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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna #3

Terceira e última parte da análise a Kizuna. Podem ser as partes anteriores aqui e aqui.

 

1) Spoilers: esta análise vai discutir extensamente os eventos do filme Digimon Last Evolution Kizuna e poderá também revelar detalhes dos enredos das três temporadas do universo de Adventure (Aventure, 02 e Tri). Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios de Digimon têm traduções controversas – na língua portuguesa têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Conforme tinha dito que faria quando terminei as análises a Tri, para esta análise vou usar os nomes japoneses.

 

Esta agora vai doer. 

 

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Como disse antes, fiquei à espera de uma solução milagrosa para a contagem decrescente até ao último minuto. Recusava-me, uma parte de mim ainda se recusa, a aceitar aquele destino. E, em minha defesa, temos o epílogo de 02 na equação, mas falamos sobre isso mais tarde.

 

Para já, Taichi e Yamato levam separadamente os respectivos Digimon a ver a vista, à hora do pôr-do-sol, quando a contagem decrescente está quase no zero. Yamato comprou, inclusivamente, uma harmónica para a ocasião – gosto de pensar que Taichi e Agumon o ouviram tocar, mesmo à distância.

 

Finalmente, Agumon e Gabumon perguntam aos parceiros o que vão fazer no dia seguinte. Taichi e Yamato olham para o horizonte, pensando na questão. Vemos duas borboletas voando em direção às nuvens. Quando os dois rapazes – os dois homens – estão preparados para responder e olham para o lado, Agumon e Gabumon já não estão lá. Os dispositivos digitais apodrecem. As mãos que os seguiram tremem e lágrimas caem nos dispositivos. 

 

Éramos três a chorar. 

 

Ainda há tempo para umas últimas imagens de Taichi e Yamato, vários meses mais tarde – como as cerejeiras estão em flor, é capaz de ser a primavera seguinte. Parecem satisfeitos. É um alívio, este final já é suficientemente triste. Já viram como seria se a última imagem que tivesse de heróis que conheço e adoro há duas décadas fosse deles soluçando (de forma bem audível) sobre os seus dispositivos?

 

Os créditos finais incluem imagens de cada um dos doze protagonistas do universo de Adventure nas respectivas vidas e carreiras. De notar que os da geração de 02 (incluindo Takeru e Hikari) aparecem nas fotografias com os seus Digimon, mas os mais velhos não. A última imagem é a da tese de Taichi, sobre a relação entre a Humanidade e os Digimon.

 

Não que sirva de grande consolo para mim. Pelo menos não de início.

 

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Bom trabalho, digiguionistas. Kizuna é oficialmente o trabalho ficcional que mais me arrasou emocionalmente. Ainda mais que Kokuhaku e Kyousei na altura em que saíram. Este final fez-me chorar e, como já disse várias vezes aqui no blogue, eu não choro facilmente com estas coisas. 

 

Uma asneira que cometi foi ter visto este filme quando não estava ninguém em casa, nem sequer a minha cadela. Eu escolhi essa altura de propósito, para poder ver o filme em paz, sem interrupções. Mas quando Kizuna terminou desta forma, não tinha ninguém que me consolasse. Foi sobretudo nessa altura que me arrependi de não ter esperado para ver nos cinemas, quiçá com outros fãs de Digimon. Não teria de chorar sozinha. 

 

Isso ou, pura e simplesmente, tinha saudades do pessoal que costuma vir ao Odaiba Memorial Day. Ainda tenho. Maldita pandemia…

 

Hoje, mais a frio, não sei se ia querer chorar em público. Talvez não fosse assim tão mau se não fosse a única em lágrimas (e acho que não seria). Ainda assim, eu aconselharia as pessoas a não assistirem a Kizuna sozinhas e a terem lencinhos por perto. E uma bebida.

 

Estive semanas sem coragem para ver o filme segunda vez, para escrever este texto. Se não fosse Adventure 2020, teria cortado com tudo a ver com Digimon – era demasiado doloroso. Deixei de querer ouvir música de Digimon, deixei de querer pensar, tanto em Adventure como em Tamers ou mesmo Frontier. 

 

Talvez esta tenha sido uma reação exagerada a algo que não é real, pelo menos no sentido mais rigoroso da palavra. Adaptando uma frase de Chandler, estava a chorar porque deixaram de desenhar o Agumon e o Gabumon. Mas, pelas Bestas Sagradas, como me tenho fartado de dizer aqui, são duas décadas com este elenco! Mesmo tendo passado dez anos afastada de Digimon enquanto franquia, esse laço não se quebrou. São o meu elenco ficcional preferido!

 

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Não digo que ver (e ouvir) Taichi e Yamato chorando sobre os restos mortais dos seus dispositivos tenha sido a pior coisa que me aconteceu na vida. Claro que não. Nem sequer foi a pior coisa que me aconteceu no ano. Mas no ano da desgraça de 2020 não precisava mais desta!

 

Só recentemente é que me sinto a voltar ao normal. De uma maneira retorcida, o facto de neste momento estar a decorrer o reboot de Digimon Adventure, que me “obriga” a ver um episódio novo todos os domingos de manhã e a escrever uma breve crítica para a página do Facebook pode ter-me ajudado a ultrapassar esta má fase mais depressa. 

 

Escrever esta análise também ajudou. Costuma ajudar.

 

Temos  então de falar da velhíssima questão do epílogo de 02, em que os Digimon estão todos vivos e de boa saúde, em que, aliás, “toda a gente tem um Digimon”. O que contraria o final de Kizuna, e mesmo a regra definida pelo filme, que dita que nenhum adulto funcional pode ser um Escolhido. 

 

Nesta altura do campeonato, fica claro que a Toei há muito se arrependeu do epílogo. Em 2001 incluíram-no porque queriam colocar um ponto final na história deste universo. Queriam criar outros universos, com regras diferentes. Não imaginavam, se calhar, que o universo de Adventure viesse a ganhar tanta popularidade, que quereriam continuar a ordenhar dessa teta quinze, vinte anos depois. Mas agora as sequelas tinham de se encaixar no epílogo que criaram. 

 

Ou pelo menos deviam.

 

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Do que tenho lido por aí, quase toda a gente considera que o epílogo de 02 continua a ser válido. Um dos produtores do filme confirmou-o, mais ou menos, em entrevista. Eu mesma tenho-o interiorizado, sendo essa uma das razões para hoje me sentir menos triste com o final de Kizuna. Eles hão de recuperar os seus Digimon algures nos dezassete anos seguintes.

 

O que, no entanto, traz consigo as suas questões. Nomeadamente, como é que isso vai acontecer. Talvez Koshiro arranje uma maneira de travar o processo, mesmo revertê-lo – talvez ainda antes sequer de as contagens decrescentes de Joe, Mimi e os outros chegarem a zero, evitando que Gomamon, Palmon e os outros desapareçam. Ou então, talvez só os consigam recuperar anos mais tarde. 

 

Gosto de uma teoria na Internet que defende que, seguindo a lógica de que os Digimon representam a infância, os Escolhidos recuperarão os seus companheiros quando forem pais. Todos nós temos de crescer e tal, mas quando temos filhos e brincamos com eles, a nossa criança interior desperta de novo. Aí, os Digimon regressariam.

 

Pelo menos explicava porque é que cada um dos doze Escolhidos resolveu reproduzir-se. Já estou a imaginar a Sora:

 

– O que estás a dizer, Miyako? O Wormon e o Hawkmon voltaram quando a vossa filha nasceu? Também quero! Hei Yamato, faz-me um filho!

 

Ainda assim, mesmo que seja uma questão de tempo até Taichi e os outros Escolhidos recuperarem os seus Digimon… não deixa de ser cruel, estarem constantemente a tirar-lhes os Digimon, para depois os devolverem, para depois lhos tirarem outra vez. Kokuhaku já fora suficientemente duro. Havia necessidade de estar a sujeitar, tanto o elenco como a nós, na audiência, à mesma perda vezes e vezes sem conta?

 

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Iremos alguma vez saber as respostas a estas perguntas? Com outro filme, um CD drama, qualquer coisa? Infelizmente duvido que tão cedo a Toei vá por aí – se alguma vez for. Agora está a explorar o efeito Adventure de maneira diferente, com o reboot. Se quiserem fazer alguma coisa com este universo, com este elenco, fá-lo-ão na Adventure nova. 

 

É possível que nunca venhamos a ter a certeza. 

 

Achava eu que o elenco de Tamers era o menos afortunado, com aquela despedida traumática. Agora já não sei quem teve a pior sorte. Ao menos Takato, Ruki e os outros sabem que os seus Digimon estão vivos (ainda que nada seja garantido naquela versão distópica do Mundo Digital) e que a probabilidade de se reencontrarem não é zero. 

 

Já me garantiram, sem dar spoilers, que existem universos no anime em que as personagens têm companheiros Digimon e continuam com eles no fim. A minha sanidade mental agradece. 

 

Mas basta de lamúrias – pelo menos por agora. Kizuna pode ter um final doloroso, o que não é sinónimo de um final mau. Toda a narrativa do filme foi construída de forma sólida conduzindo a este desfecho. O tom sério e melancólico, o facto de mostrarem as dificuldades de ser um Escolhido enquanto adulto, a ideia subjacente em cada diálogo de que “as coisas não podem ficar para sempre na mesma”. 

 

Se Kizuna tivesse arranjado uma solução milagrosa à última hora, uma maneira caída do céu de Agumon e Gabumon sobreviverem, eu teria poupado muitas lágrimas, mas respeitaria muito menos o filme. Seria uma cobardia. 

 

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Porque Kizuna em si, no geral, está muito bem feito. É certo que é mais fácil ser-se consistente com um filme de noventa minutos, com apenas dois protagonistas – uma temporada com cinquenta ou sessenta episódios de vinte minutos com um elenco alargado ou uma série de seis filmes são muito mais complicados. Mas não deixa de ser um feito. 

 

Especificando um pouco mais, gosto da animação, do estilo do desenho – mais do que do de Tri. O filme pode só ter dois protagonistas, mas gostei que os outros dez Escolhidos tivessem todos aparecido, mesmo outros fora do grupo. Acho que foram bem utilizados.

 

Bem, com uma única exceção. Sora. É a única falha que tenho a apontar a Kizuna, mas é uma falha grande. Preparem-se, vem aí “rant”, como dizem os anglo-saxónicos. 

 

Já falámos sobre a curta-metragem focada nela, que justifica a sua ausência da larga maioria do filme: ela quer descobrir quem é fora da vida de Escolhida. Dentro do universo é uma razão perfeitamente legítima para ter ficado no banco, em Kizuna, e é um desenvolvimento interessante para a personagem.

 

A razão em termos de meta, por sua vez, é muito diferente. Sintam só isto: Sora aparece em Kizuna durante um total inferior a cinco minutos porque os digi-guionistas acharam que os fãs quereriam saber o que se passava entre ela e Taichi e Yamato.

 

 

Isto era literalmente a última coisa que queria que fizessem com Sora – recordo, a minha personagem preferida do universo de Adventure. Reduzirem-na ao papel de interesse romântico, assumirem que a audiência só quer saber dela como pretendente de Taichi ou Yamato. É insultuoso em tantos mas tantos níveis!

 

Eu, por um lado, compreendo em parte a posição deles. 02 emparelhou-a com Yamato, o epílogo oficializou-os ainda que não preto no branco, é claro que as pessoas iam fazer perguntas. 

 

No entanto, na minha opinião, existiam alternativas bem melhores. Deixarem a situação ambígua, como em Tri. Na minha opinião, não funcionou mal – tirando em Soshitsu, em que o esforço dos digiguionistas para não favorecerem nenhum dos rapazes ganhou contornos ridículos. Ou então, opinião impopular: confirmem de passagem que sim, Sora e Yamato namoram e Taichi está feliz por eles! Ninguém morreria por isso!

 

A entrevista com esta infame declaração surgiu na internet algures em maio do ano passado, vários meses antes de conseguir deitar as mãos a Kizuna. Na altura discuti com outros fãs no Twitter e houve quem ficasse do lado dos digiguionistas. Se não se achavam capazes de explorar essa faceta da história, diziam eles, talvez fosse melhor excluir Sora do filme.

 

Admito que, na altura, até me deixei convencer um bocadinho. Mas depois de ver Kizuna, depois de conhecer o reduzido papel de Sora nos eventos do filme, voltei atrás. Peço desculpa, mas isto foi cruel. 

 

Em Kizuna, Sora está a passar exatamente pelo mesmo que Taichi e Yamato: com uma contagem decrescente no seu dispositivo digital, prestes a perder a Piyomon. Parece que o dispositivo com uma única barra que aparece muito brevemente durante os créditos iniciais é dela. 

 

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No entanto, com Taichi e Yamato vemos o processo todo, praticamente todas as fases do luto, as lágrimas em primeiro plano, os soluços bem audíveis. Com Sora temos apenas uns vislumbres curtíssimos, uma breve cena dela com Piyomon nos braços, outras cenas igualmente breves dela já sozinha, com os restos mortais do seu dispositivo. Não sabemos sequer se alguém lhe explicou o que ia acontecer, porque ia acontecer. 

 

O mais triste de tudo? Sora sendo Sora arranja forças dentro de si mesma para deixar a sua dor de lado e torcer à distância pelos amigos, que estão a lutar na Terra do Nunca. Eles não merecem Sora, ninguém merece.

 

Lembram-se de quando Sora se queixou, em Soshitsu, de que ela se preocupa com toda a gente mas, quando é Sora quem precisa, ninguém se preocupa com ela? Não que fosse cem por cento verdade, mas agora Kizuna faz-lhe exatamente isso. A sua dor não é relevante. Tudo isto porque os digiguionistas acharam que a audiência ia dizer algo tipo:

 

– Sim Sora, perderes a Piyomon é muito triste, mas como vai a tua vida amorosa?

 

Torno a repetir, é uma crueldade. Sora merecia muito melhor. E infelizmente não é a primeira vez que Sora é negligenciada em comparação com outras personagens, no universo de Adventure.

