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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Lorde – Solar Power (2021) #2

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Segunda parte da análise a Solar Power. Podem ler a primeira parte aqui. Como poderão ler, a primeira parte desta análise terminou com uma canção de amor. Esta vai começar com outra canção de amor, ainda que menos convencional. Pelo menos no que toca ao seu destinatário: o seu cãozinho Pearl, entretanto falecido. 

 

Tenho de confessar que gosto desta música mais do que devia, mais do que esta merece – por motivos óbvios. Musicalmente, tem problemas semelhantes a The Man with the Axe: a instrumentação é minimalista no mau sentido, sem presença. Os vocais são um bocadinho melhores em Big Star, mas não muito – o refrão sobretudo precisa desesperadamente de intensidade.

 

A sorte de Big Star é que o assunto da letra apela diretamente ao meu coração – e ao de muitas pessoas, aposto. Quando Lorde compôs a música, Pearl ainda estava vivo. Ela referiu inclusivamente ter o cãozinho aos seus pés enquanto ela estava ao piano.

 

A letra fala de muitas coisas que se aplicam a mim como dona da Jane: os nossos cães sendo melhores pessoas do que nós mesmos, dando-nos uma nova razão para apreciar o ar livre, ponderando os prós e contras na hora de viajar, ou mesmo de sair à noite. Pela parte prática de saber quanto tempo conseguem ficar sozinhos em casa e de arranjar quem tome conta deles, mas também porque teremos saudades deles. O refrão é basicamente o meu Instagram. 

 

De notar que a letra usa uma linguagem simplista, inocente, o que faz sentido. É assim que falamos com os nossos cães, como se fossem crianças pequenas. 

 

Não era suposto esta ser uma música triste. Passou a sê-lo depois de Pearl ter falecido. O verso “I’ve got so much to tell you and not enough time to do it” dói particularmente. Lorde diz que ainda hoje sente saudades de Pearl (se bem me recordo, estará a fazer dois anos desde a morte dele nesta altura). Eu compreendo. Aliás, nem posso pensar nisto demasiado a fundo sem que me venham lágrimas aos olhos.

 

*pausa para sessão de festinhas à Jane*

 

 

Olhemos agora para a outra faixa extra. Hold No Grudge, uma das minhas preferidas. Tem uma sonoridade algo diferente do resto do álbum: usa a tal guitarra Fender, alguma guitarra acústica mas, ao contrário do resto do álbum, a percussão é eletrónica. Não são as mesmas batidas fortes de Pure Heroine e algumas músicas de Melodrama. São mais discretas, mas são uma alternativa agradável às múltiplas faixas sem percussão no resto de Solar Power. Gosto muito dos vocais, sobretudo os backvocals no segundo refrão e no fim da música.

 

Em termos de letra, é uma música de separação – de uma relação que, aparentemente, terá terminado há alguns anos. Lorde invoca recordações felizes, contrastando com o presente: já não se recorda de como o amado cantava, já não se recorda do aniversário dele e ele agora namora com outra.

 

Lorde não leva nada disso a mal, no entanto – um contraste claro com Melodrama, sobretudo Hard Feelings. Pontos para o amadurecimento, até porque é possível que esta seja a mesma relação explorada no segundo álbum. Lorde não o odeia, perdoa-lhe e deseja que ele seja feliz. Ella soa particularmente terna no refrão e nos versos finais. 

 

Hold No Grudge merecia fazer parte da edição padrão. Era assim que a maioria de Solar Power devia ser.

 

Falemos agora sobre músicas que fazem comentário social. Começando por Fallen Fruit. Esta é das melhores músicas da segunda categoria em termos de instrumental: não tem percussão, mas tem duas guitarras, a Fender e a acústica, com o tal tom psicadélico que referi antes. Em termos de vocais, é uma das melhores, um belo exemplo de Lorde harmonizando consigo mesma. 

 

A única coisa de que não gosto é de uma espécie de apito que soa de vez em quando. Irrita um bocadinho.

 

 

A letra tem uma mensagem ambientalista, acusando as gerações anteriores à nossa de terem arruinado o planeta para os seus filhos e netos. A Terra é comparada a fruta caída – algo com um prazo de validade curto, obviamente. 

 

Era inevitável este tema surgir num álbum (que se diz) inspirado pela natureza, sobretudo depois de Lorde ter estado na Antárctida. Ella admite que não é uma ativista climática, que não tem autoridade para andar por aí a pregar. No entanto, está a fazer um esforço para reduzir a sua pegada ecológica. Trocando o lançamento de CDs por “music boxes” de cartão com códigos para download, planeando uma digressão mais pequena e amiga do ambiente, entre outras coisas.

 

As próximas duas músicas de que vamos falar pertencem à segunda categoria, mas deixam muito a desejar em termos de qualidade. Uma delas é Dominoes.

 

Na semana em que saiu o álbum, esta era uma das músicas em torno da qual se estava a criar algum hype. Na altura fiquei com a ideia de que iam lançar um videoclipe para Dominoes durante a madrugada de sexta-feira, 20 de agosto. De tal forma que dormi mal nessa noite, com a excitação. No entanto, de manhã vi que o vídeo era apenas uma apresentação com Jack Antonoff na guitarra. E quando a ouvi, tive a mesma reação que tive quando saiu a primeira versão de Find Me Here:

 

– ...só isto?

 

 

Dominoes é uma faixa curtinha, guiada apenas pela guitarra Fender. Tem um tom mais animado do que as outras músicas da segunda categoria, mas isso acaba por se virar contra si mesma. Mais ainda do que músicas como Big Star e The Man with the Axe, Dominoes pede um instrumental mais completo.

 

Um elemento nesta música de mau gosto, na minha opinião, são sirenes. Consta que esta música foi gravada no estúdio Electric Lady, em Nova Iorque, num verão em que houveram vários protestos – ou seja, é possível que tenha sido em 2020, embora ela não o tenha confirmado preto no branco. Se foi de facto no verão no ano passado, terá coincidido com os protestos do Black Lives Matter. Ella deixou a porta do estúdio aberta para que os microfones captassem “o som do verão”.

 

Sou a única que acha isto uma falta de noção gritante? Ainda se a música em si fosse inspirada, direta ou indiretamente, pelo que estava a acontecer… Mais do que as queixas sobre o peso da fama, isto é coisa mesmo à menina branca e privilegiada: tratando um movimento contra a violência policial, algo que mata seres humanos, como um pormenor engraçado para incluir numa música. Estou surpreendida por não ter havido mais polémica em torno disto.

 

Enfim, passemos à letra. Dominoes fala sobre um sujeito que não presta, mas que se vai esquivando às críticas embarcando em correntes, como por exemplo a dos hippies nos anos 60. Do género “eu já não sou a mesma pessoa que magoou a minha ex. Agora estou numa de “new age”, de “peace and love”, planto flores e tudo!”

 

Este é um tema recorrente em Solar Power – ou pelo menos é o que Lorde diz, que na prática não é bem assim. Ella revelou que tem encontrado paralelismos entre a cultura hippie dos anos 60 e 70, de fugir ao mundo moderno e abraçar a natureza e a paz, e alguns movimentos dos dias de hoje. O cottagecore (assumo eu) e a cultura de wellness, como veremos já de seguida. 

 

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O videoclipe de Solar Power parece explorar esse conceito: uma comunidade que vive na praia, aparentemente sem nenhuma das tecnologias do mundo moderno. Lorde tinha referido que o álbum decorre todo numa ilha, que inclui essa praia. Tenho andado desapontada por ainda não termos visto esses videoclipes, tirando Mood Ring – que decorre num cenário diferente, embora não seja difícil imaginar que fique nessa mesma ilha.

 

Ainda dentro deste assunto, temos Leader of A New Regime. A letra pinta um cenário pós-apocalíptico em que a narradora – que será uma avatar da própria Lorde – foge para uma comunidade onde estarão os últimos sobreviventes. Um pouco como aconteceu nos anos 60, a situação está caótica devido ao consumo de drogas e à falta de autoridade em geral. Procura-se, lá está, alguém que lidere esta nova sociedade.

 

Este até seria um conceito interessante se fosse explorado como deve ser. Voltamos a ter uma música demasiado curta – é a mais curta do álbum, só um minuto e meio, ridículo.  Voltamos a ter instrumentação escassa – só guitarra e vocais. Para ser justa, é de novo Lorde harmonizando consigo mesma, criando um efeito psicadélico que condiz com o tema.

 

O facto de, nesta parte do álbum, ser a quarta música neste estilo, com os mesmos problemas, não ajuda. É um alívio quando, depois, ouvimos as primeiras notas de Mood Ring. Finalmente, alguma vida neste álbum!

 

Mood Ring é uma das minhas preferidas neste álbum. Começando pela sonoridade: um tema da primeira categoria, combinando elementos mais etéreos – os vocais de Lorde, sobretudo – com a bateria e as guitarras acústicas. Um pouco como uma colaboração entre Enya e Natalie Imbruglia.

 

 

No que toca a letra, Mood Ring é daquelas músicas que se pode aplicar a múltiplas situações. Segundo Lorde, é uma sátira. A narradora é uma personagem ficcional, diferente de Ella, mais velha, que pinta o cabelo de loiro, será um bocadinho Karen (“the whole world is letting me down”) e tem dinheiro para gastar. Lorde admite que partilha algumas características com esta personagem – e, de facto, pode-se discutir onde é que Ella acaba e a narradora começa. Ao mesmo tempo, apesar de ser uma sátira, Lorde diz sentir compaixão pela personagem que criou.

 

No fundo, isto é algo que Lorde sempre fez, sobretudo com Melodrama: comentário a uma determinada tendência enquanto participa na mesma. 

 

Mood Ring pode aplicar-se, assim, a vários movimentos dos dias de hoje. Desde a ditadura do pensamento positivo (já abordada em Fake Happy e Rose Colored Boy), astrologia, certas medicinas alternativas, a cultura de wellness em geral, as Gwyneth Paltrow e Gustavos Santos desta vida, a filosofia do livro “Comer, Orar e Amar”, que estava na moda há coisa de uma década, mesmo o culto do sol e da natureza praticado por Lorde em Solar Power. 

