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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Músicas Ao Calhas – Here I Am & I'm With You

Tudo começou quando a minha irmã me enviou esta mensagem:

 

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É claro que eu estava a exagerar para efeito cómico, mas confesso que fiquei um bocadinho chateada. Depois de arranjar uma cadela, tornei-me um bocadinho sensível a animais abandonados ou maltratados. Associar histórias dessas a uma das minhas canções preferidas de todos os tempos era a última coisa que desejava. Não se faz!

 

A neura não durou muito, felizmente. Aliás, esta mensagem da minha irmã pôs-me a pensar nas minhas duas músicas preferidas: I’m With You, de Avril Lavigne, claro está, e Here I Am, de Bryan Adams. Foi aí que reparei – pela primeira vez em mais de metade da minha vida – que as duas canções têm aspetos em comum, o que pode não ser coincidência.

 

Daí este texto. Não é a primeira vez que escrevo sobre I’m With You – esta será a terceira vez. Escrevi sobre ela de passagem na primeiríssima entrada de Músicas Ao Calhas, neste blogue. Também falei sobre ela quando analisei o álbum Let Go.

 

Talvez seja um bocadinho de mais mas, em minha defesa… é uma das minhas canções preferidas de todos os tempos! E espero, com este texto, apresentar uma nova perspetiva sobre a música.

 

 

Antes de começarmos, já que vamos falar sobre as minhas duas músicas preferidas, uma curiosidade. Há cerca de um ano, encontrei este artigo, que descreve um estudo segundo o qual os homens conhecem a sua canção preferida quando têm, em média, catorze anos. Para a mulher, a média é os treze anos. Cheguei a enviar este artigo para o Jon da ARTV (o tal Youtuber, crítico de música, que refiro de vez em quando), ele comentou o artigo no vídeo acima e parece que é verdade – embora hajam exceções, claro.

 

Pelo menos no meu caso, é verdade. Here I Am e I’m With You foram editadas em álbum quando tinha doze anos – com um mês de intervalo, por sinal! Ouvi Here I Am pela primeira vez algures no verão ou outono desse ano, quando fui ver o filme Spirit (sobre o qual escrevi aqui) ao cinema. Por sua vez, só conheci I’m With You no ano seguinte.

 

Tanto Here I Am como I’m With You foram as primeiras canções que conheci como sendo de Bryan Adams e Avril Lavigne, respetivamente. Não sei se o facto de terem sido as primeiras contribuiu para o seu estatuto como favoritas – talvez um pouco. No que toca a outros artistas ou bandas do meu “nicho”, as minhas canções favoritas deles não costumam ser as primeiras que oiço deles.

 

Acho que isso aconteceu com a Avril e com o Bryan porque foram os primeiros artistas que “adotei” oficialmente. Sempre gostei de música e de cantar desde muito pequena, mas foi com a Avril e o Bryan que iniciei oficialmente a minha vida como fã de música.

 

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Ainda há bem pouco tempo comentei que a Avril é a minha mãe musical. Pela mesma lógica, Bryan também pode ser considerado o meu pai musical (e esse tem de facto idade para ser meu pai). A relação de fã que tenho tido com cada um deles é diferente, visto que Bryan, na altura em que o conheci, já tinha uma carreira feita, com toda uma discografia que levei anos a conhecer. Avril, por sua vez, estava ainda a dar os seus primeiros passos no mundo da música.

 

Para além de serem ambos canadianos e de terem um estilo maioritariamente pop rock (e, tanto quanto parece, aparecerem nas capas dos álbuns novos em pelota), aquilo que Avril e Bryan têm em comum é o facto de – não tenho problemas em admiti-lo – não serem os melhores músicos por aí. Nem sequer são os melhores do meu nicho musical.

 

Não significa que sejam maus, bem pelo contrário. Bryan tem tido uma carreira invejável, cheia de êxitos, sobretudo nos anos 80 e 90. Aquela voz enrouquecida é como o vinho do Porto: só fica melhor com o tempo. Tem um jeito especial para baladas de amor (conforme deu para ver aqui), embora também saiba compôr músicas mais animadas, mais soft rock.

 

No entanto, acaba por não se venturar muito para fora de temas de amor e luxúria. Nunca foi o género de artista que tenta esticar os limites da música ou fazer algo que nunca foi feito.

