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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Linkin Park – One More Light (2017) #2

Segunda parte da minha análise a One More Light. Podem ler a primeira parte aqui.

 

ALERTA: Este texto irá abordar temas pesados como depressão, suicídio e causas de suicídio. Se estes temas forem um gatilho mental ou, como dizem os anglo-saxónicos, triggers no sentido de evocarem recordações traumáticas ou outras formas de sofrimento psicológico aconselho-vos a não o lerem. 

 

Se vocês se debatem com pensamentos suicidas ou desejos se fazerem mal a vocês mesmos, por favor, não o façam, peçam ajuda. Deixo aqui linhas de apoio tanto em Portugal como no Brasil. Quem conhecer mais linhas, por favor, deixe nos comentários. O mundo precisa de vocês, peçam ajuda!

 

 

Falemos, agora, sobre os temas cantados por Chester (isto é, tirando aqueles que analisámos na primeira parte). Começando por Nobody Can Save Me, que abre o álbum. Este é outro caso em que não gosto muito do acompanhamento musical mas gosto da melodia e interpretação. A letra fala de sintomas depressivos, de “soluções falsas” – podem ser toxicodependência ou pura e simplesmente isolamento, solidão – mas de uma forma algo vaga. Um pouco como Battle Symphony. 

 

Uma coisa devo dizer, no entanto: numa das vezes que ouvi esta música nas primeiras semanas, ou meses, após a morte de Chester, senti um nó na garganta ao ouvir o refrão. “Tell me it’s alright. Tell me I’m forgiven tonight”. Como se fosse o próprio Chester a pedir perdão por ter partido.

 

Vou mesmo dizê-lo: o desempenho vocal de Chester é a melhor parte deste álbum. Chester era conhecido sobretudo pelos seus gritos inigualáveis, mas One More Light deixou provado que ele também sabia cantar.

 

Halfway Right é, para além de Heavy, a única música em One More Light em que Chester é creditado como compositor. Dá para notar um pouco na letra que, ao contrário de outras neste álbum, pinta cenários mais ou menos específicos em vez de metáforas vagas. Chester fala de se drogar em adolescente com outros miúdos, de certa noite ter ido tão longe que, quando deu por si, estava ao volante de um carro.

 

Medo…

 

Na segunda parte, a letra fala sobre ignorar os conselhos dos mais velhos – de se rir na altura e, agora, reconhecer que tinham razão. Havemos de regressar a esse tema.

 

 

Em suma, gosto da letra, mas a instrumentação diz-me pouco. Não gosto muito da melodia, apesar de Chester a interpretar bem. Por fim, acho o final demasiado repetitivo.

 

Agora vamos falar sobre aquelas que, na minha opinião, são as melhores músicas do álbum, tanto pela letra como por, ao contrário das restantes, terem uma instrumentação decente, mesmo boa.

 

Talking to Myself é a música mais pesada em todo o One More Light – apesar de poder ser descrita como “apenas” pop rock. Gosto imenso da introdução com as notas de órgão e, depois, a guitarra elétrica e a bateria. 

 

A letra de Talking to Myself tem um conceito interessante. Como vimos antes, foi escrita da perspectiva de Talinda, a esposa de Chester, enquanto o marido passava pelas suas piores fases. Fala da solidão que ela terá sentido, do comportamento alterado dele (consta que é um dos sintomas de toxicodependência), a tendência dele para se isolar das pessoas de quem gosta (um sintoma de depressão), a incapacidade de comunicar.

 

É daí que vem o título da canção. Talking to Myself, falando conosco mesmos, falando para uma parede. 

 

Como vimos antes, não terá sido Chester a escrever esta letra. No entanto, pergunto-me quanto disto terá vindo da própria experiência de Mike, Brad e os outros, que acompanharam os altos e baixos do amigo durante duas décadas.

 

 

Depois de Chester morrer, a canção ganhou um significado adicional, pelo menos para mim. Nós, os fãs, que temos falado e falado sobre Chester desde aquela quinta-feira três vezes maldita. Chorado por ele, gritado por ele, dizendo o quanto o adoramos, as saudades que temos dele… 

 

...e não sabemos se ele nos consegue ouvir. Não sabemos se não estamos, lá está, a falar connosco mesmos, para uma parede, para o vazio.

 

A música de que vamos falar a seguir é a melhor e a mais dolorosa de todo o álbum. One More Light, que também dá o nome ao disco.

 

Musicalmente é perfeita. Minimalista, apenas com órgão, piano, guitarra e pouco mais – contribuindo para o tom intimista, casando bem com a melodia e letra tristes. A interpretação de Chester é igualmente irrepreensível – eu destacaria os vocais agudos de “I do” no fundo, durante o solo. 

 

Agora a letra. One More Light foi inspirada pela morte de Amy Zaret, uma amiga da banda, que morreu em outubro de 2015 após uma curta batalha com um cancro. O co-compositor, Eg White, também tinha perdido um amigo. Suponho que os outros membros dos Linkin Park se terão inspirado em perdas suas – Chester, por exemplo, tinha perdido o padrasto. Poucas coisas são mais universais, infelizmente.

 

A letra descreve bem as diferentes manifestações do luto, sobretudo na segunda parte: a raiva, a sensação de injustiça, o lugar vazio à mesa, os momentos em que a dor vem do nada e tira-nos o tapete debaixo dos pés. O refrão e o título reforçam a ideia de que é apenas uma pessoa entre mil milhões, uma insignificância se olharmos para o planeta como um todo, mas que afeta profundamente as pessoas mais próximas.

 

 

Faz pensar duas vezes sobre coisas como as estatísticas do Coronavírus, por exemplo. “Só” morreram trinta pessoas hoje? Bem, são só trinta famílias, trinta grupos de amigos e conhecidos cujas vidas nunca mais serão as mesmas depois disto. Morrem pessoas todos os dias, sim. Mas é sempre uma grande perda para alguém.

 

Por outro lado, o verso “who cares if one more light goes out? Well I do” foi usado para evitar uma morte por suicídio no ano passado. É apenas um exemplo das vidas que a morte de Chester pode ter salvo, ao inspirar uma mudança de mentalidades sobre a saúde mental.

 

O que me leva à primeira estância da canção. Acreditem ou não, dois ou três dias antes da morte de Chester, estive a ver a apresentação de One More Light no Jimmy Kimmel (abaixo). Se não me engano, foi no dia em que o álbum saiu. A ideia era tocarem Heavy, o primeiro single. No entanto, a banda decidiu tocar One More Light em homenagem a Chris Cornell, um grande amigo de Chester, morrera por suicídio na véspera – fez ontem três anos. Ontem, aliás, saiu uma entrevista inédita de Chester falando sobre Chris.

 

Consta que, nos ensaios, Chester mal conseguia cantar. Mesmo na apresentação ao vivo, em direto, dá para ver que ele (à semelhança dos outros, na verdade) estava à beira das lágrimas. E aquela falha a meio do verso, no último refrão.

 

Dizia eu que, para aí na segunda-feira da semana fatídica, estava eu a ver esta apresentação. A pensar e a anotar no meu caderno que os primeiros versos de One More Light falam de sofrimento invisível aos demais – podia ser sofrimento físico, associado a uma doença como o cancro, podia ser sofrimento psicológico, por depressão, como aquilo que matara Chris Cornell.

 

Ah, se eu soubesse…

 

 

Na quinta-feira seguinte, quando ainda estava a tentar processar a notícia, pus-me a ouvir a música, esta mesma apresentação. Quando chegou à parte do “Can I help you not to hurt anymore?” chorei pela primeira vez. Eu teria tentado ajudar se pudesse, teria feito o possível para evitar aquele desfecho, mas não pude fazer nada. Ninguém pôde.

 

Os Linkin Park referiram antes que tinham escolhido esta música para dar o título ao álbum – quando nenhum dos álbuns anteriores partilhara o nome com uma das suas faixas – precisamente por a considerarem o centro de gravidade emocional do álbum. E foi isso que aconteceu… mas não da maneira que previram. One More Light foi a canção em volta da qual fãs enlutados se uniram depois da perda de Chester – meros dois meses após a música ser lançada. Chester cantou o seu próprio requiem.

 

Eu adoro a música mas não a oiço muitas vezes. Lembra-me as primeiras semanas após a tragédia. É demasiado dolorosa, sobretudo se não estiver à espera.

 

Talvez devesse ter deixado One More Light para o fim, mas não queria terminar esta análise numa nota tão triste. Assim, vamos encerrar com Sharp Edges, que também encerra o álbum.

 

Esta tem uma sonoridade que no início, confesso, estranhei: mais folk do que estava à espera. E também nunca tinha imaginado Chester cantando algo como “Momma always told me…”. Mas não demorei a entranhar e, hoje, gosto bastante desta música.

 

 

A letra de Sharp Edges lembra-me um pouco Into You, do projeto lateral de Chester, Dead By Sunrise. À semelhança de Into You, Sharp Edges explora o paradoxo da vida de Chester. E, na verdade, na vida de toda a gente, em diferentes graus. Na maneira como educamos crianças.

 

Eu não tenho filhos, mas sei que existe uma linha ténue que separa proteger as nossas crias e deixá-las ganhar independência. Todos preferíamos que jogassem pelo seguro, que não saíssem dos limites, que optassem pelos livros em vez das drogas. Mas também já está mais que provado que proteger as crianças em demasia acaba, mais cedo ou mais tarde, por ter o efeito oposto.

 

Além de que, da experiência que tenho, há coisas que os mais velhos não nos conseguem ensinar, por muito que tentem. Há coisas que temos de aprender por nós mesmos. Conheço gente que, por exemplo, se arrepende de não ter estudado mais quando era jovem – e que agora tem filhos que estão a cometer os mesmos erros. 

 

Mesmo eu, que sempre fui uma menina certinha, me arrependo de muitas coisas que fiz (ou não fiz) no início da minha vida adulta. Se tiver filhos, vou tentar evitar que cometam os mesmos erros – mas será que eles ouvirão? Eu não ouvi os meus pais.

 

Falando especificamente de Chester, toda a gente sabe que ele teve uma infância e adolescência horríveis que o marcaram para a vida toda. Devia ter sido mais protegido pelos adultos da sua vida. Ao mesmo tempo, tal como admitiu em Halfway Right, o próprio Chester terá tomado uma série de más decisões e sofreu as consequências.

