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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Música 2022 #1: Bryan Adams ou porque preciso de música feliz

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Hoje quebro uma regra não escrita aqui do blogue e começo a minha retrospetiva musical do ano… em novembro. Como já tinha explicado antes, o meu plano inicial foi sempre escrever um texto nesse estilo sobre a música que Bryan Adams lançou em 2022. Como já estamos perto do fim do ano, o próximo texto terá uma estrutura semelhante e os textos que publicarei a seguir farão parte da retrospetiva, mais vale incluir já estes dois na série. 

 

Agora só espero que o meu velho não me troque as voltas e não me lance música nova antes do fim do ano.

 

Até calha bem começar hoje pois Bryan completa sessenta e três anos hoje. Que este texto sirva de mensagem de parabéns.

 

A retrospetiva deste ano será interessante pois 2022 está a ser um ano louco para mim em termos musicais – quero ver o que irão dizer os relatórios anuais do Spotify e do Last FM. Este é apenas o começo. Infelizmente, como vamos entrar em modo Mundial daqui a poucos dias, os próximos textos ainda vão demorar. 

 

Na verdade, vou começar este texto sobre Bryan Adams falando sobre uma canção de Lionel Ritchie. Foi durante a contagem decrescente para o início do concerto de 30 de janeiro. Como habitual, havia música a tocar nos altifalantes do Pavilhão Atlântico, para ir entretendo o público à espera que Bryan subisse ao palco. A certa altura, tocou All Night Long (All Night) e toda a gente se pôs a cantar, a bater palmas, a dar uns passinhos de dança. Foi o primeiro momento da noite em que a audiência se uniu pela música.

 

(Obrigada Elisabete Branco, do Bryan Adams Group do Facebook, pelo vídeo)

 

Estes são momentos subvalorizados da experiência de ir a concertos e que eu mesma aprendi a apreciar nos últimos tempos. Já tinha acontecido em 2017, antes do concerto dos Sum 41, com o público cantando One Step Closer dos Linkin Park. Voltou a acontecer em força no concerto mais recente dos Sum 41 com os Simple Plan ​​– a produção conhecia a audiência e pôs a tocar vários êxitos do emo/pop punk dos anos 2000. All the Small Things, Sugar, We’re Going Down, Misery Business (poucos dias antes de ser oficialmente “descancelada”), Basket Case (OK, esta era dos anos 90, mas pronto…).

 

Da mesma forma, acredito que a equipa do Pavilhão Atlântico tenha posto All Night Long a tocar pelos eventuais fãs cruzados – Ritchie também foi um cantor de sucesso nos anos 80 e 90. Mas eu gosto de pensar que o público aderiu não só por isso, também pela mensagem da canção: “Well, my friends, the time has come, to raise the roof and have some fun”. Depois de quase dois anos de pandemia, dez mil almas vinham finalmente a um concerto a sério. 

 

Nas semanas seguintes fiquei obcecada pela música e apercebi-me de algo: eu preciso de música alegre para sobreviver, sobretudo em momentos menos felizes da minha vida. Aconteceu em 2017 com Loucos, de Matias Damásio, que me fez chorar na manhã a seguir ao concerto de homenagem a Chester Bennington. Aconteceu no ano passado com o single Solar Power, num verão em que não pude ir de férias. Acontecia agora com All Night Long, num período em que estava menos feliz do que tenho estado ultimamente. 

 

Música alegre tem má reputação nalguns círculos. Alguns argumentos até fazem sentido. Em pesquisas para este texto, dei com um par de artigos descrevendo a maneira como a música alegre pode ser usada para controlar a população, tornando-a mais complacente, agressiva, mesmo mais racista e xenófoba. Vejam-se as marchas militares, hinos nacionais, cânticos de claques desportivas. 

 

Confesso que estes artigos me fizeram questionar muita coisa, mas isso foge ao âmbito do texto. Passemos à frente. 

 

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Assim, manipulação de massas à parte, há quem acredite que a música alegre é por defeito mais fútil, inferior a música triste ou zangada. Por exemplo, um dos motivos pelos quais muitos criticaram precisamente o álbum Solar Power foi por ser demasiado alegre – como poderão ler aqui, na minha opinião, os problemas do álbum são outros. Noutro exemplo, durante os trabalhos do Self-Titled dos Paramore, Hayley Williams tinha algumas dúvidas em relação a Still Into You – receava que fosse demasiado alegre. Em oposição, alguns géneros de música fazem quase uma romantização da tristeza – o “emo” é o exemplo óbvio, mas também a estética da sad girl”

 

Isto acaba por entrar na questão do idealismo versos cinismo – a felicidade e o otimismo são infantis, a infelicidade e o pessimismo são adultos. A cena do génio torturado. Citando Ursula K. Le Guin, “temos um mau hábito, encorajado por pedantes e sofisticados, de considerar a felicidade como algo um tanto estúpido. Só a dor é intelectual, só o mal é interessante. Essa é a traição do artista: uma recusa em admitir a banalidade do mal e o tédio terrível da dor.

 

Não concordo a cem por cento com esta citação, no entanto, sobretudo com a última frase. Não acho que ninguém considere a dor “entediante”. Pelo contrário, a expressão artística poderá ser uma maneira saudável, num ambiente controlado, de sentir e lidar com sentimentos negativos. Essa é a própria definição de catarse – havemos de regressar a essa ideia. Mas definitivamente concordo que existe a ideia de que a felicidade é anti-intelectual. 

 

Mesmo eu, há dez anos, nunca viria para aqui dizer tão bem de uma música “de festa” como All Night Long. Claro que me tornei mais flexível nessas coisas com os anos – mas ainda não gosto do Pitbull nem de música semelhante à dele. 

 

E de qualquer forma acho que, a certa altura, se foi demasiado na direção contrária. Penso que não é a primeira vez que refiro aqui que, apesar de ter gostado de folklore e evermore de Taylor Swift, a partir de certa altura estes começaram a pesar. 

 

Além disso, recordo-me de estar de férias no verão de 2020 e na rádio tocavam músicas como everything i wanted, de Billie Eilish, e uma literalmente intitulada Death Bed, leito de morte. E eu pensava: “As coisas já estão suficientemente difíceis, com a pandemia e tal. Estou aqui a tentar aproveitar as minhas férias. Não podia tocar algo menos deprimente?”.

 

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Não me interpretem mal. Não quero insinuar que não gosto de música que não seja “feel good” ou que não reconheço a sua importância. Afinal de contas, os Linkin Park são uma das minhas bandas preferidas e eles não têm uma única música propriamente alegre – apenas esperançosa ou reconfortante. Da mesma forma, este ano tenho explorado o meu lado “emo”/pop punk e tal, graças ao programa Everything is Emo de Hayley Williams e ao concerto dos Simple Plan e dos Sum 41. 

 

Música que os nossos artistas ou bandas preferidas criaram para exorcizar os seus próprios demónios. Música que nos dá força, que nos dá esperança ou que, pura e simplesmente, dá voz, instrumental e melodia ao que estamos a sentir, que não nos deixa sozinhos no escuro. De maneira paradoxal, alguns dos melhores momentos da minha vida foram em concertos dessas bandas, sentindo essa raiva coletiva, revolta coletiva, tristeza coletiva. Já falei disso antes, mas Mike Shinoda chegou a dizer que um dos objetivos dos Linkin Park fora criar um sítio onde as pessoas experimentassem uma sensação de pertença enquanto gritavam que o mundo era horrível, um lugar seguro para exprimirem estas emoções mais negativas. 

 

Isto tudo para dizer que todas as emoções musicais são válidas e importantes. Eu preciso de todas, não consigo limitar-me a apenas uma parte do espectro. Nunca me senti muito muito confortável com tristeza – o que, admito, poderá não ser muito saudável. Algumas pessoas se calhar estranhariam – já aconteceu, sobretudo quando era mais nova, considerarem-me mais triste e mais séria do que realmente sou. 

 

Ou talvez tenha uma “resting bitch face”.

 

Como referi antes, nestes dias não estou tão infeliz como noutras alturas, mas ainda me recordo de sentir frases como “Life is good, wild and sweet” e “Forget all of the tears that you’ve cried, it’s over” batendo mais forte do que, se calhar, mereciam. Talvez fosse escapismo, talvez fosse enterrar a cabeça na areia. Ou talvez quisesse agarrar o momento de alegria possível, ser feliz nem que fosse apenas durante os cinco minutos ou menos de uma canção.

 

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E a verdade é que é isso que a maior parte da música de Bryan Adams representa para mim. Música feel good para cantar no carro, sobre amor, sexo, aproveitar a vida, ser-se jovem, livre e feliz.

 

Aliás, acho que é essa a intenção de Bryan, sobretudo nos últimos anos. De que outra forma se explica que ele tenha lançado um álbum intitulado So Happy it Hurts depois de dois anos de pandemia? Não que ele não seja interventivo, antes pelo contrário. Conforme ele explicou nesta excelente entrevista, ele apoia causas discretamente. Bryan levantou mesmo a hipótese de, em vez de simplesmente boicotar ou “cancelar”, um concerto de música feel good num país reprimido ser por si mesmo um acto de ativismo. 

 

Merece a reflexão, pelo menos. Em todo o caso, esse intervencionismo raramente é vertido para a música de Bryan em si. E, sinceramente? É melhor assim. Das poucas vezes em que isso aconteceu, não resultou, na minha opinião. E o espírito feel good da música de Bryan também tem o seu impacto em tempos tão difíceis como os atuais.

 

Um bom reflexo dessa atitude é o tema Never Gonna Rain, um dos singles de So Happy it Hurts. Bryan será sempre o otimista, o sonhador, a pessoa que tentará ver o lado positivo e focar-se menos no negativo. Esse espírito tem as suas limitações, claro, como Rose Colored Boy dos Paramore tão bem nos recorda, mas o cinismo também não é resposta para tudo. A virtude estará algures no meio. 

 

Precisamos de música de intervenção, que denuncie o que está errado no nosso mundo. Precisamos de música que dê voz à nossa dor, à nossa raiva. Mas também precisamos de música que nos recorde que há mundo para além disso tudo, que a vida também pode ser boa.

 

 

O concerto dele em janeiro serviu para isso. Como referi antes, foi o meu primeiro concerto a sério após a pandemia – para mim e, acredito, para o resto da plateia – e celebrámos adequadamente. O próprio Bryan sentiu o nosso alívio, a nossa euforia. Orgulho-me em particular de ter aguentado o concerto todo sem tirar a máscara – sempre cantando, dançando, saltando, dando headbangs como se a música fosse mais pesada do que realmente é. 

 

Como desenvolvido acima, a música de Bryan é perfeita para ilustrar este espírito. músicas como Here I Am, Back to You e Cloud Number 9 bateram particularmente forte – as duas últimas em particular, pois não lhes dera muita rotação nos meses anteriores.

 

O único motivo de queixa que não chega a sê-lo é que o concerto em si não foi muito diferente do de 2019. Só se tinham passado dois anos e cerca de mês e meio, logo, ainda nos recordamos de muitos dos truques de palco. Sou capaz de apostar que a montagem de fotografias que Bryan mostrou da sua vida em Birre, quando era miúdo, era exatamente a mesma. 

 

Não que possamos censurar Bryan por isso. Quase não houveram concertos entre dezembro de 2019 e janeiro de 2022. Não houve tempo para Bryan e os seus colegas de banda se cansarem dos truques atuais e sentirem a necessidade de inovar. E, de resto, é uma queixa menor. Dez em dez, repetia a experiência.

 

Falemos agora sobre o álbum So Happy it Hurts. Este é outro trabalho cuja concepção foi condicionada pela pandemia. Tal como Hayley Williams fez com o seu segundo álbum a solo, Flowers For Vases, Bryan gravou todos os instrumentos (ou quase todos). Ao contrário do que aconteceu com FFV, em So Happy it Hurts não se nota. Não surpreende: Bryan tem muito mais experiência como instrumentista. Só precisou de reaprender a tocar bateria. 

 

So Happy it Hurts assemelha-se a Shine a Light no sentido em que não tem nenhum conceito particular, são apenas músicas que Bryan foi compondo. Ainda assim, coloco o álbum mais recente um pouco acima porque, na minha opinião, tem músicas melhores. Pelo menos os singles saem um bocadinho mais da caixa habitual para Bryan – veja-se On the Road e Kick Ass, como discutimos no ano passado, e Never Gonna Rain, lançado uns dias antes dos concertos em Portugal. 