 

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Por sua vez, Avril tem uma voz única, inconfundível. Abriu caminho para outras mulheres no mundo da música, tanto no que toca a música rock como para comporem as suas próprias canções, serem honestas e vulneráveis atrás do microfone. É conhecida pelos temas pop rock com influências de punk pop, mas também tem uma queda para baladas. Além de que, mesmo passados estes anos todos, continua a dar a ideia de ser genuína, despretensiosa, faz a música que entende, sem se preocupar com modas ou em causar choque mediático, ao contrário de muitos artistas por aí.

 

No entanto, apesar de uma boa parte da sua discografia ser honesta e autobiográfica, muitas das suas letras deixam a desejar. Uma coisa são músicas com Sk8er Boi e Girlfriend. Outra coisa são músicas como My Happy Ending, Nobody’s Home e Let Me Go, que tentam passar por sérias e emotivas, mas cuja letra tira-lhes credibilidade.

 

A qualidade aumentou no quinto álbum – e espero que continue a melhorar no próximo – mas, como vimos antes, a letra de Head Above Water, não sendo má, podia ser melhor.

 

Tenho de admitir, para além disso, falta a Avril algum carisma e presença em palco. Mais uma vez, ela tem melhorado com o tempo, mas continua intermitente – embora, na última digressão, os primeiros sintomas da Doença de Lyme podem explicar algumas apresentações mais apagadas.

 

Mesmo com estes “defeitos”, Avril e Bryan continuam a estar bem acima da média, a meu ver. Além disso, são os meus pais musicais, estarão sempre em primeiro lugar no meu coração.

 

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Mas falemos sobre as músicas em si, por ordem cronológica. Como referi acima, conheci Here I Am quando fui ver o filme Spirit. Conforme escrevi antes, Spirit é um dos meus filmes de animação preferidos de todos os tempos, o Rei Leão da DreamWorks, criminalmente subvalorizado (pergunto-me se terá a ver com o facto de os vilões serem os colonizadores americanos).

 

Um dos destaques do filme é a sua banda sonora, obviamente. Já escrevi aqui no blogue sobre várias das músicas. Ainda hoje tenho o CD no meu carro e, quando o oiço, não deixo de me maravilhar com os arranjos sublimes de Hans Zimmer – o homem é um génio! É um daqueles álbuns que considero clássicos.

 

Here I Am é considerado o tema principal da banda sonora de Spirit, mas a verdade é que I Will Always Return toca mais vezes ao longo do filme – enquanto Here I Am consiste, apenas, em uma estância e um refrão repetido, no início do filme, e nunca mais se ouve até aos créditos finais. No entanto, Here I Am foi lançada como single e acho que até se saiu bem. Portugal foi um dos três países, a par do Taiwan e do Azerbaijão onde chegou ao primeiro lugar (viva nós!). Mesmo nos Estados Unidos e nalguns países da Europa andou perto dos lugares cimeiros. Ainda hoje é tocada nas rádios.

 

Um rápido aparte: sabemos que estamos a ficar velhos quando a nossa música preferida passa na m80. E no entanto já apanhei Bad Romance, que tem menos de uma década…

 

Estou a desviar-me. Voltemos atrás.

 

 

Here I Am é o Circle of Life de Spirit: a música que toca quando o protagonista nasce. A versão que toca no filme está dentro do estilo dos arranjos de Hans Zimmer. Começa suave e inocente, como seria de esperar, até ganhar um carácter eufórico e grandioso no segundo refrão.

 

A versão single que toca nos créditos finais é diferente, claro: pop rock, mais compatível com as rádios do início dos anos 2000.

 

Ainda assim, Here I Am não é assim tão parecida com o resto da discografia de Bryan. Tem elementos de rock, sim, mas a percussão é diferente e os teclados são mais predominantes que o habitual. Segundo o booklet de Anthology – o álbum Greatest Hits que Bryan lançou em finais de 2005 – foram os produtores Jimmy Jam e Terry Lewis que, quando a banda sonora de Spirit estava quase pronta, pegaram nas gravações iniciais de Here I Am e deram-lhe um carácter mais R&B.

 

Suponho que, se tivesse sido produzida pelos seus colaboradores habituais, Here I Am seria mais parecida ao resto da discografia de Bryan.

 

Só sei que aquelas notas iniciais (de teclado?), que são a imagem de marca da música, aquecem logo o meu coração. A música começa suave, minimalista, até ao refrão. É nesta altura que surgem as guitarras elétricas e a batida, que conferem um tom eufórico que se mantém durante toda a faixa. Destaque para o tal riff que abre a canção e se vai repetindo e para o solo de guitarra.

