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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Hayley Williams – Petals For Armor (2020) #3

Terceira parte da análise a Petals For Armor. Podem ler as partes anteriores aqui e aqui

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Vamos agora começar a falar sobre a terceira parte do álbum, a tal que representa a fase da borboleta. Esta é a parte mais homogénea das três – tirando Watch Me While I Bloom, todas as faixas são canções de amor, todas sequelas maduras a The Only Exception, de uma forma ou de outra. Não surpreende que estas músicas tenham sido lançadas todas de uma vez, com o resto do álbum. São muito parecidas umas com as outras, talvez até demasiado parecidas, não fazia sentido individualizá-las.

 

Suponho que o elefante na sala seja o novo amor na vida de Hayley, depois do divórcio. Não se sabe se é o mesmo referido em Sudden Desire e Why We Ever – se ela conseguiu reparar a relação que sabotou – ou se é outro homem. Pessoalmente inclino-me para a primeira hipótese, mas é um mero palpite, não tenho nada em que me basear. 

 

Hayley tem explicado muito sobre as músicas deste álbum, mas não revelou a identidade do seu novo companheiro. Não tem essa obrigação. A filosofia Petals For Armor é muito bonita e tal, mas quando envolve outra pessoa o caso muda de figura (aqui entre nós, já é um bocadinho questionável não conhecermos a perspetiva do ex no que toca ao casamento falhado). 

 

Quase toda a gente diz que é o Taylor. Eu sinceramente espero que não. Em parte porque, da última vez que ela namorou um companheiro de banda, a coisa correu mal (é certo que Hayley e Taylor já não são adolescentes… mas mesmo assim).

 

Enfim. Quando Hayley e o namorado estiverem para aí virados (isto se não tiverem acabado entretanto), logo anunciam a relação. Eu pessoalmente não tenho pressa em saber.

 

 

Pure Love, que abre a terceira parte, parece uma resposta direta aos erros cometidos aquando de Why We Ever (isto é, segundo o contexto dado por Hayley). Uma vez mais, musicalmente é guiada pelo baixo e pela bateria, com um ritmo interessante. Quando começam os vocais começa também o teclado (é Hayley quem o toca, pelo menos uma parte. Gosto em particular das notas claras no refrão, a condizer com os agudos (menos polidos, sobretudo nos últimos refrões) de Hayley.

 

A letra de Pure Love é essencialmente a filosofia Petals For Armor aplicada ao romance. Essencialmente, para fazer o seu amor resultar, Hayley teve de aprender a deixar cair os muros, a ser vulnerável, a ser forte em vez de impermeável, como vimos antes. Hayley está disposta a fazer a sua parte para que a relação resulte (“I give a little, you give a little”).

 

No refrão, Hayley fala em ser “experimental”. Segundo ela, é no sentido de descobrir como é ter uma relação adulta e saudável – a primeira da sua vida – ultrapassando o seu medo de intimidade. Também admitiu que pode ser interpretado no sentido sexual, mesmo não tendo sido essa a sua intenção quando escreveu a letra – iria em linha com o tema de Sudden Desire, na minha opinião.

 

Quase todas as músicas desta parte do álbum andam à volta deste tema. Fazem-me lembrar o casal Emma e Hook em Once Upon a Time. Não foi por acaso que me lembrei dela, entre outras personagens, quando Hayley apresentou a filosofia Petals For Armor. Lá está, o romance Captain Swan foi apenas a faceta romântica da coisa – foi, aliás, o último muro a cair.

 

Taken é muito parecida com Pure Love, parecendo quase uma continuação desta última. A instrumentação é praticamente a mesma: baixo, percussão, teclados (ainda que estes últimos só apareçam no refrão). Tem no entanto notas de guitarra que lhe dão um toque de blues – eu gosto. A melodia é mais grave, sem os agudos de Pure Love.

 

 

Mesmo a letra acaba por entrar em territórios parecidos, de uma forma mais vaga até. Fala sobre acreditar de novo no amor, estar disposta a arriscar, tornar oficial: Hayley já não está o mercado. Acrescenta pouco a um álbum que já tem Pure Love e Crystal Clear.

 

Não me interpretem mal, eu gosto de Taken – gosto do ritmo e das influências de blues. No entanto, se tivesse de retirar uma faixa a Petals For Armor, retirava esta – na minha opinião, seria a única em que não se notaria a falta.

 

Sugar on the Rim é uma das músicas mais divertidas e experimentais de todo o álbum. Está entre as minhas preferidas. Claras influências disco nos sintetizadores, os vocais meio artificiais repetindo “sugar on the rim”, o tom algo sexy. Definitivamente nada compatível com o que os Paramore fariam.

 

O título da música vem de uma técnica de preparação de cocktails, em que se fixa açúcar na borda no copo para enfeitar ou alterar o sabor de uma bebida. Brian uma vez fez isso com uma margarita durante um almoço com Hayley (com margaritas é mais comum usar-se sal), dando a ideia para esta canção. 

 

Esse açúcar na borda do copo serve de metáfora (bem… comparação, se quisermos ser rigorosos) para o amor, a alegria que contrabalança com a infelicidade. Ao contrário do Rose Colored Boy, não ignora o lado negro da vida – pelo contrário, Hayley fala em brincar com as sombras, diz que não tem medo do escuro. As coisas boas são suficientes para aguentar as coisas más – no final, doce é o sabor que fica nos lábios (pode também ser uma referência ao amargo em Leave it Alone).

 

 

Por outro lado, Hayley revelou que esta canção também é dedicada à comunidade gay. Suponho que seja por causa do “rimming” (vão ao Google… não em público, atenção!). Mas também a parte da vergonha e de viver escondido é algo com que, infelizmente, muitos da comunidade LGBT se poderão identificar.

 

É um conceito original e uma música muito gira. Se algum dia Hayley conseguir levar este álbum aos palcos, Sugar on the Rim será um ponto alto.

 

Watch Me While I Bloom é a única música nesta parte do álbum que não é uma canção de amor. Funciona um pouco como uma sequela a Rose/Violet/Lotus/Iris no sentido em que usa de novo metáforas florais – sobretudo na parte do “I myself was a wilted woman (...) forgot my roots, now watch me bloom”

 

É sobretudo a canção de vitória de Hayley, que depois dos anos mais difíceis da sua vida, voltou a ser quem era, sente emoções boas de novo. Uma Tell Me It’s Okay mais madura. Hayley está pronta para sair do seu casulo, para desabrochar, para mostrar um novo lado de si mesma. 

 

A música começa precisamente com “How lucky I feel to be in my body again” – aquilo que falámos antes sobre contacto com o próprio corpo. Por outro lado, ninguém me convence que o verso “Big invisible spark” não é uma referência a Let the Flames Begin, Part II e em particular Last Hope.

 

Hayley tem chamado a atenção para os versos “If you feel like you’re never gonna reach the sky ‘til you pull up your roots, leave your dirt behind, you’ve got a lot to learn”. Temos muito a tentação de esperar que a nossa vida esteja perfeitamente resolvida, com as pontas todas atadas, antes de irmos atrás do que queremos. Ou de achar que o processo é linear, que nunca daremos passos atrás. 

 

 

Ora, a vida não funciona assim. Nunca seremos perfeitos, nunca teremos as respostas todas e não podemos ficar parados por causa disso.

 

Havemos de regressar a essa ideia. 

 

Chegamos finalmente a Crystal Clear, a faixa que encerra Petals For Armor, outra que está entre as minhas favoritas. Esta foi outra das poucas em que Hayley não participou na composição da parte musical. Desta feita foi Taylor quem criou este instrumental, com notas de órgão algo etéreas e batidas à Phil Collins. 

 

Uma vez mais temos uma canção romântica, que fala sobre arriscar de novo, acreditar no amor. Quer-me parecer, no entanto, que quando Hayley promete não ceder ao medo não se refere apenas ao romance – também se pode aplicar a outras áreas da sua vida.

 

O título, aliás, pode também aludir à filosofia Petals For Armor. Crystal Clear, transparência, honestidade, vulnerabilidade.

 

Hayley recorre de novo a metáforas aquáticas para falar de um relacionamento amoroso, desta feita numa luz muito mais positiva – o que condiz com a sonoridade, que faz pensar em águas calmas e transparentes, raios de luz atravessando o subaquático. Ao contrário do romance descrito em Pool, este dá-lhe oxigénio em vez de tirar-lho. Não tem medo de mergulhar até ao fundo porque a água continua transparente. Hayley está a arriscar de novo – pode ser que seja desta. 

 

 
 
 
 
 
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O pormenor delicioso desta canção ocorre na parte final, com versos cantados por Rusty Williams, o avô de Hayley – ela trata-o por “Grandat”. Rusty era um “crooner” quando era jovem (consta que era o nome dado a cantores masculinos que cantavam baladas, como Frank Sinatra por exemplo) e Hayley cresceu ouvindo-o cantando canções de amor compostas por ele mesmo. A sua preferida é uma chamada Friends or Lover. Um dia, Rusty tocou-a ao piano em casa de Taylor. Este gravou-a e, como surpresa para Hayley, incorporou uma parte dos vocais de Rusty em Crystal Clear.

 

O Taylor é um anjo.

 

Ficamos assim a saber a quem Hayley sai. A jovem fala muito sobre os avós, que começaram a namorar aos doze anos e ainda hoje estão juntos (isto é, dentro do possível, foi esta a avó que caiu das escadas e perdeu faculdades). É super amoroso, uma bonita homenagem àquela que será a história de amor preferida de Hayley.

 

E é isto Petals For Armor. Como fomos observando, este álbum começou sombrio e tornou-se gradualmente mais luminoso. Mas não nos deixemos enganar, nenhum destes casos ficou completamente resolvido. Hayley afirmou que a sua vida contiua uma confusão, que ainda passa por cada uma das músicas de Petals For Armor. Ainda sente raiva, luto, medo, dor, amor, tudo. Ainda não tem todas as pontas atadas, ainda tem lições por aprender. “As histórias são infinitas, cada uma delas entrelaçada com dor e esperança”, escreveu ela quando lançou o álbum.

 

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Confesso que foi este o meu erro durante a era do Self-Titled: achar que já sabíamos tudo, que nunca voltaríamos atrás, que de alguma forma tínhamos ficado prontos para enfrentar qualquer coisa. Daí o choque quando Jeremy saiu da banda e com os temas abordados em After Laughter. A vida não é assim tão simples, de facto – e se a atual pandemia provou alguma coisa foi que tudo pode mudar de um momento para o outro, quase sem darmos por isso.

 

Por estranho que pareça depois deste testamento todo, ainda estou a processar o álbum. Gosto de todas as faixas, algumas mais do que de outras, mas não consigo escolher uma única como favorita absoluta. As minhas opiniões estão sempre a mudar. Daqui a uns meses, se calhar, terei novas coisas a dizer sobre este álbum.

 

Posso adiantar desde já, de qualquer forma, que Petals For Armor é um belo trabalho. Em termos musicais, é razoavelmente consistente em termos de instrumentação, conforme assinalado ao longo deste texto, mas é bastante eclético em termos de estilos musicais. Temos pop, new wave, disco, baladas, um bocadinho de rock, um bocadinho de jazz, um bocadinho de blues… Hayley e Taylor tiveram uma oportunidade de sair do território habitual dos Paramore, divertir-se um bocadinho noutros estilos musicais. Eu gosto de músicos multifacetados, que conseguem criar música em vários géneros – até porque eu mesma sou multifacetada, nunca fui de me interessar por uma só coisa.