 

Dito isto… não sei o que faria diferente. Mal por mal, gosto muito da curta-metragem de Sora, tal como escrevi acima. Mantendo a curta, Sora teria de continuar afastada da maior parte dos eventos de Kizuna, não poderia estar entre as vítimas de Eosmon. Pô-la como terceira protagonista, ao lado de Taichi e Yamato, também não bateria certo. 

 

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Para mim o ideal teria sido manter Sora fora do epicentro de Kizuna, mas deixá-la conversar com Taichi e/ou Yamato durante o segundo acto, mesmo que fosse apenas por telefone. Talvez ela oferecesse uma perspetiva diferente ao conflito emocional. Ela que, como vimos, quis deixar de ser Escolhida, deseja crescer. Talvez ela aceitasse melhor a perda da sua companheira, quando comparada com os amigos: porque na prática já não tem espaço na sua vida para os Digimon e, lá está, as coisas não podem ficar para sempre na mesma. 

 

Mas seria difícil encaixar essa conversa se tivessem de cumprir o limite dos noventa minutos. Não sei o que cortaria para incluir esta cena. 

 

Além disso, quero acreditar que, lá porque a narrativa de Kizuna ignorou o sofrimento de Sora, isso não quer dizer que o resto do elenco faça o mesmo fora dos ecrãs. Estou certa de que pelo menos Mimi não deixará Sora a chorar sozinha. 

 

Tenho, aliás, um headcannon para as primeiras horas depois de Agumon e Gabumon desaparecerem. Taichi vai passar a noite a casa dos pais, para ser consolado por eles e por Hikari. Por sua vez, Yamato vai ter com Sora e, ao consolarem-se um ao outro, uma coisa há de levar à outra e começam a namorar outra vez. 

 

Mudando de assunto, queria falar sobre as curtas-metragens que foram lançadas após uma campanha de crowdfunding e que detalham histórias sobre os Escolhidos e/ou os seus Digimon que não couberam em Kizuna. Já falámos sobre as duas primeiras. Tirando a que se centrou em Sora, estas curtas só apareceram na Internet há poucas semanas.

 

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A vantagem de ter demorado eternidades a escrever esta análise é ter apanhado este “lançamento” tardio. Agora posso incluir notas sobre essas curtas neste texto.

 

Estas pequenas histórias têm tons bastante diferentes entre si. Algumas são mais sérias e emotivas, algumas são mais parvas, no melhor sentido da palavra. Algumas são uma mistura de ambos. 

 

Uma dessas é a que se foca em Joe. Gomamon está preocupado porque o seu parceiro em miúdo não gostava de ver sangue. No entanto, agora está em Medicina, ou seja, há de ver sangue todos os dias ou quase.

 

O que não é necessariamente verdade. Existem especialidades em que não se vê muito sangue. Psiquiatria, por exemplo, oftalmologia (a menos que se fizessem cirurgias e mesmo assim), anatomia patológica (mortos não sangram), investigação…

 

Em todo o caso, em vez de fazer o que qualquer pessoa ou Digimon com dois dedos de testa fariam – falar com Joe – Gomamon arrasta Agumon para fazerem um teste. Mete ketchup. Tudo muito caricato e tal… até ao momento em que Gomamon leva com um camião em cima. 

 

Falta de juízo dá nisto. E aparentemente os Digimon sangram. As coisas que se aprende…

 

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No fim, Agumon continua na rua, coberto de ketchup, esquecido por todos. Eu pagava para ver a cara de Taichi quando encontrasse o seu Digimon naquela figura.

 

Noutra curta, que decorre no Mundo Digital, Palmon e Piyomon invejam Silphymon. Como Silphymon se consegue formar sem a intervenção de Hikari e Miyako só as Bestas Sagradas saberão. Palmon e Piyomon tentam fazer a sua própria digievolução ADN. Traduzindo à letra uma expressão anglo-saxónica, segue-se hilaridade. 

 

Aposto que, quando V-mon as viu naquela fatiota, no fim da curta, sentiu pela primeira vez que não era o companheiro Digimon mais totó do universo de Adventure.

 

Por falar em totó, a última curta diz respeito à épica história de Pumpmon e Gotsumon. Sim, os dois Digimon que supostamente o Vandemon tinha assassinado. Pelos vistos fora tudo a fingir. 

 

Das duas uma: ou os dois ressuscitaram com o Reinício, em Tri, e agora estão a armar-se ou Gabumon e V-mon estavam bêbados e imaginaram a história toda. 

 

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Mudando outra vez de assunto, queria falar sobre Digimon Adventure Tri Super Evolution Stage (qualquer coisa como Palco da Super Digievolução). Esta foi uma peça de teatro que decorreu em Tóquio entre 5 e 13 de agosto de 2017, entre as estreias de Soshitsu e Kyousei. Em finais de 2017, a filmagem da peça apareceu na Internet. Na altura, não achei que se justificasse escrever sobre ela aqui no blogue, mas deixei algumas impressões na página do Facebook.

 

Esta peça decorre algures durante os eventos de Tri, mas não se consegue perceber ao certo quando. Não que importe muito, pois, apesar de decorrer na mesma altura, é uma história independente da série. Não mete Meiko, nem Meicoomon, nem Maki, nem Daigo. Apenas os oito Escolhidos de Adventure e… Etemon. É, aliás – alerta spoiler – uma daquelas histórias em que, no fim, se descobre que foi tudo um sonho.

 

Em todo o caso, na peça – no sonho – os oito dão por si presos numa realidade alternativa onde é para sempre dia 1 de agosto de 1999. Isto porque, lá está, os miúdos consideram que os eventos de Adventure foram o pico da vida deles e estão cheios de medo de crescer.

 

Parece-vos familiar?

 

Curiosamente, a história pinta Joe como o exemplo a seguir. Neste sonho ele não está com dificuldades na escola (é de partir o coração quando regressa à realidade) e está determinado em ir para Medicina. Sabe o que quer ser quando for grande e quer lutar por isso. Não apesar das suas aventuras no Mundo Digital mas graças a elas. 

 

Gostei muito desta peça, recomendo-a. Como já terão concluído, entra em territórios semelhantes a Kizuna. Gosto mais da mensagem final da peça. Para começar, os Escolhidos não têm de se separar dos seus Digimon no fim, mas também pela lição de usar o melhor da infância como base para a vida adulta. 

 

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Já que se fala de crescimento, e como esse é um dos temas de Kizuna, uma coisa que me tem feito confusão diz respeito às mensagens contraditórias. Já vinha de Tri. Tanto esses filmes como Kizuna tentam desmontar o conceito de nostalgia, de saudades de tempos que já foram – neste caso, as primeiras temporadas, Adventure e 02, as infâncias do elenco. Em Tri, conhecemos três personagens cujas experiências enquanto Crianças Escolhidas foram menos idílicas que as dos nossos protagonistas. Em Kizuna, vemos as dificuldades de se ser Escolhido enquanto adulto e recordamos uma regra universal: nada dura para sempre. 

 

No entanto, ainda que Tri e Kizuna mostrem as limitações da nostalgia, esta continua a ser a principal razão de eles existirem. Eles não deixam de se aproveitar da nostalgia, o que tem o seu quê de hipócrita. Kizuna diz-nos para seguirmos em frente, mas a Toei não está a fazê-lo. Bem pelo contrário, poucas semanas após lançar Kizuna, estreou um reboot – ou, como gosto de chamar-lhe, “tábua rasa” – de Adventure. Reboot esse que vai a meio e, apesar de uma melhoria nos episódios mais recentes, parece não compreender aquilo que tornou Adventure tão especial, há duas décadas.

 

Em que é que ficamos, Toei? É para crescer ou não? É para deixar Adventure para trás, ou não?

 

E depois de tantas palavras sobre Kizuna, sobre a inevitável passagem do tempo, sobre a necessidade de seguir em frente e crescer, tenho uma opinião impopular: crescer não é assim tão mau. Crescer tem sido bom para mim. 

 

Não digo que seja necessariamente mais feliz ou que a minha vida seja mais fácil. Ainda assim, como alguém que cresceu um tudo nada demasiado protegida, uma das coisas de que mais gosto na idade adulta é de ter mais controlo sobre a minha vida e, no geral, ser melhor pessoa, mais confiante, responsável e desenrascada. Estou em constante crescimento, em constante (digi)evolução, e gosto mais de mim mesma enquanto adulta do que enquanto criança ou adolescente.

 

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E se tivesse de salvar o Mundo Digital, estaria mais habilitada para fazê-lo agora e não aos onze anos.

 

Eu compreendo que uma franquia dirigida a crianças teria, idealmente, um elenco da mesma idade que o seu público-alvo. Mesmo dentro do universo de Adventure, compreendo que Taichi e os amigos sintam que os seus melhores tempos tenham sido aos dez, onze anos – quando fizeram coisas que, se calhar, muitos adultos não seriam capazes, mas sem a autoconsciência de um adulto ou mesmo de um adolescente. Compreendo que tenham medo de crescer e cortar com essa vida.

 

No entanto, na minha opinião, os Escolhidos deviam orgulhar-se dos jovens adultos em que se transformaram – como eu me orgulho deles. Logo nos primeiros trailers, há pouco mais de um ano, ao ver o elenco na idade adulta, precisei de um momento. Como quem torna a ver um amigo de infância após muitos anos e se surpreende com as mudanças. Ou como quem reencontra um familiar que não via desde que este era criança, que descobre que este já está na faculdade ou que já está a trabalhar, e se orgulha do quão crescidos estão. 

 

Ainda agora sinto esse orgulho. Vendo Joe quase médico, Yamato e os seus “street-smarts”, como comentámos antes, Miyako estudando no estrangeiro, Koshiro com a sua empresa, Taichi mais perto de se tornar um embaixador do Mundo Digital – e admiro-o por ter ido por aí, mesmo depois de ter perdido Agumon. Eu não sei se seria capaz.

 

Todos eles são melhores versões de si mesmos. Em parte graças a aspetos mundanos do dia-a-dia, mas todos sabemos que foi sobretudo graças aos amigos e às suas experiências com os Digimon. O final da história deles pode não ser o mais feliz, pelo menos não por agora, mas aposto que nenhum dos Escolhidos, nenhum deles, lamenta ou se arrepende de ter embarcado nesta jornada.

 

E o mesmo se aplica a nós, na audiência. 

 

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Como referi acima, o final do filme é triste ao ponto de, da primeira vez que o vi, ter ficado com vontade de renegar tudo que fosse Digimon. Mas mesmo nessa altura, arrependida de ter começado a ver Adventure quando tinha dez ou onze anos? Nunca! Pelas recordações, pelo elenco inigualável, pelas fantasias de ser Criança Escolhida e visitar o Mundo Digital, pelos amigos que fizemos pelo caminho, pelos diretos no YouTube, as discussões no Twitter, os milhares de palavras no blogue, os encontros no Odaiba Memorial Day, pelos passeios na praia ao som de Hirari acústica. 

 

E vamos continuar, incluindo aqui no blogue – com Frontier. O plano é fazer o mesmo que fiz com Tamers. Ver pela primeira vez a versão original da temporada, sem stresses; ver de novo algum tempo depois, dobrada em português, desta feita já tomando notas para a análise. 

 

Pois bem, vi Frontier pela primeira vez no ano passado, quando Adventure 2020 estava em pausa. Como passei várias semanas à volta de Kizuna, agora preciso de uma pausa na escrita sobre Digimon. Assim, só devo ver Frontier pela segunda vez daqui a uns meses. Talvez o faça durante o verão, com o espírito do Odaiba Memorial Day.

 

Posso desde já adiantar, no entanto, que duvido que a análise seja tão longa como a de Tamers e mesmo que as de Adventure e 02. Frontier não convida a isso.

 

Falando a um prazo mais curto sobre os meus planos para este blogue – e deixando Digimon de lado por um momento – o meu próximo texto deverá ser sobre Flowers For Vases, o sucessor a Petals For Armor, que Hayley Williams lançou de surpresa na semana passada. Não vou começar a escrever já já sobre o álbum – preciso de passar mais algum tempo com as músicas. Mas em princípio não devo demorar tanto como demorei com o seu antecessor.

 

Adicionalmente, parece que Avril Lavigne tem um álbum novo prestes a sair do forno. Deverá editá-lo no verão, com o(s) primeiro(s) single(s) saindo daqui a dois ou três meses. No que toca a Avril, eu não conto os pintos até nascerem. Os álbuns dela têm sempre um parto difícil, não me surpreendia se houvesse algum adiamento. Também tenho esperanças de que Lorde decida a qualquer momento sair da sua toca e lançar o seu terceiro álbum.

 

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Como sempre, obrigada por lerem o meu testamento. Escrever sobre Digimon tem sempre aquele saborzinho especial. No caso deste texto em particular, escrevê-lo ajudou-me a lidar com todas as emoções em torno deste filme. Espero ter a oportunidade de ver Kizuna nos cinemas em breve, juntamente com outros fãs. Talvez até com dobragem portuguesa

 

Torno a repetir: zero arrependimentos no que toca a ter entrado em Digimon. Estamos todos melhores por cá estarmos. Despeço-me com a mensagem final de Kizuna: de uma maneira ou de outra, estaremos sempre juntos.  

Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna #1

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O filme Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna teve um parto difícil. As primeiras pistas apontando para este projeto surgiram ainda antes da estreia da última parte de Digimon Adventure Tri. Pouco depois soube-se que o realizador original do projeto, Hiroyuki Kakudo (que já tinha realizado Digimon Adventure e Digimon 02), alegadamente porque algo sobre o filme entrava em conflito com o que as séries anteriores haviam estabelecido.

 

Agora que já vi o filme, acho que sei do que é que ele estava a falar. 

 

Nas celebrações do Odaiba Memorial Day seguinte, conforme comentei na altura, foi revelado que o projeto consistia num filme cujos eventos decorreriam quando Taichi e Yamato têm vinte e dois anos. Ao longo do ano seguinte foram saindo mais pormenores sobre o filme. O desenho do elenco, por exemplo. No Odaiba Memorial Day de 2019 foi anunciado que os Escolhidos de 02 participariam no filme, após o cruel tratamento que receberam em Tri. A notícia saiu no dia do nosso encontro do Odaiba Memorial Day – o último que tivemos – e celebrámos adequadamente. 