 

 

A versão original de Here I Am tem quase cinco minutos de duração logo, como seria de esperar, existem versões mais curtas para passar nas rádios. A compilação Ultimate inclui uma delas. Nesta versão (que só ouvi pela primeira vez há coisa de duas semanas), curiosamente, a linha de abertura é tocada por guitarra elétrica, por cima do teclado. Não desgosto da alteração, dá um efeito fixe, mas gostava de saber se a fizeram por algum motivo especial.

 

Cortaram, no entanto, a repetição da primeira estância na terceira parte da música. Sei que é assim que Bryan a tem tocado nos concertos ao longo dos últimos anos, mas não sou fã.

 

Aliás, por princípio, não gosto de versões reduzidas para a rádio. Compreendo o seu propósito, mas por norma prefiro as versões integrais. Há exceções, claro – por exemplo, Let’s Make a Night to Remember é demasiado comprida e não me importo que Bryan corte a segunda parte quando a toca ao vivo. No entanto, regra geral, se os músicos achassem que dá para saltar uns compassos ou mesmo parte de uma estância, estes não teriam sido incluídos no álbum! Parecendo que não, alguns de nós conseguem concentrar-se numa música durante mais de quatro minutos.

 

No caso de Here I Am, então, não cortava nenhum momento de pausa, nenhuma nota do solo de guitarra. Na minha opinião, todos esses elementos, a alternância entre momentos de calma e momentos de euforia, contribuem para a emoção da música. Não digo que as versões editadas não tenham o mesmo efeito, mas fica definitivamente a faltar qualquer coisa.

 

 

Here I Am foi uma das canções incluídas no álbum ao vivo Bare Bones, em 2010 – e também no que foi gravado ao vivo na Casa da Ópera de Sydney e editado em 2013. Este arranjo também funciona – a música chega a parecer uma balada, com o piano tocando o riff de marca da canção e Bryan improvisando o solo na guitarra acústica.

 

Na verdade, a meu ver, Here I Am é daquelas músicas – como, por exemplo, Heaven – cuja melodia é tão boa que soa bem em quase todos os arranjos possíveis.

 

Passando à letra de Here I Am, sou a primeira a admitir que esta não é das melhores – curta, demasiado vaga, perdendo-se um pouco em clichés. Como ainda era muito nova quando conheci a música, nem sequer reparei na letra fraquinha. Nos dezasseis anos seguintes, não fiz outra coisa que não projetar significados nela.

 

Vimos acima que a música foi composta para assinalar o nascimento do protagonista de Spirit. Para mim, Here I Am é precisamente isso: uma música de começos, ou de recomeços. Bryan, por exemplo, escolheu-a para abrir o concerto que deu cá, em fevereiro de 2003 (o primeiro a que assisti na vida). Também em dezembro de 2011 (o segundo dele a que fui) foi uma das primeiras da setlist.

 

Here I Am, no entanto, serviria para marcar o início de qualquer história, desde que não seja demasiado sombria. Um nascimento. O Harry Potter vislumbrando Hogwarts pela primeira vez. Um treinador de Pokémon começando a sua jornada numa região nova. As Crianças Escolhidas despertando, pela primeira vez, no Mundo Digimon.

 

 

Para além destas, há muitos anos que associo Here I Am à Seleção Nacional. Montei este vídeo há quase uma década (!!!). As imagens estão desatualizadas (O Meireles sem barba!) e a qualidade não é a melhor, mas a emoção é a mesma: a euforia de um jogo da Equipa de Todos Nós, sobretudo ao vivo, de um golo, da presença num campeonato de seleções.

 

Fez particular sentido no 10 de julho de 2016 – tonight we’ll make our dreams come true.

 

No fundo, o tema de Here I Am é este: alguém que chegou a um sítio novo, ou regressou a um sítio, que é exatamente onde quer estar.

 

Por sua vez, I’m With You é sobre alguém que não quer estar onde está.

 

 

Avril compôs I’m With You com Lauren Christy (as duas colaboraram outra vez, passados estes anos todos, no sexto álbum, na música It Was in Me) quando estava a ter um dia daqueles: o tempo estava cinzento, ela sentia-se triste, vazia, chateada por não ter namorado.

 

Todos nós já tivemos dias assim. Todos nós nos sentimos sozinhos de vez em quando, sem saber onde estamos nem para onde vamos. Ou até sabemos, mas não queremos lá estar.

 

É aí que está uma das forças de I’m With You: a sua mensagem universal.

 

Já contei antes a minha história, de ter treze anos e de cantarolar I’m With You enquanto esperava que me viessem buscar à escola. Tenho, aliás, visto muitas pessoas na Internet gracejando que I’m With You é sobre estar à espera de um Uber.

