suficiente. Suficiente até para a comunidade de fãs entrar em guerra civil – algo que também já era a norma. 

 

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Alguns fãs têm tratado as faixas de From Zero como se cada uma delas representasse um álbum anterior ou mesmo uma música anterior. Não concordo. Tirando dois casos específicos e muito óbvios de músicas que soam auto-plagiadas – e, fiquem descansados, falaremos sobre isso – mesmo sem grande experimentalismo, a larga maioria de From Zero tem carácter próprio que chegue. Aliás, sempre notei algumas influências de Post Traumatic, o álbum a solo de Mike Shinoda, compositor, produtor, multi-instrumentista e essencialmente cérebro dos Linkin Park. O próprio Mike confirmou-o em entrevista, no verão passado. 

 

As faixas de From Zero têm muitos “samples” – um de Fuse, um tema do tempo dos Xero, juntamente com o som de uma cassete sendo virada, no final de Overflow; um sample de Step Up no início de IGYEIH – muita conversa de estúdio entre faixas. Faz lembrar o The Hunting Party por um lado, mas já reparei que, por exemplo, Heroes dos Dead Sara (a primeira banda de Emily Armstrong, a sucessora de Chester como vocalista dos Linkin Park) também incluiu conversa de estúdio no fim. Talvez seja uma maneira de comunicar que é suposto ouvir-se o álbum do princípio ao fim, pela ordem correta. Eu, no entanto, já ouvi o álbum em aleatório e as transições funcionam à mesma. 

 

As exceções são o “get your screaming pants on” entre Over Each Other e Casualty e, claro, o final de Good Things Go e o início de Intro: From Zero. Eles fizeram algo que os Coldplay costumavam fazer (será que ainda fazem?) com os álbuns deles: transições entre as últimas faixas e as primeiras, criando um loop. Segundo Mike, a ideia era que o álbum formasse um círculo, um zero.

 

O que nos leva, então, a Intro: From Zero. Não é a primeira vez que os Linkin Park abrem álbuns com faixas que não são canções a sério, mas eu diria que esta é a menos necessária, a que menos acrescenta. Consiste no coro por detrás do refrão de The Emptiness Machine (com vozes de Emily e Mike) e uma voz essencialmente tentando descortinar o significado de “from zero” – eventualmente percebendo a referência a Xero.

 

Durante algum tempo pensou-se que seria a voz de Emily. Mike disse que não, terá sido um miúdo, provavelmente pré-adolescente. Já pensei que seria o filho mais velho de Mike – penso que o nome dele é Odis – mas suponho que ele já será demasiado velho para soar assim.

 

Tem a sua graça mas, como disse acima, na minha opinião, não acrescenta o suficiente ao álbum para justificar a sua existência. Mais valia terem feito o loop com o início de The Emptiness Machine. Ou então, se precisavam mesmo de uma introdução, que esta fosse um instrumental que fizesse a ponte entre essa e Good Things Go. 

 

O que nos leva a The Emptiness Machine. Tecnicamente, já escrevi sobre ela no ano passado, pouco depois de a música ter saído, mas as minhas opiniões… não digo que tenham mudado radicalmente, mas foram evoluindo com o tempo. 

 

 

The Emptiness Machine foi uma das primeiras faixas de From Zero a serem criadas. Mike tê-la-á composto algures em 2022. Na altura, ele andava a compôr músicas a solo – terá composto In My Head depois desta – mas sempre soube que The Emptiness Machine era música de Linkin Park, logo, guardou-a. Consta que a primeira versão de The Emptiness Machine tinha apenas a voz de Mike e que o feedback de quem a ouviu era apenas médio-bom. Entretanto, Emily juntou-se à festa, rearranjaram a música de modo a que ela entrasse após o primeiro refrão. Aí, a avaliação da música passou de “boa” a “estratosférica”.

 

E tinham razão. 

 

Eu adoro The Emptiness Machine. Agora vejo que fui um pouco crítica demais no texto do ano passado. Talvez tenha internalizado um pouco das reações negativas à música e ao regresso da banda em geral. Talvez fosse o instinto, muito prevalente na comunidade de fãs desta banda, de inicialmente não reagir bem a um novo ciclo de álbum. 

 

Não sei. Nem eu nem muitos outros fãs dos Linkin Park mostrámos a nossa melhor faceta em setembro de 2024. O que vale é que muitos de nós conseguimos evoluir além disso. Há quem (ainda) não o tenha feito. 

 

Regressando a The Emptiness Machine, a minha parte preferida é mesmo a entrada de Emily. Vou dizê-lo já: um dos melhores aspetos de From Zero é o contraste entre as vozes de Mike e Em. Se fosse Chester a cantar, estas músicas não resultariam, o carácter não seria o mesmo – a voz dele cumpria um papel diferente. É por isso que depressa deixei de tentar imaginá-lo cantando as músicas novas. 

 

O momento, então, em que Emily começa a cantar em The Emptiness Machine é marcante, só por si mesmo. Conhecendo o contexto histórico, torna-se ainda mais especial. Olhando para o resto do álbum, não existe mais nenhuma música com esta estrutura. Faz sentido que tenha sido escolhida como primeiro avanço – nenhuma outra funcionaria tão bem para assinalar o regresso. 

