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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Linkin Park – One More Light (2017) #2

Segunda parte da minha análise a One More Light. Podem ler a primeira parte aqui.

 

ALERTA: Este texto irá abordar temas pesados como depressão, suicídio e causas de suicídio. Se estes temas forem um gatilho mental ou, como dizem os anglo-saxónicos, triggers no sentido de evocarem recordações traumáticas ou outras formas de sofrimento psicológico aconselho-vos a não o lerem. 

 

Se vocês se debatem com pensamentos suicidas ou desejos se fazerem mal a vocês mesmos, por favor, não o façam, peçam ajuda. Deixo aqui linhas de apoio tanto em Portugal como no Brasil. Quem conhecer mais linhas, por favor, deixe nos comentários. O mundo precisa de vocês, peçam ajuda!

 

 

Falemos, agora, sobre os temas cantados por Chester (isto é, tirando aqueles que analisámos na primeira parte). Começando por Nobody Can Save Me, que abre o álbum. Este é outro caso em que não gosto muito do acompanhamento musical mas gosto da melodia e interpretação. A letra fala de sintomas depressivos, de “soluções falsas” – podem ser toxicodependência ou pura e simplesmente isolamento, solidão – mas de uma forma algo vaga. Um pouco como Battle Symphony. 

 

Uma coisa devo dizer, no entanto: numa das vezes que ouvi esta música nas primeiras semanas, ou meses, após a morte de Chester, senti um nó na garganta ao ouvir o refrão. “Tell me it’s alright. Tell me I’m forgiven tonight”. Como se fosse o próprio Chester a pedir perdão por ter partido.

 

Vou mesmo dizê-lo: o desempenho vocal de Chester é a melhor parte deste álbum. Chester era conhecido sobretudo pelos seus gritos inigualáveis, mas One More Light deixou provado que ele também sabia cantar.

 

Halfway Right é, para além de Heavy, a única música em One More Light em que Chester é creditado como compositor. Dá para notar um pouco na letra que, ao contrário de outras neste álbum, pinta cenários mais ou menos específicos em vez de metáforas vagas. Chester fala de se drogar em adolescente com outros miúdos, de certa noite ter ido tão longe que, quando deu por si, estava ao volante de um carro.

 

Medo…

 

Na segunda parte, a letra fala sobre ignorar os conselhos dos mais velhos – de se rir na altura e, agora, reconhecer que tinham razão. Havemos de regressar a esse tema.

 

 

Em suma, gosto da letra, mas a instrumentação diz-me pouco. Não gosto muito da melodia, apesar de Chester a interpretar bem. Por fim, acho o final demasiado repetitivo.

 

Agora vamos falar sobre aquelas que, na minha opinião, são as melhores músicas do álbum, tanto pela letra como por, ao contrário das restantes, terem uma instrumentação decente, mesmo boa.

 

Talking to Myself é a música mais pesada em todo o One More Light – apesar de poder ser descrita como “apenas” pop rock. Gosto imenso da introdução com as notas de órgão e, depois, a guitarra elétrica e a bateria. 

 

A letra de Talking to Myself tem um conceito interessante. Como vimos antes, foi escrita da perspectiva de Talinda, a esposa de Chester, enquanto o marido passava pelas suas piores fases. Fala da solidão que ela terá sentido, do comportamento alterado dele (consta que é um dos sintomas de toxicodependência), a tendência dele para se isolar das pessoas de quem gosta (um sintoma de depressão), a incapacidade de comunicar.

 

É daí que vem o título da canção. Talking to Myself, falando conosco mesmos, falando para uma parede. 

 

Como vimos antes, não terá sido Chester a escrever esta letra. No entanto, pergunto-me quanto disto terá vindo da própria experiência de Mike, Brad e os outros, que acompanharam os altos e baixos do amigo durante duas décadas.

 

 

Depois de Chester morrer, a canção ganhou um significado adicional, pelo menos para mim. Nós, os fãs, que temos falado e falado sobre Chester desde aquela quinta-feira três vezes maldita. Chorado por ele, gritado por ele, dizendo o quanto o adoramos, as saudades que temos dele… 

 

...e não sabemos se ele nos consegue ouvir. Não sabemos se não estamos, lá está, a falar connosco mesmos, para uma parede, para o vazio.

 

A música de que vamos falar a seguir é a melhor e a mais dolorosa de todo o álbum. One More Light, que também dá o nome ao disco.

 

Musicalmente é perfeita. Minimalista, apenas com órgão, piano, guitarra e pouco mais – contribuindo para o tom intimista, casando bem com a melodia e letra tristes. A interpretação de Chester é igualmente irrepreensível – eu destacaria os vocais agudos de “I do” no fundo, durante o solo. 

 

Agora a letra. One More Light foi inspirada pela morte de Amy Zaret, uma amiga da banda, que morreu em outubro de 2015 após uma curta batalha com um cancro. O co-compositor, Eg White, também tinha perdido um amigo. Suponho que os outros membros dos Linkin Park se terão inspirado em perdas suas – Chester, por exemplo, tinha perdido o padrasto. Poucas coisas são mais universais, infelizmente.

 

A letra descreve bem as diferentes manifestações do luto, sobretudo na segunda parte: a raiva, a sensação de injustiça, o lugar vazio à mesa, os momentos em que a dor vem do nada e tira-nos o tapete debaixo dos pés. O refrão e o título reforçam a ideia de que é apenas uma pessoa entre mil milhões, uma insignificância se olharmos para o planeta como um todo, mas que afeta profundamente as pessoas mais próximas.

 

 

Faz pensar duas vezes sobre coisas como as estatísticas do Coronavírus, por exemplo. “Só” morreram trinta pessoas hoje? Bem, são só trinta famílias, trinta grupos de amigos e conhecidos cujas vidas nunca mais serão as mesmas depois disto. Morrem pessoas todos os dias, sim. Mas é sempre uma grande perda para alguém.

 

Por outro lado, o verso “who cares if one more light goes out? Well I do” foi usado para evitar uma morte por suicídio no ano passado. É apenas um exemplo das vidas que a morte de Chester pode ter salvo, ao inspirar uma mudança de mentalidades sobre a saúde mental.

 

O que me leva à primeira estância da canção. Acreditem ou não, dois ou três dias antes da morte de Chester, estive a ver a apresentação de One More Light no Jimmy Kimmel (abaixo). Se não me engano, foi no dia em que o álbum saiu. A ideia era tocarem Heavy, o primeiro single. No entanto, a banda decidiu tocar One More Light em homenagem a Chris Cornell, um grande amigo de Chester, morrera por suicídio na véspera – fez ontem três anos. Ontem, aliás, saiu uma entrevista inédita de Chester falando sobre Chris.

 

Consta que, nos ensaios, Chester mal conseguia cantar. Mesmo na apresentação ao vivo, em direto, dá para ver que ele (à semelhança dos outros, na verdade) estava à beira das lágrimas. E aquela falha a meio do verso, no último refrão.

 

Dizia eu que, para aí na segunda-feira da semana fatídica, estava eu a ver esta apresentação. A pensar e a anotar no meu caderno que os primeiros versos de One More Light falam de sofrimento invisível aos demais – podia ser sofrimento físico, associado a uma doença como o cancro, podia ser sofrimento psicológico, por depressão, como aquilo que matara Chris Cornell.

 

Ah, se eu soubesse…

 

 

Na quinta-feira seguinte, quando ainda estava a tentar processar a notícia, pus-me a ouvir a música, esta mesma apresentação. Quando chegou à parte do “Can I help you not to hurt anymore?” chorei pela primeira vez. Eu teria tentado ajudar se pudesse, teria feito o possível para evitar aquele desfecho, mas não pude fazer nada. Ninguém pôde.

 

Os Linkin Park referiram antes que tinham escolhido esta música para dar o título ao álbum – quando nenhum dos álbuns anteriores partilhara o nome com uma das suas faixas – precisamente por a considerarem o centro de gravidade emocional do álbum. E foi isso que aconteceu… mas não da maneira que previram. One More Light foi a canção em volta da qual fãs enlutados se uniram depois da perda de Chester – meros dois meses após a música ser lançada. Chester cantou o seu próprio requiem.