 

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Esta última é uma das minhas preferidas neste álbum. Foca-se mais no baixo do que o costume para Bryan e gosto dos vocais no pós-refrão, sobretudo no último. Por outro lado, o título da música é irónico num ano de seca. 

 

A minha preferida, no entanto, é These Are the Moments that Make up my Life. 

 

Esta foi uma das primeiras que ouvi quando o álbum saiu – as músicas foram publicadas no YouTube, calhou clicar primeiro nesta. Cativou-me logo, sobretudo por causa da letra. 

 

Musicalmente é interessante – suave no início, guiada por um riff de guitarra, ganhando mais intensidade quando se juntam os outros instrumentos. 

 

Não sei se esta não será uma das letras mais pessoais de Bryan em anos. These Are the Moments that Make Up my Life fala sobre a felicidade das pequenas coisas da vida doméstica e familiar: o som da chuva a cair, os beijos da pessoa que se ama, o riso das crianças.

 

Regressando ao tema de abertura deste texto, These Are the Moments that Make up My Life é um exemplo claro de música feliz que ninguém pode acusar de futilidade. Não que seja propriamente profunda, mas é uma maneira mais realista, mais terra-a-terra, de salientar o lado bom da vida. Nem sempre conseguimos ir a um concerto, à discoteca, à praia ou numa longa viagem, mas podemos ir colhendo felicidade nas pequenas coisas do quotidiano.

 

 

Foi de resto uma das lições da pandemia. Fomos privados de muito, mas serviu para nos recordarmos que, no fim de tudo, o mais importante são as pessoas que amamos. Nesse aspeto, These Are the Moments that Make Up My Life recorda-me World’s On Fire – uma das que melhor envelheceu do álbum Post Traumatic de Mike Shinoda. 

 

Por estes motivos, de início pensei que Bryan tinha composto esta música durante a pandemia. Não foi o caso. Em entrevista, Bryan disse que These Are the Moments that Make Up My Life era uma ideia com uma década de idade que ele só conseguiu concluir durante os trabalhos para So Happy it Hurts. 

 

Faz-me todo o sentido que os primeiros rascunhos desta canção tenham sido criados há dez anos – foi quando as filhas dele nasceram. Acredito que These Are the Moments that Make Up My Life tenha sido uma lição que Bryan aprendeu na última década. 

 

Como adulto (e mesmo antes), ele nunca teve uma vida “normal”. Em entrevistas recentes, Bryan admite que não se recorda de grande parte dos anos 90, tirando fotografias, porque estava sempre a trabalhar. Fazia duzentos concertos por ano, chegou a estar quatro anos seguidos em digressão. 

 

Vou agora falar de coisas que li em entrevistas antigas a Bryan algures entre 2008 e 2010. Agora não consigo encontrá-las e linká-las aqui, pois foi há mais de dez anos. Assim, não tomem o que vou referir a seguir como verdade absoluta. Segundo o que me recordo, Bryan confessou que, quando começou a haver uma epidemia de divórcios na sua equipa nos anos 90, percebeu que estava a exagerar. Entrando em território de fofocas, uma ex-namorada de Bryan terá dito que a relação não resultou porque a carreira dele tinha prioridade sobre tudo. 

 

Não creio que Bryan se arrependa da maneira como passou os anos 90. Afinal de contas, foi o que o colocou onde está hoje. Mas a partir dos anos 2000 terá começado a moderar-se – indo em digressão apenas dez a catorze dias por mês. E depois dos cinquenta anos, depois de já ter atingido o pico, assentou com uma companheira (esposa?) vinte anos mais nova e teve duas filhas. (Inveja eu, por ele ser homem e capaz de se reproduzir depois dos cinquenta anos? Não! Que ideia…) Aí, terá aprendido o valor de uma existência mais tradicional. Daí These Are the Moments that Make Up My Life. (“I’ve taken some wrong roads, but I know this one's right”)

 

É claro que isto sou apenas eu a especular. 

 

 

Gosto imenso do videoclipe desta música. Nesta era os vídeos de Bryan têm sido todos muito simples e este não é exceção. É apenas Bryan numa praia qualquer no Canadá, atirando paus ao cão do irmão. Este vídeo parece ter sido feito de propósito para mim. Como tenho referido várias vezes aqui no blogue, um dos meus lugares felizes nos últimos anos, um dos meus sítios perfeitos, é a Meia Praia de Lagos, passeando a pé com a minha Jane. A diferença é que ela prefere bolas em vez de paus. 

 

O que condiz na perfeição com o tema da música. 

 

These Are the Moments that Make Up My Life é, assim, a minha canção preferida de Bryan nos últimos anos – desde Brand New Day, pelo menos, ou talvez antes. Tenho alguma pena de os concertos de janeiro se terem realizado antes da edição do álbum – queria que ele tivesse tocado esta. 

 

So Happy it Hurts não foi a única coisa que Bryan lançou este ano. Longe disso, o homem lançou-me quatro álbuns inteiros em 2022! 

 

Já referi aqui no blogue que, há uns anos, Bryan compôs a banda sonora do musical Pretty Woman da Broadway, baseado no filme de Richard Gere e Julia Roberts. Durante a pandemia, em parte por aborrecimento, em parte por precisar de lançar música (mais sobre isso já a seguir), Bryan gravou a sua própria versão dos temas do musical e lançou-os em álbum.

 

Não tenho muito a dizer sobre estas músicas. São uma audição agradável, dentro do estilo de Bryan – ele foi um bom casting para um conto de fadas do mundo moderno. Diria que a minha preferida é On a Night Like Tonight – em parte porque emparelha com a On A Day Like Today, outra de que sempre gostei. Por outro lado, gosto imenso de Something About Her – clássico Bryan.

 

 

Falemos agora sobre as regravações que Bryan lançou de algumas músicas suas – as versões Clássicas. Basicamente, Bryan mudou de editora há um par de anos e a editora antiga terá ficado com os direitos da sua looooonga discografia. Assim, Bryan resolveu dar uma de Taylor Swift e regravou os seus maiores êxitos. Estes foram lançados em duas tranches – Classic e Classic Part II.

 

Antes de mais nada… isto não devia ser permitido. Seria de esperar que os autores de uma propriedade intelectual tivessem sempre direitos sobre o seu trabalho. Estas músicas só existem por causa do trabalho de Bryan e dos seus colaboradores. É triste que isto tenha acontecido a Bryan ao fim de mais de quatro décadas de carreira.

 

Dito isto… não percebo o que Bryan quer fazer ao certo ou o que ele quer que nós façamos. Estamos a falar de quarenta anos de música: catorze álbuns de estúdio, incluindo a banda sonora de um filme, uns quantos Best Of’s, múltiplos discos ao vivo. Mesmo que ele quisesse regravar toda a sua discografia – aquela que pudesse – provavelmente não faria mais nada com a sua carreira.

 

Nesse aspeto, faz sentido que Bryan tenha começado pelos seus êxitos. Talvez ele até queira ficar por aí. Por outro lado, ele não o fez com a pompa e circunstância com que Taylor Swift tem re-lançado os seus álbuns. Muitos fãs casuais poderão nem sequer ter reparado. E, tanto quanto sei (posso estar enganada), as rádios não receberam o recado e não estão a substituir as versões antigas pelas novas. Eu até estou disposta a abdicar das versões antigas, pelo menos em termos de música digital e pelo menos em termos de versões de estúdio (versões como as do Bare Bones e do MTV Unplugged são um caso à parte). Com um par de exceções de que falarei já a seguir. Mas não sei se todos os fãs estarão dispostos a fazer o mesmo.

 

Uma diferença entre os casos de Taylor Swift e Bryan é, aparentemente, o caso do segundo não ser pessoal. Sublinhe-se o “aparentemente”. Com Taylor, o tipo que ficou com os direitos da música dela foi alguém que conspirara contra ela (mais detalhes aqui). Tendo isto em conta, os fãs e o público em geral têm aderido às regravações de boa vontade – tarefa facilitada pela maneira como ela relançou Fearless e Red, este último em particular. Com Bryan não existe nenhum drama deste género, que se saiba. Não existe o mesmo imperativo moral para cortarmos com as versões antigas.

 

Pelo menos é isso que digo a mim mesma.

 

 

Além disso, se Taylor consegue recriar canções antigas com bastante fidelidade, para Bryan isso é quase impossível. Para começar, as músicas mais antigas de Taylor têm dezasseis anos – as de Bryan têm mais de quarenta. Não sei muito do assunto, mas assumo que as tecnologias de captação de áudio e produção musical tenham evoluído significativamente desde os anos 80.

 

Em segundo lugar, a voz de Bryan mudou. Os seus vocais nos dois primeiros álbuns são quase irreconhecíveis comparada com os dias de hoje, sem o seu icónico timbre rouco. Este começou a aparecer em Cuts Like a Knife e foi-se desenvolvendo nos álbuns seguintes até estabilizar, mais ou menos, em Waking Up the Neighbours, em 1991. Ele nunca poderia recriar os vocais das versões dos anos 80 de Summer of 69’, Heaven ou Cuts Like a Knife em 2022.

 

Talvez por isso Bryan não se tenha preocupado demasiado com a fidelidade. Ainda assim, as novas versões são bastante fiéis às antigas, com algumas exceções. Uma diferença marcante, que Bryan tem assinalado, é o facto de as músicas agora terem finais em vez de fade outs. Não tenho nada contra fade outs em música por princípio, mas sempre calculei que fossem complicadas de tocar ao vivo. Não me choca que Bryan tenha querido corrigi-lo.

 

Fiquei contente por Bryan ter regravado Hidin’ From Love e Teacher Teacher – duas canções que precisavam. Ainda este ano falámos sobre a primeira – ele já tinha publicado uma versão de Hidin’ From Love com este novo instrumental. E se há álbum que merecia uma regravação é o primeiro de Bryan.

 

Por seu lado, já tinha escrito aqui no blogue, a propósito dos 30 anos de Reckless, que o demo de Teacher Teacher tinha algumas arestas por limar, apesar de gostar da canção. Bryan fez exatamente o que eu queria.

 

 

Não desgosto desta versão de Back to You. Esta foi sempre uma das minhas canções preferidas dele – foi a primeira música “a sério” que aprendi a tocar na guitarra. Antes de Classic, Back to You não tinha nenhuma versão de estúdio – foi um original do álbum MTV Unplugged. Fica um amargo de boca por a versão Clássica não ter a orquestra da Julliard. 

 

Na verdade, a única regravação em que me quero focar é a de Here I Am – a minha canção preferida de todos os tempos, como poderão ler aqui.

 

Esta era outra em que Bryan muito dificilmente poderia fazer copy/paste. Como vimos antes, foram os produtores da banda sonora do filme Spirit a dar um estilo mais R & B à versão original de Here I Am. No entanto, eles não estavam lá para as regravações.

 

A versão Clássica não difere radicalmente da versão de 2002 mas, de todas as regravações, será a mais diferente. Penso que esta é mais parecida com o que Bryan teria criado com os seus colaboradores habituais. A instrumentação é mais “orgânica”, mais rock. Os sintetizadores e produção eletrónica foram substituídos pelo piano e bateria.

 

Por outro lado, aplaudo o facto de Bryan ter resistido à tentação de encurtar a duração da música. 

 

Here I Am, de resto, é daquelas canções que soa bem em praticamente qualquer arranjo. Ainda assim, de todos os temas regravados, este será o único em que me recuso a abdicar da versão original. Estou demasiado afeiçoada a ela. Aos backvocals na parte final (nos créditos diz que é Bryan a cantar, mas não me parece que seja ele), às batidas – sobretudo por causa da minha velhinha montagem de vídeos da Seleção.

 

 

Aliás, se eu tivesse tempo e software, faria uma montagem de vídeos para a versão Clássica – incluindo imagens de, entre outras coisas, o Euro 2016 e a Liga das Nações de 2019

 

A grande vantagem de regravações como estas é que os temas ganham uma nova vida anos – ou décadas – depois de as ouvirmos pela primeira vez. Here I Am completou vinte primaveras este ano, é a minha preferida de sempre. E no entanto, duas décadas depois, continua a surpreender-me. 

 

Nem tudo tem a ver com esta regravação, sequer. No início deste ano descobri Me Voilà, a versão francesa da música. E agora, há um par de semanas, descobri um cover feminino lindíssimo de Me Voilà: uma instrumentação bastante diferente, folk, mas que resulta.

 

E é tudo o que tinha para dizer. Que Bryan esteja a ter um dia muito feliz. Agradeço-lhe por tudo o que a sua música tem feito por mim. Não sei ao certo o que ele fará nos próximos tempos – estou curiosa. Em todo o caso, como acho que já o referi antes, enquanto ele cá estiver, eu estarei lá, dentro das minhas possibilidades. E, como já disse antes, não haverá nenhum outro sítio na Terra onde preferiria estar.

