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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Músicas Não Tão Ao Calhas – Head Above Water

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Avril Lavigne lançou, no passado 19 de setembro, Head Above Water, uma música que serve de primeiro avanço ao seu sexto álbum de estúdio (ainda sem nome e sem data de lançamento).

 

Quem siga este blogue há pouco tempo, se calhar, não saberá que Avril é a minha cantora preferida de todos os tempos. Como ela tem estado afastada dos holofotes durante os últimos quatro anos, tirando uma ou outra ocasião, não tenho tido muitas oportunidades para escrever sobre ela.

 

O seu último álbum de estúdio, homónimo, saiu há quase quatro anos. Depois desse, Avril lançou um single isolado, Fly, deu a voz à Branca de Neve do Príncipe Bué Encantado (embora não se perceba o que está a acontecer a esse filme) e emprestou a voz a canções de outros artistas. Desses, escrevi sobre Get Over Me e Listen, mas não sobre Wings Clipped. Não gostei desta última e, como saiu na véspera do quinto filme de Tri, não quis perder tempo com ela.

 

Foi uma longa espera, mais do que com os álbuns anteriores, mas, falando por mim, não me custou tanto como antes – em parte porque andei entretida com outras coisas, outras músicas. Em parte porque, desta feita, havia um motivo excelente (mais sobre isso adiante). Fui gerindo a página do Avril Portugal, que é a última ligação que tenho ao Fórum com o mesmo nome, mas existiram várias ocasiões em que mal pensava nela.

 

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No entanto, tudo isso mudou nas últimas semanas, assim que saíram os primeiros sinais de que Avril ia lançar música nova – e não era mais uma falsa partida, era mesmo a sério, com fotografias promocionais, com filmagens de videoclipe. Tenho-me sentido como se tivesse dezanove anos outra vez – altura em que quase só ouvia, pensava e respirava Avril Lavigne. As saudades que eu tive destas coisas.

 

Avril é como se fosse a minha casa no mundo da música, a minha mãe musical. Foi uma das primeiras artistas cuja música me apaixonou. Foi ela quem me trouxe ao mundo da música, com quem aprendi a ser fã, que ajudou a formar o meu carácter (musical e não só).

 

Estive muito tempo agarrada às saias dela, quando era mais nova, pouco ouvindo de outros artistas (tirando Bryan Adams, que por esta lógica pode ser considerado o meu pai musical). Com o tempo, fui saindo de debaixo da asa dela, descobrindo outra música – música, em muitos casos, falando de modo cem por cento racional, melhor que a da Avril – mas nunca deixo de voltar para ela. Tal como uma mãe, ela sabe sempre aquilo de que gosto e nunca haverá ninguém que tome o lugar dela.

 

Isto sou eu, claro, mas estou longe de ser a única. Uma coisa de que me apercebi nos últimos anos, de resto, é que a pegada que Avril deixou no mundo da música não desapareceu – mesmo que, na última década, ela tenha deixado de ter o sucesso comercial de outros tempos. As pessoas respeitam-na, sobretudo pelos seus primeiros dois álbuns mas não só. Reconhecem, tal como eu, o seu talento enquanto cantora e compositora, que ela é genuína de uma maneira que poucos são, no mundo da música. Avril, além disso, tem sido citada como influência por toda uma geração de artistas indie rock, como Soccer Mommy e Snail Mail.

 

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Isto é, quando não falam sobre a estúpida teoria da conspiração – que, à luz das últimas declarações dela, é de péssimo gosto.

 

Conforme já referi noutras ocasiões, os últimos anos não foram fáceis para Avril – nem para ela, nem para a maioria do meu “nicho” musical, como tenho vindo a reparar. A Avril contraiu a Doença de Lyme em 2014 – mais ou menos na mesma altura em que o seu primeiro marido, Deryck Whibley dos Sum 41, se ia matando à custa do álcool. Os Paramore estiveram à beira da implosão, depois da saída do baixista Jeremy Davies, o que quase deu cabo da vocalista Hayley Williams. Mesmo os Within Temptation terão passado por uma mini-crise, por desgaste, bloqueio criativo e problemas pessoais. Por fim, e sem dúvida o pior de tudo… o Chester morreu.

 

Não tem sido fácil para ninguém. Mesmo comigo tem sido com altos e baixos.

 

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Avril já tinha falado sobre a sua experiência com o Lyme noutras ocasiões mas, tanto quanto me lembro, não tinha ido tão longe como na carta de apresentação de Head Above Water. Avril escreveu que passou uma boa parte dos últimos anos, sobretudo os dois primeiros, presa à cama; que houve uma altura em que estava nos braços da sua mãe, sentindo o corpo a desligar-se e aceitando que ia morrer.

 

Vão ter de me perdoar a linguagem mas ler isto, do punho da minha mãe musical, pouco mais de um ano depois de perder o Chester, foi fodido.

 

Terá sido nessas circunstâncias que Avril rogou a Deus que não a deixasse morrer, que “mantivesse a sua cabeça à tona da água”. Daí Head Above Water – essa prece feita música e a primeira faixa gravada para este álbum.

 

  

And my voice becomes the driving force”

 

Musicalmente, Head Above Water é uma balada – é a primeira vez que Avril usa uma balada como primeiro single de um álbum novo. É um bocadinho estranho que tenha demorado tanto tempo, quando algumas das suas canções mais populares são neste estilo – como I’m With You e Keep Holding On. Começa com piano, num ritmo um bocadinho mais acelerado que o habitual, ao qual se juntam mais instrumentos – destacando-se uma guitarra elétrica discreta, um violoncelo e aquela percussão típica de baladas.

 

Em termos de vocal, Avril entra com tudo desde o início, a voz clara e forte do princípio ao fim. Na biografia atualizada do seu site oficial, Avril refere que, após ter passado dois anos praticamente sem cantar, não sabia em que estado estaria a sua voz. Quando gravou Head Above Water, no entanto, a sua voz soou “mais forte do que nunca”. Eu tenho de concordar.

 

Destacaria, aliás, o verso que citei acima, tanto pelo seu significado como pela maneira como Avril o canta – eu fiquei de queixo caído da primeira vez que o ouvi. Yep, se há voz capaz de servir de força motriz, é esta.

 

Falemos, então, da letra. Com referi acima, Head Above Water é uma oração, um pedido de socorro a Deus, Avril rogando-Lhe que não a deixe morrer. Não que ela chegue a usar essa palavra, recorrendo antes a eufemismos (“I’m too young to fall asleep”).

 

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Um aspeto que me agrada particularmente é a temática aquática. Conforme referi noutras ocasiões, a água é o meu elemento. Entre outras coisas, sempre adorei nadar, sobretudo no mar, sobretudo debaixo de água e já escrevi aqui no blogue sobre canções que usam metáforas aquáticas. Ao contrário de Underwater e Pool, no entanto, em Head Above Water, a água, o mar, possuem uma conotação negativa – representam a doença dela.

 

Ao mesmo tempo, foi nestes momentos de dificuldade que Avril se aproximou de Deus – como acontece com muitas pessoas em circunstâncias semelhantes. (“I’ll meet you there, at the altar, as I fall down to my knees”, “I need you now, I need you most”)

 

Infelizmente, a letra de Head Above Water acaba por cair nas mesmas armadilhas que uma boa parte da discografia da Avril: a letra é demasiado vaga e acaba por se perder um pouco em clichés. Confesso que fiquei um pouco desiludida, depois de o quinto álbum tem incluído algumas letras boas, como 17 e Give You What You Like, melhorando bastante em relação ao seu antecessor, estava à espera de um bocadinho mais.

 

Não que isso prejudique demasiado a música. A letra é suficientemente sólida para transmitir a mensagem e a emoção – e para comover outros doentes de Lyme (mais sobre isso adiante).

 

  

É isto, essencialmente. Não diria que esteja caída de quatro com Head Above Water, mas é uma boa música, uma música que poderá tocar muitas pessoas, sobretudo alguém que tenha passado por uma situação semelhante – quer seja Lyme ou outra doença grave, quer sejam dificuldades económicas ou assim. Por muito que uma pessoa até possa gostar das Girlfriends e Hello Kittys desta vida e que, por vezes, Avril não queira levar a sua música demasiado a sério, a verdade é que é desta faceta da Avril que gostamos. Da música que vem do coração e que salva vidas, mesmo com letras imperfeitas.