 

Eu adoro a música mas não a oiço muitas vezes. Lembra-me as primeiras semanas após a tragédia. É demasiado dolorosa, sobretudo se não estiver à espera.

 

Talvez devesse ter deixado One More Light para o fim, mas não queria terminar esta análise numa nota tão triste. Assim, vamos encerrar com Sharp Edges, que também encerra o álbum.

 

Esta tem uma sonoridade que no início, confesso, estranhei: mais folk do que estava à espera. E também nunca tinha imaginado Chester cantando algo como “Momma always told me…”. Mas não demorei a entranhar e, hoje, gosto bastante desta música.

 

 

A letra de Sharp Edges lembra-me um pouco Into You, do projeto lateral de Chester, Dead By Sunrise. À semelhança de Into You, Sharp Edges explora o paradoxo da vida de Chester. E, na verdade, na vida de toda a gente, em diferentes graus. Na maneira como educamos crianças.

 

Eu não tenho filhos, mas sei que existe uma linha ténue que separa proteger as nossas crias e deixá-las ganhar independência. Todos preferíamos que jogassem pelo seguro, que não saíssem dos limites, que optassem pelos livros em vez das drogas. Mas também já está mais que provado que proteger as crianças em demasia acaba, mais cedo ou mais tarde, por ter o efeito oposto.

 

Além de que, da experiência que tenho, há coisas que os mais velhos não nos conseguem ensinar, por muito que tentem. Há coisas que temos de aprender por nós mesmos. Conheço gente que, por exemplo, se arrepende de não ter estudado mais quando era jovem – e que agora tem filhos que estão a cometer os mesmos erros. 

 

Mesmo eu, que sempre fui uma menina certinha, me arrependo de muitas coisas que fiz (ou não fiz) no início da minha vida adulta. Se tiver filhos, vou tentar evitar que cometam os mesmos erros – mas será que eles ouvirão? Eu não ouvi os meus pais.

 

Falando especificamente de Chester, toda a gente sabe que ele teve uma infância e adolescência horríveis que o marcaram para a vida toda. Devia ter sido mais protegido pelos adultos da sua vida. Ao mesmo tempo, tal como admitiu em Halfway Right, o próprio Chester terá tomado uma série de más decisões e sofreu as consequências.

 

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E no entanto… seria ele o Chester que conhecíamos e adorávamos sem esse passado? Seria ele capaz de criar a música que criou e tocou tanta gente – salvando vidas, tanto em vida como em morte, sentando-se no escuro ao lado dos seus ouvintes, como escrevem aqui – teria ele tido os seus seis filhos, conhecido Talinda? Talvez fosse uma pessoa mais saudável, mais feliz, talvez ainda estivesse entre nós – mas seria o mesmo?

 

Os próprios Linkin Park escreveram na sua mensagem de despedida que sempre souberam que os demónios que levaram Chester faziam parte do pacote. Eu demorei um bocadinho mais a chegar aí. 

 

Isso significa que a morte de Chester era inevitável? É uma das perguntas por responder que se têm mantido nestes últimos três anos: se haveria maneira de evitar isto, o que se podia ter feito.

 

Eu recuso-me a acreditar que era inevitável. Pura e simplesmente recuso-me – tal como não acredito que a morte por suicídio alguma vez seja solução. Vale sempre a pena pedir ajuda e/ou ajudar uma pessoa em dificuldades. Mesmo que só sirva para adiar o desfecho.

 

Consta que Chester podia ter morrido por suicídio mais cedo, algures em 2005 ou 2006. Eu só me tornei fã em 2007. Se ele tivesse morrido nessa altura não estaria aqui a escrever este texto. Estou grata por aqueles dez anos extra. 

 

Torno a repetir a mensagem do início do texto: peçam ajuda. Vocês são importantes, vocês fazem falta, o mundo não é o mesmo sem vocês. Cada dia que passam com aqueles que gostam e que gostam de vocês é um dia ganho. Não deixem de pedir ajuda. 

 

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Por outro lado, só o facto de a perda de Chester ter motivado Talinda, Mike e os outros membros da banda a fazerem campanha pela saúde mental, contribuindo para a mudança na linguagem em torno do tema, só o facto de, como vimos acima, um verso de One More Light ter salvo uma vida, torna tudo isto menos insuportável. Chester continua a salvar vidas. 

 

E é isto One More Light. Como veem, deixa muito a desejar mas não é tão mau como muitos o pintam. Quando estava a planear esta análise antes de Chester morrer, uma das minhas notas para as conclusões era, parafraseando, “A coisa boa no meio disto tudo é que os Linkin Park estão sempre a mudar de estilo. Mesmo que não gostemos deste trabalho, o próximo será diferente”.

 

Pois…

 

Tecnicamente, Mike lançou um álbum a solo no ano seguinte e esse foi, de facto, diferente. Mas não sei se conta

 

De qualquer forma, no fim disto tudo, eu aceitaria vinte ou trinta anos de álbuns piores que One More Light se isso significasse que Chester ainda estaria vivo. Quanto mais não fosse porque os Linkin Park tocariam sempre os velhos êxitos em concerto. Mais: eu aceitaria que os Linkin Park se dissolvessem como banda, que Chester nunca mais criasse música. Ao menos eu saberia que ele estava por aí, com a esposa, com os filhos, com os amigos. 

 

No cômputo geral das coisas, um álbum menos conseguido está longe de ser o fim do mundo. Perder pessoas, perder heróis, é que é horrível. Bolas, uma pandemia como a que estamos a viver, que condiciona as nossas vidas de uma maneira inédita, é que é horrível. Se todos os nossos problemas fossem álbuns maus dos nossos artistas ou bandas…

 

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Ao menos já escrevi sobre One More Light. Agora já posso escrever sobre Hybrid Theory e Meteora, como desejo há imenso tempo. Não assim tão cedo, quero aproveitar o vigésimo aniversário do primeiro álbum dos Linkin Park. E um dia destes dou uma nova oportunidade a A Thousand Suns. 

 

Foi doloroso escrever partes deste texto mas, no geral, a perda de Chester já não dói tanto. Parecendo que não, já passaram quase três anos, já aconteceu tanta coisa desde então. E, como já referi em textos anteriores, de uma maneira estranha, escrever sobre isso faz com que, mais tarde, doa menos. Só com este texto, passá-lo a computador custou bem menos do que escrever o primeiro rascunho.

 

Não sei se conhecem a teoria da bola numa caixa com o botão da dor. No início do luto, a bola ocupa a caixa quase toda, não é preciso muito para que esta pressione o botão. Com o tempo a bola tende a diminuir – a um ritmo diferente para cada pessoa e podem existir alturas em que cresce de novo. Uma bola mais pequena prime o botão menos vezes. A bola nunca chega a desaparecer mas, regra geral, o tempo torna a situação mais fácil.

 

No meu caso, acho que tenho algum controlo sobre a bola. Sei antecipar as situações em que a bola carrega no botão: quando oiço One More Light, a música, quando penso muito no assunto (como tive de pensar para escrever este texto), quando me ponho a ver vídeos dos Linkin Park no YouTube – sobretudo deles, Chester, Mike, fazendo palhaçadas. Assim, procuro evitar estas situações. 

 

O futuro dos Linkin Park continua incerto. No entanto, ficou mais definido nas últimas semanas. Phoenix revelou que, antes de a pandemia ter tomado esta dimensão, a banda andava a criar música. Quando entraram em quarentena suspenderam os trabalhos, naturalmente, mas ainda hoje, de vez em quando, falam sobre o assunto, discutem ideias, no Zoom.

 

Aqui entre nós, eu estava com medo deste momento. A revelação de que os Linkin Park estão a criar música outra vez, o eventual anúncio de um álbum novo, o primeiro sem Chester. 

