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Álbum de Testamentos

Porque sou uma miúda com muitas maluqueiras e adoro escrever (e muito) sobre elas.

Digimon Adventure Tri - Kokuhaku (Confissão) #2

Segunda parte da análise a Kokuhaku (primeira parte aqui).

 

1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo do primeiro, segundo e terceiro filmes de Digimon Adventure Tri e, possivelmente, dos enredos de Adventure e 02. Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas - na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Apesar de as legendas do filme usarem os nomes japoneses das Crianças Escolhidas, eu vou usar as versões americanizadas dos nomes, visto que estou mais habituada.

 

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O último dos cinco episódios em que Kokuhaku foi dividido assemelha-se, nalguns aspetos a um epílogo. Há quem diga que esta parte podia ter sido emitida separadamente, mais ou menos a meio entre a exibição do terceiro e do quarto filmes, em jeito de episódio especial. Faria sentido, se mudassem um ou outro pozinho. Mas, se já agora ficámos todos arrasados com Kokuhaku, imaginem como ficaríamos se tivesse acabado no quarto episódio. Não, Kokuhaku não podia terminar assim. Não sobreviveríamos aos cinco meses até ao próximo filme.

 

Este episódio ocorre uma semana após o Reinício. Vemos os Escolhidos em depressão, como seria de esperar, tentando processar o que aconteceu. Pelas palavras de Maki, percebemos que o que se espera é que os Digimon sejam rapidamente esquecidos pela população e que os Escolhidos continuem as suas vidas, como se nada tivesse acontecido, como se nunca tivessem conhecido os Digimon. Que, em suma, cresçam.

 

Essa será também uma indireta para nós, a audiência? Nós que estamos aqui, vendo a continuação de algo que marcou a nossa infância?

 

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Izzy é o primeiro a revoltar-se contra essa ideia. Quando T.K. desabafa com ele por não ter conseguido evitar aquele desfecho, o amigo chega mesmo a dizer “Não interessa o que não conseguiste fazer, interessa o que vais fazer agora.” Os amigos, de início, recusam mas, no fim, concordam. Eles podiam ter optado por fazer o mesmo que os seus Digimon tinham sido obrigados a fazer: viver como se nada tivesse acontecido, como se Adventure e 02 tivessem sido apenas sonhos. Mas não o fizeram. Eles escolheram honrar tudo aquilo por que passaram ao longo dos anos com os seus Digimon e voltar ao Mundo Digital mais uma vez.

 

Isto é significativo. Pode-se argumentar que, desde o primeiro de agosto de 1999, os miúdos apenas têm reagido ao que lhes acontece. Nunca escolheram eles mesmo irem ao Mundo Digimon pela primeira vez; foi uma outra entidade (a Homeostase?) que, quase literalmente, pegou nos miúdos e os atirou para o Mundo Digital. Noutras ocasiões (incluindo os miúdos de 02), eles puderam escolher se regressavam ou não, mas era sempre sabendo que o Mundo Digimon precisava deles. Até àquele momento, Tri tinha seguido essa regra: coisas acontecem, os Escolhidos intervém (ou recusam-se a fazê-lo, como Tai e, sobretudo, Joe).


Esta será a primeira vez que os Escolhidos regressam sem serem solicitados (a menos que considerem uma solicitação o som de um apito que Tai ouve, no momento em que decide regressar. Mais sobre isso adiante.). Tanto quanto sabem, o Mundo Digimon não precisa deles, não tem nada para eles – os seus Digimon, provavelmente, nem sequer se lembram deles. A partir de agora, eles não são heróis porque a Homeostase ou outra entidade semelhante os Escolheram. Eles são heróis porque eles Escolheram sê-lo.

 

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O que nos remete para os primeiros teasers relacionados com Tri. Neste vídeo, aparece Tai perante Agumon dizendo: “Finalmente reencontrei-te. Este mundo escolheu uma realidade e um futuro que não deveria ter escolhido. E é por essa razão que eu aqui estou.” Conforme apontaram aqui, depois de Kokuhaku, estas palavras fazem muito mais sentido. Além de que o primeiro poster de Tri parece ter como cenário mais ou menos o mesmo local onde os Escolhidos reencontram os seus Digimon, no fim do terceiro filme. Talvez tenha sido essa a intenção dos digi-guionistas desde o início: mostrar que, mesmo com as suas crises existenciais, mesmo que tenham uma hipótese se se afastarem de tudo aquilo e seguirem em frente, as eternas Crianças Escolhidas nunca virarão costas ao Mundo Digimon.

 

Não terá sido por acaso que, no momento da decisão, toca Butterfly pela primeira vez em todo o filme (tirando, obviamente, os genéricos dos episódios). Butterfly é a canção que tocava nos genéricos da primeira temporada de Digimon, é a música que associamos ao início da aventura. Até a própria letra se adequa à situação: os Escolhidos vão tentar colocar de lado os seus próprios traumas e inseguranças, pegar em asas pouco firmes e voar aos encontro dos seres que amam.

 

Mas estou a adiantar-me, pois existem ainda assuntos por resolver antes de eles regressarem. Falo de Meiko. Tendo ela uma experiência diferente como Escolhida, é natural que as suas atitudes difiram das dos amigos. Meiko revela a T.K. que sabia que Meicomoon estava Infetada desde o momento em que a encontrou. Isto explica os traços de relacionamento mãe-galinha e criança insegura que notei em Ketsui. Ao perceber que existia alguma coisa de errado com Meicoomon, era natural que Meiko se tenha tornado demasiado protetora da sua companheira Digimon. Da mesma forma, também era natural que Meicoomon desenvolvesse a tendência para vaguear, embora não soubesse tomar conta de si mesma.

 

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Tudo poderia ter sido evitado caso Meiko tivesse sido sincera para com os outros Escolhidos desde o momento em que Meicoomon matou Leomon. E, no entanto, da mesma maneira como se compreendeu a omissão da infeção de Patamon por parte de T.K. e a omissão do Reinício por parte dos Digimon, também se compreende esta omissão por parte de Meiko. Não me orgulho disso mas eu, provavelmente, teria feito o mesmo se estivesse no lugar dela.

 

Ando, aliás, a identificar-me cada vez mais com ela. Meiko é a miúda nova, acabada de se mudar para a cidade, sem grande aptidão para socializar. Tal como referi anteriormente, os outros Escolhidos foram impecáveis com ela, desde o primeiro momento. Como alguém que não faz amigos facilmente, posso testemunhar o quão tocantes são gestos como Mimi defendendo-a das perguntas de Izzy, Sora oferecendo-lhe literalmente um ombro onde chorar, T.K escolhendo-a para confidenciar acerca de Patamon. Com que cara ia Meiko dizer que a sua inclusão no grupo, todos os gestos de carinho a ela dirigidos e a Meicoomon, tinham sido precisamente aquilo que, passe a expressão, os lixou a todos?

 

Desse modo, é compreensível que Meiko não se sinta no direito de ir ao Mundo Digital e voltar a ver Meicoomon. Não só por se sentir responsável por tudo o que aconteceu até ao momento em Tri, mas também porque sente que, ao menos agora, livrou-se do fardo de ter de manter Meicoomon sobre controlo. O que ao mesmo tempo a alivia… e lhe aumenta ainda mais o sentimento de culpa.

 

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Se houve coisa que aprendemos com o arco narrativo de Joe em Ketsui é que, independentemente dos nossos problemas pessoais, das nossas neuroses, não viramos costas aos nossos Digimon. É essencialmente isso que T.K. diz a Meiko antes de partir, bem como o facto de ela continuar a ser bem-vinda no grupo (a meio da conversa com Meiko, T.K. ouve o mesmo som de um apito que Tai ouvira antes). E, de facto, Meiko acaba por mudar de ideias mas, quando procura ir ter com os amigos, estes já partiram.

 

É possível que Meiko, a certa altura, vá ter com os outros Escolhidos ao Mundo Digital. Por outro lado, talvez ela opere como Escolhida a partir do Mundo Real, sozinha ou em colaboração com Daigo, Maki e/ou o seu pai.

 

Gostava de comentar o facto de os oito terem partido para o Mundo Digital envergando os respetivos uniformes escolares. Não sou de todo fã da ideia. Uma das coisas que mais gostava em Adventure eram os looks diferentes de cada um dos miúdos, a forma como estes refletiam as personalidades e os Cartões de cada um (talvez um dia escreva sobre isso). Há uns meses, aliás, um post no Tumblr fez-me pensar na roupa que usaria no Mundo Digital, se pudesse escolher (é outro possível tema para um texto: o que levaria comigo se visitasse o Mundo Digimon). Camisas brancas (que se sujam facilmente), gravatas ou lacinhos, saias plissadas ou calças de fazenda seriam as minhas últimas escolhas (exceptuando vestidos de gala e saltos agulha). Custa-me a acreditar que os miúdos tenham escolhido essas roupas, sobretudo quando eles estavam já de férias. O motivo mais provável é, pura e simplesmente, o fetiche que a animação japonesa tem por uniformes escolares.

 

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Pouco depois de regressarmos ao Mundo Digital, dá para ver que algo não bate certo. Tanto Izzy como Kari percebem-no. Nós, a audiência, vemos ligeiras corrupções na paisagem. Cedo, reencontramos Alphamon, desta feita lutando contra Jesmon (que, segundo consta, é a forma digievoluída de Hackmon, o Digimon que tem aparecido amiudadas vezes ao longo de Tri, seguindo os acontecimentos à distância. Será o mesmo?). Conforme os próprios Escolhidos assinalam, com o Reinício aquilo não deveria ser possível. Das duas uma: ou eles os dois morreram, renasceram e algo os fez passar do nível Bebé para Extremo em pouco mais de uma semana; ou o Reinício não os afetou, por um motivo ou por outro. Pessoalmente, aposto mais na segunda hipótese, tendo em conta algo de que falaremos adiante.

 

O som de um apito desvia-lhes as atenções. Acabam por encontrar o Tokomon brincando com o apito que Kari deixara a Gatomon, no fim de Adventure. Pergunto-me se é o mesmo som que T.K. ouviu durante a conversa com Meiko. Consta que o apito de Kari já desempenhou um papel importante anteriormente, na parte de Digimon, o filme, que serve de prequela a Adventure. É possível que, como sugerem aqui, que este som tenha cruzado os mundos e chegado aos ouvidos de, pelo menos, T.K.

 

De qualquer forma, enquanto Tokomon brinca com o apito, os outros Digimon juntam-se a ele, todos na forma de Bebé, todos sem reconhecerem nenhum dos Escolhidos.

 

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Mesmo tendo em conta tudo o que escrevi antes, sobre os nossos heróis estarem a escolher o seu próprio destino, em vez de ser o oposto, a amnésia dos Digimon não deixa de doer. E muito. Atrevo-me a dizer que a cena da morte deles, aquando do Reinício, doeu menos que a cena do reencontro. O contraste entre a inocência dos Digimon Bebés e a dor dos Escolhidos – Sora, por exemplo, mal se conseguia controlar. É Izzy quem encontra as palavras certas. Baseando-se nas últimas palavras de Tentomon, o jovem pede aos Digimon Bebés que lhes sirvam de guias.

 

Deixando as emoções um pouco de lado, tenho uma infinidade de perguntas sobre a situação atual, sobre as consequências da amnésia dos Digimon. No início de Adventure, os Digimon reconhecem os respetivos companheiros pelo nome próprio. É certo que, supostamente, os Digimon já teriam conhecido os seus companheiros humanos uns anos antes dos eventos de Adventure. No entanto, Gatomon foi separada dos outros ainda antes de nascer e, mesmo assim, sempre soube que lhe faltava qualquer coisa, que estava à espera de alguém. Nada disso acontece desta vez, aparentemente. Não existiu nenhum indício de ligação especial dos Digimon para com os seus companheiros humanos. Não sei se a digievolução será, sequer, possível nestas circunstâncias.

 

Sabemos, no entanto, que no próximo filme estrear-se-á o Hououmon/Phoenixmon (acerca do qual falei há relativamente pouco tempo, noutras circunstâncias), logo, de alguma forma, a digievolução será possível, pelo menos para Yokomon. E a verdade é que só vimos os Escolhidos com os seus Digimon amnésicos durante um minuto ou dois. Pode ser que o instinto protetor que os caracteriza se manifeste, mais cedo ou mais tarde. Uma trama possível para próximo filme poderia envolver os Escolhidos colocando-se deliberadamente em perigo, numa tentativa de despoletarem esse instinto – estilo o que Tai fez no segundo arco de Adventure, quando quis forçar Greymon a desbloquear o nível Perfeito/Super Campeão. Por outro lado, todos se recordam que o truquezinho de Tai falhou epicamente – Sora chegou a referi-lo na primeira metade de Kokuhaku.  Duvido que os Escolhidos tentem repetir a gracinha, a menos que estejam desesperados.

