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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Hayley Williams – Flowers For Vases / descansos (2021) #2

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Na altura do lançamento de Flowers For Vases, Wait On não era uma música completamente desconhecida. Hayley já a tinha tocado em junho do ano passado, num vídeo do Instagram (se a memória não me falha). Como poderão ver (e ouvir), é uma versão incompleta, ainda em composição. 

 

Musicalmente é muito simples, baseada apenas em arpejos de guitarra acústica – faz lembrar um pouco In the Mourning, na verdade – e um ou outro efeito mais etéreo. A letra parece falar de várias coisas. A narradora começa por lamentar estar sempre à espera do seu amado, como se a vida dela girasse à volta dele. 

 

O refrão, no entanto, usa a metáfora do céu, que mesmo estando por vezes coberto de nuvens e, de vez em quando, precise de deixar a chuva cair, não desaba. Mantém-se firme sobre as nossas cabeças.

 

Isto é uma variante ao conceito de Petals For Armor, sobre o qual já escrevi várias vezes aqui no blogue – nem sempre a propósito de Hayley. A jovem está ainda a aprender a ser forte, a sentir as coisas e a não deixar que estas a destruam. A resistir à tentação de se tornar impermeável. Hayley chegou a citar Dolly Parton, dizendo que não quer endurecer o coração, mas que procura fortalecer os músculos à volta desse órgão.

 

Ninguém disse que era fácil ser-se forte.

 

 

No contexto de Wait On, suponho que as emoções com que a narradora está a lidar sejam as saudades do amado, que está longe dela. Na última estância, Hayley usa a metáfora de um pássaro que guardou as suas penas para que o amado pudesse usá-las no cabelo – e saber que ela estará sempre com ele.

 

Segue-se KYRH, sigla para Keep You Right Here. Flowers For Vases tem duas siglas como títulos – sem necessidade, na minha opinião. Qual é a piada? 

 

Esta faixa é praticamente um interlúdio – num álbum de faixas já de si muito curtas. Um interlúdio num álbum de interlúdios. Musicalmente, é uma balada guiada pelo piano, com notas de guitarra e um tom etéreo. Agradável, mas não muito original. 

 

A letra é curta, fala apenas de manter alguém à distância certa. Esse acaba por ser um tema recorrente em Flowers For Vases: procurar um equilíbrio entre dar espaço a um ente querido e as saudades que sentimos deles. 

 

Nessa linha, falemos sobre HYD. Devo dizer que, pelo menos em termos musicais, esta é uma das que menos gosto em Flowers For Vases. É demasiado lenta para o meu gosto, falta-lhe intensidade, vida. Uma vez mais, temos guitarra acústica, piano, elementos atmosféricos mas, nesta fase do álbum, já começa a cansar.

 

A letra ao menos é interessante, talvez das mais interessantes em Flowers For Vases. Para mim, HYD é a maior prova de que Taylor é o misterioso amante de Hayley. As pistas estão todas lá, sobretudo na segunda estância.

 

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Começando por “many storms have come and, if not for you, I’d have been struck down, disappeared at sea”. Hayley e Taylor já passaram por muito juntos, tanto no que toca às crises da banda como nas suas vidas pessoais. Por estes dias, já é do conhecimento geral que 2015 foi um dos piores anos da vida de Hayley – Jeremy deixou os Paramore, o ex tê-la-á traído poucos meses antes da data inicial do casamento deles. No entanto, Hayley chegou a afirmar que passaria por tudo outra vez só mesmo porque, no meio disto tudo, Taylor deu provas da sua amizade. 

 

Depois, temos “I know it’s hard for you to take a compliment”. Taylor não gosta de elogios. Existem ocasiões, em entrevistas ou em palco – como por exemplo no vídeo que acabei de referir – em que Hayley se prepara para dizer bem de Taylor, vira-se para ele e diz algo do género:

 

– Vais detestar esta parte…

 

Por fim, “my life began the day you came in it”. Hayley tem dito que considera que só nasceu verdadeiramente quando ela e a mãe vieram viver para Nashville, quando ela conheceu os futuros membros os Paramore (havemos de regressar a essa ideia). Um desses futuros membros? Taylor. Ele só se juntou oficialmente à banda durante o ciclo de Riot!, vários anos depois dos restantes, mas ele e Hayley compuseram juntos desde início – músicas como Conspiracy e a B-side Oh Star. 

 

Dá para perceber um bocadinho porque é que Hayley se apaixonou por ele, mesmo que muitos anos depois. 

 

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Segundo a letra de HYD, no entanto, eles terão estado separados. Talvez ainda estejam. Assumindo que é sobre Taylor, este parece estar a sofrer de depressão (“And it that dark little place you have made, you’d swear all these pretty clouds are grey”) e sentiu a necessidade de deixá-la.

 

A narradora não reage muito bem, fica magoada, quase ressentida – porque, como acabámos de ver, quando Hayley passou pelo mesmo, ela não o afastou, ele esteve lá, terá mesmo sido fulcral para a sua sobrevivência (havemos de regressar a esta ideia já a seguir). Além disso, há que recordar que Hayley tem problemas de abandono, derivados do divórcio dos pais, conforme admitiu numa das entrevistas a Zane Lowe.

 

Como acontece com Over Those Hills, se bem que em circunstâncias muito diferentes, a narradora pergunta-se como estará o amado. Se ele ainda a ama, se ele está a conseguir ultrapassar a sua depressão. Ela acredita que sim.

 

Existe uma parte confusa perto do fim, em que se fala de uma criança. Não sei se ela está a falar do seu cão, se está a falar da sua criança interior, como em Simmer, se eles tiveram um filho sem dizer nada a ninguém (ligeiramente menos provável). Infelizmente, no que toca a Flowers For Vases, não tenho respostas para todas as perguntas – até porque Hayley falou muito pouco sobre estas músicas. 

 

Fica à interpretação de cada um.

 

Queria falar agora sobre Find Me Here. Esta é uma versão diferente da lançada no EP Self-Serenades, mais longa, mais completa. Continua curta, mesmo assim – apenas vinte segundos mais longa que a primeira versão, ainda parece um interlúdio. Musicalmente, pegou nas partes boas da primeira versão e melhorou-as ainda mais – nomeadamente os vocais à Simon & Garfunkel. 

 

 

Em termos de letra, para Flowers For Vases, Hayley acrescentou uma estância que não chega a sê-lo – são apenas dois versos – e uma variante ao refrão. Acaba por manter a mesma mensagem da versão de Self-Serenades, com uma pequena extensão: tal como ela sempre amará a outra pessoa, mesmo que este não possa estar com ela, o amado também sempre a amará. Mesmo separados, nenhum deles estará sozinho.

 

Esta mensagem tem ainda maior impacto no contexto de Flowers For Vases – parece ser uma resposta direta a Wait On e HYD. Dá para ver a jornada feita por Hayley desde lidar mal com a separação até aceitá-la. Suponho que uma das lições que Hayley aprendeu durante 2020 foi que cada um lida com os seus problemas de saúde mental de maneira diferente. Para alguns, como ela, a presença dos entes queridos é importante. Outros, como possivelmente Taylor, precisam de fazê-los sozinhos. Há que procurar um equilíbrio, mesmo que seja difícil. 

 

Nesse aspeto, talvez não tenha sido assim tão boa ideia ter lançado Find Me Here no Self-Serenades. Mais valia ter esperado por Flowers For Vases. Enfim. 

 

Com tudo isto em consideração, e apesar de continuar a achar que a faixa é curta demais, Find Me Here está entre as minhas preferidas neste álbum. 

 

Voltando um bocadinho atrás na tracklist, Inordinary é uma das preferidas de Hayley. Parece ter sido inspirada por aspetos do passado dela de que falou em entrevistas sobre Petals For Armor. Hayley admitiu que a primeira parte da canção é sobre uma coisa e a segunda parte é sobre outra, o contexto muda. 

 

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Assim, na primeira parte da música, Hayley recorda os primórdios dos Paramore. Os tempos em que ela conheceu os futuros membros da banda, Taylor incluído, em que tentou fazer deles a família que desejava ter tido em criança. E, claro, em que aprendeu a tocar guitarra, a compôr música, em que tinha sonhos e ambições que não cabiam numa vida comum em Nashville. 

 

Na segunda parte, por outro lado, Hayley recua ligeiramente no tempo, recordando o momento em que ela e a mãe fugiram do Mississipi e do companheiro abusivo da última. A narradora diz sentir saudades desses tempos, do sabor da liberdade, da relativa paz e normalidade da sua vida. Ao contrário da primeira parte, que valoriza o incomum, a segunda parte valoriza o comum. 

 

Posso estar enganada, mas a ideia que tenho é que só há relativamente pouco tempo é que Hayley aprendeu a dar valor a esta decisão da sua mãe. Havemos de regressar a este assunto quando finalmente escrever sobre All We Know Is Falling. Em todo o caso, é por causa dos dois eventos descritos em Inordinary – a fuga para Nashville, conhecer Taylor, Josh e os outros – que Hayley diz que a sua vida começou no sétimo ano. 

 

Musicamlmente, nada a assinalar. É mais uma faixa guiada pela guitarra acústica, acompanhada por piano e efeitos atmosféricos. 

 

Estou sempre a dizer a mesma coisa, não estou? A culpa é deste álbum.

 

Em Inordinary em particular, em dispensava o piano e o resto do acompanhamento, mantinha a faixa só com guitarra e voz. Os outros elementos não acrescentam nada. 

 

 

Ao menos a canção de que vamos falar a seguir tem uma sonoridade um pouco diferente. No Use I Just Do é outra faixa demasiado curta, outra que parece um interlúdio – o que é uma pena, pois eu até estava a gostar. Guiada pelo piano, acompanhada por elementos estranhos – a melhor maneira que encontro para descrever é dizendo que soa-me a uma guitarra distorcida à distância. 

 

Em todo o caso, resulta.

 

Em termos de letra, é simples, é curta, mas transmite bem a mensagem. É uma canção de amor. A narradora ama o seu interesse romântico por quem ele é. Não apenas porque se sente sozinha e precisa de companhia. Por muito que a narradora tente, ele é o único que ela ama. Está fora do seu controlo. 

 

Pena mesmo ser tão curta.

 

Descansos é uma faixa quase instrumental, a penúltima em Flowers For Vases. Inicialmente a música tinha letra, chamava-se Baby in the Bathtub (um título curioso), mas consta que a letra deixou de ser revelante. Assim, Hayley cortou-a e manteve o instrumental e alguns – poucos – vocais sem palavras. A faixa inclui ainda o áudio de vídeos caseiros do primeiro Dia das Bruxas de Hayley. 

 

O instrumental em si é bonito, com notas de guitarra e piano e um tom melancólico, agridoce. Como se, de facto, Hayley estivesse a ver as cassetes da sua infância, sentindo saudades de tempos mais inocentes.

 

 

Falta-nos falar sobre Just a Lover – que muitos especulam ser uma resposta ao excerto do avô de Hayley, incluído por Taylor em Crystal Clear: “friends or lovers, which will it be?” (como é que eu duvidei durante tanto tempo…?). 

