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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Digimon Tamers #7 – Moumantai!

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Devo avisar desde já que, dos três protagonistas de Tamers, Jianliang (Jian para os amigos) é o qe menos me diz. Não que não goste dele, apenas gosto mais dos outros dois. É dos três aquele que menos evolui, o que não prejudica a história – pelo contrário, desempenha um papel importante nela.

 

Talvez seja só eu, mas vejo algumas semelhanças entre ele e Iori, de 02. As personalidades são semelhantes – calmos, sensatos, maduros, ligados à família. Praticam artes marciais e os seus instrutores acabam por ter um papel algo importante para a história. Os seus pais ( no sentido de progenitores masculinos) têm um passado com os Digimon que os filhos descobrem no decurso da narrativa.

 

Por fim, os dois acabam por ter papéis semelhantes nas temporadas onde aparecem. Iori via o mundo a preto e branco numa história de vilões (exceto um) em tons de cinzento. Jian detesta violência num universo onde, como vimos antes, os Digimon e o Mundo Digital se regem pela lei do mais forte. É um pacifista numa zona de guerra.

 

O lado pacifista de Jian recebe mais destaque na primeira parte do Enredo, mas só muito mais tarde é que descobrimos o porquê. Quando era mais novo, magoara outro miúdo recorrendo ao Kenpo. Não se conhece a gravidade das agressões, mas foi suficiente para que o jovem ganhe aversão à violência.

 

Isso explica as circunstâncias em que se torna Treinador de Terriermon. Algum tempo antes do início da narrativa de Tamers, Terriermon era apenas playable character no videojogo de Digimon, que Jian recebera do pai. A partir de certa altura, o jovem começa a interrogar-se se Terriermon consegue sentir dor durante os combates no jogo.

 

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Não é qualquer criança que faz estas perguntas. Todos nós jogámos videojogos envolvendo pelo menos algum grau de violência, mas nem todos nos pudemos a pensar que as personagens sentem as consequências dessa violência. Sobretudo porque – enfim, tanto quanto sabemos – são apenas isso: personagens, bonecos digitais.

 

Mesmo assumindo que é esse o caso com o Terriermon – e o pai, Jiang-yu, reforça essa ideia – por causa das suas ações em miúdo, Jian não consegue desligar esses sentimentos. E acaba por descobrir que tem razão – é assim que Terriermon se materializa no Mundo Real e Jian se torna o seu Treinador.

 

Apesar de ter sido a aversão de Jian à violência a ganhar-lhe o estatuto de Treinador, isto também constitui fonte de conflito entre ele e Terriermon. Este é um Digimon semelhante aos outros, com instintos agressivos, sempre à procura de um combate. Jian não o deixa lutar, obriga-o a literalmente ser um brinquedo para a irmã, para frustração de Terriermon.

 

De início, a narrativa até parece dar razão a Jian. Logo nos primeiros episódios quando Ruki deseja que Renamon lute e tente absorver os dados de Guilmon, tanto o jovem como Terriermon tentam travar a luta. Quando Terriermon dá por si na mira do ataque de Renamon, digievolui para Gargomon e desata a disparar em todas as direções, rindo como um maníaco. Acaba mesmo por apontar um dos braços-metralhadora  a uma Ruki que, pela primeira vez em Tamers, deixa cair a faceta de durona.

 

Guilmon consegue derrubá-lo e eventualmente Gargomon recupera a razão mas, sim… aquilo podia ter corrido muito mal. Jian tinha bons motivos para manter a trela curta.

 

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E no entanto, logo no episódio seguinte, a trela curta de Terriermon começa a atrapalhar mais do que ajuda. São atacados por um Gorimon, o mesmo que tinham enfrentado no videojogo, por sinal. De início, Jian impede Terriermon de lutar, deixando Takato e Guilmon a lutar sozinhos. O Treinador mais recente, no entanto, ainda não sabe o que está a fazer. Com o Gorimon a fazer o que quer com os dois companheiros Digimon, Jian não tem outra hipótese senão intervir com uma carta. E mesmo assim, não deixa Terriermon absorver os dados e Gorimon, depois de derrotá-lo.

 

Existe outra ocasião em que a incompetência de Takato encosta Jian as cordas, obrigando-o a deixar Terriermon combater. Nesta altura do campeonato, Takato tivera a sua primeira vitória e, de uma maneira muito típica de um miúdo da sua idade, achava-se invencível depois de ter ganho um combate. É então que um Musyamon aparece numa rua movimentada de Shinjuku. Takato mete os pés pelas mãos. Quando uma menina da idade de Shaochung, talvez mais nova, entra no campo de dados, Jian vê-se obrigado a intervir. É apenas a segunda vez que vemos Terriermon a digievoluir para Gargomon, mas desta feita ele não perde o controlo. Pelo contrário, salva o dia.

 

É neste momento que Jian e Terriermon conseguem chegar a um compromisso: lutar quando necessário para proteger os demais. É o primeiro, aliás, a assumir esse papel enquanto Digitreinador. Ao mesmo tempo, à medida que os miúdos se vão habituando uns aos outros, assume o papel de mediador, de ajuizado do grupo, servindo de contraponto não só à combatividade de Ruki como à inocência de Takato.

 

Isto é, até ao momento em que Shaochung se junta à festa no Mundo Digital.

 

Estou a ver que Digimon tem uma cena com onii-chans sobreprotectores – Yamato e Taichi foram apenas os primeiros. Como irmã mais velha, gosto disso.

 

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Infelizmente, a sobreprotecção de Jian não mostra a sua melhor faceta. Shaochung aparece no Mundo Digital no episódio anterior ao da morte do Leomon e torna-se Treinadora de um Deva. Não só Jian é incapaz de consolar a irmã durante o longo combate contra Beelzebumon (Ruki, de todas as pessoas, sai-se melhor nisso), como aproveita todas as oportunidades para pressioná-la para deixar Lopmon – a única coisa boa que acontecera a Shaochung no Mundo Digital. Quando Chatsuramon aparece, Renamon e Dukemon fazem mais para proteger a menina que o seu próprio irmão. Jian nem sequer repara que Terriermon caiu na ravina e só no episódio seguinte é que repara que o seu Digimon ficou com ferimentos.

 

Pode-se argumentar, também, que em circunstâncias normais Jian teria conseguido chamar Takato à razão, impedindo-o de criar o Megidramon.

 

Esta má fase de Jian culmina no episódio que se segue à derrota de Beelzebumon. Nesta altura, o grupo tenta infiltrar-se no território de Zhuqiaomon e Jian está obcecado por enviar a irmã de volta a casa (embora trate Shaochung com uma brusquidão incaracterística quando esta faz birra, recusando-se a ficar para trás, em segurança).

 

O jovem chega a achar que terá de ser ele mesmo, sozinho, a enfrentar Zhuqiaomon e a resgatar Culumon – com Ruki e Takato ao lado dele a pensar: “O Guilmon e a Renamon são o quê? Bonecos de peluche?”. Faz lembrar um pouco a situação que atirou Sora para a caverna escura, na parte final de Adventure, mas melhor elaborada.

 

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Rapidmon estaria sempre em desvantagem perante Zhuqiamon, mas a situação complica-se ainda mais quando os ferimentos da luta com o Chatsuramon começam a manifestar-se. É aí que Jian percebe os erros que tem cometido.

 

Tem de ser o próprio Terriermon a fazer-lhe ver que o jovem não precisa de ser tão duro consigo mesmo, não precisa de tomar responsabilidade por tudo, que existe mais gente no grupo. É nesse momento que desbloqueia o MegaloGargomon. Depois desta, Jian não torna a perder a cabeça desta maneira – o que é de admirar, tendo em conta o que acontece a seguir, em Tamers.

 

Shaochung não é o único membro da família de Jian a contribuir para a história. Conforme referido antes, o seu pai, Jiang-yu, fez parte do Grupo Selvagem, que criou os Digimon.

 

O filho, no entanto, ignora esse facto durante muito tempo. Jiang-yu oferece-lhe o videojogo de Digimon, vê o filho colecionando as cartas. A partir de certa altura, vê dois dos seus filhos brincando com um peluche de Digimon. Mas não lhe ocorre revelar ao filho o seu papel nas origens da franquia. Jiang-yu nem sequer diz a verdade a Jian quando este lhe mostra uma carta azul que lhe veio parar às mãos e o pai deteta o código de Shibumi.

 

Em defesa de Jiang-yu, também o filho não lhe conta que o peluche é, na verdade, um Digimon. Nem que passa muito do seu tempo livre – incluindo de noite – lutando com outros Digimon.

 

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Em ambos os casos, a verdade só vem à tona quando Jian-yu dá com o filho, Takato e os respetivos Digimon sendo importunados por Impmon, no parque. Este último chega a atirar uma bola de fogo a Jiang-yu, só mesmo para este ter a certeza de que não está a alucinar.

 

Pouco depois de Jianliang descobrir a verdade sobre o Grupo Selvagem, Yamaki recruta Jiang-yu e outros membros do grupo como colaboradores do Hypnos. Jiang-yu parece assumir, de início, que o objetivo é retomar o projeto dos Digimon – só alguns episódios mais tarde é que se descobre que Yamaki pretende usar os conhecimentos deles para ativar o Shaggai uma segunda vez, para expulsar todos os Digimon do Mundo Real.

 

Jiang-yu protesta, pois o programa expulsará também os Digimon do filho e dos amigos dele – ainda que Yamaki lhe aponte, não sem razão, que Jiang-yu começara tudo aquilo vinte anos antes e o envolvimento de Jiangliang e das outras crianças com os Digimon colocava as suas vidas em perigo.

 

A atitude de Jiang-yu no que diz respeito ao Shaggai mudará mais à frente na história. Para já, como referido antes, uma vez mais, a ativação do Shaggai causa mais problemas do que aqueles que resolve. Ainda assim, Jiang-yu acha por bem fazer o seu mea culpa perante o filho e os amigos. Só torna a colaborar com Yamaki vários episódios mais tarde – depois de este bater no fundo e reerguer-se.

 

Durante o resto dos eventos de Tamers, aliás, Jiang-yu e o resto do Grupo Selvagem trabalham em conjunto com o Hypnos, dando apoio aos Treinadores – tanto quando estes se encontram no Mundo Digital como durante a luta contra o D-Reaper, em Shinjuku.

 

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É durante a luta contra o D-Reaper, aliás, que ocorre um momento-chave na caracterização tanto de Jian como do seu pai. Depois de vários planos falhados, Hypnos e o Grupo Selvagem levam a cabo a Operação Joaninha. Se percebi corretamente (se estiver errada, avisem-me!), Jiang-yu instala uma versão do Shaggai em Terriermon. Este será ativado quando o MegaloGargomon se enfiar no vórtex, criado pelo D-Reaper, que une o Mundo Real ao Digital. Depois de ativado, o MegaloGargomon começará a girar a grande velocidade no sentido oposto ao do vórtex (um minuto de silêncio pelo estômago de Jian), revertendo o D-Reaper ao seu estado inicial, mais básico que uma calculadora, inofensivo.

 

O que Jiang-yu não revela ao filho é que a Operação Joaninha implicará o regresso dos companheiros Digimon ao Mundo Digital. A verdade só vem à tona poucos minutos após a neutralização do D-Reaper, numa altura em que os Digimon já começaram a… bem, desdigievoluir.

 

Esta é uma cena de fazer chorar as pedras da calçada, como veremos mais tarde, mas acho que qualquer um faria o mesmo no lugar de Jiang-yu. A ameaça do D-Reaper ganhara escala mundial, toda a Humanidade estava em risco de ser aniquilada. Por comparação, a expulsão dos companheiros Digimon é um preço razoável a pagar. E se, aquando da situação com o Vikaralamon, Jiang-yu não estava disposto a arriscar a perda dos Digimon das crianças, agora já não se pode dar a esse luxo.

 

Mesmo do ponto de vista da narrativa, nesta fase do campeonato uma solução fácil não seria credível. Aliás, em Tamers não há soluções fáceis, ponto.

 

Ainda assim, quando diz a verdade ao filho, Jiang-yu considera-se indigno de perdão. Um dos momentos mais bonitos em toda a série é a imagem de Jianliang lavado em lágrimas, mas sorrindo ao pai e abanando a cabeça – mostrando a Jiang-yu que o perdoa.