 

Em relação à letra, não tenho nada a acrescentar. Aliás, aproveito para avisar que, em várias músicas de From Zero, não falarei sobre as letras. Temos muitos clichés de Linkin Park aqui – temas combativos, revolta contra pessoas e/ou situações tóxicas – e, embora não desgoste da maior parte dos casos, não tenho muito a dizer.

 

 

Claro que temos notáveis exceções à regra. Não passarão em branco.

 

Regressando a The Emptiness Machine, gosto imenso dela. Tanto pela música em si como pelo papel que desempenhou. As vozes de Mike e Emily soam fabulosas – recomendo a versão à capela. Uma das melhores dos Linkin Park – não digo ao nível de Numb ou de In the End mas, vá lá, Burn it Down ou What I’ve Done.

 

Vou também falar de novo sobre Heavy is the Crown. Consta que esta nasceu de uma ideia com vários anos. Mike terá desenvolvido um tema para a banda sonora de Arcane – uma série animada que decorre no universo dos jogos League of Legends (é possível que esta última parte seja do conhecimento geral, mas eu só descobri há cerca de um ano). Mike esteve na estreia da primeira temporada em finais de 2021 – onde decorreu o momento delicioso mostrado neste vídeo – terá conhecido o compositor da banda sonora de Arcane, Alex Seaver. Pouco depois, convidou-o a sua casa onde lhe terá mostrado a demo de uma ideia para a banda sonora da segunda temporada – ideia essa que daria origem a esta versão

 

Cheguei a pensar que o plano seria Mike gravá-la a solo – ou arranjar alguém para interpretá-la. Só que entretanto encontrei este artigo que dá a entender (é algo ambíguo) que, já em finais de 2021, princípios de 2022, Mike tinha planos para recuperar os Linkin Park, ainda que ainda não tivesse recrutado Emily. 

 

De qualquer forma, a segunda temporada de Arcane estreou no ano passado, três anos depois. Deu tempo a Mike e os outros para reconstruírem a banda  – e Emily acabou por cantar na versão usada na banda sonora. 

 

Entretanto, os Linkin Park decidiram criar uma versão mais roqueira para From Zero. Essa versão reteve o carácter épico e cinemático – que se mantém o meu aspeto preferido da música. É o que lhe dá personalidade, o que a distingue de Faint, com que partilha muitos aspetos, conforme referimos antes. Pelo meio, a banda e Seaver lembraram-se de fazer dela o hino oficial da edição de 2024 Campeonato Mundial de League of Legends. Os Linkin Park tocaram-na ao vivo na final do campeonato, em Londres, a 2 de novembro do ano passado – na véspera do concerto deles em Paris.

 

 

Nesse dia, como podem ver no vídeo acima, Olivee May, a repórter que não reconhecera Mike em 2021, pôde reencontrá-lo (a cara dele mata-me) e redimir-se. Assim se fecharam dois ciclos no mesmo dia. 

 

Dito isto, apesar de ainda gostar de Heavy is the Crown, devo confessar,  esta foi ficando para trás nos meus interesses à medida que fomos conhecendo mais músicas de From Zero. Mais: em setembro do ano passado, juraria a pés juntos que gostava mais de Heavy is the Crown do que de The Emptiness Machine. Agora já não é verdade.

 

O single que se seguiu, por sua vez, é uma das minhas músicas preferidas neste álbum. Over Each Other, lançada em finais de outubro do ano passado, poucas semanas antes do álbum. Tem uma personalidade diferente das suas antecessoras: uma balada, ainda que sem deixar de ser rock. Lembra temas como Valentine’s Day ou Final Masquerade. Uma das minhas partes preferidas em termos de instrumental é a sequência que se segue ao segundo refrão: mesmo a puxar aos headbangs

 

Até agora, da era de Emily, esta é a música com menos Mike nos vocais – só um backvocal aqui e além. É o mais próximo que temos de uma música de Linkin Park cantada a solo por Emily. Não acho muito justo. Nos álbuns anteriores, Chester tinha sempre direito a pelo menos a duas ou três músicas a solo nos vocais em cada álbum (em Minutes to Midnight e em One More Light chegou a ter sete). Porque é que Emily só tem uma até agora? Pode passar a ideia de que a banda (ainda) não confia nela para carregar uma música sem a “ajuda” de Mike.

 

Por outro lado, o co-vocalista tem vindo a ganhar traquejo com a sua voz nos últimos anos – como cantor mesmo, não apenas como rapper. Já vinha a fazê-lo ainda Chester era vivo. Pode-se argumentar que ele viria sempre a ganhar cada vez mais protagonismo nos vocais. 

 

E de qualquer forma, como já dei a entender, tenho gostado de ouvir Emily e Mike cantando juntos.

