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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna #2

Segunda parte da minha análise a Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna. Podem ler a primeira parte aqui

 

1) Spoilers: esta análise vai discutir extensamente os eventos do filme Digimon Last Evolution Kizuna e poderá também revelar detalhes dos enredos das três temporadas do universo de Adventure (Aventure, 02 e Tri). Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios de Digimon têm traduções controversas – na língua portuguesa têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Conforme tinha dito que faria quando terminei as análises a Tri, para esta análise vou usar os nomes japoneses.

 

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Taichi e Yamato reagem à notícia de que os seus Digimon têm os dias contados (literalmente) da maneira que se esperava, sobretudo quando a contagem decrescente surge nos telemóveis.

 

As ações dos dois protagonistas de Kizuna depois, no entanto, são diferentes. Taichi pega em Agumon, leva-o a almoçar fora e, mais tarde, ao seu apartamento. Passa a maior parte do segundo acto do filme sentindo pena de si mesmo. Por sua vez, Yamato encontra Imura à saída do escritório de Koshiro, portando-se de forma suspeita. O jovem acaba por passar a maior parte do segundo acto do filme investigando o caso de Eosmon e espiando Imura.

 

Isto representa uma mudança em relação a Adventure. Pode-se argumentar que já se notava um pouco em 02. Define uma grande parte de Tri. E em Kizuna regressa em força. Taichi e Yamato sempre reagiram de maneiras diferentes a coisas más que acontecem. Mas, enquanto em Adventure, Taichi queria ir para a frente a todo o custo e Yamato queria tempo para processar as coisas, depois de Adventure é Taichi quem fica em contemplação, mesmo em autocomiseração, enquanto Yamato engole as suas emoções, cerra os dentes e mete-se ao trabalho – pondo inclusivamente os miúdos de 02 a mexer-se. É mesmo dado a entender, a certa altura, que Yamato faz uma direta. 

 

Existem momentos em Kizuna, aliás, em que é difícil simpatizar com Taichi – tal como já tinha acontecido nos dois primeiros filmes de Tri. Passa tanto tempo a lamber as suas próprias feridas que chega a parecer que está menos preocupado com os Escolhidos em coma, quando comparado com Yamato ou Koshiro.

 

Nada que não seja compreensível. Taichi é apenas humano. Alguns de nós, se calhar, reagiriam da mesma maneira.

 

E, para sermos justos, não se pode dizer que a maneira de Yamato lidar com o que está a acontecer seja a mais saudável. É possível que, depois dos eventos de Kizuna, o jovem se arrependa de ter passado os últimos dias de vida de Gabumon perseguindo uma pista que, mais tarde, se revelaria falsa. 

 

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Por outro lado, noutra curta-metragem de que falaremos melhor adiante, Gabumon mostra-se grato por andar a passar mais tempo do que o costume com Yamato. Espero que tenha tido a oportunidade de dizê-lo ao seu parceiro antes do fim.

 

Dizia eu que Taichi decide passar algum tempo com Agumon. Leva-o ao seu apartamento pela primeira vez. Momento impagável quando Agumon encontra os DVDs (serão DVDs?) pornográficos do seu parceiro – se me contassem essa há quinze ou dezasseis anos…

 

A certa altura, recebem a visita de Gennai (o verdadeiro!), que confirma tudo o que Menoa disse. Deixa também preto no branco, se dúvidas ainda existiam, que os Digimon desaparecem quando a contagem nos dispositivos chega a zero. Quando Taichi lhe pergunta porque ninguém os avisou antes, Gennai responde que foi pelo mesmo motivo pelo qual ninguém quer saber quando vai morrer.

 

Admito que não havia boas soluções aqui. É possível que pelo menos algumas das crianças se recusassem a cumprir o seu papel como Escolhidas, caso soubessem que o tempo de que dispõem com os seus Digimon é limitado – e sobretudo que as digievoluções aceleram o processo. É possível que alguns dos Escolhidos tentem, deliberadamente, não crescer, não (digi)evoluir – recusarem-se a estudar, a trabalhar, a saírem de casa dos pais. 

 

Por outro lado, os eventos de Kizuna podiam ter sido evitados – ou ter decorrido de forma diferente – caso Menoa tivesse sido avisada desta regra. 

 

Ainda assim, não culpo Gennai por não ter querido dizer nada aos Escolhidos. No que toca à Homeostase, no entanto, se antes já a questionava, depois desta… 

 

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Sempre foi moralmente discutível pegar em crianças, atirá-las para um mundo desconhecido, dar-lhes Digimon e exigir-lhes que salvem esse mundo. Pensava eu que aquilo que ela (?) fizera com Maki (e as outra primeiras Crianças Escolhidas, se bem que em menor grau) e Meiko fora suficientemente mau. Mas aparentemente ela faz o mesmo com todos os que Escolhe, em graus diferentes. Cria Digimon compatíveis com os humanos que Escolhe, programa-os para protegerem esses humanos. E, quando os Escolhidos já não lhes são úteis, a Homeostase pura e simplesmente descarta os Digimon, indiferente aos danos que provoca aos parceiros humanos. 

 

Em Watching As I Fall, Mike Shinoda reza “Nothing is forever, don’t be mad at the design”. O que é essencialmente uma das mensagens de Kizuna e uma grande verdade em todos os universos e aspetos da vida. No entanto, no universo de Adventure os desígnios têm um nome e podemos perfeitamente revoltarmo-nos. 

 

Não procurem mais. A Homeostase é o maior vilão do universo de Adventure. O verdadeiro vilão. 

