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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Digimon Adventure Tri – Bokura No Mirai #3

Terceira parte da análise a Bokura No Mirai. Podem ler as partes anteriores aqui e aqui.

 

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Tri não tem um epílogo à 02, mas dá um salto de alguns meses no tempo, até ao Natal. Meiko regressara a Tottori no fim do verão – viveu em Odaiba durante o quê? Dois meses? Mas compreende-se: demasiadas recordações dolorosas.

 

Fica um enigma por esclarecer: porque é que Meiko e a família vieram viver para Odaiba. A mim, ninguém me convence que não foi sugestão de Maki, para soltar Meicoomon numa área densamente povoada e colocar a Operação Reinício em marcha.

 

E por falar em Maki…

 

A agente não chega a aparecer em Bokura No Mirai. A última vez que a vimos foi em Kyousei, no fundo do Mar Negro. Terá morrido? Se morreu… bem, a sua história é deveras deprimente. Antes de Mirai, eu calculava que um dos dois – Daigo ou Maki – morreria e o outro sobreviveria. Afinal, parece que ambos faleceram…

 

…ou não? Terá Maki sobrevivido? Não é impossível… Ter-se-á tornado consorte dos Divermon, como queriam que Kari se tornasse, em 02? (*arrepios*) Regressará numa possível terceira sequela de Adventure? Se o novo vilão for Daemon, que supostamente está preso no Mar Negro desde o final de 02… seria interessante.

 

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Por outro lado, se todos os Digimon recuperaram as recordações pré-Reinício, isso significa que Bakumon lembra-se de Maki… Eish!

 

Mas regressemos ao final de Mirai. Através de um e-mail que T.K. envia a Meiko, algumas pontas são atadas. Os miúdos de 02 terão recebido alta do hospital – mas não sabemos ao certo como é que deram de caras com o plano de Yggdrasil ou, sequer, como estarão em termos psicológicos, depois de terem passado semanas aprisionados.  

 

Entretanto, no Mundo Digital, a Homeostase declarou um embargo a Yggdrasil e… é suposto sentirmo-nos descansados? Com o Dark Gennai ainda à solta, com o Alphamon ainda à solta – que nunca mais foi visto desde o ataque de Jesmon que atirou Tai e Daigo para o abismo – sabendo, agora, que a Homeostase nem sempre toma as decisões mais adequadas?

 

Não me convencem.

 

Por sua vez, no Mundo Real, a opinião pública continua desfavorável aos Digimon. Compreende-se. Tanto as autoridades como os próprios Escolhidos tornaram-se melhores, ao longo de Tri, a controlar os danos provocados pelos Digimon. Mas eles continuam a existir. Talvez muitos civis não tenham dado pela diferença.

 

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Um aparte rápido para comentar em algo que reparei há pouco tempo: a premissa inicial de Tri é muito parecida com a dos filmes d’Os Incríveis. Um elenco com vidas duplas, que fazem trabalho de heróis, mas que o público não compreende e acaba por vilanizá-los. Um protagonista que sente dificuldades em adaptar-se à vida como cidadão normal, que sente saudades do passado.

 

Tri e Os Incríveis trabalham as premissas de maneira diferente, claro. Mas Mirai dá a entender que o próximo passo de Tai será semelhante às ações da Mulher-Elástica, n’Os Incríveis 2: tornar-se um representante desses heróis incompreendidos.

 

Sora refere mesmo que Tai tomou a decisão inspirado pelas palavras de despedida de Daigo: sonha alto, constrói o futuro que desejas. Essencialmente, se não estás satisfeito com o futuro que o mundo escolheu, muda-lo tu mesmo – tal como Emma Swan disse certa vez.

 

Tem uma certa piada que a resposta de Matt a isto seja seguir a carreira espacial – só mesmo para não ficar atrás de Tai. Tem piada… mas não chega para dar credibilidade à carreira dele, na minha opinião.

 

Regressando a Tai e a Daigo, pergunto-me se a carreira dele será o único efeito da morte do segundo. Eu, se estivesse no lugar de Tai, tentaria descobrir o mais possível sobre Daigo. Procuraria a família dele, as outras Primeiras Crianças Escolhidas. E, sobretudo, tentaria descobrir o que aconteceu a Maki.

 

É possível que, por alturas do e-mail de T.K., não tenham descoberto o paradeiro da agente. Se tivessem, T.K. escreveria sobre isso no e-mail – até porque Meiko conhecia-a antes.

 

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Consta que Izzy anda a pesquisar uma maneira de aceder ao Mundo Digimon sem a ajuda dos D3. T.K. termina o e-mail dizendo que espera que, um dia, Meiko regresse com eles ao Mundo Digital…

 

…mas porque faria Meiko isso? A sua breve passagem pelo Mundo Digimon só lhe trouxe más experiências. Foi torturada pelo Dark Gennai. Dois amigos caíram no abismo por sua causa e um deles não sobreviveu. Agora nem sequer tem Meicoomon – enquanto os outros Escolhidos puderam conservar os seus companheiros Digimon, saudáveis e com as memórias intactas e tudo.

 

Tai e os outros são miúdos impecáveis, ninguém coloca isso em causa – a maneira como receberam Meiko foi exemplar. Mas, se eu estivesse no lugar de Meiko, não quereria conviver muito com eles – seria demasiado doloroso.

 

É por essas e por outras que não acredito que Meiko regresse numa eventual nova sequela de Adventure. A história dela está terminada – é a única em Tri que não deixou pontas soltas. Só se eventualmente lhe derem um segundo companheiro Digimon – o que acho pouco provável.

 

Ainda assim, os Escolhidos fazem questão de telefonar a Meiko, na véspera de Natal – na última cena de Bokura No Mirai.

 

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Gostei que tivessem escolhido essa época para terminar Tri. Remete para uma das minhas partes preferidas de 02: os episódios natalícios. E, claro, por muitas reservas que tenha em relação a esta quadra, é uma ótima altura para renovar votos de lealdade.

 

É o que Tai faz, na chamada que efetua em nome de todo o grupo – embora a maneira como Matt, Sora e os outros olham para ele dê a entender que Tai quer dizer outra coisa.

 

Seria engraçado, admito, mas não acho que resultasse a longo prazo.

 

De qualquer forma, quando Tai tropeça nas palavras, Agumon está lá para completar a frase. Porque Tai pode ser muito corajoso e amadurecido imenso ao longo de Tri, mas continua a ter dezassete anos.

 

Mirai termina com uma versão fantástica de Butter-fly, cantada não só pelo falecido Wada Kouji, mas também pelas vozes dos Escolhidos. Eu confesso, no entanto, que teria tido mais impacto se não tivéssemos ouvido já três versões diferentes da música nos últimos vinte minutos do filme: a versão normal quando Tai reaparece, uma versão instrumental do tema de Adventure original, quando Kari desbloqueia Magnadramon, e uma versão suave, agridoce, que começa durante a morte de Meicoomon e se prolonga quase até ao fim de Mirai.

 

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Não me interpretem mal, todas estas versões são fabulosas, à sua maneira. A versão agridoce leva-me lágrimas aos olhos. A minha preferida, no entanto, é a versão com o elenco todo – a única coisa que faltou no encontro do Odaiba Memorial Day deste ano foi um karaoke a várias vozes de Butter-fly. No entanto, as quatro versões surgem demasiado de seguida, acabando por se anularem umas às outras, um bocadinho.

 

Eu suspeito que, após a morte de Wada Kouji, os produtores se tenham afeiçoado a Butter-fly. Não vou dizer que não compreendo, ou que não fizesse o mesmo se estivesse no lugar deles. Mas com estes exageros acabam por fazer o oposto daquilo que, por certo, pretendiam.

 

Em contrapartida, Brave Heart acabou por ser negligenciada, relegada para os combates fúteis com Ordinemon – quando podia e devia ter sido tocada durante o momento da digievolução de Magnadramon. Eu gosto de Butter-fly, tenho vindo a gostar cada vez mais, mas Brave Heart será sempre a música de Digimon para mim. Ela merecia mais amor da parte de Tri.

 

Confesso que, depois dos créditos terminarem, no momento em que surge o logótipo de Digimon Adventure Tri, senti um baque e precisei de um momento (e de uns goles de Somersby). Parecendo que não, foram dois anos e meio da minha vida acompanhando esta história.

 

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Já aí vamos.

 

Tal como comentámos antes, Mirai dedica mais tempo a cenas de ação e não tanto ao desenvolvimento de personagens e, na minha opinião, sai prejudicado. Eu, por exemplo, queria ter visto mais manifestações de luto por Tai – sobretudo no que diz respeito a Kari. Esperava ver mais Escolhidos tentando consolá-la, não apenas T.K. – talvez dizendo-lhe que não era a primeira vez que Tai desaparecia assim, que ele poderia estar vivo.

 

Queria, sobretudo, ver interações entre ela e Matt – as duas pessoas que mais estavam a sofrer com a perda. Talvez referissem o episódio 36 de Adventure, em que Tai pedira a Matt que tomasse conta da irmã na sua ausência – e em que Matt acabara por fazer a menina chorar e não consegue impedi-la de entregar-se a Myotismon.

 

Esperava um bocadinho mais de desenvolvimento de Kari, aliás. Este existiu, não me interpretem mal, e foi mais do que tínhamos recebido até ao momento – tivemos de esperar temporada e meia e cinco filmes. Mesmo assim, soube-me a pouco. Pareceu-me mais um ponto de viragem, não uma conclusão.

 

Pode ser que o seja. Pode ser que haja mais, num projeto futuro. Eu pelo menos gostava de ver como será a relação dela com o irmão, depois de Tri.

 

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Assim, a minha opinião sobre Bokura No Mirai é mista: nem muito boa, mas não assim tão má. Assim assim. Sendo este o último filme de Tri, já posso dar a minha classificação final. Kokuhaku é um primeiro lugar claríssimo, não me canso de elogiá-lo. SaikaiKyousei estão empatados no segundo lugar: são filmes muito diferentes, difíceis de comparar, ambos bons mas não tanto como Kokuhaku. Bokura No Mirai fica a seguir, no meio da tabela.

 

Por outro lado, Ketsui tem vindo a subir na minha consideração. Compreendo agora que Mimi dificilmente teria um papel de relevo em Tri. Sendo ela brutalmente honesta com toda a gente, incluindo ela mesma, era incompatível com um enredo em que metade do conflito parte de personagens mordendo línguas e guardando segredos. Daí relegarem-na para um conflito escolar.

 

Além disso, ainda que Ketsui não avance muito na história, em retrospetiva, dá para ver indícios de aspetos que serão importantes mais à frente. Como o facto de Daigo se rever nos Escolhidos mais novos e de Maki revelar ter sentido dificuldades em crescer.

 

Soshitsu é mesmo o pior de todos, na minha opinião. Mais do que qualquer outro filme de Tri, este parece ter sido feito em cima do joelho. Sobretudo a parte final.

 

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E assim terminou Tri, pouco menos de quatro anos após os primeiros anúncios. Está longe de ser perfeita, claro, mas, ao contrário do que alguns fãs parecem recordar-se, não é pior que Adventure E é definitivamente melhor que 02. Talvez até possa ser melhor que Adventure, em certos aspetos – mas tenho de revê-la um dia destes, antes de formar uma opinião sobre isso.

 

Tri não se limita a ser um produto movido a fan service e nostalgia – pelo contrário, acaba por desconstruir esses conceitos, mostrando o lado mais sombrio de ser uma Criança Escolhida. Com personagens como Daigo, Maki e Meiko, que não colheram os mesmos benefícios que os oito de Adventure receberam. Mostrando que a Homeostase está longe de ser perfeita. E que os próprios Escolhidos podem fazer mais mal que bem e têm de tomar decisões difíceis.

 

Tri foi, sobretudo, a história de Meiko e Meicoomon, para o melhor e para o pior. Tudo começou porque elas vieram viver para Odaiba, tudo terminou quando a segunda morreu. Muitos fãs alegam que não era necessário ter acrescentando mais uma Criança Escolhida (sobretudo quando os miúdos de 02 foram excluídos da narrativa), mas eu discordo.

 

Se Meicoomon não tivesse um companheiro humano, pouco mais seria que um dos vilões da semana de Adventure ou 02 – Tri acabaria ao fim de dois filmes, no máximo. Talvez um ou outro Escolhido sentisse alguns escrúpulos em matá-la, mas acabariam por fazê-lo antes que causasse demasiados danos. Mas, como era o Digimon de Meiko, acolheram-na entre eles e, quando deram por ela, Meicoomon tinha matado Leomon, infetado os companheiros Digimon, precipitado o Reinício. E, como era o Digimon de Meiko, demoraram quatro filmes a matá-la.