Músicas Não Tão Ao Calhas – This is Why

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Hoje completa-se mais um ciclo aqui no blogue. Inaugurei a rubrica Música Não Tão Ao Calhas – onde analiso singles (ou leaks) recentes dos meus músicos preferidos – há quase dez anos com Now, o primeiro avanço do quarto álbum dos Paramore, homónimo. Agora, analiso o primeiro avanço de This is Why, o sexto álbum deles. Isto depois de já ter feito o mesmo com Hard Times, o primeiro avanço de After Laughter e com Simmer, o primeiro avanço de Petals For Armor, o primeiro álbum a solo da vocalista Hayley Williams (se vocês acharem que conta). 

 

Hei de brindar a isso com a minha próxima chávena de café. 

 

This Is Why, primeiro single do álbum com o mesmo nome, é a primeira música dos Paramore em quase cinco anos e meio – precisamente desde a edição de After Laughter. Foi muito tempo mas, pela parte que me toca, não me custou muito, tirando estes últimos meses. Sobretudo porque os álbuns a solo de Hayley, Petals For Armor e Flowers For Vases, serviram de metadona. Mesmo este ano, quando já estava ansiosa por algo mais, Hayley foi-nos entretendo com o programa de rádio Everything is Emo – que me fez adicionar imensa música às minhas playlists. 

 

Hei de escrever sobre isso nos meus textos de fim de ano. 

 

Os Paramore estavam a precisar de uma pausa. Hayley já tinha referido, a propósito de Petals For Armor, que o ciclo de After Laughter não tinha sido fácil. Taylor abriu-se um pouco mais do que o costume para o The Guardian: falando sobre a perda de um amigo de família durante as filmagens do vídeo de Rose Colored Boy, revelando que deixou de beber, que, a certa altura, sofreu com ansiedade e agorafobia. Zac não se arrepende de ter deixado os Paramore – sente que os anos afastado da banda o rejuvenesceram. Suponho que estes últimos quatro anos tenham tido um efeito semelhante. 

 

Nada disto surpreende. Lorde falava mais ou menos do mesmo no ano passado, quando regressou com Solar Power também após uns anos de pausa. Se há coisa que aprendemos com a pandemia é que há coisas que não valem a pena. Saúde física e mental vêm antes do trabalho. 

 

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Esses anos de pausa e a oportunidade de trabalharem em projetos laterais podem ter ajudado os três a desenvolverem uma relação mais saudável com a banda. Talvez seja por isso que This Is Why é o primeiro álbum dos Paramore em que o alinhamento da banda é o mesmo que o do álbum anterior. 

 

Há uns anos atrás, diria que tinha esperanças num regresso de Josh e Jeremy a médio/longo prazo. Hoje já não faço questão. Só faz falta quem lá está. E como consta que Josh é homofóbico e, no geral, não grande coisa como pessoa… 

 

After Laughter e os próprios Paramore enquanto banda ganharam um culto de seguidores fiéis nos últimos anos. Em parte porque os três – Hayley em particular, a mais mediática – são figuras simpáticas, terra-a-terra, "não problemáticas" (embora já tenham cometido os seus deslizes). Têm fãs de várias idades, raças e expressões de sexualidade e género e uma boa relação com eles. 

 

Por outro lado, After Laughter – um álbum que explora "tempos difíceis" e questões de saúde mental – envelheceu muito bem, num mundo que se tem degradado cada vez mais desde 2017 (que já foi suficientemente mau). 

 

Já calculava há algum tempo que os Paramore iriam entrar em territórios políticos/sociais no seu sexto álbum, por vários motivos. Em primeiro lugar, não faria sentido focarem-se em questões pessoais. Como referido acima, a banda está finalmente estável. Hayley, ainda por cima, teve dois álbuns a solo para exorcizar os demónios pessoais que já tinham dado sinais de vida em After Laughter. 

 

E agora Hayley está numa relação feliz com… o Taylor! Sim, aquilo que se suspeitava desde Petals For Armor – e houve quem suspeitasse há mais tempo ainda – foi confirmado no artigo do The Guardian. Apenas uma frase entre parêntesis no texto, consta que nem Hayley nem Taylor quiseram dizer mais nada. 

 

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Durante muito tempo tive medo da reação dos fãs, depois do que aconteceu entre Hayley e Josh. Mesmo a minha primeira reação aos rumores, há mais de dois anos, não foi muito favorável. Mas, tanto quanto tenho visto, está toda a gente contente – eu incluída, que já tive tempo para me habituar à ideia (sobretudo depois de Flowers For Vases). 

 

Agora espero que as pessoas não os destabilizem, que lhes dêem privacidade. O facto de, aparentemente, já terem namorado em segredo durante pelo menos três anos deve ajudar. E, claro, espero que sejam muito felizes. 

 

Mas fechando este parêntesis, duvido que Hayley tenha algo a acrescentar a Petals For Armor e Flowers For Vases, no que toca à sua vida amorosa. Talvez This is Why tenha uma canção de amor só pela graça, mas não mais do que isso. 

 

Por outro lado, falando por mim, os Paramore sempre foram muito bons a captar e/ou prever o estado de espírito de pessoas da minha geração. O que não surpreende, os três têm a minha idade, mais ano menos ano. Isso às vezes implica entrarem em territórios políticos/sociais. Hello Cold World é um bom exemplo, mas também há quem detecte mensagens políticas em After Laughter, como explicado neste artigo. Pelo menos nesse álbum, Hayley disse que não era essa a intenção, mas o próprio artigo refere que, nestes últimos tempos, é difícil saber onde acaba o pessoal e começa o político/social. 

 

E se já era assim em 2017, em 2022 ainda mais o é, entre pandemia, tensões raciais, guerras culturais, guerra propriamente dita, inflação, alterações climáticas. 

 

A juntar a isso, os Paramore têm estado muito interventivos nos últimos anos. Em parte porque, por estes dias, não dá para nos mantermos neutros – direitos humanos não são para debate. Mas também porque, como referido acima, a banda tem fãs muito diversos e eles procuram usar a sua posição privilegiada para retribuir. Entre outras coisas, apoiaram o Black Lives Matter e, mais recentemente, agora que o Roe vs. Wade foi revogado nos Estados Unidos, vão doar parte dos lucros dos concertos a organizações que dão acesso a interrupções voluntárias da gravidez a pessoas que não têm possibilidades. 

 

 

Eu adoro-os por isso. 

 

Consta, aliás, que uma grande parte do álbum This is Why terá sido inspirada por conversas que os membros dos Paramore foram tendo nos últimos anos acerca destas questões. Afinal de contas, os três foram nados e criados no sul dos Estados Unidos, que se caracteriza pelo extremismo cristão, pelo ultraconservadorismo, que faz as nossas avós beatas parecerem progressivas e modernas. A gente que elegeu Donald Trump, essencialmente. 

 

Aliás, apesar de os Paramore sempre terem recusado o rótulo de "Christian Rock", a música deles, sobretudo nos primeiros álbuns, está cheia de referências religiosas. Hoje em dia, os fãs culpam o antigo guitarrista e co-compositor Josh Farro por isso. São capazes de ter razão mas, para sermos justos, eles compuseram Part II após a saída dele. 

 

A relação dos três com o cristianismo será um dos aspetos que eles reavaliaram – já o sabíamos desde o ano passado. Pergunto-me se alguma das músicas novas abordará esse tema – seria interessante. 

 

Teremos de esperar para ver – ou melhor, para ouvir. Aliás, ainda temos de esperar quatro meses para ouvir o álbum todo – este só será editado a 10 de fevereiro. Sim, é um bocadinho chato – já lá vão cinco anos e meio, que diabo! No entanto, aqui entre nós, até me dá jeito em termos de gestão dos meus blogues. Ia ser complicado se saísse durante o Mundial. 

 

A data tardia do lançamento é o menos, para ser sincera, porque não gostei muito deste início de ciclo (e acho que não fui a única). O festival When We Were Young foi anunciado para agora, dia 22, 23 e 29 de outubro, no início deste ano. Mais tarde foram saindo outras datas para este outono, sendo que a maioria foi anunciada em julho. Todos sabíamos que era pouco provável os Paramore irem em digressão sem lançarem pelo menos um single. 

 

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Pois bem, eles lançaram-me This is Why a 28 de setembro, nas vésperas do primeiro concerto. Pareciam portugueses, deixando tudo para a última hora. 

 

Ainda assim, não me importaria com isso se eles não tivessem começado tão cedo com os indícios. – Quase três semanas antes, na altura em que a Rainha morreu, enchendo-nos de falsas esperanças de um lançamento daí a poucos dias. Quando foi propriamente anunciado, uma semana mais tarde, ainda faltavam quase duas semanas para o dia 28.

 

Mais incompreensível, para além da partidinha que nos pregaram com o "wr0ng" (ah ah, ainda não era desta que os Paramore recebiam o dinheiro das reproduções e do iTunes, hilariante), foi terem partilhado excertos de uma música que, conforme se veio a descobrir, não era This is Why. Com alguma pena minha pois gosto muito do que ouço nesses vídeos. E, sinceramente, não percebo a lógica – terá sido engano? 

 

Provavelmente será o segundo single – aposto que será The News. E talvez saia no dia 3 de novembro, como aparece no site oficial neste momento. Se sair, ou se sair mais algum single antes de sair o álbum (pelo menos mais um, quase de certeza), só devo escrever sobre isso num dos textos de fim de ano. 

 

E depois do já expectável milhar e meio de palavras de introdução, falemos sobre This is Why. 

 

Nem Now nem Hard Times me deixaram de joelhos quando saíram. Foram-se entranhando com o tempo, sim, mas ainda hoje não se encontram entre as minhas preferidas. Com This is Why está a acontecer mais ou menos o mesmo: precisei de ouvir algumas vezes para lhe tomar o gosto e mesmo agora não está entre as minhas preferidas dos Paramore ou mesmo deste ano. 

 

 

Ainda assim, acho que gosto mais de This is Why do que gostei de Now e Hard Times. Não tenho a certeza – já lá vão uns aninhos. 

 

Musicalmente, This is Why tem sido descrita como uma combinação do estilo de After Laughter e, um pouco, de Petals For Armor, com as sonoridades mais antigas dos Paramore. Não é uma música pesada – é dançante, rítmica, baseada mais em riffs e menos em acordes – mas é mais áspera, menos pop, que After Laughter. Nesse sentido, foi bem escolhida como primeiro avanço. 

 

Aliás, ouço imensas semelhanças com Hard Times: o ritmo, o tom falsamente animado, a letra curta, as metáforas com quedas na terceira parte, os acordes que pontuam os versos do refrão (fazem-me lembrar os que soam no final de Hard Times, entre "Makes you wonder why you even try" e "Still don't know how I even survive"). 

 

O refrão é mesmo a minha parte preferida de This is Why. Adoro as múltiplas vozes. 

 

Outro aspecto de que gosto é a longa introdução instrumental – dando tempo a Zac e a Taylor para fazerem a cena deles antes de Hayley entrar. Gosto dos padrões da bateria e das notas de baixo e guitarra. Em suma, um instrumental irrepreensível. 

 

Agora falemos sobre a letra. De uma maneira geral, This is Why fala sobre instintos misantrópicos, isolacionistas. Sobre estar-se farto de pessoas. O ponto de vista de Hayley é semelhante ao meu: no início da pandemia tinha algumas esperanças de que as dificuldades trouxessem ao de cima o melhor da Humanidade.

 

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Nalguns casos terá trazido… mas na maior parte das vezes foi o contrário. 

 

Nem é preciso olharmos para o Mundo em geral. Olhemos só para o microcosmos do futebol, por exemplo, para o último mês, mês e meio. Tivemos crianças apanhadas no fogo cruzado das rivalidades clubísticas cá em Portugal. Em Java, na Indonésia, morreram cento e setenta e quatro pessoas e outras tantas ficaram feridas durante uma invasão de campo. Na Argentina morreu uma pessoa num incidente parecido, que envolveu confrontos entre polícia e adeptos. 

 

Pegando no argumento acima, seria de esperar que, após meses de futebol em estádios vazios ou de lotação limitada, quando os adeptos voltassem à bola fariam por serem civilizados. 