 

Regressando a Yamato, tal como já tínhamos assinalado, ele mete os miúdos de 02 a trabalhar. Os três rapazes – Daisuke, Ken e Iori – estavam em Nova Iorque fazendo pesquisa de mercado para o futuro carrinho de ramen de Daisuke (ou pelo menos é essa a desculpa) antes de Yamato lhes ligar. Miyako rapidamente se junta a eles. Os quatro têm tirado proveito da capacidade dos D3 de darem passagem para o Mundo Digital e, daí, para diferentes pontos do Mundo Real.

 

Como alguém que não gosta de andar de avião e ainda menos das burocracias relacionadas, não imaginam a minha inveja.

 

 

Yamato pede aos Escolhidos mais novos que investiguem Menoa e Imura. Ken sabe quem Menoa Bellucci é – o jovem sabe uma coisinha ou outra sobre ser uma criança-prodígio. Os quatro assaltam o laboratório de Menoa. Enquanto o revistam, o Amardimon fica fascinado com uma imagem afixada na parede – mais tarde identificam-na como Aurora, a deusa no amanhecer segundo a mitologia romana. Homóloga de Eos, portanto.

 

Tomem nota. 

 

Entretanto, Yamato segue Imura, observa enquanto este recebe uma arma de um tipo com mau aspeto – o que não condiz com o perfil de um assistente de laboratório. 

 

Gosto desta versão de Yamato. Um Yamato adulto, street-smart (não existe uma boa tradução para essa expressão em português, eu bem procurei), astuto, capaz de se desenrascar no Mundo Real, não apenas no Digital. É certo que esta primeira (?) tentativa não é muito bem sucedida mas, com alguma prática… Eu via esse spin-off: Yamato o detetive, com o Gabumon como assistente. 

 

No dia seguinte (será o dia seguinte? A cronologia de Kizuna é um bocadinho confusa nesse aspeto), Joe dá o alerta: Mimi dera entrada no hospital onde ele trabalha depois de ter sido encontrada sem sentidos num armazém. É a primeira do grupo de Adventure a entrar em coma. 

 

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A cena é um bocadinho dolorosa para mim, confesso. Custa ver uma personagem que cresceu comigo numa cama de hospital e as outras à volta, sem saberem o que fazer. 

 

Yamato traz Taichi e Koshiro para a casa de banho masculina para fazerem o ponto da situação – é o único sítio onde as paredes não têm ouvidos. Yamato oferece-lhes, inclusivamente, telemóveis descartáveis para poderem conversar entre si com segurança – tal como diz Taichi, como se estivessem num filme de espiões.

 

Yamato revela o que descobriu: Menoa fora uma Criança Escolhida e a sua companheira Digimon era Morphomon. Koshiro estranha o facto de ainda não a terem conhecido. Por sua vez, Imura tornara-se assistente de Menoa na altura em que esta publicou os resultados da sua investigação.

 

É durante esta reunião na casa de banho que decorrem os eventos da curta-metragem intitulada “Um Buraco no Coração”. Nela, Agumon e Gabumon conversam sobre a sua iminente separação dos seus companheiros. 

 

No fundo, esta curta explora o conflito emocional de Kizuna na perspetiva dos Digimon. Agumon sente-se mais distante de Taichi, que está mais velho, vive sozinho, bebe cerveja e vê pornografia (para sermos justos, ele provavelmente já o faz desde a adolescência). Ao mesmo tempo, como assinalámos antes, Gabumon sente-se feliz por andar a passar os últimos dias na companhia de Yamato, mesmo que seja espiando Imura. 

 

Os dois chegam à conclusão de que estão gratos por tudo por que passaram, não apenas com os respectivos companheiros, mas também com os outros Escolhidos e os seus Digimon. Aquilo que viveram, as recordações que formaram, isso nunca desaparecerá. E prometem apoiar Taichi e Yamato independentemente do que eles decidirem. 

 

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Havemos de regressar a essa ideia.

 

No hospital, Taichi manifestara a vontade de resolver este caso. No entanto, a primeira coisa que o vemos fazer depois desta cena é pegar no seu antigo dispositivo, nos óculos de aviador e vestir uma camisola da mesma cor da t-shirt que usou em Adventure.

 

Não é preciso dizer mais nada, pois não?

 

Taichi vai falar com Menoa – algo que não sei se Yamato ou Koshiro aprovariam. Menoa fala-lhe de Morphomon, diz-lhe abertamente que não queria que outros Escolhidos passassem pela mesma perda (uma vez mais, tomem nota), que é nisso que se foca a sua investigação. Espera, também que Taichi e os seus companheiros de aventura ajudem a chegar à solução.

 

Da primeira vez que vi Kizuna, ainda tinha a esperança de que os Escolhidos arranjasse uma maneira de travar este processo. Esperança essa que durou até ao último minuto. Em visualizações posteriores, é nesta parte que me sinto como o Joey de Friends e quero enfiar o filme no congelador. Não quero que ele continue, não quero que aconteça aquilo que sei que vai acontecer. 

 

Entretanto, Yamato invade o escritório de Imura e encontra um daqueles típicos painéis que vemos na televisão e no cinema, com recortes de jornais e fotografias tiradas à distância. Neste caso, o painel foca-se tanto em Menoa como nos Escolhidos de Adventure. É também nesse momento que os miúdos de 02 lhe telefonam e confirmam que Kyotaro Imura não existe, é um nome falso. 

 

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Eu ainda assim vou continuar a tratá-lo por Imura neste texto, por uma questão de simplicidade.

 

Adicionalmente, o seu computador tinha dados sobre Eosmon que foram, posteriormente, apagados. Yamato brinca com a ideia de Menoa estar a ser manipulada por ele. 