 

Concordo que Meiko, enquanto personagem, nem sempre foi fácil de aturar. Mas, para ser sincera, se estivesse no lugar dela, teria cometido os mesmos erros. E provavelmente também passaria a vida a chorar.

 

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A situação de Meiko serviu, também, para desenvolver os Escolhidos de maneiras que, sem Meiko ou Meicoomon, se calhar não teriam sido possíveis – quer como reação aos acontecimentos, quer fazendo paralelismos. Como T.K., em Kokuhaku, e Sora, em Soshitsu.

 

Nesse aspeto, Tri partilha um ponto forte com Adventure: o foco nas personagens. Também partilha a desigualdade nos tempos de antena: Tai é mais desenvolvido do que qualquer um, tirando Meiko, Sora volta a ser das menos desenvolvidas, seguida de Mimi e Joe.

 

Tri, mesmo assim, saiu-se um bocadinho melhor que Adventure, pois cada Escolhido tem pelo menos um filme dedicado a si. A única exceção será Matt, até certo ponto, mas uma boa parte do seu desenvolvimento esteve interligado com o de Tai. Logo, aceita-se.

 

Se a questão de Meicoomon ficou resolvida, como vimos antes, o mesmo não se pode dizer da mão por detrás de Meicoomon: Yggdrasil. Este é, sem dúvida, o maior ponto fraco de Tri – sim, ainda mais que a questão dos miúdos de 02 que, mal por mal, não ficou por responder.

 

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Referi em análises anteriores que a motivação de Yggdrasil – um poder dentro do Mundo Digimon que não queria contacto com humanos – tinha imenso potencial. Tri, no entanto, não correspondeu. Sabemos tanto sobre Yggdrasil quanto sabíamos quando ele foi introduzido na história, em Soshitsu.

 

Fica a ideia que Yggdrasil foi enfiado a martelo em Tri, quando os digi-guionistas precisaram que um vilão por detrás das ações de Maki.

 

Além disso, conforme comentei antes, os discípulos de Yggdrasil – o Dark Gennai e o Alphamon – andam por aí à solta, sem castigo. Parece-me mais que os Escolhidos ganharam uma batalha, não a guerra.

 

E se uma batalha já teve estas consequências – um Reinício, duas antigas Crianças Escolhidas mortas, uma companheira Digimon eutanasiada – o que acontecerá a seguir?

 

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O que nos leva ao novo projeto de Adventure. O primeiro anúncio saiu poucas horas antes da estreia de Bokura No Mirai – se bem me recordo, era apenas um tweet dizendo algo como “A aventura digievoluirá de novo”. Talvez nem déssemos importância se Mirai não estivesse, conforme vimos, cheio de sequel baits.

 

Na verdade, depois dessa, não saiu mais nenhuma informação até há poucos dias, no Digimon Thanksgiving Festival 2018 – e mesmo assim foi muito pouco e existem versões diferentes pelas internetes fora. Aquilo que parece ser certo é que será um projeto cinemático, outra vez, que será mais uma sequela a Adventure e que decorrerá quando Tai e Matt tiverem vinte e dois anos – este tweet refere mesmo que estarão no quarto ano da faculdade. Os desenhadores serão diferentes dos de Tri, como podemos ver na imagem acima (que é apenas um esboço).

 

Admito que já tinha tentado imaginar os Escolhidos como jovens adultos, logo, esta premissa agrada-me, para já. No entanto, temos todos uma infinidade de perguntas sobre isto – o António fez um belo apanhado com a imagem abaixo. Eu suspeito que este projeto ainda deve demorar pelo menos um ano até ser lançado. Haverá muito tempo para especular.

 

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Uma coisa é certa: quando voltar a escrever sobre o universo de Adventure – quer sobre este novo projeto, quer uma retrospetiva sobre Adventure, 02 ou Tri – vou usar os nomes japoneses. Ao fim de três anos vendo Digimon quase sempre em japonês, tirando 02, já não me faz sentido usar os nomes americanizados. Não quando nomes como Taichi, Yamato, Hikari e Takeru são bem mais bonitos e adequados às personagens.

 

Só não comecei a usá-los mais cedo aqui no blogue por uma questão de consistência. Seria estranho ter uma parte das análises a Tri com os nomes americanizados (e foi há mais ou menos um ano que comecei a cansar-me deles) e outra com os nomes originais. Mas, agora que acabámos com Tri, isso muda.

 

Ao fim e ao cabo, é um ciclo que se encerra aqui no blogue – um ciclo que começou há precisamente três anos, no Odaiba Memorial Day de 2015, com o meu primeiro texto sobre Adventure. Só regressei a Digimon após dez anos de ausência, só comecei a escrever sobre Adventure porque descobri acerca de Tri.

 

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E a melhor parte, de longe? Esse regresso, a minha escrita, permitiram-me conhecer vários outros fãs, em Portugal e não só, online e, também, em carne e osso. Destaco, obviamente, os dois encontros do Odaiba Memorial Day Portugal a que fui, o último dos quais no fim-de-semana passado.

 

Ao contrário do que aconteceu há dois anos, desta feita, cheguei cedo e fiquei até bem depois do fim oficial. Diverti-me imenso, como não me acontecia há semanas, se não forem meses. Entre outras coisas, joguei um bocadinho de Digimon Rumble Arena 2 (mais de uma década, à vontade, desde a última vez que toquei numa PlayStation; as vezes anteriores contam-se pelos dedos de uma mão), participei nos quizes (onde não me saí mal para alguém que só conhece de passagem o universo de Adventure), competi no karaoke (não me saí por aí além mas, em minha defesa, o I Wish é difícil de cantar!).

 

Uma das minhas partes preferidas foi quando cantámos Brave Heart, alternadamente – como o elenco de Tri fez com Butter-fly, para os créditos do último filme. Eu, aliás, tinha esperança que recriássemos essa versão, mas foi melhor assim pois, como referi acima, Brave Heart é a minha música preferida de Digimon. Estou à espera do vídeo dessa performance.

 

Outro momento giro foi este:

 

 

 

Mais do que tudo, gostei de estar com outros fãs, de reencontrar o António, o Daniel e todos os outros, do convívio que se prolongou até por volta da meia-noite. Como disse acima, foi dos melhores dias que tive ultimamente. Isto… isto foi o melhor que Digimon me deu!

 

Por isso e por me ter dado tanto sobre que escrever aqui no blogue, quer sobre o bom quer sobre o mau, estarei sempre grata a Digimon e a Tri. Vou ter imensas saudades de escrever sobre estes filmes – este último deu-me um gozo especial, depois de várias semanas a braços com textos bem mais difíceis de escrever (os de Pokémon através das gerações) e sobre assuntos deveras frustrantes (o desempenho fraquinho da Seleção Portuguesa no Mundial 2018, para o meu outro blogue).

 

Em todo o caso, não ficamos por aqui em termos de Digimon, neste blogue. Como já dei a entender acima, hei de escrever sobre o novo projeto de Adventure, quando este sair. Além disso, quero começar a ver Tamers e, eventualmente, analisar aqui no blogue (acho que não é a primeira vez que falo disso aqui…). Agora que redescobri esta franquia, tão cedo não quero sair.

 

Antes de terminar, uma palavra para as oito Crianças Escolhidas de Adventure. Nestes últimos anos, apercebi-me que, em toda a ficção, não existem um elenco que eu adore mais do que estes miúdos (só mesmo as minha próprias personagens, e mesmo assim). Mais nenhum elenco alguma vez mexeu comigo desta forma, derreteu-me o coração, afligiu-me, me deu vontade, ao mesmo tempo, de gritar-lhes e de abraçá-los e protegê-los.

 

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Estes miúdos, estes Escolhidos, que cresceram comigo (mesmo que apenas no meu subconsciente) são a melhor parte deste Universo, são o motivo pelo qual adoro Tri, tal como adorei Adventure e 02. Devemos voltar a vê-los, mais cedo ou mais tarde, mas, caso isso não aconteça, foi um prazer e um orgulho.

 

Bem, penso que é tudo o que tenho a dizer sobre Tri, por enquanto – e não foi pouco. Fica só uma última palavra…

 

Dandan.

Digimon Adventure Tri – Bokura No Mirai #2

Segunda parte da análise a Bokura No Mirai. Podem ler a primeira parte aqui

 

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É nesta altura que Mirai revela finalmente o que aconteceu a Tai e a Daigo. Começamos por ver o primeiro recuperando a consciência, um pouco dorido mas, ao que parece, sem ferimentos. O homem mais velho, no entanto, aparece perante nós numa poça do seu próprio sangue.

 

Nem as Bestas Sagradas devem saber como é que os dois tiveram destinos tão diferentes. Ainda se aceitava se Mirai desse uma explicação, por fraquinha que fosse – não me chocava se, por exemplo, de alguma forma, Daigo tivesse protegido Tai do impacto. Mas assim, a seco, fica a ideia que Tai só se safou sem mazelas porque é o protagonista e tal.

 

E não havia necessidade – já ajudava se o jovem aparecesse com uns cortes na cara e talvez um pulso partido para a coisa se tornar mais credível.

 

De alguma forma, ao caírem no abismo, Tai e Daigo foram parar a uma espécie de laboratório tecnológico subterrâneo. Não se percebe se caíram diretamente para lá ou se alguém os transportou. De qualquer forma, quando as luzes se acendem e Tai olha através do vidro, vislumbramos cinco incubadoras, cada uma com uma silhueta familiar…

 

…e, quando os reconheci, festejei como um golo, com murros no ar e penso ter ouvido a audiência a explodir.

 

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Depois de consultar os computadores, Daigo informa que Davis, Yolei, KenCody e… o verdadeiro Gennai, aparentemente (embora eu, de início, tenha pensado que era Ryo, aquele miúdo que teria estado com Ken nas primeiras vezes que este foi ao Mundo Digimon), estão apenas em coma. O homem mais velho revela que, na verdade, há muito que sabia que os miúdos de 02 estavam desaparecidos. Pelos vistos, estes tinham sido feitos prisioneiros depois de descobrirem acerca dos planos de Yggdrasil.

 

Como víramos em Kokuhaku, Maki instruíra Daigo para guardar segredo acerca do desaparecimento dos miúdos. E tendo em conta que, em Kokuhaku, apareceu na posse do D3 e D-terminal de Ken, é possível que, se não tiver tido acesso direto a eles, pelo menos sempre soube onde estavam.

 

Acho que isto confirma, mais ou menos, a teoria que formulei após Saikai: Davis, Yolei, Cody e Ken terão ido ao Mundo Digimon tratar daquilo que pensavam ser um distúrbio menor. Nem sequer avisaram Kari nem T.K. De alguma forma, descobriram acerca da conspiração de Yggdrasil e não conseguiram pedir ajuda – como vimos em Soshitsu, os D-terminais não estavam a funcionar. Acabaram derrotados por Alphamon e aprisionados pelo Dark Gennai.

 

Não deixa de ter uma data de buracos. Continuo a achar que os Escolhidos mais velhos deviam ter detetado o desaparecimento de Davis e  dos outros mais cedo e feito mais perguntas a Maki e a Daigo. Temos ainda a questão das famílias: que ameaças lhes terá feito Maki para manter os pais dos miúdos calados?

 

E o que terá acontecido ao V-mon, ao Wormmon e aos outros companheiros Digimon de 02?

 

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No entanto, nesta altura do campeonato, depois de cinco filmes lidando pessimamente com a questão (quando lidavam), as minhas expectativas eram nulas. Eu receava que arrumassem a questão com duas linhas de diálogo. Por esse prisma, a maneira como encerraram esta parte da história até é aceitável.

 

Por muito que alguns de nós o desejassem (desejavam mesmo, no entanto?), Tri era a história dos oito Escolhidos originais. Não era a história dos miúdos de 02. E, no entanto, acabaram por ter um papel no enredo, por pequeno que tenha sido.

 

Dito isto, espero que um dia destes nos deem mais pormenores da aventura dos miúdos que acabou com eles aprisionados – nem que seja num CD drama ou algo do género. Também quero descobrir como é que os miúdos de 02 lidaram com o pós-Tri, mas isso é conversa para mais à frente.

 

Por outro lado, conforme referi acima, parece que o Gennai também esteve preso com os outros miúdos. Ou seja, o Dark Gennai não era o verdadeiro Gennai… o que é um alívio, sinceramente. Vou continuar a chamar-lhe Dark Gennai, no entanto.