 

Por acaso – ou não – desde que a música saiu, tenho encontrado uns quantos artigos e vídeos sobre estes assuntos – alguns dos quais tenho partilhado na página de Facebook deste blogue. Temos este excelente vídeo do The Take, que desmonta Goop, de Gwyneth Paltrow – embora se tenham esquecido de referir que muitas destas práticas foram apropriadas de culturas asiáticas, africanas e sul-americanas. 

 

Por outro lado, este artigo do The Guardian fala sobre negacionistas e/ou anti-vacinas nestas comunidades de wellness. Inclui a história chocante de uma mulher com cancro da mama terminal, a quem convenceram que a sua doença era culpa dela, porque supostamente reprimiu a sua sexualidade ou uma treta qualquer do género. 

 

Não vou dizer que não compreendo o apelo destas práticas. Pelo menos as coisas mais soft. Acredito que coisas como ioga e meditação possam trazer benefícios. Também compreendo o apelo do tarot, por exemplo, mais pelos simbolismos e referências culturais ​​– afinal de contas, as cartas de tarot terão sido no século XV como cartas de jogo. Só a partir do século XVIII é que começaram a ser usadas como futurologia. Mesmo essa parte, eu encará-lo-ia mais como um exercício de auto-reflexão do que realmente uma leitura do futuro.

 

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Por outro lado, sou uma mulher de ciências e estou numa carreira científica, mas tenho colegas que levam os signos mais a sério do que esperava. Admito que já me tenha influenciado um pouco mas, para mim, acaba por ser o equivalente àqueles testes do Buzzfeed que determinam que personagem de Friends vocês seriam ou assim: algo para entreter ou, quanto muito, para auto-reflexão, mas não para levar demasiado a sério. 

 

Em todo o caso, o denominador comum a praticamente todas estas práticas é o desejo dos participantes de encontrarem um propósito para as suas vidas, controlo sobre aspetos que, muitas vezes, são incontroláveis. É aqui que Lorde se identifica com a narradora de Mood Ring.

 

A narradora, no fundo, sabe que nada daquilo funciona, mas quer desesperadamente que funcione. Quer desesperadamente ver as roupas do rei que vai nu. O anel do humor, que dá o título à música, é um símbolo dessa mentalidade: algo que toda a gente com dois dedos de testa sabe que não funciona, mas toda a gente finge que funciona. Acaba por me lembrar, um pouco, Perfect Places, sobretudo nos versos “Take me to some kind of place”, já que também fala em procurar respostas nos sítios errados.

 

Em suma, Mood Ring é a música mais interessante em Solar Power.

 

Chegamos, finalmente, a Oceanic Feeling, que encerra a edição padrão do álbum. Lorde diz que é a sua preferida, mas apenas porque foi a última a ser composta.

 

De uma maneira estranha, vejo Oceanic Feeling menos como uma canção normal, por si só, mais como banda sonora, música de fundo no bem sentido. Uma “vibe”, como se diz hoje em dia. É pouco provável que a oiça fora do contexto deste álbum ou de uma playlist de verão, como a minha

 

 

Musicalmente, começa minimalista, quase só com vocais de Lorde. Sobretudo nas primeiras vezes que a ouvi, lembrava-me de músicas como Bravado e a reprise de Liability e ficava à espera de batidas à Pure Heroine (o mesmo acontecia com The Path). Aqui, no entanto, ouvem-se cigarras (que Lorde quis incluir no álbum por fazerem parte da banda sonora do verão neozelandês. Também fazem parte do nosso) e, mais tarde, bateria ao vivo.

 

Faz-me lembrar Edge of the Ocean, de Ivy, que acaba por ter um tema semelhante.

 

Oceanic Feeling é uma das poucas músicas neste álbum que se encaixa no conceito de “ode ao sol e à natureza”, que Lorde insiste que é o tema principal. Funciona como uma continuação temática de Solar Power, a música: Lorde fala sobre passar o dia à beira-mar com a sua família, pescando ou mergulhando do Bulli Point (um penhasco na Nova Zelândia), imaginando o pai fazendo o mesmo na sua juventude e os seus futuros filhos, no seu tempo.

 

Voltamos ao tema da renúncia à vida de estrela pop. O batôn preto, símbolo da era de Pure Heroine, esquecido numa gaveta qualquer. Nos últimos versos da música ​​– que me recordam a mensagem de Perfect Places ​​– Lorde refere que ainda não encontrou todas as respostas, mas vai continuar a procurá-las na praia e na natureza. E brinca com a ideia de, um dia, virar definitivamente as costas ao mundo da música.

 

E é isto Solar Power. É o segundo álbum editado este ano por uma cantora que adoro que, não sendo mau, ficou abaixo das minhas expectativas. O caso de Solar Power foi pior pois, ao contrário de Flowers For Vases, um lançamento surpresa, estávamos à espera do terceiro álbum de Lorde há um par de anos.

 

Solar Power, aliás, tem alguns problemas em comum com Flowers For Vases: o minimalismo mal executado, faixas incompletas quase todas de seguida, fazendo com que o álbum se arraste. E Lorde não tem a desculpa de ter criado o álbum completo praticamente sozinha, ao contrário de Hayley Williams. Há quem culpe Jack Antonoff pela produção fraquinha. Eu não sei o suficiente sobre o trabalho dele para opinar, mas não me surpreendia se a era dele estivesse a chegar ao fim.

 

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Em junho e julho não me imaginava dizendo isto, mas o tema Solar Power é um dos meus preferidos e gostava que o resto do álbum fosse mais parecido com ele. Aliás, os singles neste álbum ​​– Solar Power, Stoned at the Nail Salon, Mood Ring ​​– foram bem escolhidos, no sentido em que quase todas as outras estão uns quantos furos abaixo (exceto as faixas extra). 

 

Alguns fãs têm acusado Solar Power de ser um álbum demasiado alegre para o gosto dos demais. Não concordo por dois motivos. Primeiro, ao contrário de muitos, não acho que música alegre seja inerentemente inferior a música triste. O estereótipo do artista torturado, como Van Gogh, é um conceito perigoso (mas isso daria azo a um texto à parte). E, como disse antes, ando com falta de música mais animada.

 

Segundo… este não é um álbum assim tão alegre quanto isso. Não que chegue a ser propriamente pesado ou deprimente mas, lá está, as músicas lentas e incompletas roubam vida a um álbum que se queria animado, de verão.

 

O meu problema não é o estilo nem o conceito de Solar Power. O que eu queria era mais das partes boas e menos das partes más. E queria também aquilo que nos foi prometido: um álbum de celebração do sol, do verão e da natureza, não Lorde queixando-se de ser estrela pop música sim música não.

 

Mas pronto, foi o que tivemos. Entretanto, consta que Lorde tem andado a criar música e tem brincado com a ideia de lançar um álbum em breve. Não teríamos de esperar mais quatro anos pelo próximo. Se realmente vier outro, esse deverá ser mais triste que Solar Power ​​– possivelmente processando mais a fundo a morte de Pearl, algo que não coube no terceiro álbum.

 

Ou então, Lorde pode decidir hibernar outra vez durante dois ou três anos. Não me admirava.

 

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De qualquer forma, espero que o próximo trabalho de Lorde seja um bocadinho melhor, mesmo que fique aquém dos primeiros dois álbuns dela. 

 

E é tudo por hoje. Agora tenho de tratar da análise a Fronteira, mas ainda não terminei a segunda maratona. Esta temporada é bem menos cativante que as anteriores, revê-la tem sido custoso. Vou fazer um esforço a partir de agora, mas ainda assim deve demorar. Obrigada pela vossa visita.

Lorde – Solar Power (2021) #1

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Quatro anos depois do último álbum, mais de dois anos depois de se ter escondido das luzes da ribalta, a cantora neozelandesa Ella Yelich-O’Connor, mais conhecida por Lorde, lançou finalmente o sucessor ao excelente Melodrama no dia 20 de agosto: Solar Power. Nesta altura, os fãs já conheciam três músicas do álbum. Falei sobre a primeira, com o mesmo nome, aqui. Agora vamos falar sobre o álbum inteiro. Como o costume, tenho bastante para dizer, assim, este texto virá em duas partes. Publico a segunda amanhã.

 

Vou dizê-lo já, sem rodeios: Solar Power não chega aos calcanhares nem de Pure Heroine nem de Melodrama. Eu não estava à espera que chegasse – pelo menos não aos de Melodrama. Tinha a esperança de que Lorde fizesse um brilharete pela terceira vez, mas seria sempre difícil.

 

Ainda assim, esperava algo um pouco melhor do que isto. 

 

Comecemos pela sonoridade. Alguns fãs não gostaram do corte com o som mais eletrónico e a percussão dos álbuns anteriores, sobretudo do primeiro. Eu pessoalmente não me importo, mas existem músicas melhor conseguidas do que outras.

 

Eu dividiria as faixas de Solar Power em dois grupos. Na primeira categoria temos números folk pop, guiados por guitarras acústicas à Natalie Imbruglia com bateria ao vivo. Na segunda categoria temos músicas sem percussão, guiadas por uma guitarra Fender Jaguar tocada como se fosse uma guitarra acústica, focadas nos vocais, muitas vezes com um tom sonhador e vagamente psicadélico, à anos 60 e 70. Nem todas as faixas se encaixam perfeitamente nestas categorias, mas por uma questão de simplicidade vou recorrer várias vezes a estas designações. 

 

 

Vou, aliás, começar por uma música com características de ambos os grupos: The Path, que também abre o álbum e é uma das minhas preferidas. Esta começa com a guitarra Fender e Lorde harmonizando consigo mesma nos vocais. Mais tarde entra a bateria, depois a guitarra acústica e a música ganha uma nova vida. 