 

E Head Above Water até tem sido bem recebida pelo público. Tem dominado as tabelas de vendas do iTunes, chegando mesmo ao primeiro lugar nos Estados Unidos, algo que não acontecia desde Girlfriend (embora eu tenha algumas dúvidas no que toca à relevância do iTunes numa era dominada pelo streaming). Tem sido ainda melhor recebida por outros doentes de Lyme – como esta senhora. Não sei como isto afetará o sucesso comercial de Avril e do próximo álbum a longo prazo, mas é um bom começo.

 

Ainda não há nenhuma pista em relação ao álbum ou mesmo a outros singles. Há quem diga que o álbum ainda sai este ano, mas eu duvido. A ideia com que fiquei foi que Avril quer ir fazendo isto aos bocadinhos, regressando a pouco e pouco ao mundo da música, não vá a sua saúde ressentir-se. Acredito, aliás, que os adiamentos se devem a recaídas (sinto-me culpada por ter reclamado antes…). Não me admirava se saíssem vários singles antes de o álbum ser lançado por completo.

 

Mike Shinoda – Post-Traumatic (o EP e não só)

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Como é do conhecimento geral, Chester Bennigton morreu no ano passado. A sua morte deixou a sua banda, os Linkin Park, com um futuro incerto. Tirando o concerto de homenagem em finais de outubro do ano passado, cada um dos membros sobreviventes encontra-se, neste momento, a seguir o seu próprio caminho, à parte da banda. Para Mike Shinoda – segundo vocalista, multi-instrumentista e, para todos os efeitos, cérebro dos Linkin Park –  esse caminho passa por lançar música a solo

 

Em entrevistas recentes, Mike confessou que, mesmo antes de Chester morrer, já tinha a vaga ideia de, um dia, investir num projeto a solo, em música que ele pudesse criar e lançar sem passar pelo crivo de colegas de banda. Um pouco o que o próprio Chester fez com os Dead By Sunrise. A morte do melhor amigo – da pessoa com quem, nas palavras de Mike, passava mais tempo tirando a sua esposa – acabou por acelerar esses planos. Mike afirmou que, embora nem todas as músicas deste trabalho novo sejam sobre o luto por Chester, foi por aí que o projeto começou. Sendo o luto uma jornada tão pessoal, tão íntima, Post-Traumatic é um trabalho igualmente íntimo e pessoal. Para além de compôr e produzir estas músicas ele mesmo, os videoclipes vieram todos do telemóvel de Mike – o único que não veio, foi filmado com fãs.

 

Não estou surpreendida por ouvir música a solo por parte do Mike, nesta altura do campeonato. Julgo tê-lo ouvido dizer, numa entrevista de há uns anos, que ele é daquele género de compositores que precisa de estar sempre a trabalhar em algo, para o músculo não atrofiar. Em declarações mais recentes, já a propósito de Post-Traumatic, Mike referiu mesmo que, desde miúdo, sempre se voltou para a música e para o desenho nestas alturas – são a sua maneira de lidar com momentos difíceis.

 

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Eu encaro a escrita da mesma maneira: algo que faço quase todos os dias, em parte para não perder a prática (tal como expliquei aqui), mas sobretudo por necessidade. Eu preciso de ter algo para escrever, mesmo que nunca seja publicado de nenhuma forma. Também é a minha maneira de lidar com períodos mais infelizes, quer escrevendo sobre eles ou (e isto é mais frequente, confesso) como forma de consolo ou escapismo.

 

Quando o Chester morreu, no entanto, Mike teve de se obrigar a regressar ao estúdio, reaprender a compôr. Chegou a dizer que, nas primeiras semanas, compôs uma série de “músicas grunge más”, algumas propositadamente más, algumas propositadamente ridículas, até conseguir compôr algo decente. Daí Post-Traumatic.

 

Este começou por ser apenas um EP de três músicas, lançado em finais de janeiro. Na altura não escrevi sobre ele porque ainda não tinha uma opinião formada sobre ele. Mas agora que Mike lançou mais um par de faixas, confirmando que Post-Traumatic vai ser um álbum, é uma boa altura para dar o meu parecer.

 

Antes de começar, dizer apenas que, na minha opinião, estas faixas valem mais pelas letras que pela parte musical. Desse modo, não vou focar-me tanto em instrumentais como faria noutras circunstâncias.

 

  

Sem grande surpresa, um dos temas recorrentes nestas músicas é desorientação, insegurança. É o que acontece, não apenas quando se perde um melhor amigo, mas também quando o trabalho de quase duas décadas fica comprometido. A Place to Start, que abre o EP – e que deverá abrir o álbum – reflete exatamente isso. A faixa – que, segundo Mike, chegou a ser considerada para introdução ao álbum One More Light, com uma letra diferente, claro – tem um instrumental grave e melancólico, bem a condizer com a letra.

 

Em a Place to Start, Mike afirma que, essencialmente, não tem maneira de seguir com a sua vida, que sente que não tem controlo sobre ela. Diz que receia tomar decisões, pois podem acabar mal. Ao mesmo tempo, quer fazer alguma coisa. Começar por algum lado, tal como reza o título da canção.

 

Havemos de regressar a esta ideia.

 

  

Consta que Over Again é a música mais popular do EP e eu concordo com a opinião geral. Não é difícil perceber porque é que as pessoas gostam: é a mais crua, a mais específica, de todas lançadas até agora, aquela que chama os bois pelos nomes. Mike compôs a primeira estância na véspera do concerto de homenagem a Chester, no Hollywood Bowl, e a segunda no dia a seguir. Ambas as estâncias referem-se diretamente a esse concerto e a tudo o que levou a ele.

 

Na primeira parte da canção, assim, ouvimos acerca da decisão de fazer o concerto, nas primeiras semanas a seguir à morte de Chester, de como chegara o dia do concerto… e do pavor que Mike tinha de subir ao palco.

 

Mais uma vez, sem surpresas aqui. Eu mesma chorei quando anunciaram esse concerto, em inícios ou meados de setembro. E tornei a chorar na manhã que se seguiu ao concerto. Eu, que sou apenas uma fã, cujo único contacto com Chester fora agarrar-lhe a mão durante dois segundos.

 

A segunda parte aborda o pós-concerto e é muito mais intensa, rica em raiva e revolta, em que Mike parece disparar em múltiplas direções: aos críticos da banda, ao processo de luto que parece nunca mais acabar, àqueles que que não parecem compreender a dimensão do problema de Mike. O verso “Only my life’s work hanging in the fucking balance” é esclarecedor – Mike disse mesmo no Genius (mais sobre esse site aqui) que é a ideia principal de Post-Traumatic.

 

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Ao mesmo tempo, Mike confessa que não sabe o que sente em relação ao concerto em si, que quase se foi abaixo em certos momentos – isto apesar de terem existido alturas em que ele parecia animado. A certa altura, chegou a dizer que se estava a divertir, o que lhe parecia estranho.

 

É como o próprio Mike disse durante o concerto: é uma montanha-russa de emoções. Em Over Again, Mike diz que só queria que se tornasse mais fácil. A língua inglesa tem esta palavra extraordinária, closure, que não tem tradução direta para português. É um misto entre conclusão e aceitação. Essencialmente, dar um capítulo da vida de uma pessoa por encerrado e partir para outra. Algo que Mike não consegue fazer.

 

Se esta música tivesse saído um mês antes, teria dado cabo de mim.

 

O que nos leva ao refrão. O título da música Over Again refere-se ao facto de o luto nem sempre ser um processo linear. O sentimento de perda nunca desaparece de vez, está apenas dormente, despertando quando menos esperamos. E, quando acontece, abalam uma pessoa. Mike têm dado vários exemplos em que, em suma, ele até está a ter um dia bom, sai para comprar gelado, toca uma música dos Linkin Park ou é abordado por um fã e volta tudo de novo. Como reza One More Light, “the reminders pull the floor from your feet.”

 

 

Queria, por fim, chamar a atenção para os vocais do segundo e terceiro refrões e, sobretudo, perto do fim da canção: muitos, eu incluída, julgam ouvir a voz de Chester no coro. Chegou a pensar-se que talvez fossem vocais antigos do cantor, gravados para um dos álbuns de Linkin Park mas que nunca chegaram a ser usados. No entanto, Mike disse no Twitter que não, os vocais são dele mesmo – quanto muito, estaria a canalizar o Chester dentro de si.