 

Também já me vi numa situação parecida à do videoclipe, quando tinha dezoito anos: numa festa a que fui contrariada, em que literalmente toda a gente menos eu se estava a divertir, em que passei a noite inteira à espera que acabasse para poder ir para casa.

 

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Liability, da Lorde, possui uma emoção parecida: a sensação de estar num sítio – ou numa relação – onde não nos integramos, onde não somos bem-vindos, onde nos sentimos isolados. A narradora de Liability decide, em resposta, voltar-se para si mesma, fazer companhia a si mesma. A narradora de I’m With You não tem uma atitude tão saudável, como veremos adiante.

 

Segundo Lorde, de resto, um dos temas do álbum Melodrama é solidão: as partes boas e as partes más.

 

Não gostei da cena dos cãezinhos abandonados, mas a interpretação não está errada. Há pessoas que se comportam como cachorrinhos perdidos: extremamente solitárias, sedentas de companhia, que se agarram a qualquer pessoa. Já apanhei utentes assim na farmácia. Não é o comportamento mais saudável, mas a narradora de I’m With You apresenta traços dele – ao pedir companhia a um estranho.

 

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Uma coisa em que só reparei há cerca de um par de anos foi que, se formos a ver, Give You What You Like é uma versão erótica de I’m With You. Em ambas as canções, as narradoras buscam uma cura para a solidão. Em I’m With You, essa vem da companhia de um estranho. Em Give You What You Like, essa cura vem de um encontro sexual.

 

Mesmo em termos musicais, as duas faixas possuem semelhanças entre si. Ambas começam num tom grave e intimista. Só que Give You What You Like mantém-se nesse tom, enquanto I’m With You evolui para uma power ballad de respeito.

 

O que me leva, então, à parte musical de I’m With You. Segundo a Avril, esta foi composta ao piano – terá sido a única do álbum Let Go a ser composta ao piano – mas, tanto quanto consigo ouvir, esse instrumento não aparece em parte nenhuma da música. I’m With You é guiada por uma guitarra acústica em tom grave, acompanhada por um violoncelo e uma ou outra nota de guitarra. É no refrão que surgem as guitarras elétricas.

 

O destaque, no entanto, é mesmo o desempenho vocal. Conforme vimos quando falámos sobre Let Go, nesta altura a voz da Avril não era tão firme como agora. Era pura, inocente, com nuances deliciosas – uma das minhas partes preferidas em I’m With You é a maneira como ela canta o verso “tryin’ to figure out this life” no último refrão.

 

 

Mesmo com vocais ainda algo frágeis, estes não falham na hora de cantar os agudos. A escalada dos yeah-yeah é um exemplo óbvio, mas a minha parte preferida da música é o último minuto: com os “I’m with you! I’m with you!” agudos e os últimos em tom normal, de novo. Sempre adorei esta transição. É como se houvesse um alívio da tensão após o clímax da música.

 

I’m With You é uma música triste na sua maioria, mas sempre deixa uma nota de esperança – a narradora consegue encontrar companhia no fim. Vimos antes que confiar em estranhos pode não ser a atitude mais saudável, pode correr mal. Mas também pode vir a correr bem. Pode ser que esse estranho se torne alguém importante na nossa vida – talvez um novo amor ou “apenas” um novo amigo. Se estivermos dispostos a dar esse salto de fé.

 

Numa sessão de perguntas e respostas que ela deu no Twitter, em dezembro último, Avril revelou que, se pudesse dedicar uma canção aos seus fãs, essa seria I’m With You. Para começar, é a sua favorita (embora, nos primeiros anos da sua carreira, alegasse que Losing Grip era a sua favorita). Em concertos, ela costuma virar o microfone para o público, para a primeira parte do último refrão. Nos últimos anos, chega mesmo a fazer as audiências repetirem essa parte várias vezes. Avril revelou que, mais do que qualquer outra, quando a canta, sente-se em sintonia com os seus fãs.

 

Gosto de pensar que é, também, dedicada àqueles que têm usado a música da Avril para combater a solidão, para conhecer e ligar-se a outra pessoas, para descobrir quem eram e o seu lugar no mundo. Como eu.

 

 

 

Como podem ver, as minhas duas músicas preferidas são o oposto uma da outra, de certa forma. I’m With You é sobre estar-se perdido – ou, pelo menos, no sítio errado – e encontrar uma luz que nos poderá conduzir ao sítio certo. Here I Am é sobre a euforia de estar no sítio certo.

 

Que diz isso sobre mim? Que alterno entre perdida e achada? Que ando sempre à procura de algo? De sítios perfeitos, como reza outra das minhas canções preferidas?