 

Petals For Armor assemelha-se a álbuns como Melodrama e Post Traumatic no sentido em que as músicas funcionam muito bem como conjunto. O álbum é melhor que apenas o somatório das suas partes: vale tanto pelas músicas individuais como pela história que contam em conjunto. Um capítulo da história de Hayley, que continuará no próximo disco que ela lançar (quer a solo ou, mais provável, juntamente com os Paramore). 

 

Tivemos, aliás, uma combinação de temas novos, com perspectivas diferentes, com temas já recorrentes no cânone dos Paramore e não só. Raiva, luto, desejo, feminilidade no primeiro caso. Amizade, esperança, redenção, desgostos românticos e acreditar de novo no amor no segundo. Há coisas que são clichés por algum motivo – há lições que temos de estar sempre a aprender. 

 

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Devo dizer, ainda, que foi divertido estar a olhar para as metáforas e temas recorrentes deste álbum, mesmo nem todos sendo super originais. E estou grata por Hayley ter dado tantas entrevistas, fornecido tanto material para esta análise. Demoro mais tempo a escrever, escrevo autênticos testamentos – gastei quase noventa páginas A5 com o primeiro rascunho manuscrito (é certo que a minha letra é grande), isto já vai em quase dez mil palavras – mas é uma delícia.

 

O que acontece agora? O plano de Hayley era ir em digressão, levar Petals For Armor aos palcos, mas isto é 2020, um péssimo ano para planos. Ela tenciona ir em 2021, mas sabe-se lá se será possível – até porque a situação está catastrófica nos Estados Unidos. Não dá para calcular quanto tempo durará a era Petals For Armor – talvez mais um ano, talvez mais dois. Talvez a pausa nos concertos se prolongue tanto que Hayley se canse de esperar e ela e Taylor comecem a trabalhar noutra coisa. 

 

Já que falamos nisso, Hayley tem deixado pistas em relação à direção tomada no próximo álbum dos Paramore. Para o júbilo de muitos fãs, a jovem admitiu que ela e Taylor têm saudades das guitarras pesadas dos álbuns pré-After Laughter. 

 

Eu devo ser a única fã da banda que não fazia questão de regressar a essa sonoridade. Adoro as músicas antigas deles, claro que adoro, mas fazem parte do passado – tal como o cabelo cor de chama de Hayley. Nunca lhes pediria para voltarem para trás – a uma altura em que, agora sabemos, eles não estavam assim tão felizes. Não quando, hoje em dia, continuam a fazer música de qualidade, melhor até nalguns aspetos.

 

Mas se eles mesmo quiserem regressar a esse estilo não me queixo. O mais certo é adorar à mesma – tenho adorado todos os álbuns até agora… 

 

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Na verdade, mais do que o género musical, estou curiosa em relação à influência de Petals For Armor nos próximos trabalhos dos Paramore. Irá Hayley contribuir para a composição dos instrumentais ou voltará ao hábito antigo de esperar pelo material composto por Taylor e Zac? Por falar em Taylor, irá ele produzir os próximos álbuns sozinho? (Tenho quase a certeza que sim.) Voltarão a compôr com Joey? Irão incorporar estilos de Petals For Armor na música da banda?

 

Eu espero que sim, espero que algumas coisas mudem. Na minha opinião, seria um desperdício não aproveitar o que aprenderam com Petals For Armor para enriquecer o som dos Paramore.

 

Eu, aliás, tenciono escrever em breve sobre All We Know is Falling e Brand New Eyes, os dois álbuns que me faltam analisar. Estes são daqueles textos que ando a adiar há anos mas, pelo menos neste caso, estou contente por ter esperado. Não só porque, como já é habitual no cânone dos Paramore, Petals For Armor fez com que olhasse de maneira diferente para esses álbuns. Mas também Hayley prestou novos testemunhos sobre esses períodos nas múltiplas entrevistas que deu, em particular nesta.

 

Não vou escrever já já sobre esses álbuns. Depois de tanto tempo à volta de Petals For Armor, preciso de uma pausa de tudo o que se relacione com os Paramore.

 

Os meus planos a curto, médio prazo para este blogue ainda estão um bocadinho incertos. Estou a pensar escrever uma entrada de Músicas Ao Calhas, um texto mais rápido e curto que estes últimos dois e, possivelmente, os textos seguintes.

 

É aí que as coisas estão um pouco indefinidas. Já revelei antes que quero escrever sobre Hybrid Theory e Meteora dos Linkin Park em breve. Queria no entanto que o primeiro saísse no dia em que completa vinte anos, ou seja lá para 24 de outubro. Provavelmente começo já a escrever sobre ele em agosto. Sei que o texto vai demorar e, como em setembro e outubro devo estar ocupada com o meu outro blogue (porque, se tudo correr bem, a Seleção irá regressar, fazendo de mim uma mulher feliz), mais vale deixar o trabalho adiantado.

 

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Pelo meio, gostava de escrever sobre o filme Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna, quando conseguir vê-lo. Tecnicamente já dá para sacar na Internet, mas é uma versão de fraca qualidade, não me atrai. Talvez se surgir uma versão melhor entretanto… mas mesmo assim não sei. Supostamente o filme sairá nos cinemas portugueses a 12 de novembro – se isso se cumprir, eu quero ir ver, mesmo que já tenha visto o filme antes. E talvez espere por essa data para escrever e publicar a análise.

 

É assim que tenho sobrevivido a isto tudo: escrevendo, lendo, vendo Digimon (os episódios da nova versão de Adventure ao domingo e, quando esta esteve em pausa porque Covid, vi Frontier pela primeira vez), jogando Isle of Armor, a expansão de Pokémon Sword&Shield, recordando antigos jogos da Seleção Nacional, sobretudo no Euro 2016. Sempre foi mais ou menos assim, agora ainda mais. Como sempre, obrigada por lerem e por me aturarem. Até à próxima!

Hayley Williams – Petals For Armor (2020) #2

Segunda parte da análise a Petals For Armor. Podem ler a primeira parte aqui

 

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Hayley referiu que a divisão de Petals For Armor por partes se inspira também no ciclo de vida da borboleta: lagarta, casulo, borboleta. Uma vez mais, está longe de ser uma metáfora super original. Borboletas até têm sido um elemento recorrente no cânone dos Paramore (Brick by Boring Brick, a capa de Brand New Eyes, Part II, Still Into You…). Petals for Armor explora a sua simbologia mais comum: metamorfose. A trilogia de vídeos Simmer/Leave it Alone/Cinnamon parece inspirar-se nesse conceito. 

 

Falo sobre isto nesta fase da análise porquê? Porque a segunda parte de Petals For Armor corresponde à fase do casulo, a fase mais importante segundo Hayley – porque é quando ocorre a maior transformação. 

 

E de facto, tirando My Friend, todas as músicas da segunda parte de Petals For Armor representam transformação, mudança, de uma forma ou de outra. Dead Horse e Why We Ever ilustram etapas fulcrais na recuperação psicológica de Hayley, como veremos adiante. Por sua vez, Over Yet é uma canção motivacional, apelando à mudança. Por fim, um dos temas de Roses/Violet/Lotus/Iris é crescer e desabrochar. 

 

Falemos então sobre Dead Horse. Hayley foi dando pistas sobre esta música durante semanas, dizendo que estava com medo de lançá-la. Em parte por ser uma música mais pop, por ter medo que se tornasse a sua Hollaback Girl. Em parte porque traz partes negras do seu passado para a luz, é mesquinha tanto para o seu ex-marido como para si mesma. É a primeira da segunda parte da tracklist, mas foi a última a ser lançada. 

 

O instrumental de Dead Horse foi composto por Daniel James. Esta foi uma das poucas canções em Petals For Armor em que Hayley não participou na criação do instrumental – como costumava acontecer com os Paramore, o instrumental foi-lhe “dado”, ela “só” teve de compôr a letra e a melodia. 

 

A faixa, aliás, começa com uma mensagem de voz de Hayley para Daniel, quando lhe enviou os rascunhos em áudio – que foram partilhados no Instagram da jovem. Aparentemente atrasou-se no envio porque esteve deprimida. Fora desse contexto, no entanto, não é difícil ouvir a canção e imaginar que é um pedido de desculpas ao ex pelo que vai ouvir já de seguida.

 

 

Dead Horse tem uma sonoridade algo tropical, com notas de xilofone e batidas dançantes. Faz lembrar o estilo de After Laughter, embora se note que não foi Taylor a compôr este instrumental. Durante os trabalhos desse álbum, Hayley refilava por Taylor só lhe enviar música alegre quando ela se sentia na fossa. No entanto, nestas entrevistas Hayley admitiu que dançar enquanto cantava sobre temas difíceis a ajudava, tinha efeito terapêutico. O mesmo acontece com Dead Horse. 

 

Para falarmos da primeira estância, precisamos de falar sobre o elemento que falta: água. Hayley referiu em entrevista que este sempre foi um tema recorrente nos seus sonhos e pesadelos, daí ter composto algumas canções há volta do tema. Há uma referência breve em Proof, mas o maior exemplo é Pool. 

 

Esta é uma canção de After Laughter, mas Hayley, começou a trazê-la à baila em diversas entrevistas  – de forma algo inesperada na altura mas, depois de ouvirmos Dead Horse, fez sentido. Hayley revelou que Taylor compôs o – fantástico – instrumental, mas esta só conseguiu criar letras e melodias um ano depois. 

 

A jovem queria por força criar uma canção de amor, algo que provasse que o que ela e o ex-marido tinham era verdadeiro, que o casamento fora uma boa ideia. Aquilo que saiu foi uma música em que ela compara a relação a uma onda indomável, um mar agitado em que ela se está a afogar, mas em que ela insiste em mergulhar, à espera de um resultado diferente. E vocês sabem o que se diz de pessoas que fazem o mesmo outra e outra vez, à espera de resultados diferentes…

 

Para ser sincera, Pool é ainda uma das minhas preferidas em After Laughter e, antes disto, nunca me parecera assim tão sombria. A minha interpretação da água é diferente da de Hayley. A água é o meu elemento, representa liberdade, mistério, misticismo. Para mim o subaquático, mar agitado q.b., uma onda indomável, representam excitação, não perigo ou sofrimento. 

 

Mas, lá está, é a minha opinião, compreendo que nem todos vejam assim. 

 

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A primeira estância de Dead Horse é, assim, toda ela uma referência a Pool. A relação é de novo comparada a um afogamento, mas numa luz muito menos positiva. Da primeira vez que ouvi a música, os versos “Held my breath for a decade, dyed my hair blue to match my lips” deixaram-me de olhos arregalados durante o resto da faixa. Credo, Hayley… 

 

Quem não perceber, que vá ao Google e pesquise cianose.

 

A expressão “beat it like a dead horse” refere-se a insistir em algo que já não vai a lado nenhum. Como um casamento. A expressão “I sang along to a silly little song”  e suas variantes podem aludir a várias faixas antigas de Hayley. Toda a gente concorda que se refere às várias canções de amor que a jovem dedicou ao ex-marido – The Only Exception, Proof, Still Into You… – mas a mim também me recorda Stop This Song (Lovesick Melody), em que uma atração romântica e comparada a uma canção irresistível. 

 

Na segunda estância, então, sai a verdade feia: “I was the other woman first”. Hayley começou a andar com o ex quando este ainda estava casado com a primeira mulher, Sherri DuPree. 

 

Para ser sincera, ponho muito menos culpas em Hayley do que no ex. As facetas mais misóginas da nossa sociedade gostam de falar na “outra”, na mulher provocante que seduz um homem para o pecado mas, por amor de Deus, Hayley era uma miúda! Legalmente já era adulta, tinha dezoito ou dezanove anos, mas na prática gente dessa idade ainda mal deixou a adolescência.