 

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Fico contente por ser essa a última imagem que vemos de Jian.

 

Qual é, então, a lição que Jianliang aprende ao longo de Tamers? Eu diria que é de flexibilidade. Aprende a ser mais flexível consigo mesmo, com as suas crenças, com os demais. Muda ainda menos que Takato em relação ao início da história, mas também não precisa

 

Agora que penso nisso, a lição que Jian aprende é o lema de Terriermon: Moumantai! Tem calma, não há problema, não faz mal. Não sendo a minha personagem preferida, nem aquela em que mais me revejo, essa é uma lição valiosa para qualquer um de nós.

Digimon Tamers #6 – Um líder igual a nós

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Para mim, os elencos em Digimon sempre foram ponto de destaque. Como referi antes, as oito Crianças Escolhidas de Adventure são provavelmente o meu elenco ficcional preferido de todos os tempos. Em 02, não gosto assim tanto das Crianças Escolhidas mas, como referi antes, os vilões são interessantes.

 

Um problema comum, no entanto, é o facto de o desenvolvimento das personagens não ser igual para todos. Regra geral, os dois protagonistas masculinos recebem mais tempo de antena que qualquer um – e conseguem desbloquear um nível superior de digievolução.

 

É compreensível – não é fácil ligar com elencos de seis ou oito miúdos mais companheiros Digimon, mais vilões, mais personagens secundárias, como outros Digimon e familiares dos miúdos.

 

Não digo que Tamers não cometa esse pecado, mas lida melhor com ele. Em vez de tentar vender um grupo de seis ou oito como protagonistas, Tamers assume preto no branco que apenas três miúdos o são – embora Juri acabe por ganhar o estatuto de protagonista, na segunda metade da temporada.

 

Foi uma decisão acertada, a meu ver: os três protagonistas recebem o desenvolvimento devido. Os outros vão aparecendo na história de maneira mais ou menos consistente mas, como fica claro desde o início que estão na categoria abaixo, os guionistas podem dar-se ao luxo de não perder muito tempo com eles.

 

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Outra diferença em relação ao universo de Adventure é o facto de o elenco de Treinadores não formar de imediato uma equipa – nem mesmo o trio principal. Isso deve-se em parte a Ruki, cuja atitude inicial choca com as de Jian e Takato. Além disso, suponho que o facto de só haver visita ao Mundo Digital a meio da história também contribua para esse efeito – não existe o instinto de agrupar com outros humanos, contra um mundo desconhecido.

 

Mesmo assim, não é invulgar vermos cada um dos três protagonistas atuando a solo, apenas com os seus companheiros Digimon. Todos eles possuem um certo grau de introversão, algo em que me revejo.

 

Por outro lado – talvez mesmo em sentido completamente oposto – vemos também os protagonistas, sobretudo Takato, apoiados por outros miúdos, vários dos quais nem sequer são Treinadores. Falo em particular dos colegas de turma de Takato: que brincam com o Guilmon, levam-no à socapa para o acampamento da escola, que fazem chegar uma Carta Azul às mãos de Jian.

 

Isto também é algo que não se viu em Adventure. Os Escolhidos guardavam sigilo rigoroso sobre os Digimon e as suas aventuras. Não que os seus equivalentes, em Tamers, não o façam, mas são mais flexíveis – em parte, penso eu, porque a população infantil sabe o que são Digimon. Em todo o caso, é agradável ver esta rede de apoio, de cumplicidade, em torno dos Treinadores, guardando segredo dos adultos, ajudando os protagonistas da maneira que podem.

 

Os outros Treinadores, tirando Shaochung e Ryo, vêm deste grupo, aliás. E mesmo que estes, à exceção de Juri, não sejam tão desenvolvidos como os três protagonistas, mesmo que, a partir de certa altura, pareça que os digiguionistas estava a adicionar novos Treinadores só pelo gozo, nenhum deles me parece supérfluo – nem mesmo Ryo. Conforme veremos mais à frente nesta análise, de uma maneira ou de outra, todos contribuem para a história.

 

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A verdade é que Tamers tem um elenco surpreendentemente rico e caracterizado. Há personagens mais desenvolvidas do que outras, sim, mas praticamente tudo o que se mexe tem pelo menos alguma personalidade (penso que seja uma manifestação de um dos conceitos da temporada, inteligência artificial). A professora de Takato: as funcionárias do Hypnos; a arca que traz os miúdos do Mundo Digimon para o Mundo Real; Alice, a miúda que funciona como Deus Ex-Machina para permitir formas Extremas no Mundo Real, que poderá ou não ser um fantasma.

 

Não vou falar de todas estas personagens, apenas daquelas que considero mais relevantes e/ou sobre as quais tenha algo a dizer. Existirão personagens sobre as quais não me alongarei muito ou de que não falarei de todo, precisamente porque não acho que tenha alguma coisa a dizer que outros não tenha dito melhor.

 

Comecemos, então, por falar de Takato, o gogglehead da temporada, que pouco tem em comum com os goggleheads anteriores. Enquanto Taichi e Daisuke se encaixam mais no estereótipo do herói-alfa – extrovertidos, impulsivos, confiantes, partindo para ação sem pensar muito nas consequências, levando os companheiros por arrasto – Takato é mais para o gentil e sensível. Por outras palavras, se Taichi e Daisuke são claros Gryffindor, Takato é um Hufflepuff (com traços de Gryffindor).

 

Consta que Takato foi criado para representar o típico fã de Digimon: é um miúdo de dez anos como qualquer outro, sem qualquer talento especial ou qualidade que os distinga dos demais para além do seu amor pela franquia. Que se envolve na história porque a sua fanart, o Digimon que ele mesmo inventa, ganha vida.

 

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Takato é frequentemente visto rodeado de amigos, mas não é particularmente carismático. Possui, aliás, alguns traços de introvertido (algo que os três protagonistas têm em comum). Não tem a personalidade dominadora típica, não só dos antigos goggleheads, mas também da maior parte dos protagonistas de histórias infantis.

 

Neste contexto, personagens como Takato correm o risco de serem interpretados como tímidos e sossegados para não dizer bananas. Os próprios produtores de Tamers reagiram assim, quando Konaka lhes apresentou a ideia. Estou certa, também, que pelo menos uma parte da audiência, sobretudo enquanto crianças, pode não ter achado grande piada a Takato – até porque ele chora um bocadinho demais do que demasiados consideram aceitável para um rapaz.

 

Mas a verdade é que é realista, mais realista que Taichi e Daisuke. O primeiro, então, só se tornou mais contido e ponderado em Tri. Por muito que custe nos custe a engolir, sobretudo enquanto miúdos, muitos de nós somos parecidos com Takato. Eu pelo menos sei que sou – mais sobre isso já a seguir.

 

Conforme referi acima, a história de Takato, e de Tamers em geral, começa quando nasce Guilmon, um Digimon desenhado pelo próprio jovem – sem pensar na parte prática de ter um Digimon, diga-se. Nos primeiros episódios de Tamers, Guilmon age como o recém-nascido que é. Ou melhor, como um cão que fala. Possui um pensamento inocente e infantil, só quer estar e brincar com o seu Treinador, e não compreende porque é que tal nem sempre é possível. Chega mesmo a virar a cabeça como a minha Jane. 

 

Por outro lado, apesar da sua natureza gentil e inocente, apesar de estar a ser criado por um humano, sem nenhum contacto com o Mundo Digital, tem os mesmos instintos agressivos dos Digimon deste universo. Na presença de outros membros da sua espécie, tem uma reação equivalente a pêlo eriçado e, quando entra em modo de agressão, é muito difícil de ser travado.

 

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Ora, Takato, ainda uma criança, não muito mais maduro que o próprio Guilmon, fica encarregue deste monstrinho que ele mesmo criou. Durante a primeira parte da narrativa, vêmo-lo tentando aprender a lidar com a sua nova responsabilidade com vários percalços pelo meio.

 

É nestes momentos que mais me revejo em Takato. Algo que tenho vindo a descobrir sobre mim mesma é que eu tenho algumas dificuldades em adaptar-me a experiências novas: quando aprendi a conduzir, quando comecei a trabalhar, quando arranjei uma cadela. Cometo erros enquanto estou a aprender. Não consigo deixar de ver uma parte de mim nas cenas em que Takato tenta colar os pedaços da sua vida enquanto Treinador com tiras de fita-cola, com muitas lágrimas à mistura.

 

Takato receia, ainda, vir a ficar sem Guilmon tão facilmente como o encontrou… e infelizmente os seus receios acabarão por se concretizar, como veremos adiante. Por sinal, são esses mesmos receios que catalisam a primeira ocasião em que Takato, Jian e Ruki trabalham como equipa – para resgatar Guilmon, que ficou preso uma estranha dimensão que não chega a ser explicada devidamente.

 

Depois de aprender os princípios básicos da vida de Treinador, Takato encontra-se num meio termo entre o pacifismo de Jian e a ambição de Ruki. Consegue por um lado desfrutar das lutas com Digimon – chega a passar por uma fase muito típica de excesso de confiança. No entanto, sente por vezes receio da natureza selvagem de Guilmon. Por vezes sente relutância em deixá-lo digievoluir, com receio daquilo em que Guilmon se pode transformar.

 

A jornada de Takato enquanto Treinador passa, precisamente, pela aceitação de Guilmon tal como ele é, como um igual, como um companheiro de batalha. É o que acontece, por exemplo, na estreia de MegaloGrowlmon.

 

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Nesta parte da história surge Mihiramon, o primeiro Deva, o primeiro adversário de nível Perfeito, com um objetivo específico (que no entanto só conhecemos muito depois). Renamon e Terriermon tentam a sua sorte primeiro, mas não conseguem fazer-lhe um arranhão e quase morrem no processo. Takato envia Guilmon para a batalha com visível relutância – não só receia que o seu Digimon não esteja à altura do desafio, como também que este perca a sua... bem, humanidade... ao digievoluir para um nível superior.

 

Ora, tal como os outros dois, Growmon leva uma sova e fica a isto de se desfazer em partículas digitais. Nisto, Takato entra numa espécie de transe telepático com o seu Digimon. É aqui que percebe que, para sobreviverem àquela luta, para que o jovem seja digno do título de Treinador, tem de dominar os seus medos. Tem de crescer – não, não, de digievoluir em conjunto com Guilmon.

 

Esta parte funciona bem ao indiciar a maneira como o nível Extremo de Guilmon será desbloqueado... mas estou a adiantar-me um pouco.

 

Existe um momento nessa jornada em que Takato dá um grande passo atrás – já na parte que decorre no Mundo Digital. O jovem descobre as origens de Guilmon e dos Digimon em geral da boca do estranho fantasma de Shibumi. O facto de Guilmon ter sido criado pelos Digignomos, a partir de bolsas de dados aleatórios, deita-o um pouco abaixo. Como se acreditasse que tal origem torna Guilmon menos real, não verdadeiramente um ser vivo. Dá para ver o impacto que isso tem na relação entre os dois quando estes se reencontram.

 

É possível que isso tenha influenciado o que acontece a seguir, pelo menos em parte.

 

Chegou a altura de falarmos da morte do Leomon. Em versão condensada, Impmon, um Digimon que os Treinadores consideravam um aliado, senão um amigo, faz um pacto com o diabo, quase literalmente, para desbloquear a sua digievolução para Beelzebumon em troca da morte dos miúdos. No combate em que tenta cumprir a sua parte do acordo, assassina Leomon.

 

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Antes de prosseguirmos, tenho de fazer um aparte. Estou surpreendida por ainda não o ter visto referido em lado nenhum, mas o filme Kyousei de Tri parece ter plagiado esta parte. Tanto em Tamers como em Kyousei há uma cena de morte às mãos de um suposto aliado (embora em Kyousei só Daigo tenha morrido e mesmo assim não de imediato). Em reação, um dos miúdos perde o controlo das suas emoções, fazendo com que o seu Digimon sofra uma digievolução negra. A mera existência da criatura resultante é suficiente para ameaçar a estabilidade do Mundo Digital.

 

Será coincidência?

 

No caso de Tamers, quem morre é Leomon – não o Digimon de Takato, mas o Digimon do seu interesse amoroso, um Digimon bom e honrado, a quem os miúdos se tinham afeiçoado. E às mãos de um Digimon que consideravam um aliado, senão um amigo, com quem tinham chegado a brincar!