 

Antes de falarmos da letra, devo referir uma das minhas principais críticas a Solar Power. O facto de este não ser o que nos foi prometido. Lorde descreve Solar Power como um álbum de celebração do sol e da natureza, mas isso só se aplica a três canções no máximo. Daquilo que eu oiço, mais do que outra coisa, Solar Power é Lorde dizendo que não quer ser uma estrela pop.

 

Nesse aspeto, The Path é uma boa introdução àquele que é o principal tema de Solar Power. Funciona, aliás, como a Idle Worship de Lorde, ainda que menos sombria e ressentida. “If you’re looking for a saviour, well that’s not me”. Refere ainda que tem “pesadelos com flashes de câmaras”, que fugiu a tudo para o sol e para a natureza e não atende chamadas “da editora ou da rádio”. 

 

Outra música que explora a fuga à fama é California. A letra descreve o estilo de vida de Hollywood: o luxo, a bebida, as pessoas bonitas, muitas delas antigas crianças-prodígio, mas também a falta de privacidade e os juízos de valor – tendo sido isso que a fez fugir para o sol da sua terra. Noutra música, The Man with The Axe, Lorde refere ansiedade só de pensar em concertos – ao ponto de ter tido um ataque de pânico aquando de uma atuação perante a família real norueguesa.



É curioso estas músicas terem saído nesta altura, quando ser uma estrela pop, sobretudo no feminino, nunca teve tão pouco apelo. Veja-se o que aconteceu com duas das maiores cantoras dos últimos vinte anos. Britney Spears foi praticamente escravizada pelo próprio pai e só agora é que conseguiu recuperar o controlo sobre a sua própria vida. Taylor Swift, por comparação, teve mais sorte. Mas ainda assim, para além do habitual escrutínio e falta de privacidade, perdeu os direitos da sua própria música, estando agora a regravar os seus primeiros álbuns. 

 

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Depois temos Billie Eilish, cujo álbum mais recente descreve o lado negro dessa vida, com paparazzi, stalkers, relações tóxicas e pressões externas em relação ao seu visual. E, claro, a Internet, as redes sociais agravam ainda mais estes problemas. Não surpreende que, não apenas Lorde, mas também qualquer artista com popularidade e juízo só use as respectivas contas para assuntos oficiais, como lançamentos de projetos. Taylor Swift, Billie Eilish, Beyoncé, mesmo Hayley Williams. 

 

Além disso, mesmo os fãs hoje em dia são um campo minado. Posso estar enganada, mas, da minha experiência dos últimos anos, as comunidades de fãs online estão piores agora. Vão muito a extremos: os artistas ou são Deus na Terra ou são cancelados. Os stans – ninguém percebeu que a música do Eminem é uma chamada de atenção – veneram automaticamente tudo o que o artista produz, sem sentido crítico, e quem não o faça corre o risco de ser ostracizado. Nunca aconteceu comigo, felizmente, mas também já não sou muito ativa nestas comunidades. Mas já vi acontecer com Jon, um dos meus YouTubers preferidos, que faz crítica musical – só porque ele, como eu, não gostou muito de Flowers For Vases!

 

Há um certo tipo de comentário que me faz comichão. Pessoas que escrevem coisas como “esta música curou-me a depressão”. Das duas uma, ou estão a trivializar a saúde mental, ou estão a ser sinceros, o que é preocupante.

 

Contra mim falo, pois eu não era muito diferente aqui há uma década, mais coisa menos coisa. Colocava quase todo o sentido da minha vida no álbum seguinte de Avril Lavigne. E embora não me arrependa de ter feito parte – e ainda faço, de certa forma – dessa comunidade… eu exagerei um bocadinho no tempo que lhe dediquei. Hoje em dia os meus interesses são muito mais diversificados e tenho uma relação muito mais saudável com cada um deles. Tenho pena que isso não tenha acontecido mais cedo.

 

Em todo o caso, esta mentalidade coloca os artistas numa posição difícil – o que nos leva de volta a The Path.

 

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Lorde chegou a dizer que tem dinheiro suficiente para se sustentar para o resto da sua vida. Pontos para a honestidade – é uma das poucas figuras públicas que o admite com todas as letras, apesar de nós, simples mortais, sabermos que muitas estão numa situação semelhante. Ella regressou porque continua a gostar de fazer música, mas esta não é a sua vida real. São umas férias estranhas da vida que leva na Nova Zelândia, com a família e os amigos, onde as pessoas não a reconhecem na rua e os paparazzi são praticamente inexistentes. 

 

E sinceramente? Quem não faria o mesmo se estivesse no lugar dela? Quem não passaria os seus dias a nadar, a pescar, a passear na praia, a jardinar, tendo possibilidades para isso? Aliás, é mais ou menos o que muitos estão a optar fazer em países como os Estados Unidos na chamada Grande Demissão. O trabalho não é tudo na vida!

 

E no entanto…

 

Para uma artista que diz estar farta da vida de estrela pop, Lorde faz bastantes referências a momentos marcantes da sua vida de estrela pop neste álbum. The Path refere um dos Met Galas em que participou (sou a única aqui que não percebe o propósito do Met Gala?). California refere o Grammy que ganhou com Royals. The Man With the Axe refere as “centenas de vestidos” e “quadros emoldurados” que Lorde possui. Helen of Troy refere os Grammys de 2018, em que Lorde foi a única nomeada para álbum do ano que não pôde atuar em palco.

 

É como se dissesse:

 

– Olhem para mim, ser famosa é horrível! Estive nesta festa de pessoas ricas, ganhei este prémio, tenho montes de coisas bonitas mas ah! Não gosto nada!

 

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Por outras palavras, é um bocado “pobre menina rica”, um bocado falta de noção. A própria Lorde admitiu que fala de uma posição de privilégio… mas estará assim tão consciente desse privilégio?

 

Uma das mensagens de Lorde tem pregado, aliás, tem me dado um certo mal-estar. A citação que tem repetido, de “como passamos os nossos dias é como passamos as nossas vidas”, a “arte de não fazer nenhum”, menos redes sociais e Netflix e mais ar livre. 

 

Eu percebo a intenção, mas… Lorde acha que todos conseguimos escolher como passamos os nossos dias e as nossas vidas? É fácil para Ella fugir a tudo e passar os dias  na praia. Vive na Nova Zelândia – país infame pelas suas paisagens e por ter sido dos melhores a lidar com o Coronavírus – e pode dar-se ao luxo de escolher quando trabalha.

 

Não tenho nada contra a maneira como Lorde passa os seus dias. Nem sequer me queixarei se ela decidir hibernar de novo durante anos, antes de lançar mais música. Mas ela tem de ter um pouco mais consideração por quem não pode fazer o mesmo. 

 

E em defesa de Lorde… ela tem dúvidas. Talvez as referências todas sejam um reflexo disso mesmo, da sua ambivalência. California, que como vimos critica o estilo de vida de Hollywood, não deixa de incluir a frase “But everytime I smell tequila, the garden grows out in my mind again”. Mas o maior exemplo disso é Stoned at the Nail Salon. 

 

Esta é outra das minhas preferidas neste álbum. Não sei se é considerada o segundo single oficial, mas foi a segunda música que ouvimos, quase um mês antes do resto do álbum.

 

 

Na minha opinião, Stoned at the Nail Salon é a melhor das músicas da segunda categoria e uma das melhores letras neste álbum. Funciona como uma sequela a Ribs – embora Lorde refira outra como sequela a esse tema – ao refletir sobre a passagem do tempo, o envelhecimento, a nossa própria mortalidade. Ao mesmo tempo, uma vez mais, fala sobre a necessidade de deixar a vida de estrela pop para trás… mas questiona-se se essa é a decisão certa. 

 

Tenho uma teoria no que diz respeito à discografia de Lorde, à luz de Solar Power. Pure Heroine representa a vida mais calma, terra-à-terra, por vezes entediante que Lorde levava na Nova Zelândia em miúda, antes de lançar música. Melodrama, por sua vez, como toda a gente sabe, representa um estilo de vida mais intenso e frágil, de excessos e hedonismo – Lorde nunca o associou, preto no branco, ao estilo de vida do mundo da música, mas penso que se pode fazer esse paralelismo.

 

De uma maneira engraçada, em Solar Power, Lorde está a renegar Melodrama e a voltar a Pure Heroine. Em Royals, ela dizia que não queria saber das jóias, dos hotéis, etc – embora não deixasse de fantasiar com Cadillacs e com a realeza. Em California, ela já experimentou as jóias e os hotéis, mas fartou-se. Em Still Sane, Lorde receava entrar no mundo da música. Em Bravado, estava disposta a engolir esses medos para poder perseguir as suas ambições. Músicas como The Path e The Man with the Axe indicam que essas ambições já não valem o esforço. 

 

Regressando a Stoned At the Nail Salon, a segunda estância é uma referência bastante clara a Melodrama. Alguns fãs viram um paralelismo na primeira frase (“Got a memory of waiting in your bed wearing only my earrings”) com The Louvre (“Half of my wardrobe is on your bedroom floor”) e Lorde confirmou que estes se referem à mesma canção. 

 

Por outro lado, o verso “We’d go dancing all over the landmines under our town” parece-me uma referência a Homemade Dynamite. Stoned at the Nail Salon (e também Secrets From a Girl (Who’s Seen it All)) coloca um ponto final definitivo capítulo da vida de Ella – embora esta admita que ainda nutre sentimentos pelo amado em questão. 

 

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Na verdade, soa um pouco mais como se Lorde estivesse a tentar convencer-se a si mesma que, de facto, está na hora de abrandar, de assentar. É um daqueles casos de, como a própria Ella diz “the grass is always greener on the other side” – esta expressão não tem uma equivalente em português. Só mesmo a canção do António Variações “Estou bem aonde eu não estou, porque eu só quero ir aonde eu não vou”. É uma coisa muito humana, eu mesma sou culpada disto.