 

A ideia do filme era assinalar os vinte anos de Digimon Adventure. Ainda assim, Kizuna só se estreou nos cinemas japoneses no início de 2020. Estava previsto estrear-se nos cinemas americanos mais ou menos na mesma altura, mas a pandemia boicotou (mais) esses planos. Mesmo digitalmente o filme só foi lançado vários meses depois, em setembro. 

 

Deste lado do Atlântico, o filme está previsto vir para os cinemas portugueses. Em que salas e em que moldes não se sabe ao certo. A primeira data avançada foi para novembro. Nós estávamos entusiasmados...  até a estreia ter sido adiada em finais de outubro, quando a pandemia se agravou. Chegaram a avançar outras datas, como 21 de janeiro e 18 de fevereiro. No entanto, com este novo confinamento, à hora desta publicação, não existe data marcada para a estreia. Mas estamos com esperanças de que, quando for possível, se marque de novo.

 

De qualquer forma, em inícios de novembro, cansei-me de esperar. Ainda quero ver o filme nos cinemas portugueses, quando for possível, mas já tinha passado tempo suficiente sem ver Kizuna. Por isso vi-o.

 

E arrependi-me amargamente. 

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Antes de começarmos, algumas notas:

 

1) Spoilers: esta análise vai discutir extensamente os eventos do filme Digimon Last Evolution Kizuna e poderá também revelar detalhes dos enredos das três temporadas do universo de Adventure (Aventure, 02 e Tri). Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios de Digimon têm traduções controversas – na língua portuguesa têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Conforme tinha dito que faria quando terminei as análises a Tri, para esta análise vou usar os nomes japoneses.



Adicionalmente, como o costume, tenho muito a escrever sobre este filme, por isso, esta análise virá em três partes. Esta é a primeira, vou tentar publicar a segunda amanhã e a terceira no dia a seguir. 

 

Queria também deixar algumas questões arrumadas antes de falarmos sobre Kizuna em si. Como referi acima, os primeiros anúncios relacionados com este filme saíram no dia em que Bokura no Mirai se estreou. Na altura, pensei que as minhas pontas soltas deixadas por Tri – quem era o Dark Gennai e o que lhe aconteceu, o que aconteceu a Maki, quem eram as outras primeiras Crianças Escolhidas, o que aconteceu ao Yggdrasil, quem era o Alphamon e o que é que lhe aconteceu, etc. 

 

Bem, Kizuna não aborda nada disso, é uma história independente. Decorre na mesma cronologia que Tri – os produtores tomaram o cuidado de confirmá-lo no ecrã, como veremos mais tarde – mas os eventos não têm nada a ver com essa série. Não é sequer necessário ter visto Tri para apreciar Kizuna.

 

O que foi uma decisão sensata – sobretudo tendo em conta as opiniões mistas em relação a Tri. 

 

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Eu mesma nunca mais voltei a ver os seis filmes desde que publiquei a minha análise a Bokura No Mirai. Tenho-me perguntado se agora, que já lá vão dois anos e meio, se a minha opinião será tão favorável como foi na altura. 

 

Um dia hei de rever Tri. Um dia hei de rever todo o universo de Adventure: os filmes, a primeira temporada, 02, Tri. Mas esse dia ainda vem longe. Não tenho assim tanto tempo livre e, quando o tenho, prefiro ver temporadas de Digimon que nunca vi antes. 

 

Enfim. Chega de delongas. Vamos a Kizuna. 

 

Depois de uma mensagem algo críptica sobre aceitar o futuro e isto ser uma nova aventura dos Escolhidos e dos seus Digimon, Kizuna começa com notas familiares. Literalmente: ouve-se o tema Bolero, de Ravel – recorrente em Adventure, sobretudo nos filmes – enquanto mostra imagens de uma aurora nos céus, algo que não devia ocorrer longe dos pólos. 

 

A ação de Kizuna decorre em 2010, se bem que um 2010 um pouco mais avançado tecnologicamente. Em Kizuna, o uso do smartphone está mais vulgarizado que na altura equivalente na vida real. Consta que os japoneses demoraram mais alguns anos a adotá-lo – mesmo entre nós, portugueses, foi mais a partir de 2012, 2013, certo? Os digiguionistas explicaram em entrevista que, no universo de Adventure, o contacto com o Mundo Digital permitiu à humanidade avançar um pouco mais depressa no que toca a tecnologia. 

 

Sempre explica porque é que em Tri, aparentemente, já existem mensagens de grupo e emojis nos telemóveis. 

 

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Nos anos entre os eventos de Tri e de Kizuna, Koshiro arranjou maneira de integrar as funcionalidades dos dispositivos digitais em smartphones. O que faz sentido em termos práticos, mas eu não gosto muito. Acho demasiado… mundano.

 

É claro que sou enviesada pois os dispositivos originais de Adventure têm valor sentimental para mim, à semelhança dos cartões. Mas também, no que toca a este filme, o sentimentalismo só serviu para dar cabo de mim. 

 

E estou a adiantar-me. 

 

Da primeira vez que vemos os Escolhidos, estes estão a ter um dia normal no escritório – o status quo que será, mais tarde, perturbado. Um Parrotmon (óbvio piscar de olhos ao primeiro filme de Adventure é óbvio) materializa-se no Mundo Real (deveria escrever “realiza-se”, como em Tamers? Isto no fundo é um “selvagem”) e os Escolhidos têm de lidar com ele, encaminhá-lo de volta ao Mundo Digital. O Parrotmon ainda faz uns quantos estragos – espero que as companhias de seguros neste universo já tenham apólices para danos provcados por Digimon.

 

Taichi, Hikari e Takeru acorrem ao local, sob a orientação de Koshiro, através do seu escritório. Yamato chega um pouco depois, de mota. O último entra logo com uma picardia a Taichi, que paga na mesma moeda – de outra forma, não saberíamos que eram eles. Koshiro orienta-os à distância, a partir do seu escritório. 

 

Ao contrário do que aconteceu em Tri, para esta cena, Kizuna recria as sequências de digievolução de Adventure, só que com animação contemporânea. Temos também uma nova versão de Brave Heart – à semelhança das sequências de digievolução, em vez de procurar um carácter próprio, esta é uma versão mais eletrónica do tema original.

 

 

Não que isso seja exatamente uma falha. Faz sentido fazerem isso num filme que comemora os vinte anos de Adventure. Mas nesse aspeto respeito um pouco mais a versão de Tri, por ter feito algo diferente. 

 

Por outro lado… percebo. Estas sequências de digievolução, esta versão de Brave Heart, só aparecem no início do filme. Antes do início do enredo propriamente dito, ainda antes dos créditos de abertura. Não entram na história em si. Calculo que tenha sido deliberado: estes elementos fazem parte do status quo que tinha de ser quebrado. 

 

Porque o status quo tinha de ser quebrado. Não apenas em termos de meta, das regras das histórias, da ideia que o protagonista deve deixar o familiar, o confortável e partir para o desconhecido. É um dos temas do filme: as coisas não podem ficar sempre na mesma, todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. 

 

Eu vejo esta cena inicial com o Parrotmon, vejo o quão adoro estes miúdos e os seus Digimon, pergunto-me porque não podiam tê-los deixado assim. No entanto, deixando de lado o meu sentimentalismo, sendo sincera comigo mesma, esta está longe de ser uma situação idílica. 

 

Estes quatro (cinco se contarmos com Koshiro) são os únicos disponíveis para lidar com o problema do Parrotmon. Nesta altura, Sora já se reformara oficialmente como Escolhida, conforme revelado na sua curta-metragem (mais sobre isso adiante). Joe e Mimi também não vieram e é dado a entender que têm vindo muito menos nos últimos tempos. 

 

Mesmo Taichi e Yamato não podem ficar para o pequeno-almoço com os irmãos mais novos e os Digimon. Taichi está no quarto ano da faculdade, mas já vive sozinho, combina os estudos com um emprego em part-time num casino. Ao que parece, já não vai à casa dos pais há algum tempo. Sobre Yamato não sabemos tanto, mas a narrativa dá a entender que também estará a viver sozinho e a conjugar os estudos com um emprego.

 

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Suponho que Agumon e Gabumon estejam a viver com os irmãos mais novos dos parceiros. As curtas-metragens lançadas em paralelo com o filme dão a entender que os parceiros Digimon dividem o tempo entre o Mundo Digital e o Real, poderão mesmo alternar entre as casas uns dos outros. Mas, como veremos mais à frente, Agumon nunca esteve no apartamento de Taichi, o que é um bocadinho triste.

 

Na verdade, no início de Kizuna, Taichi encontra-se numa situação muito semelhante àquela em que se encontrava no início de Saikai: numa fase da sua vida académica em que precisa de definir o seu futuro. Pensa que a sua verdadeira vocação é ser Escolhido, mas essa ocupação não paga salário nem faz descontos para a segurança social.

 

Devia, por acaso. Afinal de contas, eles estão a prestar um serviço à comunidade, com grande risco pessoal. Alguém devia pagar-lhes. 

 

Tal como acontece em Tri, Taichi resiste à mudança. Debate-se com incertezas em relação ao que quer fazer com a sua vida, com amigos de infância com quem não consegue conviver tanto como antes, com a sensação de que toda a gente está a seguir em frente com as suas vidas menos ele. 

 

E Yamato. Eis uma diferença importante em relação a Tri: em Kizuna, Yamato está na mesma situação. Gosto em particular das cenas com a banda de rua e o menino tocando harmónica numa loja de instrumentos – um belo exemplo de "show, don’t tell”.

 

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No que toca aos outros do grupo de Adventure, como já tinha dito antes, Sora demitira-se como Escolhida e estava a seguir as pisadas da mãe no negócio de arranjos florais. Mimi tem andado a vender acessórios de moda online e Joe está em Medicina, já começando a estagiar em hospital. Koshiro tem a sua própria empresa onde gere as relações com o Mundo Digital e os Escolhidos por todo o mundo. Mesmo Hikari e Takeru, que ainda estão do primeiro ano da faculdade, já têm ideias claras sobre o que querem fazer com a vida deles – Takeru já estará a escrever o livro relatando os eventos de Adventure e 02 (e mesmo depois disso?).

 

Yamato e Taichi são mesmo os únicos do grupo de Adventure com os futuros mais incertos.

 

A intriga do filme arranca quando Taichi e Yamato estão num bar bebendo cerveja e partilhando crises existenciais, como todos fazemos a certa altura nas nossas vidas adultas. Na mesa ao lado, uma rapariga perde os sentidos. De notar a prontidão com que Taichi e Yamato reagem a imprevistos como este – não surpreende, pois não?

 

A explicação só surge no dia seguinte, quando os dois são convocados ao escritório de Koshiro. Não sem antes receberem uma mensagem em vídeo de Miyako, que está a estudar em Espanha. Faz ela muito bem – aproveitar a vida antes de ter de passar os seus dias em casa a mudar fraldas.

 

Eu digo isto mas também, com base naquilo que tenho vindo a descobrir acerca do inferno por que as mulheres japonesas passam em contexto laboral, não posso criticar Miyako por preferir ficar em casa. 

 

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A mensagem de Miyako não faz praticamente nada para avançar o enredo – ela recebera uma mensagem e já a reencaminhara para Koshiro. Mas depois da negligência de que Miyako e os restantes Escolhidos de 02 foram vítimas em Tri, a presença deles em Kizuna é muito bem vinda. Aliás, num filme tão introspetivo e melancólico como este, as cenas com o elenco de 02 são uma lufada de ar fresco. Não são alívio cómico, são alívio de alegria. 

 

É neste momento que conhecemos Menoa Bellucci. Uma jovem da mesma idade de Taichi e Yamato, mas que já é uma prestigiada investigadora de Digimon. A realização do filme destaca a borboleta azul que decora a ponta da sua trança – mais sobre isso adiante. Menoa vem acompanhada do seu assistente, Kyotaro Imura.

 

De notar que Taichi, Yamato e Koshiro encaram os convidados com alguma desconfiança. Não surpreende – são homens feitos, já andam nestas andanças há mais de uma década. Depois do que aconteceu com Maki, então…

 

Menoa e Imura explicam aos quatro Escolhidos (Takeru também veio à reunião) que aquilo que acontecera na véspera, com a rapariga no bar, estava a acontecer um pouco por todo o mundo: pessoas entrando em coma sem motivo aparente. O denominador comum é o facto de serem todos Escolhidos – e na altura em que estes perdem a consciência, os seus Digimon desaparecem sem deixar rasto.

 

Menoa e Imura já conseguiram identificar o Digimon responsável e dar-lhe um nome: Eosmon, inspirado por Eos, a deusa do amanhecer segundo a mitologia grega. Eosmon tem roubado as consciências dos Escolhidos, digitalizado-as e guardado-as no ciberespaço (que já servira de cenário a War Game e a Diaboromon Strikes Back). Os dois investigadores já têm um plano desenhado para lidarem com Eosmon (o que é um bocadinho suspeito) e pedem ajuda aos Escolhidos. Os quatro vão para o ciberespaço para enfrentarem Eosmon e tentarem recuperar as consciências das vítimas.

 

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De início corre tudo como o previsto – uma vez mais, como se fosse mais um dia no escritório. Mesmo quando Eosmon digievolui, os outros Escolhidos não se deixam perturbar. Surge o Omegamon, que luta contra Eosmon. No entanto, quando o Omegamon se prepara para dar o golpe final, congela de forma bizarra e desfaz-se. Eosmon escapa. 

 

Quando o grupo regressa ao Mundo Real, tentam naturalmente perceber o que acabara de acontecer. Menoa revela que tem a ver com o motivo pelo qual, alegadamente, não existem Escolhidos adultos. 

 

Parece que o Mundo Digital – por outras palavras, a Homeostase – Escolhe crianças por causa do seu futuro ainda indefinido, do seu potencial para mudarem, para escolherem, para crescerem. Essas escolhas, esse crescimento, era o que catalisava a digievolução. À medida que os Escolhidos vão envelhecendo, vão perdendo esse potencial. O poder para os seus parceiros digievoluírem vai diminuindo até ao dia em que chega a zero.