 

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Não me interpretem mal, eu sempre disse deste o início que apoiaria a banda no que quisessem fazer a seguir. Não significa que seja fácil para mim – pelo contrário, agora é que vai doer como o catano. 

 

Quando se fala nisso, repito para mim mesma “Ainda não estou pronta, ainda não estou pronta, ainda não estou pronta… Lido com isso na altura, lido com isso na altura, lido com issso na altura…”. É o que tenciono fazer. Ainda vai demorar até chegar esse momento, com o Coronavírus e tudo mais. Porém quando for mesmo oficial, tirarei um momento para processar, para lidar com as minhas neuroses, talvez desabafe aqui no blogue, mas, no fim, ficarei contente. 

 

A curto prazo, aqui no blogue o próximo texto será a análise a Petals For Armor, o álbum a solo de Hayley Williams, que saiu há coisa de dez dias. Já estou a escrevê-lo – andava a antecipar este texto há meses, quase desde que publiquei a análise às primeiras músicas, Simmer e Leave it Alone. Neste momento vou em cerca de trinta páginas A5 de notas (OK, com letra grande), ou seja, tenho muito a dizer sobre este álbum. Devo demorar um bocadinho... mas vou divertir-me imenso!


Continuem por aí.

Linkin Park – One More Light (2017) #1

Isto vai doer, mas se não arrancar este penso rápido agora, nunca mais o arranco.

 

ALERTA: Este texto irá abordar temas pesados como depressão, suicídio e causas de suicídio. Se estes temas forem um gatilho mental ou, como dizem os anglo-saxónicos, triggers no sentido de evocarem recordações traumáticas ou outras formas de sofrimento psicológico aconselho-vos a não o lerem. 

 

Se vocês se debatem com pensamentos suicidas ou desejos se fazerem mal a vocês mesmos, por favor, não o façam, peçam ajuda. Deixo aqui linhas de apoio tanto em Portugal como no Brasil. Quem conhecer mais linhas, por favor, deixe nos comentários. O mundo precisa de vocês, peçam ajuda!

 

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Os Linkin Park lançaram One More Light, o seu sexto (e até agora último) álbum de estúdio, há precisamente três anos. Ando a adiar a análise a esse álbum quase desde essa altura. O meu plano inicial era publicar esse texto durante o verão de 2017. Comecei a planeá-lo logo depois de publicar a minha análise a After Laughter. Já tinha inclusivamente escrito a introdução…

 

… mas depois Chester Bennington, um dos vocalistas, morreu

 

A análise ficou, assim, em águas de bacalhau. De início era por motivos de luto, conforme expliquei na altura. Mesmo passados um ano ou dois, já com a fase pior do processo para trás, fui continuando a adiar o texto sobre One More Light. Em parte porque tinha outros textos que queria escrever… mas também porque escrever esta análise não foi fácil e, vejo agora, o meu subconsciente sabia que ia ser assim.

 

Um dos principais motivos para ter custado tanto foi porque teria de dizer mal sobre o último álbum de Chester em vida. Sobretudo quando ele, na altura, estava tão entusiasmado com ele. Ao ponto de ter deixado críticas duras aos fãs que reclamaram do novo som – ele mais tarde retiraria estas palavras, mas agora, em retrospetiva, estas parecem um indício claro de que ele não estava bem. 

 

Sei perfeitamente que não é racional. Lá por ser fã, não tenho a obrigação de venerar automaticamente todo e qualquer material produzido pelos meus artistas ou bandas preferidos. Regra geral, costumo ter boa vontade para com os músicos do “meu nicho”, mas quem der uma vista de olhos pelos textos deste blogue dedicados a música, saberá que tenho sentido crítico. Não sou menos fã por isso. 

 

Da mesma forma, nenhum artista ou banda tem a obrigação de criar música perfeitamente talhada para os meus gostos.

 

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Dito isto tudo, por muito irracional e hipócrita que seja… quando há uma perda como esta é diferente. As pessoas não gostam de dizer mal dos mortos. Por um lado, não estão cá para se defenderem. Por outro, porque, depois de os perdermos, consolamo-nos recordando os seus melhores feitos. Não as coisas que ficaram abaixo das nossas expetativas. 

 

Em todo o caso, já prolonguei isto durante demasiado tempo. Até porque quero escrever sobre outros álbuns dos Linkin Park – nomeadamente Hybrid Theory e Meteora. Fazê-lo antes de escrever sobre One More Light ia parecer mal.

 

Muito bem, chega das minhas tretas, vamos a isto. Como tenho muito a dizer sobre este álbum, esta análise será dividida por duas publicações. A segunda parte virá ainda hoje, mais tarde. 

 

Os meus problemas com este álbum resumem-se a dois pontos. O primeiro diz respeito à instrumentação e produção da maioria das faixas. Conforme já tinha reclamado referido quando escrevi sobre Heavy (meu Deus, parece ter sido há séculos!), até aos trabalhos de One More Light, a banda compusera sozinha. Para este álbum, no entanto, os Linkin Park convidaram pessoas de fora para ajudarem na composição. 

 

Não tenho nada contra esse desejo por princípio. Há muito que me arrependi de ter falado em comercialismo na minha análise a Heavy. Também não tenho problemas com os Linkin Park fazendo música pop, menos agressiva – sobretudo depois de o álbum anterior ter sido o completo oposto.

 

O meu problema não é a ideia, a intenção. O meu problema é a execução – pelo menos no que toca à produção e instrumentação da maior parte das músicas. 

 

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Os Linkin Park sempre incorporaram elementos eletrónicos no seu som, bons elementos. As introduções de Crawling e Numb, Breaking the Habit, a sequência depois do segundo refrão em New Divide, álbuns como A Thousand Suns (destacando-se temas como Robot Boy e The Catalyst) e Living Things (destacando-se temas como Lost in the Echo e Burn it Down). Mesmo Post Traumatic é quase todo eletrónico – a instrumentação nem sempre é destaque, mas não prejudica. 

 

Na maior parte de One More Light, no entanto, o instrumental é uma mixórdia eletrónica, descaracterizada. Não percebo o que aconteceu. 

 

Segundo o que Mike explicou em entrevistas, eles mudaram o processo de composição para este álbum. Antes começavam com um instrumental, depois uma melodia compatível, depois a letra. Para One More Light, começavam com um conceito e/ou uma história pessoal que inspirasse a letra, compunham a melodia e, por último, o acompanhamento musical. 

 

Uma vez mais, nada contra, mas não percebo várias das decisões neste último passo.

 

Havemos de dar exemplos mais específicos mais adiante, quando falarmos sobre as faixas individualmente. Para já, o segundo problema que tenho com este álbum não é bem uma falha do mesmo, antes uma frustração minha. O facto de Chester só ter composto duas canções neste álbum, Heavy e Halfway Right (segundo o Genius, ele também terá composto One More Light, a música, mas o Wikipédia contradiz essa informação). 

 

Uma boa parte de One More Light, o álbum, foca-se em temas de depressão, toxicodependência, erros seus, má fortuna, amor ardente (OK, amor ardente nem por isso, pelo menos não neste álbum). Chester era aquele que, dentro da banda, sempre assumiu esse histórico. Qualquer pessoa assumirá que músicas como Nobody Can Save Me ou Sharp Edges serão sobre a vida dele. Corrijam-me se estiver enganada, já lá vão três anos, mas tanto quanto me lembro os próprios Linkin Park promoveram o álbum um pouco nessa direção. 

 

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Mas se Chester não é creditado como compositor nestas músicas, como podemos ter a certeza? Com sabemos se é mesmo Chester cantando sobre a sua perspetiva, os seus sentimentos, ou se foi Mike ou Brad colocando-se no lugar dele?

 

Dando um exemplo específico: o próprio Chester afirmou em entrevista que a letra de Talking to Myself coloca-se no ponto de vista da sua esposa, Talinda, enquanto observava o marido em modo autodestrutivo. Mas, lá está, o nome de Chester não consta da lista de compositores. Chester disse a Mike e aos outros o que escrever? Eles mesmos imaginaram-se no lugar de Talinda? Qual foi o nível de envolvimento de Chester?

