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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Mais pérolas escondidas de Bryan Adams

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Quando Bryan Adams atuou pela última vez em terras lusas, no final de 2019, compilei uma lista de músicas dele que mereciam mais atenção – tanta quanto os Summer of ‘69 desta vida. Só publiquei o texto uns meses depois dos concertos porque sou péssima a gerir o meu tempo. 

 

Agora, pouco mais de dois anos depois, Bryan está de volta a Portugal. Irá dar um concerto em Gondomar no dia 29 de janeiro e um em Lisboa, no dia 30 – é a esse que vou. Daqui a uns meses, no dia 15 de julho, Bryan atuará no Festival Marés Vivas. 

 

Eu pensava que tinha deixado a promessa de publicar uma sequela às “Pérolas escondidas” quando Bryan regressasse depois de 2019. No entanto, quando fui dar uma vista de olhos a esse texto, não encontro essa promessa em lado nenhum. 

 

Onde fui buscar essa ideia?

 

Passando à frente daquilo que eu espero que não sejam sintomas de demência, com promessa ou sem promessa, o regresso de Bryan é um bom pretexto para desenterrar mais algumas pérolas escondidas da sua discografia. Não tenho tantas como da última vez. As primeiras duas são apenas menções honrosas, aliás (opalas escondidas?). Mas não deixa de valer a pena trazê-las à luz.



 

  • Menções honrosas: I Still Miss You… a Little Bit e Hidin’ From Love

 

 

 

 

Eu na verdade já desenterrei I Still Miss You… a Little Bit há muito tempo, quando escrevi sobre o álbum Bare Bones. Este é um texto muito antigo, um dos primeiros que publiquei aqui – escrito uns meses antes de ter criado o blogue. 

 

Por norma, não gosto de reler nem de referir os meus primeiros textos. Já lá vão quase dez anos, mais ainda nalguns casos. Na minha opinião, a minha escrita melhorou significativamente desde essa altura e não consigo olhar para esses textos sem ter vontade de reescrever tudo (o texto sobre Bare Bones não está muito mau, apesar de tudo). Não os apago do blogue. Mesmo que hoje não esteja satisfeita com eles, foi por escrevê-los – esses e muitos outros – que cheguei ao nível em que estou agora. Mas não os promovo da maneira que faço com textos mais recentes. Assim, de seguida irei repetir algumas coisas de que já falei nessa análise.

 

Como era a norma em Bare Bones, os únicos instrumentos são o piano e a guitarra acústica – com as palmas do público marcando o ritmo. O tom é saltitante e divertido, o que condiz com a letra. Destaque para o momento em que Gary Breit, o pianista, se entusiasma durante o solo. 

 

A letra, então, descreve uma relação que falhou porque a amada não lhe conseguia ser fiel. Ao ponto de trazer outro homem para a cama com eles. 

 

Como já escrevi antes, para mim I Still Miss You… a Little Bit conta a história de What the Hell, de Avril Lavigne, do ponto de vista do homem. Até porque as músicas foram lançadas com poucos meses de intervalo. 

 

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Por outro lado, às vezes gosto de imaginar um videoclipe para esta música com Keith Scott – o guitarrista de Bryan – fazendo de rival amoroso do narrador. Keith aparecendo na cama com Bryan e a mulher… Seria hilariante.

 

Às vezes tenho saudades da era Bare Bones e tenho pena por não ter ido a nenhum concerto nesse conceito. Mas também em Portugal seria sempre difícil – eram em salas mais pequenas, os bilhetes esgotariam num abrir e fechar de olhos. 

 

Agora recuemos trinta anos, para o álbum de estreia de Bryan, homónimo. Como vimos antes, este álbum deixa muito a desejar. Tanto o próprio Bryan como Jim Vallance – o principal co-compositor de Bryan nos primeiros dez anos da sua carreira – concordam. Só gosto verdadeiramente de três músicas neste álbum – e Hidin’ From Love é a minha preferida.

 

A letra é algo vaga – o que não é invulgar com Bryan. Fala sobre um interesse romântico que não se quer comprometer, que não quer avançar na relação. Arranja desculpas, mas a verdade é que ela tem medo do amor, está a esconder-se dele.

 

Sinto-me atacada.

 

Num álbum que Bryan descreve como uma coleção de demos, Hidin’ From Love não é má em termos de instrumental. Eu pelo menos gosto da guitarra elétrica.

 

 

Ainda assim, existe outra versão da música. Em 2020, durante o confinamento, Bryan foi publicando vídeos de si mesmo cantando músicas suas. Regra geral, usava os instrumentais oficiais e cantava por cima deles.

 

Para Hidin’ From Love, no entanto, ele gravou um novo instrumental – porque claramente não estava satisfeito com a versão do álbum. E esta versão é de facto melhor, carregando mais nas influências rock de álbuns posteriores. Só é pena ter deixado o solo de guitarra original de fora.

 

Pergunto-me se ele planeia regravar todo o seu primeiro álbum neste estilo, um dia. Se calhar devia tê-lo feito em 2020, a propósito dos quarenta anos de edição.

 

Bem, ainda haverá o quinquagésimo aniversário.

 

 

  • Miss America

 

 

Uma vez mais, escrevo aqui sobre uma B-side do álbum 11. Este não é um mau álbum de todo, mas infelizmente dois dos meus melhores temas não estão incluídos na edição-padrão.

 

Ao contrário do que aconteceu com The Way of the World, só conheci Miss America mesmo quando saiu a versão Deluxe do álbum, algures em novembro de 2008. Infelizmente, parva como sou, perdi o CD, mas ao menos tanto Way of the World como Miss America estão disponíveis no Spotify. 