 

Instrumentalmente é das mais interessantes em Flowers For Vases. Começando com piano, baixo e bateria, evoluindo mais tarde para uma guitarra elétrica explosiva. 

 

Uma vez mais, é… demasiado… curta! A música pedia mais uma estância antes de trazerem a guitarra elétrica. Além disso, não havia necessidade de manter os vocais introdutórios num volume tão baixo. Para quê? 

 

A letra é algo confusa. Começando pela introdução. Hayley faz uma referência à Wendy de Peter Pan. Numa das entrevistas a propósito de Petals For Armor, Hayley revelou que uma das coisas que viera a descobrir com o(s) seu(s) psicólogo(s) é que tentou fazer dos Paramore a sua família, tentou de fazer de Wendy, de mãezinha do grupo que tomava conta de toda a gente. Não era a atitude mais saudável.

 

Em Just a Lover, Hayley diz mesmo que o amor a transformou em muitas outras pessoas, mas agora é “apenas uma amante”. A minha interpretação é que, agora, Hayley é capaz de amar só porque sim, de maneira pura – não para compensar por uma carência, não apenas porque se sente sozinha e indesejada.

 

Isto pode dizer respeito tanto à sua possível relação com Taylor como à sua relação com os Paramore enquanto banda. 

 

 

A estância seguinte fala, outra vez, dos primórdios dos Paramore. A depois dessa é que se torna confusa. A ideia com que fico é que Hayley se deixou levar pelas metáforas e a mensagem da música perde-se. 

 

Em todo o caso, vejo a última estância como um lamento pelo futuro incerto da banda em termos de pandemia – “I’ll be singing into empty glasses, no more music for the masses”. Há quem diga, no entanto, que os copos vazios são aos tempos em que Hayley tentava afogar a sua depressão com doses copiosas de álcool, durante a era de After Laughter. 

 

Não sei. Just a Lover termina com a narradora dizendo que sabe o que isto era, ou o que fora. Pena não ter partilhado a informação connosco. 

 

E é isto Flowers For Vases. O único álbum até agora do universo musical de Hayley Williams que não adoro. Como fui dando a entender ao longo desta análise, é demasiado homogéneo em termos de sonoridade. 

 

Comparemos com Petals For Armor: quase todas as músicas têm essencialmente os mesmos instrumentos, mas os estilos musicais são muito mais variados e diferentes do que se ouve por aí – sobretudo pelo facto de quase todas serem guiadas pelo baixo, cortesia da colaboração com Joey Howard. 

 

Por sua vez, as músicas de Flowers For Vases soam muito parecidas a quaisquer outras canções acústicas/folk/baladas de piano. Além disso, como também fui assinalando, a maior parte delas é demasiado curta. Acho que li em qualquer lado que várias das músicas deste álbum estiveram incompletas durante muito tempo. Hayley só as terá completado quando decidiu lançá-las. 

 

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Não consigo encontrar a fonte dessa informação, no entanto, estejam à vontade para não acreditarem. Mas não me surpreenderia se fosse verdade. Por esse aspeto e pela falta de variedade em termos de instrumental, Flowers For Vases soa-me a um longo interlúdio ou a um EP. 

 

Talvez devesse ter sido um EP – até porque temos casos de o mesmo tema ser abordado em mais do que uma canção, com poucas alterações. Como vimos antes, as três primeiras músicas falam sobre, ao mesmo tempo, querer e não querer seguir em frente após uma relação falhada. Outras três tentando processar o facto de o amado precisar de espaço. Alguns dos temas já tinham sido (melhor) abordados em Petals For Armor, até. Eu teria cortado músicas como First Thing to Go ou HYD ou KYRH. 

 

Dito isto tudo… há que recordar que este é um álbum quase cem por cento a solo por Hayley. Ela compô-lo sozinha e tocou todos os instrumentos. Pessoalmente, nunca tinha ouvido falar de nenhum caso assim, mas uma rápida pesquisa no Google mostrou-me que não é assim tão invulgar.

 

Ainda assim, a maior parte dos músicos não consegue criar um álbum sozinho. Precisa de co-compositores, produtores, instrumentistas, etc. Hoje em dia, aliás, muitas músicas do mainstream contam cinco ou seis compositores. Uptown Funk conta para aí uma dúzia deles. Segundo consta, no entanto, foi o equivalente a um trabalho de grupo em que só uma ou duas pessoas trabalham, os outros apenas assinam no fim. Neste caso não foi pela nota, foi pelos lucros da música.

 

Mesmo que um músico não tenha propósitos tão monetários, não deixa de ser difícil fazer um álbum praticamente sem ajuda. Hayley, ainda por cima, é famosa pelas letras e melodias, não pelos instrumentos. Pelo contrário, Petals For Armor foi o primeiro álbum em que ela teve créditos na instrumentação. Ela mesma admitiu que, desde a sua adolescência, 2020 foi o ano em que mais tocou guitarra. Foi a primeira vez em uma década que instalou um kit de bateria na sua casa.

 

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Tendo isto tudo em conta, podemos censurar Hayley por Flowers For Vases não ser uma obra-prima? Eu já acho um grande feito, tendo em conta as circunstâncias, que o álbum tenha uns quantos bons momentos instrumentais!

 

Além disso, concordo com as opiniões de fãs na Internet que dizem que, mais do que qualquer outro, Flowers For Vases é um álbum que Hayley criou só para si mesma, sem grande consideração pela audiência. Terá sido por isso que a promoção foi mínima. 

 

Calhou não fazer muito o meu género, tirando uma música ou outra. Não me imagino a regressar muito a este álbum. Ao contrário do que tem sido a minha prática com artistas de que gosto nos últimos anos, não me vou dar ao trabalho de comprar o CD.

 

E não há mal nenhum nisso. Como a própria Hayley escreveu na mensagem de lançamento, melhor sorte para a próxima.

 

E Hayley parece já mais ou menos pronta para uma próxima. Pintou o cabelo de laranja e, quase cinco anos depois, parece que é para durar – também acho que é a altura certa. Houveram momentos nos anos anteriores, a propósito de iniciativas para a Good Dye Young e assim, em que ela parecia ameaçar regressar ao laranja, mas a ideia não me agradava. Ainda não estávamos lá. Mas agora estamos.

 

Hayley diz também que o seu próximo projeto musical será com os Paramore. Não sei se vão entrar em estúdio já já – tenho as minhas dúvidas, até porque ainda não há fim à vista para a pandemia. Há quem aposte num álbum novo ainda este ano, mas eu acho melhor termos paciência. Não me importo de esperar.

 

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Já conto mais de dez anos como fã dos Paramore. Às vezes ponho-me a ouvir músicas do Singles Club e surpreendo-me com tudo o que mudou desde esses tempos, o quão Hayley e Taylor evoluíram como músicos. Tem sido uma montanha-russa – e note-se que só me juntei à família depois de Zac e Josh terem saído da maneira como saíram. Ainda hoje, passados estes anos todos – mesmo estando os Paramore numa fase tão boa que Hayley pode lançar música a solo sem que se questione o seu compromisso com a banda – continuamos a tentar perceber porque é que a jornada tem sido tão turbulenta.

 

Há umas semanas alguém comentou no Twitter que os Paramore deviam fazer daqueles documentários musicais que estão muito na moda hoje em dia. Hayley admitiu que houveram tentativas. Eu no entanto acho que era preciso, no mínimo, uma série de seis episódios.

 

Hei de escrever sobre isso quando analisar os álbuns All We Know Is Falling e Brand New Eyes. Já não é a primeira vez que falo destes textos, estou sempre a adiar. Ainda assim, quero ver se escrevo sobre o primeiro álbum antes de sair o próximo. 

 

Os próximos tempos aqui no blogue serão algo incertos. Vou começar um emprego novo, mais exigente, que me vai roubar tempo de escrita. Ainda não sei como vou gerir mas, no mínimo, publicações aqui vão ser (ainda) mais espaçadas. Avril Lavigne e Bryan Adams têm dado a entender que irão lançar música a qualquer momento. Talvez consiga escrever sobre esse material novo na rúbrica Músicas Não Tão Ao Calhas, mas não consigo prometer nada. Pode ser que tenha mesmo de deixar o blogue indefinidamente em pausa – espero que não seja necessário. 

 

Obrigada desde já pela vossa compreensão. Saúde, ânimo e até uma próxima. 

Hayley Williams – Flowers For Vases / descansos (2021) #1

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Hayley Williams, mais conhecida como vocalista dos Paramore, estreou-se a solo no ano passado, com o álbum Petals For Armor. Um álbum de que gostei muito, tal como escrevi antes: ao mesmo tempo eclético e consistente, tanto em termos de instrumentação como em termos de temas. Um álbum cheio de simbolismos, que começa sombrio, tornando-se progressivamente mais luminosos.

 

O plano era Hayley ir em digressão depois do lançamento de Petals For Armor – talvez mesmo antes. No entanto, como aconteceu a toda a gente, a pandemia cancelou esses planos. Hayley ainda passou um tempo razoável dando entrevistas online mas, depois de o álbum ter saído, deu por si fechada em casa, sem saber o que fazer. 

 

Acabou por passar muitos desses dias com a sua guitarra. Ia tocando covers acústicos, que depois partilhava nas redes sociais, versões acústicas das músicas de Petals For Armor – como as de Self-Serenades – e também música original, que agora lançou no passado dia 5 de fevereiro, num álbum chamado Flowers For Vases. Hoje vamos falar sobre ele. A análise virá em duas partes – publico a segunda amanhã.

 

De acordo com a nota de lançamento. Flowers For Vases é uma espécie de prequela a Petals For Armor, ou um desvio entre a primeira e a segunda parte desse álbum. Não acho que seja para levar demasiado à letra. Essencialmente, Flowers For Vases lida com assuntos do passado de Hayley que, mesmo depois de Petals For Armor, continuavam mal resolvidos.

 

Penso que já escrevi aqui sobre isso aqui no blogue, mas durante a quarentena, quando deixamos de ter coisas acontecendo na nossa vida, é como se o tempo parasse. Ficamos numa espécie de limbo, em que não temos futuro, quase não temos presente, só nos resta o passado.

 

Pelo menos foi assim que me senti durante o primeiro confinamento – e até estava a trabalhar fora de casa! Nem quero imaginar como terá sido para quem ficou verdadeiramente em isolamento. 

 

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Suponho que Hayley que tenha sentido mais ou menos assim – e que o confinamento tenha feito com que ressurgissem muitas pontas por atar no seu passado. Ao mesmo tempo, Flowers For Vases aborda assuntos que vieram à baila nas múltiplas entrevistas de Hayley para promover o antecessor Petals For Armor – como, por exemplo, o segundo (?) divórcio da sua mãe, a história de origem dos Paramore e o rescaldo do divórcio de Chad Gilbert, em 2017. 

 

De início este álbum era para se chamar descansos, um termo na língua espanhola tirado de Mulheres que Correm com os Lobos. Este é um livro que Hayley referiu várias vezes como uma das inspirações, tanto para Petals For Armor como para Flowers For Vases, e que a tem ajudado muito nos últimos anos. 