 

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E no entanto… seria ele o Chester que conhecíamos e adorávamos sem esse passado? Seria ele capaz de criar a música que criou e tocou tanta gente – salvando vidas, tanto em vida como em morte, sentando-se no escuro ao lado dos seus ouvintes, como escrevem aqui – teria ele tido os seus seis filhos, conhecido Talinda? Talvez fosse uma pessoa mais saudável, mais feliz, talvez ainda estivesse entre nós – mas seria o mesmo?

 

Os próprios Linkin Park escreveram na sua mensagem de despedida que sempre souberam que os demónios que levaram Chester faziam parte do pacote. Eu demorei um bocadinho mais a chegar aí. 

 

Isso significa que a morte de Chester era inevitável? É uma das perguntas por responder que se têm mantido nestes últimos três anos: se haveria maneira de evitar isto, o que se podia ter feito.

 

Eu recuso-me a acreditar que era inevitável. Pura e simplesmente recuso-me – tal como não acredito que a morte por suicídio alguma vez seja solução. Vale sempre a pena pedir ajuda e/ou ajudar uma pessoa em dificuldades. Mesmo que só sirva para adiar o desfecho.

 

Consta que Chester podia ter morrido por suicídio mais cedo, algures em 2005 ou 2006. Eu só me tornei fã em 2007. Se ele tivesse morrido nessa altura não estaria aqui a escrever este texto. Estou grata por aqueles dez anos extra. 

 

Torno a repetir a mensagem do início do texto: peçam ajuda. Vocês são importantes, vocês fazem falta, o mundo não é o mesmo sem vocês. Cada dia que passam com aqueles que gostam e que gostam de vocês é um dia ganho. Não deixem de pedir ajuda. 

 

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Por outro lado, só o facto de a perda de Chester ter motivado Talinda, Mike e os outros membros da banda a fazerem campanha pela saúde mental, contribuindo para a mudança na linguagem em torno do tema, só o facto de, como vimos acima, um verso de One More Light ter salvo uma vida, torna tudo isto menos insuportável. Chester continua a salvar vidas. 

 

E é isto One More Light. Como veem, deixa muito a desejar mas não é tão mau como muitos o pintam. Quando estava a planear esta análise antes de Chester morrer, uma das minhas notas para as conclusões era, parafraseando, “A coisa boa no meio disto tudo é que os Linkin Park estão sempre a mudar de estilo. Mesmo que não gostemos deste trabalho, o próximo será diferente”.

 

Pois…

 

Tecnicamente, Mike lançou um álbum a solo no ano seguinte e esse foi, de facto, diferente. Mas não sei se conta

 

De qualquer forma, no fim disto tudo, eu aceitaria vinte ou trinta anos de álbuns piores que One More Light se isso significasse que Chester ainda estaria vivo. Quanto mais não fosse porque os Linkin Park tocariam sempre os velhos êxitos em concerto. Mais: eu aceitaria que os Linkin Park se dissolvessem como banda, que Chester nunca mais criasse música. Ao menos eu saberia que ele estava por aí, com a esposa, com os filhos, com os amigos. 

 

No cômputo geral das coisas, um álbum menos conseguido está longe de ser o fim do mundo. Perder pessoas, perder heróis, é que é horrível. Bolas, uma pandemia como a que estamos a viver, que condiciona as nossas vidas de uma maneira inédita, é que é horrível. Se todos os nossos problemas fossem álbuns maus dos nossos artistas ou bandas…

 

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Ao menos já escrevi sobre One More Light. Agora já posso escrever sobre Hybrid Theory e Meteora, como desejo há imenso tempo. Não assim tão cedo, quero aproveitar o vigésimo aniversário do primeiro álbum dos Linkin Park. E um dia destes dou uma nova oportunidade a A Thousand Suns. 

 

Foi doloroso escrever partes deste texto mas, no geral, a perda de Chester já não dói tanto. Parecendo que não, já passaram quase três anos, já aconteceu tanta coisa desde então. E, como já referi em textos anteriores, de uma maneira estranha, escrever sobre isso faz com que, mais tarde, doa menos. Só com este texto, passá-lo a computador custou bem menos do que escrever o primeiro rascunho.

 

Não sei se conhecem a teoria da bola numa caixa com o botão da dor. No início do luto, a bola ocupa a caixa quase toda, não é preciso muito para que esta pressione o botão. Com o tempo a bola tende a diminuir – a um ritmo diferente para cada pessoa e podem existir alturas em que cresce de novo. Uma bola mais pequena prime o botão menos vezes. A bola nunca chega a desaparecer mas, regra geral, o tempo torna a situação mais fácil.

 

No meu caso, acho que tenho algum controlo sobre a bola. Sei antecipar as situações em que a bola carrega no botão: quando oiço One More Light, a música, quando penso muito no assunto (como tive de pensar para escrever este texto), quando me ponho a ver vídeos dos Linkin Park no YouTube – sobretudo deles, Chester, Mike, fazendo palhaçadas. Assim, procuro evitar estas situações. 

 

O futuro dos Linkin Park continua incerto. No entanto, ficou mais definido nas últimas semanas. Phoenix revelou que, antes de a pandemia ter tomado esta dimensão, a banda andava a criar música. Quando entraram em quarentena suspenderam os trabalhos, naturalmente, mas ainda hoje, de vez em quando, falam sobre o assunto, discutem ideias, no Zoom.

 

Aqui entre nós, eu estava com medo deste momento. A revelação de que os Linkin Park estão a criar música outra vez, o eventual anúncio de um álbum novo, o primeiro sem Chester. 

 

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Não me interpretem mal, eu sempre disse deste o início que apoiaria a banda no que quisessem fazer a seguir. Não significa que seja fácil para mim – pelo contrário, agora é que vai doer como o catano. 

 

Quando se fala nisso, repito para mim mesma “Ainda não estou pronta, ainda não estou pronta, ainda não estou pronta… Lido com isso na altura, lido com isso na altura, lido com issso na altura…”. É o que tenciono fazer. Ainda vai demorar até chegar esse momento, com o Coronavírus e tudo mais. Porém quando for mesmo oficial, tirarei um momento para processar, para lidar com as minhas neuroses, talvez desabafe aqui no blogue, mas, no fim, ficarei contente. 

 

A curto prazo, aqui no blogue o próximo texto será a análise a Petals For Armor, o álbum a solo de Hayley Williams, que saiu há coisa de dez dias. Já estou a escrevê-lo – andava a antecipar este texto há meses, quase desde que publiquei a análise às primeiras músicas, Simmer e Leave it Alone. Neste momento vou em cerca de trinta páginas A5 de notas (OK, com letra grande), ou seja, tenho muito a dizer sobre este álbum. Devo demorar um bocadinho... mas vou divertir-me imenso!


Continuem por aí.

Linkin Park – One More Light (2017) #1

Isto vai doer, mas se não arrancar este penso rápido agora, nunca mais o arranco.

 

ALERTA: Este texto irá abordar temas pesados como depressão, suicídio e causas de suicídio. Se estes temas forem um gatilho mental ou, como dizem os anglo-saxónicos, triggers no sentido de evocarem recordações traumáticas ou outras formas de sofrimento psicológico aconselho-vos a não o lerem. 

 

Se vocês se debatem com pensamentos suicidas ou desejos se fazerem mal a vocês mesmos, por favor, não o façam, peçam ajuda. Deixo aqui linhas de apoio tanto em Portugal como no Brasil. Quem conhecer mais linhas, por favor, deixe nos comentários. O mundo precisa de vocês, peçam ajuda!

 

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Os Linkin Park lançaram One More Light, o seu sexto (e até agora último) álbum de estúdio, há precisamente três anos. Ando a adiar a análise a esse álbum quase desde essa altura. O meu plano inicial era publicar esse texto durante o verão de 2017. Comecei a planeá-lo logo depois de publicar a minha análise a After Laughter. Já tinha inclusivamente escrito a introdução…

 

… mas depois Chester Bennington, um dos vocalistas, morreu

 

A análise ficou, assim, em águas de bacalhau. De início era por motivos de luto, conforme expliquei na altura. Mesmo passados um ano ou dois, já com a fase pior do processo para trás, fui continuando a adiar o texto sobre One More Light. Em parte porque tinha outros textos que queria escrever… mas também porque escrever esta análise não foi fácil e, vejo agora, o meu subconsciente sabia que ia ser assim.

 

Um dos principais motivos para ter custado tanto foi porque teria de dizer mal sobre o último álbum de Chester em vida. Sobretudo quando ele, na altura, estava tão entusiasmado com ele. Ao ponto de ter deixado críticas duras aos fãs que reclamaram do novo som – ele mais tarde retiraria estas palavras, mas agora, em retrospetiva, estas parecem um indício claro de que ele não estava bem. 

 

Sei perfeitamente que não é racional. Lá por ser fã, não tenho a obrigação de venerar automaticamente todo e qualquer material produzido pelos meus artistas ou bandas preferidos. Regra geral, costumo ter boa vontade para com os músicos do “meu nicho”, mas quem der uma vista de olhos pelos textos deste blogue dedicados a música, saberá que tenho sentido crítico. Não sou menos fã por isso. 

 

Da mesma forma, nenhum artista ou banda tem a obrigação de criar música perfeitamente talhada para os meus gostos.

 

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Dito isto tudo, por muito irracional e hipócrita que seja… quando há uma perda como esta é diferente. As pessoas não gostam de dizer mal dos mortos. Por um lado, não estão cá para se defenderem. Por outro, porque, depois de os perdermos, consolamo-nos recordando os seus melhores feitos. Não as coisas que ficaram abaixo das nossas expetativas. 

 

Em todo o caso, já prolonguei isto durante demasiado tempo. Até porque quero escrever sobre outros álbuns dos Linkin Park – nomeadamente Hybrid Theory e Meteora. Fazê-lo antes de escrever sobre One More Light ia parecer mal.

 

Muito bem, chega das minhas tretas, vamos a isto. Como tenho muito a dizer sobre este álbum, esta análise será dividida por duas publicações. A segunda parte virá ainda hoje, mais tarde. 