 

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Também é possível que os Digimon recuperem as memórias, sobretudo se se vier a descobrir que o Reinício não funcionou como se esperava. Do ponto de vista narrativo, fazerem isso logo no próximo filme corre o risco de parecer demasiado fácil, um deus ex-machina. Não que me pareça muito mais plausível que um Yokomon amnésico se afeiçoe a Sora o suficiente para atingir vários estágios de digievolução até chegar a Phoenixmon em apenas um filme (e daí não sei… em Adventure, Byomon começou a adorar Sora como um cachorrinho logo nos primeiros episódios).

 

Voltaremos a este assunto mais à frente. Antes, temos de falar sobre as últimas revelações de Kokuhaku. Nos instantes finais, descobrimos que Meicoomon se lembra de Meiko (pelo menos sabe o nome dela); que o Imperador Digimon é, na verdade, Gennai sob disfarce (whoa!); que Maki consegue vir ao Mundo Digimon (como? Só as quatro bestas sagradas saberão – se não tiverem sido afetadas pelo Reinício) e, aparentemente está a trabalhar com Gennai.

 

Eu, sinceramente, não sei muito bem o que pensar acerca de Maki. Em diversas alturas, ela podia ter evitado certos eventos que tiveram como consequência o Reinício – nomeadamente quando optou por não dizer a verdade sobre Meicoomon aos Escolhidos – mas não o fez. Ao contrário do que se poderá dizer acerca de outras personagens em Tri, acho que Maki sabia perfeitamente o que estava a fazer, quais seriam as consequências das suas ações. Se ainda é prematuro chamar-lhe vilã, eu diria que podemos definitivamente considerá-la uma antagonista: alguém que tem agido contra os interesses dos heróis. Muitos fãs dizem que Maki será, provavelmente, a típica vilã incompreendida. É possível, mesmo provável. O meu problema é que não consigo perceber qual é o objetivo dela, porque é que ela tem tomado as decisões que tomou até agora. Do meu ponto de vista, as motivações de Maki são a maior incógnita de Tri até ao momento. Assim, não consigo simpatizar com ela. Não quando as suas ações causaram tão sofrimento a personagens que conheço e adoro desde os meus onze/doze anos.

 

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De uma coisa podemos ter a certeza: Maki está do lado de Gennai, que parece ter passado para o lado negro da Força (pergunto-me se a bolinha preta que Piedmon lhe enfiou nas costas, nos flashbacks mostrados no último arco de Adventure, terá alguma coisa a ver com isso). Isto faz-me suspeitar que a Homeostase esteja, também, corrompida – daí ter recorrido ao Reinício e ele não ter corrido como o previsto. Se isso se confirmar, se a própria entidade que mantém o equilíbrio do Mundo Digimon está comprometida, os Escolhidos tem um imbróglio daqueles entre mãos.

 

No meio disto tudo, também não sabemos que papel tem o Alphamon nesta história toda. Antes, pensava que o tal Huckmon estava a trabalhar com ele e que os dois, sabendo que Meicoomon está na origem disto tudo, andavam atrás dela (no Digimon Wikia diz que o Huckmon é muito sensível à estabilidade do Mundo Digital). A luta entre Jesmon e Alphamon, no fim de Kokuhaku, contradiz essa teoria. Assim, faz mais sentido que ele esteja a trabalhar para Gennai, como explicam aqui.

 

E, claro, os 02 continuam desaparecidos em combate. A minha suspeita é que Maki tem-nos aprisionados algures – daí possuir o D-3 e o D-Terminal de Ken. Às tantas esse seria o destino mais desejável. Num cenário alternativo, eles estariam no Mundo Digimon aquando do Reinício… o que não me parece nada agradável. Outra questão que se coloca diz respeito ao efeito que o Reinício terá tido nos outros Escolhidos espalhados pelo mundo, que conhecemos em 02.

 

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Todas estas perguntas que continuam por responder deixaram vários fãs insatisfeitos com Kokuhaku. Ainda que compreenda esse ponto de vista e me tenha fartado de me queixar do mesmo na análise a Ketsui, desta feita não acho que isso seja tão grave. Ao contrário dos filmes anteriores, em Kokuhaku aconteceram coisas, a história avançou – finalmente. Além disso, perguntas por responder são a definição de tensão numa história, aquilo que nos faz virar páginas num livro, ficar vidrado no ecrã durante um filme ou o episódio de uma série. Se todas as perguntas estivessem respondidas nesta altura do campeonato, em que Tri vai a meio, qual era o interesse de vermos os três próximos filmes?

 

Acho, aliás, que Kokuhaku é o melhor filme de Tri até agora. Como referi no parágrafo anterior, tivemos avanços significativos na narrativa. Mas, mais do que outra coisa, Kokuhaku apostou naquilo que sempre foi o ponto forte de Digimon: as suas personagens. T.K. e Izzy destacaram-se, sim, mas, ao contrário do que aconteceu em Ketsui, todos os Escolhidos tiveram o seu momento (tirando Kari, que continua a ser pouco mais que uma espécie de mensageira divina). Com as voltas que o enredo deu, era inevitável – isto não é uma menorização, pelo contrário. Estão a ver as coisas boas que acontecem quando não perdemos tempo com visitas a termas e festivais culturais, digi-guionistas?

 

Kokuhaku, aliás, apostou muito no drama, ao ponto de deixar-me emocionalmente arrasada durante pelo menos três dias – não me lembro de alguma vez ter ficado assim por causa de um trabalho ficcional. Não cheguei a chorar porque não consigo, vai além disso. Ainda hoje me custa rever certas cenas. O facto de eu conhecer estes Escolhidos e os seus Digimon desde miúda predispôs-me para estas reações, sim. No entanto, só prova que que os digi-guionistas fizeram as coisas bem desde o início: criaram um elenco de jovens protagonistas bem construídos, com qualidades e defeitos, com quem sempre nos identificámos. Estes tornaram-se reais para nós, velhos amigos de infância. O único outro elenco em que algo semelhante aconteceu comigo foi o de Harry Potter – o que é significativo, tendo em conta que, desde miúda, me farto de consumir ficção. Os digi-guionistas merecem louvores por isso.

 

Por outro lado, o maior defeito de Tri tem sido, até agora, o ritmo da história – como referi no início da análise, o tom mudou demasiado de repente entre Ketsui e Kokuhaku. Se já não tinha gostado assim muito do segundo filme quando este saiu, a comparação com o terceiro fá-lo parecer ainda pior. Quero acreditar que os próprios guionistas deram por isso, daí terem prolongado o intervalo de lançamento entre Ketsui e Kokuhaku.

 

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O próximo filme de Tri sai no dia 25 de fevereiro do próximo ano. Eu estava com esperanças de que saísse um mês antes, mais coisa menos coisa, mas desta vez não me importo com o longo intervalo. A espera por Kokuhaku acabou por não me custar assim muito – o Euro 2016 e Pokémon Go ajudaram. Além disso, conforme comentou comigo o António da página Odaiba Memorial Day em Portugal (mais sobre isso já a seguir), quanto menores os intervalos entre os lançamentos dos filmes, mais depressa Tri acabará. Como não quero que acabe demasiado depressa, tão cedo não me torno a queixar – sobretudo se isso permitir aos produtores elevarem a qualidade dos filmes, como aconteceu do segundo para o terceiro. Por outro lado, se o intervalo se mantiver, talvez o quinto filme saia perto do Odaiba Memorial Day do próximo ano.

 

O quarto filme chamar-se-á Soshitsu, que significa Perda – ou seja, não ficaremos por aqui em termos de drama, ao que parece. No poster aparece Sora com Phoenixmon, bem como Tai e Matt, o que tem levado muita gente a pensar que vamos ter um triângulo amoroso. Eu, muito sinceramente, espero que não pois, como já disse várias vezes cá no blogue, não quero que Sora seja reduzida a interesse amoroso. Além de que existem possíveis linhas narrativas envolvendo a jovem bem mais interessantes.

 

Conforme referi antes, Kokuhaku mostra Sora abraçando por completo o seu estatuto de mamã do grupo, tomando conta de toda a gente. O Reinício, no entanto, tirou-lhe a única criatura que tomava conta dela e, como se pode calcular do seu comportamento quando reencontrou Yokomon, Sora não está bem. Conforme explica este post no Tumblr, no pós-Reinício, antes da ida para o Mundo Digimon, vemos Sora na cama, fitando o seu telemóvel com um olhar vazio – o telemóvel através do qual falava com os amigos todos, certificando-se de que estavam bem. Não sendo ela capaz de tomar conta de si mesma ou, se calhar, de aceitar a ajuda de outros, como poderá ela tomar conta de toda a gente? Não me admiraria se o seu arco em Soshitsu se baseasse nessa ideia: Sora incapaz de cumprir o papel que impôs a si mesma de mamã do grupo e odiando-se por isso.

 

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De qualquer forma, estou muito feliz por, aparentemente, a minha personagem preferida ir receber tempo de antena de que precisava há muito. Digi-guionistas, por favor, não estraguem isto.

 

Por outro lado, o facto de, agora, estarmos no Mundo Digimon promete. Gosto muito de ver Digimon no Mundo Real, os jovens conjugando as suas vidas normais com os seus deveres como Escolhidos.  No entanto, é quando estes estão confinados ao Mundo Digimon, à companhia uns dos outros, sem poderem fugir às adversidades, que as suas personalidades se revelam, que surgem os conflitos, quer individualmente, quer uns com os outros. Estou curiosa relativamente à dinâmica do grupo agora, que passaram seis anos desde a última vez que estiveram juntos no Mundo Digimon durante mais do que algumas horas. Por exemplo, tenho quase a certeza que Tai deixará de ser o líder – Matt e Izzy têm mostrado muito mais espírito de iniciativa. Não me admirava, aliás, se fosse esse o motivo pelo qual Tai e Matt aparecem no poster de Soshitsu: os dois rapazes entrando em conflito a propósito da liderança do grupo. De qualquer forma, a segunda metade de Tri promete.

 

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Eu sei que isto já vai mais comprido do que devia mas, antes de terminar, queria escrever sobre as celebrações do Odaiba Memorial Day deste ano, que incluíram um encontro de fãs portugueses no Parque das Nações. Eu estive lá, tal como desejava, mas não pude aproveitar como queria. Passei o dia quase todo preocupada com assuntos pessoais, perdi-me à procura do ponto de encontro (o stress não ajudou) e tive de sair mais cedo.

 

Tirando isso, gostei imenso da experiência. Houve, entre outras coisas, cantoria – incluindo este momento hilariante – mostra de dispositivos digitais e outros artefactos (como poderão ver, cheguei a usar o Cartão da Coragem para a foto de família – tenho de arranjar um, do Amor, para mim), batalhas entre digivices e o quiz. Cheguei a participar neste último mas, como só conhecia o universo de Adventure, o meu desempenho não foi brilhante – mas diverti-me à mesma!

 

Adorei conhecer outros fãs de Digimon, sobretudo o António (que organizou aquilo tudo) e o Danny d’A minha vida em bits. Gosto sempre de conhecer pessoas com as mesmas maluqueiras do que eu – apesar de a minha timidez ser quase incapacitante em circunstâncias como estas. Cheguei a imaginar o que aconteceria se, de repente, abrisse ali mesmo um portal para o Mundo Digimon e nos tornássemos todos Escolhidos, como funcionaríamos como grupo. O mais certo era eu colar-me ao António e ao Danny, aqueles que eu conhecia “melhor” (das emissões de rádio do primeiro, do canal de YouTube do segundo) e que, provavelmente, saberiam mais sobre Digimon do grupo (embora pudesse estar enganada). Foi uma boa experiência. Ainda é cedo para se falar do Odaiba Memorial Day do próximo ano mas, se o encontro se repetir e eu puder ir, vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para estar lá a hora e ficar até ao fim, sem distrações.

 

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Tudo isto será, provavelmente, uma coincidência, mas ultimamente tem sido difícil “crescer”. Várias franquias que marcaram a minha infância e adolescência escolheram mais ou menos a mesma altura para fazerem uma espécie de renascimento. Pokémon voltou a estar na moda após Pokémon Go (embora a febre já tenha arrefecido). Saiu um novo “livro” do Harry Potter e temos Digimon Adventure Tri há quase um ano. (Além disso, começou a ser emitida em outubro uma nova série de Digimon: Digimon Universe Appmon. Ainda não vi porque, até agora, só vi Adventure e as suas sequelas. Se resolver explorar para além desse universo, começarei por Tamers). Tem sido, aliás, esse o principal tema de Tri: o “coming of age”, o conflito entre o passado e o futuro, entre infância e idade adulta.

 

Na minha opinião, o facto de continuarmos a regressar, outra e outra vez, a estes mundos que marcaram a nossa infância, não significa que sejamos todos criancinhas no corpo de adultos (pelo menos é o que gosto de pensar). Em vez disso, é mérito dessas franquias por terem sido capazes de nos manterem interessados ao longo de todos estes anos, por terem crescido connosco, evoluído connosco. Tenho a certeza que, no fim de Tri, os protagonistas descobrirão que, mesmo que cresçam, comecem a trabalhar, a constituir família, nunca deixarão de ser Crianças Escolhidas. Da mesma maneira, nós nunca deixaremos de ser Crianças Escolhidas, mestres Pokémon, alunos de Hogwarts. Ainda que isso só aconteça em livros, videojogos, em sites de transmissão de anime, em filmes ou na nossa imaginação. Mas, lá está, isso não significa que não seja real.