 

Regressando a Over Each Other, Jon Green é um dos compositores, depois de já ter contribuído para One More Light, o álbum. Não diria que Over Each Other se encaixaria nesse disco, pelo menos não em termos de sonoridade. Por outro lado, para mim, a letra soa a uma continuação de Friendly Fire (lançada no mesmo ano, mas numa era completamente diferente): conflitos desnecessários entre entes queridos. No caso de Over Each Other, tais conflitos baseiam-se em problemas de comunicação. Penso que é suposto considerarmos que a letra fala sobre uma relação romântica mas, na minha opinião, é daquelas que se podem aplicar também a amizades ou relações familiares. 

 

 

No respetivo episódio da LPTV, ouvimos parte de uma versão de Over Each Other cantada por Mike, grava algures em finais de 2022 – e até nem soa má. O vídeo salta para mais de um ano depois, já com Emily, mostrando Mike orientando-a enquanto esta criava a sua interpretação. E Em, tal como em The Emptiness Machine, elevou a música a todo um outro nível, sobretudo em termos de emoções. 

 

A minha parte preferida é o último refrão: o verso “so say what’s underneath, I want to see your side” – o desespero e súplica tangíveis.

 

O videoclipe foi realizado pelo DJ da banda, Joe Hahn, e filmado em Seul, na Coreia do Sul. Ele e Emily ficaram para trás depois do concerto dos Linkin Park por lá, no ano passado. Joe ter-se-á inspirado em novelas coreanas (essa é a tradução correta para k-drama?) e nota-se um bocadinho. 

 

Resumidamente, temos Emily e a sua namorada, têm uma discussão, a discussão prolonga-se até ao volante e têm um acidente. Melodramático e cliché – dos maiores clichés que existem – mas, a meu ver, funciona. Era o que a música pedia. E, de qualquer forma, sempre saca uma boa reviravolta, quando descobrimos que a Emily a cantar no local do acidente é um fantasma.

 

Over Each Other foi estreada ao vivo em Paris, precisamente no concerto a que fui. Emily toca guitarra nela – se a memória não me falha, foi a primeira vez enquanto vocalista dos Linkin Park. Foi agradável, mas na altura tinha alguma esperança de que estrearam uma inédita no meu concerto – tal como tinha acontecido no Rock in Rio de 2014, com Wastelands. Quem teve essa sorte foi Dallas, alguns dias mais tarde.

 

Nesta altura, vários de nós já sabiam que Casualty seria uma música pesada. Mike e Emily tinham-no referido neste podcast e, no final de Over Each Other, ouve-se Mike dizendo “OK, get your screaming pants on”. Já se conhecia o alinhamento do álbum, sabíamos que Casualty vinha depois de Over Each Other, noves fora… 

 

 

Uma confissão: não gosto deste posicionamento. Sei que não é uma prática assim tão estranha transitar de uma música mais calma e sentida para uma música mais agitada e vice-versa. Nem sequer é a única vez que acontece em From Zero. Normalmente não me importo. Neste caso em específico, no entanto – talvez por Over Each Other mexer comigo como poucas mexem – é um contraste demasiado grande, na minha opinião.

 

Casualty terá nascido de uma ideia do guitarrista Brad Delson. Este juntou-se à festa com algum atraso. Quando já se sentia integrado no novo formato dos Linkin Park, sugeriu comporem algum bem pesado, algo que levasse Emily ao extremo (...agora que escrevo isto, pergunto-me se isto era a maneira de Brad de testar a miúda nova, de lhe fazer a praxe). Em correspondeu ao desafio, foi com tudo ao compôr o refrão, impressionando Mike. 

 

Este por sua vez também se superou. Cantou em quase screamo, algo que, tanto quanto sei, nunca tinha feito. Muito fixe. E, uma vez mais, gosto do contraste entre a voz dele e a de Emily.

 

A letra, não sendo nada de extraordinário, tem os seus momentos. Só há poucos dias, quando ouvi a versão à capela da música, é que reparei no "Let's get out alive!" de Emily, no início da música. Estranhamente inspirador. Além disso, gosto de imaginar que o refrão é cantado por uma personificação do segredo do regresso dos Linkin Park – na Primavera do ano passado, quando andavam a escapar as primeiras pistas. “‘Cause something’s coming, it’s only a matter of time. Let me oooout! Set me free! I know all the secrets you keep!”.

 

E, inveja à parte, a estreia de Casualty ao vivo foi icónica. Mike invocando as “screaming pants” de Emily, a cara desta última, Em dizendo-se “muito tímida” antes de desatar aos gritos e aos headbangs. O que, por sinal, espelha bem a minha personalidade, as minhas duas facetas.

 

 

A última música que conhecemos antes do lançamento oficial de From Zero foi Two Faced – ainda que, no meu caso, não tenha sido bem assim. Se me permitirem o aparte, queria falar sobre a listening party oficial de From Zero – cujas recordações, para mim, estão associadas ao álbum em geral e a Two Faced. Na verdade, queria já ter falado sobre este evento neste texto, mas tive de cortar essa parte por motivos de extensão. 

 

A listening party teve lugar dois dias antes do lançamento oficial do álbum, na sede da Warner Music Portugal. Inicialmente era um evento só para membros do LP Underground, mas acabaram por alargar a qualquer um que pedisse. Fui, naturalmente, com alguns amigos da família HT.