 

Se as circunstâncias fossem outras, talvez não me preocupasse tanto com isto. No entanto, este foi o último álbum de Chester em vida, antes de morrer por suicídio, vítima de depressão – um dos temas abordados em One More Light. Não faria sentido ter uma maior participação de Chester, sabermos diretamente da boca dele, da caneta dele, o que se passava no seu coração?

 

Enquanto escrevo isto percebo que estou a ser injusta, a obcecar com algo que não se relaciona diretamente com One More Light. Nem sequer sei a quem dirijo estas críticas que não chegam a sê-lo. É a parte de mim que ainda se interroga porque é que Chester teve de partir tão cedo e daquela maneira, quando supostamente estava melhor, o que é que correu mal. E ressinto-me de One More Light por não dar essas respostas.

 

Não é justo, sei que não é. Quando os Linkin Park estavam a trabalhar neste álbum, não podiam adivinhar o que aconteceria dois meses após o lançamento. Não podiam adivinhar que teríamos todas estas perguntas para as quais ninguém tem resposta.

 

E no entanto… será que quero essa resposta? Será que quero saber exatamente o que falhou? Que ganharia com isso?

 

Estão a ver porque é que eu não queria escrever sobre este álbum?

 

 

Vou deixar as minhas tretas de lado (agora sim, deixo mesmo!) e começar a falar das músicas em si. Heavy foi o primeiro single de trabalho. Conforme referi antes, escrevi sobre ele na altura em que saiu. 

 

Apesar de ainda não gostar muito da canção, hoje compreendo-a melhor – depois de ter lido e ouvido declarações de Chester sobre a mesma. Este explicou em várias entrevistas – ao longo de toda a sua carreira, aliás, muito antes de Heavy – que a sua mente é… ou melhor, era um território hostil, que ele era o seu próprio pior inimigo. Chester possuía uma compulsão para ansiedade, pensamentos sombrios, autodestrutivos, em focar-se no negativo. 

 

Ele argumentava que toda a gente tinha essa tendência, em diferentes graus. Eu concordo e sei que tenho. Por exemplo, tenho um dia menos conseguido no trabalho e não consigo pensar noutra coisa durante o resto do dia – para no dia seguinte nem perceber ao certo o que me incomodava tanto. Ou então, sinto-me mais ou menos satisfeita e em paz e, de repente, começo a pensar “Ah, mas não te esqueças que tens de te preocupar com isto e isto e isto.”

 

Consta que é um mecanismo evolutivo. Os cientistas chamam-lhe “viés negativo”. Impede-nos de nos tornarmos complacentes, força-nos a estar atentos ao perigo, a anteciparmos ameaças, a evitarmos situações desagradáveis. 

 

Tem as suas vantagens em doses terapêuticas mas, como tudo na vida, o problema é quando se exagera. Pessoas com doenças mentais e/ou um passado traumático (vide Chester para ambos os casos) terão mais tendência para exagerar. A partir de certo ponto uma pessoa não consegue desligar esse modo negativo, não se consegue focar no presente, aproveitar o momento. Segundo Chester é uma luta constante. 

 

Se formos a ver, este não é um tema inédito na discografia dos Linkin Park. músicas como Given Up e sobretudo Papercut. Durante umas semanas tive vontade de ir ao vídeo de Papercut – um clássico dos Linkin Park, misturando rap e rock, bastante agressivo – no YouTube e deixar como comentário algo do género “So you’re saying you don’t like your mind right now?”. Uma provocaçãozinha para os fãs mais puristas.

 

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Mas depois Chester morreu e perdi a vontade de ser engraçadinha.

 

Continuo a não gostar muito da música. Sobretudo por causa da instrumentação. Mas reconheço que fui dura demais na minha primeira análise. 

 

Battle Symphony foi o segundo single de One More Light e também o analisei na altura. As minhas opiniões sobre esta música não mudaram muito desde que escrevi esse texto. Dizer apenas que gosto bastante desta versão ao piano

 

O mesmo acontece com Heavy, na verdade. É a questão da produção/instrumentação de novo. Deem instrumentais decentes a estas músicas e a qualidade aumenta logo. Mas não entremos por aí de novo.

 

Um aspeto curioso em relação a Battle Symphony, por outro lado, é que ainda hoje gosto de ouvi-la emparelhada com Liability, de Lorde. Foram lançadas com cerca de uma semana de intervalo, ouvi-as várias vezes na mesma altura para as analisar, acabaram por se associar na minha cabeça. Tem piada porque, de resto, as duas não têm muito em comum.

 

O single seguinte foi Good Goodbye, a faixa outlier de One More Light, com a participação de Pusha T e Stormzy.. Esta no fundo é uma versão mais soft, mais pop, dos clássicos rap/rock dos Linkin Park. Mesmo a letra parece ter sido escrita de modo a poder ser ouvida por menores de doze anos: o pico da agressividade é chamarem “idiota” ao interlocutor e mandarem-no para casa.

 

 

Compreende-se. Enfiarem um tema mais pesado e agressivo naquilo que é essencialmente um álbum pop faria com que a música se destacasse mais pela negativa. 

 

Gostava de chamar a atenção para dois pormenores da letra – versos que realçam a veterania dos Linkin Park enquanto banda. Mike dizendo “I’ve been here killing it longer than you’ve been alive, you idiot” e Stormzy referindo nas suas estâncias que agora tem uma música com os Linkin Park.

 

Eu na verdade até gosto desta música, mais do que esta merece. Ouvia-a bastante em 2017. Antes de começar a escrever esta análise, não a tinha ouvido em algum tempo. Pensava que, quando voltasse a ouvi-la, não lhe acharia tanta piada, mas ainda gosto. Lá está, não tanto como clássicos como Faint ou Papercut ou Bleed it Out, nem sequer está entre as minhas preferidas neste álbum, mas não deixa de ser uma música gira.

 

Invisible foi a última canção a ser publicada antes do resto do álbum. Este é uma das relativamente raras canções na discografia dos Linkin Park em que é apenas Mike a cantar (Chester apenas contribui para os backvocals). Tendo em conta o tema da canção, faz sentido. Segundo Mike, Invisible é uma carta aos seus filhos, para eles ouvirem quando forem adolescentes e se sentirem incompreendidos pelos pais.

 

A letra tenta antecipar eventuais discussões, tentativas da parte de Mike ou da esposa, Anna, de fazer o que acha ser o mais adequado para os filhos, mesmo que eles não gostem na altura. Segundo o próprio Mie, os filhos ainda são pequenos, mas já têm personalidades vincadas e “quando tiverem dezasseis anos vão dar-nos o ‘Pai, odeio-te, não me compreendes, blá blá blá’”, vão bater com a porta, meter headphones e ignorar os pais.”

 

Estou a rir-me porque a minha geração punha Linkin Park a tocar nos headphones que usávamos para ignorar os nossos pais. Numb, então, parece ter sido criada para esse uso. No entanto, agora Mike e os outros estão do lado dos pais, não dos filhos. 

 

 

Pergunto-me se os filhos de Mike algum dia usarão as músicas dos Linkin Park contra ele. Se a meio de uma discussão os miúdos acusarão Mike de achar que cada passo que os filhos dão é outro erro que eles cometem. Fico curiosa.

 

A letra é interessante, sim, a musicalidade nem por isso. Este é outro caso de instrumentação que não impressiona. Mike não canta nada mal, mas a música é demasiado monocórdica, está sempre no mesmo tom, não entusiasma. 

 

Nesse aspeto, Sorry for Now está melhor conseguida. Esta também é uma carta de Mike para os seus filhos – desta feita dizendo respeito às suas longas ausências em digressão. Em suma, uma sequela a Where’d You Go, do seu projeto lateral Fort Minor.

 

É sempre complicado explicar a miúdos pequenos porque é que a mãe e/ou o pai não podem estar sempre com eles – seja por umas horas, para ir trabalhar, seja durante semanas ou meses, como acontece com músicos como Mike. Ainda me lembro de ver a minha irmã com um ano de idade, chorando todas as manhãs quando os meus pais saíam para o trabalho. E lembro-me de ser difícil, tanto para mim como para os meus irmãos, quando os nossos pais tinham de fazer noites.