 

Por outro lado, Armadimon não se cala com a imagem de Aurora no laboratório e Yamato ouve a conversa. O termo “aurora” é curioso, sobretudo neste contexto. Como vimos antes, é o nome da deusa do amanhecer na mitologia romana e, na língua portuguesa, é sinónimo de amanhecer (aparentemente também o é na língua inglesa). Mas também é o nome dado ao fenómeno metereológico conhecido como aurora boreal – como o que vimos no início do filme e que, como veremos adiante, desencadeou os eventos de Kizuna.

 

Pergunto-me se foi intencional. É provável que tenha sido. Mais à frente regressaremos a este conceito. Em todo o caso, a imagem de Aurora é uma pista que aponta para a verdade por detrás de Eosmon.

 

Entretanto, Koshiro recebe um email com um vídeo que mostra Hikari e Takeru inconscientes e amarrados, cada um num sítio diferente. Naturalmente, alerta os respectivos onii-chans – ameaçar os irmãozinhos mais novos é a maneira mais simples de atingir Taichi e Yamato (e indiretamente a audiência) mesmo no coração. Ao mesmo tempo, Joe não atende as chamadas – ou seja, Eosmon já o apanhou.

 

Nem Taichi nem Yamato chegam a tempo de impedir que os irmãozinhos entrem em coma. Provavelmente já estavam assim quando Koshiro recebeu o vídeo. O rapto serve apenas para manter os dois protagonistas ocupados enquanto Koshiro recebe uma visita de Menoa. 

 

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Antes de irmos aí, foquemo-nos em Yamato, que encontra Imura no armazém onde está Takeru. Imura soubera sempre que o homem mais novo estivera a espiá-lo – ou a tentar. 

 

Decide então abrir o jogo. Revela-se como um agente do FBI, encarregado de espiar Menoa e de encontrar provas contra ela. É nesta fase de Kizuna que descobrimos que fora Menoa quem criara Eosmon e quem roubara as consciências a trezentos Escolhidos. 

 

Por outro lado… Imura diz que o FBI andava atento às atividades de Menoa há “vários anos”, mas havia motivo para isso? O foco da sua investigação era a preservação dos vínculos entre Escolhidos e parceiros Digimon. Nada de criminoso nisso por si só. Só muito recentemente é que começara a usar o Eosmon para atacar pessoas. Excesso de zelo da parte do FBI?

 

Enfim. Americanos…

 

Menoa vai, então, ao escritório pedir-lhe a lista com as identidades dos Escolhidos. O jovem confronta-a com o que descobriu ao analisar os fragmentos de Eosmon que sobraram do combate no ciberespaço: dados que apontam para a investigação de Menoa.

 

É aí que cai a máscara. 

 

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Quando Yamato, Imura e, uns minutos mais tarde, Taichi chegam ao escritório de Koshiro, já este estava sem sentidos, já Tentomon tinha desaparecido, bem como Menoa. Koshiro, no entanto, conseguira enviar as coordenadas da localização de Eosmon a Taichi por SMS.

 

Resta a ele e a Yamato irem atrás de Menoa e Eosmon – mesmo sabendo que, se tiverem de digievoluir, reduzirão o tempo de vida de Agumon e Gabumon. 

 

Não que haja grande escolha da parte deles. Os dois estão encostados à parede. Em nenhuma circunstância iriam Taichi e Yamato sacrificar trezentos Escolhidos, incluindo amigos de infância, incluindo os seus irmãos mais novos, apenas para terem mais um bocadinho com os seus Digimon. Apenas para adiarem o inevitável.

 

Tendo em conta o que se descobrirá mais tarde, pode-se argumentar se seria assim tão mau deixar os Escolhidos como estão. Se alguns deles quererão sequer ser salvos. Estive a pesquisar as consequências de estar em coma indefinidamente, mesmo não estando em morte cerebral. Não cheguei a uma conclusão única, mas acho que, mesmo na melhor das hipóteses, seria difícil mantê-los assim. Teriam de ser alimentados por nutrição parentérica, de receber fisioterapia para evitar escaras e atrofia muscular. 

 

E, claro, à parte estas consequências mais práticas, é doloroso para os entes queridos vê-los assim.

 

Por isso Taichi e Yamato vão até à dimensão para onde Eosmon levara as consciências dos Escolhidos. As primeiras coisas que veem são o elétrico que os levara de volta ao Mundo Real, no fim de Adventure. Depois surge Menoa e várias ilhas flutuantes. Em cada uma encontra-se um dos Escolhidos e respetivo companheiro Digimon, com o aspeto que tinham durante os eventos de Adventure. Incluindo Meiko e Meicoomon.

 

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Menoa chama àquela dimensão apropriadamente Terra do Nunca: um sítio onde os Escolhidos podem ser quem eram durante Adventure para sempre. Não precisam de crescer, não precisam de se separar dos seus Digimon.

 

Eosmon é uma espécie de monstro de Frankenstein, criado por Menoa a partir dos restos mortais, isto é, dos dados que sobraram de Morphomon. A aparição da aurora, no início de Kizuna, fora o toque que faltara para Eosmon ganhar vida, com a capacidade de roubar e digitalizar consciências. Menoa resolveu usá-la para garantir que mais nenhum Escolhido perde o seu companheiro Digimon.

 

Acho interessante que Menoa tenha escolhido o conceito de “amanhecer” para dar nome a Eosmon. As suas vítimas estão em coma, estão a dormir, a viver em sonhos. No entanto, o nome vem de “amanhecer”, não de “anoitecer”. 

 

Faz lembrar um filme que saiu no ano em que decorrem os eventos de Kizuna: Inception/A Origem. Como é do conhecimento geral, esse filme foca-se muito no conceito de múltiplos níveis de consciência, de sonhos dentro de sonhos, na dificuldade em distinguir entre sonhos e realidade. Ligeiros spoilers, mas no filme existem pessoas (incluindo o próprio protagonista no seu passado) que preferem viver nos seus sonhos, por um motivo ou por outro. Adormecem, mas dizem que, na verdade, estão a acordar. Para eles o sonho é a realidade e a realidade é um sonho.