 

Ou então, como diz a letra, isto pode ser apenas Lorde ganzada. Não sei se é para levarmos o título da música à letra – acho que ambas as hipóteses são válidas. Podem ser simples devaneios existenciais, ou se calhar Ella costuma fumar um charro enquanto lhe arranjam as unhas. Houve quem tenha imaginado a cena

 

Gosto muito da sonoridade de Stoned at the Nail Salon. A interpretação de Lorde lembra-me Joan Baez em certos momentos – também gosto dos vocais em coro. A instrumentação é simples, mas resultou bem (pena não poder dizer o mesmo de outras músicas da segunda categoria neste álbum…). Gosto das notas de guitarra que soam de vez em quando – por exemplo, depois do primeiro refrão – dando à música um tom sonhador que condiz com a letra. 

 

Obviamente.

 

Já fui falando aqui e além sobre a letra de California, falta falar sobre a sonoridade. Esta até é interessante: parecida com muitas da segunda categoria, embora tenha percussão, umas notas de piano aqui e ali, aquelas notas de guitarra sonhadoras como em Stoned at the Nail Salon. Ainda assim, não chega para me entusiasmar.

 

Para encerrar o tema da fama em Solar Power, falemos sobre Helen of Troy, uma faixa que não faz parte da edição-padrão do álbum. 

 

 

Mas devia fazer. Ambas as faixas extra deviam fazer. 

 

Instrumentalmente, não tenho muito a dizer. Inclui-se na segunda categoria, não é das melhores, mas evita a maior parte das falhas desse grupo. Não soa incompleta ou enfadonha, como outras que veremos adiante.

 

Sendo uma faixa extra, Lorde nunca falou sobre ela até agora – tanto quanto sei, pelo menos. Não existe nenhuma interpretação “oficial” da letra. Para mim, Helen of Troy é sobre o poder disruptor do estatuto de Lorde como celebridade – tanto para ela como para os demais. 

 

Como vimos antes, a letra começa por referir a nega que recebeu nos Grammys. Dá a entender, de seguida, que virou as coisas a essa vida, pelo menos em parte, por causa de indignidades como essa. Refere também ocasiões em que Lorde concentra as atenções em si mesma, mesmo sem o desejar, dando azo a ciúmes e ressentimentos. Lá está, cidades viradas do avesso por causa dela, como Helena de Tróia. 

 

Existe espaço em Helen of Troy para Lorde dar conselhos a si mesma: para não descarregar nos demais, para não ser demasiado dura consigo mesma. E falando sobre isso…

 

Lorde tem falado de Secrets From a Girl (Who’s Seen it All) como uma sequela a Ribs – ao ponto de ter pegado em dois acordes dessa música e trocado a ordem, para criar este tema novo. Mais: Secrets é uma carta da Ella atual à versão de si que escreveu a letra Ribs.

 

 

Temos novamente uma referência aos temas de Melodrama – para dizer que Lorde já não comete os excessos de antes (“Dancing with my girls, then having two drinks and leaving”) e encorajando o seu eu passado a fazer o mesmo. A outra estância, por outro lado, é toda ela uma referência à morte de Pearl, o cão de Lorde. Ella terá escrito esta letra pouco depois da perda e, nesta parte, tenta consolar-se a si mesma. 

 

Musicalmente, é uma música da primeira categoria. Tem momentos mais minimalistas, mas depois surgem as guitarras acústicas e as baterias, criando um som luminoso. Exatamente aquilo que esperaríamos de um álbum inspirado pelo sol. 

 

Ainda assim, não consigo gostar muito de Secrets. Compreendo a intenção, até encontro alguma sabedoria na letra – o verso “everybody wants the best for you, but you gotta want it for yourself” aplica-se demasiado bem à minha vida – mas soa um bocadinho lamechas, sobretudo para Lorde. Suponho que seja inevitável em qualquer forma de carta ao nosso eu do passado – quando eu mesma o fiz, também saiu lamechas. 

 

Na verdade, eu até era capaz de gostar da música se cortassem a narração de Robyn, na parte final. Esforça-se um bocadinho de mais para entrar na moda da saúde mental dos últimos anos. Muitos fãs têm comentado que, se era para ter Robyn na música, que fosse um dueto a sério, cantado. Eu não conheço o trabalho da cantora, não posso opinar, mas se resultasse em algo melhor…

 

Outra música de que não gosto é The Man with the Axe, sobretudo por causa da sonoridade. Lorde referiu que este tema começou por ser um poema – mais valia que ela o tivesse declamado. A maneira como ela o cantou é uma seca. É outra música da segunda categoria, quase só com guitarra, mas os vocais são demasiado graves e lentos, sem nada que cative o ouvinte. 

 

 

Esta música precisa de intensidade, de vida: vocais mais fortes e um tudo nada mais rápidos e instrumentação mais completa, reforçando os discretos elementos de jazz e blues que noto. 

 

Ao menos a letra é semi-interessante. Tirando os aspetos que já fomos referindo, sobre a sua vida de estrela pop, The Man with the Axe é uma canção de amor para o atual parceiro (possivelmente noivo) de Lorde. A letra confirma que é um homem bastante mais velho – segundo os rumores já estará na casa dos quarenta. 

 

A mim faz-me confusão, confesso. Depois do divórcio de Hayley e das múltiplas situações que terão inspirado Your Power, de Billie Eilish, romances entre mulheres jovens e homens muito mais velhos fazem soar alarmes. Ella, ainda por cima, é apenas um ano mais velha que a minha irmã e eu não estou a ver a minha irmã namorando ninguém com quarenta anos ou mais.

 

Aliás, nem eu me vejo a mim própria namorando ninguém com quarenta anos ou mais. E já tenho trinta e um.

 

Dito isto, conheço casais com uma grande diferença de idade do homem para a mulher e que funcionam. Costuma-se dizer que as mulheres amadurecem mais depressa – eu tenho as minhas dúvidas. Acho que, na verdade, a sociedade é muito mais indulgente para rapazes e homens do que para raparigas e mulheres. 

 

No caso específico de Lorde, ela sempre se caracterizou por ser madura para a idade (ao ponto de ter circulado uma teoria da conspiração que defendia que Ella, na verdade, está na casa dos quarenta). Além disso, recentemente, a jovem queixou-se que a fama obrigou-a a crescer demasiado depressa. Diz mesmo que os amigos a veem hoje como uma mãe ou mesmo como uma avó. 

 

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Nesse aspeto, faz sentido que ela prefira uma relação com alguém mais velho.

 

Enfim, se resulta com ela…  Só espero que, daqui a uns anos, Lorde não esteja a cantar a sua versão de Your Power.

 

Muito bem, ficamos por aqui para já. Amanhã continuo. Obrigada pela vossa visita.

Músicas Não Tão Ao Calhas – Solar Power

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No passado dia 10 de junho houve um eclipse solar – que infelizmente mal se viu em território português. A cantora neozelandesa Ella Yelich-O'Connor, mais conhecida pelo seu nome artístico Lorde, aproveitou a ocasião para lançar Solar Power, o primeiro single do seu terceiro álbum de estúdio com o mesmo nome, que sairá a 20 de agosto.

 

Solar Power sucede a Melodrama, que saiu em 2017. Este é um álbum que, já na altura em que escrevi sobre ele, reconheci ser espetacular e o tempo só o melhorou. Dois, três, quatro anos após o seu lançamento e continuo a descobrir significados novos – mas não tantos como a autora desde excelente vídeo. Melodrama não se saiu grande coisa em termos comerciais, mas ganhou um culto de seguidores devotos, nos quais me incluo.

 

Por sua vez, Melodrama sucedia a Pure Heroine. Pessoalmente, gosto menos e compreendo menos este álbum, mas todos concordam que é também excelente e francamente revolucionário.

 

Ou seja, a fasquia está altíssima para Solar Power. Mais sobre isso adiante.

 

O primeiro single do álbum com o mesmo nome não se encaixaria nem em Pure Heroine e Melodrama. Dá para notar, no entanto, as impressões digitais de Lorde.

 

 

Uma das novidades é o facto de ser conduzida pela guitarra acústica. É apenas a segunda canção de Lorde conduzida por esse instrumento – a primeira foi The Louvre. Em entrevista ao The Guardian, Ella confessou que, durante os trabalhos de Pure Heroine, não achava as guitarras fixes. Eram demasiado “meio dos anos 2000” para o seu gosto, mais adequadas a serem cantadas à volta de uma fogueira, num acampamento.

 

Nisso não éramos parecidas.

 

Os acordes que guiam Solar Power nas estâncias têm um tom grave e contido – que se obtém quando se prende ligeiramente as cordas no braço na guitarra e só se toca as de alumínio. No refrão, as cordas de nylon soltam-se, emitindo um som mais luminoso.

 

Eu falo em refrão mas, para ser rigorosa, Solar Power não tem um refrão convencional. A melodia é semelhante, mas a letra é diferente. Depois do segundo refrão, a música explode para um som ainda mais luminoso, mesmo tropical, que se adequa à letra. 

 

Muitos têm-na comparado a Freedom, de George Michael. Eu concordo que é parecida, mas não tanto como algumas pessoas parecem achar. Pelo menos não ao ponto de ter pensado que era um “sample”. De qualquer forma, os herdeiros do falecido cantor já deram a benção a Lorde e a Solar Power.

 

Em termos de vocais, Lorde não faz nada de extraordinário, mas canta com a sua típica cadência, com o seu típico tom grave. Por outro lado, temos Clairo e Phoebe Bridgers nos backvocals – faz-me lembrar Roses/Violet/Lotus/Iris, nesse aspeto. 

 

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Tirando algumas particularidades de que vamos falar de seguida, Solar Power é uma música de verão pura e dura – o que pode ser interpretado como um passo atrás, depois da maneira como Lorde explorou a dicotomia verão/inverno, calor/frio em Melodrama. Segundo Ella, Solar Power é sobre a “energia namoradeira” que surge quando o tempo aquece e as roupas se reduzem.

 

Nada de muito original aqui. É basicamente o conceito das temporadas de verão dos Morangos com Açúcar.

 

E na verdade, este é um dos casos em que aquilo que o artista diz sobre a música não bate muito certo com o que a música parece dizer. Existem poucas referências a romance ou sexualidade em Solar Power: só mesmo em “my boy behind me, he’s taking pictures” e “are you coming, my baby?” e mesmo assim.