 

Nem quero imaginar o quão difícil será para os miúdos terem de passar semanas ou meses sem ver os pais.

 

Não admira que, nas primeiras semanas após a morte de Chester, uma das filhas dele, Lily, tenha perguntado se o pai estava “em digressão nos nossos corações”. Na altura associava as ausências de Chester a digressões.

 

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E com isto vou mudar de assunto antes que comece a chorar. 

 

Musicalmente, Sorry for Now é mais interessante que Invisible por vários motivos. Há maior variação ao longo da faixa, tanto no instrumental como na interpretação de Mike – ele até canta bem, notas mais agudas do que o costume! 

 

Eu, no entanto, dispensava os vocais artificiais. Já me queixei deles em Dedicated, de Carly Rae Jepsen, também estragaram várias músicas de One More Light, como esta.

 

A minha parte preferida de Sorry For Now é a terceira parte, quando Chester aparece do nada. É uma variação à fórmula de algumas músicas dos Linkin Park, como Burn it Down, em que Chester canta as duas primeiras partes e Mike vem na terceira com um rap. Embora, em Sorry For Now, o rap seja mais melódico que o habitual.

 

E com isto vamos fazer uma pausa na análise. Não percam a segunda parte, que vem ainda hoje. 

Música de 2017 #1

No fim de mais um ano, regressa o tradicional texto sobre a música que mais me marcou ao longo desse ano. Os moldes serão semelhantes ao texto do ano passado: nem todas as músicas foram lançadas este ano (embora não tenha faltado música nova dos meus artistas preferidos em 2017). Alguns dos itens desta lista dirão respeito a um artista ou banda em geral. Alguns dirão respeito a uma música, apenas.

 

No ano passado segui uma ordem mais ou menos cronológica. Não vou fazer o mesmo este ano, por razões que explicarei já de seguida. Assim, sem mais delongas, começamos por falar sobre…

 

  • Linkin Park

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...mais especificamente, sobre a morte de Chester Bennigton. É incontornável, esta perda atingiu-me em cheio, fazendo com que 2017 – que já não estava a ser fácil, entre os incêndios, os atentados terroristas, Donald Trump como presidente, entre outras coisas – não tenha sido um bom ano. Quase todos os itens desta lista irão fazer referência, de uma forma ou de outra, ao que aconteceu ao Chester – como poderão ver de seguida

 

Já se passaram mais de cinco meses, mas ainda dói. Tive oportunidade de explicar porquê há pouco tempo, no Quora. Ainda não consigo aceitar, não acho justo. Ele era amado por milhões, salvou a vida a muitos de nós. Nos concertos a que fui, éramos oitenta ou noventa mil cantando em coro com ele. E não fomos capazes de falar mais alto, cantar mais alto, que as vozes na sua cabeça.

 

Isto não tem tido uma progressão linear, tenho tido alturas piores do que outras. Um dos períodos mais difíceis para mim ocorreu depois do concerto de homenagem a Chester, no Hollywood Bowl.

 

  

Mike Shinoda disse, há uns tempos (não consigo encontrar a fonte) que, para além de homenagear Chester e de “obrigar” a banda a regressar aos palcos, este concerto seria um funeral para os fãs. Algo que nos ajudasse a mentalizarmo-nos de que o Chester morreu mesmo e não vai voltar.

 

Bem, comigo resultou. Acho que fez com que passasse da fase de negação/negociação à fase de depressão e andei em desânimo durante semanas. Agora estou melhor, mas não posso dizer ainda que tenha aceitado a morte dele.

 

O concerto em si foi muito bonito. Nesse dia, acordei a meio da noite para vê-lo em direto, no YouTube. Deu para ver que a banda continuava em forma. O Mike, então, continuava a ser o Mike que todos conhecemos e adoramos – ainda que desse para ver que aquilo não estava a ser fácil para ele. Sobretudo quando apresentou Looking For an Answer, a canção que compôs no rescaldo da morte do Chester.

 

 

Apesar de ver que os Linkin Park continuam a ser os Linkin Park e que o Chester continua com eles em espírito… também dava para ver que o Chester não estava lá. Nenhum dos convidados tinha a mesma química com Mike e o resto da banda. Um bom exemplo disso foi Machine Gun Kelly, o convidado em Papercut – fez-me imensa confusão porque aquele tipo era uma cabeça mais alto que o Mike, quando o Chester tinha mais ou menos a mesma altura. Aquele tipo não se encaixava, quase literalmente.

 

É por estas e por outras que eu preferia que os Linkin Park continuassem com cinco membros (Mike promovido a vocalista principal), com o ocasional dueto ou vocalista convidado. O Chester nunca poderá ser substituído – acho que toda a gente concorda com isso. No entanto, na minha opinião, a banda ainda tem muito para dar.

 

Dito isto, repito o que disse antes: continuarei a apoiar os Linkin Park, independentemente do que decidirem.

 

As semanas que se seguiram ao concerto podem não ter sido fáceis para mim, mas ao menos, depois dele, fui capaz de voltar a ouvir a música dos Linkin Park normalmente… Isto é, dentro do possível.  Poucos meses antes de o Chester morrer, tinha comprado os CDs físicos de Hybrid Theory e Meteora (apesar de já os ter em formato digital) para ouvir no carro e, eventualmente, escrever sobre eles. Hei de fazê-lo, a médio/longo prazo, mas não sem escrever sobre One More Light primeiro. Não vai ser fácil, porque a morte do Chester afetou a maneira como oiço este álbum… mas é (mais) uma barreira que tenho de ultrapassar.

 

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Havemos de ficar bem. Eu, a banda, os fãs. Tenho de acreditar nisso: que um dia deixará de custar tanto, que um dia conseguirei ver vídeos como este sem ficar com vontade de chorar. Talvez com o tempo…

 

  • Oasis – Don’t Look Back in Anger

 

  

Fiquei a conhecer esta canção depois do atentado terrorista em Manchester, no concerto de Adriana Grande. Numa das homenagens às vítimas, após o tradicional momento de silêncio, uma mulher começou a cantar Don’t Look Back in Anger, dos Oasis (que, por sinal, são nativos de Manchester). O resto da multidão juntou-se a ela. A canção tornou-se, assim, num símbolo da resistência e solidariedade do povo de Manchester perante o terrorismo.

 

Dias mais tarde, os Coldplay interpretariam a canção no concerto One Love Manchester.

 

Queria falar rapidamente sobre estes concertos solidários. Não é preciso ler muito deste blogue para se descobrir que adoro música. Adoro o seu poder para emocionar, para consolar, para unir, para curar. Concertos ao vivo são a celebração mais pura disso.

 

Como tal, é claro que aprovo que esse poder tenha sido colocado ao serviço de quem mais precisa. Não só das vítimas dos atentados em Manchester, como também das vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande.

 

  

Tal como aconteceria mais tarde com os Linkin Park, no Hollywood Bowl, via-se que estava a ser difícil à Ariana estar de volta ao palco – depois do que acontecera da última vez que lá estivera. A música dela não me aquece nem arrefece, mas qualquer um com sentimentos sentiria a dor dela. Eu então, que adoro concertos, achei este atentado particularmente cruel – mas era esse o objetivo.

 

Como tal, foi muito bonito ver os artistas todos em palco, consolando Ariana, mostrando que a música é mais forte que o terror. A própria Ariana disse: “O amor e a união que estamos a demonstrar é o remédio de que o mundo precisa neste momento.”

 

Continua a ser verdade, mesmo passados estes meses todos.

 

  

Nessa linha, outra música que me marcou este ano (embora não tanto como outras desta lista) foi Don’t Dream It’s Over, dos Crowded House. Também foi cantada no concerto – pela Ariana e por Miley Cyrus. Neste contexto, os versos seguintes levam-me lágrimas aos olhos: “They come they come to build a wall between us. You know they won’t win.”