 

Foi uma noite muito gira. Na altura, nunca tinha ido a nenhuma listening party até à altura ou a outro evento do género. Foi a primeira vez que ouvi From Zero do princípio ao fim – tocaram-no duas vezes. Durante a primeira audição, ficámos só ali de pé, frente a uma grande tela onde fora projetada uma fotografia da banda – em que Mike e Emily pareciam estar a olhar diretamente para mim. Quando o álbum tocou segunda vez, dispersámo-nos pelo resto da sala, à volta das mesas onde estavam servidos canapés.

 

Já posso dizer que os Linkin Park me ofereceram jantar. 

 

No fundo, foi mais uma noite para celebrar a banda e o seu regresso. Mais um exemplo de coisas que, poucos meses antes, julgava remotas. 

 

Estou zangada em relação a uma coisa, no entanto. A Warner Portugal fez um reel do evento, mas retiraram-no das redes sociais. Eles entrevistaram-me durante o evento e passaram parte das minhas palavras na narração. Devia ter sacado o vídeo quando tive hipótese.

 

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Regressando a Two Faced, durante a listening party, antes desta faixa, uma das pessoas com quem fui segredou-me que esta era muito Hybrid Theory (ele já tinha arranjado maneira de ouvir From Zero… não me perguntem como). Depois de ouvir pela primeira vez, a minha reação foi, de facto:

 

– Isto é quase um remix de One Step Closer!

 

Não fui a única. Nos dias que se seguiram apareceram logo montagens misturando as duas músicas. Uma das minhas preferidas é esta – parece que Chester e Emily estão aos gritos um com o outro. 

 

I can’t hear myself think…

Shut up when I’m talking to you!

Stop yelling at meeee!

Shut up!

I can’t hear myself think!

Shut up!

 

Houve quem também apontasse semelhanças com Figure.09. Esta, já de si, é muito parecida com One Step Closer. As duas possuem um ancestral comum: a demo Plaster. Na preparação deste texto, apercebi-me que, na verdade, Two Faced parece-se ainda mais com Figure.09 que com One Step Closer. Ambas têm rap de Mike, os refrões têm melodias semelhantes, os gritos na terceira parte terminam ambos com “meeee”: “Get away from meeee! ”, “Stop yelling at meeee!“. 

 

Uma vez mais, há misturas no YouTube, como a abaixo, em que incorporaram os vocais de Two Faced no instrumental de Figure.09. Encaixam quase na perfeição. 

 

 

Ora, Mike recusa comparações entre Two Faced e músicas anteriores.

 

– Só quem não conhece bem a discografia dos Linkin Park – terá dito. 

 

Assumindo que não nos está a tomar por parvos, há que recordar que este é o homem que garante a pés juntos que Meteora é um disco completamente diferente de Hybrid Theory. Eu adoro o Mike, mas nem tudo o que este senhor diz se escreve.

 

Também não acho que a intenção dele e do resto da banda com Two Faced fosse criar uma nova versão de One Step Closer. Mike afirmou ter-se inspirado nas suas influências durante os tempos de Xero, pré-Chester. Já vimos antes que, desta feita, os Linkin Park tiveram menos pudor em reutilizar elementos de trabalhos anteriores. Finalmente, como vemos no respetivo episódio da LPTV, a parte do “Stop yelling at me!” foi ideia de Emily, uma expressão que ela usa. Calhou ser algo que pertence ao mesmo território de “shut up when I’m talking to you!”. 

 

Ainda assim, lamentavelmente, não consigo desassociar Two Faced de One Step Closer e de Figure.09. Não que não goste da música, atenção. Mal por mal, são elementos clássicos de Linkin Park e eu gosto de Linkin Park. Mas, infelizmente, Two Faced não consegue ter carácter próprio. 

 

Queria assinalar um aspeto curioso. Como sabem, o refrão começa com “two faced, caught in the middle”. Esta última expressão é relativamente comum na língua inglesa – é inclusivamente o título de uma música dos Paramore. E aparentemente, segundo este Tik Tok, a expressão é cantada sempre com esta melodia – com muito poucas variações. Eles só dão quatro exemplos – incluindo Two Faced e Caught in the Middle dos Paramore. Poderão existir várias outras músicas usando a mesma expressão que não a cantem da mesma forma.

 

Mesmo assim, quatro músicas de bandas diferentes usando essencialmente a mesma melodia? É uma coincidência muito grande.

 

 

Ainda dentro do tema, logo nos primeiros dias após o lançamento da música, fãs começaram a brincar dizendo que o início do refrão soava a “toothpaste, bought in the Lidl” ou outras variantes. Não digo que não ache piada ao meme, mas sempre me pareceu um tudo nada forçado. Mais do que, por exemplo, “try the ketchup, motherfucker”.

 

Dito isto, os Linkin Park entraram na piada. A partir de certa altura – quando começou a digressão europeia deste ano, ou talvez antes – os fãs começaram a especular se Emily andava a cantar a letra erradamente de propósito. Tivemos a confirmação quando, no concerto de Dusseldorf, a mulher foi-me vestir uma daquelas fatiotas do Lidl para cantar Two Faced, como podem ver no vídeo acima.