 

Nesta fase, Menoa apenas refere que Digimon e Escolhido seguem caminhos diferentes. Kizuna mais tarde colocará os pontos nos is no que toca a essa questão. No entanto, mesmo nesta altura do filme, para bom entendedor meia palavra basta: os Digimon desaparecem.

 

Pois… falemos sobre isso. 

 

Essa ideia da digievolução baseada no potencial, que diminui com o tempo, tem uns quantos buracos. Não podia ser de outra maneira, se me vão introduzir novas regras para a digievolução ao fim de três temporadas e múltiplos filmes. 

 

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Sim, regra geral, a digievolução sempre foi catalisada pelo processo de os Escolhidos se tornarem melhores versões de si mesmos. No caso de Adventure e Tri, isso dizia mais respeito ao crescimento individual. No caso de 02, eram as relações entre os Escolhidos. Pode-se argumentar que os laços entre Escolhido e Digimon também entravam nessas contas, se bem que não tanto como em Tamers.

 

Mas agora dizem-me que esse potencial desaparece com o tempo? Não faz sentido. Mimi, Joe, Sora e Koshiro só conseguiram desbloquear os níveis Extremos dos seus Digimon quando já eram adolescentes (Takeru e Hikari são um caso à parte por causa de Hurricane Touchdown). Joe já era maior de idade! Isto para não falar, claro, do Omegamon Merciful Mode. 

 

Pode haver quem questione o peso de Hurricane Touchdown e mesmo de Tri no cânone deste universo (se bem que Kizuna legitimize ambos). Mas, mesmo só considerando Kizuna nesta equação, a lógica não é consistente. Ao escolherem um caminho, uma vida para si, os Escolhidos estão essencialmente a roubá-la aos seus Digimon. Mais à frente na narrativa, Menoa revelará que perdeu a sua companheira Digimon aos catorze anos (ou seja, durante os eventos de 02) quando entrou na faculdade, saltando vários anos escolares. Por essa lógica, Taichi e Yamato deviam ser os últimos a perder os seus Digimon, não os primeiros – já que, como observámos antes, são os únicos do grupo com um futuro incerto.

 

Bem, na verdade, não foram eles os primeiros, foi Sora. O que pode ser explicado pela sua decisão de abdicar dos seus deveres como Escolhida, antes dos eventos de Kizuna (com uma ressalva de que falaremos já a seguir). Ainda assim, Joe é o mais velho dos Escolhidos, está de pedra e cal em Medicina, devia ter sido o primeiro. No entanto, ainda não quis cortar em definitivo com a vida de Escolhido – será essa a diferença?

 

Por outro lado, Menoa refere que as digievoluções diminuem o tempo de vida dos Digimon. Nesse aspeto, faz sentido Taichi e Yamato estarem à frente porque Omegamon.

 

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Estas são as únicas explicações que me ocorrem.

 

Deixando de lado as inconsistências, não concordo com essa ideia de que as crianças perdem potencial e poder de escolha à medida que envelhecem. Da minha experiência, acontece o contrário: sobretudo nos tempos que correm, as crianças têm muito pouco controlo sobre as suas vidas. Os pais e outros adultos escolhem quase tudo por elas: o que comem, o que bebem, o que vestem, a que horas se deitam, em que escola estudam, onde vivem e com quem. 

 

É à medida que crescem que ganham controlo sobre a sua vida. Decidem se querem ir para um curso profissional ou para o Secundário – e para que área – decidem se querem ir para a faculdade – e que curso querem tirar – ou se vão já para o mercado de trabalho. 

 

E, mais importante, eles podem mudar de ideias! Podem mudar de percurso! Kizuna trata tais escolhas como irreversíveis, mas não é isso que acontece na vida real. Alunos podem mudar de área durante o Secundário, podem repetir os exames e concorrer a outro curso, podem só conseguir ir para a faculdade (ou lá regressar) aos trinta, quarenta, cinquenta anos, mesmo mais tarde. Todos nós conhecemos histórias de pessoas que mudaram de carreira numa altura menos convencional das suas vidas. 

 

Até mesmo dentro do universo de Adventure! Para começar, tendo em conta o epílogo de 02, sabemos que Mimi irá, a certa altura, seguir uma carreira em culinária. Mas Sora é um excelente exemplo daquilo que falei nos parágrafos anteriores, conforme provado na curta-metragem lançada há coisa de um ano, poucas semanas antes da estreia de Kizuna nos cinemas japoneses.

 

 

Até aos eventos dessa curta, Sora definia-se essencialmente por dois aspetos: por ser Escolhida e por ser filha de uma mestre em arranjos florais. Na curta, a jovem angustia-se por não saber quem é fora desses rótulos que, lá está, lhe foram impostos na infância – um deles pela Homeostase, outro pela mãe (mesmo com alguma turbulência, como vimos no episódio 26 de Adventure).

 

Tanto Mimi como Piyomon lhe fazem ver que existem muitas outras possibilidades para a sua vida, múltiplos trajetos por onde voar no céu. Assim, Sora decide oficialmente desistir da vida de Escolhida. Acredito que, mais tarde, irá também desistir dos arranjos florais (e eventualmente trabalhar na área da moda) pelo mesmo motivo. 

 

É um grande passo para ela, que sempre se caracterizou pelo seu altruísmo. Finalmente, Sora está a colocar-se a si mesma em primeiro lugar. Aposto que se Mimi não lhe tivesse dito que ela e os amigos a apoiariam sempre, independentemente da decisão de tomasse, Sora ainda não teria desistido de ser Escolhida. Na mesma linha, acho que só desistirá dos arranjos florais se a sua mãe concordar.

 

Não se pode argumentar que é agora que Sora dispõe de todo o seu potencial? Agora que se está a libertar de escolhas que não fez, que quer descobrir quem é fora dessas escolhas e trilhar o seu próprio caminho?

 

É interessante, aliás, comparar Sora com Taichi e Yamato. Os três nasceram no mesmo ano, têm a mesma idade, mas possuem visões opostas em relação ao futuro. Taichi e Yamato angustiam-se com a mudança, com os caminhos de que tiveram de abdicar no passado e que terão de abdicar num futuro próximo. Sora, por sua vez, está ansiosa por mudar, por crescer, por arranjar uma vida diferente para si.

 

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A questão que se coloca é se ela ainda pensará assim quando essas escolhas lhe custarem Piyomon. Havemos de falar sobre isso.

 

Isto tudo para dizer que não concordo com a ideia defendida por Kizuna, sobre a perda de potencial com o crescimento. É uma discordância, não é uma falha.

 

Se nestes últimos parágrafos pareço defensiva… é porque estou. Ainda estou um pouco em negação, a revoltar-me contra o destino traçado por Kizuna, contra a impossibilidade de os Digimon permanecerem com os seus parceiros humanos. 

 

Enfim, paremos por aqui. Amanhã regressamos ao escritório de Koshiro para falarmos sobre as reações de Taichi e Yamato a estas notícias. 

Digimon Adventure Tri – Bokura No Mirai #3

Terceira parte da análise a Bokura No Mirai. Podem ler as partes anteriores aqui e aqui.

 

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Tri não tem um epílogo à 02, mas dá um salto de alguns meses no tempo, até ao Natal. Meiko regressara a Tottori no fim do verão – viveu em Odaiba durante o quê? Dois meses? Mas compreende-se: demasiadas recordações dolorosas.

 

Fica um enigma por esclarecer: porque é que Meiko e a família vieram viver para Odaiba. A mim, ninguém me convence que não foi sugestão de Maki, para soltar Meicoomon numa área densamente povoada e colocar a Operação Reinício em marcha.

 

E por falar em Maki…

 

A agente não chega a aparecer em Bokura No Mirai. A última vez que a vimos foi em Kyousei, no fundo do Mar Negro. Terá morrido? Se morreu… bem, a sua história é deveras deprimente. Antes de Mirai, eu calculava que um dos dois – Daigo ou Maki – morreria e o outro sobreviveria. Afinal, parece que ambos faleceram…

 

…ou não? Terá Maki sobrevivido? Não é impossível… Ter-se-á tornado consorte dos Divermon, como queriam que Kari se tornasse, em 02? (*arrepios*) Regressará numa possível terceira sequela de Adventure? Se o novo vilão for Daemon, que supostamente está preso no Mar Negro desde o final de 02… seria interessante.

 

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Por outro lado, se todos os Digimon recuperaram as recordações pré-Reinício, isso significa que Bakumon lembra-se de Maki… Eish!

 

Mas regressemos ao final de Mirai. Através de um e-mail que T.K. envia a Meiko, algumas pontas são atadas. Os miúdos de 02 terão recebido alta do hospital – mas não sabemos ao certo como é que deram de caras com o plano de Yggdrasil ou, sequer, como estarão em termos psicológicos, depois de terem passado semanas aprisionados.  

 

Entretanto, no Mundo Digital, a Homeostase declarou um embargo a Yggdrasil e… é suposto sentirmo-nos descansados? Com o Dark Gennai ainda à solta, com o Alphamon ainda à solta – que nunca mais foi visto desde o ataque de Jesmon que atirou Tai e Daigo para o abismo – sabendo, agora, que a Homeostase nem sempre toma as decisões mais adequadas?

 

Não me convencem.

 

Por sua vez, no Mundo Real, a opinião pública continua desfavorável aos Digimon. Compreende-se. Tanto as autoridades como os próprios Escolhidos tornaram-se melhores, ao longo de Tri, a controlar os danos provocados pelos Digimon. Mas eles continuam a existir. Talvez muitos civis não tenham dado pela diferença.

 

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Um aparte rápido para comentar em algo que reparei há pouco tempo: a premissa inicial de Tri é muito parecida com a dos filmes d’Os Incríveis. Um elenco com vidas duplas, que fazem trabalho de heróis, mas que o público não compreende e acaba por vilanizá-los. Um protagonista que sente dificuldades em adaptar-se à vida como cidadão normal, que sente saudades do passado.

 

Tri e Os Incríveis trabalham as premissas de maneira diferente, claro. Mas Mirai dá a entender que o próximo passo de Tai será semelhante às ações da Mulher-Elástica, n’Os Incríveis 2: tornar-se um representante desses heróis incompreendidos.

 

Sora refere mesmo que Tai tomou a decisão inspirado pelas palavras de despedida de Daigo: sonha alto, constrói o futuro que desejas. Essencialmente, se não estás satisfeito com o futuro que o mundo escolheu, muda-lo tu mesmo – tal como Emma Swan disse certa vez.

 

Tem uma certa piada que a resposta de Matt a isto seja seguir a carreira espacial – só mesmo para não ficar atrás de Tai. Tem piada… mas não chega para dar credibilidade à carreira dele, na minha opinião.

 

Regressando a Tai e a Daigo, pergunto-me se a carreira dele será o único efeito da morte do segundo. Eu, se estivesse no lugar de Tai, tentaria descobrir o mais possível sobre Daigo. Procuraria a família dele, as outras Primeiras Crianças Escolhidas. E, sobretudo, tentaria descobrir o que aconteceu a Maki.

 

É possível que, por alturas do e-mail de T.K., não tenham descoberto o paradeiro da agente. Se tivessem, T.K. escreveria sobre isso no e-mail – até porque Meiko conhecia-a antes.

 

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Consta que Izzy anda a pesquisar uma maneira de aceder ao Mundo Digimon sem a ajuda dos D3. T.K. termina o e-mail dizendo que espera que, um dia, Meiko regresse com eles ao Mundo Digital…

 

…mas porque faria Meiko isso? A sua breve passagem pelo Mundo Digimon só lhe trouxe más experiências. Foi torturada pelo Dark Gennai. Dois amigos caíram no abismo por sua causa e um deles não sobreviveu. Agora nem sequer tem Meicoomon – enquanto os outros Escolhidos puderam conservar os seus companheiros Digimon, saudáveis e com as memórias intactas e tudo.

 

Tai e os outros são miúdos impecáveis, ninguém coloca isso em causa – a maneira como receberam Meiko foi exemplar. Mas, se eu estivesse no lugar de Meiko, não quereria conviver muito com eles – seria demasiado doloroso.

 

É por essas e por outras que não acredito que Meiko regresse numa eventual nova sequela de Adventure. A história dela está terminada – é a única em Tri que não deixou pontas soltas. Só se eventualmente lhe derem um segundo companheiro Digimon – o que acho pouco provável.

 

Ainda assim, os Escolhidos fazem questão de telefonar a Meiko, na véspera de Natal – na última cena de Bokura No Mirai.

 

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Gostei que tivessem escolhido essa época para terminar Tri. Remete para uma das minhas partes preferidas de 02: os episódios natalícios. E, claro, por muitas reservas que tenha em relação a esta quadra, é uma ótima altura para renovar votos de lealdade.

 

É o que Tai faz, na chamada que efetua em nome de todo o grupo – embora a maneira como Matt, Sora e os outros olham para ele dê a entender que Tai quer dizer outra coisa.

 

Seria engraçado, admito, mas não acho que resultasse a longo prazo.

 

De qualquer forma, quando Tai tropeça nas palavras, Agumon está lá para completar a frase. Porque Tai pode ser muito corajoso e amadurecido imenso ao longo de Tri, mas continua a ter dezassete anos.

 

Mirai termina com uma versão fantástica de Butter-fly, cantada não só pelo falecido Wada Kouji, mas também pelas vozes dos Escolhidos. Eu confesso, no entanto, que teria tido mais impacto se não tivéssemos ouvido já três versões diferentes da música nos últimos vinte minutos do filme: a versão normal quando Tai reaparece, uma versão instrumental do tema de Adventure original, quando Kari desbloqueia Magnadramon, e uma versão suave, agridoce, que começa durante a morte de Meicoomon e se prolonga quase até ao fim de Mirai.