 

 

Suponho que Menoa pense da mesma forma. Pensa que está a acordar os Escolhidos para a realidade verdadeira.

 

Outro elemento, que já fora aparecendo aqui e ali ao longo de Kizuna mas que está presente em força na Terra do Nunca, diz respeito às borboletas azuis. Começando pela trança de Menoa, uma clara referência à sua companheira Morphomon.

 

Já que falamos nisso, um aspeto que acho curioso é o facto de Menoa parecer mais velha quando tem o cabelo solto – e parecer mais nova quando tem a trança com a borboleta na ponta. Não sei se sou eu ou se ela foi desenhada deliberadamente para dar essa ideia. 

 

O significado mais óbvio das borboletas é, claro, Butter-fly. Já me tinha queixado, a propósito de Tri, que depois da morte de Wada Kouji Digimon andava – na minha opinião, claro – a sobrevalorizar o tema de abertura de Adventure. Em Kizuna, no entanto, associam-no à antagonista – e, como veremos mais tarde, ao destino final de todos os companheiros Digimon. É uma perspetiva nova, interessante e algo cruel para algo que tem estado lá desde os primórdios deste universo. 

 

Adicionalmente, um dos significados mais conhecidos das borboletas é mudança, transformação, o ciclo vida/morte/renascimento. A borboleta azul em particular é símbolo de honra, de energia, de aceitação – o que, no contexto de Kizuna, é irónico.

 

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O problema de pesquisar simbologias é que não existem respostas erradas. Cada cultura, mesmo cada pessoa atribui as interpretações que quer às coisas. Veja-se o que acabámos de comentar sobre as borboletas e o tema de abertura de Adventure. E no entanto na discografia dos Paramore (e de Petals For Armor, até certo ponto) as borboletas são um tema recorrente, com uma simbologia muito própria.

 

Regressando a Kizuna, Menoa garante que cada um dos Escolhidos está na Terra do Nunca de livre vontade. Terá sido o desejo deles de nunca crescerem, de serem para sempre Crianças Escolhidas que atraiu Eosmon… mas eu não acredito nela.

 

Não que não ache que Joe, Mimi e os outros não desejassem, nem que fosse apenas um bocadinho, regressar ao passado. Mas, por essa lógica, não deviam Taichi e Yamato ter estado entre as primeiras vítimas? Eles que, dos oito de Adventure, são os que estão a lidar pior com a passagem do tempo? 

 

Além disso, sabemos que pelo menos Koshiro não foi de livre vontade para a Terra do Nunca – ele que descobriu a verdade sobre Menoa sozinho e que sabia o que lhe ia acontecer. Mais: se Eosmon fosse atraído pelos desejos dos Escolhidos, Menoa não precisava de roubar a lista a Koshiro.

 

É possível que Menoa esteja a projetar os seus sentimentos nos outros Escolhidos. Talvez ache que é isso que todos eles querem. Menoa é mais um caso de Escolhido e/ou Treinador traumatizado pela perda do seu companheiro Digimon. O que é curioso é que ela, de certa forma, é o oposto de Maki. Maki não hesitou em usar todos aqueles a quem podia deitar as garras – desde crianças a alguém que a amava – para recuperar o seu Digimon, sem se ralar com os danos que causava ou com as pessoas que magoava. Sem se ralar com o facto de estar a fazer aos outros aquilo que fizeram a ela. 

 

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Por sua vez, Menoa está, de uma maneira retorcida, a ser altruísta, a tentar evitar que outros sofram como ela sofreu. As suas intenções são boas. Mas todos sabemos que sítio está cheio de boas intenções. 

 

Já que falámos de Maki e de Tri, gostava de falar da presença de Meiko e Meicoomon na Terra do Nunca. Em termos de meta, sabemos porque é que elas estão lá: para piscar o olho aos (pelos vistos não muitos) fãs de Tri. Mas, dentro o universo, a presença delas levanta questões.

 

Na altura em que escrevi sobre Bokura No Mirai, não me apercebi que havia quem interpretasse o presente de Natal dos outros Escolhidos, e/ou o som característico de um dispositivo digital, como indicação de que Meicoomon regressaria à vida. Não acredito muito nessa teoria – não tanto por falta de provas, mais porque estragaria o impacto emocional do encerramento de Bokura No Mirai. 

 

Além disso, se Meicoomon estivesse viva em 2010 (e, assumo eu, livre do fragmento de Apocalymon), Meiko não teria motivo nenhum para desejar ter onze anos outra vez, com uma companheira Digimon instável. Isto, claro, partindo do questionável princípio de que Meiko foi de livre vontade para a Terra do Nunca.

 

No entanto, se Meicoomon está morta, como é possível que esteja na Terra do Nunca? Talvez não seja mesmo ela, talvez seja apenas uma figura dos sonhos de Meiko, ou das suas recordações. Não é implausível. Nessas circunstâncias, faria todo o sentido Meiko querer regressar à infância, aos tempos em que Meicoomon ainda estava viva. Por alturas de Kizuna, já se passaram anos suficientes para as saudades e a nostalgia pesarem mais que as reais dificuldades de ter Meicoomon como companheira. 

 

Suponho que seja também por nostalgia que Hikari tenha surgido na Terra do Nunca com o visual de Adventure. O que é que ela tem de bom para recordar? Só conheceu Tailmon quando já dois terços da temporada já tinham decorrido, viu imensas coisas más acontecendo. Ao contrário dos outros, teve pouquíssimas oportunidades para momentos tranquilos com Tailmon, para formar laços com ela.