 

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Se quiserem mais conteúdo relacionado com Tri, sigam a página de Facebook aqui do estaminé, onde tenho respondido à tag 30 Days of Tri.

Digimon Adventure Tri - Kokuhaku (Confissão) #1

1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo do primeiro, segundo e terceiro filmes de Digimon Adventure Tri e, possivelmente, dos enredos de Adventure e 02. Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas - na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Apesar de as legendas do filme usarem os nomes japoneses das Crianças Escolhidas, eu vou usar as versões americanizadas dos nomes, visto que estou mais habituada.

 

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Uma das maiores críticas que teci aos dois primeiros filmes de Digimon Adventure Tri prende-se com o facto de pouco ter acontecido de relevante para o enredo, que avançasse a história. No primeiro filme, isso não foi tão grave, visto que o principal objetivo do mesmo era, como escrevi na altura, colocar as personagens todas no lugar certo, lançar as premissas para esta série de filmes. No segundo filme, o engonhanço agravou-se: praticamente só nos últimos vinte minutos é que a história avançou e, pelo meio, perdeu-se demasiado tempo com coisas fúteis. Já sabíamos que o terceiro filme, Kokuhaku (Confissão), seria diferente – quanto mais não fosse porque, depois da maneira como o segundo filme, Ketsui, terminou, não dava para continuar a encher chouriços.

 

Temíamos há muito tempo que Patamon fosse sacrificado neste terceiro filme. Ainda antes do lançamento de Ketsui, tinha sido divulgado um teaser mostrando Patamon despedindo-se e o seu parceiro, T.K., reagindo com desespero. O facto de Patamon aparecer no poster de Kokuhaku na sua forma Infantil agravaram os nossos receios – para se agravarem ainda mais quando as primeiras sinopses de Kokuhaku diziam que Patamon desenvolveria sintomas da Infeção que enlouquecera Meicoomon. Todos sabíamos que o filme mexeria com as nossas emoções e tentámos preparam-nos para isso – vários fãs viram o filme com uma caixa de lenços de papel ao lado.

 

No entanto, duvido que alguém estivesse preparado para isto, para o nível a que Kokuhaku chegou. Falo por mim: não me lembro de alguma vez ter ficado tão arrasada com um trabalho de ficção.

 

O que aconteceu em Kokuhaku de assim tão dramático? Segue a versão condensada, a.k.a, a habitual sinopse baseada na Wikipédia:

 

Kokuhaku começa um dia ou dois após o final de Ketsui. Meiko lida com o trauma da morte de Leomon às mãos de Meicoomon e da fuga desta última. Izzy, por sua vez, vai ficando cada vez mais frustrado enquanto tenta descobrir como se infetou Meicoomon. Entretanto, as distorções, que se creem provocadas por Meicoomon, começam a afetar as ligações aéreas. Perante as perguntas de Matt, Maki Himekawa e Daigo Nishijima revelam pormenores das investigações da organização governamental, mas ocultam-lhe que Meicoomon é a origem das infeções e que Davis, Yolei, Cody e Ken se encontram desaparecidos. Mais tarde, T.K. descobre que Patamon mostra sintomas de infeção. No entanto, esconde-o dos amigos e decide retirar Patamon da segurança do escritório de Izzy, trazendo-o para casa. Tal faz com que os outros Escolhidos sigam o exemplo. Patamon acaba por perceber o que lhe está a acontecer e pede a T.K. que o mate caso se torne violento.

 

Certa noite, durante um apagão, uma mensagem surge em todos os dispositivos eletrónicos: “Os Digimon serão libertados de novo”, o que causa agitações na população. No dia seguinte, enquanto Patamon conta aos outros Digimon que está infetado, Kari é possuída pela Homeostase. Através da boca da jovem, a entidade revela que os Digimon Infetados poderão destruir o Mundo Digital, bem como os outros mundos paralelos a este, e acabar com a rede eletrónica do Mundo Real. A solução passa por “um grande sacrifício”. Maki escuta a mensagem e informa os Digimon que, da próxima vez que Meicoomon aparecer, a Homeostase, como último recurso para salvar os diferentes mundos, poderá provocar um Reinício, que destruiria o Mundo Digital, reconstruindo-o no estado pré-infeção. Gatomon conclui que este Reinício fará com que ela e todos os outros companheiros Digimon morram e renasçam sem recordações das suas vidas até ao momento – ou seja, esquecer-se-iam dos seus parceiros humanos. Com este conhecimento, os oito Digimon decidem guardar segredo sobre o Reinício e preparar-se para o pior, passando tempo de qualidade com os seus companheiros humanos, em jeito de despedida. Agumon, no entanto, acaba por contar a Tai acerca do Reinício.

 

Izzy acaba por descobrir que as distorções resultam da substituição do habitual código binário por um código diferente. Depois de Tentomon o informar acerca do Reinício, o jovem pensa num plano. Entretanto, Meicoomon regressa e os Digimon lutam com ela, numa tentativa de a afastar do Mundo Real. Contra a vontade de T.K., Patamon digievolui para Angemon e junta-se à luta. No entanto, a Infeção volta a manifestar-se, não só em Angemon, mas também nos outros Digimon. Nesse momento começa a contagem decrescente para o reinício, mas Izzy põe em prática o seu plano alternativo: um campo de dados em forma de cubo para curar as infeções e preservar as memórias dos Digimon. Numa altura em que Tentomon é o único não afetado pela Infeção, ele digievolui para HerculesKabuterimon e faz uma tentativa para salvar os amigos Digimon, Meicoomon incluída. Em vão.

 

Uma semana mais tarde, numa altura em que os Escolhidos decidem regressar ao Mundo Digital para se encontrarem de novo com os seus Digimon, Meiko confessa a T.K. que soube, desde o momento em que a encontrou para primeira vez, que Meicoomon estava infetada. Consumida pela culpa, ela acha que não tem o direito de ir ter com Meicoomon. Os oito outros Escolhidos, por sua vez, regressam ao Mundo Digital, invocando os poderes dos seus Cartões. Aí, encontram Alphamon combatendo outro Digimon de nível Extremo, Jesmon. Também encontram os seus companheiros Digimon, que não os reconhecem, decidindo começar do zero com eles. Por sua vez, longe da vista dos Escolhidos, Maki aparece no Mundo Digital, confrontando o Imperador Digimon – que, na verdade, é Gennai sob disfarce. Também sem que as outras presonagens o vejam, aparece Meicoomon, que, aparentemente, ainda se recorda da sua companheira humana, Meiko.

 

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Em Ketsui, tínhamos tido uma invasão das meninas ao balneário masculino numas termas, Meiko e Mimi vestindo-se de meninas de claque num festival cultural e os Digimon participando num concurso de disfarces, tudo com uma dose saudável de parvoíce à mistura. Em Kokuhaku temos uma das personagens com depressão e stress pós-traumático, ameaças de um Apocalipse digital e os oito Digimon com os dias contados. Em suma, a tensão aumentou exponencialmente de um filme para o outro (o que, na cronologia de Tri, corresponde a quatro ou cinco dias, e estou a arredondar por cima). Claro que, ao terceiro de seis filmes, era preciso que acontecesse algo mais. A minha crítica não se dirige a Kokuhaku, dirige-se mais a Ketsui. A comparação do terceiro filme com o segundo piora a perceção deste último, que já tinha deixado muito a desejar. Fica claro que Ketsui devia ter cortado nos fillers, preocupando-se antes em avançar a história, de modo a que os eventos de Kokuhaku parecessem menos súbitos e mais orgânicos.

 

Até porque muitos dos conflitos que dominaram os dois primeiros filmes acabaram por ficar sem conclusão satisfatória. Em Kokuhaku, não há uma única referência aos problemas académicos de Joe. As dúvidas existenciais de Tai são colocadas em banho-maria com duas linhas de diálogo de Matt – tendo em conta o que acontece no resto de Kokuhaku, a questão não deverá voltar a ser levantada tão cedo. A verdade é que, em Kokuhaku, as coisas escalam a um ponto em que os problemas académicos de Joe e os desentendimentos de Mimi com as colegas por causa do festival cultural parecem triviais, na comparação.

 

Uma coisa que me agradou em Kokuhaku foi o facto de, finalmente, terem abordado o desaparecimento dos miúdos de 02. Depois de Saikai e Ketsui, um mero reconhecimento da existência deles sabe a vitória. Não que tenhamos descoberto muito. Vemos, no início do filme, T.K. e Kari batendo à porta de Ken, tentando telefonar aos outros, sem conseguir falar com qualquer um deles (incluindo os pais de Ken, o que é ainda mais estranho).

 

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Mais tarde, Matt vai ter com Daigo e Maki, a perguntar pelos Escolhidos mais novos. Estes dizem-lhe que os têm debaixo de olho, protegidos. No entanto, depois de Matt sair, o diálogo entre Maki e Daigo confirma que sim, os miúdos de 02 estão desaparecidos, a organização governamental sabe disso e… não parece estar a fazer nada para resolver a situação. Eu sabia já que, nesta altura, não haveria maneira de justificar o destino dos Escolhidos mais novos sem incoerências. Continuo a achar que os veteranos já deviam ter dado pelo desaparecimento dos caloiros, por todos os motivos que listei em análises anteriores. Além de que a organização governamental deve estar a fazer um trabalho de mestre para ocultar o desaparecimento de quatro menores (e, aparentemente, as respetivas famílias) da Comunicação Social. Matt, de resto, aceita as explicações de Maki com demasiada facilidade (é certo que, pelo menos nesta fase, os Escolhidos não têm motivos para desconfiarem de Maki ou Daigo) e, muito mais tarde no filme, quando Maki aparece com o D-3 e o D-terminal de Ken, ninguém levanta sequer uma sobrancelha – mais uma vez, compreensível tendo em conta tudo com que os Escolhidos tiveram de lidar até àquele momento. Tanto quanto eles saibam, Maki pediu-lhos emprestados a Ken.

 

Não é apenas o desaparecimento dos miúdos de 02 que Maki esconde dos Escolhidos: também o facto de Meicoomon ser responsável por… bem, praticamente tudo o que aconteceu até agora em Tri. A desculpa que Maki dá é, essencialmente, “o Izzy vai descobrir mais cedo ou mais tarde”, embora também invoque a possibilidade de os outros Escolhidos se virarem contra Meiko, caso descubram a verdade. Quando Daigo se revolta contra o secretismo da colega, ela diz-lhe mesmo: “Certas coisas estão melhor mantidas em segredo”.

 

Não sei o que é que Maki entende por “melhor”, mas, neste filme, todos estes segredos acabam por voltar-se contra os Escolhidos, e de que maneira. Maki não é a única com coisas a esconder, como veremos adiante. No entanto, os motivos dela são os que levantam mais suspeitas depois dos momentos finais de Ketsui – para se transformarem em quase certezas nos instantes finais de Kokuhaku, quando fica claro de que lado ela está.

 

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Maki fica ainda pior na fotografia quando vemos o efeito que os eventos do final de Ketsui estão a ter nos Escolhidos. Meiko, coitada, tinha pouquíssima experiência nas lides dos Escolhidos e, de um momento para o outro, acontece-lhe um dos piores cenários possíveis. Como disse acima, não anda a reagir bem. No início de Kokuhaku, descobrimos, ainda, que o pai de Meiko trabalha com a organização (se não fizer oficialmente parte da mesma) a que Daigo e Maki pertencem. É evidente que ele deverá desempenhar um papel importante em Tri, a certa altura, mas neste filme ele limita-se a aparecer no início e não volta a aparecer até ser brevemente mencionado até perto do fim. Eu sei que, no Japão, pais e filhos costumam ter uma relação mais formal que no Ocidente, mas a maneira distante como ele trata Meiko causou-me impressão – quando ele sabe perfeitamente que a filha não está bem, até Daigo lhe faz ver isso. Mimi e, sobretudo, Sora acabam por dar mais apoio a Meiko do que os próprios pais, o que é um bocadinho triste.

 

No extremo oposto, Izzy procura febrilmente uma explicação para a infeção de Meicoomon e a pressão começa a levar a melhor sobre ele. Quem lhe dá apoio, surpreendentemente, é Joe. Aparentemente, o desbloqueio de novas digievoluções é tão inebriante para os próprios Escolhidos como é para mim… ou então, tal como escrevi antes, talvez o facto de ter sido bem-sucedido em algo tenha sido suficiente para fazê-lo sair do estado semi-depressivo em que passou os dois primeiros filmes de Tri.

 

Ou então, teve pura e simplesmente uma hora bem passada com a sua misteriosa namorada.

 

O que é certo é que Joe retoma um pouco o seu papel de papá do grupo, com o seu apoio bem-humorado a Izzy (a cara deste último, quando Joe lhe diz “assim não arranjas namorada” é impagável), cuja característica paixão pelo saber começa a tornar-se um fardo.