 

Mas regressemos a Don’t Look Back in Anger – que ganhou novos significados para mim para além deste. Mais de vinte anos depois de lançar a música, Noel Gallangher continua a dizer que não sabe ao certo o que a música significa, que nem sequer sabe quem é a Sally, referida no refrão.

 

Por outro lado, noutra entrevista, chegou a dizer que a mensagem da música aconselha o ouvinte a não viver preso ao passado, a não guardar ressentimentos. Ele mesmo pôs essa filosofia em prática há pouco tempo, por sinal, ao fazer as pazes com o seu irmão e também membro dos Oasis, Liam.

 

Segundo as anotações no Genius, a letra de Don’t Look Back in Anger é uma manta de retalhos em termos de referências e significados. Os versos “So I’ll start a revolution from my bed”, por exemplo, são uma referência aos bed-ins pela paz de John Lennon e Yoko Ono, em 1969. Por outro lado, os versos “Stand up beside the fireplace, take that look from off your face” são uma alusão às fotografias de Natal que a mãe dos irmãos Gallangher lhes tirava, junto à lareira. Eles, como quaisquer miúdos, faziam caretas, daí o “take that look from your face”.

 

  

A vantagem de músicas como esta, com significados vagos e/ou desconjuntados, é podermos dar as interpretações que quisermos. É o que acontece com muitas das minhas canções preferidas.

 

Desse modo, tenho-me fartado de projetar coisas na letra de Don’t Look Back in Anger. Em 1995/1996, quando esta música terá sido composta, revoluções a partir da cama só mesmo bed-ins. Agora, no entanto, na era das internetes, das redes sociais, é mais do que possível criar revoluções sem deixarmos os lençóis – basta pegarmos num portátil ou num smartphone.

 

Não que todas essas revoluções online tenham propósitos tão nobres como a paz – demasiadas vezes é o extremo oposto.

 

Os primeiros versos de cada estrofe (“Slip inside the eye of your mind, don’t you know you might find a new place to play”; “Take me to the place where you go, where nobody knows if it’s night or day”)  fazem-me pensar em escapismo e introspeção – uma coisa que faço muito.

 

  

Por outro lado, os versos “Please don’t put your life in the hands of a rock’n’roll band who’ll throw it all away” tocaram-me em particular nas semanas que se seguiram à morte do Chester. Eu, que talvez me tivesse afeiçoado demasiado a uma banda de rock e, agora, estava a sofrer com a morte de um dos membros.

 

Depois do concerto no Hollywood Bowl, no entanto, acho que a minha vida podia estar em piores mãos que as dos Linkin Park.

 

Para além destas mensagens todas, há que assinalar que a musicalidade de Don’t Look Back in Anger ajuda muito: abrindo com notas de piano que recordam Imagine, de John Lennon, seguindo com guitarras e um refrão que dá vontade de cantar. Como fez com aquelas pessoas no memorial, levando a isto tudo. Quando é assim, é muito fácil uma canção tornar-se imortal.

 

  • Lady Gaga – Million Reasons

 

  

Esta é uma descoberta mais recente do que a maior parte das canções desta lista. Nunca fui grande fã de Lady Gaga, mas ouvi Million Reasons na rádio e gostei – tanto da parte musical como da letra.

 

Não que a sonoridade seja particularmente original – uma balada guiada pelo piano e pela guitarra acústica – mas funciona bem. E não deixa de ser refrescante, numa altura em que os instrumentos a sério estão em vias de extinção.

 

Por outro lado, cinco estrelas para o desempenho vocal de Lady Gaga. Porque é que não me avisaram mais cedo que a mulher tinha este vozeirão?

 

  

De qualquer forma, na minha opinião, a força de Million Reasons está na letra. A sua mensagem é simples, bem resumida pelos versos “I’ve got a hundred million reasons to walk away, but baby I just need a good one to stay”. Se formos a ver, é essencialmente a mensagem de Last Hope, a grande balada do Self-Titled dos Paramore. Esta última, no entanto, é uma das músicas da minha vida por algum motivo – é uma mensagem que preciso de ouvir de vez em quando. 2017 deu-nos milhões de razões para virarmos costas ao mundo, à Humanidade, a tudo. Mas eu esforço-me por arranjar motivos, por pequenos que sejam, para seguir em frente.

 

Havemos de regressar a esse tema mais adiante. Para já, falemos de uma canção que talvez não esperassem ver nesta lista.

 

  • Matias Damásio (ft. Héber Marques) – Loucos

 

  

Esta música não faz o género do que costumo ouvir. Ainda menos sobre o qual costumo escrever. Não que não goste de kizomba. Gosto o suficiente para não mudar de estação se, por acaso, apanhar uma música na rádio, mas não o suficiente para as adicionar às minhas playlists.

 

Loucos, de Matias Damásio e Héber e Marques, conseguiu cativar-me, no entanto, depois de apanhá-la várias vezes na rádio – e sobretudo depois de Matias Damásio a ter cantado no concerto Juntos Por Todos.

 

Loucos é uma canção de amor que está longe de ser pioneira ou inovadora. Reflete os momentos iniciais de um novo romance, a fase de lua-de-mel, em que tudo é novo e excitante, em que julgamos estar a viver uma épica história de amor. Todas as músicas que passam na rádio são sobre nós, o próprio Universo ajoelha-se perante o nosso amor, os simples mortais não compreendem e/ou têm inveja de nós.

 

É uma música ingénua, chega a ser um bocadinho lamechas… mas foi por isso mesmo que me cativou. Num ano tão complicado como este foi, em que uma boa parte da música que oiço reflete isso e/ou é bastante cínica (sobretudo Lorde e Paramore), a inocência de Loucos acabou por ser um bom contraste, um bom antídoto.

 

  

Serviu mesmo de consolo, em certas alturas. Como por exemplo, aquando do concerto no Hollywood Bowl, pelo Chester. Eu tinha conseguido ver a transmissão em direto do mesmo sem chorar. No entanto, na manhã seguinte, quando Loucos surgiu no Spotify, não aguentei.

 

É um bocadinho ridículo, eu sei. Esta canção está no extremo oposto do espectro relativamente à música dos Linkin Park. Mas talvez tenha sido por isso que teve este efeito.

 

Admito que, se as circunstâncias fossem diferentes, talvez esta música me tivesse passado ao lado. Não sei o que esta escolha diz de mim. Talvez diga que, no fundo, ainda tenho o coração romântico de uma menina de quinze anos. Talvez seja o meu subconsciente agarrando-se a esse lado romântico e idealista (mais sobre isso mais à frente).

 

Também é possível que o facto de o meu pai se irritar com esta música tenha ajudado. Um comportamento muito maduro, eu sei. Mas em minha defesa, ele passou uma boa parte de 2017 cantarolando o Despacito – exatamente como imaginam um pai cantando o Despacito. Eu tinha de me vingar de alguma maneira…

 

E com este pensamento concluímos a primeira parte deste texto. Regressem connosco amanhã, já em 2018! Boas entradas!

Chester Bennington (1976-2017)

Nunca pensei que viria a escrever um texto como este. Pelo menos não tão cedo.

 

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Na passada quinta-feira, Chester Bennington, vocalista dos Linkin Park, foi encontrado morto em sua casa. Tudo indica que se suicidou por enforcamento.

 

Basta dar uma olhadela rápida a este blogue para perceberem que os Linkin Park são uma das minhas bandas preferidas. Tornei-me fã há dez anos e conto vários episódios marcantes relacionados com a banda e com Chester.

 

Um dos maiores foi o Rock in Rio de 2008. Foi o segundo concerto a que fui mas o primeiro que apreciei verdadeiramente. Em que senti pela primeira vez a magia de cantar em plenos pulmões, em coro com milhares de pessoas, canções que, normalmente, cantarolava baixinho enquanto as ouvia no meu MP3. Nessa noite senti-me integrada como nunca sentira antes, unida pela música à banda e àqueles noventa milhares de pessoas. O Chester, perto do fim do concerto, diria que poucas cidades amavam música tanto quanto Lisboa – eu sei que ele provavelmente dizia o mesmo em todos os concertos. Mas, na altura, eufórica como me sentia, acreditei.