 

Eu mesma acabei de lê-lo há poucas semanas. Foi uma leitura demorada, comecei antes do verão, mas em minha defesa a autora admite no próprio texto que não é suposto lê-lo de uma assentada. Ainda preciso de relê-lo pelo menos uma vez antes de formar uma opinião definitiva, mas já tenho uma passagem preferida

 

E com isto desviei-me um bocadinho, falávamos de descansos. Esse é o nome dado àquelas cruzes que vemos à beira da estrada assinalando mortes – geralmente vítimas de acidentes rodoviários. Simbolicamente, descansos representam pequenas tragédias, pequenas mortes que ocorrem ao longo da vida (Lobos apenas refere a vida das mulheres, mas eu acho que se aplica a toda a gente). Sonhos desfeitos e/ou de que se abdicou, caminhos não percorridos, capítulos de vida terminados. 

 

É necessário recordar esses sonhos, esses caminhos, esses capítulos, fazer o luto por eles. Mas ao mesmo tempo é necessário deixá-los para trás, reconhecer que é passo e seguir em frente. 

 

O título final acaba por seguir a mesma lógica. Nos últimos anos – desde a célebre visão das flores nascendo do seu corpo – Hayley habituou-se a ter flores em casa, como símbolos de feminilidade e resiliência, conforme descrito em Roses/Violet/Lotus/Iris. Mesmo flores já murchas. No entanto, certo dia Hayley fartou-se de ver a casa cheia de flores mortas. Assim, quando teve de fazer uma lista de compras, um dos itens era “flores para vasos”.

 

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Meses mais tarde, reencontrou a lista e percebeu que era um bom título para o seu segundo álbum a solo. Deitar flores mortas fora e trazer uma nova vida para a sua casa, para os seus vasos. Faz sentido em associação com o conceito de descansos – embora, na minha opinião, o álbum acabe por se focar mais nas flores mortas. 

 

Incluindo algumas que, como veremos adiante, já estão murchas há muito. Já deviam ter sido deitadas fora há muito tempo, mesmo queimadas!

 

Além disso, gosto que mantenha o tema floral, já vindo do seu antecessor. Petals For Armor, Flowers For Vases. O próximo será Leaves For Tea

 

Um aspeto a ter em conta é que Hayley não se limitou a compôr todas as faixas do álbum a solo. Ela também toca todos os instrumentos. Todos. Teve Daniel James como produtor, Carlos de la Garza nas misturas e pouco mais, mas Flowers For Vases é um projeto praticamente só de Hayley – em contraste com Petals For Armor, em que Hayley era o centro, mas em que esta colaborou com várias pessoas, incluindo colegas dos Paramore. 

 

Nesse aspeto, Flowers For Vases é um exemplo perfeito de um álbum em confinamento, gravado em casa – sujeito a perturbações como o barulho de um avião, como hilariantemente demonstrado em HYD.

 

Em termos musicais, Flowers For Vases é um álbum maioritariamente acústico. A guitarra é o instrumento principal, mas o piano é um participante frequente. Quando se descobriu, no início de 2020, que Hayley ia lançar música a solo, acho que muita gente estava à espera que Petals For Armor tivesse este estilo musical. Flowers For Vases é um álbum minimalista, mas não necessariamente no bom sentido, conforme explicarei mais tarde.

 

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Suponho que deva avisar já: esta não irá ser uma crítica muito favorável. Tenho alguns defeitos a apontar a Flowers For Vases. 

 

Começando pelas três músicas que abrem o álbum. Três músicas relativamente diferentes entre si, mas as letras são sobre o mesmo: a narradora (vamos assumir que é Hayley) está a pensar num antigo amante (vamos assumir que é o ex-marido). Sabe que a relação terminou, que só lhe estava a fazer mal, mas não se sente capaz de eliminar o ex em definitivo da sua vida.

 

Tenho de perguntar: sou a única aqui que está farta de ouvir acerca do ex-marido de Hayley? 

 

Eu percebo que ela ainda cante sobre ele. Parecendo que não, sempre foram quase dez anos com o gajo, quase um terço da vida de Hayley. Não é algo que se esqueça de um dia para o outro. A própria Hayley disse, quando lançou Petals For Armor, que nenhum dos assuntos abordados no álbum ficaram completamente arrumados. Mesmo que as faixas sigam uma ordem cronológica, a progressão não é linear e ainda passa por cada uma das situações descritas nas músicas. Na mesma linha, Flowers For Vases lida com questões mal resolvidas do passado, conforme vimos antes.

 

Dito isto tudo… não sou psicóloga, muito menos sou psicóloga de Hayley… mas será assim tão saudável estar constantemente a pensar naquele gajo? Sinto-me como aquela amiga que já não nos pode ouvir falar do nosso ex, que quando bebemos uns copos nos impede de lhe ligarmos. Ó mulher, esquece o gajo! Ele não te merece, ele ia dando cabo de ti! Ainda por cima, já está casado com outra, a quem há de fazer o mesmo!

 

Mas enfim, Hayley é humana. Suponho que cantar sobre estes sentimentos menos saudáveis faça parte do processo de cura.

 

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Falemos sobre as músicas em si. Começando por My Limb, que foi o primeiro single

 

Primeiro single é como quem diz… Este álbum não teve singles propriamente ditos. Nas semanas anteriores ao lançamento de Flowers For Vases, em que nas redes sociais iam surgindo pistas apontando para um projeto novo, alguns fãs andavam a receber estranhas encomendas de Hayley, contendo braços e pernas soltos de bonecas. Até que, uma semana antes do lançamento do álbum, uma das encomendas incluía um CD com My Limb – mesmo para ser lançado na Internet.

 

Assim, My Limb foi o primeiro single – no sentido em que foi a primeira música que ouvimos de Flowers For Vases – e ao mesmo não o foi – pois não foi oficial. Foi engraçado. Fez-me lembrar o que os Linkin Park fizeram com Wastelands, quando andaram a distribuir CDs com o novo single de The Hunting Party entre o público do Rock in Rio. 

 

Nesta fase, diria que My Limb será a minha canção preferida em Flowers For Vases. Tem um tom sombrio, semelhante ao de Simmer. Algo gótico e dramático. Gosto do piano, das notas de guitarra elétrica no fundo, do ritmo da bateria. O refrão consiste apenas na repetição de “my limb”, mas gosto tanto dos vocais de Hayley que a repetição não me incomoda. 

 

A letra compara uma relação antiga a um braço ou perna doente que precisa de amputação. No entanto, apesar de reconhecer que é necessário, a narradora está ainda tão agarrada ao membro que vai perder, ao ex, que não quer sobreviver à sua perda. 

 

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A língua inglesa tem esta expressão “cut off my nose to spite my face” para se referir a reações exageradas que, em vez de atingirem a pessoa pretendida, acabam por ser auto-destrutivas – Hayley admitiu ter essa tendência e mesmo eu às vezes tenho essa tentação. My Limb parece ser sobre isso.

 

A faixa que se segue no álbum também usa um termo médico como metáfora. A letra fala essencialmente de uma relação que está ligada à máquina, em que o coração já não bate – que está em assístole. Uma vez mais, a narradora sabe, racionalmente, que precisa de desligar a máquina, mas emocionalmente ainda não está preparada para isso (“I can’t get my head to say anything my heart could ever understand”). Refere, de passagem, que precisa de dar prioridade a si mesma em vez de ao outro, mas a verdade é que o outro não “deslarga”, por muito que ela tente. 

 

Vou dizer o que se segue sobre muitas músicas em Flowers For Vases, mas a instrumentação em Asystole não é grande coisa. Esta faixa, ainda assim, não é das piores neste álbum. Gosto da terceira estância, em que o acompanhamento se intensifica enquanto Hayley clama ao amado que reanime a relação. Temos também a conclusão da faixa, com uma sequência de piano estranhamente etérea, que parece um pouco vinda do nada, mas que resulta. 

 

Nestra trilogia inicial, falta falar sobre o tema que, de facto, abre Flowers For Vases, First Thing to Go. A narradora descreve os primeiros passos no processo de deixar um ex para trás. Como reza a letra, ela já mal se lembra da voz dele, ela termina as suas próprias frases.

 

Por outro lado, Hayley admite que não é exatamente dele que sente saudades, antes da imagem que tinha dele. “My altar is full of our love’s delusions”. Ao mesmo tempo, o verso “Why do memories glow the way real moments don’t” faz-me lembrar Supercut, de Lorde – não existem recordações objetivas. Ainda assim, apesar de reconhecer as próprias ilusões, a narradora tem medo de perdê-las. 

 

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A sonoridade é um exemplo de minimalismo no mau sentido. Durante grande parte da canção, temos apenas acordes soltos de guitarra acústica. Só no fim é que surge o piano e a percussão. 

 

Trigger aborda um tema recorrente na discografia de Hayley, tanto a solo como nos Paramore: inseguranças no amor. Começa admitindo que, no que toca ao romance, só tem cantado sobre coisas tristes – não só no que toca às suas próprias relações, mas também aos divórcios dos pais. Assume que, ao menos, serve de inspiração para a sua música. 

 

Na quadra seguinte, confessa que só queria ser amada, o que a levava a aceitar qualquer tipo de amor, mesmo que fosse tóxico. Só mesmo para não ficar sozinha. No refrão, Hayley usa a metáfora da arma e do gatilho para dizer que, nas relações, sente-se sempre numa posição vulnerável. A outra parte tem poder para magoá-la, com ou sem intenção. 

 

Na segunda parte, a narradora refere que o conceito de uma relação saudável é estranho para ela – algo que já tinha explorado em Petals For Armor, sobretudo na terceira parte. Hayley diz ter medo de não se sentir confortável ou de, pelo contrário, tomá-lo como garantido – e admite que já o fez antes.

 

Estará a falar da situação descrita em Why We Ever?

 

Em termos de sonoridade, Trigger começa com uma progressão tipicamente folk, com os arpejos de guitarra acústica e o piano. Pouco original, admito, mas agradável ao ouvido, na minha opinião. O refrão, no entanto, soa incompleto – apenas dois versos repetidos, quando o crescendo nas estâncias pedia algo com mais impacto. E como nem sequer temos uma terceira estância… 

 

 

Em contraste, Over Those Hills é uma das mais interessantes musicalmente em Flowers For Vases. Engraçada, com o riff de guitarra que lhe serve de imagem de marca. Também ajuda o facto de ser uma das mais completas em termos de instrumental – a maneira como a bateria é usada, apenas em certas ocasiões, é inteligente. E inclui um solo de guitarra – algo que nunca pensei ouvir Hayley tocar. 

 

Over Those Hills merecia ser tocada ao vivo, só mesmo para vermos Hayley em palco tocando este solo.

 

Em termos de letra, é sobre o ex-marido outra vez. Iupi… A narradora está a pensar nele, perguntando-se o que andará ele a fazer, se pensará nela, se sentirá saudades.