 

Eu gosto disso. É uma parte do Chester que continua a viver em Mike – na voz dele e não só, como reza Everglow, dos Coldplay. Sempre consola um bocadinho.

 

  

Existem muitas coisas boas em Over Again, como podem ver, é a minha faixa preferida até ao momento. Por sua vez, Watching As I Fall é das menos apelativas para mim – o que não significa que seja má.

 

Tem um ritmo um pouco mais acelerado que as outras canções do EP e, tal como em Over Again, ouve-se muita raiva e revolta na letra e interpretação. Os temas são os mesmos: o luto não linear, a desorientação, o surrealismo. Destaca-se o facto de Mike estar a passar por tudo isto sob o olhar do público.

 

Estas foram, então, as músicas lançadas quando Post-Traumatic era apenas um EP. Por sua vez, Crossing A Line e Nothing Makes Sense Anymore foram lançadas há apenas duas semanas, já como parte do álbum. Além disso, nota-se que pelo menos Crossing A Line foi composta numa fase diferente das músicas do EP.

 

  

Crossing A Line – o primeiro single oficial – está a tornar-se uma das minhas preferidas de Post-Traumatic por causa da letra, um tudo nada mais esperançosa que as outras músicas. Se em a Place to Start, Mike não sabia o que fazer consigo mesmo, em Crossing a Line, ele parece ter uma ideia mais clara. As inseguranças persistem mas, desta feita, Mike tem esperança.

 

Se dúvidas existiam antes, Mike deixa bem claro no Genius que a decisão de que Crossing A Line fala é o seu álbum a solo… e sobre o medo que Mike sentia da reação dos seus colegas de banda ao projeto.

 

Eu compreendo as inseguranças de Mike, sobretudo à luz da morte de Chester – podia parecer que ele estava a desistir dos Linkin Park. Mas eu acho que o Brad, o Phoenix e os outros nunca diriam que não. Eles nunca tiveram problemas nem com Fort Minor (ao ponto de incluírem músicas como Remember the Name na setlist de vários concertos dos Linkin Park) nem com Dead by Sunrise (ao ponto de, segundo uma entrevista que vi na altura em que escrevi a análise a Out of Ashes mas que não consigo encontrar agora, terem dado ao Chester a possibilidade de lançar Out of Ashes com o nome dos Linkin Park). Porque haveriam de levar a mal este projeto do Mike?

 

De qualquer forma, Mike queria mesmo que os amigos soubessem que ele não estava a abandoná-los.

 

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A expressão “Crossing a line” – cruzando um risco, ultrapassando um limite – faz pensar em algo proibido, irreversível. Consigo pensar em várias outras possíveis interpretações para coisas “proibidas” a que a canção pode estar a referir-se. Mike está já a cruzar um limite só pelo facto de estar a seguir com a sua vida após a morte do Chester. Ao mesmo tempo, mais uma vez remetendo para A Place to Start, Mike está a deixar um lugar depressivo mas confortável para se aventurar no desconhecido.

 

Por outro lado, só o facto de este trabalho deixar a alma de Mike a nu é algo suficientemente desconfortável para equivaler a cruzar uma linha.

 

O videoclipe para Crossing a Line é mais sofisticado que os outros, mas mantém o carácter pessoal e intimista. O vídeo foi filmado no mesmo sítio onde os Linkin Park terão começado como banda. Mike avisou quarenta e cinco minutos antes no Twitter que ia para lá, pedindo aos fãs para irem lá ter se pudessem. Como se pode ver no vídeo, apareceu imensa gente.

 

Eu com inveja deles? Não! Que ideia…

 

  

Falta apenas falar sobre Nothing Makes Sense Anymore, que foi lançada juntamente com Crossing a Line. Esta, no entanto, tem mais semelhanças com as músicas do EP, lançadas em janeiro.

 

Para esta, queria começar por falar do videoclipe. Este mistura imagens dos incêndios que assolaram Los Angeles em dezembro do ano passado com imagens do telemóvel de Mike, quando este foi visitar os terrenos ardidos. Faz-me lembrar, como é evidente, os nossos próprios incêndios, no ano passado.

 

Não me surpreende que Mike tenha escolhido este cenário para o vídeo. Suponho que ele se identifique com uma vítima dos incêndios – com as devidas ressalvas, claro, porque mal por mal Mike não perdeu a sua casa. Mesmo assim, a morte de Chester foi algo que lhe destruiu a vida que conhecia e Mike encontra-se, agora, a reconstruir uma vida nova sem Chester, a encontrar o novo “normal”.

 

É sobre isso que fala a letra de Nothing Makes Sense Anymore – à mistura com os temas recorrentes de luto e incerteza.

 

Sobre a parte musical, queria dizer apenas que os efeitos na voz de Mike irritam-me um pouco, tornam o seu desempenho demasiado artificial, pouco humano. Estes efeitos também existem em Crossing a Line, eu sei, mas só no refrão, não incomodam tanto. Talvez Mike não tenha gostado do seu desempenho vocal e tenha acho que precisava de ajustes.

 

 

Em suma, conforme dei a entender antes, estas canções são mais ou menos o que se esperava da parte do Mike, tendo em conta as circunstâncias. É possível que tenhamos mais músicas assim no resto de Post-Traumatic. Pergunto-me, aliás, se Looking for an Answer fara parte da tracklist. Mike ainda não a lançou porque, segundo um tweet dele, não conseguira descobrir a melhor maneira de apresentá-la.

 

Eu gosto do Mike, quase tanto como gostava do Chester. Para além de ser um bom músico, parece ser uma boa pessoa, um bom exemplo, com sentido de humor, chegado aos fãs. Tal como Chester era. Tenho pena de, entre muitas outras coisas, não podermos voltar a vê-los juntos, mas estou grata por ainda termos Mike na nossa vida, por termos música criada por ele, mesmo que não seja Linkin Park.

 

Aqui entre nós que ninguém nos ouve, nesta fase, não me importaria muito muito se os Linkin Park nunca mais se voltassem a reunir, se a partir de agora Mike só criasse música para si mesmo. É o que sinto neste momento – não garanto que não mude de ideias no futuro. Mas, nesta fase, estou aliviada por os Linkin Park estarem em pausa, com cada membro seguindo o seu caminho, porque ainda não me sinto preparada para ver os Linkin Park continuando sem o Chester, seja de que forma for.

 

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Mais uma vez sublinho: é o que eu sinto agora. Não está escrito em pedra.

 

Já que falo disso, suponho que faça sentido fazer uma atualização da maneira como tenho lidado com a morte do Chester, nos últimos tempos. Curiosamente, tenho estado bastante melhor este ano – a pior parte ficou em 2017. Talvez tenha ajudado escrever sobre isso nesse texto. Talvez o facto de a minha própria vida andar a correr melhor este ano tenha feito com que parasse de projetar os meus próprios dramas no que aconteceu ao Chester. De qualquer forma, está menos insuportável do que antes.

 

E, mesmo assim, de vez em quando apanha-me desprevenida – como Mike descreveu nestas canções, mas muito mais atenuado, claro. Houve uma ocasião em que estava a escrever despreocupadamente para o meu outro blogue, com o Spotify em modo aleatório. De repente, começa a tocar a música One More Light (que não ouvia há algum tempo) e deu-me um baque.

 

Esta foi a ocasião mais intensa. Para além dessa, às vezes dou por mim a lacrimejar quando oiço certas músicas. Como Breaking the Habit ou Numb (ponho-me a pensar no concerto no Hollywood Bowl, em que tocaram esta sem ninguém a cantar, apenas o microfone iluminado). Por fim, escrever este texto voltou a despertar um bocadinho do luto em mim.

 

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Entretanto, ainda tenho o álbum One More Light por analisar. Não o fiz ainda por uma questão de calendário – tenho uma data de textos que quero escrever e publicar antes de me voltar para esse. Como tal, ainda devo demorar alguns meses.

 

Para já, quero ver se o próximo texto que publico é o próximo de Pokémon através das gerações, a análise à sexta geração, que deverá vir em duas partes Não sei se consigo publicá-los já já, mas nunca depois de finais de maio.

