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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Música 2021 #4: Salvando o rock em italiano

Primeira entrada de 2022! Bom Ano, pessoal! A retrospetiva musical de 2021 ainda vai a meio, agradeço a vossa paciência.

 

Nunca liguei muito ao Festival da Canção da Eurovisão. Liguei quando foi do Salvador, claro. Depois disso, assisti ao Festival de 2018, organizado por nós, mas fiquei desapontada com o nosso fraco desempenho. O do ano seguinte foi aquele com a música do telemóvel, não foi? Não, não vou ver ao Google, não lhes vou dar essa satisfação. Em todo o caso, fez com que me desligasse de novo do Festival.

 

Até este ano. A minha irmã convenceu-me a ver a final com ela. Até foi divertido. Gostei da nossa música: Love is On My Side, dos Black Mamba. Na minha opinião, em termos de música para Festivais, é a nossa melhor desde Amar Pelos Dois. 

 

 

Compreendo que alguns de nós tenham ficado desapontados por concorrermos com uma música em inglês. Se houve algo que aprendemos com Amar Pelos Dois é que a língua não impede a música de tocar as pessoas. Não faz sentido cantar em inglês só mesmo para ter projeção internacional.

 

Dito isto, não digo que esse tenha sido o único motivo para os Black Mamba cantarem em inglês. Apesar de tudo, a maior parte da música que ouvimos é cantada nesta língua. Não me choca que, para alguns de nós, na hora de compôr, saia inglês em vez de português. 

 

Em todo o caso, como dizia eu, Love Is On My Side é uma boa música. Talvez pouco original, sem se afastar muito do típico jazz e blues, mas não deixa de ser linda. Conseguiu um respeitável décimo-segundo lugar na classificação final – na minha opinião, merecia mais. 

 

Mas, não querendo desvalorizá-la, o assunto principal deste texto é outro. Estou aqui sobretudo para falar dos vencedores da edição deste ano: os italianos Måneskin, com a música Zitti e Buoni.

 

Foi a primeira vez desde 2006 que uma música rock ganha o Festival da Canção. Por sinal, também gosto muito de Hard Rock Hallelujah. Durante muito tempo foi a única música da Eurovisão que ouvia com regularidade. E têm outra coisa em comum com os Måneskin: uma mulher na banda. Não é muito comum no mundo do rock, tirando na posição de vocalista (e mesmo assim).

 

Mas voltando aos italianos. Os Måneskin formaram-se em 2015, qando os membros eram adolescentes. Eles continuam a ser muito novinhos. O vocalista, Damiano David, é o mais velho, faz vinte e três anos agora em janeiro. O mais novo, o guitarrista Thomas Raggi, vai fazer vinte e um, também daqui a pouco tempo. 

 

 

Tecnicamente já são adultos, mas para mim gente mais nova que a minha irmã (que tem vinte e cinco) é criança. Acontece o mesmo com a Billie Eilish, aliás. Eu podia ter andado com eles ao colo ou às cavalitas! E, habituada como estou a ter gente mais velha ou, vá lá, da minha idade entre os meus artistas preferidos, admirar miúdos mais novos é… esquisito.

 

Por outro lado, isto até será um raciocínio falacioso. Com o estilo de vida de estrelas de rock – as viagens, o assédio dos fãs e da comunicação social, entre outros aspetos – eles deverão ter experiência de vida equivalente à minha. 

 

Os Måneskin lançaram-se no mainstream em 2017, quando participaram no X Factor italiano. Ficaram em segundo lugar. Na verdade, a versão de Beggin’, que teve grande rotação agora em 2021, é desses tempos – mais sobre ela já a seguir. Na mesma altura lançaram o single Chosen, que teve sucesso um pouco por toda a Europa – permitindo-lhes fazer uma digressão pelo continente em 2019.

 

Não se pode dizer, assim, que o mundo os descobriu no Festival da Canção. Mas foi assim que eu os descobri e os adotei. Em parte por influência da minha irmã, que tem estado a estudar italiano. É uma língua lindíssima, todos concordam, sobretudo em música – mas eu estava mais habituada a Eros Ramazzotti. Ouvir rock em italiano é diferente… e eu gosto! É uma língua com raízes latinas, tal como o português, mesmo sem aprender dá para perceber algumas coisas.