 

 

Nos primeiros meses após o lançamento dessa versão de 11, andei obcecada com Miss America. Lembro-me inclusivamente de ouvi-la todas as manhãs, na minha aparelhagem-despertador, enquanto fazia a cama. Tinha imensa vontade de lhe fazer uma montagem de vídeos – era o que eu fazia na altura – mas provavelmente nunca conseguiria colocá-la no YouTube, por causa dos direitos de autor.

 

Musicalmente, Miss America segue a fórmula de quase todo o álbum 11. A guitarra acústica no centro, bateria, piano e guitarra elétrica a acompanhar. Gosto imenso destes dois últimos instrumentos nesta música. 

 

Em termos de letra, é basicamente uma versão mais fofinha de Summer of ‘69. Miss America recorda com saudades um romance de verão entre dois adolescentes antes de a vida os separar. A letra inclui pormenores que dão carácter à música, a tornam credível: o facto de ela ser mais velha, de ele preferir vê-la de cabelo solto, de ambos passarem noites a olhar para as estrelas. 

 

A música não explica preto no branco porque é que o narrador se refere ao seu interesse romântico como Miss America ou Miss USA. Eu, no entanto, sempre assumi que era uma alcunha fofinha do narrador para a sua amada: para ele, ela era a mais bonita do país. 

 

Não é por acaso que a primeira vez que referi Miss America aqui no blogue tenha sido quando Avril Lavigne lançou 17. As duas canções são muito parecidas tematicamente. Ainda assim, dou a vantagem a 17. A letra está mais desenvolvida, mais pormenorizada, Avril verteu nela a sua própria personalidade, a sua própria história. 

 

Pena não ter voltado a fazê-lo no álbum seguinte, quando mais se justificava. 

 

E desviei-me um bocadinho. Miss America não deixa de ser uma linda música, uma verdadeira pérola escondida. Não deixem de ouvi-la.



 

  • The Best Was Yet to Come

 

 

 

The Best Was Yet to Come é a última faixa do alinhamento de Cuts Like a Knife, o terceiro álbum de Bryan. É a única balada no disco, à exceção da clássica Straight From the Heart.

 

Esta é muito semelhante a outras baladas dos anos 80 – sobretudo por ser conduzida pelo piano elétrico. Existe até uma história engraçada sobre isso, contada por Jim Vallance, co-compositor da música, no seu site. Na altura dos trabalhos de Cuts Like a Knife, pediram a Vallance que fizesse uma gravação do piano para que servisse de guia para outro tecladista. Assim, Vallance não se preocupou muito com o rigor da sua gravação. 

 

No entanto, mais tarde, Bryan decidiu usar essa gravação na versão final de The Best Was Yet to Come. Vallance entrou em pânico quando descobriu, mas na altura já era tarde demais. Ainda hoje, Vallance não consegue deixar de ouvir os erros na versão final. 

 

Tem piada porque nem eu, nem – penso – a maior parte dos ouvintes consegue ouvir os erros. Não há nada que soe fora de sítio pois não conhecemos a versão certa. Ao serem incluídas no álbum final, as notas erradas de Vallance passaram a ser as notas certas. 

 

Haverá uma lição de vida aqui, suponho eu. Haverão ocasiões em que o melhor é fingir que não se cometeram erros, que fazia tudo parte do plano. Se os outros não souberem o que era o correto, nunca saberão o que está errado.

 

A letra de The Best Was Yet to Come foi inspirada pela história trágica de Dorothy Stratten, assassinada pelo marido com apenas vinte anos, quando estava prestes a vingar-se em Hollywood. Um crime que ainda é discutido hoje, mais de quarenta anos depois. 

 

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Dorothy era de Coquitlam, uma cidade pequena do Canadá. Os americanos e os canadianos têm uma cena por este tropo: pessoas, geralmente mulheres, que vêm de uma terra pequena para as grandes cidades. Dorothy terá conhecido o futuro marido aos dezoito anos: um homem mais velho, um chulo, que lhe prometeu fazer dela uma estrela. 

 

Pode-se dizer que ele cumpriu a promessa, mas na verdade o que ele queria era explorar Dorothy, ganhar dinheiro à custa dela. Veja-se o facto de ele ter feito dela uma coelhinha da Playboy – apesar de, alegadamente, Dorothy não se sentir à vontade com a nudez e o eroticismo desse mundo. 

 

Ao menos permitiu à jovem dar o salto para a representação. Dorothy chegou a participar nalguns episódios televisivos e num par de comédias românticas. 

 

Gosto de pensar que, hoje em dia, se as pessoas vissem uma miúda da idade de Dorothy sendo seduzida por um homem mais velho, soariam alarmes. Sobretudo com eles casando-se, teria a jovem dezoito ou dezanove anos – as pessoas casavam-se assim tão cedo nos anos 70, 80?

 

Ainda assim, para sermos justos, várias pessoas do círculo de Dorothy ter-se-ão apercebido da relação abusiva. A jovem terá tentado fugir do marido várias vezes, ajudada por essas pessoas. Começou inclusivamente uma relação com Peter Bogdanovic, realizador de um dos filmes em que ela entrou. Por sinal, o senhor morreu no início deste ano. 

 

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Esta também me parece uma relação questionável. Bogdanovic tinha o dobro da idade de Dorothy na altura. Por outro lado, ele terá tratado melhor a jovem que a besta do marido. Depois da morte dela, Bogdanovic ter-se-á aproximado da família de Dorothy e tê-los-á ajudado a suportar a perda. Ao ponto de se ter casado com Louise, a irmã mais nova de Dorothy… quase trinta anos mais nova que Bogdanovic (Louise tinha vinte anos quando se casou).