 

A letra é menos Morangos com Açúcar e mais Eu Gosto é do Verão (se bem que menos tola, no bom sentido). Está cheia de frases pedindo para serem transformadas em legendas do Instagram ou do Tik Tok (algo que tenciono fazer com fotos da minha cadela na praia). Solar Power fala sobre encontrar… bem, os seus sítios perfeitos na praia e sentir as mágoas e as preocupações derretendo com a luz do sol.

 

A narradora, aliás, assume-se um pouco como uma profeta, uma deusa solar ensinando ao povo as maravilhas do verão – “Lead the boys and girls onto the beaches. Come one, come all, I’ll tell you my secrets, I’m kinda like a prettier Jesus”. Suponho que a narradora seja a mesma personagem que Ella descreveu na carta de apresentação do álbum – mais sobre isso já a seguir.

 

O videoclipe explora bem essa ideia, mostrando Lorde na praia, líder de uma espécie de tribo ou seita, vestida de amarelo vivo – em contraste com os tons mais terra, mais discretos dos demais (tendo em conta que Ella sofre de sinestesia, esse pormenor foi cem por cento intencional, não duvidem). Lorde sempre representou esse papel de certa forma na sua música – mais a porta-voz da sua geração do que propriamente um guia, é certo. 

 

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Já que falamos do videoclipe, consta que este foi a introdução ao universo cinemático deste álbum. Se Melodrama decorria todo numa única noite, durante uma festa, Solar Power decorre numa praia – ou pelo menos os videoclipes. Lorde não revelou a praia exata onde decorreram as filmagens por motivos óbvios (e mesmo assim, acho que no Reddit já descobriram). Ella disse para imaginarmos que decorre na nossa praia preferida.

 

Na Meia-Praia de Lagos, portanto. Naquela zona não concessionada, mais perto do pontão, com menos pessoas, onde a Jane pode correr à vontade. 

 

Têm circulado piadas na Internet sobre o facto de Solar Power ter começado com Lorde admitindo que “odeia o frio”, quando uma das poucas coisas que soubemos dela, nos últimos anos, foi a sua viagem à Antártida. Eu acho que faz sentido – depois de tanto tempo num dos lugares mais frios do planeta, qualquer um sairia de lá sedento de calor e de verão. 

 

Em suma, Solar Power está longe de ser a melhor música de Lorde. Não sendo propriamente fútil, não tem grande profundidade e a mensagem não é muito original. Sobretudo se compararmos com Pure Heroine e Melodrama. Quem estava à espera de algo mais intenso e revolucionário, apanhou um balde de água fria. 

 

No entanto, mesmo no seu… não vou dizer “pior”, porque Solar Power não é uma música má, mas pronto, menos bom, Lorde continua acima da média. O tom descontraído sabe bem, sobretudo depois do último ano e meio – a própria Ella revelou que essa foi uma das razões pelas quais lançou a música nesta altura. 

 

Como vi na Internet, aliás, a única música alegre deste ano só podia vir da Nova Zelândia.

 

 

Consta que, de resto, apesar de não deixar de incluir algumas faixas mais sérias e introspectivas, Solar Power deverá ser um álbum no geral alegre e despreocupado. Pelo menos é essa a ideia com que fico. Isso agrada-me. Em parte por aquilo que referi sobre o último ano e meio, mas também porque dois dos álbuns que mais tenho ouvido nos últimos meses são o folklore e o evermore de Taylor Swift. Não me interpretem mal, são excelentes álbuns mas são emocionalmente desgastantes (ele é my tears ricochet, ele é seven, ele é august, ele é illicit affairs, ele é this is me trying, ele é ‘tis the damn season, ele é champagne problems, ele é marjorie…). Um álbum mais leve saber-me-á bem.

 

Este será também um trabalho mais focado na natureza – segundo Lorde, em momentos de “desgosto, luto, profundo amor ou confusão”, o mundo natural é o seu abrigo, é o seu sítio perfeito (não se limita à praia). O heterónimo dela neste ciclo será a personagem que ela descreveu na apresentação do álbum: uma mulher “sexy, brincalhona, selvagem e livre”, com múltiplos amantes, ligada à terra e ao passado, mas ao mesmo tempo moderna e de olhos no futuro.

 

Uma vez mais, nada disto é inédito ou particularmente original. Nos últimos anos estes movimentos de regresso à natureza têm estado na moda. Veja-se, lá está, folklore e evermore, por exemplo, bem como a estética cottage core, mesmo Petals For Armor até certo ponto. O heterónimo de Lorde que descrevi acima, aliás, lembra-me a Mulher Selvagem de Mulheres que Correm com os Lobos. 

 

Tudo isto faz sentido como resposta ao mundo atual: cada vez mais tecnológico e, claro, com uma pandemia. Solar Power, aliás, fala mesmo em atirar o telemóvel para a água – e Lorde já veio avisar que não vai voltar para as redes sociais. 

 

Como li algures – ironicamente na Internet – há dez anos vínhamos para as internetes para fugir ao mundo real. Agora fugimos para o mundo real para escapar às internetes.

 

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Solar Power sai então a 20 de agosto – um tudo nada demasiado perto do fim do verão para o meu gosto, se é um álbum estival. Bem, eu este ano também não vou ter férias de verão, só posso desfrutar da época ao fim-de-semana, por isso…

 

Fica para o ano. 

 

Estou a fazer por não elevar demasiado as minhas expectativas para este álbum. É muito difícil que Solar Power seja melhor que Melodrama ou Pure Heroine. Consta que esse terá sido um dos motivos para Ella ter demorado tanto tempo a cozinhar este trabalho. Eu pelo menos não levarei a mal se não conseguir atingir o mesmo nível estratosférico – parecendo que não, a miúda é humana!

 

Dito isto, continua a ser Lorde. Não baixo assim tanto a fasquia. 

 

É possível que Ella lance outro single antes de 20 de agosto. Há rumores de que Stoned at the Nail Salon poderá sair nos próximos dias. Deveria ter esperado? Deveria ter escrito sobre as duas músicas no mesmo texto? Talvez, mas não me apeteceu ficar à espera: o blogue já estava parado há muito tempo. Além disso, aqui o estaminé faz nove anos hoje, queria assinalá-lo com um texto novo.

 

Logo vejo se escrevo sobre Stoned at the Nail Salon ou sobre qualquer outro single que venha a ser lançado antes do álbum. Em princípio não o farei: quero começar a trabalhar noutros projetos e escrever sobre outras coisas no próximo texto deste blogue. Posso desde já adiantar que este será um texto de Músicas Ao Calhas sobre uma personagem recorrente aqui no estaminé. Não quero ter pressa com este (já tenho stress que chegue noutras áreas da minha vida), mas não devo demorar muito. 

 

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Um brinde rápido a este blogue, um dos orgulhos da minha vida – e um agradecimento a todos os que o têm visitado. Encerro este texto com uma pequena playlist baseada em Solar Power – que poderá vir a crescer com o tempo. Agora que acabaram de ler, se tiverem possibilidades para isso, ide aproveitar o sol... mas não se esqueçam do protetor solar!

 

Petals For Armor: Self-Serenades e Música 2020

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No passado dia 18 de dezembro, Hayley Williams lançou o EP Petals For Armor: Self-Serenades. Segundo declarações da própria, este EP reflete, pelo menos em parte, os largos meses que Hayley passou em casa, com apenas a sua guitarra por companhia – bem, a sua guitarra e o seu cãozinho, Alf. O EP consiste em versões acústicas de Simmer e Why We Ever – originalmente lançadas no álbum Petals For Armor – e uma única faixa inédita, Find Me Here…

 

...e, aqui entre nós, soube-me a pouco. 

 

Find Me Here é uma faixa com menos de dois minutos de duração, que mais parece um interlúdio (semelhante aos do Self-Titled) do que uma canção a sério. Admito que eu estava com expectativas muito altas. O EP foi anunciado há cerca de dois meses e, desde então, criei um hype exagerado em torno de Find Me Here – ainda que apenas para mim mesma. Andava há semanas a planear a minha escrita já a contar com a análise a essa canção. 

 

Assim, quando ouvi a música pela primeira vez, a minha primeira reação foi:

 

– …só isto?

 

Mesmo deixando de lado as minhas expectativas defraudadas, continuo a achar a canção curta demais. Sobretudo porque o minuto e cinquenta segundos, mais coisa menos coisa, de Find Me Here é lindo! Eu queria mais! 

 

 

Find Me Here é um pequeno número acústico, só mesmo guitarra e voz. Não é difícil imaginar Hayley tocando isto sentada no seu jardim com a sua guitarra. Gosto dos vocais – não percebo se são um efeito qualquer que fizeram à voz de Hayley, ou se temos duas faixas de vocal, uma mais grave do que a outra. Em todo o caso, ficou bem.

 

A música e, por conseguinte, a letra são curtas mas passam a mensagem de forma eficaz. Quando uma pessoa passa por um mau bocado, ou lida com uma crise, regra geral, é importante ter um ente querido por perto, por motivos óbvios. No entanto, existem certos problemas, certas crises, que uma pessoa tem de resolver sozinha. Pessoas amadas não podem ajudar, podem até ser prejudiciais ao processo.

 

É sobre isso que Find Me Here fala. A narradora vai dar espaço ao ser amado para resolver o que tiver a resolver, mas vai deixar uma porta aberta para quando o ente querido voltar. Se quiser.

 

É demasiado curta, podia ter tido uma segunda estância, mas é uma canção bonita. Ficaria bem como encerramento de um álbum. Estará a encerrar a era Petals For Armor? Ou apenas 2020? 

 

Umas palavras para as versões acústicas de Simmer e Why We Ever. Nenhuma delas está ao nível das versões do álbum, a meu ver – a força das canções parte muito da instrumentação e, no caso de Simmer, daquela hipnótica interpretação vocal.