 

Por sua vez, o ex já tinha vinte e seis anos, era um homem feito, casado, experiente – enquanto que, para Hayley, conforme referido acima, aquela seria provavelmente a primeira ou quando muito a segunda relação a sério. Acham mesmo que a iniciativa partiu dela?

 

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Hayley assume que estava numa posição vulnerável na altura em que começou a andar com o, agora, ex-marido. Ela e Josh tinham terminado a relação há pouco tempo e os Paramore enquanto banda estavam em guerra. Hayley sentia-se sozinha, provavelmente com a auto-estima em baixo, quando um músico como ela, mais velho, começou a mostrar interesse por ela, ela foi na cantiga.

 

Não quero com isto dizer que Hayley está isenta de culpas. Ela podia ser ainda nova, mas já tinha idade suficiente para saber o que estava a fazer, ao envolver-se com um homem casado. Não é a primeira a cometer este erro, não será a última. Eu mesma não posso garantir a cem por cento que dessa água não beberei – às vezes a paixão e o desejo falam demasiado alto. Mas não deixa de ser um erro, algo que magos profundamente as partes envolvidas. 

 

Hayley tem dado a entender que esteve muito tempo em negação, enterrando bem a fundo essa vergonha ("Held my breath for a decade"): o facto de ter roubado o marido a outra mulher. Tentou racionalizar a coisa, justificar o que fizera a Sherri, dizendo a si mesma e a toda a gente que o ex era o amor da vida dela, a sua… a sua única exceção. 

 

Mesmo quando a coisa começou a descambar, mesmo quando ele começou a trair Hayley (ainda há pouco tempo vimos que, regra geral, se ele ou ela traiu alguém contigo, mais cedo ou mais tarde vai trair-te também), ela insistiu, manteve o noivado, manteve o casamento. Hayley queria, ao mesmo tempo, imitar o casamento vitalício dos seus avós e queria evitar aqueles que, aos seus olhos, tinham sido os erros dos pais. Ao contrário deles, ela conseguiria manter um casamento, em vez desistir à primeira dificuldade. 

 

Ai Hayley, Hayley… 

 

O estado em que ela ficou nestes últimos anos não surpreende tendo em conta os sonhos de que teve de acordar, aquilo que teve de admitir a si mesma e ao mundo inteiro. Pode ter sido essa a batata quente a que After Laughter parece aludir, o piano que caiu em cima dela, conforme referiu no texto que escreveu há dois anos. Não admira que, hoje em dia, Hayley não queira nem ouvir falar de Misery Business (e aqui entre nós, quando descobri que a rapariga a quem a música chama p*ta tinha treze ou catorze anos nos eventos que inspiraram a letra… yep, cancelem Misery Business). 

 

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Sim, as botas que Hayley enche de cimento no videoclipe são as mesmas que usou no casório. Ela mesma o confirmou.

 

Há que dar crédito à Hayley – não é toda a gente que admite erros deste calibre assim, preto no branco. Faz parte da filosofia Petals For Armor: mostrar as partes feias. Deitar cá para fora a raiva, a vergonha, a mesquinhez para, depois, seguir em frente. 

 

Felizmente, consta que Hayley a certa altura entrou em contacto com Sherri e pediu-lhe desculpa. Continuo a achar que o maior culpado é o ex – que ainda por cima já arranjou uma terceira noiva, uma mulher ainda mais nova que Hayley. 

 

Em todo o caso, Dead Horse termina com "And now you get another song". Que seja a última. 

 

Não há muito a dizer sobre My Friend. Musicalmente, está dentro do estilo da maior parte do álbum: notas de guitarra, baixo e bateria leve nas estâncias, teclados no refrão. A letra é uma homenagem a Brian, melhor amigo de Hayley, seu esteticista e co-fundador de Good Dye Young. Conforme Hayley referiu quando lançou a música, eles conhecem-se desde o fim da adolescência, acompanharam-se um ao outro durante muitos altos e baixos (ambos se divorciaram no mesmo ano), são unha e carne. 

 

My Friend está longe de ser um grande destaque em Petals For Armor, mas não deixa de ser uma música bonita. É a World’s On Fire deste álbum – a música que homenageia as pessoas que ajudaram na recuperação emocional descrita em Petals For Armor. 

 

Over Yet é algo diferente da generalidade das músicas em Petals for Armor. É conduzida pelo baio, como várias outras, mas tem um ritmo mais rápido, uma sonoridade algo new wave, à anos 80 e 90 – não muito diferente de algumas faixas de After Laughter. É uma música estival – não admira, tendo em conta que Hayley a compôs, juntamente com Joey e Stephanie Marziano durante uma curta escapadinha de verão – muito gira, com uma mensagem de otimismo e motivação…

 

 

...que não tem nada a ver com o que tem vindo de Hayley nos últimos anos.

 

Lembro-me de ter estranhado logo no dia em que saiu. A letra parece ter sido escrita do ponto de vista do Rose Colored Boy, com o tom otimista irritante de que Hayley se queixava em After Laughter. Diz essencialmente “what doesn’t kill you makes you stronger”

 

Cheguei a perguntar-me se Hayley tinha sido raptada e Over Yet era a maneira que arranjara de pedir ajuda. 

 

Hayley revelaria mais tarde que, de facto, estranhara a letra otimista que lhe estava a sair da caneta. Para terminá-la teve de se imaginar na pele (pele é como quem diz…) de uma instrutora de aeróbica num universo distópico futurista que, a meio da canção, perde a pele revelando ser um robô (podia ser uma personagem de Sonic Underground). De uma maneira paradoxal, para escrever esta letra luminosa, Hayley teve de aceder a uma parte bastante sombria de si mesma.

 

Eu confesso que, de início, não adorei a letra. Em parte por causa do timing: saiu no início de abril, em pleno estado de emergência. It’s the right time to come alive? Qual quê! Aquela ela a altura perfeita para não nos levantarmos da cama – para quê, se nem sequer podíamos sair de casa? Mesmo quando Hayley publicou um vídeo de aeróbica (com o cabelo pintando de laranja. Não me parece que tenha sido coincidência), não me entusiasmei – para ser justa, apanhou-me num mau dia.

 

No dia seguinte, no entanto, lá experimentei fazer os exercícios do vídeo. Durante todo o mês de abril e parte do mês de maio fiz este vídeo quase todos os dias, para compensar pela falta de natação e de longos passeios a pé.

 

 

Este sim é o tipo de exercício, de dança, que está dentro das minhas capacidades. Não digo que fizesse todos os passos na perfeição, mas ao menos mexia-me. De início fazia os exercícios de calças de ganga porque nem sequer tinha calas de fato de treino – como nunca fui de ir ao ginásio, nunca tinham feito falta. Além disso, nunca gostei de leggings e, parva como sou, não me lembrei de calças de pijama. Eventualmente comprei um par online.

 

O vídeo de Over Yet tornou-se, assim, parte da minha rotina durante o estado de emergência. Infelizmente, quando retomei o horário normal do trabalho, deixei de ter tempo – e, sejamos sinceros, energia – para fazer o vídeo. Eu na verdade devia retomar esse hábito… mas está demasiado calor. Em todo o caso, fez com que me afeiçoasse à música. 

 

Como referido acima, Hayley alega que a mensagem de Over Yet não é completamente honesta, insinuando mesmo que é uma paródia. O que é estranho, tendo em conta o conceito deste álbum. 

 

Além disso, a letra não me parece tão pouco genuína quanto isso. Pode aproximar-se perigosamente do cliché, mas incorpora o estilo de escrita de Hayley, dando-lhe um carácter próprio. Frases como “make it a friend”, “get out of your head” (um conceito familiar em saúde mental) e, sobretudo “for every darkened part of me, there’s a light I can see, both belong, both are me”). 

 

Não é a primeira vez que refiro aqui, aliás, que Hayley tem dentro de si partes cínicas e partes sonhadoras e isso nota-se na música dela. Ela pode racionalizar como quiser mas a letra de Over Yet veio de algum lado.

 

E não há mal nenhum nisso. Às vezes precisamos mesmo de uma música motivadora, mesmo que não muito original, para nos dar energia. Ou, pelo menos, para fazermos aeróbica em confinamento. 

 

 

Num álbum chamado Petals For Armor, era de esperar pelo menos uma canção sobre flores. Essa é Roses/Violet/Lotus/Iris. De início não achei grande piada ao título comprido – não teria sido melhor chamar-lhe Flowers ou Garden? Mas acabei por me habituar – sobretudo depois de decorarmos a letra do refrão. 

 

Musicalmente temos de novo a prevalência do baixo, mas também temos guitarra acústica e violinos delicados. A mim soa-me um pouco a música de fundo, à banda sonora de um documentário sobre a Primavera – o que até condiz com a letra. Confesso que precisei de algum tempo para tomar-lhe o gosto. A faixa conta com a participação das cantoras Julien Baker, Phoebe Bridger e Lucy Dacus, que formam o grupo boygenius. 

 

Roses/Violet/Lotus/Iris usa flores como metáfora para feminilidade e resiliência, força e vulnerabilidade em simultâneo. Uma analogia que, a própria Hayley admite, é tão velha como o tempo. Flores representam a jornada emocional de Hayley, de “mulher murcha”, abrindo caminho através da terra até desabrochar à superfície. Flores crescem a ritmos diferentes, sem se prejudicarem umas às outras, por vezes com a ajuda uma das outras.

 

O lótus em particular, referido no refrão, cresce em lama ou em águas estagnadas. Daí que, em várias culturas, simbolize beleza interior, pureza, renascimento, visto ser capaz de se alhear do ambiente feio e hostil onde nasce e desabrochar à superfície com grande beleza. 

 

Flores silvestres em geral, que adoro ver nos campos, sobretudo durante a primavera, nascem onde querem, quando querem, segundo as suas próprias regras. A papoila vermelha, a minha flor preferida, livre para crescer num campo qualquer. 

 

Roses/Violet/Lotus/Iris possui, assim, uma mensagem feminista sobre resiliência, rebeldia e solidariedade feminina. Um dos temas recorrentes nas entrevistas disse respeito à misoginia que teve de enfrentar ao longo de toda a sua carreira. 

 

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Ao mesmo tempo, nem sempre terá tido as melhores relações com outras mulheres. Veja-se a misoginia internalizada de Misery Business e também a história contada em Dead Horse. Uma das coisas que Hayley aprendeu nos últimos anos foi, então, a abraçar a sua própria feminilidade e a cultivar amizades com outras mulheres. Roses/Violet/Roses/Iris é uma homenagem a isso.

 

Segundo Hayley, Why We Ever reflete um ponto de viragem na sua vida. Conforme Sudden Desire dera a entender, Hayley entrara noutra relação após o seu divórcio. Até estaria a correr bem mas, segundo o que consigo deduzir das declarações de Hayley, o seu medo de ser magoada de novo levou a que sabotasse a relação – magoando o parceiro, ironicamente.

 

Uma coisa é Hayley sofrer por causa do seu passado, pelos múltiplos divórcios dos pais, pela falta de estabilidade na infância, pela relação tóxica que durou uma década. Outra coisa é quando outras pessoas, entes queridos de Hayley, saem magoados. 

 

Terá sido nesta altura que Hayley percebeu que os seus traumas, o seu medo de abandono, afetavam todas as suas relações, nem sequer apenas as românticas (eu pergunto-me mesmo se terão contribuído, pelo menos em parte, para os múltiplos conflitos nos Paramore). Atraía pessoas tóxicas e alienava pessoas boas. Estava na altura de mudar isso, de Hayley tomar responsabilidade pela sua própria saúde mental, identificar os seus maus hábitos e tentar mudá-los, aprender a amar melhor. 