 

Os meus problemas com este álbum resumem-se a dois pontos. O primeiro diz respeito à instrumentação e produção da maioria das faixas. Conforme já tinha reclamado referido quando escrevi sobre Heavy (meu Deus, parece ter sido há séculos!), até aos trabalhos de One More Light, a banda compusera sozinha. Para este álbum, no entanto, os Linkin Park convidaram pessoas de fora para ajudarem na composição. 

 

Não tenho nada contra esse desejo por princípio. Há muito que me arrependi de ter falado em comercialismo na minha análise a Heavy. Também não tenho problemas com os Linkin Park fazendo música pop, menos agressiva – sobretudo depois de o álbum anterior ter sido o completo oposto.

 

O meu problema não é a ideia, a intenção. O meu problema é a execução – pelo menos no que toca à produção e instrumentação da maior parte das músicas. 

 

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Os Linkin Park sempre incorporaram elementos eletrónicos no seu som, bons elementos. As introduções de Crawling e Numb, Breaking the Habit, a sequência depois do segundo refrão em New Divide, álbuns como A Thousand Suns (destacando-se temas como Robot Boy e The Catalyst) e Living Things (destacando-se temas como Lost in the Echo e Burn it Down). Mesmo Post Traumatic é quase todo eletrónico – a instrumentação nem sempre é destaque, mas não prejudica. 

 

Na maior parte de One More Light, no entanto, o instrumental é uma mixórdia eletrónica, descaracterizada. Não percebo o que aconteceu. 

 

Segundo o que Mike explicou em entrevistas, eles mudaram o processo de composição para este álbum. Antes começavam com um instrumental, depois uma melodia compatível, depois a letra. Para One More Light, começavam com um conceito e/ou uma história pessoal que inspirasse a letra, compunham a melodia e, por último, o acompanhamento musical. 

 

Uma vez mais, nada contra, mas não percebo várias das decisões neste último passo.

 

Havemos de dar exemplos mais específicos mais adiante, quando falarmos sobre as faixas individualmente. Para já, o segundo problema que tenho com este álbum não é bem uma falha do mesmo, antes uma frustração minha. O facto de Chester só ter composto duas canções neste álbum, Heavy e Halfway Right (segundo o Genius, ele também terá composto One More Light, a música, mas o Wikipédia contradiz essa informação). 

 

Uma boa parte de One More Light, o álbum, foca-se em temas de depressão, toxicodependência, erros seus, má fortuna, amor ardente (OK, amor ardente nem por isso, pelo menos não neste álbum). Chester era aquele que, dentro da banda, sempre assumiu esse histórico. Qualquer pessoa assumirá que músicas como Nobody Can Save Me ou Sharp Edges serão sobre a vida dele. Corrijam-me se estiver enganada, já lá vão três anos, mas tanto quanto me lembro os próprios Linkin Park promoveram o álbum um pouco nessa direção. 

 

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Mas se Chester não é creditado como compositor nestas músicas, como podemos ter a certeza? Com sabemos se é mesmo Chester cantando sobre a sua perspetiva, os seus sentimentos, ou se foi Mike ou Brad colocando-se no lugar dele?

 

Dando um exemplo específico: o próprio Chester afirmou em entrevista que a letra de Talking to Myself coloca-se no ponto de vista da sua esposa, Talinda, enquanto observava o marido em modo autodestrutivo. Mas, lá está, o nome de Chester não consta da lista de compositores. Chester disse a Mike e aos outros o que escrever? Eles mesmos imaginaram-se no lugar de Talinda? Qual foi o nível de envolvimento de Chester?

 

Se as circunstâncias fossem outras, talvez não me preocupasse tanto com isto. No entanto, este foi o último álbum de Chester em vida, antes de morrer por suicídio, vítima de depressão – um dos temas abordados em One More Light. Não faria sentido ter uma maior participação de Chester, sabermos diretamente da boca dele, da caneta dele, o que se passava no seu coração?

 

Enquanto escrevo isto percebo que estou a ser injusta, a obcecar com algo que não se relaciona diretamente com One More Light. Nem sequer sei a quem dirijo estas críticas que não chegam a sê-lo. É a parte de mim que ainda se interroga porque é que Chester teve de partir tão cedo e daquela maneira, quando supostamente estava melhor, o que é que correu mal. E ressinto-me de One More Light por não dar essas respostas.

 

Não é justo, sei que não é. Quando os Linkin Park estavam a trabalhar neste álbum, não podiam adivinhar o que aconteceria dois meses após o lançamento. Não podiam adivinhar que teríamos todas estas perguntas para as quais ninguém tem resposta.

 

E no entanto… será que quero essa resposta? Será que quero saber exatamente o que falhou? Que ganharia com isso?

 

Estão a ver porque é que eu não queria escrever sobre este álbum?

 

 

Vou deixar as minhas tretas de lado (agora sim, deixo mesmo!) e começar a falar das músicas em si. Heavy foi o primeiro single de trabalho. Conforme referi antes, escrevi sobre ele na altura em que saiu. 

 

Apesar de ainda não gostar muito da canção, hoje compreendo-a melhor – depois de ter lido e ouvido declarações de Chester sobre a mesma. Este explicou em várias entrevistas – ao longo de toda a sua carreira, aliás, muito antes de Heavy – que a sua mente é… ou melhor, era um território hostil, que ele era o seu próprio pior inimigo. Chester possuía uma compulsão para ansiedade, pensamentos sombrios, autodestrutivos, em focar-se no negativo. 

 

Ele argumentava que toda a gente tinha essa tendência, em diferentes graus. Eu concordo e sei que tenho. Por exemplo, tenho um dia menos conseguido no trabalho e não consigo pensar noutra coisa durante o resto do dia – para no dia seguinte nem perceber ao certo o que me incomodava tanto. Ou então, sinto-me mais ou menos satisfeita e em paz e, de repente, começo a pensar “Ah, mas não te esqueças que tens de te preocupar com isto e isto e isto.”

 

Consta que é um mecanismo evolutivo. Os cientistas chamam-lhe “viés negativo”. Impede-nos de nos tornarmos complacentes, força-nos a estar atentos ao perigo, a anteciparmos ameaças, a evitarmos situações desagradáveis. 

 

Tem as suas vantagens em doses terapêuticas mas, como tudo na vida, o problema é quando se exagera. Pessoas com doenças mentais e/ou um passado traumático (vide Chester para ambos os casos) terão mais tendência para exagerar. A partir de certo ponto uma pessoa não consegue desligar esse modo negativo, não se consegue focar no presente, aproveitar o momento. Segundo Chester é uma luta constante. 

 

Se formos a ver, este não é um tema inédito na discografia dos Linkin Park. músicas como Given Up e sobretudo Papercut. Durante umas semanas tive vontade de ir ao vídeo de Papercut – um clássico dos Linkin Park, misturando rap e rock, bastante agressivo – no YouTube e deixar como comentário algo do género “So you’re saying you don’t like your mind right now?”. Uma provocaçãozinha para os fãs mais puristas.

 

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Mas depois Chester morreu e perdi a vontade de ser engraçadinha.

 

Continuo a não gostar muito da música. Sobretudo por causa da instrumentação. Mas reconheço que fui dura demais na minha primeira análise. 

 

Battle Symphony foi o segundo single de One More Light e também o analisei na altura. As minhas opiniões sobre esta música não mudaram muito desde que escrevi esse texto. Dizer apenas que gosto bastante desta versão ao piano

 

O mesmo acontece com Heavy, na verdade. É a questão da produção/instrumentação de novo. Deem instrumentais decentes a estas músicas e a qualidade aumenta logo. Mas não entremos por aí de novo.

 

Um aspeto curioso em relação a Battle Symphony, por outro lado, é que ainda hoje gosto de ouvi-la emparelhada com Liability, de Lorde. Foram lançadas com cerca de uma semana de intervalo, ouvi-as várias vezes na mesma altura para as analisar, acabaram por se associar na minha cabeça. Tem piada porque, de resto, as duas não têm muito em comum.

 

O single seguinte foi Good Goodbye, a faixa outlier de One More Light, com a participação de Pusha T e Stormzy.. Esta no fundo é uma versão mais soft, mais pop, dos clássicos rap/rock dos Linkin Park. Mesmo a letra parece ter sido escrita de modo a poder ser ouvida por menores de doze anos: o pico da agressividade é chamarem “idiota” ao interlocutor e mandarem-no para casa.

 

 

Compreende-se. Enfiarem um tema mais pesado e agressivo naquilo que é essencialmente um álbum pop faria com que a música se destacasse mais pela negativa. 

 

Gostava de chamar a atenção para dois pormenores da letra – versos que realçam a veterania dos Linkin Park enquanto banda. Mike dizendo “I’ve been here killing it longer than you’ve been alive, you idiot” e Stormzy referindo nas suas estâncias que agora tem uma música com os Linkin Park.

 

Eu na verdade até gosto desta música, mais do que esta merece. Ouvia-a bastante em 2017. Antes de começar a escrever esta análise, não a tinha ouvido em algum tempo. Pensava que, quando voltasse a ouvi-la, não lhe acharia tanta piada, mas ainda gosto. Lá está, não tanto como clássicos como Faint ou Papercut ou Bleed it Out, nem sequer está entre as minhas preferidas neste álbum, mas não deixa de ser uma música gira.

 

Invisible foi a última canção a ser publicada antes do resto do álbum. Este é uma das relativamente raras canções na discografia dos Linkin Park em que é apenas Mike a cantar (Chester apenas contribui para os backvocals). Tendo em conta o tema da canção, faz sentido. Segundo Mike, Invisible é uma carta aos seus filhos, para eles ouvirem quando forem adolescentes e se sentirem incompreendidos pelos pais.

 

A letra tenta antecipar eventuais discussões, tentativas da parte de Mike ou da esposa, Anna, de fazer o que acha ser o mais adequado para os filhos, mesmo que eles não gostem na altura. Segundo o próprio Mie, os filhos ainda são pequenos, mas já têm personalidades vincadas e “quando tiverem dezasseis anos vão dar-nos o ‘Pai, odeio-te, não me compreendes, blá blá blá’”, vão bater com a porta, meter headphones e ignorar os pais.”

 

Estou a rir-me porque a minha geração punha Linkin Park a tocar nos headphones que usávamos para ignorar os nossos pais. Numb, então, parece ter sido criada para esse uso. No entanto, agora Mike e os outros estão do lado dos pais, não dos filhos. 