 

Ainda assim, gosto da Simmer acústica, ainda que não tanto como da versão original. Este arranjo dá um carácter completamente diferente à música. O refrão fala sobre o dilema entre raiva e piedade – a versão acústica parece adotar a piedade, enquanto a versão do álbum se inclina mais para a ira. 

 

 

A versão acústica de Why We Ever, no entanto, não me diz muito. Não foi só a instrumentação a mudar, a melodia também sofreu alterações, ficando irreconhecível. Não gosto muito do resultado final.

 

Na verdade, noutras circunstâncias, nem teria escrito sobre este EP. No entanto, como o final do ano se aproxima a passos largos, quero aproveitar a boleia e fazer a minha costumeira retrospetiva musical.

 

2020 não foi um mau ano em termos de música, mas a pandemia mudou muita coisa. Antes os artistas e bandas lançavam álbuns depois de semanas de singles e hype – ou então lançavam-nos de surpresa, de um dia para o outro. Depois do lançamento, continuavam a lançar singles, atuavam nas televisões e, ao fim de algum tempo, partiam em digressão. 

 

Com o Coronavírus, no entanto, parece que os ciclos terminam abruptamente com o lançamento do álbum. Não é possível dar concertos e mesmo videoclipes e apresentações das músicas são arriscadas. Aconteceu com Petals For Armor, aconteceu com o aniversário de Hybrid Theory – várias entrevistas nas semanas anteriores, grande excitação, grande antecipação. Mas depois de o álbum sair, parou tudo. No caso de Petals For Armor, só agora há pouco tempo – talvez por causa do Self Serenades – é que tivemos coisas como a sessão do Tiny Desk. 

 

Tem sido frustrante, sim. Mas continuamos a ter o que mais importa: a música em si.

 

Nesse aspeto, 2020 para mim pertenceu a Hayley Williams. O ano musical começou e terminou com ela. Abriu com o lançamento de Simmer, em janeiro, encerrou-se agora com o Self Serenades. 

 

 

Custa a acreditar que foi ainda este ano que ouvimos Simmer pela primeira vez, que saiu a primeira parte de Petals For Armor. Adorei escrever o texto sobre Simmer e Leave it Alone, bem como a análise ao álbum completo, mais tarde. Quer a solo quer com os Paramore, a música que Hayley compôs tem esta capacidade, praticamente única, de me levar à introspeção – o que é excelente para a escrita. Nos primeiros meses da pandemia, com o confinamento e o cancelamento de quase tudo o que dava alegria às nossas vidas, o lançamento pouco convencional da segunda parte de Petals For Armor foi um excelente consolo. 

 

Para o melhor e para o pior, este álbum ficará para sempre associado ao Coronavírus – não sei se teria conseguido manter a sanidade sem ele, sobretudo nos primeiros meses. Talvez tivesse sido sempre esse o desígnio. Em todo o caso,  com tanta música extraordinária – Simmer, Cinnamon, Sudden Desire, Dead Horse, Over Yet, Roses/Violet/Lotus/Iris, Pure Love, Sugar on the Rim, Crystal Clear… – deu para provar que Hayley é excelente, quer numa banda, quer em nome próprio.

 

2020 também ficou marcado pelos Linkin Park – pela análise a One More Light em maio, mas sobretudo pelo vigésimo aniversário de Hybrid Theory. Esse foi outro texto que me entreteve durante meses, com pesquisas e rascunhos que me levaram aos primórdios dos Linkin Park enquanto banda. Serviu para fazer uma renovação de votos, para cimentá-los como a minha banda preferida, a par dos Paramore – mesmo que o futuro deles continue incerto.

 

O nome mais surpreendente no meu ano musical é Taylor Swift. Surpreendente é como quem diz… como escrevi antes, era apenas uma questão de tempo. 

 

Ainda assim, Taylor foi um pouco mais prevalente nas minhas audições este ano. Tive fases de obsessão com diferentes músicas dela. Perto do início do ano era Red – por ter um bocadinho a ver com um texto que escrevi no meu outro blogue. Durante um par de semanas em julho foi All Too Well, quando escrevi sobre ela. Na semana seguinte foi Cornelia Street. Na semana seguinte foi Call it What You Want. Entre outras. 

 

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Pelo meio, Taylor lançou folklore. Concordo com a opinião popular – este álbum é uma obra-prima. Eu ainda estava – ainda estou – a digeri-lo quando saiu evermore.

 

Se esta pandemia trouxe alguma coisa de bom às nossas vidas foram estes dois álbuns. Acho que ninguém discorda.

 

Ainda não processei estes álbuns por completo, sobretudo o evermore. Taylor continuará, por isso, a ser relevante para mim em 2021. Não tenciono analisar álbuns inteiros aqui no blogue, pelo menos não por enquanto. Sou ainda uma fã demasiado casual – existe muita gente por aí melhor habilitada do que eu para criar conteúdo sobre Taylor. 

 

Mas posso escrever mais textos de Músicas Ao Calhas, se me apetecer. Já tenho uma segunda canção de Taylor que tenciono analisar, mais cedo ou mais tarde.

 

Tenho também ouvido Billie Eilish, tal como já fizera no ano anterior. A minha irmã também gosta da música dela, o que é sempre fixe. Gosto imenso de Ocean Eyes, mas se tivesse de escolher neste momento, diria que a minha preferida é Everything I Wanted – é a sua Leave Out All the Rest. Uma vez mais, ainda sou uma fã muito casual – por agora. 

 

 

 

Deixo aqui a playlist com as músicas que mais ouvi no Spotify. Se bem que o tenha usado menos que o costume este ano – só nos primeiros dois ou três meses do ano e agora, nas últimas semanas, aproveitando a promoção de três meses pelo preço de um. E aparentemente o mês de dezembro não entra para estas contas. Não é a primeira vez que digo que o Spotify não é a minha única fonte de música – oiço CDs no meu carro e ficheiros mp3 no meu telemóvel.

 

A verdade é que nem todas as músicas que me ajudaram a sobreviver a 2020 estão no Spotify. Bright não está, o cover de Crawling, dos Bad Wolves, não está e, tal como me queixo há anos, a música de Digimon não está. 

 

Mesmo não tendo escrito sobre Digimon aqui no blogue este ano, mesmo não tendo havido encontro no Odaiba Memorial Day, a música de Digimon volta a ocupar um lugar de destaque na minha retrospetiva musical, sobretudo durante o verão. Vi Frontier pela primeira – e até agora única – vez e acrescentei vários temas às minhas listas (em 2021 irei ver a dobragem portuguesa, já tomando notas para analisá-la no blogue). No que toca a Adventure 2020, até agora, só este tema foi digno de se juntar à lista. 

 

Na verdade, nas últimas semanas deixei de ter vontade de ouvir música de Digimon. Um dia destes explico.

 

E foi isto 2020 em termos de música para mim. Foi um ano da desgraça em muitos aspetos, mas, como acabámos de ver, não foi assim tão mau em termos musicais. Tirando a parte dos concertos cancelados.

 

Aliás, tive a sorte de ir a um concerto há pouco tempo – o concerto acústico do Rui Veloso no Campo Pequeno. Não foi exatamente a experiência completa de um concerto, tal como gosto. Nunca fui que andar ao moche, mas confesso que sempre gostei da parte mais “suja” de música ao vivo: de suar por todos os poros, de estar rodeada de gente a suar por todos os poros, de ter de me sentar no chão, de ficar com a garganta crua de tanto cantar e gritar, de ficar com dores por todo o lado durante dias, de precisar de tomar um duche ao chegar a casa. 

 

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Em comparação, o concerto do Rui Veloso foi muito certinho, muito sossegado. Estávamos todos sentados, todos de máscara. Não podia ser de outra maneira, claro. O mais radical que aconteceu foi as nossas máscaras terem ficado inutilizadas depois de termos cantado o Anel de Rubi em coro.

 

Soube-me bem à mesma. Serviu para matar o bichinho, para estar de novo em sintonia com uma multidão, passados estes meses todos (que mais parecem anos).

 

Já que falo sobre isso, o concerto de Avril Lavigne em Zurique tinha sido remarcado para fevereiro de 2021, mas vai ser adiado outra vez – bem como o resto da digressão. Triste, mas já se calculava. Há quem diga que só se realizarão em 2022.

 

Se algum dia conseguir ver a mulher ao vivo até vou achar que é mentira.

 

Entretanto, Avril tem passado as últimas semanas em estúdio. Anunciou música nova para janeiro de 2021, até andei algo entusiasmada por uns dias – dez anos depois de What the Hell no dia de Ano Novo e toda a espera por Goodbye Lullaby… Depois de um ano como 2020 saberia bem.

 

Mas não, será um dueto com Mod Sun (não sei quem é…) para o álbum dele. Bem, era bom demais. Não sei ainda se escrevo sobre Flames (o nome da música) quando sair – logo decido. 

 

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Em todo o caso, é possível que Avril esteja já a preparar o seu próximo álbum. Pode ser que saia já em 2021 mas, conhecendo eu os ritmos dela, o mais certo é só sair daqui a dois anos. Cepticismo à parte, talvez ela queira esperar até ao fim da pandemia, para poder ir em digressão depois de editar o álbum.

 

Eu pelo menos não estou com grande pressa. Em primeiro porque Head Above Water só saiu há dois anos (embora pareça mais). Em segundo porque, depois desse álbum, estou com menos entusiasmo do que o costume. 

 

Talvez não seja má ideia ter as expectativas baixas.

 

No que toca a Lorde, no entanto, ninguém tem expectativas baixas. O terceiro álbum da neozelandesa tem estado no formo há algum tempo e quer-me parecer que será em 2021 que este será, finalmente, editado. Há cerca de um mês, Ella escreveu um texto sobre uma viagem que fez à Antártica em inícios de 2019, que alegadamente inspirou-a para voltar ao estúdio depois de Melodrama.

 

A viagem ocorreu há quase dois anos e agora é que Lorde fala dela? Não deve ser coincidência. Aposto que será uma questão de meses.

 

Não gostava de estar no lugar de Ella, para ser sincera. Ter de compôr um álbum digno de suceder a Pure Heroine e Melodrama? Eu entrava em parafuso. 