 

Talvez seja isso. Afinal de contas, existiram muitas alturas na minha vida em que me sentia isolada, desajeitada, sem saber o que estava a fazer com a minha vida, incapaz de me integrar entre os “normais”. Demorei muito tempo a aprender a sentir-me confortável na minha pele – ainda ando a trabalhar nisso. Fui capaz em parte porque, nos últimos anos, tive o prazer de conhecer várias pessoas, de viver experiências fabulosas, precisamente à conta das minhas paixões – as coisas que dificultavam a minha integração.

 

Por outras palavras, de viver momentos como os descritos em Here I Am.

 

E, agora que penso nisso, se houver uma canção equivalente a Here I Am na discografia de Avril – uma canção sobre estar no sítio certo – é Innocence.

 

 

I’m With You e Here I Am funcionam, assim, como prequela e sequela, duas facetas de mim mesma – com Perfect Places a funcionar, talvez, como um intermédio entre ambos esses modos. À medida que envelheço tenho conseguido inclinar-me mais para o modo Here I Am, mas continuo a ter os meus dias I’m With You.

 

Ou talvez tudo isto sejam coincidências. Talvez esteja a projetar, a ver tratados filosóficos em músicas pop. Mas também de que serve a música – e a arte em geral – senão como ponto de partida para descobrir quem somos?

 

Felizmente, como referido no texto anterior, nas próximas semanas vou receber dois álbuns novos de cada um destes artistas, com duas semanas de intervalo – já depois de ter recebido Resist, dos Within Temptation. Mais de trinta músicas novas no total para catalisarem as minhas introspeções.

 

Ou, pelo menos, para cantar no carro ou para ajudar a suportar um dia difícil.

 

Como é habitual, quero escrever análises desses três álbuns. E como também é habitual, essas análises devem demorar. Não quero escrever sobre Resist sem escrever sobre My Indigo – uma análise que ando a adiar desde o verão passado. No entanto, é possível que comece a escrever sobre Head Above Water mal o álbum esteja disponível.

 

Que querem? É a minha mãe musical!

 

De qualquer forma, as análises a esses quatro álbuns deverão ser as próximas publicações neste blogue, mesmo que ainda demorem umas semanas (se não forem meses).

 

Obrigada por terem lido este texto particularmente egocêntrico. Faltam oito dias e picos para Head Above Water e vinte e dois dias para Shine A Light. Até lá... 

"Nowhere else on Earth I'd Rather Be" ou Bryan Adams ao vivo pela terceira vez

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Yep, aquela sou eu. Fonte: Blitz

 

Bryan Adams atuou no Pavilhão Atlântico (nunca me convencerão a chamar-lhe MEO Arena) na passada segunda-feira, dia 25 de janeiro. Eu e a minha irmã estivemos lá, quase na primeira fila (tinha uma pessoa à frente). Não podia deixar de falar do concerto aqui no blogue. 

 

NOTA: Eu não sei como é com vocês, mas eu não gosto de spoilers em relação a concertos. Prefiro não saber de possíveis setlists, de truques de palco, de ocorrências engraçadas em concertos anteriores, entre outras coisas, dentro do possível, claro. Gosto de ser surpreendida, de descobrir coisas pela primeira vez por mim mesma e não por testemunhos alheios ou vídeos do YouTube – como, por exemplo, quando descobri acerca do Pressure-flip dos Paramore quando estes vieram ao Alive em 2011. Uma vez que já se passaram uns dias desde os dois concertos em Portugal, em princípio este texto não estragará a surpresa a ninguém. No entanto, pode ser que alguém esteja a pensar a ir a uma das datas da digressão no estrangeiro. Para essas pessoas fica o alerta de spoilers.

 

Depois de, em 2011, termos ficado nas bancadas e detestado (se eu quisesse assistir a um concerto sentada, teria ficado em casa, no sofá, a ver o DVD Live in Lisbon. E as pessoas ao nosso lado pareciam estar a dormitar…) e também por uma questão económica (os preços subiram imenso em apenas quatro anos, é uma coisa parva), este ano quisemos ir para a plateia. Para arranjarmos lugares decentes, chegámos lá com duas horas de antecedência (mas também pensávamos que o concerto começava meia hora antes). Tivemos de esperar uma hora ao frio antes de abrirem as portas, mas conseguíamos ouvir do lado de fora os testes de som, dando alguns spoilers da setlist.