 

 

Pergunto-me se os filhos de Mike algum dia usarão as músicas dos Linkin Park contra ele. Se a meio de uma discussão os miúdos acusarão Mike de achar que cada passo que os filhos dão é outro erro que eles cometem. Fico curiosa.

 

A letra é interessante, sim, a musicalidade nem por isso. Este é outro caso de instrumentação que não impressiona. Mike não canta nada mal, mas a música é demasiado monocórdica, está sempre no mesmo tom, não entusiasma. 

 

Nesse aspeto, Sorry for Now está melhor conseguida. Esta também é uma carta de Mike para os seus filhos – desta feita dizendo respeito às suas longas ausências em digressão. Em suma, uma sequela a Where’d You Go, do seu projeto lateral Fort Minor.

 

É sempre complicado explicar a miúdos pequenos porque é que a mãe e/ou o pai não podem estar sempre com eles – seja por umas horas, para ir trabalhar, seja durante semanas ou meses, como acontece com músicos como Mike. Ainda me lembro de ver a minha irmã com um ano de idade, chorando todas as manhãs quando os meus pais saíam para o trabalho. E lembro-me de ser difícil, tanto para mim como para os meus irmãos, quando os nossos pais tinham de fazer noites.

 

Nem quero imaginar o quão difícil será para os miúdos terem de passar semanas ou meses sem ver os pais.

 

Não admira que, nas primeiras semanas após a morte de Chester, uma das filhas dele, Lily, tenha perguntado se o pai estava “em digressão nos nossos corações”. Na altura associava as ausências de Chester a digressões.

 

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E com isto vou mudar de assunto antes que comece a chorar. 

 

Musicalmente, Sorry for Now é mais interessante que Invisible por vários motivos. Há maior variação ao longo da faixa, tanto no instrumental como na interpretação de Mike – ele até canta bem, notas mais agudas do que o costume! 

 

Eu, no entanto, dispensava os vocais artificiais. Já me queixei deles em Dedicated, de Carly Rae Jepsen, também estragaram várias músicas de One More Light, como esta.

 

A minha parte preferida de Sorry For Now é a terceira parte, quando Chester aparece do nada. É uma variação à fórmula de algumas músicas dos Linkin Park, como Burn it Down, em que Chester canta as duas primeiras partes e Mike vem na terceira com um rap. Embora, em Sorry For Now, o rap seja mais melódico que o habitual.

 

E com isto vamos fazer uma pausa na análise. Não percam a segunda parte, que vem ainda hoje. 

Músicas Não Tão Ao Calhas – Bright

Não estava nos meus planos escrever este texto mas aqui estamos.

 

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Bright é uma canção de Avril Lavigne, composta e gravada durante os trabalhos de Head Above Water, mas que foi excluída do alinhamento final do álbum. Há cerca de três semanas apareceu na Internet. Logo nas primeiras audições a música deixou a sua marca em mim. Pus a hipótese de escrever sobre ela, mas deixei-a de lado. Em parte porque ainda estava a trabalhar no meu texto anterior e tinha planos para escrever outro a seguir, em parte porque não era um lançamento oficial. Não que me tenha servido de impedimento antes, mas mesmo assim.

 

No entanto, a verdade é que a música tem vindo a significar mesmo muito para mim. Acabei por chegar à conclusão de que o tema tem uma mensagem importante nestes tempos conturbados que atravessamos, não podia deixar de escrever sobre ela. Estamos todos a precisar de uma canção como Bright.

 

Um pouco de contexto antes. Hoje em dia qualquer fã de Avril estará fartinho de saber que ela contraiu Doença de Lyme em 2014 e passou os anos seguintes a lutar contra a doença. Durante os primeiros dois, três anos da doença, deixou de poder fazer a sua vida normal. Houveram alturas em que ficou de cama, incapaz de realizar tarefas básicas, como lavar os dentes. Chegou a pensar que não conseguiria retomar a sua carreira musical ou mesmo sobreviver. 

 

Uma coisa de que me apercebi por estes dias foi que aquilo por que estamos a passar neste momento – a quarentena, o isolamento social – foi mais ou menos aquilo que Avril teve de fazer durante os seus primeiros anos da sua doença. A menos que tenhamos sintomas graves do Covid-19, não estamos tão debilitados como ela chegou a estar, felizmente, mas também estamos confinados às nossas casas, com as nossas vidas em pausa, sem saber quando, ou se, conseguiremos retomá-las. 

 

E agora, que Avril já tinha recuperado a sua vida, a sua carreira, tinha conseguido gravar e lançar um álbum, já tinha estado em digressão pelos Estados Unidos e Canadá, preparava-se para regressar à Europa e à Ásia (e eu ia vê-la a Zurique), isto acontece, ela é obrigada a colocar a sua vida, a sua carreira, em pausa outra vez.

 

Esta pandemia não está a ser fácil para ninguém e o caso de Avril está longe de ser o pior. Longe de mim insinuar o contrário. Mas não deixa de ser cruel.

 

 

Bright é uma canção que documenta bem a vida de Avril condicionada pela Doença de Lyme – melhor que as músicas da edição padrão de Head Above Water, tirando, quanto muito, a faixa-título. É possível que tenha sido composta mais ou menos na mesma altura em que Head Above Water e Warrior foram, quando Avril só tinha forças para se levantar da cama e se sentar ao piano. 

 

A produção é relativamente simples e minimalista – é possível que isto seja só uma demo. É conduzida pelo piano, a que se junta a percussão, teclados discretos e, apenas no pós-refrão e terceira parte, sintetizadores.

 

O foco deste texto não é a parte musical, no entanto, é a letra – que pode ter sido inspirada pelas dificuldades de Avril com o Lyme mas também pode ser aplicada à nossa situação. Bright começa com “Everything is numb. I lost all the feelings in my bones. Got no place to go.” Não sei como é com vocês, mas ultimamente tenho tido dias de desânimo, em que me custa sair da cama, em que não me apetece fazer nada – ou melhor, só me apetece fazer coisas improdutivas como jogar Sims ou Candy Blast Mania no meu telemóvel. 

 

Os versos do pré-refrão continuam nessa linha: “I’ve been sleeping through the days and nights”. A frase seguinte vai mais longe: “I’ve been feeling I can’t even fight for things that used to get me feeling so alive”. Avril aqui falará provavelmente sobre o facto de não poder fazer aquilo que mais gosta: cantar, ir em digressão. A mim, no entanto, recorda-me tudo o que o vírus nos tem tirado: a possibilidade de trabalharmos, para muitos nós; concertos, jogos de futebol, cinema, teatro e todo o género de eventos com multidões.

 

As coisas que, lá está, nos dão alegria, sentido, que nos fazem sentir vivos.

 

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Na segunda estância Avril canta “Feeling like I’m somewhere in between. Everything I know slowly coming back to meet me”. Faz-me lembrar 26, dos Paramore.I talk to myself about the places that I used to go”. Estando nós impedidos de viver experiências novas, uma das coisas que temos feito é olhar para trás. Como por exemplo recordando a final do Euro 2016. 

 

Admito desde já que não tenho autoridade para criticar tais atitudes. Sempre tive esse defeito: viver no passado, recordando períodos felizes, ignorando as coisas boas do presente. Além de que serei a última pessoa a criticar recordações da final de Paris – ainda hoje me emocionam vídeos como este e sei perfeitamente que iremos falar desse jogo até ao fim dos nossos dias.

 

No entanto, nesta fase do campeonato, não me tem ajudado muito olhar para o passado. Ao fim de algum tempo, só me recorda daquilo que não podemos fazer. 

 

Tendo em conta aquilo que se está a passar agora, estou grata pelas oportunidades não desperdicei nos últimos anos. Todos os jogos da Seleção a que fui, sobretudo a final da Liga das Nações no Porto. Os concertos dos Sum 41, da Shakira, de Bryan Adams, os encontros do Odaiba Memorial Day. Todos os almoços e jantares com família, colegas ou amigos, festas de anos dos meus primos pequenos. As viagens que tenho feito. As férias na praia. Até mesmo coisas menores como os passeios com a minha cadela, as tardes de escrita na esplanada. 

 

Mas também tudo isto me recorda que tão cedo não serei capaz de formar novas recordações para juntar a essas. O concerto da Avril foi cancelado e ainda não foi remarcado. O Euro 2020 foi adiado para o próximo ano. Era suposto o meu irmão vir passar a Páscoa connosco, no Algarve. É possível que o encontro do Odaiba Memorial Day não tenha de ser cancelado, pois será só em agosto, mas ainda não se tem a certeza.

 

E seria uma chatice cancelar o evento deste ano – logo agora que vão lá estar dobradores!

 

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No refrão, Avril compara-se a uma estrela cadente. Que surge no céu, brilha durante alguns segundos e depois desaparece na escuridão. Se pensarmos um bocadinho nesta frase, se assumirmos que é uma metáfora da sua carreira, dos seus sonhos… é triste. 

 

Não duvido que hajam pessoas com sentimentos semelhantes neste momento – que tiveram de pôr as suas vidas, os seus projetos, os seus sonhos em pausa, e correm o risco de perdê-los definitivamente.

 

A segunda parte do refrão é mais otimista, falando da necessidade de manter os olhos no céu, não perder a luz de vista. O verso “Out of the darkness we burn so bright” faz-me pensar nos exemplos do melhor da humanidade que temos visto: o sacrifício de médicos e enfermeiros, pessoas cantando à janela, as mensagens de esperança de jornalistas, partilhadas nas redes sociais (com graus diferentes de realismo e lamechice mas, eh pá, se isso ajudar uma pessoa que seja a tornar isto tudo menos insuportável, não sou eu que vou criticar), os utentes que vêm à minha farmácia buscar medicamentos para os familiares e vizinhos, a senhora que, no outro dia, nos ofereceu umas fatias de bolo de chocolate. 

 

Na terceira parte, Avril fala sobre agarrar-se à sua luz interior, sobre lutar para recuperar os seus sonhos. Quando ela escreveu esta letra referia-se por certo à sua saúde. Aplicando à atualidade, no entanto, à pandemia, torna-se paradoxal porque, para muitos de nós, a única maneira que temos de lutar pela nossa liberdade é… continuando prisioneiros. 

 

 A solução passará mesmo pela ideia defendia pelo refrão: continuarmos à procura da luz, agarrar-nos ao nosso melhor lado – ao civismo, à solidariedade, à esperança. Acreditar que, mais cedo ou mais tarde, isto passará. Que, como dizem nas internetes, iremos todos ficar bem.