 

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É um tema que se começa a notar em Tri: o facto de os Escolhidos estarem a lidar com o lado negro das virtudes que lhes foram atribuídas, o reverso… bem, dos Cartões. Tai, em Saikai, sentiu a sua coragem falhar (e ainda não parece totalmente recuperado disso). Mimi percebeu que o seu julgamento nem sempre é o mais adequado. Joe, que sempre cumpriu o seu dever e honrou os seus compromissos, deixa de conseguir fazê-lo. E agora, que a mente curiosa de Izzy é a maior arma dos Escolhidos contra a ameaça das distorções e das infeções, descobrir coisas deixa de ser um prazer, é um caso de vida ou de morte. A ignorância, os enigmas, os segredos por desvendar, não são apenas desafios – são ameaças.

 

Esta última parte, de resto, tem sido um dos temas recorrentes em Tri, ganhando maior destaque em Kokuhaku. Meiko é um bom exemplo disso e T.K. acaba por seguir pelo mesmo caminho. Como já sabíamos que aconteceria, Patamon começa a desenvolver sintomas de infeção. Chega a atacar T.K. no escritório de Izzy (onde os Digimon estavam retidos, de modo a evitar mais infeções), enquanto este último passa pelas brasas. Joe, que também estava no escritório, a tomar conta de Izzy, não dá pelo ataque. Quando T.K. lhe pergunta, casualmente, o que aconteceria se mais algum dos Digimon se infetasse, o Escolhido mais velho responde que, provavelmente, teriam de eutanasiá-lo. Tendo isso em conta, T.K. convence um relutante Joe a deixá-lo levar Patamon para casa. Aqui, temos uma cena de partir o coração (uma de muitas neste filme) em que Patamon percebe o que lhe está a acontecer e pede a T.K. que o mate, case a Infeção fique mais grave.

 

É particularmente cruel que o primeiro a mostrar sinais de Infeção tenha sido, logo, o mais fofo do grupo, aquele que já antes se tinha sacrificado, aquele que, por norma, surge à última hora para salvar toda a gente. Desta feita, a esperança é, quase literalmente, a primeira a morrer.

 

 

A decisão de T.K. de trazer Patamon consigo abre um precedente para os restantes Digimon – agora todos querem passar as noites com os seus companheiros humanos. O que poderiam os Escolhidos fazer? T.K. continua a esconder o que se passa com Patamon, só dizendo a verdade a Meiko – por sinal, outra que também tem coisas a esconder.

 

Como bom irmão mais velho que é, Matt percebe logo que se passa algo com T.K. O irmão mais novo continua a fechar-se em copas. Esta cena, ao menos, sempre proporciona alguns dos poucos momentos leves do filme. T.K. pergunta ao irmão com quem é que ele se desentendeu desta vez e, mais tarde, perante as perguntas de Matt, T.K. diz-lhe que está deprimido por as bandas do irmão estarem sempre em crise.

 

O Matt tem mesmo de deixar de se levar tão a sério ou habilita-se a ter sempre toda a gente a gozar com ele.

 

Pelo meio, Kokuhaku faz questão de mostrar Sora funcionando como uma espécie de mental coach dos Escolhidos – passando uma boa parte do filme ao telemóvel, falando com toda a gente, certificando-se de que estão bem. É, aliás, a primeira vez que, tanto quanto sei, que Digimon compara Sora a uma mãe, preto no branco. Não que fosse necessária tanta ostensividade: estamos a falar de uma rapariga que, mesmo quando estava em baixo, com vontade de estar sozinha, não conseguia evitar ajudar os amigos nas costas deles. Mais caracterização para além disto é redundante. É, de resto, uma técnica a que os digi-guionistas costumam recorrer: exacerbar um traço específico das personagens quando este é importante para o enredo. O Cartão do Amor de Sora não é particularmente relevante em Kokuhaku mas deverá sê-lo em breve, visto que o próximo filme será focado nela.

 

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Não retiro nada do que escrevi antes sobre Sora, na minha longa análise a Adventure. Continuo a achar que o papel dela é o esperado das personagens femininas (para não dizer imposto às personagens femininas) e, até agora, nunca foi explicado devidamente porque sente ela necessidade de agir assim. Dito isto tudo, Sora continua a ser a minha preferida entre os Escolhidos. Em parte precisamente porque é maternal e altruísta, mas também porque não deixa de ser tão corajosa e lutadora como Tai ou Matt, os machos-alfa do grupo. Em miúda, Sora era, de todos os Escolhidos, quem eu mais desejava ter como amiga – e ela, de facto, tem sido uma excelente amiga para Meiko, precisamente quando ela mais precisa.

 

Voltaremos a falar de Sora adiante. Sobre as ameaças que surgem nos dispositivos eletrónicos, dizendo que “os Digimon serão libertados novamente”, não sei muito bem o que pensar. Não sei se é apenas um “sintoma” das distorções ou um indício de algum evento que ainda não ocorreu. Por outro lado, é de assinalar que as distorções se devam à substituição do habitual código binário (zeros e uns) por um código ternário (zeros, uns e dois). Um fã crítico de Digimon já tinha apontado para a presença do código nas sequências de digievolução, aquando de Saikai. Ao menos agora temos uma explicação para isso. Consta até que, antes do lançamento de Saikai, os criadores de Tri haviam alertado para a presença de triângulos e conjuntos de três nestes filmes. Talvez este código ternário ganhe ainda mais relevância mais adiante, em Tri.

 

De qualquer forma, no dia seguinte, os Digimon escapam do escritório de Izzy (demasiado absorvido pelo seu trabalho para prestar atenção). Patamon revela aos amigos que está infetado e pede-lhes, também, que o matem caso ele se torne violento. Entretanto, a Homeostase (uma entidade digital que rege o Mundo Digimon como um deus) apodera-se de Kari (que, aparentemente, não serve para mais nada). Através da jovem, a entidade aparece perante os Digimon (com Maki escutando à socapa), informando-os que a Infeção está a comprometer a estabilidade do Mundo Digital, existindo o risco de ele e outros mundos paralelos desaparecerem por completo, bem como a rede eletrónica do Mundo Real.

 

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O Mundo Digimon é, na sua essência, um mundo digital, informático. Em informática, o que é que uma pessoa faz quando as coisas não funcionam? Desligamos e voltamos a ligar. É exatamente isso que a Homeostase quer fazer caso Meicoomon apareça de novo no Mundo Real.

 

Apesar de eu aplaudir um desenvolvimento do enredo, depois de tanto tempo a engonhar, devo dizer que este me parece demasiado repentino. Como dei a entender antes, Tri passa de três ou quatro Digimon descontrolados, sem que saibamos ao certo porquê, um par de combates com Digimon de nível Extremo, cuja motivação é um mistério, para um Mundo Digimon supostamente tão corrompido que precisa de ser reiniciado. Por outras palavras, só agora é que a Infeção começou a ter repercussões graves e já vamos tomar medidas de último recurso? Não bate certo. Tenho algumas teorias sobre isso, mas vou guardá-las para mais adiante nesta análise.

 

Uma das consequências do Reinício do Mundo Digital será o Reinício dos próprios Digimon com ele. Ou seja, eles morrerão e voltarão a nascer sem recordações da sua vida anterior, como se nunca tivessem conhecido os seus companheiros humanos. Está longe de ser uma situação fácil, sobretudo tendo em conta que a única solução para talvez escaparem a este destino passa por abaterem Meicoomon, que passaram a considerar uma amiga.

 

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Os oitos Digimon ligam com a situação com uma coragem invejável – embora seja que questionar a sensatez de esconder a verdade aos Escolhidos – entrando em modo “último dia na Terra/Mundo Real” com os respetivos companheiros. Isto proporciona momentos dolorosamente agridoces: Kari passando a tarde no centro comercial, com Gatomon; Gabumon pedindo a Matt que este toque harmónica, como no fim de Adventure (harmónica essa que acaba por introduzir uma música lindíssima, que serve de banda sonora a todos estes momentos); Byomon tentando fazer com que Sora, por uma vez, pense em si mesma e nos seus sonhos; Gomamon ouvindo Joe dizer que tem de apresentá-lo à sua namorada, já que planeia tê-los aos dois por perto para o resto da sua vida (porque é que me fazem isto, digi-guionistas, porquê?!?); Palmon, mais uma vez, nem coragem tem para pensar, sequer, em despedidas; Tentomon procurando consolar Izzy, dar-lhe esperança, fazer com que ele volte a sentir prazer em aprender. Só ele e Agumon é que, aliás, revelam a verdade aos respetivos companheiros humanos.

 

A ação em Kokuhaku (leia-se: combates entre Digimon) limita-se a um episódio. Ao contrário de outras ocasiões em Tri, isso não prejudica tanto este filme pois não faltou desenvolvimento de personagens e muito drama nos primeiros três episódios. Esta batalha, que dura o episódio todo, é, aliás, o momento em que todos os segredos, todos os erros cometidos até à altura, se voltam contra o elenco de uma maneira trágica. Meicoomon aparece no Mundo Real a partir de uma distorção e todos, tirando Izzy, acorrem ao local. Embora não se possa ter a certeza absoluta, aparentemente a chegada de Meiko ao local faz com que Meicoomon digievolua para Meicrackmon (quando dei com este nome pela primeira vez, tive de confirmar que não era um nome inventado por fãs. Meicrackmon? A sério?). Momentos depois, T.K. tenta impedir Patamon de se juntar ao combate, em vão. Acaba por ser ele, na forma de Angemon, quem despoleta a Infeção nos outros Digimon, que começam a atacar-se uns aos outros e a contagem decrescente para o Reinício começa.

 

Nessa altura, Izzy descobre que Meicoomon está na origem de tudo e rapidamente cria o tal campo de dados, que curará as infeções e preservará as memórias dos Digimon. Numa altura em que a maior parte dos Escolhidos só agora é posto ao corrente sobre o Reinício, Tentomon é enviado para a dimensão distorcida onde ocorrem os combates para tentar levar os amigos Digimon para dentro do campo de dados antes que se dê o Reinício. Inicialmente, tem MetalGreymon a ajudá-lo, mas também ele acaba por ser dominado pela Infeção (chega mesmo a evoluir para WayGreymon sem darmos por isso). A certa altura, Izzy pede a Tentomon que esqueça os outros e se salve a si mesmo. O Digimon, compreensivelmente, recusa pois não quer ver os amigos morrer.

 

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Em jeito de despedida, Tentomon dirige a Izzy umas palavras de consolo, remetendo para o conflito do jovem neste filme: diz que ignorância é apenas o ponto de partida para aprender coisas novas; que adorou encontrar Izzy e ir conhecendo-o ao longo do tempo, se tiver de ser adorará conhecê-lo outra vez. Dito isto, evolui pela primeira vez para HerculesKabuterimon. Desta feita não há a habitual euforia que acompanha as novas digievoluções, esta é apenas uma última tentativa, um canto de cisne.

 

Por um momento, HerculesKabuterimon consegue fazer com que os amigos Digimon recuperem a razão. Sabendo perfeitamente que já não podem fazer mais nada, os oito abraçam-se, encurralando Meicrackmon no meio. Juntos, conseguem regressar à distorção, mas já não chegam a tempo de entrar no campo de dados. O Reinício é ativado, os nove Digimon desfazem-se em partículas digitais… e os nossos corações também.

 

Não sei como foi com vocês, mas este desfecho doeu-me, ainda dói, mais do que eu esperaria. Dói-me pensar que criaturas que conhecemos desde miúdos se esqueceram de tudo por que passaram com os respetivos Escolhidos. Que a Gatomon se esqueceu do Wizardmon e do momento em que percebeu que Kari era a sua companheira humana. Que o Patamon se esqueceu da sua zaragata com o Elecmon, na Aldeia de Origem. Que o Gomamon se esqueceu da primeira piada que ouviu do Joe (“Chamas a isso mãozinha?”). Que a Palmon se esqueceu de quando obrigou Mimi a engolir as suas palavras, depois de evoluir para Lillymon. Que o Tentomon se esqueceu da sua hilariante apresentação aos pais de Izzy. Que a Byomon se esqueceu de se aliar à mãe de Sora para a resgatar. Que o Gabumon se esqueceu de quando usou o seu casaco de peles para curar a hipotermia de Matt. Que o Agumon se esqueceu de quando queimou o mapa desenhado (muito mal) por Tai e levou nas orelhas por isso. Dá vontade de chorar. É uma grande parte da infância dos Escolhidos, da nossa infância, que na mente dos Digimon nunca aconteceu.

 

Quando vi Kokuhaku pela primeira vez, foi um alívio descobrir que existia um quinto episódio. Mas, como esta entrada já vai longa, falaremos desse episódio e de muito mais na segunda parte desta análise, que virá amanhã. Continuem desse lado, que ainda temos muito para chorar... desculpem, falar.