 

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Talvez devêssemos todos baixar um bocadinho as expectativas, não sermos demasiado duros se este terceiro álbum não conseguir chegar ao nível dos antecessores. Parecendo que não, Lorde é humana. 

 

Dito isto… não se admirem se Ella conseguir arrebatar-nos de novo com o seu terceiro álbum. Se existe artista capaz de um hat-trick, essa é Lorde.

 

Não me parece que hajam mais artistas do meu nicho preparando-se para lançar música em 2021, pelo menos que eu saiba. Ainda assim, da maneira como as coisas estão, tudo pode acontecer. Logo se vê.

 

E era isto que tinha para dizer. Que as vacinas funcionem e que possamos voltar em breve a jantaradas com amigos e família, a viajar sem restrições, a concertos com moche, a jogos de futebol, a Raids presenciais, a encontros no Odaiba Memorial Day. Boas entradas num ano melhor do que este. Vemo-nos em 2021!

 

Música de 2017 #2

Primeira publicação de 2018! Bom Ano, minha gente! Hoje continuamos a falar da música que me marcou em 2017. Como poderão ler aqui, se ainda não o tiverem feito, terminámos a primeira parte com uma música cantada em português. A próxima música desta lista também é cantada na nossa língua – e sei que não fui de todo a única a render-me a ela.

 

  • Salvador Sobral – Amar Pelos Dois

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Não podia falar da música de 2017 sem falar de Salvador Sobral e de Amar Pelos Dois. Nunca me interessei muito pelo Festival da Canção mas, à semelhança da maior parte dos portugueses, não fiquei indiferente ao músico e à canção que finalmente nos sagraram vencedores da Eurovisão. A noite de 13 de maio é capaz de ter sido a mais feliz do ano todo – foi como estivéssemos a ganhar o Euro 2016 outra vez.

 

Confesso que, noutras circunstâncias, talvez a música me tivesse passado ao lado. É lindíssima, sim, mas está longe de ser pioneira. Não faltam por aí baladas de piano-e-violinos. Ainda este ano tivemos Writer in the Dark, de Lorde. Por sua vez, a minha cantora preferida, Avril Lavigne, tem uma data delas – destacando-se Innocence.

 

Também acho que, se esta música tivesse saído há dez, quinze anos, talvez tivesse passado despercebida a muita gente. Mas estamos em 2017: os instrumentos a sério estão em vias de extinção, tal como já referi antes; pelo menos noventa por cento das músicas que tocam na rádio são descartáveis; a larga maioria das músicas da Eurovisão são mais espetáculo, “foguetes”, que conteúdo (embora a edição deste ano tivesse umas quantas músicas giras, sobretudo a da Bélgica). Não foi, por isso, grande surpresa que Amar pelos Dois se tenha destacado. A sua vitória sempre abrirá caminho para que músicas parecidas, com mais emoção e conteúdo, se qualifiquem para o Festival do próximo ano.

 

 

  

E de facto, se ouvirmos com atenção, Amar Pelos Dois é uma música encantadora na sua simplicidade. A minha manicura habitual diz que a canção lhe parece saída de filmes antigos da Disney – bem visto. A música funcionaria bem como uma serenata de um príncipe à sua amada ou cantada pela Branca de Neve aos animais da floresta.

 

Outro ponto a favor é o facto de o Salvador ser… “Salvadorable”. Possui o equilíbrio perfeito entre esquisito e fofinho – penso que é a isto que os anglo-saxónicos chamam “adorkable”. Ele acaba por ser parecido com a Lorde no sentido em que ambos sentem e interpretam música com o corpo todo, de forma pouco convencional. Tem, ainda um sentido de humor terra a terra, que fica sempre bem.

 

  

Isto é, até se virar contra ele, no concerto do Juntos Por Todos.

 

A boca em si não me chateou… muito. Não era de todo a melhor altura para dizer aquilo, mas não acho que tenha sido por mal. São daquelas atitudes típicas de quem é famoso há pouco tempo e ainda não tem noção da sua posição. O que me chateou mais é que pôs toda a gente a falar sobre isso e as coisas boas que aconteceram durante o resto do concerto passaram ao lado.

 

Enfim. Mais importante é que o dinheiro chegue mesmo às vítimas.

 

Em setembro, o Salvador colocou a carreira em pausa, pelos motivos de saúde que todos conhecemos. Felizmente, há poucas semanas, recebeu finalmente um coração novo (esperemos que este também possa amar pelos dois…) e, por alturas do Natal, saiu dos Cuidados Intensivos. Ainda lhe espera uma recuperação longa, mas todos desejamos que tudo corra bem a partir de agora e que não demore muito a regressar aos estúdios e aos palcos – de preferência, a tempo de dar um saltinho ao próximo Festival da Canção, organizado por Portugal.

 

  • Paramore

 

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Os Paramore foram a banda que mais ouvi no Spotify, como poderão ver aqui. Isso deve-se muito ao álbum que lançaram – e que, de maneira paradoxal, me fez revisitar a discografia antiga deles. After Laughter é muito 2017, com uma data de canções sobre pessimismo, sobre desânimo, sobre cair na real… disfarçadas de músicas alegres. Uma espécie de escapismo ao contrário.

 

As minhas opiniões sobre o álbum não mudaram muito desde que publiquei a minha análise, no verão passado. After Laughter está muito bem feito – não parenas graças a Hayley Williams, às suas letras, à sua interpretação, mas também aos instrumentais criados por Taylor York, com a ajuda ocasional de Zac Farro.

 

Quando se fala de Paramore, a maior parte das pessoas fala apenas sobre a Hayley, tratando os outros membros (ou ex-membros) como mera banda de apoio. O que é um erro. Se Hayley é a cara, a voz e o final das músicas dos Paramore, Taylor é o cérebro. É onde surgem os xilofones de Hard Times, os riffs de Told You So, a guitarra acústica de 26, o piano de Tell Me How.

 

Para não dizer, mais uma vez, que poderá ser graças a Taylor que ainda temos Paramore.

 

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O que nos vale é que o Taylor é muito tímido, segundo consta, não parece ser pessoa para reclamar créditos (talvez seja por isso que ainda não tenha imitado Josh ou Jeremy).

 

Mais sobre isso um dia destes.

 

Tal como referi acima, After Laughter representa bem este ano, pelo menos para mim. Uma das principais, nesse capítulo, é 26. Já tinha referido, na análise, que esta, na minha opinião, descreve um conflito entre idealismo e cinismo. Acho que já tinha dito aqui, algures, que por norma não sou uma pessoa cínica e não desejo sê-lo.

 

  

No entanto, tive momentos este ano em que estive perto – sobretudo durante as tais semanas de desânimo, depois do concerto pelo Chester. Houveram alturas em que não me reconhecia a mim mesma e que me assustaram – uma delas aquando dos jogos da Seleção de novembro, em que não me conseguia entusiasmar como antes. Procurava agarrar-me a qualquer resquício de esperança, de alegria, que conseguisse encontrar, mas a realidade nem sempre colaborava. Até mesmo no filme mais recente de Tri (cuja análise andava a escrever na altura) a esperança e o idealismo tinham saído derrotados, no final mais sombrio daquele universo.

 

Consegui ultrapassar esse mau momento, mas nada me garante que não volte a cair no desânimo, um dia destes. Não quero de todo perder a capacidade de sonhar, de me entusiasmar com pequenas grande coisas, como a minha escrita, jogos de futebol, músicas novas, entre outras coisas. De esperar por dias melhores. Tal como Hayley diz, em 26, sobreviver nem sempre é a parte mais difícil. Às vezes, o mais difícil é manter a nossa esperança e o nosso idealismo intacto, perante todas as facetas horríveis deste mundo.

 

Sem pensar que, por muito triste que seja a perda de pessoas excelentes, como o Chester, a verdade é que não parecem existir grandes vantagens em viver neste planeta.

 

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A propósito do Chester, mais uma vez, a morte dele deu-me novas perspetivas sobre as músicas Idle Worship e No Friend – músicas que nos recordam que os nossos heróis são apenas humanos. Prova melhor do que o que aconteceu a Chester não há.

 

Um excerto de No Friend reza assim “I see myself in the reflection of people’s eyes, realizing that what they see may not be even close to the image I see in myself”. Parece-me que esse sempre foi o caso de Chester – ele que descrevia a sua própria mente como um lugar hostil, que dizia que ele mesmo era o seu pior inimigo, quando, na verdade, era idolatrado por milhões. E, no fim, ninguém conseguiu salvá-lo dele mesmo.

 

Mas regressemos aos Paramore. Neste final de 2017, Hayley parece um bocadinho melhor que há alguns meses, quando o Aflter Laughter estava para sair. Talvez o pior já tenha passado para ela e para o resto da banda.

 

Em todo o caso, gosto sempre de recordar que a última frase em After Laughter é “I can still believe”. Se a Hayley ainda consegue manter a esperança, ou a fé, ou o que quer que lhe chamemos, nós podemos tentar fazer o mesmo.

 

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  • Lorde

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Aquando do texto de Ano Novo do ano passado, eu sabia que voltaria a escrever sobre Lorde no texto deste ano. Após o excelente Pure Heroine, a fasquia estava alta para o segundo álbum de Ella Yelich-O'Connor. No entanto, Melodrama não desiludiu ninguém: é uma autêntica obra de arte, do princípio ao fim. Desde a energia dançante de Green Light e Supercut, à vulnerabilidade de Liability de Writer in the Dark, passando pela bipolaridade de Hard Feelings/L.O.V.E.L.E.S.S.

 

Não que o público em geral tenha dado por isso. Segundo as minhas pesquisas, apenas o single Green Light teve sucesso moderado. Conforme já tinha escrito antes, Homemade Dynamite seria o grande single – até lançaram um remix com uns quantos artistas da moda, a ver se descolava. Não que tenha tido grande sucesso, tanto quanto sei.