 

Ainda que eu tenha algumas reservas.

 

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Em suma, não sendo uma letra super original, Bright é melhor que músicas como Warrior e mesmo Head Above Water ou It Was in Me até certo ponto. Isto porque, como acabámos de ver, em vez de se pôr com clichés, Avril diz exatamente aquilo que sente: a apatia, a frustração, a determinação, a esperança. E, pelo menos falando por mim, isso repercute na audiência, sobretudo numa altura como esta. 

 

Bright podia e devia ter sido incluída em Head Above Water. Talvez soasse um bocadinho redundante com Warrior ou a faixa-título mas este álbum está cheio de redundâncias. Birdie, I Fell in Love with the Devil e Tell Me It’s Over sobre relações tóxicas; Crush e Love me Insane sobre redescobrir o amor. Se era para haver repetição de temas neste álbum, que fosse, sobre a sua luta contra a Doença de Lyme – aquilo que, supostamente, seria o conceito principal de Head Above Water.

 

Por outro lado, não posso negar que Bright apareceu na Internet numa altura excelente. Pergunto-me se isso foi deliberado da parte do pirata informático que desencantou esta canção (simpático da parte dele ou dela) ou se foi mera coincidência.

 

Em todo o caso, é por situações como esta (que, como neste caso, nem sempre estão sob o controlo dela) que Avril se vai mantendo no topo das minhas preferências, mesmo sem o merecer por completo. Ela será sempre a minha mãe musical.

 

Espero, assim, que Bright também vos dê consolo e alento enquanto esperamos que esta pandemia se resolva. 

 

Quanto a este blogue, tinha referido na publicação anterior que queria escrever textos em atraso. E é o que tenho feito. Tenho estado a trabalhar numa análise que ando a adiar há muito tempo. No entanto, quero publicá-la numa data específica em maio. Ainda vão ter de esperar para poderem lê-la. 

 

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Entretanto, comecei outro projeto, algo inesperado. Um diário. 

 

Tinha visto de passagem no Twitter sugestões para escrevermos diários durante este período de pandemia – um período que, todos concordam, vai mudar o Mundo, que será estudado por historiadores no futuro. A ideia ficou-me no subconsciente, um dia destes ressurgiu e resolvi colocá-la em prática. 

 

Não voltei a encontrar o tweet em questão, mas tenho encontrado vários artigos sobre o assunto, encorajando as pessoas a escreverem diários. Para além dos benefícios psicológicos numa situação difícil e extraordinária como esta, no futuro estes diários serão objetos de estudo de historiadores. Servirão para informá-los acerca do impacto que esta pandemia está a ter no dia-a-dia de pessoas comuns como nós – algo que nem sempre é fácil descobrir através de fontes oficiais. 

 

A autora deste artigo, por exemplo, revela que escreveu no seu diário sobre as primeiras semanas ou meses após o 11 de setembro, a maneira como as pessoas da sua comunidade estavam a reagir à tragédia. Por outro lado, também escreveu sobre a maneira como viveu a vitória do seu clube, The New England Patriots, na Super Bowl. 

 

Não posso deixar de comentar esse aspeto pois foi precisamente com esse fim (ainda que de forma inconsciente) que criei o meu blogue sobre a Seleção Nacional. 

 

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Neste artigo referem que será preferível escrever um diário manuscrito em vez de digital. Supostamente serão mais duradouros.

 

Será verdade? Tenho as minhas dúvidas – não encontrei nenhuma fonte que corroborasse essa teoria. Mas suponho que, para um historiador, será mais fácil estudar um velho caderno escrito por uma tia-avó do que escavar por entre toneladas de lixo digital, tentando separar publicações sérias de desinformação.

 

Não me interpretem mal, se preferem escrever ao computador, num blogue ou num ficheiro Word protegido por palavra-passe (ainda é possível proteger ficheiros Word com palavra-passe?), estejam à vontade. Escrever é sempre bom. 

 

Eu no entanto prefiro escrever o meu diário à mão. Mesmo que não sirva de objeto de estudo para um historiador, pode ser que algum descendente meu queira ler sobre a minha vida durante a pandemia. Se nem para isso servir, será apenas um exercício de entretenimento e auto-reflexão.

 

Ora, visto que tenho escrito sobre coisas que ocorrem na minha família ou no meu emprego, não poderei partilhar o meu diário na íntegra aqui no blogue. A ideia é este diário só ser lido daqui a muitos anos – quando aspetos que hoje são privados já não serão relevantes. Mas poderei eventualmente publicar alguns excertos – com alguma distância temporal. 

 

Este texto foi adaptado de uma das entradas do meu diário, na verdade. Precisamente por causa do impacto que Bright teve em mim. 

 

Vou, assim, passar estes dias de quarentena e isolamento social a escrever, quer no meu diário quer neste blogue (o outro, infelizmente, vai ficar em águas de bacalhau por tempo indefinido). Quanto a vocês, lavem as mãos, fiquem bem e em casa. De uma maneira ou de outra isto há de passar. 

Pérolas escondidas de Bryan Adams #2

Segunda parte da minha lista de músicas menos conhecidas de Bryan Adams mas que mereciam mais atenção. Podem ler a primeira parte aqui

 

Ontem ficámos com Victim of Love. Agora vamos saltar mais de dez anos e vários álbuns até On a Day Like Today para falar de... 

 

 

  • Fearless & Lie to Me (& Before the Night is Over)

 

 

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On A Day Like Today é um dos meus álbums preferidos de Bryan Adams pura e simplesmente porque tem muitas músicas de que gosto. Já escrevi sobre How Do Ya Feel Tonight. Também gosto imenso de C’mon C’mon C’mon – soa a uma sequela à mensagem esperançosa da faixa anterior.

 

Durante muitos anos tive uma obsessão pela faixa-título. Já arrefeceu um bocadinho, mas faz parte da minha playlist da Seleção (à semelhança de Here I Am) e ainda hoje gosto bastante dela. Cloud Number 9 está numa situação semelhante: o meu eu aos treze/catorze anos ficava de coração derretido com a versão Chicane Mix dessa música, incluída em The Best of Me. 

 

E estas são apenas algumas. Hoje, no entanto, queria chamar a atenção para duas músicas neste álbum que abordam o tema de traições, que contam a história segundo personagens diferentes do triângulo amoroso.

 

Tecnicamente este álbum tem três músicas sobre o assunto. No entanto, Before the Night is Over é, na minha opinião, a menos interessante. Consideremo-la uma menção honrosa. 

 

Before the Night is Over tem várias semelhanças com One Night Love Affair – conforme apontaram há relativamente pouco tempo no grupo de fãs de Bryan Adams no Facebook. Tanto em termos instrumentais como temáticos – ao ponto de, segundo pessoas desse grupo, Bryan ter tocado um medley das duas durante a digressão de On a Day Like Today (não encontrei provas disso na Internet, no entanto).

 

 

(Um aparte só para dizer que, no concerto deste vídeo, só tinham o Keith Scott a tocar guitarra, Bryan ficou com o baixo e... não gosto. Como disse Vallance numa entrevista que li há imenso tempo, fica um buraco na música quando Keith faz um solo.)

 

Como vimos antes, One Night Love Affair fala sobre um caso de uma noite só com consequências inesperadas para o narrador. Before the Night is Over também se foca numa aventura romântica, aparentemente também de uma única noite (embora não seja muito certo). Desta feita, ambas as partes estão comprometidas com outras pessoas: um quadrado amoroso, portanto. Aqui o narrador sabe perfeitamente que está a cometer uma transgressão mas não se importa – o proibido faz parte do apelo.

 

É uma música gira, mas as outras duas de que vos vou falar são melhores, a meu ver. À semelhança de outras canções de Bryan, tem uma sequência de guitarra elétrica que lhe serve de imagem de marca – neste caso, uma série de três acordes no fim de cada verso das estâncias e no início de cada verso do refrão.

 

A letra de Fearless é narrada pelo “outro” – o homem com quem o interesse romântico está a trair o companheiro oficial. O narrador que que a sua amada deixe o parceiro romântico e se junte oficialmente a ele. 

 

Desde que ouvi esta música pela primeira vez não consigo evitar imaginar um videoclipe a partir das imagens pintadas pela letra (talvez um bocadinho literais, admito). Ela acordando na cama com o narrador, no início da primeira estância. Vestindo-se e preparando-se para sair enquanto o narrador pede-lhe que fique. Na segunda estância estão ambos no carro do narrador, parados em frente da casa dela. O narrador tenta dissuadi-la de entrar em casa, tenta convencê-la a deixar o companheiro, mesmo no caminho até à porta da frente. O narrador decide mesmo confrontar o seu rival, lá está, “sem medo”.

 

 

No fim, a questão fica no ar. Quem irá ela escolher? Na letra de Fearless, o narrador parece convencido que a amada o prefere ao companheiro, mas só ouvimos a história da perspetiva dele. Será ele capaz de ver as coisas como são?

 

Mesmo que a mulher decida deixar o companheiro para se juntar ao narrador, eu não poria as mãos no fogo por essa relação a longo prazo. Sobretudo se ela se mostra tão relutante em deixar o parceiro oficial… Costuma-se dizer que, se ele(a) traiu contigo, é provável que, mais cedo ou mais tarde, te traia. Talvez seja assim que ele(a) lida com problemas na relação.

 

Por sua vez, Lie to Me conta a história da perspetiva do homem que está a ser traído… mas que não quer enfrentar essa realidade. Pelo menos não por agora.

 

Musicalmente, Lie to Me tem um tom relativamente grave e intimista, a condizer com a vulnerabilidade da letra. Faz lembrar outra música do álbum, Inside Out, embora esta última tenha uma sonoridade um pouco mais etérea. Por sua vez, o início da melodia nas estâncias faz lembrar Cloud Number 9. 

 

Na letra de Lie to Me, o narrador percebe que a companheira está a traí-lo, que a relação está com problemas, mas não quer confrontá-la (nem a si mesmo) com a verdade. Não se sente com forças para isso.

 

É uma situação bastante triste, na verdade. Como já referi antes, é parecida com a True Love dos Coldplay. É possível que hajam muitas pessoas que se conseguem identificar com esta letra, que até tenham feito o mesmo em circunstâncias parecidas: insistirem numa relação sem futuro só mesmo porque era confortável, servia de consolo, tinham medo de ficar sozinhos. 