 

Daigo explica rapidamente a Tai o papel de Maki no Reinício, acabando por fazer um mea culpa pelas ações dela. Eu não sei, no entanto, até que ponto podemos responsabilizá-lo. Como vimos aquando de Soshitsu, Maki não é Oikawa, ela sabia perfeitamente o que estava a fazer. Daigo tentara ajudá-la a lidar com a dor. Ele não tem culpa que Maki tenha mentido e afastado-se dele.

 

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O agente, no entanto, devia ter sido sincero com os Escolhidos em relação a Meicoomon e, sobretudo, em relação ao os miúdos de 02. Com a vida de crianças não se brinca.

 

Mas também Daigo está longe de ter sido a única personagem a esconder coisas e a cometer erros em Tri.

 

Havemos de falar melhor sobre Maki mais à frente. Daigo acaba por dar um conselho importante a Tai, quase sem dar por isso: “independentemente do quão difícil é, às vezes tens de tomar uma decisão. Mesmo que vá contra um amigo.”

 

Ou uma irmã, digo eu. Mas não nos adiantemos.

 

É nesse momento que aparece o Dark Gennai, rindo-se na cara dos seus prisioneiros (daqueles que estão conscientes, pelo menos). Este desliga os suportes de vida dos miúdos de 02, dizendo a Tai e a Daigo que podem enviá-los para o Mundo Real… mas o laboratório explodirá quando o fizerem. Existe uma sexta cápsula onde poderão entrar e partir também para o Mundo Real… mas só lá cabe uma pessoa.

 

Para alguém que passou cinco filmes e meio sem sequer pensar nos miúdos de 02, Tai fica genuinamente em pânico e procura desesperadamente uma maneira de reativar as incubadoras e de salvar toda a gente. O Izzy, se calhar, teria sido capaz de fazê-lo, se tivesse sido ele a cair no abismo, com Daigo.

 

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Mas, por outro lado, talvez tivesse sido demasiado esperto para cair na “armadilha” de Daigo. Sendo Tai, o homem mais velho diz-lhe para investigar a cápsula vazia, a ver se existe maneira de contactar o Mundo Real através dela – o que até nem era um mau plano, se os miúdos de 02 não estivessem a morrer.

 

Assim, Daigo encerra Tai na cápsula e ativa o lançamento.

 

A despedida de Daigo é, sem sombra de dúvida, o meu momento preferido em todo o filme – lindo e de partir o coração ao mesmo tempo. A música ajuda é certo, mas eu tenho de incluir o último discurso de Daigo na íntegra, porque é demasiado… “Eu não desisti. Vocês ensinaram-me que existe sempre algo que eu posso fazer até ao fim. O futuro continuará e ligar-se-á. Eu deixo-a a vocês. A nossa… a nossa esperança… de crescidos.” “Ouve, Yagami. Não importa quão difícil seja a realidade, não desistas nunca! Vai e construam o futuro. Sonha… alto!”

 

Adeus Nishijima-sensei, inesperado herói de Tri, que se tornou a minha personagem preferida – entre as novas apresentadas em Tri, pelo menos. Conforme comentei antes, tirando o pai de Meiko e mesmo os outros familiares dos miúdos (que, de resto, tiveram um papel mais secundário), Daigo foi o único verdadeiro aliado dos Escolhidos. O único que não tentou usá-los como peões, o único que zelo, não apenas pela vida deles, também pelo seu bem-estar, mesmo pela sua felicidade.

 

Isto apesar de ter sido bastante maltratado pelo universo de Adventure. Foi uma Criança Escolhida, mas o seu papel na vitória final frente aos Mestres das Trevas foi insignificante. Huckmon deu mesmo a entender que a Homeostase considera as Primeiras Crianças Escolhidas como um fracasso. Maki usou-o, como vimos antes. A agência para quem trabalhava virou-lhe costas. Agora, o Dark Gennai troçava abertamente dele.

 

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E, mesmo assim, Daigo não se resignou ao desprezo e ao ostracismo. Pelo contrário, lutou pelos Escolhidos mais novos até ao seu último suspiro. Deixou o seu contributo na luta contra Yggdrasil – maior do que, se calhar, o próprio Daigo pensava – e morreu como um herói.

 

Eu confesso que, há um ano ou dois, nunca imaginaria que a história dele terminaria assim. Não depois de ter passado a primeira metade de Tri na sombra de Maki.

 

Confesso que pensei muito no Daigo durante o resgate da equipa de futebol juvenil, que ficou presa numa gruta na Tailândia. Vi várias semelhanças entre Daigo e o treinador que velou pelas crianças, que sacrificou o seu bem-estar pelo delas – que não tinham mais ninguém – tendo sido determinante para que todos sobrevivessem. Um daqueles casos em que a realidade consegue ser ainda melhor que a ficção.

 

Por outro lado, na análise a Kyousei, referi que me identificava com Daigo, com o seu instinto protetor em relação aos miúdos. Seria eu capaz de dar a vida pelos Escolhidos?

 

Claro que sim! Por aqueles miúdos, tudo!

  

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OK, romantismos à parte, acho que nenhuma pessoa decente deixaria um miúdo como Tai morrer no seu lugar – é certo que ele já não é uma criança, mas não deixa de ser um menor. Sobretudo se estivéssemos tão maltratados como Daigo, que se calhar nem sequer sobreviveria à viagem de regresso ao Mundo Real.

 

Eu seria capaz de passar o resto da análise a falar sobre Daigo, mas o filme não termina com ele. Ainda há muito sobre que escrever.

 

Entretanto, no Mundo Real, Kari desperta no quarto de Izzy (?) com desejos suicidas. T.K., à sua cabeceira, passa-se, como seria de esperar. Suplica-lhe que não guarde a dor para si – não vá a Escuridão invadi-la de novo ou, pior, a jovem passar das palavras aos actos.

 

Mirai, no entanto, quase estraga o momento de novo ao pôr Patamon subitamente envergonhado e a tapar os olhos.

 

Eu só dou graças por não terem feito uma dessas depois da cena do sacrifício de Daigo.

 

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Em todo o caso, depois desta, Kari e T.K. vislumbram Ordinemon através da janela. A jovem resolve saltar da cama e ir juntar-se à luta, acompanhada por T.K. Mas antes dão de caras com uma data de Digimon invasores. Este prossegue com os seus jogos psicológicos com os Escolhidos, começando por atirar um Devimon ao MagnaAngemon – uma jogada brilhante de tão baixa.

 

O MagnaAngemon – uma forma Perfeita bastante forte, que, se bem se lembram, derrotou sozinho o Piedmon, um Mestre das Trevas – em teoria, seria mais do que capaz de derrotar Devimon – que é forte para um nível Adulto, mas não deixa de ser um Adulto. No entanto, tendo em conta o seu historial com o Devimon, compreende-se que tenha tido dificuldades. Não tanto por ele mesmo – ele foi Reiniciado, não se deve lembrar de Devimon – talvez por sentir o medo de T.K.

 

Como se não bastasse, o Dark Gennai ainda se vira para Kari e culpa-a  pela “morte” do irmão – consequência de ter rejeitado a Homeostase, segundo ele.

 

Como disse acima, tão baixo que se torna brilhante.

 

Eu, nesta altura, gritava para o monitor:

 

– Defende-te, miúda! Dá-lhe um murro, ou assim! Faz qualquer coisa.

 

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Mas Kari fica calada, deixando o Dark Gennai rir-se na cara dela. Tem de vir T.K. defendê-la.

 

Estão a ver? É por cenas como esta que esta rapariga me irrita, por muito que a adore! É tão passiva, pelas Bestas Sagradas! Quando foi Sora a ser assediada pelo Dark Gennai, ela não deixou de dar luta. O Joe, claro, não esteve com meias medidas e atirou-se mesmo a ele (eu não me canso desse momento…). Até Meiko, que tem ar de mosquinha-morta, tem mais coragem e espírito de luta do que parece.

 

Não vou implicar muito mais com Kari, pois esta toma, mais tarde, aquela que deverá ser a atitude mais corajosa da sua vida. De qualquer forma, as provocações do Dark Gennai fazem-na entrar numa espécie de dimensão telepática, cheia de cubos que, ao que parece, guardam memórias. Aqui, temos um cameo do Wizardmon – é uma pena não termos visto o verdadeiro Wizardmon, ressuscitado pelo Reinício, mas não acho que tenha sido por acaso que o subconsciente de Kari o escolheu como guia.

 

A jovem encontra, então, aquilo que penso ser as consciências de Meicoomon e Gatomon. A primeira chora como uma criança pequena que não percebe o que lhe está a acontecer, que só quer ir para junto da mãe ou figura equivalente. Gatomon confirma que Meicoomon é quem mais está a sofrer. Afirma ainda que “toda a luz está dentro de Meicoomon” – uma frase que já conhecíamos dos primeiros trailers e sinopses de Mirai.

 

Depois de sair daquela espécie de transe, Kari e T.K. telefonam logo a Izzy para lhes contar – este, claro, desvenda logo o mistério. Os três vão ter com os outros Escolhidos (não chegamos a descobrir como acaba o combate do MagnaAngemon com Devimon), numa altura em que estes estão outra vez a apanhar uma tareia da Ordinemon.

 

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Huckmon volta a falar do Reinício, o que tira os miúdos do sério – sobretudo Matt. O jovem está determinado a liderar os Escolhidos para que salvem o mundo à maneira deles, contra tudo e contra todos, o que é muito bonito e inspirador… mas a verdade é que o que estavam a fazer não estava a resultar.

 

Felizmente, Izzy tem uma ideia. Lembram-se do campo de dados que Izzy criou em Kokuhaku, para preservar as memórias dos companheiros Digimon, antes do Reinício? Bem, parece que o plano dele não foi completamente mal-sucedido. De alguma forma, no combate com os outros companheiros Digimon, imediatamente antes do Reinício, o campo de dados ficou incorporado em Meicrackmon. Assim, depois do Reinício, Meicoomon tem guardado em si as memórias, não só dos companheiros Digimon.

 

No meio disto tudo, as boas recordações que Meicoomon guardava de Meiko foram trancadas, daí ela ter-se tornado instável e agressiva, sobretudo quando se sente ameaçada.

 

Se acho isto rebuscado e um bocadinho Deus Ex-Machina? Sim. Se acho isto mais rebuscado e mais Deus Ex-Machina que, por exemplo, os dispositivos digitais terem-se ativado sozinhos para imobilizar VenomMyotismon e para travar a explosão do Apocalymon, em Adventure? Não de todo.

 

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Sempre achei que Izzy podia ter impedido os Digimon de serem Reiniciados se tivesse tido mais tempo. Que, afinal, ele tenha conseguido cumprir uma parte do seu propósito é aceitável, na minha opinião.

 

No que diz respeito às recordações dos companheiros Digimon, pelo menos. Que o campo de dados tenha guardado as memórias de todos os Digimon, no entanto, já me parece demais.

 

Mesmo a parte de Meicoomon possuir as suas boas recordações bloqueadas é um bocadinho confusa. Meicoomon sempre teve um comportamento errático. Mais durante a segunda metade de Tri, é certo, mas não me pareceu que a ligação entre Meiko e Meicoomon tenha chegado a desaparecer. Afinal de contas, Raguelmon protegeu a jovem a certa altura, durante Kyousei – isso seria possível se Meicoomon não recordasse os seus bons momentos com a jovem?

 

Enfim.

 

O plano de Izzy é, então, desbloquear essas memórias – na esperança de que, quando se recordasse de Meiko, Meicoomon estabilizasse, Ordinemon se desfizesse e todos vivessem felizes para sempre. As memórias, no entanto, estão protegidas por palavra-passe – Izzy calcula que essa palavra seja um termo significativo para Meicoomon.

 

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Não se demora muito a descobri-la: “dandan”, um termo do dialeto de Tottori (a terra natal de Meiko), a primeira palavra que ouvimos Meicoomon pronunciar em Tri, a primeira palavra que Meiko lhe ensinou.

 

Isto remete para Aikotoba, a música dos créditos de Kyousei, reutilizada pela Crunchyroll para encerrar os episódios de Bokura No Mirai, tirando o último. O refrão reza algo como “Mesmo que o tempo nos separe, estaremos sempre unidos pelas nossas palavras secretas de amor”. A chave para as memórias dos Digimon estavam debaixo do nosso nariz desde Kyousei.

 

Bem jogado, Tri. Bem jogado.

 

De resto, palavras podem ser, de facto, uma prova de intimidade, de cumplicidade: alcunhas, diminutivos, fala à bebé, piadas privadas, referências. Foi um bom toque aplicá-lo a um laço entre Escolhido e companheiro Digimon.