 

Essa sim, ainda me parece mais questionável. Consta que deu polémica na altura e, para ser sincera, não os censuro. Dito isto… o casamento ainda durou doze anos e, mesmo depois do divórcio, tanto Louise como Bogdanovic continuaram a dar-se bem. Não há nada que indique que tenha havido abuso.

 

Suponho que existam nuances nestas coisas. Diferenças de idades não significam necessariamente relações abusivas.

 

Regressando a Dorothy, esta infelizmente foi assassinada pelo marido – que se matou de seguida. A jovem foi explorada e fetichizada tanto em vida como depois da morte – talvez ainda mais depois da morte – inspirando filmes, livros e canções. Não digo que todos esses trabalhos tenham sido explorações da tragédia dela… mas alguns terão sido. O canal de YouTube The Take tem um vídeo muito interessante sobre esta fetichização de vítimas de crimes.

 

The Best Was Yet to Come foi também uma exploração? Talvez. No entanto, a letra não refere o assassinato, nem sequer refere o marido. O carácter vago da letra joga a seu favor – duvido que o ouvinte casual saiba de que fala a música. The Best Was Yet to Come foca-se sobretudo na vida que se perdeu, nos sonhos que ficaram por realizar. 

 

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É daí que vem o título, aliás. O melhor ainda estava para vir.

 

Não se percebe muito bem a quem é dirigida a letra de The Best Was Yet to Come. Existem partes que parecem referir-se a Dorothy – "You had it there and it slipped away, oh you left the song unsung" – e outras que parecem dirigir-se aos seus entes queridos, a eventuais sentimentos de culpa que poderão nutrir – "You can cry yourself to sleep at night, you can't change the things you've done". Falta alguma consistência nesse aspecto. 

 

De qualquer forma, a frase mais dolorosa é mesmo a última: "What 's so good about goodbye when the best was yet to come?“. 

 

Consta que, anos depois da edição de Cuts Like a Knife, Peter Bogdanovic cruzou-se com Bryan e com Vallance e agradeceu-lhes por The Best Was Yet to Come. Segundo ele, a música foi um grande consolo para a família de Dorothy. The Best Was Yet to Come pode ter sido mais um trabalho explorando uma coisa horrível que aconteceu a uma jovem mulher, mas fê-lo com respeito e consideração. 

 

É uma música linda, mas mesmo muito triste. Recomendo-a a quem não a conheça, mas não é para pedir num concerto. 

 

A próxima música é mais alegre, prometo. 

 

 

  • I Will Always Return

 

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Já me fartei de escrever sobre a banda sonora do filme Spirit Stallion of the Cimarron neste blogue, sobretudo nos seus primeiros anos. É um dos meus álbuns preferidos de todos os tempos, o disco que me apresentou a Bryan Adams, cheio de pérolas escondidas – incluindo a minha canção preferida

 

É possível que tenha um viés por ter conhecido este álbum num período particularmente formativo, como expliquei no texto sobre Here I Am. Por outro lado… outro dos responsáveis pela banda sonora é Hans Zimmer! Não é por acaso que o homem é considerado uma lenda no que toca a bandas sonoras. 

 

Em Spirit em particular, o protagonista não fala fisicamente – e a narração de Matt Damon é escassa. A música conta uma grande parte da história.

 

Custa a acreditar que este álbum e este filme vão fazer vinte anos.

 

I Will Always Return era uma das poucas faixas neste álbum sobre as quais me faltava escrever. Isto é, tirando as faixas exclusivamente instrumentais. Depois desta, sobram You Can’t Take Me, Get Off My Back e Brothers Under the Sun. Não está nos meus planos escrever sobre elas… mas não vou dizer “nunca”.

 

 

I Will Always Return é a música principal da banda sonora de Spirit. Representa o… bem, o espírito do filme, a principal motivação do protagonista: regressar a casa.

 

No álbum, a primeira versão da música que aparece é um tema soft rock, guiado pela guitarra acústica. Não muito diferente do estilo habitual de Bryan – encaixaria bem em On A Day Like Today. Inclui inclusivamente Robert “Mutt” Lange nos créditos de composição – um colaborador regular de Bryan na altura. A mensagem da letra é essencialmente a mesma das versões da banda sonora, mas com um maior foco no romance.

 

Imagino que esta versão tenha sido gravada para, eventualmente, ser lançada como single nas rádios. Mais uma canção de amor de Bryan Adams. No entanto, Here I Am acabou por ser o single principal do álbum.

 

Não que me queixe.

 

Eu gosto desta versão. Tive um período (quando tinha dezasseis ou dezassete anos, penso eu) em que andava obcecada com ela. No entanto, hoje acho que as versões da banda sonora são melhores. O próprio Bryan parece concordar, como veremos já de seguida.

 

A versão seguinte de I Will Always Return no álbum chama-se oficialmente This Is Where I Belong. No filme esta soa ainda no início, logo depois de Here I Am. Existe algo no seu instrumental que me faz pensar em cavalos a galope. Em comparação com outras versões, esta tem um carácter sereno e reconfortante, o que condiz com a letra. This Is Where I Belong diz-nos tudo o que precisamos de saber sobre o protagonista, Spirit: ele adora a terra onde nasceu e cresceu.

 

 

Naturalmente, logo a seguir, Spirit é arrancado dela. 

 

Saltando algumas faixas no álbum, damos com Homeland. É a música de abertura do filme, sobre a qual ouvimos o primeiro monólogo de Matt Damon. No fundo é o instrumental da versão final de I Will Always Return, centrada na mesma melodia, ainda que com algumas diferenças. Eu pelo menos sempre a usei para fazer karaoke, ainda que tenha de cantar a primeira estância duas vezes.