 

Isto é tudo muito bonito (não estou a ser irónica), mas se ouvíssemos a música por si só, sem contexto, não chegávamos ao significado oficial. Why We Ever parece apenas sobre uma relação falhada, sobre saudades e arrependimento, em que a narradora quer uma oportunidade para pedir desculpa e consertar as coisas. Tudo muito vago – o que é uma pena. Se Why We Ever refletisse a história por detrás dela como deve ser, teria uma letra muito diferente. 

 

 

Musicalmente, Why We Ever é conduzida pelo teclado, a que mais tarde se junta o baixo, a bateria e notas de guitarra. Terá sido a primeira música que Hayley gravou sozinha em sua casa, usando o ProTools e equipamento que comprou em finais de 2018 – embora a primeira tentativa não tenha saído grande coisa. Dá para ver vídeos dessa experiência no seu Instagram

 

A mim recorda-me o cover de Nineteen, de Tegan e Sara, que Hayley gravou em 2017. Esta é uma versão minimalista, apenas com sintetizadores e voz. Tem um tom mais intimista e vulnerável que a versão original, parecido ao de Why We Ever.


Em retrospetiva, não admira que Hayley tenha gravado este cover naquela altura. A jovem teria, de facto, dezanove anos no início da relação com o, agora, ex-marido. E este cover saiu poucos meses após o anúncio do divórcio. Pergunto-me a quem se dirige o verso que Hayley acrescentou, “Could you blame me?”. Ao ex, a Sherri ou a si mesma?

 

E com isto chegámos ao fim da segunda parte de Petals For Armor, ou seja, ficamos por aqui hoje. Regressem amanhã para a terceira parte. 

Hayley Williams – Petals For Armor (2020) #1

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Hayley Williams, mais conhecida como vocalista dos Paramore, lançou no passado dia 8 de maio o seu primeiro álbum a solo, intitulado Petals For Armor.

 

Este álbum foi lançado três anos quase certinhos depois do último álbum dos Paramore, After Laughter. Como vimos na altura, este álbum fala sobre o que acontece quando a batata quente explode nas nossas mãos – aspetos da vida de quem lida com problemas de saúde mental ou que, pura e simplesmente, passa por… bem, tempos difíceis (desculpem-me, eu sei que é a terceira vez, não torno a repetir). 

 

Por incrível que pareça agora em retrospetiva, durante os trabalhos de After Laughter e mesmo durante quase todo o ciclo do álbum, Hayley nunca admitiu preto no branco, nem sequer a si mesma, que sofria de depressão. Deixava pistas numa entrevista ou outra, mas hesitava em chamar-lhe pelo nome – em parte para evitar títulos clickbait, em parte porque ainda não fora diagnosticada oficialmente. 

 

Hoje a jovem admite que estava em negação, a reprimir questões, emoções (sobretudo raiva) com que mais tarde teria de lidar. As letras de After Laughter foram apenas dos primeiros sinais.

 

Aliás, antes do lançamento de Petals For Armor, estive a ouvir todos os álbuns dos Paramore, em jeito de preparação. Reparei que After Laughter fala, de facto, de dor, de tristeza, mas não sobre as causas de tais emoções – tirando músicas como Forgiveness (que mesmo assim é muito vaga, falando apenas de ter sido magoada e não conseguir perdoar) e Tell Me How. 

 

Sabendo o que sabemos agora, dá para ver que After Laughter – ou seja, Hayley – não estava a contar a história toda. Foi apenas o começo.

 

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Praticamente toda a era After Laughter foi difícil para Hayley. Esta anunciou o divórcio de Chad Gilbert depois de apenas um ano de casamento poucas semanas após o lançamento do álbum. A certa altura, Hayley deixou de comer, começou a beber em excesso como auto-medicação para a sua depressão (e eu acho que também terá tido o seu quê de rebeldia à adolescente, pois o ex-marido é “straight edge”, não bebe álcool), deixou mesmo de ter ciclo menstrual.

 

Uma coisa boa dessa fase má foi que os seus amigos – membros oficiais da banda, membros acompanhantes, equipa técnica (é esse o termo?) em torno da banda – se uniu protetoramente em torno de Hayley, tomou conta dela. 

 

Eventualmente a saúde mental de Hayley melhorou um pouco. De qualquer forma, só quando o ciclo de After Laughter terminou é que a jovem começou a lidar a sério com os problemas que adiara durante meses, mesmo anos. Foi nessa altura que Hayley foi finalmente diagnosticada com depressão e stress pós-traumático, chegando mesmo a ser internada durante um breve período. 

 

Durante os tratamentos psicológicos, Hayley foi encorajada a compôr música para fins terapêuticos, apesar de os Paramore estarem em pausa por decisão conjunta. De início, Hayley queria pura e simplesmente lançar as músicas no Spotify sob um pseudónimo (duvido que resultasse, a voz dela é demasiado reconhecível), mas isso não faria justiça ao material. Daí Petals For Armor.

 

As primeiras músicas deste projeto foram lançadas no início d-e 2020 (parece que foi há anos). Na altura, analisei as primeiras duas, Simmer e Leave it Alone. Numa boa parte desse texto escrevi longamente sobre os anos anteriores a Petals For Armos em jeito de contexto. 

 

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Desde que publiquei essa análise, no entanto, Hayley deu muitas – mesmo muitas – entrevistas sobre os últimos anos, fornecendo muitos mais pormenores. Em vez de estar a reescrever a introdução da análise com base nessas entrevistas, só mencionarei essas informações quando estas forem relevantes para a análise das músicas. 

 

Até foi bom, por um lado, ter escrito esse texto antes dessas entrevistas todas. Permitiu-me o exercício de fazer as minhas próprias interpretações, com apenas o artigo no L’odet e pouco mais em que me basear e, mais tarde, ver onde tinha acertado ou não. 

 

Na verdade, Hayley lançou mais três músicas – Cinnamon, Creepin’ e Sudden Desire – poucos dias após eu publicar a minha análise. Anunciou também que o álbum sairia em três tranches (podia ter avisado logo que saiu Simmer, eu teria esperado pela primeira parte toda antes de escrever). A ideia era lançar a primeira parte no inverno (e assim aconteceu), a segunda no início da primavera, a terceira no dia 8 de maio (dia do lançamento oficial do álbum), perto do verão.

 

No entanto, o Coronavirus mexeu com esses planos – como mexeu com os planos de toda a gente para este ano. Numa altura em que ficou toda a gente em confinamento, Hayley decidiu lançar as músicas da segunda parte de Petals For Armor individualmente, mais ou menos uma por semana. A terceira parte, por sua vez, saiu toda no dia 8, à mesma.

 

Acabou por ser melhor assim. As músicas que iam saindo foram um bom consolo, um bom entretenimento durante o estado de emergência, uma altura em que praticamente não acontecia nada que não fosse Covid. Esperei pelo lançamento do álbum antes de escrever sobre as músicas, dando tempo a mim mesma para ir apreciando a espera.

 

Por outro lado, todas as entrevistas, todas as informações que Hayley forneceu sobre as quinze faixas deste álbum deram-me imensa matéria-prima para esta análise. Daí eu ter demorado tanto a escrevê-la, daí esta ter chegado às dez mil palavras. Assim, resolvi dividi-la em três partes – tal como Hayley fez com este álbum. Esta é a primeira parte, as outras duas saem amanhã e depois.

 

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Esta maneira de lançar o álbum fez-me lembrar o que aconteceu com Post Traumatic, de Mike Shinoda. Mike também começou por lançar três músicas no início de 2018, perto do fim de janeiro. Ao longo dos meses seguintes foi lançando outras, concluindo com o álbum completo em junho. O objetivo era criar uma ilusão de tempo real com o lançamento das canções. A própria tracklist segue uma ordem mais ou menos cronológica. 

 

O mesmo aconteceu com Petals for Armor. Também aqui as faixas estão organizadas por ordem cronológica. Hayley procurou lançá-las mais ou menos na mesma altura em que as compusera, no ano passado. As partes, aliás, correspondem todas a uma estação do ano. A primeira ao inverno (daí, como vimos acima, as músicas terem saído em finais de janeiro, princípios de fevereiro), a segunda à primavera, a terceira ao verão. 

 

O pior foi que 2020 não está a ser de todo o melhor ano para esse modelo. A primavera devia ser uma altura de maior leveza, mais luz, de esperança após os rigores do inverno. Só que, este ano, coincidiu com a chegada do Coronavírus a Portugal. Naquela que costuma ser a minha altura preferida do ano, com mais vontade de sair de casa – dias mais compridos, tempo mais quente, flores silvestres em todo o lado – tivemos de ficar em confinamento. 

 

Mais sobre isso adiante. 

 

Uma coincidência engraçada é o facto de os vocalistas das minhas três bandas preferidas da atualidade lançaram álbuns a solo como forma de lidar com momentos difíceis das suas vidas. Sharon den Adel, vocalista dos Within Temptation, criou My Indigo quando o pai adoeceu (acabando por falecer). Mike Shinoda criou Post Traumatic enquanto se tentava adaptar à vida sem o seu melhor amigo e co-vocalista dos Linkin Park, Chester Bennington (e tenho vindo a descobrir que várias das canções desse álbum se aplicam à pandemia, nomeadamente Nothing Makes Sense, Promises I Can’t Keep e World’s On Fire). E agora Hayley criou Petals For Armor após anos em depressão. Os três sentiram necessidade de se separarem das respectivas bandas para estes projetos em específico. 

 

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Os motivos são diferentes em cada um dos casos, contudo. My Indigo tem uma sonoridade bastante diferente da discografia de Within Temptation, tirando um elemento ou outro. Post Traumatic não está muito muito longe do território dos Linkin Park mas, para além de ser muito mais pessoal que o costume com a música da banda, foi criado no primeiro ano após a morte de Chester – demasiado cedo para os Linkin Park voltarem ao ativo. 

 

Os motivos de Hayley para lançar um álbum a solo são um híbrido dos dois acima. Se por um lado as letras dos Paramore foram sempre escritas por Hayley, segundo o seu ponto de vista, em termos musicais existe em Petals For Armor uma certa simplicidade e experimentalismo que talvez não ficasse bem na discografia da banda. Para começar, a maior parte dos vocais são baixos – algo que já tinha acontecido nos momentos mais vulneráveis de After Laughter. Hayley admitiu que não aquecia a voz antes das gravações e isso nota-se em vários dos agudos – Hayley soa mais rouca que o habitual.

 

Em termos de instrumentais, tirando um caso ou outro, estas músicas também não ficariam bem num álbum dos Paramore. A maior parte das faixas de Petals For Armor tem carácter próprio, distinto umas das outras, mas existem instrumentos comuns à quase todas. Nomeadamente a prevalência do baixo – já que muitas das músicas foram co-compostas por Joey Howard, baixista acompanhante. Havemos de ver com maior detalhe adiante. 

 

Além de que alguns dos temas abordados em Petals For Armor, como sexualidade e feminilidade, talvez não se encaixassem muito bem na discografia de uma banda com dois homens. 

 

Por outro lado, apesar de isto ser tecnicamente um projeto a solo de Hayley, os seus companheiros de banda não ficaram de fora. Taylor co-compôs várias faixas – apesar de Hayley ter contribuído mais do que antes para o instrumental – e produziu o álbum todo. Zac contribuiu menos mas sempre tocou bateria nalgumas faixas e realizou o vídeo de Dead Horse. 

 

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No outro dia dei com um meme que troçava das pessoas que acham que os Paramore são só Hayley. Eu ri-me em duplicado porque nem sequer Hayley a solo é apenas Hayley. Por outro lado, li algumas críticas a Petals For Armor dizendo coisas como “Hayley Williams liberta-se das restrições dos seus companheiros de banda” – só prova que o autor não fez o trabalho de casa. Como reza esta entrevista, Hayley está a solo, mas nunca sozinha.