 

Tendo em conta que o gajo se casou pela terceira vez no ano passado – com uma mulher ainda mais nova que Hayley – tenho as minhas dúvidas.

 

A letra joga com o facto de Hayley tomar anti-depressivos. No Genius especulam que, na terceira estância, o efeito dos comprimidos está a passar e a narradora sente as partes más da relação outra vez. Ao mesmo tempo, admite que a dor faz parte do gozo, o que alude a Pool.

 

Gosto do facto de a primeira estância ter sido cantada num tom grave para, depois, ser cantada uma oitava acima. No entanto, teria ficado melhor se a letra variasse um bocadinho da segunda vez, nem que fosse apenas um verso.

 

 

Good Grief é uma das músicas mais sombrias e deprimentes em Flowers For Vases. Começando pela letra, não consigo perceber quem é o “you”. Se é o ex-marido, se é… outra pessoa.

 

Falemos então sobre o elefante na sala: Hayley está mesmo a namorar com o Taylor, não está? Taylor York, o guitarrista e co-compositor dos Paramore. Já se falava da possibilidade no ano passado, quando saiu Petals For Armor. Como escrevi na altura, não adoro a ideia. Como as pistas ainda eram poucas, pude fechar um pouco os olhos.

 

No entanto, em Flowers For Vases, os sinais estão todos lá. Good Grief nem sequer é o caso mais gritante.

 

Já antes falei das minhas reservas a que Hayley namore outra vez com um colega de banda (tenho a certeza que ela há de ter a minha opinião em consideração). Pensar que Sudden Desire pode ser sobre Taylor deixa-me pouco à vontade… Além disso, faz-me um bocadinho de confusão: eles conhecem-se há quase vinte anos e agora é que se apaixonaram? 

 

É certo que Hayley esteve quase sempre com outras pessoas: com o Josh em adolescente, com o ex-marido durante quase toda a vida adulta. Talvez Taylor já tivesse um fraquinho por ela há algum tempo, apenas teve de esperar pela altura certa. 

 

Por outro lado, lá está, eles são amigos desde miúdos, compreendem-se, apoiam-se, sentem carinho um pelo outro há anos… Talvez funcione. Pessoalmente, não conheço muitos casos de amigos de infância que viram amantes, mas, segundo consta, relações que assentam em amizade costumam correr bem. 

 

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Suponho que ainda não tenham assumido por dois motivos: primeiro, por causa do histórico dos Paramore enquanto banda. Ainda hoje, cinco anos depois de Jeremy sair, Hayley tem de dizer, dia sim dia não, que a banda não se separou. Talvez tenham medo das reações dos fãs e mesmo do mundo da música em geral. 

 

Em segundo, talvez a relação ainda não esteja muito estável. Várias músicas em Flowers For Vases parecem apontar nesse sentido, como veremos adiante. Pode ser que nem sequer estejam a namorar neste momento. Talvez estejam à espera de estarem mais firmes antes de assumirem. Ou então, querem adiar ao máximo a revelação. 

 

Dos três dos Paramore, Taylor é o mais reservado. Estou certa de que, por ele, só se revelará quando não der para esconder mais. Se houver casório ou se tiverem um filho (seriam uns miúdos adoráveis). 

 

Mas regressamos a Good Grief. Dizia eu que não conseguia perceber a quem a canção é dirigida. A letra parece falar do ano do casamento de Hayley e dos trabalhos de After Laughter, bem como do divórcio e do seu rescaldo.

 

Começa por falar de Hayley ter deixado de comer – de ser toda “esqueleto e melodia”. Fala também sobre arrumar as coisas do outro e sentir-se, ao mesmo tempo, triste e feliz com esse passo. Ora, se esses versos dão a entender que o “you” é o ex-marido, os versos em que Hayley pede ao remetente para lhe tocar alguma coisa que ela não cantará parecem apontar para Taylor. Um Taylor triste por vê-la sofrer. 

 

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Também é possível que seja outra vez a metáfora de Stop This Song (Lovesick Melody), como já tinha acontecido em Dead Horse. Não sei. Talvez Hayley nem se tenha preocupado em manter a coerência no que toca a esta letra. 

 

Musicalmente, os vocais em Good Grief têm aquele efeito duplicado que tínhamos ouvido em Find Me Here. Li entretanto que faz lembrar Simon & Garfunkel e sinto-me parva por não ter feito a ligação antes – até a guitarra acústica faz lembrar a icónica dupla! Temos também um tom atmosférico na produção mas, pelo menos no caso de Good Grief, não acrescenta muito. Eu dispensava.

 

E ficamos aqui por hoje. Amanhã continuamos. Obrigada pela vossa visita. 

Petals For Armor: Self-Serenades e Música 2020

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No passado dia 18 de dezembro, Hayley Williams lançou o EP Petals For Armor: Self-Serenades. Segundo declarações da própria, este EP reflete, pelo menos em parte, os largos meses que Hayley passou em casa, com apenas a sua guitarra por companhia – bem, a sua guitarra e o seu cãozinho, Alf. O EP consiste em versões acústicas de Simmer e Why We Ever – originalmente lançadas no álbum Petals For Armor – e uma única faixa inédita, Find Me Here…

 

...e, aqui entre nós, soube-me a pouco. 

 

Find Me Here é uma faixa com menos de dois minutos de duração, que mais parece um interlúdio (semelhante aos do Self-Titled) do que uma canção a sério. Admito que eu estava com expectativas muito altas. O EP foi anunciado há cerca de dois meses e, desde então, criei um hype exagerado em torno de Find Me Here – ainda que apenas para mim mesma. Andava há semanas a planear a minha escrita já a contar com a análise a essa canção. 

 

Assim, quando ouvi a música pela primeira vez, a minha primeira reação foi:

 

– …só isto?

 

Mesmo deixando de lado as minhas expectativas defraudadas, continuo a achar a canção curta demais. Sobretudo porque o minuto e cinquenta segundos, mais coisa menos coisa, de Find Me Here é lindo! Eu queria mais! 

 

 

Find Me Here é um pequeno número acústico, só mesmo guitarra e voz. Não é difícil imaginar Hayley tocando isto sentada no seu jardim com a sua guitarra. Gosto dos vocais – não percebo se são um efeito qualquer que fizeram à voz de Hayley, ou se temos duas faixas de vocal, uma mais grave do que a outra. Em todo o caso, ficou bem.

 

A música e, por conseguinte, a letra são curtas mas passam a mensagem de forma eficaz. Quando uma pessoa passa por um mau bocado, ou lida com uma crise, regra geral, é importante ter um ente querido por perto, por motivos óbvios. No entanto, existem certos problemas, certas crises, que uma pessoa tem de resolver sozinha. Pessoas amadas não podem ajudar, podem até ser prejudiciais ao processo.

 

É sobre isso que Find Me Here fala. A narradora vai dar espaço ao ser amado para resolver o que tiver a resolver, mas vai deixar uma porta aberta para quando o ente querido voltar. Se quiser.

 

É demasiado curta, podia ter tido uma segunda estância, mas é uma canção bonita. Ficaria bem como encerramento de um álbum. Estará a encerrar a era Petals For Armor? Ou apenas 2020? 

 

Umas palavras para as versões acústicas de Simmer e Why We Ever. Nenhuma delas está ao nível das versões do álbum, a meu ver – a força das canções parte muito da instrumentação e, no caso de Simmer, daquela hipnótica interpretação vocal.

 

Ainda assim, gosto da Simmer acústica, ainda que não tanto como da versão original. Este arranjo dá um carácter completamente diferente à música. O refrão fala sobre o dilema entre raiva e piedade – a versão acústica parece adotar a piedade, enquanto a versão do álbum se inclina mais para a ira. 

 

 

A versão acústica de Why We Ever, no entanto, não me diz muito. Não foi só a instrumentação a mudar, a melodia também sofreu alterações, ficando irreconhecível. Não gosto muito do resultado final.

 

Na verdade, noutras circunstâncias, nem teria escrito sobre este EP. No entanto, como o final do ano se aproxima a passos largos, quero aproveitar a boleia e fazer a minha costumeira retrospetiva musical.

 

2020 não foi um mau ano em termos de música, mas a pandemia mudou muita coisa. Antes os artistas e bandas lançavam álbuns depois de semanas de singles e hype – ou então lançavam-nos de surpresa, de um dia para o outro. Depois do lançamento, continuavam a lançar singles, atuavam nas televisões e, ao fim de algum tempo, partiam em digressão. 

 

Com o Coronavírus, no entanto, parece que os ciclos terminam abruptamente com o lançamento do álbum. Não é possível dar concertos e mesmo videoclipes e apresentações das músicas são arriscadas. Aconteceu com Petals For Armor, aconteceu com o aniversário de Hybrid Theory – várias entrevistas nas semanas anteriores, grande excitação, grande antecipação. Mas depois de o álbum sair, parou tudo. No caso de Petals For Armor, só agora há pouco tempo – talvez por causa do Self Serenades – é que tivemos coisas como a sessão do Tiny Desk. 

 

Tem sido frustrante, sim. Mas continuamos a ter o que mais importa: a música em si.

 

Nesse aspeto, 2020 para mim pertenceu a Hayley Williams. O ano musical começou e terminou com ela. Abriu com o lançamento de Simmer, em janeiro, encerrou-se agora com o Self Serenades. 

 

 

Custa a acreditar que foi ainda este ano que ouvimos Simmer pela primeira vez, que saiu a primeira parte de Petals For Armor. Adorei escrever o texto sobre Simmer e Leave it Alone, bem como a análise ao álbum completo, mais tarde. Quer a solo quer com os Paramore, a música que Hayley compôs tem esta capacidade, praticamente única, de me levar à introspeção – o que é excelente para a escrita. Nos primeiros meses da pandemia, com o confinamento e o cancelamento de quase tudo o que dava alegria às nossas vidas, o lançamento pouco convencional da segunda parte de Petals For Armor foi um excelente consolo. 

 

Para o melhor e para o pior, este álbum ficará para sempre associado ao Coronavírus – não sei se teria conseguido manter a sanidade sem ele, sobretudo nos primeiros meses. Talvez tivesse sido sempre esse o desígnio. Em todo o caso,  com tanta música extraordinária – Simmer, Cinnamon, Sudden Desire, Dead Horse, Over Yet, Roses/Violet/Lotus/Iris, Pure Love, Sugar on the Rim, Crystal Clear… – deu para provar que Hayley é excelente, quer numa banda, quer em nome próprio.

 

2020 também ficou marcado pelos Linkin Park – pela análise a One More Light em maio, mas sobretudo pelo vigésimo aniversário de Hybrid Theory. Esse foi outro texto que me entreteve durante meses, com pesquisas e rascunhos que me levaram aos primórdios dos Linkin Park enquanto banda. Serviu para fazer uma renovação de votos, para cimentá-los como a minha banda preferida, a par dos Paramore – mesmo que o futuro deles continue incerto.

 

O nome mais surpreendente no meu ano musical é Taylor Swift. Surpreendente é como quem diz… como escrevi antes, era apenas uma questão de tempo. 