 

Antes da estreia de Mirai, cheguei a desejar que os comapnheiros Digimon não chegassem a recuperar as memórias pré-Reinício. Na altura, antecipava um final um pouco mais cor-de-rosa para Tri. Se os Digimon permanecessem amnésicos, teriam boas relações com os companheiros à mesma, mas não seria a mesma coisa. Os Escolhidos teriam de viver para sempre com aquela consequência do Reinício – que, por sua vez, resultara dos seus próprios erros. E tornaria as cenas do “último dia no Mundo Real” ainda mais poderosas.

 

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No entanto, Mirai teve um final mais triste do que estava à espera. Assim sendo, reverter os efeitos do Reinício é aceitável.

 

E é uma cena lindíssima, diga-se – começando com a espetacular versão de Shouri Zen No Theme. Só é uma pena que, nas memórias dos Digimon, só tenham usado cenas de Tri – podiam ter recriado uma ou outra cena de Adventure ou 02, tal como fizeram em filmes anteriores.

 

O desbloqueio das recordações faz com que os Digimon regressem às formas Extremas e com que Gatomon desperte e lute para se libertar de Ordinemon. Ao mesmo tempo, ao recuperarem as memórias, os Digimon invasores começam a bater em retirada, regressando ao Mundo Digital.

 

Vendo que a recuperação das memórias está a afetar Ordinemon, que esta está a tentar ganhar controlo sobre si mesma, Huckmon digievolve para Jesmon e liberta Gatomon. Kari dá finalmente uma para a caixa ao mergulhar no rio para salvar a sua companheira. O Reinício é cancelado.

 

Meicoomon, no entanto, continua sob a forma de Ordinemon. Os miúdos não têm nem cinco segundos para respirar – Yggdrasil começa de imediato o vazio deixado por Gatomon.

 

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Perante isto, Meiko, farta de assistir à tortura da sua companheira, entra no rio aos protestos. Acaba por se colocar na rota dos tentáculos, ou lá o que são, de Ordinemon. Da primeira vez, Matt consegue desviá-la. Da segunda (ou terceira?), a jovem tropeça e Agumon tenta protegê-la.

 

É nesse momento que alguém, regressado dos mortos, desvia-os no último segundo.

 

Este miúdo sempre soube como fazer uma entrada.

 

Tal como acontecera quando Tai caíra no abismo, quando este reaparece, os outros Escolhidos demoram um minuto a reagir. O próprio Tai olha para cada um deles, como que certificando-se de que estão todos bem. Ele e Matt olham-se longamente. No fim, o segundo atira-lhe os óculos, resmungando:

 

– Estás atrasado!

 

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Não tens emenda, pois não Ishida?

 

Tai põe os óculos na testa pela primeira vez em Tri, forma-se o Omegamon. Preparavam-se todos para acabar com o problema à moda antiga, de uma vez por todas…

 

…até Kari, de todas as pessoas, meter um travão naquilo.

 

A jovem dirige-se ao irmão, faz-lhe ver que Ordinemon não é um inimigo como todos os outros, é uma companheira Digimon, uma vítima, não merece morrer daquela forma.

 

Não surpreende que seja Kari a lembrar-lhes daquilo. Ela desbloqueou a sua primeira digievolução graças ao sacrifício de Wizardmon. Nos seus primeiros dias no Mundo Digimon, viu imensos aliados morrerem pelas Crianças Escolhidas. Em 02, teve como colegas miúdos particularmente escrupulosos no que tocava a matar Digimon. E, cinco minutos antes, tinha Gatomon presa em Ordinemon.

 

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O que é de surpreender é que, para defender este ponto de vista, Kari tenha enfrentado Tai. Tai, o onii-chan que acabara de recuperar dos mortos. A jovem chega a tocar-lhe no ombro, fazendo-lhe um bocadinho de chantagem emocional.

 

Tai, no entanto, não se deixa manipular. Ele acabara de ver Daigo dando a vida por ele e de enviar os Escolhidos mais novos para o hospital – coisas que aconteceram porque Daigo tivera demasiado medo de ir contra Maki. Toda a situação com Meicoomon só chegara àquela fase, aliás, porque vários deles (começando por Tai, até certo ponto, passando por T.K. e os companheiros Digimon, acabando em Meiko) tiveram demasiado medo de fazer o que era certo. Em parte, porque não queriam magoar aqueles que amavam.

 

Tai não podia deixar o problema de Ordinemon por resolver só para não magoar a irmã, por muito que a amasse.

 

Matt afirma mesmo que eles já não eram os Escolhidos, agora em eles quem Escolhia. Já não eram as crianças que tinham sido atiradas para o Mundo Digital, sem lhes perguntaram se era isso que queriam, para travarem as batalhas que a Homeostase não conseguia travar sozinha. A Homeostase, aliás, andava a dar provas de que, às vezes, toma decisões questionáveis e já nem sequer precisava da ajuda de humanos.

 

Os Escolhidos já tinham ido contra a vontade tanto de Yggdrasil como da Homeostase, queriam afirmar-se como um poder independente – mas, como diria o tio Ben, quanto maior o poder, maior a responsabilidade. Se os Escolhidos não queriam ser peões, tinham de ser líderes e tomar decisões difíceis.

 

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Em sua defesa, Kari reage como uma mulher adulta. Provavelmente nunca perdoará Tai por isto, mas percebe que o irmão não toma esta decisão de ânimo leve. Assim, em vez de lavar as mãos do assunto, a jovem aceita fazer a sua parte – fazendo Gatomon digievoluir para Magnadramon.

 

À semelhança de muitos fãs, eu estava à espera de abraços e lágrimas aquando do reencontro dos irmãos. Nesse aspeto, foi duro ouvi-los falando tão desapaixonadamente um com o outro. No entanto, foi m momento significativo para ambos. Tínhamo-los visto, sobretudo nos dois primeiros filmes de Tri, pisando ovos à volta um do outro, com medo de falarem abertamente. Sempre me pareceu, por exemplo, que o discurso de Kari perante Joe, em Ketsui, era essencialmente aquilo que a jovem queria dizer ao seu onii-chan mas não tinha coragem.

 

É nestas alturas que compreendo Albus Dumbledore, quando dizia que é preciso muito mais coragem para fazer frente a amigos do que a inimigos.

 

Este é um momento de viragem na relação de Tai e Kari, portanto. Será que ela, de facto, guardará ressentimento para sempre por causa disto? Essa possibilidade parte-me o coração um bocadinho. Estou certa, aliás, de que os Escolhidos interrogar-se-ão durante muito tempo, talvez para sempre, se poderiam ter feito as coisas de maneira diferente. Talvez acabem por descobrir que, afinal, até havia uma forma de salvarem Meicoomon.

 

Espero, no entanto, que todos eles, sobretudo Kari, cheguem à conclusão de que tomaram a melhor decisão que podiam naquelas circunstâncias e que se perdoem, tanto uns aos outros, como a si mesmos.

 

Mas estamos a adiantar-nos um bocadinho.

 

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Quando nem mesmo Omegamon, acompanhado pelos seis outros Digimon em nível Extremo, chegam para derrotar Ordinemon, o dispositivo digital de Meiko ativa-se, fazendo com que os outros seis Digimon cedam o seu poder a Omegamon, dando-lhe uma nova forma: Omegamon Merciful Mode. este desenvolvimento não chega a ser explicado, mas eu tenho uma teoria: é uma mensagem de Ordinemon, talvez mesmo da própria Meiko, pedindo-lhes que terminem o seu sofrimento.

 

E é precisamente isso que Omegamon faz: um ato de misericórdia. As reações dos Escolhidos, imediatamente antes do golpe final, são de partir o coração. Vários deles mal conseguem controlar as emoções. T.K. nem sequer consegue olhar. Destaque para o ligeiro toque de Tai na mão de Matt – faz-me lembrar o clímax de Saikai, em que fora Matt a amparar o amigo.

 

É impossível, aliás, não reparar na evolução de Tai desde esse filme. O jovem passara a primeira metade de Tri quase toda sem saber o que fazer. Mas agora era o mais firme e determinado de todos. Agora tomara, finalmente, uma decisão e levá-la-ia até ao fim, doesse a quem doesse.

 

Após o golpe final, Meiko tem uma visão de Meicoomon. Vêmo-la feliz como nunca a tínhamos visto, despedindo-se de Meiko com um último “dandan”. A jovem descontrola-se por um segundo, mas consegue recompôr-se o suficiente para retribuir a despedida. Meicoomon partia, não renasceria porque morrera no Mundo real, mas estava finalmente em paz.

 

Só depois de a sua companheira Digimon se desfazer em partículas digitais é que Meiko deixa as lágrimas escorrer livremente.

 

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Entretanto, no Mundo Real, com a morte de Ordinemon, a Escuridão desvanece do céu, as distorções desaparecem – mas os danos de Ordinemon permanecem nos edifícios e infraestruturas.

 

Na verdade, Mirai não nos dá nem um minuto para respirarmos de alívio por o problema Meicoomon estar, finalmente, resolvido. Somos logo brindados com o irritante evil laugh do Dark Gennai que, de alguma forma, apoderara-se da partícula de Apocalymon – a tal que infetou Meicoomon quando ela ainda estava no Digiovo. Vêmo-lo desaparecendo através de um portal, falando em Daemon ou Diaboromon.

 

Bem, obrigadinho Tri por não teres demorado a informar-nos que tudo isto foi em vão – ou quase! Não dava para guardar o óbvio sequel bait para depois dos créditos, ou assim?

 

Havemos de regressar a isto.

 

Já estamos perto do fim do filme, mas ainda há muito para dizer. Não saiam daí, vou tentar publicar a terceira parte logo à noite. Até lá... 

 

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Digimon Adventure Tri - Kyousei #2

Segunda parte da minha análise a Kyousei. Podem ler a primeira parte aqui.

 

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Como as casas dos miúdos estão cercadas de jornalistas, Daigo leva-os para a escola – vazia em tempo de férias de verão. Aqui, coloca-os ao corrente da destruição provocada por Meicrackmon, bem como da decisão da Homeostase em eliminá-la.

 

Não se percebe se Daigo lhes conta a parte de Meicoomon ter nascido com uma partícula de Apocalymon ou de Meiko ter sido Escolhida para, essencialmente, lhe servir de Alprazolam. É possível que lhe tenha omitido este segundo aspeto porque, pelas Bestas Sagradas, a miúda não precisa de mais sentimentos de culpa por algo que lhe foi imposto aos onze anos.

 

De notar que, quando os miúdos querem partir para a luta, Tai obriga-os a parar e a pensarem antes de agir. Matt pensa logo que Tai está a regressar à apatia dos primeiros filmes de Tri – ou isso ou ele, pura e simplesmente, tem como primeiro instinto partir para a discussão no que toca a Tai (chega a ser caricato, às vezes). Tai diz apenas que eles têm de abordar as coisas com cuidado para evitar danos colaterais desnecessários. Garante, no entanto, que está do lado dos seus Digimon e lutará por eles.

 

Meiko, por sua vez, continua a sentir-se culpada pelo caos que o seu Digimon está a provocar e a questionar o seu propósito como Escolhida. Dá para reparar mesmo que, à medida que o tempo passa, Meiko vai ficando cada vez mais alheada dos outros, mais fechada sobre si mesma.

 

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Os amigos repetem a conversa da gruta, insistem que Meicoomon precisa da sua companheira, que Meiko não pode desistir dela. Nesta fase, isto começa a soar repetitivo, sobretudo quando vemos o filme pela primeira vez. Mas acho que é intencional: para mostrar que os oito veteranos estão agarrados, com unhas e dentes, à fé que os ajudou a sobreviver a seis anos como Escolhidos. Não conseguem, nem por um momento, conceber um cenário diferente. Nem mesmo quando percebem que Meicoomon está a ser manipulada por Yggdrasil e que a posição da Homesostase neste conflito é incerta.

 

Nesse aspeto, a frase dita por Kari mais tarde, um pouco vinda do nada – “Não é possível compreender a gravidade de algo até este acontecer perto de nós” – descreve bem o conflito entre Meiko e os amigos. Pode até mesmo ser aplicável a Tri em geral. Os Escolhidos veteranos não se apercebem que a história deles com os Digimon é diferente da de Meiko. Eles receberam os seus companheiros digitais para os ajudar a resolver um problema, ou vários. Por sua vez, o Digimon de Meiko era o problema que ela tinha de resolver.

 

Também faz parte do crescimento: nem sempre existem soluções ou caminhos universalmente certos.

 

Com o grupo em risco de cair no desânimo, T.K. desafia toda a gente para uma sessão de histórias de terror – mesmo no espírito de uma noite de acampamento ou de uma festa do pijama.