 

Petals For Armor, na verdade, é um álbum de estreias, não apenas para Hayley. É o primeiro álbum a solo dela, é o primeiro em que é creditada na instrumentação, mas também é o primeiro álbum produzido a solo por Taylor. É também o primeiro em que Joey Howard compôs. E essa simplicidade e relativa ingenuidade dá carácter a Petals For Armor.

 

Como vimos acima, este álbum está dividido em três partes e um dos temas dessa divisão são estações. Hayley também afirmou que a divisão também se relaciona com elementos: a primeira parte representa o fogo, a segunda representa a terra, a terceira representa a água.

 

Com a primeira parte concordo, e explicá-lo-ei adiante. Com as outras não. A meu ver, a água e sobretudo a terra aparecem um pouco por todo o álbum, não se limitam apenas à segunda e terceiras partes.

 

O segundo, aliás, relaciona-se com os principais temas de Petals For Armor. Flores que emergem da semente, abrem caminho através da terra para florescerem à superfície. A definição de feminilidade segundo Hayley: mãos na terra, coisas ao mesmo tempo nojentas e belas, como menstruar e dar à luz.

 

Não é uma metáfora propriamente original, a própria Hayley admite-o. A figura da Mãe Terra, Mãe Natureza está presente em muitas culturas. 

 

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Na minha opinião, a imagem das mãos na terra também significa contacto com o próprio corpo. Na cultura judaico-cristã tenta-se fazer uma separação entre o corpo e a mente, mas estarão assim tão desligados um do outro? Afinal de contas, vários problemas de saúde mental, como depressão, estão ou podem estar relacionados com desequilíbrios químicos e/ou hormonais. 

 

Uma das lições, aliás, que Hayley aprendeu, conforme explica nesta entrevista, nestes últimos anos foi que os nossos corpos não mentem. A entrevistadora deu um exemplo de um amigo que percebeu que já não estava apaixonado pelo seu parceiro quando deixou de gostar do cheiro dele. 

 

O que, a mim, me recordam os primeiros meses com a minha Jane, por estranha que seja a comparação. Quem tenha lido este texto saberá que não foi um vínculo instantâneo, que as primeiras semanas não foram fáceis. No entanto, lembro-me que, na altura em que comecei a afeiçoar-me a ela, comecei a gostar do cheiro da cabeça dela, da textura do seu pêlo.

 

Por outro lado, Hayley revelou sofrer de dores de estômago constantes durante imenso tempo. Há uns anos referiu em entrevista ter surtos de acne durante as piores crises dos Paramore. E, como já referimos antes, a perda do seu ciclo menstrual por causa do stress do casamento.

 

Existem várias referências a contacto com o corpo em Petals For Armor. Em Simmer, Hayley fala sobre sentir o rubor da raiva no rosto. Em Cinnamon fala sobre tomar o pequeno-almoço nua. Em My Friend, o amigo em questão (Brian, o esteticista de Hayley e co-fundador da Good Dye Young) viu-a “de todos os lados”. Em Roses/Violet/Lotus/Iris promete não comparar o seu corpo, a sua beleza, com os dos demais (sobretudo os das demais). 

 

Também aborda o lado sexual do contacto com o próprio corpo: veja-se Sudden Desire e a cena da banheira e das ostras no videoclipe de Cinnamon.

 

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Por fim, não é por acaso que Watch Me While I Bloom, o mais parecido com uma canção de vitória em Petals For Armor, abre com "How lucky I feel to be in my body again". 

 

Mas falemos então sobre a primeira parte do álbum. Durante algum tempo não tive a certeza sobre qual das músicas abriria o álbum: Simmer ou Leave it Alone. Acabou por ser Simmer, o que faz sentido: pela introdução com o som de perigo, os fôlegos simbolizando alívio de tensão, a poderosa primeira frase: "Rage is a quiet thing".

 

Como referido antes, escrevi sobre Simmer na altura em que saiu. Fico feliz por ter acertado nas minhas interpretações no que toca à raiva no feminino. E, de certa forma, na parte de a segunda estância ser difícil para Hayley. Esta revelou em entrevistas que quando tentou gravar estes versos pela primeira vez teve de interromper a meio. 

 

Simmer de resto adequa-se ao ano em que saiu, sobretudo pelos protestos do #BlackLivesMatter. Não tenham dúvidas, estes resultam de raiva que borbulhou durante anos, mesmo décadas, até finalmente servir de combustível a estas manifestações. E já teve o efeito de, entre outras coisas, pôr a sociedade portuguesa a falar sobre racismo como nunca falara antes. Não é suficiente, mas é um começo. 

 

 

Continuo a gostar imenso de Simmer, acho que é uma das melhores em Petals For Armor. Quando uma pessoa pensar em raiva, o mais certo é pensar em algo exuberante, barulhento, agressivo. No entanto, por vezes uma raiva explosiva, que se pode confrontar diretamente, assusta menos que uma raiva controlada, que borbulha sob a superfície – porque pode entrar em erupção a qualquer momento. Simmer representa bem essa ideia, com a instrumentação relativamente minimalista e os vocais contidos, magnéticos, de Hayley.

 

Além disso, esta música ensinou-me uma maneira de lidar com a raiva e seus derivados (irritação, impaciência): respirar fundo e sussurrar para mim mesma “simmer simmer simmer simmer simmer… Simmer simmer simmer simmer simmer”, como no vídeo de interlúdio. Tendo em conta o número de covidiotas com que tive de lidar ao longo dos últimos meses, o truque veio em boa altura.

 

Em relação a Leave it Alone, as minhas opiniões não mudaram. Depois de ter de ouvi-la em loop para escrever sobre ela, durante muito tempo não quis ouvi-la pelos motivos que expliquei nessa análise. Em minha defesa, a própria Hayley admite que nem sempre lhe é fácil ouvir Leave it Alone – é uma música pesada em termos de emoções.

 

No entanto, ouvindo-a no contexto do álbum não deprime tanto. 

 

Nesse sentido, o lançamento de Cinnamon, poucos dias depois de concluir a minha análise, veio mesmo a calhar: o sabor doce e amadeirado da canela para contrabalançar com a amargura deixada na língua por Leave it Alone. 

 

Cinnamon é uma das minhas preferidas em Petals For Armor, deliciosamente esquisita – com uma letra que fala de coisas deliciosamente esquisitas e um videoclipe deliciosamente esquisito. Esta crítica descreveu-o de forma soberba: é como se tivesse sido composta do ponto de vista da velhota com cinco gatos (embora Hayley pareça gostar mais de cães). 

 

 

Segundo Hayley, Cinnamon começou com ela brincando na bateria de Taylor. A jovem, aliás, toca vários instrumentos nesta: guitarra, teclados, parte da bateria. É este último instrumento que, de resto, conduz a música: os outros pura e simplesmente vão-se juntando.

 

É um exemplo da simplicidade e ingenuidade que referimos acima, de que Hayley falara na nota de apresentação de Petals For Armor.

 

Em termos de letra, Cinnamon é uma ode à casa de Hayley. A mesma que estava infestada de morcegos, tal como amplamente comentei na análise a Simmer e Leave it Alone. Fiquei aliviada por saber que Hayley pagou a uma empresa para se livrar dos morcegos (dez mil dólares, o que não é nada barato mas, meu Deus… morcegos numa casa!). Eventualmente Hayley começou a decorá-la a seu gosto a pouco e pouco, e a casa tornou-se o seu refúgio.

 

Não admira que Hayley esteja tão apegada à sua casa, tendo em conta que, em criança, nunca teve uma morada fixa. Pais divorciados quando ela era muito pequena. Anos mais tarde ela e a mãe tiveram de fugir do companheiro desta: mudaram-se do Mississipi para Franklin, viveram em hotéis, numa caravana, em casas de amigos, num apartamento com móveis doados. 

 

Entretanto, Hayley juntou-se aos Paramore, passou os últimos anos da sua adolescência em digressão. Mesmo quando arranjara as suas próprias casas, era já tendo em consideração o, agora, ex-marido. 

 

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Esta é a primeira casa que é verdadeiramente sua. Onde é livre para exprimir o seu lado feminino, o seu lado estranho, para acender as luzes todas, para andar nua. Um pouco como Party For One, de Carly Rae Jepsen – Cinnamon é também um hino de introvertidos.

 

A letra de Cinnamon faz também referência a Alf, o cão de Hayley, que também faz vezes de psicólogo. Queria tirar uns parágrafos para falar da coisinha peluda de Hayley. No momento mais doloroso da primeira entrevista com Zane Lowe, a jovem revelou que o motivo pelo qual ela não sucumbiu à depressão foi porque sabia que Alf ficaria à espera que ela regressasse a casa. 

 

Não vou dizer que não compreendo. Quem tem cão – ou mesmo quem conheça a história do Hachiko – compreende. Pode parecer algo frio falar de um animal antes de falar dos seus pais, dos seus avós, de Taylor, Brian, Zac, etc, mas acho que consigo perceber o raciocínio toldado pela depressão de Hayley. Os seus entes queridos humanos conseguiriam compreender o que acontecera, racionalizar, seguir em frente.

 

O que é um disparate. Se eu ainda não consegui aceitar o que aconteceu a Chester e nem sequer conhecia o homem… Mas pronto, depressão.

 

Alf, por sua vez, nunca saberia o que acontecera, ficaria sempre à espera. 

 

Nunca tive pensamentos suicidas assim tão graves, felizmente, mas posso testemunhar que ter um cão, como a minha Jane, dá motivo para viver. E de facto dão bons psicólogos. Ainda há uns tempos estava eu a chorar – stress do trabalho e do Coronavírus – e a Jane deixou-me abraçá-la (algo que nem sempre deixa).

 

*pausa para sessão de festinhas à Jane*

 

 

Regressando à casa em si, Hayley assume mesmo que esta é uma metáfora de si mesma. Assustadora, cheia de morcegos, despida em 2017, melhorando ao longo dos anos seguintes, ganhando carácter e beleza à sua maneira.

 

O videoclipe reflete essa metáfora: o último da trilogia que inclui Simmer e Leave it Alone. Hayley emerge do casulo e explora a casa onde fora parar. Uma casa habitada por figuras sem rosto – personificações da própria casa, da mobília, da decoração. Mesmo dos demónios de Hayley, dos seus lados esquisitos, da sua feminilidade. Como acontecera na vida real com a casa verdadeira, de início Hayley teve medo, mas começa a rever-se nas estranhas figuras e decide ficar.

 

O momento mais inesperado do vídeo de Cinnamon é a coreografia. Hayley alega que esta é a primeira vez que dança oficialmente desde que teve aulas de hip-hop antes de se juntar aos Paramore. No entanto, fãs que foram aos concertos da digressão de After Laughter não ficaram surpreendidos, garantem que Hayley sempre soube dançar.

 

Confesso que esta parte está além das minhas capacidades. Também tive aulas de hip-hop, mais ou menos na mesma idade que Hayley. Não tinha jeito absolutamente nenhum para aquilo. Gosto de dançar, mas à parva, sem coreografia – ou então coreografias muito simples, muito básicas, estilo… aeróbica (mais sobre isso adiante).

 

A música seguinte no álbum é Creepin’. À semelhança de muitas neste álbum, é conduzida pelo baixo. Hayley toca guitarra, teclado, mas a faixa conta também com a participação de Mike Weiss, guitarrista dos MewithoutYou, a banda preferida de Hayley. A faixa tem um tom sombrio mas também vagamente dançante. 

 

 

A letra fala sobre vampiros de energia. Para quem não sabe (eu não sabia), vampiros de energia são pessoas tóxicas, egoístas, egocêntricas, que sugam a felicidade, a energia emocional, das pessoas que as rodeiam. Tais pessoas são incapazes de empatia, o mundo gira à volta delas, deixam os demais exaustos só de lidar com elas. 