 

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Foi uma das melhores noites da minha vida. No ano que se seguiu, mais coisa menos coisa, tive muitos dias tristes, muitas noites de insónias, em que me consolava recordando este concerto.

 

Tive a oportunidade de voltar a vê-los ao vivo em 2014, também no Rock in Rio – e de escrever sobre isso. Como poderão ler, foi a noite em que mais perto estive dele, fisicamente. Cheguei a tocar-lhe na mão.

 

Tenho muitas outras recordações, para além destas: ver o vídeo de Breaking the Habit na MTV, em 2004; ouvir Numb/Encore na rádio da minha escola secundária; ver o primeiro filme dos Transformers e reconhecer What I’ve Done; montar o meu primeiro AMV para New Divide, a minha música preferida deles; passar o dia 16 de abril de 2012 (lembro-me perfeitamente) cantarolando e dançando (e estava de saltos altos!) a recém-lançada Burn It Down; aquele momento no RiR de 2012, em que Chester canta Crawling cara a cara com os fãs e um deles coloca-lhe um cachecol do F.C.Porto nos ombros; vários vídeos de bastidores hilariantes – entre os quais um dele saltando à corda enquanto canta Wretches and Kings; um deles cantando sobre unicórnios e chupa-chupas; esta versão de Numb; dançando A Light that Never Comes.

 

Os motivos pelos quais gosto dos Linkin park são diferentes dos de outros fãs – pelo menos daquilo que tenho lido nas redes sociais. Não posso dizer que tenha sido uma coisa de adolescente – foi aos dezassete/dezoito anos que me deixei cativar a sério pela banda. Aquilo de que sempre gostei foi, sobretudo, dos cenários épicos, cinemáticos, de tempestades, lutas, explosões. Daí usá-las como fonte de inspiração para a minha escrita e para montar vídeos.

 

  

O que não significa que não apreciasse temas mais calminhos e emocionantes, como Castle of Glass e Leave Out All the Rest – esta última, à luz do que aconteceu, é ainda mais dolorosa do que o costume.

 

Por fim, os Linkin Park ajudaram-me a fazer a transição para música mais pesada, como por exemplo os Sum 41 e os Within Temptation – estes últimos chegaram a dizer que os Linkin Park foram umas das inspirações para o álbum The Silent Force. David Hodges, que fazia parte dos Evanescence, disse o mesmo em relação ao álbum Fallen.

 

Também gosto muito do álbum Out of Ashes, dos Dead By Sunrise – o side-project do Chester. Nele está, aliás, incluída uma das minhas canções de amor preferidas. Tal como escrevi há uns anos, este álbum mostra facetas diferentes de Chester, facetas que ele não mostrava nos Linkin Park.

 

Conforme me tenho fartado de dizer neste blogue ao longo dos anos, o Chester era uma das minhas pessoas preferidas no mundo da música. Toda a gente sabe que ele não teve uma vida fácil – quem não sabia, sabe-o agora. No entanto, não deixara de ser um bom homem, simpático, super divertido… Ainda há bem pouco tempo escrevi sobre isso aqui no blogue – pouco depois de ele ter publicado uma fotografia sua vestido de Pikachu!

 

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Eu ainda estou em negação. Quando penso que Chester Bennington morreu, há qualquer coisa no meu cérebro que rejeita automaticamente esse facto, como um erro 404 num computador. Não faz sentido! Ele era tão novo, tinha pelo menos metade de uma vida à sua frente! Eu habituei-me à “presença” dele, a saber que ele estava algures por aí, fazendo música, dando concertos, em brincadeiras com o Mike e os outros ou junto da mulher e dos filhos. Sabia que, de tanto em tanto tempo, ele lançaria um single novo, um álbum novo – com os Linkin Park ou não.

 

Agora dizem-me que ele já não está a fazer nada disso? Pode lá ser!

 

Uma das coisas que têm sido comentadas a propósito desta história diz respeito às críticas ao álbum One More Light. Muitos fãs, incluindo eu até certo ponto, não gostaram do som mais pop de músicas como Heavy. Até aqui tudo bem – não se pode agradar a todos.

 

No entanto, têm havido atitudes que ultrapassaram os limites – como o que aconteceu há pouco tempo, no Hellfest.

 

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Espero que esses estejam, agora, cheios de remorsos pelo que fizeram.

 

Não estou a dizer que tenha sido por causa deles e de outros que tais que Chester se suicidou. Tanto quanto sei, estas coisas raramente são assim tão lineares. Mas episódios como este não terão ajudado, de certeza.

 

Este género de ataques, de bullying, sobretudo nesta era das internetes, está tão normalizado que uma pessoa fica surpreendida quando descobre que os visados se sentiram magoados com estas atitudes. Em particular, quando os visados são pessoas famosas. Achamos que eles aprendem a ignorar estas coisas.

 

Penso, por exemplo, no Éder – que, antes da final do Europeu, era o alvo preferido das piadas e insultos dos adeptos, sem que ninguém questionasse essas práticas (eu mesma me deixei levar por isso, até certo ponto). Em entrevista ao Alta Definição, Éder revelou que esses insultos o magoaram e que, a certa altura, chegou a contemplar o suicídio.

 

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Tudo isto remonta para a cultura de bullying muito presente na sociedade, sobre a qual já falei aqui no blogue. Tendemos a educar as vítimas para aguentarem caladas, para não “fazerem queixinhas”, ensinamos-lhes que isto faz parte. Quando, na verdade, devíamos educar os agressores para não serem umas bestas, para tratarem as pessoas com respeito.

 

Outra questão para o qual isto tem alertado é para as doenças do foro psiquiátrico. Ainda agora escrevi sobre isso, a propósito do último álbum dos Paramore – que foi muito inspirado pela ansiedade e depressão da vocalista, Hayley Williams. Ela chegou a dizer, em entrevista, que, a certa altura, chegou a ter ideação suicida – foi aí que percebeu que precisava de ajuda.

 

Chester, pelos vistos, não conseguiu fazê-lo. Provavelmente nunca saberemos porquê – porque é que ele achou que a morte era preferível a ouvir dezenas de milhares de fãs cantando em coro com ele. Muitas pessoas teriam feito tudo para ajudá-lo, sobretudo se pudesse ter evitado este desfecho. Não só os amigos e familiares, mesmo os seus milhões de fãs. É difícil de compreender como é que ele não sabia isso. Mas a mente de uma pessoa deprimida não funciona da mesma maneira que a nossa.

 

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Aquelas pessoas que se põe com comentários do género “Que monstro é que deixa seis filhos sem pai?” tiram-me do sério. É só um exemplo dos inúmeros preconceitos que ainda existem em torno das doenças mentais – alguns dos quais já referi no texto anterior. Gostava que houvessem movimentos que desmentissem essas ideias – em Portugal, ainda não vi nada disso.

 

Dito isto, também sofro pela mulher e pelos filhos dele, pelo Mike, pelo Brad e os outros colegas da banda. Como é que se lida como uma coisa destas? Como é que se aceita isto? Como é que se explica o que aconteceu aos filhos dele? (As filhas mais novas não devem ter mais de seis anos.)

 

Não sei o que vai ser dos Linkin Park depois disto. Será que eles vão continuar com os membros restantes, com o Mike promovido a vocalista principal? Será que vão procurar um “substituto”?

 

Sinceramente, não sei se quero que eles continuem. Acho que nunca vão conseguir preencher o vazio, nunca vão encontrar ninguém capaz de fazer o que Chester fazia. No entanto, é a vida deles, é a decisão deles. Qualquer que ela seja, respeitá-la-ei e apoiá-la-ei.