  

 

 

Esta parte é um filler, não há como negá-lo. Ninguém espera ver os heróis em amena cavaqueira em vésperas do Apocalipse. Dito isto, estas cenas proporcionam algum alívio cómico – que também é importante tendo em conta o que aconteceu até agora, no filme, e sobretudo o que acontecerá a seguir. E, sejamos sinceros, é um dos momentos mais engraçados até agora em Tri. Ainda mais que a invasão dos balneários, em Ketsui.

 

Um dos principais motivos para esta cena resultar tão bem é o facto de maior alvo da piada ser o Matt. Personagens que se levam demasiado a sério são ótimos alvos para comédia. Em Adventure, esse papel era desempenhado por Joe. Uma parte da sua evolução como personagem, contudo, consistiu em  aprender a não levar a vida tão a sério.

 

Assim, o alvo das brincadeiras passou a ser Matt – quase sempre de mau humor, que leva tudo a peito, que precisa de doses exatas de pimenta nos seus noodles. É uma delícia vê-lo com medo de histórias de terror (o Matt, de todas as pessoas…) e os amigos a rirem-se dele – em particular o seu irmãozinho. O pormenor de Matt tocando baixo no ar, durante a história, foi bem sacado.

 

Por outro lado, depois de tudo por que os miúdos passaram nos últimos seis anos… como é que algum deles tem medo deste género de histórias? Isto para não dizer que história de terror a sério será o que acontece na manhã seguinte…

 

Mas não nos adiantemos.

 

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Outro momento bonito foi quando os miúdos ligaram aos pais – um toque de realismo que não se prolonga demasiado e até contribui para alguma caracterização. Como Sora e Mimi consolando-se uma à outra e Matt recusando-se a falar com a sua mãe (hum…).

 

A única conversa que ouvirmos é a de Tai com a sua mãe. Já a tínhamos visto antes, no filme, acompanhando a situação através dos noticiários. O seu papel como representante das famílias dos Escolhidos (dos oito veteranos, pelo menos) não terá sido atribuído por acaso. Pelo contrário, parte o coração, tendo em conta o que acontecerá a seguir. Sobretudo quando ela pede a Tai que tome conta da irmã e dos Digimon.

 

Podia escrever um testamento à parte deste sobre as possíveis implicações por detrás deste pedido inocente e a sua influência na relação entre Tai e Kari. Já irei dizer algumas coisas mais à frente e poderei dizer ainda mais, na análise ao próximo filme de Tri. Mas, para já, passemos à frente.

 

Depois dos telefonemas aos pais, Tai encontra Meiko sozinha, no exterior (no pátio da escola?) – outro sinal de que está cada vez menos em sintonia com os outros Escolhidos. Tai ouve-a pensando em voz alta. Quando Meiko dá pela presença dele, os dois conversam.

 

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Sempre gostei de momentos assim em ficção. Duas personagens (interesses românticos ou não) a sós, trocando confidências e/ou tendo conversas profundas debaixo das estrelas, enquanto o resto do elenco dorme. Às vezes com tempo para comentários sobre as constelações ou para a ocasional estrela cadente. Por sinal, em Kyousei, a sequência dos créditos e a música – a lindíssima Aikotoba – captam bem o espírito intimista e pacífico desses momentos.

 

Esta cena encaixa-se bem nesse modelo. Tai ouvira Meiko refletindo sobre a sua relação com Meicoomon, questionando a filosofia com que os amigos andavam a martelá-la. Todos lhe diziam que havia um laço inquebrável, quase sagrado, entre Escolhido e companheiro Digimon. No entanto, tudo o que Meiko fizera de acordo com esse princípio só piorara a situação.

 

Tai tenta consolar Meiko à sua maneira. Reflete sobre as diferenças entre a maneira como uma criança vê as coisas e a maneira como um adulto as vê – um dos temas recorrentes em Tri e com o qual quase toda a audiência se identifica. Afinal de contas, quase todos nós vimos Adventure pela primeira vez quando éramos pequenos – há quase vinte anos, nalguns casos. Nenhum de nós vê o mundo da mesma maneira. Eu não vejo, pelo menos.

 

Tai, no entanto, comente o mesmo erro que ele e os outros veteranos têm cometido neste filme: não consegue ver além dos seus próprios vieses, não percebe que a experiência de Meiko com o cargo de Escolhido é diferente. A jovem começa mesmo a assumir que o Dark Gennai estava a falar dela quando dizia: “Não devias ter nascido” – ao que Tai responde com brusquidão. Arrependido, dá a conversa por terminada – não sem antes dizer a Meiko para não ir por esses caminhos.

 

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Depois disto, ambos ficam a ruminar sobre a conversa – e ambos são ouvidos por Agumon, por sinal. Mais uma vez, a unidimensionalidade do Digimon acaba por resultar bem.

 

Meiko confessa, para a surpresa de absolutamente ninguém, que tem inveja dos outros Escolhidos – cada um com um companheiro Digimon, com todas as vantagens, sem o medo constante que eles de repente se passem e destruam tudo à sua volta. Agumon, por sua vez, diz acreditar que Meicoomon ama a sua companheira humana, tal como qualquer outro companheiro Digimon. Isso sempre consola Meiko um bocadinho.

 

Tai, por sua vez, torna a refletir sobre a sua condição de quase-adulto – em que já não consegue deixar de se preocupar com as coisas, com as consequências das suas palavras e ações.

 

Sinto a tentação de perguntar se Tai deseja mesmo voltar a ser o miúdo impulsivo e irresponsável de Adventure. Eu não quereria. Tenho saudades da minha infância de vez em quando, sim. Isso não significa que queria voltar a ser a pessoa que era na altura – uma miúda mimada, egoísta, ainda mais bicho-do-mato que sou agora.

 

Mas estou a desviar-me.

 

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Agumon, na sua inocência, diz que, tal como ele come quando tem fome, quando Tai se preocupa, deve fazer alguma coisa em relação a isso. Procurar resolver os problemas que o atormentam.

 

A oportunidade para isso surge na manhã seguinte, quando Meicoomon reaparece. Esta parte do filme dá-me um dejá-vu de Kokuhaku: voltámos a passar três episódios (OK, um bocadinho menos) com Meicoomon fugida, causando confusão pelo Mundo Real e os miúdos basicamente à espera que ela regresse, para o confronto.

 

E a verdade é que, em Kokuhaku, essa espera foi melhor. Não que não tenha acontecido nada de interessante até agora – pelo contrário, gastámos cerca de quatro mil palavras a falar sobre isso. Mas nada disto teve um impacto emocional que se compare à infeção de Patamon e os Digimon passando bons momentos com os seus companheiros humanos antes do Reinício.

 

As próprias personagens fazem referências aos eventos de Kokuhaku – nomeadamente quando Izzy impede os Digimon de partirem imediatamente para o combate com Meicrackmon, receando que estes sejam infetados de novo. Os Digimon, no entanto, insistem em lutar e os miúdos aceitam.

 

Por fim, tal como aconteceu em Kokuhaku, este confronto acaba horrivelmente mal. Eu diria mesmo que agora foi pior.

 

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Antes de partirem para a luta, Meiko tenta, pela milionésima vez, apelar a Meicoomon e ao laço que as une – se é que este ainda existe. Chega mesmo a pedir à sua companheira que a castigue por ter falhado enquanto Escolhida.

 

Meicrackmon não reage. Os miúdos não têm escolha senão partirem para o confronto físico. Os Digimon passam logo ao nível Perfeito – desta vez não se perdeu demasiado tempo com sequências de digievolução infinitas. Dividiu-se o ecrã e está a andar. Uma mudança bem-vinda após a confusão que foi o final de Soshitsu.

 

Entretanto, os miúdos e Daigo apercebem-se que o medo sentido por Meicoomon torna-a virulenta e catalisa a distorção. Faz sentido com o que temos visto até agora – nomeadamente o assassinato de Leomon, após se ter recordado dele na forma infetada.

 

Os miúdos não têm tempo para mudar de abordagem – uma vez que este é o momento escolhido por Jesmon para entrar em cena. Ainda não foi confirmado oficialmente, mas é quase certo que este Jesmon é o Huckmon digievoluído, enviado pela Homeostase para eliminar Meicrackmon.

 

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É neste momento que os miúdos sentem na pele a traição da Homeostase. Ela (ela?) usara os miúdos a seu bel-prazer durante seis anos para resolver aquilo que, pelo que se via agora (e, de certa forma, se viu com as Primeiras Crianças Escolhidas), até podia ter resolvido sozinha. Agora que os Escolhidos questionavam os métodos dela, descartava-os. Conforme Tai diz, os Escolhidos já não sabem em quem confiar, já não sabem quem é o verdadeiro inimigo nesta equação.

 

Outro sinal de que o público-alvo de Tri já não é o infantil: o Bem e o Mal não se distinguem facilmente, nenhuma das partes está cem por cento certa. Nem mesmo os Escolhidos.

 

Além de atirar os miúdos aos lobos, a aparição de Jesmon desencadeia a digievolução de Meicrackmon para Raguelmon. Pelas palavras do Dark Gennai, que observa a cena à distância, isto ajuda a causa de Yggdrasil.

 

De facto, se virmos bem as coisas, as ações da Homeostase para resolver o problema Meicoomon só têm piorado uma situação já de si má. Desde a expulsão de Meicoomon para o Mundo Real, passando pelo Reinício, acabando no que acontece a seguir, em Kyousei. E esta ainda tem a lata de culpar os Escolhidos pelo que está a acontecer, conforme veremos já de seguida.

 

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Os miúdos têm uma oportunidade de falar diretamente com a Homeostase quanto esta toma posse de Kari. Através dos lábios da jovem, a Homeostase ordena aos Escolhidos que não interfiram, que deixem Jesmon eliminar Raguelmon. Chega mesmo a acusá-los de terem falhado – tal como Hackmon fizera com Daigo – e mesmo a ameaçar matá-los também.

 

Tal como já acontecera com o envio de Jesmon, hostilizar os Escolhidos tem o efeito contrário ao desejado. Só torna os miúdos mais casmurros, mais empenhados em proteger Raguelmon – que, ainda por cima, poucos minutos, protegera Meiko. Os miúdos interpretam-no como um sinal de que o laço entre o Digimon e Meiko ainda não despareceu e nem querem ouvir falar em matar Meicoomon.

 

Daigo é dos que mais protesta. Tanto por raiva pelo que aconteceu com Maki como por genuína afeição aos miúdos, tal como vimos antes. Chega mesmo a gritar:

 

– Estas crianças não são teus peões!

 

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Os maiores protestos, contudo, partem de Kari, que se rebela contra a possessão da Homeostase. Da primeira vez que vi esta cena, cheguei a festejar, como um golo num jogo de futebol. Já estava na altura de Kari deixar de aceitar, passivamente, o papel de marioneta de entidades sobrenaturais. Esperámos anos pelo momento em que Kari se defendesse a si mesma, quer da Homeostase quer da Escuridão, sem ser amparada por outros. Eu, pelo menos. Como se diz em inglês, you go, girl!

 

O reverso da medalha, no entanto, virá mais tarde.

 

Numa coisa a Homeostase tem razão, no entanto: as emoções estão a toldar a visão dos Escolhidos. E nem sequer se pode dizer que a Homeostase esteja errada. Pelo contrário, ela está a dar prioridade ao bem coletivo – e, sejamos honestos, este nunca teve mais ameaçado. Mas ainda faltava até os miúdos estarem em condições de enfrentarem a verdade.

 

Por sinal, a pessoa que, em teoria, tinha mais motivos para protestar mantém-se alheada do conflito. Tomem nota, que isto é importante.

 

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Para já, a revolta dos miúdos catalisa o regresso do Omegamon – nesta fase, já tinham surgido todas as formas Extremas disponíveis. A luta muda-se para o Mundo Digimon (aparentemente) via distorções.

 

É também nesta altura que Alphamon decide juntar-se à festa – porque a situação não estava preta que chegue. Ao que que parece, este está do lado de Yggdrasil e luta com Jesmon para impedir que este mate Raguelmon.

 

Não dá para ter certezas absolutas, no entanto. É um dos problemas de Tri: continua a haver muito por explicar. Há coisas que nós, na audiência, assumimos como certas, mas que os filmes não confirmam preto no branco. Mas isso é conversa para as alegações finais.

 

Para já, dizer apenas que Alphamon consegue, com um só golpe, reduzir os Digimon (tirando Omegamon) dos miúdos às formas Bebés. O que, sinceramente, é uma desilusão. Estivemos anos e anos à espera destas formas Extremas e estas não se aguentam perante um dos primeiros adversários a sério que encontram?