 

Acho que qualquer um teria perdido a cabeça nestas circunstâncias. Takato ainda vai mais longe, ao perder por completo qualquer vestígio de compaixão ou racionalidade e ao ordenar a Guilmon que digievolua para uma forma suficientemente forte para enfrentar Beelzebumon. São apenas alguns minutos de loucura, mas chegam para criar o Megidramon e para o D-arco de Takato se estilhaçar.

 

Não admira. Conforme vimos antes, uma das funções de um Treinador é manter os instintos violentos do seu Digimon sob controlo. Takato acaba de fazer o completo oposto.

 

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A sorte do miúdo é que, apesar do potencial destrutivo de Megidramon, Beelzebumon, para seu crédito, consegue fazer-lhe frente. Takato, aliás, demora muito pouco tempo a fazer o seu mea culpa. Até porque Juri, a pessoa por quem ele supostamente fizera isto, teme-o e ressente-se dele por ter obrigado Guilmon – um Digimon de quem ela também gostava – a transformar-se naquela monstruosidade.

 

A chave para a evolução de Takato – e consequente digievolução de Guilmon – passa, mais uma vez, pelo reconhecimento de que Guilmon é o seu parceiro, o seu igual. Não um monte de dados, não um mero veículo para a sua raiva, para os seus desejos de vingança. Takato vai ainda mais longe, ao desejar lutar ele mesmo ao lado de Guilmon, como se fossem um só.

 

E é o que acontece. Literalmente.

 

Está na altura de falarmos sobre as formas Extremas dos Digimon protagonistas, em Tamers. Pois… era absolutamente necessário que as crianças estivessem nuas?

 

É certo que estas surgem, como se costuma dizer, com a anatomia de uma Barbie e não num contexto erótico. Por um lado, se é para haver nudez (e já fui mais comichosa nestas coisas), seja em que contexto for, que seja com adultos com capacidade de consentir. Por outro lado, também não acho que estas imagens sejam inadequadas para crianças – as transformações das Navegantes da Lua eram um bocadinho piores nesse aspeto. É um daqueles casos em que, se calhar, um miúdo não vê nenhum mal, mas um adulto não consegue evitar pensar nas implicações.

 

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Além disso, sejamos sinceros, se Tamers traumatizou criancinhas, não foi de certeza com a nudez dos protagonistas.

 

Enfim, fechemos este parêntesis.

 

A forma Extrema de Guilmon, Dukemon, é um cavaleiro, um literal “Knight in Shinning Armor”. Faz sentido – é essencialmente para isso que Takato evolui: um típico herói, que luta não pode glória pessoa ou soberba e sim por causas nobres. Por aquilo em que acredita estar certo, por aqueles que ama.

 

Takato, aliás, passa o último terço de Tamers tentando resgatar uma donzela em apuros. E pelo meio arranja um corcel: Grani.

 

Durante algum tempo, senti-me relutante em classificar Takato como líder dos Treinadores – porque, lá está, não possui uma personalidade dominadora, como Taichi e Daisuke, e, regra geral, não existem muitas divergências de opinião no grupo. A sua liderança é diferente.

 

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Para começar, tirando Shaochung, a irmã de Jianliang, e Ryo, Takato é o elo comum entre todos os Treinadores. Jian dá uma ajuda a Takato quando descobre que este também tem um Digimon; como referimos acima, o jovem pede ajuda a Ruki para resgatar Guilmon. Por sua vez, Hirokazu e Kenta já eram amigos de Takato, antes, quiseram tornar-se Treinadores certamente por influência dele.

 

Para além disso, conforme observado aqui, Takato acaba por ser a força motriz do grupo, tomando as principais decisões, lá está, não porque prefere agir primeiro e pensar depois, e sim porque sabe o que é preciso ser feito – convencendo os amigos a fazê-lo também. Foi dele que, por exemplo, partiu a ideia de ir até ao Mundo Digital atrás dos raptores de Culumon.

 

Por fim, na quinta parte da história, os três protagonistas decidem, cada um por si mesmos, enfrentar o D-Reaper mas, assim que se descobre o papel de Juri naquela confusão, Takato, como seu interesse amoroso, está mais motivado que qualquer um para resgatá-la – levando-o a assumir, naturalmmente, uma posição de liderança.

 

Em suma, na minha opinião, a evolução de Takato enquanto personagem baseia-se em dois aspetos: na sua relação com Guilmon e no despertar do seu lado heróico. Não muda radicalmente no decurso da história, mantém a sua faceta amável e sensível – o que é admirável tendo em conta aquilo por que passa para derrotar o D-Reaper. Apenas se transforma numa versão mais madura e heróica de si mesmo.

 

E tendo em conta que, no início, ele era igual a nós, um mero fã de Digimon, com inseguranças, que comete erros, gosto de pensar que, em circunstâncias parecidas, também seríamos capazes de nos transformarmos em heróis.

Digimon Adventure Tri - Kokuhaku (Confissão) #2

Segunda parte da análise a Kokuhaku (primeira parte aqui).

 

1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo do primeiro, segundo e terceiro filmes de Digimon Adventure Tri e, possivelmente, dos enredos de Adventure e 02. Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas - na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Apesar de as legendas do filme usarem os nomes japoneses das Crianças Escolhidas, eu vou usar as versões americanizadas dos nomes, visto que estou mais habituada.

 

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O último dos cinco episódios em que Kokuhaku foi dividido assemelha-se, nalguns aspetos a um epílogo. Há quem diga que esta parte podia ter sido emitida separadamente, mais ou menos a meio entre a exibição do terceiro e do quarto filmes, em jeito de episódio especial. Faria sentido, se mudassem um ou outro pozinho. Mas, se já agora ficámos todos arrasados com Kokuhaku, imaginem como ficaríamos se tivesse acabado no quarto episódio. Não, Kokuhaku não podia terminar assim. Não sobreviveríamos aos cinco meses até ao próximo filme.

 

Este episódio ocorre uma semana após o Reinício. Vemos os Escolhidos em depressão, como seria de esperar, tentando processar o que aconteceu. Pelas palavras de Maki, percebemos que o que se espera é que os Digimon sejam rapidamente esquecidos pela população e que os Escolhidos continuem as suas vidas, como se nada tivesse acontecido, como se nunca tivessem conhecido os Digimon. Que, em suma, cresçam.

 

Essa será também uma indireta para nós, a audiência? Nós que estamos aqui, vendo a continuação de algo que marcou a nossa infância?

 

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Izzy é o primeiro a revoltar-se contra essa ideia. Quando T.K. desabafa com ele por não ter conseguido evitar aquele desfecho, o amigo chega mesmo a dizer “Não interessa o que não conseguiste fazer, interessa o que vais fazer agora.” Os amigos, de início, recusam mas, no fim, concordam. Eles podiam ter optado por fazer o mesmo que os seus Digimon tinham sido obrigados a fazer: viver como se nada tivesse acontecido, como se Adventure e 02 tivessem sido apenas sonhos. Mas não o fizeram. Eles escolheram honrar tudo aquilo por que passaram ao longo dos anos com os seus Digimon e voltar ao Mundo Digital mais uma vez.

 

Isto é significativo. Pode-se argumentar que, desde o primeiro de agosto de 1999, os miúdos apenas têm reagido ao que lhes acontece. Nunca escolheram eles mesmo irem ao Mundo Digimon pela primeira vez; foi uma outra entidade (a Homeostase?) que, quase literalmente, pegou nos miúdos e os atirou para o Mundo Digital. Noutras ocasiões (incluindo os miúdos de 02), eles puderam escolher se regressavam ou não, mas era sempre sabendo que o Mundo Digimon precisava deles. Até àquele momento, Tri tinha seguido essa regra: coisas acontecem, os Escolhidos intervém (ou recusam-se a fazê-lo, como Tai e, sobretudo, Joe).


Esta será a primeira vez que os Escolhidos regressam sem serem solicitados (a menos que considerem uma solicitação o som de um apito que Tai ouve, no momento em que decide regressar. Mais sobre isso adiante.). Tanto quanto sabem, o Mundo Digimon não precisa deles, não tem nada para eles – os seus Digimon, provavelmente, nem sequer se lembram deles. A partir de agora, eles não são heróis porque a Homeostase ou outra entidade semelhante os Escolheram. Eles são heróis porque eles Escolheram sê-lo.

 

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O que nos remete para os primeiros teasers relacionados com Tri. Neste vídeo, aparece Tai perante Agumon dizendo: “Finalmente reencontrei-te. Este mundo escolheu uma realidade e um futuro que não deveria ter escolhido. E é por essa razão que eu aqui estou.” Conforme apontaram aqui, depois de Kokuhaku, estas palavras fazem muito mais sentido. Além de que o primeiro poster de Tri parece ter como cenário mais ou menos o mesmo local onde os Escolhidos reencontram os seus Digimon, no fim do terceiro filme. Talvez tenha sido essa a intenção dos digi-guionistas desde o início: mostrar que, mesmo com as suas crises existenciais, mesmo que tenham uma hipótese se se afastarem de tudo aquilo e seguirem em frente, as eternas Crianças Escolhidas nunca virarão costas ao Mundo Digimon.

 

Não terá sido por acaso que, no momento da decisão, toca Butterfly pela primeira vez em todo o filme (tirando, obviamente, os genéricos dos episódios). Butterfly é a canção que tocava nos genéricos da primeira temporada de Digimon, é a música que associamos ao início da aventura. Até a própria letra se adequa à situação: os Escolhidos vão tentar colocar de lado os seus próprios traumas e inseguranças, pegar em asas pouco firmes e voar aos encontro dos seres que amam.

 

Mas estou a adiantar-me, pois existem ainda assuntos por resolver antes de eles regressarem. Falo de Meiko. Tendo ela uma experiência diferente como Escolhida, é natural que as suas atitudes difiram das dos amigos. Meiko revela a T.K. que sabia que Meicomoon estava Infetada desde o momento em que a encontrou. Isto explica os traços de relacionamento mãe-galinha e criança insegura que notei em Ketsui. Ao perceber que existia alguma coisa de errado com Meicoomon, era natural que Meiko se tenha tornado demasiado protetora da sua companheira Digimon. Da mesma forma, também era natural que Meicoomon desenvolvesse a tendência para vaguear, embora não soubesse tomar conta de si mesma.

 

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Tudo poderia ter sido evitado caso Meiko tivesse sido sincera para com os outros Escolhidos desde o momento em que Meicoomon matou Leomon. E, no entanto, da mesma maneira como se compreendeu a omissão da infeção de Patamon por parte de T.K. e a omissão do Reinício por parte dos Digimon, também se compreende esta omissão por parte de Meiko. Não me orgulho disso mas eu, provavelmente, teria feito o mesmo se estivesse no lugar dela.

 

Ando, aliás, a identificar-me cada vez mais com ela. Meiko é a miúda nova, acabada de se mudar para a cidade, sem grande aptidão para socializar. Tal como referi anteriormente, os outros Escolhidos foram impecáveis com ela, desde o primeiro momento. Como alguém que não faz amigos facilmente, posso testemunhar o quão tocantes são gestos como Mimi defendendo-a das perguntas de Izzy, Sora oferecendo-lhe literalmente um ombro onde chorar, T.K escolhendo-a para confidenciar acerca de Patamon. Com que cara ia Meiko dizer que a sua inclusão no grupo, todos os gestos de carinho a ela dirigidos e a Meicoomon, tinham sido precisamente aquilo que, passe a expressão, os lixou a todos?

 

Desse modo, é compreensível que Meiko não se sinta no direito de ir ao Mundo Digital e voltar a ver Meicoomon. Não só por se sentir responsável por tudo o que aconteceu até ao momento em Tri, mas também porque sente que, ao menos agora, livrou-se do fardo de ter de manter Meicoomon sobre controlo. O que ao mesmo tempo a alivia… e lhe aumenta ainda mais o sentimento de culpa.

 

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Se houve coisa que aprendemos com o arco narrativo de Joe em Ketsui é que, independentemente dos nossos problemas pessoais, das nossas neuroses, não viramos costas aos nossos Digimon. É essencialmente isso que T.K. diz a Meiko antes de partir, bem como o facto de ela continuar a ser bem-vinda no grupo (a meio da conversa com Meiko, T.K. ouve o mesmo som de um apito que Tai ouvira antes). E, de facto, Meiko acaba por mudar de ideias mas, quando procura ir ter com os amigos, estes já partiram.