 

Ainda assim, Taylor foi um pouco mais prevalente nas minhas audições este ano. Tive fases de obsessão com diferentes músicas dela. Perto do início do ano era Red – por ter um bocadinho a ver com um texto que escrevi no meu outro blogue. Durante um par de semanas em julho foi All Too Well, quando escrevi sobre ela. Na semana seguinte foi Cornelia Street. Na semana seguinte foi Call it What You Want. Entre outras. 

 

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Pelo meio, Taylor lançou folklore. Concordo com a opinião popular – este álbum é uma obra-prima. Eu ainda estava – ainda estou – a digeri-lo quando saiu evermore.

 

Se esta pandemia trouxe alguma coisa de bom às nossas vidas foram estes dois álbuns. Acho que ninguém discorda.

 

Ainda não processei estes álbuns por completo, sobretudo o evermore. Taylor continuará, por isso, a ser relevante para mim em 2021. Não tenciono analisar álbuns inteiros aqui no blogue, pelo menos não por enquanto. Sou ainda uma fã demasiado casual – existe muita gente por aí melhor habilitada do que eu para criar conteúdo sobre Taylor. 

 

Mas posso escrever mais textos de Músicas Ao Calhas, se me apetecer. Já tenho uma segunda canção de Taylor que tenciono analisar, mais cedo ou mais tarde.

 

Tenho também ouvido Billie Eilish, tal como já fizera no ano anterior. A minha irmã também gosta da música dela, o que é sempre fixe. Gosto imenso de Ocean Eyes, mas se tivesse de escolher neste momento, diria que a minha preferida é Everything I Wanted – é a sua Leave Out All the Rest. Uma vez mais, ainda sou uma fã muito casual – por agora. 

 

 

 

Deixo aqui a playlist com as músicas que mais ouvi no Spotify. Se bem que o tenha usado menos que o costume este ano – só nos primeiros dois ou três meses do ano e agora, nas últimas semanas, aproveitando a promoção de três meses pelo preço de um. E aparentemente o mês de dezembro não entra para estas contas. Não é a primeira vez que digo que o Spotify não é a minha única fonte de música – oiço CDs no meu carro e ficheiros mp3 no meu telemóvel.

 

A verdade é que nem todas as músicas que me ajudaram a sobreviver a 2020 estão no Spotify. Bright não está, o cover de Crawling, dos Bad Wolves, não está e, tal como me queixo há anos, a música de Digimon não está. 

 

Mesmo não tendo escrito sobre Digimon aqui no blogue este ano, mesmo não tendo havido encontro no Odaiba Memorial Day, a música de Digimon volta a ocupar um lugar de destaque na minha retrospetiva musical, sobretudo durante o verão. Vi Frontier pela primeira – e até agora única – vez e acrescentei vários temas às minhas listas (em 2021 irei ver a dobragem portuguesa, já tomando notas para analisá-la no blogue). No que toca a Adventure 2020, até agora, só este tema foi digno de se juntar à lista. 

 

Na verdade, nas últimas semanas deixei de ter vontade de ouvir música de Digimon. Um dia destes explico.

 

E foi isto 2020 em termos de música para mim. Foi um ano da desgraça em muitos aspetos, mas, como acabámos de ver, não foi assim tão mau em termos musicais. Tirando a parte dos concertos cancelados.

 

Aliás, tive a sorte de ir a um concerto há pouco tempo – o concerto acústico do Rui Veloso no Campo Pequeno. Não foi exatamente a experiência completa de um concerto, tal como gosto. Nunca fui que andar ao moche, mas confesso que sempre gostei da parte mais “suja” de música ao vivo: de suar por todos os poros, de estar rodeada de gente a suar por todos os poros, de ter de me sentar no chão, de ficar com a garganta crua de tanto cantar e gritar, de ficar com dores por todo o lado durante dias, de precisar de tomar um duche ao chegar a casa. 

 

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Em comparação, o concerto do Rui Veloso foi muito certinho, muito sossegado. Estávamos todos sentados, todos de máscara. Não podia ser de outra maneira, claro. O mais radical que aconteceu foi as nossas máscaras terem ficado inutilizadas depois de termos cantado o Anel de Rubi em coro.

 

Soube-me bem à mesma. Serviu para matar o bichinho, para estar de novo em sintonia com uma multidão, passados estes meses todos (que mais parecem anos).

 

Já que falo sobre isso, o concerto de Avril Lavigne em Zurique tinha sido remarcado para fevereiro de 2021, mas vai ser adiado outra vez – bem como o resto da digressão. Triste, mas já se calculava. Há quem diga que só se realizarão em 2022.

 

Se algum dia conseguir ver a mulher ao vivo até vou achar que é mentira.

 

Entretanto, Avril tem passado as últimas semanas em estúdio. Anunciou música nova para janeiro de 2021, até andei algo entusiasmada por uns dias – dez anos depois de What the Hell no dia de Ano Novo e toda a espera por Goodbye Lullaby… Depois de um ano como 2020 saberia bem.

 

Mas não, será um dueto com Mod Sun (não sei quem é…) para o álbum dele. Bem, era bom demais. Não sei ainda se escrevo sobre Flames (o nome da música) quando sair – logo decido. 

 

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Em todo o caso, é possível que Avril esteja já a preparar o seu próximo álbum. Pode ser que saia já em 2021 mas, conhecendo eu os ritmos dela, o mais certo é só sair daqui a dois anos. Cepticismo à parte, talvez ela queira esperar até ao fim da pandemia, para poder ir em digressão depois de editar o álbum.

 

Eu pelo menos não estou com grande pressa. Em primeiro porque Head Above Water só saiu há dois anos (embora pareça mais). Em segundo porque, depois desse álbum, estou com menos entusiasmo do que o costume. 

 

Talvez não seja má ideia ter as expectativas baixas.

 

No que toca a Lorde, no entanto, ninguém tem expectativas baixas. O terceiro álbum da neozelandesa tem estado no formo há algum tempo e quer-me parecer que será em 2021 que este será, finalmente, editado. Há cerca de um mês, Ella escreveu um texto sobre uma viagem que fez à Antártica em inícios de 2019, que alegadamente inspirou-a para voltar ao estúdio depois de Melodrama.

 

A viagem ocorreu há quase dois anos e agora é que Lorde fala dela? Não deve ser coincidência. Aposto que será uma questão de meses.

 

Não gostava de estar no lugar de Ella, para ser sincera. Ter de compôr um álbum digno de suceder a Pure Heroine e Melodrama? Eu entrava em parafuso. 

 

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Talvez devêssemos todos baixar um bocadinho as expectativas, não sermos demasiado duros se este terceiro álbum não conseguir chegar ao nível dos antecessores. Parecendo que não, Lorde é humana. 

 

Dito isto… não se admirem se Ella conseguir arrebatar-nos de novo com o seu terceiro álbum. Se existe artista capaz de um hat-trick, essa é Lorde.

 

Não me parece que hajam mais artistas do meu nicho preparando-se para lançar música em 2021, pelo menos que eu saiba. Ainda assim, da maneira como as coisas estão, tudo pode acontecer. Logo se vê.

 

E era isto que tinha para dizer. Que as vacinas funcionem e que possamos voltar em breve a jantaradas com amigos e família, a viajar sem restrições, a concertos com moche, a jogos de futebol, a Raids presenciais, a encontros no Odaiba Memorial Day. Boas entradas num ano melhor do que este. Vemo-nos em 2021!

 

Linkin Park – Hybrid Theory (2000) #3

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Terceira e última parte da minha análise a Hybrid Theory. Podem ler as primeiras duas partes aqui e aqui

 

Papercut foi a última faixa de Hybrid Theory a cativar-me. Acho que só passei a considerá-la uma favorita em 2017, quando comprei o CD.

 

Vários membros da banda referem-na como a sua preferida. Mike considera-a o cartão de apresentação da banda, não só por ser a primeira faixa do primeiro álbum, mas também por achar, à semelhança de Brad, que é a faixa que melhor integra todas, ou quase todas, as influências dos Linkin Park. Chester dizia que Papercut encapsulava a identidade da banda. Há um par de anos, Zane Lowe – provavelmente o melhor entrevistador de artistas e bandas dos últimos anos – parafraseou estas opiniões de forma hilariante, entrando mesmo em modo de fanboy. 

 

 

Chester também dizia que, pura e simplesmente, gostava do refrão, da letra, do facto de só haver melodia praticamente no fim. Falemos sobre isso então. 

 

Papercut é algo diferente do resto do álbum. A maior parte das faixas de Hybrid Theory são maioritariamente rock ou metal, mas Papercut tem influências hip-hop mais notórias. Veja-se (ou melhor, ouça-se) a introdução, com as batidas, o riff de guitarra e Hahn arranhando discos, antes dos acordes pesados, habituais em Hybrid Theory. À semelhança) de By Myself e Forgotten, as estâncias e grande parte do refrão são em rap – só o último verso é que é melódico. 

 

A parte a seguir ao segundo refrão até ao fim da música é a minha preferida. À semelhança do que acontece no final de A Place For My Head, temos um momento fixe com a bateria e os acordes de guitarra, entre os versos sussurrados "The face inside is right beneath the skin". E depois os versos melódicos, repetidos até ao final da faixa. 

 

A letra é, como referi antes, uma antecessora de Heavy. Temos referências semelhantes a uma escuridão interior, a um lado negro, auto-crítico, paranóico, depressivo, que nem sempre se consegue controlar. Crawling fala mais ou menos do mesmo, agora que penso nisso. 

 

É de facto um clássico da banda. Concordo com todas as declarações que parafraseei antes. Linkin Park é essencialmente isto, pelo menos nos primeiros álbuns. 

 

 

Da edição padrão, falta falar sobre a faixa instrumental, Cure For the Itch. O título da música em português significa “cura para a comichão”. A cura para uma comichão é coçar, arranhar. E é isso que Hahn faz nesta música: arranhar discos.

 

Eu na verdade acho que uma cura mais eficaz para a comichão seria um anti-histamínico, mas pronto. Esta faixa serve para Joe Hahn exibir os seus talentos de DJ – como de resto fica claro na introdução da faixa.  

 

Curiosamente, os Bring Me the Horizon incluíram uma música chamada Itch for the Cure no álbum que lançaram agora – e confirmaram que era uma referência à faixa de Hybrid Theory. Pela letra, parece ter sido inspirada pela pandemia: estamos todos ansiosos por uma cura. 

 

Regressando a Cure for the Itch, o primeiro minuto é quase todo dedicado aos discos giratórios. A voz alterada de Mike dizendo “Wasn’t that fun? Let’s try something else” marca uma mudança na música – torna-se mais atmosférica, com os discos riscados tomando um papel mais secundário.  Penso que é desta parte que Mike estava a falar, quando disse que Cure for the Itch foi a sua primeira tentativa de compor música sem palavras, estilo banda sonora de um filme.

 

Gosto muito dessa parte, pelo ambiente que cria com os "violinos" e as notas ocasionais de piano. Tenho vindo a gostar ainda mais nos últimos tempos, desde que comecei a ouvir High Voltage com regularidade. 