 

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A minha sitcom preferida

Ao longo da primeira década do século, de forma mais ou menos regular, em minha casa tínhamos por hábito ligar na RTP2, de segunda a sexta, mais ou menos às oito e meia da noite, hora a que transmitiam uma sitcom americana. Série como Sabrina, a Bruxinha Adolescente, Yes, Dear/Sim AmorS-Club; algumas mais clássicas, como Green Acres/Viver no Campo e Bewitched; numa fase mais posterior A Teoria do Big Bang, Dois Homens e Meio e Everybody Hates Chris/Todos Contra o Chris (uma série que merecia mais popularidade, na minha opinião). Todas estas eram razoáveis, umas mais do que outras. No entanto, a partir do outono de 2005, começou a passar uma que tinha muito mais piada que as demais: Friends

 

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Cerca de ano e meio após o episódio final de Friends, a RTP2 transmitia as dez temporadas de seguida, processo que durou um ano, mais coisa menos coisa. Eu e o resto da minha família íamos ficando cada vez mais rendidos à medida que acompanhávamos a vida dos seis amigos, com as suas amalucadas reviravoltas: desde o relacionamento tumultuoso de Ross e Rachel, os empregos difíceis de Monica, Joey sendo um péssimo ator, Phoebe sendo mãe de aluguer dos sobrinhos, Ross trocando o nome da sua noiva em pleno altar, Monica indo parar à cama de Chandler e acabando por se casar com ele, entre muitas outras coisas.

 

A RTP voltaria a exibir a série no mesmo horário daí a dois anos e nós seguimo-la com a mesma convicção. Desde essa altura, continuo a rever episódios da série com frequência (demasiada frequência, diga-se). Nenhuma sitcom que tenha visto até agora está tão bem feita e, sobretudo, me faz rir da mesma maneira (How I Met Your Mother esteve perto nos primeiros anos, mas toda a gente sabe no que isso deu...). 

 

Como tal, quando dei com a TAG Eu Amo Friends, quis incluí-la aqui no meu blogue. Como o costume, adaptei as perguntas ao português europeu.

 

1) Com qual personagem mais te identificas e porquê?

Esta é uma pergunta muito interessante. Não me identifico com apenas uma personagem, mas identifico-me com cada uma das três personagens femininas, por motivos diferentes. Identifico-me com Rachel, sobretudo nas primeiras temporadas, pois ela é ingénua, um bocadinho mimada, está ainda a aprender a ser adulta, muito como acontece comigo. Identifico-me com Monica pelo seu lado mais romântico e, sobretudo, maternal, com algumas das suas inseguiranças quando começa a trabalhar no Alejandro's e também, de certa forma, com a relação tumultuosa com os seus pais. Por fim, identifico-me com Phoebe pelo seu lado mais excêntrico e amalucado.

 

2) Qual é a temporada de que gostas mais e a de que gostas menos?

 

A temporada de que gosto mais é a segunda. Isto pode ter a ver com o facto de eu possuir os DVDs das duas primeiras temporadas, logo, tenho tido mais contacto com estas do que com o resto da série.

 

A temporada de que gosto menos é a última, mais porque, por esta altura, já se notava o desgaste e as personagens já tinham demasiados elementos de caricatura. No entanto, a série tem o mérito de nunca ter deixado de fazer rir, o que é algo de que nem todos se podem gabar.

 

3) Qual é o teu episódio de feriado (Natal, Dia de Ação de Graças, etc.) preferido?

 

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É uma escolha difícil, mas eu vou responder "The one with the football". A premissa é muito simples - os seis jogando futebol americano - não é difícil fazer as piadas surgirem. E estas realmente vão fluindo, com Monica e Ross, hiper-competitivos, trocando picardias, Joey e Chandler lutando pelas atenções de uma beldade holandesa, Rachel como a inepta do grupo e algum humor físico à mistura.

 

4) Qual é a tua canção da Phoebe preferida?

 

 

Escolho esta, não tanto pela música em si, antes pelo timing cómico. Rio-me de todas as vezes.

 

5) Qual é o episódio mais engraçado?

 

Vou aproveitar a ocasião e fazer um top 7 com os meus episódios favoritos e/ou que considero mais engraçados. 

 

      7) The One After the Superbowl, part 2

 

Refiro este apenas pela história de Chandler. Este reencontra Susan, uma colega do quarto ano. Susan refere, de forma muito casual, a ocasião em que Chandler lhe levantou a saia, durante uma peça de teatro escolar, deixando-lhe as cuecas à mostra. Ela e Chandler envolvem-se, mas na verdade tudo aquilo é uma armadilha montada por Susan para vingar aquela partida. E que vingança é, senhores! Uma pessoa fica a pensar quantos anos terá Susan passado aguardando o momento em que reencontraria o antigo colega, magicando este plano.

 

Susan é interpretada por Julia Roberts e esta história não teria metade da piada não fosse o trabalho dela. Sem querer, de modo algum, menorizar o trabalho de Matthew Perry, com quem tem uma excelente química  (consta, aliás, que os dois namoravam aquando das filmagens deste episódio. Vejam só esta cena:

 

  

Atentem a esta troca: 

 

Chandler: "That was fourth grade! How come you're still upset about that?"

Susan: "Well, why don't you call me in twenty years and tell me if you're still upset about this?"

 

Por sinal, estes vinte anos completaram-se há pouco tempo. Será que o Chandler ainda está chateado?

 

Este episódio só não está mais acima na classificação porque as outras histórias neste episódio não têm assim tanta piada.

 

      6The One With the Baby on the Bus

 

Este episódio vale sobretudo pela história de Chandler e Joey, que aproveitam o episódio alérgico de Ross para usarem o bebé Ben para engatar mulheres. No entanto, acabam por se esquecer do bebé no autocarro, o que conduz a esta cena hilariante, que me cai no goto de todas as vezes, sobretudo a última fala de Chandler: "What kind of scary ass clowns came to your birthday?"

 

 

Ao contrário do episódio de que falámos antes, as outras histórias deste até são engraçadas, mesmo não sendo por aí além. A conversa final de Monica e Ross fará, certamente, sorrir quem tenha irmãos. A história de Phoebe e Rachel também tem a sua piada, mas destaca-se sobretudo por corresponder à estreia de Smelly Cat.

 

           5) The One With the Boobies

 

Ter personagens vendo-se acidentalmente nuas umas às outras não é propriamente um exemplo de comédia sofisticada, admito, mas esta está tão bem feita neste episódio que não resisto a incluí-la entre os mais engraçados da série. O que funciona aqui é o facto de haver uma escalada do efeito cómico, já que as personagens tentam vingar-se dos respetivos voyeurs, mas acabam por espreitar as pessoas erradas - tudo isto culminando com Monica invadindo o duche... do pai de Joey.

 

As outras duas histórias do episódio também têm a sua graça. A trama com a amante do pai de Joey, para além de engraçada, ajuda a caracterizar o galã do grupo. As outras personagens também passam por algum desenvolvimento graças ao namorado psicólogo de Phoebe, que faz exatamente aquilo que os psicólogos não devem fazer: usar os traumas dos outros para os diminuir.

 

         4) The One with the Embryos

  

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Este é referido inúmeras vezes entre os episódios mais engraçados de Friends, não sem razão. O jogo de perguntas e respostas que opõe Monica e Rachel a Chandler e Joey proporciona ótimos momentos de comédia, bem como a oportunidade de conhecermos melhor as personagens. Também aqui existe uma escalada do efeito cómico, à medida que o jogo se intensifica e os respetivos apartamentos entram nas apostas. O ponto alto ocorre quando as raparigas, depois de terem sabido responder a perguntas como o maior medo de Chandler e o nome e a profissão do amigo imaginário de infância de Joey, não são capazes de nomear... a profissão de Chandler.

 

             3) The One With the Two Parties 

          

Neste episódio, Rachel faz anos, mas os pais estão em processo de divórcio e não conseguem estar juntos na mesma divisão sem começarem a discutir. Quando os amigos dão uma festa de aniversário e os dois pais de Rachel aparecem, o grupo vê-se obrigado a dividir a festa pelos dois apartamentos, numa tentativa de mantê-los separados. Mais uma vez, temos uma escalada de humor à medida que as personagens recorrem a medidas cada vez mais desesperadas para impedirem os pais de Rachel de se encontrarem - culminando com Joey beijando a mãe de Rachel.

 

              2) The One Where Everyone Finds Out

 

Todos consideram este como um dos melhores episódios de Friends de sempre. Na quinta temporada, uma das tramas principais diz respeito ao romance secreto entre Monica e Chandler. Evidentemente, o segredo acaba por ser descoberto. Joey é o primeiro a descobrir, Rachel descobre mais tarde Este episódio, tal como diz o título, corresponde ao momento em que a verdade vem à tona para todo o grupo.

 

No início do episódio, Phoebe descobre acerca do romance. Depois de fazê-lo, ela e Rachel decidem fingir que não sabem, que Phoebe tem um fraquinho por Chandler, começando a fazer-lhe avanços, a ver se Chandler se descose. Por sua vez, Monica e Chandler descobrem que Phoebe e Rachel saem e decidem entrar na brincadeira, com Chandler a corresponder aos avanços de Phoebe, a ver se ela se descose. Mais uma vez, há um crescendo no efeito cómico, sobretudo quando os dois se encontram para uma suposta noite de paixão. Vê-se que Phoebe e Chandler estão claramente a forçar algo que não querem que aconteça, ficando cada vez mais aflitos ao verem que o outro não cede. Acaba por ser Chandler a render-se e fá-lo declarando o seu amor por Monica, sendo esta a primeira vez que o faz com todas as letras

 

 

Pelo meio, Ross tenta ficar com o apartamento do Ugly Naked Guy/Feioso Nu (a identidade do actor que o representou só foi revelada há bem pouco tempo), acabando por se ver obrigado a despir-se também, para cativar o dono do apartamento. No encerramento do episódio, descobre acerca do romance entre a sua irmã e o seu melhor amigo e... não reage muito bem. 

 

               1The One With the Birth

 

É muito raro as pessoas falarem deste episódio e eu compreendo porquê: é da primeira temporada, altura em que a série ainda estava a procurar a sua identidade. No entanto, é o que considero mais engraçado, na globalidade. Carol, a ex-mulher de Ross, prepara-se para dar à luz o filho deles, numa altura em que já vivia com a sua companheira, Susan. O grupo vai todo para a maternidade dar apoio ao trio parental. Existem várias situações que continuam a fazer-me rir ainda hoje: Joey dando apoio a uma grávida solteira, Monica suspirando por um bebé seu e Chandler tentando consolá-la (sabermos hoje que eles, no fim, adotam gémeos juntos dá ainda mais graça à situação), o obstetra de Carol mais interessado em namoriscar com Rachel do que em ajudar a parturiente; Ross e Susan mais interessandos em implicar um com o outro do que em ajudar a parturiente e, é claro, quando Ross, Susan e Phoebe se trancam acidentalmente uma despensa (destaque para Their Bodies, que já referi antes). O episódio acaba de forma fofinha, com a apresentação de Ben.

 

6) Que episódio te fez chorar?

 

Não me fez chorar, mas partiu-me o coração: The One With the Morning After, em que Ross e Rachel acabam a relação.

 

 

7) Qual é o casal de que mais gostas?

 

O casal Monica e Chandler. Toda a gente sabe que a relação deles começou quase que por acidente e, se calhar, nem todos esperavam que resultasse a longo prazo. Consta que os próprios guionistas estavam incertos quando juntaram as personagens, foram desenvolvendo o romance recém-nascido com muito cuidado, a ver como este se traduzia no ecrã, se os atores conseguiam vendê-lo. 

 

Felizmente conseguiram. Não digo que Monica e Chandler fossem perfeitos um para o outro, mas tornaram-se perfeitos um para o outro. Tanto Monica como Chandler tinham alguns problemas de auto-estima devido à educação que tiveram. Monica tinha peso a mais enquanto criança e adolescente e os pais favoreciam descaradamente o irmão. Isto tornou-a insegura, demasiado perfeccionista e competitiva, obcecada por controlo. Os pais de Chandler tiveram um divórcio feio, não pouparam o filho aos detalhes mais sórdidos da separação. Isto tornou-o igualmente inseguro, sarcástico, recorrendo ao humor como mecanismo de defesa, com medo de compromissos. Tanto Chandler como Monica, em graus diferentes, tiveram de confrontar as suas próprias inseguranças, de se esforçar para que a sua relação resultasse. Eles, aliás, tornaram-se pessoas melhores, de uma maneira ou de outra, graças um ao outro - quando chegaram a um meio termo sobre quanto gastariam com o seu casamento, quando Monica ajudou Chandler a fazer as pazes com o seu pai, quando Chandler disse que gostava das neuroses de Monica pois era bom a apaziguá-las. E não se pode dizer que o romance não tenha passado por obstáculos, pois Chandler teve, a certa altura, de trabalhar noutra zona do país e, mais tarde, os dois descobriram que não podiam ter filhos biológicos. Tudo isto faz deles um casal realista e saudável, a que todos deviam aspirar - ao contrário do casal Ross e Rachel, como veremos adiante.