 

É possível que Meiko, a certa altura, vá ter com os outros Escolhidos ao Mundo Digital. Por outro lado, talvez ela opere como Escolhida a partir do Mundo Real, sozinha ou em colaboração com Daigo, Maki e/ou o seu pai.

 

Gostava de comentar o facto de os oito terem partido para o Mundo Digital envergando os respetivos uniformes escolares. Não sou de todo fã da ideia. Uma das coisas que mais gostava em Adventure eram os looks diferentes de cada um dos miúdos, a forma como estes refletiam as personalidades e os Cartões de cada um (talvez um dia escreva sobre isso). Há uns meses, aliás, um post no Tumblr fez-me pensar na roupa que usaria no Mundo Digital, se pudesse escolher (é outro possível tema para um texto: o que levaria comigo se visitasse o Mundo Digimon). Camisas brancas (que se sujam facilmente), gravatas ou lacinhos, saias plissadas ou calças de fazenda seriam as minhas últimas escolhas (exceptuando vestidos de gala e saltos agulha). Custa-me a acreditar que os miúdos tenham escolhido essas roupas, sobretudo quando eles estavam já de férias. O motivo mais provável é, pura e simplesmente, o fetiche que a animação japonesa tem por uniformes escolares.

 

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Pouco depois de regressarmos ao Mundo Digital, dá para ver que algo não bate certo. Tanto Izzy como Kari percebem-no. Nós, a audiência, vemos ligeiras corrupções na paisagem. Cedo, reencontramos Alphamon, desta feita lutando contra Jesmon (que, segundo consta, é a forma digievoluída de Hackmon, o Digimon que tem aparecido amiudadas vezes ao longo de Tri, seguindo os acontecimentos à distância. Será o mesmo?). Conforme os próprios Escolhidos assinalam, com o Reinício aquilo não deveria ser possível. Das duas uma: ou eles os dois morreram, renasceram e algo os fez passar do nível Bebé para Extremo em pouco mais de uma semana; ou o Reinício não os afetou, por um motivo ou por outro. Pessoalmente, aposto mais na segunda hipótese, tendo em conta algo de que falaremos adiante.

 

O som de um apito desvia-lhes as atenções. Acabam por encontrar o Tokomon brincando com o apito que Kari deixara a Gatomon, no fim de Adventure. Pergunto-me se é o mesmo som que T.K. ouviu durante a conversa com Meiko. Consta que o apito de Kari já desempenhou um papel importante anteriormente, na parte de Digimon, o filme, que serve de prequela a Adventure. É possível que, como sugerem aqui, que este som tenha cruzado os mundos e chegado aos ouvidos de, pelo menos, T.K.

 

De qualquer forma, enquanto Tokomon brinca com o apito, os outros Digimon juntam-se a ele, todos na forma de Bebé, todos sem reconhecerem nenhum dos Escolhidos.

 

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Mesmo tendo em conta tudo o que escrevi antes, sobre os nossos heróis estarem a escolher o seu próprio destino, em vez de ser o oposto, a amnésia dos Digimon não deixa de doer. E muito. Atrevo-me a dizer que a cena da morte deles, aquando do Reinício, doeu menos que a cena do reencontro. O contraste entre a inocência dos Digimon Bebés e a dor dos Escolhidos – Sora, por exemplo, mal se conseguia controlar. É Izzy quem encontra as palavras certas. Baseando-se nas últimas palavras de Tentomon, o jovem pede aos Digimon Bebés que lhes sirvam de guias.

 

Deixando as emoções um pouco de lado, tenho uma infinidade de perguntas sobre a situação atual, sobre as consequências da amnésia dos Digimon. No início de Adventure, os Digimon reconhecem os respetivos companheiros pelo nome próprio. É certo que, supostamente, os Digimon já teriam conhecido os seus companheiros humanos uns anos antes dos eventos de Adventure. No entanto, Gatomon foi separada dos outros ainda antes de nascer e, mesmo assim, sempre soube que lhe faltava qualquer coisa, que estava à espera de alguém. Nada disso acontece desta vez, aparentemente. Não existiu nenhum indício de ligação especial dos Digimon para com os seus companheiros humanos. Não sei se a digievolução será, sequer, possível nestas circunstâncias.

 

Sabemos, no entanto, que no próximo filme estrear-se-á o Hououmon/Phoenixmon (acerca do qual falei há relativamente pouco tempo, noutras circunstâncias), logo, de alguma forma, a digievolução será possível, pelo menos para Yokomon. E a verdade é que só vimos os Escolhidos com os seus Digimon amnésicos durante um minuto ou dois. Pode ser que o instinto protetor que os caracteriza se manifeste, mais cedo ou mais tarde. Uma trama possível para próximo filme poderia envolver os Escolhidos colocando-se deliberadamente em perigo, numa tentativa de despoletarem esse instinto – estilo o que Tai fez no segundo arco de Adventure, quando quis forçar Greymon a desbloquear o nível Perfeito/Super Campeão. Por outro lado, todos se recordam que o truquezinho de Tai falhou epicamente – Sora chegou a referi-lo na primeira metade de Kokuhaku.  Duvido que os Escolhidos tentem repetir a gracinha, a menos que estejam desesperados.

 

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Também é possível que os Digimon recuperem as memórias, sobretudo se se vier a descobrir que o Reinício não funcionou como se esperava. Do ponto de vista narrativo, fazerem isso logo no próximo filme corre o risco de parecer demasiado fácil, um deus ex-machina. Não que me pareça muito mais plausível que um Yokomon amnésico se afeiçoe a Sora o suficiente para atingir vários estágios de digievolução até chegar a Phoenixmon em apenas um filme (e daí não sei… em Adventure, Byomon começou a adorar Sora como um cachorrinho logo nos primeiros episódios).

 

Voltaremos a este assunto mais à frente. Antes, temos de falar sobre as últimas revelações de Kokuhaku. Nos instantes finais, descobrimos que Meicoomon se lembra de Meiko (pelo menos sabe o nome dela); que o Imperador Digimon é, na verdade, Gennai sob disfarce (whoa!); que Maki consegue vir ao Mundo Digimon (como? Só as quatro bestas sagradas saberão – se não tiverem sido afetadas pelo Reinício) e, aparentemente está a trabalhar com Gennai.

 

Eu, sinceramente, não sei muito bem o que pensar acerca de Maki. Em diversas alturas, ela podia ter evitado certos eventos que tiveram como consequência o Reinício – nomeadamente quando optou por não dizer a verdade sobre Meicoomon aos Escolhidos – mas não o fez. Ao contrário do que se poderá dizer acerca de outras personagens em Tri, acho que Maki sabia perfeitamente o que estava a fazer, quais seriam as consequências das suas ações. Se ainda é prematuro chamar-lhe vilã, eu diria que podemos definitivamente considerá-la uma antagonista: alguém que tem agido contra os interesses dos heróis. Muitos fãs dizem que Maki será, provavelmente, a típica vilã incompreendida. É possível, mesmo provável. O meu problema é que não consigo perceber qual é o objetivo dela, porque é que ela tem tomado as decisões que tomou até agora. Do meu ponto de vista, as motivações de Maki são a maior incógnita de Tri até ao momento. Assim, não consigo simpatizar com ela. Não quando as suas ações causaram tão sofrimento a personagens que conheço e adoro desde os meus onze/doze anos.

 

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De uma coisa podemos ter a certeza: Maki está do lado de Gennai, que parece ter passado para o lado negro da Força (pergunto-me se a bolinha preta que Piedmon lhe enfiou nas costas, nos flashbacks mostrados no último arco de Adventure, terá alguma coisa a ver com isso). Isto faz-me suspeitar que a Homeostase esteja, também, corrompida – daí ter recorrido ao Reinício e ele não ter corrido como o previsto. Se isso se confirmar, se a própria entidade que mantém o equilíbrio do Mundo Digimon está comprometida, os Escolhidos tem um imbróglio daqueles entre mãos.

 

No meio disto tudo, também não sabemos que papel tem o Alphamon nesta história toda. Antes, pensava que o tal Huckmon estava a trabalhar com ele e que os dois, sabendo que Meicoomon está na origem disto tudo, andavam atrás dela (no Digimon Wikia diz que o Huckmon é muito sensível à estabilidade do Mundo Digital). A luta entre Jesmon e Alphamon, no fim de Kokuhaku, contradiz essa teoria. Assim, faz mais sentido que ele esteja a trabalhar para Gennai, como explicam aqui.

 

E, claro, os 02 continuam desaparecidos em combate. A minha suspeita é que Maki tem-nos aprisionados algures – daí possuir o D-3 e o D-Terminal de Ken. Às tantas esse seria o destino mais desejável. Num cenário alternativo, eles estariam no Mundo Digimon aquando do Reinício… o que não me parece nada agradável. Outra questão que se coloca diz respeito ao efeito que o Reinício terá tido nos outros Escolhidos espalhados pelo mundo, que conhecemos em 02.

 

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Todas estas perguntas que continuam por responder deixaram vários fãs insatisfeitos com Kokuhaku. Ainda que compreenda esse ponto de vista e me tenha fartado de me queixar do mesmo na análise a Ketsui, desta feita não acho que isso seja tão grave. Ao contrário dos filmes anteriores, em Kokuhaku aconteceram coisas, a história avançou – finalmente. Além disso, perguntas por responder são a definição de tensão numa história, aquilo que nos faz virar páginas num livro, ficar vidrado no ecrã durante um filme ou o episódio de uma série. Se todas as perguntas estivessem respondidas nesta altura do campeonato, em que Tri vai a meio, qual era o interesse de vermos os três próximos filmes?

 

Acho, aliás, que Kokuhaku é o melhor filme de Tri até agora. Como referi no parágrafo anterior, tivemos avanços significativos na narrativa. Mas, mais do que outra coisa, Kokuhaku apostou naquilo que sempre foi o ponto forte de Digimon: as suas personagens. T.K. e Izzy destacaram-se, sim, mas, ao contrário do que aconteceu em Ketsui, todos os Escolhidos tiveram o seu momento (tirando Kari, que continua a ser pouco mais que uma espécie de mensageira divina). Com as voltas que o enredo deu, era inevitável – isto não é uma menorização, pelo contrário. Estão a ver as coisas boas que acontecem quando não perdemos tempo com visitas a termas e festivais culturais, digi-guionistas?

 

Kokuhaku, aliás, apostou muito no drama, ao ponto de deixar-me emocionalmente arrasada durante pelo menos três dias – não me lembro de alguma vez ter ficado assim por causa de um trabalho ficcional. Não cheguei a chorar porque não consigo, vai além disso. Ainda hoje me custa rever certas cenas. O facto de eu conhecer estes Escolhidos e os seus Digimon desde miúda predispôs-me para estas reações, sim. No entanto, só prova que que os digi-guionistas fizeram as coisas bem desde o início: criaram um elenco de jovens protagonistas bem construídos, com qualidades e defeitos, com quem sempre nos identificámos. Estes tornaram-se reais para nós, velhos amigos de infância. O único outro elenco em que algo semelhante aconteceu comigo foi o de Harry Potter – o que é significativo, tendo em conta que, desde miúda, me farto de consumir ficção. Os digi-guionistas merecem louvores por isso.

 

Por outro lado, o maior defeito de Tri tem sido, até agora, o ritmo da história – como referi no início da análise, o tom mudou demasiado de repente entre Ketsui e Kokuhaku. Se já não tinha gostado assim muito do segundo filme quando este saiu, a comparação com o terceiro fá-lo parecer ainda pior. Quero acreditar que os próprios guionistas deram por isso, daí terem prolongado o intervalo de lançamento entre Ketsui e Kokuhaku.

 

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O próximo filme de Tri sai no dia 25 de fevereiro do próximo ano. Eu estava com esperanças de que saísse um mês antes, mais coisa menos coisa, mas desta vez não me importo com o longo intervalo. A espera por Kokuhaku acabou por não me custar assim muito – o Euro 2016 e Pokémon Go ajudaram. Além disso, conforme comentou comigo o António da página Odaiba Memorial Day em Portugal (mais sobre isso já a seguir), quanto menores os intervalos entre os lançamentos dos filmes, mais depressa Tri acabará. Como não quero que acabe demasiado depressa, tão cedo não me torno a queixar – sobretudo se isso permitir aos produtores elevarem a qualidade dos filmes, como aconteceu do segundo para o terceiro. Por outro lado, se o intervalo se mantiver, talvez o quinto filme saia perto do Odaiba Memorial Day do próximo ano.