 

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Eu, outra vez. Fonte: Blitz

 

 

Quando finalmente nos deixaram entrar no Pavilhão, eu e a minha irmã conseguimos ficar perto do palco, mais para a direita – cheguei a ter um dejá-vu pois foi quase a mesma posição em que fiquei no Rock in Rio de 2014. Ainda ficámos mis uma hora e vinte minutos à espera, entretendo-nos com a capa no ecrã gigante, que de vez em quando mexia os olhos, fazia duck faces, deitava a língua de fora, e, a certa altura, pousou-lhe uma mosca no nariz e rejeitou uma chamada no seu iPhone... 

 

Finalmente, o concerto começou com Do What You Gotta Do - por sinal, a canção de que gosto menos em Get Up, mas não deixei de cantá-la. Para além do álbum Get Up, a setlist foi também influenciada pelos 30 anos de Reckless – para além dos singles do costume, Bryan e os companheiros de banda tocaram também She's Only Happy When She's Dancin', Somebody e Kids Wanna Rock. Só ficou a faltar One Night Love Affair. Ele também tocou outros temas menos rodados, como I'll Always Be Right There, o cover de C'mon Everybody (numa versão mais rock que a de Tracks of My Years), e Lonely Nights – esta última em resposta a um pedido nas redes sociais (porque não me lembrei eu também de pedir músicas desta forma?).

 

Por acaso, houve uma altura, há cerca de... nove, dez anos (?!) em que andava a ouvir imenso esta música, imaginando-a tocada ao vivo. Foi fixe vê-la passar da imaginação à realidade sem muitas alterações - as expressões do Keith Scott nos backvocals, por exemplo, eram iguaizinhas ao que imaginei. É o que dá ter visto o DVD Live in Lisbon inúmeras vezes, na altura.

 

Gostei do facto de esta setlist ter equilibrado os Summer of 69's desta vida com temas menos rodados, como os que referi acima. Já tinha sido assim em 2011, cujo tema fora os 20 anos de Waking Up the Neighbours, rendendo temas como House Arrest, Do I Have to Say the Words, Depend on Me, Thought I'd Died and Gone to Heaven (que eu adoro). Foi um dos motivos pelos quais não me importei muito por ter falhado o concerto do Rock in Rio em 2012, no qual ele tocou quase só os singles habituais que toca em todos os concertos. São os temas de que toda a gente gosta, é certo, mas que não satisfazem completamente o fã mais dedicado, que tem favoritos entre os temas menos popularizados. O próprio Bryan admitiu, durante o concerto, que não é fácil agradar a toda a gente, que treze álbuns correspondem a muitas músicas. Eu falo por mim mas não fiquei com motivos de queixa em relação à setlist.

 

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Após a terceira ou quarta música, Bryan apresentou-se dizendo que, em Portugal, o seu nome é "O-Bryan". "O-Bryan?", perguntávamos nós. Sim, porque, em terras lusas, as pessoas cumprimentam-no com um "Ó Bryan, como está?". Ele tem sentido de humor, dá para ver, por exemplo, nesta entrevista (a propósito, será que lhe arranjaram carcaças, desta vez?). Mais tarde no concerto, ele diria algo como "This is kind of a new song for us, you may have heard it on the album, if you know it sing along..." antes de começar a tocar... (Everything I Do) I Do it For You. Como se diz em bom português, jajão.

 

Antes dessa, no entanto, já tínhamos tido outros pontos altos, como Heaven - em que o Pavilhão se encheu de luzes brancas, nós, na audiência, cantámos a primeira estrofe sozinhos, muitos agarrados aos mais-que-tudo.

 

Por outro lado, uma das minhas maiores expectativas era It's Only Love, sempre uma oportunidade para exibir as habilidades da arma secreta, como Bryan lhe chamou, Keith Scott, um dos melhores guitarristas do Mundo. Não fiquei desiludida.

 

Tivemos, contudo, um pequeno desapontamento. Para a canção Baby When You're Gone, o Bryan costumava chamar uma menina ao palco. Estando eu e a minha irmã muito perto do palco, estávamos as duas, como diz a minha irmã, cheias d'a fé. Eu ia mesmo pedir para tocar guitarra em vez de cantar - tinha andado a praticar e tudo! Bryan, no entanto, quis fazer uma coisa diferente: pediu uma "mulher selvagem" para dançar ao som de If Ya Wanna Be Bad Ya Gotta Be Good. Não é tão giro como subir ao palco, na minha opinião, mas sempre rendeu momentos engraçados, como poderão ver no vídeo abaixo. 