 

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Não me interpretem mal, todas estas versões são fabulosas, à sua maneira. A versão agridoce leva-me lágrimas aos olhos. A minha preferida, no entanto, é a versão com o elenco todo – a única coisa que faltou no encontro do Odaiba Memorial Day deste ano foi um karaoke a várias vozes de Butter-fly. No entanto, as quatro versões surgem demasiado de seguida, acabando por se anularem umas às outras, um bocadinho.

 

Eu suspeito que, após a morte de Wada Kouji, os produtores se tenham afeiçoado a Butter-fly. Não vou dizer que não compreendo, ou que não fizesse o mesmo se estivesse no lugar deles. Mas com estes exageros acabam por fazer o oposto daquilo que, por certo, pretendiam.

 

Em contrapartida, Brave Heart acabou por ser negligenciada, relegada para os combates fúteis com Ordinemon – quando podia e devia ter sido tocada durante o momento da digievolução de Magnadramon. Eu gosto de Butter-fly, tenho vindo a gostar cada vez mais, mas Brave Heart será sempre a música de Digimon para mim. Ela merecia mais amor da parte de Tri.

 

Confesso que, depois dos créditos terminarem, no momento em que surge o logótipo de Digimon Adventure Tri, senti um baque e precisei de um momento (e de uns goles de Somersby). Parecendo que não, foram dois anos e meio da minha vida acompanhando esta história.

 

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Já aí vamos.

 

Tal como comentámos antes, Mirai dedica mais tempo a cenas de ação e não tanto ao desenvolvimento de personagens e, na minha opinião, sai prejudicado. Eu, por exemplo, queria ter visto mais manifestações de luto por Tai – sobretudo no que diz respeito a Kari. Esperava ver mais Escolhidos tentando consolá-la, não apenas T.K. – talvez dizendo-lhe que não era a primeira vez que Tai desaparecia assim, que ele poderia estar vivo.

 

Queria, sobretudo, ver interações entre ela e Matt – as duas pessoas que mais estavam a sofrer com a perda. Talvez referissem o episódio 36 de Adventure, em que Tai pedira a Matt que tomasse conta da irmã na sua ausência – e em que Matt acabara por fazer a menina chorar e não consegue impedi-la de entregar-se a Myotismon.

 

Esperava um bocadinho mais de desenvolvimento de Kari, aliás. Este existiu, não me interpretem mal, e foi mais do que tínhamos recebido até ao momento – tivemos de esperar temporada e meia e cinco filmes. Mesmo assim, soube-me a pouco. Pareceu-me mais um ponto de viragem, não uma conclusão.

 

Pode ser que o seja. Pode ser que haja mais, num projeto futuro. Eu pelo menos gostava de ver como será a relação dela com o irmão, depois de Tri.

 

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Assim, a minha opinião sobre Bokura No Mirai é mista: nem muito boa, mas não assim tão má. Assim assim. Sendo este o último filme de Tri, já posso dar a minha classificação final. Kokuhaku é um primeiro lugar claríssimo, não me canso de elogiá-lo. SaikaiKyousei estão empatados no segundo lugar: são filmes muito diferentes, difíceis de comparar, ambos bons mas não tanto como Kokuhaku. Bokura No Mirai fica a seguir, no meio da tabela.

 

Por outro lado, Ketsui tem vindo a subir na minha consideração. Compreendo agora que Mimi dificilmente teria um papel de relevo em Tri. Sendo ela brutalmente honesta com toda a gente, incluindo ela mesma, era incompatível com um enredo em que metade do conflito parte de personagens mordendo línguas e guardando segredos. Daí relegarem-na para um conflito escolar.

 

Além disso, ainda que Ketsui não avance muito na história, em retrospetiva, dá para ver indícios de aspetos que serão importantes mais à frente. Como o facto de Daigo se rever nos Escolhidos mais novos e de Maki revelar ter sentido dificuldades em crescer.

 

Soshitsu é mesmo o pior de todos, na minha opinião. Mais do que qualquer outro filme de Tri, este parece ter sido feito em cima do joelho. Sobretudo a parte final.

 

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E assim terminou Tri, pouco menos de quatro anos após os primeiros anúncios. Está longe de ser perfeita, claro, mas, ao contrário do que alguns fãs parecem recordar-se, não é pior que Adventure E é definitivamente melhor que 02. Talvez até possa ser melhor que Adventure, em certos aspetos – mas tenho de revê-la um dia destes, antes de formar uma opinião sobre isso.

 

Tri não se limita a ser um produto movido a fan service e nostalgia – pelo contrário, acaba por desconstruir esses conceitos, mostrando o lado mais sombrio de ser uma Criança Escolhida. Com personagens como Daigo, Maki e Meiko, que não colheram os mesmos benefícios que os oito de Adventure receberam. Mostrando que a Homeostase está longe de ser perfeita. E que os próprios Escolhidos podem fazer mais mal que bem e têm de tomar decisões difíceis.

 

Tri foi, sobretudo, a história de Meiko e Meicoomon, para o melhor e para o pior. Tudo começou porque elas vieram viver para Odaiba, tudo terminou quando a segunda morreu. Muitos fãs alegam que não era necessário ter acrescentando mais uma Criança Escolhida (sobretudo quando os miúdos de 02 foram excluídos da narrativa), mas eu discordo.

 

Se Meicoomon não tivesse um companheiro humano, pouco mais seria que um dos vilões da semana de Adventure ou 02 – Tri acabaria ao fim de dois filmes, no máximo. Talvez um ou outro Escolhido sentisse alguns escrúpulos em matá-la, mas acabariam por fazê-lo antes que causasse demasiados danos. Mas, como era o Digimon de Meiko, acolheram-na entre eles e, quando deram por ela, Meicoomon tinha matado Leomon, infetado os companheiros Digimon, precipitado o Reinício. E, como era o Digimon de Meiko, demoraram quatro filmes a matá-la.

 

Concordo que Meiko, enquanto personagem, nem sempre foi fácil de aturar. Mas, para ser sincera, se estivesse no lugar dela, teria cometido os mesmos erros. E provavelmente também passaria a vida a chorar.

 

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A situação de Meiko serviu, também, para desenvolver os Escolhidos de maneiras que, sem Meiko ou Meicoomon, se calhar não teriam sido possíveis – quer como reação aos acontecimentos, quer fazendo paralelismos. Como T.K., em Kokuhaku, e Sora, em Soshitsu.

 

Nesse aspeto, Tri partilha um ponto forte com Adventure: o foco nas personagens. Também partilha a desigualdade nos tempos de antena: Tai é mais desenvolvido do que qualquer um, tirando Meiko, Sora volta a ser das menos desenvolvidas, seguida de Mimi e Joe.

 

Tri, mesmo assim, saiu-se um bocadinho melhor que Adventure, pois cada Escolhido tem pelo menos um filme dedicado a si. A única exceção será Matt, até certo ponto, mas uma boa parte do seu desenvolvimento esteve interligado com o de Tai. Logo, aceita-se.

 

Se a questão de Meicoomon ficou resolvida, como vimos antes, o mesmo não se pode dizer da mão por detrás de Meicoomon: Yggdrasil. Este é, sem dúvida, o maior ponto fraco de Tri – sim, ainda mais que a questão dos miúdos de 02 que, mal por mal, não ficou por responder.

 

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Referi em análises anteriores que a motivação de Yggdrasil – um poder dentro do Mundo Digimon que não queria contacto com humanos – tinha imenso potencial. Tri, no entanto, não correspondeu. Sabemos tanto sobre Yggdrasil quanto sabíamos quando ele foi introduzido na história, em Soshitsu.

 

Fica a ideia que Yggdrasil foi enfiado a martelo em Tri, quando os digi-guionistas precisaram que um vilão por detrás das ações de Maki.

 

Além disso, conforme comentei antes, os discípulos de Yggdrasil – o Dark Gennai e o Alphamon – andam por aí à solta, sem castigo. Parece-me mais que os Escolhidos ganharam uma batalha, não a guerra.

 

E se uma batalha já teve estas consequências – um Reinício, duas antigas Crianças Escolhidas mortas, uma companheira Digimon eutanasiada – o que acontecerá a seguir?

 

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O que nos leva ao novo projeto de Adventure. O primeiro anúncio saiu poucas horas antes da estreia de Bokura No Mirai – se bem me recordo, era apenas um tweet dizendo algo como “A aventura digievoluirá de novo”. Talvez nem déssemos importância se Mirai não estivesse, conforme vimos, cheio de sequel baits.

 

Na verdade, depois dessa, não saiu mais nenhuma informação até há poucos dias, no Digimon Thanksgiving Festival 2018 – e mesmo assim foi muito pouco e existem versões diferentes pelas internetes fora. Aquilo que parece ser certo é que será um projeto cinemático, outra vez, que será mais uma sequela a Adventure e que decorrerá quando Tai e Matt tiverem vinte e dois anos – este tweet refere mesmo que estarão no quarto ano da faculdade. Os desenhadores serão diferentes dos de Tri, como podemos ver na imagem acima (que é apenas um esboço).

 

Admito que já tinha tentado imaginar os Escolhidos como jovens adultos, logo, esta premissa agrada-me, para já. No entanto, temos todos uma infinidade de perguntas sobre isto – o António fez um belo apanhado com a imagem abaixo. Eu suspeito que este projeto ainda deve demorar pelo menos um ano até ser lançado. Haverá muito tempo para especular.

 

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Uma coisa é certa: quando voltar a escrever sobre o universo de Adventure – quer sobre este novo projeto, quer uma retrospetiva sobre Adventure, 02 ou Tri – vou usar os nomes japoneses. Ao fim de três anos vendo Digimon quase sempre em japonês, tirando 02, já não me faz sentido usar os nomes americanizados. Não quando nomes como Taichi, Yamato, Hikari e Takeru são bem mais bonitos e adequados às personagens.

 

Só não comecei a usá-los mais cedo aqui no blogue por uma questão de consistência. Seria estranho ter uma parte das análises a Tri com os nomes americanizados (e foi há mais ou menos um ano que comecei a cansar-me deles) e outra com os nomes originais. Mas, agora que acabámos com Tri, isso muda.

 

Ao fim e ao cabo, é um ciclo que se encerra aqui no blogue – um ciclo que começou há precisamente três anos, no Odaiba Memorial Day de 2015, com o meu primeiro texto sobre Adventure. Só regressei a Digimon após dez anos de ausência, só comecei a escrever sobre Adventure porque descobri acerca de Tri.

 

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E a melhor parte, de longe? Esse regresso, a minha escrita, permitiram-me conhecer vários outros fãs, em Portugal e não só, online e, também, em carne e osso. Destaco, obviamente, os dois encontros do Odaiba Memorial Day Portugal a que fui, o último dos quais no fim-de-semana passado.

 

Ao contrário do que aconteceu há dois anos, desta feita, cheguei cedo e fiquei até bem depois do fim oficial. Diverti-me imenso, como não me acontecia há semanas, se não forem meses. Entre outras coisas, joguei um bocadinho de Digimon Rumble Arena 2 (mais de uma década, à vontade, desde a última vez que toquei numa PlayStation; as vezes anteriores contam-se pelos dedos de uma mão), participei nos quizes (onde não me saí mal para alguém que só conhece de passagem o universo de Adventure), competi no karaoke (não me saí por aí além mas, em minha defesa, o I Wish é difícil de cantar!).

 

Uma das minhas partes preferidas foi quando cantámos Brave Heart, alternadamente – como o elenco de Tri fez com Butter-fly, para os créditos do último filme. Eu, aliás, tinha esperança que recriássemos essa versão, mas foi melhor assim pois, como referi acima, Brave Heart é a minha música preferida de Digimon. Estou à espera do vídeo dessa performance.

 

Outro momento giro foi este:

 

 

 

Mais do que tudo, gostei de estar com outros fãs, de reencontrar o António, o Daniel e todos os outros, do convívio que se prolongou até por volta da meia-noite. Como disse acima, foi dos melhores dias que tive ultimamente. Isto… isto foi o melhor que Digimon me deu!

 

Por isso e por me ter dado tanto sobre que escrever aqui no blogue, quer sobre o bom quer sobre o mau, estarei sempre grata a Digimon e a Tri. Vou ter imensas saudades de escrever sobre estes filmes – este último deu-me um gozo especial, depois de várias semanas a braços com textos bem mais difíceis de escrever (os de Pokémon através das gerações) e sobre assuntos deveras frustrantes (o desempenho fraquinho da Seleção Portuguesa no Mundial 2018, para o meu outro blogue).

 

Em todo o caso, não ficamos por aqui em termos de Digimon, neste blogue. Como já dei a entender acima, hei de escrever sobre o novo projeto de Adventure, quando este sair. Além disso, quero começar a ver Tamers e, eventualmente, analisar aqui no blogue (acho que não é a primeira vez que falo disso aqui…). Agora que redescobri esta franquia, tão cedo não quero sair.

 

Antes de terminar, uma palavra para as oito Crianças Escolhidas de Adventure. Nestes últimos anos, apercebi-me que, em toda a ficção, não existem um elenco que eu adore mais do que estes miúdos (só mesmo as minha próprias personagens, e mesmo assim). Mais nenhum elenco alguma vez mexeu comigo desta forma, derreteu-me o coração, afligiu-me, me deu vontade, ao mesmo tempo, de gritar-lhes e de abraçá-los e protegê-los.

 

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Estes miúdos, estes Escolhidos, que cresceram comigo (mesmo que apenas no meu subconsciente) são a melhor parte deste Universo, são o motivo pelo qual adoro Tri, tal como adorei Adventure e 02. Devemos voltar a vê-los, mais cedo ou mais tarde, mas, caso isso não aconteça, foi um prazer e um orgulho.

 

Bem, penso que é tudo o que tenho a dizer sobre Tri, por enquanto – e não foi pouco. Fica só uma última palavra…

 

Dandan.

Digimon Adventure Tri – Bokura No Mirai #2

Segunda parte da análise a Bokura No Mirai. Podem ler a primeira parte aqui

 

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É nesta altura que Mirai revela finalmente o que aconteceu a Tai e a Daigo. Começamos por ver o primeiro recuperando a consciência, um pouco dorido mas, ao que parece, sem ferimentos. O homem mais velho, no entanto, aparece perante nós numa poça do seu próprio sangue.