 

Ainda há pouco tempo saiu um estudo demonstrando que a maior parte das pessoas, sobretudo jovens adultos, sofreu desenvolvimento carácter negativo com os eventos dos últimos anos. Este artigo fala em "declínios na extroversão, abertura, amabilidade e consciência". No que toca a este género de ciência pop, é sempre necessário dar um desconto, claro. Mas a verdade é que o estudo condiz com a nossa percepção: estamos todos piores e tornamo-nos uns aos outros piores. 

 

A letra de This is Why reflete essa diminuição da extroversão: "This is why I don't leave the house". Hayley faz logo uma entrada a pés juntos: "If you have an opinion, maybe you should shove it". 

 

Temos aqui um problema semelhante a Hard Times: a letra é um pouco curta demais e, fora do contexto, pode ser mal interpretada. Pode parecer intolerância, recusa em aceitar opiniões diferentes das suas – precisamente um dos comportamentos que a banda diz criticar. É interessante compararmos This is Why com Ain't it Fun: "It's easy to ignore trouble when you're living in a bubble". Uma das mensagens de Ain't it Fun e do Self-titled em geral diz respeito à necessidade de sairmos das nossas zonas de conforto, das nossas casas, de modo a podermos crescer, expandir o nosso mundo. 

 

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Dito isto… eu percebo. Em teoria sim, temos de ter mentes abertas, conversar com o outro lado, ouvir o que eles nos têm para dizer. Na prática, é difícil. É preciso que o outro lado esteja disposto a fazer o mesmo e isso nem sempre acontece. Além de que este tipo de conversas exige tempo e energia que nem todas as pessoas têm. 

 

E sobretudo, pelo menos no que toca às redes sociais, o jogo está viciado. Conforme explicado aqui na vizinhança, os algoritmos tendem a favorecer polarização, opiniões instantâneas e inflamadas, "da boca para fora", que suscitem likes, partilhas, guerras nas caixas de comentários ("Dare to have conviction 'cause we want crimes of passion"). João Ferreira Dias só refere o Facebook mas o mais certo é o mesmo passar-se com o Twitter, o Tik Tok, o YouTube e companhia. Em resposta – e eu mesma sou culpada disso – agarramo-nos aos nossos pontos de vista. Caímos nas chamadas "câmaras de eco", em que só recebemos notícias que confirmem as nossas convicções. Encaramos opiniões contrárias como ameaças, como ataques pessoais ("You're either with us or you can keep it to yourself"). 

 

Quando é assim, o melhor é não jogarmos ou arriscam-nos a fazer parte do problema. Os membros dos Paramore abandonaram o jogo há algum tempo – é raro eles mesmos usarem as redes sociais. 

 

Quanto a mim, faço por jogar segundo as minhas próprias regras. No meu "feed" do Twitter, os tweets aparecem por ordem cronológica e não por destaques – nem imaginam a diferença que faz, recomendo fortemente. Procuro evitar dar "opiniões instantâneas" – não é raro sair uma notícia qualquer que nos suscita uma reação, apenas para serem divulgados pormenores horas mais tarde, que mudam o contexto do caso. Tento usar as redes sociais quase só a propósito dos meus interesses e para contactar com família e amigos. 

 

Não tenho tido sempre um comportamento exemplar nas internetes, admito. Mas, por estes dias, tento ter. Ajuda muito não ser uma figura pública, não ter uma data de pessoas à espera que eu cometa um deslize para me cancelarem, e nunca ter sido alvo de cyber bullying até agora. 

 

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Em todo o caso, agora quero ouvir o resto do álbum, para ver como é que este primeiro avanço se encaixa. Sobretudo tendo em conta que foi a última a ser composta e, segundo Hayley, traduzir a mensagem essencial de This is Why enquanto álbum. 

 

Aliás, adoro a maneira como a tracklist foi divulgada: escondida nas t-shirts que vendem nos concertos, estilo caça ao tesouro. Nem a Taylor Swift alguma vez se lembrou desta! 

 

E é tudo o que tenho a dizer sobre This is Why, pelo menos para já. Agora, nos próximos parágrafos, vou virar os holofotes para mim mesma, isto vai assemelhar-se a uma página do meu diário. Se não estiverem interessados, podem clicar noutro sítio, não levo a mal. 

 

O lançamento deste single marcou o fim de um setembro muito intenso para mim, sobretudo nos dias imediatamente antes. Aconteceu muita coisa na minha vida: estive uma semana de férias no Algarve, publiquei um texto novo aqui no blogue, tivemos dois jogos da Seleção, tive um "sunset", um concerto dos Simple Plan e dos Sum 41 (com Cassyette a abrir), vi Digimon Adventure Last Evolution Kizuna dobrado em português… duas vezes. 

 

Já que falo nisso, rever Kizuna um ano e meio depois não doeu, pelo menos não tanto como as primeiras vezes, mas foi outra vez uma catrefada de emoções, tive de passar de novo pelo processo de digestão e ainda não terminei. 

 

Acho que este filme irá sempre mexer comigo, mesmo depois de sair The Beginning. 

 

 

Quanto à dobragem em si? Adorei. O elenco português fez um excelente trabalho. A minha voz preferida é a da Menoa, por Vera LimaDeixo uma amostra acima (sem Menoa, infelizmente).

 

Muitas das coisas que listei acima ocorreram em menos de uma semana. Atrasei-me com o meu texto sobre música portuguesa e passei um par de dias em stress para publicar no meu outro blogue antes dos jogos da Seleção. No sábado dia 24 de manhã, publiquei a crónica pré-jogos. À noite tive o tal sunset enquanto decorria a vitória de Portugal sobre a Chéquia. No domingo de manhã vi Kizuna nos cinemas pela segunda vez. Na segunda-feira tive o concerto. Na terça-feira Portugal perdeu com a Espanha e falhou a final four da Liga das Nações. Finalmente, na quarta-feira saiu This is Why. 

 

Foram muitas emoções diferentes em poucos dias: alegria, tristeza, stress, frustração, comunhão, desilusão, Kizuna. Houveram dias em que bebi café a mais, tive insónias a meio da noite e escrevi em modelos desatualizados de receitas manuais. Ainda não sei se irei partilhar o que escrevi – a minha versão de Midnights? 

 

Já não estava habituada a isto – sobretudo depois de dois anos e meio de pandemia. Terá acontecido mais naquela meia semana do que num ano ou dois. Coisas que não puderam acontecer durante muito tempo porque Covid. Foi bom. 

 

E não acabou aqui, na verdade. Este texto foi quase todo escrito durante uma viagem a Paris e a Zurique. Foi a primeira vez que vim ao estrangeiro desde antes da pandemia, tirando uma visita rápida a Salamanca há um ano. Não foi tão intenso como aqueles dias no final de setembro, mas foi ótimo. 

 

This is Why veio, assim, num momento feliz da minha vida. Aliás, Setembro foi um mês em que me fartei de descobrir ou redescobrir música, de diferentes formas e por diferentes motivos. Assim, compilei a playlist abaixo para captar, pelo menos em parte, a montanha-russa de emoções que foram aqueles dias. Deem uma espreitadela.

 

 

Entretanto vou ganhar vergonha na cara e tentar publicar pelo menos um dos textos que tenho em atraso antes do Mundial. 

 

Como sempre, obrigada pela vossa visita. Continuem desse lado.

Top 10 música portuguesa #2

Segunda parte do meu top 10 de música portuguesa. Podem ler a primeira parte aqui.

 

Chegámos ao pódio da tabela. O bronze foi para...

 

3) João Pedro Pais – Louco Por Ti

 

Acho que nunca ouvi um álbum dele do princípio ao fim, só os singles, mas João Pedro Pais sempre foi um dos meus cantores portugues preferidos. As minhas primeiras recordações dele são de vê-lo cantando na televisão, no final dos anos 90. Depois disso, João foi sempre uma presença assídua nas rádios, nas bandas sonoras de telenovelas, nas compilações que ia comprando.

 

 

Um aspeto curioso em relação a João é a sua ligação a Bryan Adams (que, como vocês saberão, é o meu cantor preferido). Bryan convidou-o para abrir os seus concertos na Península Ibérica na digressão de 2003. Um gesto simpático… mas João teve de pagar as viagens do seu próprio bolso (que forreta, senhor Bryan!). Em todo o caso, João acabou por fazer amizades na banda dele. Mais tarde, voltou a abrir para Bryan em 2005 (e chegou a dar um saltinho à entrevista à RFM, incluída no DVD Live in Lisbon) e, ainda melhor, o próprio Keith Scott tocou nalguns álbuns de João. Ambos ficaram bons amigos

 

Pode-se argumentar que João e Bryan têm algumas semelhanças – ambos são cantores masculinos que tocam pop rock e cantam sobre amor. Eu definitivamente tenho preferência por este estilo.

 

A minha música preferida de João Pedro Pais é Louco por Ti, do seu álbum de estreia, Segredos. Em termos puramente musicais, gosto do crescendo no início – começa com um acompanhamento e uma melodia relativamente graves, apenas sintetizadores, bateria e o baixo. A certa altura soa um acorde de guitarra elétrica, a melodia sobe de tom e culmina no excelente refrão. 

 

Outro pormenor de que gosto é do facto de, ao contrário do costume, o solo de guitarra soar depois do terceiro refrão e não antes.

 

Esta canção foi reeditada no álbum 20 anos, que João lançou em 2017 para celebrar duas décadas de carreira. Neste álbum, ele regravou os seus êxitos e eu definitivamente prefiro esta versão de Louco Por Ti.

 

 

Também gosto muito da letra. Um dos motivos pelos quais me afeiçoei à música foi por se aplicar bem à uma história que escrevi quando era adolescente. Da maneira como a interpreto, Louco por Ti fala sobre o início de uma relação (vamos assumir que é um casal heterossexual). Ambas as partes estão interessadas, mas ela é mais atrevida, mais "prá frentex" (ainda se usa essa expressão?), enquanto ele – o narrador – é mais retraído, em parte por causa de pressões de terceiros. No fundo é um conflito entre o desejo e a timidez. 

 

Não digo que Louco Por Ti esteja objectivamente entre as melhores canções portuguesas, mas é uma das minhas preferidas. Agora espero voltar a ter uma oportunidade de ver João Pedro Pais ao vivo, tocando esta e muitas outras. 

 

2) António Variações – Canção do Engate

 

Nem toda a gente concordará com algumas das minhas escolhas nesta lista de melhores canções portuguesas, mas acho que esta será bastante consensual. Não preciso de apresentar António Variações, toda a gente sabe quem foi. Uma das grandes injustiças deste mundo é ele ter tido uma carreira tão curta. O VIH é uma grande besta.

 

Há quem acredite no “live fast, die young” no que toca a músicos. Há quem romantize artistas como estes, que desaparecem enquanto estão em alta, sem nunca produzirem trabalhos de menor qualidade que os seus antecessores, sem nunca perderem a juventude, a beleza, a energia. E, nos tempos que correm, sem nunca serem “cancelados”.

 

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Eu não alinho nisso. Já tive as minhas perdas e cheguei à conclusão que quero vidas longas para os “meus” músicos. Mesmo que os trabalhos vão perdendo qualidade, mesmo que deixem de fazer música. Ao menos estarão cá para cantarem os velhos êxitos nos concertos ou, na pior das hipóteses, continuarem a ouvir os elogios e as homenagens.

 

Tenho pena, assim, de não ter vivido ao mesmo tempo que António Variações. Uma coisa que me surpreendeu no filme Variações – corroborada mais tarde, quando pesquisei sobre o assunto – foi o lado mais tradicional de António. A sua paixão pela música tradicional portuguesa, por Amália Rodrigues (com quem fez amizade), e em simultâneo um artista à frente do seu tempo, com um visual arrojado e influências modernas.

 

Se me permitem o parêntesis, há uns tempos encontrei uma entrevista de Júlio Isidro à dona Deolinda de Jesus, mãe de António Variações, e ao irmão dele, uns anos após a sua morte. Aparentemente foi retirada do YouTube pois agora já não a encontro. O que é uma pena. Gostava que ouvissem a ternura com que D. Deolinda falava sobre o filho. Daquilo que me recordo da entrevista (e posso estar a recordar mal), a música preferida dela era “É P’ra Amanhã” e ia repetindo que o António “era muito amigo da sua mãe”.

 

Não tenho experiência própria do Portugal dos anos 70 e 80, mas imagino que não tenha sido fácil para D. Deolinda apoiar o filho. Era a obrigação dela como mãe, claro, mas vivia numa aldeia do interior, num Portugal ainda a recuperar da ditadura, e tinha um filho homossexual e exuberante. Imagino o que ela terá ouvido. 