 

Eu pura e simplesmente adoro esta instrumentação, estas melodias, aquele piano. Talvez seja o meu viés a falar, mas para mim isto é perfeição musical. Don’t @ me.

 

Gostaria de destacar a sequência final, aquele momento mais eufórico – coincidente com a primeira vez que surgem cavalos no ecrã. É muito semelhante à peça instrumental que soa muito mais à frente, no clímax do filme: o momento em que Spirit salta sobre o precipício para fugir aos soldados. Um momento de exultação, de júbilo. O equivalente musical, mesmo cinemático, ao golo do Éder (salta daí, caralho!). 

 

A versão final de I Will Always Return é igualmente exultante, triunfal – pois soa quando Spirit regressa finalmente a casa. Pode ser semelhante a This Is Where I Belong em termos melódicos, mas o carácter é completamente diferente. TIWIB é serena, IWAR é música de vitória. A interpretação de Bryan começa suave, mas vai ganhando intensidade. Destaque para os agudos, sobretudo na última estância

 

 

Eu não consigo resistir a esta música, sobretudo à parte final. Emociono-me de todas as vezes. É a melhor versão de I Will Always Return e encontra-se facilmente no meu top 10 de músicas de Bryan.

 

Deverá ser por isso que Bryan optou por recriar essa versão – em vez da versão soft rock de que falámos antes – quando tocou I Will Always Return ao vivo nalguns concertos em 2019. Lançou mesmo o áudio dessas apresentações nas plataformas digitais.

 

Esta é aquilo a que gosto de chamar uma versão Bare Bones: apenas piano e guitarra acústica. Guitarra é como quem diz… só a refiro porque Bryan aparece em palco com uma. Na prática mal se ouve.

 

O que em nada diminui a beleza da música. É uma versão reduzida aos melhores instrumentos da versão da banda sonora: o piano e a voz. Continuo a preferir a instrumentação completa, mas I Will Always Return é daquelas músicas que soam bem de qualquer forma.

 

Bryan publicou também uma versão da música em francês: Je Reviendrai Vers Toi. Na preparação deste texto descobri que Bryan também canta na dobragem francesa de Spirit. Já fui dar uma audição e descobri que gosto imenso de Me voilà, a versão francesa de Here I Am – o que é irónico, sendo esta uma canção que associo à Seleção Portuguesa

 

Pois bem, já pedi I Will Always Return para o concerto de domingo, bem como Here I Am. Deixei um comentário numa publicação do Instagram quase duas semanas antes do concerto. Talvez tenha sido demasiado cedo, mas ele falava já nos concertos cá em Portugal e em Espanha… 

 

 

Não será o fim do mundo se Bryan não a tocar, claro que não, mas seria especial se ele o fizesse. Em parte para pagar uma dívida ao meu eu de treze anos, que esperava mais músicas da banda sonora de Spirit no concerto de 2003. 

 

Mas também porque é a música perfeita para celebrar o regresso de Bryan a Portugal e aos palcos depois da pandemia. Nós os fãs somos a casa dele –  e os fãs portugueses são um bocadinho mais do que os outros. Foi duro estarmos separados, tanto para nós como para ele, mas agora estaremos juntos de novo, depois destes dois anos tão difíceis. Como reza I Will Always Return:

 

And now I know it’s true

My every road leads to you

And in the hour of darkness

Your light gets me through!”



E é com esta nota que nos despedimos por hoje. À hora desta publicação ainda não tenho cem por cento de certeza de que os concertos deste fim de semana não serão cancelados. Cá em Portugal não estamos com restrições muito duras. No entanto, bandas como os Måneskin e Bring Me the Horizon cancelaram as suas digressões europeias porque a Europa está demasiado heterogénea em termos de medidas de controlo da pandemia. E eu fiquei com medo.

 

Por outro lado, Bryan tem estado em Madrid na última semana, semana e meia a preparar estes concertos. A digressão vai começar aqui na Península Ibérica, onde as restrições estão mais leves. Mesmo que tenham de cancelar concertos posteriores… bem, eles já estão aqui ao lado. E acho pouco provável que, daqui até ao fim de semana, eles decidam apertar as restrições cá em Portugal. 

 

Em princípio irá mesmo para a frente. Teremos de usar máscara, o que vai chatear um bocadinho, mas paciência. Eu faria sacrifícios bem piores só para poder voltar a concertos como este. 

 

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Se tiverem bilhetes para Lisboa ou para Gondomar, espero que se divirtam muito – com segurança. Vai valer a pena. Obrigada pela vossa visita.

Música 2021 #6: Quando ela eleva a voz...

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Chegámos ao último texto desta série. Hoje falamos de outra artista que vem em seguimento do ano passado – e também do ano anterior, na verdade. É a primeira vez que dedico um texto inteiro a Billie Eilish. O próximo passo será analisar uma música a fundo ou mesmo um álbum. Mas acho que ainda não estou nessa fase.

 

Muitos consideram Happier than Ever um dos melhores álbuns de 2021. Eu concordo. Aliás, este é um daqueles casos em que outros já fizeram todos os elogios que Billie merece. Vou apenas deixar algumas impressões pessoais e falar sobre as minhas músicas preferidas.

 

Já o tinha referido de passagem na minha análise a Solar Power de Lorde, mas ela e Billie entram em territórios semelhantes nos álbuns que lançaram este verão. Envelhecimento e mortalidade e, sobretudo, o peso da fama em geral. Ao contrário de Lorde, Billie consegue abordar este tema com mais tacto, mais noção que a cantora neozelandesa. Mesmo quando se queixa de stalkers, não perde de vista temas mais universais como juízos de valor sobre aparência, romance, desejo e relações falhadas. 