 

Obrigada pela vossa visita, como sempre. Continuem ligados!

Música de 2017 #1

No fim de mais um ano, regressa o tradicional texto sobre a música que mais me marcou ao longo desse ano. Os moldes serão semelhantes ao texto do ano passado: nem todas as músicas foram lançadas este ano (embora não tenha faltado música nova dos meus artistas preferidos em 2017). Alguns dos itens desta lista dirão respeito a um artista ou banda em geral. Alguns dirão respeito a uma música, apenas.

 

No ano passado segui uma ordem mais ou menos cronológica. Não vou fazer o mesmo este ano, por razões que explicarei já de seguida. Assim, sem mais delongas, começamos por falar sobre…

 

  • Linkin Park

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...mais especificamente, sobre a morte de Chester Bennigton. É incontornável, esta perda atingiu-me em cheio, fazendo com que 2017 – que já não estava a ser fácil, entre os incêndios, os atentados terroristas, Donald Trump como presidente, entre outras coisas – não tenha sido um bom ano. Quase todos os itens desta lista irão fazer referência, de uma forma ou de outra, ao que aconteceu ao Chester – como poderão ver de seguida

 

Já se passaram mais de cinco meses, mas ainda dói. Tive oportunidade de explicar porquê há pouco tempo, no Quora. Ainda não consigo aceitar, não acho justo. Ele era amado por milhões, salvou a vida a muitos de nós. Nos concertos a que fui, éramos oitenta ou noventa mil cantando em coro com ele. E não fomos capazes de falar mais alto, cantar mais alto, que as vozes na sua cabeça.

 

Isto não tem tido uma progressão linear, tenho tido alturas piores do que outras. Um dos períodos mais difíceis para mim ocorreu depois do concerto de homenagem a Chester, no Hollywood Bowl.

 

  

Mike Shinoda disse, há uns tempos (não consigo encontrar a fonte) que, para além de homenagear Chester e de “obrigar” a banda a regressar aos palcos, este concerto seria um funeral para os fãs. Algo que nos ajudasse a mentalizarmo-nos de que o Chester morreu mesmo e não vai voltar.

 

Bem, comigo resultou. Acho que fez com que passasse da fase de negação/negociação à fase de depressão e andei em desânimo durante semanas. Agora estou melhor, mas não posso dizer ainda que tenha aceitado a morte dele.

 

O concerto em si foi muito bonito. Nesse dia, acordei a meio da noite para vê-lo em direto, no YouTube. Deu para ver que a banda continuava em forma. O Mike, então, continuava a ser o Mike que todos conhecemos e adoramos – ainda que desse para ver que aquilo não estava a ser fácil para ele. Sobretudo quando apresentou Looking For an Answer, a canção que compôs no rescaldo da morte do Chester.

 

 

Apesar de ver que os Linkin Park continuam a ser os Linkin Park e que o Chester continua com eles em espírito… também dava para ver que o Chester não estava lá. Nenhum dos convidados tinha a mesma química com Mike e o resto da banda. Um bom exemplo disso foi Machine Gun Kelly, o convidado em Papercut – fez-me imensa confusão porque aquele tipo era uma cabeça mais alto que o Mike, quando o Chester tinha mais ou menos a mesma altura. Aquele tipo não se encaixava, quase literalmente.

 

É por estas e por outras que eu preferia que os Linkin Park continuassem com cinco membros (Mike promovido a vocalista principal), com o ocasional dueto ou vocalista convidado. O Chester nunca poderá ser substituído – acho que toda a gente concorda com isso. No entanto, na minha opinião, a banda ainda tem muito para dar.

 

Dito isto, repito o que disse antes: continuarei a apoiar os Linkin Park, independentemente do que decidirem.

 

As semanas que se seguiram ao concerto podem não ter sido fáceis para mim, mas ao menos, depois dele, fui capaz de voltar a ouvir a música dos Linkin Park normalmente… Isto é, dentro do possível.  Poucos meses antes de o Chester morrer, tinha comprado os CDs físicos de Hybrid Theory e Meteora (apesar de já os ter em formato digital) para ouvir no carro e, eventualmente, escrever sobre eles. Hei de fazê-lo, a médio/longo prazo, mas não sem escrever sobre One More Light primeiro. Não vai ser fácil, porque a morte do Chester afetou a maneira como oiço este álbum… mas é (mais) uma barreira que tenho de ultrapassar.

 

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Havemos de ficar bem. Eu, a banda, os fãs. Tenho de acreditar nisso: que um dia deixará de custar tanto, que um dia conseguirei ver vídeos como este sem ficar com vontade de chorar. Talvez com o tempo…

 

  • Oasis – Don’t Look Back in Anger

 

  

Fiquei a conhecer esta canção depois do atentado terrorista em Manchester, no concerto de Adriana Grande. Numa das homenagens às vítimas, após o tradicional momento de silêncio, uma mulher começou a cantar Don’t Look Back in Anger, dos Oasis (que, por sinal, são nativos de Manchester). O resto da multidão juntou-se a ela. A canção tornou-se, assim, num símbolo da resistência e solidariedade do povo de Manchester perante o terrorismo.

 

Dias mais tarde, os Coldplay interpretariam a canção no concerto One Love Manchester.

 

Queria falar rapidamente sobre estes concertos solidários. Não é preciso ler muito deste blogue para se descobrir que adoro música. Adoro o seu poder para emocionar, para consolar, para unir, para curar. Concertos ao vivo são a celebração mais pura disso.

 

Como tal, é claro que aprovo que esse poder tenha sido colocado ao serviço de quem mais precisa. Não só das vítimas dos atentados em Manchester, como também das vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande.

 

  

Tal como aconteceria mais tarde com os Linkin Park, no Hollywood Bowl, via-se que estava a ser difícil à Ariana estar de volta ao palco – depois do que acontecera da última vez que lá estivera. A música dela não me aquece nem arrefece, mas qualquer um com sentimentos sentiria a dor dela. Eu então, que adoro concertos, achei este atentado particularmente cruel – mas era esse o objetivo.

 

Como tal, foi muito bonito ver os artistas todos em palco, consolando Ariana, mostrando que a música é mais forte que o terror. A própria Ariana disse: “O amor e a união que estamos a demonstrar é o remédio de que o mundo precisa neste momento.”

 

Continua a ser verdade, mesmo passados estes meses todos.

 

  

Nessa linha, outra música que me marcou este ano (embora não tanto como outras desta lista) foi Don’t Dream It’s Over, dos Crowded House. Também foi cantada no concerto – pela Ariana e por Miley Cyrus. Neste contexto, os versos seguintes levam-me lágrimas aos olhos: “They come they come to build a wall between us. You know they won’t win.”

 

Mas regressemos a Don’t Look Back in Anger – que ganhou novos significados para mim para além deste. Mais de vinte anos depois de lançar a música, Noel Gallangher continua a dizer que não sabe ao certo o que a música significa, que nem sequer sabe quem é a Sally, referida no refrão.

 

Por outro lado, noutra entrevista, chegou a dizer que a mensagem da música aconselha o ouvinte a não viver preso ao passado, a não guardar ressentimentos. Ele mesmo pôs essa filosofia em prática há pouco tempo, por sinal, ao fazer as pazes com o seu irmão e também membro dos Oasis, Liam.

 

Segundo as anotações no Genius, a letra de Don’t Look Back in Anger é uma manta de retalhos em termos de referências e significados. Os versos “So I’ll start a revolution from my bed”, por exemplo, são uma referência aos bed-ins pela paz de John Lennon e Yoko Ono, em 1969. Por outro lado, os versos “Stand up beside the fireplace, take that look from off your face” são uma alusão às fotografias de Natal que a mãe dos irmãos Gallangher lhes tirava, junto à lareira. Eles, como quaisquer miúdos, faziam caretas, daí o “take that look from your face”.

 

  

A vantagem de músicas como esta, com significados vagos e/ou desconjuntados, é podermos dar as interpretações que quisermos. É o que acontece com muitas das minhas canções preferidas.

 

Desse modo, tenho-me fartado de projetar coisas na letra de Don’t Look Back in Anger. Em 1995/1996, quando esta música terá sido composta, revoluções a partir da cama só mesmo bed-ins. Agora, no entanto, na era das internetes, das redes sociais, é mais do que possível criar revoluções sem deixarmos os lençóis – basta pegarmos num portátil ou num smartphone.