 

Mas encerremos este aparte. A minha música preferida de António Variações é a Canção do Engate, uma das mais conhecidas dele. 

 

O título foi uma das últimas coisas que descobri acerca da música. Não me recordo exatamente como descobri, mas lembro-me de ter ficado surpreendida. “Canção do Engate”? A sério? Um título tão prosaico, quase brejeiro, para uma música tão bonita?

 

 

A verdade é que esse paradoxo define bem a canção. É uma maneira bonita de tentar seduzir alguém para um caso de uma noite de só, de… bem, engatar alguém. A música procura romantizar algo que não é propriamente romântico, pelo menos não da maneira tradicional. A letra fala de duas pessoas que pretendem usar-se uma à outra para combater a solidão. Uma dela ainda tem esperanças numa ligação romântica, outra – o narrador – tem uma perspetiva mais cínica, quer sexo e mais nada.

 

Agora que penso nisso, faz-me lembrar Give You What You Like, de Avril Lavigne – é como se fosse a perspetiva da outra pessoa. I’ve got a brand new cure for lonely (“brand new” é como quem diz… Deve ser das curas mais antigas da humanidade). A narradora sente-se sozinha, aceita envolver-se com a outra pessoa desde que esta finja que a ama, nem que seja só por uma noite. 

 

Por outro lado, não podemos ignorar que a letra terá quase de certeza sido inspirada pelas experiências de Variações como um homem homossexual nos anos 70 e 80, conforme referido neste artigo. Não me vou alongar muito pois não faço parte da comunidade, não tenho direito a isso.

 

Toda a música, aliás, tem um tom algo melancólico, fruto tanto da letra como do acompanhamento musical e da interpretação de Variações. Não é óbvio à primeira audição, mas quando reparamos nele não dá para ignorar. Uma vez mais, esta melancolia, esta solidão, é uma coisa muito portuguesa. 

 

Como seria de esperar uma música extraordinária como esta, existem várias versões por outros artistas. Não gosto muito da versão do filme Variações – Sérgio Prata não canta a melodia como deve ser – mas gosto do instrumental e Sérgio tem uma voz fantástica.

 

 

Há coisa de uma década, Tiago Bettencourt gravou a sua própria versão – acústica, acompanhada por uma orquestra. Andei obcecada por esta em 2014, altura em que a apanhava muitas vezes na rádio. É uma versão lindíssima: a orquestra dá um tom grandioso à canção.

 

Essa obsessão arrefeceu, mas ainda gosto muito desse cover. Por estes dias, tenho andado fixada na versão dos Delfins. Já falámos deles na publicação anterior, a propósito de 1 Lugar ao Sol. Por sinal, essa música tem algumas semelhanças com a versão deles de Canção do Engate. É também um tema pop rock cuja produção confere um carácter atmosférico à música. Atentem à secção instrumental depois da segunda estância. 

 

Outra diferença em relação ao original é o ritmo mais rápido. Isso por um lado é bom: praticamente a única falha da versão do Variações é esta por vezes arrastar-se. Por outro lado… a música original era mais lenta por um motivo. Pode-se argumentar que a versão dos Delfins é um tudo nada demasiado alegre. Mas é uma falha menor, na minha opinião.

 

António Variações teve uma carreira mais curta do que merecia, mas ainda conseguimos sentir o impacto do seu trabalho nos dias de hoje. Ainda agora Marisa Liz interpretou um inédito de Variações, intitulado Guerra Nuclear. Gosto imenso da música – terá sido composta há coisa de quarenta anos mas é assustadoramente relevante nos dias de hoje. 

 

Quer-me parecer que a música de António Variações continuará no imaginário colectivo durante muitos anos ainda. Gosto de pensar que estou a contribuir para isso com este texto. Fica aqui. 

 

1) GNR – Sangue Oculto

 

 

Chegámos ao topo da lista. Sangue Oculto é uma canção que descobri quando tinha nove ou dez anos. Se a memória não me falha, foi quando me ofereceram o meu primeiro Discman (quem não saiba o que é, que vá ao Google), juntamente com a compilação Anos 90 Bem Medidos. Esta era a faixa que abria o segundo CD – por causa disso, ainda hoje, de vez em quando, gosto de ouvir Mundo de Aventuras depois de Sangue Oculto. Fiquei muito rapidamente obcecada pelo tema dos GNR e de Javier Andreu. Lembro-me de imaginar os três protagonistas de Sonic Underground (na altura passava no Batatoon) tocando esta música.

 

Infelizmente, acabei por perder o segundo CD e estive vários anos sem ouvir Sangue Oculto, tirando uma vez ou outra. Por sinal, uma das vezes foi numa das minhas primeiras visitas ao Alvaláxia, no primeiro ano de vida do Estádio Alvalade XXI. Alguns meses mais tarde, no dia em que ia ver o Portugal x Espanha do Euro 2004 – o meu primeiro jogo de futebol – lembrei-me da ocasião e andei a cantarolar a canção para mim mesma. Na altura não me ocorreu o quão adequado era cantar um dueto luso-espanhol no dia de um duelo ibérico. Pouco mais de um ano mais tarde, no dia do meu segundo jogo da Seleção – se não me engano, um jogo com o Luxemburgo, no Estádio do Algarve – apanhei a música na rádio.

 

Todas estas coincidências fizeram com que começasse a associar a música à Seleção. Anos mais tarde, adicionei-a à respetiva playlist. Adequa-se particularmente a jogos entre Portugal e Espanha, como disse acima. Durante o Mundial 2018, a RTP3 fez uma pequena montagem com imagens do nosso empate com nuestros hermanos e eu adorei. 

 

Não me posso esquecer de fazer uma story ou algo similar quando jogarmos com eles, na próxima semana.

 

Recuando um pouco, em finais de 2007, descobri que era possível comprar ficheiros de mp3 no site da RFM. Eu já usava leitores de mp3 há algum tempo, mas apenas com músicas “ripadas” de CDs (a única exceção era a discografia dos Linkin Park, conforme escrevi aqui). Tinha boas intenções, queria continuar a adquirir música legalmente (a maior parte das vezes, pelo menos), logo, usei esse site e a primeira música que comprei foi precisamente Sangue Oculto. 

 

 

Acabei por apanhar um balde de água fria pois o meu leitor de mp3 não conseguia ler o ficheiro que eu comprara (acho que estava bloqueado ou assim). Conseguia ouvi-lo no computador, mas não em mais lado nenhum. 

 

Algumas semanas depois saquei a música por meios… menos legais. Aliás, toda esta experiência dissuadiu-me de comprar música online durante vários anos. Ainda assim, no meu cânone pessoal, Sangue Oculto destaca-se por ter sido a primeira música que saquei da Internet eu mesma.

 

Mas está na altura de falarmos sobre a música em si. Começando pela letra. Sangue Oculto foi tema de um dos primeiros episódios do Responder à Letra de Gilmário Vemba. Aliás, foi esse episódio, ficado na minha canção portuguesa preferida, que me inspirou a escrever este texto. 

 

Não vou defender os GNR nesta. Concordo com o Gilmário, a letra não faz sentido nenhum. Nunca fez, embora eu nunca tenha pensado a fundo nela até ouvir o Gilmário. Isto na verdade é um problema recorrente com os GNR (que, apesar de tudo, são das bandas portuguesas que mais gosto). Como disseram num episódio mais recente de Responder à Letra, muitas vezes não se percebe se é suposto as canções terem algum sentido ou se são apenas frases ao calhas. E se o Gilmário se puser, um dia, a ouvir Ana Lee, até se passa. 

 

Mal posso esperar. 

 

 

Regressando a Sangue Oculto, esta letra nem sequer é daquelas suficientemente vagas para projetarmos os significados que queremos: está mais além disso. Ninguém pode refutar as nossas interpretações porque a letra não é suficientemente coerente para alguém discordar. 

 

Por exemplo, no meu caso, eu associo-a à Seleção, ainda que sobretudo por motivos alheios à letra em si. Por outro lado, encontro algumas semelhanças com a letra de Heat of The Night, de Bryan Adams – também ela confusa, com referências vagas a fogo e/ou calor e luta nas ruas. Por outro lado, consta que Sangue Oculto fez parte da banda sonora de Lua Vermelha, uma série vampiresca da SIC que tentava explorar a febre Twilight… o que acho hilariante. 

 

A propósito, parece que a SIC se prepara para estrear uma novela chamada Sangue Oculto. Terá mesmo sido inspirada por esta canção, já que soa durante o genérico. Ironicamente, as premissas parecem ser exatamente aquelas que o Pôr-do-Sol caricatura (ainda só vi os primeiros episódios). Ninguém na SIC percebeu a mensagem…

 

Por fim, a propósito do Responder à Letra sobre Sangue Oculto, o António do Odaiba Memorial Day PT disse-me que a música lhe fazia pensar em Digimon Fronteira. Entre as referências fogosas e a barreira/barragem de fogo que pelos vistos é uma fronteira, faz algum sentido.

 

Na verdade, aquilo que mais gosto na música é o instrumental. Do princípio ao fim. Quase todos os instrumentos brilham em Sangue Oculto. O baixo tem um padrão interessante; adoro as notas de piano pontuando o refrão; a bateria vai fazendo o que quer. Quando saquei Sangue Oculto, passado todo aquele tempo, o meu eu de dezassete anos adorou o facto de esta música ter, não só um solo de guitarra mas também um solo de piano. Nem sequer sabia que era possível. 

 

 

Há uns anos, os GNR fizeram um concerto em conjunto com a banda sinfónica da GNR (a Guarda Nacional Republicana, não o Grupo Novo Rock). Gosto imenso do que fizeram com Sangue Oculto – os metais soam fantásticos.

 

Por fim, gosto da interpretação de Javier Andreu, mas ainda mais da de Rui Reininho – ele tem uma das vozes mais bonitas de Portugal. Aliás, adoro o facto de isto ser um dueto bilíngue. De as duas partes do refrão serem traduções uma das outras, ainda que imperfeitas (barreira? barragem?), de Reininho e Andreu irem cantando à vez e, depois, ao mesmo tempo. É super giro, é algo que nunca ouvi em mais nenhuma música. 

 

Objetivamente, talvez Sangue Oculto não mereça estar no topo desta tabela. Temas como Canção do Engate, Mariana, Chamar a Música, Porto Côvo ou mesmo Louco Por Ti serão melhores canções. Mas, lá está, Sangue Oculto é uma das minhas preferidas de todos os tempos. Adoro-a há mais de vinte anos. Mesmo merecendo menos do que outras, eu tinha de colocá-la em primeiro lugar. De outra forma, não estaria a ser honesta comigo mesma. 

 

Agora tenho mesmo de ir a um concerto dos GNR, mesmo que Javier Andreu não esteja lá para cantar Sangue Oculto. Mas espero que esteja!

 

E pronto, são estas dez das minhas músicas preferidas em português de Portugal. Foi divertido redescobrir estas canções tão especiais para mim.

 

Quanto aqui ao estaminé, este não deverá ficar parado durante muito tempo. Os Paramore estão finalmente a sair da toca e vão lançar um single – This is Why – no dia 28 de setembro. Naturalmente, esse single será assunto do próximo texto cá do blogue. Não vou começar a escrevê-lo logo logo – This is Why sai no dia a seguir ao jogo com a Espanha, ou seja, ainda estarei ocupada com o meu outro estaminé. Mas não será mau tirar uns dias para refletir sobre a música – e possivelmente ler e/ou ouvir eventuais declarações da banda sobre This is Why e o álbum que se avizinha.

 

Uma vez mais, obrigada pela vossa visita. Continuem por aí.

Top 10 música portuguesa #1

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Uma falha aqui do estaminé é não falarmos o suficiente sobre música portuguesa. Para além de não dar o devido apoio à produção nacional, uma grande fatia da música que oiço é de artistas ou bandas do nosso retângulo à beira-mar plantado. Já estava na altura de isso se refletir aqui no blogue.

 

Antes dos meus doze anos, a maior parte da música que ouvia era portuguesa. Não sei se o meu caso é único e/ou se isso ainda acontece hoje mas, a partir de certa altura, a mensagem que me chegava era que o que era “fixe” era ouvir música em inglês. Estava também numa altura em que já sabia inglês suficiente para compreender as letras, pelo menos em parte.

 

Ainda assim, a música portuguesa esteve sempre presente, mesmo que apenas através da rádio. Quando comecei a usar o Spotify aqui há uns anos – que facilita imenso o acesso a música – passei a  ouvir artistas e bandas portuguesas muito mais ativamente. Aliás, por norma faço um esforço por ter todos os dias um Daily Mix todo em português de Portugal (o que às vezes é difícil, o algoritmo é teimoso...). A minha lógica é que, como estes músicos têm uma audiência bem menor que os músicos anglo-saxónicos, precisam mais das minhas reproduções.