 

Não sei se alguma vez conheci pessoas que se encaixem perfeitamente nesta definição, mas conheci parecidas – colegas de escola ou de faculdade, utentes da farmácia… Uma delas nem sequer posso descrever como má pessoa, mas exigia sempre atenção, metia-se em conversas e assuntos que não lhe diziam respeito, nunca percebia quando não era desejada, fazia-se sempre de vítima. 

 

Outra é uma utente da farmácia, tão egoísta, tão tóxica, que eu e as minhas colegas suspeitamos que afastou toda a gente da sua vida. Nós somos as únicas que a aturamos porque não podemos dizer-lhe “não” – por enquanto. 

 

Eu na verdade tenho vindo a aperceber-me, nestes últimos meses, que os verdadeiros vampiros de energia são as redes sociais, nomeadamente o Twitter e o Facebook. Esses sim, sugam a energia e a vontade de viver de nós, com tanto sensacionalismo e discussões estúpidas (embora hajam alturas piores do que outras). Nos tempos mortos tenho tentado trocar essas redes pelo Kindle e pelo TV Tropes. 

 

Em Creepin’, Hayley usa imagens vampirescas para dizer que ela e os seus já não se deixam afetar pela toxicidade (“We bleed holy water”, “I’m a moon in daylight”). No refrão diz que basta baixar a guarda por um bocadinho para o vampiro cravar os dentes e não largar mais. E se o bicho quer sugar parte dela, que sugue as recordações do ex-marido. 

 

É uma música gira, mas não está entre as minhas preferidas.

 

 

Uma que está, no entanto, é Sudden Desire. Esta é outra conduzida pelo baixo, num tom intimista que ganha intensidade no refrão, acompanhando os vocais impressionantes de Hayley. Na altura em que esta música saiu, era a primeira vez em muito tempo que ouvíamos Hayley a atingir tais agudos – After Laughter teve poucos momentos assim, infelizmente, embora seja compreensível porquê.

 

A meu ver, Sudden Desire é o equivalente a Simmer mas para outro pecado capital segundo o cristianismo: a luxúria. Esta no entanto é diferente da raiva. Toda a gente sabe que o cristianismo sempre teve uma relação complicada com a sexualidade. 

 

Durante séculos a Igreja pregou que o sexo fora do casamento era pecado (isto apesar de terem havido papas sexualmente ativos durante o seu pontificado, um rei português cuja amante preferida era uma freira e, pior de tudo, inúmeros praticantes de pedofilia no seio da Igreja). A nossa sociedade é cada vez mais laica, o que é uma coisa boa, mas ainda não conseguimos libertar-nos por completo de tais crenças.

 

Pegando de novo no conceito de contacto com o próprio corpo, eu penso que este desconforto da Igreja com o erótico poderá ter a ver com a separação do corpo e da mente. Acho também que, na prática, a diabolização da sexualidade serviu, sobretudo, para manter as mulheres sob controlo, para reprimir a sua libido, de modo a que os homens não tivessem dúvidas sobre a paternidade dos seus filhos. 

 

E isto nem sequer é um exclusivo do cristianismo. Vejamos a mutilação genital feminina, que afeta 200 milhões de mulheres e meninas no mundo inteiro.

 

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Admito que não sou a melhor pessoa para escrever sobre libertação sexual ou mesmo sobre sexo, ponto. Em todo o caso, na minha opinião, no que toca ao erótico, o importante é haver respeito, consentimento das partes envolvidas e maturidade para lidar com as consequências – sejam elas biológicas (gravidez no caso de pénis-em-vagina, doenças sexualmente transmissíveis, etc) ou emocionais.

 

Sudden Desire parece, aliás, falar sobre isso: sobre o desejo físico e sobre o medo das consequências emocionais. Hayley começou a namorar com o, agora, ex-marido quando tinha dezoito ou dezanove anos. Provavelmente foi o seu primeiro parceiro sexual, ou um dos primeiros. Como se sabe agora, essa relação não era das mais saudáveis e Hayley admitiu, sem dar pormenores, que isso afetou a maneira como olhava para o seu corpo, para os seus desejos.

 

Depois do divórcio, Hayley chegou a achar que ficaria celibatária até ao fim dos seus dias. No entanto, o seu corpo continuava a ter necessidades. Ela conheceu alguém, desejava-o – o que, ao mesmo tempo, excitava-a e aterrorizava-a porque, da última vez que se envolvera sexualmente com alguém, queimara-se. 

 

A linguagem que Hayley usa é particularmente violenta: "Your fingerprints on my skin, a painful reminder" 

 

A letra usa um elefante como metáfora. Confesso que, da primeira vez que a ouvi falar de segurar um elegante com a mão, passou-me pela cabeça uma imagem mais… explícita. No entanto, deverá ser uma metáfora para a luxúria em geral. 

 

É interessante o facto de Hayley não se referir à sexualidade como uma serpente, como na mitologia judaico-cristã, com como um qualquer animal selvagem, feroz. Em vez disso descreve-a como um gigante gentil, amigável, sem malícia, que não sabe a força que tem. Da mesma forma, fala de andar de mãos dadas com ele, ouvir o que ele tem para dizer, em vez de reprimi-lo por completo ou de ser dominada por ele (“Better to walk beside it than underneath”).

 

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Gosto imenso desta música, tanto pela sonoridade como pela forma diferente como fala sobre sexualidade.

 

Sudden Desire encerra a primeira parte de Petals For Armor. Como referido acima, o elemento que representa esta secção é o fogo. Simmer e Sudden Desire são óbvias – o fogo é uma metáfora comum para raiva e desejo sexual. Em relação a Cinnamon, canela, a especiaria que dá o título à música, se ingerida durante o tempo frio, produz uma sensação de calor (embora também produza o efeito contrário: induzindo uma sensação de frescura durante o tempo quente). No que toca a Creepin’, que fala sobre vampiros de energia e usa metáforas vampirescas, o sol é uma conhecida fraqueza dos vampiros. Mesmo o próprio fogo pode ser usado contra vampiros nalguns cânones.

 

Por hoje ficamos por aqui. Acho que faz sentido fazermos a divisão da análise coincidindo com a divisão oficial do álbum. Hoje foi a primeira parte, amanhã será a segunda e, no domingo, a terceira.

 

Acabo de me aperceber que se completam hoje oito anos desde que estreei este blogue. Oito anos.... Eu sabia que já tinha começado há algum tempo mas oito anos... 

 

Muito orgulhosa do que tenho feito até agora com este blogue. Calha bem estar a publicar a primeira parte desta análise hoje – um texto que andava a preparar há semanas, que ansiava partilhar com vocês desde fevereiro ou março. 

 

Fica aqui uma palavra de agradecimento pelo vosso apoio e companhia ao longo destes anos. Quero continuar a publicar bons textos neste blogue, mesmo que estes demorem um bocado. A muitos anos de blogue! Amanhã há mais!

 

Músicas Não Tão Ao Calhas – Simmer & Leave it Alone

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No passado dia 22 de Janeiro, Hayley Williams, vocalista dos Paramore, lançou Simmer, o primeiro single do seu projeto lateral a solo, o álbum Petals For Armor. Pouco mais de uma semana depois, no dia 30, lançou o segundo single Leave it Alone.

 

Simmer saiu exatamente sete anos depois do lançamento de Now, o primeiro single do álbum Self-titled, o quarto dos Paramore. Não sei se foi intencional ou se foi mera coincidência. Em todo o caso, à semelhança de muitos fãs, eu adorei o pormenor. 

 

No meu caso foi extra especial porque Now foi a primeira Música Não Tão Ao Calhas – uma rubrica deste blogue onde, como sabem, analisamos canções recém-lançadas dos artistas do meu nicho. Na maioria das vezes, são primeiros singles de álbuns novos. 

 

No caso de Hayley Williams, este é o terceiro primeiro single que analisamos nesta rubrica. Os primeiros dois – Now e Hard Times – foram assinados pela banda Paramore. Simmer é o primeiro sob do nome Hayley Williams. 

 

No entanto, mesmo quando integrada nos Paramore, é Hayley quem escreve as letras, inspirada pelas suas próprias experiências. Ao mesmo tempo, apesar de este ser oficialmente um projeto a solo, Taylor York, guitarrista e co-compositor dos Paramore, colaborou com Hayley em Petals For Armor. Não tenho a certeza absoluta de que Zac Farro, o baterista dos Paramore, também tenha colaborado neste projeto, mas é possível. 

 

Tendo tudo isto em conta, na minha mente, Petals For Armor faz parte do mesmo cânone que os álbuns da banda. São capítulos da mesma história. E não sei se isso acontece com outros fãs dos Paramore, mas a história contada na música deles acaba por ser um espelho da minha. Aprendo lições de vida com ela. Se isso acontece por projeções minhas ou porque, de facto, o nosso mundo não é assim tão grande e acabamos todos por passar mais ou menos pelo mesmo, não sei. Mas é o que sinto há anos. 

 

À semelhança do que aconteceu com Hard Times, antes de podermos falar sobre Simmer, temos de falar sobre... bem, como chegámos aqui. 

 

 

A era de After Laughter terminou em setembro de 2018. Desde essa altura, os Paramore poucos sinais de vida deram. A partir de certa altura, os fãs começaram a ficar impacientes, mas eu estava tranquila. No que toca a esta banda, “no news is good news”. Tudo o que não seja a perda de membros é bom. No caso de isso acontecer (algo que achava pouco provável, mas já me enganei antes a este respeito), eles avisavam-nos. 

 

Entretanto, que os deixassem desfrutar da paz e estabilidade que não tiveram durante muito tempo. Hayley em particular.

 

Conforme comentámos na altura, nos anos anteriores a After Laughter, a vocalista dos Paramore passou por… bem, vou voltar a usar o trocadilho, tempos difíceis. Tempos esses que coincidiram com o início da era. Com o passar do tempo depois do lançamento do álbum, o estado psicológico de Hayley melhoraria. No entanto, a jovem só teve oportunidade para trabalhar nos assuntos mal resolvidos que acumulara ao regressar a casa, depois de encerrar o ciclo de AL.

 

No verão de 2017, Hayley anunciou o divórcio de Chad Gilbert, dos New Found Glory. Durante muito tempo, a jovem não disse nada sobre esse assunto em particular, tirando uma pista ou outra. 

 

Não que tivesse a obrigação de fazê-lo, como é evidente. Se Hayley tivesse mantido o silêncio sobre o assunto até agora, estava no seu direito. 

 

No entanto, em março do ano passado, a jovem deu uma extensa entrevista à revista online L’Odet dando alguns pormenores. Nomeadamente que ignorou instintos e sinais de alerta praticamente desde o início da relação (que ainda durou quase uma década), que mesmo no dia do casamento se sentia mal no vestido de noiva, que nunca chegou a passar pelo período de lua-de-mel. 

 

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Ainda antes do anúncio da separação, quando Hayley revelou pela primeira vez que se fora abaixo depois de Jeremy ter saído da banda, eu já tinha achado estranho ela ter-se casado quando supostamente estava com sintomas de depressão. Por algum motivo se diz para não se tomar decisões importantes quando sentimos emoções fortes. Não me surpreendeu descobrir que Hayley se casou ignorando os seus instintos.

 

É uma entrevista muito interessante, recomendo. Hayley fala sobre coisas que, tanto quanto sei, nunca falara antes, pelo menos não desta forma. Sobre, por exemplo, crescer com pais divorciados – algo que eu, filha de um casal estável e feliz há mais de trinta anos, nunca tive de experienciar. 