 

Daquelas coisas que não estavam no meu cartão de bingo para os Linkin Park há um ano ou dois. “Já não bebes mais”, diria eu se mo contassem. Ao mesmo tempo, isto foi umas duas outras semanas depois de Emily ter rapado o cabelo a um fã a meio de um concerto. Soube a uma terça-feira normal no universo de Linkin Park. 

 

Consta que, no concerto seguinte, ainda na Alemanha, andaram a distribuir fatos do Lidl entre os fãs na fila. Se fosse comigo, no entanto, bem diria aos Linkin Park para tirarem o cavalinho da chuva. Seria capaz de morrer por eles, mas não de vestir uma fatiota daquelas. Há limites.

 

Falta só falar sobre o videoclipe para Two Faced – o motivo pelo qual a música estará para sempre ligada à listening party. Saiu nessa mesma noite, poucas horas depois. Eu e os meus amigos vimo-lo pela primeira vez no telemóvel de um de nós, à porta de um bar na 24 de julho. Lembro-me de nos rirmos da cena final. 

 

Aparentemente, um videoclipe para Two Faced não fazia parte dos planos, terá sido insistência da gravadora. Ninguém tinha nenhuma ideia. Mike em particular não andaria com grande vontade – e de facto, se pensarmos nisso, o vídeo foi filmado poucos dias antes do concerto de regresso. Eles deviam andar numa pilha de nervos nessa altura, não precisavam mais desta. 

 

Joe lembrou-se de aproveitar o palco do concerto de regresso, vestir toda a gente de fato e gravata e pura e simplesmente tocarem a música. E a banda acabou por se divertir à grande. Com o playback, não precisava de se preocupar em cantar e/ou tocar como deve ser, tiveram permissão para se descontrolar, para abanarem o capacete, para andarem ao moche. Como eu e os meus amigos nos concertos. E isso refletiu-se no resultado final, no vídeo. Dá gosto ver.

 

 

Voltando à questão dos nervos pré-regresso, se eu estivesse no lugar dos Linkin Park, uma tarde de headbangs seria exatamente aquilo de que precisaria para lidar.

 

O episódio da LPTV que mostra os bastidores das filmagens é também delicioso. Emily chegando de skate, claro. Mike portando-se como se tivesse a idade dos próprios filhos nas brincadeiras entre takes. Emily acidentalmente empurrando o baixista Dave Farrell contra a bateria (esqueceu-se que tem de ter cuidado com os velhotes); com o joelho magoado; deitada de costas no chão, com Mike abanando-lhe a mão como se fosse um leque.

 

Não digam a ninguém, mas já tive vontade de fazer o mesmo depois de alguns concertos dos HT. Sobretudo depois do de Gondomar.

 

Acho que não é a primeira vez que refiro cá no blogue que nem sempre ligo aos videoclipes dos Linkin Park. Over Each Other e Two Faced são duas exceções. Estão entre os meus preferidos.

 

E para já ficamos por aqui. Não saiam desse lado, que a segunda parte vem já a seguir. Obrigada pela vossa visita. 

O que é Linkin Park? #2

Segunda parte da minha... análise? O que quer que queiram chamar aos milhares de palavras que gastei para lidar com o regresso dos Linkin Park. Podem ler a primeira parte aqui


Com tudo o que discutimos na parte anterior, quase me esqueço de falar sobre as músicas novas. Quase que é o menos importante no meio disto tudo.

 

The Emptiness Machine é uma boa música. Uma fórmula Linkin Park estilo Minutes to Midnight ou The Hunting Party – até me recorda um bocadinho Already Over. O lado mais rock/metal, mais pesado. 

 

Aliás, um ou dois dias depois de a música ter saído, reparei que o refrão de The Emptiness Machine é parecidíssimo com o de Final Masquerade. Tem a mesma estrutura, o mesmo esquema nas rimas. Os versos têm a mesma métrica e as últimas frases têm a mesma sintaxe: “Standing at the end of the final masquerade”/ “Falling for the promise of the emptiness machine”

 

Depois de ter reparado nisto, nunca mais consegui ouvir a música da mesma forma.

 

Mesmo um dos poucos elementos inéditos em The Emptiness Machine – abrir com o Mike a cantar, a Emily entrando na segunda parte – remete para Final Masquerade. Neste caso, a lindíssima versão acústica (que só comecei a apreciar como deve ser no início deste ano). 

 

Não adoro a letra. Reutiliza tropos antigos dos Linkin Park, sobre revolta e rebeldia, luta por identidade própria, estilo Numb. O verso que dá o título, “falling for the promise of the emptiness machine” irrita-me um bocadinho. Ironicamente, é vazio, é um cliché, não diz nada. 

 

A parte que mais gosto, por outro lado, é do verso “I only wanted to be part of something”. É aquele com que mais me identifico.

 

 

Pode parecer que não gosto de The Emptiness Machine, mas não é verdade. Gosto muito: é tão enérgica e contagiosa como várias outras da banda. Sim, é a fórmula típica dos Linkin Park mas… preparem-se para o choque… eu até gosto de Linkin Park.