 

 

Voltando ao cenário anterior, do videoclipe, seria cruel se o outro escolhesse este preciso momento para confrontar o seu rival. Por outro lado, não estou a ver a mentira aguentar muito mais tempo.

 

Suponho que a moral da história seja: sejam fiéis aos vossos parceiros. Ninguém gosta de triângulos amorosos em ficção e muito menos na vida real. 

 

 

  • Not Romeo Not Juliet

 

 

O álbum Room Service, lançado em 2004, tem valor sentimental para mim porque foi o primeiro álbum de estúdio de Bryan cujo lançamento testemunhei. Depois de algumas semanas ouvindo Open Road na rádio, comprei o CD no dia em que saiu – o mesmo dia em que comecei o décimo ano numa escola nova. Nos primeiros meses, o álbum serviu-me de consolo enquanto eu me tentava adaptar a uma nova realidade. 

 

Músicas como, lá está, Open Road, This Side of Paradise, Flying, Room Service, sempre me agradaram. Tive uma fase, nos primeiros tempos com o álbum, em que andei obcecada com I Was Only Dreamin’. She’s a Little Too Good For Me é hilariante. 

 

Ainda hoje gosto muito de East Side Story. Até há bem pouco tempo considerava-a uma antecessora de You’re Beautiful, de James Blunt – a mesma história de “homem atraído por uma mulher que vê nos transportes”, com a diferença de que a música de Bryan decorre num autocarro e a de James decorre no metro… até descobrir o verdadeiro significado de You’re Beautiful

 

Agora que penso nisso, acho que gosto mesmo de todas as músicas deste álbum. Às tantas será mesmo o meu preferido de Bryan.

 

 

Curiosamente, a canção sobre a qual vou escrever agora terá sido a que demorou mais tempo a cativar-me – cerca de meia dúzia de anos. Not Romeo Not Juliet tem um ritmo midtempo que me recorda músicas como Complicated e Hand In My Pocket. O seu ponto de destaque, no entanto, é a letra.

 

Not Romeo Not Juliet assemelha-se a Victim of Love no sentido em que a letra aborda o tema do amor de uma maneira atípica para Bryan – neste caso tem uma visão mais prática e realista, sobretudo quando comparada com as várias canções românticas idílicas na discografia do cantor. 

 

Esta canção conta a história duas personagens cínicas, endurecidas pela vida, infelizes, que se juntam só mesmo para fazerem companhia um ao outro. Para não terem de ser infelizes sozinhos. Não admitem, sequer, que seja amor. Veem-se a si mesmo como simplesmente duas pessoas juntas, sem expectativas, sem pressões. A ver no que dá.

 

O narrador defende que o amor nunca é perfeito, ao contrário do que muitas vezes se pensa. Nunca se tem a certeza absoluta. Pelo menos não se não houver um esforço nesse sentido. (“We’re nothing unless we try”)

 

O título da música vem da frase “We’re not Romeo, we’re not Juliet”... mas haverá alguém que queira ser Romeu e Julieta? Dois adolescentes que arruinaram as suas próprias vidas para se casarem e acabaram mortos? Só pessoas que nunca leram ou viram a peça, que pensam que Love Story é uma adaptação fidedigna. 

 

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Para sermos justos, não parece haver consenso sobre se Romeu e Julieta é uma épica história de amor ou uma fábula. Eu mesma não consigo decidir-me. Se a intenção de Shakespeare era avisar acerca da irracionalidade das paixões adolescentes, porque incluiu a reconciliação das famílias no fim da história – dando a entender que, ao menos, surgiu uma coisa boa da tragédia? 

 

Será a moral da história para os pais? Avisá-los para as consequências dos seus ódios e mesquinhezes, de forçar as filhas a casarem (no caso de Capuleto)?

 

E com isto desviei-me imenso do assunto do texto. Isto tudo para dizer que os protagonistas de Not Romeo Not Juliet não são adolescentes ingénuos, imaturos emocionalmente, longe disso. São adultos com experiência de vida, de sofrimento, que não são conduzidos exclusivamente por emoções. Ou seja, é provável que tenham um final mais feliz que Romeu e Julieta.

 

 

  • The Way of the World

 

 

Em termos sentimentais, 11 está numa situação parecida à de Room Service. Foi apenas o segundo álbum de Bryan cujo lançamento acompanhei, três anos e meio após o disco anterior (na altura era muito tempo). No ano anterior tinha descoberto que era possível acompanhar a atividade de artistas através da Internet (foi na altura que descobri os sites de fãs de Avril Lavigne). Assim, nas semanas antes de o álbum sair, li várias entrevistas e declarações, fiquei a par do essencial.

 

11 era para ser um álbum acústico. No entanto, depois de Bryan fazer uma pausa nos trabalhos deste disco para ir em digressão, este decidiu que não queria deixar o rock de fora. Desse modo, manteve a base acústica, mas incorporou mais guitarras elétricas do que o previsto. Ainda assim, Bryan passaria os anos seguintes dando concertos estilo Bare Bones. O disco recebeu o nome de 11 pura e simplesmente porque era o décimo-primeiro álbum de estúdio e Bryan não teve imaginação para mais. 

 

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O álbum foi também marcado pelo regresso da parceria com Jim Vallance, após cerca de quinze anos sem colaborarem – ele e Bryan zangaram-se no início dos anos 90 e, segundo o que li, não foi bonito, foi parecido com um divórcio. 

 

Havemos de regressar a Vallance. Para já, dizer que me lembro de ouvir I Thought I’d Seen Everything semanas antes de o álbum sair (foi lançado como single no dia em que fiz dezoito anos, mas só a descobri dias mais tarde). Ainda hoje gosto muito dessa música. Já escrevi sobre She’s Got a Way. Broken Wings é uma que tem sobrevivido ao teste do tempo, é uma canção de amor não muito original mas reconfortante.

 

A música de que falamos hoje é uma das minhas preferidas em 11 e nem sequer faz parte do alinhamento padrão. Para encaixar no conceito do título, este álbum só podia ter onze faixas, logo, algumas tiveram de ficar de fora. Por sinal, entre essas encontram-se duas das minhas preferidas.

 

Com Way of the World foi particularmente cruel. Esta encontrava-se entre as prévias publicadas no site de Bryan antes do lançamento de 11 e cativou-me logo. Mas depois o álbum saiu sem Way of the World. Antes da edição Deluxe, lançada mais de seis meses depous, seria um exclusivo do iTunes – que eu, na altura, não sabia usar. Não que isso tenha atrapalhado durante muito tempo pois acabei por sacá-la.

 

Way of the World foi uma das três canções que Bryan co-compôs com Vallance. Na altura, não podendo estar no mesmo sítio, iam enviando ficheiros áudio por e-mail um ao outro. Vallance publicou no seu site o demo instrumental a partir do qual Bryan e Gretchen Peters, também co-compositora, desenvolveram a música.

 

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Gosto imenso desta demo – quase mais do que da versão final. Vale a pena ouvi-la. 

 

Way of the World tem uma sonoridade diferente do resto do álbum – talvez tenha sido por isso que tenha ficado de fora da edição-padrão. Existe algo de atmosférico, de dramático, nas guitarras elétricas – daí a ter incluído durante muitos anos na playlist que ouvia enquanto escrevia cenas de ação. Como o próprio Vallance assinala no seu site, a bateria, o solo de guitarra depois da terceira parte, os violinos são elementos de destaque.

 

A letra condiz com o dramatismo do acompanhamento musical. Way of the World, como o título dá a entender, fala sobre a face sombria do mundo, com alusões a guerra e poluição. 

 

Regra geral, quando Bryan tenta sair da sua bolha habitual de amor/sexo para abordar temas mais… digamos, interventivos, a coisa não resulta muito bem. É essa uma das falhas de Into the Fire. Way of the World será uma das exceções. Existem alguns momentos algo simplistas, como por exemplo “We got a lot of dirty water, we got a lot of dirty air” mas, no geral, não ficou má.

 

O narrador revela o desejo de mudar o mundo, mas ao mesmo tempo manifesta o desejo de arranjar um cantinho para si, para a sua guitarra e a sua família, longe disto tudo. Não sei como é com vocês, mas devo confessar que, nos tempos que correm, me identifico cada vez mais com esta incoerência.

 

 

E pronto. Foram uma mão-cheia de músicas mais obscuras de Bryan Adams que achei por bem destacar. Gostava de um dia escrever uma sequela a este texto, mas não sei se consigo encontrar muitas mais faixas pouco conhecidas de que goste tanto como destas. Tenho de dar mais tempo de antena aos CDs de Bryan, a ver se descubro mais pérolas escondidas.

 

Antes de nos despedirmos, queria falar um pouco sobre os meus planos para o blogue a curto/médio prazo. Suponho que tenha de falar sobre o elefante na sala: o três vezes maldito COVID-19. O vírus que me tem tirado uma grande parte das coisas que trazem alegria à minha vida. Cancelou-me o concerto de Avril Lavigne, em Zurique (e parte de mim acha que é castigo divino pelas críticas que lhe tenho feito). Cancelou-me o Euro 2020. Mesmo coisas menores como idas ao cinema, raides e outros eventos do Pokémon Go, a natação, passeios longos com a minha cadela, idas ao café. 

 

Não sou estúpida. Mais: sou farmacêutica, profissional de saúde. Sei perfeitamente porque é que estas medidas tiveram de ser tomadas. Concordo com elas, talvez devessem ter sido tomadas mais cedo. Mas não tenho de gostar.

 

Está visto que sou menos introvertida do que pensava. Consigo viver em isolamento, até mesmo disfrutar dele. Não me faltam maneiras de me entreter. No entanto, não quero viver exclusivamente assim.

 

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A escrita, na verdade, é uma das poucas coisas que o COVID-19 não me pode tirar. Suponho que agora terei mais tempo… Não estou de quarentena, mas comecei a trabalhar menos horas esta semana. Vou tentar dar prioridade à escrita e não a outras atividades, como ver vídeos no YouTube ou jogar Sims – embora possa abrir uma exceção para as maratonas de Digimon em PT-PT na página do Odaiba Memorial Day em Portugal (provavelmente uma das melhores coisas deste período de isolamento).