 

Não que todas essas revoluções online tenham propósitos tão nobres como a paz – demasiadas vezes é o extremo oposto.

 

Os primeiros versos de cada estrofe (“Slip inside the eye of your mind, don’t you know you might find a new place to play”; “Take me to the place where you go, where nobody knows if it’s night or day”)  fazem-me pensar em escapismo e introspeção – uma coisa que faço muito.

 

  

Por outro lado, os versos “Please don’t put your life in the hands of a rock’n’roll band who’ll throw it all away” tocaram-me em particular nas semanas que se seguiram à morte do Chester. Eu, que talvez me tivesse afeiçoado demasiado a uma banda de rock e, agora, estava a sofrer com a morte de um dos membros.

 

Depois do concerto no Hollywood Bowl, no entanto, acho que a minha vida podia estar em piores mãos que as dos Linkin Park.

 

Para além destas mensagens todas, há que assinalar que a musicalidade de Don’t Look Back in Anger ajuda muito: abrindo com notas de piano que recordam Imagine, de John Lennon, seguindo com guitarras e um refrão que dá vontade de cantar. Como fez com aquelas pessoas no memorial, levando a isto tudo. Quando é assim, é muito fácil uma canção tornar-se imortal.

 

  • Lady Gaga – Million Reasons

 

  

Esta é uma descoberta mais recente do que a maior parte das canções desta lista. Nunca fui grande fã de Lady Gaga, mas ouvi Million Reasons na rádio e gostei – tanto da parte musical como da letra.

 

Não que a sonoridade seja particularmente original – uma balada guiada pelo piano e pela guitarra acústica – mas funciona bem. E não deixa de ser refrescante, numa altura em que os instrumentos a sério estão em vias de extinção.

 

Por outro lado, cinco estrelas para o desempenho vocal de Lady Gaga. Porque é que não me avisaram mais cedo que a mulher tinha este vozeirão?

 

  

De qualquer forma, na minha opinião, a força de Million Reasons está na letra. A sua mensagem é simples, bem resumida pelos versos “I’ve got a hundred million reasons to walk away, but baby I just need a good one to stay”. Se formos a ver, é essencialmente a mensagem de Last Hope, a grande balada do Self-Titled dos Paramore. Esta última, no entanto, é uma das músicas da minha vida por algum motivo – é uma mensagem que preciso de ouvir de vez em quando. 2017 deu-nos milhões de razões para virarmos costas ao mundo, à Humanidade, a tudo. Mas eu esforço-me por arranjar motivos, por pequenos que sejam, para seguir em frente.

 

Havemos de regressar a esse tema mais adiante. Para já, falemos de uma canção que talvez não esperassem ver nesta lista.

 

  • Matias Damásio (ft. Héber Marques) – Loucos

 

  

Esta música não faz o género do que costumo ouvir. Ainda menos sobre o qual costumo escrever. Não que não goste de kizomba. Gosto o suficiente para não mudar de estação se, por acaso, apanhar uma música na rádio, mas não o suficiente para as adicionar às minhas playlists.

 

Loucos, de Matias Damásio e Héber e Marques, conseguiu cativar-me, no entanto, depois de apanhá-la várias vezes na rádio – e sobretudo depois de Matias Damásio a ter cantado no concerto Juntos Por Todos.

 

Loucos é uma canção de amor que está longe de ser pioneira ou inovadora. Reflete os momentos iniciais de um novo romance, a fase de lua-de-mel, em que tudo é novo e excitante, em que julgamos estar a viver uma épica história de amor. Todas as músicas que passam na rádio são sobre nós, o próprio Universo ajoelha-se perante o nosso amor, os simples mortais não compreendem e/ou têm inveja de nós.

 

É uma música ingénua, chega a ser um bocadinho lamechas… mas foi por isso mesmo que me cativou. Num ano tão complicado como este foi, em que uma boa parte da música que oiço reflete isso e/ou é bastante cínica (sobretudo Lorde e Paramore), a inocência de Loucos acabou por ser um bom contraste, um bom antídoto.

 

  

Serviu mesmo de consolo, em certas alturas. Como por exemplo, aquando do concerto no Hollywood Bowl, pelo Chester. Eu tinha conseguido ver a transmissão em direto do mesmo sem chorar. No entanto, na manhã seguinte, quando Loucos surgiu no Spotify, não aguentei.

 

É um bocadinho ridículo, eu sei. Esta canção está no extremo oposto do espectro relativamente à música dos Linkin Park. Mas talvez tenha sido por isso que teve este efeito.

 

Admito que, se as circunstâncias fossem diferentes, talvez esta música me tivesse passado ao lado. Não sei o que esta escolha diz de mim. Talvez diga que, no fundo, ainda tenho o coração romântico de uma menina de quinze anos. Talvez seja o meu subconsciente agarrando-se a esse lado romântico e idealista (mais sobre isso mais à frente).

 

Também é possível que o facto de o meu pai se irritar com esta música tenha ajudado. Um comportamento muito maduro, eu sei. Mas em minha defesa, ele passou uma boa parte de 2017 cantarolando o Despacito – exatamente como imaginam um pai cantando o Despacito. Eu tinha de me vingar de alguma maneira…

 

E com este pensamento concluímos a primeira parte deste texto. Regressem connosco amanhã, já em 2018! Boas entradas!

3 Aplicações/Sites que mudaram a minha vida

O assunto de hoje é diferente do costume. Quero falar sobre três aplicações/sites que comecei a usar no último ano, ano e meio e mudaram a minha vida – ou, vá lá, parte dela. A parte que incluí a minha escrita, os meus blogues, a minha música. Não, não estou a ser paga por nenhuma destas aplicações, gosto genuinamente delas e recomendo-as.

 

Seguindo uma ordem mais ou menos cronológica, comecemos por falar do…

 

Pocket:

 

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Foi aqui, no Sapo Blogs, que descobri acerca desta aplicação . Conforme a Ana explicou muito bem no seu texto, o Pocket permite guardar artigos da Internet para ler ou consultar mais tarde. Podemos etiquetá-los consoante a nossa conveniência e acedê-los a partir de qualquer dispositivo que tenha a app, até mesmo offline.

 

Tenho usado o Pocket desde que esse texto foi publicado, mais coisa menos coisa. Este tem-me facilitado imenso o processo de escrita, sobretudo no que toca aos meus blogues. Quase todos estes textos requerem pesquisa: entrevistas aos criadores do material que estou a analisar (música, filmes, séries, jogos…), páginas da Wikipédia ou de sites semelhantes, críticas. No meu outro blogue, consulto notícias e crónicas sobre a Seleção.

 

Com o Pocket, guardo todas essas fontes no mesmo sítio, com a etiqueta adequada. Facilita a fase de planeamento dos textos, sobre a qual já falei aqui, e também a escrita propriamente dita – por muito bem que planeie os textos, muitas vezes preciso de voltar a consultar os artigos originais. Como costumo escrever em sítios sem wi-fi, o facto de o Pocket funcionar offline dá muito jeito.

 

Existem outras coisas que guardo no Pocket, para além de pesquisa para os meus blogues. Algumas delas são artigos sobre escrita – vários dos quais acabaram por inspirar estes textos.

 

Gosto também de ir colecionando artigos para ler nos tempos mortos: quer coisas que encontre nas redes sociais, quer na secção dos “Recomendados” do próprio Pocket. Os meus preferidos são os do The Guardian. Como, aliás, o Pocket usa a mesma formatação para todos os artigos (eu uso a tradicional: serif preto em fundo branco) muitas vezes prefiro mesmo ler os artigos por lá, em vez de lê-los nos sites originais – sobretudo quando estes têm anúncios a mais e formatações esquisitas.

 

Descobri há bem pouco tempo que o Pocket tem uma componente áudio, que lê os artigos em voz alta, mesmo offline. Ainda não tive tempo para usá-la muito, mas tenho-me divertido ouvindo os meus próprios textos – alguns dos quais, como este, escritos com o coração na ponta da caneta – lidos por uma voz feminina robótica com sotaque brasileiro.