 

Nem as Bestas Sagradas devem saber como é que os dois tiveram destinos tão diferentes. Ainda se aceitava se Mirai desse uma explicação, por fraquinha que fosse – não me chocava se, por exemplo, de alguma forma, Daigo tivesse protegido Tai do impacto. Mas assim, a seco, fica a ideia que Tai só se safou sem mazelas porque é o protagonista e tal.

 

E não havia necessidade – já ajudava se o jovem aparecesse com uns cortes na cara e talvez um pulso partido para a coisa se tornar mais credível.

 

De alguma forma, ao caírem no abismo, Tai e Daigo foram parar a uma espécie de laboratório tecnológico subterrâneo. Não se percebe se caíram diretamente para lá ou se alguém os transportou. De qualquer forma, quando as luzes se acendem e Tai olha através do vidro, vislumbramos cinco incubadoras, cada uma com uma silhueta familiar…

 

…e, quando os reconheci, festejei como um golo, com murros no ar e penso ter ouvido a audiência a explodir.

 

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Depois de consultar os computadores, Daigo informa que Davis, Yolei, KenCody e… o verdadeiro Gennai, aparentemente (embora eu, de início, tenha pensado que era Ryo, aquele miúdo que teria estado com Ken nas primeiras vezes que este foi ao Mundo Digimon), estão apenas em coma. O homem mais velho revela que, na verdade, há muito que sabia que os miúdos de 02 estavam desaparecidos. Pelos vistos, estes tinham sido feitos prisioneiros depois de descobrirem acerca dos planos de Yggdrasil.

 

Como víramos em Kokuhaku, Maki instruíra Daigo para guardar segredo acerca do desaparecimento dos miúdos. E tendo em conta que, em Kokuhaku, apareceu na posse do D3 e D-terminal de Ken, é possível que, se não tiver tido acesso direto a eles, pelo menos sempre soube onde estavam.

 

Acho que isto confirma, mais ou menos, a teoria que formulei após Saikai: Davis, Yolei, Cody e Ken terão ido ao Mundo Digimon tratar daquilo que pensavam ser um distúrbio menor. Nem sequer avisaram Kari nem T.K. De alguma forma, descobriram acerca da conspiração de Yggdrasil e não conseguiram pedir ajuda – como vimos em Soshitsu, os D-terminais não estavam a funcionar. Acabaram derrotados por Alphamon e aprisionados pelo Dark Gennai.

 

Não deixa de ter uma data de buracos. Continuo a achar que os Escolhidos mais velhos deviam ter detetado o desaparecimento de Davis e  dos outros mais cedo e feito mais perguntas a Maki e a Daigo. Temos ainda a questão das famílias: que ameaças lhes terá feito Maki para manter os pais dos miúdos calados?

 

E o que terá acontecido ao V-mon, ao Wormmon e aos outros companheiros Digimon de 02?

 

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No entanto, nesta altura do campeonato, depois de cinco filmes lidando pessimamente com a questão (quando lidavam), as minhas expectativas eram nulas. Eu receava que arrumassem a questão com duas linhas de diálogo. Por esse prisma, a maneira como encerraram esta parte da história até é aceitável.

 

Por muito que alguns de nós o desejassem (desejavam mesmo, no entanto?), Tri era a história dos oito Escolhidos originais. Não era a história dos miúdos de 02. E, no entanto, acabaram por ter um papel no enredo, por pequeno que tenha sido.

 

Dito isto, espero que um dia destes nos deem mais pormenores da aventura dos miúdos que acabou com eles aprisionados – nem que seja num CD drama ou algo do género. Também quero descobrir como é que os miúdos de 02 lidaram com o pós-Tri, mas isso é conversa para mais à frente.

 

Por outro lado, conforme referi acima, parece que o Gennai também esteve preso com os outros miúdos. Ou seja, o Dark Gennai não era o verdadeiro Gennai… o que é um alívio, sinceramente. Vou continuar a chamar-lhe Dark Gennai, no entanto.

 

Daigo explica rapidamente a Tai o papel de Maki no Reinício, acabando por fazer um mea culpa pelas ações dela. Eu não sei, no entanto, até que ponto podemos responsabilizá-lo. Como vimos aquando de Soshitsu, Maki não é Oikawa, ela sabia perfeitamente o que estava a fazer. Daigo tentara ajudá-la a lidar com a dor. Ele não tem culpa que Maki tenha mentido e afastado-se dele.

 

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O agente, no entanto, devia ter sido sincero com os Escolhidos em relação a Meicoomon e, sobretudo, em relação ao os miúdos de 02. Com a vida de crianças não se brinca.

 

Mas também Daigo está longe de ter sido a única personagem a esconder coisas e a cometer erros em Tri.

 

Havemos de falar melhor sobre Maki mais à frente. Daigo acaba por dar um conselho importante a Tai, quase sem dar por isso: “independentemente do quão difícil é, às vezes tens de tomar uma decisão. Mesmo que vá contra um amigo.”

 

Ou uma irmã, digo eu. Mas não nos adiantemos.

 

É nesse momento que aparece o Dark Gennai, rindo-se na cara dos seus prisioneiros (daqueles que estão conscientes, pelo menos). Este desliga os suportes de vida dos miúdos de 02, dizendo a Tai e a Daigo que podem enviá-los para o Mundo Real… mas o laboratório explodirá quando o fizerem. Existe uma sexta cápsula onde poderão entrar e partir também para o Mundo Real… mas só lá cabe uma pessoa.

 

Para alguém que passou cinco filmes e meio sem sequer pensar nos miúdos de 02, Tai fica genuinamente em pânico e procura desesperadamente uma maneira de reativar as incubadoras e de salvar toda a gente. O Izzy, se calhar, teria sido capaz de fazê-lo, se tivesse sido ele a cair no abismo, com Daigo.

 

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Mas, por outro lado, talvez tivesse sido demasiado esperto para cair na “armadilha” de Daigo. Sendo Tai, o homem mais velho diz-lhe para investigar a cápsula vazia, a ver se existe maneira de contactar o Mundo Real através dela – o que até nem era um mau plano, se os miúdos de 02 não estivessem a morrer.

 

Assim, Daigo encerra Tai na cápsula e ativa o lançamento.

 

A despedida de Daigo é, sem sombra de dúvida, o meu momento preferido em todo o filme – lindo e de partir o coração ao mesmo tempo. A música ajuda é certo, mas eu tenho de incluir o último discurso de Daigo na íntegra, porque é demasiado… “Eu não desisti. Vocês ensinaram-me que existe sempre algo que eu posso fazer até ao fim. O futuro continuará e ligar-se-á. Eu deixo-a a vocês. A nossa… a nossa esperança… de crescidos.” “Ouve, Yagami. Não importa quão difícil seja a realidade, não desistas nunca! Vai e construam o futuro. Sonha… alto!”

 

Adeus Nishijima-sensei, inesperado herói de Tri, que se tornou a minha personagem preferida – entre as novas apresentadas em Tri, pelo menos. Conforme comentei antes, tirando o pai de Meiko e mesmo os outros familiares dos miúdos (que, de resto, tiveram um papel mais secundário), Daigo foi o único verdadeiro aliado dos Escolhidos. O único que não tentou usá-los como peões, o único que zelo, não apenas pela vida deles, também pelo seu bem-estar, mesmo pela sua felicidade.

 

Isto apesar de ter sido bastante maltratado pelo universo de Adventure. Foi uma Criança Escolhida, mas o seu papel na vitória final frente aos Mestres das Trevas foi insignificante. Huckmon deu mesmo a entender que a Homeostase considera as Primeiras Crianças Escolhidas como um fracasso. Maki usou-o, como vimos antes. A agência para quem trabalhava virou-lhe costas. Agora, o Dark Gennai troçava abertamente dele.

 

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E, mesmo assim, Daigo não se resignou ao desprezo e ao ostracismo. Pelo contrário, lutou pelos Escolhidos mais novos até ao seu último suspiro. Deixou o seu contributo na luta contra Yggdrasil – maior do que, se calhar, o próprio Daigo pensava – e morreu como um herói.

 

Eu confesso que, há um ano ou dois, nunca imaginaria que a história dele terminaria assim. Não depois de ter passado a primeira metade de Tri na sombra de Maki.

 

Confesso que pensei muito no Daigo durante o resgate da equipa de futebol juvenil, que ficou presa numa gruta na Tailândia. Vi várias semelhanças entre Daigo e o treinador que velou pelas crianças, que sacrificou o seu bem-estar pelo delas – que não tinham mais ninguém – tendo sido determinante para que todos sobrevivessem. Um daqueles casos em que a realidade consegue ser ainda melhor que a ficção.

 

Por outro lado, na análise a Kyousei, referi que me identificava com Daigo, com o seu instinto protetor em relação aos miúdos. Seria eu capaz de dar a vida pelos Escolhidos?

 

Claro que sim! Por aqueles miúdos, tudo!

  

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OK, romantismos à parte, acho que nenhuma pessoa decente deixaria um miúdo como Tai morrer no seu lugar – é certo que ele já não é uma criança, mas não deixa de ser um menor. Sobretudo se estivéssemos tão maltratados como Daigo, que se calhar nem sequer sobreviveria à viagem de regresso ao Mundo Real.

 

Eu seria capaz de passar o resto da análise a falar sobre Daigo, mas o filme não termina com ele. Ainda há muito sobre que escrever.

 

Entretanto, no Mundo Real, Kari desperta no quarto de Izzy (?) com desejos suicidas. T.K., à sua cabeceira, passa-se, como seria de esperar. Suplica-lhe que não guarde a dor para si – não vá a Escuridão invadi-la de novo ou, pior, a jovem passar das palavras aos actos.

 

Mirai, no entanto, quase estraga o momento de novo ao pôr Patamon subitamente envergonhado e a tapar os olhos.

 

Eu só dou graças por não terem feito uma dessas depois da cena do sacrifício de Daigo.

 

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Em todo o caso, depois desta, Kari e T.K. vislumbram Ordinemon através da janela. A jovem resolve saltar da cama e ir juntar-se à luta, acompanhada por T.K. Mas antes dão de caras com uma data de Digimon invasores. Este prossegue com os seus jogos psicológicos com os Escolhidos, começando por atirar um Devimon ao MagnaAngemon – uma jogada brilhante de tão baixa.

 

O MagnaAngemon – uma forma Perfeita bastante forte, que, se bem se lembram, derrotou sozinho o Piedmon, um Mestre das Trevas – em teoria, seria mais do que capaz de derrotar Devimon – que é forte para um nível Adulto, mas não deixa de ser um Adulto. No entanto, tendo em conta o seu historial com o Devimon, compreende-se que tenha tido dificuldades. Não tanto por ele mesmo – ele foi Reiniciado, não se deve lembrar de Devimon – talvez por sentir o medo de T.K.

 

Como se não bastasse, o Dark Gennai ainda se vira para Kari e culpa-a  pela “morte” do irmão – consequência de ter rejeitado a Homeostase, segundo ele.

 

Como disse acima, tão baixo que se torna brilhante.

 

Eu, nesta altura, gritava para o monitor:

 

– Defende-te, miúda! Dá-lhe um murro, ou assim! Faz qualquer coisa.

 

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Mas Kari fica calada, deixando o Dark Gennai rir-se na cara dela. Tem de vir T.K. defendê-la.

 

Estão a ver? É por cenas como esta que esta rapariga me irrita, por muito que a adore! É tão passiva, pelas Bestas Sagradas! Quando foi Sora a ser assediada pelo Dark Gennai, ela não deixou de dar luta. O Joe, claro, não esteve com meias medidas e atirou-se mesmo a ele (eu não me canso desse momento…). Até Meiko, que tem ar de mosquinha-morta, tem mais coragem e espírito de luta do que parece.

 

Não vou implicar muito mais com Kari, pois esta toma, mais tarde, aquela que deverá ser a atitude mais corajosa da sua vida. De qualquer forma, as provocações do Dark Gennai fazem-na entrar numa espécie de dimensão telepática, cheia de cubos que, ao que parece, guardam memórias. Aqui, temos um cameo do Wizardmon – é uma pena não termos visto o verdadeiro Wizardmon, ressuscitado pelo Reinício, mas não acho que tenha sido por acaso que o subconsciente de Kari o escolheu como guia.

 

A jovem encontra, então, aquilo que penso ser as consciências de Meicoomon e Gatomon. A primeira chora como uma criança pequena que não percebe o que lhe está a acontecer, que só quer ir para junto da mãe ou figura equivalente. Gatomon confirma que Meicoomon é quem mais está a sofrer. Afirma ainda que “toda a luz está dentro de Meicoomon” – uma frase que já conhecíamos dos primeiros trailers e sinopses de Mirai.

 

Depois de sair daquela espécie de transe, Kari e T.K. telefonam logo a Izzy para lhes contar – este, claro, desvenda logo o mistério. Os três vão ter com os outros Escolhidos (não chegamos a descobrir como acaba o combate do MagnaAngemon com Devimon), numa altura em que estes estão outra vez a apanhar uma tareia da Ordinemon.

 

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Huckmon volta a falar do Reinício, o que tira os miúdos do sério – sobretudo Matt. O jovem está determinado a liderar os Escolhidos para que salvem o mundo à maneira deles, contra tudo e contra todos, o que é muito bonito e inspirador… mas a verdade é que o que estavam a fazer não estava a resultar.

 

Felizmente, Izzy tem uma ideia. Lembram-se do campo de dados que Izzy criou em Kokuhaku, para preservar as memórias dos companheiros Digimon, antes do Reinício? Bem, parece que o plano dele não foi completamente mal-sucedido. De alguma forma, no combate com os outros companheiros Digimon, imediatamente antes do Reinício, o campo de dados ficou incorporado em Meicrackmon. Assim, depois do Reinício, Meicoomon tem guardado em si as memórias, não só dos companheiros Digimon.

 

No meio disto tudo, as boas recordações que Meicoomon guardava de Meiko foram trancadas, daí ela ter-se tornado instável e agressiva, sobretudo quando se sente ameaçada.