 

Vou aproveitar e escrever textos que ando a adiar há algum tempo – pelo menos até encontrar maneira de ver Kizuna, o filme de Digimon Adventure, ou até Petals For Armor sair por completo. Da maneira como as coisas estão, não dá para fazer grandes planos – vive-se uma semana de cada vez, quando não for um dia de cada vez. Vou escrevendo para me manter sã, entretida, quiçá também para entreter outras pessoas. 

 

Até se resolver este imbróglio.

 

Devia ser nesta parte que eu deixava uma mensagem inspiradora de esperança. Há uns anos talvez o fizesse – neste momento não estou nessa onda. Apenas peço para lavarem as mãos, ficarem em casa, não serem bestas, protegerem-se a vocês mesmos e aos demais (uma das coisas que tenho aprendido com esta pandemia é que o mundo está cheio de bestas). Mais cedo ou mais tarde isto há de passar.

Pérolas escondidas de Bryan Adams #1

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Este é um texto que queria ter publicado há meses – uns dias antes do concerto de Bryan Adams, em dezembro do ano passado (sobre o qual escrevi aqui). Este no entanto revelou-se mais comprido e trabalhoso do que esperava (de tal forma que acabei por decidir publicá-lo em duas partes). Quando dei por mim, faltava uma semana para o concerto e eu ainda nem ia a meio do primeiro rascunho. 

 

Acabei por decidi deixar o texto de lado e começar a trabalhar noutros, mais urgentes. Só agora é que consegui regressar a este. Não vou aproveitar o interesse aumentado em Bryan Adams a propósito dos seus concertos em Portugal, paciência. Não quero esperar pela próxima passagem de Bryan por terras lusas. 

 

Mas sobre que é este texto? Passo a explicar. Penso que é do conhecimento geral que Bryan Adams é um cantor muito popular no nosso país. Eu não fujo à regra – é o meu cantor masculino preferido. Bryan possui um vasto catálogo de êxitos, pelo qual muitos artistas morreriam para obter. Durante muito tempo, aliás, quase só conhecia esses êxitos (de compilações como The Best of Me e Anthology) e um ou outro álbum dos mais recentes. 

 

Hoje no entanto não quero escrever sobre os Summer of 69 desta vida. Pelo contrário, vamos falar sobre as músicas menos conhecidas, que não são incluídas nos álbuns de Greatest Hits mas que, na minha opinião, são tão boas como os êxitos. As subvalorizadas. As pérolas escondidas. Algumas delas nem sequer são singles, uma delas nem sequer faz parte da edição padrão do respetivo álbum. 

 

Nesta lista vou seguir uma ordem cronológica (ainda que o primeiro caso fuja um bocadinho à regra). Como penso já ter referido antes aqui no blogue, acabei por adquirir a maior parte dos CDs de Bryan em 2010, quando estes começaram a sair em fascículos. Ainda não exclui por completo a hipótese de, um dia, analisar pelo menos alguns desses álbuns aqui no blogue. No entanto, vou deixar alguns apontamentos sobre eles caso alguma das suas músicas apareça nesta lista. 

 

Assim, sem mais delongas, começamos por…

 

 

  • Don’t Ya Say It

 

 

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Bryan Adams não foi um sucesso instantâneo – esse só começou com o terceiro álbum Cuts Like a Knife. No que toca ao seu primeiro álbum, homónimo, que completou quarenta anos (!) há pouco tempo, isso dever-se-á ao facto de… o álbum não ser grande coisa. O próprio Bryan descreveu o seu disco de estreia como uma manta de retalhos de estilos musicais, admitindo que ninguém sabia ao certo o que estava a fazer e que ele precisou de tocar ao vivo para descobrir a sua identidade musical. 

 

Além que Bryan tinha apenas dezoito, dezanove anos quando gravou este disco. Eu e a minha irmã costumamos brincar dizendo que ele ainda não tinha atravessado a puberdade. A sua voz ainda estava longe de ter o característico timbre rouco – este só começaria a aparecer dois álbuns mais tarde.

 

Confesso que, apesar e ter o CD, foram pouquíssimas as vezes que o ouvi do princípio ao fim. As únicas músicas que oiço com alguma frequência são Remember, que foi incluída no Anthology (Bryan cantou-a no concerto de Lisboa), Hidin’ From Love (a mais gira do álbum na minha opinião) e esta. 

 

Don’t Ya Say It é muito diferente do resto da discografia de Bryan. Com elementos dançantes, mesmo da disco pop que dominaria os anos 80 e que ainda hoje adoramos. A letra não é nada por aí além – pouquíssimas letras de Bryan o são. Fala apenas sobre um interesse amoroso que não consegue retribuir os sentimentos do narrador, logo, este coloca-lhe os patins (a letra da música não usa pronomes especificando o género, mas os interesses românticos de Bryan costumam ser mulheres. Por uma questão de facilidade, vamos adotar essa regra neste texto).

 

Na verdade, Don’t Ya Say It figura nesta lista mais por causa do cover que a cantora portuguesa Aurea gravou para o seu primeiro álbum, homónimo (uma coincidência engraçada), editado em 2010. Gosto um bocadinho mais da versão dela. 

 

 

Não que esta seja radicalmente diferente da versão original. No fundo, fez um arranjo moderno de um tema com trinta anos, na altura. O tema de Bryan é muito anos 80, mas não necessariamente no bom sentido. Aqueles sintetizadores soam demasiado artificias, como uma versão de karaoke barata. O solo de saxofone está bem sacado, no entanto.

 

Por sua vez, a versão de Aurea está melhor produzida, com mais influências soul, com uma maior participação do saxofone – embora o solo seja de teclado. E, claro, o desempenho vocal de Aurea é irrepreensível. 

 

Esta música está associada a um momento feliz. Na altura em que descobri este cover, enviei um tweet a Bryan perguntando-lhe a sua opinião… e ele respondeu. Eu, claro, na tenra idade de… quase vinte e dois anos, reagi como uma autência fan girl.

 

Ah… quando o Twitter não era um campo minado… 

 

  • Tonight

 

Esta é capaz de ser uma das minhas preferidas nesta lista, mesmo de toda a discografia de Bryan.

 

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A primeira vez que me lembro de ouvir Tonight na rádio foi em 2006, algures durante a Primavera. Naquela altura tinha comprado a compilação Anthology há relativamente pouco tempo. Andava a ouvir temas como Cuts Like a Knife, Somebody, It’s Only Love, Heat of the Night, All I Want is You, rendendo-me à maioria.

 

Tonight é diferente desses temas em termos musicais, como veremos adiante, e mais uma vez a voz dele ainda não era aquilo que é hoje. No entanto, nas primeiras vezes que ouvi, lembro-me de haver qualquer coisa que reconheci como sendo de Bryan. 

 

Ora, esse período coincidiu com a contagem decrescente para o Mundial 2006. Na altura, a EMI desafiou cinco jogadores da Equipa das Quinas – Costinha, Luís Figo, Maniche, Nuno Gomes e Ricardo – a fazerem eles mesmos uma seleção de músicas cada um. Podem ler a lista completa aqui (foi o único sítio da Internet onde encontrei a lista). Consta que a própria Seleção ouvia estas compilações no autocarro, durante o Mundial.

 

Nota-se mesmo que isto aconteceu a meio dos anos 2000, com temas como Don’t Cha, Don’t Phunk With My Heart, Love Generation, Pon de Replay e Fuck It (I Don’t Want You Back) – que é feito deste gajo? 

 

A lista do Costinha, no entanto, inclui vários temas rock dos anos 80, incluindo Tonight. Na altura fiquei naturalmente contente por haver pelo menos um jogador das Quinas que gostava também de Bryan Adams. Ainda hoje me interrogo se foi por esta escolha de Costinha que, nos meses seguintes, apanhei Tonight várias vezes na rádio.

 

 

Talvez não. Hoje em dia ainda passa de vez em quando na m80.

 

Naquele tempo ainda não sabia sacar músicas, quer legalmente quer ilegalmente – nem acho que a minha Internet desse para tal. Tinha um leitor de mp3 mas só albergava faixas retiradas de CDs. 

 

As novas gerações não conhecem as dificuldades desses tempos: ouvir uma canção na rádio, ficar obcecada com ela, deixar a rádio ligada durante horas só para poder apanhá-la de novo. Algumas até passavam pelo menos uma vez por dia. Outras eram tão raras como Shinies em Pokémon.

 

Houveram muitos CDs que comprei so mesmo por causa daquela música que captou a minha atenção. Nalguns casos eu depois não ligava ao resto do álbum, mas também foi assim que descobri alguns que, hoje, estão entre os meus artistas ou bandas preferidos. Por exemplo, Within Temptation.

 

Com Tonight, acabei também por comprar o CD You Want It You Got It. Infelizmene, o resto do álbum não me impressionou por aí além. Só agora é que começo a dar uma oportunidade a uma música ou outra – daí que, desta vez, não falarei muito sobre ele.

 

Mas esta introdução já vai longa, vamos falar sobre a música em si. A letra é simples. A sua mensagem é essencialmente “não estamos a ir a lado nenhum com esta discussão, vamos fazer uma pausa e dormir sobre o assunto”. Cumpre o seu papel. 

 

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Na verdade, interessa-me mais falar sobre o arranjo musical. Um dos aspetos mais interessantes em Tonight, aquilo que a torna tão rara tanto na discografia de Bryan como na música rock em geral (tanto quanto conheço, atenção) é o facto de ser guiada pelo baixo. Não existe guitarra rítmica tocando acordes de apoio à melodia, apenas uma guitarra tocando pontualmente uma nota ou outra, um acorde ou outro.

 

Peço desculpa por voltar mais uma vez ao passado, mas a nostalgia é um dos fatores que me atrai para a música. Como penso ter referido aqui antes, aos quinze anos comecei a aprender a tocar guitarra. Ao voltar a estudar música pela primeira vez desde o meu sexto ano, o meu ouvido ficou treinado para melhor distinguir e apreciar cada instrumento. Ainda hoje uso essa capacidade nas minhas análises a música.

 

É por isso que, apesar de ter aprendido a apreciar música eletrónica, continuo a preferir instrumentos a sério. São das minhas partes preferidas em música.