 

Assim, hoje vou deixar-vos o meu top 10 de música portuguesa. Bem, mais ou menos. Não é um top 10 rigoroso por dois motivos. Para tornar o texto mais interessante, não vou repetir artistas ou bandas e não vou incluir músicas que já abordei aqui no blogue. Porto Côvo, por exemplo, ocuparia um dos lugares cimeiros, mas, como já teve direito ao seu próprio texto, incluí-la neste seria redundante. Desse modo, pensem nisto não como um top 10 e sim em dez músicas portuguesas que estão entre as minhas preferidas.

 

E talvez um dia escreva uma segunda parte, com outras dez músicas. 

 

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Olhando para esta lista, uma coisa que se destaca é que… estas músicas são antigas. A mais recente tem vinte anos. 

 

Isto tem duas explicações. Em primeiro lugar, como verão já de seguida, quase todas estas canções têm uma história pessoal associada e/ou descobri quando era miúda. Em segundo lugar, muitas destas músicas têm sobrevivido ao teste do tempo, ainda hoje passam nas rádios. Ainda por cima, a rádio que mais oiço neste momento é a m80. 

 

Não significa que não haja música portuguesa após o início dos anos 2000 de que eu goste. Eu aliás ando a gostar de ouvir a Bárbara Tinoco e também as músicas Talvez de Carolina de Deus e Mais ou Menos de Rita Rocha. Se sempre escrever uma sequela a este texto, hei de incluir músicas mais recentes.

 

Como o costume, tinha muito sobre que escrever. Assim, este top 10 virá em duas partes. Deixo o pódio para amanhã ou depois.

 

Assim, sem mais delongas, começamos por…

 

10) Anjos – As Long As You Love Me

 

No início dos anos 2000, tive uma fase em que gostava muito dos Anjos. Não durou muito, mas ainda hoje gosto de músicas como Ficarei, Quero Voltar e Perdoa. São um par simpático. 

 

 

Penso que foi no Natal de 2000 que me ofereceram o CD Anjos ao vivo, lançado no mesmo ano. Apesar de ser um álbum ao vivo, a primeira faixa foi gravada em estúdio. É o tema Quando Fores Grande, que os Anjos lançaram a propósito de uma campanha conjunta com a Swatch – também me ofereceram o relógio, se não me engano em conjunto com o CD. Era uma campanha para a construção de uma escola em Timor-Leste, que estava a libertar-se da ocupação indonésia.

 

Saudades desses tempos antes do 11 de setembro, em que parecia que o mundo estava a evoluir para melhor. Sublinhe-se o “parecia”.

 

O videoclipe de Quando Fores Grande dá-me vontade de rir, um bocadinho. É tão… final dos anos 90, início dos anos 2000. Aquela coreografia, as dançarinas com o estômago à mostra…

 

Mas não é de Quando Fores Grande que quero falar, é sobre outra música de Anjos Ao Vivo. A versão que a dupla cantou em palco do grande êxito dos Backstreet Boys, As Long As You Love Me. 

 

Eu fiquei obcecada por este cover. Lembro-me de dançar ao som desta música na minha sala, quando tinha onze ou doze anos. Mesmo anos mais tarde, já depois de me ter cansado das outras músicas dos Anjos, fui mantendo esta música no meu leitor de mp3 (“ripada” do CD). Tive uma fase em que a troquei pela versão original, mas acabei por regressar à versão dos Anjos.

 

 

Uma grande parte da qualidade vem da versão original, claro, com a sua letra romântica e melodia açucarada. Ainda assim, acho que a versão dos Anjos tem um instrumental mais… orgânico, menos produzido, com uma emotividade diferente – nem que seja só por ter sido gravada ao vivo.

 

Ou talvez seja apenas a nostalgia a falar.

 

A música está apenas em décimo lugar precisamente porque está cá quase só por motivos sentimentais. Além disso, não é uma música original, é uma versão de uma música estrangeira – quase nem conta como música portuguesa. Mas eu tinha de incluí-la aqui, porque foi mesmo muito marcante. 

 

9) Rádio Macau – Amanhã é Sempre Longe Demais

 

Esta é uma obsessão recente. Não é propriamente uma canção que adore há muito tempo ou que tenha um grande valor sentimental, como a maior parte dos itens desta lista. Nem sequer tenho muito a dizer sobre ela. Mas gosto imenso de Amanhã é Sempre Longe Demais. 

 

 

A letra não é má. Dois amantes que se despedem depois de uma noite passada juntos e já sentem saudades um do outro. A minha parte preferida da canção é o instrumental. Não percebo como conseguiram aquele efeito “metálico” no acompanhamento (teclado? sintetizadores?), mas eu adoro. 

 

Também adoro a interpretação em tom grave de Xana, a vocalista dos Rádio Macau. Outras versões desta música, como a dos Resistência, acrescentam vocais mais agudos ao refrão e, a meu ver, não ficam tão bem. Nem todas as canções precisam de refrões bombásticos. Outro pormenor na versão original que resultou muito bem são os coros masculinos nos últimos refrões. 

 

Como disse acima, de todas as músicas nesta lista, Amanhã É Sempre Longe Demais será a canção de menor valor sentimental para mim. Se tivesse escrito este texto há dois anos (ou se o escrevesse daqui a dois anos), talvez esta música não estivesse incluída. Ainda assim, Amanhã É Sempre Longe Demais é uma música muito bonita por si mesma, merece todos os elogios. Mesmo que a minha obsessão arrefeça daqui a uns tempos, não me vou arrepender de ter escrito sobre ela. 

 

8) Xutos & Pontapés – À Minha Maneira

 

Tive algumas dificuldades em escolher uma música dos Xutos & Pontapés para esta lista. Gosto de várias músicas deles, mas daí a escolher uma favorita… Estive quase para não incluir nenhuma canção deles nesta lista, mas… são os Xutos!

 

Acabei por escolher À Minha Maneira, da minha playlist da Seleção (mais sobre isso adiante). Não diria que é a minha preferida dos Xutos, mas andará lá perto. 

 

 

Para mim, a música vale sobretudo pela letra – ainda que seja uma mensagem simples, que se explica a si mesma. A minha parte preferida é o refrão, sobretudo os versos "E as forças que me empurram, e os murros que me esmurram, só me farão lutar…" – a forma como se destacam do resto da música, tomando um carácter vagamente atmosférico, mesmo místico, para depois mudar para um tom mais eufórico em "À minha maneira (à minha maneira), à minha maneira!“. 

 

Em 2009, Cristiano Ronaldo usou esta música na sua apresentação no Real Madrid. Há coisa de dez anos, li uma entrevista ao Tim (no jornal Record?) em que este dizia que aprovava a escolha. Mais: Tim achava que a canção condizia bem com a personalidade e a história de vida de Ronaldo. 

 

Como alguém que acompanha a carreira do madeirense desde os seus tempos no Sporting, eu concordo. A determinação em ser o melhor, a sua teimosia, uma certa mesquinhez ao usar as críticas como motivação – há quem lhe atribua a frase “Your love makes me strong, your hate makes me unstoppable”.

 

Isso resultou bem durante a larga maioria dos vinte anos de Ronaldo como profissional. Infelizmente, neste verão vimos o reverso da medalha. Ele queria sair do Manchester United mas, numa altura em que ele está em fim de carreira e ninguém quer montar uma equipa em torno dele (outras pessoas na Internet podem explicar melhor a questão), a sua teimosia e orgulho jogaram contra ele e Ronaldo ficou muito mal na fotografia. 

 

Em todo o caso, é por causa disto que À Minha Maneira tem feito parte da minha playlist da Seleção Portuguesa. Mesmo que a maneira de Ronaldo esteja a voltar-se contra ele mesmo, a mim recorda-me – e perdoem-me por estar a falar disto outra vez a final do Euro 2016. Penso que já o referi algures nas internetes, mas na minha opinião uma das coisas que fez com que ganhássemos foi o facto de toda a equipa ter adotado a maneira de Ronaldo. Depois de um campeonato inteiro lidando com críticas (algumas justas, outras não), quase todo o mundo futebolístico contra nós, culminando com a lesão de Ronaldo, a resposta dos portugueses foi unirem-se contra tudo e contra todos. O resto é História. 

 

 

Esta não é a única canção neste texto que pertence à minha playlist da Seleção. Quando adiciono músicas a essa lista, às vezes estas ganham um lugar especial no meu coração. E como é da Seleção Portuguesa que estamos a falar, tendo a favorecer músicas cantadas em português.

 

Mais exemplos disso já a seguir. 

 

7) Pedro Abrunhosa – Eu Não Sei Quem te Perdeu

 

Neste momento, Eu Não Sei Quem te Perdeu é a minha canção preferida de Pedro Abrunhosa. Possui um tom intimista, só com piano e uma voz enrouquecida. Na minha opinião, a voz de Abrunhosa adequa-se a este género de baladas suaves, como Tudo o Que Eu te Dou e Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar. Não acho que resulte tão bem quando ele eleva a voz – embora até goste de algumas dessas músicas, como Vamos Fazer o Que Ainda Não Foi Feito. 

 

A letra não é má, mas não é nada por aí além. Ao menos não entra nos mesmos territórios bizarros de músicas como Momento ou Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar. Em todo o caso, condiz com a “vibe”, explora o lado romântico do tom intimista do instrumental. 

 

Aliás, gosto mais dessa “vibe”, do “mood” de Eu Não Sei Quem te Perdeu do que da letra em si. Tudo por causa do último filme de Digimon Adventure Tri.

 

Eu sei, eu sei. Passo a explicar. 

 

 

Isto ocorreu há pouco mais de quatro anos, durante o verão de 2018. Lembro-me perfeitamente: estava de férias no Algarve e estava a escrever a análise a Bokura No Mirai. Numa das tardes estava na varanda do meu apartamento de férias, passando o rascunho a computador e ouvindo música no Spotify. Quando estava na parte referente à cena em que o Yamato chora nos braços do Gabumon, calhou tocar Eu Não Sei Quem te Perdeu. 

 

Logo aí achei que a música se adequava àquele momento. Lá está, não pela letra. Aquela não é uma cena romântica, mas é uma cena de vulnerabilidade, de ternura, algo que Eu Não Sei Quem te Perdeu ilustra muito bem com o seu instrumental e o seu tom intimista.

 

Não me interpretem mal, esta é uma canção lindíssima por si só. Merece todos os elogios. No entanto, para mim tem este significado extra de estar associada a um dos melhores momentos de Tri. Sempre que oiço Eu Não Sei Quem te Perdeu, lembro-me do Yamato e do Gabumon… e tento não pensar no que acontece em Kizuna

 

Já que falo nesse filme, lembrete rápido que Digimon Adventure A Última Evolução Kizuna encontra-se neste momento em exibição nos cinemas, dobrado em português de Portugal. Não percam!

 

6) Diva – Mariana 

 

Esta é uma canção que eu estou genuinamente surpreendida por não ser mais popular hoje em dia. No que toca aos Diva, a canção Amor Errante tem mais rotação. É uma música bonita, não me interpretem mal, mas… Mariana é muito melhor! Sou a única a achá-lo? 

 

 

 

Mariana é uma música caída do céu. O instrumental contribui muito para esse efeito, com a percussão, os sintetizadores, a linda harmónica, o baixo e as notas de guitarra elétrica. E, claro, a linda interpretação da vocalista Natália Casanova, absolutamente angelical, uns agudos impressionantes. Eu bem tento atingir essas notas e não consigo… 

 

Por outro lado, os últimos "la la la la" são uma das partes que mais gosto da canção. 

 

A letra é simples mas bonita, falando sobre saudade – um tema muito português. Aliás, servia para fado. Não há por aí ninguém que queira fazer esse cover? 

 

Não preciso de dizer mais nada. Oiçam Mariana e deixem-na falar por si. 

 

5) Sara Tavares – Chamar a Música

 

De todas as canções nesta lista, Chamar a Música será a primeira que conheci. As minhas primeiras recordações dela serão de quando tinha quatro ou cinco anos – acho que na altura estava em todo o lado. Ao pesquisar para este texto, descobri que foi a candidata portuguesa para a edição de 1994 do Festival da Canção – a cronologia bate certo com as minhas recordações.