 

  

Isto está a custar-me. Não tenho problemas em admitir que chorei – quando me pus a ver esta apresentação de One More Light. É uma boa pessoa, um ótimo músico, de voz monstruosa e energia inesgotável, que desapareceu. Que foi roubado aos familiares e aos amigos. É uma parte do meu mundo, uma parte deste blogue que morreu – a primeira análise que publiquei aqui foi ao álbum Living Things. Um homem que nunca poderei voltar a ver ao vivo, ou num direto do Facebook, lançando um single ou um álbum, fazendo palhaçadas nos bastidores. Que nunca poderei conhecer pessoalmente.

 

Eu até estava a trabalhar na análise a One More Light antes de isto acontecer. Tenho o texto todo planeado no meu caderno e já tinha começado a escrevê-lo. A médio/longo prazo, queria também escrever sobre os álbuns Hybrid Theory e Meteora, que andava a ouvir muito há uns meses.

 

Depois disto, não tenho coragem. Não tenho conseguido ouvir a música dele normalmente, como fazia ainda quinta-feira de manhã. Quero voltar a fazê-lo – porque uma parte do Chester continuará a viver na música dele – mas preciso de tempo.

 

Em jeito de conclusão, dizer apenas que estou grata pela vida de Chester. Pode ter sido curta, mas foi o suficiente para marcar a minha. O meu mundo, este blogue, não seriam os mesmos se ele não fosse ele.

 

Obrigada por tudo, Chester.

 

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Linhas telefónicas de apoio

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Músicas Não Tão Ao Calhas - Liability e Battle Symphony

Uma semana após lançar Green Light, a cantora neo-zelandeza Ella Yellion-O’Connor, de nome artístico Lorde, disponibilizou mais uma canção do seu próximo álbum, Melodrama. Esta chama-se Liability. A minha ideia era analisá-la logo a seguir ao lançamento. No entanto, precisei de alguns dias para decifrar esta canção. Como, entretanto, os Linkin Park lançaram hoje Battle Symphony – o novo single do seu próximo álbum, One More Light – resolvi analisar ambas as canções no mesmo texto.

 

Primeiro as senhoras...

 

  

I’m a little much for everyone”

 

Acho que nunca tínhamos ouvido Lorde soando tão triste. Fiquei de coração partido depois de ouvir esta faixa pela primeira vez. Liability é só piano e voz. Como acontece com as melhores canções de Lorde, a voz faz o trabalho todo – transmitindo na perfeição toda a dor, vulnerabilidade e autocomiseração da narradora.

 

Tal como acontece com Green Light, a letra de Liability tem várias camadas e múltiplas interpretações possíveis. Das primeiras vezes que ouvi Liability, pensei que esta se referia ao fim de uma relação amorosa – alguém que se tinha envolvido com a narradora, tratando-a como um mero divertimento temporário, abandonando-a quando se fartou dela ou ela pediu mais.

 

Não que esta interpretação não seja legítima, mas Lorde revelou que não compôs Liability pensando em relações amorosas. Em várias entrevistas, Ella disse que se inspirou naquelas situações, em que tentamos fazer amizades, mas receamos que os outros nos achem um fardo. Também se terá inspirado nas consequências negativas da sua fama – por ela ser uma celebridade, as pessoas próximas de si, por contágio, são obrigadas a lidar com a perda de privacidade, o escrutínio por parte do público.

 

É de admirar que Ella sinta que só atrapalha a vida das pessoas à sua volta?

 

Perante tudo isto, é natural que Lorde acabe por se virar para si mesma, por se tornar a sua própria melhor amiga.

 

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Confesso que me identifico com a letra de Liability. Já referi várias vezes aqui no blogue que sou introvertida e não faço amigos facilmente. Também já tive situações em que me senti indesejada. Ou que senti que não sou assim tão cativante para que as pessoas se interessem por mim a longo prazo, que sou demasiado estranha para a maior parte das pessoas.

 

É claro que isto é apenas a minha perceção, pode nem sequer corresponder à verdade.

 

De qualquer forma, também prefiro, muitas vezes, fazer companhia a mim mesma, tal como Lorde refere. Eu, porém, se tivesse oportunidade de dar um conselho a Ella, sugerir-lhe-ia uma alternativa ao isolamento: um cão. Conforme tenho vindo a aprender com a minha cadela, Jane, os cães estão sempre felizes por nos verem, não tecem juízos de valor, não se fartam de nós. São uma ótima companhia.

 

Por norma, é muito fácil esquecermo-nos que Ella é ainda muito nova. Em Liability, no entanto, nota-se essa juventude. Creio que uma pessoa mais velha não escreveria de uma forma tão crua e emotiva, com um pouco de autocomiseração à mistura. A própria Lorde admite que compôs esta canção numa altura em que sentia pena de si própria.

 

  

A ideia com que fico é que esta deverá ser a regra para este álbum: emoções cruas, exageradas, que poderão não corresponder cem por cento à realidade, tipicamente adolescentes. Talvez seja essa a explicação para o título Melodrama. Lembra-me, um pouco, Under My Skin, de Avril Lavigne. Este álbum também teve momentos melodramáticos que, conforme se veio a descobrir, foram apenas uma fase.

 

Em todo o caso, estou a gostar muito do que conhecemos, até agora, de Melodrama: duas músicas muito complexas, com diversas camadas e significados que se vão multiplicando com o tempo. Que inspiram testamentos aqui no meu blogue. Mal posso esperar por ouvir o resto.

 

Mas antes ouviremos One More Light, dos Linkin Park, que incluirá Battle Symphony.

 

 

All the world in front of me”

 

Conforme escrevi anteriormente, o primeiro single de One More Light, Heavy, desiludiu-me. Battle Symphony tem várias semelhanças com Heavy – a sonoridade suave, eletropop, radiofónica, os vocais melodiosos de Chester – mas, na minha opinião, está uns quantos furos acima do primeiro single de One More Light.

 

Para começar, o instrumental, sem ser nada de extraordinário ou mesmo original, é mais rico que o de Heavy. A minha parte preferida é o início do primeiro refrão, quando a bateria imita uma marcha militar – o que condiz com a letra. Gostava de tê-la ouvido mais vezes ao longo de Battle Symphony.

 

Mesmo assim, continuam a faltar guitarras elétricas.

 

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Devo dizer, também, que, apesar de pop, a melodia é cativante. Depois de ouvir várias vezes a música, dei por mim a cantarolar o refrão. A minha parte preferida, contudo, é a terceira estância.

 

A letra, infelizmente, deita um pouco a canção abaixo. Não que seja má. No entanto, tal como acontece em Heavy, é demasiado vaga, perde-se em clichés. Battle Symphony é a típica “fight song”, não traz nada de novo a um tema já muito batido.

 

Continuo insatisfeita com o estilo mais pop, mais comercial, contra o carácter da banda, que, ao que parece, os Linkin Park adotaram para este álbum. Dito isto, não me queixarei... muito... se o resto de One More Light for semelhante a Battle Symphony, desde que com letras melhorzinhas. De qualquer forma, prognósticos só depois de o álbum sair.

 

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Não devemos ficar por aqui em termos de música dos meus artistas preferidos – longe disso. A foto acima parece mostrar que os Paramore estão a filmar um videoclipe. O que quererá dizer que teremos um single muito em breve (máximo dos máximos daqui a um mês, juntamente com o videoclipe... acho eu).

 

Somando a isso o possível sexto álbum de Avril Lavigne, que mudou de gravadora e tudo (apesar de, por norma, estas coisas demorarem muito mais com a Avril), esperam-nos muitas mais entradas de Músicas Não Tão Ao Calhas nos próximos tempos. Por um lado, é excitante voltar a escrever regularmente sobre música. Por outro, tenho medo de não conseguir dar conta do recado. Durante os últimos dois anos tivemos muitos poucos lançamentos novos por parte deste pessoal. Agora, está tudo a lançar música ao mesmo tempo. Vão ser muitos textos para escrever... quando existem outros sem ser sobre música na minha lista de prioridades.

 

Vou tentar despachar esses textos nas próximas semanas, nesse caso – incluindo um sobre um assunto que não abordo há imenso tempo. Continuem por aí, então.

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