 

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Acho, no entanto, que isto se deveu a motivos de enredo, mais do que a verdadeira inaptidão dos Digimon. Não me admirava se, no próximo filme, eles fizessem melhor figura.

 

Hoje ficamos por aqui – agora que começa a custar escrever sobre Kyousei. Acho melhor tirarmos uma publicação para falar sobre os eventos da reta final do filme e as suas consequências. Continuamos amanhã. 

Digimon Adventure Tri - Kyousei #1

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Hoje, vamos falar sobre Kyousei, o quinto filme da série Digimon Adventure Tri, que começou fez dois anos no outro dia (custa a acreditar, confesso…).

 

Estamos a um filme da conclusão série e Tri continua consistente na sua inconsistência: os filmes ímpares são bons, os pares nem tanto.  Não acho que nenhum destes filmes seja cem por cento mau – cada um destes filmes tem partes boas, sejam elas momentos de desenvolvimento das personagens, estreias de digievoluções ou, apenas, momentos de humor.

 

Mas há que distinguir os filmes que vão conseguindo entreter-nos, com a ocasional gargalhada e um ou outro momento mais tocante, daqueles que nos deixam emocionalmente arrasados. Aconteceu no ano passado com Kokuhaku. Voltou a acontecer agora, com Kyousei, ainda que de maneira diferente.

 

1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo dos cinco primeiros filmes de Digimon Adventure Tri e, possivelmente, dos enredos de Adventure e 02. Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas – na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Apesar de as legendas do filme usarem os nomes japoneses das Crianças Escolhidas, eu vou usar as versões americanizadas dos nomes, visto que estou mais habituada.

 

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Uma das várias coisas que não funcionaram em Soshitsu foram os Deus Ex-Machinas, as coisas que aconteceram sem motivo aparente. Kyousei supera o filme anterior precisamente por o enredo voltar a ser guiado pelas personagens: os Escolhidos, o governo japonês, Daigo, Yggdrasil através do Dark Gennai, até mesmo a Homeostase. Esta, antes de Tri, era apenas uma figura divina que governava o Mundo Digimon, que só aparecia para debitar informação que deixava a audiência ainda mais confusa. Não deixa de ser uma figura divina em Tri, mas começou a participar ativamente no enredo e, sobretudo neste filme, a entrar em conflito com as outras personagens.

 

Quando é assim – sobretudo quando a maior parte do elenco é tão acarinhada e há tanto tempo – é muito mais fácil deixarmo-nos levar pela história.

 

Não que Kyousei não tenha falhas. À semelhança de alguns dos seus antecessores, o filme torna-se demasiado lento em certas alturas. Existem aspetos que continuam por explicar – nomeadamente o elefante na sala, como se diz em inglês: os miúdos de 02.

 

Mas vamos por partes. Mais uma vez, estiquei-me um bocadinho com esta análise, tive de dividi-la em três partes. Que cara é essa? Não escolhi o nome "Álbum de Testamentos" só por soar fixe...

 

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Antes de começarmos a análise a sério, uma nota: durante meses o título oficial do filme no Crunchyroll foi Symbiosis, ou seja, Simbiose. No entanto, o dia em que o filme saiu, o título passou a ser Coexistence, Coexistência. Fiquei um bocadinho chateada porque Simbiose é um título perfeito para este filme, o melhor título até agora em Tri, na minha opinião. O principal tema do filme, como veremos a seguir, é a relação simbiótica entre um Escolhido e o seu Digimon. Além disso, uma das coisas que permanece sob ameaça ao longo do filme é a simbiose entre o Mundo Real e o Digital – levando a algumas medidas extremas.

 

Por comparação, o termo Coexistência pouco ou nada tem a ver com o filme.

 

Kyousei começa exatamente no ponto em que Soshitsu terminou (muito mal): quando o Dark Gennai (ou Homem Mistério, segundo as informações oficiais) ataca Meiko, de modo a desestabilizar Meicoomon. Vai repetindo várias vezes: “Não devias ter nascido. Não devias ter nascido.”

 

Esta frase será importante mais frente. Para já, somos brindados com um flashback do outono de 1999: ou seja, poucos meses após os eventos de Adventure. Também não parece ser muito depois de Meiko ter “adotado” Meicoomon.

 

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Não aprendemos nada que não tivéssemos suspeitado antes: vemos que Meicoomon, de vez em quando, sofre ataques de fúria destrutiva, um deles no laboratório onde estava a ser estudada. A única coisa que descobrimos é que Maki testemunhou esse ataque, no laboratório.

 

Está é, aliás, uma das únicas aparições de Maki neste filme. Mais vale falar já sobre as outras – que, na verdade, se limitam a dois vislumbres. Se na última vez que a vimos em Soshitsu, depois de reencontrar Bakumon, ela parecia estar à beira de um ataque psicótico, em Kyousei, esse ataque já deve ter ocorrido. Ouvimos Maki chamando por Bakumon (entretanto desaparecido), balbuciando sobre salvarem juntos o Mundo Digimon.

 

Seria esse o plano dela? Colaborar com Yggdrasil até recuperar Bakumon e depois, de novo na condição de Escolhida a sério, salvar o Mundo Digital das garras dele? Em jeito de indireta para a Homeostase, dando-lhe a entender que fizera mal em sacrificar Bakumon e em descartá-la como Criança Escolhida?

 

De referir, também, que Maki, nesta cena, enverga uma das armas anti-Digimon (que tinham aparecido em Ketsui por um instante e esquecidas desde então). Isto apesar de, segundo o que se vê em Kokuhaku e Soshitsu, Maki ter ido de mãos a abanar para o Mundo Digimon.

 

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Como é que Maki arranjou a arma de um filme para o outro? Eu diria que só as Bestas Sagradas o sabem mas, à luz do que aprendemos em Soshitsu, seria de mau gosto.

 

O segundo vislumbre ocorre já perto do fim do filme, que mostra que Maki indo parar ao Mar Negro. Chega a encontrar os Divermon e tudo! Aponta-lhes uma arma (desta vez uma pistola vulgar, que sempre faz mais sentido), mas acaba por se deixar afundar nas águas escuras.

 

Pontos para Kyousei por ter resgatado um dos elementos mais interessantes de 02. Resta saber, agora, como é que Maki se vai escapar das profundezas do Mar Negro – ou melhor se se vai escapar.

 

Regressemos ao início do filme e ao ataque do Dark Gennai a Meiko. Este, ao que parece, consegue o que quer com esta habilidade: quebrar a ligação entre Meiko e Meicoomon. Esta última digievolui para Meicrackmon, entra em modo berserk e as distorções multiplicam-se, inclusivamente para o Mundo Real, que começa a ser invadido por Digimon. Meiko recupera a consciência e, quando chama por Meicrackmon, esta ataca-a. A jovem só sobrevive porque Tai a desvia a tempo. Depois desta, Meicrackmon foge… outra vez.

 

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As consequências, desta feita, são mais graves – agora temos uma invasão em massa de Digimon no Mundo Real, trazendo o caos. Ainda assim, fica a sensação de que o pior ainda está para vir.

 

Um aspeto curioso nesta parte da história é que, pela primeira vez neste universo, os civis identificam estes monstros como Digimon. Não é claro como é que se descobriu a verdade (mais à frente no filme, fala-se de fugas de informação para a Imprensa). Também descobrimos que a Homeostase – provavelmente através de Hackmon – tem andando em contactos com o governo.

 

Suponho que tudo isto seja para abrir caminho para a parte do Epílogo em que “toda a gente tem um Digimon”. Agora que penso nisso, o tema recorrente em Tri, dos danos colaterais dos Digimon no Mundo Real, parece ser uma preparação para esse desfecho.

 

Inteligente como sou, precisei de quase dois anos para me aperceber disso...

 

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Entretanto, Daigo encontra-se com o Professor Mochizuki, o pai de Meiko – ambos, ao que parecem, marginalizados pela organização governamental. Quando Mochizuki explicava a Daigo a experiência da filha como Escolhida, Hackmon junta-se a eles e explica, finalmente, qual é o problema de Meicoomon.

 

Meicoomon nasceu infetada com um fragmento de Apocalymon. Este é responsável pelo seu temperamento instável e poderes destrutivos. Devido à sua instabilidade, Meicoomon foi banida (pela Homeostase? Não é dito preto no branco, mas estão quase todos a assumir que foi ela a tomar a decisão) para o Mundo Real. Arranjaram-lhe, também, uma Criança Escolhida cuja presença e afeição contrabalançasse as tendências destrutivas de Meicoomon.

 

A minha antiga teoria de que Meicoomon teria sido criada de propósito para o Reinício estava errada, portanto. Contudo, esta também é uma boa explicação, consistente com a cronologia do universo Adventure e mostra um lado diferente da Homeostase e mesmo do conceito de Crianças Escolhidas.

 

Tem sido mesmo um dos temas recorrentes em Tri: a desconstrução da dinâmica de escolher crianças para salvar o Mundo Digimon.

 

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Na primeira metade de Tri, essa desconstrução foi protagonizada pelos oito Escolhidos originais. É possível ser-se um Escolhido quando as nossas ações parecem agravar mais o problema? (Saikai) Ou quando os deveres de Escolhido entram em conflito com outras responsabilidades? (Ketsui) E se, de repente, vos dessem a opção de não serem Escolhidos, de fingirem que os últimos seis anos nunca aconteceram? O que fariam? (Kokuhaku)

 

Na segunda metade de Tri, por sua vez, esta desconstrução foca-se em Maki e, sobretudo, em Meiko. Já na análise a Soshitsu tínhamos questionado a ética do conceito habitual de Crianças Escolhidas – sobretudo depois de descobrirmos o que a Homeostase fizera a Maki.

 

Mas aquilo que fez a Meiko? Impôr a uma menina de onze anos uma criatura que, se não for controlada, pode atuar como uma bomba atómica? Não há palavras.

 

Não é de surpreender que Daigo se enfureça, quando Hackmon revela que ele e a Homeostase vão matar Meicoomon, com a colaboração do próprio governo japonês. Daigo vira a sua amiga de infância (e ex-namorada… certo?) perder o seu Digimon às mãos da Homeostase. Acabara de descobrir que essa perda lançara Maki num caminho destrutivo. Afeiçoara-se a Meiko, bem como aos outros miúdos, presenciara as suas batalhas, estivera lá quando o Reinício ocorreu e os Escolhidos perderam os Digimon. Fizera, desde o início de Tri, para proteger os miúdos, bem como Meicoomon. Agora a Homeostase dizia fora tudo em vão, que Meicoomon tinha de morrer?

 

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O facto de Hackmon mandar uma indireta sobre o suposto falhanço da missão das Primeiras Crianças Escolhidas não ajuda – pelo contrário, acentua a frieza da Homeostase, que usa e descarta os seus peões com um desprendimento impressionante.

 

Tudo isto, bem como a perceção de que mais ninguém defenderá os Escolhidos, faz com que Daigo comece a agir por contra própria pela primeira vez em Tri – finalmente! O que faz ele? Veremos adiante…

 

Para já, regressemos ao Mundo Digital que, depois da fuga de Meicoomon, parece estar a voltar-se contra os Escolhidos. Temos alguns momentos caricatos, à Looney Tunes, em que o chão literalmente desaparece debaixo dos pés dos miúdos. Também também ataques de Digimon (muito mal animados e despachados em três tempos) e das próprias árvores. Kari, com a sua intuição, confirma a certa altura que o Mundo Digimon está a rejeitá-los. Daí estes fenómenos, a meteorologia instável e os ciclos dia/noite irregulares.

 

 Os miúdos lá arranjam um intervalo entre os ataques do Mundo Digimon para fazerem o ponto da situação à volta da fogueira. Meiko, como tem vindo a fazer desde Kokuhaku, culpa-se por tudo o que acontecera até ao momento. Agora que sabemos a história toda, ou quase toda, acho que todos concordamos que este era um fardo demasiado para alguém suportar.

 

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Meiko fez o melhor que podia. Duvido que tivesse sido diferente com qualquer um dos outros Escolhidos – com T.K. não foi. Meiko tivera um momento de hesitação após o Reinício, mas acabara por fazer aquilo que Sora, T.K., Mimi e os outros lhe tinham ensinado: viera ao Mundo Digital e lutara pela sua companheira. No entanto, fora pior a emenda que o soneto: ao vir ao Mundo Digimon, colocara-se a jeito para ser usada por Gennai para desestabilizar Meicoomon.

 

É de surpreender que Meiko passe este filme quase todo numa crise existencial?