 

Uma das minhas preferidas é Billie Bossa Nova. Como diz o título, é uma homenagem ao género musical natural do Brasil. É muito gira. A instrumentação e o estilo vocal de Billie combinam bem com a letra sexy.

 

Halley’s Comet foi das primeiras a cativar-me. É habitual comigo, vou sempre para a canção de amor. É uma música lenta, guiada pelo órgão, acompanhada por notas de guitarra e percussão leve. intimista, com um carácter vagamente jazz.

 

Aquilo que The Man with the Axe de Lorde devia ter sido.

 

 

NDA é fixe, com aquela batida, as notas de teclado, os vocais distorcidos no refrão, a maneira como transita para Therefore I Am. Outra das minhas preferidas é OverHeated. Adoro a instrumentação – uma expansão de Not My Responsability, tanto em termos de som como de letra. Estas duas músicas mostram o lado mais “badass” de Billie.

 

Se querem conhecer o lado mais vulnerável, oiçam Male Fantasy. Esta foi outra das primeiras a cativar-me, quase sem eu ter dado por isso. É a mais triste do álbum, quase só guitarra e voz.

 

A letra é algo confusa. Cheguei a pensar que tinha sido escrita da perspectiva de um homem. Oficialmente não é, mas funcionaria bem se o fosse. O facto de ser a última do álbum é um bocadinho triste – depois de várias músicas lançando veneno ao antigo namorado, Happier than Ever encerra com Billie admitindo que não consegue odiá-lo, nem seguir em frente. 

 

Falta só falar sobre a favorita de toda a gente: o tema-título. Happier than Ever começa simples, acústica, não muito diferente de Male Fantasy ou Your Power. Mas não se mantém assim. 

 

Não sei se fui a única a passar por isso, mas eu precisei de tempo para me habituar ao estilo vocal de Billie. Queixava a quem me quisesse ouvir (ou seja, à minha irmã) que ela canta demasiado baixinho, que eu tinha de aumentar o volume para entendê-la. 

 

Mas acabei por me habituar e hoje até gosto. Em todo o caso, nos primeiros dias após a edição deste álbum, a minha irmã disse-me para ouvir esta música, pois Billie “não cantava baixinho”. E de facto não canta, tirando na primeira parte. Billie eleva a voz pela primeira vez e quando o faz… parte a louça toda, como disseram na Blitz. 

 

 

É de facto uma gloriosa explosão de guitarras, bateria e gritos. A própria Billie confessou que foi catártico poder deitar tudo aquilo cá para fora. Calculo. E finalmente vemos as influências de Avril Lavigne na música de Billie – isto é uma energia muito à Losing Grip, muito à Under My Skin. Billie tem de fazer um álbum inteiro de rock!

 

E chegámos ao fim da minha retrospetiva musical. Só fica a faltar escrever sobre Avril Lavigne e Bryan Adams, mas escrevi sobre ambos há pouco tempo, serve como retrospetiva – e como especulação para 2022. 

 

Demorou um bocadinho, mas acabei por gostar deste modelo de uma publicação por artista. Deixo aqui o meu Spotify Wrapped, a mini-análise que lhe fiz e a habitual playlist com as músicas abordadas nesta retrospetiva.

 

Houveram períodos este ano em que deixei este blogue um pouco ao abandono. Nalguns casos foi por estar ocupada com o meu outro blogue, mas noutros foi por estar a trabalhar… noutro projeto. Não vou dizer o que é – ainda estou muito no início, ainda devo demorar. Mas é possível que torne a fazer pequenas pausas aqui no blogue para escrever para esse projeto. 

 

E por falar em projetos… ainda não concluí a minha segunda maratona de Digimon Frontier. Ando a arrastá-la desde o verão. Será em parte por culpa minha. Por outro lado… quando foi com Tamers, a minha segunda maratona durou apenas um mês, se tanto. Tirem as vossas próprias conclusões.

 

Ainda assim, talvez isto seja Deus escrevendo direito por linhas tortas. Em abril deste ano teremos o vigésimo aniversário da estreia de Fronteira. O melhor que tenho a fazer, se calhar, é publicar a análise na mesma altura e aproveitar o interesse aumentado. 

 

 

Em todo o caso, vou tentar não adiar muito mais. Até porque terei de gerir com três álbuns dos meus artistas preferidos prestes a sair do forno. 

 

2021 não foi um ano fácil para mim. Nalguns aspetos foi pior que 2020. 2020 foi pior a nível coletivo, 2021 foi pior a nível pessoal. Não vou partilhar todos os motivos, apenas alguns. Só consegui tirar férias em outubro. A Seleção, um grande fator para a minha felicidade, teve um ano péssimo, como expliquei aqui

 

Além disso, descobri numas análises da medicina do trabalho que tenho colesterol elevado. Não muito, apenas 200, está ali mesmo no limite. Mas também tenho alterações nas enzimas hepáticas, o que poderá significar fígado gordo. 

 

E eu que achava que não comia muito mal! Não sou muito de comer fast-food e até gosto de fruta e vegetais – sopa, salada, etc. Talvez haja uma componente genética. Dito isto, a minha fraqueza são os hidratos de carbono: pão, massas, arroz, bolachas. E o chocolate ocasional.

 

Como não quero começar a tomar estatinas aos quase trinta e dois anos, tive de fazer mudanças na minha dieta e estilo de vida. Passei a ir mais vezes à natação – pelo menos duas vezes por semana – e comecei a cortar nos hidratos. Trocando os pães com manteiga e bolachas por fruta, comendo mais devagar para ficar saciada mais depressa, sobretudo ao jantar.