 

O quarto filme chamar-se-á Soshitsu, que significa Perda – ou seja, não ficaremos por aqui em termos de drama, ao que parece. No poster aparece Sora com Phoenixmon, bem como Tai e Matt, o que tem levado muita gente a pensar que vamos ter um triângulo amoroso. Eu, muito sinceramente, espero que não pois, como já disse várias vezes cá no blogue, não quero que Sora seja reduzida a interesse amoroso. Além de que existem possíveis linhas narrativas envolvendo a jovem bem mais interessantes.

 

Conforme referi antes, Kokuhaku mostra Sora abraçando por completo o seu estatuto de mamã do grupo, tomando conta de toda a gente. O Reinício, no entanto, tirou-lhe a única criatura que tomava conta dela e, como se pode calcular do seu comportamento quando reencontrou Yokomon, Sora não está bem. Conforme explica este post no Tumblr, no pós-Reinício, antes da ida para o Mundo Digimon, vemos Sora na cama, fitando o seu telemóvel com um olhar vazio – o telemóvel através do qual falava com os amigos todos, certificando-se de que estavam bem. Não sendo ela capaz de tomar conta de si mesma ou, se calhar, de aceitar a ajuda de outros, como poderá ela tomar conta de toda a gente? Não me admiraria se o seu arco em Soshitsu se baseasse nessa ideia: Sora incapaz de cumprir o papel que impôs a si mesma de mamã do grupo e odiando-se por isso.

 

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De qualquer forma, estou muito feliz por, aparentemente, a minha personagem preferida ir receber tempo de antena de que precisava há muito. Digi-guionistas, por favor, não estraguem isto.

 

Por outro lado, o facto de, agora, estarmos no Mundo Digimon promete. Gosto muito de ver Digimon no Mundo Real, os jovens conjugando as suas vidas normais com os seus deveres como Escolhidos.  No entanto, é quando estes estão confinados ao Mundo Digimon, à companhia uns dos outros, sem poderem fugir às adversidades, que as suas personalidades se revelam, que surgem os conflitos, quer individualmente, quer uns com os outros. Estou curiosa relativamente à dinâmica do grupo agora, que passaram seis anos desde a última vez que estiveram juntos no Mundo Digimon durante mais do que algumas horas. Por exemplo, tenho quase a certeza que Tai deixará de ser o líder – Matt e Izzy têm mostrado muito mais espírito de iniciativa. Não me admirava, aliás, se fosse esse o motivo pelo qual Tai e Matt aparecem no poster de Soshitsu: os dois rapazes entrando em conflito a propósito da liderança do grupo. De qualquer forma, a segunda metade de Tri promete.

 

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Eu sei que isto já vai mais comprido do que devia mas, antes de terminar, queria escrever sobre as celebrações do Odaiba Memorial Day deste ano, que incluíram um encontro de fãs portugueses no Parque das Nações. Eu estive lá, tal como desejava, mas não pude aproveitar como queria. Passei o dia quase todo preocupada com assuntos pessoais, perdi-me à procura do ponto de encontro (o stress não ajudou) e tive de sair mais cedo.

 

Tirando isso, gostei imenso da experiência. Houve, entre outras coisas, cantoria – incluindo este momento hilariante – mostra de dispositivos digitais e outros artefactos (como poderão ver, cheguei a usar o Cartão da Coragem para a foto de família – tenho de arranjar um, do Amor, para mim), batalhas entre digivices e o quiz. Cheguei a participar neste último mas, como só conhecia o universo de Adventure, o meu desempenho não foi brilhante – mas diverti-me à mesma!

 

Adorei conhecer outros fãs de Digimon, sobretudo o António (que organizou aquilo tudo) e o Danny d’A minha vida em bits. Gosto sempre de conhecer pessoas com as mesmas maluqueiras do que eu – apesar de a minha timidez ser quase incapacitante em circunstâncias como estas. Cheguei a imaginar o que aconteceria se, de repente, abrisse ali mesmo um portal para o Mundo Digimon e nos tornássemos todos Escolhidos, como funcionaríamos como grupo. O mais certo era eu colar-me ao António e ao Danny, aqueles que eu conhecia “melhor” (das emissões de rádio do primeiro, do canal de YouTube do segundo) e que, provavelmente, saberiam mais sobre Digimon do grupo (embora pudesse estar enganada). Foi uma boa experiência. Ainda é cedo para se falar do Odaiba Memorial Day do próximo ano mas, se o encontro se repetir e eu puder ir, vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para estar lá a hora e ficar até ao fim, sem distrações.

 

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Tudo isto será, provavelmente, uma coincidência, mas ultimamente tem sido difícil “crescer”. Várias franquias que marcaram a minha infância e adolescência escolheram mais ou menos a mesma altura para fazerem uma espécie de renascimento. Pokémon voltou a estar na moda após Pokémon Go (embora a febre já tenha arrefecido). Saiu um novo “livro” do Harry Potter e temos Digimon Adventure Tri há quase um ano. (Além disso, começou a ser emitida em outubro uma nova série de Digimon: Digimon Universe Appmon. Ainda não vi porque, até agora, só vi Adventure e as suas sequelas. Se resolver explorar para além desse universo, começarei por Tamers). Tem sido, aliás, esse o principal tema de Tri: o “coming of age”, o conflito entre o passado e o futuro, entre infância e idade adulta.

 

Na minha opinião, o facto de continuarmos a regressar, outra e outra vez, a estes mundos que marcaram a nossa infância, não significa que sejamos todos criancinhas no corpo de adultos (pelo menos é o que gosto de pensar). Em vez disso, é mérito dessas franquias por terem sido capazes de nos manterem interessados ao longo de todos estes anos, por terem crescido connosco, evoluído connosco. Tenho a certeza que, no fim de Tri, os protagonistas descobrirão que, mesmo que cresçam, comecem a trabalhar, a constituir família, nunca deixarão de ser Crianças Escolhidas. Da mesma maneira, nós nunca deixaremos de ser Crianças Escolhidas, mestres Pokémon, alunos de Hogwarts. Ainda que isso só aconteça em livros, videojogos, em sites de transmissão de anime, em filmes ou na nossa imaginação. Mas, lá está, isso não significa que não seja real.

 

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Se quiserem mais conteúdo relacionado com Tri, sigam a página de Facebook aqui do estaminé, onde tenho respondido à tag 30 Days of Tri.

Digimon Adventure Tri - Kokuhaku (Confissão) #1

1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo do primeiro, segundo e terceiro filmes de Digimon Adventure Tri e, possivelmente, dos enredos de Adventure e 02. Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas - na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Apesar de as legendas do filme usarem os nomes japoneses das Crianças Escolhidas, eu vou usar as versões americanizadas dos nomes, visto que estou mais habituada.

 

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Uma das maiores críticas que teci aos dois primeiros filmes de Digimon Adventure Tri prende-se com o facto de pouco ter acontecido de relevante para o enredo, que avançasse a história. No primeiro filme, isso não foi tão grave, visto que o principal objetivo do mesmo era, como escrevi na altura, colocar as personagens todas no lugar certo, lançar as premissas para esta série de filmes. No segundo filme, o engonhanço agravou-se: praticamente só nos últimos vinte minutos é que a história avançou e, pelo meio, perdeu-se demasiado tempo com coisas fúteis. Já sabíamos que o terceiro filme, Kokuhaku (Confissão), seria diferente – quanto mais não fosse porque, depois da maneira como o segundo filme, Ketsui, terminou, não dava para continuar a encher chouriços.

 

Temíamos há muito tempo que Patamon fosse sacrificado neste terceiro filme. Ainda antes do lançamento de Ketsui, tinha sido divulgado um teaser mostrando Patamon despedindo-se e o seu parceiro, T.K., reagindo com desespero. O facto de Patamon aparecer no poster de Kokuhaku na sua forma Infantil agravaram os nossos receios – para se agravarem ainda mais quando as primeiras sinopses de Kokuhaku diziam que Patamon desenvolveria sintomas da Infeção que enlouquecera Meicoomon. Todos sabíamos que o filme mexeria com as nossas emoções e tentámos preparam-nos para isso – vários fãs viram o filme com uma caixa de lenços de papel ao lado.

 

No entanto, duvido que alguém estivesse preparado para isto, para o nível a que Kokuhaku chegou. Falo por mim: não me lembro de alguma vez ter ficado tão arrasada com um trabalho de ficção.

 

O que aconteceu em Kokuhaku de assim tão dramático? Segue a versão condensada, a.k.a, a habitual sinopse baseada na Wikipédia:

 

Kokuhaku começa um dia ou dois após o final de Ketsui. Meiko lida com o trauma da morte de Leomon às mãos de Meicoomon e da fuga desta última. Izzy, por sua vez, vai ficando cada vez mais frustrado enquanto tenta descobrir como se infetou Meicoomon. Entretanto, as distorções, que se creem provocadas por Meicoomon, começam a afetar as ligações aéreas. Perante as perguntas de Matt, Maki Himekawa e Daigo Nishijima revelam pormenores das investigações da organização governamental, mas ocultam-lhe que Meicoomon é a origem das infeções e que Davis, Yolei, Cody e Ken se encontram desaparecidos. Mais tarde, T.K. descobre que Patamon mostra sintomas de infeção. No entanto, esconde-o dos amigos e decide retirar Patamon da segurança do escritório de Izzy, trazendo-o para casa. Tal faz com que os outros Escolhidos sigam o exemplo. Patamon acaba por perceber o que lhe está a acontecer e pede a T.K. que o mate caso se torne violento.

 

Certa noite, durante um apagão, uma mensagem surge em todos os dispositivos eletrónicos: “Os Digimon serão libertados de novo”, o que causa agitações na população. No dia seguinte, enquanto Patamon conta aos outros Digimon que está infetado, Kari é possuída pela Homeostase. Através da boca da jovem, a entidade revela que os Digimon Infetados poderão destruir o Mundo Digital, bem como os outros mundos paralelos a este, e acabar com a rede eletrónica do Mundo Real. A solução passa por “um grande sacrifício”. Maki escuta a mensagem e informa os Digimon que, da próxima vez que Meicoomon aparecer, a Homeostase, como último recurso para salvar os diferentes mundos, poderá provocar um Reinício, que destruiria o Mundo Digital, reconstruindo-o no estado pré-infeção. Gatomon conclui que este Reinício fará com que ela e todos os outros companheiros Digimon morram e renasçam sem recordações das suas vidas até ao momento – ou seja, esquecer-se-iam dos seus parceiros humanos. Com este conhecimento, os oito Digimon decidem guardar segredo sobre o Reinício e preparar-se para o pior, passando tempo de qualidade com os seus companheiros humanos, em jeito de despedida. Agumon, no entanto, acaba por contar a Tai acerca do Reinício.

 

Izzy acaba por descobrir que as distorções resultam da substituição do habitual código binário por um código diferente. Depois de Tentomon o informar acerca do Reinício, o jovem pensa num plano. Entretanto, Meicoomon regressa e os Digimon lutam com ela, numa tentativa de a afastar do Mundo Real. Contra a vontade de T.K., Patamon digievolui para Angemon e junta-se à luta. No entanto, a Infeção volta a manifestar-se, não só em Angemon, mas também nos outros Digimon. Nesse momento começa a contagem decrescente para o reinício, mas Izzy põe em prática o seu plano alternativo: um campo de dados em forma de cubo para curar as infeções e preservar as memórias dos Digimon. Numa altura em que Tentomon é o único não afetado pela Infeção, ele digievolui para HerculesKabuterimon e faz uma tentativa para salvar os amigos Digimon, Meicoomon incluída. Em vão.

 

Uma semana mais tarde, numa altura em que os Escolhidos decidem regressar ao Mundo Digital para se encontrarem de novo com os seus Digimon, Meiko confessa a T.K. que soube, desde o momento em que a encontrou para primeira vez, que Meicoomon estava infetada. Consumida pela culpa, ela acha que não tem o direito de ir ter com Meicoomon. Os oito outros Escolhidos, por sua vez, regressam ao Mundo Digital, invocando os poderes dos seus Cartões. Aí, encontram Alphamon combatendo outro Digimon de nível Extremo, Jesmon. Também encontram os seus companheiros Digimon, que não os reconhecem, decidindo começar do zero com eles. Por sua vez, longe da vista dos Escolhidos, Maki aparece no Mundo Digital, confrontando o Imperador Digimon – que, na verdade, é Gennai sob disfarce. Também sem que as outras presonagens o vejam, aparece Meicoomon, que, aparentemente, ainda se recorda da sua companheira humana, Meiko.