 

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Nesse aspeto, faria mais sentido se ela tivesse adotado o visual de 02 (até porque cheguei à conclusão há pouco tempo de que a Hikari de 02 é a melhor Hikari). Mas, uma vez mais, do ponto de vista do meta, compreendo a decisão.

 

Menoa envia um enxame de Eosmon para o Mundo Real, à caça dos Escolhidos que faltam. Alguns deles são vencidos e trazidos para a Terra do Nunca, mas muitos conseguem fazer frente aos Eosmon. Destaque para os miúdos de 02, que têm aqui a sua oportunidade para brilharem.

 

Entretanto, Taichi e Yamato tentam lutar contra Menoa, mas passam por dificuldades. Para começar, Omegamon não chega para fazer frente a Eosmon – sobretudo quando esta absorve Menoa. A parte que custa mais é ver os próprios amigos impedindo os dois jovens – os dois homens – de lutar. Começando logo por Hikari e Takeru, mesmo para doer. E depois os companheiros Digimon atacam-nos.

 

Os outros Escolhidos e seus Digimon só despertam quando Taichi, em desespero de causa, sopra o apito da irmã, tal como fizera no primeiro filme. Um som que, tal como em Tri, atravessa mundos e é ouvido por Sora, no Mundo Real.

 

Pelo meio, Agumon e Gabumon dizem a Taichi e Yamato que não se importam que eles cresçam, que querem que eles cresçam, mesmo sabendo o que acontecerá aos Digimon. Porque sabem que, de uma maneira ou de outra, estarão sempre juntos. 

 

É com esse espírito que ocorre a última digievolução: novas formas do Agumon e do Gabumon, aparentemente num nível ainda superior ao Estremo. Parece que nem sequer têm nome para além de Agumon Laços de Coragem e Gabumon Laços de Amizade. Não interessa: esta é a despedida, é o canto do cisne, Ao som da lindíssima Sono Saki e.

 

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Tenho qualquer coisa nos olhos. E na garganta…

 

Com a ajuda dos novos Digimon, Taichi e Yamato derrotam Eosmon e resgatam Menoa das suas próprias recordações. Fica a dúvida sobre se, a certa altura, a jovem começou a ser manipulada por Eosmon, se Eosmon se estava a aproveitar da dor dela. Em todo o caso, quando regressam ao Mundo Real, Menoa entrega-se a Imura sem luta. Ao mesmo tempo, as vítimas do Eosmon acordam todas sem sequelas aparentes, junto dos seus Digimon. Um final feliz para elas.

 

Isto é, por agora. Pelo menos no que toca aos mais velhos, ao grupo de Adventure e aos Escolhidos da mesma idade, serão apenas mais algumas semanas, meses ou, no máximo, poucos anos até aparecer a contagem decrescente nos seus dispositivos.

 

Falta ainda a parte mais dolorosa, mas vai ter de ficar para amanhã. Continuem por aí!

Digimon 02 #9 - Recuperando o controlo

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Ken é o vilão durante quase metade de 02 antes de ser integrado no grupo dos heróis Antes de ser desmascarado como Imperador Digimon, as Crianças Escolhidas conheciam-no como um famoso menino-prodígio, com capacidades académicas e atléticas sobrenaturais. Ninguém suspeitava que, nos seus tempos livres, aquele pequeno génio divertia-se construindo Torres Negras no Mundo Digital e torturando Digimons indefesos.

 

Descobrimos, mais tarde, que Ken pensava que tudo aquilo não passava de um jogo de computador. Porém, ao rever agora os primeiros episódios de 02, não acreditei que isso explicasse tudo. Ken dá sinais de ser um autêntico sociopata. Eu, pelo menos (e qualquer pessoa minimamente decente, espero), nunca trataria criatura nenhuma daquela forma, mesmo que pensasse que não eram reais, que não passavam de personagens num jogo de computador - sobretudo se estas fossem capazes de comunicar comigo, gritar de dor, pedir clemência. E o que achava Ken que as outras Crianças Escolhidas eram? Meros adversários para ele derrotar? Jogadores que levavam tudo aquilo demasiado a sério? Que, se Ken os "matasse" (e ele tentou), para eles seria apenas "Game Over"? A única explicação que me ocorre é a Semente da Escuridão ter catalisado muitas destas acções - e mesmo assim não deixa de ser um tanto ou quanto rebuscado.

 

A verdade é que Ken tem um passado trágico e foi, pelo menos em parte, para fugir a ele que se tornou Imperador Digimon. O jovem tinha um irmão mais velho, Osamu. Como em quase todos os relacionamentos entre irmãos, o relacionamento tinha momentos de amor e momentos de ódio. Por um lado, Osamu ensinara-lhe a soprar bolas de sabão. Por outro lado, irritava-se quando Ken mexia nas coisas dele e, visto ser um aluno brilhante, recebia todas as atenções dos pais. Numa altura em que, julgo eu, Ken já tinha visitado o Mundo Digital e sido infetado com a Semente da Escuridão, Ken chega a desejar que Osamu desaparecesse.

 

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E, de uma forma melodramática e extremamente cliché, Osamu morre pouco depois, atropelado.

 

Como seria de esperar, Ken entra numa espiral depressiva depois da morte do irmão, atormentado pelo luto e pela culpa. Os adultos da sua vida não reparam nisso, tirando Oikawa. Longe de ajudá-lo, Oikawa aproveita-se da dor e solidão de Ken para executar o seu plano. Através de um sinistro e enigmático e-mail anónimo, Oikawa manipula Ken, enviando-o até ao Mar Negro, onde o seu Dispositivo Digital é contaminado pela Escuridão. Desta forma, Ken inicia o seu percurso como Imperador Digimon, onde procura recuperar o controlo que perdera sobre a sua vida quando Osamu morrera. Sem fazer ideia que, longe de recuperar o controlo, ao se tornar Imperador Digimon Ken abdica ainda mais da sua vontade própria.