 

Em suma, só para terem noção, quando fiquei sem telemóvel durante algumas semanas, há quase um ano, a aplicação que mais falta me fez não foi o Facebook, nem o Twitter, nem o WhatsApp, nem mesmo o Pokémon Go. Foi o Pocket.

 

Genius

 

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O Genius é um site de letras de músicas. O que o destaca de milhentos sites do género é o facto de permitir aos visitantes anotarem as letras das músicas – quer com factos sobre as mesmas, quer com sugestões de interpretações. Consta que, de início, o site dedicava-se exclusivamente a hip-hop – o seu primeiro nome era Rap Genius – mas acabou por expandir-se a outros géneros musicais. Hoje em dia, vários artistas têm contas verificadas no site, confirmam letras e/ou fornecem-nas antecipadamente – os Linkin Park fizeram isso este ano com Heavy – e chegam mesmo a anotar as letras com a interpretação “oficial” – Lorde fê-lo com Perfect Places.

 

Tendo em conta que analiso música neste blogue, este site dá-me imenso jeito. Com o Genius, temos quase tudo o que se sabe sobre determinada música no mesmo sítio – o que poupa imenso tempo no planeamento das minhas análises. Gosto, também, de ler as interpretações de outros visitantes no site, mesmo que nem sempre concorde com elas.

 

Tenho, aliás, contribuído com alguns factos e interpretações minhas. O meu username é bg_sofia, se tiverem curiosidade. Já fui convidada, até, para ser editora. Só não aceitei, porque ainda não me sinto preparada para isso. Ainda me atrapalho com a formatação das anotações, com a adição de links, citações, imagens. Mas tenciono ir praticando – tenho o conhecimento de mais de metade da minha vida como ouvinte de música para partilhar. Ainda agora comecei.

 

O site Genius tem uma aplicação móvel. Cheguei a sacá-la, mas eliminei-a quando precisei de espaço. As únicas diferenças entre a aplicação e aceder ao site através do navegador em que reparei foram a ligação automática à letra da música que estiver a ouvir no momento e uma funcionalidade tipo Shazam – mas que funciona pior que o Shazam. Não achei que justificasse o espaço que ocupa.

 

O site, contudo, vale a pena – sobretudo se forem fãs de música, como eu.

 

A próxima aplicação de que vou falar também se relaciona com essa área.

  

Spotify

 

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Esta é, sem dúvida, a aplicação mais popular desta pequena lista. Eu, como toda a gente, já conhecia serviço de streaming há alguns anos. Só há cerca de seis meses é que saquei a aplicação para o PC e experimentá-la a sério (nem me lembro ao certo do motivo). Desde essa altura, uso-o quase sempre que estou ao computador, o que tem mudado muito a maneira como consumo música.

 

A grande vantagem do Spotify é a facilidade no acesso a música. Sacar ficheiros mp3, ou semelhantes, quer legalmente quer não, ou então passá-los dos CDs para o computador, são coisas que dão trabalho. No Spotify, contudo, basta pesquisá-las e fazer um par de cliques para adicioná-las ao nosso catálogo pessoal. Ainda são precisos menos cliques quando essas músicas aparecem sugeridas nas sugestões, nos Daily Mixes, no Discover Weekly ou outras playlists.

 

Essas mesmas playlists são, aliás, outro dos pontos fortes do Spotify. Sempre fui fã delas – desde que descobri, quando era miúda, que podia tirar as músicas do CDs para o computador e reorganizá-las conforme quisesse, com o Windows Media Player. Penso que já falei, algures aqui no blogue, acerca da playlist que oiço quando escrevo cenas de ação nos meus livros. No meu outro blogue, tanto quanto me lembro, já falei algumas vezes da minha playlist da Seleção.

 

Agora, com o Spotify, posso partilhar essas playlists sobre as quais falo há anos com quem quiser e onde quiser. Já tenho a tal playlist da Seleção incorporada no meu outro blogue, por exemplo. Também criei e incorporei playlists em alguns textos antigos sobre música deste blogue – mas acho que ainda não partilhei a playlist com todas as músicas sobre as quais escrevi nesta rúbrica. A playlist do Top 10 de Canções de Amor está sempre a ser atualizada com novas canções de amor que vou descobrindo – como, por exemplo, Underwater.

 

Não sou grande fã das playlists sugeridas pelo próprio Spotify, como por exemplo, aquelas para o ginásio ou os Hits do momento. Em parte, porque não costumo gostar da maior parte das músicas da moda, mas sobretudo porque… sou esquisita e casmurra com a música. Prefiro ser eu a escolher o que oiço. Não que nunca oiça nada de novo – pelo contrário, desde que tenho o Spotify, tenho adicionado imensas canções ao meu leque habitual. Mas sempre tive dificuldades em alargar os meus horizontes – tenho andado a trabalhar nisso e já fui pior.

 

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Como uso a versão gratuita do Spotify, uma das desvantagens é ter de levar com anúncios de tantas em tantas canções. No entanto, estes não me incomodam muito – continuam a ser em menor número e um bocadinho menos irritantes do que os habituais da rádio. E, pelo menos, veem entre músicas escolhidas por mim.

 

O Spotify têm uma componente móvel, como toda a gente sabe, mas eu não a uso. No modo gratuito, a app só funciona se estiver ligada à Internet e nem sempre podemos saltar músicas. Tendo eu um cartão microSD cheio de música que pode ser lida pelo Google Play, mesmo em modo offline, para quê estar a gastar dados móveis com o Spotify?

 

A maior desvantagem do Spotify, na minha opinião – e o único motivo pelo qual ainda não pus a hipótese de aderir ao Premium – é o facto de faltarem coisas ao seu catálogo. B-sides que nunca foram lançadas oficialmente, certas versões instrumentais, acústicas ou ao vivo, a banda sonora dos jogos de Pokémon, as músicas de Digimon – embora tenha encontrado um cover bastante jeitoso de Brave Heart.

 

O Spotify não é, por isso, o meu único meio de consumo de música. E não acho que alguma vez chegue a ser. Ainda faço questão de comprar música, quer no iTunes, quer CDs – dos meus artistas preferidos, pelo menos. Em parte, porque não me parece que o Spotify pague devidamente aos músicos.

 

Mas também porque, apesar de tudo, continuo a gostar de CDs. São a única maneira de ouvir a minha música no carro que conduzo, por um lado. Por outro, sabe-me bem pôr um álbum a tocar e ouvi-lo do princípio ao fim. Quando era miúda, a minha aparelhagem não tinha modo aleatório e ouvir sempre o mesmo alinhamento aborrecia-me – foi um dos motivos pelos quais me virei para as playlists, como referi acima. Agora, no entanto, gosto de ouvir as músicas pela ordem que os artistas queriam que ouvíssemos. Em teoria, podia fazer o mesmo no Spotify – na prática, acabo sempre por adicionar outras músicas à fila.

 

De qualquer forma, acho que vou acabar por aderir ao Premium, mais cedo ou mais tarde. Quanto mais não seja porque não me parece que o Spotify consiga manter-se gratuito por muito tempo – se é verdade o que dizem neste artigo.

 

Cá estão: três das minhas aplicações ou sites preferidos neste momento. Talvez um dia escreva outro texto deste género – tenho um ou dois sites sobre os quais poderei escrever, mas não para já.

 

Obrigada pela vossa visita, de qualquer forma.

Lorde - Melodrama (2017)

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A cantora neozelandesa Ella Yelich-O’Connor, mais conhecida por Lorde, lançou o seu segundo de estúdio, Melodrama, no passado dia 16 de junho. Se acompanham o meu blogue, saberão que só no ano passado é que ouvi o seu primeiro álbum, Pure Heroine – no entanto, cativou-me logo. Quando se soube que vinha aí Melodrama, fiquei, naturalmente, interessada – sobretudo depois de ouvirmos Green Light e Liability. Pure Heroine é um álbum excelente a todos os níveis, sem falhas significativas. Será que Melodrama consegue atingir a fasquia deixada pelo seu antecessor?

 

Bem, sim. Lorde tem apenas vinte anos de idade, mas já conseguiu a proeza de ter dois álbuns excelentes no seu currículo. A miúda não é deste planeta!