 

A parte que mais me impressionou, pela negativa, foi quando Hayley descreveu os tempos imediatamente a seguir à separação – que coincidiram com o início do ciclo de After Laughter. Nesta altura, por motivos que não foram bem explicados, Hayley estava a viver numa casa infestada com… morcegos.

 

Morcegos! Fucking morcegos! E uma espécie de carraças de morcegos. Eu não queria acreditar, ainda não acredito. Eu preferia viver no meu carro. Valha-me Deus, eu quase preferia viver na rua!

 

Porque é que Taylor, Zac, Brian e as outras pessoas na vida de Hayley a deixaram viver assim? Sem lhe oferecerem um sofá em casa deles ou algo do género. É certo que só conheço a parte que Hayley contou da história. Quero assumir que, a certa altura, os outros tenham intervindo e tirado Hayley daquela casa – se a jovem não tiver decidido fazê-lo por si mesma. 

 

 

Agora vejo que este deve ter sido um dos maiores sintomas de depressão que Hayley manifestou, tanto quanto sei. Ninguém psicologicamente saudável vive numa casa com morcegos quando tem dinheiro para, no mínimo, contratar uma empresa para se livrar da infestação. Depois de falar disto, referir ideação suicida é quase redundante.

 

Ainda assim, não consigo deixar de pensar que estive perto de perder duas das minhas pessoas preferidas do mundo da música por suicídio. Perder Chester já foi difícil que chegue. Perder Hayley – que, ainda por cima, em Leave it Alone fala de brincar com uma forca – possivelmente no mesmo ano, da mesma forma, seria insuportável.

 

Além de que existem imensas pessoas que eu sei que nunca recuperariam – amigos próximos dela e também fãs. E com o histórico da banda nos anos anteriores... Não! Não de todo! Nem quero pensar mais nisso.

 

O que interessa é que Hayley sobreviveu e parece mais feliz, agora. Como referi antes, a jovem tem passado o último ano e meio lidando com as questões que a abateram no passado. Tem andado em acompanhamento psicológico intensivo e outros tratamentos, alguns convencionais, outros menos. Como por exemplo uma espécie de massagista craniosacral.

 

Foi durante uma sessão com ela que aconteceu algo especial. Citando a entrevista a L’Odet, “Tive uma visão de muitas flores nascendo do meu corpo. O meu lado cínico interpretou-o como ‘Bem, a única maneira de isso acontecer é se morreres, estiveres enterrada e alguém lá tiver colocado flores bonitas’”.

 

Uma pausa só para dizer… credo! Sonha com flores e isto é a primeira coisa que lhe vem à cabeça? Ela bem tinha avisado sobre a sua mente, em Rose Colored Boy… 

 

 

Enfim, continuando…

 

Mas depois este novo lado a que nunca tinha acedido apareceu, afastou-o e disse: ‘Não. Isto és tu. Isto é o agora. É o que está a acontecer agora e é à volta disto que tens estado a escavar neste último ano. Esta beleza e feminilidade e nova força que vai sair de ti.’ E escolhi agarrar-me a isso.

 

(...) Desde essa altura tenho colhido imensas flores para a minha casa. Mantenho-as junto a mim para me recordarem que estou a avançar para feminilidade e força e depois feminilidade e solidão o poder de ser auto-suficiente mas também de ser suave e aberta.”

 

Poucos dias após Hayley anunciar que ia embarcar num projeto, numa altura em que a expressão Petals For Armor andava a circular entre os fãs mas ainda não tivera confirmação oficial, calhou reler esta entrevista. Esta parte chamou-me a atenção. Seria daqui que viria o suposto nome do projeto lateral? 

 

Em entrevista à BBC, Hayley confirmou as origens do nome Petals For Armor, voltando a falar da mesma visão. “Apercebi-me naquele momento que havia muito a tentar crescer de dentro para fora de mim e que isso ia doer. E acho que, para mim, é uma espécie de filosofia de vida tentar ser suave num mundo mesmo mesmo duro. Sentir dor, sentir tudo, deixar tudo vir e deitar para fora algo que possa redimir de isso tudo, mesmo que de início seja feio.”

 

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“(...) Eu sentia que a melhor maneira de me proteger era ser vulnerável e aceitar sentir imensa dor certas vezes e sentir imensa alegria certas vezes. Enquanto me mantiver suave e aberta para deixar estas coisas entrar e sair de mim conseguirei sobreviver mais facilmente ao mundo, em vez de me manter dura e sempre de punhos em riste.”

 

Ora, quem tiver acompanhado o meu blogue nos últimos tempos há de notar algo de familiar neste discurso. Foi mais ou menos o mesmo que escrevi quando analisei Ruki, de Digimon Tamers, comparando-a com personagens de outras histórias, como Emma Swan e Temperance Brennan, também conhecida por Bones

 

Lembram-se da diferença entre ser-se forte e ser-se impermeável? Uma substância impermeável repele todo o tipo de agressões, sem se atingir por elas. Uma substância forte sofre agressões, mas não se deixa destruir por elas. Pessoas impermeáveis, que constroem muros à sua volta e se fecham às emoções até podem conseguir evitar o sofrimento a curto prazo. Mas esses muros também bloqueiam emoções boas, como amor e alegria. 

 

Também me recorda uma das melhores cenas de Anatomia de Grey – a única cena que redime o infame episódio duplo que se segue à morte de Derek. À semelhança do que Hayley admite fazer, Amelia passou toda a sua vida recalcando os seus sentimentos, muitas vezes com a ajuda de drogas. 

 

Nesta cena, Owen faz-lhe ver que ninguém consegue viver assim. A única maneira de sobreviver é permitirmo-nos sentir a dor para depois arrumá-la a um canto; sermos destruídos e reconstruirmo-nos de novo. 

 

 

Para Amelia, como dá para ver no vídeo, de início foi feio, tal como Hayley disse. Feio, doloroso, mas necessário. 

 

Suponho que tenha sido mais ou menos essa a lição que Hayley aprendeu. A ser forte em vez de impermeável. A proteger-se com pétalas em vez de punhos. A jovem admite que tem a tendência de recalcar as suas emoções, de negar o que está a sentir. Se calhar, se estivesse mais em contacto com os seus sentimentos, não se teria casado e teria evitado muito sofrimento.

 

Pode-se argumentar que After Laughter enquanto álbum defende a filosofia de negar sentimentos. Canções como Rose Colored Boy e Fake Happy falam sobre colar sorrisos no rosto, escondendo a infelicidade que se sente. Mesmo o facto de a maior parte das canções ter instrumentais e melodias alegres e letras deprimentes. 

 

Então Hayley começou a lidar mais ativamente com as suas emoções. Como uma das melhores maneiras que ela possui para isso é escrevendo e compondo, começou a criar música. De início foi só para si mesma, sem expectativas ou compromissos. 

 

Só quando já contava meia dúzia de faixas é que percebeu que havia ali qualquer coisa. Taylor em particular encorajou-a a tornar aquilo oficial, em investir a sério no projeto.

 

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E puff! Fez-se o Chocapic Petals For Armor.

 

Por ocasião do seu trigésimo-primeiro aniversário, Hayley largou a bomba numa mensagem publicada nas redes sociais: em janeiro iria lançar música a solo, que criara “com a ajuda de alguns dos seus amigos mais íntimos”.

 

Como seria mais ou menos de esperar, uma parte da comunidade de fãs entrou em pânico. Depois de tudo por que a banda passou, este era o pior pesadelo de muita gente. 

 

Eu, no entanto, nunca acreditei que Hayley se tivesse “vendido” nem que isto significasse o fim dos Paramore enquanto banda – até porque, poucas semanas antes, a banda tinha publicado uma espécie de renovação de votos. 

 

Além disso, Zac lançou o EP The Velvet Face, do seu projeto Half Noise, praticamente em paralelo com After Laughter. Nem Hayley nem Taylor pareceram ter problemas com isso. Pelo contrário, apoiaram desde início, chegaram mesmo a tocar músicas como French Class (uma canção que tenho ouvido algumas vezes nos últimos tempos) em concertos. 

 

Porque não haveriam Zac e Taylor de fazer o mesmo com Petals For Armor? Eu quero, aliás, acreditar que as novelas nos Paramore ficaram na década passada. Que os anos 20 sejam de paz e estabilidade.

 

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Em todo o caso, a maior parte das reservas das pessoas desapareceram depois de Simmer ser lançada. Em parte porque Hayley revelou que o projeto teve a bênção e mesmo a colaboração de Taylor e Zac, em parte porque… tanto Simmer como Leave it Alone são boas músicas.

 

E depois de duas mil palavras só para dar contexto (não tenho remédio), vamos finalmente falar sobre elas. 

 

Simmer começa com um som que faz lembrar um alarme de perigo, que se mantém no fundo durante uma boa parte da faixa. Também se ouvem uns suspiros que funcionam como imagem de marca da canção. 

 

Confesso que demorei a habituar-me a eles. Ainda agora não posso dizer que adore essas partes. Parecem orgasmos ou alguém a morrer. Acho que a intenção era mesmo desconcertar. Ou simbolizar a acumulação e libertação de tensão. 

 

Entretanto, entra a bateria e o baixo, com os sintetizadores discretos no fundo, que se mantém durante as estâncias. No refrão ouve-se uma guitarra elétrica, mas sempre sem assoberbar.

 

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É uma instrumentação bastante minimalista, virando os holofotes para os vocais controlados de Hayley. É um híbrido estranho entre Billie Eilish e o rock de After Laughter, mais baseado em riffs de guitarra do que em acordes pesados.

 

Há quem diga que este é um som completamente diferente daquilo que estamos habituados da parte dos Paramore. No que toca a Leave it Alone talvez, como veremos adiante. Com Simmer, nem por isso, na minha opinião. A mim soa-me a uma evolução natural do estilo de After Laughter, como vimos no parágrafo acima. Não me parece radicalmente diferente de, por exemplo, Idle Worship ou No Friend. 

 

A diferença é que o som de After Laughter é mais pop, mais luminoso, influenciado pelos anos 80. Tanto Simmer como Leave it Alone não douram a pílula, são tão sombrias e cruas como as letras.

 

A de Simmer, então, fala sobre raiva e as dificuldades em contê-la. Segundo a lógica daquilo que falámos acima… não sei muito bem onde é que esta canção se encaixa. Se na, vamos chamar-lhe, “filosofia velha” dos punhos em riste, ou na, vamos chamar-lhe, “filosofia nova”, das pétalas como armadura.

 

Suponho que, para quem viva sempre com muros erguidos à sua volta, a raiva será a única emoção que se permitem sentir. Porque serve de proteção, para manter as pessoas afastadas. Porque muitas vezes é exprimida para disfarçar outras emoções, como medo ou dor. Isso acontece muito em homens que vivem sob as expectativas do patriarcado – que considera a ira a única emoção aceitável no género masculino. 

 

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Há que relembrar, no entanto, que não é por acaso que a ira é considerada um pecado mortal no cânone cristão. Se não for controlada, a raiva é extremamente destrutiva – não é preciso fornecer exemplos.

 

Por outro lado, também se poderia encaixar na filosofia nova. Mesmo tendo em conta todos os aspetos negativos, a raiva não deixa de ser uma emoção. Uma das emoções que, se calhar, Hayley recalcou. Quase toda a gente concorda que reprimir a raiva por completo não é saudável. A longo prazo poderá ser mesmo pior a emenda do soneto.

 

Além de que, se for usada corretamente, em doses terapêuticas, a raiva pode ser um catalisador. Pode dar coragem para mudar uma situação desfavorável. 