 

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Em Ketsui, tínhamos tido uma invasão das meninas ao balneário masculino numas termas, Meiko e Mimi vestindo-se de meninas de claque num festival cultural e os Digimon participando num concurso de disfarces, tudo com uma dose saudável de parvoíce à mistura. Em Kokuhaku temos uma das personagens com depressão e stress pós-traumático, ameaças de um Apocalipse digital e os oito Digimon com os dias contados. Em suma, a tensão aumentou exponencialmente de um filme para o outro (o que, na cronologia de Tri, corresponde a quatro ou cinco dias, e estou a arredondar por cima). Claro que, ao terceiro de seis filmes, era preciso que acontecesse algo mais. A minha crítica não se dirige a Kokuhaku, dirige-se mais a Ketsui. A comparação do terceiro filme com o segundo piora a perceção deste último, que já tinha deixado muito a desejar. Fica claro que Ketsui devia ter cortado nos fillers, preocupando-se antes em avançar a história, de modo a que os eventos de Kokuhaku parecessem menos súbitos e mais orgânicos.

 

Até porque muitos dos conflitos que dominaram os dois primeiros filmes acabaram por ficar sem conclusão satisfatória. Em Kokuhaku, não há uma única referência aos problemas académicos de Joe. As dúvidas existenciais de Tai são colocadas em banho-maria com duas linhas de diálogo de Matt – tendo em conta o que acontece no resto de Kokuhaku, a questão não deverá voltar a ser levantada tão cedo. A verdade é que, em Kokuhaku, as coisas escalam a um ponto em que os problemas académicos de Joe e os desentendimentos de Mimi com as colegas por causa do festival cultural parecem triviais, na comparação.

 

Uma coisa que me agradou em Kokuhaku foi o facto de, finalmente, terem abordado o desaparecimento dos miúdos de 02. Depois de Saikai e Ketsui, um mero reconhecimento da existência deles sabe a vitória. Não que tenhamos descoberto muito. Vemos, no início do filme, T.K. e Kari batendo à porta de Ken, tentando telefonar aos outros, sem conseguir falar com qualquer um deles (incluindo os pais de Ken, o que é ainda mais estranho).

 

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Mais tarde, Matt vai ter com Daigo e Maki, a perguntar pelos Escolhidos mais novos. Estes dizem-lhe que os têm debaixo de olho, protegidos. No entanto, depois de Matt sair, o diálogo entre Maki e Daigo confirma que sim, os miúdos de 02 estão desaparecidos, a organização governamental sabe disso e… não parece estar a fazer nada para resolver a situação. Eu sabia já que, nesta altura, não haveria maneira de justificar o destino dos Escolhidos mais novos sem incoerências. Continuo a achar que os veteranos já deviam ter dado pelo desaparecimento dos caloiros, por todos os motivos que listei em análises anteriores. Além de que a organização governamental deve estar a fazer um trabalho de mestre para ocultar o desaparecimento de quatro menores (e, aparentemente, as respetivas famílias) da Comunicação Social. Matt, de resto, aceita as explicações de Maki com demasiada facilidade (é certo que, pelo menos nesta fase, os Escolhidos não têm motivos para desconfiarem de Maki ou Daigo) e, muito mais tarde no filme, quando Maki aparece com o D-3 e o D-terminal de Ken, ninguém levanta sequer uma sobrancelha – mais uma vez, compreensível tendo em conta tudo com que os Escolhidos tiveram de lidar até àquele momento. Tanto quanto eles saibam, Maki pediu-lhos emprestados a Ken.

 

Não é apenas o desaparecimento dos miúdos de 02 que Maki esconde dos Escolhidos: também o facto de Meicoomon ser responsável por… bem, praticamente tudo o que aconteceu até agora em Tri. A desculpa que Maki dá é, essencialmente, “o Izzy vai descobrir mais cedo ou mais tarde”, embora também invoque a possibilidade de os outros Escolhidos se virarem contra Meiko, caso descubram a verdade. Quando Daigo se revolta contra o secretismo da colega, ela diz-lhe mesmo: “Certas coisas estão melhor mantidas em segredo”.

 

Não sei o que é que Maki entende por “melhor”, mas, neste filme, todos estes segredos acabam por voltar-se contra os Escolhidos, e de que maneira. Maki não é a única com coisas a esconder, como veremos adiante. No entanto, os motivos dela são os que levantam mais suspeitas depois dos momentos finais de Ketsui – para se transformarem em quase certezas nos instantes finais de Kokuhaku, quando fica claro de que lado ela está.

 

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Maki fica ainda pior na fotografia quando vemos o efeito que os eventos do final de Ketsui estão a ter nos Escolhidos. Meiko, coitada, tinha pouquíssima experiência nas lides dos Escolhidos e, de um momento para o outro, acontece-lhe um dos piores cenários possíveis. Como disse acima, não anda a reagir bem. No início de Kokuhaku, descobrimos, ainda, que o pai de Meiko trabalha com a organização (se não fizer oficialmente parte da mesma) a que Daigo e Maki pertencem. É evidente que ele deverá desempenhar um papel importante em Tri, a certa altura, mas neste filme ele limita-se a aparecer no início e não volta a aparecer até ser brevemente mencionado até perto do fim. Eu sei que, no Japão, pais e filhos costumam ter uma relação mais formal que no Ocidente, mas a maneira distante como ele trata Meiko causou-me impressão – quando ele sabe perfeitamente que a filha não está bem, até Daigo lhe faz ver isso. Mimi e, sobretudo, Sora acabam por dar mais apoio a Meiko do que os próprios pais, o que é um bocadinho triste.

 

No extremo oposto, Izzy procura febrilmente uma explicação para a infeção de Meicoomon e a pressão começa a levar a melhor sobre ele. Quem lhe dá apoio, surpreendentemente, é Joe. Aparentemente, o desbloqueio de novas digievoluções é tão inebriante para os próprios Escolhidos como é para mim… ou então, tal como escrevi antes, talvez o facto de ter sido bem-sucedido em algo tenha sido suficiente para fazê-lo sair do estado semi-depressivo em que passou os dois primeiros filmes de Tri.

 

Ou então, teve pura e simplesmente uma hora bem passada com a sua misteriosa namorada.

 

O que é certo é que Joe retoma um pouco o seu papel de papá do grupo, com o seu apoio bem-humorado a Izzy (a cara deste último, quando Joe lhe diz “assim não arranjas namorada” é impagável), cuja característica paixão pelo saber começa a tornar-se um fardo.

 

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É um tema que se começa a notar em Tri: o facto de os Escolhidos estarem a lidar com o lado negro das virtudes que lhes foram atribuídas, o reverso… bem, dos Cartões. Tai, em Saikai, sentiu a sua coragem falhar (e ainda não parece totalmente recuperado disso). Mimi percebeu que o seu julgamento nem sempre é o mais adequado. Joe, que sempre cumpriu o seu dever e honrou os seus compromissos, deixa de conseguir fazê-lo. E agora, que a mente curiosa de Izzy é a maior arma dos Escolhidos contra a ameaça das distorções e das infeções, descobrir coisas deixa de ser um prazer, é um caso de vida ou de morte. A ignorância, os enigmas, os segredos por desvendar, não são apenas desafios – são ameaças.

 

Esta última parte, de resto, tem sido um dos temas recorrentes em Tri, ganhando maior destaque em Kokuhaku. Meiko é um bom exemplo disso e T.K. acaba por seguir pelo mesmo caminho. Como já sabíamos que aconteceria, Patamon começa a desenvolver sintomas de infeção. Chega a atacar T.K. no escritório de Izzy (onde os Digimon estavam retidos, de modo a evitar mais infeções), enquanto este último passa pelas brasas. Joe, que também estava no escritório, a tomar conta de Izzy, não dá pelo ataque. Quando T.K. lhe pergunta, casualmente, o que aconteceria se mais algum dos Digimon se infetasse, o Escolhido mais velho responde que, provavelmente, teriam de eutanasiá-lo. Tendo isso em conta, T.K. convence um relutante Joe a deixá-lo levar Patamon para casa. Aqui, temos uma cena de partir o coração (uma de muitas neste filme) em que Patamon percebe o que lhe está a acontecer e pede a T.K. que o mate, case a Infeção fique mais grave.

 

É particularmente cruel que o primeiro a mostrar sinais de Infeção tenha sido, logo, o mais fofo do grupo, aquele que já antes se tinha sacrificado, aquele que, por norma, surge à última hora para salvar toda a gente. Desta feita, a esperança é, quase literalmente, a primeira a morrer.

 

 

A decisão de T.K. de trazer Patamon consigo abre um precedente para os restantes Digimon – agora todos querem passar as noites com os seus companheiros humanos. O que poderiam os Escolhidos fazer? T.K. continua a esconder o que se passa com Patamon, só dizendo a verdade a Meiko – por sinal, outra que também tem coisas a esconder.

 

Como bom irmão mais velho que é, Matt percebe logo que se passa algo com T.K. O irmão mais novo continua a fechar-se em copas. Esta cena, ao menos, sempre proporciona alguns dos poucos momentos leves do filme. T.K. pergunta ao irmão com quem é que ele se desentendeu desta vez e, mais tarde, perante as perguntas de Matt, T.K. diz-lhe que está deprimido por as bandas do irmão estarem sempre em crise.

 

O Matt tem mesmo de deixar de se levar tão a sério ou habilita-se a ter sempre toda a gente a gozar com ele.

 

Pelo meio, Kokuhaku faz questão de mostrar Sora funcionando como uma espécie de mental coach dos Escolhidos – passando uma boa parte do filme ao telemóvel, falando com toda a gente, certificando-se de que estão bem. É, aliás, a primeira vez que, tanto quanto sei, que Digimon compara Sora a uma mãe, preto no branco. Não que fosse necessária tanta ostensividade: estamos a falar de uma rapariga que, mesmo quando estava em baixo, com vontade de estar sozinha, não conseguia evitar ajudar os amigos nas costas deles. Mais caracterização para além disto é redundante. É, de resto, uma técnica a que os digi-guionistas costumam recorrer: exacerbar um traço específico das personagens quando este é importante para o enredo. O Cartão do Amor de Sora não é particularmente relevante em Kokuhaku mas deverá sê-lo em breve, visto que o próximo filme será focado nela.

 

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Não retiro nada do que escrevi antes sobre Sora, na minha longa análise a Adventure. Continuo a achar que o papel dela é o esperado das personagens femininas (para não dizer imposto às personagens femininas) e, até agora, nunca foi explicado devidamente porque sente ela necessidade de agir assim. Dito isto tudo, Sora continua a ser a minha preferida entre os Escolhidos. Em parte precisamente porque é maternal e altruísta, mas também porque não deixa de ser tão corajosa e lutadora como Tai ou Matt, os machos-alfa do grupo. Em miúda, Sora era, de todos os Escolhidos, quem eu mais desejava ter como amiga – e ela, de facto, tem sido uma excelente amiga para Meiko, precisamente quando ela mais precisa.

 

Voltaremos a falar de Sora adiante. Sobre as ameaças que surgem nos dispositivos eletrónicos, dizendo que “os Digimon serão libertados novamente”, não sei muito bem o que pensar. Não sei se é apenas um “sintoma” das distorções ou um indício de algum evento que ainda não ocorreu. Por outro lado, é de assinalar que as distorções se devam à substituição do habitual código binário (zeros e uns) por um código ternário (zeros, uns e dois). Um fã crítico de Digimon já tinha apontado para a presença do código nas sequências de digievolução, aquando de Saikai. Ao menos agora temos uma explicação para isso. Consta até que, antes do lançamento de Saikai, os criadores de Tri haviam alertado para a presença de triângulos e conjuntos de três nestes filmes. Talvez este código ternário ganhe ainda mais relevância mais adiante, em Tri.