 

E assim passamos da edição-padrão de Hybrid Theory às B-sides. Só comecei a ouvir High Voltage este verão, já em preparação para esta análise. Estou a tomar-lhe o gosto. 

 

 

High Voltage foi lançada como B-side com o single de One Step Closer – era algo que acontecia muito nos anos 2000. Esta é uma faixa com um carácter mais hip-hop que toda a edição-padrão de Hybrid Theory. Deve ter sido por isso que ficou de fora do alinhamento final – isto embora Mike a tenha rearranjado em relação à versão do EP Hybrid Theory (também gosto dessa), dando-lhe um instrumental baseado em Cure For the Itch, para ser incluída no álbum. 

 

Não posso dizer em rigor que o hip-hop alguma vez tenha sido um dos meus géneros musicais preferidos. Tive uma fase em 2004-2005 em que descobri a MTV e outros canais de música, bem como a Cidade FM (*cringe*) – nessa altura o mainstream era muito mais diverso, incluindo hip-hop. Também cheguei a ter aulas de hip-hop (era péssima). De uma maneira estranha, High Voltage leva-me de volta a esses tempos, tem um carácter estranhamente nostálgico. O mesmo se passa com outras B-sides de Hybrid Theory, como veremos já a seguir. 

 

A letra é uma mensagem contra os críticos do nu metal, da fusão de rock com rap. Este tema surgirá de novo na B-side Step Up. O verso “Comin’ at you from every side” será reutilizado em Meteora, na faixa Nobody’s Listening. Por outro lado, a frase “Under the gun, like a new disease” tornou-se irónica em 2020.

 

É uma pena High Voltage ter sido excluída do alinhamento final de Hybrid Theory. Mudando um pouco o seu início, Cure For the Itch funcionaria perfeitamente como uma introdução longa a essa música – como Tinfoil para Powerless, em Living Things. Para mim seria um encerramento melhor que Pushing Me Away. Mas falaremos melhor sobre isso mais adiante.

 

Ao contrário de High Voltage, já conheço My December há uns anos, não muitos, se bem que não a ouvisse muitas vezes. Sempre pensei que esta música tinha sido composta para o Hybrid Theory e deixada de fora por ser demasiado calminha, por não se encaixar no estilo do álbum. No entanto, ao pesquisar para esta análise, descobri que foi composta e gravada depois da edição de Hybrid Theory, para um álbum de Natal: The Real Slim Santa. Mike compôs a canção quase toda no autocarro de digressão. Como a faixa foi lançada como B-side na edição britânica do single One Step Closer bem como na edição japonesa de Hybrid Theory, toda a gente considera-a parte do cânone deste álbum.

 

 

My December é, assim, conduzida pelo piano, acompanhado apenas por percussão leve, discos riscados, violinos e pouco mais. Está numa situação semelhante a She Couldn’t no sentido em que encaixar-se-ia em Hybrid Theory e, ao mesmo tempo, não se encaixaria. Tem um tom sombrio e melancólico que, de facto, me faz lembrar as noites longas do inverno. 

 

O narrador da música lamenta o facto de não ter sítio para onde ir, ninguém com quem passar as festas. Mike revelou que a letra foi inspirada pelo facto de ele e os colegas da banda estarem em digressão, longe das respetivas famílias. My December vai ainda mais longe, dando a entender que a separação se deve a um desentendimento do narrador com os seus entes queridos.

 

É de facto uma canção triste de Natal. Eu mesma tenho opiniões ambíguas em relação à época natalícia, como já referi antes, mas sempre achei que poucas coisas são mais tristes que passar o Natal sozinho. Este ano, aliás, não tenho querido pensar muito nessa época – se eles restringirem a circulação por causa da pandemia, devemos ter muitas pessoas a passar o Natal sozinhas.

 

Chegámos, então, à parte das B-sides que foram lançadas oficialmente nesta edição de aniversário. Nem todas são inéditas, penso que a maior parte já tinha sido no Linkin Park Underground, bem como várias demos de faixas da edição-padrão (ou então foram pirateadas). No entanto, para mim foi a primeira vez que ouvi a larga maioria delas Ainda estou em modo de exploração, ainda preciso de ouvi-las mais vezes. Mas posso falar já das minhas preferidas até ao momento.

 

Lembro-me de ouvir Step Up antes, no tal leitor de MP3 cheio de música dos Linkin Park que o meu irmão trouxe da casa dos meus padrinhos – ou se calhar era  o mash-up com Nobody’s Listening e It’s Going Down que eles tocavam ao vivo. Lembrava-me especificamente do verso “Rock and hip-hop have collaborated for years”. 

 

 

Esta é parecida com High Voltage no sentido em que se inclina um pouco mais para o hip-hop e a letra aborda o conceito de combinar rock com rap. Gosto muito das guitarras elétricas no refrão, por detrás do rap enfático.

 

So Far Away é um caso interessante de Mike cantando antes de Minutes to Midnight. Soa-me a uma antecessora de Rebellion. Também gosto da introdução, com o riff e os acordes de guitarra.

 

Não posso deixar de falar de Pictureboard, no entanto. Pictureboard nunca tinha visto a luz do dia, tirando numa única ocasião em que a banda a tocou ao vivo. Foi composta ainda nos tempos dos Xero e, como referimos antes, fazia parte da cassete de audição de Chester. A banda nunca pôde lançá-la no LP Underground porque, supostamente, inclui um sample sobre o qual não tinham direitos de autor. Pictureboard ganhou estatuto de lenda entre os fãs mais hardcore desde que Mike a referiu de passagem em 2005.

 

Às vezes quando existe um hype exagerado à volta de algo, a realidade acaba por não corresponder à expectativa (veja-se o que aconteceu com o final da Guerra dos Tronos). No entanto, a meu ver, Pictureboard tem qualidade suficiente para merecer o seu estatuto mítico.

 

Musicalmente Pictureboard surpreendeu-me: soa-me a rock mais mainstream, quase pop rock. Isto sem deixar de incluir elementos característicos dos Linkin Park, como o rap e os discos riscados. No que toca à interpretação de Chester, concordo com Brad, ele parece uma pessoa nas estâncias e outra bastante diferente no refrão. Não digo que seja o melhor desempenho vocal dele, mas para alguém que nunca o tivesse ouvido cantar antes é uma boa amostra das suas capacidades. 

 

 

A letra não é nada de extraordinário. É muito curta, torna-se um pouco repetitiva. No entanto, gosto da mensagem de esperança, inesperada para o cânone de Hybrid Theory. É mais uma prova de que os temas mais suaves dos Linkin Park sempre fizeram parte do ADN da banda, apenas foram expressos mais tarde.

 

O que me leva a uma dúvida existencial, provocada por todas estas B-sides. Praticamente o único defeito que tenho a apontar a Hybrid Theory é o facto de ser demasiado homogéneo. Cada faixa tem o seu próprio carácter, não me interpretem mal, mas estas acabam por ser parecidas entre si.

 

E se existe algo que aprendi com esta edição de aniversário foi que não havia necessidade disso. Hybrid Theory podia ter sido um álbum mais diverso. Podia ter tido um lado mais suave, com músicas como She Couldn’t, My December, mesmo Pictureboard até certo ponto. Podia ter tido um lado mais inclinado para o hip-hop, com músicas como High Voltage, Step Up ou It’s Going Down. Os membros dos Linkin Park podia ter-se poupado a muitas queixas de fãs quando, em álbuns posteriores, decidiram explorar facetas diferentes.

 

Não sei de quem partiu a ideia de manter Hybrid Theory quase homogeneamente agressiva, mais inclinada para o rock e para o metal. Talvez Don Gilmore, com o seu foco em “entretenimento” em vez de “problemas”, como vimos acima. Talvez a editora. Talvez tenha sido mesmo uma decisão da banda. Mas a verdade é que limitou um pouco as opções dos Linkin Park no início da sua carreira. 

 

Dito isto… quem sou eu para questionar as decisões feitas em relação a este álbum? Hybrid Theory é um dos discos mais vendidos de todos os tempos, vendeu trinta milhões de cópias (quase o dobro das vendas do Let Go de Avril Lavigne, que também foi considerado um êxito), teve um impacto cultural tremendo, alterando a paisagem musical. É preciso muita lata da minha parte chegar aqui, pegar neste álbum monstruoso e dizer: 

 

– Hum, eu teria feito diferente.

 

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Eu acho que o impacto teria sido o mesmo caso Hybrid Theory tivesse músicas como She Couldn’t ou Step Up no alinhamento. Mas não posso ter certezas, claro. E, pela filosofia “Em equipa que ganha não mexe”, é melhor deixar Hybrid Theory como está.

 

E a verdade é que, apesar de reconhecer que Meteora será objetivamente melhor quando comparado com este, apesar de admitir que nem todas as músicas são perfeitas e algumas B-sides são mais interessantes… eu adoro Hybrid Theory. Ponho o CD no carro e sou capaz de cantar em altos berros desde “Why does it feel like night today?” até “Pushes me awaaaay!”. Pode ser demasiado homogéneo, mas é homogeneamente bom. Mesmo os momentos menos bons estão bem acima da média. 

 

E, em minha defesa, não devo ser a única pois, daquilo que sei dos concertos dos Linkin Park, as setlists incluíam quase sempre várias músicas de Hybrid Theory

 

Passando, então, da minha experiência à experiência de outros, tal como referimos antes, Hybrid Theory e os próprios Linkin Park quebraram barreiras na época ao dar voz às emoções de muitos, sobretudo no masculino. Mesmo que a emoção dominante fosse a raiva, a revolta. A banda terá salvo muitas vidas. 

 

Em declarações à Blitz, Mike afirmou que o desejo dos Linkin Park era usar essa revolta para chegar às pessoas, dar-lhes um lugar seguro. “Não estávamos ali a gritar que o mundo era horrível e que era tudo horrível, na verdade queríamos que eles pusessem os braços à volta uns dos outros e tivessem uma experiência catártica. Foi isso que nos guiou, no fim de contas, na maior parte do tempo.”

 

Virando de novo os holofotes para as minhas experiências, já pensei várias vezes – sobretudo nas primeiras semanas após o meu primeiro concerto dos Linkin Park, no Rock in Rio de 2008 – no paradoxo que é ter-me sentido tão feliz, tão integrada cantando em altos berros que, lá está, tudo era horrível. Ainda hoje a música dos Linkin Park vai do zangado e agressivo ao melancólico e deprimente, com momentos ocasionais de esperança e empatia. E no entanto poucas coisas me dão mais alegria que ouvir a música deles, que ver vídeos deles ao vivo – os que incluí neste texto e não só.  

 

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É uma pena Chester não estar cá para celebrar tudo isto connosco, para contar o seu lado da história de origem de Hybrid Theory, mesmo dos Linkin Park enquanto banda. Talvez nessa cronologia alternativa a pandemia nunca tenha ocorrido e os Linkin Park estejam em digressão mundial, celebrando o vigésimo aniversário, tocando estas B-sides, talvez mesmo algumas versões demo.