 

Se acho isto rebuscado e um bocadinho Deus Ex-Machina? Sim. Se acho isto mais rebuscado e mais Deus Ex-Machina que, por exemplo, os dispositivos digitais terem-se ativado sozinhos para imobilizar VenomMyotismon e para travar a explosão do Apocalymon, em Adventure? Não de todo.

 

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Sempre achei que Izzy podia ter impedido os Digimon de serem Reiniciados se tivesse tido mais tempo. Que, afinal, ele tenha conseguido cumprir uma parte do seu propósito é aceitável, na minha opinião.

 

No que diz respeito às recordações dos companheiros Digimon, pelo menos. Que o campo de dados tenha guardado as memórias de todos os Digimon, no entanto, já me parece demais.

 

Mesmo a parte de Meicoomon possuir as suas boas recordações bloqueadas é um bocadinho confusa. Meicoomon sempre teve um comportamento errático. Mais durante a segunda metade de Tri, é certo, mas não me pareceu que a ligação entre Meiko e Meicoomon tenha chegado a desaparecer. Afinal de contas, Raguelmon protegeu a jovem a certa altura, durante Kyousei – isso seria possível se Meicoomon não recordasse os seus bons momentos com a jovem?

 

Enfim.

 

O plano de Izzy é, então, desbloquear essas memórias – na esperança de que, quando se recordasse de Meiko, Meicoomon estabilizasse, Ordinemon se desfizesse e todos vivessem felizes para sempre. As memórias, no entanto, estão protegidas por palavra-passe – Izzy calcula que essa palavra seja um termo significativo para Meicoomon.

 

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Não se demora muito a descobri-la: “dandan”, um termo do dialeto de Tottori (a terra natal de Meiko), a primeira palavra que ouvimos Meicoomon pronunciar em Tri, a primeira palavra que Meiko lhe ensinou.

 

Isto remete para Aikotoba, a música dos créditos de Kyousei, reutilizada pela Crunchyroll para encerrar os episódios de Bokura No Mirai, tirando o último. O refrão reza algo como “Mesmo que o tempo nos separe, estaremos sempre unidos pelas nossas palavras secretas de amor”. A chave para as memórias dos Digimon estavam debaixo do nosso nariz desde Kyousei.

 

Bem jogado, Tri. Bem jogado.

 

De resto, palavras podem ser, de facto, uma prova de intimidade, de cumplicidade: alcunhas, diminutivos, fala à bebé, piadas privadas, referências. Foi um bom toque aplicá-lo a um laço entre Escolhido e companheiro Digimon.

 

Antes da estreia de Mirai, cheguei a desejar que os comapnheiros Digimon não chegassem a recuperar as memórias pré-Reinício. Na altura, antecipava um final um pouco mais cor-de-rosa para Tri. Se os Digimon permanecessem amnésicos, teriam boas relações com os companheiros à mesma, mas não seria a mesma coisa. Os Escolhidos teriam de viver para sempre com aquela consequência do Reinício – que, por sua vez, resultara dos seus próprios erros. E tornaria as cenas do “último dia no Mundo Real” ainda mais poderosas.

 

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No entanto, Mirai teve um final mais triste do que estava à espera. Assim sendo, reverter os efeitos do Reinício é aceitável.

 

E é uma cena lindíssima, diga-se – começando com a espetacular versão de Shouri Zen No Theme. Só é uma pena que, nas memórias dos Digimon, só tenham usado cenas de Tri – podiam ter recriado uma ou outra cena de Adventure ou 02, tal como fizeram em filmes anteriores.

 

O desbloqueio das recordações faz com que os Digimon regressem às formas Extremas e com que Gatomon desperte e lute para se libertar de Ordinemon. Ao mesmo tempo, ao recuperarem as memórias, os Digimon invasores começam a bater em retirada, regressando ao Mundo Digital.

 

Vendo que a recuperação das memórias está a afetar Ordinemon, que esta está a tentar ganhar controlo sobre si mesma, Huckmon digievolve para Jesmon e liberta Gatomon. Kari dá finalmente uma para a caixa ao mergulhar no rio para salvar a sua companheira. O Reinício é cancelado.

 

Meicoomon, no entanto, continua sob a forma de Ordinemon. Os miúdos não têm nem cinco segundos para respirar – Yggdrasil começa de imediato o vazio deixado por Gatomon.

 

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Perante isto, Meiko, farta de assistir à tortura da sua companheira, entra no rio aos protestos. Acaba por se colocar na rota dos tentáculos, ou lá o que são, de Ordinemon. Da primeira vez, Matt consegue desviá-la. Da segunda (ou terceira?), a jovem tropeça e Agumon tenta protegê-la.

 

É nesse momento que alguém, regressado dos mortos, desvia-os no último segundo.

 

Este miúdo sempre soube como fazer uma entrada.

 

Tal como acontecera quando Tai caíra no abismo, quando este reaparece, os outros Escolhidos demoram um minuto a reagir. O próprio Tai olha para cada um deles, como que certificando-se de que estão todos bem. Ele e Matt olham-se longamente. No fim, o segundo atira-lhe os óculos, resmungando:

 

– Estás atrasado!

 

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Não tens emenda, pois não Ishida?

 

Tai põe os óculos na testa pela primeira vez em Tri, forma-se o Omegamon. Preparavam-se todos para acabar com o problema à moda antiga, de uma vez por todas…

 

…até Kari, de todas as pessoas, meter um travão naquilo.

 

A jovem dirige-se ao irmão, faz-lhe ver que Ordinemon não é um inimigo como todos os outros, é uma companheira Digimon, uma vítima, não merece morrer daquela forma.

 

Não surpreende que seja Kari a lembrar-lhes daquilo. Ela desbloqueou a sua primeira digievolução graças ao sacrifício de Wizardmon. Nos seus primeiros dias no Mundo Digimon, viu imensos aliados morrerem pelas Crianças Escolhidas. Em 02, teve como colegas miúdos particularmente escrupulosos no que tocava a matar Digimon. E, cinco minutos antes, tinha Gatomon presa em Ordinemon.

 

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O que é de surpreender é que, para defender este ponto de vista, Kari tenha enfrentado Tai. Tai, o onii-chan que acabara de recuperar dos mortos. A jovem chega a tocar-lhe no ombro, fazendo-lhe um bocadinho de chantagem emocional.

 

Tai, no entanto, não se deixa manipular. Ele acabara de ver Daigo dando a vida por ele e de enviar os Escolhidos mais novos para o hospital – coisas que aconteceram porque Daigo tivera demasiado medo de ir contra Maki. Toda a situação com Meicoomon só chegara àquela fase, aliás, porque vários deles (começando por Tai, até certo ponto, passando por T.K. e os companheiros Digimon, acabando em Meiko) tiveram demasiado medo de fazer o que era certo. Em parte, porque não queriam magoar aqueles que amavam.

 

Tai não podia deixar o problema de Ordinemon por resolver só para não magoar a irmã, por muito que a amasse.

 

Matt afirma mesmo que eles já não eram os Escolhidos, agora em eles quem Escolhia. Já não eram as crianças que tinham sido atiradas para o Mundo Digital, sem lhes perguntaram se era isso que queriam, para travarem as batalhas que a Homeostase não conseguia travar sozinha. A Homeostase, aliás, andava a dar provas de que, às vezes, toma decisões questionáveis e já nem sequer precisava da ajuda de humanos.

 

Os Escolhidos já tinham ido contra a vontade tanto de Yggdrasil como da Homeostase, queriam afirmar-se como um poder independente – mas, como diria o tio Ben, quanto maior o poder, maior a responsabilidade. Se os Escolhidos não queriam ser peões, tinham de ser líderes e tomar decisões difíceis.

 

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Em sua defesa, Kari reage como uma mulher adulta. Provavelmente nunca perdoará Tai por isto, mas percebe que o irmão não toma esta decisão de ânimo leve. Assim, em vez de lavar as mãos do assunto, a jovem aceita fazer a sua parte – fazendo Gatomon digievoluir para Magnadramon.

 

À semelhança de muitos fãs, eu estava à espera de abraços e lágrimas aquando do reencontro dos irmãos. Nesse aspeto, foi duro ouvi-los falando tão desapaixonadamente um com o outro. No entanto, foi m momento significativo para ambos. Tínhamo-los visto, sobretudo nos dois primeiros filmes de Tri, pisando ovos à volta um do outro, com medo de falarem abertamente. Sempre me pareceu, por exemplo, que o discurso de Kari perante Joe, em Ketsui, era essencialmente aquilo que a jovem queria dizer ao seu onii-chan mas não tinha coragem.

 

É nestas alturas que compreendo Albus Dumbledore, quando dizia que é preciso muito mais coragem para fazer frente a amigos do que a inimigos.

 

Este é um momento de viragem na relação de Tai e Kari, portanto. Será que ela, de facto, guardará ressentimento para sempre por causa disto? Essa possibilidade parte-me o coração um bocadinho. Estou certa, aliás, de que os Escolhidos interrogar-se-ão durante muito tempo, talvez para sempre, se poderiam ter feito as coisas de maneira diferente. Talvez acabem por descobrir que, afinal, até havia uma forma de salvarem Meicoomon.

 

Espero, no entanto, que todos eles, sobretudo Kari, cheguem à conclusão de que tomaram a melhor decisão que podiam naquelas circunstâncias e que se perdoem, tanto uns aos outros, como a si mesmos.

 

Mas estamos a adiantar-nos um bocadinho.

 

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Quando nem mesmo Omegamon, acompanhado pelos seis outros Digimon em nível Extremo, chegam para derrotar Ordinemon, o dispositivo digital de Meiko ativa-se, fazendo com que os outros seis Digimon cedam o seu poder a Omegamon, dando-lhe uma nova forma: Omegamon Merciful Mode. este desenvolvimento não chega a ser explicado, mas eu tenho uma teoria: é uma mensagem de Ordinemon, talvez mesmo da própria Meiko, pedindo-lhes que terminem o seu sofrimento.

 

E é precisamente isso que Omegamon faz: um ato de misericórdia. As reações dos Escolhidos, imediatamente antes do golpe final, são de partir o coração. Vários deles mal conseguem controlar as emoções. T.K. nem sequer consegue olhar. Destaque para o ligeiro toque de Tai na mão de Matt – faz-me lembrar o clímax de Saikai, em que fora Matt a amparar o amigo.

 

É impossível, aliás, não reparar na evolução de Tai desde esse filme. O jovem passara a primeira metade de Tri quase toda sem saber o que fazer. Mas agora era o mais firme e determinado de todos. Agora tomara, finalmente, uma decisão e levá-la-ia até ao fim, doesse a quem doesse.

 

Após o golpe final, Meiko tem uma visão de Meicoomon. Vêmo-la feliz como nunca a tínhamos visto, despedindo-se de Meiko com um último “dandan”. A jovem descontrola-se por um segundo, mas consegue recompôr-se o suficiente para retribuir a despedida. Meicoomon partia, não renasceria porque morrera no Mundo real, mas estava finalmente em paz.

 

Só depois de a sua companheira Digimon se desfazer em partículas digitais é que Meiko deixa as lágrimas escorrer livremente.

 

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Entretanto, no Mundo Real, com a morte de Ordinemon, a Escuridão desvanece do céu, as distorções desaparecem – mas os danos de Ordinemon permanecem nos edifícios e infraestruturas.

 

Na verdade, Mirai não nos dá nem um minuto para respirarmos de alívio por o problema Meicoomon estar, finalmente, resolvido. Somos logo brindados com o irritante evil laugh do Dark Gennai que, de alguma forma, apoderara-se da partícula de Apocalymon – a tal que infetou Meicoomon quando ela ainda estava no Digiovo. Vêmo-lo desaparecendo através de um portal, falando em Daemon ou Diaboromon.

 

Bem, obrigadinho Tri por não teres demorado a informar-nos que tudo isto foi em vão – ou quase! Não dava para guardar o óbvio sequel bait para depois dos créditos, ou assim?

 

Havemos de regressar a isto.

 

Já estamos perto do fim do filme, mas ainda há muito para dizer. Não saiam daí, vou tentar publicar a terceira parte logo à noite. Até lá... 

 

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Digimon Adventure Tri - Kyousei #2

Segunda parte da minha análise a Kyousei. Podem ler a primeira parte aqui.

 

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Como as casas dos miúdos estão cercadas de jornalistas, Daigo leva-os para a escola – vazia em tempo de férias de verão. Aqui, coloca-os ao corrente da destruição provocada por Meicrackmon, bem como da decisão da Homeostase em eliminá-la.

 

Não se percebe se Daigo lhes conta a parte de Meicoomon ter nascido com uma partícula de Apocalymon ou de Meiko ter sido Escolhida para, essencialmente, lhe servir de Alprazolam. É possível que lhe tenha omitido este segundo aspeto porque, pelas Bestas Sagradas, a miúda não precisa de mais sentimentos de culpa por algo que lhe foi imposto aos onze anos.

 

De notar que, quando os miúdos querem partir para a luta, Tai obriga-os a parar e a pensarem antes de agir. Matt pensa logo que Tai está a regressar à apatia dos primeiros filmes de Tri – ou isso ou ele, pura e simplesmente, tem como primeiro instinto partir para a discussão no que toca a Tai (chega a ser caricato, às vezes). Tai diz apenas que eles têm de abordar as coisas com cuidado para evitar danos colaterais desnecessários. Garante, no entanto, que está do lado dos seus Digimon e lutará por eles.

 

Meiko, por sua vez, continua a sentir-se culpada pelo caos que o seu Digimon está a provocar e a questionar o seu propósito como Escolhida. Dá para reparar mesmo que, à medida que o tempo passa, Meiko vai ficando cada vez mais alheada dos outros, mais fechada sobre si mesma.

 

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Os amigos repetem a conversa da gruta, insistem que Meicoomon precisa da sua companheira, que Meiko não pode desistir dela. Nesta fase, isto começa a soar repetitivo, sobretudo quando vemos o filme pela primeira vez. Mas acho que é intencional: para mostrar que os oito veteranos estão agarrados, com unhas e dentes, à fé que os ajudou a sobreviver a seis anos como Escolhidos. Não conseguem, nem por um momento, conceber um cenário diferente. Nem mesmo quando percebem que Meicoomon está a ser manipulada por Yggdrasil e que a posição da Homesostase neste conflito é incerta.