 

Eu, aliás, só agora é que descobri que a música original é da Sara Tavares. Nos últimos anos andava a ouvir a versão que está disponível no Spotify, cantada por Teresa Radamanto. Eu pensava que era a versão original – não é muito diferente da de Sara Tavares, condizia com as minhas recordações, nunca tinha pensado muito nisso. Daquilo que consegui pesquisar (que não é muito), esta é uma versão gravada em 2009, a propósito do programa da RTP “A Melhor Canção de Sempre”. O objetivo era escolher a melhor candidata portuguesa ao Festival da Canção até à data.

 

 

A versão de Teresa Radamanto é bonita, mas eu gosto mais da versão da Sara Tavares. Estou zangada por não estar disponível no Spotify. Ainda assim, a interpretação de Sara não é o único ponto forte da canção. A letra, da autoria de Rosa Lobato Faria, é provavelmente a melhor de todas as canções desta lista – é um poema, mais do que qualquer outra. Também gosto do acompanhamento musical – é típico das power ballads dos anos 90, não é?

 

Na altura, a música atingiu um respeitável oitavo lugar no Festival da Canção. Está nesta lista por sentimentalismo, mas Chamar a Música é genuinamente uma canção linda. Outra que merecia mais atenção nos dias de hoje. 



4) Delfins – 1 Lugar ao Sol

 

Os Delfins são uma banda que sempre apreciei, de forma intermitente. Quando tinha oito anos, mais coisa menos coisa, andei obcecada com o álbum Saber Amar, lançado um par de anos antes. Os meus tios tinham o CD e eu, com a falta de noção típica de uma menina de oito anos, convenci-os a oferecerem um exemplar ao meu pai no seu aniversário.

 

Ao fim de algum tempo fartei-me, mas o álbum foi marcante. Aqui entre nós, o azul é hoje a minha cor preferida pelo menos em parte por causa da canção A Cor Azul. Mesmo hoje, passados estes anos todos, ando a ouvir algumas das músicas e ainda gosto delas. Temas como Não Vou Ficar, Num Sonho Teu e o tema-título Saber Amar. 

 

Esta última é uma canção super alegre mas que, inesperadamente, encerra algumas verdades. “Contra as armas do ciúme, tão mortais, a submissão às vezes é um abrigo”, “Todas as formas de se controlar alguém só trazem um amor vazio”. O Miguel Ângelo não quer fazer um workshop?

 

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Ora, a música de que vamos falar não pertence ao álbum Saber Amar. 1 Lugar Ao Sol é daquelas músicas que sempre estiveram lá, que ia ouvindo de vez em quando na rádio sem lhe dar muita atenção. No verão de 2019, no entanto, a música cativou-me e tenho andado obcecada com ela nessa altura. 

 

A letra não é nada de especial – basicamente sobre lutar por sonhos. É daquelas letras que são suficientemente sólidas para dar alguma mensagem à música e, ao mesmo tempo, suficientemente vagas para o ouvinte fazer as suas próprias interpretações.

 

Naturalmente, acrescentei-a à minha playlist da Seleção Nacional. 

 

1 Lugar ao Sol, na verdade, tem sido a minha música preferida nessa playlist nos últimos anos. Ainda há relativamente pouco tempo usei-a numa story. Antes disso, durante os play-offs do Mundial 2022, ia cantando a terceira parte de 1 Lugar Ao Sol para mim mesma, como se fosse uma oração.

 

Hão de reparar que, na story, usei a versão ao vivo da música. O que me leva a algo que me tem feito alguma confusão: as inúmeras versões que existem de 1 Lugar Ao Sol.

 

Aparentemente, a primeira foi lançada no álbum U Outro Lado Existe, de 1988. Só fiquei a conhecê-la há pouco tempo, está no Spotify. Não é má, mas nota-se muito que é um produto dos anos 80, não necessariamente no bom sentido.

 

 

Talvez por isso, os Delfins regravaram a música no mesmo ano, juntamente com outros dois temas –  Sombra de uma Flor e 1 Só Céu – num EP que também se chamou 1 Lugar Ao Sol. Esta versão da música foi lançada como single e, segundo a Wikipédia, passou várias semanas nos lugares cimeiros das tabelas musicais. Ainda hoje tem bastante rotação nas rádios – na m80, pelo menos. Mais tarde, foi incluída no álbum Best Of: O Caminho da Felicidade, editado em 1995.

 

Existe uma outra versão de estúdio de 1 Lugar Ao Sol. Esta foi gravada para o segundo volume d’O Caminho da Felicidade, editado em 2013. Pouco menos de uma década depois, foi usada no genérico de Dancin’ Days, uma novela de 2013, fruto de uma parceria entre a SIC e a Globo.

 

Eu diria que esta é a versão mais “pesada” de 1 Lugar Ao Sol, no sentido em se guia mais pelas guitarras, quando comparada com outras versões. Não deixa de ser um tema pop rock, claro.

 

Existem ainda outras versões de 1 Lugar Ao Sol e iremos falar sobre elas. A versão em que me quero focar, a que figura neste top, é a do EP de 1988 e que foi lançada como single. Na minha opinião, tem o arranjo mais intemporal e mais adequado à letra sonhadora. É um tema pop rock à mesma mas mais despojado, com mais sintetizadores, vocais um pouco mais suaves, um carácter mais atmosférico. 

 

 

Em todas as versões de 1 Lugar Ao Sol, a terceira parte da música é a minha preferida. Nesta, no entanto, está num nível absolutamente estratosférico. Tudo por causa do solo de baixo de Rui Fadigas. Esta sequência é pura perfeição musical. 

 

Para grande frustração minha, esta versão de 1 Lugar Ao Sol foi retirada do Spotify algures entre 2020 e 2011. (É por estas e por outras que me recuso a aderir ao Premium, tirando durante promoções e outros eventos especiais). Tenho-a substituído pela versão dos Resistência e pela versão ao vivo. A primeira é uma versão acústica – foi a minha mais tocada no Spotify no ano passado

 

A segunda pertence ao álbum “25 Anos, 25 Êxitos… 1 Abraço” (adoro o título). Gosto da maneira como começa, só com notas de guitarra, para depois explodir com mais guitarras, o baixo, o piano, a bateria. 

 

Ainda assim, continuo a preferir a versão do EP. Fico à espera que um dia regresse ao Spotify. Tenho uma relação relativamente curta com 1 Lugar Ao Sol quando comparada com outras canções nesta lista, mas para mim é uma das melhores da música portuguesa.

 

 

E por hoje ficamos por aqui. Deixo as três líderes de tabela para a segunda parte. Como sempre, obrigada pela vossa visita.

Digimon Frontier #9 – Crise de Identidade

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Não preciso de falar sobre o papel da música em Digimon. Qualquer análise da franquia que eu faça aqui no blogue tem de incluir no mínimo uma referência a música – ou, no caso destas análises longas, uma secção. 

 

Esta é a primeira temporada em Digimon em que não gosto do tema principal de digievolução. O que é uma pena, pois With the Will é o primeiro cantado por Wada Kouji. Não quero dizer que seja má – sei que alguns gostam e, afinal de contas, dá nome a um conhecido site de fãs. Apenas não clicou comigo. 

 

The Last Element, que soa nas digievoluções Extremas e com o Susanoomon, é uma história diferente, no entanto. Muito mais agradável ao meu ouvido, sobretudo o início: as notas eletrónicas no fundo, a guitarra elétrica, o ritmo que abranda e acelera de novo. O início é sempre a parte mais importante no que toca a temas de digievolução, por motivos óbvios, e nesse aspeto The Last Element cumpre muito bem. Mas o resto também está bem conseguido, sobretudo o refrão.

 

Regra geral, não costumo ligar muito às chamadas “character songs”, mas queria falar de duas. A primeira é Salamander, o tema de Takuya, uma das que mais gosto em Fronteira. Funcionaria bem como um tema de abertura. Gosto muito do momento em que soa, no episódio da corrida dos Trailmon. 

 

Por outro lado, a música merecia soar num momento mais significativo da história de Takuya – por exemplo, quando decide regressar ao Mundo Digital – em vez de ser relegada para um mero filler

 

Eu gostava do tema de Kouichi, With Broken Wings, quando o ouvia em episódios como o 33. Um tema blues rock, adequado à personagem e àquela parte da história. No entanto, quando fui ouvir a versão completa da música, apanhei uma desilusão: esta a meio adota um estilo completamente diferente, estraga tudo. 

 

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Falta falarmos sobre a abertura e os encerramentos – deixei-os para o fim deliberadamente. Fire é muito fixe. Todas as aberturas até aqui têm sido boas, mas ainda assim Fire é uma das melhores. É melhor que The Biggest Dreamer, de Tamers. Estará mais ou menos ao nível de Target e Butter-fly, embora seja difícil fazer comparações com esta última. Por um lado é icónica, por outro é demasiado batida, é difícil sermos isentos sobre ela. 

 

Existe uma versão de Fire apenas com piano e voz. Fiquei a conhecê-la com a dobragem portuguesa do último episódio de Fronteira. Não sei se isso aconteceu com a emissão original dos episódios na SIC e/ou Canal Panda ou se foi uma gracinha do PTDigi, mas eles substituíram a abertura normal por esta versão, o que foi bem sacado.

 

É bonita. À semelhança do que já tinha acontecido com Butter-fly, a música ganha uma emotividade diferente sob esta forma.

 

Não adoro a versão portuguesa de Fire, mas não ficou má. Como já aconteceu antes, é uma mulher – a cantora Ana Vieira – a cantar uma melodia composta para um homem. Ainda assim, Ana fez um bom trabalho com ela.

 

Só tenho pena que não tenham escrito a letra de modo a condizer com o “lip syncing” dos miúdos, durante a sequência de abertura (um pormenor de que sempre gostei).

 

Diz que o segundo encerramento de Fronteira, An Endless Tale, é a última contribuição de AiM em encerramentos até Tri, o que é um bocadinho triste. Este tema é um dueto entre ela e Wada Kouji. Faz-me lembrar Aikotoba, do quinto filme de Tri, embora An Endless Tale seja uma power ballad mais clássica e, tenho de admiti-lo, menos original. Nesse aspeto, prefiro o carácter mais intimista de Aikotoba. Também acho que Fronteira usou An Endless Tale um bocadinho em excesso. No entanto, adequou-se perfeitamente à cena final e ao epílogo, que discutimos no texto anterior.

 

 

Deixei o primeiro encerramento de Fronteira – Innocent ~ Mujaki na mama de ~ – de propósito. É a minha música preferida desta temporada. Não sei explicar exatamente porquê mas vou tentar. Uma parte é pura e simplesmente a melodia e o acompanhamento musical, muito agradáveis ao ouvido. Mas acho que será também o carácter agridoce, a conjugação entre a sonoridade alegre e luminosa e a letra melancólica, ainda que esperançosa.

 

Só tenho uma pequena falha a apontar. A letra fala sobre estar longe de quem se gosta, o que não encaixa na história de Fronteira. Não há companheiros Digimon sendo deixados para trás. Mesmo os miúdos nunca chegam a separar-se ao ponto de terem saudades uns dos outros.

 

Não consigo escolher entre a versão original de Innocent, cantada por Wada Kouji, e a versão dobrada em português, cantada uma vez mais por Ana Vieira – dei o título Volta P’ra Ti ao ficheiro áudio no meu telemóvel. À primeira não gostei muito, mas entranhou-se rapidamente – de tal maneira que passei o resto do verão passado absolutamente obcecada por esta música. Ana tem uma bela voz e adoro a interpretação dela. Também gosto do facto de a letra ser uma tradução bastante fiel da Innocent original.

 

Por fim, o risinho de Ana na conclusão parte tudo. 

 

O que me leva à dobragem portuguesa em geral. Não é má, ainda que não seja tão boa como a dobragem de Tamers. E mesmo assim sempre tem os seus pontos fortes, como a voz da Lucemon que referi antes. Por estes dias não sou demasiado dura com as dobragens portuguesas – regra geral, não têm um orçamento tão generoso como outros países. 

 

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Queria falar agora sobre os nomes dos Digimon, que, como o costume, diferem entre a dobragem nipónica original e as influenciadas pela dobragem americana, como a nossa. Temos coisas boas e coisas más aqui. Por um lado, a dobragem original já incluía referências óbvias a Adventure ao incluir variações de Greymon e Garurumon nas linhas digievolutivas do Agnimon e do Wolfmon. A dobragem vai ainda mais longe, não só ao chamar BurningGreymon ao Vritramon, por exemplo, mas também ao incluir referências semelhantes nas outras linhas, Como, por exemplo, chamar MetalKabuterimon ao Bolgmon ou KaiserLeomon ao JagerLoweemon (o que, nesta fase, já é mau gosto).