 

  

8) Uma frase para cada personagem.

 

Rachel: "No uterus, no opinion" (A vontade de eu tenho de dizer esta ao meu pai quando ele diz que eu tomo ibuprofenos a mais naquela altura do mês...)

 

Monica: "Fine, judge all you want to, but... [aponta para Ross] Married a lesbian; [aponta para Rachel] Left a man at the altar; [aponta para Phoebe] Fell in love with a gay ice dancer; [aponta para Joey] Threw a girl's wooden leg in the fire; [aponta para Chandler] Livin' in a box!"

 

Phoebe: "I have to go before I put your head through a wall" 

 

Chandler: "There are like thousands of women out there who are just waiting to screw me over"

 

Joey: "Va fa Napoli!"

 

Ross: "When were you... under me?"

 

9) Qual é a aparição mais engraçada da Janice?

 

 

Não é preciso dizer mais nada.

 

10) Qual é o teu momento Regina Philange preferido?

 

Nunca fui assim grande fã dessa piada recorrente. Vou escolher a altura, depois da memorável troca de nomes no segundo casamento de Ross, em que ela fingiu ser a médica dele e que a troca de nomes se devia a uma doença.

 

 

11) Quem tinha razão: Ross ou Rachel?

 

Peço desculpa, mas eu estou do lado de Rachel. Se eles estavam em pausa ou a dar um tempo ou qualquer seja a vossa tradução para "We were on a break!!" é uma questão burocrática, é irrelevante. Enrolar-se com outra pessoa após uma discussão não abona a favor do carácter de ninguém. Quem garantiria a Rachel que Ross não voltaria a fazer o mesmo numa futura discussão?

 

Devo até dizer que não sou fã de Ross e Rachel como casal. Ao contrário do que acontece com Monica e Chandler, a relação não é das mais saudáveis. Para começar, não gostei de algumas das coisas que Ross fez a Rachel. Do ponto de vista feminista, não posso ignorar que ele se sentiu ameaçado quando Rachel conseguiu o emprego dos seus sonhos, quer por o ter conseguido graças à ajuda de outro homem, quer por Rachel possuir agora um aspeto na sua vida que não incluía Ross. A isto junta-se, entre outras coisas, o episódio da lista dos defeitos, a maneira como a rebaixou quando ela perdeu Marcel, o macaco, a ocasião em que ele interrompeu uma conversa dela com um homem em quem ela estava interessado (insinuando, ainda por cima, que ela era uma prostituta, como se não bastasse!), quando os dois se casaram em Las Vegas mentiu-lhe sobre o processo de anulamento, intercetou recados de outros homens que ela conhecera, subornou o antigo patrão de Rachel a ver se a impedia de ir para Paris - estes últimos actos provam que ele tem uma faceta ciumenta, insegura e algo manipuladora. Não que isso não seja compreensível, tendo em conta a maneira como o primeiro casamento dele terminou, mas a série não chegou a mostrar que ele ultrapassara esses problemas antes de voltar a juntar o casal.

 

Não que Rachel fosse uma santinha, pelo contrário. Entre outras coisas, ela tratou mal Julie e Bonnie, enquanto estas namoravam com Ross; quando os dois pensaram em reconciliar-se, em vez de falar diretamente com Ross, achou melhor ideia escrever uma carta exigindo que Ross assumisse a responsabilidade por inteiro pela anterior separação (também acho que a culpa foi sobretudo de Ross pela traição, mas os problemas deles já vinham de trás); foi até Londres só para tentar impedir o casamento de Ross com Emily - conforme foi assinalado, uma decisão egoísta, mas que felizmente não foi levada até ao fim. Em todo o caso, ao contrário de Monica e Chandler, que no fim resolviam sempre os seus problemas como adultos, Ross e Rachel raramente o faziam - não admira que tenham demorado seis ou sete temporadas a reatar. E, tal como assinalei antes, nada dá a entender que esses problemas tenham sido resolvidos no fim - fica, aliás, um amargo de boca por a série ter acabado com Rachel abdicando de um emprego fabuloso para ficar com Ross. Eles acabam juntos, mas, a menos que eles, a certa altura, recorram a um terapeuta de casais, a relação não deverá durar muito.

 

 

Está feito. Como o costume, se depois quiserem responder a esta TAG, deixem o link com as respostas nos comentários.

Digimon Adventure Tri - Ketsui (Determinação) #1

1) Spoilers: as entradas desta série terão inúmeras revelações sobre o enredo do primeiro e segundo filmes de Digimon Adventure Tri e, possivelmente, dos enredos de Adventure e 02. Leia por sua conta e risco.

 

2) Alguns conceitos próprios desta série animada têm traduções controversas - na língua portuguesa, têm mais do que uma possível. Neste texto, vou adotar as traduções com que estou mais familiarizada e/ou que considero mais adequadas.

 

3) Apesar de as legendas do filme usarem os nomes japoneses das Crianças Escolhidas, eu vou usar as versões americanizadas dos nomes, visto que estou mais habituada.

 

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Quando estava para ver o primeiro filme de Digimon Adventure Tri, Saikai, não sabia o que esperar. Sabia que decorreria três anos após os acontecimentos de 02, com o elenco de Adventure, mais nada. Não tinha grandes expetativas, pelo menos não em concreto. Tal como escrevi antes, Saikai não foi apenas uma trip de nostalgia, foi um exemplo do que Digimon tem de melhor. No entanto, em termos de enredo, serviu apenas para colocar as peças no tabuleiro, para definir o conflito – deixou imensas perguntas por responder.

 

Com Ketsui (que significa Determinação ou Decisão), o segundo filme que estreou no passado dia 11 de maio, a história foi outra. Desta feita, já as premissas tinham sido mais do que estabelecidas, já tinha uma ideia mais concreta do que nos esperava. Para além disso, desta vez fiz questão de ir-me mantendo a par de todas as pistas, teasers, trailers e afins que fossem saindo. As expetativas foram aumentando. Sabendo desde já que o filme se centraria em Joe e Mimi, queria saber o que fariam com eles, como seriam as estreias de Rosemon e Vikemon. Queria saber que raio aconteceu aos miúdos de 02. Queria ver a evolução das dúvidas existenciais de Tai, do seu desentendimento com Matt e, já agora, queria descobrir mais do que se estava a passar com os outros miúdos. Queria algumas respostas às perguntas deixadas no fim de Saikai. Será que Ketsui correspondeu às expetativas?

 

Bem…

 

A análise a este filme tem mais ou menos o dobro da extensão da análise a Saikai, pelo que virá dividida em duas. Esta é a primeira parte, publico a segunda assim que puder. Comecemos pelo resumo do filme, mais uma vez adaptado da Wikipédia:

 

Enquanto Joe fica em casa a estudar para os exames de acesso à faculdade, os Escolhidos e seus Digimons vão de passeio a uma estação termal, onde eles se deparam com Daigo Nishijima e Maki Himekawa. Na estação termal, as raparigas passam por uma inconveniência quando Biyomon e Meicoomon são separadas delas e acabam por invadir o balneário dos homens. Após o passeio, Maki e Daigo testam armas especializadas contra um Ogremon infetado que havia aparecido. Ogremon acaba por ser levado de volta para o mundo digital por Leomon. Mais tarde, enquanto Mimi preparava um café temático de meninas de claque para o festival cultural da escola, Ogremon regressa, desta feita na zona onde Mimi e Meiko se encontram. Mimi tenta lutar contra o Ogremon infetado, na esperança de melhorar a reputação dos Digimons. No entanto, os ataques de Togemon provocam a queda de um helicóptero de notícias nas proximidades, resultando no efeito oposto. Enquanto Leomon se aproxima dos Escolhidos, explicando o que aconteceu com Ogremon quando ele ficou infetado, Mimi é repreendida pelos amigos pelas suas ações aparentemente egoístas. Enquanto Mimi lamenta o quão egoísta ela tem sido, ela ouve Joe dizendo que ele tem evitado os combates com os Digimons para tentar encaixar-se na idade adulta, lamentando sua própria covardia.

 

No dia seguinte, Gomamon decide fugir da casa de Joe, Izzy recebe uma mensagem estranha em código digital. No dia do festival cultural, Meiko mostra o seu apoio a Mimi vestindo o fato de menina de claque que as duas tinham desenhado para o café. Entretanto, os Digimon infiltram-se no festival para tentar ganhar um concurso de máscaras para comerem de graça no festival. Gomamon reencontra-se com Joe e diz-lhe que fugiu porque sentiu que Joe não queria mais lutar a seu lado. Joe enfurece-se e deixa Gomamon sozinho. Nessa altura, Meicoomon é capturado por Ken Ichijouji, que parece ter revertido para o seu alter-ego Imperador Digimon. Palmon e Gomamon, juntamente com um Leomon parcialmente infetado, perseguem-no até um portal das distorções digitais. No interior da distorção, Ken aparece lado a lado com um Imperialdramon infetado, sendo que Imperialdramon é (o nível Extremo/Hiper Campeão da fusão dos Digimons Wormmon e Veemon, parceiros Digimon dos antigos Escolhidos Ken Ichijouji e Davis Motomiya). Kari convence Joe regressar para junto de Gomamon e lutar ao lado dele. Superando suas próprias preocupações em nome do seu parceiro, Joe consegue fazer Gomamon digievoluir pela primeira vez até seu nível Extremo/Hiper Campeão, Vikemon. Mimi também consegue fazer Palmon digievoluir até sua forma no nível Extremo/Hiper Campeão, Rosemon. Até esse momento, apenas Agumon e Gabumon tinham conseguido atingir esse nível, no caso destes WarGreymon e MetalGarurumon. Os Digimons conseguem derrotar Imperialdramon e regressar com segurança ao Mundo Real. No entanto, Meicoomon torna-se de repente hostil, matando Leomon e escapando para o mundo digital.”

 

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Um dos maiores problemas de Ketsui diz respeito aos fillers. Uma das coisas que elogiei na primeira temporada de Adventure foi o facto de não ter quase nada só para encher chouriços, quase tudo o que acontecer contribui para avançar a história ou, pelo menos, para desenvolver as personagens e as relações entre elas. Uma pessoa ainda pode tolerar um ou outro filler numa série de televisão normal, com episódios todas as semanas, mas esta uma série de apenas seis filmes, que só saem de tantos em tantos meses. É no mínimo frustrante termos passado semanas especulando sobre este filme, sobre os mistérios apresentados em Saikai, para depois Ketsui perder tempo com uma visita a uma estância termal e um festival cultural em que pelo menos metade das cenas são irrelevantes, os combates entre Digimons serem despachados em minutos e quase todas as perguntas ficarem por responder.

 

O dia passado na estância termal sempre serviu para fazer alguns desenvolvimentos discretos, se não tanto em termos de enredo, pelo menos em termos de personagens. Não sou grande fã de Meiko, mas, sendo eu uma pessoa um bocadinho tímida e introvertida, identifico-me um pouco com ela. Gostei da maneira calorosa como os Escolhidos (resolvi deixar de dizer Crianças Escolhidas pois o termo, obviamente, já não faz sentido) receberam o novo membro do grupo, sobretudo Mimi (mais sobre isso adiante). Por outro lado, isso fez com que Meiko roubasse o protagonismo à maior parte dos Escolhidos que conhecemos e adoramos quando a novata não é assim tão interessante como personagem – a partir de certa altura, os seus modos envergonhados começam a cansar.

 

O episódio das termas serviu também para mostrar um pouco da relação entre Meicoomon e Meiko (uma nota: só eu acho irritante o facto de uma Escolhida e o seu Digimon terem praticamente o mesmo nome? Que falta de imaginação…). Os companheiros dos Escolhidos sempre foram, regra geral, um pouco acriançados mas Meicoomon chamou-me a atenção por ser extremamente dependente de Meiko, quase como uma criança pequena depende da sua mãe. Tendo em conta o que acontece no final do filme, este comportamento gera algumas suspeitas. Eu, pelo menos, gostava de saber exatamente como é que Meiko se tornou uma Escolhida e conheceu Meicoomon – sobretudo tendo em conta que, ao que parece, ela e Maki já se conheciam havia algum tempo (desde o início de Saikai?).

 

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Também deu para descobrir um bocadinho mais sobre a misteriosa organização governamental e, sobretudo, sobre os agentes que conhecemos: Daigo e Maki. Percebe-se que Daigo gosta dos miúdos, preocupa-se genuinamente com eles. Maki é mais desprendida (de uma maneira que chega a causar impressão, conforme veremos adiante), mais focada no trabalho que tem de fazer. Percebe-se que a intenção da organização é manter os Escolhidos de fora dos combates, dentro do possível. Se por um lado se compreende que eles não queiram depender de adolescentes para proteger a população, por outro é óbvio que há coisas que eles querem esconder dos Escolhidos – sobretudo aquelas armas especiais para Digimon, calculo eu. Aparentemente, os miúdos não vão muito na conversa deles. Algo que é de esperar, sobretudo Izzy, que sempre gostou de ter a informação toda e que, por esta altura, começa a assumir, discretamente, o papel de líder do grupo. Eu mesma, se estivesse habituada a salvar o mundo desde uma idade em que alguns ainda não sabem apertar atacadores, também ficaria incomodada se, de repente, viessem adultos fazer o trabalho por nós. 