 

Conforme julgo já ter dito aqui no blogue, nestas coisas não sou de lágrima fácil. No entanto, cheguei a lacrimejar quando revi o episódio em que Ken, depois de perceber que o Mundo Digital era mais do que um jogo de computador e que os Digimons são seres vivos, depois de perder Wormmon, Ken revisita tudo isto. A sua redenção começa quando, no fim do episódio, Wormmon renasce e Ken faz as pazes com os pais, com a memória do irmão e consigo mesmo.

 

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Queria, aliás, falar rapidamente sobre os pais de Ken. É difícil não sentir compaixão para com eles. Eles cometeram erros com ambos os filhos, mas são erros humanos, que qualquer pai ou mãe poderia cometer. Deixaram-se levar pelo brilhantismo, primeiro de Osamu, depois de Ken, sem pensar na felicidade deles, mesmo na sua sanidade mental, no caso de Ken. O filho mais velho morre. Por entre a sua própria dor, não reparam no sofrimento do filho mais novo e/ou não conseguiram ajudá-lo, deixando suscetível às maquinações de terceiros. Quando Ken se transforma num prodígio, os seus pais pensam que recuperaram o filho que tinham perdido. Mais tarde, o filho desaparece-lhes durante algum tempo (a ideia que fica é que pensam que ele se suicidara). Foram bonitos os vários momentos em que os pais de Ken admitiram os seus erros. Também gostei de, em episódios posteriores, ir vendo o alívio e alegria da mãe de Ken quando este pede autorização para passar a noite em casa de Davis, ou quando Ken convida os amigos a sua casa - tudo provas de que o filho se estava a transformar numa criança saudável e feliz de novo.

 

Conforme fui referindo nas entradas anteriores, as Crianças Escolhidas acabam por perdoar Ken, cada uma na sua altura, cada uma à sua maneira. Agora que penso nisso, o único dos heróis que não interagiu em particular com um Ken em tentativa de redenção é T.K., se a memória não me falha. Tal como disse antes, Cody é o último a perdoá-lo. Fá-lo ao aceitar o convite de Ken para a festa de Natal em sua casa - depois de vários episódios lidando com BlackWarGreymon e da conversa com Azulongmon, altura em que, suponho eu, Cody terá começado a perceber que as coisas nem sempre são a preto e branco, ao contrário do que este sempre acreditara.

 

Porém, o desenvolvimento de Ken não acaba aqui. Na quarta parte do segundo arco, Oikawa rapta-o e conta-lhe tudo: que sabe que Ken foi infetado por uma semente da Escuridão, que esta é a responsável pelas suas capacidades atléticas e académicas sobrenaturais, mas que, como contrapartida, predispõe-no para as Trevas. O plano inicial de Oikawa era encher o Mundo Digimon de Torres Negras, que alterassem o equilíbrio entre o Mundo Real e o Digital, permitindo-lhe visitar o Mundo Digimon. Quando isso falhou, Arukenimon e Mummymon encorajaram BlackWarGreymon a destruir as Pedras Sagradas (não me parece que isto fizesse parte do plano de Oikawa, parece-me mais um acaso feliz e... conveniente, mas também, conforme referi aqui, esse mini-arco fez pouco sentido).

 

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Quando isso falhou, enquanto as Crianças Escolhidas andavam ocupadas destruindo Torres Negras por todo o Mundo, Oikawa e os seus minions, Arukenimon e Mummymon abordaram várias crianças inseguras e de baixa auto-estima, convencendo-lhes que podiam dar-lhes os super-poderes que haviam feito de Ken um menino-prodígio. E, de facto, quando Oikawa rapta Ken, a sua Semente da Escuridão (que deixara de funcionar no momento em que Ken inicia a sua redenção) é extraída e implantada nessas Crianças. Quando as Sementes desabrochassem, Oikawa usaria o seu poder para abrir um portal para o Mundo Digimon.

 

Quando era miúda, esta história das Sementes da Escuridão perturbava-me, como perturbaria qualquer criança ou adolescente pressionado pelo desempenho escolar, quer pelos pais, pelos professores ou por eles mesmos. Mesmo hoje, acho assustadoramente realista que uma criança, e mesmo um adulto, esteja disposto a vender a sua alma para se tornar magicamente sobredotado.

 

Na altura em que Ken é finalmente libertado, os amigos tinham passado as últimas horas lutando contra os minions de Daemon. Eventualmente, as seis Crianças Escolhidas enfrentam Daemon diretamente. No entanto, os heróis não conseguem acabar com ele, nem com todos os seus Digimons na sua máxima força. Uma solução proposta é encerrá-lo num sítio qualquer, onde não pudesse fazer nada. Nessa altura, Ken revela que tem o poder de abrir um portal para o Mar Negro. 

 

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Este é o clímax do desenvolvimento de Ken. Ele nunca escolhera nada do que lhe acontecera nos últimos anos da sua vida. Não escolhera perder o irmão. Não escolhera... bem, ser uma Criança Escolhida. Não escolhera ser infetado por uma Semente da Escuridão nem ser manipulado por Oikawa para que se tornasse o Imperador Digimon. E, no entanto, naquele preciso dia, Ken vira outras crianças escolherem aquilo que arruinara a sua vida. Ao oferecer-se para abrir o portal para o Mar Negro, Ken reconhece o seu lado obscuro, um lado que, mesmo sem a Semente da Escuridão, provavelmente fará sempre parte dele. Porém, naquele momento, não era Arukenimon, nem Oikawa, nem mesmo a própria Escuridão a ditar os termos, a controlar a situação. Era Ken. Ele usará a própria Escuridão para derrotar a Escuridão.