 

Os outros Escolhidos tentam ajudá-la da maneira que sabem: fazendo-a acreditar em si mesma e na sua ligação com Meicoomon. É uma cena adorável, aliás – o lindíssimo tema instrumental de Butter-fly, tocando no fundo ajuda nisso – com as nossas eternas Crianças Escolhidas mostrando o porquê de eu as adorar, mesmo passados estes anos todos.

 

Os conselhos de cada um, aliás, refletem perfeitamente a evolução de cada um como personagem. Sora, por exemplo, encoraja Meiko a não sofrer em silêncio. Kari aconselha-a a não ceder às suas próprias inseguranças e a pedir ajuda quando não conseguir enfrentá-las sozinha. Matt lembra-lhe que nenhum Escolhido está sozinho, eles são uma equipa. Tai – invulgarmente caloroso para com Meiko neste filme – diz-lhe para não fugir dos problemas.

 

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Queria, de resto, comentar este comportamento de Tai. Este tinha passado os quatro filmes anteriores, não ignorando Meiko, mas interagindo menos com ela que os outros veteranos (tirando Joe, acho eu). No entanto, de Soshitsu para Kyousei – nem se pode dizer que tenha sido da noite para o dia, porque a mudança começou logo na cena do ataque a Meicoomon, que se dividiu pelos dois filmes – Tai começou a portar-se como o melhor amigo de Meiko (ou algo mais). Trocam confidências, estabelecem contacto físico, ele desvia-a de ataques na sua direção.

 

Tem graça, aliás, a maneira como nenhuma das personagens femininas é capaz de se mexer quando alguém tenta atingi-las. Tem de vir um dos rapazes protegê-las (ou, no caso de Sora em Soshitsu, dois ao mesmo tempo).

 

Mas estou a desviar-me.

 

Não que eu não goste deste lado mais caloroso de Tai, pelo contrário. E também compreendo que os digiguionistas tivessem querido voltar os holofotes para o jovem, em jeito de preparação para o que acontece no fim (embora isso me recorde o problema dos tempos de antena desiguais em Adventure). Mas podiam ter feito esta mudança de forma mais gradual. Ou, pelo menos, dado uma explicação para o novo comportamento – culpa por não ter protegido Meiko do Dark Gennai, genuína preocupação e empatia com a situação dela, sei lá…

 

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A conversa profunda à volta da lareira é interrompida de forma hilariante por Agumon, que acorda de repente, pensando que estão a falar sobre comida – o que irrita os outros Digimon.

 

Uma coisa que me tem vindo a incomodar desde Kokuhaku, aliás, é a mudança na personalidade de Agumon. Em Tri, quase tudo o que sai da boca dele é relacionado com comida. Do género:

 

– O que é um Reinício? Dá para comer?

 

Não que Agumon alguma vez tenha sido particularmente inteligente ou sofisticado em Adventure ou 02, mas sempre foi ele quem ajudou BlackWarGreymon nas suas dúvidas existenciais. E, na larga maioria das vezes, não tem piada, é apenas irritante – sobretudo porque uma das primeiras vezes que acontece é durante a cena em que os Digimon descobrem acerca do Reinício.

 

A diferença em relação aos filmes anteriores é que Kyousei, ao menos, faz bom uso da unidimensionalidade de Agumon. Na cena da fogueira, pela primeira vez, referências a comida fazem rir – mais porque interrompe uma cena particularmente emocional do que por outro motivo qualquer. Outro exemplo virá mais à frente.

 

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Nesta fase, a prioridade dos Escolhidos é regressarem ao Mundo Real – algo que, mesmo assim, só ocorre a meio do segundo episódio. É um dos problemas deste filme: a tensão está mais elevada do que nunca, estamos todos à espera que a bomba rebente mas, mesmo assim, as coisas demoram a acontecer.

 

Havemos de regressar a isso. A certa altura, o Mundo Digimon larga os miúdos sem cerimónias no Mundo Real, logo no pior sítio possível: no meio de pessoas que sabem exatamente o que são Digimon – algo que, para eles, é inédito – incluindo polícias.

 

Tai, sendo o mestre da subtileza que é (a sério, como é que este miúdo se torna um diplomata?), decide que a melhor atitude é dar à sola. Os outros seguem atrás dele porque, depois de duas temporadas e quatro filmes, os Escolhidos continuam à espera que seja Tai a tomar as decisões – mesmo que estas nem sempre façam sentido.

 

Lembremo-nos disso mais adiante.

 

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A fuga, ao menos, dá-lhes tempo para esconderem os Digimon no sistema informático criado por Izzy, antes de serem detidos. E para Joe se lamentar por, agora, ter cadastro, o que lhe pode arruinar a carreira.

 

Tenho algumas dúvidas relativamente à legalidade desta detenção. Oito dos nove miúdos são menores de idade, para começar. Para além disso, não parece que tenham sido informados que teriam direito a pedir um advogado – assumindo que as leis japonesas são semelhantes às nossas, nessa área. Seria de esperar, por outro lado, que pelo menos Joe ou Matt tivessem alguma noção dos seus direitos.

 

Felizmente, Daigo aparece a tempo e usa a sua posição para obter a custódia dos miúdos.

 

Daigo é uma das minhas personagens preferidas neste filme. O António do Odaiba Memorial Day Portugal concorda comigo, chegou a chamar-lhe o “pai das Crianças Escolhidas”. Eu não escolheria esse termo – na minha opinião, o seu papel assemelha-se mais a um irmão mais velho. Alguém com idade suficiente para se sentir à vontade entre adultos: para se responsabilizar pelos miúdos perante os pais deles, para falar em nome deles com outros adultos, para dar-lhes boleia de um lado para o outro, para zelar pela segurança deles. Mas, ao mesmo tempo, suficientemente jovem para ser acessível para os Escolhidos, para ainda se recordar de como é ter a idade deles.

 

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Quando era miúda e me imaginava como personagem no universo de Digimon, imaginava-me como uma Criança Escolhida – tal como todos nós fizemos nessas idades, calculo eu. Desde que redescobri Digimon há dois anos, no entanto, vejo-me mais num papel semelhante ao de Daigo. Ou ao de Jim Kido, o irmão mais velho de Joe, durante os episódios 44 e 45 de 02. Até porque não seria um papel muito diferente do que, às vezes, desempenho com a minha irmã adolescente e os amigos dela.

 

Com as devidas diferenças, já que a minha irmã não é uma Criança Escolhida. Se o é, esconde-o muito bem.

 

Agora que penso nisso, pergunto-me se isto terá sido intencional. Se Daigo e Maki foram criados, pelo menos em parte, como representação da audiência de Tri: crianças aquando da exibição original de Adventure, em 1999, e agora, aquando de Tri, na casa dos vinte; homens e mulheres feitos, mas ainda Crianças Escolhidas no seu coração.

 

Também é possível que seja eu a projetar-me nestas personagens. Já sabem como sou.

 

Ficamos aqui por hoje, amanhã continuamos – o melhor ainda está para vir!

Digimon Adventure Tri - Soshitsu (Perda) #3

Terceira e última parte da análise a Soshitsu. Podem ler as partes anteriores aqui e aqui.

 

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Aquando do combate com Machinedramon, que atua às ordens do Dark Gennai, as incoerências continuam. Um dos exemplos é o ataque da Salamon (de nível Infantil) que foi capaz de afetar o Machinedramon. O navio para onde os Escolhidos fogem também parece vindo do nada (será o mesmo daquele episódio filler do segundo arco de Adventure?).

 

No navio, os Escolhidos dispõem de apenas alguns minutos para respirarem e processarem o monólogo do Dark Gennai. Quando este último regressa, com o Machinedramon, Sora recebe instruções para ficar para trás, com Meiko. O resto do grupo divide-se, numa tentativa de despistar o Dark Gennai: Tai, Matt e Kari para um lado, os restantes para outro.

 

Matt, Tai e Kari são atacados por um MetalSeadramon, sendo arrastados para o mar (ou lago? Não dá para perceber…). Nova incoerência (alguém está a contar? Vamos em quantas?) quando Gabumon atinge MetalSeadramon com eficácia. No momento seguinte, contudo Tai e Matt apenas conseguem desviar os respetivos companheiros Digimon antes de o MetalSeadramon tentar afogá-los.

 

Não sei se o mesmo aconteceu com vocês, mas eu não consegui evitar afligir-me ao ver Kari sozinha, à superfície, gritando pelo seu onii-chan.

 

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Debaixo de água, Tai e Matt têm uma estranha epifania em que, de alguma forma, comunicam com Agumon e Gabumon. Os dois rapazes, em suma, renovam os votos de amizade e lealdade eterna para com os seus Digimon – tal como Meiko havia feito antes. Conforme o António assinalou, a cena faz lembrar o momento da Mega Evolução do Charizard, em Pokémon Origins. Em todo o caso, é o suficiente para ativar os dispositivos digitais. Assim, Tai e Matt regressam à superfície nas costas de WarGreymon e MetalGarurumon, respetivamente, ao som de Butter-fly.

 

Depois disso, temos digievoluções como o ketchup. A primeira é a de Salamon para Gatomon, quando Kari nem se tenta desviar de mais um ataque do MetalSeadramon. Temos direito à sequência completa de digievolução (não imaginam a estranheza que me provoca ouvir Butter-fly durante este momento… mas também estavam a guardar Brave Heart para outra ocasião) e, pelas Bestas Sagradas, o desenho de Gatomon nesta sequência é horrível!

 

Por outro lado, desapareceram os "2" que, antes, víamos nas sequências de digievolução em Tri. Talvez seja porque, agora, os Digimon não estão infetados – mas isso quer dizer que eles foram infetados logo em Saikai? E só desenvolveram sintomas em Kokuhaku?

 

Por sua vez, Joe, Mimi, Izzy e T.K. haviam fugido para uma zona de icebergues, mas Gennai e Machinedramon conseguem chegar a eles. É agora que temos um dos pontos altos do filme: Joe atirando-se ao Dark Gennai (eu adoro este rapaz!). Gennai, infelizmente, afasta-o com facilidade, mas logo Gomamon riposta com os seus icónicos peixinhos.

 

 

Entretanto, Sora – que tivera já um momento Byomon, em que a última reconhece, pela primeira vez, que Sora é boa pessoa – junta-se ao grupo, deixando Meiko para trás. Isto revelar-se-á um erro fatal, como veremos já a seguir.

 

Uma das coisas por que mais ansiava em Soshitsu era, naturalmente, a digievolução de Byomon para o nível Extremo/Hiper Campeão. No geral, fiquei satisfeita, mas essa estreia veio acompanhada de uns quantos momentos WTF?!? A certa altura, Machinedramon agarra Byomon e Sora, sendo Sora, atira-se à garra dele. Segue-se a maior incoerência de todo o filme: Machinedramon esmaga Sora contra o icebergue duas vezes e a jovem sobrevive sem uma costela partida ou um órgão rompido que seja.

 

A Sora é a irmã perdida do Super Homem e ninguém nos avisou.

 

De qualquer forma, é aí que Byomon percebe, finalmente, que, para a miúda fazer uma parvoíce daquelas, é porque a ama a sério, tal como vinha dizendo desde início. Sora e Byomon unem-se verdadeiramente pela primeira vez desde o Reinício.

 

Toda a gente sabe o que acontece a seguir.

 

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As primeiras notas de Brave Heart e o momento da digievolução não desiludem. Hououmon/Phoenixmon é lindíssima – de longe o Digimon mais bonito que conheço.  O conflito de Sora neste filme não me deixou completamente satisfeita pelos motivos que expliquei antes. Mas, confesso, não consigo resistir a uma digievolução acompanhada de Brave Heart.

 

Muitos têm-se queixado de Seraphimon e HerculesKabuterimon roubarem o momento a Phoenixmon. Eu compreendo a crítica, mas não me importo muito. Pelo contrário, uma das coisas de que me queixei em Ketsui foi da falta de participação dos Digimons nos combates, tirando Rosemon e Vikemon. Logo, gosto que, em Soshitsu, se tenham todos juntado à luta.

 

Importo-me mais que tivéssemos de levar com as sequências de digievolução todas. Regressou a velha mania de Digimon de queimar tempo com digievoluções. A de HerculesKabuterimon, pelo menos, era desnecessária.

 

A aparição de Seraphimon tem, também, causado alguma controvérsia. Falando apenas de Soshitsu, T.K. não teve grande destaque – não mereceu a digievolução da maneira que Sora a mereceu neste filme e Izzy mereceu no filme anterior. Por um lado, suponho que T.K. já a tinha merecido em Kokuhaku.