 

Por fim, segundo T.K., a viagem às termas serviria também, mais uma vez, para ver se Tai e Matt fariam as pazes. Eu não sei qual é a melhor maneira de persuadir dois rapazes de dezassete anos a ter uma conversa franca, mas não me parece que metê-los seminus numa sauna e/ou fonte de água quente seja a opção mais eficaz. Na verdade, nesta altura do campeonato, eu recomendaria um terapeuta de casais. Mas já falaremos do “casalinho” adiante.

 

Tirando isso, as cenas nas termas foram mais fanservice e humor fácil que outra coisa qualquer. Algumas semanas antes de sair Ketsui, eu tinha-me queixado pelas internetes fora por, em materiais promocionais, as raparigas aparecerem em biquíni e os rapazes completamente vestidos. Ao menos agora repôs-se a igualdade… E, confesso, diverti-me demasiado com a cena em que as meninas invadem o balneário masculino. Mimi cantando I Wish para distrair os homens? Impagável! Claro que tinha de vir T.K. em socorro de Kari, qual Cavaleiro Andante em pelota. Por outro lado, Meiko pode ser muito envergonhadinha e tal, mas teve lata suficiente para dar uma espreitadela a Tai.

 

 

Enfim, isto pode ter sido só fanservice e tal, podia (acho mesmo que devia) ter sido cortado do filme sem grandes consequências, mas ao menos conseguiu fazer-me rir como uma parvinha. O mesmo não posso dizer do festival cultural, que tem os seus momentos, mas perde demasiado tempo com cenas irrelevantes.

 

Lá iremos. Depois de Tai ter sido o protagonista de Saikai, em Ketsui o protagonismo é dividido entre Mimi, Joe e, em parte, Meiko. Mimi foi uma das minhas personagens preferidas em Saikai e o mesmo torna a acontecer neste filme. Conforme escrevi antes, em contraste com os seus modos caprichosos e irritantes em Adventure, em Tri, Mimi traz vida e alegria a um grupo que, por esta altura, tem tendência a cair no desânimo – com um Tai invulgarmente apático, um Matt sempre de mau humor, uma Sora constantemente tentando manter a paz, um Joe sempre ausente e Izzy e Kari, personagens mais discretas. Mimi é extrovertida, despreocupada, incapaz de duplicidade ou hipocrisia, de esconder o que pensa e sente – algo que se vira contra ela, neste filme. Mimi enfrenta Ogremon quando este aparece segunda vez no Mundo Real, ajudada apenas por uma inexperiente Meiko, contrariando instruções explícitas de Izzy, numa tentativa de mudar a opinião pública sobre os Digimon. No entanto, sai-lhe o tiro pela culatra quando Togemon atira um helicóptero da Comunicação Social para o lago.

 

Leomon acaba por levar Ogremon de regresso ao Mundo Digital – o confronto de Ogremon com Togemon e Meicoomon não dura muito, depois de o mesmo ter acontecido com a primeira aparição de Ogremon no Mundo Real. No rescaldo do combate, Mimi leva nas orelhas por ela não ter esperado pelos amigos, chegando a ser apelidada de egocêntrica por parte de Izzy.

 

Todos concordam que existe verdade nas palavas de Izzy, incluindo a própria Mimi. A jovem leva as críticas do amigo muito a peito, até porque acaba por ouvir críticas semelhantes a propósito da sua ideia para o café temático do festival cultural. Para ser justa, eu adoro-te Mimi, mas eu também não quereria ser transformada numa empregada do Hooters, que é a inspiração de Daters, a cadeira de restaurantes americana ficcional que Mimi refere (para aqueles que não sabem, Hooters é uma cadeira de restaurantes americana em que as empregadas usam trajes reduzidos e a sua função é esbanjarem sex appeal. Pelas descrições, parece-me nojento. Ao menos em Daters são meninas de claque, o que sempre é um bocadinho melhor. Só um bocadinho…).

 

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Desde que a conhecemos, Mimi diz o que pensa e sente e a verdade é que a narrativa não a tem censurado por isso – pelo contrário, é-lhe atribuído o Cartão da Sinceridade. O mesmo acaba por acontecer em Ketsui, de certa forma, pois os Escolhidos que, neste filme, tentam esconder o que estão a pensar e a sentir não o fazem muito bem. Joe diz a Mimi, com razão a meu ver, que mais vale ser-se egocêntrica mas honesta, agir de acordo com as convicções, do que cobarde – mais sobre isso adiante. Mais tarde, Meiko executa a ideia de Mimi para o café temático. Sora faz as fatiotas, piscando o olho ao epílogo de 02 (Lindos meninos, digi-guionistas, lindos meninos!). Acabam por chegar a um meio-termo com as colegas: apenas Mimi e Meiko vestir-se-ão como meninas de claque. Isto é o suficiente para fazer com que Mimi recupere o ânimo.

 

Eu gosto da amizade que se formou entre Mimi e Meiko. Noutra qualquer história de adolescentes, uma personagem feminina semelhante a Mimi seria aquela miúda popular do liceu, que rebaixaria pessoas mais tímidas e discretas, como Meiko. Mimi faz o exato oposto, passa o filme quase todo tentando espevitar a nova amiga, fazer com que ela perca a timidez. É essa a qualidade redentora de Mimi. Para além de ser incapaz de duplicidade, ela tem o coração no sítio certo, não precisa de pisar ninguém para se sentir bem consigo mesma. A amizade entre Mimi e Meiko fez-me lembrar, aliás, a amizade entre Kari e Yolei, em 02. Tri chegou a fazer quase copy-paste do diálogo do episódio da digievolução ADN, em que Kari diz que admira Yolei por esta ser capaz de exteriorizar os seus sentimentos, ao contrário dela. Faz sentido pois, como escrevi antes, Yolei é praticamente uma cópia de Mimi e Kari tem também um lado reservado (ainda que este não se note tanto agora, que está mais velha e entre amigos que conhece há anos). Esta amizade caracteriza mais Mimi do que Meiko, contudo. Esta continua o mesmo enigma que era no início de Saikai.

 

Os problemas de Joe em Ketsui são mais complicados. O jovem continua a manter-se afastado da ação por causa dos estudos mas, tal como adivinhei, a questão é mais complicada que uma simples incompatibilidade de horários. Joe está numa altura crucial da sua vida, para o seu futuro, e sente que o seu dever como Escolhido é algo que o prende ao passado. E a verdade é que ele nunca escolhera ser… bem, uma Criança Escolhida, tal responsabilidade fora-lhe imposta – estou até admirada por ser esta a primeira vez, tanto quanto me lembro, em que um deles se revolta contra a condição de Escolhido. Por isso, vai usando o trabalho académico para se esquivar aos outros Escolhidos, mas a verdade é que ele também não está a ser particularmente bem sucedido nos seus estudos. Tudo isto faz com que Joe acumule autocomiseração, se sinta um cobarde, alienando Gomamon no processo.

 

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Acho que nunca vimos Joe tão em baixo. Como li no Twitter, ele parecia preso numa canção dos Simple Plan em início de carreira. Eu tive vontade de abraçá-lo, sobretudo nos momentos em que desfez em lágrimas. Não é fácil ver uma personagem que conhecemos e adoramos há tantos anos a sofrer.

 

Antes de voltar a falar sobre Joe, queria falar sobre outra personagem enfrentando um dilema semelhante: Tai. Apesar do que aconteceu na batalha final de Saikai, o jovem continua essencialmente com as mesmas dúvidas sobre o que estão a fazer. O problema é que, desta feita, ele não fala disso. Ele podia ter aproveitado o incidente do helicóptero para dizer algo como: “Estão a ver? É disto que tenho tido medo! Aquelas pessoas podiam ter morrido! Podemos falar sobre isto, por favor?”. Em vez disso, fica calado e deixa Mimi arcar com a culpa – mesmo depois de, em Saikai, ele e os outros terem causado danos semelhantes. Mimi foi imprudente, sim, mas ao menos tentou mudar uma situação com a qual não estava satisfeita, o que é mais do que podemos dizer de Tai. Como diria Joe, mais vale ser-se egocêntrico do que cobarde e, por muito que me custe dizer isso, Tai está a agir como um cobarde. Chega a ser doloroso vê-lo tão apagado, perdendo a liderança do grupo para Izzy. Eu compreendo que ele tenha medo de que Matt se chateie a sério e se afaste do grupo (algo que chegou a fazer temporariamente em Saikai) caso perceba que Tai continua com dúvidas, mas, pela maneira como as coisas estão, acho que Matt se vai chatear mais cedo ou mais tarde, quanto mais não seja pelo silêncio de Tai. E, para ser sincera, eu até estava do lado de Tai no primeiro filme, mas já começo a torcer para que Matt lhe dê um murro, como costumava fazer antes. A sério. Yagami, rapaz, eu adoro-te, mas, em nome de todos os monstrinhos digitais, recompõe-te!

 

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A paciência pode ainda não se ter esgotado a Matt em relação a Tai, mas esgotou-se a Gomamon em relação a Joe. O Digimon andava a fazer o que podia para apoiar o seu Escolhido (incluindo noodles com um ovo estrelado por cima, inveja…), mas a certa altura percebe a mensagem e sai da casa de Joe, sem lhe dizer nada. Pode ter sido um bocadinho infantil, sobretudo a parte de Gomamon pedir a Izzy que não diga onde ele está, mas era a única maneira de obrigar Joe a enfrentar a verdade.

 

Curiosamente, é Kari quem chama Joe à razão. A jovem faz-lhe ver que que, mesmo que Joe não saiba o que está a fazer com a sua vida, mesmo que Joe precise de uma explicação para a sua condição de Escolhido, Gomamon fora Escolhido com ele. Eles estavam naquilo juntos e Joe não lhe podia voltar as costas, independentemente de quem os escolheu para aquela missão que não parece ter fim. O jovem percebe isto numa altura em que Gomamon lutava contra Imperialdramon (mais sobre isso adiante).

 

Poder-se-á traçar um paralelismo entre o arco de Joe em Ketsui e o arco de Tai em Saikai. Ambos enfrentam sérios dilemas sobre o seu dever como Escolhidos ao longo dos respetivos filmes. Eventualmente, cada um dos rapazes se vê entre a espada e a parede e é obrigado a lutar, não necessariamente porque tenham ultrapassado aquilo que os incomodava, antes por alguém de quem gostam. No caso de Tai, esse alguém é Matt. No caso de Joe, esse alguém é Gomamon.

 

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A questão que se coloca é se as dúvidas de Joe estão de facto ultrapassadas ou apenas temporariamente silenciadas. Ficou claro neste filme que Tai não ultrapassou as suas. Estas, aliás, terão feito com que Omegamon/Omnimon se desfizesse. Não que isso tenha tido consequências práticas (só depois de ver Ketsui é que fui rever essa cena e reparei que, realmente, Omegamon começa a desfazer-se um ou dois segundos antes de Alphamon fugir pela distorção), mas foi o suficiente para Matt ficar ainda mais irritado.

 

 

Por sua vez, Joe pareceu seguro de si durante a luta com Imperialdramon. Talvez fazer alguma coisa, tomar uma decisão (será daqui que vem o título Ketsui?) e ser bem sucedido lhe seja suficiente para sair do buraco onde caíra, para se deixar de se sentir como um cobarde. É provável que o jovem ainda não saiba ao certo como conjugar os seus deveres académicos com os seus deveres como Escolhido, mas eu quero acreditar que Joe não tornará a virar a cara à luta, nem que seja só por Gomamon.

 

Por fim, dizer apenas que houve quem estranhasse ser Kari a aconselhar Joe, mas eu acho que faz sentido. Para além de dar a Kari algo para fazer, acabámos de ver que o dilema de Joe não é muito diferente do dilema de Tai. Acredito que, no futuro, a jovem voltará a intervir, desta feita para ajudar o seu onii-chan.

 

Mas continuo a achar que a maneira mais eficaz de fazer Tai acordar para a vida é um murro bem dado por Matt.

 

E com este pensamento concluímos a primeira parte da análise a Ketsui. Segunda parte em breve.

 

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Hoje celebramos 20 anos de Pokémon...

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Há exatamente vinte anos, eram lançados no Japão os jogos para Game Boy Pokémon Red and Green, inaugurando assim a franquia Pokémon, que hoje se exprime, não apenas numa série de videojogos, mas também em jogos spin-off, uma série de anime, um jogo de cartas, entre outras coisas. A propósito deste aniversário, hoje celebramos o Pokémon Day. Já falei aqui no blogue, por diversas vezes até, da importância que esta franquia tem para mim, não podia deixar esta data passar em branco. Resolvi fazê-lo partilhando um texto que escrevi para um projeto do blogue Nerdy Girl Notes

 

O projeto consiste num livro sobre cultura pop e comunidades de fãs, celebrando a capacidade que personagens femininas fortes possuem de tocar pessoas, inspirá-las, mesmo não sendo de carne e osso. A autora do blogue desafiou-nos a participar enviando-lhe cartas nossas, homenageando mulheres ficcionais que nos tivessem marcado. 