 

É muito difícil dizer qual dos dois álbuns é o melhor. No entanto, uma das coisas que prefiro em Melodrama é a instrumentação. Pure Heroine caracteriza-se pela produção minimalista. As músicas são conduzidas pela voz, só com batidas e um ou outro instrumento ou sintetizador, tudo muito discreto.

 

Não estou a dizer que isso seja defeito ou que as músicas pedissem mais instrumentos – pelo contrário, faz parte do carácter do álbum. Eu, no entanto, sempre gostei de instrumentos em música. Como tal, fiquei feliz por instrumentos como, por exemplo, o piano (em várias canções), o clarinete (em Sober), os violinos (em Sober II/Melodrama e Writer in the Dark), participarem em Melodrama – e de forma inteligente, como veremos a seguir.

 

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Tínhamos comentado, a propósito de Green Light, que a narradora desta faixa parecia ser uma miúda embriagada, acabada de se separar, que sai à noite para esquecer o ex-namorado; que se esforça desesperadamente por se divertir e mostrar que está a seguir em frente, mas que sofre em silêncio. Na verdade, o mesmo parece acontecer com o resto de Melodrama. O álbum reflete as diferentes fases, as diferentes emoções, pelas quais uma pessoa passa enquanto recorre ao estilo de vida festeiro – sexo, álcool, drogas, as chamadas party-bangers – para ultrapassar uma separação. Lorde referiu mesmo, em entrevista, que todas as canções decorrem na mesma noite.

 

Ora, quem me conheça minimamente saberá que esse estilo de vida pouco ou nada me diz. Contam-se pelos dedos das mãos as vezes que fui a uma discoteca – das vezes que me diverti, foi por causa da companhia e não do ambiente. Se é para chegar trôpega a casa a altas horas da noite, prefiro que seja após um concerto ou festival de música.

 

Além disso, nunca fui grande fã de party bangers.

 

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No entanto, sei perfeitamente que muitos apreciam este estilo de vida – ou, pelo menos, passam por uma fase em que o apreciam. Aos dezanove/vinte anos, como a Lorde, às vezes antes, às vezes mais tarde. Como tal, não me vou armar em moralista nesta análise – até porque o álbum Melodrama acaba por desmistificar este estilo de vida, obriga-nos a olhar além do glamour, dos filtros do Instagram.

 

Uma das características de Melodrama, aliás, é a auto-consciencialização: a noção de que nada daquilo é real e/ou duradouro. Nem a festa, nem os romances mais ou menos sérios. É tudo melodrama: um exagero, mesmo uma paródia da realidade.

 

Falemos, então, das canções em si. Green Light funciona bem como introdução a Melodrama. Na tracklist seguem-se duas músicas que se centram no ponto alto da festa. Das duas, a minha preferida é Sober.

 

 

Esta, de início, segue o estilo típico de Lorde, com batidas e instrumentação mínima. Ressaltar a repetição de “Night, midnight, lose my mind”, marcando o ritmo. Quando chega o refrão, a partir do meio, os versos são pontuados por notas de clarinete (ou de corneta? Não sei, é um instrumento de sopro de metal) – um dos exemplos da instrumentação inteligente em Melodrama.

 

Faz-me desejar, aliás, que tivéssemos mais clarinetes ou instrumentos do género na música pop.

 

A letra de Sober parece falar sobre um caso de uma noite só – ou, pelo menos, um caso que se limita à parte física, à euforia. A narradora compara-o a um delírio febril, ao efeito de uma droga. Na verdade, é dado a entender que a outra parte parece mais investida na relação que a narradora – que, por sua vez, parece ter perfeita noção de que aquilo não sobreviverá à ressaca: “But what will we do when we’re sober?”.

 

Essa pergunta será, aliás, respondida mais à frente no álbum. Antes, temos Homemade Dynamite. Esta é a música de que menos gosto em Melodrama. Não que seja uma música má – este álbum, ou melhor, Lorde não tem músicas más – ou mesmo que não goste de todo. Apenas não a acho tão interessante como o resto de Melodrama.

 

 

Segundo terá dito a própria Lorde, Homemade Dynamite marca, essencialmente, o momento na festa em que as drogas começam a fazer efeito. Em termos de letra e tema, acaba por não ser muito diferente de Sober, visto que até fala de um possível caso de uma noite só. Musicalmente, não difere muito da típica sonoridade de Lorde, embora com um ritmo mais dançante. Consta que deverá ser single a certa altura. Não é de surpreender – composta com Tove Lo, Homemade Dynamite é a mais parecida em Melodrama com a típica party banger.

 

No entanto, preferia Sober como single. Ou então Supercut.

 

The Louvre é o mais parecido que temos em Melodrama com uma canção de amor. A letra supostamente descreve a relação de Lorde com o, agora, ex-namorado. Ao contrário de uma típica canção de amor, a descrição que esta faz do romance não é propriamente idílica: temos referências a ilusão, obsessão, vício, mesmo estupidificação. A narradora admite mesmo que negligencia os amigos a favor do amante. Ao mesmo tempo, descreve aquela fase em que o casal se considera superior aos simples mortais, dignos de figurar no Louvre (na parte de trás, mas o Louvre é o Louvre). Amam, assim, perdidamente e dizem-no cantando a toda a gente (“Broadcast the boom boom boom boom and make’em all dance to it”).

 

Musicalmente, The Louvre é conduzida por acordes de guitarra graves e discretos, aos quais vão sendo acrescentados elementos deliciosos aqui e ali: como as batidas no refrão e as notas de guitarra elétrica (ou órgão? Não consigo perceber ao certo…) no fim.

 

  

 

No entanto, Melodrama também mostra o lado menos bonito, tanto das festas como dos romances. Sober II (Melodrama) é uma das minhas músicas preferidas neste álbum e também uma das mais interessantes. Funciona bem como sequela a Sober pois as melodias são parecidas e a letra responde à pergunta deixada pela prequela: o que acontece depois das drogas. Naturalmente, em Sober II (Melodrama) temos referências a arrependimento, censura, consequências inesperadas – gosto particularmente dos versos “They’ll talk about us and discover how we kissed and killed each other”. Repete-se muito a frase “We told you this was melodrama” – não foi falta de aviso, eles sabiam no que se estavam a meter.

 

A instrumentação nesta música é perfeita. A abertura com os violinos frios, dolorosos, implacáveis, evocam na perfeição as dores de cabeça e fotofobia típicas de uma manhã de ressaca. Não será por acaso que a música quase homónima da P!nk, Sober, usa violinos de maneira semelhante, sobretudo no final da faixa.

 

Passemos, então, às chamadas break up songs, para além de Green Light. Uma delas é uma faixa com duas partes: Hard Feelings/Loveless. Em termos de sonoridade, não divergem muito do estilo habitual de Lorde. A primeira parte é lenta, suave, conduzida por batidas leves e um sintetizador discreto, que se vão tornando mais intensos. A segunda parte, por sua vez, é bem mais dançante, conduzida por batidas, com notas de piano apimentando os vocais.

 

Em termos de letra, Hard Feelings parece começar no rescaldo imediato da separação, num momento de grande vulnerabilidade, em que a ferida é ainda recente. Lorde referiu mesmo que esta música é a calma após a grande discussão, a grande separação. Em consonância com o tema geral do álbum, temos referências a ressaca, a pós-melodrama.

 

  

Há uma ideia de passagem do tempo à medida que a canção decorre. Na segunda estância, assim, a narradora procura manter-se ocupada, aprender a estar sem o ex-namorado. A dor permanece, mas a narradora está determinada a esquecê-lo, a ultrapassar a separação.

 

É tão eficaz, na verdade, que a segunda parte da canção, L.O.V.E.L.E.S.S. é a completa antítese de Hard Feelings. Aqui temos uma Lorde em modo vingativo, anti-romântico, troçando abertamente do ex-namorado e do amor em geral. Lorde chama mesmo ao seu grupo “A geração sem amor”, que gozam com os respetivos amantes (ela descreve-o de forma mais colorida…). Nesse aspeto, a versão do vídeo acima, que ela filmou com um grupo coral e uma boombox à anos 90, faz todo o sentido.

 

E é muito fixe!

 

  

Writer in the Dark, por sua vez, é uma balada de piano, à semelhança de Liability, acompanhada por violinos no refrão e no final da música. Não posso deixar de assinalar os vocais agudos de Lorde, no refrão: meu. Deus. Como é que ela faz aquilo?