 

Não que consiga ser muito rigorosa. Dezembro, então, com as festas, foi uma desgraça. Mas continua a ser melhor que antes.

 

 

Talvez isto seja uma coisa boa a longo prazo, mas para já conto como uma coisa má. É stressante estar sempre atenta ao que posso ou não posso comer. Em restaurantes, então, é raro existirem pratos saudáveis – de que eu goste, pelo menos. 

 

Entretanto, descobri gente com a minha idade, e até mais nova, também com colesterol. Alguns com níveis mais altos do que eu até! Como o Doctor Mike, do vídeo acima – nunca pensei. 

 

Fica aqui o conselho: vigiem o vosso colesterol, mesmo que se achem demasiado novos para isso. É mais fácil lidar com isso aos vinte, trinta anos do que mais tarde. 

 

Espero, então, que 2022 seja melhor. Que seja o ano em que o Covid se transforme numa mera gripezinha e que possamos voltar à normalidade. Obrigada por terem estado comigo mais um ano. Até à próxima!

Música 2021 #5: A definição de divisivo

 

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No início de 2021, o terceiro álbum de Lorde era uma das minhas maiores expectativas para esse ano. Agora que estamos em inícios de 2022, Solar Power é uma das minhas desilusões. Não que estivesse à espera de um álbum da mesma qualidade estratosférica de Pure Heroine e Melodrama, mas estava à espera de algo um pouco melhor. 

 

Eu explico melhor aqui.

 

Não tenho muito a acrescentar à minha análise a Solar Power. No entanto, desde que publiquei esse texto, Lorde lançou dois videoclipes para músicas deste álbum: Fallen Fruit e Leader of a New Regime. 

 

O vídeo de Fallen Fruit está muito bem feito em termos de cinematografia. A maneira perfeita como alterna entre o “antes” e o “depois”, o paraíso e o inferno. E a mensagem não podia ser mais clara.

 

Isto é, tirando o momento final em que Lorde decide deixar aquilo tudo para trás. No entanto, no vídeo seguinte, para Leader Of A New Regime, Lorde aparece de novo num lugar paradisíaco. Em termos de meta, sabemos que é a mesma praia em que os vídeos de Solar Power e Fallen Fruit foram filmados (isto é, acho eu).

 

 

Dentro do universo, não sei se é suposto assumirmos que é um lugar diferente – a tal ilha para onde a narradora de Leader of a New Regime fugiu aquando da queda da civilização. E o que é que impede de acontecer o mesmo que aconteceu em Solar Power? 

 

No seu último e-mail, Lorde referiu que este vídeo representa o meio da história. Talvez a coisa fique mais clara nos vídeos seguintes.

 

Não se sabe ainda quais serão, no entanto. The Path parece ser a candidata mais óbvia. Depois Dominoes? Oceanic Feeling? Quem sabe…

 

Pelo meio, Lorde partirá em digressão este ano. Ela tem dado a entender que não irá demorar tanto tempo com o próximo álbum. Talvez comece a trabalhar nele pouco depois do fim da digressão. 

 

Por um lado aplaudo. Por outro, só cria mais buracos na história do “ai e tal, estou farta de ser famosa”. Um dos vários problemas que tenho com Solar Power.

 

 

Não fui a única pessoa a não ficar satisfeita com este álbum, mas existem muitas pessoas que gostaram. Chegou a ocorrer um caso caricato: um site em que Solar Power surgiu tanto numa lista de “melhor do ano” como numa lista de “pior do ano” – escolhas de pessoas diferentes, claro. 

 

A definição de um álbum divisivo. 

 

Alguns membros da equipa “Solar Power Yay” acusam os membros da equipa “Solar Power Nay” de sermos puristas, de querermos um segundo Melodrama. É possível que hajam casos desses, mas não é o meu. 

 

Vocês sabem que, por norma, não critico mudanças só por serem mudanças. Eu até gosto de pelo menos algumas das ideias de Solar Power. O meu problema é a execução, conforme expliquei na análise. Esperávamos um álbum leve, solarengo, mas Solar Power em demasiados momentos soa demasiado aborrecido e incompleto. Além de que se foca demasiado em problemas de primeiro mundo.

 

No entanto, no fim do dia, são apenas opiniões. Não me choca que haja quem goste. Melhor para eles.

 

E a verdade é que tenho de destacar uma música: o tema-título, lançado no início do verão, mesmo não sendo a melhor do álbum ou mesmo a minha preferida. Estávamos todos à espera de um primeiro single com mais substância, não apenas de uma mera música de verão. Porém, era aquilo de que precisava na altura, depois de meses de confinamento, stress e música triste. “Forget all of the tears that you’ve cried, it’s over”.

 

 

O meu verão mais tarde não seria grande coisa, mas Solar Power foi um bom consolo, ajudou-me a aproveitar aquilo que pude do estio. 

 

Isso compensa tudo o resto.

 

Muito bem, ficamos por aqui. Só fica a faltar um texto. A ver se o publico até ao fim da semana. 

Música 2021 #4: Salvando o rock em italiano

Primeira entrada de 2022! Bom Ano, pessoal! A retrospetiva musical de 2021 ainda vai a meio, agradeço a vossa paciência.

 

Nunca liguei muito ao Festival da Canção da Eurovisão. Liguei quando foi do Salvador, claro. Depois disso, assisti ao Festival de 2018, organizado por nós, mas fiquei desapontada com o nosso fraco desempenho. O do ano seguinte foi aquele com a música do telemóvel, não foi? Não, não vou ver ao Google, não lhes vou dar essa satisfação. Em todo o caso, fez com que me desligasse de novo do Festival.