 

De qualquer forma, no dia seguinte, os Digimon escapam do escritório de Izzy (demasiado absorvido pelo seu trabalho para prestar atenção). Patamon revela aos amigos que está infetado e pede-lhes, também, que o matem caso ele se torne violento. Entretanto, a Homeostase (uma entidade digital que rege o Mundo Digimon como um deus) apodera-se de Kari (que, aparentemente, não serve para mais nada). Através da jovem, a entidade aparece perante os Digimon (com Maki escutando à socapa), informando-os que a Infeção está a comprometer a estabilidade do Mundo Digital, existindo o risco de ele e outros mundos paralelos desaparecerem por completo, bem como a rede eletrónica do Mundo Real.

 

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O Mundo Digimon é, na sua essência, um mundo digital, informático. Em informática, o que é que uma pessoa faz quando as coisas não funcionam? Desligamos e voltamos a ligar. É exatamente isso que a Homeostase quer fazer caso Meicoomon apareça de novo no Mundo Real.

 

Apesar de eu aplaudir um desenvolvimento do enredo, depois de tanto tempo a engonhar, devo dizer que este me parece demasiado repentino. Como dei a entender antes, Tri passa de três ou quatro Digimon descontrolados, sem que saibamos ao certo porquê, um par de combates com Digimon de nível Extremo, cuja motivação é um mistério, para um Mundo Digimon supostamente tão corrompido que precisa de ser reiniciado. Por outras palavras, só agora é que a Infeção começou a ter repercussões graves e já vamos tomar medidas de último recurso? Não bate certo. Tenho algumas teorias sobre isso, mas vou guardá-las para mais adiante nesta análise.

 

Uma das consequências do Reinício do Mundo Digital será o Reinício dos próprios Digimon com ele. Ou seja, eles morrerão e voltarão a nascer sem recordações da sua vida anterior, como se nunca tivessem conhecido os seus companheiros humanos. Está longe de ser uma situação fácil, sobretudo tendo em conta que a única solução para talvez escaparem a este destino passa por abaterem Meicoomon, que passaram a considerar uma amiga.

 

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Os oitos Digimon ligam com a situação com uma coragem invejável – embora seja que questionar a sensatez de esconder a verdade aos Escolhidos – entrando em modo “último dia na Terra/Mundo Real” com os respetivos companheiros. Isto proporciona momentos dolorosamente agridoces: Kari passando a tarde no centro comercial, com Gatomon; Gabumon pedindo a Matt que este toque harmónica, como no fim de Adventure (harmónica essa que acaba por introduzir uma música lindíssima, que serve de banda sonora a todos estes momentos); Byomon tentando fazer com que Sora, por uma vez, pense em si mesma e nos seus sonhos; Gomamon ouvindo Joe dizer que tem de apresentá-lo à sua namorada, já que planeia tê-los aos dois por perto para o resto da sua vida (porque é que me fazem isto, digi-guionistas, porquê?!?); Palmon, mais uma vez, nem coragem tem para pensar, sequer, em despedidas; Tentomon procurando consolar Izzy, dar-lhe esperança, fazer com que ele volte a sentir prazer em aprender. Só ele e Agumon é que, aliás, revelam a verdade aos respetivos companheiros humanos.

 

A ação em Kokuhaku (leia-se: combates entre Digimon) limita-se a um episódio. Ao contrário de outras ocasiões em Tri, isso não prejudica tanto este filme pois não faltou desenvolvimento de personagens e muito drama nos primeiros três episódios. Esta batalha, que dura o episódio todo, é, aliás, o momento em que todos os segredos, todos os erros cometidos até à altura, se voltam contra o elenco de uma maneira trágica. Meicoomon aparece no Mundo Real a partir de uma distorção e todos, tirando Izzy, acorrem ao local. Embora não se possa ter a certeza absoluta, aparentemente a chegada de Meiko ao local faz com que Meicoomon digievolua para Meicrackmon (quando dei com este nome pela primeira vez, tive de confirmar que não era um nome inventado por fãs. Meicrackmon? A sério?). Momentos depois, T.K. tenta impedir Patamon de se juntar ao combate, em vão. Acaba por ser ele, na forma de Angemon, quem despoleta a Infeção nos outros Digimon, que começam a atacar-se uns aos outros e a contagem decrescente para o Reinício começa.

 

Nessa altura, Izzy descobre que Meicoomon está na origem de tudo e rapidamente cria o tal campo de dados, que curará as infeções e preservará as memórias dos Digimon. Numa altura em que a maior parte dos Escolhidos só agora é posto ao corrente sobre o Reinício, Tentomon é enviado para a dimensão distorcida onde ocorrem os combates para tentar levar os amigos Digimon para dentro do campo de dados antes que se dê o Reinício. Inicialmente, tem MetalGreymon a ajudá-lo, mas também ele acaba por ser dominado pela Infeção (chega mesmo a evoluir para WayGreymon sem darmos por isso). A certa altura, Izzy pede a Tentomon que esqueça os outros e se salve a si mesmo. O Digimon, compreensivelmente, recusa pois não quer ver os amigos morrer.

 

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Em jeito de despedida, Tentomon dirige a Izzy umas palavras de consolo, remetendo para o conflito do jovem neste filme: diz que ignorância é apenas o ponto de partida para aprender coisas novas; que adorou encontrar Izzy e ir conhecendo-o ao longo do tempo, se tiver de ser adorará conhecê-lo outra vez. Dito isto, evolui pela primeira vez para HerculesKabuterimon. Desta feita não há a habitual euforia que acompanha as novas digievoluções, esta é apenas uma última tentativa, um canto de cisne.

 

Por um momento, HerculesKabuterimon consegue fazer com que os amigos Digimon recuperem a razão. Sabendo perfeitamente que já não podem fazer mais nada, os oito abraçam-se, encurralando Meicrackmon no meio. Juntos, conseguem regressar à distorção, mas já não chegam a tempo de entrar no campo de dados. O Reinício é ativado, os nove Digimon desfazem-se em partículas digitais… e os nossos corações também.

 

Não sei como foi com vocês, mas este desfecho doeu-me, ainda dói, mais do que eu esperaria. Dói-me pensar que criaturas que conhecemos desde miúdos se esqueceram de tudo por que passaram com os respetivos Escolhidos. Que a Gatomon se esqueceu do Wizardmon e do momento em que percebeu que Kari era a sua companheira humana. Que o Patamon se esqueceu da sua zaragata com o Elecmon, na Aldeia de Origem. Que o Gomamon se esqueceu da primeira piada que ouviu do Joe (“Chamas a isso mãozinha?”). Que a Palmon se esqueceu de quando obrigou Mimi a engolir as suas palavras, depois de evoluir para Lillymon. Que o Tentomon se esqueceu da sua hilariante apresentação aos pais de Izzy. Que a Byomon se esqueceu de se aliar à mãe de Sora para a resgatar. Que o Gabumon se esqueceu de quando usou o seu casaco de peles para curar a hipotermia de Matt. Que o Agumon se esqueceu de quando queimou o mapa desenhado (muito mal) por Tai e levou nas orelhas por isso. Dá vontade de chorar. É uma grande parte da infância dos Escolhidos, da nossa infância, que na mente dos Digimon nunca aconteceu.

 

Quando vi Kokuhaku pela primeira vez, foi um alívio descobrir que existia um quinto episódio. Mas, como esta entrada já vai longa, falaremos desse episódio e de muito mais na segunda parte desta análise, que virá amanhã. Continuem desse lado, que ainda temos muito para chorar... desculpem, falar.

 

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A minha sitcom preferida

Ao longo da primeira década do século, de forma mais ou menos regular, em minha casa tínhamos por hábito ligar na RTP2, de segunda a sexta, mais ou menos às oito e meia da noite, hora a que transmitiam uma sitcom americana. Série como Sabrina, a Bruxinha Adolescente, Yes, Dear/Sim AmorS-Club; algumas mais clássicas, como Green Acres/Viver no Campo e Bewitched; numa fase mais posterior A Teoria do Big Bang, Dois Homens e Meio e Everybody Hates Chris/Todos Contra o Chris (uma série que merecia mais popularidade, na minha opinião). Todas estas eram razoáveis, umas mais do que outras. No entanto, a partir do outono de 2005, começou a passar uma que tinha muito mais piada que as demais: Friends

 

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Cerca de ano e meio após o episódio final de Friends, a RTP2 transmitia as dez temporadas de seguida, processo que durou um ano, mais coisa menos coisa. Eu e o resto da minha família íamos ficando cada vez mais rendidos à medida que acompanhávamos a vida dos seis amigos, com as suas amalucadas reviravoltas: desde o relacionamento tumultuoso de Ross e Rachel, os empregos difíceis de Monica, Joey sendo um péssimo ator, Phoebe sendo mãe de aluguer dos sobrinhos, Ross trocando o nome da sua noiva em pleno altar, Monica indo parar à cama de Chandler e acabando por se casar com ele, entre muitas outras coisas.

 

A RTP voltaria a exibir a série no mesmo horário daí a dois anos e nós seguimo-la com a mesma convicção. Desde essa altura, continuo a rever episódios da série com frequência (demasiada frequência, diga-se). Nenhuma sitcom que tenha visto até agora está tão bem feita e, sobretudo, me faz rir da mesma maneira (How I Met Your Mother esteve perto nos primeiros anos, mas toda a gente sabe no que isso deu...). 

 

Como tal, quando dei com a TAG Eu Amo Friends, quis incluí-la aqui no meu blogue. Como o costume, adaptei as perguntas ao português europeu.

 

1) Com qual personagem mais te identificas e porquê?

Esta é uma pergunta muito interessante. Não me identifico com apenas uma personagem, mas identifico-me com cada uma das três personagens femininas, por motivos diferentes. Identifico-me com Rachel, sobretudo nas primeiras temporadas, pois ela é ingénua, um bocadinho mimada, está ainda a aprender a ser adulta, muito como acontece comigo. Identifico-me com Monica pelo seu lado mais romântico e, sobretudo, maternal, com algumas das suas inseguiranças quando começa a trabalhar no Alejandro's e também, de certa forma, com a relação tumultuosa com os seus pais. Por fim, identifico-me com Phoebe pelo seu lado mais excêntrico e amalucado.

 

2) Qual é a temporada de que gostas mais e a de que gostas menos?

 

A temporada de que gosto mais é a segunda. Isto pode ter a ver com o facto de eu possuir os DVDs das duas primeiras temporadas, logo, tenho tido mais contacto com estas do que com o resto da série.

 

A temporada de que gosto menos é a última, mais porque, por esta altura, já se notava o desgaste e as personagens já tinham demasiados elementos de caricatura. No entanto, a série tem o mérito de nunca ter deixado de fazer rir, o que é algo de que nem todos se podem gabar.

 

3) Qual é o teu episódio de feriado (Natal, Dia de Ação de Graças, etc.) preferido?

 

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É uma escolha difícil, mas eu vou responder "The one with the football". A premissa é muito simples - os seis jogando futebol americano - não é difícil fazer as piadas surgirem. E estas realmente vão fluindo, com Monica e Ross, hiper-competitivos, trocando picardias, Joey e Chandler lutando pelas atenções de uma beldade holandesa, Rachel como a inepta do grupo e algum humor físico à mistura.

 

4) Qual é a tua canção da Phoebe preferida?

 

 

Escolho esta, não tanto pela música em si, antes pelo timing cómico. Rio-me de todas as vezes.

 

5) Qual é o episódio mais engraçado?

 

Vou aproveitar a ocasião e fazer um top 7 com os meus episódios favoritos e/ou que considero mais engraçados. 

 

      7) The One After the Superbowl, part 2

 

Refiro este apenas pela história de Chandler. Este reencontra Susan, uma colega do quarto ano. Susan refere, de forma muito casual, a ocasião em que Chandler lhe levantou a saia, durante uma peça de teatro escolar, deixando-lhe as cuecas à mostra. Ela e Chandler envolvem-se, mas na verdade tudo aquilo é uma armadilha montada por Susan para vingar aquela partida. E que vingança é, senhores! Uma pessoa fica a pensar quantos anos terá Susan passado aguardando o momento em que reencontraria o antigo colega, magicando este plano.

 

Susan é interpretada por Julia Roberts e esta história não teria metade da piada não fosse o trabalho dela. Sem querer, de modo algum, menorizar o trabalho de Matthew Perry, com quem tem uma excelente química  (consta, aliás, que os dois namoravam aquando das filmagens deste episódio. Vejam só esta cena:

 

  

Atentem a esta troca: 

 

Chandler: "That was fourth grade! How come you're still upset about that?"