 

Ainda assim, gosto um pouco mais de Heavy is the Crown – lançada no dia 24 de setembro como hino oficial do campeonato mundial de League of Legends. Passo a explicar porquê.

 

Existe uma frase que, de vez em quando, nos aparece na internet, pelos vistos da autoria de Frank Ocean. Traduzindo e parafraseando, “Quando se está feliz, curte-se a música. Quando se está triste, compreende-se as letras”. Nos últimos tempos, tenho adaptado essa frase para a minha relação com as músicas dos Linkin Park: antes de o Chester morrer, ligava mais à sonoridade. Depois de o Chester morrer, passei a compreender as letras.

 

Claro que isto é uma simplificação. Claro que sempre existiram músicas dos Linkin Park que me atraíram sobretudo pelas letras: Numb, Leave Out All the Rest, Castle of Glass. Ao mesmo tempo, não foi só a morte de Chester a fazer-me prestar atenção ao que as músicas diziam. Foi também uma consequência natural de escrever no blogue sobre Hybrid Theory, Meteora e One More Light.

 

Dito isto, uma das coisas que me atraiu para os Linkin Park nos meus primeiros anos como fã foi o carácter grandioso, cinemático, das músicas. Hoje em dia, por exemplo, temos o meme “...but it came out in 2007”. Os meus preferidos são o com Oppenheimer e o com o Across the Spiderverse (sobretudo porque me revejo na personagem solitária que encontra a sua banda). 

 

E já houve quem tenha feito o oposto, com The Emptiness Machine.

 

Ainda assim, gosto mais de New Divide. Acho que já contei esta história cá no blogue, mas é a minha preferida dos Linkin Park – precisamente pelo tom épico, cinemático, que me faz pensar em cenas de explosões e me deixou doida por lhe montar um vídeo. Arranjei matéria-prima dois anos depois, quando aprendi a sacar os filmes de Pokémon. Quando saiu Burn it Down, a minha segunda preferida, montei-lhe logo um vídeo

 

 

Só mais tarde é que soube que AMVs eram uma cena – e demorei ainda mais a perceber o papel que tiveram para a pegada dos Linkin Park. A banda sempre andou de mãos dadas com a cultura nerd. Os AMVs que inspiraram, o vídeo para Breaking the Habit, a banda sonora dos filmes dos Transformers (uma franquia que fez parte da infância dos próprios membros da banda) e de outros videojogos – por exemplo, The Catalyst, Lies Greed and Misery e Castle Of Glass em jogos de Medal of Honor. Eu fartava-me de usar esse carácter nerd de Linkin Park como inspiração para a minha escrita – e nem sequer fui a única fã portuguesa a fazê-lo.

 

Isto também é Linkin Park.

 

Heavy is the Crown apela a essa faceta da banda. Sonoramente é clássico Linkin Park. Parecidíssima com Faint, aliás: é o ritmo da bateria. (No outro dia um fã fez um mashup das duas músicas e, agora, fiquei com desejos de uma música com o Chester Emily a cantarem). 

 

O sample que eles usam faz-me lembrar um pouco rock sinfónico. Algo que não é muito habitual em Linkin Park, mas que contribui para o carácter épico. Uma vez mais, a letra não me diz muito. Pode-se argumentar que faz referências às expectativas dos demais nesta nova era dos Linkin Park, mas também pinta cenários vagamente bélicos e apocalípticos. Lá está, semelhante a New Divide. 

 

Aquilo que para mim potencia o carácter de Heavy is the Crown é mesmo o videoclipe. Não sei nada sobre League of Legends (alguém há de me explicar como é que temos personagens com óculos e instrumentos musicais num universo aparentemente medieval), mas o vídeo retrata o tipo de cenas que eu imaginava há mais de uma década quando ouvia Linkin Park – e que eu depois tentava passar para o papel. Esta música e este vídeo fazem-me sentir como se tivesse vinte e três anos de novo.

 

Em termos de últimos singles dos Linkin Park, continuo a preferir Lost e Friendly Fire. Mas The Emptiness Machine e Heavy is the Crown não são nada de deitar fora.

 

Por muito que goste destas músicas, no entanto, está a fazer-me alguma confusão os Linkin Park estarem a reciclar fórmulas antigas, a plagiarem-se a si mesmos até certo ponto. Não é costume deles – eles tinham o hábito de fazer coisas diferentes em cada álbum, despoletando a ira dos fãs

 

 

Não me é difícil arranjar explicações. Depois de tanto tempo parados, sem criarem música juntos, talvez se tenham sentido mais à vontade jogando pelo seguro, usando truques que resultaram antes. Talvez queiram explorar o fator nostalgia. Talvez tenham achado que já havia muita coisa diferente neste regresso, sete anos depois, e acharam melhor não se pôrem a inventar. Talvez tenha sido uma mistura de todos estes motivos. 

 

É possível que, em álbuns futuros, eles comecem a criar mais fora da caixa, como faziam antes.

 

A ver como é o resto do álbum. Dizem que nos esperam músicas ainda mais pesadas – o que é interessante nesta altura do campeonato e olhando para os álbuns imediatamente anteriores. The Hunting Party é dos mais pesados deles, One More Light é o mais pop, From Zero vai ser pesado outra vez. 