 

Até este ano. A minha irmã convenceu-me a ver a final com ela. Até foi divertido. Gostei da nossa música: Love is On My Side, dos Black Mamba. Na minha opinião, em termos de música para Festivais, é a nossa melhor desde Amar Pelos Dois. 

 

 

Compreendo que alguns de nós tenham ficado desapontados por concorrermos com uma música em inglês. Se houve algo que aprendemos com Amar Pelos Dois é que a língua não impede a música de tocar as pessoas. Não faz sentido cantar em inglês só mesmo para ter projeção internacional.

 

Dito isto, não digo que esse tenha sido o único motivo para os Black Mamba cantarem em inglês. Apesar de tudo, a maior parte da música que ouvimos é cantada nesta língua. Não me choca que, para alguns de nós, na hora de compôr, saia inglês em vez de português. 

 

Em todo o caso, como dizia eu, Love Is On My Side é uma boa música. Talvez pouco original, sem se afastar muito do típico jazz e blues, mas não deixa de ser linda. Conseguiu um respeitável décimo-segundo lugar na classificação final – na minha opinião, merecia mais. 

 

Mas, não querendo desvalorizá-la, o assunto principal deste texto é outro. Estou aqui sobretudo para falar dos vencedores da edição deste ano: os italianos Måneskin, com a música Zitti e Buoni.

 

Foi a primeira vez desde 2006 que uma música rock ganha o Festival da Canção. Por sinal, também gosto muito de Hard Rock Hallelujah. Durante muito tempo foi a única música da Eurovisão que ouvia com regularidade. E têm outra coisa em comum com os Måneskin: uma mulher na banda. Não é muito comum no mundo do rock, tirando na posição de vocalista (e mesmo assim).

 

Mas voltando aos italianos. Os Måneskin formaram-se em 2015, qando os membros eram adolescentes. Eles continuam a ser muito novinhos. O vocalista, Damiano David, é o mais velho, faz vinte e três anos agora em janeiro. O mais novo, o guitarrista Thomas Raggi, vai fazer vinte e um, também daqui a pouco tempo. 

 

 

Tecnicamente já são adultos, mas para mim gente mais nova que a minha irmã (que tem vinte e cinco) é criança. Acontece o mesmo com a Billie Eilish, aliás. Eu podia ter andado com eles ao colo ou às cavalitas! E, habituada como estou a ter gente mais velha ou, vá lá, da minha idade entre os meus artistas preferidos, admirar miúdos mais novos é… esquisito.

 

Por outro lado, isto até será um raciocínio falacioso. Com o estilo de vida de estrelas de rock – as viagens, o assédio dos fãs e da comunicação social, entre outros aspetos – eles deverão ter experiência de vida equivalente à minha. 

 

Os Måneskin lançaram-se no mainstream em 2017, quando participaram no X Factor italiano. Ficaram em segundo lugar. Na verdade, a versão de Beggin’, que teve grande rotação agora em 2021, é desses tempos – mais sobre ela já a seguir. Na mesma altura lançaram o single Chosen, que teve sucesso um pouco por toda a Europa – permitindo-lhes fazer uma digressão pelo continente em 2019.

 

Não se pode dizer, assim, que o mundo os descobriu no Festival da Canção. Mas foi assim que eu os descobri e os adotei. Em parte por influência da minha irmã, que tem estado a estudar italiano. É uma língua lindíssima, todos concordam, sobretudo em música – mas eu estava mais habituada a Eros Ramazzotti. Ouvir rock em italiano é diferente… e eu gosto! É uma língua com raízes latinas, tal como o português, mesmo sem aprender dá para perceber algumas coisas.

 

Também gosto da estética deles. Estrelas de rock andróginas estão longe de ser uma novidade: veja-se Elvis Presley, Mick Jagger, David Bowie, Prince, Freddy Mercury. No entanto, o estilo voltou a estar na moda nos últimos anos. Por estes dias, aceitamos, celebramos mesmo expressões de género e sexualidade fora do estreitamente cis e hetero. Olhemos para Timothée Chalamet e Harry Styles, por exemplo. 

 

 

No fundo, os Måneskin adotaram uma versão mais hardcore, mais rock ‘n’ roll, desse estilo. 

 

À primeira vista, o género musical dos italianos é glam rock, à anos 70 e 80. No entanto, algumas das suas influências são mais fora da caixa em termos de rock. Um pouco de hard rock, um pouco de funk – há momentos em que eles me recordam os Red Hot Chili Peppers. A própria voz de Damiano David tem sido descrita como típica de reggae – e, tal como a língua italiana, funciona surpreendentemente bem com rock. 

 

Aliás, uma das músicas mais populares deles é uma versão rock ‘n’ roll de uma música soul dos anos 60. Eu pensava que a Beggin’ original era a dos Madcon. Fico feliz por não ser pois não gosto da versão deles – a interpretação do vocalista é irritante. O original dos The Four Seasons é muito melhor – e a versão dos Måneskin está ao mesmo nível.

 

Curiosamente, Zitti e Buoni é das mais pesadas que ouvi deles. Dou-lhes crédito por terem resistido à tentação de levar uma música mais leve, cantada em inglês, ao Festival da Canção. É um grito de rebeldia e uma das minhas preferidas deles. 

 

Incluo aqui a atuação no final do Festival, na condição de vencedores. Gosto demasiado de vê-los felizes, de lágrimas nos olhos, beijando-se e abraçando-se uns aos outros durante a atuação, Damiano agradecendo a vitória pelo meio. 