Susan: "Well, why don't you call me in twenty years and tell me if you're still upset about this?"

 

Por sinal, estes vinte anos completaram-se há pouco tempo. Será que o Chandler ainda está chateado?

 

Este episódio só não está mais acima na classificação porque as outras histórias neste episódio não têm assim tanta piada.

 

      6The One With the Baby on the Bus

 

Este episódio vale sobretudo pela história de Chandler e Joey, que aproveitam o episódio alérgico de Ross para usarem o bebé Ben para engatar mulheres. No entanto, acabam por se esquecer do bebé no autocarro, o que conduz a esta cena hilariante, que me cai no goto de todas as vezes, sobretudo a última fala de Chandler: "What kind of scary ass clowns came to your birthday?"

 

 

Ao contrário do episódio de que falámos antes, as outras histórias deste até são engraçadas, mesmo não sendo por aí além. A conversa final de Monica e Ross fará, certamente, sorrir quem tenha irmãos. A história de Phoebe e Rachel também tem a sua piada, mas destaca-se sobretudo por corresponder à estreia de Smelly Cat.

 

           5) The One With the Boobies

 

Ter personagens vendo-se acidentalmente nuas umas às outras não é propriamente um exemplo de comédia sofisticada, admito, mas esta está tão bem feita neste episódio que não resisto a incluí-la entre os mais engraçados da série. O que funciona aqui é o facto de haver uma escalada do efeito cómico, já que as personagens tentam vingar-se dos respetivos voyeurs, mas acabam por espreitar as pessoas erradas - tudo isto culminando com Monica invadindo o duche... do pai de Joey.

 

As outras duas histórias do episódio também têm a sua graça. A trama com a amante do pai de Joey, para além de engraçada, ajuda a caracterizar o galã do grupo. As outras personagens também passam por algum desenvolvimento graças ao namorado psicólogo de Phoebe, que faz exatamente aquilo que os psicólogos não devem fazer: usar os traumas dos outros para os diminuir.

 

         4) The One with the Embryos

  

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Este é referido inúmeras vezes entre os episódios mais engraçados de Friends, não sem razão. O jogo de perguntas e respostas que opõe Monica e Rachel a Chandler e Joey proporciona ótimos momentos de comédia, bem como a oportunidade de conhecermos melhor as personagens. Também aqui existe uma escalada do efeito cómico, à medida que o jogo se intensifica e os respetivos apartamentos entram nas apostas. O ponto alto ocorre quando as raparigas, depois de terem sabido responder a perguntas como o maior medo de Chandler e o nome e a profissão do amigo imaginário de infância de Joey, não são capazes de nomear... a profissão de Chandler.

 

             3) The One With the Two Parties 

          

Neste episódio, Rachel faz anos, mas os pais estão em processo de divórcio e não conseguem estar juntos na mesma divisão sem começarem a discutir. Quando os amigos dão uma festa de aniversário e os dois pais de Rachel aparecem, o grupo vê-se obrigado a dividir a festa pelos dois apartamentos, numa tentativa de mantê-los separados. Mais uma vez, temos uma escalada de humor à medida que as personagens recorrem a medidas cada vez mais desesperadas para impedirem os pais de Rachel de se encontrarem - culminando com Joey beijando a mãe de Rachel.

 

              2) The One Where Everyone Finds Out

 

Todos consideram este como um dos melhores episódios de Friends de sempre. Na quinta temporada, uma das tramas principais diz respeito ao romance secreto entre Monica e Chandler. Evidentemente, o segredo acaba por ser descoberto. Joey é o primeiro a descobrir, Rachel descobre mais tarde Este episódio, tal como diz o título, corresponde ao momento em que a verdade vem à tona para todo o grupo.

 

No início do episódio, Phoebe descobre acerca do romance. Depois de fazê-lo, ela e Rachel decidem fingir que não sabem, que Phoebe tem um fraquinho por Chandler, começando a fazer-lhe avanços, a ver se Chandler se descose. Por sua vez, Monica e Chandler descobrem que Phoebe e Rachel saem e decidem entrar na brincadeira, com Chandler a corresponder aos avanços de Phoebe, a ver se ela se descose. Mais uma vez, há um crescendo no efeito cómico, sobretudo quando os dois se encontram para uma suposta noite de paixão. Vê-se que Phoebe e Chandler estão claramente a forçar algo que não querem que aconteça, ficando cada vez mais aflitos ao verem que o outro não cede. Acaba por ser Chandler a render-se e fá-lo declarando o seu amor por Monica, sendo esta a primeira vez que o faz com todas as letras

 

 

Pelo meio, Ross tenta ficar com o apartamento do Ugly Naked Guy/Feioso Nu (a identidade do actor que o representou só foi revelada há bem pouco tempo), acabando por se ver obrigado a despir-se também, para cativar o dono do apartamento. No encerramento do episódio, descobre acerca do romance entre a sua irmã e o seu melhor amigo e... não reage muito bem. 

 

               1The One With the Birth

 

É muito raro as pessoas falarem deste episódio e eu compreendo porquê: é da primeira temporada, altura em que a série ainda estava a procurar a sua identidade. No entanto, é o que considero mais engraçado, na globalidade. Carol, a ex-mulher de Ross, prepara-se para dar à luz o filho deles, numa altura em que já vivia com a sua companheira, Susan. O grupo vai todo para a maternidade dar apoio ao trio parental. Existem várias situações que continuam a fazer-me rir ainda hoje: Joey dando apoio a uma grávida solteira, Monica suspirando por um bebé seu e Chandler tentando consolá-la (sabermos hoje que eles, no fim, adotam gémeos juntos dá ainda mais graça à situação), o obstetra de Carol mais interessado em namoriscar com Rachel do que em ajudar a parturiente; Ross e Susan mais interessandos em implicar um com o outro do que em ajudar a parturiente e, é claro, quando Ross, Susan e Phoebe se trancam acidentalmente uma despensa (destaque para Their Bodies, que já referi antes). O episódio acaba de forma fofinha, com a apresentação de Ben.

 

6) Que episódio te fez chorar?

 

Não me fez chorar, mas partiu-me o coração: The One With the Morning After, em que Ross e Rachel acabam a relação.

 

 

7) Qual é o casal de que mais gostas?

 

O casal Monica e Chandler. Toda a gente sabe que a relação deles começou quase que por acidente e, se calhar, nem todos esperavam que resultasse a longo prazo. Consta que os próprios guionistas estavam incertos quando juntaram as personagens, foram desenvolvendo o romance recém-nascido com muito cuidado, a ver como este se traduzia no ecrã, se os atores conseguiam vendê-lo. 

 

Felizmente conseguiram. Não digo que Monica e Chandler fossem perfeitos um para o outro, mas tornaram-se perfeitos um para o outro. Tanto Monica como Chandler tinham alguns problemas de auto-estima devido à educação que tiveram. Monica tinha peso a mais enquanto criança e adolescente e os pais favoreciam descaradamente o irmão. Isto tornou-a insegura, demasiado perfeccionista e competitiva, obcecada por controlo. Os pais de Chandler tiveram um divórcio feio, não pouparam o filho aos detalhes mais sórdidos da separação. Isto tornou-o igualmente inseguro, sarcástico, recorrendo ao humor como mecanismo de defesa, com medo de compromissos. Tanto Chandler como Monica, em graus diferentes, tiveram de confrontar as suas próprias inseguranças, de se esforçar para que a sua relação resultasse. Eles, aliás, tornaram-se pessoas melhores, de uma maneira ou de outra, graças um ao outro - quando chegaram a um meio termo sobre quanto gastariam com o seu casamento, quando Monica ajudou Chandler a fazer as pazes com o seu pai, quando Chandler disse que gostava das neuroses de Monica pois era bom a apaziguá-las. E não se pode dizer que o romance não tenha passado por obstáculos, pois Chandler teve, a certa altura, de trabalhar noutra zona do país e, mais tarde, os dois descobriram que não podiam ter filhos biológicos. Tudo isto faz deles um casal realista e saudável, a que todos deviam aspirar - ao contrário do casal Ross e Rachel, como veremos adiante.

 

  

8) Uma frase para cada personagem.

 

Rachel: "No uterus, no opinion" (A vontade de eu tenho de dizer esta ao meu pai quando ele diz que eu tomo ibuprofenos a mais naquela altura do mês...)

 

Monica: "Fine, judge all you want to, but... [aponta para Ross] Married a lesbian; [aponta para Rachel] Left a man at the altar; [aponta para Phoebe] Fell in love with a gay ice dancer; [aponta para Joey] Threw a girl's wooden leg in the fire; [aponta para Chandler] Livin' in a box!"

 

Phoebe: "I have to go before I put your head through a wall" 

 

Chandler: "There are like thousands of women out there who are just waiting to screw me over"

 

Joey: "Va fa Napoli!"

 

Ross: "When were you... under me?"

 

9) Qual é a aparição mais engraçada da Janice?

 

 

Não é preciso dizer mais nada.

 

10) Qual é o teu momento Regina Philange preferido?

 

Nunca fui assim grande fã dessa piada recorrente. Vou escolher a altura, depois da memorável troca de nomes no segundo casamento de Ross, em que ela fingiu ser a médica dele e que a troca de nomes se devia a uma doença.

 

 

11) Quem tinha razão: Ross ou Rachel?

 

Peço desculpa, mas eu estou do lado de Rachel. Se eles estavam em pausa ou a dar um tempo ou qualquer seja a vossa tradução para "We were on a break!!" é uma questão burocrática, é irrelevante. Enrolar-se com outra pessoa após uma discussão não abona a favor do carácter de ninguém. Quem garantiria a Rachel que Ross não voltaria a fazer o mesmo numa futura discussão?

 

Devo até dizer que não sou fã de Ross e Rachel como casal. Ao contrário do que acontece com Monica e Chandler, a relação não é das mais saudáveis. Para começar, não gostei de algumas das coisas que Ross fez a Rachel. Do ponto de vista feminista, não posso ignorar que ele se sentiu ameaçado quando Rachel conseguiu o emprego dos seus sonhos, quer por o ter conseguido graças à ajuda de outro homem, quer por Rachel possuir agora um aspeto na sua vida que não incluía Ross. A isto junta-se, entre outras coisas, o episódio da lista dos defeitos, a maneira como a rebaixou quando ela perdeu Marcel, o macaco, a ocasião em que ele interrompeu uma conversa dela com um homem em quem ela estava interessado (insinuando, ainda por cima, que ela era uma prostituta, como se não bastasse!), quando os dois se casaram em Las Vegas mentiu-lhe sobre o processo de anulamento, intercetou recados de outros homens que ela conhecera, subornou o antigo patrão de Rachel a ver se a impedia de ir para Paris - estes últimos actos provam que ele tem uma faceta ciumenta, insegura e algo manipuladora. Não que isso não seja compreensível, tendo em conta a maneira como o primeiro casamento dele terminou, mas a série não chegou a mostrar que ele ultrapassara esses problemas antes de voltar a juntar o casal.

 

Não que Rachel fosse uma santinha, pelo contrário. Entre outras coisas, ela tratou mal Julie e Bonnie, enquanto estas namoravam com Ross; quando os dois pensaram em reconciliar-se, em vez de falar diretamente com Ross, achou melhor ideia escrever uma carta exigindo que Ross assumisse a responsabilidade por inteiro pela anterior separação (também acho que a culpa foi sobretudo de Ross pela traição, mas os problemas deles já vinham de trás); foi até Londres só para tentar impedir o casamento de Ross com Emily - conforme foi assinalado, uma decisão egoísta, mas que felizmente não foi levada até ao fim. Em todo o caso, ao contrário de Monica e Chandler, que no fim resolviam sempre os seus problemas como adultos, Ross e Rachel raramente o faziam - não admira que tenham demorado seis ou sete temporadas a reatar. E, tal como assinalei antes, nada dá a entender que esses problemas tenham sido resolvidos no fim - fica, aliás, um amargo de boca por a série ter acabado com Rachel abdicando de um emprego fabuloso para ficar com Ross. Eles acabam juntos, mas, a menos que eles, a certa altura, recorram a um terapeuta de casais, a relação não deverá durar muito.

 

 

Está feito. Como o costume, se depois quiserem responder a esta TAG, deixem o link com as respostas nos comentários.

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