 

 

 

A feliz contemplada foi uma Joana, de top branco (ele só não me escolheu a mim porque eu estava vestida até ao pescoço, aposto... mas também não sou grande dançarina e demasiado tímida para aquele género de dança). Mas a Joana não se saiu nada mal e o próprio Bryan, como podem ver, não teve pejo em encorajá-la. Também poderão ver que ele tentou emparelhá-la com algum homem livre no concerto, antes de ela mostrar que era casada.

 

- Yeah, but he's not here - disse ele. Tinha ficado a jogar futebol - Of course. He's Portuguese? Of course he plays football!

 

Um aparte só para dizer que eu só aceitarei como marido (ou esposa) alguém que venha comigo a concertos, do Bryan Adams ou de outros artistas de que eu goste. Não acho nada de mais, até porque eu, ao contrário de muitas mulheres, não gosto assim tanto de compras nem de filmes lamechas e, além disso, sou fã de futebol.

 

 

 

Depois desta, ele tocou Here I Am, também a pedido - incluindo de um cartaz que se via na audiência. Fico em dívida para essa pessoa, pois é a minha canção preferida dele e ia ficar triste se não tivesse sido tocada. 

 

Tendo ficado muito perto do palco, mesmo em frente de um dos microfones, como se vê no primeiro vídeo, eu e a minha irmã pudemos ver tanto Bryan como Keith mesmo à nossa frente em várias ocasiões. Desta vez não cometi o erro do Rock in Rio de 2014 e procurei não desperdiçar essas ocasiões: sempre que olhavam na minha direção, soprava-lhes beijos, fazia-lhes corações com o dedos, apontava para eles quando as canções o justificavam. O ponto mais alto foi em 18 'Til I Die, quando o Bryan apontou para a minha irmã, a única naquela zona tirando eu que sabia a letra (estão na primeira fila e nem sequer sabem a letra de 18 'Til I Die. Tristeza...) e ela apontou de volta. Desde essa altura ela quem vindo a dizer que o Bryan cantou pelo menos aqueles três versos - We´re gonna have a ball, yeah/ We're gonna have a blast/Gonna make it last! - especialmente para ela. Até porque ela tem dezoito anos, precisamente.

 

 

 

Tal como já tinha acontecido antes, o concerto terminou com aquilo a que chamo um momento Bare Bones: Bryan sozinho com uma guitarra e uma harmónica. Antes, Bryan falou um pouco da sua infância em Birre, Cascais, dos seus primeiros passos no mundo da música: desde a música clássica do seu pai ao fado - altura em que percebeu o poder da música para tocar pessoas, independentemente das palavras - aos Beatles. De seguida, tocou Straight From the Heart. Gosto imenso de ouvir a música assim, só com guitarra e harmónica, realçando a relativa inocência da letra. 

 

Antes da última canção, All For Love, Bryan pediu-nos que acendêssemos todos os telemóveis e o Pavilhão Atlântico encheu-se de luz. Não gosto assim tanto da versão acústica da música, sobretudo por não incluir a terceira parte, mas não deixou de ser um belo encerramento de concerto.

 

E assim se passou mais uma das melhores noites da minha vida. Saí do Pavilhão Atlântico à beira da desidratação, com as pernas a querer colapsar. Fiquei dorida durante dois ou três dias e estou convencida que a constipação que apanhei está relacionada com o abuso das cordas vocais. Costumo dizer que, quando temos sintomas de bangover como estes, é porque tivemos uma das melhores experiências da nossa vida, é porque aproveitámos como deve ser. 

 

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O meu pai perguntou-me, quando regressámos a casa, se eu não estava farta do Bryan, após três concertos. Aparentemente, ainda não. Se o Bryan ainda não se fartou ao fim de mais de trinta e cinco anos e, por esta altura, de milhares de concertos, eu não me vou fartar ao fim de apenas treze anos (metade da minha vida, vejo agora) e três concertos. Como explica muito bem este artigo, existem bons motivos para uma pessoa ver várias vezes os mesmos artistas ao vivo. Vocês sabem que eu tenho uma relação muito próxima com a música - serve-me de companhia, de inspiração, de catarse, de ligação com outras pessoas. Um concerto dos meus cantores ou bandas preferidos é uma celebração disso. Uma celebração com mais gente igualmente tocada pela música e com os criadores dela. Uma maneira de mostrar a minha gratidão a esses criadores. 

 

Dizem que o dinheiro traz mais felicidade se for gasto em experiências, mais do que em objetos. Concertos de artistas de quem gosto são, para mim, um dos melhores exemplos disso. Daí que, sim, enquanto Bryan Adams estiver por aí às voltas dando concertos (e cheira-me que dá-los-á durante mais tempo do que se calcula), dentro das minhas possibilidades, eu estarei sempre lá. E, como reza a minha canção preferida, não haverá mais sítio na Terra onde preferisse estar. 