 

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Por outro lado, esta, tecnicamente, não terá sido a estreia de Seraphimon. A sua primeira aparição terá ocorrido na terceira parte de Digimon, o Filme – embora muitos fãs não considerem que essa história faça parte do cânone oficial do universo de Adventure. Nesse aspeto, Tri fez bem em manter a ambiguidade, sem invalidar nenhuma das hipóteses.

 

Entretanto, o Dark Gennai aproveita a distração dos outros Escolhidos nos combates para se enfiar no navio e assediar Meiko. E, apesar de Gomamon, Patamon (ambos de nível Infantil) e Sora terem sido capazes de fazer frente a Gennai sem grande dificuldade, Meicoomon – nível Adulto, veículo da Infeção, claramente poderosa, vendo a jovem que está programada para proteger sendo asfixiada – não consegue fazer um arranhão que seja a Gennai. Fuck logic!

 

As cenas de Meiko e Gennai estão, ainda por cima, enfiadas entre digievoluções e combates, de tal forma que uma pessoa quase se esquece do que está a acontecer no navio. A verdade é que o última parte do filme está muito mal organizada em termos de montagem das diferentes cenas: com as sequências de digievolução que nunca mais acabam, apenas um minuto ou dois para mostrar Maki e Bakumon e as cenas de Gennai assediando Meiko no navio.

 

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O pior é mesmo o final. Depois de derrotarem o Machinedramon e o MetalSeadramon, os Escolhidos têm mais do que tempo para respirarem. Sora chega a ter um momento com Tai e Matt que até seria giro e tal se eu não estivesse, nessa altura, a gritar para o ecrã:

 

– PESSOAL! O DARK GENNAI ESTÁ PRESTES A MATAR A MEIKO! COMBINEM A VOSSA MENÁGE À TROIS DEPOIS, AGORA CORRAM PARA A P***A DO NAVIO!

 

 A certa altura, lá vemos Meiko desmaiada (se o poster do filme seguinte não tivesse saído logo a seguir, muitos pensariam que ela estaria morta), Meicoomon em modo Infeção, o Dark Gennai soltando um evil laugh daqueles bem fatelas… e o ecrã desvanescendo-se para preto, seguido dos créditos finais.

 

Yep, é assim que o filme termina, com um dos cliffangers mais forçados de que há memória. É de admirar que muitos de nós tenham ficado com vontade de atirar com o computador (ou telemóvel, ou tablet ou qualquer gadget através do qual tenham visto o filme) pela janela depois disto?

 

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Na minha opinião, a última impressão que Soshitsu deixa é pior que o filme em si. Mas os digi-guionistas (ou digi-produtores ou digi-realizadores ou digi-quem-quer-que-seja-responsável-por-isso) já deviam saber da importância de um final como deve ser. Não é bom quando os espectadores saem da sala de cinema de mau humor. E nem era assim tão difícil! Bastavam uns ajustes aqui e ali para tudo parecer mais orgânico.

 

Apesar de tudo isto, apesar de este filme ser mal executado ao ponto da frustração, contudo a achar que é melhor que Ketsui. Mal por mal, pela primeira vez desde que Tri começou, sabemos ao certo o que se está a passar e em direção vão as coisas. Quase tudo o que aconteceu foi importante para o enredo. Por fim, praticamente todos os Escolhidos tiveram pelo menos um momento de destaque.

 

Eu não podia acabar de falar sobre Soshitsu sem referir o eterno mistério que continua por resolver: os miúdos de 02. Nesta fase, as minhas expectativas atingiram mínimos históricos. Que revelem a resposta quando lhes apetecer, já nem me ralo!

 

Agora, o próximo filme chamar-se-á Kyosei, o que significa União ou Simbiose. Este é capaz de ser um dos títulos mais fascinantes até agora em Tri. Para aqueles que não conhecem o termo, Simbiose é uma relação de benefício mútuo. No contexto de Digimon e de Tri existem várias interpretações possíveis. A mais óbvia é referir-se à relação entre Escolhido e companheiro Digimon. No entanto, a meu ver, sabendo o que se sabe, o mais provável é referir-se à relação entre o Mundo Digital e o mundo dos humanos. Ou entre a Luz e a Escuridão.

 

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O que me leva ao poster de Kyosei. Nele aparecem Meiko e Kari. Já se sabia que o quinto filme seria protagonizado pela Escolhida mais nova. Acho que ninguém tinha a certeza de que Meiko apareceria num poster em Tri mas, já que apareceu, não surpreende.

 

Na minha opinião, faz sentido emparelharem Meiko com Kari no protagonismo. Dos oito Escolhidos originais, Kari é de longe a mais parecida do Meiko em termos de carácter. Se bem se recordam, aquando de Ketsui, a amizade entre Meiko e Mimi recordou-me a amizade enre Kari e Yolei em 02 (típicos pares introvertida-extrovertida).

 

E contudo (penso que já o disse aqui) só conhecemos Meiko desde Saikai e esta já tem mais personalidade que Kari, que conhecemos desde Adventure.

 

Para além das raparigas, aquilo que chama a atenção nos posters são os Digimon. Vemos uma nova digievolução de Meicoomon cujo nome ainda não se conhece tanto quanto sei. Mais importante é Ophanimon.

  

Durante anos e anos e, sobretudo, nas semanas que antecederam Soshitsu, a comunidade de fãs debatera sem parar sobre qual das possíveis digievoluções de nível Extremo para Gatomon era a oficial para Kari: se Holydramon, se Ophanimon. A Angewomon de Kari aparece na tal terceira parte de Digimon, o Filme, que não se sabe se pertence ao cânone. Por outro lado, consta que no jogo Digimon Adventure para a PSP, a Gatomon de Kari digievolui para Ophanimon.

 

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Pessoalmente, não tenho uma preferência definida por nenhuma das formas. Por um lado, Ophanimon faz mais sentido como o nível que se segue à Angewomon. Além disso, faz melhor par com Seraphimon – não, não “shipo” (odeio essa palavra…) T.K e Kari, longe disso, mas gosto da química que a Gatomon/Angewomon e o Angemon partilham desde os tempos de Adventure. Por outro lado, Holydramon tem traços claramente feninos, logo, também faz sentido como digievolução de Gatomon. Além disso, é uma das poucas digievoluções das raparigas Escolhidas que não é gritantemente sexualizada.

 

Ora, este poster não confirma nem desmente nenhuma das possíveis digievoluções porque a Ophanimon aparece em modo Fall Down. Segundo a Wiki do Shika, é essencialmente um anjo caído/desertor. Ou seja, esta será a primeira vez desde SkullGreymon que teremos uma digievolução negra no universo de Adventure. O que é fascinante.

 

Estando esta análise tão atrasada, à data da publicação, já temos uma sinopse para Kyosei. Mais vale falar sobre ela.

 

Só para arrumarmos o assunto Ophanimon, a sinopse dá a entender que alguma coisa de mau vai acontecer a Kari “que tem a alma mais iluminada e delicada que ninguém” – o que é demasiado vago para se tirar conclusões. Penso que é quase certo que Kari poderá voltar a servir de porta-voz à Escuridão e… não me agrada. Estou farta do velhíssimo cliché da Kari possuída por coisas sobrenaturais.

 

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Não sei se alguma vez o referi aqui no blogue, mas uma das coisas que gostava de ver em Tri era Kari, por uma vez, salvando o couro a Tai ou T.K. em vez de ser a eterna donzela indefesa. Mas já ficava contente se Kari se salvasse a si mesma do que quer que a atormentará e/ou tenha uma evolução significativa como personagem.

 

Podiam, por exemplo, abordar a relação dela com o irmão – que, por sinal, esteve em destaque há umas semanas atrás, quando um dos antigos realizadores de Adventure apontou para momentos do episódio 21 (aquele em que Tai, após a derrota de Etemon, regressa brevemente ao Mundo Real e reencontra a irmã) que poderiam apontar para atração incestuosa (*arrepios de horror*). Pontas soltas como a culpa de Tai por ter enviado a irmã para o hospital e a dependência excessiva de Kari no irmão – conforme referido no episódio do Mar Negro, em 02.

 

Passando ao resto da sinopse, parece que as coisas vão rapidamente reverter ao estado pré-Reinício. Os miúdos regressarão ao Mundo Real, onde estão a ocorrer distorções e estragos por todo o lado. Parece que, desta vez, a população virar-se-á a sério contra os Escolhidos.

 

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Eu não estou lá muito satisfeita por irmos voltar ao Mundo Real, depois de termos passado o quê? Um dia e meio, dois dias no Mundo Digimon? Por outro lado, se o objetivo de Yggdrasil for mesmo extreminar a raça humana, não faz sentido o elenco permanecer no Mundo Digital. É provável, também, que as dúvidas existenciais de Tai regressem, após terem sido deixadas em stand-by no início de Kokuhaku.

 

A sinopse revela ainda que, segundo Hackmon, a Homeostase quer matar Meicoomon. Este desenvolvimento não surpreende, sobretudo depois de Soshitsu ter praticamente confirmado que Meicoomon foi criada para ser o veículo da Infeção. O mais certo é os Escolhidos serem apanhados no fogo cruzado. Sobretudo Meiko que, naturalmente, não permitirá que matem o seu Digimon sem dar luta.

 

Estou certa de que pelo menos alguns dos Escolhidos ficarão do lado dela. Sora, T.K. e Mimi fá-lo-ão logo de início. No entanto, não me surpreenderia se Tai começasse a culpar Meicoomon e, por associação, Meiko por tudo de mau que aconteceu em Tri até agora. Talvez Izzy concorde com ele, pura e simplesmente pelo sentido prático da coisa, se não houver mesmo outra solução. Quanto a Matt, ele estará do lado completamente oposto a Tai – nesta fase é uma lei da natureza.

 

Em todo o caso, uma coisa é certa: as coisas irão de mal a pior. O que era de esperar no penúltimo capítulo, antes da resolução final no sexto filme.

 

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É um bocadinho estranho ainda não haver data de estreia de Kyosei. Mas, como me atrasei tanto com este monstro de análise, não me queixarei se o próximo filme ainda demorar um bocadinho. Estou com esperanças de que o filme coincida com o Odaiba Memorial Day.

 

E por falar disso…

 

Já faz parte da praxe falar do Odaiba Memorial Day Portugal – sobretudo tendo em conta que já participei num par de emissões/podcasts juntamente com o António, o Danny (do canal de YouTube A minha vida em bits) e o Shika (que gere a Digimon Wiki em português de Portugal).

 

Ao lado deles sou uma amadora, que só conhece (e, mesmo assim, não muito bem) o universo de Adventure. Além disso, estou longe de ser uma entertainer, farto-me de gaguejar e não tenho um microfone decente – o YouTube não é de todo uma carreira viável para mim.

 

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Dito isto, diverti-me imenso nos podcasts em que participei. Geralmente, as emissões começam de forma mais ou menos refinada mas, ao fim de algum tempo, começamos a disparatar. O podcast mais recente em que participei acabou connosco a cantar a versão portuguesa de Butter-fly - de início, cantámos a versão da Animedia, comigo a trocar-me toda na letra (que o Danny escreveu, ainda para mais!) e, por algum motivo, acabámos por cantar o refrão da versão da velhinha dobragem portuguesa. Esta parte da emissão já não ficou gravada no YouTube… graças a Deus, sinceramente.

 

Não posso falar pelos outros três participantes, mas eu garanto que, nessa noite, não estava sob o efeito do álcool nem de outra substância – só mesmo um descafeinado da Nespresso. Eu posso parecer simpática e certinha à primeira vista mas, se me derem tempo, a minha maluquice vem toda ao de cima.

 

De qualquer forma, só por momentos como estes vale a pena ter escrito tanto testamento sobre Digimon nos últimos dois anos.

 

Com tudo isto deu-me ainda mais vontade de ir ao encontro no primeiro de agosto. Infelizmente, este ano não vou, quase de certeza, poder ir este ano. Acreditem, isto deixa-me com vontade de chorar.

 

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Enfim, já foi bom ter participado nos podcasts ou apenas ouvi-los. Conforme julgo já ter referido aqui no blogue, sabe bem conviver com pessoas com as mesmas maluqueiras do que nós, mesmo que apenas via internet. Especialmente para mim que, como já sabem, sou uma mulher com muitas maluqueiras.

 

Voltaremos a falar sobre Digimon quando sair Kyosei – espero não tornar a atrarar-me tanto com essa análise, mas não posso prometer nada. De qualquer forma, na página de Facebook deste blogue, vou publicando e comentando qualquer notícia ou pista que saia sobre Kyosei.

 

Continuem ligados. Análise a After Laughter dos Paramore em breve.

 

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