 

Mas não é isso que está a acontecer. Não adianta chorar sobre o que não pode ser alterado. E, de qualquer forma, diverti-me imenso a descobrir acerca dos primórdios dos Linkin Park, das historietas, das pérolas escondidas. Tem sido um bom escape. A vantagem de eu ser uma fã pouco hardcore é ter ainda muito por descobrir acerca da banda – mesmo que Chester já não esteja cá e que o regresso dos Linkin Park ao ativo ainda não seja certo. 

 

Já que falo nisso, quero deixar um agradecimento ao site Linkinpedia. A maior parte dos factos que referi neste texto vieram de lá. Fartei-me de aprender sobre os Linkin Park e tenciono continuar. Só lamento não ter descoberto o site mais cedo, antes de escrever sobre Post Traumatic e One More Light. 

 

Agora que já escrevi sobre Hybrid Theory, o próximo passo será escrever sobre Meteora. Não de imediato, que passei muito tempo no universo dos Linkin Park. preciso de uma pausa. Posso esperar pelo vigésimo aniversário desse álbum… mas ainda faltam dois anos e meio. Não sei se esperarei tanto tempo. Logo se vê.

 

Muito obrigada pela vossa visita. A mais vinte anos de Hybrid Theory e de Linkin Park, mesmo sem Chester. Ele pode já não estar connosco, mas a sua voz, a sua música, bem como as vozes, os instrumentos de Mike e de cada um dos outros membros, viverão para sempre. 

Linkin Park – Hybrid Theory (2000) #2

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Segunda parte da análise a Hybrid Theory. Podem ler a primeira parte aqui

 

Uma das minhas preferidas, não apenas neste álbum, mesmo de toda a discografia da banda, é With You. Descobriu-se há pouco tempo que é também a preferida de Bella Swan, do Twilight. Não sei o que fazer com essa informação.

 

With You tem uma letra algo vaga, não se percebendo ao certo qual é o assunto. Parece falar de uma pessoa querida que está separada do narrador. Morreu? Partes da letra parecem apontar nesse sentido – “Even though you’re close to me, you’re still so distant and I can’t bring you back”. “The sound of your voice painted on my memories/Even if you’re not with me, I’m with you.” – mas é possível que seja apenas sobre uma separação. A letra também dá a entender que o relacionamento não seria muito saudável – e que o narrador guarda arrependimentos em relação a isso. 

 

Para mim, o melhor da música é o seu instrumental. Gosto muito da introdução – embora não consiga identificar todos os sons, tirando os discos giratórios de Mr. Hahn. Estes, aliás, estão presentes em toda a música, quase tão prevalentes como a guitarra, tendo até direito a um solo.

 

Já que falamos de guitarras, adoro a sequência dos acordes, imediatamente antes da primeira estância. Durante o rap de Mike, nas estâncias, a instrumentação torna-se mais leve, mais atmosférica (algo que torna a acontecer noutras faixas de Hybrid Theory, como veremos adiante). Ouvem-se apenas notas de teclado por cima da bateria – para depois se repetir a sequência inicial, durante o pré-refrão e o refrão. 

 

Não resisto a contar-vos uma historieta pessoal engraçada. Alguns de vocês devem conhecer a música Get With You, so Ritchie Campbell. No refrão, ele canta "but I just can't get with you, with you". Eu ganhei o hábito de, quando apanhava a música na rádio, pôr-me a cantar "You, now I see, keeping everything inside" ou "You, now I see, even when I close my eyes" durante os "with you, with you". Por algum motivo, isto irrita a minha irmã – logo, comecei a fazê-lo de todas as vezes que ouvíamos Get With You. 

 

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Quem tiver irmãos compreende. 

 

A partir de certa altura, bastavam soar os primeiros acordes para a minha irmã se virar para mim e dizer:

 

– Nem penses! 

 

Eu não cantava, mas ficava a rir que nem uma perdida. 

 

Tenho de confessar que, depois de Chester morrer, deixei de fazê-lo. Ainda assim, agora que já passaram uns anos, era capaz de voltar a irritar a minha irmãzinha com estes versos. Mas a verdade é que não a temos apanhado na rádio ultimamente. 

 

Durante muito tempo quis fazer um AMV para esta música. Era a próxima na lista há meia dúzia de anos, quando andava a fazê-los com os filmes de Pokémon. Só que o Windows Movie Maker deixou de funcionar no meu computador. O desejo não desapareceu por completo, confesso, mas agora tenho menos tempo livre. Quando o tenho, prefiro escrever.

 

 

Outra que também esteve sempre entre as minhas preferidas (agora nem tanto, anda a ser destronada) é Points of Authority. Esta é uma das músicas com mais demos em todo o álbum – como dá para ver agora, na edição de aniversário. Numa dessas versões o rap de Mike – que, na versão final, serve de introdução e de terceira parte – toma o lugar do refrão. Outra versão usa o refrão do álbum, mas o rap é diferente – pior, na minha opinião, mais previsível. 

 

Em suma, prefiro mesmo a versão final. Gosto imenso do rap na terceira parte, sobretudo quando Chester se junta a Mike (pelo menos nas versões ao vivo). Além disso, o refrão flui tão bem depois das estâncias que custa a acreditar que, a certa altura, a banda pôs a hipótese de não inclui-lo. 

 

Uma confissão: espero não ter sido a única a ficar baralhada por um momento quando, no Rock in Rio de 2014, cortaram o rap introdutório. Demorei a perceber que música era. 

 

Outra confissão: examinar a letra de Points of Authority para esta análise estragou-me um bocadinho a música para mim. Parva como sou, nunca me tinha apercebido de que o verso "while taking pleasure in the awful things you put me through" poderá ser uma referência aos abusos sexuais a que Chester foi sujeito em miúdo. Existem também referências a comportamentos auto-destrutivos, e dá-se a entender que o agressor também foi uma vítima, que está apenas a lidar com a vida da maneira que sabe. 

 

O que é capaz de ser verídico. 

 

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O instrumental não é dos mais interessantes neste álbum, mas sempre tem uma espécie de beatbox ao longo de toda a faixa, dando-lhe carácter próprio. O que de resto alude ao rap, que fala em corridas demasiado rápidas, em alguém que não está à altura do desafio. 

 

Neste momento e no que toca às últimas semanas, desde que comecei a examinar este álbum para escrever esta análise, as minhas músicas preferidas em Hybrid Theory são A Place For My Head e Forgotten. Já gostava delas individualmente antes disto – explicá-lo-ei porquê já a seguir – são ambas enérgicas, agressivas e soam muito bem em sequência, como surgem no alinhamento do álbum. A Place For My Head termina um pouco de repente – só temos um segundo para respirar, antes de Forgotten abrir logo a matar, com o potente refrão. 

 

Além disso, nestas últimas semanas tenho passado mais tempo com estas duas canções do que com a maioria das outras. A Place For My Head e Forgotten são as faixas mais antigas de Hybrid Theory, compostas ainda no tempo dos Xero. A edição de vigésimo aniversário inclui demos das mesmas – intituladas Essaul e Rhinestone – ainda com a voz de Mark Wakefield. E, como vimos antes, estas demos faziam parte da cassete de audição de Chester. 

 

A Place For My Head é uma das faixas mais pesadas em Hybrid Theory, com as guitarras e os gritos de Chester. Começa enganadoramente suave, com um riff de guitarra que faz uma boa ponte com o final de In the End. Seguem-se a bateria e os discos giratórios. É então que começa o rap de Mike, numa altura em que o riff passa a ser tocado por uma guitarra elétrica. As guitarras tornam-se mais pesadas por alturas do refrão. 

 

Um dos melhores momentos da música é a terceira parte. Quem disser que nunca se assustou quando Chester passa dia sussurros aos gritos está a mentir. Outra das minhas partes preferidas é o encerramento: os acordes pesados de guitarra, a bateria, os gritos de Chester antes de Mike repetir o rap.

 

 

Quem disser que nunca se assustou quando Chester passa dos sussurros aos gritos, na terceira parte da música, está a mentir. 

 

Outra das minhas partes preferidas é o encerramento:os acordes trovejantes de guitarra, a bateria, os gritos de Chester antes de Mike repetir o rap do pré-refrão. Quando abriram o concerto do Rock in Rio de 2012, eles recriaram esta parte na introdução e ficou espetacular, como poderão ouvir. 

 

Muitos destes elementos da instrumentação de que gosto em A Place For My Head já vinham da demo Essaul – que recebeu o nome de um dos amigos de Mike e dos outros membros dos Xero. Já lá está a introdução, os sussurros que passam a gritos, a conclusão. 

 

A diferença mais significativa é o rap de Mike: bem mais rápido, que tem sido comparado a Eminem. É de facto impressionante – gosto em particular do início da segunda estância, da pequena explosão musical quando Mike diz "stronger than a nuclear bomb". Ainda assim, prefiro o rap na versão final – só mesmo porque esse consigo acompanhar, consigo cantar. O outro não. 

 

Por outro lado, o verso "Soon the Aztec Moon will heat my room, heal my wounds" é hilariante. Que raio significa? 

 

 

Para ser justa, a letra da versão final também não é espetacular. Não é má, apenas simples e inespecífica. Fala de pessoas tóxicas, calculistas, que fazem favores só para poderem cobrar de volta. O narrador deseja fugir delas. 

 

Quando tinha dezassete ou dezoito anos, esta era uma das músicas que me repelia, demasiado pesada para as minhas sensibilidades ainda muito pop. Hoje no entanto, como referi antes, é uma das minhas preferidas. Não sou a única – consta que é bastante popular entre os fãs. 

 

A letra de Forgotten é um bocadinho pior que a de A Place For My Head – pinta cenários vagamente emo, vagamente sombrios, mais nada. Uma vez mais, vale pelo instrumental. 

 

Nesse aspeto, Forgotten tem algumas semelhanças com With You no sentido em que alterna guitarras elétricas com momentos mais leves e atmosféricos, algo eletrónicos, nas estâncias. Gosto imenso do refrão, com Chester e Mike alternando na primeira metade e depois a parte melódica – quase de todas as vezes que oiço esta música, dou por mim a cantar esses versos, sobretudo no final: "In the memory, you will find me". E gosto da maneira como o último verso soa estranhamente esperançoso "until the sun rises up". 

 

By Myself é uma faixa muito parecida com Forgotten, não apenas no instrumental como também pelo facto de o refrão ser meio rap meio melódico. A letra é melhor, a musicalidade não (não que seja pior, é apenas menos impressionante). É uma música algo deprimente, que fala sobre solidão, cansaço, desânimo, insegurança, derrotismo. Só coisas boas, como podem ver. Se uma pessoa não se distrai dando uns headbands, fica na fossa. 

 

 

Consta que Chester não gostava muito de Runaway. Dizia que era uma das piores da banda, ao ponto de não querer mais tocá-la ao vivo. Eles mesmo assim mantiveram-na nas setlists até pelo menos 2012 – acho que só não a retiraram mais cedo porque sabiam que até era popular entre os fãs. 