 

Não que seja fácil. A agonia que Ken sente enquanto tenta resistir à influência das Trevas e/ou do Mar Negro é clara e... sonora. Mas Ken não está sozinho. Nunca teria conseguido anular a influência da Semente da Escuridão se estivesse sozinho, se não tivesse Wormmon, os seus pais, as outras Crianças Escolhidas. São precisamente elas a emprestar-lhe força e coragem para abrir o portal. É de assinalar que a primeira pessoa que corre a ajudar Ken é Kari, que também já tivera de luar contra a influência do Mar Negro. E que a última pessoa, quem relembra a Ken tudo o que já conseguira até ao momento, quem faz o clique final é Davis: aquele que, desde o primeiro momento, acreditara na melhor faceta de Ken.

 

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Este é o melhor momento de toda a temporada, o equivalente ao momento de Tai e Matt em Adventure que referi aqui. Quando Ken regressa a casa no final desse dia, conta finalmente toda a verdade aos seus pais. 

 

O mais triste é que Oikawa, a pessoa que manipulou Ken, acaba por ter um percurso semelhante à da criança que usou como marioneta. Mas não será ainda sobre ele que falaremos na próxima entrada. Existe uma certa criatura cheia de dúvidas existenciais que merece a nossa atenção...

Digimon 02 #5 - A herdeira da princesinha

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Yolei é quase uma cópia de Mimi, quer nas qualidades, quer nos defeitos. A única diferença entre ela e Mimi é o facto de ter um lado geek, de ser a única capaz de falar com Izzy na sua própria língua. Infelizmente, esse lado mais geek acaba por aparecer pouco na história. Para todos os efeitos, Izzy continua a ser o cérebro das Crianças Escolhidas.

 

Tal como Mimi - por quem, de resto, nutre uma espécie de girl crush - Yolei diz o que pensa e sente, independentemente das circunstâncias, chegando, por vezes, a revelar-se mimada e egoísta. No entanto, tal como Mimi, Yolei tem o coração no sítio certo. Na verdade, este lado mais bondoso e adverso à violência revela-se mais cedo do que aconteceu com Mimi em Adventures - talvez porque Yolei não tem de se queixar da falta de comida, água corrente, etc, visto que regressa a casa todos os dias, depois das atividades extracurriculares

 

Yolei recebe os Digiovos do Amor (herdando a virtude atribuída a Sora) e da Sinceridade/Inocência (virtude de Mimi). Em relação ao segundo, não há surpresa conforme expliquei acima. A atribuição do Digiovo do Amor é mais questionável. Yolei não é propriamente afetuosa da maneira que Sora é e definitivamente não tem perfil para mamã do grupo. A jovem, no entanto, tem dois momentos em que justifica o Digiovo - por sinal, quando desbloqueia Digievoluções sem serem Armo.

 

O primeiro momento decorre quando Yolei consegue a sua Digievolução para nível Campeão. Na verdade, é a única que se compara às equivalentes em Adventures: sempre em momentos significativos para as Crianças Escolhidas em questão, no culminar de um episódio dedicado a elas. Momentos emocionantes que, conforme referi antes, inebriam e viciam. Na verdade, este momento acaba por se assemelhar mais às Digievoluções para nível Super Campeão em Adventure. No entanto, depois de Davis ter desbloqueado a sua para se exibir perante uma rapariga (não me canso de frisar esse pormenor) e de Cody ter desbloqueado a sua de maneira extremamente anticlimática, num episódio em que a atenção estava voltada para outras coisas, a de Yolei foi a única que empolgou de maneira comparável a Adventures.

 

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Especificando, no episódio em questão, as Crianças Escolhidas debatem se podem confiar ou não em Ken, que abdicara do seu estatuto como Imperador Digimon apenas episódios antes. Tal como disse na entrada anterior, Davis é quem está mais aberto a Ken. Cody, por sua vez, está no extremo oposto. Algo que não favorece o caso de Ken perante os heróis é o facto de ele andar a matar os Digimons hostis que os têm atacado - até ao momento, as Crianças Escolhidas não tinham precisado de recorrer a esse extremo, tirando com Kimeramon.

 

Um aparte só para falar destes escrúpulos. Uma das críticas que são apontadas conjuntamente a Adventure e 02 é que, na primeira temporada, as Crianças Escolhidas não se ralavam com os Digimons que matavam. Eu concordo, mas também compreendo que, em Adventure, não havia muito tempo para debates éticos quando os Digimons hostis faziam tudo por matá-los e os miúdos não podiam voltar para o Mundo Real. 

 

Eventualmente, as Crianças Escolhidas descobrem que os Digimons que têm enfrentado foram criados a partir de Torres Negras. Sendo meras criações sem consciência (ou assim parece...), não há problema moral em matá-los. Nesse momento, Yolei percebe que se enganou em relação a Ken, que ele está verdadeiramente a tentar redimir-se. Pede-lhe perdão mentalmente e... Hawkmon Digievolui para Aquilamon. Sabendo que Yolei vai, eventualmente, casar-se com Ken, não sei se existirão sementes de romance nesta Digievolução.

 

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Outra prova de Amor, ainda que não-romântico (ou será? Fica ao critério de cada um... e também à imaginação...) dá-se quando desbloqueia a Digievolução ADN com Kari. As duas fazem um par interessante pois Kari é sobrenaturalmente altruísta, corajosa e, ainda que não propriamente tímida, é mais reservada que Yolei. No episódio em que conseguem a Digievolução ADN, Yolei vê tanto Kari como Ken procurando resistir à influência do Mar Negro. Quando Kari tem um ataque de histeria pouco característico, em que sente as Trevas engolindo-a, Yolei acalma-a. Primeiro com... uma estalada. Depois, dizendo-lhe que nunca deixará que a Escuridão a leve. É um momento bonito, de ligação entre as duas raparigas, permitindo que Gatomon e Aquilamon Digievoluam para Silphymon. 