 

Ora, eu tive vontade de participar desde início, mas não sabia a quem escrever a carta. Ao longo da minha vida, praticamente todas as pessoas que idolatrei - homens e mulheres - eram de carne e osso. Sim, tenho tido uma personagem feminina ficcional acompanhando-me durante muitos anos, mas fui eu mesma quem a criou e nem sequer foi diretamente baseada em personagens já existentes. Cheguei a pensar escrever à Sora de Digimon, mas o seu fraco desenvolvimento e o seu inexplicado destino, revelado no epílogo de 02, tiraram-me a vontade. Por fim, acabei por me lembrar de Misty.

 

Como poderão ler, a minha ligação a Misty acaba por ser um reflexo da minha ligação a toda a franquia. Daí que tenha querido partilhá-la convosco hoje, em dia de 20 anos de Pokémon. Escrevi originalmente em inglês, mas obviamente traduzi-a aqui para o blogue. Abaixo, segue a versão em português. Tenham em conta que esta é uma carta para uma heroína de infância, preparem-se para uma dose saudável de lamechice.

 

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Querida Misty,

 

Olá. Chamo-me Sofia, sou de Lisbon City, na região de Portugal. Cresci jogando Pokémon e vendo-te, ladeada pelo Ash e pelo Brock. Pokémon sempre significou muito para mim, ainda significa e terá sempre um lugar especial no meu coração. Isto acontece em parte graças a ti, daí esta carta.

 

Conheci-te quando tinha dez anos. Pelo menos para mim, foste a primeira rapariga no mundo dos Pokémon. Foste tu a dizer, a mim e ao resto do mundo, que os Pokémon não eram apenas para rapazes, que as raparigas podiam também ser treinadoras de Pokémon. Não fosses tu, teria sido mais difícil para mim entrar neste mundo. Por esse motivo, estarei-te sempre agradecida 

 

Durante algum tempo, logo depois de te conhecer, idolatrei-te. Tentava imitar o teu rabo-de-cavalo - sem sucesso, porque o meu cabelo era demasiado curto. Lembro-me em particular de pedir à minha mãe que me comprasse um par de calções de ganga, parecidos com aqueles que usavas. Na altura, não ligava muito a roupa, mas sentia-me feliz usando esses calções com um top amarelo. #MistySwag! Por tua causa (entre outras coisas), água foi o meu tipo de Pokémon favorito durante muito tempo. Hoje em dia não ligo assim tanto aos tipos, mas vários dos meus Pokémon preferidos são aquáticos. 

 

Não eras muito fácil de simpatizar no início, contudo. Devo dizer, tu eras um bocadinho dura demais para o Ash quando o conheceste. Eu sei que ele não é lá muito esperto, é casmurro e costumava passar de super arrogante a zero em auto-confiança numa questão de minutos. Ele precisava de amor duro. No entanto, às vezes parecia que te esquecias que ele era apenas um miúdo, um novato, a aprender tudo do zero.

 

Dito isto, Ash aprendeu imenso contigo, mas tu também aprendeste com ele: com a sua gentileza, a sua sabedoria inocente, com o seu amor genuíno pelos Pokémon. Desde, bem, não exatamente o primeiro dia, desde o segundo (ou terceiro? Não me lembro ao certo...). Um dos meus momentos preferidos em Pokémon foi quando tu estavas a ver o Ash com o seu Metapod recém-evoluído e disseste: "Nunca conheci ninguém como ele. Gosta mesmo de Pokémon." Aposto que também não conheceste ninguém como ele depois. Eu não, pelo menos.

 

Ao contrário da maior parte das pessoas, nunca vos imaginei como parceiros românticos. Sempre vos vi mais como irmão e irmã. Do mesmo modo, houve alturas em que te via a ti e ao Brock como os pais adotivos do Ash.

 

Também gostava da tua relação com o Togepi. Cheguei a invejá-la um boocadinho. Sejamos honestos, todos nós gostaríamos de ter sempre uma coisinha tão adorável como aquela nos nossos braços. Mais à frente, gostei de te ver ligando-te com a Sakura e o Max, que também são irmãos mais novos.

 

Apesar de ter ficado triste quando tiveste de te separar do Ash e do Brock, depois de Johto, hoje compreendo que, a partir de certa altura, não seria suficiente para ti andares sempre atrás do Ash. Eventualmente terias de seguir o teu próprio caminho, cumprir o teu próprio destino. A história de como te tornaste Líder de Ginásio de Cerulean é linda. Tal como muitos de nós no início de um capítulo novo nas nossas vidas, andaste um bocadinho perdida. Estavas habituada a ter sempre o Brock e o Ash contigo. Para piorar, assim que chegaste ao ginásio, tiveste de lidar com um Gyarados descontrolado, de todas as coisas - sobretudo porque tinhas medo deles. Não foi fácil, mas acabaste por conseguir.

 

Gostei em particular do facto de aquilo que te fez ganhar a confiança do Gyarados foi tê-lo protegido contra os Tentacruel, quase morrendo no processo. Recordou-me todas as vezes que o Ash fez o mesmo: enfrentando um bando de Spearow para proteger o Pikachu, escudando o Squirtle no meio de um bombardeamento, atravessando um nevão para salvar a vida ao Pikachu, atirando-se para o meio do combate entre o Mewtwo e o Mew (espera, tu lembras-te disto, certo? O Mewtwo devolveu-vos as memórias que vos retirou, não devolveu?), tratando do Charizard pela noite adentro, fazendo questão de nunca deixar a cabeceira dos seus Pokémon quando estes estão feridos - e estes são os únicos exemplos de que me recordo neste momento. É isto que o Ash faz, ele coloca a segurança dos seus Pokémon acima da sua - ao mesmo tempo, este é o que o Ash tem de mais admirável e de mais frustrante, porque é só por sorte que isso não deu para o torto, até agora.

 

O Ash costuma dizer que os nossos entes queridos nunca nos deixam verdadeiramente. Isso aplica-se a vocês os dois. A maior homenagem que poderias prestar à tua amizade com o Ash foi teres-te provado merecedora do título de Líder de Ginásio fazendo o que ele faria, o que ele te ensinou. Mesmo que não tornes a vê-lo, sabes que és uma treinadora melhor, uma pessoa melhor, só por teres passado tanto tempo com ele. Essa é a beleza de Pokémon: o facto de sempre se ter baseado em amizade, lealdade, amor, tolerância e coragem. Tal como alguém escreveu, "O coração da história de Pokémon não é combater e competir - é o espírito de crescer, explorar a natureza e ver o mundo de modo a tornarmo-nos pessoas melhores". A tua história é um ótimo exemplo disso.

 

Orgulho-me por ter testemunhado a tua caminhada desde menina, que podia ser um bocadinho mazinha quando queria, desesperada por sair da sombra das irmãs, até te tornares uma jovem amável, Líder de Ginásio. Obrigada por me abrires a porta para o mundo dos Pokémon e por tudo o que esse mundo me tem dado ao longo dos anos.

 

Com muito amor,

Sofia

 

Como já afirmei aqui, deixei de acompanhar o anime de Pokémon há muito tempo, mas gosto de ver os filmes à medida que vão saindo - tinha grandes expectativas para o mais recente, protagonizado pelo lendário Hoopa, mas este ficou aquém das mesmas. Ainda jogo Pokémon, se bem que não de forma tão consistente como quando era miúda (por norma, dou prioridade à escrita) e sempre de forma casual. Na verdade, depois de ter estado uns meses sem jogar, há algumas semanas bateu-me a saudade e comecei a versão White 2 (nunca a tinha jogado eu mesma, apenas tinha visto a minha irmã a jogar). Para além disso, no outro dia fui à Fnac do Colombo buscar um Mew, que andaram a distribuir a propósito deste aniversário. Fez-me recordar o meu primeiro Mew, que também trouxe do Colombo há cerca de quinze anos.

 

E agora acabou de ser anunciado um novo par de jogos para juntar à família: Pokémon Sun e Pokémon Moon.

 

 

Não se sabe quase nada ainda sobre esta nova adição à série de jogos (adoro o vídeo que usaram para apresentá-los, mesmo a puxar à nostalgia). Tudo indica que estes serão os primeiros jogos da sétima geração, com novos Pokémon e uma nova região, mas ninguém tem certezas absolutas ainda. Os conceitos de sol e lua, apesar de não propriamente originais (e, de qualquer forma, não são tão óbvios como Preto e Branco ou como X&Y), têm uma infinidade de mitologia associada (a dualidade dia/noite; em algumas culturas, o Sol simboliza fogo, virilidade, poder, coragem, e a Lua simboliza água, feminilidade, fertilidade, duplicidade, entre outros conceitos). Quero ver de que maneira os jogos explorarão essa mitologia. De resto, a dualidade sol/lua já serviu de fonte de inspiração na franquia - Solrock e Lunatone são o exemplo óbvio, mas Espeon e Umbreon interpretam essa dualidade de maneira mais interessante. Para além desses, temos todos os Pokémon que evoluem por Moon Stone/Pedra da Lua (em especial, a família das Clefairy) ou Sun Stone/Pedra do Sol. Por fim, temos Cresselia, que simboliza a lua cheia, Darkrai, que simboliza a lua nova, e Volcarona, que, segundo a Pokédex, chegou a servir de substituto para o sol, depois de uma erupção vulcânica ter coberto a atmosfera de cinza, bloqueando a luz solar.

 

Em todo o caso, novos jogos, novas gerações de Pokémon são sempre uma notícia excitante. Os jogos só deverão sair por altura do Natal, mas até lá vamo-nos entretendo especulando sobre qualquer informação que vá saindo.

 

 

Outra coisa relacionada com Pokémon por que anseio este ano é pela app Pokémon GO, anunciada em setembro último. Pokémon GO será um jogo de realidade aumentada, baseando em localização, estilo Ingress, em que os jogadores poderão usar os seus telemóveis para encontrar Pokémon no mundo real. Segundo informações que vêm saindo, as espécies de Pokémon que poderemos encontrar variarão com as características do terreno - por exemplo, perto de rios ou do mar encontraremos Pokémon aquáticos - certos Pokémon estarão localizados em sítios icónicos, como momumentos; será possível trocar Pokémon e combater com outros utilizadores do jogo; certos lendários poderão ser capturados em eventos próprios; existirão também ginásios e equipas formadas por vários jogadores (esta parte eles ainda não explicaram muito bem...).

 

Este jogo é uma daquelas coisas que eu não sabia que desejava até descobrir acerca dela. É uma das minhas fantasias de infância tornada realidade (houve uma altura quando tinha dez ou onze anos em que eu me imaginava encontrando Pokémon ao pé da minha casa ou nos sítios que visitava). Por norma, quando posso e o tempo está bom, gosto de passear ao ar livre, de andar de bicicleta, De vez em quando, o meu pai gosta de levar-nos a fazer caminhadas. Com Pokémon GO, tenho um incentivo extra. Eu e a minha irmã, que por norma não gosta assim tanto de caminhadas. Pergunto-me, no entanto, o que pensarão pessoas "normais" quando nos virem às voltas num jardim público, de telemóvel na mão, como se procurasse um tesouro escondido. Da mesma maneira, já estou a imaginar o meu pai quando, numa caminhada, eu e a minha irmã ficarmos para trás ou seguirmos por um caminho diferente:

 

- Meninas, onde é que vocês vão?

 

- Só um bocadinho, pai, vamos só ali apanhar aquele Eevee, já voltamos!

 

Contudo, à semelhança do que acontece com muitos outros, tudo isto me parece demasiado bom para ser verdade, receio apanhar uma desilusão. Suspeito que a tecnologia de realidade aumentada será muito básica, pelo menos no início, que tenhamos de pagar por Pokébolas, itens ou atualizações que incluam Pokémon além dos 151 originais. É praticamente certo que a app não funcionará offline, pelo que terei de gerir muito bem os dados móveis do meu smartphone. No entanto, se bem feito, Pokémon GO tem o potencial para ser algo espetacular. Estou a tentar manter as minhas expectativas baixas, mas dou-lhe o benefício da dúvida.

 

02.jpg

 

Já vamos em vinte anos, mas a franquia Pokémon ainda não perdeu a força, ao que parece. Longe de estar perto de me fartar da franquia, como cheguei a pensar há uns tempos, há anos que não me sentia tão entusiasmada com Pokémon - e não há dúvida, de resto, que esta é uma excelente altura para se ser fã da franquia, com a reedição hoje dos jogos originais - Red, Blue e Yellow - para o sistema 3DS (comprámos a Yellow, que nunca jogámos antes), Pokémon Sun&Moon, Pokémon GO, distribuições mensais de lendários, entre outras coisas. Estou cada vez mais convencida de que este casamento tão cedo não acaba.

 

A mais vinte anos de Pokémon!

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