 

Na minha opinião, é exagero dizer que é das piores dos Linkin Park, mas de facto não é nada de especial. A letra deixa um pouco a desejar – à semelhança de Forgotten, temos imagens sombrias, de revolta adolescente. Musicalmente segue a fórmula de Hybrid Theory, mas não tem a acutilância, a ferocidade de temas como One Step Closer ou A Place For My Head. 

 

Na verdade, agora que saiu a edição de vigésimo aniversário, gosto mais da versão demo desta faixa, Stick N Move – outra que vem dos tempos dos Xero. A versão mais antiga, com a voz de Mark Wakefield, não foi incluída na edição de aniversário, mas está disponível na Internet – em baixa qualidade. 

 

O instrumental é parecido com o de Runaway, mas o vocal é outro: as estâncias são em rap, o refrão é diferente. A versão cantada por Chester tem uma terceira parte apenas instrumental, mas a versão dos Xero tinha um rap de Mike interessante. 

 

Por mim, teria mantido a versão de Stick N Move cantada por Chester, juntamente com o rap da versão dos Xero. Sempre era um pouco mais interessante que Runaway. Mas consta que Don não gostava de Stick N Move. Mike e os outros também não morriam de amores pela canção, por isso, não se importaram que se transformasse em Runaway (mas no fim também não gostaram muito dessa…). Enfim. 

 

Crawling é uma música que tem subido na minha consideração nos últimos anos, se bem que não pelos motivos mais felizes. Musicalmente é uma balada, uma das músicas mais lentas de Hybrid Theory, mas não é menos pesada que a maioria do álbum – com alguns elementos eletrónicos, nomeadamente na introdução. Em termos de vocais, é impossível não assinalar os agudos impossíveis de Chester no refrão – falaremos sobre isso já de seguida. 

 

 

Todos concordam que esta será uma das músicas mais autobiográficas de Chester. O próprio explicou que a letra de Crawling é sobre admitir, por difícil que seja, que se tem um problema consigo mesmo, que não se tem controlo sobre si mesmo. No caso de Chester, isso diz respeito ao seu alcoolismo e toxicodependência, aos seus traumas, aos demónios que, no fim, lhe custaram a vida. Crawling é sobre ser-se o seu próprio pior inimigo. 

 

Há pouco tempo, Mike contou uma história engraçada sobre a letra do refrão. Se ouvirem a versão demo, lançada agora na edição de aniversário, hão de reparar que, tirando uma secção de rap que foi cortada na versão final, existem algumas diferenças pontuais na letra. Por exemplo, o verso "Fear is powerful", no refrão. Consta que, quando Mike e Chester mostraram esta versão a Don e lhe perguntaram a opinião sobre a letra, ele respondeu:

 

– Está boa. Gosto muito do verso "Fear is how I fall". 

 

Don ouvira mal a letra, mas Mike e Chester não disseram nada – concordaram tacitamente que a versão de Don era melhor. 

 

Em todo o caso, esta história chamou-me a atenção para esse verso. "Fear is powerful/how I fall, confusing what is real". O medo deita abaixo, altera a nossa perceção da realidade. Os nossos traumas, as nossas inseguranças fazem-nos recear coisas a que, racionalmente, não daríamos importância. 

 

Chester deu a entender que compôr e cantar Crawling, pôr a nu as suas partes mais negras, obrigou-o a tomar responsabilidade sobre si próprio, sobre a sua saúde mental. Chester não tinha problemas em admitir o seu passado difícil, os seus comportamentos aditivos e autodestrutivos. Tinha mesmo orgulho em ser um alcoólico em recuperação, em canalizar essas facetas para música que, como no caso de Crawling, depois se vendia aos milhões, ganhava Grammys e tocava ouvintes lidando com problemas semelhantes. 

 

Pois… 

 

 

Queria agora falar sobre um momento que contribuiu para a minha elevada consideração por Crawling. Foi, uma vez mais, no concerto de 2012 no Rock in Rio (que coincidiu com a altura em que estava a tomar o gosto à música mais pesada dos Linkin Park). Quando tocaram Crawling, Chester foi cantar para junto do público. Houve um engraçadinho que colocou um cachecol do FC Porto aos ombros do vocalista – um momento hilariante que, como o próprio Chester descreveu, deixou "muita gente feliz e muita gente fula". 

 

Tenho apego a esse momento porque envolveu Chester provando um bocadinho de portugalidade, envolvendo-se por breves instantes nas nossas rivalidades clubísticas. Chester foi um bocadinho nosso. 

 

Mas mesmo sem o cachecol, foi um momento bonito – sobretudo para os sortudos dos fãs, até tiveram o privilégio de contactar com só um dos melhores vocalistas de todos os tempos. Fiquei com inveja, claro, mas também fiquei contente por eles, por fãs portugueses terem tido essa sorte. Sobretudo o rapaz que cantou o refrão cara a cara com Chester. 

 

Agora que ele já não está entre nós, recordações como esta – bem como quando lhe agarrei a mão por um momento no concerto do Rock in Rio de 2014 – ganharam um carácter agridoce. Pergunto-me como terão reagido aqueles fãs à notícia da morte de Chester. Terão dado graças por terem tido aquela oportunidade? Terão sentido pena por essa já não se poder repetir? Sentem mágoa, como eu, por as vozes deles cantando Crawling não terem falado mais alto que as vozes na cabeça dele? 

 

Depois do que aconteceu há três anos, tenho pensado muito no verso "Against my will I stand beside my own reflection, it's haunting", em como ele escolheu cantar esta música específica para junto do público – não apenas no Rock in Rio 2012, também noutras ocasiões, como no vídeo da digressão One More Light. Penso no verso de No Friend, dos Paramore (já não é a primeira vez que escrevo sobre isso aqui no blogue, pois não?): "I see myself in the reflection of people's eyes/Realising that what they see may not even be close to the image I see in myself". Seria por isso que Chester vinha para junto dos fãs? Para se ver refletido nos nossos olhos, para tentar ver-se a si mesmo como nós o víamos? Não o seu pior inimigo mas sim alguém digno de admiração, de carinho? 

 

Nunca saberemos. 

 

 

Queria agora falar sobre a versão de Crawling editada no álbum da digressão One More Light. Em linha com o disco menos pesado e agressivo, esta é uma versão apenas com piano num tom um pouco mais grave que a versão do álbum, mais cantada que gritada – Chester bem se tinha queixado que a melodia original era difícil de cantar. 

 

A música fica com um carácter completamente diferente assim. A versão de estúdio, com o refrão agudo, barulhento, soa raivosa, algo melodramática. Encaixa-se no estilo de Hybrid Theory, não me interpretem mal, e sei que é catártica para muitas pessoas, mas acho que distrai um pouco da mensagem trágica da letra. 

 

O que não é necessariamente um ponto fraco, agora que penso nisso. Um dos feitos de Hybrid Theory, é dos Linkin Park em geral, diz respeito à maneira como deram voz às angústias e revoltas de adolescentes, sobretudo rapazes. Isto nunca altura em que sentimentos no masculino ainda eram menos tolerados que agora. Ainda assim, a emoção dominante em Hybrid Theory é a raiva, que, como já tínhamos visto antes é a única emoção que homens podem exprimir, segundo o patriarcado. 

 

Nesse sentido, Crawling é um bom exemplo desta… ambiguidade, à falta de melhor palavra. À primeira vista (ou melhor, audição), esta é uma música dominada pela ira. No entanto, basta prestar um pouco de atenção para se perceber que essa ira esconde muita coisa.

 

A versão ao piano é mais transparente, nesse aspeto – o que faz sentido mais de quinze anos depois, num homem mais maduro. Esta é uma Crawling mais triste, mais resignada. Eu chorei da primeira vez que a ouvi, quando saiu o álbum ao vivo (tecnicamente já tinha ouvido esta versão antes, quando lançaram Heavy em fevereiro desse ano, mas muita coisa acontecera entretanto, tinha-me esquecido completamente). Ainda tinha passado pouco tempo, a dor era ainda recente. Esta versão soava – ainda soa – como uma versão memorial. Ainda agora, ao ver o vídeo da apresentação ao vivo, ao vê-lo cantando junto dos fãs, lacrimejei um pouco. Abracem-no. Abracem-no e não o larguem. 

 

Eu diria, para resumir, que a versão de estúdio de Crawling é a versão adolescente. A versão ao piano é a versão adulta. 

 

 

Existe outra versão adulta de Crawling, outra versão memorial. Eu já tinha falado dos Bad Wolves aqui no blogue, a propósito do cover de Zombie, que lançaram pouco depois da morte de Dolores O'Riordan. Este ano voltaram a homenagear outra lenda do rock que partiu demasiado cedo. Lançaram um cover de Crawling na semana do aniversário da morte de Chester. 

 

Este cover acaba por ter um tom semelhante da versão de Crawling ao piano. É uma versão acústica no fundo: conduzida pelo piano, também, acompanhada por guitarra acústica, violinos, percussão. Incluíram também um solo de guitarra muito fixe. Gosto muito deste cover. 

 

Quando publicaram esta versão de Crawling no Facebook, juntaram-lhe uma mensagem dolorosa sobre os efeitos a longo termo de abusos sexuais na infância (a parte de desvalorizar o racismo é que era desnecessária). Chester infelizmente foi um bom exemplo. 

 

Por paradoxal que seja, gosto cada vez mais de Crawling, em parte por causa destas versões mais recentes. Mas também reconheço que, depois de 20 de julho de 2017, é uma das mais dolorosas. Antes da morte de Chester, havia muita gente que não levava a letra de Crawling a sério. Achavam que era exagerada, talvez para apelar aos dramas de adolescentes – sendo esses próprios dramas desvalorizados. 

 

Mas não, não era exagero nenhum, era real – e quando muitos de nós o descobriram já era tarde. E foram precisamente as coisas sobre as quais cantou que o mataram. 

 

Eu sei que tanto a vida como a morte de Chester terão ajudado muitas pessoas. Se hoje se fala mais sobre saúde mental, se as mentalidades estão a mudar, é pelo menos em parte por causa do que lhe aconteceu. Mas dói à mesma. Nos meus piores dias tenho vontade de mudar a letra para "these wounds will never heal". 

 

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*suspiro* Às vezes chateia-me que, desde julho de 2017, sempre que se fala dos Linkin Park, falamos inevitavelmente do que aconteceu a Chester. Já foi um alívio não ter tido de falar no assunto quando escrevi sobre She Couldn't, tirando uma referência muito breve. Imagino que seja mil vezes pior para Mike e os outros – talvez seja por isso que ainda não regressaram em força como banda. 

 

Que se pode fazer? Chester era o coração dos Linkin Park. Sem ele é tudo diferente, sobretudo tendo partido da maneira como partiu. Talvez um dia seja possível recordar Chester sem dor, só com alegria. Quanto a mim e a este blogue, vou tentar não puxar o assunto sem necessidade, mas quando achar que se justifica não vou deixar de assinalá-lo. 

 

Enfim, perdoem-me este desabafo, perdoem-me terminar esta parte da análise numa nota tão triste. A terceira e última parte será menos deprimente. Publico-a amanhã. 

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