 

Seria fixe se o álbum a seguir fosse mais eletrónico, estilo Living Things ou Post Traumatic

 

Uma das melhores e mais estranhas partes deste processo todo, deste último mês, tem sido ver o mundo dos Linkin Park a restaurar-se. Entrevistas, videoclipes, concertos, vídeos da LPTV, AMVs, fãs nas ruas cantando In the End (tirando nós, na família HT, claro). Em teoria, nunca assumi que a banda tinha terminado de vez, sabia que eles poderiam voltar um dia. Na prática, sem dar por isso, habituei-me a falar dos Linkin Park no passado. Eles eram uma das muitas bandas de que falávamos a propósito da nostalgia pelos anos 2000. As pessoas vinham aos concertos dos Hybrid Theory porque não tinham tido oportunidade de ver os Linkin Park.

 

Isto há coisa de um mês e meio! E de repente estes bacanos regressam ao ativo, quase do dia para a noite! Com alguém chamado Emily como vocalista! E dando concertos menos de uma semana depois!

 

É muito bom por um lado. Por outro… não é a mesma coisa. A banda está diferente, não há como negá-lo. Tenho saudades de Chester, tenho saudades das palhaçadas dele, e não consigo evitar imaginá-lo cantando as músicas novas. 

 

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Enfim, faz parte, iria sempre fazer parte. Esta é uma nova versão da banda. É legítimo precisar de algum tempo para fazermos o luto pelo passado, como disse antes, e para nos habituarmos a este presente. 

 

Ao mesmo tempo, é aqui que os Hybrid Theory nos dão jeito.

 

Tenho de confessar: outra parte difícil deste processo teve a ver com os efeitos que um regresso dos Linkin Park teriam na banda de tributo. Sejamos sinceros: uma boa parte do sucesso dos Hybrid Theory dever-se-á ao facto de a banda original ter estado parada nos últimos sete anos. O que vai acontecer agora que os Linkin Park voltaram ao ativo? Será que a procura vai diminuir?

 

Algo que não ajudou em nada foi o facto de as primeiras contagens decrescentes terem coincidido com o ataque cardíaco que Miguel Martins, o guitarrista da banda, teve durante um concerto no Canadá. Foi horrível. Como fãs de Linkin Park já tivemos a nossa dose, mas vai além disso. Como já referi antes, nós os fãs formámos uma família em torno deles. Se não é amigo, é amigo de amigo, é familiar de amigo, é amigo de familiar. Se um sofre, nós também sofremos – e nem me refiro apenas à banda em si. 

 

O lugar-comum é verdade: o importante é ter saúde. Faz com que tudo o resto, nomeadamente estes conflitos mesquinhos, pareça insignificante. 

 

Mesmo assim, com o que aconteceu ao Miguel e com o regresso dos Linkin Park, tive ali uma altura em que receei o pior. Depois da revelação do novo alinhamento da banda original, no entanto, penso que os Hybrid Theory ainda têm um papel a desempenhar. Suponho que agora funcionem como um tributo à banda até 2017, uma cápsula do tempo. A voz do Chester e as músicas no tom igual às versões de estúdio. Uma forma de ter o melhor de dois mundos. Há espaço para todos no universo Linkin Park.

 

Claro que é preciso ter cuidado. Já tenho apanhado comentários do género “Isto é que é Linkin Park!”... e eu não gosto. A última coisa que quer é que os Hybrid Theory sejam usados como arma de arremesso contra a banda original. Corrijam-me se estiver enganada, mas não foi para isso que se criou o tributo.

 

 

Aliás, não é agora que me vou pôr a comparar Hybrid Theory com Linkin Park. Há muito que deixei de fazê-lo. Posso, de vez em quando, ver um vídeo deles e pensar, pela milionésima vez “Fogo, a voz do Ivo é igualzinha à do Chester”, mas não mais do que isso. Em parte por uma questão de sanidade mental, em parte porque aquilo que temos na banda e na seita é algo muito nosso. Algo que nós mesmos criámos, independentemente dos Linkin Park: as cumplicidades, os rituais… É difícil explicá-lo por palavras, mas é algo que não acontece com mais nenhum artista ou banda. É algo que me enche o coração de todas as vezes e é o motivo pelo qual continuo a ir a todos os concertos a que posso.

 

E têm sido muitos. Como disse antes, já conto doze, nove este ano, mais ou menos ao ritmo de um por mês. No fim de semana de 20 de julho foram dois em vinte e quatro horas. Só não continuo porque eles agora foram numa digressão de várias semanas para o estrangeiro. Neste momento mergulharam de cabeça no público brasileiro – literalmente no caso do Pedro Paixão. A última vez que os vi foi a 19 de setembro, já depois de os Linkin Park terem regressado. Cheguei a pensar que a experiência seria diferente com a banda original no ativo. Não foi. 

 

É mesmo algo que ninguém nos pode tirar. 