 

 

Nas semanas que se seguiram ao Festival, já se falava de I Wanna Be Your Slave nas redes sociais. Gosto tanto como toda a gente, ainda que ache o instrumental um pouco básico demais – a melodia cantada é a mesma do baixo e da guitarra. O mesmo acontece em certos momentos do single mais recente deles, Mamma Mia – uma música de que não gosto tanto.

 

Gosto de Vengo dalla Luna, no entanto – ainda que se pareça um pouco demais com a versão deles de Let’s Get It Started. Por outro lado, estou surpreendida por pouca gente falar de Torna a Casa, uma das minhas preferidas. Uma power ballad também habitual no rock dos anos 70 e 80, talvez demasiado clássica, pouco original, mas eu sempre gostei deste tipo de música. 

 

Ainda estou em exploração, na verdade. Na preparação deste texto, descobri mais umas músicas de que gosto deles: a já referida Chosen, Morirò da Re e Niente da dire. Esta última é algo diferente para eles, com percussão eletrónica e guitarra acústica. Hei de continuar a explorar a música deles, a acompanhá-los. Espero que venham a Portugal em breve. 

 

Em suma, estes miúdos ainda têm algumas arestas por limar. Um dos problemas, na minha opinião, são os instrumentos a menos – apenas guitarra, baixo, bateria e voz – e algumas músicas sofrem por isso. Por outro lado… são miúdos, são amigos de adolescência, se não forem de infância. Será que quero que tragam gente de fora, que possa vir a estragar-lhes as dinâmicas?

 

Em todo o caso, os Måneskin têm imenso potencial e parecem genuínos. Confio muito mais neles para “salvarem o rock” do que a trupe do Travis Barker (mesmo Avril; por muito que a adore, duvido que recupere a relevância de outros tempos). Já estão a fazê-lo. Chegaram a falar de miúdos de dez anos que dizem que querem aprender a tocar bateria por causa deles. 

 

 

Realmente, o rock ‘n’ roll nunca morre. 

 

E por hoje é tudo. Já só faltam mais dois textos para esta série – sobre duas meninas. Fiquem por aí.

Música 2021 #3: Comendo da mão

 

O texto de hoje será mais curtinho que os anteriores – e os próximos, provavelmente. Quase todas as minhas retrospectivas anuais têm incluído uma música isolada, que entra na minha lista por um motivo muito específico.

 

Este ano, essa música é a versão de Post Malone de Only Wanna Be With You, dos Hootie and the Blowfish. E o motivo não será difícil de adivinhar para quem der uma rápida vista de olhos a este blogue. 

 

Em fevereiro comemorámos o vigésimo-quinto aniversário de Pokémon enquanto franquia. Escrevi sobre isso aqui. A propósito dessas comemorações, The Pokémon Company lançou uma compilação com temas de vários músicos. 

 

Acho que ninguém percebeu muito bem a lógica da decisão – e não aderiram muito. Mesmo eu só me dei ao trabalho de ouvir esta e Electric, de Katy Perry (que não sendo má, não é nada por aí além). 

 

Only Wanna Be With You foi a primeira do projeto a ser lançada. Ainda assim, não me afeiçoei logo à música – demorou um bocadinho. A versão de Post Malone é relativamente fiel ao original, mas inclui um excerto do tema de Ecruteak, dos jogos da segunda geração de Pokémon. Ecruteak é uma das minhas cidades preferidas e um dos meus temas preferidos de toda a banda sonora dos jogos. 

 

Agora, imaginem estarem a trabalhar, com o rádio ligado, e de repente ouvirem estas notas em 8bit. Notas que estão habituados a ouvir em circunstâncias muito diferentes. No meu caso, era sobretudo quando andava à caça do trio de Johto – sempre que precisava que estes mudassem de localização, voava sempre para Ecruteak. Era estranho, mas sabia-me bem. 

 

 

E isto é o suficiente para me afeiçoar à canção. Aquelas notinhas em 8bit. É o que eu digo, esta franquia consegue pôr-me a comer da mão deles com coisas tão simples como esta.

 

Não que esse seja o único ponto forte de Only Wanna Be With You, pelo contrário. É uma música gira, tanto o original (o vocalista Darius Rucker tem uma voz bonita) como esta versão. Noutras circunstâncias, se a ouvisse na rádio, não mudaria de estação. Talvez até usasse o Shazam, para mais tarde adicioná-la ao meu Spotify.

 

Por outro lado, por muito gira que seja a música… esta não tem muito a ver com Pokémon. Only Wanna Be With You é uma canção de amor, sobre um romance que não parece ser muito harmonioso. Lá está, noutras circunstâncias não faria mal, mas para uma música associada a Pokémon não faz muito sentido.

 

Na minha opinião, a menos que quisessem criar música que servisse como temas de abertura ou encerramento do anime, se quisessem que as canções funcionassem fora do contexto de Pokémon, as letras teriam de ser mais vagas. Canções de amor suficientemente genéricas para se poderem aplicar a relações platónicas – como Carry On, do filme Detetive Pikachu – ou músicas com típicas mensagens inspiradoras, sobre tornar sonhos realidade ou assim – como Electric, de Katy Perry.

 

Mas pronto. Gosto de Only Wanna Be With You à mesma. Foi uma das músicas que mais toquei este ano à mesma. 

 

Para já é tudo. No próximo episódio, vou escrever sobre uma banda que nunca referi aqui no blogue – ou na página sequer. Uma pista: eles cantam em mais do que uma língua.

 

Caso não volte a publicar antes do Ano Novo, boas entradas em 2022!

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