Bryan Adams - Bare Bones

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Este senhor é o meu cantor masculino preferido. Conheci-o há dez anos, com o filme "Spirit", embora já conhecesse, vagamente, de algumas músicas dele. O tema principal do filme, "Here I Am", é a minha música preferida dele e ainda hoje, passada uma década, adoro esta música por vários motivos - se já tiverem espreitado o meu outro blogue, saberão já que uma das razões é o facto de a associar à Seleção Nacional - ainda me toca, não sou capaz de me cansar dela. Esta é uma crítica ao mais recente álbum dele, um álbum ao vivo.
 
O Bryan nunca foi muito de concertos super produzidos, o estilo dele sempre foi deixar as músicas falarem por si mesmas. E, pelo menos desde que vou seguindo a carreira dele, isso tem resultado. Quando se tem carisma, bom humor e uma carreira recheada de singles de sucesso que os fãs cantam em coro como Bryan Adams tem, não é preciso mais nada para se dar um bomespetáculo. 
 
Ora, há cerca de um quatro anos, o Bryan decidiu levar essa máxima de "deixar as músicas falarem por si mesmas"; a outro nível e começou a dar concertos acústicos. É só ele, uma guitarra acústica, às vezes a sua harmónica, às vezes acompanhado por um pianista. Chamou a essa digressão The Bare Bones Tour precisamente porque as músicas são apresentadas no seu esqueleto mais básico, só com os instrumentos mais básicos, da maneira como foram inicialmente compostas. E há um ano, foi editado um álbum ao vivo dessa digressão, também com o título Bare Bones. 
 
Da tracklist, fazem parte alguns dos singles mais conhecidos como (Everything I Do) I Do It ForYou e Summer of '69, à mistura com temas que não são singles - Walk On By e You'reStill Beautiful to Me - músicas que ele compôs para outras pessoas mas que, tanto quanto sei, nunca gravou em estúdio e uma inédita - I Still Miss You... A Little Bit. 
 
No geral, todas as músicas soam bem a diferentes níveis, tirando apenas It's Only Love, que fica muito  incompleta sem os acordes frenéticos e os solos de guitarra elétrica. Outras soam muito parecidas às versões originais embora algumas como You're Still Beautiful to Me ganham um novo encanto ao serem cantadas ao vivo. Outras - como Let's Make a Night to Remember e Straight From The Heart - soam bem melhor assim, acústicas. Finalmente, temos aquelas, comoSummer of '69, Heaven e Here I Am (a minha preferida dele) que soam absolutamente fantásticas em todas as versões criadas. 
 
Um destaque para a faixa inédita I Still Miss You... A Little Bit, uma música bem humorada que, na minha opinião, parece-se com What The Hell contada do ponto de vista do namorado. O narrador queixa-se da amada que diz que o ama e tal mas que parece querer uma relação aberta e passa a vida a dormir com os amigos dele. 
 
Para além disso, o CD tem todas as coisas boas dos álbuns ao vivo e mais algumas que só esta digressão pode ter: os aplausos, as palmas marcando a batida, o público cantando com um coro profissional, as piadas e histórias que o Bryan vai contando nos intervalos, as gargalhadas depois dessas histórias ou quando, entre outras coisas, ele se pôs a cantar com um sotaque sulista (penso eu...). 
 
Podem ver no vídeo abaixo um exemplo das coisas que mencionei acima: 
 

 
Em suma, é um álbum recomendável a fãs do cantor ou então a pessoas que queiram conhecer melhor a sua música.
 
Esta crítica já tinha sido publicada no Fórum Avril Portugal nas vésperas do concerto que o Bryan deu em dezembro do ano passado, a propósito dos 20 do seu álbum Waking Up The Neighbours. Depois um dia destes publico, não exatamente uma crítica mas o relato da minha experiência nesse concerto. Esta nunca a publiquei antes, aliás, nem sequer está acabada. Digo apenas que nem esse concerto, nem o que ele deu no Rock in Rio deste ano foi como acabei de descrever; tiveram a banda toda, um pouco com pena minha, pois tinha vontade de assistir ao um espectáculo Bare Bones. Contudo, como já disse acima, com banda ou sem ela, Bryan Adams tem tudo o que é preciso e ainda mais para dar alto concerto, tem tudo o que é preciso para, sempre que sobe a um palco, oferecer a cada membro da audiência (isto já é um cliché entre os fãs do Bryan mas enfim...) uma "Night to Remember".

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