 

Por outro lado, alguns nomes americanos são melhores que os originais. Os produtores deviam estar com pouca imaginação quando criaram nomes tão insonsos como Wolfmon, Fairymon e Shutumon. Lobomon sempre é um bocadinho mais interessante – e simpático para nós, que falamos português – e Kazemon e Zephyrmon são muito fixes, talvez dos melhores nomes em Fronteira.

 

Aliás, acho que, se não fosse a sexualização desnecessária, a linha da Fairymon seria a minha preferida.

 

E com isto já abordei todos os aspetos de Fronteira que queria. Na minha opinião, o principal problema desta temporada, que explica muitas das suas falhas, resume-se a isto: Fronteira não sabe o que é, o que quer ser. Não se decide entre ser uma história de profundidade semelhante às temporadas anteriores ou se quer ser uma história menos sombria, mais “kid friendly”

 

Daí os paradoxos todos. Um elenco de heróis em que quatro têm passados simples (e, segundo consta, os produtores quiseram mesmo seguir tropos habituais de anime) e dois têm dos passados mais retorcidos de todo o anime de Digimon – que, mesmo assim, não foi abordado de forma completamente satisfatória. Um Mundo Digital com uma história rica, com racismo fantástico, política, Power Players teoricamente do lado dos bons com atitudes questionáveis… e tudo isso se traduz em meros conflitos bem versus mal, sem quaisquer nuances (tirando o caso do Duskmon/Kouichi).

 

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Além disso, os vinte primeiros episódios da temporada, mais coisa menos coisa, foram muito leves, mesmo parvos nalguns momentos ("parvo" não é obrigatoriamente uma coisa má), mas depois os quinze episódios seguintes ganham quase literalmente um filtro escuro – que nem sequer é devidamente aproveitado para desenvolver as personagens. E depois temos os Cavaleiros Reais. Ou seja, só um terço da temporada, mais coisa menos coisa, pode ser considerada “leve”. 

 

Por fim, o fator Takuya-e-Kouji-mais-quatro pode não ter diretamente a ver com esse paradoxo, mas certamente não ajudou – anulando os benefícios da jogada arrojada de cortarem com os companheiros Digimon, como vimos antes.

 

É possível que, no início do planeamento de Fronteira, a ideia era esta ser uma temporada semelhante a 02 ou Tamers em termos de complexidade e seriedade. No entanto, depois da famosamente sombria reta final de Tamers, os produtores de Fronteira poderão ter recebido instruções para tornar a história menos pesada – com razão porque, por muito que goste de Tamers hoje, não sei se teria gostado tanto se a tivesse visto em miúda. Os digiguionistas terão feito o melhor que conseguiram.

 

Mas isto sou só eu a especular. Há quem diga nas internetes que o desenvolvimento de Fronteira teve algumas complicações nos bastidores, mas não encontrei nenhuma prova em concreto. 

 

Nesse aspeto, o Reboot de Adventure foi melhor conseguido como uma versão mais leve de Digimon. Adventure 2020 tem algumas semelhanças com Fronteira – um Mundo Digital com um passado de conflitos, Seraphimon, Cherubimon e Ophanimon como Power Players, companheiros Digimon como reencarnações de antigos guerreiros – mas o enredo e as personagens são ainda mais superficiais. Em claro contraste com o elenco original de Adventure, como referi há pouco tempo numa caixa de comentários, as personagens descrevem-se com uma frase: Taichi nunca desiste, Sora é uma típica menina heroína de ação, Koshiro é o cérebro, Mimi é a neta do Rui Nabeiro, etc. 

 

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Em suma, muita parra e pouca uva, muito espetáculo e profundidade quase zero. Como especulam aqui, este Reboot terá tido uma população-alvo mais jovem que a habitual para Digimon.

 

Adventure 2020 pode ser mais consistente nas suas intenções, mas eu ainda assim prefiro Fronteira. Mal por mal, Fronteira tinha muito mais ambições. Tentou. Respeito-a por isso, mesmo não tendo conseguido cumprir.

 

Não que me ressinta do Reboot por não ter feito o mesmo. Este pura e simplesmente não era para mim, que já estou na casa dos trinta e que, mesmo em miúda, preferia as camadas mais profundas do anime de Digimon. Sempre deu para entreter, sobretudo por ter coincidido com o primeiro ano e meio da pandemia. E foi suficientemente bem sucedida para dar luz verde à arrojada Ghost Game.

 

Regressemos a Fronteira e àquilo que falei na introdução desta análise. Sim, esta temporada deu um tombo significativo em termos de qualidade, comparada com as suas antecessoras – sobretudo em relação à excelente Tamers. Esta e Adventure continuam a ser as minhas temporadas preferidas e, sobretudo, os meus elencos preferidos. Não desgosto dos miúdos de Fronteira (tirando Junpei) mas, ao contrário dos miúdos de Adventure, Tamers e mesmo 02, não guardo nenhum deles no coração. 

 

Por outro lado, se isso é uma coisa boa ou má é questionável. Nos últimos anos o facto de adorar os elencos de Tamers e sobretudo Adventure só me tem trazido mágoa. Mais sobre isso já a seguir. 

 

Se Fronteira merece o constante “roast” do pessoal do Digimon PT? Não. Como foi sendo assinalado, Fronteira tem várias qualidades redentoras, não a classificaria como “má”. Se é para bater nalguma temporada, o Reboot merece mais. 

 

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E penso que já disse tudo o que queria sobre Fronteira. Eu devia referir o seguinte mais vezes, mas as opiniões que expressei nesta análise – bem como quaisquer outras que exprima aqui neste blogue – não estão gravadas em pedra. Estas irão evoluir com o tempo. E, claro, vocês estão à vontade para questionar e discordar. É para isso que servem os comentários, estou disponível para continuar a conversa.

 

Queria deixar aqui algumas notas sobre a atualidade de Digimon em termos de anime. Já ficaram as minhas impressões sobre o Reboot uns parágrafos acima. Antes dizia que faria uma análise longa ao Reboot, estilo esta, mas mudei de ideias. Essa temporada não dá sumo suficiente. Talvez mude de ideias de novo no futuro, mas duvido. 

 

Ghost Game é o anime de Digimon em decurso no neste momento. O conceito é excelente: essencialmente Digimon versão terror. Terror adequado a menores de 12 anos, mas mesmo assim precisei de me adaptar, que esse género de histórias nunca foi a minha praia. 

 

De início soube muito bem, depois de um Reboot tão desenxabido. No entanto, Ghost Game já foi melhor. A novidade dos elementos de terror já se dissipou há muito, a história está demasiado episódica. O enredo marco nunca foi muito claro e passámos de pistas pontuais a pistas nenhumas. O elenco de heróis começou semi-interessante, mas tem dado pouco para a caixa (embora o último episódio, focado em Ruli, não tenha sido nada mau). Em todos os episódios temos Digimon criando o caos, atacando civis, por vezes matando-os – e ninguém, tirando os nossos heróis, se rala. Yamaki, no universo de Tamers, ativou o Shaggai por muito menos. 

 

Ghost Game ainda vai mais ou menos a meio – vá lá, já estará na segunda metade – ainda vai a tempo de se redimir. Consta, aliás, que o enredo deverá adensar-se em breve. É bom que o faça. Reservo as minhas opiniões finais para mais tarde. 

 

Aliás, é possível que Ghost Game tenha direito a análise longa aqui no blogue. Ainda não decidi se a escrevo mal Ghost Game chegue ao fim ou se avanço para Savers/Data Squad. Não será tão cedo, de qualquer forma. Passei muito tempo a preparar esta análise (a minha segunda maratona de Fronteira, já com papel e caneta, começou há pouco mais de um ano, mesmo com longas pausas pelo meio). Preciso de uma pausa de Digimon aqui no blogue.

 

 

Entretanto, estão a acontecer coisas giras. A maior de todas é a exibição de Digimon Adventure Last Evolution Kizuna nos cinemas portugueses (spoilers ligeiros nos próximos parágrafos). Em português de Portugal. Com as mesmas pessoas que dobraram Adventure e 02 há vinte anos ou mais. 

 

Vamos chorar em português.

 

Eu ainda nem acredito que isto vai mesmo acontecer. Nem sequer me lembro da última vez que houve um evento de Digimon com alcance próximo de mainstream cá em Portugal. Se me contassem esta há meia dúzia de anos…

 

Estou um bocadinho arrependida de não ter esperado para ver Kizuna pela primeira vez agora. Mas também não sei se conseguiria evitar spoilers durante dois anos e meio. 

 

Infelizmente a estreia do filme tem sofrido vários adiamentos. De início ia estrear-se a 9 de junho. Para mim não era ideal: ainda estava a meio desta análise. 11 de agosto era uma boa data para mim – dava-me tempo para concluir esta análise e era perto do Odaiba Memorial Day, o que seria adequado. 

 

Mas agora há dias anunciaram novo adiamento, para 8 de setembro… e essa sim, deixou-me chateada. Agora que as pessoas começavam a reparar nos cartazes e eu começava a sentir-me entusiasmada… Ainda por cima, estou de férias fora de Lisboa nessa altura, não me dará jeito ir ao cinema. Talvez consiga ir no fim de semana seguinte mas, mesmo assim… é chato. Não havia necessidade.

 

 

Ao menos terei mais de um mês para limpar o palato, depois de tanto tempo imersa no universo de Fronteira. E pode ser que setembro dê mais jeito a algumas pessoas. Mas chega de adiamentos, por favor!

 

Esta será a primeira vez que verei Kizuna desde a minha análise, no início de 2021. Vou ser sincera, estou com um bocadinho de medo de reabrir a ferida. Desta vez não estarei sozinha, ao contrário da primeira vez que vi o filme. Se isso é uma coisa boa ou má é questionável: por um lado, chorar perante estranhos não costuma ser divertido. Por outro lado, se houverem lágrimas da minha parte, essas não serão as únicas. Sobretudo tendo em conta testemunhos como estes

 

Em todo o caso, vou levar lencinhos, tanto para mim como para oferecer a quem precise. E talvez uma bebida. E o meu bonequinho da Biyomon para abraçar. 

 

Um consolo para quem vá ver Kizuna pela primeira vez é saber que teremos em breve uma sequela. Já tinham dado pistas no ano passado. O filme chamar-se-á Digimon Adventure 02: The Beginning (O Início), decorrerá dois anos depois dos eventos de Kizuna, terá Daisuke e V-mon como protagonistas e focar-se-á na primeira pessoa a ter um companheiro Digimon.

 

É altamente provável que seja este filme a “corrigir” o final de Kizuna e a fazer a ponte com o epílogo de 02. A premissa parece encaixar-se. Aposto que a primeira pergunta que farão a esse misterioso primeiro Escolhido será “O que aconteceu ao teu companheiro Digimon?”. A história seguirá a partir daí. 

 

Por um lado, fico entusiasmada. Mais um filme no universo de Adventure, com personagens que adoro, mais uma análise aqui no blogue. E possivelmente mais um filme para dobrarem em português de Portugal.

 

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Por outro lado, estou com medo. Levei imenso tempo a recuperar de Kizuna. Acho que ainda não o fiz por completo. Não preciso de outro filme mexendo com as minhas emoções dessa maneira – sobretudo se este também não tiver um final feliz.

 

Uma parte de mim, aliás, está ressentida com tudo isto. Com a Toei insistindo em ordenhar desta vaca, insistindo em brincar com o final feliz de 02 e Tri, enviando mensagens contraditórias. Kizuna dizendo-nos para deixarmos Adventure e as nossas infâncias para trás, mas a Toei não fazendo o mesmo. 

 

Mas pronto, este é o meu lado mais amargo a escrever. Diz que deveremos descobrir mais sobre The Beginning este fim de semana, durante as celebrações do DigiFest. No entanto, a ideia que tem passado é que o filme demorará algum tempo a estrear. 

 

Não me importo. Não tenho pressa. Pensar que por esta altura, há três anos, estávamos a celebrar a presença do elenco de 02 em Kizuna. Eles foram uma bênção nesse filme, como escrevi na altura, mas agora merecem estar no papel principal. 

 

E chegámos ao fim. Isto foi divertido. Mesmo não tendo gostado tanto de Fronteira como de outros trabalhos, é sempre um prazer escrever sobre Digimon. Mas agora estou contente por poder partir para outra, depois destes meses todos.

 

Obrigada por todas as visitas e comentários. Os meus parabéns a Fronteira e aos seus fãs pelo vigésimo aniversário. 

 

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