 

Tem piada. Em 2013/2014, quando ainda não era fã dela, as rádios portuguesas tocavam Royals até dar comigo em doida. Agora que já sou, não me lembro de ter ouvido uma música que seja dela.

 

De qualquer forma, continuo a fazer figas para que ela venha a Portugal no próximo ano.

 

  

Parece-me um sacrilégio estar a falar de favoritos num álbum tão consistentemente bom, mas tenho andado obcecada com Sober: uma canção como nenhuma outra, que combina inúmeros pormenores fantásticos. Deste os “Night, midnight, lose my mind”, às trompetes e saxofone no refrão, passando pelo rugido de um tigre (numa trela de ouro, espero eu). Este podcast disseca os elementos todos.

 

Não que as outras canções fiquem atrás em qualidade, mesmo não sendo tão intricadas. Nalgumas, aliás, a simplicidade é o seu ponto forte. Como Liability (só piano) e Writer in the Dark (piano e violinos, como vimos antes). Outras recriam o estilo minimalista de Pure Heroine. Nomeadamente Hard Feelings/L.O.V.E.L.E.S.S. e a reprise de Liability.

 

Já que falamos no estilo minimalista de Lorde, queria fazer um aparte e falar sobre o cover que ela gravou para o Live Lounge da BBC 1 e que tem incluído nos seus concertos.

 

 

Quando descobri acerca deste cover, fiquei contente por dois motivos. Primeiro, porque In the Air Tonight é uma das minhas canções preferidas de todos os tempo. Escrevi sobre ela aqui no blogue, há quase cinco anos (!!). Segundo, porque a versão original é perfeita para a Lorde – tão perfeita que me pergunto porque não reparei mais cedo.

 

Conforme escrevi na altura, a versão original de In the Air Tonight é grave, um tanto ou quanto fantasmagórica, assenta-se muito na percussão, com destaque para o famoso solo, no final da segunda estância. A música acabou, assim, por antecipar o estilo característico de Lorde, sobretudo do seu primeiro álbum.

 

Isto para não falar dos “Oh, Lord” – que, nesta versão, têm imensa piada.

 

Mas regressemos a Melodrama. Falta falar sobre a minha canção preferida nesse álbum e de todo 2017: Perfect Places.

 

  

Já tinha explicado antes aquilo que me atrai na música: um refrão que é puro ecstasy, uma letra com a qual me identifico. Tenho vindo a identificar-me cada vez mais com Perfect Places, aliás – sobretudo com o verso “I hate the headlines and the weather”.

 

No site Genius, Lorde escreveu sobre esta frase: “Esta música começou a ganhar forma no final do verão de 2016, em Nova Iorque e as notícias eram horríveis todos os dias e estava tanto calor de uma maneira errada, da maneira como eu imagino o tempo num filme de desastres mesmo antes de uma bomba rebentar ou de os aliens aterrarem. Deu comigo em doida, um bocadinho, eu andava por Midtown e sentia-me à beira de arrancar as minhas roupas ou de me passar perante um estranho. E todos os dias nas notícias diziam “Lado positivo! Temperaturas recorde todo o fim de semana!” e eu pensava “NÃO PERCEBEM O QUE ISTO SIGNIFICA!!! VAMOS TODOS MORRER!!!” Este é provavelmente o verso mais Melodrama em todo o álbum.”

 

Bem, tendo em conta o que se passou em Portugal com os incêndios, num verão que nunca mais acabava, nada disto me parece melodramático. Eu, aliás, alteraria o verso seguinte para “My whole country is on fire”.

 

E, claro, a parte do “All of our heroes fading”. Já me fartei de falar do Chester, mas este ano também perdemos Pedro Rolo Duarte (que ouvia há vários anos na rádio) e o Zé Pedro, dos Xutos – mais uma banda que não vai voltar a ser o mesmo. E não nos limitamos a heróis de carne e osso – tenho também um herói de infância que não teve um desfecho feliz da última vez que o vi.

 

  

Perfect Places funciona, assim, como uma boa representação do meu 2017: o mundo desabando à minha volta, eu tentando agarrar-me à minha versão de sítios perfeitos, às coisas boas da vida, a experiências que transcendessem a turbulência deste ano. Podem não resolver nada, podem não passar de escapismo, mas em certas ocasiões são das poucas coisas que me fazem levantar da cama. Que me impedem, lá está, de ceder ao cinismo.

 

E a verdade é que, apesar destas queixas todas, o ano 2017 trouxe várias coisas boas: as músicas de que falámos neste texto (em particular a que venceu na Eurovisão), o bom período da Seleção Portuguesa, a segunda e terceira geração de Pokémon Go, bem como os Raids Lendários, os jogos Ultra Sun e Ultra Moon, os dois filmes de Tri (mesmo com todos os defeitos, mesmo com o final triste do último).  Enquanto tivermos coisas como essas nas nossas vidas, conseguiremos sobreviver. Eu pelo menos conseguirei.

 

 

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Agora que já falei sobre os principais artistas e músicas deste ano, deixo aqui algumas notas sobre outros músicos do meu nicho. Bryan Adams lançou Ultimate, um Greatest Hits com um par de músicas novas, Ultimate Love e Please Stay.

 

Ultimate Love tenta abordar temas atuais e ser inspiradora, mas não consegue elevar-se acima de clichés e banalidades. De Please Stay gosto mais, apesar de não fugir muito à fórmula das canções de amor de Bryan Adams. Essa, ao menos, tem passado algumas vezes na rádio.

 

Não tenho mais a dizer sobre estas faixas. Aqui entre nós, tanto elas como o próprio CD, Ultimate, eram desnecessários.

 

  

Primeiro, os Spotifys e YouTubes desta vida tornaram os álbuns de Greatest Hits obsoletos. Se alguém quiser conhecer melhor um artista ou banda, vai às playlists This Is [Artist] ou pesquisa no YouTube e clica nos primeiros resultados. Fãs de longa poderão comprar o CD para a coleção, mas calculo que muitos, como eu, limitar-se-ão a comprar as músicas inéditas no iTunes.

 

Segundo, o álbum de inéditas mais recente do Bryan saiu há apenas dois anos. Não fazia falta material novo tão cedo, na minha opinião.

 

Dito isto, é bom saber que Bryan ainda não se acomodou, continua com vontade de fazer e lançar música, dar concertos. Conforme escrevi há quase dois anos, se o Bryan ainda não se cansou, eu também não me canso.

 

Por sua vez, Sharon den Adel, dos Within Temptation, inaugurou um projeto a solo, de nome My Indigo. O álbum, homónimo, tem lançamento marcado para 20 de abril e já duas canções foram divulgadas: uma homónima, My Indigo, e Out of the Darkness.

 

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Tenho gostado do que ouvi até agora, sobretudo de My Indigo – a primeira que conhecemos, a meio de novembro. Estive quase para escrever sobre ela, nas Músicas Não Tão Ao Calhas, mas preciso de mais tempo para decifrar a música. Prefiro esperar pelo lançamento do álbum.

 

My Indigo é, assim, o primeiro álbum por que esperar em 2018. Outro será, possivelmente, o sexto de Avril Lavigne… que, se se recordarem do texto do ano passado, ela tinha prometido para este ano. Eu, na altura, pensava que estava a ser pessimista quando dizia para apontarmos para novembro e dezembro. Pelos vistos não estava…

 

Não é o atraso em si que me incomoda, atenção. Não me importo de esperar… muito. A doença de Lyme não é brincadeira nenhuma, os sintomas podem durar anos (alguns fãs esquecem-se disso). Mesmo tirando o Lyme da equação, também não quero que a Avril lance material com o qual não esteja satisfeita, só porque os fãs estão impacientes. Um bom álbum pode demorar um ano ou cinco a ser lançado. Mas um mau álbum dura para sempre depois de partilhado com o mundo.

 

Confesso que um dos motivos para pensar assim foi um tweet da Lorde, há algumas semanas: quando um idiota qualquer reclamou com ela por ter demorado quatro anos a lançar um álbum, ela disse não vai lançar álbuns “que existam apenas numa única dimensão”, nem que leve dez anos a criá-los.

 

  

Não, o meu problema não é a demora – sobretudo se o sexto álbum valer a espera. O meu problema é que a Avril tem a mania de fazer promessas que depois não cumpre. Ela, por exemplo, passou os primeiros meses de 2017 deixando pistas sobre possíveis canções novas, em especial Warrior. Chegou mesmo a dizer, num vídeo, que “fez um álbum sem tentar fazer um álbum”. Mas, depois disso, passaram-se meses e meses sem mais nada de concreto e, no mês passado, num direto do Facebook, disse mesmo que ainda nem sequer tinha gravado Warrior.

 

Isso para não falar da palavra “soon”, que já se tornou um meme entre os fãs.

 

Eu nem me posso irritar com ela, porque já não é a primeira vez que ela faz isto. Já com os últimos dois álbuns foi este drama. Preferia mil vezes que ela se mantivesse calada, demorando o tempo que quiser em estúdio, e, quando estivesse pronta – e por “pronta” quero dizer já com nome, capa, tracklist, pelo menos um single lançado e, de preferência, CDs físicos sendo já enviados para as lojas e datas de digressão marcadas (para Portugal, por favor!!!!) – fizesse o grande anúncio nas redes sociais.

 

E, mesmo assim, acho que só acreditaria quando as músicas aparecessem no Spotify ou no iTunes.

 

  

Em todo o caso, espero mesmo que este álbum valha este drama todo. Vai ser bom ouvir música nova da Avril, depois de tudo o que aconteceu desde o último álbum.

 

É com esta nota de esperança que termino este texto. Deixo uma playlist com as músicas de que falámos aqui.

 

 

Também podem ver e ouvir aqui as músicas que mais toquei no Spotify este ano, se quiserem.

 

Que 2018 corra melhor para todos nós (já será bom se não ocorrer mais nenhuma tragédia, como a dos incêndios florestais, e se mais nenhum dos meus heróis ou qualquer pessoa de quem goste, morrer). Que não falte boa músicam, pelo menos. Fiquem bem. Feliz Ano Novo!

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