 

Nesse aspeto, a frase dita por Kari mais tarde, um pouco vinda do nada – “Não é possível compreender a gravidade de algo até este acontecer perto de nós” – descreve bem o conflito entre Meiko e os amigos. Pode até mesmo ser aplicável a Tri em geral. Os Escolhidos veteranos não se apercebem que a história deles com os Digimon é diferente da de Meiko. Eles receberam os seus companheiros digitais para os ajudar a resolver um problema, ou vários. Por sua vez, o Digimon de Meiko era o problema que ela tinha de resolver.

 

Também faz parte do crescimento: nem sempre existem soluções ou caminhos universalmente certos.

 

Com o grupo em risco de cair no desânimo, T.K. desafia toda a gente para uma sessão de histórias de terror – mesmo no espírito de uma noite de acampamento ou de uma festa do pijama.

  

 

 

Esta parte é um filler, não há como negá-lo. Ninguém espera ver os heróis em amena cavaqueira em vésperas do Apocalipse. Dito isto, estas cenas proporcionam algum alívio cómico – que também é importante tendo em conta o que aconteceu até agora, no filme, e sobretudo o que acontecerá a seguir. E, sejamos sinceros, é um dos momentos mais engraçados até agora em Tri. Ainda mais que a invasão dos balneários, em Ketsui.

 

Um dos principais motivos para esta cena resultar tão bem é o facto de maior alvo da piada ser o Matt. Personagens que se levam demasiado a sério são ótimos alvos para comédia. Em Adventure, esse papel era desempenhado por Joe. Uma parte da sua evolução como personagem, contudo, consistiu em  aprender a não levar a vida tão a sério.

 

Assim, o alvo das brincadeiras passou a ser Matt – quase sempre de mau humor, que leva tudo a peito, que precisa de doses exatas de pimenta nos seus noodles. É uma delícia vê-lo com medo de histórias de terror (o Matt, de todas as pessoas…) e os amigos a rirem-se dele – em particular o seu irmãozinho. O pormenor de Matt tocando baixo no ar, durante a história, foi bem sacado.

 

Por outro lado, depois de tudo por que os miúdos passaram nos últimos seis anos… como é que algum deles tem medo deste género de histórias? Isto para não dizer que história de terror a sério será o que acontece na manhã seguinte…

 

Mas não nos adiantemos.

 

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Outro momento bonito foi quando os miúdos ligaram aos pais – um toque de realismo que não se prolonga demasiado e até contribui para alguma caracterização. Como Sora e Mimi consolando-se uma à outra e Matt recusando-se a falar com a sua mãe (hum…).

 

A única conversa que ouvirmos é a de Tai com a sua mãe. Já a tínhamos visto antes, no filme, acompanhando a situação através dos noticiários. O seu papel como representante das famílias dos Escolhidos (dos oito veteranos, pelo menos) não terá sido atribuído por acaso. Pelo contrário, parte o coração, tendo em conta o que acontecerá a seguir. Sobretudo quando ela pede a Tai que tome conta da irmã e dos Digimon.

 

Podia escrever um testamento à parte deste sobre as possíveis implicações por detrás deste pedido inocente e a sua influência na relação entre Tai e Kari. Já irei dizer algumas coisas mais à frente e poderei dizer ainda mais, na análise ao próximo filme de Tri. Mas, para já, passemos à frente.

 

Depois dos telefonemas aos pais, Tai encontra Meiko sozinha, no exterior (no pátio da escola?) – outro sinal de que está cada vez menos em sintonia com os outros Escolhidos. Tai ouve-a pensando em voz alta. Quando Meiko dá pela presença dele, os dois conversam.

 

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Sempre gostei de momentos assim em ficção. Duas personagens (interesses românticos ou não) a sós, trocando confidências e/ou tendo conversas profundas debaixo das estrelas, enquanto o resto do elenco dorme. Às vezes com tempo para comentários sobre as constelações ou para a ocasional estrela cadente. Por sinal, em Kyousei, a sequência dos créditos e a música – a lindíssima Aikotoba – captam bem o espírito intimista e pacífico desses momentos.

 

Esta cena encaixa-se bem nesse modelo. Tai ouvira Meiko refletindo sobre a sua relação com Meicoomon, questionando a filosofia com que os amigos andavam a martelá-la. Todos lhe diziam que havia um laço inquebrável, quase sagrado, entre Escolhido e companheiro Digimon. No entanto, tudo o que Meiko fizera de acordo com esse princípio só piorara a situação.

 

Tai tenta consolar Meiko à sua maneira. Reflete sobre as diferenças entre a maneira como uma criança vê as coisas e a maneira como um adulto as vê – um dos temas recorrentes em Tri e com o qual quase toda a audiência se identifica. Afinal de contas, quase todos nós vimos Adventure pela primeira vez quando éramos pequenos – há quase vinte anos, nalguns casos. Nenhum de nós vê o mundo da mesma maneira. Eu não vejo, pelo menos.

 

Tai, no entanto, comente o mesmo erro que ele e os outros veteranos têm cometido neste filme: não consegue ver além dos seus próprios vieses, não percebe que a experiência de Meiko com o cargo de Escolhido é diferente. A jovem começa mesmo a assumir que o Dark Gennai estava a falar dela quando dizia: “Não devias ter nascido” – ao que Tai responde com brusquidão. Arrependido, dá a conversa por terminada – não sem antes dizer a Meiko para não ir por esses caminhos.

 

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Depois disto, ambos ficam a ruminar sobre a conversa – e ambos são ouvidos por Agumon, por sinal. Mais uma vez, a unidimensionalidade do Digimon acaba por resultar bem.

 

Meiko confessa, para a surpresa de absolutamente ninguém, que tem inveja dos outros Escolhidos – cada um com um companheiro Digimon, com todas as vantagens, sem o medo constante que eles de repente se passem e destruam tudo à sua volta. Agumon, por sua vez, diz acreditar que Meicoomon ama a sua companheira humana, tal como qualquer outro companheiro Digimon. Isso sempre consola Meiko um bocadinho.

 

Tai, por sua vez, torna a refletir sobre a sua condição de quase-adulto – em que já não consegue deixar de se preocupar com as coisas, com as consequências das suas palavras e ações.

 

Sinto a tentação de perguntar se Tai deseja mesmo voltar a ser o miúdo impulsivo e irresponsável de Adventure. Eu não quereria. Tenho saudades da minha infância de vez em quando, sim. Isso não significa que queria voltar a ser a pessoa que era na altura – uma miúda mimada, egoísta, ainda mais bicho-do-mato que sou agora.

 

Mas estou a desviar-me.

 

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Agumon, na sua inocência, diz que, tal como ele come quando tem fome, quando Tai se preocupa, deve fazer alguma coisa em relação a isso. Procurar resolver os problemas que o atormentam.

 

A oportunidade para isso surge na manhã seguinte, quando Meicoomon reaparece. Esta parte do filme dá-me um dejá-vu de Kokuhaku: voltámos a passar três episódios (OK, um bocadinho menos) com Meicoomon fugida, causando confusão pelo Mundo Real e os miúdos basicamente à espera que ela regresse, para o confronto.

 

E a verdade é que, em Kokuhaku, essa espera foi melhor. Não que não tenha acontecido nada de interessante até agora – pelo contrário, gastámos cerca de quatro mil palavras a falar sobre isso. Mas nada disto teve um impacto emocional que se compare à infeção de Patamon e os Digimon passando bons momentos com os seus companheiros humanos antes do Reinício.

 

As próprias personagens fazem referências aos eventos de Kokuhaku – nomeadamente quando Izzy impede os Digimon de partirem imediatamente para o combate com Meicrackmon, receando que estes sejam infetados de novo. Os Digimon, no entanto, insistem em lutar e os miúdos aceitam.

 

Por fim, tal como aconteceu em Kokuhaku, este confronto acaba horrivelmente mal. Eu diria mesmo que agora foi pior.

 

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Antes de partirem para a luta, Meiko tenta, pela milionésima vez, apelar a Meicoomon e ao laço que as une – se é que este ainda existe. Chega mesmo a pedir à sua companheira que a castigue por ter falhado enquanto Escolhida.

 

Meicrackmon não reage. Os miúdos não têm escolha senão partirem para o confronto físico. Os Digimon passam logo ao nível Perfeito – desta vez não se perdeu demasiado tempo com sequências de digievolução infinitas. Dividiu-se o ecrã e está a andar. Uma mudança bem-vinda após a confusão que foi o final de Soshitsu.

 

Entretanto, os miúdos e Daigo apercebem-se que o medo sentido por Meicoomon torna-a virulenta e catalisa a distorção. Faz sentido com o que temos visto até agora – nomeadamente o assassinato de Leomon, após se ter recordado dele na forma infetada.

 

Os miúdos não têm tempo para mudar de abordagem – uma vez que este é o momento escolhido por Jesmon para entrar em cena. Ainda não foi confirmado oficialmente, mas é quase certo que este Jesmon é o Huckmon digievoluído, enviado pela Homeostase para eliminar Meicrackmon.

 

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É neste momento que os miúdos sentem na pele a traição da Homeostase. Ela (ela?) usara os miúdos a seu bel-prazer durante seis anos para resolver aquilo que, pelo que se via agora (e, de certa forma, se viu com as Primeiras Crianças Escolhidas), até podia ter resolvido sozinha. Agora que os Escolhidos questionavam os métodos dela, descartava-os. Conforme Tai diz, os Escolhidos já não sabem em quem confiar, já não sabem quem é o verdadeiro inimigo nesta equação.

 

Outro sinal de que o público-alvo de Tri já não é o infantil: o Bem e o Mal não se distinguem facilmente, nenhuma das partes está cem por cento certa. Nem mesmo os Escolhidos.

 

Além de atirar os miúdos aos lobos, a aparição de Jesmon desencadeia a digievolução de Meicrackmon para Raguelmon. Pelas palavras do Dark Gennai, que observa a cena à distância, isto ajuda a causa de Yggdrasil.

 

De facto, se virmos bem as coisas, as ações da Homeostase para resolver o problema Meicoomon só têm piorado uma situação já de si má. Desde a expulsão de Meicoomon para o Mundo Real, passando pelo Reinício, acabando no que acontece a seguir, em Kyousei. E esta ainda tem a lata de culpar os Escolhidos pelo que está a acontecer, conforme veremos já de seguida.

 

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Os miúdos têm uma oportunidade de falar diretamente com a Homeostase quanto esta toma posse de Kari. Através dos lábios da jovem, a Homeostase ordena aos Escolhidos que não interfiram, que deixem Jesmon eliminar Raguelmon. Chega mesmo a acusá-los de terem falhado – tal como Hackmon fizera com Daigo – e mesmo a ameaçar matá-los também.

 

Tal como já acontecera com o envio de Jesmon, hostilizar os Escolhidos tem o efeito contrário ao desejado. Só torna os miúdos mais casmurros, mais empenhados em proteger Raguelmon – que, ainda por cima, poucos minutos, protegera Meiko. Os miúdos interpretam-no como um sinal de que o laço entre o Digimon e Meiko ainda não despareceu e nem querem ouvir falar em matar Meicoomon.

 

Daigo é dos que mais protesta. Tanto por raiva pelo que aconteceu com Maki como por genuína afeição aos miúdos, tal como vimos antes. Chega mesmo a gritar:

 

– Estas crianças não são teus peões!

 

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Os maiores protestos, contudo, partem de Kari, que se rebela contra a possessão da Homeostase. Da primeira vez que vi esta cena, cheguei a festejar, como um golo num jogo de futebol. Já estava na altura de Kari deixar de aceitar, passivamente, o papel de marioneta de entidades sobrenaturais. Esperámos anos pelo momento em que Kari se defendesse a si mesma, quer da Homeostase quer da Escuridão, sem ser amparada por outros. Eu, pelo menos. Como se diz em inglês, you go, girl!

 

O reverso da medalha, no entanto, virá mais tarde.

 

Numa coisa a Homeostase tem razão, no entanto: as emoções estão a toldar a visão dos Escolhidos. E nem sequer se pode dizer que a Homeostase esteja errada. Pelo contrário, ela está a dar prioridade ao bem coletivo – e, sejamos honestos, este nunca teve mais ameaçado. Mas ainda faltava até os miúdos estarem em condições de enfrentarem a verdade.

 

Por sinal, a pessoa que, em teoria, tinha mais motivos para protestar mantém-se alheada do conflito. Tomem nota, que isto é importante.

 

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Para já, a revolta dos miúdos catalisa o regresso do Omegamon – nesta fase, já tinham surgido todas as formas Extremas disponíveis. A luta muda-se para o Mundo Digimon (aparentemente) via distorções.

 

É também nesta altura que Alphamon decide juntar-se à festa – porque a situação não estava preta que chegue. Ao que que parece, este está do lado de Yggdrasil e luta com Jesmon para impedir que este mate Raguelmon.

 

Não dá para ter certezas absolutas, no entanto. É um dos problemas de Tri: continua a haver muito por explicar. Há coisas que nós, na audiência, assumimos como certas, mas que os filmes não confirmam preto no branco. Mas isso é conversa para as alegações finais.

 

Para já, dizer apenas que Alphamon consegue, com um só golpe, reduzir os Digimon (tirando Omegamon) dos miúdos às formas Bebés. O que, sinceramente, é uma desilusão. Estivemos anos e anos à espera destas formas Extremas e estas não se aguentam perante um dos primeiros adversários a sério que encontram?

 

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Acho, no entanto, que isto se deveu a motivos de enredo, mais do que a verdadeira inaptidão dos Digimon. Não me admirava se, no próximo filme, eles fizessem melhor figura.

 

Hoje ficamos por aqui – agora que começa a custar escrever sobre Kyousei. Acho melhor tirarmos uma publicação para falar sobre os eventos da reta final do filme e as suas consequências. Continuamos amanhã. 

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