 

Também gosto da estética deles. Estrelas de rock andróginas estão longe de ser uma novidade: veja-se Elvis Presley, Mick Jagger, David Bowie, Prince, Freddy Mercury. No entanto, o estilo voltou a estar na moda nos últimos anos. Por estes dias, aceitamos, celebramos mesmo expressões de género e sexualidade fora do estreitamente cis e hetero. Olhemos para Timothée Chalamet e Harry Styles, por exemplo. 

 

 

No fundo, os Måneskin adotaram uma versão mais hardcore, mais rock ‘n’ roll, desse estilo. 

 

À primeira vista, o género musical dos italianos é glam rock, à anos 70 e 80. No entanto, algumas das suas influências são mais fora da caixa em termos de rock. Um pouco de hard rock, um pouco de funk – há momentos em que eles me recordam os Red Hot Chili Peppers. A própria voz de Damiano David tem sido descrita como típica de reggae – e, tal como a língua italiana, funciona surpreendentemente bem com rock. 

 

Aliás, uma das músicas mais populares deles é uma versão rock ‘n’ roll de uma música soul dos anos 60. Eu pensava que a Beggin’ original era a dos Madcon. Fico feliz por não ser pois não gosto da versão deles – a interpretação do vocalista é irritante. O original dos The Four Seasons é muito melhor – e a versão dos Måneskin está ao mesmo nível.

 

Curiosamente, Zitti e Buoni é das mais pesadas que ouvi deles. Dou-lhes crédito por terem resistido à tentação de levar uma música mais leve, cantada em inglês, ao Festival da Canção. É um grito de rebeldia e uma das minhas preferidas deles. 

 

Incluo aqui a atuação no final do Festival, na condição de vencedores. Gosto demasiado de vê-los felizes, de lágrimas nos olhos, beijando-se e abraçando-se uns aos outros durante a atuação, Damiano agradecendo a vitória pelo meio. 

 

 

Nas semanas que se seguiram ao Festival, já se falava de I Wanna Be Your Slave nas redes sociais. Gosto tanto como toda a gente, ainda que ache o instrumental um pouco básico demais – a melodia cantada é a mesma do baixo e da guitarra. O mesmo acontece em certos momentos do single mais recente deles, Mamma Mia – uma música de que não gosto tanto.

 

Gosto de Vengo dalla Luna, no entanto – ainda que se pareça um pouco demais com a versão deles de Let’s Get It Started. Por outro lado, estou surpreendida por pouca gente falar de Torna a Casa, uma das minhas preferidas. Uma power ballad também habitual no rock dos anos 70 e 80, talvez demasiado clássica, pouco original, mas eu sempre gostei deste tipo de música. 

 

Ainda estou em exploração, na verdade. Na preparação deste texto, descobri mais umas músicas de que gosto deles: a já referida Chosen, Morirò da Re e Niente da dire. Esta última é algo diferente para eles, com percussão eletrónica e guitarra acústica. Hei de continuar a explorar a música deles, a acompanhá-los. Espero que venham a Portugal em breve. 

 

Em suma, estes miúdos ainda têm algumas arestas por limar. Um dos problemas, na minha opinião, são os instrumentos a menos – apenas guitarra, baixo, bateria e voz – e algumas músicas sofrem por isso. Por outro lado… são miúdos, são amigos de adolescência, se não forem de infância. Será que quero que tragam gente de fora, que possa vir a estragar-lhes as dinâmicas?

 

Em todo o caso, os Måneskin têm imenso potencial e parecem genuínos. Confio muito mais neles para “salvarem o rock” do que a trupe do Travis Barker (mesmo Avril; por muito que a adore, duvido que recupere a relevância de outros tempos). Já estão a fazê-lo. Chegaram a falar de miúdos de dez anos que dizem que querem aprender a tocar bateria por causa deles. 

 

 

Realmente, o rock ‘n’ roll nunca morre. 

 

E por hoje é tudo. Já só faltam mais dois textos para esta série – sobre duas meninas. Fiquem por aí.

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