 

Ainda é cedo para saber que impacto este regresso terá na carreira dos Hybrid Theory. Se não estou em erro, as datas anunciadas até agora foram marcadas antes de setembro. A maior delas todas é o regresso deles ao Pavilhão Atlântico, a 22 de março do próximo ano, para um concerto de homenagem a Chester – com os Grey Daze a abrir. Depois disso, não sei. 

 

De qualquer forma, para mim já é demasiado tarde. Os Hybrid Theory já tomaram demasiado de mim: a minha cabeça, o meu coração, o meu dinheiro, o meu tempo livre, a minha vida social. Seja no Pavilhão Atlântico, no Rock in Rio ou numa festa de aldeia no meio de nenhures, enquanto tiver possibilidades, enquanto os Hybrid Theory continuarem, eu continuo também.

 

Outra parte difícil do regresso dos Linkin Park tem sido o regresso da discórdia entre os fãs. Também faz parte, infelizmente, sempre fez – desde Minutes to Midnight ou mesmo antes. A única altura em que houve paz na comunidade de fãs foram nestes últimos sete anos, quando a banda esteve em pausa. Fãs de Linkin Park nunca reagiram bem a mudanças – eu incluída, sobretudo com One More Light. Claro que uma grande parte iria reagir mal a um regresso dos Linkin Park sem Chester, fosse de que forma fosse. 

 

E eu infelizmente estava menos bem preparada para isso do que pensava. 

 

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Ao menos na comunidade HT as coisas têm-se mantido civilizadas, mesmo quando discordamos. Tenho dias em que levo mais a peito quando, na minha opinião, são demasiado duros para com os Linkin Park, mas guardo-o para mim mesma. O problema é meu. 

 

Como poderão concluir no fim deste longo testamento, as minhas opiniões têm sido tendencialmente positivas… mas posso estar enganada. Tenho noção de que posso estar a ser demasiado leal para com uma banda que, tanto quanto sei, só me vê como uma caixa multibanco. E pronto, talvez só tenham reativado os Linkin Park porque a marca ainda rende dinheiro – mais do que se arranjassem outro nome. 

 

Se for esse o motivo… não me importo muito. Afinal de contas, o dinheiro move o mundo atual e já vi coisas bem piores que isto para encher cofres. Ao menos tenho a minha banda preferida de volta.

 

E, apesar de tudo, apesar dos conflitos internos e externos, isso é ótimo. É brutal ter os Linkin Park de novo, quando cheguei a pensar que não voltaria a recuperá-los. 

 

E vou vê-los de novo em concerto – dez anos depois da última vez! Em Paris! E de novo se eles passarem por Portugal. Com toda uma seita a acompanhar-me!

 

Este foi o primeiro mês de vários anos, talvez mesmo décadas de Linkin Park. De músicas, álbuns, concertos, entrevistas, vídeos de bastidores. Vamos envelhecer juntos! É demasiado tarde para o Chester, mas não o é para o Mike, o Brad, a Emily e os outros – nem para os Hybrid Theory! Isto é um privilégio que nunca mais hei de voltar a tomar por garantido. Ninguém deixará que Chester seja esquecido, mas a nossa história com Linkin Park vai continuar.

 

A verdade é que não me traria felicidade nenhuma virar as costas à banda – não sem um bom motivo para isso, e não me parece que haja. Sou demasiado “soft”, como se diz agora, por tudo o que se relaciona com Linkin Park. Sempre fui e tenho sido ainda mais neste último ano e meio, depois de o tributo português deles ter mudado a minha vida. Sim, como expliquei antes, temos a nossa própria cena na família HT, independente da banda original, mas não muda o facto de ter sido Linkin Park a unir-nos. Eu estarei para sempre em dívida para com a banda e para com o Chester por isso.

 

 

E para com o Mike. Não tenho concordado com tudo o que ele fez nos últimos anos, nomeadamente quando se meteu em NTFs, e ainda estou confusa em relação às músicas a solo que lançou no ano passado. Mas o Mike manteve-se connosco nestes anos todos, sempre soube o que dizer a fãs com saudades do Chester, como eu. Ainda sabe. Temos projetado muito do nosso luto nele, ele tem-no aceitado. Até fez a digressão Post Traumatic em parte para dar um espaço para os fãs exprimirem as suas emoções em relação à morte do Chester – admitindo, anos mais tarde, que lhe custou. Como penso já ter dito antes aqui no blogue, Mike não tinha essa obrigação – a perda dele foi muito maior do que a nossa. 

 

Continuo com as minhas reservas, mas confio mais nele do que na má-fé da gente das internetes.

 

Aliás, uma das melhores partes da apresentação na noite de 5 de setembro foi ver o Mike sorrindo com a cara toda, como eu tanto gosto. Ficou mesmo contente com o cachê extra. Quando eu ainda me recordo de como ele estava no concerto de homenagem ao Chester, em outubro de 2017, quando ainda hoje ouço músicas de Post Traumatic. O Mike nasceu para isto, para estar em palco perante milhares cantando para ele.

 

Mesmo nos meus momentos mais céticos, pelo Mike, pela felicidade do Mike, estou disposta a dar-lhe o benefício da dúvida. Só mesmo porque uma das maiores fontes da minha felicidade hoje em dia nasceu graças a ele. 

 

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