 

Nesse aspeto Tonight foi um objeto de estudo interessante. Quando tinha dezassete anos e já tinha o CD You Want It You Got It, lembro-me de estar a conversar com o meu irmão e um amigo dele sobre o papel da guitarra baixo em música (algo que eu mesma ainda estava a tentar compreender). Lembro-me de pôr Tonight a tocar precisamente para dar um exemplo de uma música com o baixo em destaque – e de compararmos com Holiday, dos Green Day, em que o baixo segue o mesmo padrão da guitarra rítmica (é mais fácil de reparar nos primeiros compassos depois do solo de guitarra. 

 

Para quem estiver interessado na questão, o baixo serve para ligar a parte rítmica da música à parte melódica, para dar profundidade ao som. Se removerem o baixo de músicas conhecidas – como, por exemplo, Ain’t it Fun – dá para notar a diferença.

 

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E faz confusão.

 

Hoje daria como exemplo de faixas com prevalência do baixo músicas da primeira parte de Petals for Armor, em particular canções como Leave it Alone (como vimos aqui) e Sudden Desire. Dá para perceber que foram co-compostas por um baixista, Joey Howard. Muita da personalidade destas canções, mesmo de Simmer até certo ponto, vem do baixo. Um tom intimista, sombrio, depressivo no caso de Leave it alone, erótico no caso de Sudden Desire.

 

E estou a desviar-me outra vez. Isto tudo foi para dizer que o baixo é um óbvio destaque em Tonight. A guitarra elétrica também brilha, mesmo sendo escassa – ou talvez precisamente por isso. Os outros instrumentos na música são apenas a bateria e um órgão ainda mais discreto que a guitarra. 

 

É uma instrumentação relativamente minimalista, mas resulta. Todos os instrumentos cumprem o seu papel, destacam-se de uma maneira ou de outra, não é preciso acrescentar mais nada.

 

No canal de YouTube de Bryan temos um vídeo de uma apresentação ao vivo de Tonight no concerto da Amnistia Internacional em 1986. Como poderão ver (e ouvir), de início é apenas Bryan com uma guitarra elétrica. Também resulta. 

 

 

Jim Vallance, co-compositor de Tonight, aponta no site para as semelhanças entre esta música e o tema dos Outfield, Your Love. E de facto existem parecenças "lisonjeadoras", como escreve Vallance: a guitarra elétrica durante o refrão, o destaque para a palavra “Tonight”.

 

Não é algo que me incomode, para ser sincera. E se, tanto quanto sei, ninguém processou os Outfield por plágio, assumo que o mesmo se passa com Bryan e com a sua equipa. Eu até gosto muito de Your Love – pode ser parecida com Tonight nalgumas coisas, mas também tem muitos méritos por si própria.

 

E não sou a única, curiosamente. Your Love também faz parte da compilação de Costinha.

 

Em suma, Tonight estará entre as minhas canções preferidas de Bryan Adams. Como referi aqui, uns dias antes do concerto de dezembro último no Altice Arena, deixei um comentário nas redes sociais pedindo que Tonight fosse incluída na setlist

 

O meu desejo foi realizado. Tocaram-na de maneira muito parecida à versão do álbum – é possível que fosse a primeira vez em algum tempo que a tocavam ao vivo, não terão tido tempo para inventar. Destaco o momento em que a atenção se voltou brevemente para o baixista Solomon Walker, após o segundo refrão.

 

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Foi um belo momento, um de muitos nessa noite. É sempre assim quando Bryan dá concertos. 

 

 

  • Take me Back

 

 

Esta é uma faixa do terceiro álbum de estúdio de Bryan, Cuts Like a Knife. À terceira foi de vez: este foi o álbum com que Bryan começou finalmente a ter sucesso visível – embora tenha sido o álbum seguinte, Reckless, a catapultá-lo para a estratosfera, a dar-lhe o estatuto de lenda. Dois dos singles, Cuts Like a Knife e Straight From the Heart são clássicos e presença obrigatória nas setlists.

 

Curiosamente, em maio Bryan vai dar três concertos em Londres, no Royal Albert Hall. Em cada um dos concertos, tocará um álbum por completo – juntamente com os outros êxitos. No dia 11, tocará Cuts Like a Knife. No dia 12, tocará Into the Fire (?!). No dia 13, tocará Waking Up the Neighbours. 

 

Isto é, se o Coronavírus não os cancelar entretanto… 

 

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Pessoalmente gosto bastante de Cuts Like a Knife enquanto álbum. Tem um estilo consistente, talvez demasiado homogéneo nalguns momentos – praticamente todas as canções são sobre amor, sem grande originalidade mas gosto de quase todas as músicas. O tema-título é um ponto alto em concertos, sobretudo com a parte dos “Na na na…”. Gosto da versão original de Straight From the Heart, mas adoro a versão acústica que Bryan tem tocado nos últimos anos – sobretudo esta

 

Por outro lado, também gosto de This Time – a versão do álbum Live At Sydney Opera House, estilo Bare Bones, com um homem do público gritando dois versos no início, é hilariante. Sobre The Best Was Yet to Come será provavelmente incluída numa eventual sequela a este texto. Músicas como The Only One, a versão original de I’m Ready e What’s It Gonna Be são agradáveis ao ouvido.

 

No entanto, queria destacar Take Me Back – mais uma vez, menos pela letra, mais pelo instrumental. Esta é outra faixa em que o baixo ocupa um lugar de destaque, se bem que não tanto como Tonight.

 

Take Me Back começou com uma demo composta por Jim Vallance em 1980, uma coisa muito básica. Podem ouvi-la no site deste último. Na altura Bryan mostrou-se vagamente interessado. No entanto só a gravou um par de anos mais tarde, nos trabalhos para o álbum Cuts Like a Knife, desenvolvendo-a, dando-lhe personalidade. 

 

A música arranca num tom grave, algo tenso, mal controlado. Quando soam os vocais da primeira estância, as guitarras como que contém-se, só se elevando quando os vocais pausam. Precisamente como se a trela fosse aliviada momentaneamente, antes de ser encurtada de novo.

 

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Gosto imenso do refrão, dos vocais de apoio uma oitava acima do tom principal – um elemento que já veio da demo de Vallance. É uma pena só ouvirmos o refrão duas vezes – é o único defeito que temo a apontar à canção. 

 

Depois do segundo refrão, a energia da música é finalmente libertada, com acordes sonoros de guitarra elétrica e os vocais “Ah won’t you take me back!”. Esta parte não veio da demo, foi Bryan a compô-la. 

 

Na terceira parte da música, no entanto, regressa-se à contenção. É agora que o baixo se destaca, conduzindo a música, enquanto o órgão e sobretudo a guitarra elétrica vão brincando, improvisando discretamente. Repete-se a primeira estância num tom falado.

 

Era nesta parte que, nos primeiros anos após a edição de Cuts Like a Knife, Bryan começava a falar para o público. Monólogos politicamente incorretos, segundo Vallance no seu site. Dá para ouvir um aqui (não me parece assim tão politicamente incorreto… se calhar era segundo os critérios dos anos 80). Segundo o livrinho que veio com o fascículo deste CD, Bryan socorria-se desta canção muitas vezes para cativar públicos mais difíceis. 

 

Em suma, não sendo uma música extraordinária, Take Me Back é uma música interessante, invulgar, sobretudo dentro da discografia de Bryan. Talvez a peça da próxima vez que ele der um concerto por cá. 

 

 

  • Victim of Love

 

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Tirando os mais recentes Get Up! e Shine a Light, o álbum Into the Fire foi o último de Bryan Adams que comprei, em 2015 – foi o único que não consegui comprar em fascículo. Eu já conhecia algumas músicas: o tema-título, Hearts of Fire, Heat of the Night (quando tinha dezasseis, dezassete anos andava obcecada com esta), Victim of Love. 

 

Na altura em que comprei o CD já tinha este blogue. Cheguei a pensar escrever sobre este álbum, mas outros projetos foram-se metendo à frente, este ficou para trás.

 

Talvez um dia escreva sobre Into the Fire. Não tenho grande vontade, para ser sincera, mas não excluo a hipótese por completo. Assim, a única coisa que vou dizer sobre o álbum neste momento é que tem algumas músicas giras mas, no geral… é esquisito.

 

Victim of Love é capaz de ser a melhor música em Into the Fire, sobretudo pela letra, e uma das melhores de toda a discografia de Bryan. É uma canção muito única, muito diferente de todas as outras do cantor. Quase todas no álbum Into the Fire o são, na verdade. 

 

Victim of Love é a única neste álbum, tirando Hearts on Fire, que fala de amor – o que é raríssimo na discografia de Bryan. E mesmo assim fala de amor de uma maneira completamente diferente – tanto dentro da música de Bryan como da maioria das canções de amor e separação, tanto quanto conheço.

 

 

Esta balada tem uma letra e um tom extremamente melancólicos, quase “emo”, invulgares para Bryan. Fala sobre desgostos amorosos, relações falhadas, sem culpar nenhuma das partes do casal – pois ambos sofrem no rescaldo (“Doesn’t matter who was right or wrong. When the fire’s over, when the magic’s gone, You pick up the pieces, do the best you can.”). Nem sempre as relações resultam – faz parte da vida, faz parte do crescimento. A letra coloca a culpa no amor em si, chama-lhes, lá está, “vítimas do amor”. 

 

Ainda assim, a música deixa uma discreta nota de esperança, dizendo que não é o fim do mundo. Mesmo que doa ao princípio, uma pessoa pode sempre tentar de novo. “It knocks you down but you try again.” “Ain’t nothing you can’t rise above.” O instrumental reflete bem a melancolia da letra, sobretudo com o piano e a guitarra elétrica. 

 

É de facto uma canção que merecia mais destaque. No entanto, tenho de confessar que não pediria esta música num concerto. É demasiado triste, ia destacar-se pela negativa numa setlist cheia de músicas bem mais leves e alegres. Talvez faça mais sentido num concerto de Bare Bones. Ou então no tal concerto de maio com todas as músicas de Into the Fire – muitas têm um tom semelhante, não destoará tanto.

 

Na verdade, Victim Of Love é ótima para uma playlist de consolo após uma separação. “You’re just a victim of love” seria um título perfeito. 

 

As próximas canções também se referem a vítimas do amor, se bem que de uma maneira diferente... mas falamos sobre essas e outras na segunda parte deste texto, amanhã. 

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