 

O pior é que não passa disso, de momentos. Eu gostaria de ter visto mais deste lado mais gentil de Yolei. No entanto, como acontece com Davis, no fim de 02, o carácter de Yolei pouco ou nada mudou. Como prova o desejo que se manifesta no Mundo dos Sonhos: ser filha única. Para além de não lhe conquistar simpatia, fica a frustração de quase não termos visto nada destes supostos ciúmes antes (eu só digo "quase" por uma questão de precaução, porque eu não me recordo de alguma vez ter visto Yolei em verdadeiro conflito com os irmãos). Além disso, depois de a larga maioria das histórias pessoais em Adventures terem incluído a resolução de conflitos familiares, esta ponta por atar na história de Yolei incomoda.

 

Infelizmente é mais um exemplo do machismo em Digimon, já que, em duas temporadas, a única personagem feminina com um desenvolvimento decente é Mimi - e, mesmo assim, não tanto como personagens masculinas como Tai, Matt e, conforme veremos a seguir, Cody, Ken e Oikawa. É precisamente de Cody que falaremos na próxima entrada.

Digimon 02 #4 - Um líder ainda mais imperfeito

As Personagens são o grande calcanhar de Aquiles de 02. Não sei se é por mera nostalgia da minha parte, se é mesmo por má escrita nesta temporada ou por Adventure ter sido muito mais guiado pelo seu elenco de heróis mas, tal como insinuei antes, não gosto das Crianças Escolhidas em 02 da mesma maneira como gosto das suas antecessoras. Ainda agora, em Tri, ao ver o elenco de Adventures reunido de novo, reavivando cumplicidades, trocando picardias, diverti-me como em nenhum momento me diverti em 02.

 

No entanto, para ser justa, tenho de dizer que todas as Crianças Escolhidas nesta temporada tiveram, pelo menos, um momento que me agradou.

 

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Vou começar pela personagem de que gosto menos. Davis é o líder do grupo, nomeado por Tai que lhe confia os seus icónicos óculos. Porém, apesar de Tai ter sido um líder imperfeito, Davis é uma fraca imitação dele. Em termos de personalidade, é muito semelhante ao antigo líder - alegre, extrovertido, entusiasta, impaciente. No entanto, para além disso, é exasperantemente fútil e oco e, ao contrário do que aconteceria em Adventures, esses defeitos não são corrigidos. A maior prova da superficialidade de Davis é a maneira como desbloqueia a Digievolução para nivel Campeão: obrigando o seu companheiro, Veemon, a Digievoluir para impressionar Kari, por quem nutre uma irritante paixoneta.

 

O mais triste? Davis consegue a Digievolução. Quando Tai tentou fazer o mesmo, por motivos bem mais legítimos que tentar conquistar uma rapariga (a irmã de Tai, por sinal), a coisa correu horrivelmente mal, mas com Davis não.... Nem no Mundo Digimon há justiça!

 

Eu, sinceramente, dispensava esta atração de Davis por Kari. Em Adventures, nunca houveram paixonetas (tirando uns Digimons que queriam sair com Mimi... *arrepios*) e vejo agora que era uma coisa boa. Há histórias em que ligações românticas não acrescentam nada. A ideia que fica é que puseram Davis a perseguir Kari só para que a personagem tivesse algo que fazer quando não liderava as Crianças Escolhidas.

 

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Na verdade, a superficialidade de Davis, longe de corrigida, chega a ser recompensada. Personagens como Yolei e Cody têm uma certa tendência para cederem ao desespero e desistirem de lutar, precisando de Davis para obrigá-las a continuar, em parte por coragem legítima, em parte porque... ele não pensa muito nas coisas. No final de 02, no Mundo dos Sonhos, quando as Crianças Escolhidas estão demasiado assustadas para lutarem, Myotismon (que adota a forma de MaloMyotismon) encerra-as numa realidade ilusória, em que os seus maiores desejos se realizaram. Davis é o único em quem a ilusão não funciona, pois ele não tem problemas nenhuns, é uma criança satisfeita e feliz, não deseja mais nada que não fazer o seu trabalho como Criança Escolhida. De certa forma, é realista. A ideia que eu tenho é que as pessoas de mente mais simples, sobretudo crianças, de uma maneira geral, costumam ser mais felizes, ao contrário do que acontece as mais inteligentes. No entanto, a verdade é que pessoas cem por cento felizes e satisfeitas não dão grandes personagens.

 

Uma coisa admito: teve piada quando, num final bastante sombrio, perguntaram a Davis qual era o seu maior sonho e ele saiu-se com:

 

- Quero ter um restaurante italiano!

 

De qualquer forma, Davis redime-se aos melhos olhos pelo seu apoio a Ken, quando este tentava reconstruir a sua vida e redimir-se dos seus feitos como Imperador Digimon. Não sei se isto é por mera ingenuidade, não sei se é esta a prova de que Davis merece o Digiovo da Amizade (o episódio em que ele o obtém não convence), mas ele é o primeiro a perdoar Ken e eu respeito-o por isso. Aliás, ambos conseguem a Digievolução ADN quando Davis diz a Ken para parar de ter pena de si próprio e o dissuade de se sacrificar pelo Mundo Digital. Se Davis não lhe tivesse estendido a mão, Ken não teria saído do buraco onde caíra - só por isso, este líder pouco dotado e, por vezes, irritante, merece louvores.

 

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