 

Voltando a questão do género, não é por acaso que um dos objetivos dos movimentos feministas nos últimos anos (pelo menos nos Estados Unidos) tem sido reclamar o direito das mulheres à raiva. Afinal de contas, a ira é um pecado mais facilmente perdoado no homem que na mulher (não me olhem assim, vocês sabem que é verdade). Uma mulher zangada recebe logo o rótulo de histérica ou de está-com-o-período. Ao patriarcado interessa manter as mulheres submissas e complacentes.

 

Isto tudo para dizer que a raiva tem vantagens e desvantagens, como muitas coisas na vida. Hayley revelou que a ideia inicial para a letra de Simmer era fazer uma reflexão geral sobre a ira. No entanto, na segunda estância acabou por entrar em territórios mais específicos, admitindo que sentiu dificuldades em gravá-la.

 

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Dá para ouvir. Os versos são cantados mais baixos que o resto da canção – não consegui ouvi-los bem da primeira vez. Há uma frase que é deixada incompleta. Como se, de facto, Hayley não se atrevesse a dizê-lo em voz alta, sem filtros.

 

Gostava de tirar alguns parágrafos para olhar para estes versos. Antes de prosseguir, no entanto, quero deixar bem claro que isto é um mero exercício de especulação – duvido que Hayley algum dia confirme ou desminta estas interpretações. É provável que estes versos tenham sido inspirados pelo amplamente comentado acima casamento falhado. Não dá para ter certezas absolutas, lá está, mas acho que todos concordam. 

 

Comecemos por “If I had seen my reflection as something more precious he would’ve never…”. É outra vez a questão dos morcegos. Da mesma maneira como Hayley teria evitado aquela casa se tivesse mais consideração por si mesma, se tivesse a sua auto-estima em níveis normais, não teria prolongado tanto uma relação que não era a adequada.

 

Não quero com isto comparar o ex de Hayley a morcegos… mas se calhar até quero comparar o ex de Hayley a morcegos (se os rumores que li por aí são verdadeiros, ele merece).

 

Faz lembrar a citação do filme As Vantagens de Ser Invisível: “aceitamos o amor que achamos que merecemos”.

 

Os versos que se seguem são particularmente chocantes: “If my child needed protection from a fucker like that man, I’d sooner gut him”. Deixando de parte as tendências homicidas, faz-me lembrar respostas no site Quora escritas por vítimas de relações abusivas (quer por companheiros, quer por familiares). Quando eram só eles(as), aguentavam – achavam que mereciam, até certo ponto. No entanto, quando tiveram filhos, perceberam que não queriam que estes vivessem o mesmo.

 

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Pergunto-me se foi assim que Hayley descobriu que a culpa não era só sua por a relação não ter resultado. Imaginando um filho seu ou, pura e simplesmente, um amigo ou familiar passando pelo mesmo que ela passou, finalmente percebendo que não, ninguém merece aquilo.

 

Há que ter em atenção que estes versos podem não ser cem por cento factuais. Em parte porque, em linha com o tema de Simmer, podem ter sido escritos sob influência da raiva. Além de que estamos apenas a ouvir a versão de Hayley da história.

 

Em todo o caso, a terceira parte da canção apela-nos a, lá está, usarmos pétalas como armadura. Neste contexto, penso que significa que a misericórdia é mais desejável que a raiva – respondendo à pergunta do refrão.

 

Não posso deixar de falar sobre o videoclipe. Começando pelo elefante na sala: Hayley está nua. Mais do que isso, existe algo de cru e visceral na aparência dela. Não usa maquilhagem – ou então tem uma maquilhagem de cara lavada muito convincente – e a iluminação enche o seu rosto de sombras, dando-lhe um ar ligeiramente demoníaco. 

 

A breve cena em que o rosto de Hayley surge sob uma luz vermelha parece representar uma personificação da raiva homicida descrita na letra – a cara interior que está mesmo debaixo da pele. O vídeo, de resto, recorre muito a luzes vermelhas para simbolizar essa ira.

 

 

Mesmo depois de já terem saído duas sequelas a este videoclipe (um interlúdio e o vídeo de Leave it Alone) não parece existir consenso sobre quem é ao certo a figura encapuçada que persegue Hayley – que tem o mesmo rosto que ela. Na minha opinião, é uma personificação do passado de Hayley. A Hayley do presente está em claro modo de fuga ou luta, medo ou raiva. De início foge, mas depois cobre-se de barro para lutar – derrotando a Hayley do passado. 

 

No vídeo de interlúdio, a Hayley-coberta-de-barro aparece com uma expressão clara de “Meu Deus, que fiz eu?”. Agora, em vez de medo ou raiva, reage com compaixão – arrasta o corpo inconsciente da Hayley-do-passado para outra divisão e toma-a nos seus braços. 

 

Não são necessários muitos dedos de testa para compreender o significado: ser-se gentil para consigo mesma, perdoar-se a si mesma. Segundo Hayley, esta foi outra das lições que teve de aprender no último ano e meio – suponho que seja um dos temas de Petals For Armor (mesmo já tendo falado sobre isso de passagem, a propósito de 26).

 

O resto do vídeo mostra a Hayley-do-passado e a Hayley-coberta-de-barro sendo envolvidas num casulo – uma cena um bocadinho sinistra na minha opinião. No fim, vemos uma Hayley diferente abrindo os olhos. Uma Hayley com o rosto coberto de pétalas.

 

O que nos leva a Leave it Alone – que foi lançada no dia 30, quase sem aviso, sem sequer sabermos o nome da música até esta ser lançada.

 

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Da primeira vez que ouvi Leave It Alone não reconheci a voz de Hayley. Não me lembro de alguma vez a ter ouvido cantando desta forma, num tom tão grave. Agora que já a ouvi várias vezes consigo perceber que é mesmo ela – mesmo assim é algo diferente.

 

Instrumentalmente, Leave it Alone é ainda mais minimalista que Simmer. Hayley compô-la com Joey Howard, baixista acompanhante dos Paramore (que também ajudou a compor Simmer), apenas com um baixo e uma caixa de ritmos (foi uma das primeiras a ser composta para Petals For Armor). No outro dia, Joey partilhou o ficheiro de áudio da primeira gravação da música. A versão final não possui muitos mais instrumentos que esta. Para além do baixo e da bateria, só um violoncelo, uns violinos, umas notas de órgão e pouco mais. 

 

Mais uma vez, esta é uma faixa que combina géneros. A mim soa-me a uma mistura de Lana del Rey com indie rock. Algo que serviria de música de fundo a um clube noturno retro, de algures entre os anos 20 e 30. Muitos fãs dizem que parece Radiohead – como conheço mal a banda, vou acreditar neles.

 

Em relação à letra… bem, é pesada. A primeira estância resume-se a “Agora que recuperei a vontade de viver, está toda a gente a morrer à minha volta”.

 

Como se isto não chegasse em termos de ironia, a própria música tira a vontade de viver. Mas estou a adiantar-me.

 

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A segunda estância começa com “You don’t remember my name somedays or that we’re related”. Aponta logo para um familiar com demência. Não surpreendeu, assim, quando poucas horas depois apareceram declarações de Hayley na Internet, revelando que a letra fora inspirada pelo menos em parte por um acidente com a sua avó. Há pouco mais de um ano, a senhora sofreu uma queda, bateu com a cabeça, e desde essa altura começou a sofrer de demência.

 

Pois eu sei o que isso é. Há poucos meses enterrámos o meu avô, depois de ter passado os últimos anos da sua vida sem as faculdades todas (já tinha mais de noventa anos). Ele nunca deixou de me reconhecer como alguém de quem ele gostava mas, lá está, não se lembrava do meu nome nem de que eu era a sua neta. E, segundo a minha avó, depois de eu sair, já não se lembrava de eu ter lá estado.

 

Muitos fãs têm revelado histórias semelhantes a propósito desta música, algumas bem piores. Não é fácil.

 

Leave it Alone é mesmo sobre isso: luto, morte. No caso de Hayley, o acidente com a sua avó aconteceu na pior altura possível – quando estava empenhada em tratar da sua saúde mental. Consta que outras pessoas na vida dela, amigos da família, foram morrendo na mesma altura – da minha experiência, estas coisas acontecem todas ao mesmo tempo, sem cerimónias. 

 

Toda a gente sabe como é perder entes queridos – ou irá descobri-lo mais cedo ou mais tarde. Hayley a certa altura interroga-se se faz sentido amar quando mesmo na melhor das hipóteses um dia a outra pessoa morre. Ou então morremos nós e as pessoas que amamos ficam obrigadas a lidar com tal perda.

 

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Pela parte que me toca, acho preferível amar e mais tarde perder do que não amar de todo. Ficam sempre as recordações, aquele calor no coração de que fala Everglow dos Coldplay. 

 

Além disso, gosto de acreditar que, depois de morrermos, reencontrar-nos-emos todos de uma forma ou de outra, no outro lado. Gosto de acreditar que o meu avô foi pôr a conversa em dia com os meus avós maternos, que morreram antes dele. Que poderemos ver Eusébio jogando com Luís Figo e Cristiano Ronaldo (se já tiverem morrido nessa altura) como se estivessem todos na casa dos vinte. Que quando Mike, Phoenix, Rob e os restantes membros dos Linkin Park morrerem (daqui a várias décadas, espero bem), Chester chamá-los-á para partilharem o palco de novo.

 

Mas estou a desviar-me um bocado.

 

Na terceira parte de Leave it Alone, Hayley aconselha o ouvinte a deixar o amor entrar na sua vida, mas que tenha noção de que não será para sempre. Que esteja preparado para isso.

 

Não há muito a dizer sobre o videoclipe de Leave it Alone. Hayley encontra-se na fase do casulo. Este está a querer abrir, mas a ideia com que fico é que ela ainda não está preparada para sair, pelo menos não por completo.

 

 

Adoro o visual dela no casulo, a maquilhagem com as pétalas. Mas acho que invejo mais o vestido que ela usa na floresta, com a capa azul.

 

E pronto. Foram Simmer e Leave it Alone, a primeira degustação de Petals For Armor. Se estas músicas forem uma amostra representativa, este vai ser um álbum que nos arrasará emocionalmente. A ver se nos preparamos para isso.

 

Ambas as músicas são muito boas, únicas, cruas, poderosas (toma nota, Avril!). No entanto, se tivesse de escolher entre as duas, prefiro Simmer. Não porque ache que seja a melhor música, mais porque… Leave it Alone é um tudo nada demasiado triste para mim. É pesada emocionalmente, deita uma pessoa abaixo. 

 

Não quer dizer que não goste, longe disso. No entanto, por exemplo, enquanto escrevia este texto estive a ouvir Leave it Alone em repetição. Acidentalmente passei-a à frente, para uma música bem mais alegre, e senti-me logo aliviada.

 

Eu compreendo que Hayley não queira dourar a pílula para nós, queira ser honesta, crua, mesmo implacável. Como vimos acima, estas são as partes feias da “filosofia nova”, de deitar muros abaixo e processar emoções.

 

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Dito isto, aqui entre nós que ninguém nos ouve (ou lê), espero que não demore muito até chegarmos às partes bonitas (ou pelo menos menos feias). 

 

Petals for Amor será editado a 8 de maio. Hayley já afirmou que quer ir em digressão para promover este álbum, mas ao que parece ainda está tudo em fase de planeamento. Em relação aos Paramore, por agora, estes continuarão em águas de bacalhau. Segundo o que Hayley deu a entender, quando este ciclo estiver concluído e estiverem na disposição para isso, a banda gravará um novo álbum. 

 

Por outras palavras, os Paramore estão em pausa, mas ainda estão longe de terminar.

 

Por mim tudo bem, não tenho pressa agora que vamos ter Petals For Armor. Obrigada por lerem este looooongo testamento sobre um par de músicas. Continuem por aí.

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