 

Em termos de tema, Writer in the Dark é muito parecida com Hard Feelings: ambas exprimem amargura e ressentimento pela separação e, ao mesmo tempo, manifesta o desejo de seguir em frente com a sua vida. Assumindo que a letra é verídica, descobrimos que o ex-namorado não era homem suficiente para aceitar o sucesso de Lorde. Esta, assim, sentiu-se obrigada a diminuir-se, a tirar pedaços de si mesma, para não ferir o orgulho dele.

 

Não nego que o facto de a música ter “escritora” no título me agrada particularmente. No entanto, neste contexto, acho que significa mais “artista” do que outra coisa qualquer. Alguém que, se calhar, sente as coisas com demasiada intensidade e que imortaliza as suas emoções na sua arte.

 

  

Consta que Supercut é uma favorita entre os fãs. Não é difícil perceber porquê. Musicalmente, é como se Green Light e Ribs se juntassem e tivessem um filho: riffs de piano parecidos com os da primeira, batidas parecidas com as da segunda, o ritmo dançante de ambas.

 

O termo “Supercut” refere-se a uma montagem de vídeos que, geralmente, se focam num elemento único – tipo isto. É isto que passa na mente da narradora: um greatest hits da relação que terminou, sem as partes menos boas, em constante repetição. O verso “In my head I do everything right” soa-me particularmente triste – é muita mágoa e arrependimento numa única frase.

 

Gostava de chamar a atenção para o verso “In your car, the radio up”. É um tema recorrente que Lorde e Avril Lavigne têm em comum: no carro com os interesses românticos. No caso da Avril, o exemplo mais flagrante é Complicated: “I like you the way you are, when we’re driving in your car”. Carros voltam a aparecer, em contexto semelhante, no quinto álbum, com as músicas 17 (“My favorite place was sitting in his car”) e You Ain’t Seen Nothin’ Yet (“Your car, I’m sitting right beside you”).

 

É possível, no entanto, que estas sejam referências propositadas a Complicated.

 

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Por sua vez, Lorde já explorara esse tema em 400 Lux. Em Melodrama, para além de Supercut, Green Light aborda-o de passagem (ao falar do “carro de outro”) e, em Hard Feelings, serve de metáfora à relação que tem os dias contados.

 

Já falámos sobre Liability antes. Ouvindo-a no contexto do resto do álbum, encaixa-se bem no contexto de Melodrama. Existem, mesmo, várias interpretações possíveis que se encaixariam. Para além de poder referir-se à relação que terminou, poderia referir-se a alguém que não gostou da festa e culpa a narradora por o(a) ter arrastado para a mesma. Ou então o contrário: alguém que se aproveitou do espírito festeiro da narradora e a descartou na manhã seguinte, depois de obter o que queria.

 

Liability tem, no entanto, uma reprise, mais à frente em Melodrama. Não sei ao certo qual é a diferença entre uma reprise e uma sequela ou segunda parte. Esta, no entanto, parece funcionar como uma correção à música original. Ao contrário de Liability propriamente dita, que é uma balada de piano, Liability (Reprise) aproxima-se mais do som habitual de Lorde, ao limitar-se a batida e vocais.

 

  

Na letra, a narradora percebe que ela não é um risco, não é o problema, nem no que toca a relação que terminou nem no que toca à desta. Começa, aliás, a aperceber-se nos efeitos nocivos deste estilo de vida. Que a rapariga embriagada na festa, tentando esquecer o namorado, não é a sua verdadeira identidade. Que aquilo é tudo melodrama, como referimos acima: não é real.

 

E assim se abre caminho para o epílogo do álbum: Perfect Places.

 

Esta é a minha música preferida em Melodrama e talvez mesmo em 2017, até agora. Em termos de sonoridade, de início, não difere muito do estilo habitual de Lorde, com a batida e o sintetizador discreto. Entretanto, ouvem-se algumas notas de piano, o sintetizador ganha intensidade. Por fim, Lorde faz “tch-tch”, como quem engatilha uma arma ou ativa uma bomba, e a música explode com um dos melhores refrões dos últimos anos – um híbrido do refrão de Team com Midnight City, dos M83, com notas de piano e sintetizadores à anos 80.

 

  

A letra de Perfect Places faz um resumo dos temas recorrentes em Melodrama e ainda acrescenta coisas. Vemos a narradora recorrendo às festas como escapismo: não apenas no que toca à separação, esmiuçada no resto do álbum, mas também à atualidade, ao clima, ao desaparecimento de heróis, ao controlo excessivo por parte dos demais. A própria Lorde admitiu que era esse o caso para si e para os amigos, sobretudo durante o verão do ano passado – que procurava uma fuga à realidade, que tinha medo de estar a sós com os seus pensamentos (“Now I can’t stand to be alone”).

 

Este verão tenho percebido um pouco de que Lorde fala em Perfect Places. O verso “I hate the headlines and the weather”, por exemplo, faz-me pensar na tragédia dos incêndios. E o verso “All of our heroes fading”, que Lorde admitiu referir-se às mortes de David Bowie e Prince, no ano passado, faz-me pensar no Chester.

 

Por outro lado, a perda de ídolos, a humanização das pessoas e instituições que venerávamos em miúdos, é uma das etapas do crescimento. Eu, pelo menos, passei por uma fase assim quando tinha aproximadamente a idade da Lorde.

 

Posso não me identificar com o estilo de vida descrito em Melodrama, mas identifico-me definitivamente com o desejo de um escape, a procura de um sentido, de algo que transcenda a realidade. Mas procuro esses sítios perfeitos noutros lugares: na praia onde passo férias desde miúda, num concerto, num jogo da Seleção, num encontro do Pokémon Go ou do Odaiba Memorial Day ou, pura e simplesmente, numa jantarada com familiares e/ou amigos.

 

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Curiosamente, no outro dia, o modo aleatório do Spotify tocou Innocence, de Avril Lavigne, a seguir a Perfect Places. E, de facto, parece que Lorde estava à procura daquilo que Avril encontrou em Innocence.

 

Perfect Places, de resto, faz-me lembrar I Still Haven’t found What I’m Looking For, dos U2, e See the Light, dos Green Day. Não só por funcionar bem como um epílogo para Melodrama, mas também por transmitir aquela sensação agridoce de quem está à espera e/ou à procura de uma resposta. Ao longo de Melodrama, Lorde procurou-a numa pista de dança, no fundo de um copo, numa droga qualquer, nos braços de um estranho. Até perceber, em Perfect Places, que a resposta não está ali.

 

Onde a procurará a seguir? Descobriremos no próximo álbum, suponho eu.

 

Melodrama é prova de que é possível fazer música pop, música de festa/party bangers que não seja vazia de sentido ou de qualidade duvidosa. Não que isso seja de surpreender: Pure Heroine já tinha provado mais ou menos o mesmo. Lorde, pura e simplesmente, joga num campeonato diferente em relação aos simples mortais, não há comparação possível.

 

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Gostava que Melodrama estivesse a ter mais rotação, no entanto. Ainda não ouvi nem Green Light nem Perfect Places nas rádios portuguesas. Também não me parece que, lá por fora, Melodrama esteja a ter o mesmo impacto que Pure Heroine teve, na altura (posso estar enganada). Acho que será uma questão de tempo, contudo.

 

Quanto a mim, gosto imenso de Melodrama. Acho que vou passar muito tempo, ainda, a decifrar estas canções – tal como ainda acontece com Pure Heroine. Talvez até escreva uma análise ao primeiro álbum de Lorde – não para lá, antes a médio/longo prazo.

 

Apesar de reconhecer que Ella é uma excelente cantora e compositora, ainda não tenho um vínculo emocional com ela como os que tenho com outros artistas de quem gosto. Mas também isso é uma questão de tempo – sobretudo se ela vier em digressão a Portugal, em breve.

 

Quanto a nós, vou fazer uma pausa nos textos sobre música aqui no blogue. A única exceção será quando Bryan Adams lançar duas músicas novas no outono, juntamente com um álbum Best Of, tal como anunciou aqui (pensava que já ninguém lançava álbuns Best Of...). Tenciono escrever sobre Once Upon a Time a seguir – mas deverá ser um texto mais curto que o último. Até lá...

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